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flávio guerra 
História de 
Pernambuco 
3.a EDIÇÃO 
EDITORA RAIZ LTDA. 
RECIFE 
1984 
GUERRA, FLAVIO 
História de Pernambuco — 3a. edição 
Apresentação: Editores 
Recife — Editora Raiz Ltda. — 1984 
(Convênio com a SEC-PE) 
188 páginas — 21 Ilustrações 
1 — Pernambuco — História — 2 — Brasil — História —
Geral 
081.338 (CDD) 
Apresentação 
Fj9TA nova edição da «História de Pernambuco», de Flávio Guerra, é 
uma obrigação que se impõe ao Estado, principalmente quando se procu-
ra hoje levar aos estudantes do 2.° grau em diante (atingindo até a faixa 
universitária) o conhecimento específico e seguro da historiografia pernam-
bucana. 
Essa condição implica na necessidade de se conduzir essa história 
tão agitada, tão dispersa, tão pouco conhecida uniformemente, para den-
tro do próprio arcabouço da História Contemporânea, e torná-la acessível 
aos estudantes dos níveis médio e superior. 
E isso conseguiu atingir o historiador Flávio Guerra, relatando os 
fatos com um raro poder de síntese, cede não faltam as doses analíticas 
e os comentários paralelos, tudo escritc na mais moderna técnica literá-
ria de comunicação. São mais de quatro séculos de cronologia histórica 
(Da viagem de Gaspar Lemos em 1503, até a posse do governador Cid 
Sampaio em 1959) que desfilam bem esclarecidos nos capítulos deste livro 
de apenas 188 páginas, ensinando e transmitindo, com notável poder de 
condensação, a mais pura história pernambucana. 
Alguém já afirmou que a «História não se contenta com a histologia. 
Não lhe bastam a formação e a disposição dos tecidos orgânicos. Estuda 
também a força fisiológica donde irradia». E o acadêmico Antônio Corrêa 
de Oliveira acrescenta: °É preciso saber sempre as causas primárias, as 
origens. E Flávio Guerra tem essa preocupação. Pesquisa e pesquisa mui-
to. Paciência franciscana, consultando vasto documentário aqui e alhures. 
Os Códices lhe são familiares e muitos tornaram-se conhecidos por inicia-
tiva sua. É portanto um grande entre nós!» 
E o mestre Alfredo Carlos Schmalz conclui dizendo que «contar his-
tória é incumbência quase religiosa, exercida como magistério sagrado. E 
o autor deste livro faz isto com engenho e arte». 
7 
A Editora RAIZ Ltda., em Convênio com a Secretaria de Educação 
do Estado de Pernambuco, tomou esta iniciativa: divulgar para o mundo es-
tudantil e o próprio mestrado este livro dos mais respeitáveis sobre a nos-
sa terra. 
RECIFE, JANEIRO DE 1984 
OS EDITORES 
Descoberta 
A HUMANIDADE deve inegavelmente à Península Ibérica o 
grande sucesso do devassamento dos mares, que caracterizou 
nos fins do século XV o grande ciclo das navegações, cuja epo-
péia foi o desvendamento da América e da índia. 
No mesmo decênio em que a persistência de Colombo 
acabara de abalar a Espanha e o próprio mundo, esclarecendo 
os caminhos para as regiões ignoradas do Ocidente, a intrepi-
dez de Vasco da Gama, obedecendo às determinações de D. 
Manuel, carreava para Portugal as riquezas dos países miste-
riosos do Oriente, determinando a franca navegabilidade para 
lá. 
Um e outro, no dizer de Oliveira Lima, "abriram novo e 
ficante campo ao espírito religioso e ao estímulo comercial da 
Meia Idade, e forneceram um quadro majestoso ao soberbo de-
sabrochar da época inimitável da Renascença". Enquanto Co-
lombo engrandecia os espanhóis, fazendo surgir o Novo Mun-
do, Vasco da Gama levava a Cruz de Cristo às índias, empol-
gando o destino português. 
Estava descerrado o cenário para as futuras incursões, 
rumo a novas descobertas, e, surgindo o novo século, despe-
jaram os ibéricos novas naus pelos mares afora, em busca de 
outras terras, numa efervescente atividade marítima. Já se ha-
via dominado o velho "Mar Tenebroso", como chamavam, cheio 
de lendas e fantasmagorias. E o Brasil foi então, quase que si-
multaneamente descoberto em 1500, pelos espanhóis Vicente 
Parlez Pinzon, Diego de Leppe e pelo português Pedro Alvares 
Cabral. 
Enquanto o último, dentro do plano traçado por D. Ma-
nuel, que entusiasmado com os sucessos de Vasco da Gama 
8 9 
lhe mandara entregar uma poderosa frota, para firmar definiti-
vamente a conquista dos caminhos marítimos, saíra pelo Ocea-
no afora com a alma cheia de esperança, o primeiro, que sem-
pre se sentira atraído pelas costas do Novo Mundo, desde quan-
do, comandando a caravela Nifia acompanhara a Cristóvão Co-
lombo em 1492, e tendo-se aperfeiçoado durante sete anos no 
estudo das novas rotas marítimas, largara do porto de Palos, 
em novembro de 1499, com uma armada aparelhada às suas 
custas, para ir em busca de novas terras, conforme permissão 
que lhe dera o rei da Espanha. 
Havendo rumado pelas Canárias, até o Cabo Verde, de-
pois de ter aportado alguns dias na ilha de Santiago, foi a fro-
ta de Pinzon acossada por fortes ventos sudeste, passando a 
navegar algum tempo rumo S.S.O., até cruzar a linha do Equa-
dor, sendo aquele navegador, no dizer de Herrera, "o primeiro 
espanhol que passou essa linha e perdeu de vista a estrela do 
Norte". 
Naquela altura do mar desconhecido, para além do Equa- 
dor estranho, começou a armada a navegar às tontas, sob a 
ação ora das tormentas, ora de um insuportável calor equato- 
riano, numa busca angustiosa da estrela polar que fugira das 
suas vistas. 
Notando que o mar cada vez mais ameaçava tornar-se 
perigoso, mandou o piloto espanhol que se dirigissem as proas 
das embarcações para o oeste, e deixou-se levar pela corrente-
za "durante cerca de 240 léguas", até alcançar 8° de latitude 
austral, quando, de bordo de uma das caravelas, ouviu-se um 
grito triunfal de: Terra à Vista! Tinham à frente, "um promon-
tório elevado, que deixava ver em seus flancos uma terra imen- 
sa, que se perdia de vista. Era Pernambuco!" 
A data desta descoberta ainda não está devidamente 
precisada, podendo-se, porém, determinar entre 20 de janeiro 
e 20 de fevereiro de 1500. Em fins do mês de abril do mesmo 
ano aportava Cabral no Monte Pascoal, descobrindo a outra 
parte do Brasil. 
O navegador espanhol chamou, então, a terra descober- 
ta de Santa Maria de La Consolación, num reconhecimento a 
essa invocação da Virgem Santa que amparara a armada, livran- 
do-a dos perigos que a atormentavam. 
Desceu e tratou de apurar a descoberta em minúcias. 
Procedeu, na companhia de escrivães régios, que o tinham acom-
panhado, um ato solene e jurídico de posse, em nome das co-
roas de Castela e Leão, gravando nomes e datas nas árvores 
e nos rochedos, e procurando, sem sucesso aliás, atrair os 
gentios, que se deixavam ver aos poucos, temerosos e espan-
tados. Eram índios em completa nudez, senhores de impressio-
nante físico, uns em terra pelas praias, outros aparecendo em 
canoas, por junto das embarcações espanholas. Não se ilu-
diam com as ofertas de colares, miçangas, guisos, espelhos, 
fitas, etc, que lhes eram feitas, e, a certa altura, principiaram 
a se agitar ameaçadores. 
Pinzon, mandou recolher várias provas materiais, inclu-
sive cerca de 350 quintais de pau-brasil, para justificar sua 
aventura perante as cortes espanholas, e fez-se ao largo rumo 
ao norte. 
Um mês depois dele ter saído de Palos, singrara, tam-
bém, um outro navegador espanhol, de nome Diego de Leppe, 
que tomou mais ou menos o seu itinerário, terminando por al-
cançar, igualmente, a costa de Santa Maria de La Consolación, 
observando-a de longe. Suas informações, de regresso a Ma-
dri, coincidiram perfeitamente com as que o seu colega hou-
vera trazido, havendo, então, a convicção geral de que as ter-
ras descobertas não eram apenas ilhas, e sim um grande con-
tinente. 
Mas, ao se observar cuidadosamente os elementos náu-
ticos colhidos, em face dos mapas então conhecidos, chegou-
se à conclusão que as descobertas estavam fora, bem longe 
mesmo, da rota das índias, e ficavam no lado oposto da Áfri-
ca, se precisando dentro dos limites portugueses da demarca-
ção aceita no Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494. 
Por isso deixou a corte espanhola de anunciar acaminhos das Minas Gerais, o devassamento 
bandeiras paulistas, ainda não tinham atingido o clímax, 
somente após o declínio da região norte-leste, ao término 
49 
Um dos periodos mais culminantes da História de Pernambuco foi o da invasão e 
domínio holandês (1630-1654). 
do domínio holandês, passou a empolgar, definir e entusiasmar 
economicamente. 
Em 1603 florescia mesmo promissoramente a agro-in-
dústria do açúcar em Pernambuco. Segundo relatórios holan-
deses (Jan Andries Moerbeeck), "desta terra do Brasil podem 
anualmente ser trazidas sessenta mil caixas de açúcar", e o 
mesmo relatório, depois de fazer estudos sobre a provável ren-
da das ditas caixas na Europa, concluía que em cada uma se 
poderia ter um lucro líquido certo de 38 florins. 
As relações entre Portugal e a Holanda, principiadas 
durante a Idade Média, foram incrementadas depois de devas-
sado o caminho das índias e da descoberta do Brasil, passan-
do, porém, a arrefecer quando Felipe II da Espanha, subindo 
ao trono em 1580, tornou-se na Europa um sustentáculo do ca-
tolicismo, passando a ameaçar o liberalismo religioso dos po-
vos do norte, principalmente os chamados Países Baixos, on-
de a Reforma Religiosa encontrara campo fácil. 
E com a junção de Portugal à Espanha, absorvendo a di-
nastia dos Aviz, alterou-se logo o quadro político da Europa, 
passando os inimigos de Castela a ser os de Portugal. 
Fecharam-se, então, os portos ibéricos à Holanda, e co-
meçaram os veleiros neerlandeses a ser confiscados, apare-
cendo como represália, a partir de 1595, as primeiras viagens 
corsárias custeadas pelos mercadores de Amsterdan, rumo ao 
Oceano Indico, às índias e ao Novo Mundo, cada vez mais cres-
cendo e ameaçando o comércio português. 
Reconhecendo Castela que não era conveniente aquele 
estado de coisas, propôs e foi Firmado em 1609 um tratado de 
tréguas por doze anos com a Holanda. Mas os mercadores e 
políticos dos Países Baixos já tinham mandado perlustrar de-
moradamente as costas do Brasil, explorando-as, colhendo in-
formações e chegando à conclusão do ótimo prato que seria 
para eles o Nordeste brasileiro. 
E na constância daquele armistício surgiu em 1621 a 
concretização da idéia da fundação de uma Companhia das ín-
dias Ocidentais, com o fim de explorar a qualquer preço os lu-
cros que se pudesse obter dos brasis. 
Em 1624 desferiu a Holanda o primeiro grande golpe, 
através daquela Companhia, que funcionava com a sigla W.I.C., 
contra o Brasil, quando prevaleceu a idéia de um ataque maci-
ço contra a Bahia. 
Bem sucedidos, dominaram a sede do Governo-Geral do 
Brasil durante quase um ano, sendo por fim expulsos por uma 
poderosa armada do almirante espanhol D. Fadrique Toledo, 
50 
com 52 naus de combate e cerca de 12.500 homens de desem-
barque. 
De Pernambuco, investido na cumulação dos governos 
geral e da capitania, Matias de Albuquerque nem de dia nem 
de noite se poupou ao trabalho de acudir os brasileiros da Ba-
hia, e manteve os invasores sob constante assédio, até a che-
gada das forças de D. Fadrique. 
Com a experiência colhida, os holandeses convenceram-
se do grande negócio que seria a conquista do Brasil. Os seus 
lucros durante aquele curto tempo tinham subido bem, e os 
cofres da W.I.C., já tinham livres para mais de 14 milhões de 
florins, enquanto as notícias e os relatórios sobre as possibi• 
lidadas de Pernambuco eram as mais tentadoras. 
E começaram a formular planos, despachando às ocul-
tas para as capitanias do Nordeste brasileiro, holandeses e ju-
deus, como simples mercadores, oficiais de profissão, etc., mas, 
na verdade, autênticos espiões e sabotadores da resistência. 
Na surdina o destino histórico de Pernambuco, arrastando o 
Nordeste no seu vórtice, estava sendo traçado, ante as pers-
pectivas dos acontecimentos de 1630, que modificaram inteira-
mente a feitura da composição colonial brasileira. 
Em fins de 1629, uma operação rápida praticada contra 
a ilha de Fernando de Noronha, possibilitara a instalação ali de 
um holandês chamado Corneliszoon Jol, por alcunha o Pé de 
Pau, que se aboletou para fornecer aguadas às embarcações 
flamengas, mantendo igualmente uma agricultura de subsistên-
cia, para supri-las, e onde ocupou negros e colonos portugue-
ses que ali viviam. 
Em meados de fevereiro de 1630, surgiu em frente ao 
Recife e Olinda uma maciça esquadra holandesa, comandada 
pelo veterano general Hendrick Corneliszoon Lonck, com pode-
rosas forças de infantaria e de desembarque sob as ordens de 
outro veterano das guerras flamengas, o general Diederich van 
Waerdenburch. Eram 70 navios grandes e quase 8.000 homens 
somente de guerra. 
Foi cruel e duro para os pernambucanos o primeiro im-
pacto, quase de pânico e desespero. Mas houve sempre sé-
ria resistência, a despeito da pesada artilharia dos batavos: 
precisa, calculada e arrazadora. 
A metrópole não tinha cuidado da defesa do litoral. A 
barra de Pernambuco era protegida apenas por 26 canhões, 
havendo em frente a Olinda uma simples bateria de 14 peças 
de pequeno calibre. A tropa era reduzida e mal paga. O que 
apenas sobrelevava era a atividade dinâmica de Matias de AI- 
52 
buquerque, que mesmo com tão escassas possibilidades se agi-
gantara no preparo da defesa, conseguindo nos primeiros ins-
tantes impressionar os invasores. 
A opulência pernambucana estava no seu auge, com a 
indústria açucareira em franca prosperidade, produzida por mais 
de cem engenhos espalhados desde as terras das Alagoas até 
a Paraíba, se mantendo uma numerosa escravaria, do que sur-
gira uma aristocracia rural, celebrada, como já temos notado, 
pelos cronistas contemporâneos, peia ostentação espaventosa 
do luxo e pelo aparato das relações mundanas. 
A população já excedia a 30.000 almas, afora os escra-
vos índios e negros. E do mesmo modo que a deficiente situa-
ção militar, eram precárias as franquias da administração civil. 
O quarto donatário, Duarte de Albuquerque Coelho, depois Mar-
quês de Basto, com a presença do seu irmão Matias desde 
1630 à frente dos destinos de sua donataria, com uma inter-
rupção apenas entre 1626 e 1629, quedava-se no Reino, entre 
as gostosuras da corte, e conhecendo o seu feudo apenas pe-
las notícias que chegavam acompanhadas dos proventos mag-
níficos de lá. 
O assalto dos holandeses foi de impressionar. Mas sem-
pre houve séria resistência, a despeito das possibilidades bé-
licas dos invasores. Haviam eles se preparado, não resta dú-
vida. Os desembarques no Recife, em Olinda, em Pau Amare-
lo, caracterizavam manobras estratégicas de quem conhecia o 
litoral; efeitos pesados de um exército adestrado e seguro das 
suas manobras, mas que teve de amargar também sérias bai-
xas, em face da resistência dos da terra, que os deteve ainda 
incertos da vitória até 2 de março, depois de quinze dias de 
árduas lutas. 
Matias de Albuquerque e sua gente, malgrado a grande 
inferioridade militar e numérica, não deram tréguas, mantendo 
vivo o desejo de lutar e o desapego pela vida. Em Olinda, um 
capitão de nome André Temudo, com apenas 76 homens, de-
teve um exército numeroso um pouco além do convento dos 
jesuítas, e terminou sucumbindo com os companheiros, não 
sem antes ter infligido sérias perdas ao inimigo. E quando es-
te penetrou pelas ruas da cidade, encontrou-as desertas. "Ape-
nas alguns negros e poucos portugueses velhíssimos, que não 
Puderam fugir, alguns doentes aleijados e coxos". Baers, mi-
nistro da religião dos holandeses e testemunha ocular da in-
vasão, complementou suas informações, lamentando: "... fo-
ram achadas pouca prata ou dinheiro amoedado e outras al-
faias preciosas ou jóias, apesar de sabermos haver ali muitos 
53 
que possuíam muito mais do que descobrimos. Eles, ao que 
parece, fugiram com os seus tesouros e maior parte dos seus 
bens para as aldeias, montes e engenhos do interior do país". 
No porto do Recife, o pequeno forte de São Jorge, intei-
ramente cercado por mar e terra, operai, milagres de resistên-
cia, e o seu bravo comandante Antôniode Lima, com apenas 37 
soldados, resistiu e provocou sérias avarias no inimigo. 
A dominação holandesa foi um fato, mas não, como pen-
savam os holandeses, um fato logo consumado. Domínio holandês (1630-1637) 
M ATIAS DE ALBUQUERQUE, valente como poucos, arguto, 
afeito a aventuras de guerrilhas, cuja tática era ignorada pelos 
invasores, que além do mais não conheciam os segredos da 
terra, reuniu quantos se apresentaram e localizou-se solida-
mente, com armamentos e munições que pôde salvar, no cha-
mado "Arraial do Bom Jesus", à margem esquerda do Rio Ca-
pibaribe, "além um tiro de arcabuz do riacho Parnamirim, as 
vezes seco, próximo a um oiteiro, em igual distância de Olinda 
e Recife". 
Dali, daquela posição estratégica e que cada dia mais se 
fortificava, tornou-se um verdadeiro estorvo para os holande-
ses, ameaçando-os constantemente, privando-os da dilatação do 
raio do domínio iniciado. 
Começou, então, a luta pela submissão da terra, através 
de uma guerra sem tréguas, de todos os dias, ora maior ou me-
nor, que durou vinte e quatro anos. A disposição de Matias 
estiveram logo Marfim Soares Moreno, Luís Barbalho, Filipe Ca-
marão, Henrique Dias, Estevão Távora, Simão de Figueiredo, 
Lourenço Cavalcanti de Albuquerque, Antônio Ribeiro de Lacer-
da e muitos outros. 
Nos dois primeiros anos a situação não foi boa para os 
Invasores, havendo ocasiões em que, pela demora no recebi. 
mento de reforços e provisões dos Países Baixos, chegaram 
eles às portas de um cruel desânimo, forçados a incendiar 
Olinda e se concentrar no Recife, até que se confirmasse ou 
não o abandono da conquista, como já se comentava, pela Com 
panhia das índias Ocidentais. 
Foi naquela angustiosa situação, que se deu a adesão 
de um mameluco porto-calvense, chamado Domingos Fernan-
des Calabrar que, ralado de queixas contra os portugueses, se 
teria oferecido como guia ao comando militar holandês, en- 
55 
54 
quanto ao mesmo tempo iam chegando agora alguns reforços 
de homens e armas de Haia. 
Excelente ajuda. Transmudou-se logo a situação. O inte-
rior pernambucano, que estava vedado ao invasor, deixou de 
ser um mistério e começou a ser dominado, enquanto se es-
tendia também o holandês pelo litoral até próximo ao rio Pa-
raíba. 
Em 1631 a corte de Madri mandara desembarcar nas ter. 
ras dos Alagoas uma tropa de 700 homens, sob o comando da 
conde de Bagnuolo, que ali fez pousada, concentrando-se prin 
cipalmente em Porto Calvo. E foi para lá que Calabar sugeriu 
aos flamengos o envio de forças. surgindo as primeiras vitó-
rias. Conhecia ele perfeitamente aquelas terras. 
Após a luta, guiados sempre por Calahar. que também 
tinha conhecimento das terras próximas ao Recife pois fizera 
parte das tropas de Matias de Albuquerque. nos primeiros mo-
vimentos da resistência no Arraial do Bom Jesus, os holandeses 
que continuavam recebendo auxílios dos Países Baixos passa-
ram à ofensiva, até se concentrar em um demorado e bem 
sucedido cerco contra aquela Arraial dos pernambucanos, se-
guido de um maciço assalto, que selou a derrota do núcleo de 
resistência, em meados de 1635. 
Antes, Matias de Albuquerque conseguira sair com o 
grosso das tropas, localizando-se mais ao sul, próximo ao For-
te Nazaré, e de lá, arguto e previdente, mandara Bagnuolo. que 
conseguira se livrar das Alagoas, ir com sua gente com desti-
no outra vez a Porto Calvo. Os holandeses foram no encalço, 
mas o oficial napolitano conseguiu escapar e se concentrar no 
antigo passo, onde teve a sorte de receber reforços de Ma-
dri. 
Os flamengos haviam desinchado uma força com desti-
no ao Norte, sob o comando de Lichthardt, conseguindo domi-
nar a capitania do Rio Grande do Norte. De lá foi desencadea-
da uma ofensiva contra a Paraíba. onde a coisa foi mais difícil: 
a praca sob o comando do governador Antônio de Albuquerque, 
era bem próxima de Pernambuco, de onde recebia ajuda e in-
formações. As forças holandesas, comandadas ainda por Lich-
thardt e mais von Schkoppe, tiveram que travar sérias lutas 
ali, não conseguindo o sucesso desejado, que somente se con-
cretizou quando voltaram à carga, saindo do Recife com 29 na-
vios pejados de soldados e mais a contribuição militar e téc-
nica do veterano oficial e herói polonês Artisofski. Era em prin-
cípios de 1635. Combate travado nas praias alagoanas entre as tropas enviadas pela Espanha e as 
tropas holandesas 
56 
Depois, foi a ofensiva contra o Ceará e, por fim, os ba-
tavos dominavam totalmente Pernambuco, com os seus satéli-
tes: Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte, bem como Ita-
maracá e o Ceará, e se estendiam pelo litoral nordestino. Ape-
nas Porto Calvo ainda resistia, transformado em quase um se-
gundo Arraial do Bom Jesus, a ponto de forças guiadas outra 
vez por Calabar, irem novamente ali, sentindo desta vez o ma-
meluco o pó da derrota, pois os lusos-brasileiros, que não o 
perdoaram, haviam-no atraído, prendendo-o e enforcando-o co- 
mo traidor. 
O governo da Espanha percebera àquela altura que as 
coisas tinham tomado um aspecto assaz desagradável no Bra-
sil. O domínio dos flamengos nas terras nordestinas já era um 
fato. Aquela subestimação inicia! a respeito das intenções dos 
invasores, havia cedido lugar a um autêntico pavor. E o pri-
meiro ministro Olivares andou à cata de um responsável, sobre 
quem pudesse descarregar toda a sua ira. E o escolhido foi, 
absurdamente, o herói Matias de Albuquerque, preso e embar-
cado para Madri a fim de responder devassa como "responsá-
vel" pela vitória das armas flamengas. 
Forças poderosas que haviam sido despachadas pela Espa-
nha, entraram em luta nas praias alagoanas com as tropas ho-
landesas, morrendo em ação D. Luís de Rojas y Borja, que subs-
tituíra no comando das forças de resistência a Matias de Albu-
querque, por ele mesmo preso. 
Com a morte de Rojas y Borja substituiu-o o conde de 
Bagnuolo, que, comandando forte tropa, voltou a instalar o re-
gime das guerrilhas em que tanto se celebrizara Matias, e ago-
ra com outra característica: traçada de crueldade, até contra 
colonos patrícios, que conformados com o demorado domínio 
batavo, já se iam habituando a ele, aceitando o estado de coi-
sas. Por seu lado pagavam os holandeses na mesma moeda, e 
as represálias se converteram em pavorosas lutas de extermí-
nio, paralisando totalmente a vida econômica da vasta região. 
Governo de Nassau 
CÁ OM AQUELE DOMÍNIO já definido de extensas terras no 
Brasil, compreenderam os diretores da Companhia das índias 
Ocidentais, que a conquista excedera as suas expectativas, me-
recendo cuidados especiais de administração, para não fracas-
sar em seus fins. Compensava agora o investimento de pro-
vidências mais sérias. 
E foi decidido mandar-se para Pernambuco um homem 
de pulso-forte, como governador-geral das terras conquistadas 
e comandante de todas as forças de ocupação. 
O escolhido foi o conde João Maurício de Nassau-Sie-
gen, nascido em Dillemburg, na Alemanha, e de estreitas rela-
ções de parentesco com a Casa dos Orange. Fazia parte, como 
voluntário, do exército neerlandês, havendo tomado parte com 
bravura na expedição palatina de Frederico Henrique contra 
Spinola em 1620; na conquista de Crol em 1627, e no célebre 
assédio de Bois-le-Duc em 1629, quando foi promovido a Co-
ronel. Figurou ainda no cerco de Mestrich em 1633 e na ren-
dição do forte de Schenkenschanz, três anos mais tarde. 
Veio com ele uma esquadra de doze navios (quatro saí-
ram em sua companhia e outro logo após) repletos de tropas 
em7antimentos, tendo chegado no Recife a 23 de janeiro de 163 
Recebendo notícias do que estava ocorrendo no litoral 
alagoano, fez agregar às tropas que trouxera as já existentes 
no Recife, disciplinou-as rapidamente no seu método de guer-
ra, e marchou contra Porto Calvo, acompanhado de uma esqua-
dra de vinte e quatro navios. 
A ofensiva teve inicio a 17 de fevereiro, tendo ao final 
Bagnuolo sido derrotado e empurrado, cruzando o rio São Fran-
cisco até atingir Sergipe e dali a Bahia. Estavamextintos os 
59 
58 
últimos resquícios da resistência. Dominavam totalmente os 
holandeses o Nordeste brasileiro. 
Voltou Nassau vitorioso ao Recife, onde se localizou, a 
fim de iniciar a fase político-administrativa e social da região, 
encarando igualmente a sua economia. 
O seu governo, embora historicamente caracterizado co- 
mo o de um chefe invasor, administrando um povo conquista-
do, foi contudo dos mais fecundos. E não se pode ocultar que 
ele passou a pretender instalar mesmo em Pernambuco um dos 
maiores e mais brilhantes impérios de característica flamen-
ga. Em apenas sete anos e três meses procurou incontesta-
velmente reerguer Pernambuco, instalando uma administração 
fecunda, de modo a recuperar a região das graves conseqüên- 
cias de tão dura guerra. 
Preocupou-se com a vida econômica então inativa, e en- 
vidou meios para atrair com vantagens substanciais os antigos 
senhores de engenhos que haviam fugido. Aquele panorama 
de decadência de um passado grandioso, com uma infinidade 
de velhas fábricas de açúcar paradas e abandonadas, tinha que 
se modificar. Aos antigos proprietários, que começaram a se 
submeter ao novo regime de governo, talvez lisonjeados ago-
ra com a presença de um príncipe europeu nos destinos de sua 
terra, deu crédito ilimitado, respeito às propriedades e devo-
lução dos seus haveres, inclusive escravos negros. E sobran-
do fábricas abandonadas, mandou-as pôr em hasta pública pa-
ra ser adquiridas por outros colonos, ou judeus endinheirados, 
que se haviam transportado da Holanda, com o fito de aumen- 
tar suas fortunas. 
Depois, passou a olhar a vida funcional, restringindo a 
burocracia, banindo o suborno, moralizando o serviço público, 
enquanto nivelava política e socialmente os da terra com os 
seus compatriotas, nos direitos e deveres da legislaçãc neer-
landesa. E fez mais. Em meados de 1640 convocou uma As-
sembléia, composta de holandeses, portugueses e luso-brasi-
leiros para decidir sobre as coisas da terra. Espécie de As-
sembléia Legislativa, uma das primeiras alias em toda a his- 
tória das Américas. 
Respeitou a vida religiosa da antiga donataria, embora 
passasse a permitir a liberdade do culto protestante, adotado 
pelos de sua terra, pois o domínio calvinista, desde o início da 
invasão tinha imperado ali. Ajudou a reconstrução de igrejas 
e recuperação das profanadas. Permitiu aos religiosos proce-
der reparos e retornar aos seus conventos. Admitiu, por fim, o 
reinicio dos atos litúrgicos públicos, como procissões e etc. 
Trouxe da Europa urna equipe de pintores, latinistas, as-
trônomos, botânicos, arquitetos e outros cientistas do mais al-
to gabarito, passando a incentivar a cultura e construir gran-
des palácios e hospitais, rasgar ruas, engendrar pontes, etc. 
E, por fim, incentivou o aumento do comércio e instaurou um 
ambiente de festas sociais, com as cavalhadas, as recepções, 
as representações. 
Enfim, dentro da angústia de um povo oprimido e de 
uma região aniquilada, tornou relativamente possível o apare-
cimento de urna esperança, ao caminhar de uma vida triste, 
quase desesperada, mas que no recesso dos lares pernambu-
canos e portugueses deixava hibernar uma chama de liberda- 
de. 
Pois, por maior que fossem os benefícios oferecidos por 
Nassau aos pernambucanos, seria sempre os holandeses aque-
les brutais invasores de linguajar estranho, religião antagõnica, 
idéias opostas, tudo enfim diferente da velha colonização lusa. 
O regime flamengo era duro, sem favores, e nunca o braço 
justiceiro e imparcial de Nassau pudera evitar os favores e as 
preferências a patrícios da Holanda. 
Em 1640 verificou-se, porém, a restauração de Portugal 
do jugo da Espanha, e em 1641 logrou a Holanda concluir um 
Tratado de tréguas por dez anos com o novo reino português, 
o que deu a impressão de que a nova casa reinante lusa hou-
vera se conformado com a conquista de Pernambuco pelos fla-
mengos. 
Nassau começara aos poucos entrando em choque, se 
desentendendo com os diretores da W.I.C. Não se coadunan-
do com a sua administração os modos ambiciosos e puramen-
te mercenários dos burgueses de Amsterdan, passou ele a ser 
tratado como um perdulário, "a rico príncipe que queria ser 
Imperador nas Américas". E pressionado pelas impertinências 
e picuinhas, deixou o governo do Brasil Holandês em 1644, re-
gressando aos Países Baixos. 
Com a saída do conde, pode-se dizer que desapareceu 
na colônia o princípio de autoridade. Ele fora o único capaz de 
equilibrar os interesses da Holanda, sem ferir os da terra, man-
ndo a paz. 
Dirigidos novamente por um governo militar, os invaso-
res retornaram a ser apenas os dominadores, e desencadeou- 
• outra vez brutal a incompreensão entre os da terra e eles, 
e aumentou e tomou aspecto mais grave quando os judeus 
protestantes voltaram a ultrajar as crenças, passando a Te- 
ar igrejas, devassar conventos, sacristias e até capelas de 
61 
60 
engenhos, onde se dizia estarem se reunindo conspiradores. 
Havia qualquer coisa de real nas suspeitas. Era o foco do irre- 
dentismo que começava a lavrar. 
D. Antônio Teles da Silva, então Governador-Geral do 
Brasil, católico extremado, intransigente, nunca tolerara a pre-
sença dos holandeses, aos quais chamava de heréticos, em 
sua vizinhança. E aos poucos passou a animar uma revolta 
contra eles, mandando para Pernambuco o paraibano André Vi-
dal de Negreiros, oficial da guarnição da Bahia, a fim de dar os 
primeiros passos, do que resultou o aparecimento de João Fer- 
nandes Vieira. 
Era este um mulato natural da ilha da Madeira, antigo 
combatente do Arraial Velho, homem jeitoso, objetivo, que sou-
bera infiltrar-se entre os holandeses, transformando-se em 
pouco tempo num dos mais ricos proprietários, conciliando os 
interesses dos invasores, enquanto alimentava a rebeldia hiber- 
nada. 
Acertadas as minúcias, mandou D. Antônio Teles para 
Pernambuco, após o regresso de Vidal de Negreiros, um con-
tingente sob o comando de Martim Soares Moreno e do pró-
prio Vidal, com o pretexto de combater os focos de rebeldia, 
mas na verdade como o primeiro grupo militar, que deveria 
ajudar os que se iam revoltando em Pernambuco, para fazer a 
guerra da restauração. Era em julho de 1645. 
Foi o rastilho. Logo agitou-se a capitania ocupada, e os 
patriotas já olhados com desconfiança pelas autoridades holan- 
desas, trataram de se ocultar nas matas, preparando-se, sob 
a orientação de Fernandes Vieira para intervir no momento 
oportuno, desencadeando a revolta. 
O governo holandês, de certo modo atarantado, vendo a 
ameaça surgir sem saber de onde, nem como, procurava agir 
sem segurança, enquanto escrevia alarmado para a Holanda, 
pedindo ajuda e instruções. 
Guerra da Restauração 
M ARTIM SOARES MORENO e Vidal de Negreiros desem-
barcaram próximo de Serinhaém, e logo a 4 de agosto rendeu-
se o forte holandês dali, enquanto a 3 de setembro o coman-
dante Hoogstraeten, do forte do Pontal também se entregou. 
A notícia correu como um raio por Pernambuco inteiro. 
Ecoou com estrondo, assanhou os patriotas e preocupou os in-
vasores. 
Desde junho que Fernandes Vieira tinha dado o grito de 
guerra, começando a receber contingentes de todo o interior. 
A 3 de agosto, no monte das Tabocas, ao lado sul de Pernam-
buco, ponto mais alto da serra do Camocim, perto da atual ci-
dade de Vitória, ocorreu o primeiro grande encontro. Forças 
bem armadas e modernas dos holandeses despachadas em per-
seguição dos insurretos, sofreram ali a primeira derrota de re-
levo, enfrentando homens descalços, famintos, sem armamen-
to adequado, lutando às vezes como suicidas, de peito aberto. 
Fugiram espavoridos os flamengos ante a violência dos 
locais, e deixaram em campo regular quantidade de armas e 
munições, além de grande número de mortos. Refugiaram-se 
na Casa Forte, mas os restauradores foram ao encalço, infligin-
do-lhes ali, dias depois, outra derrota. Estava propagado o in-
cêndio. Nada conseguiria debelá-lo. O lado sul, com a rendi-
çãodo Pontal e de Serinhaém, insurgiu-se até o rio São Fran-
cisco, e a situação retornou ao status -quo de começos de 1635. 
As forças que desciam da Bahia, mandadas a pretexto de pacifi-
car , logo aderiram sem rebuços aos da terra. 
Com a chegada de reforço da Holanda, sob o comando 
do almirante De With, foram destacados para ali Henderson e 
Lichthardt com quinze embarcações e grande número de ho-
mens. Aproando às margens do São Francisco retomaram Pe- 
62 63 
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BatalhasdosGuararaper 064816491 em um monte que fica ao sul do Recife, rias 
alturas do povoado dos Prazeres, em que os holandeses foram fragorosarnente 
derrotados. 
nedo onde conseguiram novamente se instalar. Mas socorros 
mandados da Bahia levaram-nos de vencida, em nova derrota 
total. Dizem que o comandante Lichthardt não suportando a 
vergonha, morreu. 
As derrotas passaram a ser seguidas. Os batavos deso-
rientavam-se. Concentraram-se então os restauradores na mar-
gem direita do rio Capibaribe, em sua várzea, levantando um 
acampamento, a que deram o nome de Arraial Novo do Bom 
Jesus. Dali começaram outra vez os ataques incessantes con-
tra os ocupadores do Recife e adjacências, travando-se sérios 
combates, aos poucos proporcionando aos insurretos vários 
pontos estratégicos, de modo a isolar lentamente o inimigo. 
Enquanto no Brasil lavrava a guerra de libertação, trata-
va-se na Europa oficialmente de se manter a paz, esforçando-
se Portugal em dar à Holanda demonstrações de lealdade ao 
tratado de tréguas de 1641, atribuindo o movimento pernam-
bucano "à obstinação de um pequeno grupo de rebeldes, que 
mais cedo ou mais tarde haverá de ser castigado". 
Na realidade, porém, atrás dos bastidores, a impressão 
era outra: a Holanda desconfiava que o intuito da corte lisboe-
ta era de simples burla, de modo que os pernambucanos fos-
sem aos poucos se firmando, até comprometer totalmente o 
domínio batavo; e das suspeitas passou à ação, ameaçando 
com uma aliança com a Espanha, em visível perigo para a co-
roa dos Bragança. 
Ordens severas foram dadas, então, por Portugal, subs-
tituindo-se pelo conde de Aguiar o Governador-Geral Antônio 
Teles da Silva, suspeito de proteger a revolução. As coisas, 
porém, tinham avançado muito, e os Países Baixos não confia-
vam mais. A crise passara para uma ofensa nacional, apre-
sentando o governo dos Estados Gerais e o próprio povo ho-
landês ostensivamente ao lado da Companhia das índias Oci-
dentais, com arruaças pelas ruas de Haia, onde se apupava o 
cônsul português, Sousa Coutinho, exigindo-se uma maior ener-
gia do governo. 
Deliberou-se aí mandar um poderoso socorro. Àquela 
altura, para a guerra de Pernambuco, desgastados que estavam 
os burgueses da Companhia das índias, foram os próprios Es-
tados Gerais que acudiram. Insistiu-se para que Nassau vol-
tasse a Pernambuco, mas ele recusou, sendo o comando entre-
gue a von Schkoppe. A Holanda e a Espanha ao final tinham-
se dado as mãos, assinando o Tratado de Munster, do qual foi 
excluído Portugal. Ficaram esclarecidos os cismas entre os go-
vernos-gerais e a coroa de Bragança. 
64 
Por sua vez, falava-se que Portugal tinha mandado para 
as costas de Pernambuco maciços auxílios para os insurretos, 
e os holandeses saíram a toda pressa, conseguindo apenas, 
em combate naval, próximo à Bahia, prender o mestre-de-cam-
po Francisco Barreto de Meneses, que D. João IV teria envia-
do para assumir em nome da coroa o comando da insurreição, 
que até então renegara, preocupado com a garantia do trono. 
Depois de algum tempo, cerca de nove meses, conse-
guiu aquele mestre-de-campo fugir do Recife, onde esteve re-
colhido em calabouço, apresentando-se a João Fernandes Viei-
ra, chefe aclamado pelos revoltosos, e que lhe entregou abne-
gadamente o comando, abrindo mão do generalato e da glória 
de comandar a expulsão dos holandeses, passando a ser um 
simples oficial combatente. 
Foi sob o comando, então daquele oficial vindo de Por-
tugal, que se revelou um autêntico general, que se travou a 19 
de abril de 1648, a primeira grande batalha dos Guararapes, 
em um monte que fica ao sul do Recife, nas alturas do povoa-
do de Prazeres, com a vitória dos restauradores, contra o co-
mando pessoal do próprio von Schkoppe. À primeira seguiu-
se a segunda batalha dos Guararapes, com o mesmo resulta-
do contrário para as armas flamengas. Era 18 de fevereiro de 
1649. 
Depois não houve mais combates de expressão nem por 
terra nem por mar. Os soldados holandeses estavam exaus-
tos, mal humorados, "de bolso e estômago vazios, brutaliza-
dos pelos oficiais, sujeitos a ferozes castigos". Não lutavam 
por um ideal de liberdade, como os antagonistas. Eram sim-
ples tropas mercenárias, faltava-lhes entusiasmo. O país, de 
Olinda até o Ceará, assolado e deserto, empapado de sangue, 
recalcado das matanças sucessivas. O lado sul já liberto. O 
Recife bloqueado por terra, com os pequenos fortins e casa-
matas quase todos em poder dos restauradores. Apenas as 
grandes fortalezas do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba 
conservavam suas guarnições flamengas. Mas desamparadas, 
sem contato com o comando holandês, no meio das planícies 
mais ou menos desertas. 
Von Schkoppe tinha-se disposto a jogar aquela cartada 
decisiva nos Guararapes. Rompera o apertado cerco com mais 
de quatro mil soldados, bem armados e municiados, e rumara 
ao sul, quando lhe foi ao encontro, proporcionando a fragorosa 
derrota, o general português com apenas dois mil e duzentos 
homens, mas muito ardor, incalculável desejo de liberdade, in-
finita fé religiosa, lutando contra herejes. Depois foi determi- 
nado ao coronel Brinck que fizesse nova tentativa, no mesmo 
local. Outro fracasso, e desta vez com lastimável repercussão 
e mais a perda de numeroso armamento pesado e muitos ofi-
ciais, inclusive o próprio comandante. 
Em menos de um ano defrontaram-se os dois exércitos 
em duas grandes batalhas, que selaram a sorte das armas: 
Guararapes em abril de 48 e fevereiro de 49. 
Começou a debandada dos invasores. Não mais se ilu-
diam com a vitória mais cedo ou mais tarde dos restauradores. 
Emigravam os altos funcionários civis e militares. Desertavam 
os soldados. Juntavam os burgueses o seu ouro, sua prata, 
seu dinheiro, em arcas, para mandar para a Holanda. Todos 
queriam fugir de um lugar dantesco, onde a fome dominava as 
entranhas, o pavor aniquilava os espíritos, a morte rondava a 
cada instante, com a fúria dos soldados de Antônio Dias Car-
doso e dos pretos de Henrique Dias, autênticos vingadores ra-
dicais. E o cerco se apertando. Só restava o Recife resistindo 
ao assédio. A companhia de comércio portuguesa, criada em 
oposição à das índias Ocidentais, dos flamengos, despejava re-
cursos nas praias já inteiramente livres do Nordeste. Era em 
fins de 1653. 
Foi quando surgiu diante da costa uma poderosa esqua-
dra lusa, custeada pela dita companhia. Eram sessenta navios 
comandados por Pedro Jaques de Magalhães e pelo almirante 
Francisco de Brito Freire. Portugal, por fim entusiasmado, rom-
pera sem cerimônias com a Holanda e recusava agora a paz 
condicional, entrevendo a conquista do território sem divisões, 
nem resgates. Os lusos-brasileiros, os pernambucanos, prin-
cipalmente as três raças: brancos, índios e pretos, às suas 
próprias custas, tinham preparado com muito sacrifício o pra-
to do Nordeste brasileiro. A coroa portuguesa, que tão lasti-
mavelmente houvera se omitido, abandonando a leal colônia, 
só restava agora saborear o manjar que lhe retornava às mãos. 
Com o bloqueio por mar e o assédio constante por ter-
ra, refeitos os restauradores com tropas frescas, a capital da 
colônia batava estava perdida. Von Schkoppe tentava ainda de-
fender energicamente os fortes externos, mas ia recuando sem-
pre, até recolher-se na estreita área da cidade que Nassau le-
vantara. E capitulou afinal. 
A 26 de janeiro de 1654, na campina do Taborda, ao la-
do sul do Recife, quase fronteiriça ao forte das Cinco Pontas,foi ajustada a rendição. Entregaram os invasores a cidade do 
Recife e todas as fortalezas por eles levantadas no Brasil. Os 
mil e duzentos homens que ainda restavam da guarnição, suas 
66 
peças de guerra, munições e oficiais, sairiam, porém, com hon-
ras de guerra e embarcariam livremente para a Europa, dispon-
do igualmente dos seus bens móveis, levando provisões para 
a viagem. Era também concedida anistia a todos os portugue-
ses a eles afeiçoados, bem como aos índios e negros que ti-
vessem batalhado em suas fileiras. Garantia-se igualmente 
moradia aos holandeses que não quisessem regressar à pátria, 
preferindo ficar no Brasil. 
Estava livre Pernambuco. Iria respirar outra vez livre-
mente. Se é que iria respirar mesmo, aniquilado como ficara, 
devastado em sua tradição econômica, empapado de sangue, 
deprimido de recordações cruéis. A 27 de janeiro João Fer-
nandes Vieira entrava na cidade para ocupá-la. A 28 o mestre-
de-campo Francisco Barreto de Meneses recebia de von 
Schkoppe e do Conselho, simbolicamente, as chaves da cidade 
do Recife, mandando incontinenti André Vidal de Negreiros à 
corte, dar pessoalmente parte a D. João IV da recuperação 
das perdidas capitanias, com as quais o valor pernambucano 
brindava a coroa portuguesa, depois de 24 anos de desespero. 
Recuperação 
R ECONQUISTANDO O NORDESTE, entrou a coroa no gozo 
direto da capitania de Pernambuco. Considerando que não 
mais convinha à moderna concepção estatal portuguesa a con-
tinuidade de um feudo privado na vasta região, e que o velho 
pergaminho de D. João III garantia aos herdeiros de Duarte 
Coelho, passou D. João IV a comentar ter havido "desídia" e 
criticar a falta de colaboração daqueles herdeiros à guerra da 
restauração, tendo, além do mais, Duarte de Albuquerque to-
mado o partido de Castela contra Portugal, quando das lutas 
pela recomposição do trono luso. 
Declarou então realengo o senhorio e foi designado Fran-
cisco Barreto de Meneses para ser o primeiro governador e ca-
pitão-general de Pernambuco. Entrava, assim, a antiga capita-
nia duartina no regime político-administrativo a que já estavam 
sujeitas todas as demais do Brasil: a administração militar dos 
capitães-generais. 
Quanto a Vidal de Negreiros, fora designado governador 
do Maranhão, para onde deveria seguir tão logo regressasse 
da corte. Fernandes Vieira foi provisoriamente para a Paraíba, 
dali embarcando para Angola, como governador-geral. Ambos 
receberam comenda lucrativa da Ordem de Cristo. 
O governo de Francisco Barreto, de extrema autoridade 
e austeridade, como exigia o comando administrativo de uma 
extensa área saída das agruras de uma guerra tão longa, e com 
um povo naturalmente envaidecido com a glória de ter expul-
sado sozinho um inimigo tão poderoso, foi quase que somente 
de reimplantação da autoridade portuguesa. Contudo valeu o 
sentido do arbítrio e da organização que imprimiu, de mais im-
portância então que a própria diretriz do progresso. 
68 69 
Perdera Pernambuco o título de mais próspera das capi-
tanias da colônia. Uma luta de vinte e quatro anos havia asso-
lado suas terras, marcando-as de aniquilamentos, decepções, 
determinando novas facetas. Houve o desmoronamento do gran-
de clã do açúcar, aniquilando a economia privada, dando fuga 
aos capitais independentes. E a nobreza açucareira recorreu 
aos empréstimos, à agiotagem, para recompor a maquinaria dos 
engenhos, fundar novas plantações, fixar nova escravaria ne-
gra, levantando com dificuldade a sua produção agro-indus- 
trial. 
Por sua vez voltaram os governos a se fixar em Olinda, 
tratando de reedificar o casario destruído da antiga vila. O Re-
cife, graças à importância do seu porto, e havendo sido bafe-
jado pelo progresso durante a administração de Maurício de 
Nassau, começou a prosperar mais rapidamente, adquirindo po-
pulação numerosa e permanente. Preferiam-no os negociantes, 
os proprietários, mercadores enriquecidos, burgueses, homens 
afanosos de riquezas rápidas e fáceis, utilizando principalmen-
te a usura e a exploração comercial desenfreada. 
Barreto de Meneses governou de 1654 até março de 
1657, quando foi para a Bahia, assumir o Governo-Geral do Bra-
sil. A ele sucedeu André Vidal de Negreiros, que administrou 
até janeiro de 1661, havendo durante o seu governo ocorrido 
sérios incidentes com os nobres da terra, que quase culmina-
ram com o seu afastamento, preso por ordem de Barreto. 
Depois, assumiu o governo Francisco de Brito Freire, co-
nhecido homem de valor intelectual, e até escritor; em conti-
nuação, em março de 1664, sucedeu-lhe Jerônimo de Mendon-
ça Furtado, apelidado de "O Xumbergas", que teve uma admi-
nistração das mais desastradas, havendo, em agosto de 1666, 
sido preso e deposto para o Reino pelos pernambucanos, en-
quanto se escrevia ao Vice-Rei, na Bahia, pedindo um substi-
tuto. Voltou provisoriamente o veterano André Vidal de Ne-
greiros, que se sentindo doente, pediu, em carta de 2 de feve-
reiro de 1667, à Sua Majestade um substituto. 
E assim, a 13 de junho daquele ano, tomou conta Ber-
nardo de Miranda Henriques do governo da capitania, cuja ad-
ministração não foi das mais honestas, havendo seguido para 
a corte sérias queixas. 
A 28 de outubro de 1670 pela primeira vez assumiu um 
pernambucano o cargo de capitão-general de sua terra. Foi Fer-
nando de Sousa Coutinho, nascido em Olinda e filho de D. Pau-
lo de Sousa e Dona Mariana Henriques, por sua vez filha de 
Diogo Sodré, que foi durante muitos anos governador de Ca-
bo Verde. 
A ele deve-se um governo honesto e, se não foi dinâmi-
co como se esperava, pelo menos não foi improdutivo, pois foi 
quem proporcionou os meios para que Domingos Afonso Ser-
tão desse os primeiros passos para o desbravamento do alto 
sertão são-franciscano, do que resultou a abertura do caminho 
para o surgimento das futuras terras do Piauí. 
Em fins de 1673, sentindo-se gravemente enfermo, es-
creveu ao soberano pedindo um substituto. Faleceu em janei-
ro do ano seguinte, sem poder passar o governo ao seu suces-
sor, que foi D. Pedro de Almeida, empossado a 6 de feverei-
ro. Este era um fidalgo dos mais importantes da corte, sendo 
comendador de S. João Trancoso e da Ordem de Cristo, mes-
tre-de-campo da Infantaria de Sua Majestade, e também mem-
bro do seu Conselho, além de almirante da Real Armada Por-
tuguesa. 
Enfastiado da corte, pedira para espairecer um pouco no 
Novo Mundo e para cá viera. Com tanta importância, enver-
gando uma fatuidade que aborrecia, não impressionou entre-
tanto aos pernambucanos. Sua visível inexperiência de admi-
nistração pública e vaidade, irritara os da terra, tendo começa-
do um corredor de cartas dirigidas ao Vice-Rei e à corte, com 
queixas as mais sérias contra ele. O monarca, porém, não da-
va importância, até que uma carta de maio de 1677, da Câma-
ra do Senado de Olinda, denunciou graves fatos, e ameaçou 
tomar atitudes mais sérias, de rebeldia, se continuasse "a in-
débita intervenção daquele capitão-general na arrematação dos 
impostos, que corriam pelo Senado, de acordo com o que dis-
punham as ordens reais". 
Desta vez resolveu o Rei tomar uma providência e man-
dou Aires de Sousa Castro substituí-lo, o que ocorreu em 1678. 
Sucedeu a este, em janeiro de 1682, D. João de Souza. 
Depois veio Fernão Cabral em 1688, que morreu com 
Poucos meses de governo, sendo substituído por D. Matias de 
Figueiredo de Melo, bispo diocesano, que governou até maio 
de 1689, quando passou a capitania a D. Antônio Gonçalves da 
Câmara Coutinho. 
Vem de 1676 a bula Ad Sacram Beati Petri, do Papa Ino-
cêncio XI, criando o bispado de Olinda, "onde já habitavam per-
to de seis mil cristãos", e elevando a vila aos foros de cidade. 
O primeiro antístite foi D. Estevão Brioso de Figueiredo, que 
chegou a Pernambuco no dia 11 de abril de 1678, havendo o ca-
bido sido instalado a 21 de maio do ano seguinte. 
70 71 
As constantes atitudes tomadas ali con ra as administra oes desonestas de certos 
fidalgos ou oficiais portuguesesse orimnaram também das contrariedades econó-
micas por que o poro passara. sacriti acto até COM c pagamento de chiadas de 
guerra á Holanda. 
O 2.° marquês de Monte Belo, D. Antônio Félix Macha-
do da Silva e Castro, governou a capitania de 1690 a 1693, e 
Caetano de Melo, deste último ano até março de 1699. Era fi. 
lho ele do Vice-Rei da índia, Antônio de Melo e Castro, haven-
do servido ao Rei com muito desvelo em outras missões, sen-
do então conselheiro da coroa. Sua administração foi das mais 
fecundas e querida pelos pernambucanos, a modo de, ao estar 
próximo a expirar o prazo do seu governo, haver os oficiais da 
Câmara do Senado de Olinda escrito ao Rei, a 9 de março de 
1695, pedindo para ele continuar na capitania. Atendeu o so-
berano e ele serviu com devotamento a Pernambuco por mais 
quatro anos. 
Foi durante o seu governo, em 1695, que se travaram os 
combates, decisivos, por orientação sua, nas lutas contra os 
negros que, havendo fugido durante o período da invasão ho-
landesa e alguns anos depois, tinham se refugiado no sítio cha-
mado dos Palmares, em território alagoano, ali fundando a cé-
lebre república dos Quilombos, começando a ameaçar o sos-
sego da capitania. 
O século foi encerrado com D. Fernando Martins Mas-
carenhas de Lencastre, como governador de Pernambuco, ha. 
vendo sucedido a Caetano de Melo e Castro, e administrado 
até 1703. 
Ia a capitania duartina, dentro das constantes modifica-
ções de governo, lutando por conservar, porém, aquela tradi-
cional posição de líder da região nordestina, para o que, mal-
grado todos os inconvenientes decorrentes dos duros anos do 
domínio holandês, conseguia aos poucos ir se reerguendo, em-
bora bem longe da grandeza de outrora, mesmo porque as des-
cobertas das minas haviam deslocado para o Sul do país o cen-
tro da riqueza brasileira, atraindo para sua infra-estrutura o Es-
tado colonial e sua máquina administrativa. Em 1709, segundo 
Antonil, a Bahia, com 146 engenhos fabricava 14.500 caixas de 
açúcar, enquanto que Pernambuco, com 246 fábricas, produziu 
apenas 12.300. 
Mas estava de qualquer maneira caracterizada novamen-
te a agro-indústria pernambucana. Ainda trôpega, combalida 
dos males porque passara, mas evidente e futurosa. E Pernam-
buco tinha saído até mais orgulhoso e mais importante do jo-
go batavo, se insinuando como forte e capaz de se dirigir sem 
a intervenção da coroa, reclamando constantemente ao Reino 
contra os governos ambiciosos dos capitães-generais. 
Não resta dúvida que para os homens da corte a capita-
nia de Pernambuco estava sendo um problema de administra- 
72 
ção e um entrave ao ambiente propício, e por eles tão deseja-
do, de uma ação discricionária no Brasil. 
As constantes atitudes tomadas ali contra as adminis-
trações desonestas de certos fidalgos ou oficiais portugueses, 
se originavam também das contrariedades econômicas por que 
 o povo passava, sacrificado até com o pagamento de dívidas de 
guerra à Holanda, acertadas por Portugal, e explicavam de cer-
to modo o orgulho de "serem brasileiros" dos da terra, que se 
reuniam em suas câmaras, acastelados em uma natural jactân-
cia e convicção da sua importância. 
Ao se descerrarem as cortinas do século XVIII, já Per-
nambuco estava, assim, caracterizado outra vez como a cabe-
ça do Nordeste, e novamente respeitado por uma relativa im-
portância, entre as capitanias mais prósperas do Brasil. 
Se perdera o título de cem anos atrás, de ser a primeira 
da colônia, em compensação não passara para a caudal, en-
frentando uma decadência fatal. Aos poucos ia-se firmando e 
se reconquistando. 
Decadência de Olinda —
Guerra dos Mascates 
N AO RESTAVA DÚVIDA que após a invasão holandesa ha-
via Olinda começado a decair, a medida que se seguia o Reci-
fe progredindo e crescendo em população e importância. Era 
habitado, como já dissemos, pelos homens de dinheiro da ca-
pitania. Portugueses, porém, de humilde nascimento, ou judeus 
vindos do tempo da invasão, homens sem brasões e sem his-
tória. Na maior parte comerciantes lusos chegados pobres e 
agora donos ou caixeiros de armazéns de secos e molhados, 
casas comissárias, etc., chamados pejorativamente de Masca-
tes, pela incidência entre eles do comércio chamado da mas-
cateação, que consistia em levar os artigos a domicílio para 
venda, trabalho tido pelos nobres como humilhante. 
Apresentava-se já como a praça de guerra e de comér-
cio mais importante do Norte do Brasil, contando, ao alvorecer 
o século XVIII, umas oito mil almas. Quanto a Olinda, já ele-
vada à categoria de cidade, era apenas a cabeça do conselho 
e do bispado, habitada pelas autoridades e pelas principais e 
mais antigas famílias, a que se chamava de nobreza da terra, 
homens de história viva, ainda empolgados com o orgulho de 
haverem sozinhos vencido a guerra da restauração. 
Mas o Recife era ainda uma simples povoação. Não pos-
suía foros de vila. Vivia da dependência administrativa, judi-
ciária e religiosa de Olinda. Pleitearam muitas vezes seus mo-
radores concorrer às eleições para tomar parte na Câmara do 
Senado. Naturalmente, sendo superiores em número, sairiam 
vitoriosos. Mas movimentara-se a nobreza, e uma provisão ré-
gia de 1705, proibiu que mercadores tomassem parte em Con-
selhos. Buscaram, então, os recifenses o apoio dos capitães- 
74 75 
generais, fazendo obviamente movimentar as vantagens de suas 
fortunas, e começaram a ser bem sucedidos. Principalmente 
com os dois últimos, Francisco de Castro Morais, que gover-
nou de 1703 a 1707 e Sebastião de Castro Caldas, que o suce-
deu e em 1710 ainda se encontrava no Governo. 
Este capitão-general declarou-se logo, abertamente, afei-
çoado aos homens de dinheiro do Recife, principalmente, se-
gundo conta Oliveira Lima, "por causas reputadas menos con-
fessáveis". Inicialmente quis que os olindenses fossem ao Re-
cife ajustar o preço do açúcar. Não atenderam eles e recorre-
ram ao Rei. O governador irritou-se e às escondidas mandou 
levantar no Recife o pelourinho municipal, símbolo de vida in- 
dependente. 
D. João V, em Carta Régia de 19 de novembro de 1709, 
naturalmente influenciado pelos informes dos últimos capitães-
generais, já houvera elevado o Recife à categoria de vila, com 
o nome de Vila de Santo Antônio do Recife, determinando ao 
governador e ao ouvidor da capitania que fixassem os limites 
de suas terras. 
Divulgada a notícia começaram os rumores de reação, 
partidos de Olinda. Irritado, Castro e Caldas mandou prender 
várias pessoas de destaque dali, se indispondo cada vez mais 
com a nobreza. Certo dia foi alvejado por tiros de revólver na 
rua das Aguas Verdes, sendo ferido. Aproveitou-se e proibiu 
o uso de armas de fogo, enquanto aumentavam as prisões de 
pessoas consideradas hostis ao seu governo, inclusive o pró-
prio ouvidor da capitania, que escapou por ter se refugiado na 
Paraíba. 
As hostilidades romperam em Vitória de Santo Antão, 
donde saiu uma turba revolucionária, que se engrossou em Afo-
gados, com reforços de São Lourenço e de Olinda, invadindo o 
Recife, demolindo o Pelourinho, rasgando o foral régio, soltan-
do os presos políticos e castigando as pessoas ligadas ao go-
vernador. Explodira um movimento, que passou à história com 
o nome de Guerra dos Mascates. 
A 7 de novembro de 1710, Sebastião de Castro e Cal-
das, depois que tentaram outra vez contra sua vida, agora em 
Olinda, alarmou-se e embarcou às escondidas de madrugada, 
 em uma sumaca, fugindo para a Bahia. 
Os olindenses exultaram e elegeram governador o bis-
po D. Manuel Alvares da Costa, que era justamente o indica
-
do pela coroa, pelas vias de sucessão, para atender a uma even- 
tual vacância do cargo. 
Diz a tradição que àquela altura, a 10 do mesmo mês, 
Bernardo Vieira de Melo, militar afamado, antigo governador 
do Rio Grande do Norte e vitorioso nas duras batalhas contra 
os Quilombos dos Palmares, teria no Senado da Câmara de 
Olinda, proferido um grito de República, propondo a indepen-
dência de Pernambuco. 
Verídicaou não esta tradição histórica, ela tem um cunho 
de realidade, pois o movimento dos olindenses, em novembro 
de 1710, nada foi mais que uma insurreição contra o despotis-
mo e contra o poder argentário da burguesia. Levantara-se Per-
nambuco em desobediência ao Rei, contra, pois, a ordem políti-
ca vigente, contra a lei, contra a tradição: O Rei e o mundo co-
lonialista do século XVIII. Ocorrera em Pernambuco, com as de-
vidas proporções, mais que um simples protesto contra medidas 
de um capitão-general, apoiado pelos endinheirados do Recife. 
Fora um autêntico movimento revolucionário e agitador. 
O bispo, de posse do governo, deu conta do sucedido ao 
governador-geral do Brasil, D. Lourenço de Almada, que trans-
mitiu a notícia à corte, sem comentar desfavoravelmente sobre 
a atitude dos olindenses. Animado, D. Manuel Álvares, decre-
tou o perdão para todos os implicados no levante, que ocasio-
nara a fuga de Castro e Caldas. 
Cumpria, porém, se obedecer à Carta Régia que elevara 
o Recife à vila. Contudo o momento não era oportuno. Os âni-
mos ainda estavam bem exaltados. Os olindenses, engolfados 
com a vitória, chegaram a apresentar uma série de exigências 
que se resumiam numa humilhação das mais vergonhosas para 
os moradores da povoação portuária. E o bispo-governador foi 
contemporizando, esperando que as coisas esfriassem um pou-
co. 
Os recifenses, porém, impacientes por sua autonomia, e 
na ânsia de se vingar dos olindenses, não ficaram nas encos-
pias. E, passado algum tempo, pretextando queixas contra o 
sargento-mor Bernardo Vieira de Melo, que se dizia estar que-
rendo se proclamar governador, fizeram estalar uma contra-
revolução, justamente quando D Manuel Álvares da Costa se 
encontrava no Recife, em visita pastoral, hospedado no colégio 
dos Jesuítas. Era a 18 de junho de 1711. 
Segundo Varnhagen, passaram por chefes principais des-
ta rebelião várias pessoas, "porém os seus verdadeiros autores 
foram comerciantes, tendeiros e caixeiros filhos de Portugal e 
estabelecido no Recife, que entre si se fintaram, no valor de 
uns setenta mil cruzados, para as despesas da revolta". 
77 
76 
if 
O fato é que os recifenses puseram em campo regular 
tropa militar, e mais contingentes de índios, o terço dos Henri-
que, e mercenários vindos do interior. A luta durou com certa 
violência até 6 de outubro, quando chegou o novo governador 
enviado pela corte, capitão-general Félix Machado de Mendon-
ça, a quem todos prestaram obediência, restabelecendo-se a 
paz. 
Havia se verificado uma guerra civil sui-generis, pois ca- 
da lado invocava o nome do Rei, apontando o adversário como 
traidor. A plebe desforrava-se em apodar os combatentes com 
apelidos. Os recifenses eram já conhecidos como 
Mascates, 
os do Norte como Cipós e Tundacumbes, e os olindenses, prin-
cipalmente nobreza, apodados como Pés Rapados. 
O novo governador mostrou-se logo francamente partidá-
rio dos Mascates. Fez cumprir a Carta-Régia que instituía a 
Vila de Santo Antônio do Recife, e, voltando-se violento para 
Olinda, a pretexto de uma conjura que dizia estar sendo pre-
parada contra os principais nobres envolvidos, sendo eles e 
seus parentes próximos presos e declarados inconfidentes. 
Bernardo Vieira de Melo, por exemplo, com seus filhos, sofreu 
os maiores vexames, havendo sido deportado para Portugal, 
onde morreu na cadeia do Limoeiro. 
Com o surgimento da vila de Santo Antônio do Recife, 
devidamente instalada em fins de 1711, a velha aldeia portuá-
ria cresceu ainda mais de importância, enquanto Olinda, em-
bora mantida como sede da capitania, continuava a cair de pres-
tígio. Até a nobreza local começou aos poucos a se diluir, em 
face da projeção da chamada zona da mata, ao lado sul-leste 
do Recife, atraindo, pela feracidade das suas terras, cheias de 
massapé, excelentes para a cultura canavieira, a aristocracia 
açucareira, que para ali transferia suas atividades, levantando 
novos e modernos engenhos, bem longe da sede capitania, e 
em contato permanente com o Recife, escoadouro natural da 
produção agro-industrial, e celeiro dos grandes negócios finan
-
ceiros. 
Século XVIII 
D IZ PEREIRA DA COSTA, com muita razão, que Félix José 
Machado de Mendonça houvera chegado a Pernambuco com o 
ânimo prevenido contra os pernambucanos, e por isso foi que 
se entregou abertamente aos Mascates, praticando toda a sor-
te de perseguições e humilhações contra a nobreza da terra, 
radicada em Olinda. 
Seu governo durou até junho de 1715 e foi dos mais de-
ploráveis, havendo administrado, com residência instalada no 
Recife, no Colégio dos Jesuítas, inteiramente familiarizado com 
os portugueses da terra, ou sejam os mascates endinheirados, 
que o agradavam constantemente com banquetes e presentes. 
Imoral e mulherengo, transformou a casa do governo em um 
centro de bacanal e prostituição. Um cronista do seu tempo 
chegou a comentar: "... o que se poderia esperar de um ho-
mem que, corrompido pelo ouro dos mascates, foi o açoite dos 
pernambucanos vítimas do patriotismo?" 
Dos seus atos e tiranias endereçavam-se constantes car-
tas para a corte, sem nenhum resultado, a não ser quando ele 
fol repreendido pelo Rei, por estar exigindo na colônia o trata-
mento de Excelência, que não lhe cabia. No mais, havia uma 
Indiferença total do Reino, acerca do seu governo irresponsá-
vel, despótico e vazio de medidas administrativas necessárias 
lb progresso da capitania. 
Conta-se que as coisas haviam chegado a tal ponto, que 
m religioso do convento de São Francisco, de Olinda, Frei 
istóvão do Pilar, tomara desesperado a decisão de matá-lo a 
ros, no que não foi, porém, bem sucedido, ao esperá-lo de em-
soada nos mangues do rio Beberibe, porque errara o alvo. 
Todavia continuava o progresso da capitania, à custa dos 
LIS próprios habitantes, e durante aquele governo o que de 
79 
78 
importante administrativamente, pôde se apontar foi o início 
das obras de defesa do porto e a restituição a Pernambuco do 
vasto território do Sertão das Rodelas, depois Comarca do São 
Francisco, e do qual a Bahia houvera se apossado, durante a in- 
vasão holandesa, incorporando à jurisdição da vila de Jacobi-
na. 
Em 1770, já era apreciável a situação do alto sertão per-
nambucano, de certo modo explorado e com uma crescente po- 
pulação, bom comércio, feito porém por intermédio da Bahia, 
de onde as mercadorias, conduzidas em grandes comboios, 
atravessando o rio São Francisco, abasteciam os centros popu-
losos de grande parte daquele sertão. Havia mesmo ali uma 
marcha evolutiva, baseada principalmente na atividade agríco-
la e pastoril, cujo escoamento se fazia com regular precisão, 
rasgando-se de longínquas paragens todo o território em dire-
ções as mais diversas. 
Surgiam as povoações e se concentravam as novas po-
pulações. Flores, Tacaratu, Cabrobó e outras já haviam sido 
elevadas à categoria de Julgado, cada qual com seu juiz ordi- 
nário, capitão-de-mato, etc. O algodão que já começara a ser 
cultivado com maior cuidado desde 1751, em 1778 voltou a ser 
exportado para a Europa, aumentando de produção, que ofere-
ceu novos e maiores embarques de 1781 em diante. 
Dentro da típica oscilação agro-industrial que caracteri-
zou o século XVIII em Pernambuco, o número de engenhos em 
1761 aumentara para 296, sendo exportadas 12.292 caixas, 805 
feixes, 130 caras-de-açúcar, cuja maior produção procedia dos 
engenhos da zona da mata e dos distritos de Sirinhaém, Olinda, 
Igaraçu e Itamaracá. Em 1750 somente no Recife havia 58 en- 
genhos. A Paraíba contava com 57 engenhos. Os preços em 
1789, da melhor qualidade, eram de 2$560 a arroba posto em 
Lisboa. No Recife custava 1$650, o que eram boas ofertas, pro- 
porcionando excelentes lucros, com alguma desenvoltura eco-
nômica e financeira da capitania. 
Os governos dos capitães-generais D. Lourenço de Al-
meida (1715-1718), Manuel de Sousa Tavares (1718-1721), D. 
Francisco de Sousa (1721-1722), e D. Manuel de Sousa Rolim 
(1722-1727), haviam restauradopor fim na capitania o período 
de paz e reconciliação entre portugueses e pernambucanos, e 
chegou a se instalar no Recife uma Casa da Moeda, além de se 
terem concluídas as obras de fortificação do porto. 
A exportação chegou nos meados do século a ser esti-
mada em cerca de cem milhões de libras, que era então a moe-
da internacional, ao preço de 960 e 1.120 réis a arroba de açú- 
a 
,, .. 
• 
O Marquês de Pombal orientou, então, e fundou em 1759 uma Companhia de 
Comércio 
de Pernambuco e da Paraíba com o fim de explorar a exportação de aplicar 
e a importação de produtos europeus 
80 
car, embora caísse nos fins do século para 80 milhões, chegan-
do a arroba a 120 e 100 réis. 
Mas era porque já se constatava o abandono do Nordes-
te pela coroa portuguesa, engolfada pelo Sul do País, que nada-
va em dinheiro, graças ao rendimento a curto prazo dos fasci-
nantes veios de ouro e das jazidas de diamantes dali, monopo-
lizando tudo que era possível. 
Segundo Oliveira Lima, o Brasil dando agora ouro, muito 
ouro e pedras preciosas, substituíra a Índia na interesseira afei-
ção de Portugal, que em ciumenta tutela o segregava de todo 
contato estrangeiro, impedindo, assim, o comércio livre do açú-
car saído de Pernambuco, com as outras nações, reduzindo-lhe 
a economia intrínseca. 
E o sul da colônia, ia recebendo todos os favores, todas 
as prebendas e considerações, ficando Pernambuco e suas ca-
pitanias incorporadas caminhando às próprias custas, dentro 
quase que somente da consciência de ter um povo forte e de-
cidido, para quem jamais as decepções e as parcialidades fize-
ram recuar ou desesperar. 
O conde de Oleiras, depois marquês de Pombal, que vi-
nha dominando política e administrativamente Portugal, como 
Ministro dos Negócios do Reino, espécie de eminência parda de 
D. José I, ávido de estender às colônias a sua ambição de ex-
cessivos lucros financeiros para a coroa, como já vinha proce-
dendo internamente no Reino, houvera voltado suas visitas pa-
ra o alentado movimento comercial de Pernambuco, principal-
mente sua constante exportação de açúcar e concomitante al-
ta importação de produtos europeus. 
Orientou, então, e fundou em 1759 uma Companhia de 
Comércio de Pernambuco e da Paraíba (ainda adjudicada àque-
la capitania), com o fim de explorar aqueles dois tipos de co-
mércio, e composta de comerciantes e capitalistas de Lisboa, 
do Porto e de Pernambuco. 
O capital fora de 1:360$000, e dispunha até de uma com-
panhia de navegação, havendo sido porém o seu funcionamen-
to uma catástrofe para Pernambuco. Era ela excessivamente 
opressiva, em virtude de uma unilateral regulação de negócios 
que só aproveitava aos importantes negociantes do Reino. Pro-
vocada pelo seu monopólio de vendas e de isenções fiscais, 
aparecia flagrante uma crítica inferioridade do comércio inde -
pendente pernambucano, que enleado nos extraordinários privi-
légios com que Pombal dotara aquela Associação, filha de sua 
imaginação ambiciosa, mostrara-se adverso, principalmente por 
sentir que a agricultura colonial, caindo numa estéril dependên - 
cia, sem a necessária auto-determinação, havia ficado sujeita 
aos preços aviltantes para os seus produtos, estipulados pela 
Companhia, em troca dos empréstimos por ela fornecidos. 
Surgira a Companhia durante o governo do capitão-gene-
ral Luís Diogo Lobo da Silva, que muito concorreu para a funda-
mentação do plano de Pombal, oferecendo excelentes vanta-
gens para o comércio de Portugal, enquanto gravava com aque-
les sérios prejuízos a economia pernambucana, vítima, assim, 
de uma sórdida exploração oficial. 
As queixas mais amargas e às vezes até patéticas se-
guiam continuamente e improfícuas para a Metrópole, e duran-
te vinte anos sofreu amargamente Pernambuco em sua econo-
mia. Somente depois de morto D. José I, em 1777, e subin-
do ao trono sua filha Dona Maria I, que destituiu Pombal do 
imenso poderio, foi que em 1780 determinou-se a extinção da 
malfadada companhia, restituindo-se a Pernambuco a liberdade 
do seu comércio e o incentivo da sua agricultura. 
Mas em 1799 sofreu a capitania duartina, outro impacto, 
agora na grandeza da sua área territorial, que desde 1756 se vi-
ra acrescida da capitania de Itamaracá, incluída em sua admi-
nistração. Por Decreto de 17 de janeiro daquele ano, D. João 
VI mandou separar a Paraíba de sua autonomia, dando-lhe uma 
administração aduaneira e de finanças próprias. 
Deste modo sofreu Pernambuco uma redução em sua 
importância, com o que, porém, não se abateu, parecendo de-
safiar o Reino, que não conseguia, a despeito de tantas provi-
dências coatoras, sufocar o desenvolvimento espiritual da ca-
pitania, precursor da emancipação política da colônia. Comen-
tou um escritor que "as idéias de desafogo científico e de re. 
novação social foram lhe chegando da Europa às lufadas, se- 
não mais ardentes, pelo menos tonificadas do ar estimulante 
do grande oceano". 
O movimento social-cultural e político que se empolgou 
nos fins do século XVIII, com as revoluções francesas deA789 
e 1792 e a declaração dos direitos do homem em 1791, fundiu, 
no cristalizar de suas conceituações, o alvorecer de uma nova 
etapa na vida política do Novo Mundo, repercutindo com certa 
profundidade em Pernambuco, onde a vasta literatura conside-
rada avançada começou a encontrar o campo propício daquele 
orgulho de "serem brasileiros" dos pernambucanos, e abrira as 
janelas para se começar a receber o sol das novas concepções 
Políticas. 
O temperamento vivaz do pernambucano, caracterizado 
nos princípios de liberdade e de autonomia, que se desenvol- 
82 83 
varam durante o domínio holandês, ter-se-ia possivelmente, 
sem se desprezar outras razões de ordem étnica e espiritual 
da antiga colonização, se originado, também, da influência du-
rante vinte e quatro anos — quase uma existência — do povo 
flamengo, superior em civilização e em cultura aos povos ibé. 
ricos, e que há pouco havia se libertado do jugo opressor da 
Espanha, sob o qual ainda se achavam Portugal e o Brasil. 
E se desenvolveu afirmando-se paradoxalmente no ato 
épico de expulsar aqueles mesmos flamengos, e retornar à tu-
tela lusitana, que para os luso-brasileiros ainda representava o 
respeito à ancestralidade e à procedência. 
Se a restauração de Pernambuco serviu para provar que 
as populações brasileiras já tinham uma consciência do seu va-
lor, e de que poderiam por si só libertar-se de um jugo estran-
geiro, sem o auxílio da metrópole ingrata e apoucada, valeu, 
também, para determinar as conseqüências espirituais que ad-
vieram de se deixar aquela parte do país por tanto tempo rece-
bendo influências e cativações econômicas, sociais e espiri-
tuais de um povo incontestavelmente, repetimos, mais adian- 
tado que os ibéricos. 
Mas, com o passar dos anos e com a ventania das idéias 
liberais vindas da França, soprando mais fortemente quase nos 
fins do século XVIII, foi Pernambuco se fortificando em sua cul- 
tura política e social, adquirindo fulgores mais vivos, tomando 
nova conceituação. 
E quando tudo isso lentamente minava o respeito e o te- 
mor que deviam haver no Novo Mundo, eis que os princípios de-
mocráticos triunfantes da guerra da independência norte-ameri-
cana, repercutiram com estrondo, passando a atuar com inter,. 
sidade nas colônias sul-americanas: espanholas e portuguesas. 
Poder-se-á dizer que o século XVIII não foi a grande cen-
túria apenas para a Europa; ele também o foi para as Américas, 
como o período de preparação das colônias para a vida livre, 
quando se apresentaram as primeiras tentativas de libertação 
no continente. Foi o tempo da independência dos Estados Uni-
dos, dos Emboabas, dos Mascates e da epopéia de Vila Rica. 
E não resta dúvida que com tudo isso a trama econômi-
ca, social e política da colônia portuguesa se complicou, en-
quanto o quadro literário se avolumava com a acentuação dos 
cronistas, dos pregadores, dos poetas e até dos estadistas e 
historiadores, todos cheios de um certo civismoem vislum- 
bre. 
Era a preparação para os novos tempos nacionais. 
Sintomas de agitação —
Revolução de 1817 
ERNAMBUCO de começos do século XIX já se apresenta-
va quase que inteiramente recomposto nos quadros de uma 
prosperidade comentada. 
Com o recrudescimento das guerras napoleônicas e com 
os desastres das colônias espanholas e inglesas, do que resul-
tara uma melhoria nos preços das exportações do Brasil, prin-
cipalmente do açúcar e do algodão, a antiga donataria de Duar-
te Coelho viu ressurgir as esperanças, começando a crescer 
outra vez de importância no mercado internacional, principal-
mente depois de 1808, quando o príncipe Regente D. João VI 
mandara abrir os nossos portos ao comércio com as nações 
amigas, elevado que houvera sido o Brasil à categoria de Rei- 
no. 
A trasladação da corte portuguesa para o Brasil em 1807, 
escapando às tropas de Junot, com as quais Napoleão mandara 
Invadir Portugal, trouxera incontestavelmente grandes vanta-
gens para nossa pátria. 
E principalmente para Pernambuco, onde, conforme acen- 
-ttramos no último capítulo, as idéias de liberdade e de persona- 
lização nacional eram mais acentuadas, e onde igualmente as 
sibilidades econômicas passaram novamente a impressionar. 
Sem se falar no açúcar, agora desimpedido no mercado 
rangeiro, sendo tão sensível a sua produção que em 1812 
dera a dos princípios do último século, surgira, também, a 
a áurea do algodão — quando se viam plantadores e co- 
rsários de negócios da herbácea — nadando na maré da for- 
a, com o aumento que chegava a quinhentos por cento no 
preço, como conseqüência da guerra de 1812 e 1813 entre 
1 
85 
11 
84 
A tradição chama a revolução pernambucana de 1817 de Revolução dos Padres por ter 
sido ela gerada no Seminário de Azeredo Cominho e trazer no bojo da sim 
rebeldia, 
nela diretamente envolvidos, 50 padres seculares e 5 frades. 
os Estados Unidos e a Inglaterra, e da extinção em 1815 do 
bloqueio continental, com a "perspectiva de mais largas expor-
tações de tecidos da Grã-Bretanha para os velhos mercados eu-
ropeus e os novos mercados latinos do Novo Mundo, tornando-
se indispensável a matéria-prima (algodão). para cujo supri-
mento não estava bastando mais a produção norte-americana". 
O Recife, agora cidade principal da capitania, oferecia, 
segundo os cálculos estatísticos do viajante inglês Henry Kos-
ter, que por ali andara em 1809, cerca de vinte e cinco mil habi-
tantes, sendo considerada a primeira praça comercial do Bra-
sil, sob o ponto de vista de relações mercantis com a Inglater-
ra, então o celeiro econômico-financeiro do mundo. Quanto a 
Olinda, embora ainda capital, continuava decrescendo de im-
portância, mas apresentava uma população de quatro mil al-
mas. 
Da Europa, como nos velhos tempos de antes da inva-
são holandesa, tinham recomeçado a chegar os barcos com os 
caros objetos manufaturados, artigos de luxo, bons vinhos 
queijos de classe, excelentes viandadas, etc. Da América do 
Norte surgiram auspiciosos os grandes navios carregados de 
farinha de trigo. 
Toda a capitania tinha quase 450 mil habitantes, para um 
total de três milhões de toda a colônia, sendo excedida ape-
nas pela Bahia e por Minas Gerais. 
Começava-se já a se observar pelos arredores do Reci 
fe as boas casas residenciais, fugindo do velho e clássico so• 
bradão comprido de séculos passados, levantados no centro da 
cidade, principalmente no bairro do Recife. Eram belas casas, 
algumas até de estilo, apresentando conforto quase semelhan-
te ao das famílias inglesas, rodeadas de jardins, ostentando 
largas janelas e vastos salões, onde à noite já se constituíra o 
hábito das reuniões sociais, com danças, declamações e até 
cantos. 
Em 1811 chegou-se a inaugurar em Olinda um Jardim 
Botânico, primeiro a ser aberto em toda a América. O velho 
convento dos jesuítas em Olinda, depois da brutal perseguição 
desencadeada pelo marquês de Pombal, que resultara na expul-
são dos seus ocupantes, fora entregue em 1799 ao bispo D. 
Azeredo Coutinho, que naquele ano tomara posse do bispado 
de Olinda. Em 1800 aquele sacerdote, um dos mais cultos pre-
lados do seu tempo, economista e doutor em teologia, ali inau-
gurou o primeiro Seminário da capitania, "para instrução da mo-
cidade em todos os seus principais ramos da literatura, pró- 
86 
pria não só de um eclesiástico, mas também de um cidadão, 
que se propõe a servir ao Estado". 
Não podia D. Azeredo Coutinho ter prestado a Pernam-
buco serviço mais relevante, pois que os estudos naquele se-
minário, pela profundidade cultural adiantada ao tempo, e ali 
difundida, representavam o mais arrojado empreendimento em 
favor da educação superior dos pernambucanos. 
Disse Oliveira Lima que o seminário realmente transfor-
mou as condições de ensino, "e com este os intelectuais da ca-
pitania, porque se constituíra, além de um viveiro de sacerdo 
tes, em uma escola secundária leiga, aliás a única ministrando 
educação teológica e também educação civil em belas le-
tras e algumas ciências". E Capistrano de Abreu chegou a di-
zer que sem a extraordinária influência de Azeredo na men-
talidade da pátria, "não surgiria a geração idealista de 1817". 
Ao receber em 1796, logo após a sua sagração como bis- 
po, a notícia da magnífica doação da velha casa dos jesuítas, 
com todas as suas alfaias e pratarias, se dispusera Azeredo 
Coutinho, de espírito iluminado pelas flamas revolucionárias do 
seu século, a tomar providências para servir diretamente à in-
dependência do Brasil, transformando na ocasião precisa a ex-
celente dádiva no celeiro das modernas idéias liberais. 
Incontestavelmente foi ele um grande patriota, e suas in-
tenções sempre foram de pugnar pela liberalidade da pátria, 
haja vista a pleiade de professores que para ali fora, como o 
padre João Ribeiro Pessoa, todos radicados naquelas idéias li-
berais da época, tão espalhadas pela França. 
No Brasil infiltrava-se mesmo sutilmente o jacobinismo 
francês, especialmente em Pernambuco, "onde as tristes remi-
niscências da guerra dos Mascates acalentavam uma tradição 
tal de oposição à metrópole, que em 1800 havia-se já conden-
sado um quimérico projeto de república sob o protetorado da 
França", e do que resultara a prisão, entre outros, dos irmãos 
Suassuna, que tendo escapado das sanções, por falta de provas 
concretas, haviam voltado a conspirar nas chamadas acade-
mias secretas do Cabo e do Paraíso, e até na biblioteca do 
hospital do Recife, dirigida por aquele padre João Ribeiro, em 
busca de adeptos. 
Disse um velho comentarista anônimo sobre a revolução 
de 1817, que "de fato os pernambucanos buscavam com ânsia 
os novos catecismos, atiravam-se a ele com fome; devorava-os 
com sofreguidão, e com isso quem não esperaria de tanto en-
tusiasmo ver progressos monstruosos?" 
88 
E a idéia de emancipação tomava vulto, se agigantava, 
provocando desequilíbrios por toda a parte. Enquanto nos quar-
téis a preferência acintosa dos oficiais portugueses ocasiona-
va o aumento dos recalques, o sentimento de ojeriza por Por-
tugal transpirava já publicamente, quando em certos banque-
tes ostensivamente o jacobinismo forçava o banimento das vi-
andadas e dos vinhos do Reino, substituídos pela comida da 
terra e pela aguardente de cana. Não eram raros os incidentes 
entre militares, ou civis, durante as festas públicas, principal-
mente de igrejas, onde os dúbios dizeres, as indiretas, as cha-
cotas de ambos os lados, se atritavam as vezes seriamente. E 
no efervescer de tudo isso a conspiração lavrando nas cinco lo-
jas maçônicas que haviam em 1816 em Pernambuco. 
A revolução de 1817, quaisquer que tenham sido as suas 
causas intrínsecas ou extrínsecas, encaradas sob qualquer ân-
gulo, foi pela primeira vez, tratando-se do Brasil com relação 
a Portugal, o grito de rebeldia social de uma parte da América, 
que "aprendera por fim a se levantar mais alto que a Europa e 
dar leis àqueles de quem tinham por hábito recebê-las". E is-
so partindo exatamente de Pernambucoque em 1654 tão cora-
josamente tinha provado à coroa portuguesa ser capaz de pro-
cedimentos nacionais os mais ilustres e corajosos, e em 1710 
ameaçara já com os sintomas de rebeldia. 
A tradição chama a revolução pernambucana de 1817 de 
Revolução dos Padres, e tem razão, pois foi ela gerada no Se-
minário de Azeredo Coutinho, e trazendo no bojo da sua rebel-
dia, nela diretamente envolvidos, cinqüenta padres seculares e 
cinco frades. Revolução sonora, começando com um Te-Deum, 
com oração gratulatória, práticas bonitas e atitudes patéticas 
nos púlpitos das igrejas. Comentou alguém: "a república man-
teve-se religiosa e até beata, para agradar a plebe e os vigá-
rios". O chefe e o secretário do governo provisório foram os 
padres João Ribeiro e Miguelinho. Pelos muros se afixaram as 
proclamações, que alternavam o sagrado com o profano: "Viva 
a pátria e viva a religião católica! Viva Nossa Senhora e mor-
ram os aristocratas!" 
De há muito que nas lojas maçônicas se conversava é 
de certo modo se tramava sobre a independência do Brasil, 
dali passando para as reuniões constantes com adeptos, em 
casas de particulares, entre homens letrados, advogados, cer-ta gente rica, nas sacristias das igrejas, nos próprios conven-
tos, etc. Domingos José Martins, rico comerciante, há pouco 
chegado da Europa, onde se educara, e radicado em Pernambu-
co, estava sendo o polarizador daquelas reuniões no Recife. 
89 
Governava a capitania o capitão-general Caetano Pinto 
de Miranda Montenegro, autêntico tipo do militar prepotente, 
sobre cuja personalidade correm as mais contraditórias ver-
sões, mas que a mordacidade popular do tempo chamava de 
Caetano no nome, Pinto na falta de coragem, Monte na altura 
do físico e Negro nas ações. 
Recebendo denúncias a respeito dos possíveis respon-
sáveis e de que as maquinações iam bem adiantadas, já se 
havendo marcado a explosão de um movimento sedicioso para 
o mês de abril, determinara que no dia 6 de março de 1817, 
pela manhã, em suas próprias residências fossem detidos os 
militares e civis nele envolvidos. 
No quartel do Regimento de Artilharia, porém, o coman-
dante Manuel Joaquim Barbosa, não atendendo ao que fora 
determinado, preferiu efetuar as prisões dos militares ali mes-
mo e com grande escândalo. Quando deu a voz de prisão ao 
capitão José de Barros Lima, conhecido como o Leão Coroado, 
este desembainhou a espada matando-o com o auxílio do seu 
genro José Mariano e outros oficiais. Tinha explodido inespe-
radamente a revolução marcada para dali a um mês. Reuniram-
se as forças portuguesas e tentaram resistir. Mas os revolto-
sos tinham aumentado em número. E em poucos dias foi ex-
pulso o governador Caetano Pinto e derrotadas as forças lu-
sas. 
Estava vitoriosa a revolução. Foi instalado um governo 
provisório composto de cinco membros, representando as clas-
ses: Domingo Teotônio Jorge (militar), Padre João Ribeiro (ecle-
siástica), Domingos José Martins (comercial), Dr. José Luís 
Mendonça (judicatura) e Manuel Correia de Araújo (agricultu-
ra). 
Pincelara-se o movimento com as tintas de uma revolta 
nos moldes franceses com certas classes burguesas progres-
sistas, cansadas do predomínio de uma nobreza portuguesa abu-
siva e de uma fase de espoliação, subindo ao poder para a de-
fesa dos seus interesses e, logicamente ao tempo, embora in-
concebível hoje, igualmente reivindicando certos direitos po- 
pulares. Organizou-se um arremedo da Revolução Francesa, 
com a instalação de uma República e a abolição do uso de Se-
nhor, devendo todos passarem a se tratar por Vós e Patriota. 
Deliberou-se ainda que os atos do governo seriam datados da 
segunda era da liberdade pernambucana, escolhendo-se uma 
bandeira azul e branca, repartida horizontalmente com um de-
senho simbólico. 
Para estender então o movimento revolucionário por to-
do o Nordeste, foram despachados emissários para as capita-
nias subalternas do Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ala-
goas. Para a Bahia seguiu igualmente um emissário, o padre 
Roma (João Inácio Ribeiro de Abreu e Lima) preso ao desem-
barcar. Não foram muito felizes também os emissários do Cea-
rá e do Rio Grande do Norte, sendo que o primeiro, o semina-
rista José Martiniano de Alencar, também foi preso ao desem-
barcar. De maneira que somente aderiram, e assim mesmo com 
pouco entusiasmo, as capitanias de Alagoas e da Paraíba. 
Foi quando chegou à corte no Rio de Janeiro o barco con-
duzindo o governador deposto, vários oficiais portugueses e a 
notícia da vitória em Pernambuco de um movimento revolucio-
nário republicano. Imediatamente foram tomadas todas as pro-
vidências para sufocar o levante, sendo despachadas para blo-
quear o porto do Recife uma flotilha real comandada por Rufi-
no Batista. Enquanto que por terra tropas bem adestradas eram 
enviadas da Bahia, pelo Conde dos Arcos. 
A 25 de abril uma nova esquadra chegava ao porto pa-
ra reforçar o bloqueio; comandava-a o almirante Rodrigo Lobo. 
Apertaram-se as tenazes, com um exército por terra já próximo 
do Recife e as tropas insurretas enviadas para combatê-lo, re-
tornando completamente derrotadas. Em pouco tempo caíram 
os heróis republicanos de 1817. A 18 de maio o almirante Lo-
bo ocupou militarmente o Recife. A 1.° de julho, como novo 
capitão-general e governador, munido de poderes absolutos, 
desembarcava, cheio de ódio e maldade, o oficial do exército 
português Luís do Rêgo Barreto. 
A república demorara assim mesmo setenta e cinco dias, 
e teria talvez subsistido, ou dado pelo menos outro rumo à po-
lítica colonial, se não tivesse faltado ao governo provisório ini-
ciativa para lançar mão de preciosos recursos de guerra exis-
tentes na capitania, em vez de se preocupar com corriqueiros 
problemas pessoais e de administração. Não se cuidou seria-
mente da defesa militar e subestimou-se consideravelmente a 
reação da coroa. Haviam os chefes da revolução se engolfado 
demasiadamente com a efêmera vitória conquistada, e os che-
fes militares começaram fugindo por diferentes caminhos, en-
quanto os soldados abandonados irrompiam em atos de deses-
pero. Profundamente chocado n padre João Ribeiro, "coração 
de ouro e alma ingênua, sofrendo mais com os desenganos que 
com os sofrimentos", não suportou a angústia e enforcou-se. 
Outros chefes foram sendo caçados, e em pouco tempo as ca-
deias e as fortalezas do Recife e de Salvador abarrotavam de 
90 91 
vitimas, enquanto se erguiam as forcas e se decepavam as ca-
beças e as mãos dos mais implicados. 
O território era novamente mutilado, agora com um cas-
tigo, havendo-se dado a independência administrativa às terras 
das Alagoas e do Rio Grande do Norte, que foram desligadas 
da tutela de Pernambuco, tornando-se livres, conforme o aviso 
Régio de D. João VI, de 29 de abril, com referência à primeira 
e os decretos de 18 de março de 1818 e 23 de fevereiro de 1820, 
tratando-se do segundo. 
Pernambuco pagava bem caro pelo seu sonho de liber- 
dade. 
Governo de Luís do Rêgo 
e Revolução de Goiana 
C OM A CHEGADA EM JULHO do capitão-general Luís do 
Rêgo Barreto, oficial dos mais ilustres e considerados na cor-
te, brigadeiro e herói da guerra peninsular, condecorado pela 
Rainha da Inglaterra e elogiado pelo general Welington, esta-
beleceu-se o desforço violento e quase anárquico da coroa con-
tra Pernambuco. 
A máquina de opressão, organizada por uma numerosa 
tropa de escol que trouxera e pelas instruções especiais que 
lhe haviam sido ministradas, começou a funcionar com rara vio-
lência, enquanto os bens dos envolvidos no movimento revolu-
cionário eram sequestrados, e no coração de cada um dos ha. 
bitantes se aninhava mais fortemente o ódio contra o estran-
geiro, o marinheiro, como era apelidado o português no Brasil. 
Luís do Rêgo e seus subordinados, sobretudo os oficiais. 
homens devassos, bêbados e libidinosos, trouxeram a capitania 
em constante tirania e opressão, com as prisões cheias, com 
PS açoites e os mais esmerados vexames e suplícios aos da 
terra, onde nemdesco-
berta e oficializar aquela posse organizada por Pinzon, de ter-
ras desconhecidas, em nome das coroas de Castela e Leão, en-
quanto que Portugal passava a anunciar as descobertas de Ca-
bral, procurando, em sua natural vaidade, ofuscar a glória en-
tão detida nas mãos da Espanha, no que dizia respeito à tão 
falada e comentada descoberta do Novo Mundo, pelo genovês 
Cristóvão Colombo, a mando de Castela. . 
As descobertas de Pinzon e de De Leppe, haviam ficado, 
em face do exposto, ocultas nos arquivos. Não convinha à po-
lítica de conquista dos mares desconhecidos, então, travada 
entre os povos ibéricos, que a Espanha as anunciasse. Existia 
o Tratado de Tordesilhas celebrado entre aqueles povos católi-
cos, sob a inspiração do Papa Alexandre VI, coarctando o en-
tusiasmo. 
Em 1501 mandou D. Manuel preparar uma outra frota 
para seguir com destino às terras descobertas por Cabral, a 
fim de verificar a grandeza da nova possessão portuguesa. En - 
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tregou a orientação cartográfica a Américo Vespúcio, um na-
vegador florentino de muita fama, que, agastado com a Espa-
nha, onde se encontrava, pelo pouco caso que ali se dera às 
viagens que fizera às Guianas, aceitara o convite do Rei de Por-
tugal. A esquadrilha viera sob o comando de Gaspar Lemos, 
que fora o portador ao Rei das boas novas de Cabral, e que 
devia conhecer bem a rota para o Novo Mundo. 
Saindo de Lisboa a 10 de maio daquele ano, a nova ex-
pedição portuguesa, depois de 67 dias de acidentada viagem, 
alcançou o litoral do Brasil. E a 17 de agosto de 1501, notou 
as costas do Rio Grande do Norte, onde foi mal sucedida em 
um encontro com os nativos. Depois, a 28, estando costeando 
rumo ao sul, divisou novas e extensas terras, nas vizinhanças 
de um bem visível cabo. Era Santa Maria de La Consolación, 
descoberta pelos espanhóis no ano anterior, e a que Américo 
Vespúcio, de calendário cristão em punho, chamou de Cabo de 
Santo Agostinho, que era o nome do Santo do dia. 
Estava Pernambuco agora sob as vistas de Portugal. Não 
haveria mais dúvidas a respeito da sua posse em poder da co- 
roa lusa. 
Dali seguiu Vespúcio sempre na mesma rota, até alcan- 
çar São Vicente, a 22 de janeiro do ano seguinte, não sem an-
tes marcar em sua cartografia a embocadura do rio São Fran-
cisco, defrontado a 4 de outubro, ao qual a população indígena 
dava o nome de Piratininga, e que viria, poucos anos depois, a 
ser o divisor dos limites da futura Capitania. 
Início do povoamento 
M AL REGRESSAVAM a Lisboa as caravelas de Gaspar Le-
mos, e já, em 1503, partia de Portugal uma outra expedição des-
tinada às costas do Brasil. Era comandada por Gonçalo Coelho, 
e se dividiu em duas ao defrontar com a ilha de Fernando de 
Noronha (então chamada São João). 
Embora tenham continuado as embarcações em duas ar-
madas, destinadas respectivamente a cabo Frio e ao Rio de Ja-
neiro, onde fundaram feitorias, passaram em frente de Pernam-
buco, divisando-o perfeitamente, e é provável que ai tenham 
desembarcado. 
Daí em diante, durante quase todo o resto do reinado de 
D. Manuel, as costas do Brasil, principalmente aquelas que se 
estendiam desde o Cabo de São Roque até a altura de São Vi-
cente, e já determinadas por Américo Vespúcio, ficaram como 
que abandonadas pela coroa portuguesa, começando a ser va-
rejadas por aventureiros franceses e lusos, a procura de coi-
sas da terra, notadamente o pau-brasil, mercadoria já corren-
te e muito procurada na Europa. 
As informações chegadas ao Reino eram pouco lisonjei-
ras e retratavam as novas terras como muy pocas férteis em ou-
ro, metais, robis, piedras e perlas preciosas, sem observar a 
respeito da feracidade do solo e das possibilidades vegetais, 
oferecendo apenas um aspecto selvático ainda confuso e ata-
balhoado. As notícias se conflitavam, então, na imaginação dos 
nobres em Portugal, pelo contraste das novas terras com a ín-
dia rica e opulenta, de edifícios fantásticos, de especiarias ren-
dosas, tradição comercial e civilização secular, detentora da 
indústria das pedras preciosas das mais raras, mercantilmen-
te cobiçadas por toda a parte, oferecendo lucros fabulosos a 
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curto prazo, "infinitas tentações, monopolizadoras de todo o 
sangue e atividade dos portugueses". 
Isso explica o porquê de D. Manuel ter se preocupado 
tão pouco com a exploração do Brasil. 
Diz-se que foi logo em 1504 que corsários franceses co-
meçaram a aparecer nas costas já cartografadas do Brasil, re-
cordando até o nome de Gonneville e as constantes visitas dos 
navios da Gália, entre eles os de Honfleur e de Dieppe, que 
eram os mais falados, enquanto mercadores lusos, às suas cus-
tas, para ali também singravam em busca do pawbrasil. Data, 
pois, daí, a fundação das primeiras feitorias temporárias, orga-
nizadas para adquirir a madeira de tinturaria, que era abundan-
te na terra, e principalmente em Pernambuco, região mais ori-
ental e, portanto, mais perto da Europa. 
Que tanto portugueses, como franceses, negociaram nas 
costas do Brasil, desde os primeiros anos do século XVI, é te-
se pacífica, aceita por todos os historiadores do povoamento 
do nosso litoral. E ao lado do comércio do pau-tinta (chamado 
pelos índios de Ibirapitanga) outros artigos, como macacos, pa-
pagaios, peles de animais, eram enviados à Europa, onde esta-
vam sendo bem comercializados. 
Destarte, começou-se a verificar um número apreciável 
de embarcações, rumando às praias de Pernambuco, ali se en-
tretendo suas tripulações no comércio com os índios, e ocasio-
nando constantes lutas entre portugueses e franceses. Os pri-
meiros, alegando o seu direito às terras descobertas, e os se-
gundos, defendendo o princípio da liberdade de comércio. Preo-
cupado, o Rei de Portugal começou a reclamar da França con-
tra os atos de pirataria que estavam sendo praticados, e o so-
berano francês, que se julgava prejudicado pelas resoluções 
do Tratado de Tordesilhas, que dividira o mundo não europeu 
entre Portugal e a Espanha, não deu ouvidos às reclamações, 
e, antes pelo contrário, procurou incentivar o corso contra as 
embarcações lusas. 
E enquanto se querelava no Velho Mundo, a costa bra-
sílica, mormente a pernambucana, ia sendo aos poucos povoa-
da, pois já os navios que demandavam as índias, e alguns bar-
cos espanhóis que seguiam para a região do rio da Prata, toca-
vam no território ao longo do Cabo de Santo Agostinho, para 
fazer aguada, deixando em terra degredados ou náufragos, que 
quando não eram devorados pelos índios, faziam vida com 
eles. 
Em 1515, embora não exista uma base documental, ad-
mite-se que o povoamento de Pernambuco já era um fato, pois 
14 
11~ 
Depo s da expediçtfo de Gonçalo Coelho, durante quase todo o resto do reinado 
de D. Manuel, as costas do Brasil ficaram corno que abandonadas pela coroa portu-
guesa, começando a ser varejadas por aventureiros franceses e lusos d procura de 
coisas da terra, principalmente o pau-brasil, mercadoria muito procurada na Europa. 
D. Manuel, impressionado com as notícias, "ordenou por um 
Alvará, ao feitor e oficiais da Casa da índia, que dessem ma-
chados e enxadas e toda a mais ferramenta a pessoas que fos-
sem povoar o Brasil", enquanto, por outro documento ordena-
va que "se procurasse e elegesse um homem prático e capaz 
de ir ao Brasil dar princípio a um engenho de açúcar, e que se 
lhe desse ajuda de custa e também todo o cobre e ferro e mais 
coisas necessárias, a construção de um engenho". 
Essa preocupação do Rei, sabe-se que teve algum resul-
tado, porque em 1526, já reinando D. João III, chegava a Lis-
boa, pagando direitos na Casa da índia, algum açúcar "saído 
de Pernambuco e Tamaracá", que foi o primeiro a se fabricar 
no Brasil. 
Naquele ano de 1516, seguira para o Brasil o capitão Cris-
tóvão Jaques, a mando de Portugal, com aquelas mesmas ins-
truções dadas anteriormente a Gaspar Lemos: de proceder um 
melhor reconhecimento da costa e das possibilidades da nova 
terra. Foi ele quem, naturalmente, fundou a primeira Feitoriasequer os lares eram respeitados, e as mu-
lheres passavam a ser brutalmente violentadas. Por muito tem-
po sofreu Pernambuco os mais requintados horrores, que fi-
nalmente começaram a impressionar D. João VI, iniciando-se 
Uma série de instruções para se atenuar o ambiente de des-
forços e de perseguições, até que chegaram ordens definiti-
vas para encerrar-se as devassas, bem como o arbítrio das co-
missões militares e do próprio governo, devendo se remeter 
os presos para a Bahia, onde seriam julgados. 
Absorvido que fora Portugal, desde fins de 1807, pela 
Onipotência francesa, sendo retalhado aos caprichos do acordo 
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	Page 44
	Page 45Régia de Pernambuco, onde deve ter ficado Pero Capico, que 
foi possivelmente o primeiro fabricante de açúcar brasileiro, de 
cuja empírica fabricação seguira para Lisboa, em sua compa-
nhia, dez anos depois, aquela primeira remessa que pagou os 
direitos da Casa da índia. 
Em 1526 a costa pernambucana foi visitada pelas expe-
dições espanholas de Sebastião Caboto e Rodrigo de Acufia, 
que chegaram a ser agasalhados pelo encarregado da Feitoria, 
um tal de Manuel Braga. Estava localizada a cerca de doze lé-
guas ao Norte do Cabo de Santo Agostinho, e nela viviam tre-
ze portugueses, "os quais já haviam assimilado certos costu-
mes indígenas, pois possuíam plantações de milho, mandioca, 
assim como papagayos muy buenos. Também criavam galinhas, 
naturalmente trazidas de Portugal". 
Em 1521 morrera El-Rei D. Manuel — O Venturoso --
subindo ao trono português o príncipe D. João, seu filho, que 
tomou o nome de João III, do mesmo ramo ainda dos Aviz, bas-
tante moço, de menos de vinte anos. 
Os primeiros cinco anos, do novo reinado passaram des-
percebidos, de forma que, por mais de um quarto de século, es-
teve a terra de Pernambuco, quiçá do Brasil, quase que abando-
nada por Portugal, e assim continuaria se os franceses não pre-
tendessem ocupá-la definitivamente. 
Em 1526 foi que o novo soberano despertou da inércia, 
para, apavorado com as notícias enviadas pelo seu embaixa-
dor em Paris, de que se estavam armando na França dez navios 
para seguir rumo ao Brasil, com instruções para ocupar a terra, 
mandou às pressas uma esquadrilha de cinco caravelas e uma 
nau, com as melhores armas, bons soldados e vasta munição, 
para defender as suas terras no Novo Mundo. 
Coube o comando ao capitão Cristóvão Jaques, o mes-
mo que ali já andara em 1516, servindo como chefes subalter-
nos Gonçalo Leite, Gaspar Correia e Diogo Leite. 
A atuação do capitão português foi das mais violentas, 
conseguindo derrotar e expulsar os franceses instalados ao lon-
go das praias, desde Pernambuco até o extremo sul conhecido 
do Brasil, mandando também levantar na margem do canal que 
separa do continente a ilha de Itamaracá, extremo norte daque-
la costa, uma Feitoria Real. 
Fora o homem indicado para aquelas funções de policiar 
as praias abandonadas do Brasil. Não contemporizava com os 
corsários. Era até quase desumano. Conta-se que enterrava 
prisioneiros franceses na areia das praias, até o pescoço, para 
servir de alvo, nos exercícios de tiro, da soldadesca vencedo-
ra. 
As noticias que trouxera de volta, abalaram ainda mais 
o indiferentismo da corte portuguesa, e o novo soberano con-
venceu-se por fim que o Brasil seria mais útil ao seu Reino que 
a Índia, "cujos lucros começavam a decair, após os sucessivos 
desastres a que ficara exposta", resolvendo colonizar as ter-
ras do Novo Mundo, a fim de que elas não caíssem definitiva-
mente nas mãos dos franceses. 
Seu primeiro passo foi enviar uma expedição coloniza-
dora, sob o comando do seu amigo pessoal, Martim Afonso de 
Souza, que viajou em companhia de um irmão, Pero Lopes de 
Souza, o qual deixou, para posteridade, um documento impor-
tante, que foi o seu Diário de Navegação. 
Essa expedição alcançou Pernambuco a 31 de janeiro de 
1531, onde teve de combater e expulsar várias embarcações 
francesas, que ali se entretinham negociar -aio com os índios. 
Desembarcou e constatou que a Feitoria deixada por Cristóvão 
Jaques havia sido destruída pelos franceses, e seus ocupantes 
massacrados. Reparou-a, deixou novas forças de ocupação e 
prosseguiu viagem rumo ao sul. 
O inimigo, porém, espreitava. E enquanto Martim Afon-
so percorria o resto da costa brasileira, o francês Jean Duperret, 
comandando a nau La Pelerine, desembarcava em Pernambuco, 
apoderando-se da nova Feitoria, aprisionando os que ali se en-
contravam, e fazendo construir uma Fortaleza provisória, onde 
deixou setenta franceses bem armados, não sem antes ter ar- 
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rebanhado para a Europa uma rica carga de "cinco mil quintais 
de pau-brasil, trezentos de algodão, três mil peles de animais, 
grande número de papagaios, macacos, e bugiarias". 
Mas não foram felizes os franceses ali deixados, pois, 
em seu regresso, em meados de 1532, Pero Lopes de Souza 
atacou a fortaleza e, após dezoito dias de combate, dominou 
os invasores, desembarcando novamente em Pernambuco, on-
de restaurou a velha Feitoria de Cristóvão Jaques, dali seguin-
do para a corte com as notícias e uma preciosa carga. 
Assim, pode-se afirmar que o povoamento de Pernambu-
co foi principiado no período anterior à criação das Capitanias 
Hereditárias, havendo ocorrido lentamente a partir de 1503, em 
face da disputa dos corsários franceses com os elementos por-
tugueses, na exploração econômica desenfreada, sem métodos, 
do pau-brasil, abundante e de primeira qualidade nas terras per-
nambucanas. 
Os primeiros trinta anos do século XVI foram de dispu-
tas entre os franceses e os portugueses. Corsários da França 
e expedições portuguesas organizadas pelo Governo, ou arma-
das por comerciantes que haviam arrendado o escambo da ma-
deira da tinta, percorriam as costas brasileiras, principalmente 
do Nordeste, comerciando com os índios. 
Mas já se espancara a inércia real, e a corte começava 
a ouvir os estalidos da máquina progressista, prestes a ser pos-
ta em movimento por D. João III. 
Duarte Coelho: 
Despontar da colonização 
E STAVA, COM O REGRESSO de Martim Afonso, ao Reino, 
esclarecida quase toda a costa brasileira, havendo já um certo 
entendimento com algumas tribos de índios mais acessíveis, 
quando começou a coroa a pensar mais seriamente na coloni-
zação das novas terras. Compreendera D. João III, por fim, que 
se não colonizasse logo o Brasil, terminaria perdendo-o para 
os franceses, sendo, pois, imperativa uma solução que impe-
disse tão lamentável desfecho. 
E qual seria ela? Havia de um lado, uma população por-
tuguesa relativamente pequena, uma coroa de recursos restri-
tos e um alto comércio empenhado nos negócios com as Ín-
dias. Se já era difícil ao Reino manter as Feitorias existentes 
na costa indiana, muito mais estava acontecendo com o desgar-
ramento daquelas expedições antes enumeradas, rumo ao Bra-
sil. De outro lado existia uma terra imensa, longínqua, de po-
pulações bravias e hostis, mas da qual as novas expedições 
que iam regressando ofereciam agora melhores informações, 
principalmente sobre a fertilidade do solo para uma nova agri-
cultura, a da cana-de-açúcar, bem como os excelentes lucros 
proporcionados pelo pau de tinturaria, altamente reclamado na 
Europa, pelo uso em voga dos tecidos de cores berrantes. 
E o desfecho chegou breve, em face dos conselhos mi-
nistrados pelo Dr. Diogo Gouveia, do Conselho Privado de Sua 
Majestade, recordando o sistema já empregado com sucesso 
pelo Infante D. Henrique nas Ilhas da Madeira: a adoção do re-
gime das capitanias hereditárias. Antes, em 1526, Cristóvão 
Jaques, ao regressar da viagem ao Brasil, e João de Melo Cã- 
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Chegada de Duarte Coelho a 9 de março de 1535, conduzindo sua mulher, D. Brites, 
um cunhado de nome Jeránimo de Albuquerque e uma numerosa comitiva 
de nobres para povoar a terra. 
mara, já se haviam oferecido para colonizar as suas custas, me-
diante certas concessões, aquelas terras. 
De modo que a partilha do Brasil, aventada e já resolvi-
da intimamente por El-Rei em 1532, amadurecida em 1533, a 
partir de 1534, após o regresso de Marfim Afonso, ao reino, 
com definitivas informações sobre o Novo Mundo, foi posta em 
execução. 
A organização das capitanias, segundo Caio Prado Júnior, 
Carlos Malheiros Dias e outros autores, teve suas raízes no 
sistema feudal, adotado durante muito tempo na velha Europa, 
e já em decadência, naturalmente pelo influxo do desenvolvi-
mento social — embora empírico — resultante do ciclo da ci-
vilização Renascentista. No Novo Mundo, todavia,iria ser ex-
perimentada como uma maneira mais prática para o então difí-
cil panorama econômico de Portugal, pois se tratavam de doa-
ções de vastas terras a particulares — fidalgos ou não — que 
ficariam obrigados a povoá-las e fazê-las render às suas cus-
tas. Caracterizavam-se pela cessão de uma Carta de Doação, 
onde eram indicados os limites e localizada a Mercê Régia, 
além da concessão de importantes atributos da autoridade so-
berana, e por um Foral que esclarecia sobre os direitos, os fo-
ros, os limites e coisas, além dos deveres do beneficiado, e 
melhores especificações da posse. 
Estava, então, já assinalado o litoral de Pernambuco, si-
tuado desde a foz do rio São Francisco, rumo ao Norte até al-
cançar a foz do rio Santa Cruz, que cerca em redondo a ilha de 
Itamaracá, e, naqueles dias em pontos esparsos das praias, 
principalmente no extremo norte, habitado por pequenos nú-
cleos de portugueses, apenas como forças de ocupação. 
A Duarte Coelho, portador de alguma nobreza, perten-
cendo a uma linha de navegadores e exploradores, tendo servi-
do sob as ordens de Vasco da Gama e de Afonso de Albuquer-
que, que o recomendara às graças e mercês de Sua Majesta-
de, havendo desposado recentemente na corte a Dona Brites 
de Albuquerque, parenta próxima e protegida do grande cabo 
afonsino, foi dada a incumbência de ocupar e colonizar Per-
nambuco. 
Regressara ele ao Reino em 1534, na companhia de Mar-
tim Afonso de Sousa, que voltava do Brasil, havendo-o encon-
trado em viagem (diz-se até que nas próprias águas brasileiras, 
para onde Duarte se desviara, ao retornar da Ilha Terceira, on-
de estivera a serviço), quando recebeu o convite do seu Sobe-
rano. 
20 
Na verdade sua fama e seu prestígio já eram crescentes 
mi corte, e D. João III escolheu-o convicto de suas qualida-
des. 
No mesmo ano de 1534, a 10 de março, foi-lhe dada a 
Carta Régia de Doação, concedendo o direito e o usufruto das 
novas terras. Dispunha para explorar no Novo Mundo de ses-
senta léguas de litoral, contando talvez mais de doze mil lé-
guas quadradas de continente, sem falar na posse exclusiva do 
Rio São Francisco. 
Ao norte do rio Capibaribe-mirim erravam os índios Po-
tiguares; os Tabajaras espalhavam-se daí até o cabo de Santo 
Agostinho; enquanto os Caetés, antropófagos e, mais que os 
outros, bem trabalhados pelos franceses, embora incursionas-
sem constantemente, com instalação de tabas e agressões, 
atingindo Olinda e Igaraçu, dominavam mais o lado sul daque-
le Cabo, indo até às margens do Rio São Francisco onde se 
aliavam aos Abacoariaras, dominadores das ilhas sanfrancis-
canas. Próximos daí também se encontravam os Mariquitos, 
os Chucurus, os Vouvés e os Pipianos, igualmente da mais ex-
trema brutalidade, ocupando os limites ocidentais da futura ter-
ra alagoana. 
Eram todos ramos de uma só nação, a dos tupis, se con -
tando por dezenas de milhares. Estatura média, embora de 
compleição robusta, feios de rosto, tez bronzeada, sendo exí-
mios na caça e na pesca. Cultivavam rudimentarmente a man-
dioca, o milho, o feijão e o fumo. Ciosos do predomínio que 
livremente sempre exerceram naquelas paragens, e influencia-
dos pelos franceses, viam sempre nos portugueses um inimigo, 
um algoz. 
Chegou Duarte Coelho em sua Capitania a 9 de março 
de 1535, conduzindo sua mulher, Dona Brites, um cunhado de 
nome Jerõnimo de Albuquerque, e mais uma numerosa comiti-
va de muita gente nobre, boa linhagem, luzidia, para povoar a 
terra. 
Acompanhou-o, por determinação de El-Rei, interessado 
na organização administrativa da colônia, e na assistência es-
piritual aos que ali iam viver, um Feitor e Almoxarife Real, que 
Foi Vasco Fernandes de Lucena, aquinhoado com dois por cen-
to das rendas que fossem arrecadadas, e mais um Vigário, que 
foi o Padre Pedro Figueira, com quatro capelães, recebendo 
aquele um ordenado anual de quinze mil réis, e os outros oito 
mil réis cada um. 
Duarte Coelho desembarcou com sua gente, grossa ar-
mada e pessoal de guerra, às margens do Rio Santa Cruz, no 
local chamado depois de "Os Marcos", por ter ele chantado 
em terra um marco de pedra com as armas reais: ali havia unia 
Feitoria Régia, levantada por Cristóvão Jaques. Depois avan-
çou um pouco até encontrar a foz do afluente Igaraçu, onde su-
biu alguns quilômetros e fez parada. 
Altivamente denominou Nova Lusitânia a sua Capitania 
e erigiu logo ali uma pequena povoação, que tomou o nome de 
Santa Cruz e depois Igaraçu, entregando-a à responsabilidade 
de Afonso Gonçalves, um vianês que viera em sua companhia. 
Aquele nome Igaraçu, originou-se da corruptela do tupi Igara. 
Açu, que quer dizer "barco grande, canoa enorme" como os in-
dígenas designavam as grandes embarcações em que Duarte 
Coelho havia aportado. 
Depois de ali permanecer algum tempo, tendo travado 
algumas lutas com os nativos, e construído uma igreja em ação 
de graças pelas vitórias alcançadas, e que foi a dos Santos Cos-
me e Damião, seguiu o donatário algumas léguas para o Sul, 
atravessou o Rio Doce e alcançou uma colina, onde havia um 
aldeamento de índios, ali fundando Olinda, sobre cuja origem 
do nome existem várias versões, instalando a sede do Gover-
no, fazendo funcionar uma Câmara, levantando um castelo, e 
outorgando, a 12 de março de 1537, o Foral da Vila, onde se re-
servavam terras das vizinhanças para utilização por parte dos 
habitantes brancos, na Indicativa da existência de um governo 
organizado. 
Ali foi atacado várias vezes pelos silvícolas, que coloca-
vam os colonos em situações bem difíceis, impondo-lhes gran-
des perdas. Salvou-os, segundo relata o velho cronista Frei Vi-
cente do Salvador, o amor de uma índia pelo Almoxarife-Real, 
Vasco Fernandes, pois durante pesados cercos ela fornecia, 
ajudada por outras nativas, durante a noite, água e mantimen-
tos aos sitiados. 
Depois, graças a algumas artimanhas daquele almoxari-
fe, os índios se aquietaram um pouco e permitiram aos portu-
gueses iniciar sem grandes atropelos a sua ação colonizadora. 
Mais tarde, a união de Jerônimo de Albuquerque, aquele cunha-
do do donatário, com a filha do cacique Arcoverde, consolidou 
ainda mais a paz e proporcionou a Duarte Coelho fruir de uma 
relativa tranqüilidade. 
Sabia, porém, que a resistência dos índios estava sendo 
insuflada pelos franceses, que teimavam em se aproximar de 
terra, e, após consolidar de certo modo a posse, passou a via-
jar com caravelões ao longo da costa, varejando os invasores, 
22 	 23 
conhecendo a mesma em seus acidentes e negociando o pau-
brasil com as tribos pacificadas. 
Aos poucos a calma foi se estabelecendo, as sesmarias 
começando a ser doadas aos homens de destaque que acompa-
nharam os donatários, e outros que começaram a chegar de-
pois, havendo o seu cunhado Jerônimo de Albuquerque funda-
do o primeiro grande engenho da capitania, que foi o de N. S. 
da Ajuda, nas proximidades de Olinda, seguindo de lá para Lis-
boa as primeiras remessas de açúcar, isso entre 1540 e 1541. 
Naquele último ano, havendo de certo modo dominado 
os indígenas, organizado um governo e firmado a donataria, re-
solveu Duarte Coelho ir ao Reino, dizem que para obter emprés-
timos e adquirir material necessário à fundação de novos en-
genhos. Parece que teve sucesso, pois no ano seguinte, já no-
vamente em Pernambuco, escrevia ao Rei, informando sobre a 
situação da agricultura canavieira na colônia, e dos seus es-
forços para firmar prosperamente a agro-indústria açucareira. 
E em 1550 escrevia novamente, desta vez eufórico, dizendo ha-
ver já na Nova Lusitânia, "cinco engenhos correntes e moen- 
i tes". 
Uma coisa apenas preocupava Duarte Coelho, que por di-
versas vezes reclamara ao Rei: a remessa que se começara a 
fazer para as suas terras de "degredados do Reino", muitas ve-
zes criminosos da mais baixa classificação, bem como a atua-
ção dos chamados "contratadores de pau-brasil", negociantes 
portugueses a quem o Rei fizera determinadas concessões. 
Eram uma escória de aventureiros, que para a novaterra imi-
gravam, em busca de fortuna fácil, desprovidos de quase ne-
nhum escrúpulo, explorando desumanamente os índios, gerando 
guerras e desconfianças entre nativos e brancos, além de ten-
tar implantar na colônia a indisciplina e a corrução dos costu-
mes. 
Em 1553 embarcou o donatário outra vez para a Europa, 
a fim de se entender com o seu Soberano. Dizem que o Rei ti-
nha-o chamado. Mas ele estava mesmo precisando se avistar 
com D. João, agastado com muitas coisas, entre elas a criação 
do Governo Geral do Brasil, que vinha pretendendo se imiscuir 
nos assuntos da sua capitania, então ainda chamada de Nova 
Lusitânia. 
Em Portugal já se encontravam seus filhos Duarte e Jor-
ge, nascidos em Olinda, "para que recebessem na Europa uma 
educação à altura do nome e dos títulos que deveriam pos• 
suir". O Governo de Pernambuco ficou sendo exercido pela 
sua esposa, Dona Brites, assistida pelo irmão. 
Em Lisboa foi mal recebido pelo Rei, e, profundamente 
chocado, estando já doente, veio a falecer em princípios de 
1554. Assim, sua esposa permaneceu no Governo até 1560._ 
Os quase vinte anos de ad riiiniSTrã-Cro de Duarte Coelho, 
foram dos mais difíceis, tendo constantemente enfrentado os 
indígenas e conquistado, palmo a palmo, as terras doadas, além 
de haver permanecido em contínua preocupação contra os pi-
ratas franceses e contra os aventureiros lusos, acrescidos da 
escória de degredados do Reino. 
Mas, assim mesmo, a verdadeira colonização de Pernam-
buco foi feita com gente da melhor espécie, gente nobre, de 
posição, porque "o excedente da prostituição que não apodre-
cera e o pior da criminalidade que escapou à forca, mais ou 
menos regulamente remetidas da metrópole, para ajudar na 
formação da colônia", não havia conseguido influenciar, graças 
aos cuidados extremos do donatário, que conseguira restringir 
o melhor que pôde a sua penetração perigosa na sociedade em 
esboço. 
O pau-brasil continuava a ser a principal fonte de renda, 
embora os colonos houvessem começado a cultivar lavouras 
de mantimento e, principalmente, a sacharum officinarum, que 
proporcionava o auspicioso início da agro-indústria açucareira, 
quando o açúcar começava a repontar no mundo inteiro com en- 
tusiasmo. 
Mas Duarte Coelho morrera em Lisboa. Ele que fora o 
fundador de Pernambuco, se finara pobre, individado e ralado 
de desgostos. Somente depois do seu passamento foi que se 
processou definitivamente o afastamento dos índios tabajaras 
da extensa área da Várzea do Capibaribe, onde viria a crescer 
de importância, dentro de poucos anos, a agro-indústria cana-
vieira, que começou a carrear até os princípios do século XVII, 
Para Pernambuco, a fama de ser a mais rica e opulenta colônia 
de Portugal, no Novo Mundo. 
Deve-se, assim, aos esforços de Duarte Coelho, domi-
nando os índios e organizando a administração da sua capita-
nia, a possibilidade do grande terreno que sáfaro recebeu o 
surto de progresso, dominando totalmente a região dos fins do 
século XVI até meados do seguinte. 
25 
24 
 
 
 
Lutas para estabilização 
N AO RESTA A MENOR DÚVIDA que a terra para onde se 
encaminhara Duarte Coelho, significava mesmo em língua tu-
pi "furo do mar". Os indígenas chamavam a entrada da barra, 
de Pêra-Nhambuco, que quer dizer Pedra Furada ou Buraco, 
em alusão à abertura que há nos extensos arrecifes naturais 
de pedra ali existentes, e por onde entravam os navios no an-
coradouro. Inicialmente, o nome de Pêra-Nhambuco não fora 
dado à barra do Recife, mas sim a de Itamaracá. Eugênio de 
Castro chega a afirmar que por isso teria havido até um "Per-
nambuco Velho" e um "Pernambuco Novo". 
A despeito do donatário ter pretendido intitular de No-
va Lusitânia as terras que lhe haviam sido doadas, prevaleceu 
o nome indígena, pela constante referência dos íncolas, melhor 
aceita por eufonia, pelos lusos, que, sem compreender bem, 
começaram a chamar de Pará-Nhambuco, até atingir por fim a 
corruptela hoje conhecida de "Pernambuco". 
O afastamento dos índios da famosa Várzea do Capiba-
ribe, desde a foz do rio com o mesmo nome até a atual cida-
de de S. Lourenço, se deu em virtude da guerra desencadeada 
Pelos caetés, ao terem confirmação da morte de Duarte Coe-
lho, e irritados com a aliança que se verificara entre colonos 
e algumas tribos tabajaras, seus tradicionais inimigos. 
Ainda estava latente o ódio de morte contra os lusos, e 
que os franceses haviam desencadeado em seus espíritos, 
quando sucedeu a união de Jerônimo de Albuquerque com a fi-
lha do chefe tabajara Arcoverde, resultando aquela aliança, e 
tudo se precipitou, ao correr a notícia da morte do velho dona-
tário e a presença daquele genro do chefe tabajara no governo 
da Colônia. 
27 
Irrompeu, então, uma guerra desumana que durou dois 
anos, findo os quais foram os índios empurrados para as terras 
além dos Guararapes. A luta acarretara grandes perdas para 
os colonos, que tiveram alguns dos seus engenhos destruídos, 
como os de Igaraçu e Santiago, cujos donos, não dispondo de 
meios, ficaram na miséria. Também não foram pequenas as 
despesas feitas com a guerra, e Jerônimo de Albuquerque, que 
fora várias vezes batido pelos índios e até ficado ferido e alei-
jado, passando a ser alcunhado de "O Torto", chegou a escre-
ver ao Rei, apelando por ajuda: "... por motivo desta guerra e 
sustentar esta capitania despendi muita fazenda e fiquei endi-
vidado e pobre". 
Os índios, que ficaram espalhados por quase todo o li-
toral, voltaram a liça, matando e devorando desta vez o Bispo 
D. Pero Fernandes Sardinha, o Provedor Antônio Cardoso de 
Barros, e muitos outros, que viajavam para Portugal, de regres-
so da Bahia, quando a nau N. S. da Ajuda, em que se acha-
vam, naufragou em junho de 1556, nas alturas do litoral próxi-
mo das Alagoas. 
A notícia da sangueira, levada a Olinda, indignou as au-
toridades e horrorizou os colonos. Uma onda de revolta e de 
vingança levantou os portugueses, anunciando-se uma guerra 
de desforra. Organizou-se, sob as ordens do próprios Jerônimo 
de Albuquerque, a perseguição aos caetés. Dizem que aquele 
comandante requintava de crueldade, havendo mandado muitas 
vezes atar à boca de canhões índios prisioneiros e "dispará-
los à vista dos demais para que os vissem voar feitos em pe-
daços". 
O imenso litoral, começando do Cabo de Santo Agosti-
nho até a foz do Rio São Francisco, foi palco, então, da mais 
cruel das caçadas, levada a cabo por uma turba sedenta de 
sangue e vingança, avançando até as tabas dos índios, consu-
mindo tudo a fogo e a bala. A multidão caeté, batida em todos 
os seus redutos, desarvorada, já exausta e faminta, correu par-
te rumo às futuras terras da Paraíba, e parte entregando-se 
sem condições. Durou cinco anos a cruel perseguição. Mas 
no final todo o litoral sul de Pernambuco estava limpo da in-
diada. E não só. Um Édito Real condenara à escravidão per-
pétua, todos os caetés sobreviventes. 
Depois, outros portugueses foram por ali aparecendo e 
esclarecendo as terras, de modo a apertar os limites dos pou-
cos refúgios ainda existentes nas florestas, resultando, em 
pouco tempo, aquela raça indômita de guerreiros começar "di- 
28 
ha/Ido-se no abastardamento do sangue e na voragem do tam- 
e- 
Consolidado, por fim, o sossego, teve início o povoamen-
to dali pelos portugueses, através do sistema das sesmarias, 
surgindo aos poucos o território de Alagoas, que ficaria per-
tencendo a Pernambuco até 1817. 
Quando a situação houvera se agravado, a Rainha Dona 
Catarina, Regente do trono português, dera ordem para que 
Duarte de Albuquerque Coelho, que se encontrava estudando 
na corte, regressasse à Capitania fundada por seu pai, a fim 
(te colaborar na sua defesa. Veio ele acompanhado do seu 
Milão Jorge de Albuquerque, e foi sob as suas ordens que se 
concluíram aquelas lutas contra os caetés. Em 1565, aquele 
aliMO, estando a guerra próxima do fim, e agastado com cer-
tos nobres de Pernambuco, que não viam com bons olhos os 
anhos do primeiro donatário,resolveu voltar ao Reino, havendo 
sofrido, durante a viagem, sérios atropelos causados pelo mau 
tampo e por lutas com corsários franceses. 
Em 1561, se verificara um inesperado ataque francês 
soutra o Recife, que era então um pequeno núcleo portuário, 
de povoamento contemporãneo a Olinda, onde se embarcavam 
• açúcar e outras coisas da terra e descarregavam as merca-
dorias vindas do Reino. Os atacantes eram franceses remanes-
centes dos que haviam sido expulsos por Mem de Sá, do Rio 
48 Janeiro, e procuravam "se compensar das perdas e dos re-
veses sofridos". Foram, porém, energicamente repelidos pelo 
donatário e gente armada de Olinda, embora tivessem conse-
ouldo desembarcar e permanecer alguns dias em terra, saque-
ando os depósitos da povoação. 
Em 1562, chegaram à colônia os jesuítas João de Melo e 
'Antônio de Sá, que se instalaram em Olinda, iniciando o apos-
tolado da conversão dos gentios, já tentado em 1551 por Ma-
noel da Nóbrega e Antônio Pires, alérrl de ensinar os rudimen-
tos da religião entre os brancos e "consolidar as sementes já 
lançadas de um futuro colégio para ensinar a ler, escrever e 
Contar", além de proporcionar ensino mais adiantado. 
Nessa mesma época foi a Capitania assolada por uma 
~longada estiagem, que provocou sérios problemas, princi-
palmente pela descida dos sertões de grandes levas de índios 
famintos de outras tribos, que eram logo submetidas à escra- 
A 	travadas 
surgiu uma revolta entre eles, que desconheciam 
as lutas 	com os caetés, acarretando novas e sérias 
desordens e destruições de novos engenhos e até de peque- 
29 
Pacificado novamente o território da donataria, principal-
mente em seu litoral sul, como vimos, pôde Duarte de Albu-
querque Coelho iniciar a distribuição das terras do Cabo de 
Santo Agostinho para baixo, começando a surgir ali vários en-
genhos de açúcar, produzindo intensamente, junto com os que 
haviam sido levantados na Várzea do Capibaribe e ao lado de 
Olinda, até atingir a povoação de Paratibe. 
Insistia, porém a barbárie contra os índios, que eram ca-
çados agora para servir como escravos na florescente agro. 
indústria açucareira. Haviam ficado de tal modo amedronta-
dos os nativos com os constantes reveses, que se deixavam 
amarrar pelos brancos, sem resistência, como carneiros, sendo 
vendidos por dois cruzados, ou mil réis cada um. 
Um dos grandes exploradores daquele comércio infame 
foi o padre jesuíta Antônio de Gouveia, apelidado de "O Padre 
de Ouro", protegido de Duarte de Albuquerque Coelho e que 
chegava a trazer os pobres índios para vender dentro da vila 
capitânea. Tal procedimento terminou escandalizando pessoas 
influentes, e ele foi preso em 1571, na Rua Nova dali, pratican-
do às escâncaras aquele comércio, sendo remetido ao Reino, 
onde foi julgado e condenado pela Inquisição. Seu protetor 
houvera embarcado para a corte, a chamado do Rei, tendo fica-
i do outra vez no governo a capitoa Dona Brites de Albuquer- 
que. 
Ocupado o litoral, começaram os colonizadores subindo 
o Rio São Francisco, penetrando pelo interior da Capitania. A 
primeira grande entrada foi feita pelo Provedor da Fazenda, 
Francisco de Caldas e por Gaspar Dias de Taíde, aos quais se 
juntou um famoso chefe tabajara, de nome Braço de Peixe. 
Começando a se verificar um excessivo aprisionamento de ín-
dios, que iam sendo encontrados, foi aquele chefe indígena fi-
cando preocupado, principalmente porque se começara a boa-
tar que logo após ia se proceder também a escravização dos 
índios da sua tribo. 
E, se preparando cautelosamente, conseguiu o apoio de 
outras tribos, assaltando de surpresa a expedição, matando e 
devorando todos os componentes, para depois se refugiar ao 
Norte, nas futuras terras da Paraíba, onde se aliou aos potigua- 
res. 
Outra entrada foi organizada, agora pelo mar, em 1578, 
sob o comando do capitão Francisco Barbosa da Silva, enquan -
to que por terra seguiram setenta homens sob as ordens de 
Diogo de Castro. 
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trazer os pobres índios para vender dentro da vila capitanea . 
30 
 
Por sua vez se tentava, igualmente, o lado Norte da Co-
lônia, para além de Itamaracá, ocorrendo, então, várias expe-
dições rumo àquelas terras da Paraíba, sendo quase sempre de 
contingentes partidos da capitania duartina, que após o fracas-
so ocorrido com um tal de Frutuoso Barbosa, começou a rece-
ber a assistência e a ajuda do próprio Governo Geral do Bra-
sil. Somente em 1585/1586, após terem os índios potiguares 
e tabajaras, estes do chefe Braço de Peixe, sido dominados, 
pôde Martim Leitão fundar a cidade de Filipéia de N. S. das 
Neves, passando a colonizar as terras. Estava esclarecido o 
'território paraibano, incorporado a Pernambuco e aberto à co-
lonização. 
Jorge de Albuquerque houvera regressado do Reino em 
1573, recebendo o governo das mãos de sua mãe, e passando 
a administrar a Capitania até 1576, quando entregou-a ao tio 
\ Jerônimo de Albuquerque, que governou até 1580, com uma pe-
quena interrupção em 1577, quando foi substituído algum tem-
po por D. Cristóvão de Melo, havendo durante o seu governo 
se verificado a chegada dos padres carmelitas, que fundaram 
um Convento em Olinda. 
O gentio que escapara da Paraíba, não se convencera 
com as duras lições recebidas. Mais ao Norte continuavam os 
franceses, seus eternos aliados e insufladores atraindo-os e 
fazendo ofertas, nas proximidades da foz do Rio Grande do Nor-
te, donde começaram ataques constantes contra as instalações 
portuguesas de Cabedelo. D. Francisco de Souza, então Go-
vernador-Geral, recomendou, em face da ameaça, que Manuel 
Mascarenhas, Capitão-Mor de Pernambuco, armasse forças pa-
ra voltar a combater os índios. 
E das novas lutas travadas, sobreveio a presença do ca-
pitão Jerônimo de Albuquerque, um dos filhos do velho cunha- 
- do de Duarte Coelho, que preferiu, em lugar das armas, recor-
rer a persuasão, no que foi feliz e pôde firmar a paz com os 
selvagens. A cidade de Natal, com o conseqüente surgimento 
do Rio Grande do Norte, deve, assim, a Jerônimo de Albuquer-
que a sua fundação no ano de 1599. 
Voltara-se, também, Pernambuco para o lado Sul, e vá-
rios trechos das margens do rio São Francisco foram explora-
dos, havendo, a sete léguas da sua foz, em um penedo ali exis-
tente, à margem esquerda do rio, fundado-se uma feitoria, que 
deu origem à cidade de Penedo e berço da colonização das 
Alagoas, quiçá são-franciscana. 
Roberto Southey conclui que na sede da donataria havia 
por esse tempo 700 famílias, não incluindo as dispersas nos 
engenhos, que tinha cada um de 20 a 30 moradores. Podia-se 
pôr em campo três mil homens de guerra, dos quais quatro-
centos à cavalo. Quatro a cinco mil escravos indígenas, além 
dos negros que haviam começado a chegar depois de 1539, 
eram utilizados nos trabalhos agrícolas dos engenhos em ple-
no funcionamento. Havia colonos (mais de cem, estima o cro-
nista) cuja renda orçava de mil a cinco mil cruzados, e alguns 
até de oito a dez mil. A média anual das embarcações que en-
travam no porto do Recife, vindas da Europa, era de quarenta 
e cinco, que não dava para esgolar todo o açúcar produzido e 
pau-brasil colhido. A arrecadação dos impostos da coroa anda-
va por vinte mil cruzados. 
Ainda no tempo de Duarte Coelho, D. João III consenti-
ra, em 1539, que se importassem alguns escravos negros da 
Guiné. E em 1559, a Rainha Dona Catarina passou a permitir 
que cada Senhor-de-Engenho mandasse vir do Congo até cen-
to e vinte escravos, pagando somente o terço dos direitos em 
vez da metade, do que foi avultado o tráfico, e em fins do sé-
culo os índios escravizados eram poucos. Mesmo porque, opi-
nara a Mesa da Consciência de Lisboa, e o Rei decidira em 
1595, que os índios só podiam ser escravos quando cativos em 
guerra justa, e, mesmo assim, apenas por dez anos. Disso re-
sultara a diminuiçãoconsiderável da escravatura indígena. 
A prosperidade da Capitania duartina já começara a 
atrair colonos endinheirados. Foi nesse período que a cana-de-
açúcar começou a se firmar como o principal produto da colô-
nia, desbancando o pau-tinta. 
O Licenciado Ambrósio de Siqueira, andando em Pernam-
buco no ano de 1605, relacionou cinco vigararias fundadas entre 
1584 e 1594, e em pleno funcionamento: São Lourenço da Ma-
ta, Várzea do Capibaribe, Cabo, Corpo Santo (no Recife), São 
Pedro Mártir, Igaraçu e Santo Amaro, em Jaboatão, o que ofe-
rece uma idéia da extensão territorial já ocupada e povoada, 
Isso sem falar na colonização já das Alagoas, da Paraíba e do 
Rio Grande do Norte. 
 
32 
33 
 
 
Alvorecer do século XVII 
HEGEMONIA DE PERNAMBUCO no Norte, pode-se dizer A 
que já era bem evidente ao principiar o século XVII. Com a 
conquista e colonização das terras da Paraíba, do Rio Grande 
do Norte, expulsando-se espetacularmente os franceses, ven-
cendo os índios, assinalando o domínio regular português nas 
terras do Nordeste brasileiro, e que viria a se completar em 
1609, com o surgimento, ainda às suas custas, da capitania do 
Ceará, tornou-se bem claro o tipo de colonização dinãmica que 
ali fora plantada. 
Durante o século I da vida brasileira dera Pernambuco 
um apreciável contingente de homens e recursos para a expe-
dição de Estácio de Sã, combatendo os índios do Rio de Janei-
ro; para organizar as forças destinadas a colonizar a Paraíba e 
o Rio Grande do Norte; para avançar destemerosamente rumo 
as terras desconhecidas, a fim de determinar a colonização 
sanfranciscana; e, mais tarde, para prosseguir na marcha civi-
lizadora, fazendo surgir o Ceará, o Pará, e libertando, em 1616, 
o Maranhão das mãos dos franceses. 
Pernambuco já era, indiscutivelmente, a sede do Nor-
deste, para onde convergiam todas as riquezas e toda a pro-
dução agro-industrial da região; a capitania hereditária prefe-
rida pelo poder real, abrangendo um extenso território e sob 
cujo comando administrativo direto estavam as terras em ple-
no desenvolvimento no extremo sul da sua costa e que era o 
Início da futura província das Alagoas. Fora por seu intermé-
dio que haviam saído as determinações da corte para as con-
.quIstas e definições administrativas da coroa na Paraíba e no 
-Rio Grande do Norte. Senhor de um sistema de governo defi-
nido e de uma imigração a mais possível ativa e cheia de ho- 
35 
Mens de boa genealogia, religiosos dinamizadores e nobres de 
tradicional ascendência, absorvendo por isso a sua irmã vizi-
nha, também hereditária, de Itamaracá, que não havia sabido 
crescer e prosperar, Pernambuco de fins do século XVI já se 
projetava com intensidade notável, como capaz de empreendi-
mentos maiores, e trazendo para a perspectiva do todo pro-
gressional da região nordestina, a atenção das velhas nações 
européias. 
Que a fama das riquezas produzidas, como o açúcar, as 
peles, e as naturais, como o pau-brasil, as madeiras, o fumo, 
etc., já transpusera os mares, indo repercutir nas cortes euro-
péias, é fato historicamente incontestável. E o contínuo fluxo 
e refluxo de embarcações, saindo do porto do Recife abarrota-
das, e vindo a ele com vinhos finos, bons queijos e viandalhas, 
tecidos preciosos, jóias, objetos de luxo, adornos e toda a es-
pécie de utilidades denunciadoras de um estado geral econô-
mico deveras progressista, secundavam exatamente aquela im-
pressão, então dominante entre os aventureiros da velha Eu- 
ropa. 
De modo que os olhos da pirataria mais organizada do 
outro lado do Atlântico começaram a crescer sobre o Nordes- 
te do Brasil e sua sede: Pernambuco. 
E na madrugada de 30 de março de 1595, surgiu em fren- 
te ao Recife uma esquadra de três grandes navios e outros me-
nores, todos com uma boa força de guerra, recrutada entre 
gente experimentada. Não hasteavam qualquer pavilhão nacio-
nal. Eram simplesmente aventureiros ingleses, organizados e 
comandados por um fidalgo britânico que dizem "andava es-
portivamente praticando a pirataria": Sir. James Lancaster. 
Governava a capitania o fidalgo D. Felipe de Moura, e 
os piratas ingleses conseguiram saltar, instalando-se na povoa-
ção do Recife por mais de trinta dias, "que tanto lhes foram 
necessários para transportar em quinze barcos tudo quanto en-
contraram armazenado dentro do Recife". Cometeram toda a 
sorte de depredações, saques e perrarias, forçando passagei-
ros portugueses de barcos lusos, que desavisados tinham che-
gado ao porto, e outros que moravam no Recife, ou terceiros 
que desciam de Olinda. a puxar, como animais, carroças peja-
das de mercadorias até o ponto de embarque, enquanto os ne- 
gros eram libertados. 
Finalmente, expulsos do Recife, ente a violência dos ata- 
ques das forças da capitania, surtidas de Olinda e interior, e 
tendo sofrido ume espetacular derrota, quando ficaram quase 
Inteiramente destroçados perdendo muita gente, no lugar cha- 
cOnea do 	os senhores de et 	In a 
nobreza 
	
alavam em co ,stantes 
36 
mado das Tacarunas, entre Olinda e Recife, no meio de man-
gues e pântanos, os ingleses abandonaram Pernambuco, sem 
nenhuma disposição de voltar a defrontar os da terra. 
"Com o continuo aumento da produção e constante esti-
mação do açúcar, a riqueza de Pernambuco crescia palpavel-
mente nos começos do século XVII e com ela o luxo dos mo-
radores e a distensão da moral". 
Começara a cair de austeridade a linha de conduta im-
pressa pelo fundador da capitania. Aos capitães-mores, como 
recorda um escritor, faltava prestigio para manter inquebrantá-
vel a tradição da autoridade duartina. Tinham morrido os filhos 
de Duarte Coelho. Igualmente Dona Brites e Jeranimo de Al-
buquerque haviam falecido, e Jorge de Albuquerque, terceiro 
donatário pela linha de sucessãc, não soubera incutir no espí-
rito do seu filho o amor pela terra dos seus avós, e Duarte de 
Albuquerque, o quarto donatário, "apesar dos vinte mil cruza-
dos que lhe rendia o senhorio, dobro do que o pai recebia", 
deslustrou o seu nome, tornando-se até cúmplice de descami-
nhos de pau-brasil. 
Por tudo isso, a coroa passara a ingerir-se nos negócios 
da capitania, chegando Recife e Olinda muitas vezes a ser a 
sede do Governo-Geral do Brasil, sob os mais variados pretex-
tos, e casos houve, como o de Diogo Botelho que chegou a se 
1 demorar em Pernambuco de 1601 a 1603, ao invés de seguir 
para a Bahia. 
Tornara-se lastimável a moral administrativa, e não eram 
poucos os burocratas que contrabandeavam, defraudando a fa-
zenda real, nos embarques clandestinos de pau-brasil e açú-
car. Com o dinheiro fácil, ganho em face da extraordinária pro-
cura de ambos em todo o mundo, passavam a tripudiar sobre 
a honestidade administrativa. 
Gabriel Soares de Sousa, senhor de engenhos na Bahia 
"que andara a pretender concessões de minas, indo à corte de 
Madri", ofereceu na Europa uma descrição, que o historiador 
Varnhagen chamou de enciclopédica, afirmando ser Pernambu-
co então a mais adiantada das colônias européias, quer no cul-
tivo e produção da terra, quer na polidez dos costumes e con-
forto de vida. 
Outros, como o Padre Fernão Cardim, informavam sobre 
o avultado número de boas residências; sobre os senhores de 
engenho, plebeus ou nobres endinheirados, que mantinham em 
seu viver um luxo fora do comum, onde se comentava sobre a 
riqueza dos vestuários de belos tecidos de seda simples, ada-
mascados ou aveludados; sobre o adorno das mulheres, onde 
38 
"pareciam chovidas nas suas cabeças e pescoços" as pedras 
preciosas mais raras, as pérolas, os diamantes, os rubis; so-
bre os cavalos de alto preço, ricamente ajaezados, picoteados 
por esporas de prata; sobre os palanquins e as liteiras de em-
blemas à porta; sobre o padre capelão rezando a missa em ca-
pelas privadas, de altares lindamente alfaiados; sobre os ban- 
quetes de abundantes vitualhas e bons vinhos do Reino, "em- 
bora se pagasse 1$400 réis por pipa de imposição, para acudir 
construção de fortificaçõese à reedificação de igrejas"; e, 
finalmente, sobre o adorno das próprias habitações, onde os 
hóspedes se banhavam em bacias de prata lavrada e se agasa- 
lhavam em leitos de damasco carmezim franjados de oiro, com 
ricas colchas da índia. E concluía o Padre Cardim dizendo que 
"as fazendas pernambucanas eram maiores e mais ricas do 
que as da Bahia". 
Mas gastavam os pernambucanos com prodigalidade, 
porque com facilidade ganhavam. Dos 120 engenhos de açú-
car existentes, então, em todo o Brasil, sessenta e seis, mais 
da metade pois, estavam localizados em Pernambuco. O açú-
car ali produzido, bem como o de Itamaracá e o da Paraíba, 
que se escoava todo pelo porto do Recife, como produção lo- 
cal, fora no ano de 1618 estimado em quinhentas mil arro-
bas. 
As ordens religiosas iam se firmando na capitania. Os 
Jesuítas, que haviam chegado em 1551, aumentaram em 1562; os carmelitas, que haviam aparecido para acompanhar Frutuo-
so Barbosa à Paraíba, com o fracasso deste, ficaram em Olin-da em 1583; os franciscanos, chamados capuchos de Santo An-
tônio, pedidos por Jorge de Albuquerque, chegaram em 1585; os beneditinos chegaram em 1596. Todos firmavam-se e cres-ciam. 
Assim, já ia aos poucos se definindo uma personalidade 
colonial. Mesmo aqueles que haviam chegado do Reino como 
degredados, ou de lá fugindo apavorados com medo da Inqui-
sição, iam nas novas terras, como disse Oliveira Lima, deixan-
do-se absorver pela ação despótica do solo, criando raízes e 
ficando presos às suas fábricas de açúcar, em que haviam em-
penhado todos os seus capitais salvos da pátria longínqua, ou 
conseguidos através de altos empréstimos, pois cada engenho 
pronto para entrar em funcionamento, incluindo a encravaria 
negra, ia pela casa dos dez mil cruzados. Caracterizava-se des-
tarte uma população pernambucana já em embrião. 
E com eles, que apresentavam a particularização princi- 
pal da donataria, aparecia a população flutuante, porém tam- 
39 
bém definida, sem falar dos escravos, dos oficiais mecânicos, 
dos jornaleiros, que se ocupavam "do encaixotamento dos açú-
cares, do feitorizar nos canaviais, da criação e cuida do gado, 
com o nome de vaqueiros, e servindo de carreiros"; dos ho-
mens do porto, afeitos aos misteres dos serviços de embarca-
ções; dos funcionários e militares, etc., todos com as suas fa-
mílias. 
Fora do trabalho, os senhores de engenhos, a nobreza, 
se regalavam nos constantes banquetes, esclarecendo uma co-
zinha em que a da pátria distante se amoldara à feitura exóti-
ca dos novos sabores, fazendo esquecer, pela infiltração dos 
temperos indígenas, o gosto dos da metrópole. Também so-
fria a influência do manuseio africano e da introdução de no-
vos legumes desconhecidos, das caças e pescados diferentes, 
como os crustáceos da beira dos mangues. "A farinha de man-
dioca era excelentemente recebida e, juntamente com o arroz 
e o milho, cultivava-se de preferência ao trigo, ao centeio e à 
cevada". E os saborosíssimos frutos tropicais opulentavam as 
sobremesas. 
Da velha pátria mãe o que se respeitava e conservava a 
cada passo era a religião, através das cerimônias do culto, que 
os jesuítas, os carmelitas, franciscanos, beneditinos, ordens 
menores e padres seculares faziam engrandecer e lembrar a 
todo instante. 
Por isso, quando começaram a circular na corte discre-
tas notícias de um provável relaxamento moral-religioso na co-
lônia, com a infiltração de judeus, ou dos chamados cristãos-
novos, fugidos da Velha Europa, com pavor da Inquisição, logo 
se despachou para o Brasil, onde esteve em Pernambuco du-
rante os anos de 1593 a 1595, um Tribunal daquela Inquisição, 
sob as ordens do Licenciado Heitor Furtado de Mendonça, "Ca-
pelão Fidalgo Del Rey Nosso Senhor e do Seu Desembargo e 
Deputado do Santo Oficio", agindo na colônia com poderes tão 
absolutos, a que não subsistia a influência do próprio Rei. 
Quedava-se, assim, Pernambuco já devidamente esclare-
cido, ao iniciar-se a terceira década do século XVII, que mar-
cou o início de um novo ciclo em sua História. 
E do seu desenvolvimento até atingir aquela fase, vamos 
oferecer uma tábua cronológica no capítulo seguinte. 
Tábua cronológica 
— Desembarcou Duarte Coelho, fundador e primeiro 
donatário de Pernambuco, a 9 de março, na foz do 
rio Santa Cruz, e penetrando no mesmo fez pousa-
da na Feitoria Régia localizada no chamado Sítio dos 
Marcos, levantada anos antes por Cristóvão Jaques, 
e onde sua capitania se limitava com a de Itamara-
cá. Ali permaneceu algum tempo, dirigindo-se após 
para a barra do rio, onde subiu poucos quilômetros, 
quando alcançou terras mais ou menos planas, pas-
sando a levantar uma povoação, travando luta com 
os índios. 
A 27 de setembro conseguiu vencer e dominar os 
nativos dali. Sendo no calendário católico dia dos 
Santos Cosme e Damião, resolveu construir uma 
igreja sob a invocação daqueles santos. Estava de-
terminada a primeira vila da donataria, a que cha-
mou de Santa Cruz, mas que ficou conhecida por 
Igaraçu. A capitania passou a chamar de Nova Lusi. 
tânia. 
1536 
Depois de estabilizada a vila de Igaraçu, tendo dis-
tribuído vários lotes de terras com colonos que trou-
xera, Duarte Coelho prosseguiu marcha rumo ao sul, 
procurando o litoral, atravessando o rio Doce e al-
cançando uma colina, onde hoje se ergue a cidade 
de Olinda, e que era ocupada por urna povoação de 
índios. Achou a posição excelente para instalar a se-
de do seu governo, e tratou de levantar uma vila ca-
pitânea. Cercado várias vezes pelos indígenas, teve 
que travar sérias lutas. 
1535 
1537 
40 41 
A 12 de março de 1537, já funcionando uma Câma-
ra do Senado, outorgou o Foral da Vila de Olinda, on-
de se reservavam terras nas vizinhanças para utili-
zação por parte dos brancos. 
— Continuaram as lutas contra os índios, enquanto se 
expandia a colonização litorânea, com a chegada de 
novos colonos vindos do Reino, havendo já se carac-
terizado a aldeia portuária do Recife, então chamada 
de "O Povo". 
1539 
- 
Chegaram a Pernambuco os primeiros negros, visto 
que o Rei houvera permitido, atendendo a um pedi-
do do donatário, que ele importasse até 24 peças 
procedentes da Guiné. 
1540 
1541 — Seguiram para Lisboa as primeiras remessas do 
açúcar fabricado no engenho Nossa Senhora da Aju-
da, levantado nas proximidades de Olinda, por Jerô-
nimo de Albuquerque. 
- Havendo Duarte Coelho firmado o governo, viajou 
em 1541 para a Europa, a fim de conseguir emprés-
timos e adquirir material necessário à fundação de 
novos engenhos. 
1542 
- 
Em abril, já de regresso, e estando mais ou menos 
garantida a paz com os índios, escreveu Duarte Coe-
lho ao Rei, dando notícia de que havia muita cana 
plantada e que já se ia providenciando o levantamen-
to de novos engenhos. 
1549 — Reclamou Duarte Coelho ao Rei contra a chegada 
crescente na colônia de degredados do Reino e con-
tratadores de pau-brasil. 
1550 — Em nova carta ao Monarca, assinalou eufórico que 
já havia na Nova Lusitânia "cinco engenhos corren-
tes e moentes". 
- Prosseguia a colonização. Os índios permaneciam 
calmos. 
1553 
- 
Embarcou o donatário para a Europa, ficando no go. 
verno da capitania sua esposa, Dona Brites, ajuda-
da pelo irmão, Jerônimo de Albuquerque. 
1554 — Morreu Duarte Coelho em Lisboa. Os índios come-
çaram a se amotinar na colônia, irrompendo, por fim, 
ataques ferozes, havendo sido destruidos vários en-
genhos, enquanto Jerônimo de Albuquerque, coman-
dando as forças da colônia, era várias vezes batido, 
ficando gravemente ferido e aleijado. 
1555 — As lutas duraram dois anos, terminando com a ex-
pulsão dos índios para as terras além dos montes 
Guararapes. Havia se libertado a extensa várzea do 
rio Capibaribe, considerada excelente para a agro-
indústria açucareira. 
— Havendo naufragado no litoral próximo à foz do rio 
Coruripe, a nau N. S. da Ajuda, os seus ocupantes, 
quase cem, inclusive o Bispo D. Pero Fernandes Sar-
dinha e o Provedor-Mor Antônio Cardoso, foram bar-
baramente mortose devorados pelos índios. 
Organizou-se uma feroz perseguição, requintando-se 
a luta de uma extrema crueldade, durando a guerra 
quase cinco anos. 
1559 — A Rainha Regente Dona Catarina autorizou os se-
nhores de engenho da colônia a importar até 120 es-
cravos negros do Congo. 
1560 — Chegaram a Pernambuco Duarte de Albuquerque 
Coelho, 2.° donatário e seu irmão Jorge de Albuquer-
que. Tomando conta da capitania, deu maior impul-
so à guerra contra os índios. 
1561 — Os franceses, expulsos do Rio de Janeiro por Mem 
de Sá, atacaram inesperadamente, o Recife, proce-
dendo um saque, sendo, por fim, expulsos pelas for-
ças da donataria. 
1562 — Chegaram os jesuítas João de Melo e Antônio de 
Sá, para prosseguir na obra de catequese, iniciada 
por Nóbrega em 1551. 
1563 — 
1570 — Foi Pernambuco assolado por uma grande seca, que 
fez descer do altp Sertão várias tribos de índios, sur-
gindo novas lutas. 
1556 
42 
43 
— Nesse ano sofreu a capitania um assalto de piratas 
ingleses, comandados por James Lancaster, que con-
seguiu permanecer por mais de trinta dias no Re-
cife, cometendo toda a sorte de roubos e depreda-
ções. Partiram com grandes perdas de vida, embora 
tendo completado o saque da povoação. 
— Chegaram os primeiros padres beneditinos. Haven-
do se iniciado a arrancada para as terras mais ao 
Nordeste, visando expulsar outra vez os indígenas 
conluiados com os franceses, e que tinham fugido 
da Paraíba, acampando na foz do Rio Grande do Nor-
te, as forças saídas de Pernambuco lograram afinal, 
nos fins de 1597, determinar a colonização de uma 
nova capitania, com o surgimento da cidade de Na-
tal, e expulsão total de índios e estrangeiros. 
— Ao final do século havia em Olinda 700 famílias, não 
incluindo as dispersas nos engenhos, que tinha ca-
da um de 20 a 30 moradores. Podia-se pôr em cam-
po três mil homens de guerra, dos quais quatrocen-
tos a cavalo. O povoamento já se estendia até a 
Várzea do Rio Capibaribe, Jaboatão, Cabo de Santo 
Agostinho, Ipojuca, Igaraçu, Recife, começando-se 
também a colonização da Paraíba, do Rio Grande do 
Norte e das Alagoas. 
— Tornou-se Pernambuco, eventualmente, a sede do Go-
verno Geral do Brasil, quando o governador Diogo 
Botelho, sob vários pretextos, desembarcou no Re-
cife, aí instalando-se durante quase três anos. 
— Esteve na capitania, como enviado especial de El-Rei, 
com o fim de colher informações seguras sobre a 
colonização, o Licenciado Ambrósio de Siqueira. 
- Igualmente D. Diogo de Meneses e Siqueira, nomea- 
do Governador Geral do Brasil, interrompeu sua via-
gem em Pernambuco, onde demorou quase um ano 
no exercício das suas funções, fora da sede, que era 
a Bahia. 
- Havendo, por fim, se estabelecido a paz, começou-
se a se incentivar a concessão de sesmarias em vá-
rios pontos, principalmente ao lado sul da capitania, 
surgindo as futuras terras das Alagoas, continuando 
a se desenvolver a colonização, aparecendo novos 
engenhos, principalmente na extensa várzea do Ca-
pibaribe. 
1571 — Verificando-se grande desumanidade na escraviza-
ção dos índios, que passaram a ser barbaramente 
caçados e vendidos, houve um movimento de repul-
sa na colônia, resultando, neste ano, a prisão e ex-
pulsão de um religioso, apelidado de "Padre de Ou-
ro", que foi julgado e condenado no Reino pelo Tri-
bunal do Santo Ofício. 
1582 
- 
Foi organizada por Frutuoso Barbosa, saindo de Per- 
nambuco, a primeira expedição destinada a explorar 
as futuras terras da Paraíba. 
Não foi bem sucedida. Chegaram neste ano à capi-
tania os primeiros padres carmelitas. 
1583 
1585 — Novas expedições saíram rumo à Paraíba, visando 
expulsar os índios dali, que se encontravam ajuda-
dos pelos franceses, e a 5 de agosto de 1585, dia de 
Nossa Senhora das Neves, foi firmada a paz com os 
Tabajaras, determinando-se a fundação daquela ca-
pitania. 
— Continua se desenvolvendo a agro-indústria açuca-
reira, progredindo a vila capitãnea e aumentando a 
população de portugueses e luso-brasileiros, haven-
do várias substituições no governo da capitania. 
1593 
- 
Chegou a Pernambuco, instalando-se primeiro no Re- 
cife e após em Olinda, o Tribunal da Inquisição, sob 
as ordens do Licenciado Eleitor Furtado de Mendon-
ça. 
1595 
- 
Decidiu El-Rei D. Sebastião que os índios do Brasil 
só fossem escravizados quando cativos em guerra 
justa, e apenas por dez anos. 
44 
45 
1614 — Partiu de Pernambuco uma expedição, sob o comando 
do governador Alexandre Moura, com destino ao Ma-
ranhão, a fim de libertar aquela capitania da coroa, 
dos franceses que a haviam invadido. Ficou no go-
verno, cumulativamente com o Governo Geral, o go-
vernador Gaspar de Sousa, que saíra da Bahia, indo 
se instalar em Olinda. 
1616 — Regressaram as forças pernambucanas vitoriosas 
no Maranhão, trazendo preso o francês Daniel de 
La Touche, Senhor de La Ravardiére, lugar-tenente 
das forças francesas invasoras. 
1617 — D. Luís de Sousa assumiu o Governo-Geral do Bra-
sil, instalando -se em Pernambuco, ao invés da Ba-
hia, permanecendo até 1619. 
1620 — Em um Alvará de 21 de fevereiro, proibiu terminan-
temente El-Rei que os Governadores -Gerais fossem 
às capitanias sem a licença régia, devendo residir 
na Bahia. Criticava-se na corte a preferência que 
aqueles delegados da coroa vinham dando a Pernam- 
buco. 
A 20 de janeiro lavrou-se em Lisboa uma Ordem Ré-
gia conferindo a Matias de Albuquerque o Governo 
de Pernambuco, como representante do seu irmão, 
o quarto donatário. Retornava, assim, Pernambuco 
a gozar de certos privilégios de donataria. 
1624 — Ainda estava Matias de Albuquerque no Governo de 
Pernambuco, quando foi a Bahia invadida pelos ho-
landeses. Foi, então, indicado para exercer cumula-
tivamente as funções de Governador-Geral do Bra-
sil, com sede em Pernambuco, passando a tomar 
providências para a expulsão dos invasores. 
1625 — Transmiu atias de Albuquerque o Governo-Geral 
a D. Francisco de Mo ta, logo após a expulsão dos 
holandeses da Bahia. 
1626 — Assumiu André Dias da França a capitania de Per-
nambuco, seguindo Matias de Albuquerque doente, 
para o Reino. 
46 
1629 — Retornou o irmão do quarto donatário, recebendo o 
governo de André Dias da França, e passando a ati-
var a defesa da capitania, então ameaçada por uma 
poderosa invasão estrangeira. 
1630 — Foi a colônia duartina finalmente invadida por for-
ças numerosas procedentes da Holanda. Iniciou-se, 
com isso, um novo ciclo na História de Pernambuco, 
que permaneceu vinte e quatro anos sob o domínio 
flamengo. 
47 
Invasão holandesa 
M DOS PERÍODOS mais culminantes da História de Per-
nambuco, consideradas as implicações no todo econômico, po-
lítico e social da antiga donataria, foi o da invasão e domínio 
holandês (1630- 1654). 
Como temos notado, muito se comentava na velha Eu-
ropa a respeito de tudo aquilo que de Pernambuco transitava, 
através de notícias e dos volumosos embarques de açúcar que 
ele remetia para suprir a imensa procura do produto em todo 
o mundo, despertando a curiosidade, entusiasmando o interes-
se imediatista de aventureiros europeus, mesmo paradoxal-
mente oficiais. 
Do sul do Brasil, embora São Vicente também exportas-
de bastante açúcar, e São Sebastião do Rio de Janeiro, Espírito 
Santo, Ilhéus e outras capitanias igualmente não estivessem 
Inativas, e do mesmo modo atuassem com relatividade nos 
Conceitos de um progresso colonial, embora a Bahia, por me-
dida estratégica e de conveniência administrativa da coroa, ti-
desse sido escolhida como sede do Governo Gerai, florescen- 
:
. como centro militar, burocrata, social e religioso, o que se 
de historicamente concluir é que o interesse e a projeção 
despertados por eles, no cômputo geral, eram iniludivelmente 
eriores a Pernambuco. 
Assim o Brasil até o período doloroso da invasão e do-
ido holandês, era na realidade, apenas a Bahia, como sede 
Governo-Geral e Pernambuco, como líder do Nordeste e sua 
ação açucareira. Do Centro-oeste as notícias ainda eram 
as, pois os

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