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1ª Avaliação – Trabalho no Campus 2ª Avaliação – Prova Dissertativa + Correção em Sala (12 e 13/dez) 3ª Avaliação – Autoavaliação e Avaliação do Professor (19/dez) 4ª Avaliação – Atividade no Campus BIBLIOGRAFIA Teoria Geral do Direito Empresarial: - Rubens Requião - Fábio Ulhoa Coelho Títulos de Crédito: - Marlon Tomazette - Gladston Mamede DIREITO EMPRESARIAL I INTRODUÇÃO HISTÓRICA AO DIREITO EMPRESARIAL PRIMEIRO PERÍODO – SÉC. XII A XVI No primeiro período discute-se a sistematização das normas existentes relativas ao Direito Comercial. Nessa época não tinha uma autoridade estatal capaz de centralizar e promover normas comerciais. Assim, as corporações de ofício assumiam a função de criar e julgar aqueles que estavam vinculados de certa forma ao comércio. Essas corporações se desenvolviam, sobretudo, na península itálica, tendo em vista a relevância da localização de Gênova e Veneza, que foi primordial para o desenvolvimento do Direito Comercial. Diante da precariedade do direito comum para assegurar e garantir as relações comerciais foi necessário, de fato, que os comerciantes organizados criassem entre si um direito costumeiro, aplicado internamente na corporação por juízes eleitos pelas suas assembleias: era o juízo consular, ao qual tanto deve a sistematização das regras do mercado. É nessa fase histórica que começa a se cristalizar o direito comercial, deduzido das regras corporativas e, sobretudo, dos assentos jurisprudenciais das decisões dos cônsules, para, em seu âmbito, diminuírem as disputas e os litígios entre os comerciantes. Temos nessa fase, o período estritamente subjetivista do direito comercial a serviço do comerciante, isto é, um direito corporativo, profissional, especial, autônomo, em relação ao direito territorial e civil, e consuetudinário. Como o comércio não tem fronteiras, e as UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS – UFLA DEPARTAMENTO DE DIREITO RESUMO DAS AULAS – DIREITO EMPRESARIAL I Professor Fellipe David Silas Tadeu de Castro Martins operações mercantis se repetem em massa, transpira nítido o seu sentido cosmopolita (de todos os países, que se encontra na maior parte do mundo). Assim, para o subjetivismo do direito comercial, aos costumes formados e difundidos pelos mercadores, só a estes estavam vinculados; os estatutos das corporações estendiam a sua autoridade até onde chegava a autoridade dos magistrados das corporações, isto é, até os inscritos na matrícula; e, igualmente à jurisdição consular estavam sujeitos, somente, os membros da corporação. Todavia, essa estruturação do direito comercial gerou um problema. A determinação da competência judiciária dos cônsules, pelo exercício da profissão comercial, não era suficiente, pois nem toda a vida e a atividade do comerciante eram absorvidas pela sua profissão, impondo-se a necessidade de delimitar o conceito de matéria de comércio. Era considerada matéria do comércio a compra e venda de mercadoria para revenda e a sucessiva revenda; os negócios de moeda através dos bancos; e as letras de câmbio, pela sua conexão com os negócios comerciais propriamente ditos. Começa então, a era do chamado “segundo período”, que abriu margem para o conceito objetivista fundado sobre o ato de comércio, estudo do terceiro período. SEGUNDO PERÍODO – SÉC. XVI A XVIII Com o fortalecimento dos Estados, e consequentemente do mercantilismo, a Península Itálica perdeu força de êxito e importância, ao passo em que França e Inglaterra passaram a ter maior relevância no que tange à normatização do comércio, iniciando-se, então, a uniformização das normas jurídicas econômicas, sobretudo entre esses dois países. Com o sistema Comum Law, as corporações de ofício foram perdendo sua importância rapidamente, ante a necessidade de estabelecer órgãos comuns para criação de normas e julgamento das demandas sociais e a facilidade em que a teoria do precedente se instaurava. No sistema Civil Law, a perda de importância das corporações de ofício também ocorreu, todavia, de forma mais lenta, haja vista a necessidade primeira de criar normas positivadas para tanto. Nesse segundo período nasce a primeira forma de sociedade: a sociedade anônima, que consistiu na principal contribuição do período. A sociedade anônima surgiu em função dos empreendimentos mercantis da expansão colonial, pois necessitavam de alto capital e de limitação de riscos. TERCEIRO PERÍODO – SÉC. XIX E XX Nesse período, surge a classe burguesa (pós Iluminismo). Nessa fase, o imperativo da igualdade e da fraternidade exigia que todos tivessem acesso igualitário aos mecanismos de tratamento. Passou-se assim, no que tange às tratativas de comércio, do sistema subjetivo puro para o sistema objetivo, valendo-se da ficção segundo a qual deve reputar-se comerciante ADENDO: no início, o ramo do Direito ora em estudo chamava-se Direito Mercantil, depois passou a se chamar Direito Comercial, e atualmente é chamado de Direito Empresarial. qualquer pessoa que atue em juízo por motivo comercial. Essa ficção favoreceu a extensão do direito especial dos comerciantes a todos os atos de comércio, fosse quem fosse seu autor. Nesse contexto, surgem os códigos napoleônicos (Código Civil Francês de 1804 e Código Comercial de 1808). O Código Comercial Napoleônico adotou declaradamente o conceito objetivo, estruturando-o sobre a teoria dos atos de comércio. Agindo assim, o código punha-se a serviço dos ideais da Revolução Francesa, de igualdade de todos perante a lei, excluindo, em tese, o privilégio de classe. Diante dessa filosofia política, o Código Comercial francês de 1808 anunciava a erradicação de prerrogativas e privilégios dos mercadores, já que passava a ser um estatuto disciplinador dos atos de comércio, a que estavam sujeitos todos os cidadãos. No entanto, o que se pode concluir disso tudo, é que apesar de objetivo e prometedor de uma igualdade de tratamento, todo o sistema que se utilizava do Código Comercial francês de 1808, e até mesmo o próprio código, não era nada imparcial. A lógica da teoria dos atos de comércio consistia no fato de que a prática do ato comercial ensejaria, à época, a tutela das normas comerciais. Assim, enquanto nas compilações anteriores ao Código Comercial francês o ato de comércio se referia sempre ao comerciante e à indústria mercantil, com o advento do aludido código, se desvincula pela primeira vez o ato de comércio da pessoa do comerciante e se formula, dessa maneira, o conceito de ato objetivo de comércio que serviu para fundar o sistema legislativo em muitas nações, inclusive no Brasil, o que veremos mais adiante. QUARTO PERÍODO – CODIFICAÇÃO ITALIANA Com a tendência da mercantilização do direito civil, tornaram-se os atos de comércio inadequados para, por si só, diferenciá-los dos atos civil, levando o sistema objetivo à completa ruína. Para se ter uma ideia, o antigo professor da Universidade de Roma, Cesare Vivante, denunciou publicamente, em palestra na Universidade de Bolonha, que o sistema objetivo não era tão objetivo assim, tendo em vista que, em sua perspectiva, foi desenvolvido para tutelar os interesses da burguesia e era extremamente burocrático. Vivante, então, condenou a autonomia do direito comercial e defendeu, naquele momento, a unificação deste ramo com o Direito Civil. Algum tempo mais tarde, incumbido de elaborar o anteprojeto do Código Comercial italiano, Vivante reviu suas ideias e passou a defender a separação do Direito Civil e do Direito Comercial. Tal perspectiva se deu por questões metodológicas de ensino, haja vista a impossibilidade de trataro Direito Civil em pé de igualdade com o Direito Comercial, uma vez que tais sistemas possuem uma base principiológica totalmente distinta. Vivante passou a enxergar que o Direito Comercial tem, de fato, uma índole cosmopolita que decorre do próprio comércio, além de que o direito comercial regula os negócios em massa, ao passo em que o Direito Civil se ocupa de atos isolados. Nessa perspectiva, o Código Civil italiano de 1942 trouxe como solução a inclusão de um livro especial dedicado às normas do Direito Comercial. Nasce daí, o sistema subjetivo moderno. Para o Código Civil italiano de 1942, não era mais necessário verificar se o ato praticado pelo sujeito ensejaria a tutela das normas comerciais. O importante era verificar se o sujeito era empresário! Tanto o ato de comércio como o comerciante somente passaram a adquirir importância para o direito comercial quando se referiam à exploração de uma empresa. Surge assim, a empresa mercantil, e o direito comercial passa a ser o direito das empresas comerciais. Nesta senda, é inaugurada a teoria da empresa, que veremos mais adiante. HISTÓRIA DO DIREITO COMERCIAL NO BRASIL Durante o período Brasil-colônia as relações jurídicas pautavam-se, como não podia deixar de ser, pela legislação de Portugal. Imperavam, portanto, as Ordenações Filipinas, sob a influência do direito canônico e do direito romano. Em janeiro de 1808, com a chegada da Família Real ao Brasil, surgiu a necessidade de modernização da colônia e consequente organização da Corte, como sede de uma monarquia. Dentre as evoluções primevas, destaca-se a abertura dos portos, a instituição de um Tribunal do Comércio (denominado de Real Junta de Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação) e a criação do Banco do Brasil. Proclamada a Independência (1822), a Assembleia Constituinte e Legislativa de 1823 promulgou a Lei 20 de Outubro, ordenando que continuassem em vigor no território brasileiro as leis portuguesas vigentes a 25 de abril de 1821. Entre essas leis, estava a Lei da Boa Razão, que autorizava invocar como subsídio nas questões mercantis as normas legais “das nações cristãs, iluminadas e polidas, que com elas estavam resplandecendo na boa, depurada e sã jurisprudência” (as chamadas nações amigas). Essa curiosa lei tornava plausível a invocação do direito estrangeiro como subsidiário do direito lusitano e do direito brasileiro. Com isso, o Código Comercial francês de 1808, com irradiação intensa pelo mundo inteiro, passou a constituir a verdadeira legislação mercantil nacional. Em 1824 foi promulgada a primeira Constituição do Brasil, e esta exigia que o país editasse três leis: o Código Civil (sancionado em 1916), o Código Penal (sancionado em 1917) e o Código Empresarial (sancionado em 1850). O Código Comercial Brasileiro de 1850 (Lei nº 556, de 25 de junho de 185), como já era de se esperar, teve como influências próximas o Código Comercial francês de 1808 e o Código Civil napoleônico de 1804, adotando, dessa forma, a teoria dos atos de comércio, sistema objetivo que regia as relações comerciais. No entanto, um fato curioso merece destaque: embora o Código Comercial brasileiro tenha adotado a teoria dos atos de comércio, o texto normativo não expressou em seu corpo a teoria que deveria ser aplicada às relações comerciais dali em diante, gerando inúmeros percalços. Essa omissão resultou, então, na edição, em setembro de 1850, do Regulamento 737, que expressamente fazia menção à adoção da teoria dos atos de comércio e pontuava os atos de mercancia. Nesse contexto de criação e consolidação das leis brasileiras, Teixeira de Freitas, à época jurisconsulto brasileiro, reconhecido como o jurisconsulto do império, foi contratado para, no prazo de três anos (1854/1856), fazer a consolidação das leis civis. Em menos de dois anos, Teixeira de Freitas entregou seu projeto, inclusive com comentário às normas. Aprovada a Consolidação, Teixeira de Freitas foi contratado em 1858 para elaborar um anteprojeto de Código Civil Brasileiro. Passou, pois, a trabalhar no seu Esboço, que se apresentou, de 1860 a 1865, em três partes, sob a forma de anteprojeto com 4.908 artigos. Faltou uma parte final dos direitos reais e o regime dos direitos das sucessões, tendo deixado de ser impressas mais algumas centenas de artigos, de tal modo que o Esboço completo deveria ter cerca de 5.300 artigos, tornando-se um dos mais longos do mundo. Nele Teixeira de Freitas propôs ao governo a unificação do direito civil e comercial, pois achava arbitrário e sem justificação científica a divisão do Direito Privado em civil e comercial. O Esboço constituiu, certamente, um dos mais importantes diplomas legais latino- americanos do século XIX, tanto do ponto de vista legislativo como do doutrinário e influenciou as legislações da Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai. Deve-se lembrar também que, movido pelo espírito humanista, Teixeira de Freitas não mencionou um artigo concernente à escravidão por ser totalmente contra esse regime. Para ele as pessoas eram todas iguais perante a lei e o espírito humano era um só. Infelizmente o governo imperial não aceitou o Esboço por não concordar com a unificação do direito civil e comercial e por não constar nada sobre a escravidão. Após esse episódio, Clóvis Beviláqua foi contratado para elaborar o Código Civil brasileiro. Seu projeto resultou no Código Civil de 1916, indiferente ao Direito Comercial, que continuou a ser regido pelo Código Comercial de 1850. Na Itália, Vivante foi contratado para confeccionar o Código Civil italiano (1942) e, pautado na sua retratação quanto à divisão entre Direito Civil e Direito Comercial, propôs um código que, apesar de unificado, previu um capítulo em separado para as normas de Direito Comercial. Estas, por sua vez, foram baseadas na teoria da empresa. O Código Civil de 2002, praticamente copiou o Código Civil italiano de 1942 no que tange às tratativas do Direito Comercial. EMPRESAS TEORIA DA EMPRESA Ultrapassados por completo os condicionantes econômicos, políticos e históricos que ambientaram sua formulação, a teoria dos atos de comércio acabou revelando suas insuficiências para delimitar o objeto do Direito Comercial. Na maioria dos países em que foi adotada, a teoria experimentou ajustes que, em certo sentido, a desnaturaram. Na Alemanha, em 1897, por exemplo, o Código Comercial definiu os atos de comércio como sendo todos aqueles que o comerciante, em sua atividade, praticava, alargando enormemente o conceito. Outrossim, mesmo onde havia sido concebida e sedimentada a teoria dos atos de comércio, não se distinguiam mais os atos de comércio dos civis segundo os parâmetros desta teoria. As mesmas perplexidades e os mesmos problemas do direito estrangeiro refletiam sobre a doutrina nacional. O Regulamento nº 737, de 1850, no art. 19, ao enumerar os atos de comércio, incluiu as empresas, dando início, no campo do direito comercial pátrio, aos trabalhos de sua conceituação. É evidente que o legislador, ao incluir a empresa entre os atos, como figurativas ou componentes da mercancia, usou a expressão como repetição de atos praticados a título profissional. Entretanto, esse estreito conceito de “empresa” não mais serve à doutrina moderna. Nesse contexto, a insuficiência da teoria dos atos de comércio forçou o surgimento de outro critério identificador do âmbito de incidência do Direito Comercial: a teoria da empresa. Tal teoria, como já visto, foi implementada no sistema de regulação das atividades econômicas dos particulares na Itália, em 1942, com o advento do Código Civil italiano criado em plena ditadura fascista comandadapor Benito Mussolini. O Código Civil italiano de 1942, por sua vez, como não poderia ser diferente, influenciou sobremaneira o Projeto do novo Código Civil brasileiro, iniciado em 1975 e culminado no codex de 2002, atualmente em vigor no Brasil. Assim, de início, é de se destacar que o Direito brasileiro também adota a teoria da empresa como critério identificador para fins de incidência das normas de Direito Comercial. Na evolução acerca da teoria da empresa tiveram grande influência as observações do Professor Alberto Asquini, um dos expoentes da doutrina comercialista italiana, ao tempo do governo fascista. Percebeu este jurista que as dificuldades com que se deparavam os comercialistas decorriam da complexidade do fenômeno empresa, pois não lhes era possível obter conceito unitário, estanque. Dessa forma, observou que, “apresentando o fenômeno econômico da empresa, perante o Direito, aspectos diversos, não deve o intérprete operar com o preconceito de que o mesmo caiba, forçosamente, num esquema jurídico unitário”. Alberto Asquini, então, na intenção de conceituar a empresa, lançou a tese de que a empresa é um fenômeno poliédrico, a qual vislumbra a empresa sob quatro diferentes perfis. São eles: a) perfil subjetivo: que vê a empresa como empresário, ou seja, quem exerce a atividade comercial. b) perfil funcional: que vê a empresa como atividade empreendedora, isto é, o exercício da atividade para o atingimento dos objetivos comerciais. c) perfil patrimonial ou objetivo: que vê a empresa como estabelecimento, como forma organizada dos bens individualmente considerados para o exercício da atividade empresarial. d) perfil corporativo/institucional: que vê a empresa como instituição na qual trabalhadores, sócios e administradores comungam de um mesmo esforço para atingirem um interesse em comum: o sucesso da empresa. O conceito de empresa quanto ao perfil subjetivo emerge da definição dada pelo Código Civil italiano de 1942 ao empresário, isto é, quem exercita profissionalmente uma atividade econômica organizada com o fim de produção ou troca de bens ou de serviços. Dessa definição decorrem os elementos: o sujeito de direito (quem exercita), a atividade peculiar, a finalidade produtiva e a profissionalidade. Quanto ao perfil funcional, explica Asquini que “do ponto de vista funcional ou dinâmico, a empresa aparece como aquela particular força em movimento que é a sua atividade dirigida a um determinado escopo produtivo”. O perfil patrimonial ou objetivo, ou a empresa como estabelecimento resulta da projeção do fenômeno econômico sobre o terreno patrimonial, que “dá lugar a um patrimônio especial distinto para o seu fim, do remanescente patrimônio do empresário”. Aqui, não se deve confundir empresa com estabelecimento. Segundo Asquini, esses três perfis têm em vista a empresa sob o ângulo individualista do empresário, mas existe também o perfil corporativo (ou institucional), no qual ela é considerada como organização de pessoal, formada pelo empresário e seus colaboradores. “O empresário”, explica Asquini, “segundo o perfil corporativo, e seus colaboradores não constituem simplesmente uma pluralidade de pessoas, ligadas entre si por uma soma de relações individuais de trabalho com fins individuais; antes, formam um núcleo social organizado, em função de um objetivo comum, no qual se fundem os fins individuais do empresário e dos colaboradores singulares para o melhor resultado econômico da produção”. É importante pontuar que a tese de Asquini da empresa como fenômeno poliédrico foi lançada sob as diretrizes do regime fascista da época, que visava a prevalência dos conceitos de nação e raça sobre os valores individuais, autocráticos e centralizados. Daí, a justificativa do perfil corporativo que, nas ideias de Asquini, apenas servia para mascarar os conflitos classistas. Ora, é fato inconteste que entre o proletariado e os empresários existem distintos interesses, de maneira a ser inconcebível a afirmativa de que a empresa se volta para interesses comuns do empresário e de seus colaboradores, consubstanciando esta em uma das principais críticas ao fenômeno poliédrico afirmado por Asquini, principalmente quanto ao perfil corporativo/institucional, o que tornou defasada e insuficiente a tese em questão. Em razão das diversas críticas, a teoria da empresa acabou se desvencilhando das raízes ideológicas fascistas. Por seus méritos jurídicos-tecnológicos, sobreviveu à redemocratização da Itália e permanece delimitando o Direito Comercial daquele país até hoje. Também por sua operacionalidade, adequada aos objetivos da disciplina da exploração de atividades econômicas por particulares no nosso tempo, a teoria da empresa inspirou a reforma da legislação comercial de outros países, inclusive a do Brasil, como já frisado anteriormente. No contexto brasileiro, a comissão de professores que elaborou o Projeto do Código Civil de 2002, embora adepta à teoria em comento, evitou definir a empresa. Adotou o mesmo critério do Código Civil italiano, conceituando apenas o empresário. Assim, o empresário, para o Projeto e agora também pelo novo Código, é “quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços” (art. 966). Alicerçada no dispositivo que conceitua o empresário, a doutrina majoritária, então, define a empresa como sendo o exercício de uma atividade econômica de maneira profissional, organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Em suma, a empresa vem a ser a atividade exercida pelo empresário. A partir dessas considerações, começa-se a estabelecer um melhor entendimento acerca das concepções modernas sobre empresa. É o que se vê a seguir. A EMPRESA COMO ABSTRAÇÃO Inicialmente, para se alcançar o objetivo deste tópico, é preciso desfazer uma série de equívocos e preconceitos que perturbam a exata compreensão do fenômeno econômico e jurídico que é a empresa. A figuração que o leigo faz de empresa é no sentido objetivo de sua materialização. Daí a confusão entre empresa e estabelecimento comercial (art. 1.142, CC) e, no mesmo sentido, entre empresa e sociedade. É comum o empresário referir-se ao seu estabelecimento comercial, ou à sociedade de que é titular ou sócio proeminente, como “a minha empresa”. Os conceitos, no entanto, são inconfundíveis. É preciso compreender que a empresa, como entidade jurídica, é uma abstração. Tal afirmativa é melhor compreendida nos seguintes dizeres do professor italiano Brunetti: “a empresa, se do lado político-econômico é uma realidade, porque reconhecendo-se como organização de trabalho formada das pessoas e dos bens componentes do estabelecimento, a relação entre a pessoa e os meios de exercício não pode conduzir senão a uma entidade abstrata, devendo-se na verdade ligar à pessoa do titular, isto é, ao empresário”. É da ação intencional (elemento abstrato) do empresário em exercitar a atividade econômica que surge a empresa. Aqui, todavia, uma observação merece importância: a empresa é caracterizada pelo exercício da organização. Se todos os seus elementos estiverem organizados, mas não se efetivar o exercício dessa organização, não se pode falar em empresa. O empresário, assim, organiza a sua atividade, coordenando os seus bens (capital) com o trabalho aliciado de outrem. Eis a organização. Essa organização, em si, constitui apenas um complexo de bens e um conjunto de pessoal inativo. Esses elementos – bens e pessoal – não se junta por si; é necessário que sobre eles, devidamente organizados, atue o empresário, dinamizando a organização, imprimindo-lhe atividade que levará à produção.Tanto o capital do empresário como o pessoal que irá trabalhar nada mais são isoladamente do que bens e pessoas. A empresa somente nasce quando se inicia a atividade sob a orientação do empresário. Dessa explicação surge a nítida ideia de que a empresa é essa organização dos fatores da produção exercida, posta a funcionar, pelo empresário. Desaparecendo o exercício da atividade organizada do empresário, desaparece, também, a empresa. Daí por que o conceito de empresa se firma na ideia de que é ela o exercício da atividade produtiva. E do exercício de uma atividade não se tem senão uma ideia abstrata. CARACTERÍSTICAS DO EMPRESÁRIO E DA EMPRESA O empresário é definido na lei como o profissional exercente de “atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços” (art. 966, CC). Destacam-se da definição as noções de profissionalismo, atividade econômica organizada e produção ou circulação de bens ou serviços. Abaixo, uma síntese de cada uma delas. PROFISSIONALISMO: A noção de exercício profissional de certa atividade é associada, na doutrina, a considerações de três ordens. A primeira diz respeito à habitualidade. Não se considera profissional quem realiza tarefas de modo esporádico. Não será empresário, por conseguinte, aquele que organizar episodicamente a produção de certa mercadoria, mesmo destinando-a à venda no mercado. Se o sujeito está apenas fazendo um teste, com o objetivo de verificar se tem apreço ou desapreço pela vida empresarial ou para socorrer situação emergencial em suas finanças, e não se torna habitual o exercício da atividade, então ele não é empresário. O segundo aspecto do profissionalismo é a pessoalidade. O empresário, no exercício da atividade empresarial, deve contratar empregados. São estes que, materialmente falando, produzem ou fazem circular bens ou serviço. O requisito da pessoalidade explica porque não é o empregado considerado empresário. Enquanto este último, na condição de profissional, exerce atividade empresarial pessoalmente, os empregados, quando produzem ou circulam bens ou serviços, fazem-no em nome do empregador. Estes dois pontos normalmente destacados pela doutrina na discussão do conceito de profissionalismo, não são os mais importantes. A decorrência mais relevante da noção está no monopólio das informações que o empresário detém sobre o produto ou serviço objeto de sua empresa. Este é o sentido com que se costuma empregar o termo no âmbito das relações de consumo. Como o empresário é um profissional, as informações sobre os bens ou serviços que oferece ao mercado – especialmente as que dizem respeito às suas condições de uso, qualidade, insumos empregados, defeitos de fabricação, riscos potenciais à saúde ou vida dos consumidores – costumam ser de seu inteiro conhecimento. Porque profissional, o empresário tem o dever de conhecer estes e outros aspectos dos bens ou serviços por ele fornecidos, bem como o de informar amplamente os consumidores e usuários. Obs.: A profissionalidade não está necessariamente vinculada à ideia de competência técnica. ATIVIDADE: Se empresário é o exercente profissional de uma atividade econômica organizada, então empresa é uma atividade; a de produção ou circulação de bens ou serviços. É importante destacar a questão. Na linguagem cotidiana, mesmo nos meios jurídicos, usa-se a expressão “empresa” com diferentes e impróprios significados. Se alguém diz “a empresa faliu” ou “a empresa importou essas mercadorias”, o termo é utilizado de forma errada, não técnica. A empresa, enquanto atividade, não se confunde com o sujeito de direito que a explora, o empresário. É ele que fale ou importa mercadorias. Similarmente, se uma pessoa exclama “a empresa está pegando fogo!” ou constata “a empresa foi reformada, ficou mais bonita”, está empregando o conceito equivocadamente. Não se pode confundir a empresa com o local em que a atividade é desenvolvida. O conceito correto nessas frases é o de estabelecimento empresarial; este sim pode incendiar-se ou ser embelezado, nunca a atividade. Por fim, também é equivocado o uso da expressão como sinônimo de sociedade. Não se diz “separam-se os bens da empresa e os dos sócios em patrimônios distintos”, mas “separam-se os bens sociais e os dos sócios”; não se deve dizer “fulano e beltrano abriram uma empresa”, mas “eles constituíram uma sociedade”. Somente se emprega de modo técnico o conceito de empresa quando for sinônimo de empreendimento. Se alguém reputa “muito arriscada a empresa”, está certa a forma de se expressar: o empreendimento em questão enfrenta consideráveis riscos de insucesso, na avaliação desta pessoa. Como ela se está referindo à atividade, é adequado falar em empresa. Obs.: A atividade empresária não pode ser um ato. É um conjunto de atos voltados para um objetivo maior. Importante! É qualquer atividade que é considerada empresa? NÃO! Vejamos o parágrafo único do artigo 966 do CC: Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. A atividade empresarial não é qualquer atividade, tendo em vista que a atividade intelectual de natureza científica, literária ou artística, por exemplo, é excluída do conceito de atividade empresária, a princípio. Mais à frente, aprofundaremos mais a respeito das atividades de natureza intelectual. ECONÔMICA: Para que a atividade seja caracterizada como empresária, tem que estar economicamente enviesada, direcionada para o mercado e com finalidade lucrativa. A atividade empresarial é econômica no sentido de que busca gerar lucro para quem a explora. Note-se que o lucro pode ser o objetivo da produção ou circulação de bens ou serviços, ou apenas o instrumento para alcançar outras finalidades. Religiosos podem prestar serviços educacionais (numa escola ou universidade) sem visar especificamente o lucro. É evidente que, no capitalismo, nenhuma atividade econômica se mantém sem lucratividade e, por isso, o valor total das mensalidades deve superar o das despesas também nesses estabelecimentos. Mas a escola ou universidade religiosas podem ter objetivos não lucrativos, como a difusão de valores ou criação de postos de emprego para os seus sacerdotes. Neste caso, o lucro é meio e não fim da atividade econômica (é o que acontece também nas associações civis). ORGANIZADA: A empresa é atividade organizada no sentido de que nela se encontram articulados, pelo empresário, os quatro fatores de produção: capital, mão de obra, insumos e tecnologia. Não é empresário quem explora atividade de produção ou circulação de bens ou serviços sem alguns desses fatores. A organização também diz respeito ao fato de que a atividade tem que usufruir de uma junção de bens aleatórios para formação de um conjunto útil ao seu objetivo. Essa organização consiste, dentre outros fatores, no estabelecimento comercial e nos bens que o compõe. PRODUÇÃO DE BENS OU SERVIÇOS: Produção de bens é a fabricação de produtos ou mercadorias (é aquilo que o antigo regulamento 737 de 1950 chamava de mercancia). É o ato que gera a riqueza. Toda atividade de indústria é, por definição, empresarial. Produção de serviços, por sua vez, é a prestação de serviços. São exemplos de produtores de bens: montadoras de veículos, fábricas de eletrodomésticos, confecções de roupas; e de produtores de serviços: bancos, seguradoras, hospitais, escolas, estacionamentos, provedores de acesso à internet. Circulação de bens ou serviços. A atividade de circular bens é a do comércio, em sua manifestaçãooriginária: ir buscar o bem no produtor para trazê-lo ao consumidor. É a atividade de intermediação na cadeia de escoamento de mercadorias. O conceito de empresário compreende tanto o atacadista como o varejista, tanto o comerciante de insumos como o de mercadorias prontas para o consumo. Os de supermercados, concessionárias de automóveis e lojas de roupas são empresários. Circular serviços é intermediar a prestação de serviços. A agência de turismo não presta os serviços de transporte aéreo, traslados e hospedagem, mas, ao montar um pacote de viagem, os intermedeia. BENS OU SERVIÇOS: Até a difusão do comércio eletrônico via internet, no fim dos anos 1990, a distinção entre bens ou serviços não comportava, na maioria das vezes, maiores dificuldades. Bens são corpóreos, enquanto os serviços não têm materialidade. A prestação de serviços consistia sempre numa obrigação de fazer. Contudo, com a intensificação do uso da internet para a realização de negócios e atos de consumo, certas atividades resistem à classificação nesses moldes. A assinatura de jornal-virtual, com exatamente o mesmo conteúdo do jornal-papel, é um bem ou serviço? Os chamados bens virtuais, como programas de computador ou arquivo de música baixada pela internet, em que categoria devem ser incluídos? Mesmo sem resolver essas questões, não há dúvidas, na caracterização de empresário, de que o comércio eletrônico, em todas as suas várias manifestações, é atividade empresarial. PRINCÍPIOS DO DIREITO EMPRESARIAL A principiologia do Direito Empresarial, apesar de as normas deste ramo estarem materialmente unificadas no Código Civil, é lastreada de diferenças quando em comparação com o Direito Civil. Vejamos alguns dos princípios do Direito Empresarial: Princípio da liberdade de iniciativa: Primeiramente, temos que o princípio em questão não se confunde com a liberdade de associação. Liberdade de iniciativa é ter o livre direito de iniciar, por si mesmo, ou com outras pessoas, uma atividade empresária. Tal princípio está positivado como norma fundamental da Constituição Federal de 1988 (arts. 5º e 170). Esse princípio tem duas perspectivas: a perspectiva pública e a privada. Perspectiva pública: significa que o estado não pode proibir a participação do indivíduo no mercado, cabendo a ele apenas regular e organizar as práticas comerciais. Perspectiva privada: significa que outras pessoas não podem praticar contra o indivíduo que está inserido no mercado infrações econômicas, a exemplo do cartel, oligopólio, etc. Princípio da função social da empresa: Embora sem previsão expressa, a doutrina entende ter sido a função social da empresa acolhida pelo Código Civil de 2002, seja em razão do expresso reconhecimento da função social de outros dois institutos vinculados ao exercício da empresa, o contrato (art. 422, CC) e a propriedade (art. 1228, §1º, CC), de cujo cumprimento não pode o empresário se escusar, em virtude dos critérios dirigentes da interpretação do diploma civil de 2002, que são a eticidade, a socialidade e a operabilidade. Aplicada à empresa, a função social somente passou a ser expressamente prevista com a edição de Lei 6.404/76 (Lei das Sociedades Anônimas), em seus artigos 116, parágrafo único, e 154, caput. Vejamos: Art. 116, Parágrafo único. O acionista controlador deve usar o poder com o fim de fazer a companhia realizar o seu objeto e cumprir sua função social, e tem deveres e responsabilidades para com os demais acionistas da empresa, os que nela trabalham e para com a comunidade em que atua, cujos direitos e interesses deve lealmente respeitar e atender. Art. 154. O administrador deve exercer as atribuições que a lei e o estatuto lhe conferem para lograr os fins e no interesse da companhia, satisfeitas as exigências do bem público e da função social da empresa. Como se percebe, a função social da empresa trata-se de princípio de difícil definição, cujo conteúdo não pode ser depreendido a partir dos dispositivos a ela aplicáveis. Conceitos bastante difundidos são aqueles trazidos pelas duas principais teorias que se debruçam sobre o tema. Uma teoria, chamada de Teoria da Firma (ou Teoria dos Shareholders), diz que a empresa só cumpre sua função social quando gera empregos e quando paga os tributos, pois assim colabora para o desenvolvimento econômico e participa indiretamente da distribuição de renda (maximização do lucro). A outra teoria, a Teoria dos Stakeholders, afirma que o administrador da empresa não precisa se preocupar somente com a maximização do lucro, promovendo o bem-estar dos acionistas, mas sim, deve-se preocupar também com os empregados, com os consumidores e com a coletividade, prezando pelo meio ambiente e pelos interesses dos operários e dos demais interessados. Por essa teoria, a empresa deve agir em prol de todos que por ela são afetados de alguma forma. Não existe, no entanto, uma tendência doutrinária acerca dessas teorias. Existem aqueles mais liberais que aplicam a primeira teoria, assim como também são muitos os que entendem pela adoção, do ordenamento, da segunda teoria, já que a Lei de S/A, ao tratar da função social da empresa, positiva as ideias da Teoria dos Stakeholders (artigos 116, parágrafo único, e 154, caput, acima transcritos). Princípio da livre concorrência: É um princípio que também está expresso na CF (art. 170). Os atores da atividade econômica possuem a garantia de concorrer livremente entre si, sem intervenção estatal desnecessária. O Estado não pode proibir ou discriminar injustamente uma atividade econômica por si só, sem fundamentos justos. Ao contrário, o Estado deve promover incentivos (sobretudo fiscais) aos atores financeiros que estejam cumprindo requisitos legais, atuando em áreas de manutenção da sobrevivência humana e encorajando outros atores financeiros à atuação pelos ditames legais. Pelo referido princípio também entende-se que não se pode exercer a concorrência desleal. Princípio da preservação da empresa: É um princípio relativamente novo. Isso porque está especialmente trabalhado na Lei 11.101/2005 (Nova Lei de Falências). A Lei prevê a possibilidade de recuperação da empresa com o fito de preservá-la e, de certa forma, de protegê-la dos efeitos nefastos de uma crise econômica. A preservação da empresa, então, está diretamente ligada à função social que ela exerce. Obs.: Uma corrente extremamente minoritária defende o princípio da dignidade da pessoa jurídica. No entanto, esse princípio não é muito aceito, principalmente pelo professor. PESSOAS QUE ESTÃO EXCLUÍDAS DA ATIVIDADE EMPRESARIAL Como já dito alhures, aqueles que exercem atividade intelectual estão excluídos da atividade empresarial e, por conseguinte, das normas do sistema empresarial. O empresário rural, por sua vez, tem a prerrogativa de escolher qual o sistema que irá se submeter, se o sistema civil ou empresarial. Mas atenção! Elemento de Empresa: Aqui vale uma observação. Embora tais pessoas estejam excluídas da atividade empresarial por exercerem atividade intelectual, a lei estabelece que se o indivíduo exerce “elemento de empresa”, estará ele exercendo atividade de natureza iminentemente empresarial, e, portanto, estará submetido às normas do Direito Empresarial (exs.: clínicas estéticas direcionadas para o lucro de médicos que se organizam para exercer suas atividades profissionais). Nesse conceito, a atividade intelectual perde sua essência e vira elemento da empresa. Vejamos o dispositivo que traduz essa exceção (parágrafo único, do artigo 966, do Código Civil): Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissãointelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. DISTINÇÃO ENTRE EMPRESA E SOCIEDADE A principal distinção, e mais didática, entre empresa e sociedade empresária é a que vê na sociedade o sujeito de direito, e na empresa, mesmo como exercício de atividade, o objeto de direito. Com efeito, a sociedade empresária, desde que esteja constituída nos termos da lei, adquire categoria de pessoa jurídica. Torna-se capaz de direitos e obrigações. A sociedade, assim, é empresária, jamais empresa. É a sociedade, como empresário, que irá exercitar a atividade produtiva. Outra distinção fácil é a de que empresa pode ser o exercício da atividade individual, de pessoa natural. É a empresa individual, contrapondo-se à empresa coletiva, que é a exercida pela sociedade empresária. A empresa não pressupõe, como se vê, necessariamente, uma sociedade empresária. Além disso, pode haver sociedade empresária sem empresa. Duas pessoas, por exemplo, juntam seus cabedais, formam o contrato social, e o registram na Junta Comercial. Eis aí a sociedade, e, enquanto estiver inativa, a empresa não surge. DISTINÇÃO ENTRE EMPRESÁRIO INDIVIDUAL E SOCIEDADE EMPRESÁRIA Aquele que exerce pessoalmente e por ele mesmo a atividade empresarial é chamado de empresário individual. Mas quando a atividade empresarial é exercida por mais de uma pessoa, o empresário é a sociedade, usualmente denominada sociedade empresária. Obs1: O empresário individual, apesar de não consistir em uma pessoa jurídica, recebe um registro no CNPJ, para fins de diferenciação da pessoa física, especialmente com o fito de tributação. Obs2: Existe a figura do Micro e Pequeno Empreendedor, passível de proteção prevista na CF. O Micro Empreendedor é aquele que não possui renda anual bruta superior a R$ 360.000,00. Já o Empresário de Pequeno Porte é aquele que fatura renda anual bruta entre R$ 360.000,00 e R$ 3.600.000,00. É importante frisar que esses valores estão sujeitos a alterações constantes, tendo em vista a valorização da moeda e os índices de reajuste. Obs3: ME e EPP são apenas qualificações que podem ser aplicadas tanto à sociedade empresária, quanto ao empresário individual. Cada uma dessas qualificações possui seus benefícios e está vinculada a requisitos específicos. Obs4: Existe também a qualificação do Micro Empreendedor Individual (MEI), que consiste em uma categoria especial de empresário individual. Significa que sociedade empresária não pode se qualificar como MEI. O MEI pode ter renda anual bruta de até R$ 60.000,00 e ter apenas um empregado. Obs5: Essas qualificações (ME, EPP e MEI) não são obrigatórias, mas se os requisitos são preenchidos, é bom que o empresário individual ou a sociedade empresária pleiteie a respectiva qualificação, tendo em vista os benefícios que essas categorias proporcionam. Abaixo, um quadro exemplificativo que auxilia no entendimento da distinção entre empresário individual e sociedade empresária, bem como no enquadramento como ME, EPP e MEI: OBRIGAÇÕES DOS EMPRESÁRIOS A maioria das obrigações do empresário diz respeito à contabilidade da atividade empresarial. Tais obrigações repercutem, inclusive, nas associações e fundações, com as adequações pertinentes à suas naturezas. 1) Inscrição no Registro Mercantil (arts. 967 – 971, CC): Uma das obrigações do empresário, isto é, do exercente de atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou serviços é a de inscrever-se no Registro das Empresas, antes de dar início à exploração de seu negócio. Vejamos: Art. 967. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua atividade. Obs.: O registro não constitui em ato constitutivo, ao contrário do que acontece com associações e fundações. 2) Escrituração uniforme dos Livros (art. 1179, CC) e adoção dos Livros Obrigatórios (arts. 1180 – 1185, CC): De acordo com o artigo 1.179 do Código Civil, a empresa poderá usar um sistema de escrituração de livros, manual, mecanizado ou eletrônico. Art. 1.179. O empresário e a sociedade empresária são obrigados a seguir um sistema de contabilidade, mecanizado ou não, com base na escrituração uniforme de seus livros, em correspondência com a documentação respectiva, e a levantar anualmente o balanço patrimonial e o de resultado econômico. As escriturações devem ficar a cargo de um profissional contabilista, legalmente habilitado para exercer tal feito, a não ser que na localidade da empresa não exista nenhum. Nesse caso, o empresário deverá contratar profissional que entenda competentemente para o desenvolvimento de tal tarefa. Além, de contar com o contabilista altamente habilitado para tal, ou, profissional que seja competente no assunto, o empresário contará com livros obrigatórios, que são de suma importância, subdivididos em comuns e especiais. Os livros especiais são específicos para cada atividade, a título de exemplo, Livro de Registro de Duplicatas, Livro de Ações Nominativas das Sociedades Anônimas, Livros de Atas de Assembléias Gerais. Já os livros comuns independem da atividade exercida ou do tipo societário, haverá apenas um único exemplar, a exemplo do Livro Diário. Destarte, poderá o empresário contar, a seu critério, com livros facultativos que servem apenas para aprimorar o sistema de controle da atividade empresarial. Os livros obrigatórios são imprescindíveis para que se prove a regularidade do exercício da atividade empresarial e a inobservância a essa obrigação pode gerar consequências jurídicas. 3) Levantamento anual do Balanço Patrimonial e Resultado Econômico (art. 1179, CC): A obrigação de levantar, anualmente, dois balanços – o balanço patrimonial, demonstrando o ativo e passivo, compreendendo todos os bens, créditos e débitos, e o balanço de resultado econômico, demonstrando a conta dos lucros e perdas – é imposta a todos os empresários, pessoas físicas ou jurídicas (CC, art. 1.179). A esta obrigação não pode furtar-se nenhum empresário, exceto o microempresário e o de pequeno porte. Há empresários obrigados a levantar balanço e outros demonstrativos em período mais breve que o anual (como as instituições financeiras que, em virtude do contido no art. 31 da Lei 4.595/64, Lei de Reforma Bancária, devem fazê-lo semestralmente). A Lei de Falências, no art. 178, define como crime falimentar a inexistência dos documentos de escrituração contábil obrigatórios, entre os quais se incluem os balanços patrimoniais e de resultado econômico. Assim, incorrem em conduta criminosa o empresário e os representantes legais da sociedade empresária caso venha a ser decretada a sua falência se os balanços anuais não tinham sido levantados, escriturados e autenticados pelo Registro do Comércio. A obrigação de levantamento anual de balanço, dessa forma, traz ao empresário que a descumpre e vem a falir, requer a recuperação judicial ou homologação da recuperação extrajudicial, a sanção penal do art. 178 da LF. Além de afastar a conduta criminosa, o cumprimento dessa obrigação traz benefícios ou evita prejuízos para o empresário. Por exemplo: a) as sociedades anônimas estão sujeitas a regime próprio sobre demonstrações financeiras, que incluem o balanço patrimonial (LSA, arts. 178 a 184) e o demonstrativo de resultados do exercício (art. 187), e a ausência de seu levantamento acarreta responsabilidade dos administradores; b) a legislação tributária sobre impostode renda sujeita determinadas categorias de empresários contribuintes ao dever de elaboração de balanços periódicos; c) o acesso ao crédito bancário tem sido condicionado à apresentação dos balanços regularmente elaborados, de modo a restar fechado o acesso ao crédito bancário aos empresários que não os possuam; d) a participação em licitações públicas depende de comprovação da regularidade econômico-financeira, feita inclusive por meio da apresentação de balanços (Lei 8.666/93, art. 31, I). Em resumo, balanço patrimonial é listar os ativos e passivos de uma atividade empresária. Já o resultado econômico é o resultado do último ano fiscal, consubstanciado na apreensão, positiva ou não, do ano de trabalho/exercício. Obs.: A data pode ser colocada conforme a escolha do empresário, mas recomenda-se fortemente que o ano fiscal da empresa corresponda ao calendário civil. 4) Guarda da Escrituração e demais papeis relacionados à atividade (art. 1194 e Lei 11.638/07): Nada mais é do que custodiar os documentos relacionados ao exercício da atividade. É primordial para fins de comprovação do lucro obtido. A transparência da contabilidade é fundamental, também, para que as SA‟s se integrem e/ou avancem nos níveis de corporação regulados por agências específicas (nível 1, 2, 3, novo mercado...). A inobservância de cada uma dessas obrigações não exclui o empresário do regime jurídico-comercial, mas importa consequências diversas, que visam mais a estimular o cumprimento dessas obrigações que, propriamente, punir o empresário pelo descumprimento. Isso não significa que tais consequências sejam desprovidas de caráter sancionador. Pelo contrário, elas importam, até, em alguns casos, prática de crime. EXIBIÇÃO JUDICIAL E EFICÁCIA PROBATÓRIA DOS LIVROS Os livros comerciais, em tese, gozam da proteção do princípio do sigilo, cujo perfil legal encontra-se no art. 1.190 do CC. A exibição de livros empresariais em juízo, por esta razão, não pode ser feita por simples vontade das partes ou por decisão do juiz, senão em determinadas hipóteses da lei. Em primeiro lugar, deve-se distinguir a exibição parcial da exibição total. Aquela se destina a garantir o princípio do sigilo, resguardando da curiosidade alheia as partes da Atenção! Essas obrigações não se aplicam ao Micro Empresário Individual (MEI). escrituração mercantil que não interessam a uma certa demanda judicial, além de, é claro, não dificultar a sua elaboração e utilização. Assim, a exibição parcial se faz por extração da suma que interessa ao juízo e restituição imediata do livro ao empresário. Já a exibição total dos livros pode importar sua retenção em cartório durante todo o andamento da ação, não se assegurando o sigilo de seus dados e dificultando a sua utilização e escrituração pelo empresário. Por estas razões é que a exibição total dos livros comerciais só pode ser determinada pelo juiz, a requerimento da parte, em apenas algumas ações (por exemplo: questões relativas à sucessão, comunhão ou sociedade, administração ou gestão à conta de outrem ou falência), ao passo que a exibição parcial pode ser decretada de ofício ou a requerimento da parte, em qualquer ação judicial, sempre que útil à solução da demanda. Somente na falência pode o juiz determinar de ofício a exibição total dos livros. A Súmula 260 do STF, pela qual “o exame de livros comerciais, em ação judicial, fica limitado às transações entre os litigantes”, não exclui a exibição total da escrita dos empresários, quando autorizada em lei. Exibido total ou parcialmente, ou tendo sido objeto de perícia judicial contábil, o livro empresarial terá a força probante (ou eficácia probatória) que a lei processual estabelece. Ou seja, o livro empresarial prova contra o seu titular, sendo-lhe permitido, contudo, demonstrar, por outros meios probatórios, a eventual inveracidade dos dados contábeis que lhe são desfavoráveis; e prova a favor de seu titular, em demanda entre empresários, desde que atendidos os requisitos intrínsecos e extrínsecos já assinalados. Conclui‑se, pois, que, de um lado, para que tenha eficácia probatória contra o seu titular, o livro empresarial não precisa, necessariamente, atender aos requisitos legais de escrituração, os quais a lei só exige para fins de eficácia probatória em favor do empresário que os escriturou. A tutela do sigilo dos livros empresariais não tem o alcance de eximir o empresário da sua exibição para determinadas autoridades administrativas (CC, art. 1.193). Ao contrário, em duas hipóteses o legislador expressamente garante a certos funcionários públicos irrestrito acesso à escrituração mercantil: o art. 195 do CTN prevê a inaplicabilidade de qualquer exclusão do direito de exame da escrituração do empresário pela autoridade fiscal e o art. 33, § 1º, da Lei n. 8.212/91 reconhece à fiscalização da Seguridade Social idêntica prerrogativa. Evidentemente, quanto às demais autoridades administrativas, prevalece ainda o princípio do sigilo consagrado pela legislação cível. O funcionário da Prefeitura do setor de fiscalização da segurança de uso dos imóveis, por exemplo, não pode ter acesso à escrituração do empresário, porque não existe expressa disposição na legislação federal que afaste a incidência do art. 1.190 do CC na espécie, abaixo transcrito: Art. 1.190. Ressalvados os casos previstos em lei, nenhuma autoridade, juiz ou tribunal, sob qualquer pretexto, poderá fazer ou ordenar diligência para verificar se o empresário ou a sociedade empresária observam, ou não, em seus livros e fichas, as formalidades prescritas em lei. INSCRIÇÃO A inscrição da atividade empresária é feita na junta comercial da sede da empresa e consiste em ato público. O Registro das Empresas está estruturado de acordo com a Lei nº 8.934, de 1994 (Lei de Registro Público de Empresas Mercantis – LRE), que dispõe sobre o registro público de empresas mercantis e atividades afins. Trata-se de um sistema integrado por órgãos de dois níveis diferentes de governo: no âmbito federal, o Departamento Nacional do Registro do Comércio (DNRC); e no âmbito estadual, a Junta Comercial. Essa peculiaridade do sistema repercute no tocante à vinculação hierárquica de seus órgãos, que varia em função da matéria. O Departamento Nacional do Registro do Comércio integra o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, e é o órgão máximo do sistema. Entre as suas atribuições, destacam-se as seguintes: Supervisionar e coordenar a execução do registro de empresa, expedindo, para esse fim, as normas e instruções necessárias, dirigidas às Juntas Comerciais de todo o País; Orientar e fiscalizar as Juntas Comerciais, zelando pela regularidade na execução do registro de empresa. Caso suas instruções não sejam satisfatoriamente atendidas, caberá, na forma da lei, promover a representação às autoridades administrativas competentes, como os Secretários de Estado a que esteja vinculada a Junta ou, até mesmo, ao próprio Governador; Promover ou providenciar medidas correicionais do Registro de Empresa. Dessa competência não deriva o poder para intervir unilateralmente nos serviços da Junta Comercial, quando necessário à correção de falhas ou deficiências. Como a competência do DNRC tem natureza exclusivamente supletiva, conforme esclarece a própria lei, em obediência ao princípio constitucional federativo, só poderá ocorrer a intervenção se resultar frutífera a representação endereçada à autoridade estadual hierarquicamente superior à Junta e essa autoridade, então, concordar que a correção se faça pelo órgão federal; Organizar e manter atualizado o Cadastro Nacional dasEmpresas Mercantis. Esse cadastro não tem efeitos registrários, ou seja, a inscrição do empresário nele efetuada não supre o registro na Junta Comercial, para fins de regularidade do exercício do comércio; cuida-se, isto sim, de um simples banco de dados de natureza essencialmente estatística, que serve de subsídio à política econômica federal. Por esse rol das principais atribuições do DNRC, pode-se ter uma ideia do perfil que o legislador lhe conferiu. Trata-se de órgão do sistema de registro de empresas sem função executiva, isto é, ele não realiza qualquer ato de registro de empresa. Compete-lhe, todavia, fixar as diretrizes gerais para a prática dos atos registrários, pelas Juntas Comerciais, acompanhando a sua aplicação e corrigindo distorções. Já às Juntas Comerciais, órgãos da administração estadual, cabe a execução do registro de empresa, além de outras atribuições legalmente estabelecidas. Destacam-se as seguintes competências: Assentamento dos usos e práticas mercantis. O comércio rege-se também por normas consuetudinárias, cuja compilação é da incumbência da Junta Comercial. Na forma de seu regimento interno, o assentamento deve ser precedido de ampla discussão no meio empresarial e análise de sua adequação à ordem jurídica vigente, pela Procuradoria. Uma vez deliberado o assentamento, a Junta pode expedir aos interessados as correspondentes certidões, que servem em juízo como início de prova; Habilitação e nomeação de tradutores públicos e intérpretes comerciais. A Junta funciona, nesse caso, como órgão profissional dessas categorias paracomerciais, cabendo-lhe exercer o poder disciplinar, bem como estabelecer o código de ética da atividade e controlar o exercício da profissão; Expedição da carteira de exercício profissional de empresário e demais pessoas legalmente inscritas no registro de empresa. A subordinação hierárquica da Junta Comercial é híbrida. Deve esse órgão, de acordo com a matéria em pauta, reportar‑se ou ao DNRC ou ao governo estadual a que pertença, segundo se trate, respectivamente, de matéria técnica de registro de empresa ou de matéria administrativa. Assim, não pode o governador do Estado expedir decreto referente a registro de sociedade empresária, assim como o DNRC não pode interferir com as questões específicas do funcionalismo ou da dotação orçamentária do órgão estadual. Em se tratando, portanto, de questões de direito comercial, a subordinação hierárquica da Junta diz respeito ao DNRC; já em termos de direito administrativo e financeiro, diz respeito ao Poder Executivo estadual de que faça parte. A Junta Comercial, no exercício de suas funções registrárias, está adstrita aos aspectos exclusivamente formais dos documentos que lhe são dirigidos. Não lhe compete negar a prática do ato registral senão com fundamento em vício de forma, sempre sanável. E, mesmo nesta seara, a sua atuação deve orientar-se pelas prescrições legais, sendo-lhe defeso exigir o atendimento de requisito formal não estabelecido no ordenamento jurídico em vigor. O prejudicado por ilegalidade da Junta poderá, evidentemente, socorrer-se do Poder Judiciário. A propósito, a Justiça competente para conhecer a validade dos atos da Junta Comercial é a Estadual, a menos que se trate de mandado de segurança contra ato pertinente ao registro das empresas, hipótese em que o órgão estadual age por orientação do DNRC e, por essa razão, é da Justiça Federal a competência (CF, art. 109, VIII). O Registro do Comércio é público e qualquer pessoa tem o direito de consultar os seus assentamentos, sem necessidade de alegar ou provar interesse, na forma que for determinada pelo regimento interno da junta Comercial. As certidões do registro serão fornecidas sem embaraços, mediante o pagamento das respectivas taxas, denominadas emolumentos. Aplicam-se, dessa forma, ao Registro do Comércio as disposições legais referentes à publicidade de que se reveste o Registro Civil. É preciso acentuar que o registro dos atos de comércio não é constitutivo de direitos. Assim, por exemplo, a inscrição de firma individual, ou do contrato social, não assegura a qualidade de comerciante, pelo só efeito do registro. Essa qualidade constante do registro pode ser elidida por qualquer prova em contrário. A falta de registro mercantil tem como consequência o afastamento da aplicação das normas de Direito Comercial, ou seja, a tutela passa a ser das normas do Direito Civil (lógica do art. 4º do antigo Código Comercial e art. 48 da Lei de Falência). Da mesma forma, temos que o registro no órgão próprio não é da essência do conceito de empresário. Será empresário o exercente profissional de atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou serviços, esteja ou não inscrito no registro das empresas. Entretanto, o empresário não registrado não pode usufruir dos benefícios que o direito comercial libera em seu favor, de sorte que a eles se aplicam as seguintes restrições, quando se tratar de exercente individual da empresa: O empresário irregular não tem legitimidade ativa para o pedido de falência de seu devedor, consoante prescreve o art. 97, § 1º, da LF. Por este dispositivo, somente o empresário inscrito na Junta Comercial e que exiba o comprovante desta inscrição está em condições de postular a falência de outro empresário. O irregular, embora não possa requerer a falência de outro exercente de empresa, pode ter a sua própria falência requerida e decretada e pode requerer a própria falência (autofalência); O empresário irregular não tem legitimidade ativa para requerer a recuperação judicial, na medida em que a lei elege a inscrição no Registro de Empresa como condição para ter acesso ao favor legal (LF, art. 51, V); O empresário irregular não pode ter os seus livros autenticados no Registro de Empresa, em virtude da falta de inscrição (CC, art. 1.181). Desta maneira, não poderá se valer da eficácia probatória que a legislação processual atribui a esses instrumentos; outrossim, se for decretada a sua falência, esta será, necessariamente, fraudulenta, incorrendo o empresário no crime falimentar previsto no art. 178 da LF. Essas são as consequências que advêm do exercício de atividade empresarial por pessoa física sem regular inscrição no Registro de Empresa. Quando se tratar de sociedade empresária, além dessas consequências, deve-se acrescentar mais a do art. 990 do CC (“sociedade em comum”), vale dizer, a responsabilidade pelas obrigações sociais solidária e ilimitada dos sócios, respondendo diretamente aquele que, dentre estes, administrou a sociedade. Art. 990. Todos os sócios respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais, excluído do benefício de ordem, previsto no art. 1.024, aquele que contratou pela sociedade. Assim, além das consequências acima referidas, há verdadeiras sanções reservadas pelo direito comercial aos empresários irregulares, podendo ser elencados os seguintes efeitos secundários do exercício da empresa sem o necessário registro na Junta Comercial: Impossibilidade de participar de licitações, nas modalidades de concorrência pública e tomada de preço (Lei n. 8.666/93, art. 28, II e III); Impossibilidade de inscrição em Cadastros Fiscais (Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – CNPJ, Cadastro de Contribuintes Mobiliários – CCM, e outros), com as decorrentes sanções pelo descumprimento dessa obrigação tributária acessória; Ausência de matrícula junto ao INSS, que, em relação aos empresários, é processada simultaneamente à inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica – CNPJ, o que o sujeita à pena de multa (Lei n. 8.212/91,art. 49, I) e, na hipótese de sociedade empresária, também a proibição de contratar com o Poder Público (CF, art. 195, § 3º). Em resumo, para as pessoas jurídicas de atividade empresária, especificamente, caso ausente o registro na junta comercial, os atos praticados são considerados válidos como sedo praticados apenas por uma sociedade contratual (sociedade de fato, “em comum”), e não por uma pessoa jurídica de atividade empresária devidamente registrada. Tal diferenciação gera efeitos quando envolvem direitos de terceiros, por exemplo, que terão tutela jurídica inclusive por meio de execução que pode atingir o patrimônio daqueles sócios contratuais (sócios de fato), tudo isso porque a sociedade não foi devidamente registrada e, portanto, está sujeita às regras gerais do direito civil. Daí, conclui-se que o registro na junta comercial não é obrigatório, mas quando inexistente esse registro, está-se a assumir um risco, uma vez que na sociedade de fato (ou em comum), impera a responsabilidade solidária e ilimitada. ATOS DO REGISTRO MERCANTIL A Lei nº 8.934, de 1994 (LRE) prevê três atos do registro de empresa: a matrícula, o arquivamento e a autenticação. A matrícula é o nome do ato de inscrição dos tradutores públicos, intérpretes comerciais, leiloeiros, trapicheiros e administradores de armazéns-gerais. Trata-se de profissionais que desenvolvem atividades paracomerciais (de auxílio ou que estão sujeitas ao controle das Juntas Comerciais). O arquivamento é pertinente à inscrição do empresário individual, isto é, do empresário que exerce sua atividade econômica como pessoa física, bem como à constituição, dissolução e alteração contratual das sociedades empresárias. Dessa forma, por exemplo, os atos constitutivos de uma sociedade empresária são arquivados. São igualmente arquivados os atos relacionados aos consórcios de empresas e aos grupos de sociedades, assim como os concernentes a empresas mercantis estrangeiras autorizadas a funcionar no Brasil. Arquivam- se, finalmente, as declarações de microempresa e, analogicamente, também as de empresa de pequeno porte, além de quaisquer outros documentos ou atos de interesse de empresários. O Código Civil determina que os atos modificativos da inscrição do empresário sejam averbados à margem desta (art. 968, § 1º). A averbação é uma espécie de arquivamento. Já a autenticação está ligada aos denominados instrumentos de escrituração, que são os livros comerciais e as fichas escriturais. Nesse caso, a autenticação é condição de regularidade do documento, já que configura requisito extrínseco de validade da escrituração mercantil. Ela pode revestir-se, contudo, também de outra natureza, isto é, a de mero ato confirmatório da correspondência material entre cópia e original do mesmo documento, desde que esteja registrado na Junta (LRE, art. 39, II). ADENDO Assentamento: A Lei determina que incumbe às juntas Comerciais o assentamento dos usos e práticas mercantis, ou seja, alguns costumes regionais podem ser levados a assentamento nas Juntas Comerciais para que passem a ser exigidos em determinados atos correspondentes. Por estarem fadados ao desuso, os usos e costumes comerciais assentados têm que ser revisados a cada cinco anos. PROCESSO DECISÓRIO DO REGISTRO DE EMPRESA Prevê a lei dois regimes de execução do registro de empresa: o da decisão colegiada e o singular (LRE, arts. 41 e 42). Art. 41. Estão sujeitos ao regime de decisão colegiada pelas juntas comerciais, na forma desta lei: I - o arquivamento: a) dos atos de constituição de sociedades anônimas, bem como das atas de assembleias gerais e demais atos, relativos a essas sociedades, sujeitos ao Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins; b) dos atos referentes à transformação, incorporação, fusão e cisão de empresas mercantis; c) dos atos de constituição e alterações de consórcio e de grupo de sociedades, conforme previsto na Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; II - o julgamento do recurso previsto nesta lei. Art. 42. Os atos próprios do Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins, não previstos no artigo anterior, serão objeto de decisão singular proferida pelo presidente da junta comercial, por vogal ou servidor que possua comprovados conhecimentos de Direito Comercial e de Registro de Empresas Mercantis. Parágrafo único. Os vogais e servidores habilitados a proferir decisões singulares serão designados pelo presidente da junta comercial. Processa-se pelo regime de decisão colegiada o arquivamento de atos relacionados com a sociedade anônima, tais como os estatutos, as atas de assembleias gerais, do conselho de administração etc. Nesse mesmo regime se enquadra o arquivamento da transformação, incorporação, fusão e cisão de sociedade empresária de qualquer tipo, além dos relacionados a consórcio de empresas ou grupo de sociedade. As Juntas Comerciais possuem dois órgãos colegiados: o Plenário e as Turmas. No primeiro, têm assento os vogais (no mínimo 11 e no máximo 23), que, excluídos o Presidente e o Vice‑Presidente, serão distribuídos, na sessão inaugural do órgão, em Turmas de 3 membros cada. As decisões colegiadas competem às Turmas (LRE, art. 21), que deliberam por maioria. O prazo para a decisão colegiada é de 5 dias, findos os quais poderão os interessados requerer o arquivamento independentemente de deliberação. Já o regime de decisão singular compreende a matrícula, a autenticação e todos os demais arquivamentos. Assim, o contrato social de uma sociedade limitada, sua alteração contratual e a inscrição do empresário individual são, por exemplo, arquivados por decisão singular. Quem determina a prática do ato registral sujeito ao regime de decisão singular é o Presidente da Junta ou o vogal por ele designado. Possibilita a lei também que a designação recaia sobre funcionário público do órgão, que possua conhecimentos comprovados de direito comercial e de registro de empresa. O prazo para a decisão singular é de 2 dias. O julgamento de recurso dos atos praticados pela Junta sempre se faz pelo regime de decisão colegiada, ainda que o ato recorrido tenha sido praticado em outro regime. A instância competente para julgar o recurso é o Plenário (LRE, art. 19). PROCEDIMENTO DE REGISTRO Nos procedimento de registro, os atos de registro vão ser chamados de arquivamento, no qual é realizado por meio de um processo parecido com administrativo, com direito a recurso. Prazo geral: para levar os atos a registro o prazo geral é de 30 dias corridos, contados a partir da data que consta no documento. Ex.: se um documento é datado e assinado no dia 25/10, ter-se-á, a partir daquela data, 30 dias para leva-lo a registro na unta Comercial, ou seja, até 25/11. Após o deferimento de arquivamento, e desde que o requerimento seja feito dentro do prazo legal, os efeitos retroagem à data do ato, logo, no exemplo supracitado, o vai gerar efeitos desde o momento em que fora praticado (25/10). Obs.: A regra dos prazos comporta uma exceção, prevista no artigo 1.075, §2, do Código Civil, que impõe o prazo de 20 dias corridos para o registro da ata de assembleia geral das sociedades limitadas (LTDA). Vejamos: Art. 1.075. A assembleia será presidida e secretariada por sócios escolhidos entre os presentes. (...) § 2 o Cópia da ata autenticada pelos administradores, ou pela mesa, será, nos vinte dias subsequentes à reunião, apresentada ao Registro Público de Empresas Mercantis para arquivamento e averbação. Da análise formal do requerimento, se estiver tudo certo, a Junta defere e arquiva o ato correspondente.Do deferimento do registro, como dito alhures, seu efeitos retroagem à data em que o ato fora praticado. Envio fora do prazo: se o requerimento para registro do ato demorar mais de 30 dias (ou 20, se for o caso) o ato só passa a produzir efeitos a partir no deferimento do registro e consequente arquivamento, ou seja, não retroage de forma alguma; o ato só produz seus efeitos na data do efetivo arquivamento, conforme preceitua o artigo 1.151, §§ 1º e 2º. Ex.: se um documento é datado e assinado no dia 25/10, mas só é levado a registro dia 05/12 (fora do prazo legal), a Junta levará cerca de 5 dias úteis para analisar e deferir o registro e, com isso, só no dia 10/12 é que o ato passará a existir no plano jurídico, surtindo efeitos a partir desta data. Art. 1.151. O registro dos atos sujeitos à formalidade exigida no artigo antecedente será requerido pela pessoa obrigada em lei, e, no caso de omissão ou demora, pelo sócio ou qualquer interessado. § 1 o Os documentos necessários ao registro deverão ser apresentados no prazo de trinta dias, contado da lavratura dos atos respectivos. § 2 o Requerido além do prazo previsto neste artigo, o registro somente produzirá efeito a partir da data de sua concessão. Dos vícios insanáveis: A não observância aos requisitos formais pode gerar vícios insanáveis e sanáveis. O vício insanável compromete o requisito de validade do ato e neste caso o requerimento será indeferido. Ex.: vender lote na lua. Dos vícios sanáveis: Diante da ocorrência de um vício sanável, aquele que apenas compromete a eficácia ou registrabilidade do ato (exs.: grafia incorreta e que prejudica a fiel interpretação do documento, a falta cláusula obrigatória, entre outros), o requerimento será convertido em ocorrências formuladas pela Junta Comercial, a serem cumpridas pelo interessado, em até 30 dias, contados da data da ciência dessas exigências ou da publicação do despacho. Diz-se que a Junta coloca o processo em exigência. Obs1: Se persistir o erro, repete-se o prazo de 30 dias para correção. Obs2: Qual a sanção para quem descumpre o prazo de 30 dias para cumprimento da exigência? Ao devolver o processo, o analista não o recebe, e aquilo é considerado como desistência. Assim, o interessado vai ter que requerer o registro do ato novamente e se sujeitar a novas taxas. Obs3: Se o ato se refere à constituição de sociedade empresária, enquanto não é efetivamente arquivado a sociedade é regida pelas normas atribuídas à sociedade comum, com efeitos inter partes e se sujeita à responsabilidade ilimitada, como já visto anteriormente. Aprovação por decurso do prazo: A aprovação por decurso de prazo está prevista no artigo 43 da Lei de Registros Públicos Empresarias (Lei 8.934/94). Dessa forma, se os atos estiverem previstos no rol do artigo 41 da mesma Lei, a Junta terá um prazo de 2 dias úteis para analisa-los. Caso a previsão for do artigo 42, o prazo será de 5 dias úteis. Se a Junta Comercial não analisar o requerimento de registro dentro dos prazos legais supracitados, abre- se a oportunidade para que seja requerida a aprovação por decurso de prazo. Essa aprovação não é de ofício, ou seja, sempre vai depender da provocação do interessado. Abaixo, a transcrição dos dispositivos mencionados: Art. 41. Estão sujeitos ao regime de decisão colegiada pelas juntas comerciais, na forma desta lei: I - o arquivamento: a) dos atos de constituição de sociedades anônimas, bem como das atas de assembleias gerais e demais atos, relativos a essas sociedades, sujeitos ao Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins; b) dos atos referentes à transformação, incorporação, fusão e cisão de empresas mercantis; c) dos atos de constituição e alterações de consórcio e de grupo de sociedades, conforme previsto na Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; II - o julgamento do recurso previsto nesta lei. Art. 42. Os atos próprios do Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins, não previstos no artigo anterior, serão objeto de decisão singular proferida pelo presidente da junta comercial, por vogal ou servidor que possua comprovados conhecimentos de Direito Comercial e de Registro de Empresas Mercantis. Parágrafo único. Os vogais e servidores habilitados a proferir decisões singulares serão designados pelo presidente da junta comercial. Art. 43. Os pedidos de arquivamento constantes do art. 41 desta Lei serão decididos no prazo máximo de 5 (cinco) dias úteis, contados do seu recebimento; e os pedidos constantes do art. 42 desta Lei serão decididos no prazo máximo de 2 (dois) dias úteis, sob pena de ter-se como arquivados os atos respectivos, mediante provocação dos interessados, sem prejuízo do exame das formalidades legais pela procuradoria. Obs.: Em que pese a ser a Junta Comercial obrigada a registrar o ato por decurso de prazo, se tiver um erro muito grave e o mesmo for verificado, é facultado ao órgão comunicar a situação ao Ministério Público Federal para que ele adote as providências necessárias. Por isso, muitas das vezes não é interessante ter o ato arquivado por decurso do prazo. INATIVIDADE DA EMPRESA O empresário individual e a sociedade empresária que não procederem a qualquer arquivamento no período de dez anos devem comunicar à Junta que ainda se encontram em atividade, nos termos do art. 60 da LRE. Se não o fizerem, serão considerados inativos. A inatividade da empresa autoriza a Junta a proceder ao cancelamento do registro, com a consequente perda da proteção do nome empresarial pelo titular inativo. Exige a lei que a Junta comunique, previamente, o empresário acerca da possibilidade do cancelamento, podendo fazê-lo por edital. Se atendida a comunicação, desfaz-se a inatividade; no caso de não atendimento, efetua-se o cancelamento do registro, informando-se o fisco. Se, no futuro, o empresário pretender reativar o registro, deverá obedecer aos mesmos procedimentos relacionados com a constituição de uma nova empresa, não tendo o direito de reivindicar o mesmo nome empresarial anteriormente adotado, caso este tenha sido registrado por outro empresário. Do cancelamento do registro por inatividade não decorre a dissolução da sociedade, mas apenas a sua irregularidade na hipótese de continuar funcionando. Quer dizer, a sociedade com arquivamento cancelado não deve necessariamente entrar em liquidação; mas sobrevêm as consequências do exercício irregular da atividade empresarial, caso os sócios não a encerrem. Art. 60. A firma individual ou a sociedade que não proceder a qualquer arquivamento no período de dez anos consecutivos deverá comunicar à junta comercial que deseja manter-se em funcionamento. § 1º Na ausência dessa comunicação, a empresa mercantil será considerada inativa, promovendo a junta comercial o cancelamento do registro, com a perda automática da proteção ao nome empresarial. § 2º A empresa mercantil deverá ser notificada previamente pela junta comercial, mediante comunicação direta ou por edital, para os fins deste artigo. § 3º A junta comercial fará comunicação do cancelamento às autoridades arrecadadoras, no prazo de até dez dias. § 4º A reativação da empresa obedecerá aos mesmos procedimentos requeridos para sua constituição. CAPACIDADE DO EMPRESÁRIO É preciso ter a plena capacidade civil do art. 3º do CC/02, pois é preciso praticar atos. Ocorre que existe a previsão do art. 5º, V, CC/02, segundo o qual a menoridade cessa pelo estabelecimento civil ou comercial ou pela existência de relação de emprego, desde que, em função deles, o menor com dezesseis anos completos tenha economia própria.Não há uma contradição nisso? A situação se resolve da seguinte maneira: não se pode começar uma empresa sendo menor (é preciso ter capacidade para começar uma empresa). Mas pode-se continuar como empresário quando se é herdeiro de empresário. Observemos o art. 974, caput, do CC/02: Art. 974. Poderá o incapaz, por meio de representante ou devidamente assistido, continuar a empresa antes exercida por ele enquanto capaz, por seus pais ou pelo autor de herança. Obs.: É preciso autorização judicial para continuar a empresa do de cujus, sendo que para tal autorização ser concedida é preciso analisar as circunstâncias e os riscos da empresa, bem como da conveniência em continuá-la. Além disso, tal autorização é precária, podendo ser revogada a cada tempo. Requisitos próprios: 1) Falido não reabilitado (art. 181 I, LFR): se você faliu e não foi reabilitado, não se pode ser empresário. Art. 181. São efeitos da condenação por crime previsto nesta Lei: I – a inabilitação para o exercício de atividade empresarial; 2) Servidor Público (art. 117, X, da Lei 8.112/90): servidor público federal não pode exercer a empresa, não pode ser empresário, nem sócio administrador da sociedade empresária. Pode ser apenas sócio ou acionista. Art. 117. Ao servidor é proibido: (...) X - participar de gerência ou administração de sociedade privada, personificada ou não personificada, exercer o comércio, exceto na qualidade de acionista, cotista ou comanditário; 3) Militares (art. 204, CPM): militares não podem exercer atividade empresarial. Art. 204. Comerciar o oficial da ativa, ou tomar parte na administração ou gerência de sociedade comercial, ou dela ser sócio ou participar, exceto como acionista ou cotista em sociedade anônima, ou por cotas de responsabilidade limitada: Pena - suspensão do exercício do pôsto, de seis meses a dois anos, ou reforma. 4) Magistrados e Promotores (art. 36, I, LC 35/79 – Estatuto da Magistratura): magistrados e promotores não podem exercer a atividade empresarial, exceto como acionista ou quotista. Art. 36 - É vedado ao magistrado: I - exercer o comércio ou participar de sociedade comercial, inclusive de economia mista, exceto como acionista ou quotista; Representante impedido: Quando o representante do incapaz for impedido de exercer a empresa ou sobrevier qualquer causa de impedimento no curso da representação, o juiz vai nomear um gerente para o exercício da atividade empresária. O representante, então, continuará a gerir todos os atos da vida civil do incapaz, mas para o exercício da empresa, se ele for impedido (ex.: servidor público, magistrado, promotor, etc.), o juiz vai conferir poderes a um terceiro (gerente) por meio de procuração para que ele possa gerenciar tão somente a empresa. RESPONSABILIDADE DO EMPRESÁRIO INDIVIDUAL E PATRIMÔNIO ÚNICO Ao tratarmos de responsabilidade no âmbito do Direito Empresarial, é preciso, primeiro, ter em mente que quando falamos em empresário estamos nos referindo à pessoa que exerce a atividade empresarial no seu próprio nome. O empresário, por sua vez, é pessoa física ou pessoa jurídica (sociedade empresária) e pode se enquadrar como microempresa ou empresa de pequeno porte. O artigo 966 do Código Civil, ao conceituar empresário como aquele que exerce profissionalmente atividade econômica organizada, não está se referindo apenas à pessoa física (ou pessoa natural) que explora atividade econômica, mas também à pessoa jurídica. Ressalta-se que o legislador não se preocupou apenas em conceituar o empresário individual no referido artigo, mas cuidou também de estabelecer um conjunto de regras gerais para a disciplina do exercício individual da empresa. Portanto, temos que empresário pode ser um empresário individual (pessoa física que exerce profissionalmente atividade econômica organizada) ou uma sociedade empresária (pessoa jurídica constituída sob a forma de sociedade, cujo objeto social é a exploração de uma atividade organizada). A pessoa física que desenvolve uma atividade produtiva pode ser empresário individual, titular de empresa individual, pois se enquadra no conceito previsto no Código Civil. Por outro lado, a pessoa jurídica pode ser uma sociedade empresária, porque desenvolve atividade empresarial. Com relação à responsabilidade dos empresários individuais, essa categoria de empresários em regra assume o risco de forma pessoal e ilimitada, inexistindo diferenciação patrimonial, o que possibilita que os bens pessoais do empresário, bem como os da atividade empresarial respondam por dívidas contraídas independente da origem e natureza. Significa, então, que para fins de responsabilização patrimonial, os empresários individuais possuem um único patrimônio, sem distinção de pertencimento à pessoa física ou pessoa exercente da atividade empresária, isto é, todo patrimônio responde pela atividade empresarial, pois o patrimônio é único. Obs1: O art. 978 c/c 1.647 do CC: o art. 978 é uma exceção ao art. 1.647, ou seja, permite que se estabeleça um micro patrimônio de afetação dentro do patrimônio potencialmente afetado. Art. 978. O empresário casado pode, sem necessidade de outorga conjugal, qualquer que seja o regime de bens, alienar os imóveis que integrem o patrimônio da empresa ou gravá-los de ônus real. Art. 1.647. Ressalvado o disposto no art. 1.648, nenhum dos cônjuges pode, sem autorização do outro, exceto no regime da separação absoluta: I - alienar ou gravar de ônus real os bens imóveis; II - pleitear, como autor ou réu, acerca desses bens ou direitos; III - prestar fiança ou aval; IV - fazer doação, não sendo remuneratória, de bens comuns, ou dos que possam integrar futura meação. Além disso, o Enunciado nº 5 da I Jornada de Direito Comercial do Conselho de Justiça Federal/STJ, afirmam que a responsabilidade do empresário individual é ilimitada, mas ela é subsidiária com base no art. 1.024, CC, que preceitua que não se pode penhorar bens dos sócios antes de se penhorar os bens da sociedade. Vejamos o texto do enunciado mencionado: Enunciado nº 5 da 1ª JDC: Quanto às obrigações decorrentes de sua atividade, o empresário individual tipificado no art. 966 do Código Civil responderá primeiramente com os bens vinculados à exploração de sua atividade econômica, nos termos do art. 1.024 do Código Civil. A crítica feita ao enunciado retro transcrito, contudo, é de que usaram o artigo 1.024 de forma equivocada, pois ele está vinculado à sociedade empresária, e não ao empresário individual. Vejamos abaixo: Art. 1.024. Os bens particulares dos sócios não podem ser executados por dívidas da sociedade, senão depois de executados os bens sociais. Obs2: Bem de família – art. 1º, Lei 8009/90: a regra do bem de família se aplica tanto à atividade pessoal quanto à empresarial: Art. 1º O imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade familiar, é impenhorável e não responderá por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal, previdenciária ou de outra natureza, contraída pelos cônjuges ou pelos pais ou filhos que sejam seus proprietários e nele residam, salvo nas hipóteses previstas nesta lei. Parágrafo único. A impenhorabilidade compreende o imóvel sobre o qual se assentam a construção, as plantações, as benfeitorias de qualquer natureza e todos os equipamentos, inclusive os de uso profissional, ou móveis que guarnecem a casa, desde que quitados. EMPRESÁRIO RURAL A categoria do empresário rural, basicamente, encontra respaldo nos artigos 971 e 984 do Código Civil. Assim, porforça de disposição legal, art. 971 do Código Civil, aquele que exerce uma atividade de natureza rural possui a opção de se sujeitar ou não ao regime empresarial, mas caso deseje, basta que proceda com o seu registro na Junta Comercial de sua sede, tornando, a partir do registro um empresário, devendo cumprir com as obrigações decorrentes do regime jurídico empresarial, tal como a manutenção de escrituração contábil e realização de balanços. Esta faculdade decorre do disposto no artigo 970 que preceitua que a lei assegurará tratamento favorecido, diferenciado e simplificado ao empresário rural e ao pequeno empresário, quanto à inscrição e os efeitos daí decorrentes. Assim, o produtor rural, aquele que exerce atividade agrícola, pecuária, extrativa entre outras atividades conexas será considerado empresário rural somente quando esteja devidamente inscrito no registro de comércio, sujeitando-se ao regime falimentar e de recuperação judicial. É facultado também ao empresário rural o registro em sociedade ou sozinho, devendo, em ambas as hipóteses, proceder ao registro na Junta Comercial caso opte pelo regime comercial. Porém, em caso de sociedade não empresária, ou seja, se o exercício da atividade rural for realizado em sociedade, mas sem aplicação do regime comercial, o registro da sociedade deverá ser feito junto ao Cartório de Registro Civil das Pessoas Jurídicas. NOME EMPRESARIAL Natureza e espécies O empresário, seja pessoa física ou jurídica, tem um nome empresarial, que é aquele com que se apresenta nas relações de fundo econômico. Quando se trata de empresário individual, o nome empresarial pode não coincidir com o civil; e, mesmo quando coincidentes, têm o nome civil e o empresarial naturezas diversas. A pessoa jurídica empresária, por sua vez, não tem outro nome além do empresarial. O Código Civil reconhece no nome, civil ou empresarial, a manifestação de um direito da personalidade da pessoa física ou jurídica (arts. 16, 52 e 1.164). Como elemento de identificação do empresário, o nome empresarial não se confunde com outros elementos identificadores que habitam o comércio e a empresa, os quais têm, também, proteção jurídica, assim como a marca, o nome de domínio e o título de estabelecimento. Enquanto o nome empresarial identifica o sujeito que exerce a empresa, o empresário, a marca identifica, direta ou indiretamente, produtos ou serviços, o nome de domínio identifica a página na rede mundial de computadores e o título do estabelecimento, o ponto. Na maioria das vezes, por conveniência econômica ou estratégia mercadológica, opta- se pela adoção de expressões idênticas ou assemelhadas, o que, a rigor, não tem nenhuma relevância jurídica, posto que nome empresarial, marca, nome de domínio e título de estabelecimento continuam a ser considerados institutos distintos, ainda quando possuírem um mesmo conteúdo e forma. Cada um destes elementos de identificação recebe, do direito, tratamentos específicos, próprios, decorrentes de sua natureza. O direito contempla duas espécies de nome empresarial: a firma (ou razão social) e a denominação. No linguajar cotidiano do comércio, firma tem o sentido de sociedade ou de empresa, mas, no rigor da técnica jurídica, essa expressão é reservada para uma das espécies de nome empresarial. A firma e a denominação se distinguem em dois planos, a saber: quanto à estrutura, ou seja, aos elementos linguísticos que podem ter por base; e quanto à função, isto é, a utilização que se pode imprimir ao nome empresarial. No tocante à estrutura, a firma só pode ter por base nome civil, do empresário individual ou dos sócios da sociedade empresária. O núcleo do nome empresarial dessa espécie será sempre um ou mais nomes civis. Já a denominação deve designar o objeto da empresa e pode adotar por base nome civil ou qualquer outra expressão linguística (que a doutrina costuma chamar de elemento fantasia). Assim, “A. Silva & Pereira Cosméticos Ltda.” é exemplo de nome empresarial baseado em nomes civis; já “Alvorada Cosméticos Ltda.” é nome empresarial baseado em elemento fantasia. Somente levando-se em conta a estrutura, por vezes, não é possível discernir se um determinado nome empresarial é firma ou denominação. Claro, se não há referência ao ramo de atividade econômica, não pode ser denominação; se fundado em elemento fantasia, não pode ser firma. Mas, desde que ambas as espécies podem adotar nome civil como base para a construção do nome empresarial, a identificação de uma ou outra espécie não deve deixar de considerar a função que o nome empresarial exerce. No exemplo acima citado de nome empresarial composto sobre nome civil, é rigorosamente impossível descobrir sua espécie sem consulta ao contrato social da sociedade limitada e análise da sua utilização. Explique-se: quanto à função, os nomes empresariais se diferenciam na medida em que a firma, além de identidade do empresário, é também a sua assinatura, ao passo que a denominação é exclusivamente elemento de identificação do exercente da atividade empresarial, não prestando a outra função. O empresário individual, ao se obrigar juridicamente, e o representante legal da sociedade empresária que adota firma, ao obrigá-la juridicamente, devem ambos assinar o respectivo instrumento não com o seu nome civil, mas com o empresarial. Portanto, se Antônio Silva Pereira é empresário individual inscrito sob a firma “Silva Pereira, Livros Técnicos”, a assinatura apropriada para os instrumentos obrigacionais relacionados com o seu giro econômico deverá reproduzir essas expressões, inclusive “livros técnicos”. Se ele é administrador de sociedade que comercie sob a firma “Silva Pereira e Cia. Ltda.”, não deverá assinar sua assinatura civil, mesmo que sobre o nome empresarial da sociedade, escrito, impresso ou carimbado. Deverá assinar o nome empresarial da sociedade, na forma com que assinou, no campo próprio, o contrato social; isto é, reproduzindo com seu estilo individual as expressões constituintes da firma, inclusive “e Cia. Ltda.”. Já o representante legal de sociedade empresária que gire sob a denominação “Alvorada Cosméticos Ltda.”, para obrigar a sociedade, deve lançar a sua assinatura civil sobre o nome empresarial dela, escrito, impresso ou carimbado. Não poderá, neste caso, assinar a denominação. Por esta razão, pelas diferenças funcionais entre a firma e a denominação, é que os contratos sociais de sociedades empresárias que adotam firma devem ter campo próprio para que o representante ou representantes legais assinem o nome empresarial. Geralmente, ao pé da última página do instrumento, sob o título “firma por quem de direito”, é que eles lançam a assinatura que usarão no exercício dos poderes de representação. E geralmente fazem uso da mesma assinatura que têm para os atos da vida civil, o que, embora, a rigor, não corresponda à prescrição legal, vem sendo sedimentado há tempos pelo costume. Conclui-se, pois, que a análise da natureza do nome empresarial daqueles empresários legalmente autorizados a usarem firma ou denominação, e que adotaram nome empresarial baseado em nome civil, não pode prescindir da consulta ao ato constitutivo (contrato social ou estatuto). Se dele constar cláusula em que o representante legal assenta a assinatura que usará nos instrumentos obrigacionais relativos aos negócios sociais, então é o caso de firma. Na ausência de cláusula com tal objetivo, será denominação. A simples análise da estrutura do nome empresarial é insuficiente para uma conclusão correta sobre o assunto. Alteração do nome empresarial O nome empresarial, ao contrário do nome civil, pode ser alterado pelasimples vontade do empresário, seja este pessoa física ou jurídica, desde que respeitadas as normas de formação. É a hipótese de alteração voluntária do nome empresarial, que depende exclusivamente da vontade do seu titular. Se sociedade empresária, é claro, a alteração voluntária exigirá a concorrência da vontade de sócios que detenham participação do capital social que lhe assegure o direito de alterar o contrato social. Além desta hipótese, há outras em que a alteração do nome empresarial opera-se independentemente da vontade do empresário. Trata-se, agora, de alteração obrigatória, ou vinculada. Em relação aos nomes empresariais fundados em nome civil, são causas de alteração obrigatória: a) Saída, retirada, exclusão ou morte de sócio cujo nome civil constava da firma social: neste caso, enquanto não se proceder à alteração do nome empresarial, o ex-sócio, ou o seu espólio, continua a responder pelas obrigações sociais nas mesmas condições em que respondia quando ainda integrava o quadro associativo (CC, arts. 1.158, § 1º, e 1.165); b) Alteração da categoria do sócio, quanto à sua responsabilidade pelas obrigações sociais, se o nome civil dele integrava o nome empresarial: se sócio comanditado de uma sociedade em comandita simples passa a ser comanditário, ou se o acionista não diretor da sociedade em comandita por ações deixa as funções administrativas, o seu nome civil não poderá continuar a compor o nome da sociedade, a firma social. Até que se altere este nome, o sócio continuará a responder pelas obrigações sociais como se ainda integrasse a categoria anterior (CC, art. 1.157); c) Alienação do estabelecimento por ato entre vivos: o empresário individual ou a sociedade empresária não podem alienar o nome empresarial (CC, art. 1.164). Mas, na hipótese de alienação do estabelecimento empresarial, por ato entre vivos, se previsto em contrato, o adquirente pode usar o nome do alienante, precedido do seu, com a qualificação de sucessor de. Estas três causas de alteração obrigatória do nome empresarial fundado em nome civil decorrem de regra de composição que se costuma chamar de “princípio da veracidade” (LRE, art. 34). De acordo com este princípio, é defeso ao empresário valer-se, na composição de seu nome empresarial, de elementos estranhos ao nome civil, de que seja titular como pessoa física, ou de que sejam titulares os seus sócios, se pessoa jurídica. Este princípio não se aplica, integralmente, à denominação da sociedade anônima, que pode ser composta por nome civil de fundador ou pessoa que tenha concorrido para o êxito da empresa, ainda que não seja mais acionista (CC, art. 1.160, parágrafo único; LSA, art. 3º). Além das alterações em decorrência do princípio da veracidade, prevê o direito duas outras causas que ensejam a mudança compulsória da firma ou denominação: a) Transformação: a sociedade empresária pode experimentar alteração de tipo societário (passar de sociedade limitada para anônima, ou vice-versa). Nesta hipótese, as regras de formação do nome empresarial relativas ao tipo societário em que se transformou a sociedade devem ser observadas, alterando-se os aspectos do nome empresarial então existentes que com elas forem incompatíveis. A consequência da não alteração do nome comercial será a ineficácia da transformação perante terceiros que contratarem com a sociedade. b) Lesão a direito de outro empresário: pelo sistema de proteção do nome empresarial, o empresário estará obrigado a alterar o seu nome empresarial sempre que este lesar direito de outro exercente de atividade empresarial, sob pena de alteração coercitiva e responsabilização por perdas e danos. Proteção ao nome empresarial Inicialmente, deve-se atentar para o fato de que o direito protege o nome empresarial com vistas à tutela de dois diferentes interesses do empresário: de um lado, o interesse na preservação da clientela; de outro, o da preservação do crédito. Com efeito, se determinado empresário, conceituado no meio empresarial, vê um concorrente usando nome empresarial idêntico, ou mesmo semelhante ao seu, podem ocorrer consequências, que devem ser prevenidas, em dois níveis. Quanto à clientela, pode acontecer de alguns mais desavisados entrarem em transações com o usurpador do nome empresarial, imaginando que o fazem com aquele empresário conceituado, importando o uso indevido do nome idêntico ou assemelhado em inequívoco desvio de clientela. Quanto ao crédito daquele empresário conceituado, poderá ser, parcial e temporariamente, abalado com o protesto de títulos ou pedido de falência do usurpador. Tanto num quanto noutro nível, o empresário que teve o seu nome imitado poderá sofrer consequências patrimoniais danosas. Ao proteger o nome empresarial, portanto, o direito tem em vista a tutela desses dois interesses. Por esta razão, porque não visa somente a evitar o desvio desleal de clientela, é que a proteção não deve se restringir aos empresários que atuem no mesmo ramo da atividade empresarial. Como tem em mira, também, a preservação do crédito, não pode o empresário que explora determinada atividade pretender usar nome imitado de empresário explorador de atividade diversa, sob o pretexto de não ser possível a concorrência entre ambos. Salvo, é claro, autorização contratual, pela qual o titular do nome empresarial legitima o uso de nome idêntico ou semelhante por outro empresário. O titular de um nome empresarial tem o direito à exclusividade de uso, podendo impedir que outro empresário se identifique com nome idêntico ou semelhante, que possa provocar confusão em consumidores ou no meio empresarial. Assim, em caso de identidade ou semelhança de nomes, o empresário que anteriormente haja feito uso dele terá direito de obrigar o outro a acrescer ao seu nome distintivos suficientes, alterando-o totalmente, inclusive, se não houver outra forma de distingui-los com segurança. É o que decorre dos arts. 35, V, da LRE, 1.163 do CC e 3º, § 2º, da LSA. Mas o que seja um nome idêntico ou semelhante, isto a lei não esclarece. A solução, assim, é dada pelo seguinte critério de natureza doutrinal: a identidade ou semelhança não diz respeito senão ao núcleo do nome empresarial. Os elementos identificadores do tipo societário, do ramo de atividade, bem como as partículas gerais (“& Cia.”, “Irmãos”, “Sucessor de” etc.), devem ser desprezados na análise da identidade ou semelhança entre dois nomes empresariais. Por núcleo do nome empresarial se entende a expressão que é própria do seu titular, aquela que o torna conhecido, tanto entre os consumidores como entre os fornecedores. É a parte do nome empresarial que não se pode abstrair sem desnaturá-lo, sem perder de vista aquele específico sujeito de direito que se pretende identificar. Exemplificativamente, considerem-se os seguintes três nomes empresariais: a) “Alvorada – Comércio e Indústria Ltda.”; b) “Primavera – Comércio e Indústria Ltda.”; c) “Companhia Exportadora e Importadora Primavera”. Os nomes a e b, embora tenham mais elementos absolutamente idênticos entre si, são nomes empresariais diferentes e o titular de um deles não tem qualquer direito em relação ao titular do outro. Isto porque o núcleo de um (“Alvorada”) é inconfundível com o do outro (“Primavera”). Já os nomes b e c possuem somente uma expressão idêntica, sendo todas as demais completamente diferentes. Inobstante, o titular do nome empresarial anterior terá direito de obrigar o titular do outro a abster-se de fazer uso dele, posto que o núcleo de ambos é igual (“Primavera”). O Registro do Comércio adota esse entendimento de restringir ao núcleo do nomeempresarial a análise da identidade ou semelhança apenas quando se trata de denominação com expressões de fantasia incomuns. Em relação às demais denominações e às firmas, recomenda o Departamento Nacional do Registro do Comércio que as Juntas levem em conta a composição total do nome, sendo idênticos os homógrafos e semelhantes os homófonos (LRE, art. 35, V). No campo do direito penal, a lei define a usurpação de nome empresarial como crime de concorrência desleal (LPI, art. 195, V). ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL O estabelecimento é o objeto onde a relação empresarial será exercida, e seu conceito está expresso no art. 1.142, CC. Vejamos: Art. 1.142. Considera-se estabelecimento todo complexo de bens organizado, para exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária. Hoje, no Brasil, o nome mais comum que se refere ao estabelecimento é “Estabelecimento Comercial”. Entretanto, existem outras expressões usadas também para referenciar o estabelecimento, como “Fundo de Comércio” e “Azienda”. Teorias sobre o estabelecimento: RESUMINDO... O nome é um direito de personalidade, faz parte da identidade. O empresário quando nasce, seja ele pessoa natural ou jurídica, ganha um nome (ou acréscimo no nome). No direito brasileiro, quando nos referimos ao nome empresarial, estamos nos referindo a firmas/razão social ou a denominações. Vejamos: a) Firma ou Razão Social: são expressões composta pelos nomes dos sócios ou pelo próprio nome do empresário individual (Ex.: Martins e David Sociedade, Francisco de Paiva Monteiro). b) Denominação: uma expressão qualquer, mesmo em língua inglesa, que indica a atividade prestada, o objeto a ser explorado pela empresa (Ex.: Centro de Odontologia Integrada, Master Cursos, Construtora Lions). Obs1: No caso da firma ou razão social, quando os nomes dos sócios compõem o nome empresarial, se um deles desfizer a sociedade, o seu nome respectivo deve ser retirado do nome da empresa, uma vez que consiste em direito de personalidade e acompanha o sujeito. Em vista disso, a firma ou a razão social não são recomendáveis, pois quando desfeita a sociedade ou alterado o quadro de sócios, o nome empresarial necessariamente deve mudar. É mais aconselhável, então, utilizar a denominação. Obs2: O nome fantasia é diferente do nome empresarial e não é marca. É uma expressão corriqueiramente utilizada, conhecida no mercado. Obs3: Quem faz o controle dos nomes é a Junta Comercial que, por sua vez, tem atuação estadual. Isso significa que, se uma empresa quiser exclusividade no nome em âmbito nacional, deverá registrá-lo em todos os estados do país. Do contrário, o nome estará protegido apenas no estado em que se deu o registro, podendo outros registros iguais serem feitos nos demais estados. Oito teorias se debruçam sobre o nome empresarial, estado elas divididas em doutrinas clássicas e doutrinas modernas. Abaixo, as características principais de cada uma delas. Doutrinas clássicas: 1) Personalidade jurídica do estabelecimento: Para essa teoria, o estabelecimento tem personalidade jurídica própria. Assim, em caso de morte dos sócios, o estabelecimento permanece dotado de direitos e deveres, pois teria personalidade jurídica. 2) Patrimônio autônomo: Para essa teoria, o estabelecimento seria um patrimônio “embarreirado”, distinto do patrimônio pessoal do empresário. Todavia, essa teoria é falha, pois o patrimônio do empresário não é autônomo, tendo em vista que está necessariamente atrelado a uma pessoa. No direito brasileiro apenas as Fundações têm patrimônio autônomo. 3) “Maison de Commerce” (Casa de Comércio + Fundo de Comércio): O estabelecimento, para essa teoria, seria a soma da casa de comércio com o fundo de comércio. A casa de comércio seria, então, composta por pessoas, sujeitos (sócios, por exemplo). Já o fundo de comércio seria o complexo de objetos no qual a atividade seria exercida. 4) Estabelecimento como negócio jurídico (conceito de empresa – Coase): Coase afirmava que empresa era um feixe de contratos. Assim, os doutrinadores apoiados nessa concepção afirmavam que o estabelecimento seria um negócio jurídico, um grande contrato em que o estabelecimento seria o objeto e os sócios, empregados e fornecedores as partes contratantes. 5) Estabelecimento como instituição: O estabelecimento seria uma organização instituída (assim como a Igreja), independente do que o direito vá dizer. Doutrinas modernas: 6) Estabelecimento como bem imaterial: Basicamente afirma que o estabelecimento é mais um bem que faz parte do conjunto de bens da empresa. Essa teoria é falha porque o estabelecimento já é o conjunto dos bens úteis ao exercício da atividade empresária, não podendo ele fazer parte dele mesmo. 7) Teorias atomistas: Ao contrário da teoria que afirma que o estabelecimento é um bem imaterial, as teorias atomistas pregam que o estabelecimento é um conjunto de unidades de bens. No entanto, essa teoria não é atualmente útil, pois impede que o estabelecimento seja repassado na sua integralidade, de forma que a disposição do estabelecimento implicaria na disposição individualizada dos conjuntos de bens que formam o estabelecimento. Em outras palavras, para essa teoria, não é possível vender um estabelecimento comercial com todos os bens, deve-se, pois, vender separadamente os conjuntos de bens que compõem o estabelecimento comercial, como cadeiras, mesas, painéis, etc. 8) Teorias patrimonialistas (art. 90 e 91 do CC): Para essa teoria, o estabelecimento é uma universalidade de fato. Assim, o estabelecimento é uma universalidade de bens singulares pertinentes a uma mesma pessoa, cuja destinação é unitária (art. 90 do Código Civil). Aqui, vale ressaltar que os bens são pertinentes e não pertencentes a uma pessoa, pois para dar a destinação devida, não precisa ter o domínio, a propriedade sobre o bem, baste ter a posse (a exemplo do cômodo comercial locado por uma sociedade empresária). Para o direito brasileiro, então, o estabelecimento é um conjunto complexo de bens voltado a uma finalidade, bens estes pertinentes a uma pessoa (universalidade de fato). Art. 90. Constitui universalidade de fato a pluralidade de bens singulares que, pertinentes à mesma pessoa, tenham destinação unitária. Parágrafo único. Os bens que formam essa universalidade podem ser objeto de relações jurídicas próprias. Mas afinal, o que é o estabelecimento empresarial/comercial?: Explica-se: primeiramente, é preciso compreender que o estabelecimento não pode ser entendido como o local onde se exerce a atividade. Apesar de se usar corriqueiramente esse sentido, trata-se de um equívoco do ponto de vista jurídico. O estabelecimento é um complexo de bens organizados pelo empresário e não apenas o imóvel utilizado para o exercício da atividade. O estabelecimento não se confunde com a coisa comercial, com o local físico do exercício da atividade. Esse complexo de bens não precisa, necessariamente, pertencer ao empresário, que pode eventualmente locar bens. O essencial é que esse complexo de bens seja organizado pelo empresário para o exercício da empresa. A organização do empresário para uma finalidade comum é que vai dar ao complexo de bens a natureza de um estabelecimento. Para se entender a natureza desse instituto jurídico é útil socorrer-se de uma analogia com outro conjunto de bens: a biblioteca. Nela, não há apenas livros agrupados ao acaso, mas um conjunto de livros sistematicamente reunidos, dispostos organizadamente, com vistas a um fim – possibilitar o acesso racional a determinado tipo de informação.Uma biblioteca tem o valor comercial superior ao da simples soma dos preços dos livros que a compõem, justamente em razão desse plus, dessa organização racional das informações contidas nos livros nela reunidos. O estabelecimento empresarial é a reunião dos bens necessários ao desenvolvimento da atividade econômica. Quando o empresário reúne bens de variada natureza, como as mercadorias, máquinas, instalações, tecnologia, prédio etc., em função do exercício de uma atividade, ele agrega a esse conjunto de bens uma organização racional que importará em aumento do seu valor enquanto continuarem reunidos. Alguns autores usam a expressão “aviamento” para se referir a esse valor acrescido. Devido à intangibilidade dessa organização racional que o empresário introduz na utilização dos bens integrantes do estabelecimento empresarial, e tendo em vista que ela tem valor de mercado, o direito necessita desenvolver mecanismos para tutela desse plus e do valor que ele representa. Cada bem, isoladamente, possui uma proteção jurídica específica (como, por exemplo, os interditos possessórios ou a responsabilização civil e penal por dano patrimonial etc.); o estabelecimento empresarial, essa disposição racional dos bens em vista do exercício da atividade econômica, por sua vez, necessita de uma forma própria de proteção. O direito, assim, em geral, deve garantir a justa retribuição ao empresário quando este perde, por culpa que não lhe seja imputável, o valor representado pelo estabelecimento empresarial. Assim, em caso de desapropriação do imóvel em que o empresário mantém o seu estabelecimento empresarial, a indenização correspondente deve compreender o valor do fundo de empresa por ele criado. Na sucessão por morte ou na separação do empresário individual, o estabelecimento empresarial deve ser considerado não apenas pelo valor do simples somatório do preço dos bens, singularmente considerados, que o compõem, mas pelo valor destes agregado ao decorrente da situação peculiar em que se encontram – reunidos para possibilitar o pleno desenvolvimento de uma atividade empresarial. Estabelecimento x patrimônio do empresário: O estabelecimento apresenta-se para o empresário como o instrumento hábil para o exercício da atividade empresarial. Entretanto, conforme já ressaltado, não é essencial que os bens componentes do estabelecimento pertençam ao empresário, que pode eventualmente locar bens. O essencial para a formação do estabelecimento é que o empresário possua um título jurídico que lhe assegure a legitimação para o uso do bem. A possibilidade de o empresário não ser proprietário dos bens que compõem o estabelecimento já demonstra que ele não se identifica com o patrimônio do empresário. Além disso, a unidade dos bens que integram o patrimônio de uma pessoa decorre da propriedade comum. Já no estabelecimento o essencial é a destinação comum dos bens como instrumento para o exercício da atividade. O estabelecimento é objeto de direitos reais ou de direitos pessoais?: Partindo-se do pressuposto de que o estabelecimento é uma universalidade de fato, surge uma questão extremamente relevante, qual seja, saber se o estabelecimento é objeto de direitos reais ou de direitos pessoais. Afirma-se expressamente que não há um direito real sobre o estabelecimento, mas apenas um tratamento unitário dos vários elementos que o compõem, permitindo falar em negócio jurídico sobre o estabelecimento. Dentro desse entendimento, não é possível falar em posse, reivindicação, usucapião, penhor ou usufruto do estabelecimento, mas apenas dos elementos que o compõem. Em síntese, os direitos reais se exercem sobre os elementos que integram o estabelecimento e não sobre ele mesmo. A unidade do estabelecimento serve apenas para determinar o objeto de determinados negócios ou para fins de sucessão, e não para se identificar um direito sobre o estabelecimento, distinto do direito real incidente sobre os componentes do estabelecimento. A favor dessa tese, invoca também o fato dos componentes poderem pertencer a pessoas diferentes. Assim, a mera possibilidade dos elementos integrantes do estabelecimento não pertencerem ao empresário já afasta a possibilidade de vislumbrar uma propriedade plena sobre o conjunto. A unidade do estabelecimento existe apenas para fins obrigacionais e por isso deve-se falar em direitos pessoais sobre o estabelecimento. Elementos do Estabelecimento Empresarial: Do próprio conceito, depreende-se que o estabelecimento é formado por vários bens distintos. É o conjunto dos bens que representa o estabelecimento, não se devendo confundi- lo com o local do exercício da atividade. O estabelecimento é um conceito mais amplo que abrange todos esses bens, unidos pelo empresário para o exercício da empresa. Nesse sentido, o estabelecimento é composto por dois tipos de bens: a) bens corpóreos: mercadorias do estoque, terrenos, edifícios, construções, usinas, armazéns, máquinas, equipamentos, produtos acabados, balcões, mobiliário, veículos, etc. b) bens incorpóreos: nome comercial objetivo, título e insígnia do estabelecimento, patentes de invenção, de modelos de utilidade, registro de desenhos industriais; marcas de produto ou serviço, marcas de certificação, marcas coletivas, obras literárias, artísticas, científicas, estratégia, logística, nome empresarial, titulo do estabelecimento, know how, ponto comercial e o aviamento. O traço comum entre os vários elementos integrantes do estabelecimento é a organização feita pelo empresário para o desenvolvimento da atividade. Não é essencial que todos os elementos integrantes estejam sujeitos ao mesmo tipo de direito do empresário, isto é, os elementos podem ser objetos de direitos distintos (propriedade, uso, direitos pessoais). Em função disso, não é correto falar em propriedade do estabelecimento, mas em titularidade dos direitos que asseguram a utilização dos vários elementos. Como já dito, esses vários elementos, que integram o estabelecimento, podem ser tanto bens materiais quanto imateriais. Na primeira categoria encontramos mercadorias do estoque, mobiliário, equipamentos e maquinaria. Já na segunda categoria encontramos patentes de invenção, marcas registradas, nome empresarial, título do estabelecimento, ponto empresarial e nomes de domínio (Enunciado 7 da I Jornada de Direito Comercial). Alguns desses elementos merecem um tratamento especial, seja pela sua importância, seja pela controvérsia sobre a sua natureza de elemento do estabelecimento. Vejamos: O ponto empresarial Diretamente relacionado ao imóvel, mas não se confundindo com ele, está o chamado ponto empresarial, que é um elemento incorpóreo do estabelecimento que pertence ao empresário. Em muitos casos, a localização do exercício da empresa se mostra fundamental para o sucesso da empresa. Na maioria dos casos, a clientela do empresário surge e aumenta em função especificamente do local onde se exerce a atividade. Tal localização também pode ser atrativa para os próprios fornecedores, especialmente no caso das atividades industriais. Uma loja de roupas, situada num centro comercial de grande movimento, tem expectativas maiores de lucros, em função do local em que está situada. Do mesmo modo, os restaurantes em centros empresariais, aeroportos. Outro exemplo que pode ser dado, embora um tanto mórbido, é o caso da localização de funerárias próximas a hospitais. Em todos esses casos, o local assume papel preponderante, e se destaca da própria propriedade do imóvel, surgindo o ponto empresarial como bem incorpóreo integrante do estabelecimento. O ponto empresarial é um bem diferente do imóvel,tanto que pode ser até objeto de locação, sem que isso desvirtue a sua natureza de elemento do estabelecimento. Quando o imóvel pertence ao empresário, a proteção do ponto decorre da própria proteção da propriedade do imóvel. Mesmo nos casos de locação do imóvel, o ponto empresarial é protegido como um elemento integrante do estabelecimento, assegurando-se ao empresário o direito de renovação da locação, atendidas determinadas hipóteses legais, e a indenização no caso de não renovação. Ressalte-se que no caso de locação não há uma dupla propriedade sobre o imóvel, o que há é um direito pessoal do locatário em face do proprietário. A Lei 8.245/91, em seu artigo 51, garante ao empresário o direito de renovar a locação desde que: (a) o contrato de locação tenha sido celebrado por escrito e tenha prazo determinado; (b) o prazo mínimo do contrato a renovar ou a soma dos prazos ininterruptos dos contratos escritos seja de cinco anos; (c) o locatário esteja explorando a mesma atividade nos últimos três anos ininterruptamente. Com esses requisitos, protege-se o interesse do empresário que já conquistou alguma clientela, em função daquele ponto empresarial. Todavia, essa proteção não pode representar uma violação ao direito constitucional de propriedade do locador, que poderá opor a chamada exceção de retomada, no caso do artigo 52, da Lei 8.245/91. A proteção do ponto cede espaço à proteção do direito de propriedade, em situações que justifiquem esta última. O locador não está obrigado a renovar o contrato se tiver que fazer obras no imóvel que impliquem sua radical transformação, por determinação do poder público, ou para fazer modificações que aumentem o valor do negócio ou de sua propriedade. Também não há obrigação de renovação, quando o locador resolver retomar o imóvel para uso próprio. Ainda não caberá a renovação no caso de retomada do imóvel para instalação de estabelecimento existente há mais de um ano, cujo titular seja seu cônjuge, ascendente ou descendente, ou ainda para sociedade cuja maioria do capital social pertença ao locador, seu cônjuge, ascendente ou descendente. Nesses casos, o imóvel não poderá ser usado para o mesmo ramo do locatário, salvo se a locação envolva instalações e pertences. Tais hipóteses de retomada não se aplicam à locação em shopping centers (art. 52, § 2Q, da Lei 8.245/91). O locador pode ainda evitar a renovação se a proposta do locatário não atender ao valor locativo real do imóvel, descontada a valorização decorrente da atividade do locatário. Também se pode evitar a renovação se houver proposta de terceiro para locação em condições melhores. Neste último caso, a proposta não pode ser para atuação no mesmo ramo do locatário, e este tem o direito de igualar a proposta para obter a renovação. Protege-se também o ponto empresarial, assegurando-se ao locatário uma indenização pelos prejuízos decorrentes da mudança de lugar, se for negada a renovação em função da proposta de terceiros e, se no prazo de três meses, o locador não iniciar as obras, ou não der o destino prometido ao imóvel (art. 52, § 3º, da Lei 8.245/91). Essa indenização deve abranger o dano emergente e os lucros cessantes decorrentes da mudança, da perda do local e da desvalorização do estabelecimento. Aviamento O aviamento é um dos bens incorpóreos que compõe o estabelecimento e consiste no sobrevalor pago pela organização do estabelecimento. O aviamento, por sua vez, pode ser objetivo ou subjetivo, não sendo rara a cumulação desses dois tipos. O aviamento objetivo, não depende de algum sujeito para acontecer, isto é independe da atitude do empresário. Ex.: Basta que o estabelecimento esteja localizado em um shopping para que ele tenha valor agregado. O sobrevalor é medido pela capacidade de o estabelecimento gerar lucro. Já o aviamento subjetivo consiste no sobrevalor que depende da ação do empresário (melhores fornecedores, melhor atendimento, estética mais apresentável, etc.). A franquia, por exemplo, é um aviamento subjetivo, pois ao adquirir uma franquia, está-se adquirindo também uma organização própria, personalizada. Nome empresarial O nome empresarial também consiste em um elemento incorpóreo do estabelecimento. Isso porque, o “bom nome na praça” está incorporado ao negócio. Contratos Os contratos são elementos incorpóreos que compõem o estabelecimento, podendo ser renunciados por cláusula específica no trespasse. Títulos e PI Os títulos de propriedade intelectual são incorpóreos, e pode ou não serem transmitidos pelo trespasse. Essa transmissão, embora não dependa de cláusula específica no contrato de trepasse, é recomendável que cláusulas especificas sejam previstas no trespasse, devendo, ainda, o contrato de trespasse ser encaminhado ao INPI para fins de comunicação da transmissão e alteração da propriedade no registro. Imóveis? Não se pode negar que o imóvel é um bem que é utilizado pelo empresário para o exercício da atividade empresarial. Todavia, discute-se na doutrina se o imóvel compõe o estabelecimento empresaria. Marlon Tomazette, por exemplo, afirma que os imóveis seriam elementos integrantes do estabelecimento quando pertencentes ao empresário. Nos casos de locação ou outros usos do imóvel, Marlon Tomazette reconhece este não integra o estabelecimento, mas apenas o direito de uso sobre aquele imóvel. Rubens Requião, por sua vez, nega tal qualidade aos imóveis, afirmando que eles seriam elementos da empresa, mas não do estabelecimento. Ele justifica sua tese com o argumento de que o estabelecimento é uma coisa móvel e que por isso não poderia ser constituído de coisas imóveis. O professor é adepto à concepção de Requião, isto é, entende que o imóvel não integra o estabelecimento com base no fato que a tutela do estabelecimento na lei não abrange o imóvel. Se for transferida a propriedade de um estabelecimento, por exemplo, o imóvel em que a empresa concentra suas atividades deve ser vendido por meio de um contrato separado, e a propriedade somente será reconhecida mediante as regulares solenidades legais (escritura pública e registro em Cartório de Imóveis). Isso demonstra que o imóvel não é considerado parte do estabelecimento no direito atual. Aviamento x Clientela: O estabelecimento, enquanto articulado para o exercício da atividade empresarial, possui um sobrevalor em relação à soma dos valores individuais dos bens que o compõem, relacionado a uma expectativa de lucros futuros, a sua capacidade de trazer proveitos. Essa mais-valia do conjunto é que se denomina, como já visto, de aviamento. O aviamento pode decorrer das causas mais variadas. Ele pode ser subjetivo, quando ligado às qualidades pessoais do empresário, ou objetivo, quando ligado aos bens componentes do estabelecimento na sua organização. Em qualquer acepção, o aviamento deve ser entendido como o sobrevalor em relação a simples soma dos valores dos bens singulares que integram o estabelecimento e resumem a capacidade do estabelecimento, por meio dos nexos organizativos entre os seus componentes singulares, de oferecer prestações de empresa e de atrair clientela. Em outras palavras, o aviamento é a aptidão da empresa para produzir lucros, decorrente da qualidade de sua organização. Esse aviamento tem um valor próprio, reconhecido pelo próprio Código Civil, em seu artigo 1.187, III, que representa um acréscimo em relação aos demais componentes do estabelecimento. Assim, a soma dos bens singulares que compõem o estabelecimento é menor do que o valor do estabelecimento em si. O valor do estabelecimento não é dado simplesmente pela soma dos valores singularesdos elementos que o compõem, mas também pela soma dos valores dos elementos e do aviamento que, em razão de sua natureza, também compõe o estabelecimento. O aviamento, enquanto elemento do estabelecimento, é medido essencialmente pela clientela do empresário, vale dizer, quanto maior for o número de clientes, maior é o aviamento. A clientela é o conjunto de pessoas que, de fato, mantêm com a casa de comércio relações contínuas para aquisição de bens ou serviços. Ela não se confunde com o aviamento, sendo apenas um efeito seu, que se converte em uma espécie de coeficiente, vale dizer, quanto maior a clientela, maior o aviamento. Tal conjunto de pessoas, como se pode intuir, não é um bem, e consequentemente não pode ser objeto de um direito do empresário, não havendo que se falar em um direito à clientela. A clientela é uma situação de fato, fruto da melhor organização do estabelecimento, do melhor exercício da atividade. Diante disso, não pode restar dúvida de que não se pode incluir a clientela como um elemento do estabelecimento. A clientela não é um bem imaterial, objeto autônomo de direito; é uma situação de fato, à qual se atribui um valor econômico, muitas vezes relevante, que é protegido indiretamente pela lei. Não obstante seja incorreto falar-se em direito à clientela, é certo que há uma proteção jurídica a ela, consistente nas ações contra a concorrência desleal. Todavia, tal proteção não torna a clientela objeto de direito do empresário, pois o que se protege na verdade são os elementos patrimoniais da empresa, aos quais está ligada a clientela. Esta recebe uma proteção apenas indireta. O que o ordenamento jurídico protege são os instrumentos usados para formar e conservar a clientela. O estabelecimento enquanto objeto de negócios jurídicos: O empresário, para exercer a empresa, necessita de um complexo de bens dos mais diversos tipos, móveis, imóveis, materiais, imateriais etc. Apesar da diversidade, tais bens são unidos pela finalidade comum a que se destinam, formando o estabelecimento. Tal unidade permite que tratemos o conjunto de bens como um todo, não sendo necessário o tratamento separado para cada um dos seus componentes. Ora, sendo possível o tratamento unitário do conjunto, é certo que o conjunto de bens - o estabelecimento - pode ser objeto de negócios jurídicos, que sejam compatíveis com a sua natureza. O Código Civil reconhece tal possibilidade expressamente no seu artigo 1.143 e no artigo seguinte menciona a possibilidade de alienação, arrendamento ou instituição de usufruto do estabelecimento. Todavia, há que se ressaltar que os negócios com o estabelecimento não se confundem com os negócios envolvendo um conjunto qualquer de bens. A organização dos bens para determinado fim é extremamente relevante e influi até no valor dos negócios. Assim sendo, é certo que são negócios distintos os que envolvem o estabelecimento e os que envolvem um conjunto de bens, cabendo perquirir a vontade das pessoas envolvidas para definir de que tipo de negócio está se tratando. Além disso, os negócios com o estabelecimento também não se confundem com os negócios envolvendo quotas ou ações de sociedade. Nestes casos, a sociedade continuará sendo a mesma e manterá os mesmos direitos sobre o estabelecimento. O que poderá ocorrer é apenas a mudança da titularidade do controle da sociedade e, por conseguinte, da direção da atividade, não havendo qualquer mudança nos direitos que são exercidos sobre os bens, uma vez que a pessoa jurídica continuará a ser a mesma. A forma dos negócios sobre o estabelecimento empresarial é livre. Exige-se forma escrita para fins de prova e validade perante terceiros. No caso de bens que exijam forma especial para o negócio, como os imóveis, a forma especial deverá ser obedecida. Os negócios que envolvem o estabelecimento (alienação, usufruto, arrendamento) podem influir diretamente sobre interesses de terceiros, especialmente os credores do empresário. Em função disso, esses terceiros devem ter a oportunidade de tomar conhecimento dos negócios envolvendo o estabelecimento. Por essa razão, o artigo 1.144 do Código Civil estabelece um regime de publicidade e publicação oficial para os negócios envolvendo o estabelecimento. Assim, a lei exige que os negócios envolvendo o estabelecimento sejam averbados no registro público de empresas mercantis, à margem do registro do empresário, e que seja feita uma publicação na imprensa oficial sobre o negócio. A averbação deixa um registro aberto ao público em geral. Qualquer pessoa pode ter acesso ao teor da negociação, uma vez que o registro é público. A publicação na imprensa oficial funciona como uma comunicação geral, presumindo- se o conhecimento do negócio por terceiros. Vale dizer, a publicação no órgão oficial da notícia da negociação funcionará como uma espécie de primeira notificação aos credores para que tenham conhecimento da negociação, resguardem seus direitos e saibam quem é o titular do estabelecimento, a partir de então. Compete à junta comercial a exigência de apresentação do comprovante de publicação na imprensa oficial, nos termos do artigo 1.152 do Código Civil. Vale destacar que a lei exige apenas a publicação na imprensa oficial, sendo uma mera faculdade a publicação em jornal de grande circulação, vale dizer, há uma exceção legal ao regime de publicação do artigo 1.152, § l e, do Código Civil. A publicidade e a publicação oficial não são condições de validade do negócio, mas condições de eficácia perante terceiros. Apenas com o cumprimento de tais exigências é que os negócios envolvendo o estabelecimento produzem efeitos perante terceiros. Por exemplo, o artigo 1.146 do Código Civil afirma que as obrigações regularmente contabilizadas são transferidas ao adquirente do estabelecimento, permanecendo o alienante solidariamente responsável pelo prazo de um ano. Esse efeito só é produzido com a averbação e a publicação. Do mesmo modo, o prazo mencionado só começa a ser contado com a publicação. No presente estudo, ganhará destaque o negócio jurídico de transferência do estabelecimento, denominado trespasse. Vejamos abaixo. Alienação do estabelecimento: Tratando-se de uma universalidade de fato, é certo que o estabelecimento pode ser alienado como um todo, como uma coisa coletiva – é o que recebe na doutrina a denominação de trespasse. Nessa negociação, transfere-se o conjunto de bens e seus nexos organizativos e, por conseguinte, o aviamento. Ressalte-se desde já que se cogita da venda em conjunto dos bens necessários para o exercício da atividade e não das quotas ou ações de uma sociedade. No trespasse há uma alteração do titular do estabelecimento. Mesmo nos casos de alienação parcial, se é transferida a funcionalidade do estabelecimento devem ser aplicadas as regras inerentes ao trespasse. Das condições de eficácia da alienação O trespasse pode influenciar diretamente nos interesses dos credores do alienante do estabelecimento, na medida em que boa parte de seu patrimônio poderá estar passando às mãos de outra pessoa. Diante disso, o Código Civil (art. 1.145) protege mais diretamente os credores do alienante, impondo como condição de eficácia da alienação o pagamento de todos os credores ou a concordância expressa ou tácita sobre alienação. Pagos os credores, seus interesses deixarão de existir em relação ao trespasse. Mesmo sem o pagamento, o trespasse poderá ser eficaz se os credores concordarem tácita ou expressamente com a alienação dentro do prazo de 30 dias após a sua notificação, demonstrando que seus interesses não serão prejudicados com o negócio. Neste particular, é oportunoressaltar que não basta a publicidade normal do trespasse, é necessária uma notificação pessoal aos credores (cartório, carta com aviso de recebimento...). Nessa linha, o Código Civil reforça a proteção dos interesses dos credores e dá uma segurança maior ao negócio. Todavia, nada impede que posteriormente se configure a ineficácia do negócio, nos termos do artigo 129, VI, da Lei 11.101/05, o qual também inquina de ineficácia a alienação do estabelecimento sem o pagamento de todos os credores, ou sem o consentimento expresso ou tácito destes em 30 dias contados de sua notificação. Em qualquer caso, será válida e eficaz a alienação se o empresário mantiver bens suficientes para o pagamento dos credores. Trata-se de uma inovação salutar que permite de forma ágil o combate a fraudes no trespasse, na medida em que permite o reconhecimento da ineficácia da alienação, na proteção dos interesses dos credores. Da transferência dos débitos Partindo-se do pressuposto de que o estabelecimento é uma universalidade de fato, isto é, um conjunto de bens, é certo que os débitos do empresário não integram o estabelecimento, embora façam parte do patrimônio do mesmo. Os débitos não são bens que integram o estabelecimento, eles são apenas ônus que gravam o patrimônio do empresário. Como não integram o estabelecimento, no trespasse as dívidas não eram transferidas, salvo disposição em contrário das partes, obtida a anuência dos credores, ou da lei (art. 133 do CTN e art. 448 da CLT). Assim, antes do Código Civil era necessária a inserção de uma cláusula no contrato do trespasse para que houvesse a sucessão, ou uma determinação legal específica. Com o advento do Código Civil (art. 1.146), o adquirente do estabelecimento sucede o alienante nas obrigações regularmente contabilizadas, como ocorre no direito italiano. Todavia, há que se ressaltar que o alienante continua solidariamente obrigado por um ano a contar da publicação do trespasse no caso de obrigações vencidas, ou a contar do vencimento no caso das dívidas vincendas. Essa regra não se justifica pela essência do contrato de trespasse, mas pela proteção dos terceiros credores, que são titulares de créditos ligados ao exercício da empresa. Tal proteção, contudo, é temperada pela proteção à boa-fé do adquirente, que deve saber das obrigações para poder ser responsabilizado. Muitas vezes, pelo tamanho do estabelecimento, os terceiros têm a confiança de que a obrigação será cumprida. Esses terceiros veem nos elementos do estabelecimento sua maior garantia e devem continuar a ter nesses elementos sua garantia, mesmo após a transmissão. Por isso, o adquirente sucede o alienante nas obrigações. Há uma dupla proteção: o adquirente como titular do estabelecimento passa a ser o devedor da obrigação e o alienante continua solidariamente responsável. Vale destacar que a responsabilidade do adquirente atinge apenas as obrigações regularmente contabilizadas, isto é, a sucessão só ocorrerá se houver escrituração e esta estiver regular. Em todo caso, o adquirente pode e deve requerer a exibição integral dos livros do alienante, para conhecer essas obrigações. Débitos tributários No que tange aos débitos tributários, não se cogita da aplicação do artigo 1.146 do Código Civil, mas do artigo 133 do Código Tributário Nacional. Por força deste dispositivo, independentemente da contabilização, o adquirente do estabelecimento terá responsabilidade pelas obrigações tributárias do alienante relativas ao exercício da atividade. Registre-se que não se trata de uma sucessão universal nas obrigações tributárias, mas de uma sucessão limitada às obrigações referentes ao exercício da atividade empresarial, protegendo-se o fisco. Tal responsabilidade poderá ser integral ou subsidiária, a depender da postura do alienante. Caso o alienante prossiga na exploração ou inicie, dentro de seis meses a contar da data da alienação, nova atividade econômica, a responsabilidade do adquirente pelas obrigações tributárias será apenas subsidiária, vale dizer, ele somente será chamado a responder se o alienante não honrar tais obrigações. Nesses casos, apesar da transferência do estabelecimento, entende-se que o alienante continua a ter condições de arcar com suas obrigações, responsabilizando-se o adquirente apenas subsidiariamente. De outro lado, caso o alienante não prossiga e não reestabeleça em seis meses qualquer atividade econômica, a responsabilidade do adquirente será integral. Nesse caso, presume-se que o alienante não tem mais capacidade de arcar com as obrigações tributárias que lhe tocavam e, por isso, impõe-se a responsabilidade por tais obrigações exclusivamente ao adquirente. A ideia aqui é manter a obrigação com quem possui a titularidade dos bens vinculados ao exercício da atividade. Parte da doutrina afirma que esse integralmente deve ser entendido como solidariamente em relação ao alienante, pois nem sempre o adquirente terá condições de arcar com os débitos tributários. No entanto, como a solidariedade não se presume, outra parte da doutrina, entende que essa responsabilidade integral significa que o adquirente responde sozinho. Em todo caso, lembre-se que as partes poderão disciplinar a sucessão tributária entre elas. Contudo, tal disciplina não afetará o fisco, uma vez que as convenções particulares não têm o condão de modificar a definição legal do sujeito passivo das obrigações tributárias (CTN, art. 123). Qualquer ajuste feito entre alienante e adquirente valerá entre as partes, mas não terá qualquer efeito sobre o fisco. Débitos trabalhistas Em razão da natureza protetiva do Direito do Trabalho, o artigo 448 da CLT estabeleceu expressamente: “A mudança na propriedade ou na estrutura jurídica da empresa não afetará os contratos de trabalho dos respectivos empregados”. Apesar das diferenças terminológicas, o referido dispositivo impõe a transferência automática dos contratos de trabalho e de todas as obrigações trabalhistas ao eventual adquirente do estabelecimento. Quem tem a propriedade dos bens essenciais ao exercício da atividade terá todas as responsabilidades trabalhistas ligadas a essa atividade. Todavia, em que pese a tratativa da Justiça do Trabalho em favor do trabalhador, aplicando-se o artigo 448 da CLT, é plenamente possível a aplicação do artigo 1.146 do Código Civil a tais obrigações, isso porque, prevê tal dispositivo que a sub-rogação dos contratos é presumida quando não há previsão no contrato e desde que os contratos não sejam personalíssimos. Em sendo o contrato de trabalho personalíssimo, há entendimentos (inclusive do professor) de que o contrato de trabalho não se transmite, por expressa previsão do Código Civil. O problema reside no fato de que, o que se vende no contrato de trespasse é o estabelecimento, e não a pessoa jurídica e nem as relações trabalhistas. O trespasse, portanto, gera um risco, tendo em vista o impasse descrito. Processos de falência e de recuperação judicial Outra situação especial envolve os processos de falência e de recuperação judicial. Nesses processos, é inegável que pode ocorrer a alienação de estabelecimento, seja para a satisfação dos credores, seja como forma de manutenção da atividade, nas mãos de outra pessoa. Para tomar viável tal alienação, não haverá nenhum tipo de sucessão em relação às obrigações do devedor, inclusive as de natureza tributária ou trabalhista (Lei 11.101/2005, arts. 60 e 141). Vale a pena destacar que não haverá nenhum tipo de sucessão em relação às obrigações do devedor, inclusive as de natureza tributária. Privilegia-se a continuação da atividade que, alongo prazo, terá maiores benefícios do que o simples pagamento dos credores. A sorte da empresa (atividade) é distinta da sorte do empresário e, por isso, deve-se viabilizar sua continuação sem as obrigações que tocavam ao devedor. Neste particular, os credores também não restarão prejudicados, na medida em que eles se sub-rogarão no produto da venda dos estabelecimentos isolados. O STJ e o STF têm reconhecido que a competência para decidir se há ou não sucessão é do juízo da recuperação e este vem afirmando não haver sucessão pelas obrigações trabalhistas. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento da ADIN 3.934, acabou concluindo pela perfeita constitucionalidade do referido dispositivo, asseverando que: “Do ponto de vista teleológico, salta à vista que o referido diploma legal buscou, antes de tudo, garantir a sobrevivência das empresas em dificuldades – não raras vezes derivadas das vicissitudes por que passa a economia globalizada –, autorizando a alienação de seus ativos, tendo em conta, sobretudo, a função social que tais complexos patrimoniais exercem, a teor do disposto no art. 170, III, da Lei Maior”. Para evitar que pessoas de má-fé se beneficiem dessa não responsabilização, haverá sucessão por todas as obrigações do devedor se o adquirente for sócio do devedor ou de sociedade controlada pelo devedor; parente, em linha reta ou colateral até o 4º grau, consanguíneo ou afim, do devedor ou de sócio da sociedade devedora; ou for identificado como agente do devedor com o intuito de fraudar a sucessão. O grau de proximidade entre o adquirente e o devedor é um indício suficiente de má-fé para afastar o benefício na não responsabilização. Da transferência dos créditos A transmissão dos créditos, relativos ao exercício da atividade, decorre diretamente do trespasse, seja como contrapartida da assunção de débitos, seja pelo fato de os créditos serem integrantes do estabelecimento. Quem assume débito deve ter a contrapartida dessas obrigações, recebendo os créditos ligados à atividade. Além disso, os créditos devem ser considerados bem incorpóreos que integram o estabelecimento e consequentemente são transferidos no trespasse. A cessão dos créditos, em regra geral, depende da notificação do devedor para produzir efeitos perante o mesmo (Código Civil, art. 290). Diferente não é a situação no trespasse, uma vez que a cessão só produz efeitos perante os devedores a partir da publicação do trespasse no órgão oficial (Código Civil, art. 1.149). Tal publicação funcionaria como uma notificação a todos os devedores. Apesar da cessão operada, nem sempre os devedores tomarão conhecimento efetivo do trespasse, podendo, eventualmente, efetuar o pagamento ao antigo titular do estabelecimento. Nesse caso, protege-se a boa-fé dos terceiros, exonerando aquele que pagou de boa-fé ao alienante, restando ao adquirente um acerto com o alienante. Ora, não é razoável exigir a conferência dos registros públicos do empresário antes de efetuar um pagamento ao mesmo, para verificar se ele não transferiu o estabelecimento. Tal exigência não se coadunaria com a celeridade dos negócios empresariais. Além disso, o adquirente não fica prejudicado, na medida em que pode exigir do alienante o recebimento dos créditos. Da transferência dos contratos O trespasse tem por objeto não apenas um mero conjunto de bens, mas um conjunto de bens coordenados para o exercício de uma atividade. Assim sendo, com o trespasse devem ser dadas as condições necessárias para a continuação da atividade. Neste particular, ganham especial relevo os contratos firmados para o exercício da atividade empresarial, na medida em que há uma estreita conexão entre os contratos e os bens integrantes do estabelecimento. Em função disso, conquanto a princípio não integrem o estabelecimento, pois não são bens, o Código Civil (art. 1.148) estabelece que, salvo disposição em contrário, o adquirente se sub-roga nos contratos estipulados para exploração do estabelecimento, se não forem personalíssimos. Trata-se de uma sub-rogação legal que independe da vontade do contratante, excepcionando-se a regra geral de sucessão nos contratos. Para a sub-rogação, exige-se, em primeiro lugar, que o contrato seja relativo ao exercício da empresa, isto é, deve haver um nexo entre o contrato e a atividade exercida por meio do estabelecimento. Além disso, se exige que o contrato não tenha caráter pessoal. Assim, haverá sucessão em contratos de compra e venda de mercadorias e em contratos de prestação de serviços, ligados ao exercício da empresa. O disposto no artigo 1.148 é uma regra geral, que pode ser excepcionada pela vontade das partes. Além disso, na condição de regra geral, tal dispositivo cede lugar a regras especiais que podem impedir a transferência de contratos, como no caso dos contratos administrativos e do contrato de locação. O contrato de locação não é transferido no trespasse, por força do artigo 13 da Lei 8.245/91, que exige formalidades adicionais para a transferência do contrato de locação. Nesse sentido o Enunciado 234 da III Jornada de Direito Civil: “Quando do trespasse do estabelecimento empresarial, o contrato de locação do respectivo ponto não se transmite automaticamente ao adquirente”. Trata-se de medida extremamente justa e lógica, pois se protege a manutenção da unidade econômica do estabelecimento, sem, contudo, afetar as relações personalíssimas, nas quais não haverá sucessão. O adquirente é protegido diretamente com a sucessão legal. Entretanto, os terceiros não são prejudicados na medida em que, nas relações personalíssimas ou quando houver justa causa, não haverá a sucessão. A proteção ao adquirente do estabelecimento com a sub-rogação legal não é absoluta, isto é, o terceiro contratante pode se proteger em caso de sub-rogações injustificadas. Os terceiros poderão rescindir o contrato, nos 90 dias seguintes à publicação do trespasse, desde que haja justa causa para tal rescisão. Tal justa causa pode dizer respeito às qualidades pessoais do adquirente do estabelecimento, pois, se as condições pessoais do alienante foram determinantes na formulação do negócio, não se pode exigir que o contratante prossiga com outra parte na avença. Além disso, a justa causa pode dizer respeito também a questões de formulação objetiva como, por exemplo, a existência de uma ação judicial do terceiro contratante em desfavor do adquirente, se a transferência acarretar situação diversa da combinada ou mesmo das expectativas, para a execução das prestações pendentes. Rescindido o contrato por justa causa, é certo que tal justa causa decorreu do trespasse. Em tais casos, há um inadimplemento por parte do alienante do estabelecimento, que consequentemente deve ser responsabilizado pelos danos decorrentes. Se ao transferir o contrato o alienante acabou dando causa à rescisão do mesmo, ele deve responder pelos prejuízos causados. Da cláusula de não restabelecimento Regularizado o trespasse, discutia-se, no regime anterior (Código Civil de 1916), a validade da chamada cláusula de não restabelecimento, vale dizer, da imposição do alienante não fazer concorrência ao adquirente, diante do texto constitucional que estabelece a liberdade para o exercício da profissão. Tal cláusula era implícita no próprio negócio, tendo em vista a necessidade de se manter a integridade do estabelecimento para manter a capacidade objetiva de percepção de lucros. O Código Civil de 2002 (art. 1.147), adota-se a orientação do direito italiano, estatuindo legalmente a proibição de concorrência pelo prazo de cinco anos, salvo disposição expressa em contrário. De imediato, é oportunoesclarecer que não se trata de uma proibição do exercício da mesma atividade anteriormente desenvolvida, mas sim de uma proibição de concorrência entre alienante e adquirente. O alienante pode continuar desenvolvendo a mesma atividade empresarial, desde que não faça concorrência ao adquirente do estabelecimento. Trata-se de uma proteção do aviamento, que não viola qualquer liberdade constitucional, na medida em que limitada no tempo tal proibição. Caso se tratasse de uma proibição por prazo indeterminado, não haveria dúvida da inconstitucionalidade desta. Todavia, com a limitação de cinco anos, se restringe uma liberdade para tutelar outra, sem destruir nenhuma das duas. Não se limita a liberdade de concorrência, mas se evita a concorrência desleal. Ora, a pessoa que adquire um estabelecimento em operação, ao invés de constituir um estabelecimento partindo do nada, o faz em virtude da expectativa de lucro decorrente do estabelecimento. Quem adquire um estabelecimento paga um valor a mais por essa expectativa – o aviamento –, que na maioria dos casos está ligada a relações pessoais que o empresário mantém com a clientela. Assim sendo, nada mais justo e lógico do que assegurar ao adquirente o gozo desse aviamento, proibindo o alienante de lhe fazer concorrência, roubar-lhe a clientela e, consequentemente, se enriquecer indevidamente. Trata-se de um meio indireto de tentar transferir a clientela, uma vez que essa transferência direta é impossível. A clientela não é um bem e consequentemente não pode ser vendida. Apesar disso, no trespasse o objetivo maior é que a clientela continue vinculada ao estabelecimento e um dos meios de conseguir isso é justamente o não restabelecimento do alienante. Ainda sobre o trespasse, recapitulando... O estabelecimento, devido sua natureza, pode ser objeto de negócio jurídico, como usufruto, hipoteca, etc. Neste estudo, o aprofundamento da matéria pautou-se na transferência do estabelecimento. Assim, preconiza o CC que pode ser o estabelecimento objeto de negócio jurídico translativo ou constitutivo. Vejamos: Art. 1.143. Pode o estabelecimento ser objeto unitário de direitos e de negócios jurídicos, translativos ou constitutivos, que sejam compatíveis com a sua natureza. A compra e venda de um estabelecimento recebe um nome espacial: “Trespasse”, que consiste em uma das maneiras de vender o estabelecimento de outrem. O artigo 1.148 do CC preceitua que, salvo disposição expressa, o trespasse importa na sub-rogação dos contratos inerentes àquele estabelecimento, ou seja, os contratos essenciais à organização vão englobados na venda. Como o próprio artigo prevê, se no contrato tiver cláusula expressa prevendo o contrário, os contratos inerentes não são transferidos. Outra observação vale ser pontuada: a sub-rogação dos contratos é presumida quando não há previsão no contrato e desde que os contratos não sejam personalíssimos, em regra. Dai constata-se um problema: a CLT, no artigo 448, no entanto, estabelece que os contratos de trabalhos, cuja natureza é personalíssima, permanecem inalterados, aconteça o que acontecer com a pessoa jurídica. Todavia, há entendimentos de que o contrato de trabalho não se transmite, por expressa previsão do Código Civil. Essa concepção consiste em um dos piores problemas do Direito Empresarial, haja vista que a Justiça do Trabalho aplica o artigo 448 da CLT nas demandas trabalhistas. O problema reside no fato de que, o que se vende no contrato de trespasse é o estabelecimento, e não a pessoa jurídica e nem as relações trabalhistas. O trespasse, portanto, gera um risco, tendo em vista o impasse descrito. Abaixo, o dispositivo civilista que aduz ser intransferível os contratos personalíssimos em caso de venda do estabelecimento comercial: Art. 1.148. Salvo disposição em contrário, a transferência importa a sub-rogação do adquirente nos contratos estipulados para exploração do estabelecimento, se não tiverem caráter pessoal, podendo os terceiros rescindir o contrato em noventa dias a contar da publicação da transferência, se ocorrer justa causa, ressalvada, neste caso, a responsabilidade do alienante. O artigo retrotranscrito ainda prevê que os terceiros podem rescindir o contrato em noventa dias a contar da publicação da transferência, se ocorrer justa causa, recaindo ao alienante eventual responsabilidade por dano gerado ao comprador do estabelecimento em decorrência da rescisão contratual. A lógica aqui é que, ao comprar o estabelecimento, o valor do contrato rescindido estava embutido na venda, pois era inerente à organização do estabelecimento. Sendo assim, o dano deve ser recompensado em caso de não subsistirem os contratos sub-rogados no prazo previsto em lei. O contrato cujo objeto é o estabelecimento empresarial ainda só vai surtir efeitos a terceiros quando registrado na Junta Comercial: Art. 1.144. O contrato que tenha por objeto a alienação, o usufruto ou arrendamento do estabelecimento, só produzirá efeitos quanto a terceiros depois de averbado à margem da inscrição do empresário, ou da sociedade empresária, no Registro Público de Empresas Mercantis, e de publicado na imprensa oficial. O artigo 1.145 do CC, por sua vez, estabelece que a transferência do estabelecimento pode ser ineficaz se não restar bens para adimplir o passivo do alienante. Todavia, essa regra comporta exceções lógicas. A transferência pode surtir efeitos se, antes de ser efetivada, o alienante quitar suas dívidas. A segunda hipótese em que a transferência terá eficácia é no caso em que o alienante notifica seus credores acerca da venda e, passados trinta dias, nenhum deles se manifesta, ocorrendo a anuência tácita quanto à alienação. Art. 1.145. Se ao alienante não restarem bens suficientes para solver o seu passivo, a eficácia da alienação do estabelecimento depende do pagamento de todos os credores, ou do consentimento destes, de modo expresso ou tácito, em trinta dias a partir de sua notificação. O artigo 94, III, “c”, da Lei 11.101/05, prevê uma sanção ao empresário que transfere o estabelecimento comercial mediante manifestação contrária de seus credores e sem que haja resguardo para fins de quitação das dívidas, consistente na decretação da falência do alienante. Vejamos: Art. 94. Será decretada a falência do devedor que: (...) III – pratica qualquer dos seguintes atos, exceto se fizer parte de plano de recuperação judicial: c) transfere estabelecimento a terceiro, credor ou não, sem o consentimento de todos os credores e sem ficar com bens suficientes para solver seu passivo; EIRELI – UM RECORTE DO DIREITO SOCIETÁRIO (EMPRESARIAL II) EIRELI (EMPRESA INDIVIDUAL DE RESPONSABILIDADE LIMITADA) A EIRELI, Empresa Individual de Responsabilidade Limitada, é uma modalidade nova prevista na Lei 12.441/2011. A primeira questão que se pontua acerca da modalidade em questão diz respeito à pronúncia: é EIRÉLI ou EIRELÍ? É EIRELÍ! Há muito tempo já se vinha discutindo técnicas de limitação do risco, pois em responsabilidade limitada se consegue dimensionar o quanto vai se apostar no negócio. A grande questão que sempre se discutiu no cenário internacional é limitar o crédito. Nesse contexto, há dois modelos de limitação do risco: LTDA e S.A. No direito estrangeiro são adotadas as seguintes técnicas de limitação do risco: a) Sociedades unipessoais: adotada pelo direito alemão, ela segue as regras das sociedades limitadas, mas ela tem apenas um sócio: eu mesmo. Constitui-se uma pessoa jurídica e o sócio exerce ele mesmo a atividade. No Brasil, aplicou-se essa teoria permitindo atualmenteque um advogado pode constituir uma sociedade sozinho. b) Patrimônio de afetação: adotada em Portugal e Espanha, coloca-se uma barreira no patrimônio de forma que somente pode ser afetado o patrimônio da sociedade. No Brasil, no que se refere à limitação de risco, foi inventada uma nova pessoa jurídica prevista no art. 44, CC, a EIRELI. Com a atualização legal, têm-se agora três formas de empreender atividade de empresário: a) Empresário Individual; b) Sociedade Empresária; e c) EIRELI. Mas qual seria a natureza jurídica da EIRELI? O que quis o legislador? Criar uma nova espécie de Empresário Individual ou Sociedade Unipessoal? Essa indagação surge por causa da “confusão” causada pelo próprio dispositivo legal que regula a Empresa Individual de Responsabilidade Limitada. O art. 980-A do Código Civil, inserido pela Lei 12.441/2011, menciona “empresa individual” e “capital social” no caput. Art. 980-A. A empresa individual de responsabilidade limitada será constituída por uma única pessoa titular da totalidade do capital social, devidamente integralizado, que não será inferior a 100 (cem) vezes o maior salário-mínimo vigente no País. A primeira expressão induz pensar que se trata de um Empresário Individual e a segunda se relaciona à Sociedade Empresária, haja vista a necessidade de composição do capital social. Ocorre que a expressão “empresa individual” é tecnicamente imprópria, posto que “empresa” se trata de uma atividade e não de uma pessoa natural ou jurídica. De igual modo, a sociedade pressupõe a união de esforços de várias pessoas e, por isso, seria inadequado dizer que a EIRELI é uma sociedade unipessoal ou sociedade de uma pessoa só. Para dirimir a questão, a I Jornada de Direito Comercial do Conselho de Justiça Federal, leciona no enunciado nº 3 que “a Empresa Individual de Responsabilidade Limitada – EIRELI não é sociedade unipessoal, mas um novo ente, distinto da pessoa do empresário e da sociedade empresária”. Em resumo, no que diz respeito à EIRELI, durante anos, os empreendedores brasileiros conviviam com um impasse, pois caso pretendessem constituir empresa em que pudessem desenvolver a atividade pessoalmente teria que ver comprometido o seu patrimônio pessoal pelos ônus decorrente de seu negócio, já que não existia legislação que regulasse tal situação. A fim de suprir essa lacuna jurídica, foi criado o instituto da empresa individual de responsabilidade limitada, cuja sua sigla é EIRELI pela Lei n° 12.441 de 2011, trazendo para o Código Civil a vigência do artigo 980-A – “Da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada” e consequentemente a alteração do Código Civil nos artigos 44 (inserindo o inciso VI, do qual enumera a EIRELI no rol das pessoas jurídicas de direito privado) e 1.033 (estabelecendo a possibilidade de requerimento de transformação de sociedade, obstruindo sua dissolução compulsória). A partir de então, tornou-se possível à constituição de empresa, tendo como titular um único indivíduo e ao mesmo tempo vê-se separado o seu patrimônio particular daquele integralizado ao capital social da empresa. Portanto, a responsabilidade do empresário limita-se ao capital social da empresa, salvo em caso de comprovada fraude. A lei da EIRELI dispõe que de forma subsidiária, no que couber, que deverão ser aplicadas as regras previstas para as sociedades limitadas. O referido instituto tem como requisitos aqueles já utilizados na constituição do empresário individual de responsabilidade ilimitada (capacidade, exercício dos atos de comércio e profissão habitual), denominados pela doutrina como gerais, bem como aqueles elencados no artigo 980-A do Código Civil (único titular, capital social igual ou superior a 100 vezes o maior salário-mínimo do país, devendo ser totalmente integralizado), chamados pela doutrina como requisitos específicos. A constituição de tal modalidade empresarial pode ser realizada originalmente, a partir da elaboração e registro do contrato que disciplinará a sua vida empresarial, ou de forma derivada, através da transformação de sociedade empresária ou empresário individual de responsabilidade ilimitada em EIRELI. No caso da transformação da sociedade empresária em ERELI, um dos sócios adquire a cota dos demais e concentra em seu poder o capital social. É importante frisar, também, que nas hipóteses de transformação em EIRELI, o CNPJ da pessoa jurídica permanece o mesmo. No tocante ao nome empresarial, o legislador deixou esclarecido no §1º do artigo 980-A a inclusão da sigla “EIRELI” após a firma ou denominação social da empresa constituída, por exemplo, “JOÃO DA SILVA – EIRELI” (firma) ou “FLASH PRODUTOS ESPORTIVOS – EIRELI” (denominação). A administração da EIRELI poderá ser feita tanto pelo seu titular ou até mesmo por uma ou mais pessoas distintas de seu instituidor. Desde que, dentre os quais designados no ato constitutivo como administradores, seja declarada a inexistência de impedimento para o exercício de tal função, nos termos do artigo 1.011 do Código Civil e na Instrução Normativa DNRC nº 17. No que se refere à dissolução da EIRELI, aplica-se de forma subsidiária, no que couber, as possibilidades de dissolução de sociedade dispostas no Código Civil em seu artigo 1.033, como por exemplo, pelo vencimento do prazo do contrato constitutivo, por deliberação pessoal do empreendedor. Da mesma maneira, os institutos jurídicos da desconsideração da personalidade jurídica, recuperação e falência também são empregados de forma subsidiária, à EIRELI. A desconsideração da personalidade jurídica será aplicada nos casos em que seja caracterizado o abuso de poder ou desvio de finalidade por parte do empresário instituidor. E, no que tange a recuperação e falência, vale salientar que após ser decretada a falência da EIRELI, haverá a arrecadação somente do patrimônio da pessoa jurídica, ausentando-se desse rol, os bens pessoais do instituidor, como também não será considerado falido o titular da EIRELI, portanto não sofrerá os efeitos da falência. Críticas e indagações: A pessoa que forma a EIRELI pode ser natural ou jurídica ou incapaz? De onde vem esse valor estipulado para constituir o capital social? Constituição da EIRELI O §2º do artigo 980-A preceitua que a EIRELI só pode ser constituída por uma única pessoa natural. Obs1: Incapaz pode constituir? O §6º do artigo 980-A preceitua que se aplica as disposições da LTDA e, portanto, o incapaz devidamente representado ou assistido pode ser titular de EIRELI (lembrando que o incapaz não poderá ser o empresário). Contudo, o DREI (Departamento de Registro Empresarial e Integração), na Instrução Normativa nº 10/2013, afirma que o incapaz não pode ser titular de EIRELI, ao argumento de que a EIRELI é um instrumento de proteção ao indivíduo e, por isso, o incapaz não estaria apto a ser titular de uma EIRELI, já que o exercício dessa modalidade de atividade empresarial dependeria de um terceiro que, por óbvio, estaria colocando em risco o patrimônio alheio. Obs2: Pessoa jurídica pode constituir EIRELI? Primeiro há de se destacar que o caput do artigo 980-A se refere à pessoa, que no ordenamento jurídico brasileiro pode ser natural ou jurídica. Todavia, o §2ª do aludido dispositivo menciona a pessoa natural. Assim, é possível que a interpretação sistêmica aponte para a possibilidade de constituição de EIRELI também por pessoa jurídica. No entanto, ainda assim, pela Lei, é impossível responder tal indagação. Dessa forma, o CJF/STJ se manifestou por meio do Enunciado nº 468 da VJDC que a pessoa jurídica não pode constituir EIRELI, em razão da possibilidade de fraudesque isso geraria, principalmente no que tange à dificultação de responsabilização (afetação). O Enunciado, então, passou a ser incorporado pelas Juntas Comerciais, que proibiam a constituição de EIRELI por pessoa jurídica, embora haja essa possibilidade numa interpretação extensiva da Lei. No entanto, recentemente, o DREI editou uma Instrução Normativa autorizando a constituição de EIRELI por pessoa jurídica, o que passou a ser plenamente permitido e possível. Ato constitutivo da EIRELI Não existe contrato social para constituição de EIRELI, uma vez que não existem sócios na sua formação. O ato constitutivo da EIRELI, então, é chamado apenas de “Ato Constitutivo”, “Ato de Fundação” ou “Estatuto”, e suas regras seguem as formas previstas para a LTDA. Peculiaridades da EIRELI A principal delas diz respeito ao capital social (capital inicial), que deve ser igual ou superior a 100 vezes o maior salário-mínimo do país. Isso por si só já gera uma crítica significativa. Isso porque, uma pessoa natural que investe cem salários-mínimos está disposta a assumir um risco alto, uma vez que passa a exercer atividade empresarial com responsabilidade limitada atrelada a um valor considerável, muitas das vezes mais alto do que o valor eventualmente afetado se fosse empresário individual, com responsabilidade ilimitada. A solução (desvio) para esse problema é a comum prática do 99% contra 1%, na qual a pessoa constitui uma sociedade limitada com capital social inferior a 100 salários-mínimos, colocando 1% das cotas em nome de outrem e 99% em nome próprio. Assim, percebe-se que a EIRELI não cumpre sua finalidade, na maioria dos casos. Outra crítica que surge é com relação à constitucionalidade do requisito, uma vez que a Constituição veda a utilização do salário mínimo como base de cálculo, bem como que a quantidade expressiva para a constituição do capital social exigido impede substancialmente a livre iniciativa, já que a parcela da população que tem condições de investir nessas proporções é mínima. Ainda no que tange ao capital social de uma empresa, é possível afirmar que o capital inicial desempenha algumas funções. Uma delas é a realização da atividade empresarial. Outra função é o poder político, consubstanciado na capacidade de tomada de decisões, uma vez que o capital social é uma das formas de ditar qual dos sócios tem mais poder de decisão. Essas duas funções são caracterizadas como funções internas, ou seja, diz respeito à sociedade constituída. A terceira função do capital social, esta caracterizada como função externa, se refere à garantia dos credores, tendo em vista que, na pior das hipóteses, o credor da sociedade empresária terá como garantia o capital social correspondente. Abaixo os seis parágrafos do artigo 980-A do Código Civil, que exprimem com exatidão as demais peculiaridades da EIRELI: § 1º O nome empresarial deverá ser formado pela inclusão da expressão "EIRELI" após a firma ou a denominação social da empresa individual de responsabilidade limitada. § 2º A pessoa natural que constituir empresa individual de responsabilidade limitada somente poderá figurar em uma única empresa dessa modalidade. § 3º A empresa individual de responsabilidade limitada também poderá resultar da concentração das quotas de outra modalidade societária num único sócio, independentemente das razões que motivaram tal concentração. § 4º VETADO. § 5º Poderá ser atribuída à empresa individual de responsabilidade limitada constituída para a prestação de serviços de qualquer natureza a remuneração decorrente da cessão de direitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular da pessoa jurídica, vinculados à atividade profissional. § 6º Aplicam-se à empresa individual de responsabilidade limitada, no que couber, as regras previstas para as sociedades limitadas. TÍTULOS DE CRÉDITO Noções básicas sobre o crédito: Por crédito entende-se o dinheiro que um indivíduo ou uma instituição empresta a alguém, estipulando certas condições para a sua devolução (juros, prazos, etc.). Um crédito bancário, por exemplo, é aquele que é oferecido por um banco aos seus clientes. Neste caso, o banco torna-se credor ao entregar uma determinada quantia ao cliente, que passa a ser devedor. A devolução do empréstimo deve realizar-se conforme os requisitos acordados; caso contrário, podem aplicar-se distintos tipos de punições. Existem diferentes tipos de créditos que podem gerar diferentes resultados (lucros e/ou prejuízos), a depender do risco que envolve as relações obrigacionais garantidas pelos mais diversos títulos de crédito. Os créditos de consumo, por exemplo, são aqueles que são disponibilizados às pessoas com mais facilidade, para os mais diversos fins (realizar uma viagem, remodelar a casa ou organizar um casamento, por exemplo), exigindo-se, normalmente, um ônus elevado, consubstanciado em juros significativos que recaem sobre as parcelas do crédito correspondente. Os créditos de capital, em contrapartida, são outorgados para fins de investimento e, por este motivo, geralmente apresentam as taxas de juros mais brandas do mercado. São exemplos os créditos voltados para aquisição de imóveis, maquinários, ampliação de cômodo comercial, etc. Além disso, perante as instituições financeiras autorizadas a emitirem crédito, são exigidos procedimentos específicos para sua obtenção e a comprovação da utilização do crédito, fatores que justificam, em primeira análise, a discrepância entre as taxas de juros aplicadas ao crédito de consumo e as taxas aplicadas ao crédito de capital. Importância dos títulos de crédito: Os títulos de crédito são instrumentos que facilitam a circulação de riqueza materializada na cártula, com fundamento no crédito. O crédito, por seu turno, pode ser definido como a junção da confiança (moral e jurídica) com o prazo conferido para cumprimento da obrigação descrita no referido instrumento ou cártula. Aqui, aquele que tem o potencial de investimento maior que o potencial de gasto fornece o crédito para aquele em que a realidade é inversa, ou seja, que tem o potencial de gasto maior que o potencial de investimento. Dessa forma, o mercado é constantemente alimentado com os benefícios oriundos dos créditos, gerando poder de compra, avanço em inovações, desenvolvimento econômico, etc. Conceito clássico de título de crédito: Segundo o conceito clássico do italiano Cesare Vivante, “título de crédito é o documento necessário para o exercício do direito, literal e autônomo, nele mencionado”. Esse conceito doutrinário foi praticamente reproduzido pelo art. 887 do CC, senão veja-se: “título de crédito é o documento necessário ao exercício do direito literal e autônomo nele contido, mas que somente produz efeitos quando preenche os requisitos da lei”. Deste conceito é possível extrair os princípios gerais do regime jurídico-cambial, ou seja, do direito cambiário. Três são os princípios que informam o regime jurídico-cambial: cartularidade, literalidade e autonomia. A seguir, breves ponderações acerca dos princípios mencionados. Princípios gerais do regime jurídico-cambial: Princípio da Cartularidade (ou incorporação): exige a existência material do título ou, como versa Vivante, o documento necessário. Assim sendo, para que o credor possa exigir o crédito deverá apresentar a cártula original do documento – título de crédito. Garante, portanto, este princípio, que o possuidor do título é o titular do direito de crédito. Significa dizer que o direito se incorpora no documento, exigindo-se a apresentaçãoda cártula de crédito para o exercício do direito nela contido. Esse princípio comporta algumas mitigações. Sendo assim, para fins de instrução processual, alguns títulos, principalmente aqueles de alto valor, podem ser dispensados mediante requerimento, da apresentação do documento original logo no início do processo, exigindo-se o compromisso de que o mesmo título seja apresentado ao final da lide. Tal mitigação se justifica pela falta de segurança nas secretarias das varas judiciais que, em regra, deveriam acautelar a cártula de crédito. Outra maneira de mitigação a esse princípio é quando o título de crédito é necessário para a instrução de um processo, mas, que no momento instrui outros autos, sendo permitido, nesse caso, a reprodução de cópias. A cartularidade tem admitido, atualmente, a desmaterialização dos títulos de créditos, em razão das transações digitais que podem gerar boletos que correspondem a determinada duplicada, por exemplo. Assim, a quitação do boleto anula a duplicata. Nesse contexto, é possível afirmar, conforme entendimento da doutrina majoritária, que a cartularidade ganhou novos contornos, consistente no fato de que o direito se incorpora tanto a documentos físicos quanto nos documentos virtuais, bastando que seja seguro e suficientemente hábil a demonstrar qual o direito existente. Princípio da Literalidade: o título vale pelo que nele está mencionado, em seus termos e limites. Para o credor e devedor só valerá o que estiver expresso no título. Deve, por conseguinte, constar a assinatura do avalista para que seja válido o aval, por exemplo. Esse princípio é importante para aferir quem é responsável pelo cumprimento da obrigação descrita literalmente no título de crédito, bem como qual a extensão de tal obrigação – o que passa a ser uma segurança para a circulação dos títulos de crédito. Destaque-se que a cobrança de valores acessórios que decorrem de lei (ex.: correção monetária e juros de mora se estiverem explícitos no título de crédito) não se encontra prejudicada por tal princípio, havendo quem indique que nesses casos haveria “literalidade indireta”. Por outro lado, de acordo com nova tendência da jurisprudência do STJ, os títulos de crédito também podem servir para cobrança de encargos previstos em outro documento, desde que o título de crédito faça remissão a tal documento. Princípio da Autonomia: desvincula-se toda e qualquer relação havida entre os anteriores possuidores do título com os atuais e, assim sendo, o que circula é o título de crédito e não o direito abstrato contido nele. É o princípio mais importante, segundo o qual a emissão do título de crédito ou qualquer declaração acessória nele contida (ex.: aval, endosso) constitui direito novo, autônomo e completamente desvinculado da relação jurídica que lhe deu origem. A doutrina normalmente ainda se refere a dois subprincípios para facilitar a compreensão da autonomia. Vejamos: a) Abstração: Estabelece que eventual irregularidade ou nulidade do negócio jurídico que motivou a emissão do título de crédito não macula a validade deste. Em outras palavras, não se vincula a cártula ao negócio jurídico principal que a originou, visando a proteção do possuidor de boa-fé. b) Inoponibilidade de exceções pessoais aos terceiros de boa-fé: o devedor não pode se negar a cumprir o que consta do título de crédito, apresentando exceções pessoais referentes a anteriores portadores ou titulares da cártula, salvo se ficar cabalmente demonstrado que o atual titular recebeu a cártula de má-fé. Trata-se da manifestação processual do princípio da autonomia. Abaixo, o esquema que representa várias relações autônomas que deverão ser cumpridas pelo que consta no título de crédito repassado de uma relação a outra. A - B - C - D - E Solidariedade cambiária (art. 47, LUG): Ainda valendo-se do esquema acima, é possível afirmar que várias pessoas podem ser responsáveis por um único título de crédito mediante assinatura (saque, emissão, aceite, endosso, aval e intervenção). Dessa forma, havendo a transmissão do título em diversas relações, presentes os requisitos, o credor de posse do título pode exigir de um, de alguns ou de todos o pagamento integral. Importante esclarecer, porém, que a solidariedade aqui não é igual a do Direito civil, mas ambas possibilitam a integral exigência da dívida. Abaixo, as principais diferenças: SOLIDARIEDADE CIVIL SOLIDARIEDADE CAMBIAL A obrigação de cada devedor decorre de uma causa comum A obrigação de cada devedor decorre de uma causa distinta Existe uma unidade de prestação (art. 264, CC) Existe uma pluralidade de prestações, conforme a quantidade de devedores dos títulos O devedor que adimplir tem direito de regresso quanto aos demais. Nem todos terão o direto de regresso (exemplo: o aceitante da letra de câmbio) A solidariedade pode ser convencional ou legal (art. 265, CC) Será sempre Legal (art. 47, LUG) Relação 1 Relação 2 Relação 3 Relação 4 Qualquer devedor pode extinguir a obrigação Há devedor principal O que adimplir a totalidade tem o benefício da divisão, regresso em desfavor de todos, conforme a quota de cada co-devedor (art. 283, CC) Solidariedade sucessiva. Se nascer o direito de regresso ele só pode ser exigível aos devedores anteriores. Quando exigido o regresso será por todo o valor do título e não pela quota A interrupção da prescrição em desfavor de um devedor afeta os demais (art. 177 e 204, CC) A prescrição é autônoma e individual para cada devedor (art. 70 e 71, LUG) Simples e pura condicional (Art. 266, CC) Não admite obrigação condicional (arts. 1º, 12 e 26, LUG) Legislação cambiária: Cada título de crédito é regulado primeiramente por uma lei especial (Ex.: a Lei Uniforme de Genebra que trata do regime da letra de câmbio e da nota promissória, a Lei do Cheque, a Lei das Duplicatas etc.). As disposições do Código Civil sobre os títulos de crédito (arts. 887 a 926) somente têm aplicabilidade subsidiária e em último caso, se omissa ou lacunosa a legislação especial, conforme regra do seu art. 903: “salvo disposição diversa em lei especial, regem-se os títulos de crédito pelo disposto neste Código”. Títulos de créditos típicos e atípicos: Fábio Ulhoa Coelho afirma que não existe título de crédito sem previsão legal. Todavia, alguns doutrinadores afirmam que se podem criar títulos de créditos, tendo em vista as regras gerais estabelecidas pelo Código Civil para nortear eventual criação de títulos de crédito entre particulares. Esse entendimento também é o entendimento do professor, que afirma que os títulos atípicos são regulados pelo Código Civil, e ignorar a existência de títulos atípicos significaria também ignorar as regras impostas pelo Código. Para o professor, é imprescindível ter em mente que o Código Civil de 2002 contém uma disciplina geral para os títulos de crédito idealizada com os objetivos de: a) autorizar a criação dos títulos de crédito atípicos ou inominados; b) servir de disciplina suplementar aos títulos de crédito nominados ou típicos, naquilo em que houver compatibilidade; e c) conferir aos títulos novos ou aos que vierem a ser criados uma disciplina referencial para remissão, visto que as leis específicas de vários títulos determinam que a eles se apliquem, quando cabíveis, subsidiária ou complementarmente, as normas sobre as cambiais. Não houve o intuito de conformar uma disciplina geral de títulos de crédito visando a enumeração e reunião dos dispositivos comuns de parte ou da totalidade das inumeráveisespécies existentes de títulos de crédito. Optou-se por arquitetar uma disciplina básica, genérica, direcionada para os títulos atípicos ou inominados, isto é, àqueles documentos dotados de certas características próprias dos títulos de crédito, criados de conformidade com as exigências e dinâmica dos negócios, porém não previstos em lei. A regulamentação geral não se aplica, destarte, diretamente aos títulos de crédito definidos e disciplinados em leis especiais (cédulas de crédito, duplicatas, nota promissória, letra de câmbio, etc.), a não ser quando compatíveis com estes e em caráter suplementar (CC, art. 903). Adotou-se, assim, tal como no Código Civil Italiano de 1942, o princípio da livre criação e emissão de títulos de crédito atípicos ou inominados. Ao que parece, o intuito do legislador foi de fixar os requisitos mínimos dos títulos de crédito, ou uma tentativa de construção de uma teoria geral dos títulos de crédito (embora a regulamentação permaneça por lei especial e cambiária), ou melhor, para os futuros títulos de crédito. Para melhor compreensão, é necessário conceituar e explicar os títulos de crédito típicos e atípicos. Entendemos por TÍTULOS TÍPICOS aqueles definidos por um modelo legal, ou melhor, consistem na impossibilidade de se emitirem títulos de crédito que não estejam definidos pela própria lei. Os títulos típicos, ou com previsão legal, são em numerus clausus e só podem ser emitidos quando especialmente regulados por lei. Ao revés, os TÍTULOS ATÍPICOS designam um documento não expressamente previsto na legislação, mas que, nem por isso, estão inteiramente afastados dos princípios reguladores dos títulos típicos ou nominados. No Brasil, adotava-se um posicionamento sobre os títulos de crédito, segundo o qual os mesmos somente podem ser criados por lei diante da necessidade de garantir certeza e segurança no recebimento do crédito, em intensa circulação nas atividades mercantis. Todavia esse posicionamento tomou novos contornos com o Código Civil de 2002, no qual foi proposta a possibilidade dos particulares, diante de necessidades específicas, criarem títulos de crédito ao lado do legislador ordinário. Este procedimento já ocorre em outros países, como na Itália no seu Código Civil de 1942, na Suíça no seu Código Federal das Obrigações, e no México na sua Lei Geral de Títulos de Operações de Crédito de 1932, e suas posteriores alterações. Com esse procedimento, ou melhor, com a adoção desse procedimento, extingue-se o monopólio legal do estado de criação dos títulos de crédito, transferindo-se essa função igualmente aos particulares como exercício da autonomia privada. O argumento mais convincente utilizado pela doutrina para adoção e criação dos títulos de crédito atípicos ou inominados é a de que eles fomentam a dinamicidade dos negócios, possibilitando concretizar a criatividade das fontes materiais do Direito Empresarial. Mas este não é um posicionamento pacífico, porquanto sujeito a muitas controvérsias. São exemplos de títulos típicos a letra de câmbio, nota promissória, cheque, etc. Um exemplo de título de crédito atípico usado no país é o chamado FICA (ou “vaca papel”), que visa instrumentalizar os direitos decorrentes do contrato de parceria pecuária. Neste contrato, o objeto é a cessão de animais para cria, recria, invernagem e engorda, mediante partilha proporcional dos riscos e dos frutos ou lucros havidos. O título (vaca-papel) representaria justamente o direito ao recebimento dos lucros e à devolução dos animais entregues. É certo, contudo, que os títulos atípicos, embora sejam títulos de crédito, não são títulos executivos, na medida em que a executividade pressupõe um reconhecimento legal específico. A tipicidade não atinge mais os títulos de crédito, mas atinge ainda os títulos executivos. Características dos títulos de crédito: Conforme exposto acima, o legislador, ao recepcionar a definição clássica do que seriam os títulos de crédito, adicionou a previsão: "somente produz efeitos quando preencha os requisitos da Lei", ou seja, permitiu‐se que cada título de crédito tenha características próprias que poderão ser dispostas em legislação específica. No entanto existem algumas características em comum que devem ser destacadas. São elas: Natureza jurídica O título de crédito é um bem móvel e está sujeito aos princípios gerais dos bens móveis. A posse de boa-fé equivale à propriedade (art. 16 da Lei Uniforme de Genebra – LUG). A natureza móvel atende uma das principais funções dos títulos de crédito que é a rápida circulação. Pro solvendo ou pro soluto? A simples emissão e entrega do título não extingue a obrigação que a originou, assim, o título possui característica pro solvendo, sendo necessário para extinção o efetivo pagamento. Em outras palavras, significa que a simples entrega do título não dá ensejo à efetivação do pagamento. Representará, apenas, uma quantia em dinheiro que o credor receberá em momento oportuno, quando, aí sim, haverá a extinção da obrigação correspondente. A obrigação originária e a cambiária coexistem. O desaparecimento do título não obstaria uma cobrança baseada em eventual contrato que originou a dívida ou ainda uma ação de conhecimento para que se reconheçam os direitos do credor. De outra sorte, excepcionalmente o título de crédito pode também assumir o caráter pro soluto. A diferença é que, nesse caso, haverá a extinção da obrigação com a mera transferência do título ao credor, pois, aqui, a entrega corresponderá ao pagamento e, por conseguinte, à extinção da obrigação de origem. De forma que o credor terá apenas o direito cambial, não podendo rediscutir a causa debendi. Mister ressaltar que, para que o título assuma o caráter pro soluto, será necessário que seja assinalado expressamente a quitação com a simples tradição do título. Assim, reclama-se, para operar esse efeito, de cláusula explícita, o que raramente acontece na praxe. Circulação Para assegurar a rápida o segura circulação de riquezas o ordenamento jurídico conferiu maior proteção aos títulos de crédito. Contudo, existem títulos que não circulam, mas é exceção. Título de resgate O título é criado não para permanecer entre as partes originárias, mas para ser resgatado pelo devedor, quando do pagamento da obrigação pactuada. Assim, uma vez apresentado e o devedor pagar o título, o credor deve devolvê-lo para o devedor. O resgate, então, significa tirar o título de circulação quando quitada a obrigação nele veiculada. Título de apresentação Em regra, os títulos de créditos devem ser apresentados para que a obrigação possa ser exigida. Dessa forma, é aconselhável que o pagamento só se dê mediante apresentação do título, objetivando o seu resgate logo após. Do contrário, ter-se-á o risco de o título continuar circulando e outra pessoa apresentá-lo para pagamento. Esse descuido pode ser representado pelo brocardo “quem paga mal paga duas vezes”. Obrigação quesível Em toda obrigação, uma das partes deve tomar a iniciativa para o adimplemento. No caso dos títulos de crédito o credor deve dirigir-se ao devedor para exigir o cumprimento da obrigação, até porque, devido à natureza circulatória do título, nem sempre o devedor saberá quem é o credor tratando-se, portanto, de uma obrigação quesível. Executividade Os títulos de crédito possuem eficácia processual abstrata, pois permitem a execução direta, sem a necessidade de uma ação de conhecimento para reconhecer o crédito. Os títulos de crédito são títulos executivos extrajudiciais (art. 784, CPC) e não precisam de ratificaçãojudicial. Essa característica aplica-se apenas aos títulos típicos. Formalidade Os títulos de créditos são formais. Isto quer dizer que deverão obedecer a uma forma prescrita em lei, sob pena de não representarem valor como título de crédito. Se no título faltar, por exemplo, a expressão "Nota Promissória", este documento poderá ser considerado como uma confissão de dívida, mas nunca uma Nota Promissória. É que, nessa hipótese, estará ausente um requisito essencial de ordem legal. É também o caso da Nota Promissória que não contenha o valor por extenso ou em que o valor escrito esteja rasurado. Importante ressaltar que, em regra, o título pode ser formalizado em qualquer meio escrito (qualquer papel, pro exemplo), desde que obedecidas as formalidades legais. Essa observação, no entanto, não se aplica ao cheque, que deve ser redigido sobre material específico, por exigência do Banco Central. Assim, no que tange ao modelo propriamente dito, ele pode ser livre ou vinculado. No primeiro, basta atender os requisitos legais. No segundo, além dos requisitos legais, há um modelo padronizado, como é o caso do cheque que deve seguir o modelo estabelecido pelo Banco Central. Classificações dos títulos de crédito: Quanto à natureza Títulos causais: São aqueles que guardam vínculo com a causa que lhes deu origem, constando expressamente no título a obrigação pelo qual o título foi assumido, sendo assim, só poderão ser emitidos se ocorrer o fato que a lei elegeu como uma possível causa para o mesmo. Podem circular por endosso. Ex.: duplicatas. Títulos abstratos: São aqueles que não mencionam a relação que lhes deu origem, podendo ser criados por qualquer motivo. Ex.: letra de câmbio, cheque. Essa característica exprime a ideia do princípio da abstração, ou seja, os títulos se abstraem do negócio de origem. Obs.: É possível transformar um título de crédito naturalmente abstrato em título causal, bastando apenas que conste em seu corpo a vinculação a determinado negócio jurídico. Títulos limitados (fuc): É uma subcategoria criada por Fábio Ulhoa. Consiste no título que só pode ser emitido em virtude de um negócio (compra e venda de produto ou prestação de um serviço). Esse subcategoria não faz muito sentido, pois está abarcada pela classificação dos “títulos causais”. Quanto ao modo de circulação Títulos nominativos: O nome do credor (pessoa indicada como beneficiária da prestação a ser realizada) vem mencionado no texto do título de crédito. Significa que o título carrega o nome do beneficiário. Sua circulação se faz mediante um termo de cessão ou de transferência. Títulos à ordem: São título nominativos, mas significa que o título circula mediante endosso (assinatura de transferência do título). A transmissão da propriedade do documento se realiza com a somatória de uma declaração (endosso) e a tradição do documento. O texto do documento menciona a identidade do credor por meio de uma declaração de vontade (o endosso). Títulos não à ordem: Não circulam por endosso, mas isso não significa que o título não circula. Sua circulação se dará por cessão de crédito. É uma alteração dos títulos „à ordem‟. Sua circulação se faz através de uma cessão, que requer um termo de transferência assinado pelo cedente e pelo cessionário. Como consequência da cessão, o cedente se obriga apenas com o cessionário, não em relação aos posteriores possuidores do título. Títulos ao portador (cheques Lei 9.069/96): Não se menciona a identidade do credor (beneficiário da prestação). Será considerado titular dos direitos incorporados nos documentos a pessoa que com ele se apresentar e, ainda, a sua circulação se faz por simples tradição manual, basta a transmissão da posse do documento. É a forma menos segura, porque se houver o extravio do título, perde-se também o crédito. No Brasil, a Lei 8.021/90 (art. 4º) proibiu os títulos ao portador. No entanto, o cheque consiste em exceção quando o valor nele contido é inferior a R$ 100,00 (cem) reais. Quanto à estrutura Ordem de pagamento: Tem-se a ordem de pagamento quando alguém ordena o pagamento para outrem. Relação sacado-sacador-tomador. Em outras palavras, por esta estrutura o saque cambial dá origem a três situações distintas: sacador ou emitente, que dá a ordem para que outra pessoa pague; sacado, que recebe a ordem e deve cumpri-la; e o beneficiário, que recebe o valor descrito no título. Ex.: letra de câmbio, cheque. Promessa de pagamento: Não é ordem, paga-se diretamente ao outro polo da relação e, por isso, envolve apenas duas situações jurídicas: promitente, que deve, e beneficiário, o credor que receberá a dívida do promitente. Ex.: nota promissória. Quanto ao modelo Títulos livres: é aquele em que o modelo é livre, podendo ser feito em qualquer papel. Títulos vinculados: Devem atender a um padrão específico, definido por lei, para a criação do título. Um título que exemplifica essa categoria é o cheque, pois o modelo do cheque é regulado pelo Banco Central. Quanto ao prazo de pagamento Título à vista: O título vence quando é apresentado (não significa que o título é compensado na hora, sua compensação depende da apresentação ao devedor). Título à prazo: Há um prazo estabelecido para o pagamento, podendo ser a) a certo termo da vista; b) a certo termo da dato; e c) termo certo. Vejamos: >> Certo termo da vista: Nesta modalidade, o vencimento será marcado com o decurso de prazo determinado pelo sacador cujo início coincide com a data do aceite realizado pelo aceitante. Significa dizer que o prazo é estabelecido e contabilizado a partir da vista do título pelo devedor. >> Certo termo da data: O texto do título prevê um prazo para o vencimento do título de crédito, que é contado a partir da data de criação do título. O título pode ser compensado durante o período estabelecido. >> Termo certo: A data certa para vencimento é disposta no título. LETRA DE CÂMBIO E ALGUNS ELEMENTOS EM COMUM DOS TÍTULOS DE CRÉDITOS Conceito de Letra de Câmbio: Entende-se por Letra de Câmbio uma ordem dada, por escrito, a uma pessoa, para que pague a um beneficiário indicado, ou à ordem deste, uma determinada importância em dinheiro. A letra de câmbio é um título de crédito, dotado de literalidade e de autonomia das obrigações. Desempenha importantíssima função econômica pela ampla utilização do crédito que proporciona. A letra de câmbio não é muito usual hoje em dia. Todavia, é importante o seu estudo, pois as suas normas são aplicáveis e incorporados nos demais títulos de créditos. Origem: A letra de câmbio, praticamente, começou a se formar na Itália, no século XIV. Para não transportar dinheiro de uma cidade para outra, estando uma pessoa sujeita à emboscada e à perda, procurava um banqueiro de sua própria cidade, que tinha relação comercial com outro banqueiro onde pretendia se dirigir, e entregava-lhe o dinheiro. Em troca, recebia uma carta, uma ordem de pagamento, que dava tal incumbência ao banqueiro de outra cidade, onde faria o pagamento. Assim, em vez de as pessoas transportarem dinheiro, transportavam a carta, documento representativo da soma a ser paga. Essa prática deu origem ao atual título de crédito, hoje de uso universal. Portanto, enviava-se dinheiro de um local para outro através do instrumento do contrato de câmbio: uma ordem de pagamento. Facilmente podemos imaginar a intervenção de, pelo menos, três pessoas nessa operação: o banqueiro que recebia o dinheiroe expedia a carta – o sacador; aquele que recebia a carta – o tomador ou beneficiário; e o encarregado do pagamento – o sacado. Atualmente, o mecanismo é o mesmo: há o sacador que emite a letra de câmbio, entregando-a ao tomador (credor), para que este receba do sacado (devedor). Histórico: Período Italiano: Período compreendido desde o início dos burgos independentes da baixa idade média até meados do século XVII; foi durante esse lapso temporal que se assistiu o surgimento do documento cambio per literas, que posteriormente viria a ser chamado de letra de pagamento de câmbio e, posteriormente, reduzido apenas à letra de câmbio. O aparecimento desse documento se deu diante do seguinte contexto: cada cidade italiana cunhava suas próprias moedas, acarretando intensos problemas ao intercâmbio comercial. Já era feito o câmbio local, mas com a transferência de valores por praças diferentes surgiu o problema de transportar consigo grandes somas por grandes distâncias, devido ao peso e volume das moedas. Também constituíam problemas os fatos de os viajantes serem frequentemente assaltados durante o trajeto e o difícil curso da moeda de outra praça no local onde se pretendia usá-la. O câmbio se caracteriza a partir de então pela distantia loci, passando o cambista a trocar a moeda presente pela promessa de moeda ausente naquela praça, mas que lhe seria entregue na praça de destino daquele que negocia com o cambista. Todo esse mecanismo era reduzido a escrito por um notário, de forma que contivesse a promessa de pagar e o reconhecimento expresso de um débito por parte do cambista ou banqueiro. Esse escrito era o que se convencionou chamar de cambium per literas ou cautio discreta. Com o passar do tempo, esse documento foi simplificado, contendo uma delegação de pagamento, entregue ao tomador com uma carta de apresentação ao correspondente. Figurava-se a letra de pagamento de câmbio. Para a emissão desse documento havia a necessidade de preencher três requisitos básicos, quais sejam: a) distancia loci (praças diferentes), b) permutatio pecunia (as moedas das respectivas praças também precisavam ser diferentes) e c) provisão do pagamento (existência de igual valor ao da letra de câmbio nas mãos do sacado, para que este pudesse efetuar o pagamento). Questionamento importante surge nesse período acerca do caso de não pagamento pelo sacado. Entendeu-se que nesses casos o apresentante do título deveria levá-lo ao notário para atestar a mora perante testemunha. Era o instituto da protestatio, que muito se relaciona com o protesto atualmente tido como meio garantidor de pagamento dos títulos de crédito. Período Francês: O período francês compreende o intervalo entre 1650 e 1848, de modo que as principais inovações surgiram com a Ordenança de 1673. Primeiramente, criou-se a cláusula à ordem, por meio da qual o tomador poderia transferir o título a qualquer pessoa mesmo sem o consentimento do sacador; a pessoa que recebia essa letra de câmbio adquiria todos os poderes de seu antecessor. Essa alteração permitiu maior circulação da letra de cambio por meio do instituto do endosso. Além disso, com o aceite da dívida, é preciso que haja um avalista a fim de se garantir o pagamento desta. Também é característica do período francês a possibilidade de protesto. Período Alemão: O período alemão compreende o intervalo de 1848 a 1930. Foi nesse lapso temporal que se processou a unificação do Direito Cambiário, com a origem da famosa Ordenança Geral Cambiária Alemã, influenciada pela teoria de Einnert. Fundamenta a teoria alemã a ideia de que para exercer a ação cambial não precisa o credor de dados que não constem na própria cambial e a ideia de a promessa não se dirige a credor determinado, pois é feita de forma geral ao público. De teoria vitoriosa de Einnert, consagrada no direito positivo, decorrem, entre outros, os seguintes efeitos para a cambia: a) desaparecem os requisitos de distancia loci e do valor recebido; b) a endossabilidade se torna elemento natural, implícito, desaparecendo a necessidade de cláusula “à ordem”; c) pode ser apresentada ao aceitante, e o portador exerce o direito de regresso contra o sacador, desde que não seja aceita ou paga; d) a assinatura posta no título é autônoma, independente das demais; e) é credor quem possui o título por uma série não interrompida de endossos; f) ao credor não podem ser opostas as exceções fundadas no direito pessoal. Fase da Unificação: Corresponde ao período dos anos 30 até os dias atuais. O marco histórico para o delineamento desse período foi a Convenção de Genebra de 1930, por meio da qual se concretizou a unificação universal das leis cambiais. Depois de longo período de discussão sobre o tema e de algumas tentativas não concretizadas, em 7 de junho de 1930, foram assinadas três convenções sobre os títulos de crédito, assim enumeradas: a) convenção de uma lei uniforme para a letra de câmbio e a nota promissória; b) convenção para regular os conflitos de leis sobre a letra de câmbio, nota promissória e protocolos; c) convenção no direito de selo de letras de câmbio e notas promissórias. O Brasil apenas em 1942 adere formalmente às três convenções, sendo que só foram aprovadas pelo Congresso Nacional em 1964, tendo o Presidente da República em 1966 determinado que fossem executadas e cumpridas. Há que se mencionar, no entanto, que o Brasil fez algumas reservas às convenções, não incorporando ao Direito Brasileiro os preceitos atingidos pela “reserva”, hipótese em que se aplica o Decreto nº 2.044 de 1908 aos casos concretos pertinentes. Partes: Na letra de câmbio os intervenientes possuem, no título, funções diversas. Vejamos: SACADOR, SUBSCRITOR ou EMITENTE – é aquele que dá a ordem, aquele que cria e emite a letra, dando a ordem de pagamento (é também denominado credor). SACADO ou DEVEDOR – é aquele a quem a ordem é dada, contra quem a ordem é dirigida. TOMADOR ou BENEFICIÁRIO – é aquele a favor de quem é emitida a ordem (é aquele que porta o título e que fica no lugar do credor). Legislação: >> Decreto 57.663/1966 que introduziu no Direito brasileiro a Lei Uniforme da Convenção de Genebra de 07/06/1930, constante do Anexo I, excetuados alguns artigos do Anexo II. >> Decreto 2.044/1908 nas partes não derrogadas e quando a LUG for silente, conforme entendimento do STF Obs.: Tanto o Decreto nº 2.044, como a Lei Uniforme tratam da Letra de Câmbio e da Nota promissória – são esses títulos diferentes, se bem que tenham muitos princípios em comum – dada a existência de tais princípios, a letra de câmbio e a nota promissória são chamadas de títulos cambiários ou, simplesmente, cambiais. Requisitos: Todo e qualquer título de crédito tem que obedecer a requisitos. Os títulos de crédito, especialmente pela cartularidade e literalidade, são marcados por extremo rigor formal. A letra de câmbio possui requisitos intrínsecos e extrínsecos. Intrínsecos são os requisitos previstos no artigo 104 do Código Civil, próprios do negócio jurídico. Assim, a validade do negócio jurídico requer: agente capaz, objeto lícito, possível e determinado ou determinável e forma prescrita ou não defesa em lei. Em princípio, os mesmos elementos essenciais do ato jurídico devem estar presentes na letra de câmbio, embora o direito cambiário tenha feito algumas adaptações; por exemplo, no caso de uma letra ser assinada por um incapaz, ela não será considerada nula, pois, a legislação cambiária, levando em consideração os princípios da autonomia das obrigações constantes nos títulos, e da independência das assinaturas,não impõe nulidade à letra de câmbio. Os requisitos extrínsecos, por suas vezes, estão previsto nos artigos 1º e 2º da LUG e são supríveis. Abaixo, os requisitos extrínsecos e suas características: Denominação: as palavras letra de câmbio, expressas no corpo do título e grafadas na língua empregada na sua redação. Este requisito foi denominado de cláusula cambiária, cuja função é a de identificar o título de crédito que se pretende circular. O nome do título de crédito é imprescindível. Ordem de pagamento: significa o mandato puro e simples. Aqui, ressalta-se que a ordem é incondicional, uma vez que a incondicionalidade é da essência da circulação do título, assim o cumprimento da obrigação materializada no título não pode se sujeitar ao implemento de condição alguma, seja ela suspensiva ou resolutiva. Primeira pergunta sobre a ordem: o que é uma condição? Evento futuro e incerto. Sabemos isso desde o estudo dos negócios jurídicos. Os títulos de crédito não podem ter seu cumprimento subordinado a uma condição. Não está escrito “pague-se a Vossa Senhoria se.” Essa incondicionalidade é tão forte que mesmo os países que não se vincularam à Convenção de Genebra adotam esse raciocínio. Nome da pessoa a quem a ordem é endereçada: qual é mesmo o nome dessa pessoa? O sacado. A pessoa responsável tem que ser especificada. Nome da pessoa a quem ou à ordem de quem deve ser feito o pagamento: quem é essa pessoa? O tomador/beneficiário. Aqui surge uma peculiaridade: a quem ou à ordem de quem deve ser efetuado o pagamento. Primeira situação: o tomador deve estar especificado, e a letra de câmbio não pode ser sacada ao portador. Significa que a letra de câmbio é um título eminentemente à ordem! Pelo menos quando de seu nascimento. Pode eventualmente se tornar ao portador, mas nasce à ordem. É próprio da circulação do título de crédito. Assinatura de quem dá a ordem de pagamento: quem é? O sacador. Dessa assinatura, geralmente acompanhada do nome do sacador, decorre a criação do título de crédito e a vinculação do sacador como codevedor do título. Por que a assinatura é essencial? A firma do emitente do título faz com que se crie a obrigação cambiária. O que é isso? Teoria da criação. Ao assinar, a ordem já possui vigência no ordenamento jurídico. Além de criar a letra de câmbio, o sujeito se coloca na condição de codevedor do título de crédito, o que implica solidariedade passiva. Mesmo assim deve-se buscar o devedor principal primeiro. Na hipótese de descumprimento que se busca, em juízo, qualquer um deles. Data do saque (ato de criação da letra de câmbio): o que é o saque? A criação da letra de câmbio. Por que a data do saque é importante, um requisito essencial, extrínseco? Para se apurar o vencimento ou eventual prescrição do título, que é a perda da pretensão da ação para exigir seu pagamento. Também para apurar a capacidade civil do sacador. Isso porque partimos do pressuposto que os requisitos intrínsecos já foram satisfeitos. Em suma, a importância da data do saque está relacionada com a verificação do vencimento, o transcurso do pagamento, e a apuração da capacidade civil do sacador. Lugar do pagamento ou menção de um lugar ao lado do nome do sacado. Observação: o art. 4º da LUG permite que a letra seja paga na localidade onde o sacado tem seu domicílio ou em qualquer outro lugar à sua indicação. Pode-se expressar o lugar em que o pagamento deverá ser efetuado. Em caso de silêncio, a regra é que se pague no endereço indicado ao lado do nome do Arthur, ou, se não houver nada mesmo, no domicílio do Arthur. Lugar do saque ou menção de um lugar ao lado do nome do sacador: para que isto? Para firmarmos a competência de jurisdição. Acerca dos requisitos extrínsecos, ainda vale a seguinte observação: qual a importância da data do saque? Verificação do vencimento. Mas, se assim é, não seria um requisito essencial da letra de câmbio? Faz sentido sacar uma letra de câmbio sem vencimento? A LU convencionou que a data do vencimento não é um requisito essencial, pois, sem a menção da data, pressupõe-se que o vencimento do título de crédito é à vista. Por isso não temos data do vencimento como requisito essencial. Se nada for dito acerca do vencimento, ele será à vista. Título em branco atende a formalidade?: O STF, por meio da Súmula 387 entende que a letra de câmbio emitida ou aceita com omissões, ou em branco, pode ser completada pelo credor de boa-fé antes da cobrança ou do protesto. Declarações cambiais: As declarações cambiais dividem-se em a) declaração cambial necessária ou originária: saque ou emissão; e b) declarações cambiais eventuais ou sucessivas: aceite, endosso, aval e protesto. a) Obrigações necessárias ou originárias – saque ou emissão: Emissão ou saque são termos que buscam identificar a criação do título de crédito. Nesse caso é declaração cambial necessária, essencial e completa-se forçosamente pela assinatura do declarante. A assinatura do declarante corresponde à declaração principal, porque sem ela não existirá o título. A assinatura, atendidos os requisitos legais, poderá constituir uma promessa direta de pagamento (ex., na nota promissória) ou numa promessa indireta de pagamento (ex., na letra de câmbio). É a assinatura o requisito mais importante de qualquer declaração cambial, pois dela decorre a obrigação do signatário. A declaração cambial que cria a nota promissória chama-se emissão e se completa pela assinatura do emitente. Essa declaração corresponde a uma promessa direta de pagamento que o emitente faz a favor do beneficiário da declaração. Há um compromisso direto de pagar a quantia determinada no título de crédito ao beneficiário. Já a declaração cambial que cria a letra de câmbio chama-se saque, correspondendo a uma ordem de pagamento. O saque é uma ordem de pagamento (ou promessa indireta de pagamento) dada pelo sacador (quem dá a ordem) ao sacado (a quem a ordem é dada) a favor do tomador (beneficiário da ordem). b) Obrigações eventuais ou sucessivas: Criado o título de crédito, as demais declarações podem surgir ou não, dependendo do interesse das partes envolvidas. Somente a primeira declaração é indispensável, pois as demais surgem em razão da conveniência das partes interessadas. Se a assinatura torna o signatário do título obrigado, cada nova assinatura representa mais uma declaração (constitui-se nova obrigação), fato que aumenta a garantia oferecida ao credor do título (portador). Aceite: O aceite é uma das espécies de declaração cambiária e não constitui elemento de todos os títulos de crédito. É imprescindível somente na letra de câmbio e duplicata. O aceite é a declaração produzida pela assinatura de quem o procede a fim de garantir o pagamento do título de crédito ao seu beneficiário. Nada obriga o sacado a aceitar a Letra de Câmbio, sendo que nenhuma obrigação lhe é colocada pelo fato do sacador ter-lhe endereçado a ordem de pagamento. Somente pelo aceite o sacado assume a sua obrigação cambial, pois é um ato livre de sua vontade. Regra geral, tem-se o aceite a partir da assinatura do sacado no anverso da Letra de Câmbio, devendo ter a respectiva expressão “aceito” ou outra equivalente, para que esse se torne válido. Sua forma tradicional é a assinatura do sacado no anverso do título, mas pode ser feita no verso do título, desde que igualmente seguida da expressão “aceito” ou afins. Aceite riscado – Art. 29, LUG: Se o sacado, antes da restituição da letra, riscar o aceite que tiver dado, tal aceite é considerado como recusado. Salvo prova em contrário, a anulaçãodo aceite considera-se feita antes da restituição da letra. Se, porém, o sacado tiver informado por escrito o portador ou qualquer outro signatário da letra de que a aceita, fica obrigado para com estes, nos termos do seu aceite. Vejamos o dispositivo correspondente a esta regra: Art. 29. Se o sacado, antes da restituição da letra, riscar o aceite que tiver dado, tal aceite é considerado como recusado. Salvo prova em contrário, a anulação do aceite considera-se feita antes da restituição da letra. Se, porém, o sacado tiver informado por escrito o portador ou qualquer outro signatário da letra de que aceita, fica obrigado para com estes, nos termos do seu aceite. Data do aceite: A regra é de que a data não é imprescindível. No entanto, existem duas exceções. A primeira é consubstanciada no vencimento a certo termo da vista, isso porque, para que se saiba o prazo de vencimento deve-se ter ciência da data do aceite. A segunda é quando se tem uma data certa para apresentação da letra de câmbio para aceite. Em outras palavras, quando se trata de uma letra pagável a certo termo de vista, ou que deva ser apresentada ao aceite dentro de um prazo determinado por estipulação especial, o aceite deve ser datado do dia em que foi dado, salvo se o portador exigir que a data seja a da apresentação. Apresentação para aceite: A apresentação pode determinar o vencimento da letra: a letra sacada à vista vence no ato em que o portador a apresenta ao sacado, por isso que ela não é apresentada anteriormente. Se a Letra de Câmbio tiver data certa de vencimento, será facultativa a sua apresentação. A apresentação para o aceite é um ato fundamental, portanto, somente para as letras que devam vencer a certo tempo da apresentação. O início do prazo concedido para o vencimento e o pagamento da letra é marcado a partir da apresentação. No próprio título, o sacador pode proibir a apresentação para o aceite, somente podendo o portador apresentar na data de pagamento. Reapresentação (Art. 24, LUG): O sacado pode pedir que a letra lhe seja apresentada uma segunda vez no dia seguinte ao da primeira apresentação (prazo máximo de 24 horas). Nesse caso, o portador não é obrigado a deixar nas mãos do aceitante a letra apresentada ao aceite. Esse prazo é denominado “prazo de respiro”, afigurando-se como uma faculdade legal conferida ao sacado. É, portanto, um direito potestativo do sacado de pedir que o título seja reapresentando no prazo máximo de 24 horas, servindo para que o sacado verifique a veracidade do título de crédito, não podendo ser exigida, contudo, a retenção do título. Efeitos do aceite: Enquanto o sacado não aceita a ordem contida no título de crédito o devedor principal do título é o sacador. A partir do momento em que o sacado aceita o título, ele vira aceitante e, portanto, se torna o devedor principal. Esse é o primeiro efeito do aceite. Outro efeito do aceite consiste no fato que se o título for rejeitado, a relação com o sacado se extingue e o sacador permanece sendo o devedor principal. A recusa, ainda, importa no vencimento antecipado do título. O aceite estudado até aqui é o aceite caracterizado como puro e simples. Todavia, ele ainda pode ser classificado como “aceite qualificado”, ou seja, o aceite que resulta na modificação das cláusulas do título. Essa classificação comporta duas modalidades: Aceite limitativo: O sacado muda o valor do título, diminuindo-o. Significa que o aceitante concorda em pagar uma parte do valor do título. O valor remanescente é de responsabilidade do sacador. Aceite modificativo: É o aceite em que o sacado adere à ordem, alterando parte das condições fixadas na letra, como por exemplo, a época do vencimento. O aceite modificativo, por sua natureza, importa como recusa. Assim, a cobrança pode ser feita diretamente ao sacador, em consequência da recusa. Mas ainda assim, estará o sacado obrigado a ressarcir o sacador nos moldes da mudança por ele estabelecida. Ex.: Se o sacado altera a data de pagamento para um mês após a apresentação, poderá o beneficiário exigir o pagamento diretamente do sacador, uma vez que houve a quebra da confiança e não precisa esperar por tempo diverso do avençado para receber seu crédito. Nesse caso, procedendo ao pagamento do título, o devedor poderá cobrar o valor dispendido do sacado (aceitante que modificou cláusula do título) na data por este estipulada para o pagamento. Ainda, por meio da cláusula “não aceitável”, é possível proibir que o título seja apresentando para aceite, visando evitar o seu vencimento antecipado. A regra que autoriza esse feito está contida no artigo 22 da LUG, que prevê que o sacado poderá valer-se do expediente previsto na lei, consiste na “cláusula não aceitável” (salvo nas hipóteses proibidas pelo dispositivo legal), fazendo com que o portador não possa antecipar o pagamento e não possa protestar por aceite. Abaixo, a transcrição do dispositivo supracitado: Art. 22. O sacador pode, em qualquer letra, estipular que ela será apresentada ao aceite, com ou sem fixação de prazo. Pode proibir na própria letra a sua apresentação ao aceite, salvo se se tratar de uma letra pagável em domicilio de terceiro, ou de uma letra pagável em localidade diferente da do domicílio do sacado, ou de uma letra sacada a certo termo de vista. O sacador pode também estipular que a apresentação ao aceite não poderá efetuar-se antes de determinada data. Todo endossante pode estipular que a letra deve ser apresentada ao aceite, com ou sem fixação de prazo, salvo se ela tiver sido declarada não aceitável pelo sacador. Endosso: O endosso é o ato pelo qual se transfere o direito de receber o valor que consta no título através da tradição da própria cártula. De acordo com o art. 893 do Código Civil: “a transferência do título de crédito implica a de todos os direitos que lhe são inerentes” e, por assim dizer, entende-se que não só a propriedade da letra que se transfere, como também a garantia de seu adimplemento. Significa dizer que no endosso, quem transfere o título de crédito responde pela existência do título e também pelo seu pagamento. Figuram dois sujeitos no endosso: >> Endossante ou endossador: quem garante o pagamento do título transferido por endosso; >> Endossatário ou adquirente: quem recebe por meio dessa transferência a letra de câmbio. O endosso responsabiliza solidariamente o endossante ao pagamento do crédito descrito na cártula caso o sacado e sacador não efetuem o pagamento. Portanto, se o devedor entregar a seu credor um título, por mera tradição e sem endosso, não estará vinculado ao pagamento deste crédito caso as outras partes se tornem inadimplentes. Pressuposto do endosso: Para que o título circule por endosso, é essencial que o título tenha cláusula à ordem. Para se restringir a circulação, a contrario sensu, é imprescindível a cláusula não à ordem. Mesmo com essa cláusula é possível que o título circule, mas circulará somente por meio de cessão de crédito. Forma do endosso: A simples assinatura no verso do título de outras pessoas que não sejam o emitente presume-se o endosso. A assinatura na frente seguida da expressão “endosso”, “pague a” e afins, também se presume endosso. Poderá o endosso se apresentar: Em preto: Quando na própria letra traz a indicação do endossatário do crédito. Também conhecido por endosso nominal. Em suma, se diz para quem se está endossando o título. Logo, para executividade do título, o juiz verificará a lisura da cadeia de endosso. Em branco: Quando apenas constar aassinatura do endossante, sem qualquer indicação de quem seja o endossatário. Deverá este ser feito sempre no verso do título e se tornará um título ao portador. No endosso em branco não se coloca o nome do destinatário do título. O endosso em branco resulta na caracterização de título ao portador. Em que pese ser proibida essa modalidade no Brasil, o STF já reconheceu a possibilidade de endosso em branco (título ao portador) desde que a cadeia seja preenchida antes de o título ser levado para via judicial para ser executado. Segundo o artigo 12 da LUG, o endosso deve ser puro e simples. Assim, qualquer condição a que ele esteja condicionado considera-se não escrita e implica na sua nulidade. Significa que o endosso não pode ser parcial. Vejamos: Art. 12. O endosso deve ser puro e simples. Qualquer condição a que ele seja subordinado considera-se como não escrita. O endosso parcial é nulo. O endosso ao portador vale como endosso em branco. O endosso gera alguns efeitos, a maioria já intrínsecos à sua conceituação, modalidades e características. Vejamos: Efeitos do endosso: Sendo o efeito principal do endosso transmitir os direitos emergentes da letra, tornando, por via de dispositivo legal, o endossante solidariamente se responsabiliza pelo aceite e pelo pagamento (art. 14, LUG). Ao endossatário cabe não somente praticar todos os atos para o resguardo e garantia desses direitos como, igualmente, reclamar o embolso da soma especificada dos obrigados na letra (inclusive dos demais endossantes, avalistas ou sacador, se o sacado não se obrigou a pagar – não aceitou –, ou tendo se obrigado se recusou a pagar). Além disso, por ser legalmente o novo titular dos direitos que emanam do título, o endossatário, a quem a letra foi transferida pelo endosso, pode, por vontade própria, transmitir o título a outra pessoa. O proprietário da letra, que a transfere mediante endosso, perde a titularidade dos direitos incorporados no título, mas não se desvincula do cumprimento das obrigações contidas na letra, pelo princípio legal da garantia de aceitação e de pagamento assumida no lugar da assinatura no título. Daí resulta que, se a letra não for paga no vencimento, o endossante fica com a obrigação de pagá-la. Essa obrigação é solidária com as daqueles que lançaram suas assinaturas no título. Os endossos, sendo lançados sucessivamente na letra, formam uma cadeia, pela qual se pode acompanhar a sucessividade dos proprietários no título. O efeito do endosso também pode ser modulado pelo endossante, como acontece na inserção de cláusula proibitiva de novo endosso, prevista no artigo 15 da LUG. Vejamos: Cláusula de proibição de novo endosso – Art. 15, LUG: O endossante pode proibir um novo endosso e, nesse caso, não estará obrigado a garantir a dívida para os demais endossatários do endosso não permitido. Em outras palavras, a cláusula proibitiva de novo endosso é inserida no título de crédito e não obsta a transferência do direito de crédito autônomo constante no título. Entretanto, o endossante que insere a cláusula proibitiva de endosso não vai garantir o pagamento dos endossos que forem realizados após o seu. Mesmo inserindo esta cláusula o endossante garante o pagamento das relações cambiárias existentes naquele título de crédito e anteriores ao seu endosso. Na verdade quem insere a cláusula proibitiva de novo endosso está apenas dizendo que não garantirá o pagamento dos futuros endossos posteriores ao seu. Art. 15. O endossante, salvo cláusula em contrário, é garante tanto da aceitação como do pagamento da letra. O endossante pode proibir um novo endosso, e, neste caso, não garante o pagamento às pessoas a quem a letra for posteriormente endossada. Existem, ainda, as figuras do endosso-mandato e do endosso-caução. Vejamos: Endosso-mandato: Não se transfere a propriedade do título, apenas é feito uma procuração para o exercício do direito da letra de câmbio. O endossatário exerce o direito no lugar do endossante. Nada mais é do que a criação de uma relação de representação. O endossante mandante transfere poderes ao endossatário mandatário para que ele atue em nome e por conta do endossante mandante. Dessa forma o endossante passa a ser representado pelo endossatário. Usada para a efetivação da cobrança do título. Confere poderes para que outra pessoa faça a cobrança em seu nome (usada muito no âmbito bancário). Ao lado ou abaixo da assinatura vai conter uma menção específica, “por procuração”, “para cobrança” ou “por mandato”. Menção específica indicando que não está sendo transferida a propriedade do título, mas sim os exercícios do direito. Há uma responsabilidade do endossatário perante o endossante. O endossatário tem o dever de conservar o título física e juridicamente (tomar todas as providências necessárias à preservação dos direitos do endossante). A LUG quando dispôs sobre o endosso mandato, fez menção à possibilidade do endossatário mandatário fazer um novo endosso no título. Ele não pode transferir a propriedade, mas pode transferir os poderes que lhe foram conferidos. Se ele faz um novo endosso, tem os efeitos de um substabelecimento. Obs.: Pode-se colocar uma cláusula vetando novos endossos por parte do mandatário. Endosso-caução – Art. 19, LUG: Neste tipo de endosso, não se tem por intenção transferir a propriedade do título, mas apenas e tão somente constituir um penhor sobre o documento. Não se transfere o crédito, apenas se deixa o título em garantia de outra obrigação. Em síntese, o endosso-caução ou endosso-pignoratício é um endosso especial que transfere a posse do título a uma pessoa, em garantia de alguma obrigação. Para tanto, o endossante deverá acrescentar alguma cláusula no endosso, como “valor em garantia”, ou “por caução” ou “em penhor”. Não há uma fórmula solene, o que se exige é que a intenção de apenas deixar o título em garantia seja clara. Não havendo essa menção clara, o endosso será interpretado como endosso translativo. Feito o endosso-caução ou pignoratício, surgem dois sujeitos no título: o endossante-pignoratício e o endossatário-pignoratício, cada um com uma situação diferente em relação ao título. O endossante-pignoratício continua sendo o proprietário do documento, o credor do título, mas, normalmente, é devedor do endossatário-pignoratício por outra obrigação. Nessa condição, ele tem o dever de honrar sua obrigação perante o endossatário, sob pena de o endossatário fazer valer os seus direitos de credor sobre o título dado em garantia. Quitando esta outra obrigação, terá o direito de retomar o título dado em garantia. O endossatário-pignoratício é um possuidor legítimo do título, mas não o seu proprietário. Diante dessa condição, a legislação lhe assegura o exercício de todos os direitos decorrentes do título, exceto a transferência da propriedade do documento, uma vez que tem apenas a posse do documento. Ele poderá apresentar o título para aceitação ou para pagamento, levar o título a protesto e ajuizar ações, isto é, a lei lhe assegura a prática de todos os atos necessários à defesa e conservação do título. Tais poderes, contudo, não envolvem a transferência do documento em si, logo, ele não pode realizar endosso translativo. Assim, qualquer endosso que ele realizar deverá ser entendido como um endosso-mandato, na medida em que as demais modalidades de endosso não podem ser realizadas por ele, que é um mero possuidor. Nem outro endosso-caução ele poderá realizar, pois não se pode dar em garantia apenas a posse do título. Para proteger o credor pignoratício queaceitou os títulos em garantia, a legislação lhe garante o exercício dessa posse em nome e em proveito próprio. Ele poderá promover a ação cambial contra os obrigados no título, que não poderão invocar contra o portador as exceções fundadas nas relações deles com o endossante, salvo se o portador tiver agido de má-fé (art. 19, al. 2, LUG). Embora seja um mero possuidor, ele exercerá os direitos de forma autônoma em relação ao endossante, restando bem protegido dos eventuais problemas do endossante. Por agir em nome e em proveito próprio, o endossatário-pignoratício assumirá todos os riscos das suas ações. Se ele causar um dano a alguém no exercício dos direitos inerentes ao título, é ele que irá responder pela indenização, ao contrário do que ocorria no endosso- mandato. Obs.: Com o adimplemento da obrigação e devolução do título de crédito ao endossante-pignoratício, este poderá exercer a titularidade do título, inclusive exigindo-se o seu pagamento. Nesse caso, a cadeia de endosso não o prejudica, mesmo que seu nome não conste como último endossatário, uma vez que o endosso realizado caracteriza-se tão somente como endosso-caução e, portanto, não houve a transmissão da titularidade do crédito, tampouco o exercício de seu direito. Endosso x cessão de crédito: Como já visto, endosso é o ato pelo qual o credor de um título de crédito com a cláusula à ordem transmite os seus direitos à outra pessoa. Por outro lado, a cessão civil é o ato pelo qual o credor de um título de crédito com a cláusula não à ordem transmite os seus direitos à outra pessoa. No endosso, quem transfere o título de crédito responde pela existência do título e também pelo seu pagamento. Todavia, o devedor não pode alegar exceções pessoais contra o endossatário. Já, na cessão civil, quem transfere o título de crédito só responde pela existência do título, mas não responde pelo seu pagamento (art. 295, CC). Entretanto, o devedor pode alegar exceções pessoais contra o cessionário (art. 294, CC). Acerca da cessão de crédito, o artigo 290 do Código Civil preceitua que “a cessão do crédito não tem eficácia em relação ao devedor, senão quando a este notificada; mas por notificado se tem o devedor que, em escrito público ou particular, se declarou ciente da cessão feita”. Assim, conclui-se que sessão de crédito precisa ser notificada ao devedor para surtir seus efeitos em relação ao devedor. AVAL O aval é negócio jurídico informal, unilateral, formal e simples, por meio do qual alguém assume a posição de garante do pagamento de um título e equipara sua responsabilidade à de um dos coobrigados existentes. Em relação à unilateralidade, vale destacar que aval não é contrato. Não há contrato em aval, mas uma única obrigação. O aval só se materializa por meio do título de crédito. Ele só se concretiza pela assinatura na face do título de crédito, sempre havendo menção “em garantia”. Além disso, pode-se dizer que o aval é negócio jurídico simples, pois não há parcialidade. Quem assume o aval se torna o “avalista”. Ao assumir a posição de garante, ele tem a possibilidade de regular qual será a magnitude de sua responsabilidade e para isso ele escolhe um dos coobrigados do título de crédito, que será o chamado “avalizado”. Vale destacar, o avalizado não fornece declaração de vontade, não aquiescendo a escolha como avalizado, ele apenas será um parâmetro da responsabilidade do avalista. Além disso, o coobrigado precisa ser existente. A obrigação precisa existir entre tanto sua obrigação não precisa ser válida. Ou seja, o avalizado não precisa ser pessoa capaz para validar sua obrigação, mas apenas existente. Se nada for mencionado há uma presunção absoluta que o avalizado é o sacador do título de crédito. Obs.: Pelo princípio da literalidade e da cartularidade, no Brasil não se admite o aval dado em documento apartado do título de crédito. Ela pode ser feita do anexo, pois ele é o próprio título. Fiança e aval: Fiança e Aval produzem garantia. A semelhança é que os dois produzem garantias pessoais. Entretanto a Fiança é um contrato, pois há troca de consentimento, no aval há apenas a um negócio unilateral. Além disso, a fiança é um contrato acessório que é sempre celebrada em função de um contrato antecedente, já no Aval há autonomia do título. Também o aval cria uma garantia objetiva, no sentido do avalista garantir o pagamento como fato. Já na fiança há uma garantia subjetiva, pois o fiador está garantindo a conduta do afiançado. Isso gera uma diferença referente ao benefício de ordem, sendo que no aval nunca há benefício de ordem. Por fim, o âmbito de aplicação do aval é apenas nos títulos de crédito enquanto a fiança tem âmbito de aplicação nos contratos. Outorga conjugal: Art. 1.647, CC/02: para ser fiador ou avalista quando se é casado, exceto no caso de separação “absoluta”, é necessária outorga conjugal. Lembrando que a não oposição da outorga conjugal, enseja a anulabilidade do aval prestado. A anulabilidade deverá ser alegada no prazo de dois anos contados após o término da sociedade conjugal, que se dá por separação de fato ou direito, divórcio ou morte. Em razão da ausência de segurança jurídica nestas situações, a jurisprudência começou a entender que se não houver a outorga, a obrigação persiste para o cônjuge que deu o aval, não atingindo os bens do outro cônjuge. Em outras palavras, a ausência de assinatura não invalida o ato, apenas ressalva os bens do cônjuge que não assinou. Aval Parcial: O avalista está declarando vontade e tem como modular sua responsabilidade. Pelo art. 31 da LUG, é possível se obrigar por uma parcela desse valor. Multiplicidade de Avais: A multiplicidade de avais se estabelece quando se tem mais de um avalista que indicou o mesmo avalizado. Os avalistas no caso são equiparados ao mesmo coobrigado. Essa situação gera algumas questões referente à relação entre os avalistas. Para solucionar essa questão foram elaboradas duas hipóteses: Avais simultâneos: Os avais são considerados simultâneos quando os avalistas não estabeleceram distinção de grau de responsabilidade e se colocaram no mesmo patamar de responsabilidade, fazendo o rateio entre os avalistas. A solução é uma situação de solidariedade passiva simples. Avais sucessivos: Nos avais sucessivos há graus diferentes de responsabilidade conforme as suas declarações de vontade. O avalista no caso se volta sobre quem tem responsabilidade sobre ele e cobra pelo total, é um caso de reembolso total junto à pessoa que tem mais responsabilidade. Aval em branco: É o aval que não menciona a pessoa por ele favorecida, nele constando apenas a assinatura do avalista. É como um endosso em branco. De acordo com o artigo 31 da LUG, o “avalista em branco” torna-se avalista do devedor principal. Vejamos: Art. 31. O aval é escrito na própria letra ou numa folha anexa. Exprime-se pelas palavras "bom para aval" ou por qualquer fórmula equivalente; e assinado pelo dador do aval. O aval considera-se como resultante da simples assinatura do dador aposta na face anterior da letra, salvo se se trata das assinaturas do sacado ou do sacador. O aval deve indicar a pessoa por quem se dá. Na falta de indicação, entender-se-á pelo sacador. A Súmula 189 do STF, por sua vez, preceitua que “avais em branco e superpostos consideram-se simultâneos e não sucessivos”. Responsabilidade do avalista: Tamanha é a responsabilização do avalista que o mesmo responde pela obrigação que garantiu em pé de igualdade com o devedor principal, sendo facultado ao credor exigir simultaneamentedo devedor e avalista o pagamento da obrigação inadimplida, não havendo que se falar em ordem de exigência do pagamento, em razão da autonomia do aval. Sob outro aspecto, ainda no tocante a responsabilidade do avalista, esta perdura ainda mesmo quando declarada nula a obrigação garantida, salvo caracterização de vicio de forma no tocante a instituição do aval. Sobre a responsabilidade do avalista, estabelece o artigo 47 da LUG: Art. 47. Os sacadores, aceitantes, endossantes ou avalistas de uma letra são todos solidariamente responsáveis para com o portador. O portador tem o direito de acionar todas estas pessoas individualmente, sem estar adstrito a observar a ordem por que elas se obrigaram. O mesmo direito possui qualquer dos signatários de uma letra quando a tenha pago. A ação intentada contra um dos coobrigados não impede acionar os outros, mesmo os posteriores àquele que foi acionado em primeiro lugar. Obs.: A obrigação do avalista é autônoma, portanto, ela não é prejudicada pela nulidade da obrigação principal. O artigo 50 da LUG prevê os direitos do avalista. Vejamos abaixo: Art. 50. Qualquer dos coobrigados, contra o qual se intentou ou pode ser intentada uma ação, pode exigir, desde que pague a letra, que ela lhe seja entregue com o protesto e um recibo. Qualquer dos endossantes que tenha pago uma letra pode riscar o seu endosso e os dos endossantes subseqüentes. Regresso: Na hipótese do avalista proceder ao pagamento da obrigação no lugar do devedor principal, lhe é assegurado, como demonstrado acima, o direito de exigir do credor além da entrega do titulo, a quitação regular da obrigação. Anote-se que em tal hipótese é assegurado ao avalista, ainda, o direito a ação de regresso contra o devedor principal para reaver o valor pago com as correções legais. Forma do aval: Conforme artigo 31 da LUG, a mera assinatura na frente do título, sem ser a do emitente e sem expressão alguma, presume aval. Mas ele pode ser dado no verso se ela vier acompanhada da expressão “em garantia”. A respeito da forma do aval, o STJ entende que se a assinatura estiver no verso e não for endosso, ela indica aval. Ainda segundo o STJ, presume-se que assinatura fora da cadeia de endosso é aval. NOTA PROMISSÓRIA Enquanto a letra de câmbio é uma ordem de pagamento, porque através dela o signatário (sacador) do título requisita a uma pessoa (sacado) o pagamento de uma soma, a nota promissória é uma promessa de pagamento feita pelo próprio devedor, que se obriga, dentro de certo prazo, ao pagamento de uma soma pré-fixada. Portanto, a nota promissória é um título pelo qual alguém se compromete a pagar a outrem, determinada quantia em dinheiro, num certo prazo. Como é emitida pelo próprio devedor, ela passa a ser um título de crédito desde a sua emissão, e o seu possuidor ou portador poderá, logo após o vencimento, não sendo paga, propor ação executiva para recebê-la. Trata-se de um título autônomo que independe da indagação da causa que motivou a obrigação. “Nota promissória regularmente emitida e avalizada, mesmo originária de um contrato particular, – decidiu o Tribunal – pode circular. Uma vez endossada, representa dívida autônoma, com causa legítima” (in RT 659/150). Em conclusão: nota promissória é uma promessa direta que o devedor faz ao credor, pois ela é emitida pelo devedor. Já a letra de câmbio é emitida por uma pessoa que dá uma ordem ao seu devedor (sacado) para pagar certa quantia a um terceiro. As pessoas que intervêm na nota promissória: Quando a nota promissória é emitida, intervêm, necessariamente, duas pessoas: o emitente que é o devedor, e o beneficiário, que é o credor. Além das duas personagens principais, sem as quais não haveria nota promissória, podem aparecer outras pessoas, como o “avalista”, que se obriga com o emitente, solidariamente, ao pagamento do título e o “endossatário”, ou terceiro, em cujas mãos passa o título quando o credor o aliena. Requisitos essenciais da nota promissória: Os requisitos essenciais da nota promissória são quase equivalentes aos da letra de câmbio, com a diferença fundamental de que esta é assinada pelo sacador, que não é o devedor, enquanto naquela (NP) aparece a assinatura do devedor, que é também o emitente do título. Em tudo o mais, a nota Promissória obedece à disciplina jurídica da letra de câmbio. A seguir são apresentados os seus requisitos essenciais: 1. a denominação nota promissória; 2. a importância por extenso a ser paga; 3. o nome da pessoa a quem deve ser paga; 4. a assinatura de próprio punho do emitente (devedor) ou do mandatário especial. Esses requisitos devem ser lançados por extenso no seu contexto, como acontece com a letra de câmbio; a assinatura do devedor deve ficar do lado direito e no final; o nome do credor deve aparecer logo após a expressão “nota promissória” situada no centro do título. Cabe lembrar que, na falta de um dos requisitos supra, o título deixa de ser nota promissória, isto é, deixa de ser um título de crédito. Emissão em branco e ao portador: A nota promissória não pode ser emitida ao portador. Um de seus requisitos essenciais é que ela contenha o nome do credor. “A nota promissória ao portador não constitui, per se, título de dívida líquida e certa – decidiu certa vez o Tribunal – podendo, quando muito, auxiliar a prova da obrigação assumida pelo signatário para com o autor, cobrável pela via ordinária, e não pela executiva” (in RT 598/213). Atualmente, a ação própria para a cobrança via ordinária é a “ação monitória”, vista no capítulo anterior. Por outro lado, nada impede que se emita a nota e seja a mesma entregue ao credor sem indicação do seu nome. Trata-se de emissão em branco que poderá circular livremente. Somente no momento de ser apresentada em juízo, ou no Cartório de Protesto deve ser colocado o nome do credor. O Tribunal já decidiu que não enseja execução o título incompleto, “por lhe faltar um requisito de forma” (in RT 591/220). “Se o credor não exercitar os poderes que lhe são conferidos no mandato tácito contido na emissão da nota promissória em branco, deixando de complementá-la até o momento de sua cobrança, não se reconhece ao título a natureza cambial, tornando nula a execução nele embasada” (in RT 588/210). Portanto, os requisitos devem estar totalmente cumpridos antes da cobrança judicial ou do protesto do título, devido ao princípio de que o portador de boa-fé é procurador bastante do emitente para completar a nota promissória emitida com omissões. Formas de vencimento da nota promissória: O pagamento da promissória será feito no tempo indicado no próprio título. Se não se determina o prazo para pagamento, entende-se que se trata de promissória à vista. A nota promissória pode ser passada: 1. à vista; 2. em dia certo; 3. a tempo certo da data da emissão; neste caso, a data da emissão tem relevância. Da abdicação das normas sobre letra de câmbio às notas promissórias: Tanto a letra de câmbio como a nota promissória são disciplinadas pelas regras da Lei Uniforme de Genebra e, em caso de lacuna, aplicam-se os princípios do Decreto nº 2.044, de 1.908. Pelo art. 77 da Lei Uniforme, são aplicáveis à nota promissória todas as disposições da letra de câmbio, evidentemente no que não lhe contrariem a natureza. Assim, tudo o que foi visto sobre a letra de câmbio, a respeito do protesto, do endosso, do aval e da prescrição, aplica-se, mutatis mutandis, à nota promissória, exceto no que se refere ao aceite, pois na promissória não se utiliza o instituto do aceite, pela simples razão de que o próprio emitenteda promissória equipara-se ao aceitante da letra de câmbio. É por isso que a nota promissória é um título de crédito desde o seu nascedouro. Prescrição: Como são aplicadas todas as disposições da letra de câmbio à nota promissória, a prescrição é de três anos do credor contra o emitente e o respectivo avalista e, de um ano, a ação do portador contra o endossante. Súmula 258 do STJ: nota promissória ilíquida não é título de crédito (questão que cai bastante em concurso). Em razão dessa proibição, surgiu uma nova figura: a CCB (cédula de crédito bancário), que é um título que pode ser auto executado. Ela resume o contrato feito com o banco. Súmula 258: A nota promissória vinculada a contrato de abertura de crédito não goza de autonomia em razão da iliquidez do título que a originou. CHEQUE O cheque é uma ordem incondicional de pagamento à vista, de certa quantia em dinheiro, dada com base em suficiente provisão de fundos ou decorrente de contrato de abertura de crédito disponíveis em banco ou instituição financeira equiparada. Intervenientes: Emitente: É a pessoa que dá a ordem de pagamento para o sacado, após verificação dos fundos. É o devedor principal. Sacado: O banco ou instituição financeira a ele equiparada. O sacado de um cheque não tem, em nenhuma hipótese, qualquer obrigação cambial. Beneficiário: É a pessoa a quem o sacado deve pagar a ordem emitida pelo sacador. Obs.: Os fundos disponíveis em conta corrente pertencem, até a liquidação do cheque, ao correntista sacador. Requisitos: São requisitos do cheque: Extrínsecos: Agente capaz, cuja vontade foi livremente expressa, sem qualquer vício. Intrínsecos: a) A denominação “cheque”, inscrita no próprio texto; b) A ordem incondicional de pagar uma quantia determinada; c) O nome do banco/instituição que deve pagar (sacado); d) A indicação da data e lugar de emissão; e) A indicação do lugar do pagamento; f) A assinatura do emitente ou a de seu mandatário com poderes especiais. Tipos de cheques: Cheque cruzado: possibilita a identificação do credor e só poderá ser pago via depósito em conta.O cruzamento pode ser: • Geral: Dois traços paralelos no anverso; • Especial: Entre os traços, figura o nome do Banco. Cheque para ser creditado em conta: O emitente/portador proíbe o pagamento em dinheiro mediante a inscrição no anverso da expressão: “para ser creditado em conta”. Cheque visado: é aquele garantido pelo banco sacado durante certo período. Cheque Administrativo: é aquele sacado pelo banco contra um de seus estabelecimentos. Endosso: O cheque é título de modelo vinculado. A transmissão de cheque pagável a pessoa qualificada é TRANSMISSÍVEL através do ENDOSSO, com ou sem a cláusula “à ordem”. A sua circulação segue a mesma regulamentação da letra de câmbio, com as seguintes diferenças: não se admite o endosso-caução; o endosso do sacado é nulo, VALENDO APENAS COMO QUITAÇÃO (exceção: endosso feito por um dos estabelecimentos do sacado para pagamento em outro estabelecimento); o endosso feito após o prazo de apresentação serve apenas como cessão civil de crédito. Aval: Expresso da forma convencional ou pela simples assinatura no anverso do cheque. Na falta de indicação, considera-se avalizado o emitente. Aceite: O cheque não admite aceite. A praça é obrigada a aceitar pagamentos em cheque. Vencimento: Sempre à vista, contra apresentação. Pagamento: Cheque sem fundos é tipificado como estelionato. O credor não pode recusar pagamento parcial. O sacado não deve pagar o cheque após o prazo de prescrição. Obs.: A execução de cheques sem fundos prescreve em 6 meses a partir do término do prazo para apresentação. Após o decurso deste prazo, será admissível ação com base em locupletamento sem causa no prazo de 2 anos. Sustação de cheque: A sustação do cheque pode ser: revogação (contraordem), notificação dos motivos, feitos após o prazo para apresentação do cheque e oposição, aviso escrito, relevante razão de direito, antes da liquidação do título. A sustação pode configurar crime de fraude no pagamento por cheque (art. 171). O sacado não pode questionar a ordem. Prazo prescricional: a) 6 meses, contados da expiração do prazo de apresentação: - Do portador contra o emitente e seus avalistas; - Do portador contra os endossantes e seus avalistas. b) De qualquer dos coobrigados contra os demais: 6 meses contados do dia em que pagou o cheque ou foi acionado. Obs.: A ação de enriquecimento ilícito contra o emitente ou coobrigados prescreve em 2 anos contados do dia em que se consumar a prescrição da ação de execução. DUPLICATA A duplicata é um título de crédito em que sua emissão depende de uma causa anterior. Determina a Lei 5.474 de 18/07/1968 em seu artigo 1º que em todo o contrato de compra e venda mercantil entre partes domiciliadas no território brasileiro, com prazo não inferior a 30 (trinta) dias, contado da data da entrega ou despacho das mercadorias, o vendedor extrairá a respectiva fatura para apresentação ao comprador. A fatura discriminará as mercadorias vendidas ou, quando convier ao vendedor, indicará somente os números e valores das notas parciais expedidas por ocasião das vendas, despachos ou entregas das mercadorias. A fatura é dispensável quando a nota fiscal é do tipo “nota fiscal-fatura”, na qual já constam os elementos da fatura, necessários à emissão da duplicata. A duplicata somente pode ser emitida após a emissão da fatura. Assim estabelece o artigo 2º da Lei das Duplicatas que no ato da emissão da fatura, dela poderá ser extraída uma duplicata para circulação como efeito comercial, não sendo admitida qualquer outra espécie Atenção: CHEQUES PÓS-DATADOS É interessante lembrar que, segundo a Lei Uniforme sobre Cheques, este título é ordem de pagamento à vista. Desta maneira, os cheques com data futura ao dia real da emissão não devem ser levados em conta. A data futura não é considerada e o cheque sempre é pagável à vista. de título de crédito para documentar o saque do vendedor pela importância faturada ao comprador. Assim, a duplicata é um título de crédito causal vinculado a operações de compra e venda de mercadorias (envolvendo um empresário como sacador) ou de prestação de serviços (envolvendo um prestador de serviços – empresário ou não – como sacador) com pagamento à vista ou a prazo, e representativo do crédito originado a partir de referidas operações. No que se refere à duplicata de prestação de serviços, a Lei das Duplicatas em seu artigo 20 estabelece que as empresas, individuais ou coletivas, fundações ou sociedades civis, que se dediquem à prestação de serviços, poderão, também, na forma desta Lei, emitir fatura e duplicata. Assim, a fatura deverá discriminar a natureza dos serviços prestados; a soma a pagar em dinheiro corresponderá ao preço dos serviços prestados, sendo aplicado à fatura e a duplicata de prestação de serviços, com as adaptações cabíveis, as disposições relativas à fatura e duplicada de venda mercantil. Nas operações envolvendo a emissão de duplicatas temos as seguintes partes: a) o sacador ou emitente que é o titular (empresário, sociedade empresária ou não) do crédito originado contra o adquirente de produtos ou contratante de serviços. b) o sacado que é a pessoa contra quem a ordem é emitida, seja um adquirente de produtos, seja um contratante de serviços quaisquer, consumidor ou não. Observemos que a duplicata diferente dos demaistítulos examinados carece de uma causa de natureza prévia para sua emissão, qual seja, a venda de mercadoria ou a prestação de serviços, não existindo uma destas causas, sua emissão é proibida. Portanto, tem por finalidade primordial assegurar a eficaz satisfação do direito de crédito detido pelo emitente contra o devedor nestas operações. Havendo perda ou extravio da duplicata, poderá ser emitida uma triplicata, que na verdade representa a segunda via da duplicata. Os requisitos essenciais para a emissão da duplicata estão relacionados no artigo da Lei de Duplicatas (2º, § 1º) São eles: a) a denominação "duplicata", a data de sua emissão e o número de ordem; b) o número da fatura; c) a data certa do vencimento ou a declaração de ser a duplicata à vista; d) o nome e domicílio do vendedor e do comprador; e) a importância a pagar, em algarismos e por extenso; f) a praça de pagamento; g) a cláusula à ordem; h) a declaração do reconhecimento de sua exatidão e da obrigação de pagá-la, a ser assinada pelo comprador, como aceite cambial; i) a assinatura do emitente. A duplicata deve conter o aceite, haja vista ser ordem de pagamento emitida contra o devedor. Sobre este ato, determina o artigo 6º da Lei das Duplicatas que a remessa de duplicata poderá ser feita diretamente pelo vendedor ou por seus representantes, por intermédio de instituições financeiras, procuradores ou correspondentes que se incumbam de apresentá-la ao comprador na praça ou no lugar de seu estabelecimento, podendo os intermediários devolvê-la, depois de assinada, ou conservá-la em seu poder até o momento do resgate, segundo as instruções de quem lhes cometeu o encargo. O prazo para remessa da duplicata será de 30 (trinta) dias, contado da data de sua emissão. Se a remessa for feita por intermédio de representantes, instituições financeiras, procuradores ou correspondentes, estes deverão apresentar o título ao comprador dentro de 10 (dez) dias, contados da data de seu recebimento na praça de pagamento. Ainda sobre a questão do aceite, a duplicata, quando não for à vista, deverá ser devolvida pelo comprador ao apresentante dentro do prazo de 10 (dez) dias, contados da data de sua apresentação, devidamente assinada ou acompanhada de declaração, por escrito, contendo as razões da falta do aceite. Quanto ao protesto da duplicata, conforme o disposto nos artigos 13 e 14 da Lei de Duplicatas, deve ser efetuado na praça de seu pagamento, dentro do prazo de 30 (trinta) dias contados de ser vencimento, podendo o título ser protestado pelas seguintes razões: a) por falta de aceite. b) por falta de devolução. c) por falta de pagamento. Caso o protesto não seja efetuado dentro desse prazo, o sacador ou credor perderá o direito de crédito contra os endossantes e seus respectivos avalistas. Também na duplicata temos que observar os prazos prescricionais para propositura de ação executiva, cujo foro competente para a cobrança judicial da duplicata ou da triplicata é o da praça de pagamento constante do título, ou outra de domicílio do comprador e, no caso de ação regressiva, a dos sacadores, dos endossantes e respectivos avalistas. Para a propositura da ação executiva judicial devem ser observados os seguintes prazos prescricionais: a) contra o sacado e respectivos avalistas, 03 (três) anos, contados da data do vencimento do título. b) contra o(s) endossante(s) e ser(s) avalista(s), 01 (um) ano, contado da data do protesto. c) de qualquer dos coobrigados contra os demais, 01 (um) ano, contado da data em que tenha sido efetuado o pagamento do título. Observe-se que de acordo com os parágrafos do artigo 18 da Lei das Duplicatas, a cobrança judicial poderá ser proposta contra um ou contra todos os coobrigados, sem observância da ordem em que figurem no título. E mais, os coobrigados da duplicata respondem solidariamente pelo aceite e pelo pagamento. ADENDO: DUPLICATA VIRTUAL Tendo em vista a evolução e a dinamicidade das transações comerciais, a duplicata desprendeu-se das regras disciplinadas em sua lei específica, assumindo uma dinâmica influenciada principalmente pelo desenvolvimento da eletrônica e da informática. Assim, tornou-se comum a emissão de duplicata virtual, que nada mais é do que uma modalidade de título cambiário que caracteriza-se pela emissão em meio magnético, isto é, sem sua materialização física, em papel. A duplicata virtual, em razão de sua natureza, possui um procedimento de emissão diferente, que funciona da seguinte forma: uma vez finalizado o contrato, o agente econômico responsável pela emissão da duplicata transmite em meio magnético (pela internet) a uma instituição financeira os dados referentes ao negócio jurídico (partes, relação das mercadorias vendidas, preço etc.). A mesma instituição financeira, também pela internet e com base nos dados fornecidos, emite uma ficha de compensação (boleto bancário) para que o devedor pague a obrigação originada no contrato, o qual poderá fazê- lo na rede bancária diretamente, ou até por meio da própria internet. Essa ficha de compensação não é a duplicata, mas um aviso bancário para tornar a obrigação portável, que se baseia na duplicata que existe apenas em meio magnético. Não honrada a duplicata, o credor ou o próprio banco, encarregado da cobrança, pode encaminhar em meio magnético os dados ao cartório para que este efetue o protesto do título. Lavrado o protesto e subsistindo o inadimplemento, o interessado pode ajuizar ação de execução que será fundamentada no protesto realizado e no comprovante de entrega de mercadorias ou da prestação de serviços, sem que seja necessária a apresentação física da duplicata. Em que pese as discussões acerca da força executiva da duplicata virtual, o STJ já se manifestou sobre a legitimidade dessa modalidade de título eletrônico, pacificando o entendimento de que é possível a sua execução (EREsp 1.024.691-PR, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 22/8/2012). Segundo decidiu o STJ, as duplicatas virtuais emitidas e recebidas por meio magnético ou de gravação eletrônica podem ser protestadas por mera indicação, de modo que a exibição do título não é imprescindível para o ajuizamento da execução, conforme previsto no art. 8º, parágrafo único, da Lei 9.492/1997.