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Conhecendo a filosofia Márcio Tadeu Girotti Introdução A filosofia está presente no cotidiano das pessoas, desde o simples fato de pensar sobre os problemas do dia a dia à escolha de um caminho ou ainda na tomada de uma decisão. Quando compreendemos a filosofia podemos perceber sua importância para a aquisição do conhecimento e também sua influência na vida dos indivíduos, que passam a entender, inclusive, a própria exis- tência. Nesta aula iremos estudar a origem da filosofia e as possibilidades de abordagem da rea- lidade. Vamos aprender também sobre os primeiros pensamentos da filosofia, a partir da sua gêneses, a filosofia grega. Pronto para começar? Bons estudos. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • entender o papel da filosofia e sua prática; • compreender a importância da filosofia e do pensamento filosófico. 1 O que é filosofia Você saberia dizer como surgiu o termo filosofia? A filosofia é um conceito grego que apare- ceu a partir da junção de dois termos: philo, que significa aquele ou aquela que tem um sentimento amigável; derivando do termo philía, amizade e amor fraterno; juntamente com sophía, que signi- fica, derivando da palavra sophós, sábio ou sabedoria. Desta forma, a filosofia adquire um signifi- cado de amizade pela sabedoria, ou, como muitos preferem, o amor pelo saber, sendo o filósofo aquele que acompanha o saber e que ama a sabedoria. (CHAUI, 2005). Figura 1 – O pensador Fonte: Simon Bratt/Shutterstock.com Este significado do termo filosofia foi atribuído ao matemático Pitágoras (V. a.C.). Para ele, o saber era propriedade dos deuses, cabendo ao homem somente a sua contemplação. Ou seja, para Pitágoras, o filósofo pode somente acompanhar e ser amigo do saber, além de amar a sabedoria. Mais do que compreender o significado do termo filosofia, precisamos entender sua impor- tância no nosso dia a dia, além de sua aplicação no campo do saber, com influência na reflexão, crítica e construção do conhecimento. Vale a pena prosseguir. SAIBA MAIS! No vídeo “O que é filosofia” (2015), apresentado Mario Sérgio Cortella, o filósofo e escritor propõe uma reflexão sobre o conceito da filosofia a partir do pensamento grego. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Xsi6L9HeDCM>. 2 A importância da filosofia No campo do saber é fácil afirmar que a filosofia é muito importante, como a base e o fun- damento de todo o conhecimento. No entanto, a filosofia, no campo do senso comum, é subesti- mada, procurando seu espaço como um saber de excelência, mas que se perde em meros pensa- mentos e reflexões. Para compreender sua importância temos que justificar sua validade a partir das concepções de utilidade, entre aquilo que é útil e inútil. Desta forma, a primeira questão que devemos fazer é: para que serve a filosofia? A própria análise do porquê nos leva a buscar a utilidade de algo, pois, se é útil serve para alguma coisa, tem prestígio e resultados visíveis. Em contrapartida, o inútil é o descartável e sem utilidade, que não serve. Agora, reflita: para ser importante é preciso ser útil? Não. Observe estes exemplos: para que serve a música, a poesia e a literatura? Elas são úteis? Para quê? Podemos viver sem música, sem poesia e sem literatura? A resposta é evidente: sim, podemos. Mas, mesmo que elas não sejam úteis, na nossa vida prática, elas deixam de ser importantes? Não, mas não precisam ser importan- tes para serem úteis. Assim ocorre com a filosofia também. Mesmo que ela não seja útil, em com- paração a outros saberes, como a física ou a matemática, a filosofia não deixa de ser importante. Figura 2 – A contemplação do saber Fonte: Ververidis Vasilis/Shutterstock.com FIQUE ATENTO! No campo do saber não existem questionamentos sobre a importância da filosofia, mas, quando a filosofia é lançada ao senso comum, seu saber é questionável, mesmo sendo ela a base da própria matemática. Os primeiros filósofos eram matemáticos. Portanto, qual é a utilidade da filosofia? De acordo com Chaui (2005, p. 24): Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às ideias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes. Assim, não resta dúvida de que qualquer coisa que se coloca como útil ou inútil independe de sua utilidade, o que resta é saber o quanto é importante, ou seja, se a filosofia pode ser tomada, em certa medida, como inútil, ela não vai nunca deixar de ser importante. FIQUE ATENTO! Nem tudo que é útil é importante, e nem tudo que é importante é útil; essa contra- posição é importante para refletirmos acerca da aplicação e do uso da filosofia em nosso cotidiano. EXEMPLO A música pode servir para relaxar, apaziguar, unir pessoas e descontrair. Assim, a música é útil. Mas, será que ela é importante? Nós necessitamos de música para viver? Podemos viver sem música, mas nem por isso ela se torna inútil. 3 A reflexão filosófica Você sabia que a todo momento estamos fazendo filosofia? Todas as vezes que estamos indecisos e fazemos um escolha necessária, que exigiu pausa para ponderarmos e tomarmos uma decisão, estamos fazendo uma reflexão filosófica. A expressão aristotélica que diz que a filosofia nasce do espanto ilustra esta ideia de reflexão a partir de simples fatos cotidianos, daquilo que não sabemos e queremos conhecer. Há na litera- tura francesa, especificamente na obra “A viagem de Theo”, de Catherine Clement, um argumento que diz: “a consciência da ignorância é o começo da dúvida, que conduz a sabedoria” (CLEMENT, 1997, p. 211). Ou seja, a partir do momento que tenho a certeza de não saber, busco sanar esse não saber a partir da busca por conhecimento, que irá me fornecer sabedoria. Figura 3 – O espanto Fonte: BONNINSTUDIO /Shutterstock.com Em nosso cotidiano sempre estamos nos perguntando: por quê? O quê? Para quê? Estas questões estão ligadas aos nossos atos de pensar, agir e falar, além de atreladas ao indivíduo. São perguntas vinculadas à capacidade de conhecer, falar, agir, questionar e refletir, que mostram o indivíduo como um ser pensante, falante e agente. Trata-se da realidade interior dos homens. Mas, o que estas três perguntas têm a ver com a reflexão filosófica? Chaui (2005) explica que a reflexão filosófica carrega três conjuntos de questões. Observe: • por que pensamos o que pensamos? Dizemos o que dizemos? E fazemos o que faze- mos? Ou seja, há motivos, razões e causas; • o que queremos pensar quando pensamos? O que queremos dizer quando falamos? O que queremos fazer quando agimos? Isto é, qual é o sentido do que pensamos, dize- mos ou fazemos? • para que pensamos o que pensamos, dizemos o que dizemos, fazemos o que faze- mos? Qual é a intenção do que pensamos, dizemos e fazemos? Isso se resume em: o que é pensar, falar e agir. São objetos de indagação, pensamento e lin- guagem, que pertencem ao homem, e são instrumentos da vivência humana em sociedade: “O que pensamos, dizemos e fazemos em nossas crenças cotidianas constitui ou não um pensamento verdadeiro, uma linguagem coerente e uma ação dotada de sentido?” (CHAUI, 2005, p. 21). É importante perceber que a reflexão filosófica é uma reflexão radical, que busca a causa de todas as coisas, a raiz do problema e do pensamento, é um movimento de volta, um movimento de retorno a si mesmo, um pensamento que parte de si e volta a si mesmo,a fim de conhecer como é possível o próprio conhecimento. Por isso grave bem: diariamente estamos sempre refletindo, pensando, falando e agindo, sem perceber que estamos promovendo uma reflexão e possuindo uma atitude filosófica, que nada mais é do que se indagar: o que é? Como é? Por que é? SAIBA MAIS! Para saber mais sobre a importância da filosofia no cotidiano, como uma disciplina a ser contemplada no contexto escolar leia o artigo “A filosofia e o cotidiano: o professor como mediador entre o indivíduo particular e o humano-genérico” (GIROTTI, 2011). Disponível em: <http://fatece.edu.br/arquivos/arquivos%20 revistas/trilhas/volume1/7.pdf>. EXEMPLO Hoje sabemos da complexidade dos problemas e temos outros métodos para es- tudá-los, como o proposto por Edgar Morin (2005) sobre a complexidade. Esta pa- lavra significa que as questões são tecidas juntas e que você não pode separá-las para estudá-las, sob pena de não apreender o objeto de estudo e, consequentemen- te, não encontrar uma alternativa de solução para o problema. 4 A filosofia do cotidiano Pensar, falar e agir são ações que fazemos a todo momento, de forma inconsciente, pois está enraizado em nosso ser, um ser de atitude, de pensamento e de linguagem. Difícil é reconhecer que estamos a todo momento pensando e ponderando sobre nossas ações, resolvendo problemas, sistematizando soluções e, sobretudo, adquirindo conhecimento. Figura 4 – Pensamento cotidia Fonte: Ditty_about_summer/Shutterstock.com Note que a filosofia nos auxilia a pensar e refletir. Desde os simples fatos do dia a dia até os problemas mais complexos, respiramos o saber filosófico. A consciência de que não sabemos tudo, por exemplo, nos leva a buscar conhecimento; a capacidade de pensar também nos conduz ao conhecimento, assim como o fato de agir nos leva a pensar e, consequentemente, a refletir sobre a melhor decisão. Portanto, a todo momento estamos fazendo filosofia e isso mostra a sua importância, mesmo que ela seja julgada, muitas vezes, como inútil, por não encontrar a justificativa de sua relevância, nem por isso ela deixa de ser importante. FIQUE ATENTO! A filosofia não é simplesmente reflexão ou indagação. Mais do que isso, ela nos remete à busca pelo conhecimento e aquisição de novos saberes. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • compreender o conceito de filosofia; • entender a importância do pensamento filosófico na vida cotidiana. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. CHAUI, Marilena de Souza. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2005. CLEMENT, Catherine. A viagem de Theo: romance das religiões. São Paulo: Cia das Letras, 1997. GIROTTI, Marcio Tadeu. A filosofia e o cotidiano: o professor como mediador entre o indivíduo particular e o humano-genérico. Trilhas Pedagógicas, Pirassununga, v. 1, n. 1, p. 108-121, ago. 2011. Disponível em: <http://fatece.edu.br/arquivos/arquivos%20revistas/trilhas/volume1/7.pdf>. Acesso em: 21 dez. 2016. O QUE É FILOSOFIA por Mario Sergio Cortella. Pensa Brasil. 2015. Vídeo. Disponível em: <https:// www.youtube.com/watch?v=Xsi6L9HeDCM>. Acesso em: 21 dez. 2016. MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo. Tradução de Eliane Lisboa. Porto Alegre: Editora Sulina, 2005. A origem da filosofia Marcio Tadeu Girotti Introdução Estudaremos nesta aula a origem da filosofia em seu contexto histórico, desde o surgimento dos primeiros filósofos. Vamos compreender como foi a passagem de um conhecimento funda- mentado pelo viés mítico para um conhecimento com fundamento racional, guiado pela razão, pela investigação da natureza, a physis, a realidade que nos cerca. A filosofia possui sua origem nos povos gregos, que teriam sido os primeiros mercadores, comer- ciantes, negociadores, retóricos, matemáticos e filósofos. Acredita-se que na colônia grega surgiram os questionamentos que iriam emergir e constituir todo o pensamento base do conhecimento humano. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • conhecer os primórdios da filosofia a partir do seu surgimento; • entender a mudança de pensamento com a passagem do Mito para a razão. 1 Origem da filosofia Historicamente, a filosofia teria nascido entre o final do século VII a.C e o início do século VI a.C., nas colônias gregas da Ásia Menor (Jônia, na cidade de Mileto). Filosoficamente, ela nasce já com um conteúdo determinado, a cosmologia. Os primeiros estudos filosóficos giram em torno do cosmos (kósmos), a ordem e organização do mundo; fundamentados pela logia (lógos), o pensa- mento racional, fazendo da filosofia um conhecimento racional da ordem do mundo (CHAUI, 2005). Muitos defendem que a filosofia teria sua origem por influência do pensamento oriental. Prin- cipalmente por conta da viagens de povos comerciantes, que tinham contato com a cultura do oriente, transportando tais conhecimentos para o ocidente, em especial, a Grécia. Exemplo disso seria o conhecimento da agrimensura, adquirido no Egito, e que posteriormente originaria entre os gregos as ciências da aritmética e da geometria. Também muito se diz que a filosofia foi um “milagre grego”. Que nada teria sido criado antes, sendo o povo grego algo excepcional, elevado, sem similares. Nem por um lado e nem por outro, a origem da filosofia viria das mudanças que os gregos impuseram aos conhecimentos da época, a partir do contato com a cultura oriental. Figura 1 – Grécia Antiga Fonte: ivan bastien/Shutterstock.com FIQUE ATENTO! Há interpretações que confirmam o surgimento da filosofia com base totalmente na cultura oriental, justificativa que passa por questões religiosas, por exemplo. Há outras que acreditam mesmo no “milagre grego”. 2 Primeiros filósofos Os primeiros pensadores desenvolveram certos conhecimentos acerca do mundo e das coi- sas. Didaticamente, é necessário segmentar o pensamento da antiguidade clássica, grega, em períodos, para melhor entender o desenvolvimento do conhecimento ocidental, que influencia todo o campo do saber até os dias atuais. Nesse sentido, costuma-se dividir o pensamento grego em quatro momentos (CHAUI, 2005): • Grécia homérica: narração da história grega pelo poeta Homero, representado nas obras “Ilíada” e “Odisseia”. • Grécia arcaica (sete sábios): do século VII ao século V a.C., com a criação das cidades gregas, advento do comércio e vida urbana (Atenas, Esparta, Samos entre outras). • Grécia clássica: entre V e IV a.C. até início do século III a.C., com o surgimento da democracia, da vida intelectual e artística, expansão comercial e apogeu militar. • Grécia helênica: meados do século III a.C., império de Alexandre da Macedônia, até a tomada da Grécia pelo povo romano. A historicidade grega não corresponde, diretamente, à divisão do pensamento filosófico, mas o influencia, constituindo também quatro momentos (CHAUI, 2005; ARANHA; MARTINS, 2003): • Período pré-socrático (cosmológico): entre os séculos VII e V a.C. Investiga-se a ori- gem do mundo e as causas das transformações da natureza. Abrange os filósofos das colônias gregas Jônia e Magna Grécia. • Período socrático (antropológico): séculos V e IV a.C. Investiga-se as questões huma- nas, a ética, a política e as técnicas, compreendendo qual o lugar do homem no mundo. O centro cultural da Grécia passa a ser Atenas. Os representantes do pensamento grego são Sócrates, Platão e Aristóteles, que iriam influenciar todo o pensamento posterior. • Período sistemático: séculos IV e III a.C. Busca-se reunir e sistematizar todo o pensa- mento anterior, desenvolvendo-se a teoria do conhecimento, a psicologia e a lógica. Constitui também os primeiros germes da metafísica, que busca o conhecimento último de todasas coisas. • Período helenístico (greco-romano): séculos III a.C. a VI d.C. A filosofia se preocupa com questões de ética, conhecimento humano, relações entre homem, natureza e Deus. Período de apogeu do império romano e influência do cristianismo. Entre esses momentos históricos, teria a filosofia surgido e se consolidado como o pensa- mento humano, com toda a investigação do mundo e da natureza. Porém, o pensamento dos primeiros filósofos já mostra um amadurecimento do conhecimento, passando de investigações voltadas para a origem do mundo e sua ordem, baseadas muitas vezes em mitos, para um conhe- cimento melhor fundamentado, com bases racionais. FIQUE ATENTO! As divisões históricas tomam por base períodos predefinidos de forma didática, sem uma precisão que marque ao certo a data exata de início e término de uma época, mas servem para orientar e organizar as informações. 3 Passagem do mito para a razão Como vimos na seção anterior, a filosofia, em um primeiro momento, teria sua origem nas epopeias narradas por Homero, nas obras “Ilíada” e “Odisseia”, uma narração de cunho mítico, que conta a história da Guerra de Troia e a volta para cada de seu grande herói, Ulisses. Nestas obras, temos a história sendo narrada com acontecimentos que mostram os primeiros passos de um pensamento emergente. Figura 2 – Homero Fonte: Kozlik/Shutterstock.com O pensamento filosófico tem sua base na mitologia, tomando o mito como uma explicação para o surgimento do mundo e para a manutenção do mesmo, como uma justificativa para a vida terrena. E o que é o Mito? Do grego mythos, o mito é um discurso proferido por ouvintes que receberam uma informação por aquele que narrou um acontecimento; e ao confiar nesta fonte, transmitem a informação para outros. Ou seja, o mito é uma narrativa sobre a origem de astros, da Terra, do vento, do mar, do bem e do mal, da vida e da morte. Uma narração que, por vezes, é fictícia, contando também grandes epopeias. Por falta de uma explicação contundente, o mito, ou a mitologia, por muito tempo foi um saber que justificava os acontecimentos. Justificava-se a origem das coisas por meio de lutas entre deu- ses, alianças ou relações sexuais entre forças sobrenaturais que governavam o mundo, mostrando ao homem que havia algo que estava acima de sua compreensão, mas que garantia sua vida terrena. Figura 3 – Zeus Fonte: Dearz/Shutterstock.com O mito, sendo uma ficção, não se sustentou por muito tempo. Com as primeiras investigações da natureza, na procura por um saber que explicasse o surgimento das coisas, na intenção de com- preender a passagem do caos ao cosmos, na busca pela arché (princípio, elemento primordial que constitui tudo), os primeiros filósofos promoveram o conhecimento da natureza, da physis, aquilo que emerge, que surge, que brota, rompendo com o mito, fundamentando o conhecimento na razão. EXEMPLO Para justificar um trovão, pela explicação mítica, bastava dizer que o deus do Olim- po, Zeus, estava bravo com os homens, mortais. Os primeiros filósofos irão em busca da arché, a unidade que poderia explicar a multiplicidade de coisas existentes no mundo. Para cada filósofo do período pré-socrático existiria uma arché. Para Tales de Mileto seria a água; para Anaxímenes era o ar; Demócrito acreditava que era o átomo; para Empédocles, os quatro elementos: água, ar, terra e fogo. A partir do rompimento com o pensamento mítico, a filosofia começa a se desenvolver com base na razão, por meio da busca de um saber que investigue a natureza e descubra, a partir dela, a origem de tudo e o desenvolvimento de todo saber. EXEMPLO A arché, como elemento primordial significa que todas as coisas que existem pos- suem um elemento comum. Se tudo que existe possui umidade, significa que o elemento comum é a água (Tales de Mileto, o primeiro filósofo, defendia essa tese). SAIBA MAIS! Para conhecer melhor a mitologia grega, leia “O livro de ouro da filosofia”, de Tho- mas Bulfich. Disponível em: <http://filosofianreapucarana.pbworks.com/f/O+LI- VRO+DE+OURO+DA+MITOLOGIA.pdf>. 4 O conhecimento da physis A mudança do conhecimento mitológico para o conhecimento da physis é um movimento que passa do tipo de escrita, poética, para uma escrita lógico-conceitual, em prosa. No tipo de investiga- ção, vai da aceitação de narrativas fictícias a formulações lógicas por meio de argumentos bem fun- damentados, a partir da investigação da natureza, na procura de provas para qualquer conhecimento. Os filósofos deixam de justificar a ordem do mundo advinda do sobrenatural, uma ordem divina calcada em deuses, e iniciam a busca por explicações de ordem racional. Iniciam a procura por elementos que seriam essenciais para a composição de tudo o que existe, tudo que é mutável e imutável, e que constituiu o que conhecemos como realidade. Portanto, o saber baseado na physis torna-se a investigação concreta da natureza, permi- tindo a evolução do conhecimento filosófico, deixando para trás um saber incipiente, buscando na razão o conhecimento do mundo. FIQUE ATENTO! A concepção de physis é o que, posteriormente, irá se entender como física ou filoso- fia da natureza. Na Grécia, este conceito é tomado como aquilo que é natureza, que brota, emergindo sem uma origem prévia, sem uma explicação pela causa (como um aparecer do nada). Figura 4 – O sobrenatural Fonte: Vuk Kostic/Shutterstock.com SAIBA MAIS! Conheça mais sobre a filosofia e seus mitos lendo o artigo: “O surgimento da filosofia e a evolução dos mitos: a importância da Escola Jônica para a construção da racionalidade”. Disponível em: <http://www.pucrs.br/edipucrs/XSalaoIC/Ciencias_ Humanas/Filosofia/71062-AGATHACRISTINEDEPINE.pdf>. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • conhecer a origem da filosofia; • entender a passagem do mito para a razão; • adquirir conhecimento sobre a mitologia. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: história de deuses e heróis. 26. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. Disponível em: <http://filosofianreapucarana.pbworks.com/f/O+LIVRO+- DE+OURO+DA+MITOLOGIA.pdf>. Acesso em: 16 jan. 2017. CHAUI, Marilena de Souza. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2005. DEPINÉ, Ágatha Cristine; GOMES, Ariel Koch; SOARES, Josemar Sidinei. O surgimento da filosofia e a evolução dos mitos: a importância da Escola Jônica para a construção da racionalidade. In: SALÃO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA, X., Porto Alegre: PUCRS, 2009. Disponível em: < http://www. pucrs.br/edipucrs/XSalaoIC/Ciencias_Humanas/Filosofia/71062-AGATHACRISTINEDEPINE.pdf>. Acesso em: 11 jan. 2017. As diversas abordagens do real Márcio Tadeu Girotti Introdução Como podemos observar a realidade que nos cerca? A realidade é uma diversidade de fatos e fatores que dependem da interpretação e representação que o ser humano dela faz. O homem e a mulher que vivem em uma cultura onde a fé é marcante, inevitavelmente bus- carão em sua crença a justificativa de sua existência; mas não poderão buscar outras provas para o mesmo objetivo? Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • identificar as várias formas de abordar a realidade; • saber diferenciar a forma como se interpreta - a diferença de perspectiva na linguagem. Exemplo: o pôr do sol, o luar, um corpo que cai, descritos na linguagem de um físico e na linguagem do senso comum de um cidadão. 1 Como podemos observar a realidade A realidade que se coloca de diversas formas nos leva a crer que ela pode ser abordada e interpretada de diversas maneiras, conforme diz Aranha (1996, p. 104). São diversas as maneiras pelas quais o homem (sic) entra em contato com o mundo que o cerca,dependendo das circunstâncias e necessidades, bem como do tipo de cultura em que ele está inserido. Em geral, destacam-se as abordagens mítica, religiosa, artística, cien- tífica, filosófica e do senso comum. Para Aranha (1996), são seis modos de observar a realidade, sendo o mais simples o senso comum, nosso cotidiano privado, no qual observamos os fatos e os interpretamos da nossa maneira, sem nenhum critério de análise. Pela ciência vemos o mundo com dados técnicos, que nos fornecem provas dos fatos que envolvem toda a esfera da natureza e científica. Figura 1 – Observando o mundo Fonte: Ditty_about_summer/Shutterstock.com Há várias formas de interpretar o mundo. Dependendo da crença de cada um, a representa- ção do mundo se modifica. Conforme a orientação do ser humano, sua forma de ver o mundo se altera também, ou seja, o modo de ver o mundo pode ser adaptado para servir de horizonte para a interpretação. 2 Mito e religião A crença e a fé são elementos constitutivos do ser humano que podem se complementar ou se repelir a depender da maneira como este interpreta o mundo ou busca conhecer a si mesmo. A primeira questão é: mito e religião são a mesma coisa? A primeira diferença entre mito e religião está na multiplicidade ou individualidade dos deu- ses. Na mitologia existiam vários deuses. Em geral, existiam para apaziguar a aflição dos homens, que viviam em um mundo assustador (ARANHA, 1996). Já na religião há um único Deus que se mostra de diversas formas. Tanto no mito quanto na religião, o elemento base é a crença, acreditar nos deuses ou no Deus e confiar na forma de sua intervenção no mundo, com o poder da criação e manutenção da vida. Enquanto a crença é o elemento base para garantir a aceitação e a confiança no sobrenatural, é a Fé que distingue a religião do mito. Com ela acreditamos piamente no desconhecido e temos a esperança de continuar no caminho reto da religião, na confiança e segurança do Deus criador. Figura 2 – Religião em diversas crenças Fonte: Rashad Ashurov/Shutterstock.com O mito é figurativo em povos tribais, que utilizam a crença em deuses para cultivar sua vida. O deus sol, o deus terra, o deus da agricultura, entre outros, possibilitam a passagem de uma gera- ção a outra dos costumes e da crença no sobrenatural, na magia, alimentando a vida. A religião foi desvencilhando-se do mito, deixando de lado deuses momentâneos para se fiar em um Deus individualizado, pessoal, que, com vários nomes, é um único ser, humanizado pelos homens, como sua imagem e semelhança. O ser humano que interpreta o mundo de forma mítica ou religiosa buscará no sobrenatural a justificativa de sua existência, se aproximará de Deus pela fé, mas poderá procurar na filosofia uma prova racional da existência de Deus! FIQUE ATENTO! A principal diferença entre mito e a religião é a diversidade de deuses. Enquanto a mitologia apresenta deuses momentâneos, a religião acredita em um único Deus. SAIBA MAIS! Leia o artigo “Mitos e verdades em ciência e religião: uma perspectiva histórica” e procure relacionar as afirmações acerca do mito com as verdades da ciência e as contraprovas da religião, no eterno embate entre o místico e o real. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rpc/v36n6/v36n6a07.pdf>. 3 Senso comum, ciência e linguagens O ser humano já nasce em uma sociedade. Seus primeiros conhecimentos são herdados, transmitidos por alguém, pois somente quando amadurece pode julgar aquilo que observa e aquilo que lhe é transmitido como verdade. Estamos aqui falando do senso comum. O saber do senso comum não é comprovado, é fragmentário, é hereditário, assistemático. Acre- ditamos nele por confiar na fonte que nos transmitiu conhecimento, que varia de cultura para cultura. É um saber empírico derivado da experiência cotidiana, ingênuo, sem rigor. Vemos os fatos como eles ocorrem, acreditamos nessa verdade sem buscar as provas concretas para sua ocorrência. EXEMPLO Comer manga e tomar leite ao mesmo tempo não faz bem. Quem nunca ouviu falar disso? É um saber do senso comum, mostra uma crença não comprovada. Isso é uma anedota antiga: para que o escravo não bebesse o leite produzido pelo gado, era permitido a eles comer manga do pomar. Isso foi passado de geração em gera- ção até a prova concreta dada cientificamente. Enquanto o saber do senso comum não é comprovado, a ciência busca provas concretas para explicar a realidade, distinguindo-se do saber popular. A ciência possui saber sistemático e rigoroso, com teste e experimentos que levam à comprovação dos fatos e de tudo que ocorre na natureza, ela se preocupa com as regularidades existentes nos fatos, o que leva à generalização deles para atingir uma regularidade perante uma lei, que garante o conhecimento comprovado. EXEMPLO Ao atirar uma pedra no vidro, presumimos que ele irá quebrar. E se não quebrar? Arremessamos a pedra com mais força. A ciência explica esse fato considerando a força do arremesso, a distância do atirador, a composição do vidro e o peso da pedra. O que muda aqui é a forma como se observa a realidade. A forma de ver o mundo está relacionada às várias linguagens que se apresentam ao ser humano, pela história, pela física, química, ou, em especial, pela cultura onde ele está inserido. A depender da forma que o indivíduo representa o mundo, haverá uma linguagem. Se ele acredita na história, sua percepção de mundo sempre irá considerar um passado e irá projetar um futuro; se ele acredita na transformação das coisas da natureza, que cria uma história de evolução, ele acredita nas provas do universo físico. Assim, o senso comum e a ciência se entrelaçam em vias de linguagem, a forma como o ser humano irá interpretar o mundo. 4 Arte e cultura. Cultura (senso comum), ciências Físicas, História Natural e tecnologia (linguagem científica) Culturalmente, o ser humano é inserido em uma sociedade e irá herdar dela os primeiros conhecimentos e formas de observar a realidade, analisando o comportamento do outro e apro- veitando-se da sua experiência para interpretar o mundo. O artista, por exemplo, enxerga o mundo por sua expressão e emoção, com um olhar abs- trato, que pode influenciar o outro a analisar o mundo com os olhos do artista. Isso pode variar culturalmente, pois a visão de mundo em uma metrópole é diferente da visão de mundo do campo, mas pode um artista da cidade pintar o campo e vice-versa. Muitas vezes sem nunca ter pisado nesse ambiente, sendo algo desconhecido para ele. Tomando a cultura como instrumento, obtendo conhecimentos transmitidos, porém, o artista representa o mundo da sua forma e ela pode influen- ciar outros pensamentos. Figura 3 – Arte como expressão do mundo Fonte: Anton Evmeshkin/Shutterstock.com A física nos transmite um saber concreto e comprovado que permite entender a causa e o efeito dos acontecimentos, nos levando a saberes mais complexos que permitem o desenvolvi- mento de novos estudos e a construção de conhecimentos e ferramentas para interpretar o mundo. Atualmente, a ciência e a tecnologia evoluem em largos passos mostrando ao ser humano que tudo é possível, desde que se acredite no impossível. A invenção da máquina e a evolução da comunicação caminham com o próprio desenvolvimento da humanidade. As distâncias encurta- das pela tecnologia permitem enxergar um mundo sem barreiras, proporcionando ao ser humano novas maneiras de observar a realidade, usando a tecnologia como instrumento. FIQUE ATENTO! A arte como expressão do artista representa a visão de mundo que ele possui. Bas- ta que você interprete essa arte por seu próprio ponto de vista e a utilize para ver o mundo com seus próprios olhos. 5 Ciência e filosofia A filosofia e a ciência caminharam juntas até o século XVII, quando se separaram, abrindo espaço para as ciências particulares, comofísica, astronomia, biologia, psicologia etc. Mesmo com essa separação, o objeto de estudo de ambas permaneceu, mas a forma de investigação tor- nou-se diferenciada. Por um lado, um saber especializado, a ciência. Por outro, um saber rigoroso que busca a totalidade e a causa última de todas as coisas, a filosofia. A ciência é um saber comprovado, rigoroso e sistemático, mas é fragmentário em sua espe- cialização: a biologia estuda a vida, a antropologia estuda o ser humano, a física estuda a natureza. A filosofia estuda tudo isso e vai até a última consequência, sendo também um saber rigoroso e sistemático, como a ciência, mas nem sempre comprovado. A visão de mundo do cientista é a experimentação como prova da realidade, ao passo que a visão do filósofo sobre a mesma realidade é entender como essa realidade é real, qual o funda- mento dessa realidade. Figura 4 – O ser humano, a ciência e a filosofia Fonte: life_in_a_pixel/Shutterstock.com Essas duas maneiras de abordar a realidade consideram o mundo como um todo, com infi- nitas possibilidades. Quem se aproxima dessa forma de observar o mundo estará sempre sobre um alicerce bem fundamentado, podendo especializar o seu saber ou procurar a causa última de todas as coisas. FIQUE ATENTO! A filosofia se diferencia da ciência por ser um conhecimento que visa a totalidade, enquanto a ciência se especializa em um objeto de estudo. SAIBA MAIS! No artigo “Observações sobre as relações entre a ciência e a filosofia”, o autor procura mostrar as aproximações e distanciamentos acerca dos objetos de estudo da ciência e filosofia. Veja o link: <http://www.unicamp.br/~chibeni/textosdidaticos/ cienciaefilosofia.pdf>. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • conhecer as diversas abordagens do real; • diferenciar as várias formas de enxergar o mundo; • conhecer as linguagens de interpretação de mundo. Referências ARANHA, M. L. de A. Filosofia da educação. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1996. _______; MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2003. CHIBENI, Silvio Seno. Observações sobre as relações entre a ciência e a filosofia. In: SEMANA DA FÍSICA, I., Instituto de Física Gleb Wataghin, Campinas, 2001. Disponível em: <http://www.unicamp. br/~chibeni/textosdidaticos/cienciaefilosofia.pdf>. Acesso em: 13 jan. 2017. NUMBERS, Ronald L. Mitos e verdades em ciência e religião: uma perspectiva histórica. Rev Psiq Clín, v. 36, n. 6, p. 246-251, 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rpc/v36n6/v36n6a07. pdf>. Acesso em: 13 jan. 2017. A filosofia pré-socrática Márcio Tadeu Girotti Introdução A história da filosofia, didaticamente, possui uma divisão clássica, que separa o saber em dois momentos: antes e depois de Sócrates. Este pensador grego é considerado, por seus ensi- namentos, como um marco da filosofia. Todo o saber anterior a Sócrates é considerado como incipiente, mas possui grande importância para o desenvolvimento da humanidade. O período considerado pré-socrático, anterior a Sócrates, é marcado por investigações que tomam por base o conhecimento da natureza, com os primeiros pensamentos que levaram o ser humano a investigar a origem das coisas, do mundo, do universo, do cosmos. Veremos nesta aula como esse pensamento se configura e se faz presente ao longo da his- tória da filosofia. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • entender o surgimento da filosofia a partir dos primeiros registros de pensamento filosófico; • conhecer o pensamento pré-socrático e seus representantes para identificar as verten- tes de pensamento (racional e empírico). 1 A filosofia anterior a Sócrates O pensamento caracterizado como anterior a Sócrates é denominado como pré-socrático, possuindo como característica principal a preocupação com a natureza do mundo exterior, mar- cando a passagem da cosmogonia para a cosmologia. A cosmogonia é a interpretação do mundo pelo mito, a passagem do caos aos cosmos, apoiado em deuses e sua identificação com forças da natureza. Já a cosmologia é o rompimento com o sobrenatural e a busca por princípios teóricos que expliquem a ordem do mundo, a procura pela arché (princípio teórico), concebendo a diversidade de escolas filosóficas com diferentes fun- damentos conceituais (ARANHA, 2000). Figura 1 – Sócrates Fonte: Renata Sedmakova/Shutterstock.com O pensamento pré-socrático é narrado pela filosofia clássica na voz do próprio Sócrates, Pla- tão e Aristóteles, uma vez que boa parte dos escritos foram perdidos, restando tão somente frag- mentos que serviram de base para a interpretação da época. Entre os principais pensamentos desse período, destaca-se a filosofia de Heráclito e Parmê- nides; mas antes disso houve Tales de Mileto, considerado o primeiro filósofo. SAIBA MAIS! Confira a obra de Gerd Borhmein, “Os filósofos pré-socráticos”, para compreender como se estabeleceu a divisão da filosofia em dois momentos, tendo como marco o pensamento de Sócrates. Disponível em: <https://docente.ifrn.edu.br/edneysilva/ os-filosofos-pre-socraticos>. 2 Tales de Mileto: o primeiro filósofo Tales viveu em Mileto (634-546 a.C.), era um negociante, envolvido em política, conhecedor da matemática. Infelizmente, seus escritos não sobreviveram ao tempo, mas os registros de sua filosofia estão presentes em Aristóteles e, principalmente, em Diógenes de Laércio (biógrafo do século III). Assim como outros pensadores desse período, Tales buscava um princípio, um elemento primordial. Para tanto perguntava-se: qual a matéria prima básica do universo? Qual o elemento que dá início à formação de tudo? Com isso, o pensador investigava a natureza a fim de encontrar a arché, para sustentar sua teoria, de que há um elemento comum que compõe todas as coisas. Investigando a natureza, observou que a água sustentava todas as formas de vida, pos- suindo movimento que a faz transformar-se em diversos estados: líquido, sólido e gasoso. A partir disso, Tales considerou que toda a matéria, independentemente de suas propriedades, em algum momento deve ser água em um seus estágios de transformação, pois parece ser evidente que todo o composto é úmido, tudo o que existe possui umidade. Figura 2 – Água: a arché de Tales de Mileto Fonte: kubais/Shutterstock.com Portanto, o filósofo Tales de Mileto concluiu: tudo é água! A matéria prima do universo é algo a partir do qual tudo vem a ser formado, é essencial à vida, capaz de se transformar, mover, mudar. SAIBA MAIS! Com grande domínio de geometria e astronomia, Tales conseguiu prever um eclipse completo do sol em 585 a.C. Infelizmente ele não sobreviveu para comprovar sua descoberta. Tales de Mileto, além de filósofo era matemático e utilizava esse saber para compreender a natureza e a origem do universo. Foi responsável, entre outras coisas, pela criação de um teorema, o conhecido “teorema de Tales”, utilizado até hoje para cálculos geométricos, muito aplicado no campo da engenharia. FIQUE ATENTO! Tales de Mileto está entre os filósofos que buscavam a arché, o elemento primordial que deveria compor todas as coisas. Ele é considerado o primeiro filósofo por ter sido o primeiro a investigar a natureza a partir desse ponto de vista. EXEMPLO Ao observar que à beira do rio nascem plantas, Tales de Mileto considerou que as coisas são úmidas e, portanto, em algum momento passaram pelo estágio água. 3 As escolas filosóficas Os primeiros filósofos datam do século VI a. C. e foram agrupados em escolas, a partir de seus ensinamentos e pressupostos filosóficos. Essa separação em escolas, além de ser uma forma didá- tica de apresentar a divisão da filosofia nesse período, nos auxilia a compreender a influência de cada vertente para concepções filosóficas posteriores. Entre as principais escolasdestacam-se: 3.1 Jônica (Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Em- pédocles) É a mais antiga das escolas gregas, com origem em Mileto (VI a.C.). Nela destaca-se Tales de Mileto, buscando sentido racional para a origem das coisas, opondo-se às explicações sobrenaturais. 3.2 Itálica (Pitágoras) Desenvolve-se no sul da Itália, tendo em Pitágoras seu principal representante, que justificava os números como essências das coisas. 3.3 Eleática (Xenófanes, Parmênides, Zenão) Parmênides é o principal representante dessa escola, afirmando que a única realidade exis- tente é o ser. Zenão de Eléia, também um dos entusiastas dessa corrente de pensamento, por meio de seu princípio dialético de análise, modifica a doutrina do ser de Parmênides, buscando afirmar que o ser é uno. 3.4 Atomista (Leucipo e Demócrito) Com Demócrito (460-370 a.C.) como seu principal representante, tem por fundamento o vir a ser das coisas, considerando que os seres são compostos por partículas indivisíveis: o átomo. Figura 3 – O Átomo: a arché de Demócrito Fonte: vectorEps/Shutterstock.com A partir dessas escolas se desenvolvem os pensamentos e fundamentos da filosofia nas- cente. Posteriormente, com a filosofia clássica, a exemplo de Platão e Aristóteles, veremos nova- mente a formação de escolas, denominadas de Academias do saber, cada qual especificando um tipo de conhecimento, uma ênfase, como a lógica, a matemática, a ética ou mesmo a biologia. FIQUE ATENTO! As escolas filosóficas desse período agrupam as teorias e os pensadores de acordo com suas teses. Não eram agrupamentos que ensinavam determinado conheci- mento, como foram, posteriormente, a Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles, por exemplo. 4 Heráclito e Parmênides Heráclito (544-484 a.C.), oriundo da Jônia (Éfeso), pertencente à Escola Jônica, buscava com- preender a multiplicidade do real, considerando que tudo está em movimento, nada é imutável. A ele é atribuída a expressão: “nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio”. Na segunda vez nem o rio e nem nós somos os mesmos. Isso implica que tudo muda a todo tempo, nada é estável. O ser se mostra em multiplicidade, portanto “tudo flui” (panta rei). Figura 4 – Movimento constante da mudança Fonte: Galyna Andrushko/Shutterstock.com Para Heráclito o ser é múltiplo, pode ser constituído de oposições internas. A luta entre con- trários mostra o fluxo de movimento para a aparição das coisas. Dizia Heráclito que “a guerra é pai de todos, rei de todos” – explicando que da luta nasce a harmonia como síntese dos contrários (ARANHA, 2000). Contrário ao pensamento de Heráclito, Parmênides (540-470 a. C.), da Escola Eleática, acredi- tava que o ser é imóvel, estável, imutável, pois nada pode ser e não ser ao mesmo tempo: o ser é e o não ser, não é. Isso mostra um princípio de identidade do ser, algo que será fundamentado pela metafísica posterior como princípio de fundamento da coisas. O movimento, para Parmênides, existe somente no mundo sensível, que promove a mudança, o nascer e o morrer das coisas, e toda percepção desse mundo é ilusória. Somente o mundo inte- ligível é verdadeiro, pois contém o imutável. Esses dois pensamentos, em última instância, serão a base do pensamento filosófico da antiguidade e sua influência se faz presente em pensadores da filosofia moderna, como Hegel. Na filosofia clássica, em Platão, essa contraposição em um mundo sensível e inteligível ficou evidente, como uma junção entre os pensamentos de Heráclito e Parmênides. Os pensamentos de Heráclito e Parmênides, em conjunto, fundamentam, em certa medida, a teoria de Platão, uma vez que a teoria de Heráclito está vinculada ao mundo sensível, mutável, que a todo momento está se modificando, não é estável. Ao passo que, para Parmênides, há algo que não se altera, não se modifica, permanece, é essencial, o que seria o mundo ideal de Platão. Além disso, essas duas teorias iniciam o que mais tarde será configura como corrente de pensamento empirista e racionalista. A consequência direta do pensamento desses dois filósofos é a teoria da identidade entre o ser e o pensar, aquilo que existe em mim e fora de mim como sendo identificadas ao meu pensa- mento, ou seja, o que não consigo pensar não pode ser na realidade (ARANHA, 2000). FIQUE ATENTO! O princípio de identidade é consequência direta da teoria de Parmênides, que pos- teriormente foi de suma importância para o desenvolvimento da corrente de pen- samento racionalista. EXEMPLO A lagarta que se transforma em borboleta é um exemplo de vir a ser. A lagarta pos- sui em sua essência o ser borboleta; mas, para isso, é necessária uma transforma- ção, que mostre a passagem do estágio lagarta para o estágio borboleta. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • compreender a filosofia pré-socrática; • entender o pensamento filosófico dos primeiros filósofos; • identificar o pensamento de Heráclito e Parmênides como influência para os pensa- mentos de Platão. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2000. BORHMEIN, Gerd (org.). Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 1998. Disponível em: <https://docente.ifrn.edu.br/edneysilva/os-filosofos-pre-socraticos>. Acesso em: 17 jan. 2017. BURNHAM, Douglas; BUCKINGHAM, Will. O livro da Filosofia. São Paulo: Globo, 2011. CHAUI, Marilena de Souza. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2005. A filosofia Grega Márcio Tadeu Girotti Introdução A filosofia grega é momento clássico da filosofia, onde se desenvolveram as principais ideias, conceitos, princípios que orientaram toda a teoria do conhecimento que se volta para o ser humano para a natureza, para o universo. Na Grécia antiga vimos aparecer os pensamentos de Sócrates, Platão e Aristóteles, que influenciaram todo o campo do saber sistematizando a forma de pensar e conhecer. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • entender como se estabeleceu a filosofia na Grécia; • conhecer o pensamento filosófico grego a partir dos principais filósofos; • compreender a origem de toda a filosofia e sua corrente de pensamento: racionalista e empirista. 1 O pensamento filosófico da Grécia Antiga: Platão, Sócrates e Aristóteles O momento filosófico da Grécia clássica (V e VI a.C.) é representado pelos filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles. Sócrates (470-399 a.C.) nada deixou registrado. Sabemos de sua filosofia por meio de Platão, seu discípulo. Sócrates passava seu tempo dialogando e participava de banquetes como momen- tos de profunda reflexão. Condenado por corromper a juventude com suas ideias, foi condenado à morte ingerindo cicuta (veneno que paralisa os músculos), mas o seu pensamento prevaleceu nos diálogos de Platão. Platão (428-347 a.C.) escrevia em forma de Diálogos, tendo por destaque o mito da caverna, que mostra a principal forma da sua teoria de conhecimento. A metáfora pode ser interpretada pelo viés epistemológico (conhecimento) ou político (poder). Como representante do racionalismo, fundou em Atenas uma Academia, onde suas teorias eram propagadas, revelando-se de grande importância para o desenvolvimento da metafísica. Discípulo de Platão, Aristóteles (384-322 a.C.) inicia seu pensamento seguindo o mestre. Afastou-se posteriormente constituindo sua própria teoria do conhecimento, voltando-se para o ensinamento a partir do mundo da experiência. Representou, por sua vez, a corrente de pensa- mento empirista. Fundou em Atenas uma academia do saber: o Liceu. Esses pensadores fundaram as bases do pensamento ocidental, que influenciaria todo o conhecimento posterior: como a matemática, a física, metafísica e a antropologia. FIQUE ATENTO! Sócrates não deixou nada escrito, mas seupensamento sobreviveu nas obras de seus discípulos e historiadores da época. 2 Sócrates: dialética e maiêutica O método socrático, partindo da constatação de sua própria ignorância, o sei que nada sei, consiste em: • dialética - interroga o sujeito com perguntas que fazem a desconstrução das certezas sobre determinado conhecimento, levando o sujeito à ignorância do saber; • maiêutica - a partir da ignorância, com perguntas, dialogando, faz com que o sujeito profira novas ideias, como um parto de ideias. Figura 1 – Diálogos Fonte: Dean Drobot/Shutterstock.com Sócrates destruía o saber constituído a fim de reconstruí-lo na busca pela definição de con- ceitos. Sempre por meio de diálogos, perguntava sobre questões referentes à moral: o que é a coragem, a covardia, a justiça? Desta forma, buscava saber o que é a essência do conceito, ou seja: o conceito em si. Por sua influência, principalmente entre os jovens, Sócrates não era bem visto pelo governo, sendo condenado à morte por corromper a juventude. Ficou a cargo de Platão zelar pelo pensa- mento socrático e registrar esse saber em suas obras. SAIBA MAIS! Sócrates não ficou triste por sua morte. Ela afirmava que sua alma estaria livre do corpo para conviver com as de grandes seres humanos, às voltas com as ideias perfeitas desse mundo de sombras. Fazendo referência ao mundo das ideias de Platão, o mundo inteligível, repleto de formas perfeitas. 3 Platão e o mito da caverna As obras de Platão são escritas em forma de diálogos, um dos principais é a obra “A Repú- blica”, onde, no livro VII, encontramos a principal referência para a teoria do conhecimento de Pla- tão: o mito da caverna. Platão imagina uma caverna onde estão acorrentados os homens (sic) desde a infância, de tal forma que, não podendo se voltar para a entrada, apenas enxergam o fundo da caverna. Aí são projetadas as sombras das coisas que passam às suas costas, onda há uma foguei- ra. Se um desses homens (sic) conseguisse se soltar das correntes para contemplar à luz do dia, os verdadeiros objetos, quando regressasse, relatando o que viu aos seus antigos companheiros, esses o tomariam por louco, não acreditando em suas palavras (ARANHA; MARTINS, 2003, p. 121). O mito representa a forma de conhecimento por meio da divisão do mundo em sensível e inteligível. O primeiro representa o mundo que temos acesso pelos sentidos, o fundo da caverna, ou seja, um mundo de sombras, ilusório. O mundo inteligível é o mundo das ideias, o mundo da verdade, das formas perfeitas, os arquétipos dos objetos que vemos no mundo sensível, que são as sombras dessas ideias perfeitas, que estão fora da caverna. Figura 2 – Platão Fonte: Anastasios71/Shutterstock.com Os objetos do mundo sensível são contemplados porque participam da ideia de objeto em si, do mundo perfeito. Aqui temos a teoria da participação, que se complementa com a teoria da reminiscência (rememoração). Para Platão, a alma residia no mundo das ideias, contemplando as formas perfeitas. Ao ocupar o corpo, já no mundo sensível, esquece tudo o que contemplou. Quando observa objetos pelos olhos do corpo, a alma relembra o que outrora havia contemplado, rememora a ideia do objeto que observa no mundo sensível, adquirindo seu conhecimento. Esse movimento é a dialética, a alma eleva-se da multiplicidade de coisas do mundo sensível às ideias imutáveis do mundo das ideias. Representa, assim, o conhecimento racionalista. EXEMPLO Um gato é gato enquanto participa da ideia perfeita de gato. Há, no mundo das ideias, a ideia perfeita de gato; enquanto no mundo sensível, este que podemos ver, contém somente a sombra dessa ideia perfeita de gato. Vemos uma cópia e não a ideia em si. SAIBA MAIS! Acessando o link a seguir, você pode observar uma charge animada. Ela relaciona o mito da caverna aos dias atuais com referência aos conceitos de ideologia e de alienação. Disponível em:<https://www.youtube.com/watch?v=XoU4YAhJzLY>. 4 A interpretação política do mito O mito da caverna pode ser interpretado pelo viés da política. Aquele que se solta da caverna tem a missão de orientar os outros que a ela continuam presos, surgindo a questão: como influen- ciar os seres humanos que não querem ou não podem enxergar? Platão afirmava que o governo deveria ser gerenciado pela sabedoria e não pelo poder. Deve- ria existir o Rei Filósofo, pois cabe ao sábio ensinar e governar, como uma necessidade da ação política, transformando os seres humanos e a sociedade, tendo uma ação dirigida pelo modelo ideal de contemplação. A partir do mito da caverna, Platão imagina uma cidade ideal. Um modelo de como deveria ser a cidade, onde o Estado cuidaria da educação das crianças, eliminando-se a forma da proprie- dade, evitando a cobiça e o poder. A educação seria igual para todos até os vinte anos. Depois disso as pessoas seriam separadas por suas habilidades, trabalhando na subsistência, na defesa e no governo da cidade. O governo seria digno daqueles mais notáveis, detentores da arte de pensar, estudantes da filosofia, com caráter puro e de justiça. Esses manteriam a cidade coesa, com senso de justiça vivendo nos preceitos da virtude. Esse modelo de governo exclui a democracia, pois não assegura igual direito ao poder, man- tendo somente a característica da divisão igualitária dos bens e o poder para aquele que possui a arte de governar. Assim, a melhor forma de governo seria a aristocracia. Não da riqueza, mas do saber, onde o poder é confiado aos melhores, aos sábios. Onde reis tornam-se filósofos ou filóso- fos tornam-se reis. FIQUE ATENTO! O mito da caverna é uma alegoria que exemplifica a teoria do conhecimento de Platão. Não a representa como um todo, podendo ser interpretada tanto pelo viés do conhecimento (epistemologia), quanto pelo viés político. 5 Aristóteles e as quatro causas Aristóteles afirma que o ser humano é um composto de Substância e Acidente. Segundo o filósofo, a substância é aquilo que é em si, que possui atributos que são essenciais, aqueles que são necessários, pois, sem esses atributos, a substância não seria substância. Outros atributos, que também compõem o Ser, são considerados acidentes, atributos que não compõem a essência da substância, são qualidades externas ao Ser, que, fazendo ou não parte do Ser, não fazem dife- rença, não modificam a essência da substância. Figura 3 – A escola de Atenas Fonte: Viacheslav Lopatin/Shutterstock.com Além disso, Aristóteles trata da transformação dos seres, recorrendo às noções de forma e matéria. Forma é o que faz com que uma coisa seja o que é; já a matéria é um princípio indetermi- nado pelo qual o mundo físico é composto, aquilo do que algo foi feito. Portanto, matéria e forma são indissociáveis. A forma é a essência, enquanto a matéria é uma potência, um vir a ser, que poderá ter ou não uma forma. Esse princípio de forma e matéria conjuga-se aos conceitos de Ato e Potência, que tratam do devir: um mármore pode se transformar em estátua. O ser existente é o ato, o perfeito, enquanto a potência é a ausência de perfeição, aquilo que poderá vir a possuir uma forma. O movimento que passa da potência ao ato mostra a teoria das quatro causas, que conjuga: forma, matéria, causa eficiente e causa final. Na estátua, por exemplo, a pedra bruta é a matéria, a forma é aquilo que o escultor irá imprimir na pedra, o trabalho de esculpir é a causa eficiente, e a causa final é o resultado, a estátua pronta. Figura 4 – As quarto causas na composição de uma estátua Fonte: QQ7/Shutterstock.com Com isso, Aristóteles fundamenta a sua teoria por vias de um conhecimento que se volta para o mundo sensível, para o conhecimento empírico. EXEMPLO O homem é uma substância, que possui atributos essenciais e um deles é ser ra- cional. Ele pode ser belo, atributo que não é essencial,é acidente, não influencia a essência de homem. FIQUE ATENTO! As quatro causas exemplifica a teoria de Aristóteles, conjugando os aspectos da es- sência-acidente, forma e matéria, potência e ato. Ou seja, não é uma teoria isolada. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • conhecer a origem do pensamento filosófico; • entender o pensamento clássico da filosofia com Sócrates, Platão e Aristóteles. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. SOUZA, Maurício de. Mito da caverna. 2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=- XoU4YAhJzLY>. Acesso em: 13 jan. 2017. O conhecimento na história da filosofia Márcio Tadeu Girotti Introdução A filosofia possui uma divisão de pensamento em, pelo menos, duas grandes vertentes: o racionalismo, calcado no conhecimento de cunho racional; e o empirismo, conhecimento oriundo da experiência sensível. A partir dessas vertentes desdobram-se formas de conhecer, como o conhecimento indutivo, dedutivo, intuitivo, bem como metafísico, dogmático etc. O conhecimento, na história da filosofia, se desenvolve a partir dessa divisão, que escala o pensamento movido pela razão ou pela experiência. Cada pensador, cada época atribui ao conhe- cimento o seu método, seguindo uma ou outra corrente ou ambas. Vamos estudá-las nesta aula? Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • conhecer e identificar a teoria do conhecimento na história da filosofia; • compreender as correntes de pensamento: racionalista e empirista. 1 Filosofia racionalista A filosofia racionalista distingue duas modalidades racionais operadas pelo sujeito do conhe- cimento: a intuição e o raciocínio. O raciocínio é responsável por uma razão discursiva, que realiza diversos atos de conhecimento até poder captá-lo. Passa por etapas progressivas para se aproximar daquilo que deseja conhecer. A intuição, por sua vez, é um ato do espírito que capta de uma só vez o objeto que deseja conhecer. Ou seja, é uma visão direta e imediata do objeto do conhecimento, sem provas ou razões para explicar o que se conhece (CHAUI, 2005). EXEMPLO Quando um médico transmite um diagnóstico de forma imediata, diretamente por conta dos conhecimentos que possui, apreendendo de uma só vez a causa de uma doença, temos aqui um exemplo de intuição. A razão discursiva divide-se em dedução, indução e abdução, três modalidades ligadas ao conhecimento racional. Dedução e indução são processos racionais que partem do conhecido ao desconhecido, a partir do que já sabemos podemos conhecer o que ainda não conhecemos. Figura 1 – Ideia Fonte: Adamovich/Shutterstock.com A dedução parte de uma verdade já conhecida funcionando como princípio geral de onde par- tem todos os casos que serão derivados dela. “Parte-se de uma verdade já conhecida para demos- trar que ela se aplica a todos os casos particulares iguais” (CHAUI, 2005, p. 67). Isso significa que, na dedução, parte-se do geral para o particular. O exemplo clássico da dedução é considerar: A é B, B é C, portanto, A é C. Fazendo um racio- cínio sobre isso, podemos dizer: todo Ser Humano é mortal, Marcos é um ser humano, portanto, Marcos é mortal. A indução, ao contrário da dedução, parte do particular ao geral. Parte-se de casos particula- res, semelhantes, iguais até o caminho que nos leva à lei geral, à definição, à teoria. Observamos por diversas vezes um mesmo fenômeno acontecendo a partir de uma mesma ação ou mesma causa e, com isso, somos levados a acreditar que sempre irá ocorrer da mesma maneira, quando estiver na mesma situação. Figura 2 – Indução: ponto de ebulição Fonte: George Dolgikh/Shuterstock.com A água que ferve em uma panela ao ser coloca sobre o fogo, evapora. Isso sempre ocorre, o que significa que toda vez que fizer esse procedimento, a água, ou os líquidos em geral, sofrerão o mesmo processo: evaporar. Nesse caso, posso induzir que o fogo tem a propriedade do calor, que faz com que líquidos evaporem. Ou ainda, ser induzido a acreditar que sempre que o líquido estiver em contato com o fogo, ele irá evaporar. Tanto a dedução quanto a indução são inferências, ou seja, concluir alguma coisa a partir do que já é conhecido. Além dessas duas possibilidades, o filósofo inglês Charles Sanders Peirce (1839-1914) considera mais uma: a abdução. A abdução é uma intuição que não é imediata, con- siste em alguns passos para se obter a conclusão, como a intuição de um artista ou de um dete- tive. Por exemplo: o detetive parte de indícios, sinais, para explicar o caso investigado (ARANHA; MARTINS, 2003). Figura 3 – Abdução Fonte: Ollyy/Shutterstock.com Vê-se, portanto, que a forma do conhecimento racional pode se desdobrar em procedimentos distintos, mas que possuem uma mesma raiz, a razão: De modo geral, diz-se que a indução e a abdução são procedimentos racionais que empre- gamos para a aquisição de conhecimentos, enquanto a dedução é o procedimento racional que empregamos para verificar ou comprovar a verdade de um conhecimento já adquirido (CHAUI, 2005, p. 68, grifo do autor). FIQUE ATENTO! Dedução é um procedimento racional que parte do geral para o particular, por meio de inferências lógicas; enquanto a indução parte do particular para o geral, forman- do uma lei geral, uma teoria, criando um conceito para o objeto. 2 Filosofia dogmática Na teoria do conhecimento há duas vertentes que se opõem na possibilidade de adquirirmos uma certeza: o dogmatismo e o ceticismo. O dogmatismo é uma doutrina a partir da qual obtenho uma certeza, são verdades inquestionáveis, indubitáveis, concretas, das quais não tenho dúvida e sigo com elas mesmo que tudo se coloque contra elas. Ao contrário do dogmatismo, o ceticismo busca conhecimento e nessa procura, de tanto observar, conclui a impossibilidade do conhecimento, suspende o juízo, ou admite-se uma forma relativa de conhecimento. Na história da filosofia, o dogmatismo, em especial o dogmatismo metafísico, foi consi- derado toda a metafísica ou conhecimento racional anterior a Immanuel Kant (1724-1804). Ele mesmo afirma que os filósofos não perceberam os limites da razão no processo de conhecimento, chamando-os de dogmáticos. Com a sua obra “Crítica da razão pura”, Kant procura expurgar todo o conhecimento que não passou pelo crivo da razão, pelo tribunal da razão, ou seja, ele faz uma crítica da própria razão (GIROTTI, 2008). O dogmatismo é, portanto, uma forma de conhecimento que emprega uma verdade como absoluta, sem precisar de validação ou comprovação, discordando de qualquer verdade que não seja a já estabelecida. Ao passo que o ceticismo discorda de toda e qualquer verdade absoluta, pre- valecendo sempre a procura pela verdade, pelo conhecimento, duvidando do próprio conhecimento. FIQUE ATENTO! Dogmatismo e ceticismo são duas formas de pensar que se contrapõe pela certeza do conhecimento. Enquanto dogmatismo emprega o dogma como conhecimento que não precisa de comprovação, o ceticismo prefere o caminho da dúvida, ques- tionando o conhecimento sem reflexão. 3 Filosofia empirista Enquanto a filosofia racional parte de raciocínios e processos racionais, o empirismo defende que a razão, a verdade e as ideias (conceitos) são adquiridos pelo sujeito por meio da experiência. De acordo com o empirismo, a razão é uma forma de conhecer e a adquirimos ao longo de nossa vida, por meio da experiência sensível (sentidos). Nesse ponto, nossa alma seria como uma folha em branco, sem nenhum conhecimento, que aos poucos vai ganhando conceitos e conhecimen- tos. O empirismo melhor se desenvolveu entre os séculos XVI e XVIII com os filósofos ingleses, como Francis Bacon, Thomas Hobbes, John Locke, George Berkeley e David Hume. Para os empiristas,nosso conhecimento deriva da experiência, por meio das sensações dos objetos exteriores a nós, que excitam nossos sentidos, nos possibilitando enxergar cores, ouvir sons, sentir texturas. A reunião de várias sensações forma uma percepção, e com várias percep- ções formulamos uma ideia, um conceito do objeto. Adquirimos assim o conhecimento do objeto; e essas ideias, trazidas da experiência, são abarcadas pela razão, formando assim os pensamentos. A experiência escreve em nossa alma as ideias e com a razão podemos associá-las, obter novos conhecimentos. Ou seja, com o empirismo o conhecimento é obtido a partir dos objetos que são externos ao sujeito. Enquanto o conhecimento racional parte de conceitos criados pela razão, a partir de verdades já existentes. SAIBA MAIS! A filosofia empirista surgiu com a filosofia grega, com seu representante maior, Aristóteles. Porém, foi com os ingleses que essa forma de pensamento recebeu sua melhor formulação, sendo então chamado empirismo inglês. EXEMPLO Posso conceber uma sereia racionalmente, em pensamento, juntando duas ideias obtidas a partir de conhecimentos da experiência: peixe e mulher. Juntando essas duas ideias, tenho a sereia (peixe + mulher). 4 A virada no conhecimento filosófico Na história da filosofia vemos uma mudança de pensamento no que diz respeito ao conhe- cimento. Ocorreu uma virada no campo do conhecimento, passando de uma ontologia para uma epistemologia. Isto é, deixamos de nos preocupar com o objeto no sentido do ser do objeto, o que é o objeto, para verificar como conhecemos os objetos. Essa virada ocorreu com a filosofia kantiana, no século XVIII, com a conhecida Revolução Copernicana. Isto se deu quando Kant afirmou que era preciso colocar no centro do conhecimento o sujeito, e não o objeto; pois é o sujeito que representa o mundo à sua maneira, construindo a sua representação de mundo. Figura 4 – Immanuel Kant Fonte: Nicku/Shutterstock.com Antes de Kant, a filosofia permanecia na ontologia, procurando compreender e conhecer o objeto em sua essência, sendo o objeto o centro do conhecimento. Ao passo que, com a pro- posta da mudança de eixo, a preocupação passou a ser como podemos conhecer as coisas: a epistemologia. Vemos que no século XVIII a teoria do conhecimento ganhou uma nova forma de ver o mundo e adquirir novos saberes. Podemos considerar que há uma filosofia antes e depois de Kant com sua crítica à razão e seus limites, com sua crítica ao dogmatismo e a inauguração de uma nova forma de pensar: o sujeito construindo sua representação de mundo. FIQUE ATENTO! A partir da filosofia kantiana ocorreu uma mudança de eixo no conhecimento filo- sófico. Vimos o sujeito ocupar o centro do conhecimento, mostrando que o mundo é conhecido por meio de sua representação. SAIBA MAIS! Leia o artigo “Kant e o criticismo da década de 1760” e veja como o filósofo articula a crítica à razão, dentro do próprio âmbito do racionalismo, sendo ele mesmo um ra- cionalista e, por vezes, um dogmático, mas que inaugura o criticismo. <http://www. marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/FILOGENESE/Marcio%20Tadeu%20 Girotti%20-%2013%20_113-125_.pdf>. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • conhecer a diferença entre racionalismo e empirismo; • distinguir dogmatismo de ceticismo; • entender a virada no campo do conhecimento filosófico. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução a filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. CHAUI, Marilena de Souza. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2005. COSTA, Paulo; SILVA, Mariluze. O método pragmático de Charles S. Peirce. Revista Eletrônica Print, São João del-Rei/MG, n.13, 2011. Disponível em: <http://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/ revistalable/2_BICALHO_O_METODO_PRAGMATICO_DE_CHARLES_S__PEIRCE__revista_met. pdf>. Acesso em: 13 fev. 2017. GIROTTI, Marcio Tadeu. Kant e o criticismo da década de 1760. Filogênese, Marília, v. 1, n. 1, p. 113- 125, 2008. Disponível em: <http://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/FILOGENESE/ Marcio%20Tadeu%20Girotti%20-%2013%20_113-125_.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2017. KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Rio de Janeiro: Vozes, 2014. O conhecimento na vertente racionalista Márcio Tadeu Girotti Introdução A filosofia racionalista emprega a razão para a obtenção do conhecimento, construindo um saber por meio de inferências lógicas, com processos de dedução e indução. Possui na metafísica seu principal instrumento de análise da realidade, levando a comprovação do saber para um ter- reno que escapa à compreensão humana, por não ter bases na experiência sensível. O racionalismo possui vários representantes, que procuram mostrar um método para o conhecimento, mas sempre sobrevalorizando a razão. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • compreender os aspectos da filosofia racionalista e o método de conhecimento; • identificar as características da filosofia racionalista de Descartes e Kant. 1 A filosofia racionalista A razão opera com o raciocínio dentro de uma razão discursiva, realizando atos de conhecimento para captar objetos que são externos ao sujeito. Ou para criar objetos da própria razão, constituindo saber por meio de etapas que são progressivas, a fim de atingir o objeto que se deseja conhecer. Esse modo de conhecer é o racionalismo, que sobrevaloriza a razão no processo de conhecimento. No racionalismo dois métodos são empregados: a intuição, como um ato do espírito de capta de forma imediata o objeto que busca conhecer; e o raciocínio, que passa por uma razão discursiva operando com a dedução e indução. Tanto a dedução quanto a indução partem do que se conhece para aquilo que se deseja conhecer, sendo processos racionais que operam por meio de inferências lógicas. A dedução parte de uma verdade conhecida que se pode aplicar a casos particulares, sempre do geral ao particu- lar. A indução parte do particular ao geral, ascendendo de casos iguais ou semelhantes que se repetem para o mesmo fenômeno, constituindo uma lei geral, um conceito, uma ideia, uma teoria. EXEMPLO A água que ferve (evapora) sempre a 100ºC (cem graus Celsius). Após observar esse fenômeno, a partir de vários casos particulares, constitui-se a teoria de que a água sempre irá evaporar ao atingir 100ºC. Figura 1 – Propriedade do fogo: o calor Fonte: VladisChern/Shutterstock.com Dedução e indução são inferências lógicas promovidas pela razão dentro do processo de conhecimento. Constituindo conceitos, ideias e teorias sempre por raciocínios, com ou sem o auxí- lio direto da experiência sensível. Havendo articulação com a experiência, a razão se sobressai na aquisição de conhecimento, tornando-o racional. FIQUE ATENTO! A dedução e a indução são raciocínios de uma razão discursiva empregados em inferências lógicas, partindo do que já se conhece para aquilo que se deseja conhe- cer. Enquanto a indução parte do particular para o geral, a dedução parte do geral para o particular. 2 A metafísica dogmática Dogmático é um termo grego (Dogmatikós) que significa fundar-se em princípios, consti- tuindo doutrinas, dogmas. Dogmatismo é, portanto, uma doutrina pela qual se atinge a certeza (ARANHA; MARTINS, 2003). O dogmatismo metafísico, com bases ontológicas, é todo conhecimento racional anterior a Immanuel Kant (1724-1804) e sua crítica que busca expurgar os erros cometidos pela razão, submetendo-a a um tribunal. Kant promoveu uma investigação que procurou colocar limites ao conhecimento metafísico. Ele afirmou que os filósofos, chamados dogmáticos, não se atentaram aos limites da razão. A metafísica dogmática emprega uma verdade absoluta, sem prova que seja concreta que demostre, em uma experiência sensível, o objeto desua análise. Essa metafísica não se preocupa em criticar o conhecimento. Ela se atém a uma razão de conhecer inquestionável, com verdades indubitáveis, que não são colocadas à prova, validadas pela própria razão. FIQUE ATENTO! O dogmatismo se contrapõe ao ceticismo, que procura a verdade sem alcançá-la, que questiona, que coloca em dúvida o saber, não se atendo a verdades absolutas. 3 Racionalismo moderno O problema da modernidade está na relação entre sujeito e mundo, mas a grande questão gira em torno da origem das nossas ideias. Se é o sujeito que representa o mundo a partir de si mesmo, sendo o mundo a sua representação, como se articula a ideia que o sujeito faz do mundo ao próprio mundo? Em outras palavras, como ligar o conceito ao objeto? Essa questão promove a descoberta do método, que, por meio da representação, faz uma ponte entre o objeto e seu conceito, mas, ainda assim, fica a questão: qual a origem da ideia? Para o racionalismo, as ideias são criações da razão; para o empirismo, são adquiridas a partir da experiência. É na modernidade que vemos surgir uma disputa entre racionalismo e empirismo em relação os processos de conhecimento, criando métodos para o conhecer. O racionalismo moderno tem como principal representante René Descartes (1596-1650). Ele foi considerado o pai da modernidade por criar o método cartesiano para o conhecimento. Sua filosofia ficou conhecida como cartesianismo, valorizando a razão em detrimento da experiência, afirmado que os sentidos nos enganam. Figura 2 – René Descartes Fonte: Giorgios Kollidas/Shutterstock.com Com a filosofia kantiana, o racionalismo moderno ganhou outra perspectiva, colocando a razão sob crítica de si mesma, corrigindo o erro metafísico. Teve lugar a revolução copernicana, que colocou o sujeito no centro do conhecimento, representando o mundo à sua maneira. Independente das teorias que surgiram na modernidade, esse período foi marcado pela razão, pelo iluminismo, pela sobrevalorização da razão, pela iluminação do conhecimento, que veio se contrapor aos métodos e à filosofia dos empiristas (em especial, os ingleses). 4 O método cartesiano O ponto de partida do pensamento cartesiano é a busca por uma verdade indubitável. Pri- meiro é preciso duvidar de tudo que um dia foi afirmado como verdadeiro, duvidar daquilo que observamos com os sentidos, de nossa própria existência. Na cadeia de raciocínio que tem por base a dúvida, resta a certeza de que existe algo que dúvida, um ser que é capaz de pensar. Descartes chega à sua primeira verdade, clara e distinta, indubitável: “Penso, logo existo” (DESCARTES, 1972). O ato de pensar é um ato puro do pensa- mento, pois minha existência foi colocada em dúvida, restando a certeza de que penso, pois, se deixo de pensar deixo de existir. Descartes formula ideias que são duvidosas ou confusas, ou claras e distintas, ideias gerais que não derivam de nada que seja particular, que não derivam da experiência, mas que se encon- tram no espírito, como se já existissem com ele. São as ideias inatas, que fundamentam a apre- ensão de outras verdades, próprias do sujeito que pensa, sem ligação com o que possa vir de fora, dos sentidos. FIQUE ATENTO! A primeira ideia inata é o próprio cogito, quando o sujeito se descobre como um ser pensante. Outra ideias inatas são a ideia de Deus, movimento, extensão, perfeição. O método cartesiano trabalha com o conhecimento analisando o real, em quatro passos: partir de uma verdade clara e distinta; analisar parte a parte, dividindo o problema; sintetizar a questão, partindo do simples ao mais complexo; revisar todo o caminho percorrido. Esse método é utilizado a todo momento, quando nos deparamos com certos problemas que precisam de uma análise minuciosa para chegara à solução. Figura 3 – Plano cartesiano Fonte: Radu Bercan/Shutterstock.com SAIBA MAIS! Descartes era matemático e criou uma teoria que ficou conhecida como plano cartesiano, muito utilizado na matemática, e na engenharia, para unificar o encontro de dois pontos de medida. Disponível em: <http://cac-php.unioeste.br/eventos/ iisimposioeducacao/anais/trabalhos/280.pdf>. 5 Filosofia kantiana Kant coloca em xeque a razão, perguntando sobre o que é o próprio conhecimento, colo- cando-a em um tribunal para legitimar o que pode ser conhecido e o que não possui fundamento algum, inaugurando o criticismo. O filósofo critica o racionalismo por afirmar que tudo o que pen- samos é proveniente de nós mesmos. Ao mesmo tempo, não concorda com o empirismo, pois este afirma que todo o conhecimento vem dos sentidos. Figura 4 – Tribunal da razão Fonte: Piotr Adamowicz/Shutterstock.com A filosofia kantiana procura romper com a dicotomia racionalismo-empirismo, mostrando que todo conhecimento começa com a experiência, mas nem todo conhecimento deriva dela. Expressão que está marcada na introdução da sua obra maior, “Crítica da razão pura”. Isso significa que o conhecimento provém da experiência, mas precisa do trabalho do sujeito, da razão, para tornar-se um conhecimento: matéria e forma. A matéria provém dos sentidos e a forma provém dos sujeitos. Nossa realidade é abarcada pelo sujeito do conhecimento, que organiza e representa os obje- tos do mundo, promovendo o conhecimento das coisas. Exemplificando: o mundo é como um quebra-cabeças, desorganizado, que precisa de síntese para formar uma imagem do mundo que possa representá-lo. Essa organização é promovida pelo sujeito a partir da matéria do mundo. O racionalismo kantiano é marcado pela crítica da razão e pela aproximação entre experiên- cia e razão, entre racionalismo e empirismo. SAIBA MAIS! De uma forma simples, com animações, o vídeo “Emmanuel Kant – A crítica da razão pura”, mostra a composição da obra e a filosofia racional de Kant. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=V1XFAKT7T4A>. EXEMPLO É possível formar um conceito racional de um objeto inexistente, como o unicórnio, sem que seja preciso comprovar a sua existência. Permanecendo sem prova, é uma tese dogmática; buscando sua validação da experiência, é uma tese criticista. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • compreender a filosofia racionalista e sua vertente metafísica; • entender o método racional para o conhecimento; • conhecer a filosofia de Descartes e Kant. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução a filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. CHAUI, Marilena de Souza. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2005. CONEGLIAN, Stella Maris Gesualdo Grenier; SANTOS, Christina Aparecida dos; MELO, José Joa- quim Pereira. Reflexões sobre a vida de descartes e o plano cartesiano. 2010. Disponível em: <http://cac-php.unioeste.br/eventos/iisimposioeducacao/anais/trabalhos/280.pdf>. Acesso em: 14 fev. 2017. DESCARTES, Rene. Discurso do método. Meditações metafísicas. São Paulo: Abril Cultural, 1972. (Coleção Os Pensadores). KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Rio de Janeiro: Vozes, 2012. KOFLER, Anna. Emmanuel Kant: a crítica da razão pura. 2011. Disponível em: <https://www.you- tube.com/watch?v=V1XFAKT7T4A> Acesso em: 24 jan. 2017. O conhecimento na vertente empirista Márcio Tadeu Girotti Introdução O conhecimento na vertente empirista relaciona o saber que é adquirido por meio da expe- riência, pelos sentidos, pelas sensações transformadas em percepções, que por sua vez serão trabalhadas pela razão a fim de formar conceitos de objetos. Ao lado do racionalismo, o empirismo se mostra como uma forma de interpretação do mundo, marcado sempre pela base empírica de seu conhecimento, a experiência. O maior destaque dessa corrente de pensamento é o empirismo inglês surgido entre os séculos XVI e XVIII. Objetivos de aprendizagem Ao final destaaula, você será capaz de: • compreender os aspectos da filosofia empirista e o método de conhecimento; • identificar as características da filosofia empirista de Locke e Hume. 1 A filosofia empirista O empirismo afirma que a nossa alma é como uma folha em branco, não há nada escrito nela, nada impresso nela; contrariando o inatismo, a filosofia racionalista, que afirmara que nascemos com certas ideias e conceitos das coisas, antes mesmo do contato com a experiência sensível. Figura 1 – Alma como uma folha em branco Fonte: Rodin Anton/Shutterstock.com Para o empirismo, todo o conhecimento deriva da experiência. As ideias são aquisições a partir da experiência, que excita nossos sentidos produzindo sensações que serão transformadas em percepções das coisas externas a nós. Vale dizer que o empirismo não descarta o trabalho da razão, que reúne as percepções em conceitos; mas essa não é a razão tal como enaltecida pelo racionalismo, que cria ideias a partir dela mesma. “Somos como uma cera sem forma e sem nada impresso nela, até que a experiência venha escrever na folha, gravar na tábula, dar forma à cera. A razão é uma maneira de conhecer e a adquirimos (por meio da experiência sensorial) no decorrer de nossa vida” (CHAUI, 2005, p. 71). A filosofia empirista, muito marcante entre os filósofos ingleses entre os séculos XVI e XVIII - em especial, David Hume e John Locke -, afirma que as ideias trazidas pela experiência por meio dos sentidos e das sensações, ou mesmo pelo hábito, são reunidas na memória e formam pensa- mentos a partir dela e por intermédio da razão. Os pensamentos são a reunião das percepções trazidas da experiência que, organizadas pela razão, serão convertidas em conceitos das coisas. A experiência imprime, grava em nossa alma esses conceitos. Quando, pelos sentidos, observamos o mundo, o identificamos e conhecemos por meio desses conceitos. Dessa forma, o empirismo somente se afasta do racionalismo à medida em que estabelece o conhecimento como adquirido a partir da experiência. Já o racionalismo afirma que o conheci- mento não deriva da experiência. No entanto, ambos confirmam o papel da experiência e da razão com maior ou menor ênfase, para comprovar teses, para adquirir material para o conhecimento. Ou, simplesmente, para dizer que os sentidos nos enganam e a razão não prova as teses e concei- tos que concebe para o conhecimento. FIQUE ATENTO! O pensamento racional e o empírico consideram tanto a razão quanto a experiência no processo de conhecimento, prescrevendo maior ou menor subordinação de um para com o outro. 2 Racionalismo x empirismo A partir de problemas relacionados ao conhecimento, no século XVII aparecem duas corren- tes de pensamento que são opostas: o racionalismo e o empirismo. Para Aranha e Martins (2003, p. 134), em última análise “o racionalismo é o sistema que consiste em limitar o ser humano ao âmbito da própria razão, e o empirismo é o que limita ao âmbito da experiência sensível”. Tanto do lado racionalista quanto do empirista, a experiência se faz presente. Para o primeiro, como ocasião para o conhecimento, estando sujeito a enganos. Para o segundo, a experiência se coloca como fundamental, tendo a razão como subordinada a ela para formar os conceitos dos objetos sensíveis. Relacionado ao sujeito do conhecimento, para os racionalistas o ser humano possui a capa- cidade de atingir verdades universais e eternas, enquanto os empiristas questionam tais verdades, atendo-se ao conhecimento sensível, ao real, que está ao alcance dos sentidos, considerando sem- pre um mundo em constante transformação. Nessa perspectiva, coloca-se também em contraposição o inatismo e o empirismo acerca da origem de nossas ideias: “De onde vieram os princípios racionais? De onde veio a capacidade para a intuição e para o raciocínio? Nascemos com eles? Ou nos seriam dados pela educação e pelo costume? Seriam algo próprio dos seres humanos, constituindo a natureza deles, ou seriam adquiridos pela experiência?” (CHAUI, 2005, p. 69). Figura 2 – Interrogações Fonte: Trueffelpix/Shutterstock.com Para essas perguntas sempre existiram duas possibilidades de solução: pelo lado do ina- tismo, se afirma que nascemos com ideias verdadeiras, inatas a nós; pelo lado do empirismo, se afirma que a razão, ou nossas ideias, são adquiridas por nós por meio da experiência. Como podemos perceber, há uma dicotomia entre racionalismo (inatismo) e empirismo, que permaneceu até o século XVIII, quando o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) rompeu com ela. Ele afirmava que o conhecimento deriva da experiência, mas o sujeito do conhecimento também participa ativamente da constituição do conhecimento; ou seja, todo o conhecimento começa com a experiência, mas nem todo deriva dela. FIQUE ATENTO! Inato diz respeito àquilo que é nascido comigo, não é adquirido externamente, a partir da experiência. SAIBA MAIS! Assista a um vídeo para entender melhor a diferença entre racionalismo e empirismo, de uma forma simples e dinâmica. Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=Hgxu4SyyrVQ>. 3 Empirismo de Locke O filósofo inglês, John Locke (1632-1704), um dos grandes representantes do empirismo, apresenta uma reflexão sobre a essência, origem e alcance do conhecimento humano, tese apre- sentada na obra “Ensaio sobre o entendimento humano”. Figura 3 – John Locke Fonte: Georgios Kollidas/Shutterstock.com Enquanto o racionalismo enfatiza as verdades oriundas da razão, privilegiando a lógica e a matemática acerca da origem das ideias, Locke constituiu sua investigação pelo viés psicológico, distinguindo duas fontes para a origem de nossas ideias: a sensação e reflexão. As modificações feitas na mente por intermédio dos sentidos resultam em sensações, ao passo que a percepção que a alma tem sobre aquilo que ocorre, que acontece, o fato, é a reflexão. A produção de uma ideia simples em nós, segundo Locke, ocorre pela qualidade do objeto, como qualidades primárias, que são a solidez, a extensão, a configuração, o movimento, o repouso e o número, sendo estas qualidades primárias do objeto, que são objetivas, existem nas coisas. Há também as qualidades que são relativas e subjetivas, sendo qualidades secundárias do objeto, como cor, som, odor, sabor, que provocam no sujeito certas percepções, variando de um sujeito a outro (ARANHA; MARTINS, 2003). O sujeito pode ligar e separar ideias simples constituindo ideias complexas, que não são objetivas, pois são formadas pelo intelecto, mas que são úteis para ordenar e classificar as coisas, como nomes. Nesse sentido, para Locke, seguindo a corrente empirista, nossa alma seria como uma lousa em branco, uma tábula rasa onde se imprime as sensações, os conceitos das coisas, contrariado, assim, o inatismo, tal como defendido por René Descartes (1596-1650), que afirma que as ideias nascem com o sujeito. EXEMPLO A partir de vários exemplares de cadeiras, tenho sensações que serão reunidas em um conceito de cadeira, imprimindo em minha alma essa percepção. Ao ver uma cadeira, posteriormente, saberei que aquele objeto é uma cadeira. FIQUE ATENTO! A expressão lousa ou folha em branco diz respeito à expressão tábula rasa utiliza- da pelos empiristas para afirmar que a alma do sujeito se encontra sem nenhum conceito de objeto, até ser colocado na ocasião da experiência. 4 Empirismo de Hume David Hume (1711-1776) segue de perto os ensinamento de Locke, afirmando que observa- mos os fenômenos, toda a relação entre as coisas são estabelecidas no exterior, na experiência; e aquilo que não se pode observar, não pertence ao objeto: “As relações são apenas modos pelos quais passamos de um objeto a outro, de um termo a outro, de uma ideia particular a outra, sim- ples passagens externas que nos permitem associar os termos a partir dosprincípios de causali- dade, semelhança e contiguidade” (ARANHA; MARTINS, 2003, p. 134). Figura 4 – David Hume Fonte: Georgios Kollidas/Shutterstock.com A principal tese de Hume diz respeito a causalidade, a sucessão de fatos que ocorrem na experiência e sua repetição, por hábito, somos levados a esperar que o mesmo evento se repita dadas as mesmas condições. O hábito nos leva a ultrapassar a própria experiência, aquilo que ela nos apresenta, pois de casos que se repetem e se tornam semelhantes podemos prever o efeito, considerando que a partir de certos casos podemos esperar efeitos análogos a partir do que já ocorrera em situações semelhantes. Essa constatação de Hume, o princípio da causalidade, mostra não só que as ideias da razão são adquiridas da experiência, mas que os próprios princípios da racionalidade se originam desta. Isso leva a crer que a busca por verdades universais, por parte da razão, do racionalismo, nada mais é do que uma associação de ideias, sua sequência de acontecimentos, um hábito, uma crença, que se torna, como causa e efeito, algo universal, necessário, um hábito psíquico. EXEMPLO Para Hume, o fato do sol nascer e se por todos os dias é um hábito. Como observa- mos o mesmo exemplo ocorrendo todos os dias, somos levados a crer que todo dia ocorrerá o mesmo evento, ou seja, o sol irá nascer amanhã, assim como nasceu hoje. SAIBA MAIS! David Hume foi responsável pelo despertar de Immanuel Kant de seu sono dogmático. Devido à tese da causalidade de Hume, Kant começou a questionar o conhecimento racional e o uso da razão na experiência sensível. Acesse: <https:// www.academia.edu/7895542/Kant_e_o_Despertar_do_Sono_Dogm%C3%A1tico_ algumas_considera%C3%A7%C3%B5es_sobre_a_influ%C3%AAncia_de_Hume_ sobre_o_pensamento_de_Kant>. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • compreender o que é a vertente do conhecimento empírico; • conhecer os aspectos do racionalismo contraposto ao empirismo; • entender as características da filosofia empirista de Locke e Hume. Referências ANTELO, Breno. Racionalismo x empirismo. Vídeo. 2015. Disponível em: <https://www.youtube. com/watch?v=Hgxu4SyyrVQ>. Acesso em: 25 jan. 2017. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução a filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. CHAUI, Marilena de Souza. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2005. CUNHA, Bruno. Kant e o Despertar do Sono Dogmático: algumas considerações sobre a influên- cia de Hume sobre o pensamento de Kant. Revista Cogitationes, Juiz de Fora, v. II, n. 4, p. 5-21, 2011. Disponível em: <https://www.academia.edu/7895542/Kant_e_o_Despertar_do_Sono_Dog- m%C3%A1tico_algumas_considera%C3%A7%C3%B5es_sobre_a_influ%C3%AAncia_de_Hume_ sobre_o_pensamento_de_Kant>. Acesso em: 08 mar. 2017. HUME, David. Investigações sobre o entendimento humano. São Paulo: Hedra, 2009. LOCKE, John. Ensaio sobre o entendimento humano. 5. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2014. 2 V. Conhecimento e dialética Márcio Tadeu Girotti Introdução A filosofia do século XVIII, influenciada pelo Iluminismo francês, inaugura uma nova forma de pensar o conhecimento, a aquisição do saber, os meios de interpretar e representar o mundo externo ao sujeito. Na disputa entre pensamento racionalista e empírico, a filosofia racionalista apresenta uma solução para a origem da ideias e para a representação de mundo com base no pensamento dialético. A dialética não é uma novidade do século XVIII, pois já era utilizada na Grécia antiga com outras aplicações. Ela era empregada como um instrumento para o conhecimento. Objetivos de aprendizagem: Ao final desta aula, você será capaz de: • entender a forma do conhecimento dialético entre as filosofias grega e moderna; • identificar o tipo de dialética utilizada por Sócrates e Platão em contraposição a Kant e Hegel. 1 Conhecimento dialético O termo dialético sempre fez referência a diálogo, mostrando duas razões que se opõe dentro de um discurso, mas nem todo diálogo se comporta como dialético. Ou seja, a dialética é melhor compreendida como um tipo de argumento que busca reduzir uma discussão ou o uso de razões à uma conclusão (MORA, 2001). Figura 1 – Dialética, diálogo, contraposição Fonte: siridhata/Shutterstock.com Um discurso dialético é carregado de lógica, de raciocínios e inferências que buscam uma conclusão a partir de premissas, uma dedução ou indução, partindo de conhecimento gerais para particulares, ou de particulares para gerais, sempre partindo do que se conhece para aquilo que se busca conhecer. Se A é B, B é C, logo, A é C. EXEMPLO Se todo ser humano é mortal, Rodrigo é um ser humano, logo Rodrigo é mortal. Ao longo da história da filosofia, a dialética foi empregada de diversas formas. Em cada momento, em cada filosofia, em cada filósofo, seu sentido foi utilizado de acordo com as razões empregadas para aquisição do conhecimento. A dialética de Platão e Sócrates são muito pare- cidas, mas não são equivalentes. O conceito dialético em Kant e Hegel também são diferentes, apesar de apresentarem o mesmo tipo de conhecimento: o racional. Outra dialética será empre- gada na filosofia marxista, em que nada se assemelha ao conhecimento, mas ao movimento de mudança, de transposição do ser. Assim, a dialética se mostra como uma lógica, uma espécie de lógica dialética, que visa conhecimento, mas cada qual empregado de diferentes formas, utilizada por diferentes doutrinas filosóficas, sempre fazendo referência à reflexão sobre a realidade, podendo ser empregada como inferência lógica, paradoxo, contraposição de ideias, ou um simples diálogo com afirmações que conduzem ao conhecimento. FIQUE ATENTO! A dialética possui vários significados a depender do seu uso e emprego para o co- nhecimento. SAIBA MAIS! Em um vídeo, o escritor Flavio Notaroberto explica de forma simples e prática a construção do conhecimento por meio do emprego e uso da dialética. Vale a pena conferir! Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=zX0ASOCEwnc>. 2 Dialética platônica e socrática O maior exemplo de dialética encontrada na Grécia antiga foi emprega por Parmênides. Ele buscou atingir a verdade do ser pela negação à verdade deste ser por meio de uma contraposição: o que é, é e o que não é, não é. Ou seja, ou o ser é ou o ser não é. E ainda: o ser é e o não ser não é. Essa contraposição dialética visa a busca da verdade por meio da negação, da contraposição. Ainda na Grécia vemos surgir outro pensamento dialético a exemplo de Sócrates e Platão expresso nos diálogos platônicos. Veja que, a dialética aqui apresentada está presente em diálo- gos, resgatando o sentido primário do termo dialética. Em Platão observa-se duas formas de dialética: um método de ascender do sensível ao inte- ligível; do mundo sensível, da experiência, ao mundo das ideias, das formas perfeitas. Outra forma de dialética em Platão consiste na dedução racional das formas (das ideias), que visa discriminar as ideias a fim de não confundi-las. A dialética platônica visa o conhecimento por meio de uma passagem de um conhecimento a outro, como a rememoração (reminiscência), partindo de algo que conheço para aquilo que já conhecera, mas me era desconhecido. Ou seja, conheço o mundo sensível quando rememoro o mundo inteligível, que conhecera antes de vivenciar o mundo sensível. Figura 2 – Dialética como rememoração Fonte: macro-vectors/Shutterstock.com Em Sócrates a dialética se mostra em diálogos, quando se busca um conhecimento por infe- rência, seja por dedução ou indução, sempre partindo de premissas ou pela desconstrução do saber, com questões que levam à reflexão a fim de chegar ao conhecimento que se busca atingir. Tanto em Sócrates quanto em Platão a dialética está presente como diálogos, mas tam- bém como umraciocínio lógico, que busca, não simplesmente pela contraposição, mas pela redu- ção dos raciocínios, atingir a verdade do argumento e, por consequência, alcançar o conhecimento. EXEMPLO Seguindo a lógica dialética de Parmênides, não é possível que algo seja e não seja ao mesmo tempo, ou é ou não é. No entanto, há o vir a ser, que muda a matéria, como a água que pode se transformar em gelo. Ela não deixa de ser água, mas naquele momento é gelo. 3 Dialética transcendental de Kant A dialética em Kant recebe outro significado partindo da lógica, como uma regra para o conhecimento. Mostrando, assim, que esta somente expõe a parte formal e não propriamente o conhecimento. Desta forma, fazendo somente a exposição de condições formais que colocam o conhecimento em conformidade com o entendimento. Em Kant vemos a lógica da aparência, da ilusão, ou seja, uma dialética. Isso significa que, em Kant, a dialética está relacionada ao conhecimento, mas não é um diálogo. Está relacionada à lógica, mas não é propriamente uma inferência. É, sim, uma contraposição que se volta a razão, com o objetivo de identificar as ilusões dialéticas, ou a ilusão da razão, comumente chamada de dialética transcendental. São ilusões que não surgem nem da lógica e nem da experiência, mas sim da razão que busca ultrapassar os limites da experiência sensível, aspirando a conhecimentos que extrapolam a compreensão humana, como os conceitos de mundo, alma e Deus. Figura 3 – Limites do conhecimento racional Fonte: Radachynskyi Serhii/Shutterstock.com A dialética transcendental de Kant tem por objetivo impor limites à razão, ao mesmo tempo que busca ultrapassar esses limites mostrando os possíveis erros do conhecimento metafísico, fazendo a crítica da razão e submetendo-a a um tribunal para corrigir seus erros. Ela procura mos- trar assim os verdadeiros limites do conhecimento e as possíveis ilusões da razão quando ultra- passa a barreira do conhecimento sensível. A dialética de Kant foi fundamental para o desenvolvimento da filosofia no século XVIII, com a investigação do conhecimento humano calcado no sujeito do conhecimento. FIQUE ATENTO! A dialética transcendental de Kant diz respeito ao conhecimento da razão na consti- tuição de limites para o conhecimento racional e na identificação da ilusão da razão ao ultrapassar a barreira da experiência sensível. EXEMPLO Posso pensar a unidade do conceito de mundo, mas não consigo representa-la em uma percepção sensível. Ou seja, não consigo, com meus sentidos, abarcar o mun- do. Mesmo assim, posso pensar a unidade de mundo, a ideia de mundo, mas, ao pretender determiná-la como um objeto de representação, estou ultrapassando os limites do conhecimento. 4 Hegel e o conhecimento dialético O filósofo alemão Wilhelm Hegel (1770-1831) introduz outro sentido para a dialética, em pri- meiro lugar, como um momento negativo da realidade: como a realidade é a racional e a razão é a própria realidade, segundo o filósofo, esta é totalmente dialética, portanto, sua parte positiva é afetada constituindo o momento da negação da realidade. O método hegeliano de aquisição de conhecimento passa pelos momentos contrapostos da tese (afirmação), antítese (negação) e síntese (negação da negação), mostrando um ser que é em si, se coloca para si, e volta a si mesmo, uma contraposição do real por sua negação, que mostra a sua positividade. Figura 4 – Oposição e contraposição Fonte: ra2studio/Shutterstock.com A realidade, em Hegel, nega a si mesma, mostrando que a dialética não é a forma de toda a realidade, mas é o que permite atingir o caráter verdadeiramente positivo dessa realidade. A dialé- tica não torna a realidade algo abstrato (simples aparência), mas sim nota-se o desabrochar do real, seu amadurecimento e sua realização, constituindo uma realidade dialética: “[...] o presente é engendrado por longo e dramático processo: a história não é a simples acumulação e justaposição de fatos acontecidos no tempo, mas resulta de um processo cujo motor interno é a contradição dialética” (ARANHA; MARTINS, 2003, p. 143). O conhecimento em Hegel é estabelecido por meio do movimento entre razão e realidade, mostrando que a razão do real é a mesma razão do sujeito, culminando no processo dialético de composição do ser e da realidade que se apresenta, sempre como um devir, um vir a ser: ser em si, para si, voltando a si, em um movimento de autoconsciência, conhecendo a si mesmo com identidade, a identidade do ser. O mesmo ocorre com a realidade, como um vir a ser sempre em movimento dialético, de negação e contraposição. FIQUE ATENTO! O conhecimento dialético, em Hegel, é a contraposição do real e da razão dentro de um movimento de identificação entre a razão e a própria realidade. SAIBA MAIS! A dialética proposta por Hegel foi crucial para o desenvolvimento do pensamento de Karl Marx, para a constituição e desenvolvimento do materialismo histórico dialético de Marx. Leia mais sobre o assunto na obra “Introdução ao materialismo dialético”, de August Thalheimer. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/thalhei- mer/1928/materialismo/Introducao-ao-Materialismo-Dialetico.pdf>. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • compreender o pensamento dialético, em sua origem e evolução; • observar o conhecimento dialético a partir da concepção filosófica de alguns pensadores; • identificar a aplicação da dialética para o conhecimento. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução a filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. CHAUI, Marilena de Souza. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2005. THALHEIMER, August. Introdução ao materialismo dialético: fundamentos da teoria marxista. 2014. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/thalheimer/1928/materialismo/Intro- ducao-ao-Materialismo-Dialetico.pdf>. Acesso em: 8 mar. 2017. MORA, José Ferrater. Dicionário de filosofia. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. NOTAROBERTO, Flavio. Dialética: construção do conhecimento. Vídeo. 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=zX0ASOCEwnc>. Acesso em: 31 jan. 2017. Ciência e tecnologia no mundo do saber Márcio Tadeu Girotti Introdução As evoluções que ocorrem na ciência influenciam o campo do saber, assim como os avanços tecnológicos repercutem no dia a dia das pessoas e na história da humanidade. A evolução do conhecimento acompanha o desenvolvimento da história do ser humano e as investigações da ciência auxiliam o aprimoramento do saber em consonância com as novas descobertas no campo da tecnologia, fazendo com que ser humano e máquina convivam em harmonia. O avanço da ciência em consonância com a tecnologia influencia a vida humana, principal- mente o tempo. O encurtamento de distâncias, as fronteiras e limites que deixam de existir com o uso das novas tecnologias que interconectam o mundo, contribuem para o amadurecimento do conhecimento e melhor desenvolvimento do ser humano no campo do saber. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • identificar as contribuições da ciência para o conhecimento; • compreender a influência da tecnologia para o mundo do saber. 1 O legado da ciência para o conhecimento A evolução do conhecimento é parte integrante da história do ser humano, partindo de expe- riências simples, sensitivas, até conhecimentos mais elaborados, da descoberta do fogo até a invenção do computador, o que estava envolvido eram processos de observação da natureza e sua manipulação a partir da capacidade racional do ser humano. O ser humano sempre transformou a natureza para que ela se adaptasse ao seu modo de vida, isso acompanhado de erros e acertos, que sempre levaram a humanidade a usar e aprimorar o conhecimento para sua própria sobrevivência.Vale notar que a cultura, a política e a economia estão ligadas ao conhecimento científico e o desenvolvimento da sociedade, o que é visível em nosso cotidiano, principalmente quando vemos a influência que a ciência imprime na tecnologia. O desenvolvimento social e político, assim como econômico e tecnológico passa pelo crivo da ciência, mostrando que o avanço social e tecnológico de uma nação é proporcional aos avan- ços da ciência. Com isso, verifica-se que é a partir do conhecimento científicos que as transforma- ções da sociedade ocorrem, ou seja, a evolução da ciência contribui para a melhora na qualidade de vida de uma sociedade (BARROS; LEHFELD, 2008). Na prática, vemos a ciência atuando em prol de melhorias urbanas, como o desenvolvimento sustentável, que une o avanço da indústria ao avanço da tecnologia cuidando do meio ambiente. A pesquisa científica atrela passado e presente analisando as melhores formas de construir um futuro sustentável, viável e harmonioso para o bem da sociedade. Figura 1 – Ciência em prol da sociedade Fonte: joker1991/Shutterstock.com Reflexos da evolução da ciência também estão presentes no campo da tecnologia quando pensamos na conquista de um mundo globalizado, ligado e conectado em uma grande rede, a aldeia global, que encurta distância e quebra limites. Assim vemos um mundo científico e tecnológico atuando em prol do ser humano, auxiliando o desenvolvimento da humanidade. FIQUE ATENTO! A evolução da ciência está ligada ao desenvolvimento da sociedade, ao avanço político e econômico, bem como às inovações tecnológicas. 2 A nova ciência A comunidade científica é repleta de pesquisadores que, na realidade, não formam uma comunidade de pensadores. São cientistas que criam teorias e as colocam em prova, para que outros cientistas validem sua pesquisa. Assim, toda nova descoberta é colocada em conflito com outras, críticas são elaboradas a fim de validar essa descoberta e, aprovada, passa a valer como uma teoria válida e universal. O conhecimento científico, dessa forma, é gerado por meio de diálogos, discussões entre cientistas que validam um o conhecimento do outro. Após séculos de investigação, a ciência, aos poucos, foi se internacionalizando não se pren- dendo aos limites do campo de sua descoberta. Uma nova teoria criada no Brasil ganha destaque internacional, sendo julgada e validada por outros pesquisadores, servindo a outros países que compartilham da mesma teoria. Figura 2 – Internacionalização da Ciência Fonte: ESB Professional/Shutterstock.com Com isso, vemos, atualmente, indústrias do conhecimento, empresas que financiam pesquisas, principalmente, na área da saúde e tecnologia. Institutos são criados para descobertas específicas, para solucionar determinados tipos de problemas, assim como as universidades investem sobre- maneira em pesquisa, auxiliando o desenvolvimento e aprimoramento do conhecimento científico. EXEMPLO Grandes empresas investem em pesquisa para comercializar os produtos, enquan- to outras investem em pesquisa para melhorar a qualidade de vida do ser humano, em especial, as indústrias ligadas à área de saúde, com criação de novas vacinas. A nova ciência está atrelada ao saber internacionalizado e ao saber tecnológico, em busca de novas soluções para problemas do cotidiano, assim como demandas mais específicas, para a área industrial, farmacêutica, tecnológica, entre outras. Com esse saber global, todos podem sentir o benefício das novas descobertas. SAIBA MAIS! Leia o artigo do Prof. Praxedes, “Por uma nova ciência”, que trata da evolução da ciência e sua internacionalização nos textos atuais. Disponível em: <https://www. espacoacademico.com.br/085/85praxedes.htm>. FIQUE ATENTO! Toda teoria precisa ser comprovada. Na ciência, a comunidade científica faz testes antes de validar uma pesquisa, uma teoria, uma nova técnica, assim ela ganha no- toriedade e torna-se universal. 3 A tecnologia no mundo do saber Como vimos, a ciência, a tecnologia e o conhecimento estão interligadas, o avanço do conhe- cimento e os avanços da ciência são essenciais para o desenvolvimento da história humana. Do lado da tecnologia, não é diferente: é com saber, pesquisa e desenvolvimento, que ela é aprimorada e se desenvolve. Hoje é muito comum vermos pessoas com celular, tablet, e outros equipamentos eletrônicos sendo usados como instrumentos de trabalho ou diversão, como parte da vivência do ser humano. Dificilmente deixamos de lado a tecnologia em nosso dia a dia, desde o telefone comum, a TV, o computador até os iPhones. A todo momento estamos lidando com a tecnologia, não vivemos mais sem ela. Figura 3 – Tecnologia na ponta dos dedos Fonte: mauro_grigollo/Shutterstock.com Parte da evolução do conhecimento tecnológico se deve à ciência, e muito do que se cons- truiu no mundo tecnológico se deve à ciência, ou seja, tudo gira em torno de muito conhecimento, muita pesquisa e muita criatividade. A tecnologia se faz presente em nosso mundo para facilitar o nosso dia a dia. Para isso ela foi criada e vem sendo aprimorada. Para quase tudo podemos contar com algum instrumento oriundo da tecnologia. O campo mais evidente dos avanços tecnológicos, no âmbito do conhecimento, é a educação, a escola, que utiliza recursos tecnológicos para a aquisição de conteúdos, do computador à lousa digital. Não são os recursos que chamam a atenção, mas a maneira de se aplicar e adquirir o saber. A dinâmica do aprender mudou. A educação, com o apoio da tecnologia, evoluiu junto com os avan- ços da sociedade, mas muito ainda é preciso fazer para se utilizar a tecnologia em sua completude. O que se pode notar é que a contribuição da ciência e da tecnologia no campo do saber é evi- dente, pois a velocidade da informação é proporcional à evolução do conhecimento, assim como o encurtamento da distância é proporcional ao tempo que ganhamos com o uso da tecnologia para nossa comunicação e aprendizado. SAIBA MAIS! Conheça a história de Steve Jobs, o criador da maior empresa de tecnologia, que iniciou seus trabalhos em uma garagem, produzindo o primeiro computador portátil. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=yw3b0drbLYg>. EXEMPLO Com o uso da internet, a informação é transmitida em tempo real, sem perda de conteúdo. 4 A aplicação da tecnologia no conhecimento do mundo O principal destaque para a conjunção entre tecnologia e conhecimento está no uso que podemos fazer desses dois instrumentos. Por um lado, é com o conhecimento que construímos tecnologia; por outro lado, é com a tecnologia que podemos adquirir novos conhecimentos, com mais rapidez e de forma mais dinâmica. Após a revolução científica, a descoberta da luneta, a fabricação do microscópico até o uso do lazer em processos da medicina, o mundo é descoberto pelos instrumentos tecnológicos, mas sempre operado pelo saber humano. Um computador é eficiente porque foi criado, desenvolvido e programado pelo ser humano para cumprir funções específicas, e com ele, podemos conhecer o mundo sem sair do lugar onde estamos. Uma incisão cirúrgica com o uso de raios lazer não é mais novidade, mas já foi um fato surpreendente que revolucionou a medicina e a partir disso outras novidades e novos recursos foram criados sempre com o intuito de beneficiar o ser humano. Figura 4 – Tecnologia e conhecimento Fonte: violetkaipa/Shutterstock.com A função da tecnologia está atrelada ao que podemos fazer com o seu uso, qual o benefício que nos traz, qual aprimoramento podemos fazer, até onde podemos chegar com a tecnologia e, também, quais são suas consequências, positivas e negativas. Cabe ao ser humano saber usar os recursos tecnológicos adequados ao que ele necessita, buscando o uso consciente, sem se tornar um refém da tecnologia, mas sim a utilizando com sabedoria,aproveitando ao máximo suas potencialidades. FIQUE ATENTO! A tecnologia deve ser usada com sabedoria e prudência em prol do ser humano. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • entender que, assim como a sociedade evolui culturalmente, economicamente e politi- camente, a ciência também avança acompanhando esse desenvolvimento • descobrir como a tecnologia segue os avanços da sociedade e têm sua influência no mundo do saber. Referências ALMAS, Gianne Nascimento; SILVA, Antônio César da. A importância do conhecimento científico: contribuições da ciência para a sociedade. 2008. Disponível em: <http://docslide.com.br/docu- ments/a-importancia-do-conhecimento-cientifico.html#>. Acesso em: 9 jan. 2017. BARROS, Aidil Jesus da Silveira; LEHFELD, Neide Aparecida de Souza. Fundamentos de metodolo- gia científica: um guia para a iniciação científica. 3. ed. São Paulo: Makron Books, 2008. MAKAROV Tecnologia. A história da Apple. 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/wat- ch?v=yw3b0drbLYg>. Acesso em: 10 jan. 2017. PRAXEDES, Walter. Por uma nova ciência. Revista Espaço Acadêmico, Ano VIII, n. 85, jun. 2008. Disponível em: <https://www.espacoacademico.com.br/085/85praxedes.htm>. Acesso em: 9 jan. 2008. Ciência e tecnologia no mundo do saber – ganhamos e perdemos – o fim do mito da caverna Márcio Tadeu Girotti Introdução A ciência e a tecnologia estão presentes na vida cotidiana e fazem parte do desenvolvimento da sociedade, bem como auxiliam na aquisição e aprimoramento do conhecimento. Em meio aos avanços científicos e tecnológicos nos vemos em um mundo de incertezas, onde é preciso verificar quais os limites e as implicações que as novas descobertas podem trazer ao ser humano, quais as implicações éticas, quais os desafios que a humanidade deve enfrentar em seu desenvolvimento. Esta aula é dedicada a abordar esses questionamentos. Vamos desenvolvê-los? Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • identificar os limites da ciência para o conhecimento; • compreender as implicações do desenvolvimento tecnológico, em um mundo no qual a ética é instrumental. 1 A responsabilidade do pesquisador perante a sociedade e o ser humano Toda pesquisa deve estar compreendida em dois parâmetros, ou ela serve à comunidade, à sociedade, ou ela serve para agregar conhecimento para sua área de atuação. Caso a pesquisa não se enquadre em nenhum desses dois casos, ela não serve para nada, é pura especulação. Isso significa que o pesquisador possui uma responsabilidade perante seu objeto de estudo. Mais do que isso, ele é responsável por suas ações e consequências de sua investigação, ou seja, o pesquisador precisa respeitar o ser humano em particular e a sociedade como um todo. Em todo avanço, seja científico ou tecnológico, existe a possibilidade do fracasso e do sucesso. É preciso sempre acreditar que o erro pode acontecer e não se pode descartar esta pos- sibilidade. É de suma importância, na busca pelo sucesso de uma investigação, considerar a pos- sibilidade do fracasso, somente assim será possível escapar ao erro de subestimar o próprio erro. A pesquisa sempre parte de um problema a ser investigado, uma interrogação, uma pergunta. Ela nos coloca em dúvida e, a partir disso, buscamos conhecimento para saná-la, resolver o pro- blema. Aqui cabem hipóteses, possibilidade de resolução, momentos em que o pesquisador precisa estar atento aos limites de sua investigação, perguntando-se até onde pode chegar sem ultrapassar a barreira do bom senso, da ética, da responsabilidade perante o ser humano e a sociedade. Com isso, verifi camos que a pesquisa implica em limites que passam pelo campo da ética. Esta leva em consideração as ações do ser humano enquanto ser comum e também enquanto um ser de ciência, que realiza investigações, que descobre, que cria, que busca conhecimento compartilhado com o mundo, mas que não deixa de ser humano e de considerar que seu erro pode trazer consequ- ências para a humanidade. Portanto, é preciso ter ética e ser ético no empreendimento da pesquisa. FIQUE ATENTO! Existe uma ética na pesquisa, que é considerar as consequências de sua execução e descoberta. EXEMPLO Se minha pesquisa envolve seres humanos, preciso avaliar até que ponto isso não fere a moral, a conduta, a integridade do ser humano. 2 O erro de subestimar o erro A ciência possui um status de exatidão, por ser um conhecimento testado, avaliado, compro- vado e validado. Todo conhecimento científi co passa por testes antes de ser validado, verifi ca-se vários casos para chegar ao resultado fi nal, sendo que nesse processo o erro se faz presente. Isso mesmo: a ciência também comete erros. Figura 1 – A ciência Fonte: best works/Shutterstock.com Para verificar a validade da ciência, a comunidade científica utiliza o método indutivo, que consiste em partir de um caso particular e avançar para um caso geral. Ou seja, repetir várias vezes um evento e, se o resultado for sempre o mesmo, ela vale como universal. Na tentativa e erro da ciência, Edgar Morin (2005) afirma que o erro é fundamental para atingir o sucesso, alegando que o maior dos erros é, na verdade, não considerar a sua possibilidade. Ou seja, o maior erro é subestimar o erro. Morin faz uma contraposição entre erro e verdade ou erro e acerto, mostrando que a ciência possui verdades provisórias, que precisam ser testadas para atingir o grau de verdade absoluta. Nesse sentido, o erro não é um ponto negativo, ele faz parte do processo de aquisição da verdade, do acerto, do conhecimento. EXEMPLO A indução consiste em considerar casos particulares que se repetem diversas ve- zes, levando a acreditar que aquilo sempre irá ocorrer da mesma forma. Sempre depois do raio vem o trovão: quando vejo um raio, sempre espero um trovão. Figura 2 – O errar permite o corrigir Fonte: iidea studio/Shutterstock.com Verifica-se que para se atingir um conhecimento verdadeiro é preciso considerar o erro, não subestimar que podemos errar, e assim empreender o acerto evitando enganos constantes. O erro previsto e identificado na ciência permite que outros cientistas não cometam o mesmo equívoco. De erro em erro, chega-se ao acerto, validando o conhecimento científico. SAIBA MAIS! Leia o artigo “Sobre o erro na pesquisa científica”, e observe os exemplos de erros cometi- dos na ciência. Disponível em: <https://www.espacoacademico.com.br/076/76lima.htm>. FIQUE ATENTO! O erro deve ser considerado para superar o próprio erro a fim de atingir a verdade. 3 O desafio da complexidade Edgar Morin (2005) faz uma análise dos métodos da ciência, em particular, e de toda aquisi- ção de conhecimento envolvida nos últimos séculos para chegar à conclusão de que há um “para- digma da simplificação”, que configura um modelo de pensamento, que estabelece uma única visão de mundo, uma forma simplificada de observar a realidade. A especialização da ciência, a concentração em áreas específicas de investigação, a divi- são de problemas complexos em questões simples para uma melhor análise, implica na visão limitada, simplista da realidade. O mesmo ocorre em nosso cotidiano, com nossa visão de mundo, influenciados por saberes já constituídos, que limitam nossa análise. Quando as ciências se especializam, de forma excessiva, elas limitam sua comunicação e integração dos saberes, limitando o alcance do conhecimento. Nesse sentido, Morin defende que é preciso desenvolver uma nova forma pensar, que possa abarcar a complexidade do real, opon- do-se ao paradigma da simplificação. Morin observa a evolução da ciência, os conhecimentos filosóficos e todo o método de inves- tigação da natureza, para concluir que é preciso um novo modelo que abarque toda a comple- xidade, que os saberes especializados não conseguem compreender.Por exemplo: as ciências humanas não conseguem reduzir acontecimentos históricos a leis, bem como não conseguem relacionar fenômenos com ações partindo de métodos quantitativos. Falta, na verdade, uma inter- comunicação entre os saberes. Na visão de Morin, o desafio da complexidade significa pensar o real como um todo não redu- zido a elementos simplificadores. É preciso apreender o real em sua unidade e multiplicidade, sem repartir. Deve-se pensar todas as possibilidades que a realidade proporciona, construindo uma ciência transdisciplinar e pluridimensional. Figura 3 – A complexidade Fonte: Andrii Spy_k/Shutterstock.com Com o paradigma da complexidade, Morin inaugura uma nova forma de compreender a rea- lidade, mostrando que há diversos caminhos para o conhecimento. SAIBA MAIS! Para entender melhor, assista a um vídeo que explica, em linhas gerais, a Teoria da Complexidade de Edgar Morin. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?- v=ko15sFFZRS4>. 4 Ordem, desordem, complexidade. A inseparabilidade da ordem e da desordem Em consonância com a teoria da complexidade, Morin concebe que o Universo está relacio- nado ao que ele chama de tetragrama: ordem, desordem, organização e interações. Essa esque- matização mostra o jogo do universo, revelando sua complexidade. Além disso mostra que a rela- ção ordem/desordem controla todas as teorias, portanto, é preciso pensar a ordem, desordem e organização sempre em conjunto, como um circuito. A observação de Morin considera que a desordem, em muitos casos, é necessária para a organização do sistema, verificando que fenômenos desordenados conduzem a produção de fenômenos organizados, contribuindo para a ordem. A ordem está ligada às interações, à sistema- tização que, por sua vez, conduz a ideia de organização. Com a concepção do tetragrama, Morin mostra que a ordem do universo é uma autoprodu- ção da ordem e do próprio universo que, fisicamente, promove interações que conduzem à organi- zação, mas que também podem causar desordem. Figura 4 – A ordem da desordem Fonte: ber1a/Shutterstock.com A visão de Morin acerca da organização do universo e o método da ciência, revela a comple- xidade do mundo e a ordem do real, dentro de um processo de constituição da visão de mundo. A especificação do conhecimento mostra a ausência de uma visão ampla da realidade, que elimina sua complexidade, impossibilitando a visão do todo. Com a teoria de Morin, essa visão de mundo passa de um paradigma da simplificação para o paradigma da complexidade, mostrando que há uma interação entre ordem, desordem, organização e interação, que configuram o universo e auxiliam a ciência a conhecer o próprio mundo. Para o ser humano comum, a teoria de Morin ajuda a enxergar um mundo de forma plena, sem a caracterização das especificidades do conhecimento retalhado, mostrando a ordem do real em conformidade com a complexidade do mundo. FIQUE ATENTO! A ordem e a desordem estão interligadas com a teoria da complexidade, que se tornou um paradigma do saber. Fechamento O elemento principal dessa aula consiste em compreender e identificar a teoria da complexi- dade em consonância com o papel do investigador da natureza, o pesquisador, o cientista. Nesta aula, você teve a oportunidade de: • compreender que para a ciência também há limites para o seu conhecimento; • entender que a ciência testa seus conhecimentos antes de considerá-los verdadeiros; • verificar que a evolução da tecnologia para o mundo do conhecimento tem implicações éticas. Referências LIMA, Raymundo de. Sobre o erro na pesquisa científica. Revista Espaço Acadêmico, Ano VII, n. 76, set. 2007. Disponível em: <https://www.espacoacademico.com.br/076/76lima.htm>. Acesso em: 11 jan. 2017. MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2005. Disponível em: <http://www.filosofiatematica.ufpa.br/index_htm_files/ciencia_com_conciencia.pdf>. Acesso em: 11 jan. 2017. ______. Introdução ao pensamento complexo. 3. ed. Porto Alegre: Sulina, 2007. TEORIA da Complexidade. 2012. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=ko15sFF- ZRS4>. Acesso em: 11 jan. 2017. Paradigmas do saber: as grandes revoluções na ciência Márcio Tadeu Girotti Introdução A ciência e a história caminham juntas no desenvolvimento da sociedade e na evolução humana, contribuindo para a construção do saber e, ao mesmo tempo, reformulando saberes adquiridos. As grandes revoluções no campo do conhecimento, em especial no da ciência, promo- vem a construção de modelos, exemplos a serem seguidos. Esse é o caso dos paradigmas. Um paradigma é o modelo de uma época, que deve ser seguido para compreender a história, o ser humano, o conhecimento, mas também existe para ser revisado, quebrado, reconstituído, surgindo novas formas de saber e novos modelos. Essa é a crise dos paradigmas. Vamos aprender mais sobre eles nesta aula? Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • compreender o que é um paradigma e sua função para a construção do conhecimento; • identificar os aspectos da revolução científica e sua contribuição para a construção do conhecimento. 1 O que é paradigma A norma que nos influencia, e a toda uma época, é o que chamamos de paradigma. Mas o que é paradigma? É um modelo, um tipo exemplar, uma normatização. Segundo Thomas Kuhn (1922-1996), filósofo contemporâneo, o paradigma: “[...] de um lado indica toda a constelação de crenças, valores, técnicas, etc., partilhadas pelos membros de uma comunidade determinada. De outro, denota um tipo de elemen- to dessa constelação: as soluções concretas de quebra-cabeças que, empregadas como modelos ou exemplos, podem substituir regras explícitas como base para a solução dos restantes quebra-cabeças da ciência normal” (KUHN, 1962, p. 218). Nesse ponto de vista, paradigma está vinculado a realizações passadas como caráter exem- plar, como algo partilhado pelos membros da comunidade científica, como uma função normativa. Figura 1 – O conhecimento Fonte: Khakimullin Aleksandr/Shutterstock.com Em meio a história, sempre existiu e existirá um norma, um modelo que deve orientar a inter- pretação de mundo e a aquisição do conhecimento. Na ciência, essa caracterização de paradigma é mais evidente, como, por exemplo: a Revolução Copernicana, a mudança de eixo, colocando o sol como o centro do universo. FIQUE ATENTO! Paradigma é um modelo, uma norma que rege a intepretação de mundo de uma época. EXEMPLO Acreditar que o sol irá surgir todos os dias é um paradigma. Pelo hábito de ver o sol todos os dias, somos levados a crer que ele sempre estará ali. É o paradigma do hábito (costume). 2 Os paradigmas do saber O conhecimento humano possui paradigmas que, ao longo da história, se modificam, a fim de ceder lugar para novas interpretações de mundo e formas de saber. Um dos principais é o para- digma do sujeito (a subjetividade). No século XVII, Descartes (1596-1650) propõe uma verdade clara, distinta e indubitável “Penso, logo existo”, constatando que o indivíduo, dotado de natureza racional, em sua subjetividade, está em meio a oposições que se mostram da seguinte forma: mundo interno e externo, mente e real, sujeito e objeto. Para Descartes, o ponto de partida para o conhecimento é o sujeito pensante, é a partir do sujeito que o conhecimento é determinado e justificado, promovendo uma reflexão e crítica: coloca a razão em exame, evitando falhas (garante o bom funcionamento da razão), deter- mina a autonomia da consciência subjetiva (reflete a si mesmo e constrói o conhecimento). Kant (1724-1804), no século XVIII, afirmou que o mundo é uma construção do sujeito, fazendo uma relação entre sujeito e mundo (objeto). Ele estabeleceu que o sujeito, que está no centro do conhecimento, entende o mundo pormeio de sua representação. Kant mostra uma mudança no centro do conhecimento, pois, a partir de agora, o real não é mais o centro do sistema do conheci- mento. Ao contrário, é o sujeito que se coloca como centro deste sistema. No mesmo sentido, o Iluminismo (XVIII) promove o culto à razão, a iluminação da razão. O pensamento iluminista coloca todo o conhecimento à luz da razão. Desta forma, estabelece a autonomia da razão, da consciência individual em conhecer o real tendo como instrumento o pró- prio conhecimento. Exemplo disso foi a constituição do Projeto da Enciclopédia (1751), que tinha por objetivo organizar todo o saber humano em um livro, para deixá-lo acessível a todos, libertando o ser humano dos grilhões da ignorância. Figura 2 – A enciclopédia Fonte: AVA Bitter/Shutterstock.com Desmontando o conceito moderno de subjetividade, Hegel (1770-1831) estabelece uma nova relação entre sujeitos, a intersubjetividade, afirmando que o real é racional e o racional é real. Ou seja, para Hegel, a racionalidade do sujeito é a mesma racionalidade do mundo, o sujeito se reco- nhece no outro, é em si – para si – voltar-se a si, em uma relação de sujeitos que interagem entre si. As consciências se interagem por meio da linguagem, do trabalho da ação. A consciência subjetiva se constitui por um processo interativo. Uma consciência só é reconhecida à medida que é reco- nhecida pelas outras consciências. O reconhecimento legitima a autoconsciência e a subjetividade é formada culturalmente e socialmente. Como podemos perceber, na modernidade a figura do sujeito foi estabelecida como centro do conhecimento. É a partir dele que conhecemos o mundo. Porém, como vemos em Hegel, o dualismo entre sujeito e mundo é dissolvido, não havendo mais uma separação entre o mundo e a representação que o sujeito faz dele, pois a razão do mundo é a mesma razão do sujeito. Essa nova concepção da racionalidade, que envolve a relação sujeito e mundo, é a precur- sora da construção de um novo paradigma: o paradigma da intersubjetividade, que foi melhor desenvolvido pela Escola de Frankfurt, na figura do filósofo alemão Jürgen Habermas (1929 - ) (MARCONDES, 1995). FIQUE ATENTO! Os paradigmas da modernidade foram responsáveis pela mudança na forma de conhecer o mundo, colocando o sujeito como o centro do conhecimento. SAIBA MAIS! Leia o artigo “Paradigma da ciência, do saber e do conhecimento e a educação para a complexidade: pressupostos e possibilidades para a formação docente”, de Zita Ana Lago Rodrigues, e procure entender como os paradigmas podem auxiliar a formação educacional e cultural do ser humano. Disponível em: <http://www.scielo. br/pdf/er/n32/n32a08>. 3 A quebra de paradigmas: a revolução científica Um paradigma não pode permanecer o mesmo. Sempre haverá novos modelos, a partir de novas reflexões, que constroem outras formas de saber. A mudança de paradigmas se estabelece a partir da modificação de visão de mundo. Quando há uma mudança conceitual, a partir da insatisfa- ção com os modelos de explicação do mundo, consequentemente, tem-se a quebra do paradigma. A troca de um paradigma é movida por causa interna: desenvolvimento teórico e metodoló- gico dentro da própria teoria, um esgotamento de explicação oferecido pelo modelo teórico. Ou por causa externa: mudanças sociais e culturais de uma época (as teorias existentes não conseguem mais explicar a realidade). A solução para a quebra de um paradigma é a busca por outro modelo que possa substituir o paradigma atual, que não corresponde mais à realidade. A exemplo disso, temos a revolução cientí- fica, com a Teoria Heliocêntrica que substituiu a Teoria Geocêntrica. A maior revolução científica par- tiu da constatação de que a Terra não poderia ser o centro do Universo. Cláudio Ptolomeu (100-178), juntamente com a Igreja, defendia a tese do Geocentrismo, a Terra no centro do universo. No entanto, matemáticos, como Copérnico e Galileu, observavam que as soluções numéricas para compreender o universo somente eram comprovadas quando o centro era tomado a partir do Sol e não da Terra. Mudando-se o eixo, a matematização do universo era fundamentada (BRANDÃO, 2005). Figura 3 – A revolução copernicana Fonte: iryna1/Shutterstock.com Dessa forma, Nicolau Copérnico (1473-1543), em 1543, propõe a teoria do Heliocentrismo, colocando o Sol como centro do Universo. Tese que foi contestada pela Igreja, que condenou Copérnico à morte caso não retrocedesse em sua teoria. Mais tarde, Galileu Galilei (1564-1642), em 1632, confirma e defende a tese de Copérnico, comprovando que o Sol é o centro do universo. Essa quebra de paradigma modificou toda a visão de mundo, promovendo uma nova teoria científica, uma nova concepção de natureza do ser humano, além de uma nova concepção de lugar do ser humano no mundo (o Humanismo, do século XV, que coloca o ser humano como a medida de todas coisas, o centro do conhecimento). Figura 4 – O ser humano no centro do conhecimento Fonte: studiostoks/Shutterstock.com SAIBA MAIS! Copérnico foi condenado pela igreja por defender que o Sol era o centro do universo. Galileu defendeu a tese de Copérnico contrariando os preceitos da igreja, sendo perseguido até a morte. 4 As mudanças de paradigmas e as transformações no ser e no estar no mundo Os fundamentos para a mudança de um modelo de visão de mundo ou mesmo de conheci- mento são motivados pela troca de um paradigma tradicional por um novo, que explique e con- vença as pessoas de uma época de que esse conceito é válido para interpretar o mundo. Para quebrar um paradigma e buscar outro, onde se deve buscar o fundamento do novo? No antigo? Aquele que está sendo questionado? A busca do fundamento para a composição de um novo paradigma está no indivíduo. No mundo contemporâneo, observamos uma crise de paradigmas, uma dificuldade de iden- tificar qual é o paradigma de conhecimento, qual é o horizonte de interpretação do mundo. Essa reflexão sobre os paradigmas em crise permite a abertura de caminhos a partir da superação dos antigos, constituindo novas formas de pensar e interpretar o mundo. FIQUE ATENTO! A crise de paradigmas é o momento de renovação do saber. É com a crise que promovemos a mudança. EXEMPLO A ausência de um paradigma, que me sirva como horizonte de explicação, repre- senta a crise dos paradigmas. Quando não há um modelo de orientação, posso me guiar por aquilo que melhor se adequa ao que procuro conhecer. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • compreender o que é um paradigma; • entender a função do paradigma; • estudar a crise de paradigmas e a constituição de novos modelos de visão de mundo. Referências BRANDÃO, Zaia (Org.). A crise dos paradigmas e a educação. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1995. (Cole- ção questões da nossa época, 35). DESCARTES, Rene. Discurso do método. São Paulo: Abril Cultural, 1975. (Coleção Os Pensadores). ______. Meditações metafísicas. São Paulo: Abril Cultural, 1975. Coleção Os Pensadores. HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Princípios da filosofia do direito. São Paulo: Martins Fontes, 2003. KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Abril Cultural, 1975. (Coleção Os Pensadores). KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectivas, 1962. (Coleção Debates). MARCONDES, Danilo. A crise de paradigmas e o surgimento da modernidade. In: BRANDÃO, Zaia (Org.). A crise dos paradigmas e a educação. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1995. (Coleção Questões da Nossa Época, 35, p. 14-29). RODRIGUES, Zita Ana Lago. Paradigma da ciência, do saber e do conhecimento e a educação para a complexidade: pressupostos e possibilidades para a formação docente. Educar, Curitiba, v. 32, p. 87-102, 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/er/n32/n32a08>. Acesso em: 11 abr. 2017. A crisedos paradigmas e a educação: aspectos filosóficos e científicos Márcio Tadeu Girotti Introdução O paradigma é um modelo que influencia a forma de pensar do ser humano e o conheci- mento de uma época. Hoje, as constantes transformações que vivemos, com as descobertas da ciência e as evoluções da tecnologia, estimulam a busca por outras perspectivas, e, consequen- temente, paradigmas diferentes. Mas, qual seria este novo modelo? Nesta aula, vamos entender como ocorre a construção destes pensamentos capazes de nos conduzir neste momento atual. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • identificar que na atualidade existe uma crise de paradigmas; • compreender sobre a construção de um novo paradigma do saber a partir da crise dos paradigmas. 1 A crise dos paradigmas do saber Como você deve saber, a história do conhecimento é capaz de demonstrar a evolução do pensamento e também o desenvolvimento de teorias. É importante perceber que partir da história do conhecimento podemos pensar o mundo por meio de diversas perspectivas. Você saberia dizer quais foram os três principais paradigmas do conhecimento, capazes de influenciar o desenvolvi- mento educacional, político e social da humanidade? Acompanhe a seguir. 1.1 Positivismo No século XIX, August Comte (1798-1857) iniciou uma corrente de pensamento em busca da verdade com ênfase no método científico e na observação dos fatos, contrariando aspectos metafí- sicos para a explicação do real. Essa reação contra a metafísica deu origem à ciência positiva, conhe- cida como Positivismo (CUNHA, 2007). Considerando que só a experiência sensível, a realidade dos fatos, é objeto de conhecimento, Comte endossa que a metafísica é impossível. Tudo que ultrapassa a ordem do sensível, a origem e o fim das coisas, as causas, passa a ser irrelevante. Desta forma, note que há uma nova forma de pensar e conhecer o mundo: surge então um novo paradigma. SAIBA MAIS! A bandeira do Brasil traz o positivismo estampado como lema: Ordem e Progresso. O Estático (a ordem) como permanência do desenvolvimento e progresso social, organização e equilíbrio do Organismo para um bom funcionamento (propriedade privada, família, língua, religião, leis, hábitos, costumes e exército). O Dinâmico (o progresso), a evolução social para estágios mais superiores. 1.2 Marxismo No século XIX foi a vez de emergir o pensamento de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). Estes pensadores observavam os fenômenos sociais, o avanço técnico e o domínio do ser humano sobre a natureza, ao mesmo tempo que identificavam a existência de duas classes sociais em conflito: o burguês e o proletário (CUNHA, 2007). Perceba que foi a partir da identifi- cação da luta entre os donos de fábrica (burgueses) e os trabalhadores (proletários) que Marx e Engels compreenderam a transformação do meio social. Para eles, os fenômenos sociais são pro- cessos, representados pelo desenvolvimento histórico do ser humano, o que chamam de método dialético. Marx e Engels defendiam que, na história da luta de classes, o ser humano é capaz de se transformar, perdendo a si mesmo, entre ideologias e alienação; além de se afastar de si mesmo, transformando-se em mercadoria. Temos aqui outro paradigma: o Marxismo. 1.3 Fenomenologia Outro modelo que influencia nosso modo de ver o mundo é a Fenomenologia, de Edmund Husserl (1859-1938). Este paradigma está debruçado na observação dos fenômenos da natureza e na descrição dos fenômenos sociais, sem explicar ou analisar o que ocorre de modo imediato no mundo, mas percorrendo o caminho que leva à essência dos mesmos (CUNHA, 2007). As obser- vações de Husserl levam à constituição de um modelo de observação do mundo que perpassa a vivência do ser humano em sociedade, criando um paradigma de conhecimento que influencia outros pensamentos de observação da realidade e desenvolvimento do ser: o existencialismo. Figura 1 – A busca por conhecimento Fonte: llyy / Shutterstock.com Podemos dizer que estes paradigmas do saber servem de inspiração e forma de conheci- mento do mundo e do ser humano, mas hoje não explicam mais a realidade de modo individual. Ou seja: eles se misturam para explicar o real e o pensamento do ser humano. Considerando que esses paradigmas não mais explicam a nossa realidade, podemos afirmar que hoje vivemos uma crise de paradigmas, a ausência de um modelo que apresente e interprete a nossa realidade (MARCONDES, 1995). FIQUE ATENTO! Os paradigmas do saber, mais do que uma forma de interpretar o mundo, são teo- rias do conhecimento, que auxiliam o ser humano a conhecer o mundo e a conhe- cer a si mesmo. EXEMPLO Hoje não podemos mais observar a realidade pelo viés da interpretação marxista, mas é possível entender a crise econômica a partir do sistema de produção, objeto de estudo do marxismo. 2 A influência da filosofia da educação para o conhecimento A educação constrói seus próprios modelos influenciada por paradigmas que servem para a interpretação da realidade (como o positivismo, que influencia o modelo de escola nova). A educa- ção transmite e influencia o conhecimento, sempre em função do desenvolvimento do ser humano e da sociedade. É importante destacar que a educação promove a mediação entre o saber e o fazer, entre a escola e a sociedade, pois é uma prática intencional, envolvida na tarefa do educador. A relação entre escola e sociedade conduz a investigação na procura por meios que expli- quem o envolvimento do indivíduo na construção da cultura e da própria história, procurando supe- rar a ideologia social imposta pelo Estado. Figura 2 – Sabedoria Fonte: NEUMIARZHYTSKI VALERY /Shutterstock.com Agora vamos conhecer os instrumentos da filosofia utilizados nos processos educacionais: • Antropologia: responsável por orientar o conhecimento do ser humano, sua evolução e prática no meio social, assim como suas ações e modificações promovidas na natureza. • Axiologia: permite estudar o ser humano em sua prática social, em seus aspectos éti- cos e morais, avaliando a sua conduta. • Epistemologia: é a teoria de conhecimento, que conduz ao entendimento de como conhecemos o mundo e como a educação influencia a forma de pensar esse mundo. Assim, é a partir destes três instrumentos, que acabamos de estudar, que a filosofia, atrelada a aspectos educacionais (estudo e formação do ser humano, por exemplo), auxilia o ser humano na interpretação de mundo, bem como na construção da cultura, buscando modelos para orientar a construção do saber e a forma de interpretarmos o mundo. FIQUE ATENTO! Os principais instrumentos que a filosofia fornece à educação são: Antropologia, Axiologia e Epistemologia. 3 A filosofia da educação e a crise dos paradigmas Vamos estudar agora a relação entre paradigma e educação, considerando que a educação passa por uma crise de paradigma desde a década de 1990 do século XX (MARCONDES, 1995). Primeiramente, lembre-se que a educação é um conhecimento que diz respeito à formação do ser humano. Desta forma, é preciso possuir um modelo, ou seja, é preciso seguir um paradigma. Mas, você saberia dizer o que acontece com a educação quando um paradigma é posto em questão? Neste caso, a educação perde seu referencial, fica desorientada e não há mais um horizonte. Ou seja, há uma quebra de paradigma. Mas, será que perdemos ou nos libertamos quando ocorre uma crise de paradigma? Quando perdemos a referência, o norte que nos orienta, será que estamos perdendo alguma coisa ou criando perspectivas? Estaríamos nos libertando do passado e estabelecendo novos horizontes? A resposta está justamente no que ganhamos quando nos libertamos daquilo que não mais res- ponde às nossas perguntas, que não mais nos auxilia na interpretação de mundo. Figura 3 – Conhecimento em crise Fonte:Lightspring /Shutterstock.com Por isso, quando a educação não consegue mais interpretar o mundo, por meio dos mode- los que orientavam esta interpretação, há uma busca por outros mecanismos responsáveis em auxiliar este processo. Então, grave bem: a crise dos paradigmas sempre leva à construção do novo. Nós nos apoiamos em um paradigma que não mais representa a realidade para, a partir dele, construir um novo modelo. Isso significa que nos libertamos do antigo para construir o novo, nem sempre perdendo o que antes nos orientava, mas aproveitando dele o que ainda resta como horizonte de conhecimento. Perceba que isso não é uma situação negativa, mas uma oportunidade de construir saberes e conhecimentos, um novo momento de investigação que poderá influenciar toda a humanidade. SAIBA MAIS! Observando a crise do conhecimento e da própria educação, o artigo “Educação: em busca de novos paradigmas”, de Oliveira (2009), retrata a busca por uma reforma no conhecimento, procurando entender a educação atual e seu papel de mudança social. Disponível em: <http://web.unifoa.edu.br/praxis/numeros/02/23.pdf>. EXEMPLO O mito, que era uma forma de entender a manifestação humana na Terra, foi supe- rado pela religião quando a crença nos deuses mitológicos foi superada pela fé em um único Deus, como ser superior. Isso representa uma mudança de modelo de interpretação da realidade. 4 O paradigma do conhecimento na atualidade Com a crise de um paradigma, sem guia, sem ideologia para servir como horizonte, é o momento de seguirmos sozinhos com as nossas próprias ideias, criar o nosso modelo, assu- mindo os riscos (MARCONDES, 1995). Figura 4 – Evolução Fonte: diez artwork /Shutterstock.com A crise de paradigmas na atualidade nos faz aprender e reaprender. É a formação do ser humano, a educação, o aprender e buscar o novo, o desconhecido, a busca de uma direção a escolher e percorrer, que conduz o ser humano a buscar novos conhecimentos e novas formas de saber. É preciso compreender que não há caminho único, mas vários, e é preciso correr o risco de escolher um deles, ainda que desconhecido, para construir novas perspectivas. Na corrida pelo novo, a educação tem papel fundamental, podendo assumir um modelo já existente, e preso a um paradigma, ou ainda fazendo a crítica deste modelo para construir um novo modelo. Tanto de um lado quanto de outro, a educação é fundamental para a evolução do conhe- cimento e do desenvolvimento do ser humano. Quando nos remetemos ao paradigma de conhecimento na atualidade precisamos nos opor à ideologia vigente, que atua a partir da imposição dos ideais do Estado, a exemplo da política ou do sistema capitalista. É preciso se opor à forma de dominação (modelo a ser seguido), a fim de construir formas de convivência entre os homens: a igualdade, a solidariedade e a pluralidade. Essa oposição conduz à construção do ser humano engajado, e a educação precisa interagir com o universo de conhecimento, pois é preciso se opor (refletir), é preciso escolher (pensar), é preciso fazer (atuar), é preciso educar (formar). Na atualidade estamos construindo novos mode- los, paradigmas que irão nos guiar, nos orientar no mundo e em nosso próprio conhecimento. FIQUE ATENTO! Na atualidade estamos criando novos modelos de conhecimento, construindo no- vos paradigmas do saber. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • perceber que existe uma crise de paradigmas; • entender que há um movimento de construção de novos modelos; • descobrir que é possível construir um novo paradigma a partir de modelos anteriores. Referências BRANDÃO, Zaia (Org.). A crise dos paradigmas e a educação. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1995. (Cole- ção Questões da Nossa Época, 35). CUNHA, Flávio Saliba. História e Sociologia. São Paulo: Autêntica, 2007. (História e Reflexões). MARCONDES, Danilo. A crise de paradigmas e o surgimento da modernidade. In: BRANDÃO, Zaia (Org.). A crise dos paradigmas e a educação. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1995. (Coleção Questões da Nossa Época, 35, p. 14-29). OLIVEIRA, Marise Ramos de Souza; GENESTRA, Marcelo da Silva. Educação: em busca de novos paradigmas. Revista Práxis, ano I, n. 2, p. 23-29, ago. 2009. Disponível em: <http://web.unifoa.edu. br/praxis/numeros/02/23.pdf>. Acesso em: 3 jan. 2017. SEVERINO, Antonio Joaquim. Filosofia da educação: construindo a cidadania. São Paulo: FTD, 1994. (Coleção Aprender a Ensinar). TOZONI-REIS, Marília de Freitas Campos. Metodologia da Pesquisa. Curitiba: IESDE, 2010. Filosofia e engajamento Márcio Tadeu Girotti Introdução Nascemos em uma sociedade e cultura prontas, com hábitos e costumes já enraizados, que adquirimos por meio de nossos antepassados. Existindo a partir de uma sociedade pré-existente, caberá ao ser humano viver e construir sua cultura, seus hábitos e costumes, assim como modifi- car o meio onde vive. Para isso, é preciso engajamento, participação social, refletindo a sociedade e sua própria existência. Vamos estudar esse novo conteúdo, então? Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • compreender o envolvimento do indivíduo com os aspectos da vida cotidiana, refletindo sobre sua própria existência; • identificar o que é e quem é o indivíduo engajado. 1 O indivíduo engajado: refletindo sua existência Quando nascemos, somos colocados em uma sociedade já existente, com sua cultura desenvolvida e, ao mesmo tempo, em construção. Nela aprendemos a viver e a constituir nossa percepção de mundo. O indivíduo possui dois caminhos para escolher: segue o fluxo da sociedade, optando por não escolher, não tomar decisões, seguir o pensamento e a escolha do outro; ou resolve escolher, tomar suas decisões, acompanhar o desenvolvimento social e traçar seu próprio destino. Figura 1 – O poder da escolha Fonte: Martin Dworschak/Shutterstock.com Essa concepção de escolha é o engajamento, conceito desenvolvido por Jean-Paul Sartre (1905-1980), que afirma a responsabilidade dos indivíduos dentro da sociedade. Segundo Sartre (2012), o indivíduo devem se preocupar com a sociedade, com suas ações, que influenciam o todo, que têm consequência para a sociedade. Deve ainda ser responsabilizado por suas ações. Quando atento e participativo, torna-se um ser engajado. O engajamento é uma concepção política. O pensador deve analisar a situação concreta em que vive. Deve ser solidário aos acontecimentos sociais de seu tempo, possuindo uma liberdade que não é imaginária, pois está comprometida na ação realizada pelo indivíduo. Tudo que o ser humano faz na sociedade precisa ser feito com responsabilidade. Ele não vive sozinho e tudo o que faz pode refletir no outro, ter consequências para a sociedade. Sartre mostra que o ser humano é livre para definir sua ação, mas toda escolha tem consequ- ência. É preciso escolher o bem, o que serve a todos e não a si mesmo. O indivíduo pode também optar por não escolher e seguir o fluxo da escolha de outros. Esse não é o indivíduo engajado, mas o que simula para si mesmo que acredita estar escolhendo, quando não o faz. FIQUE ATENTO! O conceito de engajamento é uma concepção de viés político, que mostra um in- divíduo preocupado com a sociedade, que busca a liberdade e procura agir com responsabilidade. 2 A existência precedendo a essência “A existência precede a essência” é a frase que fundamenta o existencialismo (ARANHA; MARTINS, 1993). Em Sartre (2012) essa concepção é mais latente, mostra que primeiro o indivíduo existe, depois se define, adquire sua essência, afirma que não há natureza humana pré-determi- nada. Ela se forma a partir da existência do ser humano. Figura 2 – Essência X existência Fonte: Dean Drobot /Shutterstock.com A essência é aquilo que faz com que uma coisa seja o que é, e não outra coisa. A cadeira écadeira e não mesa, possui um ser em si, que faz com ela seja cadeira, uma natureza de ser cadeira. Existência é aquilo que é posto em algum espaço, colocado em algum lugar no tempo, por exemplo: ser humano que existe. Segundo Sartre (2012), para fabricar algo é preciso conceber o ser do objeto (sua essência). Para os religiosos, o ser do ser humano e da mulher é criado antes por Deus, o seu criador. Ou seja, Sartre, sendo ateu, não poderia conceber que Deus, como ser superior, tenha criado o ser humano segundo um modelo. A criação divina mostra que o indivíduo possui uma natureza humana igual em todos os homens. O ser humano teria uma essência pré-determinada por seu criador e existiria a partir dessa natureza humana, de um modelo pré-existente. O existencialismo mostra que primeiro o ser humano existe, e a partir disso ele busca sua essência, procura se definir, traçar seu próprio destino (ARANHA; MARTINS, 1993). Ele é livre, não tem destino pré-determinado. Ele sai em busca de sua essência, e não havendo uma essência humana comum, uma natureza comum a todos os seres humanos, cada um é dono de si mesmo e de seu próprio destino. A partir disso, a liberdade do ser humano é definida pela escolha daquilo que ele quer ser e escolhe fazer. Se não há natureza humana pré-determinada, se não há destino, se o ser humano é o que ele escolhe ser, ele é livre. Essa liberdade lhe permite agir e escolher o que deseja ser e fazer, mas ele deve agir com engajamento, pois é responsável por sua ação perante a sociedade. Portanto, primeiro o ser humano é, existe, depois ele se define, obtém sua essência. SAIBA MAIS! Vale a pena ler “O existencialismo é um humanismo”, palestra ministrada por Sartre, defendendo o existencialismo contra o individualismo. Disponível em: <http://stoa. usp.br/alexccarneiro/files/-1/4529/sartre_exitencialismo_humanismo.pdf>. FIQUE ATENTO! O fundamento do existencialismo leva em consideração que a existência prevalece sobre a essência. Primeiro a existência, depois busca-se a essência. 3 Individualização, liberdade e risco O ser humano é diferente das coisas porque é livre, ou seja, ele é para si: tem consciência, que é algo intencional, se projeta para fora dele mesmo, se exterioriza (autorreflexão). Se não há essência, modelo, o indivíduo se vê num futuro aberto. Sem modelo, não há regras pré-dispostas, podendo criar sua própria existência. Ele pode escolher e é responsável por tudo que escolhe. Sua liberdade se efetiva na ação, na modificação do real. Na concepção existencialista da liberdade, supõe-se que exista um pensamento que defende o individualismo; mas o existencialismo não é individualismo, em que cada um se preocupa com a sua própria liberdade e ação (ARANHA; MARTINS, 1993). Figura 3 – Individualidade Fonte: bluebay/Shutterstock.com Para Sartre (2012), primeiramente o ser humano é um nada, um ser vazio, sem consciência. Ele é um ser para si, ou seja, um indivíduo que irá se desenvolver, irá buscar sua essência. Para se desenvolver, o indivíduo vive a angústia da escolha entre diversos caminhos e ações a partir das possibilidades que lhe são apresentadas. Há homens que fogem da escolha, aceitam os valores dados, simulam escolher, acreditando que seu destino já está traçado, mentem para si mesmos, aceitam os valores dados acreditando que eles mesmos constroem seus próprios atos. Para Sar- tre, esses inclinam-se a má fé, que não é uma mentira, mas a simulação da escolha, em que o indivíduo evita se responsabilizar por sua escolha (ARANHA; MARTINS, 1993). O indivíduo que recusa a sua liberdade torna-se um ser em si, torna-se um objeto, um ser que não se desenvolve, permanece da mesma forma, reduz-se aos fatos, não transcende para sua existência efetiva. A recusa da liberdade se torna um conformismo com a ordem estabele- cida, seguindo o que a sociedade define. O ser humano é livre, mas a sua escolha possui riscos, podendo optar pelo que é bom para ele e não para os outros, sendo um individualista. Entretanto, a concepção do existencialismo nos mostra que o ser humano não escolhe agir em benefício pró- prio, ele escolhe sempre o que é melhor para todos, pois vive em sociedade. EXEMPLO O indivíduo que vive em sociedade procura escolher o que é bom para todos, pois se escolhe o mal, a mentira, como sendo o bom, o vantajoso, isto afetará toda a sociedade, podendo o outro escolher a mesma coisa e, por consequência, estarão vivendo na obscuridade da mentira ou na prevalência do mal. FIQUE ATENTO! A liberdade da escolha pode ser um risco para toda a sociedade, quando, em sua ação, não se considera a consequência que ela pode trazer. 4 Democracia, política e governança global; poderes paralelos; percepção do mundo e linguagem A democracia garante a liberdade do indivíduo, que está sob leis do Estado, existindo pode- res que mantém a ordem: legislativo, judiciário e executivo. Além de outros poderes que atuam na governança e muitas vezes se colocam à margem da sociedade, como um poder paralelo ao do Estado (DUBROW, 2013). No mundo todo existe um poder que legitima a ação do ser humano e garante a manutenção da ordem sob leis do Estado; mas há também uma contraordem, uma parcela da sociedade que se opõe ao governo, lutando por seus direitos. A sociedade está sob uma governança global, uma junção de governos públicos e privados, instituições que gerenciam seus interesses, conflitantes ou não, que buscam uma solução em cooperação. Entre esses poderes destacam-se organizações governamentais ou não governa- mentais, movimentos de cidadania, corporações e empresas. Esse tipo de governo mostra tam- bém a existência do que se costuma chamar de poder paralelo (DUBROW, 2013). A parcela insatisfeita com o poder vigente cria sua própria forma de governo. Este se coloca à margem do Estado, não se configura como oficial, mas pode influenciar a sociedade, formando opiniões que se opõem ao governo, causando conflitos e manipulando a população. Figura 4 – Poderes paralelos Fonte: Sentavio /Shutterstock.com Diante das diversas formas de enxergar o mundo, a linguagem pela qual o representamos pode variar de acordo com nossa orientação. Um físico interpreta o mundo pela linguagem matemática; enquanto a crença no ser superior, na linguagem religiosa, garante a existência dos homens. Assim como a ciência interpreta o mundo com teorias que, muitas vezes, escapam à compreensão do ser humano por possuírem linguagens distintas. O indivíduo, quando reflete o mundo, se mostra ligado a seu tempo, engajado. SAIBA MAIS! Para aprofundar o assunto sobre governança global, veja o artigo de Christopher Chase-Dunn e Bruce Lerro, “Democratização da Governança Global: perspectivas históricas mundiais”. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/soc/v15n32/04.pdf>. EXEMPLO A mídia é um poder paralelo. Ela forma opinião, influencia a interpretação dos fa- tos, cabendo ao indivíduo compreender o meio em que vive refletindo em suas próprias opiniões. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • perceber que o indivíduo deve se preocupar com os aspectos da vida cotidiana, refle- tindo sua existência; • entender que aquele que se preocupa com as mudanças de seu tempo é um indivíduo engajado, livre e responsável por sua ação. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993. CHASE-DUNN, Christopher; LERRO, Bruce. Democratização da Governança Global: perspectivas históricas mundiais. Sociologias, Porto Alegre, ano 15, n. 32, p. 52-93, jan./abr. 2013, Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/soc/v15n32/04.pdf>. Acesso: 21 jun. 2017. DUBROW, Joshua Kjerulf. Governança global democrática, desigualdade política e a hipótese da resistência nacionalista. Sociologias, Porto Alegre, ano15, n. 32, p. 94-110, jan./abr. 2013. Disponí- vel em: <http://www.scielo.br/pdf/soc/v15n32/05.pdf>. Acesso: 21 jun. 2017. SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Trad. Rita Correia Guedes. Disponí- vel em: <http://stoa.usp.br/alexccarneiro/files/-1/4529/sartre_exitencialismo_humanismo.pdf>. Acesso em: 5 jan. 2017. _______. O existencialismo é um humanismo. Petrópolis: Vozes, 2012. _______. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. 15. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. Dis- ponível em: <http://tattwa.org.br/livros/O%20Ser%20e%20o%20Nada%20-%20Jean-Paul%20SAR- TRE.pdf>. Acesso em: 18 abr. 2017. Filosofia do senso comum Márcio Tadeu Girotti Introdução Na vida do ser humano, o pensamento, a linguagem, os hábitos e a cultura foram constituídos e aprimorados sempre adaptando o modo à sua época. Desta forma, podemos dizer que a socie- dade estabelece seu modo de viver, agir, pensar e de fazer cultura. Chamamos isso de filosofia de vida, o que concede espaço também à filosofia do senso comum - um pensar sem regras e rigor científico, que contribui para a formação do pensamento, da linguagem e da cultura de um povo. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • entender como a filosofia influencia a vida cotidiana; • entender que a linguagem do preconceito é construída pela ideologia. 1 Senso comum x saber filosófico No âmbito do processo do conhecimento, existem modos de conhecer a realidade que per- passam a maneira de como o ser humano enxerga sua vida; assim, dependendo de como o ser humano observa o mundo ao seu redor, sua forma de representá-lo se adequa à sua crença e interpretação de mundo. Mas, como o ser humano entende o mundo? Note que o ser humano, mediante o senso comum, procura compreender o mundo por meio dos conhecimentos enraizados em sua cultura e transmitidos de geração a geração. Este conheci- mento não possui comprovação científica, mas é aceito pela sociedade por ser um saber que passa de pai para filho, e este é o primeiro contato com o mundo e com sua cultura (ARANHA, 2006). Figura 1 – Senso comum e saber filosófico Fonte: Diego Schtutman/Shutterstock.com Além do senso comum há outras formas de vermos o mundo. Você saberia dizer quais são elas? Podemos citar o mito, a religião, a arte, a cultura, a ciência e a filosofia (ARANHA, 2006). Observe que todas guardam um modo de interpretar o mundo, cada uma enraizada em seu conhecimento, comprovando os saberes a seu modo. Na sociedade encontramos diversos modos de represen- tar a nossa realidade, o que demonstra que o ser humano quer entender sua forma de vivência se apoiando em alguma verdade adquirida, seja pelo saber comprovado, como a ciência, seja pelo saber transmitido por gerações, como o senso comum, ou ainda, o saber enraizado à cultura. Entre as formas de vermos o mundo, o saber, que engloba diversas representações da reali- dade, diz respeito ao saber filosófico que é carregado de rigor, uma forma radical de saber, que vai às últimas consequências para explicar tudo que ocorre e existe à nossa volta. O saber filosófico, oposto ao saber do senso comum, não é restrito a poucos, mas está pre- sente em nosso dia a dia, em sua forma genuína: a reflexão. Agora, note a diferença: a filosofia catedrática, do pensamento puro, busca explicar o mundo, mas a filosofia do cotidiano, a qual também chamamos de filosofia de vida, se faz presente a todo momento e essa não se distancia do saber do senso comum, ao contrário, complementa-o. Enquanto o senso comum é um saber sem comprovação, a filosofia busca fundamentar suas teses, seus conhecimentos, mas nem sempre é aceita como saber comprovado, porém, mesmo assim, se configura como uma forma de conhecimento radical, rigorosa e sistemática. Opondo-se ao senso comum, é um saber sem comprovação, mas que sustenta a cultura de uma sociedade. FIQUE ATENTO! O saber filosófico é distinto do saber do senso comum, assim como a filosofia de vida é distinta da filosofia dos especialistas deste saber. EXEMPLO Buscar a causa do fato vivenciado em nosso dia a dia a fim de provar o porquê de sua ocorrência é um exemplo de uso da reflexão filosófica. 2 A filosofia de vida Na vida cotidiana possuímos um modo de viver sustentado em crenças e princípios que fomentam a cultura do ser humano. Este modo de pensar e conduzir a vida intitula-se filosofia de vida. A filosofia de vida que está presente também nas corporações, nos grupos sociais e seitas, é um conjunto de ideias, uma espécie de ideologia, pela qual o indivíduo busca um norte para seguir sua vida. “Na medida em que somos seres racionais e sensíveis, estamos sempre dando sentido às coisas. Ao filosofar espontâneo de todos nós costumamos chamar de filosofia de vida”. (ARA- NHA; MARTINS, 2003, p. 88). Figura 2 – Filosofias de vida Fonte: Asantosg/Shutterstock.com O pensar é próprio do ser humano. Estamos sempre pensando e refletindo, e quando fazemos isto estamos fazendo filosofia. Ao escolher um trabalho, um carro, viver na cidade ou no campo, estamos refletindo e isto constitui a forma de pensar da filosofia, separada de um saber mais espe- cializado, próprio aos filósofos, mas que significa uma forma de representar a nossa realidade. É comum ouvirmos “minha filosofia de vida é”, ou, “a filosofia da empresa”. O que estas expres- sões significam afinal? Elas significam que meu modo de viver, meu lema e princípios são tais e tais, e é por meio deles que oriento minha vida. Uma corporação cria regras, meios e princípios que norteiam sua missão e o modo de convívio entre os que ali estão. E, apesar de serem saberes ou conhecimentos aprofundados, eles não deixam de ser filosofia, pois estão às voltas com o pensar e refletir, buscando sempre uma razão e um horizonte que sirva de norte para a condução da vida. EXEMPLO Imagine que a missão de uma determinada corporação é prezar pela satisfação do cliente. Assim, a missão de uma empresa é a sua filosofia de vida, o que ela toma como orientação para o seu trabalho e desenvolvimento. É importante destacar também que a filosofia está presente no cotidiano quando avalia a sociedade, sua cultura, ideologias, além do saber que reflete, critica ou procura explicar os fatos, modificando a forma de pensar e produzindo novos saberes e culturas. Nossa filosofia de vida representa a forma de pensar, a maneira de viver, de conduzir a vida, os pensamentos, refletindo o dia a dia, tomando decisões, estabelecendo uma cultura, um cos- tume e a maneira de vivenciar a nossa realidade. SAIBA MAIS! Mario Cortella, notável pensador brasileiro, fala sobre a filosofia e o sentido da vida na obra “Educação, convivência e ética: audácia e esperança”. Confira no link: < http:// www.cortezeditora.com.br/newsite/primeiraspaginas/educa%C3%A7%C3%A3o_ convivencia.pdf>. FIQUE ATENTO! A filosofia de vida é uma forma de conduzir ou seguir determinados princípios esta- belecidos por um grupo, com a liberdade de aceitá-los ou não. 3 A reflexão filosófica e a autonomia do ser O ser humano é dotado de razão, por isso pode refletir sobre si e também sobre o mundo, além de constituir novos conhecimentos e desconstruir conhecimentos enraizados. Neste sentido, o ser humano é amparado pela reflexão filosófica, que julga sobre o quê, para quê e porquê, ou seja, o que é e o que são as coisas, para que servem, o que fazemos com elas e ainda qual é a causa disto ou daquilo (ARANHA; MARTINS, 2003). Note que é pela reflexão filosófica que o ser humano conduz a vida, toma decisões, constitui a sua cultura, cria ideologias e interpreta o mundo. Ao mesmo tempo, é importante destacar que a prática permite ao indivíduo adquirir autonomia e não ficar preso ao saber do outro, e, com isso, conhecer e construir conhecimento. O indivíduo se torna autônomo pelo pensar, pois opensamento é a única instância de pri- vacidade do eu, uma vez que somente sabemos o que o outro está pensando quando este pen- samento é comunicado, proferido por meio da linguagem. Ou seja, é a linguagem que permite o compartilhamento do conhecimento, tornando o ser humano autônomo, independente, e com capacidade para pensar e construir conhecimento sem depender do outro. Quando queremos saber o porquê das coisas buscamos apoio no conhecimento e na refle- xão, e emprestamos da filosofia seu rigor para empreender a busca e a fundamentação do saber. A reflexão de caráter filosófico é transportada para o saber comum permitindo a autonomia do pensar, e permitindo ao ser humano conduzir sua vida e seu saber a partir de si mesmo, apoiado em sua cultura e no saber da sociedade. Figura 3 – Pensamento autônomo Fonte: ChristianChan/Shutterstock.com A autonomia do ser permite a crítica do conhecimento e da cultura, bem como a transforma- ção da sociedade, o desmascaramento das ideologias sociais que prende os indivíduos a ideias impostas, tornando-os alienados, sem a possibilidade de julgar e seguir outros caminhos. A cultura social consente novos olhares, mas para isso é preciso que o ser humano se per- mita pensar e utilize a filosofia como ferramenta para a condução de sua vida e para a construção da própria sociedade. SAIBA MAIS! A reflexão filosófica auxilia o ser humano a tornar-se um ser autônomo, para que possa refletir sobre si mesmo e sobre a vida ao seu redor. 4 A autonomia do ser aprisionado à cultura Você sabia que a condição humana está atrelada ao mundo cultural? Desde o nascimento o ser humano assimila modelos sociais, como a linguagem e a forma de se comportar, sendo con- duzindo a se adaptar a este mundo estruturado. Porém, o ser humano, dotado de saber, promove cultura, modifica o meio em que vive, produz conhecimento e cultura. Podemos perceber que a sociedade é dinâmica e a cultura é transformada, tendo em vista que o ser humano, apesar da influência da sociedade, tem a capacidade de interpretar e elaborar saberes, produzindo novas formas de interpretar o mundo. A própria vivência do ser humano per- mite sua autonomia perante a sociedade, pois é ele quem constrói a vida em comunidade. O ser humano recebe uma herança social e ao mesmo tempo deseja superar o que foi herdado, promo- vendo a recriação da cultura (ARANHA; MARTINS, 2003). Figura 4 – Diversidade cultural Fonte: Rawpixel.com/Shutterstock.com Em sociedade o ser humano é exposto à ideologia social, um conjunto de ideias que conduz seu modo de viver, que muitas vezes pode levá-lo à alienação por não perceber a imposição de valores. Perceba que esta alienação deve ser desvendada com objetivo de promover a autonomia do ser por meio da reflexão, desmascarar a ideologia, mostrar os modelos enraizados na cultura e as possibilidades de transformação. Com o saber filosófico atrelado à cultura social, o ser humano é capaz de se desvencilhar das correntes sociais, promovendo a reconstrução da cultura e da própria ideologia. Com o suporte da reflexão filosófica e o auxílio da linguagem, o ser humano promove cultura, transforma a sociedade e permite que novos indivíduos sejam também autônomos para refletir sobre o meio em que vivem e assim recriar a própria cultura. FIQUE ATENTO! A cultura é construção humana, não é eterna, permanece em movimento e sempre pode ser modificada. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • entender o papel da filosofia e do saber filosófico para a vida cotidiana; • compreender a existência de uma filosofia de vida; • saber que o ser humano pode recriar a cultura desmascarando a ideologia. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da educação. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006. ______; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução a filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. CORTELLA, Mario Sérgio. Educação, convivência e ética: audácia e esperança. São Paulo: Cor- tez, 2015. Disponível em: <http://www.cortezeditora.com.br/newsite/primeiraspaginas/educa%- C3%A7%C3%A3o_convivencia.pdf>. Acesso em: 12 abr. 2017. Linguagem e Senso Comum Márcio Tadeu Girotti Introdução Como sabemos a comunicação permite a inter-relação entre os indivíduos, auxiliando a expressão do pensamento, da cultura e da crença. É por meio das palavras, gestos e sinais que conseguimos nos expressar. A isto chamamos de linguagem. Nesta aula vamos estudar o papel da linguagem, um signo utilizado na comunicação, criada e adaptada, que se estabelece de acordo com a cultura enraizada. Veremos também que o indivíduo faz diversos usos da comunicação que podem ser, muitas vezes, nocivos ao ser humano. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • compreender a linguagem como aspecto da cultura que se abre para a existência do ser real; • entender como a linguagem pode influenciar a autonomia do indivíduo em seus aspec- tos éticos, morais e espirituais. 1 O espírito que se abre para a existência do ser O ser humano possui uma condição de existência que é estar em um lugar, no tempo e no espaço, onde ele reflete sobre si, o mundo, os outros e busca atingir a sua essência. A filosofia existencialista nos mostra como o ser humano procura construir a consciência enquanto ser existente, refletido a partir do outro a sua condição, se abrindo para o seu destino que, pré-determinado ou não, será o caminho traçado para a conquista desta essência (ARANHA; MARTINS, 2003). De um modo geral, na relação indivíduo e mundo, podemos notar que a sociedade influencia a conduta do ser, ações, pensamentos, ideologias e, em especial, a cultura, que é diversificada, cons- tituída e transformada a todo momento. Notável também é a transformação que o ser humano faz da natureza. Por meio do trabalho transforma o meio em que vive influenciando toda a sociedade. O ser humano modifica a natureza e quando faz isso promove a transformação da cultura, ou seja, o indivíduo se abre para novas experiências, refletindo o mundo, adaptando o meio e cons- truindo a diversidade cultural e ideológica. Toda a modificação e transformação social é possível porque o ser humano é racional e pos- sui um instrumento de comunicação infalível: a linguagem, um meio de expressar pensamentos e sentimentos. Mas vale dizer que a linguagem não é um instrumento de comunicação autônomo e sofre influência cultural, sendo muitas vezes transmitida e enraizada no ser humano sem a refle- xão sobre a real utilidade, podendo ser utilizada para gerar preconceitos, ferindo a dignidade dos indivíduos. O ser que se abre ao mundo precisa estar atento ao uso da linguagem e em que medida ela é aplicada em seu dia a dia. Como também em seu desenvolvimento sociocultural, que mostra as modificações e reconstrução da linguagem a partir das transformações culturais proporcionadas pelo ser humano. Esse cuidado com o uso da linguagem garante que ela não seja utilizada para ferir a integridade da cultura do outro e de sua própria cultura. EXEMPLO Você já observou que a linguagem pode expressar formas de conduta para o bem ou para o mal? Ela pode ser utilizada, por exemplo em ofensas ligadas à etnias, mas pode também ser empregada para o bem, como elogiar a conduta ética de um indivíduo, por exemplo. FIQUE ATENTO! A linguagem é o meio de expressão do ser humano, que comunica o pensamento. 2 A linguagem como suporte do racismo, da misoginia e do preconceito Toda sociedade possui um tipo de comunicação e de cultura que influenciam o pensamento e, consequentemente, a linguagem. Note que indivíduos fazem uso da linguagem para se comuni- car, como também para se diferenciar do outro. Você pode perceber ao longo da história diversos casos que representam a discriminação por conta das diferenças culturais ouda opção ideológica. Veja, por exemplo, a escravidão de negros e índios durante a conquista de povos, entre os séculos XVI e XIX, ou ainda a separação entre brancos e negros na África do Sul, com o Apartheid entre 1948 e 1994; e a Eugenia Nazista na Alemanha de Adolf Hitler, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que matou milhares de judeus (VICENTINO, 2011). Figura 1 – Discriminação Fonte: Pressmaster/Shutterstock.com Na atualidade podemos observar que o uso da linguagem ainda é empregado em questões de racismo, como a não aceitação do outro, em exemplos de misoginia (aversão a mulheres) ou no preconceito, não aceitando culturas diferentes. Seja por um simples gesto ou por palavras bem empregadas, o ser humano pode tanto fazer uso da linguagem para se expressar linguisticamente e culturalmente, como também pode ofender ou diminuir a existência do outro, gerando conflitos, guerras, destruição, por simplesmente por não aceitar a cultura do outro. Figura 2 – Respeito à diversidade cultural Fonte: Rawpixel/Shutterstock.com A linguagem como meio de comunicação e expressão pode auxiliar o uso do preconceito, servir de apoio à discriminação, causando assim, confrontos culturais que podem levar a guerras regionais ou mesmo mundiais, simplesmente por não aceitar o outro como igual. SAIBA MAIS! Você sabia que durante os anos de 1948 a 1994 a África do Sul viveu sobre o regime de segregação racial, o Apartheid, separando brancos e negros, cerceando os direitos dos indivíduos governados por uma minoria branca? EXEMPLO O regime nazista na Alemanha de Adolf Hitler, na década de 1930, foi o maior exemplo de discriminação, preconceito e racismo existente na história mundial. Em busca da raça pura, ariana, causou terror na Europa, caçando judeus e outras etnias diferentes dos alemães. 3 Corrigir a linguagem evitando os adágios populares A humanidade possui diversos tipos de cultura, seja erudita (elite), popular (senso comum) ou de massa (industrial), que influenciam a condição de existência do ser humano e seu modo de viver. Podemos observar diversos acontecimentos que representaram a diversidade cultural e o confronto pela não aceitação das diferenças. Justamente para garantir a paz cultural mundial entre os povos e o direito universal dos indivíduos, independentemente de crenças e etnias, em 1948, foi criada, pela Unesco, a “Declaração Universal do Direitos Humanos”. Mesmo assim, pode- mos notar que pouco do que foi escrito vem sendo empregado, pois o ser humano continua a não respeitar o espaço do outro e as diferentes culturas. Figura 3 – Direitos humanos e diversidade étnica Fonte: Riccardo Mayer/Shutterstock.com O uso da linguagem, independentemente da nação, mostra diversas características utilizadas no dia a dia, que sem reflexões críticas, são transmitidas por gerações e acabam ocasionando conflitos que podem tomar grandes proporções. Você saberia quais são estas características da linguagem? Os adágios populares servem de exemplo para mostrar como a linguagem enraizada na cul- tura influencia os indivíduos que, conscientes ou não, utilizam expressões que podem ferir a digni- dade do outro, causando preconceitos. Na sociedade brasileira vemos outros casos do uso da lin- guagem enraizada em adágios populares em expressões como: “só poderia ser mulher”, “é como roubar doce de criança”, “isso é samba do crioulo doido”, entre outros, que expressam situações cotidianas, mas expõem algum tipo de preconceito, fazendo referência às pessoas ou raças para justificar algum fato, de forma desrespeitosa. O uso da linguagem permite a diferenciação de culturas, mas, como vemos, permite também o emprego do preconceito. A linguagem é um instrumento que pode corrigir o seu uso popular em pequenos conflitos, ou ainda, seu uso universal em grandes conflitos culturas e étnicos. A linguagem possui a força de aproximar e distanciar indivíduos dependendo do seu emprego, portanto, ela pode ser o instrumento para corrigir o desrespeito, a discriminação ou o racismo. Para isso é importante prestar atenção à diversidade cultural e utilizar a linguagem para a comunicação da cultura e da expressão de pensamento do ser humano como ser racional, ético, autônomo e semelhante ao outro. É com a própria linguagem que se pode buscar a correção dos preconceitos e a separação entre os indivíduos em seu apartheid sociocultural. FIQUE ATENTO! O uso da linguagem está preso à cultura de uma nação, podendo ser utilizada tanto para o bem quanto para o mal, gerando ou apaziguando conflitos. SAIBA MAIS! No artigo “Linguagem e cultura” Mexias-Simon (2012) trata a língua como a manifestação de uma visão de mundo e também como um instrumento formador desta visão. O texto apresenta ainda a questão da língua ensinada nas escolas, frente à diversidade linguística e cultural. Disponível em <http://www.uss.br/pages/revistas/ revistamosaico/V3N12012/pdf/002_linguagem_e_cultura.pdf>. 4 Linguagem como conhecimento tácito e cultural O ser humano nasce em uma sociedade com cultura, costumes, hábitos, formas de viver e conhecimentos pré-determinados transmitidos sem reflexão. Em meio a esta cultura enraizada no ser humano, é com a linguagem que o indivíduo se rela- ciona com seu ambiente, adquirindo assim outras formas de cultura. Isso mostra que a linguagem é um conhecimento tácito e cultural, pois é transmitida de geração a geração. Todo indivíduo adquire os primeiros conhecimentos a partir do convívio social e familiar na comunidade em que vive e, posteriormente, na sociedade como um todo. Estes conhecimentos incluem a linguagem, os gestos e os signos, que serão impressos no ser humano e passarão à reflexão, sobre seu uso e emprego, podendo alterar e modificar esta linguagem adquirida, depen- dendo da cultura do indivíduo (ARANHA, 2006). Figura 4 – Diversidade linguística e cultural Fonte: Qvasimodo art/Shutterstock.com Observe que a formação do indivíduo dependente da cultura de seu povo, que influencia seu olhar sobre o mundo, a relação com a sociedade, escolhas religiosas, políticas, artísticas, bem como sua posição enquanto ser existente no mundo. Por meio da cultura o indivíduo se expressa e com a linguagem expõe seus pensamentos, comunicando ideias e emoções, podendo também empregar preconceitos e causar conflitos e distanciamentos culturais, por não considerar a diversidade. FIQUE ATENTO! A linguagem é adquirida e transmitida de geração a geração, quando nascemos já estamos dentro de uma cultura pré-estabelecida. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • compreender a linguagem como instrumento para a relação entre os indivíduos; • entender o uso da linguagem para a comunicação e expressão cultural; • verificar que a linguagem é conhecimento adquirido culturalmente; • identificar que é possível corrigir os preconceitos com a própria linguagem. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da educação. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006. ______; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução a filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. MEXIAS-SIMON, Maria Lucia. Linguagem e Cultura. Mosaico - Revista Multidisciplinar de Huma- nidades, Vassouras, v. 3, n. 1, p. 14-24, jan. /Jun., 2012. Disponível em: <http://www.uss.br/pages/ revistas/revistamosaico/V3N12012/pdf/002_linguagem_e_cultura.pdf>. Acesso em: 7 fev. 2017. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA (Unesco). Declaração Universal dos Direitos Humanos. Brasília, 1998. Disponível em: < http://unesdoc. unesco.org/images/0013/001394/139423por.pdf>. Acesso em: 26 abr. 2017. VICENTINO, Cláudio. História geral. São Paulo: Scipione, 2011. Filosofia Organizacional Márcio Tadeu Girotti Introdução Você sabia que a filosofia possui diferentes vertentes e usos, além de diversasaplicações e funções? Nesta aula vamos conhecer a filosofia organizacional, um termo que ainda não é reconhecido como conceito, mas tem destaque no mundo dos negócios. Vamos estudar como a filosofia organizacional auxilia o ambiente das organizações e busca compreender as relações existentes em todo o âmbito empresarial. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • compreender os aspectos da filosofia organizacional e sua função no âmbito das organizações; • identificar como a filosofia pode auxiliar o aprendizado nas organizações. 1 O que é filosofia organizacional Cotidianamente estamos refletindo sobre o mundo, os fatos do dia a dia, ponderando, cri- ticando, criando e reconstruindo o saber. Estes aspectos representam o ser humano em busca da compreensão do meio em que vive, pensando sobre as situações rotineiras em prol de novos caminhos e perspectivas. Ao transportar este cenário para o mundo dos negócios podemos perceber que cada indiví- duo possui uma posição ou um espaço, como uma peça do sistema, e que a realidade corporativa possui dois lados: um que envolve a corporação e outro o indivíduo. Ou seja, o mesmo indivíduo que ocupa uma função e executa certas tarefas, cumprindo com a rotina da empresa, também ocupa uma função na sociedade; assim, ele é um ser individual, que possui uma rotina como ser no mundo, um cidadão. De acordo com Galvão (2014), esta situação representa a contraposição entre o mundo dos negócios e o mundo do indivíduo particular. Figura 1 – Filosofia organizacional Fonte: MaximP/Shutterstock.com Agora, preste atenção: na condição de peça do sistema, o indivíduo assume a posição de cumprir sua tarefa e proporcionar a manutenção das engrenagens que movem o sistema. Sua fun- ção influencia os demais que constituem um todo em perfeito funcionamento. Assim, sem refle- xão, estes indivíduos permanecem como peças, que podem ser substituídas por outras que farão a mesma função. Mas, como seres pensantes, podem sair da condição de meros espectadores, refletindo sobre si e sua posição, buscando novas formas de pensar e traçando novos horizontes. Esta reflexão que toma o indivíduo dentro das organizações, em relação a sua posição, fun- ção e na inter-relação com os outros, chamamos de filosofia organizacional, que ao lado da socio- logia e da psicologia organizacionais conduzem o indivíduo a pensar sobre o mundo, sobre si e sobre sua função dentro do sistema. (GIROTTI, 2017). FIQUE ATENTO! A filosofia organizacional é um ramo do saber presente dentro de ambientes cor- porativos. SAIBA MAIS! Não se esqueça que a filosofia organizacional ainda não é um conceito. É um ramo do saber que busca compreender as funções e ações dos indivíduos nas corpora- ções, auxiliando-o a enxergar além dos limites de sua função. 2 Filosofia da administração A filosofia no âmbito das organizações pode ser vista como uma filosofia da gestão ou, como comumente é dito, filosofia da administração. Mas o que seria uma filosofia da administração? Podemos dizer que consiste na articulação do pensamento filosófico com o ambiente corporativo. Ou seja, é o uso da filosofia e seus instrumentos dentro das organizações, como o pensar, o refletir, o ponderar e o uso racional na resolução de problemas, auxiliando os indivíduos na avaliação da sua posição dentro do sistema (GIROTTI, 2017). Articular a filosofia às funções e tarefas do dia a dia, no mundo dos negócios, nada mais é do que considerar o papel da filosofia no auxílio à compreensão do comportamento dos indivíduos inseridos no ambiente de trabalho. Assim como a filosofia está presente em nosso cotidiano, em aspectos gerais, ela também está presente dentro de pequenos nichos, como empresas, escolas, comércios, famílias etc, exercendo funções e papeis diferentes, mas com o mesmo objetivo: o pensamento reflexivo. A filosofia da administração não é um novo saber, mas um novo uso da filosofia. Você saberia dizer, por exemplo, como se comportam os indivíduos sob pressão, no cumprimento de metas, na busca de resultados ou em situações comuns nas corporações? Talvez a psicologia possa expli- car, mas a relação do eu com a função, com o ambiente e com o mundo externo, também pode ser elucidada pela filosofia. Este ramo do saber pretende mostrar ao indivíduo sua função e posição dentro do ambiente corporativo, permitindo que ele reflita criticamente sobre si, suas tarefas e a relação com o outro e o ambiente de trabalho (GIROTTI, 2017). Figura 2 – Ambiente corporativo Fonte: Rawpixel/Shutterstock.com Neste sentido, segundo Galvão (2014), a filosofia está presente no ramo da gestão em meio às funções de planejamento, organização e liderança; aspectos que envolvem os indivíduos que necessitam de conhecimento, reflexão e articulação entre os saberes e sua execução. Podemos afirmar também que a filosofia da administração deve se ocupar com a teoria e prática do universo organizacional, além da relação e das funções estabelecidas entre os indivíduos, trabalhando com os processos e as atividades do dia a dia da empresa. SAIBA MAIS! Para saber mais sobre filosofia da administração confira a introdução da obra “Filosofia nas Empresas”, de Jadir Mauro Galvão (2014). Disponível em: < http://www. paulus.com.br/loja/appendix/3586.pdf>. FIQUE ATENTO! A filosofia da administração significa um novo uso da filosofia dentro de ambientes corporativos. 3 O saber filosófico nas organizações Nossa rotina é repleta de saberes e conhecimentos que permeiam ações, condutas e reflexões. É importante notar que no mundo das organizações não é diferente. Nas empresas tudo deve ser executado com o propósito de movimentar e manter funcionando a máquina dos negócios e a vida da empresa. Você deve perceber que o funcionamento de uma organização depende das pessoas, os seres pensantes, que em conjunto executam tarefas que mantém a empresa em movimento. Assim, a filosofia aplicada às empresas diz respeito aos aspectos de planejamento, com o cumprimento de objetivos e metas; de organização, que envolve recursos humanos (relaciona- mento); de controle, voltado para a execução e resultados; de liderança, na direção e disponibili- dade de recursos para o desenvolvimento das tarefas e funções de cada pessoa dentro do sistema (GIROTTI, 2017). Figura 3 – Liderança Fonte: Ilyafs/Shutterstock.com Não podemos deixar de lado o fato das organizações buscarem executar uma missão, com objetivos, fundamentados em princípios, que regem as normas de conduta e ações reunidas na filosofia da empresa. Desta forma, a filosofia da empresa pretende conduzir os indivíduos a com- preender a rotina da organização, pautados na inter-relação entre pessoas que possuem o mesmo objetivo: o sucesso da instituição. FIQUE ATENTO! Tenha sempre em mente que a filosofia da empresa representa princípios e normas que regem o comportamento dentro da organização. EXEMPLO A função do líder exige a compreensão de todo o processo de trabalho. Só assim ele poderá conduzir a equipe a cumprir os objetivos, além de motivá-la a atingir os resul- tados propostos. Para isso, cabe ao líder, com base na reflexão sobre a execução de cada etapa do processo, orientar a sua equipe. 4 O aprendizado nas organizações No âmbito organizacional, além da prática na execução de cada tarefa e a função que cada indivíduo exerce, a filosofia organizacional nos mostra o aprendizado que podemos obter a partir das situações do dia a dia, o que exige reflexão para o bom desempenho da tarefa. Na relação entre os indivíduos podemos observar que cada função exerce uma parte do todo. No processo de resultados exige-se que cada pessoa tenha a consciência da sua parte e ação para o cumprimento dos objetivos. Desta forma, a execução de cada tarefa está atrelada à do outro, sendo ambos responsáveispelo resultado. Ao trabalhar na execução, os indivíduos não só desenvolvem sua função, mas aprendem com ela, já que dependem do outro, sempre tendo em vista que é o conjunto que exerce a conquista dos resultados. Isto significa que, se o indivíduo trabalha em equipe, mas não desenvolve com afinco a sua função, os demais poderão não cumprir com o objetivo, influenciando de forma negativa o resultado (GALVÃO, 2014). Contudo, com o auxílio da filosofia todo este processo pode ser execu- tado, e, desta forma, a reflexão, que conduz cada parte do processo e a do indivíduo, trabalha em conjunto para atingir os objetivos. Figura 4 – Ambiente organizacional Fonte: Rawpixel/Shutterstock.com O aprendizado que existe no conjunto de ações desenvolvidas pelo ser humano dentro do ambiente corporativo nos mostra que a filosofia é parte importante e integrante nos ambientes corporativos. Ela auxilia os indivíduos a não ficarem presos, restritos à sua função, considerando o todo e a execução do trabalho em equipe, com pessoas que estão em inter-relação, realizando tarefas distintas, mas que fazem parte da mesma corporação. EXEMPLO Para executar tarefas no ambiente empresarial é preciso conhecer cada uma das eta- pas, só assim os indivíduos, em conjunto, podem cumprir com as ações que irão ga- rantir a execução da atividade de modo satisfatório. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • entender o que é a filosofia organizacional; • compreender qual é o papel da filosofia dentro da empresa; • identificar o aprendizado que a filosofia proporciona no ambiente empresarial. Referências GALVÃO, Jadir Mauro. Filosofia nas empresas. São Paulo: Paulus, 2014. Coleção Liderança. GIROTTI, Marcio Tadeu. Filosofia organizacional. Revista Ciência & Vida - filosofia, São Paulo, v. 122, p. 62-70, fev. 2017. NETO, João Mattar. Filosofia e ética na administração. São Paulo: Saraiva, 2006. A vida, o aprendizado e o saber filosófico Márcio Tadeu Girotti Introdução Você já deve ter observado que a vida é repleta de ensinamentos que adquirimos ao longo de nossa história. Nesta aula iremos abordar os aspectos ideológicos que influenciam o ser humano a interpretar a realidade. Vamos estudar como a filosofia contribui para o nosso entendimento da vida e na busca por fundamentos que justifiquem as relações entre os indivíduos e a sociedade. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • compreender como a filosofia auxilia a percepção da realidade; • identificar como a filosofia está presente na vida comum, buscando entender a ideolo- gia por trás da vida cotidiana. 1 O aprendizado na vida e para a vida Como sabemos, a educação do ser humano começa com a família, em sociedade, e, posterior- mente, passa à tutela da educação formal, no ambiente escolar. Isto mostra uma evolução no pro- cesso de conhecimento, de formação e de desenvolvimento da capacidade cognitiva dos indivíduos. Tudo o que aprendemos ou devemos aprender está relacionado às formas de conduta e educação, e servem ao indivíduo para que ele entenda sua posição na sociedade. Desta forma, ele passa a compreender o mundo em que vive, observa as transformações culturais e sociais e identifica os caminhos que o conduzem ao aprendizado e aquisição de conhecimentos. Assim, é importante perceber que existe um aprendizado na vida e para a vida, um saber necessário para entender a existência, em meio à sociedade e com a inter-relação entre os indiví- duos, além de um saber para aprender a busca de significados que possam promover mudanças no ambiente social. Figura 1 – Aprendizado e conhecimento Fonte: Cherries/Shutterstock.com O filósofo John Dewey (1859-1952) entendia a formação do indivíduo como um ser que aprende para a vida, em uma escola que ensina a viver na sociedade, transformando o ambiente escolar em uma mini sociedade. Para ele, é a partir do bom exemplo que as crianças aprendem a se conhecer e a entender o meio onde vivem, adquirindo uma formação com amparo na sociedade (CUNHA, 2007). A educação que forma para a vida precisa ser entendida como um meio para um fim, e não simplesmente como o fundamento de toda a vivência. É uma base de formação do indivíduo que compreende a sociedade, conhece o presente e o passado para construir um futuro. Desta forma, é possível descobrir neste caminho as diversas ideologias sociais que podem alienar o indivíduo. FIQUE ATENTO! Lembre-se que a educação é uma das bases que formam o ser humano para viver em sociedade. 2 Filosofia da educação Historicamente, dois grandes momentos dividem a educação escolar. Você saberia dizer quais são eles? Observe. • Escola Tradicional: o professor era o centro do conhecimento e o aluno, passivo, assu- mia a posição de repositório de conhecimento sem reflexão; • Escola Nova: supera o saber sem reflexão e retira o professor do centro, colocando o indivíduo como peça chave para o conhecimento (ARANHA, 2006). Neste contexto não apenas se adquire conhecimento, mas se constrói o saber. Figura 2 – Formação escolar Fonte: ESB Professional/Shutterstock.com O filósofo Dewey era adepto da forma de conhecimento onde a escola torna o aluno ativo, que participa da formação do saber, trazendo suas experiências e dividindo-as com os colegas para construir o conhecimento em conjunto. Neste cenário, o professor é o tutor que acompanha e corrige o aprendizado. O saber da Escola Nova tem como base o conhecimento filosófico, que empresta instrumen- tos para a análise social, bem como desvenda a ideologia social. Neste sentido, a filosofia se confi- gura como uma filosofia da educação, fornecendo instrumentos caros à interpretação da realidade social: a antropologia, a axiologia e a epistemologia. Perceba que a filosofia da educação promove a reflexão sobre a sociedade. Ela busca des- mascarar a ideologia social, levando os indivíduos a se compreenderem como seres sociais sob uma ideologia, imposta pela sociedade, que podem se sobressair, superar ideais e construir novos saberes (ARANHA, 2006). Com a antropologia, o indivíduo entende sua existência no mundo em relação aos demais, promovendo uma interação em sociedade. Portanto, o conceito é o estudo do ser humano social. Já com a axiologia, a filosofia auxilia a educação nos aspectos morais, levando os indivíduos a compreenderem condutas e ações que exigem ética e responsabilidade social. E, por fim, a episte- mologia busca compreender o conhecimento e as formas para a busca do mesmo. É importante entender que estes três instrumentos da filosofia servem de amparo à educação, formando os indivíduos e os ensinando a viver em sociedade, interpretando o mundo onde vivem, podendo des- contruir e construir novos conhecimentos. FIQUE ATENTO! A filosofia serve de fundamento à educação para pensar o ser em sua moralidade, vivência e conhecimento. 3 A ideologia da educação A educação é uma instituição presente na sociedade, estando sob a ideologia social, que segue as regras impostas. Os indivíduos não escapam à ideologia social e refletem esta ideologia que os limita a enxergar um mundo construído por diversos atores sociais, sem reflexões ou críti- cas, e que deve ser aceito e compartilhado por aqueles que o habitam. A ideologia social influencia a educação e faz com que ela se torne ideológica, uma vez que reproduz a sociedade. Ou seja, a escola é ideológica porque reproduz uma sociedade ideológica. Entretanto, esse mesmo ambiente escolar pode analisar de forma crítica a sociedade, desmasca- rando as formas ideológicas e auxiliando os indivíduos a compreenderem a existência de ideologias. Figura 3 – Ideologia social Fonte: Lightspring/ Shutterstock.com A partir do momento que a escola inicia o processo de ensinar o indivíduo a compreender sua existência, a entendera constituição da sociedade, a perceber que há uma ideologia social, imposta, que ele segue sem a mínima reflexão e consciência disso, ele procura não ser ideológica e se torna o meio de desmascarar a ideologia social. Assim, contribuiu para tornar o indivíduo consciente da imposição de ideias e valores. SAIBA MAIS! No artigo “Ideologia e Educação”, de Marilena Chauí (2016), você poderá obser- var os aspectos da ideologia social. Leia mais em: <http://www.scielo.br/pdf/ep/ v42n1/1517-9702-ep-42-1-0245.pdf>. A escola pode ser vítima da própria ideologia da sociedade, quando, ao tentar desvendá-la, se fecha em seus ideais, tornando-se também ideológica. Isto significa que se a escola reproduz a sociedade ela é ideológica, mas, se ela se fecha, também torna-se ideológica. Como sair desse paradoxo? Como não tornar a escola e a educação ideológicas? A saída está na reflexão sobre a sociedade. Mostrar ao indivíduo que existe uma ideologia e que pode ser superada, conduzindo o ser humano para construir e reconstruir a sociedade, refletindo sobre si e sobre o mundo. FIQUE ATENTO! A educação é ideológica em dois sentidos: quando reproduz a sociedade e quando se fecha em seus ideais. EXEMPLO A imposição de valores é uma forma de ideologia, que pode alienar o indivíduo a se- guir determinadas normas e valores, de forma inconsciente, estando subordinado a esses ideais. 4 Educação moral A escola não é o espaço de formação do ser humano, que vive em sociedade e precisa con- servar sua existência e a dos demais. Portanto, perceba que a educação faz parte da vida do ser humano e com ela devemos aprender a viver em sociedade. Cada sociedade possui uma cultura, uma forma de viver, uma ideologia, um conjunto de ideias que regem a conduta dos indivíduos que estão sob ela. A escola como ambiente educacio- nal precisa ensinar aos indivíduos a viverem em sociedade. Deve conduzi-los a compreender os aspectos morais que envolvem a relação entre eles e o ambiente social. Figura 4 – Pensamento moral Fonte: Triff/ Shutterstock.com A escola é um ambiente disciplinador, que estabelece formas de conduta e limites. Ela mostra ao indivíduo seu lugar na sociedade, ensinando e aprendendo, buscando um princípio formador, para construir uma sociedade com pessoas que saibam desenvolver a cultura, elaborar novos conhecimentos, serem éticos e estabeleçam uma moral que possa fundamentar o convívio social. A educação deve conduzir os indivíduos a interpretarem a sociedade, compreendendo a moral que a envolve, entendendo as relações éticas, orientando o ser humano para o caminho da virtude, desenvolvendo uma relação harmoniosa entre o sujeito e o mundo, construindo assim uma relação de bem-estar social. A escola, apoiada em princípios filosóficos e morais, deve ensinar a pensar. Orientar o ser humano a conviver em grupo, com respeito ao próximo, para que possa não só acompanhar o desenvolvimento da sociedade, mas também construir novos conhecimentos, modificar a cultura, sempre com princípios da ética e visando a harmonia social. O problema moral, ligado às relações humanas, deve servir de base para a reflexão moral, a correção da conduta ética, a valoração dos bons costumes em contraposição às imposições nor- mativas, muitas vezes, sem reflexão. Essa reflexão moral não se desenvolve somente no âmbito familiar, mais do que isso, é preciso que se desenvolva também em um ambiente diversificado, repleto de conflitos e reflexões. É na escola que os indivíduos são colocados em situação de análise social e moral, e podem compreender sua conduta e modificar sua forma de pensar e viver em sociedade. Assim é possí- vel corrigir e disciplinar sua forma de pensar e conviver entre seus semelhantes, promovendo um convívio social harmonioso e construtivismo, em vista do bem comum. EXEMPLO A escola deve formar o indivíduo, fornecendo instrumentos para que ele possa re- fletir sobre a sociedade, compreendendo a moralidade que a envolve, desvendando, assim, a ideologia social. SAIBA MAIS! Para analisar diferentes cenários e perspectivas acerca da educação moral, confira o artigo “Educação moral hoje: cenários, perspectivas e perplexidades”, de Pedro Goergen (2007), disponível em <http://www.scielo.br/pdf/es/v28n100/a0628100.pdf>. Fechamento Nesta aula, você teve a oportunidade de: • entender que a escola possui papel fundamental na formação do ser humano; • identificar a participação da filosofia para o desenvolvimento educacional; • compreender a formação do ser moral apoiado na educação escolar. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda Aranha. Filosofia da educação. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006. CUNHA, Marcos Vinícius. Democracia e educação: capítulos essenciais. São Paulo: Ática, 2007. (Ensaios Comentados). CHAUI, Marilena de Souza. Ideologia e Educação. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 42, n. 1, p. 245- 257, jan. /mar. 2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ep/v42n1/1517-9702-ep-42-1-0245. pdf >. Acesso em: 13 fev. 2017. GOERGEN, Pedro. Educação moral hoje: cenários, perspectivas e perplexidades. Educação e Sociedade, Campinas, v. 28, n. 100 - Especial, p. 737-762, out. 2007. Disponível em: <http://www. scielo.br/pdf/es/v28n100/a0628100.pdf>. Acesso em: 13 fev. 2017. A busca de uma filosofia sobre quem somos e para onde queremos ir: sozinhos vamos mais rápido, mas juntos vamos mais longe Márcio Tadeu Girotti Introdução Durante a trajetória da vida, sempre nos questionamos sobre quem somos e para onde vamos. Você já deve ter se perguntado sobre o destino, se ele está traçado ou se o caminho pode ser construído, não é mesmo? Nesta aula vamos entender como a investigação filosófica é capaz de fornecer indícios para pensarmos sobre a nossa existência, além de nos ajudar a obter respostas para diversas questões, muitas vezes sem solução. Você vai entender também que a organização sociopolítica da sociedade influencia a forma de vida das pessoas, desconsiderando a igualdade, cultura, etnia e gênero, além de ser responsável por gerar conflitos e alterar o rumo da história. Objetivos de aprendizagem Ao final desta aula, você será capaz de: • identificar as quatro pistas da educação para o século XXI; • entender como acontece a escolha de uma filosofia de vida, reconhecendo as possíveis influências de ideologias predominantes na sociedade; • compreender como a filosofia contribui para a reflexão existencial. 1 Da República de Platão à Democracia representativa e Democracia participativa O lado político e econômico da sociedade representa a forma como os indivíduos se comportam e interagem, sustentados por uma ideologia que prescreve formas de conduta e regras de convívio social. Você pode perceber que, muitas vezes, sem reflexão, simplesmente há imposição de valores. Platão (427 - 347 a. C.), em sua obra “A República” (2014), explica como as formas de governo são constituídas e se degeneram até chegarem mais próximas do povo: via democracia. Para o filósofo, a democracia é vista como um governo representativo, onde o povo escolhe os repre- sentantes por voto popular. Vale dizer que Platão não pensava a política encabeçada por alguém poderoso, ao contrário, para ele deve governar o mais sábio. Platão afirmava que o governo deveria ser ocupado por pessoas que detinham o conhecimento. Desta forma, quem deveria governar era o rei filósofo. Esta perspectiva mostra que o poder não cabe ao mais rico ou ao mais poderoso, mas a quem detém sabedoria para governar. Ainda de acordo com Platão, a democracia não era o melhor governo, pois sendo representa- tivo, implica em quem governa poder se inclinar à tirania para obter poder, já que é um governo que se origina no povo. No entanto, esta perspectiva platônica não se concretiza por completo, pois vemos na democracia um governo representativoe participativo, sem distinção de gênero, mesmo que a grande maioria dos cargos políticos ainda sejam ocupados por homens, por exemplo. Não podemos esquecer que o voto é popular, ou seja, é o povo quem escolhe seus representantes, participando, portanto das decisões políticas, e, apesar de não decidir diretamente, escolhe quem está apto e autorizado a decidir. Figura 1 – Democracia representativa Fonte: amalia19 / Shutterstock.com Na Grécia, as decisões eram tomadas em praça pública, reunido o povo. Hoje, isso não seria mais possível diante do aumento da população que compõe as sociedades. Por isso, o voto repre- senta a vontade do povo e a participação popular na composição de um governo. É pelo voto, que a sociedade transfere sua vontade a um representante: o político. SAIBA MAIS! Para Platão a democracia não poderia ser a melhor forma de governo, pois poderia se degenerar em tirania. Para saber mais sobre este assunto confira o diálogo de Platão na obra “A República” (2014). 2 Ideologia e espiritualidade É necessário entender que as sociedades possuem uma forma de viver, representada pela cultura e sustentada por ideias. Desta forma surge uma ideologia que se confunde com aspectos religiosos e heurísticos, à medida em que se projeta uma forma de viver apoiado em ideais. Portanto, a ideologia nada mais é que um conjunto de valores, que são seguidos de forma consciente ou inconscientemente por indivíduos que sofrem certa opressão social, estando subordi- nados a um ideal imposto pela classe dominante, no caso o Estado e o governo. Consequentemente, surgem diversas ideologias que ocupam diferentes espaços respeitando ou não a diversidade social. Note que o ser humano é inserido em uma sociedade com cultura, costumes próprios e ide- ologias diversificadas, que, aos poucos, percebem como a sociedade está estruturada, refletindo sobre os meios de vivência e questionando a ideologia. Há uma espiritualidade social, uma representatividade dos indivíduos, cada qual com uma personalidade, consciência, que em conjunto formam uma consciência coletiva, responsável por sustentar a sociedade e influenciar a conduta dos indivíduos. (DURKHEIM, 2012). Figura 2 – Consciência individual e coletiva Fonte: Ilike / Shutterstock.com A sociedade é uma composição de pessoas que representam o espírito social, responsável pela organização e sustentação da vida em comunidade. Isso leva à composição de ideologias, grupos que formam a consciência comum, constituindo ideais seguidos pelos membros do grupo. Há vários grupos na sociedade e os que não estão inseridos nestes grupos são vistos como mar- ginalizados, pois não se encaixam em nenhuma ideologia e seguem simplesmente os valores que lhes são impostos. É importante destacar a existência de uma diversidade ideológica, sendo a consciência do indivíduo muito importante. Ele deve compreender esta existência a partir da reflexão sobre a sociedade e sobre si, para não ser engolido pela ideologia que aliena. FIQUE ATENTO! Observe que a ideologia social não é perniciosa ao indivíduo, depende do modo como ele encara a realidade: se aceita a imposição de valores ou se prefere refletir sobre a existência e a posição que ocupa na sociedade enquanto ser social. EXEMPLO Perceba que cada indivíduo possui uma personalidade, uma consciência individu- al na sociedade. Em conjunto formam uma consciência coletiva, conhecida como consciência social, que pode influenciar as consciências individuais. 3 Escolhendo uma filosofia de vida Questões como: quem somos? de onde viemos? para onde vamos? permeiam a imaginação humana e levam os indivíduos a criarem crenças, se apegarem a religiões ou mesmo suspende- rem o juízo não acreditando na criação ou evolução da humanidade. Diante da diversidade cultural e das ideologias que compõem a sociedade, não é difícil esco- lher uma via de intepretação da realidade, seja mitológica, religiosa, artística, científica, filosófica, ou mesmo, apoiada no senso comum. Cada forma de encarar a realidade depende do indivíduo. Os indivíduos são influenciados pela ideologia social, que mascara a verdadeira realidade, o que dificulta a interpretação da existência enquanto ser social e pertencente a um grupo (ARANHA, 2006). Quando somos ensinados a interpretar a realidade de forma crítica e reflexiva temos a opor- tunidade de desmascarar a ideologia dominante. Assim, construímos uma forma própria de inter- pretar o mundo e podemos nos aventurar na escolha do caminho a seguir, construindo a própria ideologia ou a filosofia de vida. Quando o indivíduo se identifica com uma forma ideológica de conduzir a vida é possível se agrupar ou tomar como influência o modo de conduta imposta por essa ideologia, cabendo a ele construir seu caminho. Portanto, cada indivíduo, mesmo sofrendo imposição de valores advindos de uma ideologia social, pode seguir uma ideologia e escolher uma filosofia de vida que passará a ser o fio condutor de sua vida (ARANHA, 2006). Figura 3 – Traçando caminhos Fonte: Galushko Sergey/Shutterstock.com A filosofia de vida nada mais é do que a escolha de um caminho, de uma ideologia, seguindo ou não padrões pré-estabelecidos. Cabe ao indivíduo formar as próprias opiniões e ideias, estabe- lecendo uma forma de viver. FIQUE ATENTO! Lembre-se: a filosofia de vida é a escolha de uma ideologia que possa orientar um caminho para o conhecimento, ideais e crenças. É a construção de um fio condutor, que orienta o ser humano a traçar o destino. EXEMPLO Se escolho seguir uma determinada crença, que pertença a um grupo, estou seguin- do uma filosofia de vida. Assim, pertenço a um grupo e faço parte de um todo que divide os mesmos ideais. 4 As quatro pistas da educação para o século XXI – aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conhecer e aprender a viver junto A educação do século XXI possui o desafio de integrar os direitos e deveres dos cidadãos, de forma global, respeitando todas as formas de expressão cultural e ideológica. Sendo a maior difi- culdade unir as pessoas diante da diversidade. A base desse desafio está estruturada nos quatro pilares da educação formulados pelo francês Jacques Delors (2012). São eles: • aprender a conhecer – aquisição dos instrumentos do conhecimento, apoiado no raciocínio lógico. Leva em consideração a preocupação de despertar nos indivíduos, o desejo de desenvolver, a vontade de aprender e aprimorar conhecimentos. • aprender a fazer – tem por base a formação técnico-profissional do indivíduo. Aplicar o que se aprende, especialmente, por meio da comunicação. Reter e transmitir infor- mação, interpretar e selecionar as informações. Aprender a fazer é também aprender as ferramentas de conhecimento para superar as crises e encontrar as soluções diante das adversidades e situações de conflito. • aprender a conviver – principal desafio do ser humano, o combate ao conflito, ao pre- conceito e à diversidade cultural. • aprender a ser – com apoio da educação, tem por finalidade o desenvolvimento com- pleto do indivíduo. Formando pessoas autônomas, capazes de estabelecer relações interpessoais, promovendo, de forma consciente, a transformação da sociedade. Figura 4 – Educação e conhecimento para vida Fonte: DavidPinoPhotography / Shutterstock.com Vale destacar que esta base representa a transformação social a partir do indivíduo, que interpreta e transforma a cultura, e faz da sociedade um meio de mudança e prosperidade, além de evoluir e transformar o meio onde vive, em busca da paz e da harmonia social. SAIBA MAIS! Amplie seu conhecimento lendo o capítulo quatro, “Os quatro pilares da educação”, pro- posto por Jacques Delors (2012) no livro “Educação”. O texto é uma solicitação da Unes- co, pensando no desenvolvimento da educação e da humanidade Veja o link: <http:// www.ia.ufrrj.br/ppgea/conteudo/T1SF/Sandra/Os-quatro-pilares-da-educacao.pdf>FIQUE ATENTO! Os quatro pilares da educação são uma concepção global sobre a educação mun- dial, mas também formam o ser humano perante as mudanças sociais, integração e o respeito ao próximo. Fechamento Nesta aula, você foi capaz de: • compreender a formação sociopolítica da sociedade na perspectiva do ser humano; • identificar a existência da ideologia social e individual; • entender a escolha de uma filosofia de vida. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda Aranha. Filosofia da educação. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006. DELORS, Jacques. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 2012. ______. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez, 2003. Capítulo 4. p. 89-102. Disponí- vel em: <http://www.ia.ufrrj.br/ppgea/conteudo/T1SF/Sandra/Os-quatro-pilares-da-educacao.pdf>. Acesso em: 20 fev. 2017. DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Edipro, 2012. GIROTTI, Marcio Tadeu; ROMUALDO, Claudio; ZUIN, Poliana Bruno (Org.). Perspectivas da educa- ção para o século XXI. Franca: Ribeirão Gráfica e Editora, 2012. PLATÃO. A República. 14. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2014.