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Introdução A córnea é a estrutura de refração óptica, trans- parente e avascular do globo ocular2, responsável por transmitir luz3. Esta estrutura se projeta ex- ternamente à órbita óssea, sendo protegida ape- nas pelas pálpebras8, e inervada por terminações sensoriais do nervo trigêmeo (V nervo craniano) e pelo nervo facial3,10. Esta estrutura é composta por cinco camadas: filme lacrimal pré-corneano, epitélio, estroma, membrana de Descemet e en- dotélio5. Nos equinos, as úlceras de córnea são geral- mente consequência de traumas10,5 ocasionados por choques contra objetos, como cercas ou em mate- rial vegetal3. Na maioria dos casos, as úlceras são unilaterais e se diferem quanto a presença ou au- sência de contaminação e o estágio de evolução 6. Os sinais clínicos são semelhantes, indepen- “Surgical possibilities for the treatment of corneal ulcers in horses” “Posibilidades quirúrgicas para el tratamiento de las úlceras de cornea en los caballos” Thaís Jardim Ozi* (thais.ozi@bol.com.br) Discente do curso de Medicina Veterinária da Universidade Anhembi Morumbi Nicole Fidalgo Paretsis, Danielle Cristinne Baccarelli Médicas Veterinárias Residentes do Hospital Veterinário da Universidade Anhembi Morumbi Christianni Padovani de Biaggi, Neimar Vanderlei Roncati, Rodrigo Romero Correa: Docentes do curso de Medicina Veterinária da Universidade Anhembi Morumbi * Autora para correspondência RESUMO: O tratamento cirúrgico das úlceras de córnea nos equinos é baseado na progressão da lesão com ou sem tratamento prévio. A rápida evolução da lesão e a ausência de resposta ao tratamento conservativo podem ser indicativos da necessidade de associar o tratamento conservativo ao cirúrgico. Casos de descemetocele ou prolapso de íris, ambos urgências cirúrgicas, necessitam de rápida intervenção para a manutenção do olho. A gravidade da lesão e as condições necessárias para a realização do procedimento cirúrgico são cruciais na escolha da técnica a ser empregada. Unitermos: úlcera, córnea, equino, tratamento cirúrgico ABSTRACT: The equine corneal ulcers treatment is based on the lesion progression with or without previous treatment. The rapid evolution of the lesion and the absence of response to conservative treatment can indicate that the association between the conservative and surgical treatment must be required. Descemetocels and iris prolapse cases, both surgical urgencies, requires early intervention to preserve the eye. The lesion severity and the needful conditions to perform the surgical treatment are crucial to choose the most appropriate technique. Keywords: ulcer, cornea, equine, surgical treatment RESUMEN: El tratamiento quirúrgico de las úlceras corneales en los caballos es basado en la progresión de la lesión con o sin tratamiento previo. La rápida evolución de la lesión y la ausencia de respuesta al tratamiento conservador puede indicar que sea necesario asociación de tratamiento clínico y quirúrgico. En casos de emergencias quirúrgicas, como descemetocele o prolapso del íris, es necesario intervenir de manera rápida para mantener el ojo. La gravedad de la lesión y las condiciones necesarias para el procedimiento quirúrgico son cruciales en la elección de la técnica a ser utilizada. Palabras clave: úlcera, córnea, caballo, cirugía equina Figura 1: Olho esquerdo do equino com ceratomalácia. Apesar da extensa área de lesão, apenas a região inferior e medial foi corada, mostrando preservação do epitélio corneano que recobre a área de ceratomalácia ................................................... Possibilidades cirúrgicas para o tratamento das em equinos H O S P IT A L V E TE R IN Á R IO A N H E M B I M O R U M B I ( 20 13 ) dente da contaminação, incluindo blefaroespas- mo, epífora, quemose, fotofobia, edema de cór- nea, vascularização da córnea, miose, hiperemia conjuntival e secreção ocular3,10,4 As úlceras de córnea, independente da sua con- taminação, variam entre superficiais à profundas, podendo originar abscessos estromais3. Para as úlceras bacterianas, o tratamento é baseado no uso de antibióticos tópicos, que podem ser específicos ou de amplo espectro3,5. Já para contaminações por fungos, causadas normalmente pelos Asper- gillus, Fusarium, Candida e Penicillium, anti-fún- gicos tópicos ou sistêmicos com amplo espectro de ação são recomendados, além de terapia de su- porte5,4. Quando não houver resultado positivo no tratamento conservativo, a associação com proce- dimentos cirúrgicos aumenta as chances de cura2. prolapso de íris1,3. A escolha do tipo de en- xerto varia de acordo com a extensão da lesão5. A conjuntiva promove a nutrição do tecido corneano por meio de vasos sanguí- neos, leva fibroblastos e fornece suporte fí- sico para o estroma corneano. Existem di- ferentes tipos de retalhos conjuntivais, como os pediculados, em ponte, 180 graus e 360 graus3. Para os retalhos conjuntivais pediculados é necessária a divulsão da con- juntiva bulbar, da região do limbo até o fór- nix, em formato retangular (região média do globo ocular). Em seguida, a lesão da córnea é recoberta pelo retalho e este é su- turado na córnea em padrão simples sepa- rado6 (Figura 2). Colocação do sistema de lavagem subpalpebral A colocação da sonda para lavagem subpalpebral auxilia na administração de medicamentos por longos períodos de tem- po, e resulta em menor irritação por dimi- nuir a manipulação no local2. Pode ser co- locada sob anestesia geral ou local. Para colocação da sonda na pálpebra superior, a pálpebra é afastada do globo ocular. Uma agulha deve ser introduzida lateralmente ao recesso do fórnix conjuntival, atraves- sando toda a espessura da pálpebra, saindo sobre a pálpebra superior, próximo a rima da órbita. Em seguida, uma sonda é perfu- rada (para permitir a passagem do fárma- co), e passada por dentro da agulha, da ór- bita em direção ao fórnix conjuntival. Re- pete-se o mesmo procedimento na região medial do olho, e a sonda deve ser passada pela agulha agora do fórnix em direção à pálpebra superior, em região medial. A ex- tremidade da sonda deve ser fechada com um nó simples, para não permitir a saída dos fármacos e para auxiliar na fixação à pele. A porção mais longa da sonda, em região lateral, fica livre para a administra- ção dos medicamentos6. Deve-se ter caute- la na colocação da sonda, evitando que ocorra o deslocamento9. É necessário que se observe periodicamente se a lavagem está sendo efetiva2 (Figura 3). Classificação As úlceras podem ser classificadas em superficiais, profundas e indolentes4. As úl- ceras superficiais atingem o epitélio, não há neovascularização, são contaminadas e podem ser mais facilmente visualizadas com a utilização de corantes oftálmicos11,4. As úlceras superficiais podem se tornar in- dolentes, porém com destacamento do es- troma subjacente, edema de córnea e neo- vascularização. A etiologia é desconheci- da, porém acredita-se que seja devido à in- fecção das camadas expostas, anormalida- des na produção de lágrimas ou falha pri- mária do epitélio corneano11. As úlceras profundas acometem o epitélio e o estroma da córnea3,4. No início da lesão a neovascularização não está presente, po- rém, pode ocorrer infecção secundária por bactérias, especialmente as Pseudomonas sp., levando ao aspecto de derretimento, co- nhecido como melting ou ceratomalácia 5,4 (Figura 1). A descemetocele ocorre quando há pro- trusão da membrana de Descemet pela ca- mada do epitélio e estroma da córnea5. Este tipo de úlcera é considerado urgência ci- rúrgica, pois apresenta alto risco de ruptu- ra da córnea10,5, podendo ocorrer prolapso de íris secundariamente5. Objetivo O objetivo do presente trabalho é de- monstrar as possíveis técnicas cirúrgicas re- ferentes ao tratamento das úlceras de cór- nea nos equinos, assim como suas vanta- gens e desvantagens. Debridamento Corneano O debridamento do tecido necrótico da córnea é o mais importante e complicado procedimento cirúrgico no tratamento ci- rúrgico das úlceras de córnea. Este proce-dimento visa a retirada do tecido necróti- co, deixando apenas o tecido estromal sau- dável, permitindo a realização de enxertos conjuntivais pediculados. Esta técnica pode ser realizada com o dissecador corneano de Martinez7. O debridamento é indicado nos casos em que as úlceras superficiais não respondem adequadamente ao tratamento conservativo6,5. Recobrimentos Conjuntivais O recobrimento conjuntival ou enxerto conjuntival está indicado nos casos de úl- ceras de córnea profundas, contaminadas por bactérias e/ou fungos11, como na cera- tomalácia, e também nas descemetoceles e Figura 2: Enxerto conjuntival pediculado realizado sobre a lesão corneana. Esta intervenção cirúrgica foi realizada devido à ruptura de toda a profundidade da córnea e ocorrência secundária de prolapso de íris ....................................................................................................................................................................... Figura 3: Sonda subpalpebral fixada no olho direito do equino. A utilização da sonda facilita a lavagem subpalpebral e a administração de fármacos, neste caso, para tratamento pós- operatório H O S P IT A L V E TE R IN Á R IO A N H E M B I M O R U M B I ( 20 13 ) H O S P IT A L V E TE R IN Á R IO A N H E M B I M O R U M B I ( 20 13 ) Cuidados com novos traumas devem ser realizados, como a utilização de capas de cabeça, fornecendo proteção para o olho com úlcera (Figura 4). Tarsorrafia temporária É indicada para a proteção da córnea após tratamentos cirúrgicos. Pode ser rea- lizada sob anestesia geral ou local. As su- turas devem ser em padrão colchoeiro, nas fendas palpebrais, para distribuir a tensão. É indicado que os cantos medial e lateral do olho sejam mantidos sem suturas quan- do associados à lavagem subpalpebral, com objetivo de permitir a drenagem dos fár- macos administrados. Os fios de sutura devem ser passados de forma que não en- trem em contato com a córnea. A tarsorra- fia temporária pode ser associada aos sis- temas de lavagem subpalpebrais para ma- nutenção da limpeza e administração de medicações oftálmicas6. Recobrimento com terceira pálpebra É utilizado para recobrir lesões na cór- nea, promovendo proteção física, auxilian- do a cicatrização. Algumas desvantagens deste procedimento incluem impossibilida- de de visualizar a córnea e a progressão da cicatrização, e pode dificultar a chegada de altas concentrações de fármacos na região da úlcera. As suturas de colchoeiro são re- alizadas horizontalmente com material ina- bsorvível 2-0 ou 3-0. As suturas são posici- onadas pelo fórnix conjuntival superior e passam pela terceira pálpebra, 4 a 5 milí- metros atrás da sua margem livre. A próxi- ma sutura é realizada paralelamente à mar- gem da pálpebra, cerca de dois milímetros da borda e um centímetro da margem da cartilagem. A sutura penetra a conjuntiva externa e a cartilagem da terceira pálpe- bra, mas sem atingir a conjuntiva interna, evitando o contato direto do fio na superfí- cie da córnea. A sutura é passada novamente pela pálpebra superior na região do fórnix. São utilizadas suturas captonadas para a distribuição da tensão, e a técnica pode ser associada ao sistema de lavagem subpal- pebral6 (Figura 5). Ceratotomia em grade A ceratotomia em grade pode ser o tra- tamento cirúrgico de escolha para os casos onde a úlcera não cicatriza após o debrida- mento, para as úlceras indolentes e tam- bém nos casos de ceratomalácia. O proce- dimento garante o rompimento da mem- brana basal, que pode ter permanecido na superfície da úlcera. Com auxílio de bistu- ri de pequeno tamanho, ou com o bisel agu- lhas hipodérmicas, faz-se aproximadamen- te cinco incisões superficiais, paralelas e verticais sobre epitélio corneano. A seguir, repetem-se as incisões em posição horizon- tal, completando o formato de grade. No- vas células são expostas ao colágeno tipo I no estroma anterior, promovendo maior aderência celular, facilitando a cicatriza- ção3 (Figura 6). Ceratectomia A incisão da córnea deve ser realizada ao redor da lesão a ser removida, e pode ser feita com um trépano corneano ou lâ- mina microcirúrgica. A profundidade da in- cisão deve ser o suficiente para remover completamente o tecido necrótico e, em seguida, deve-se divulsionar o tecido até a separação completa. Esta técnica deve ser associada aos enxertos conjuntivais, por fa- cilitar a ocorrência de ruptura posterior do Figura 4: Proteção do olho com capa de cabeça, evitando traumas na recuperação anestésica e período pós- operatório das lesões oftálmicas Figura 5: Recobrimento de terceira pálpebra. O fio de sutura deve ser passado pela conjuntiva externa, cartilagem da terceira pálpebra, mas não deve atravessar a conjuntiva interna, evitando o contato do fio com a superfície da córnea Figura 6: Ceratotomia em grade. Notam-se as incisões superficiais na córnea, realizadas sobre a área ulcerada e irresponsiva ao tratamento coservativo H O S P IT A L V E TE R IN Á R IO A N H E M B I M O R U M B I ( 20 10 ) H O S P IT A L V E TE R IN Á R IO A N H E M B I M O R U M B I ( 20 10 ) H O S P IT A L V E TE R IN Á R IO A N H E M B I M O R U M B I ( 20 10 ) tecido corneano11, sendo indicada para as úlceras indolentes3. Ceratoplastia Parte do tecido da córnea deve ser re- movido de um doador e colocado sobre a lesão, podendo ser lamelar (espessura par- cial) ou penetrante (total)5,11, mantendo a integridade do olho11. A ceratoplastia la- melar autóloga é feita com a remoção de um a dois terços da espessura corneana, sendo do mesmo olho ou do contralateral. O enxerto é colocado e suturado no leito receptor. A ceratoplastia penetrante preci- sa de um enxerto de espessura total da cór- nea de um doador, sendo necessária preci- são para a realização e a disponibilidade de um doador saudável. Esta técnica não é rotineiramente utilizada, entretanto, tem se mostrado útil nos casos de abscessos es- tromais6. Considerações finais A úlcera de córnea é uma afecção que coloca em risco a visão do equino, e re- quer diagnóstico precoce para a escolha do tratamento conservativo ou cirúrgico adequados. Fatores como a resposta inadequada ao tratamento conservativo das úlceras, a rá- pida evolução ou o diagnóstico de cerato- malácia ou descemetocele, podem ser in- dicadores da necessidade do tratamento ci- rúrgico. Os recobrimentos conjuntivais são uti- lizados nos casos de úlceras de córnea dos equinos por fornecer maior suprimento sanguíneo e dar sustentação para a úlcera, facilitando a cicatrização e amenizando a formação cicatricial. A maioria das técnicas cirúrgicas exi- ge precisão e habilidade para execução. Pode ser necessária a realização de anes- tesia geral e a utilização de bloqueadores neuromusculares, com objetivo de manter o olho na mesma posição durante o proce- dimento cirúrgico. A colocação da sonda para lavagem subpalpebral pode ser realizada a campo, utilizando apenas sedação e bloqueios lo- cais. Este procedimento pode facilitar a ad- ministração dos fármacos nos casos de úl- ceras profundas ou indolentes, com exa- cerbação de dor e blefaroespasmo, ou após procedimentos cirúrgicos. Além disso, pode evitar a contaminação iatrogênica da lesão, fato suficiente para garantir a piora clínica. Referências 1 - BROOKS, D.E. Equine ophthalmology. Proceedings of the Annual Convention of the AAEP, v.48, 2002, p.300-313. 2 - BROOKS, D.E. Ulceração Corneana. In: ______. Oftalmo- logia para Veterinários de Equinos. São Paulo: Roca, 2005, p.55-81. 3 - GILGER, B.C. Diseases of cornea and sclera In: ANDREW, S.E.; WILLIS, A.M. 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