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1ª Avaliação – Trabalho no Campus 
2ª Avaliação – Prova Dissertativa + Correção em Sala (12 e 13/dez) 
3ª Avaliação – Autoavaliação e Avaliação do Professor (19/dez) 
4ª Avaliação – Atividade no Campus 
 
BIBLIOGRAFIA 
 
Teoria Geral do Direito Empresarial: 
- Rubens Requião 
- Fábio Ulhoa Coelho 
 
Títulos de Crédito: 
- Marlon Tomazette 
- Gladston Mamede 
 
 
DIREITO EMPRESARIAL I 
 
 
INTRODUÇÃO HISTÓRICA AO DIREITO EMPRESARIAL 
 
PRIMEIRO PERÍODO – SÉC. XII A XVI 
No primeiro período discute-se a sistematização das normas existentes relativas ao 
Direito Comercial. Nessa época não tinha uma autoridade estatal capaz de centralizar e 
promover normas comerciais. Assim, as corporações de ofício assumiam a função de criar e 
julgar aqueles que estavam vinculados de certa forma ao comércio. Essas corporações se 
desenvolviam, sobretudo, na península itálica, tendo em vista a relevância da localização de 
Gênova e Veneza, que foi primordial para o desenvolvimento do Direito Comercial. 
Diante da precariedade do direito comum para assegurar e garantir as relações 
comerciais foi necessário, de fato, que os comerciantes organizados criassem entre si um 
direito costumeiro, aplicado internamente na corporação por juízes eleitos pelas suas 
assembleias: era o juízo consular, ao qual tanto deve a sistematização das regras do mercado. 
É nessa fase histórica que começa a se cristalizar o direito comercial, deduzido das 
regras corporativas e, sobretudo, dos assentos jurisprudenciais das decisões dos cônsules, 
para, em seu âmbito, diminuírem as disputas e os litígios entre os comerciantes. 
Temos nessa fase, o período estritamente subjetivista do direito comercial a serviço 
do comerciante, isto é, um direito corporativo, profissional, especial, autônomo, em relação ao 
direito territorial e civil, e consuetudinário. Como o comércio não tem fronteiras, e as 
UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS – UFLA 
DEPARTAMENTO DE DIREITO 
 
RESUMO DAS AULAS – DIREITO EMPRESARIAL I 
Professor Fellipe David 
 
 
Silas Tadeu de Castro Martins 
 
operações mercantis se repetem em massa, transpira nítido o seu sentido cosmopolita (de 
todos os países, que se encontra na maior parte do mundo). 
Assim, para o subjetivismo do direito comercial, aos costumes formados e difundidos 
pelos mercadores, só a estes estavam vinculados; os estatutos das corporações estendiam a sua 
autoridade até onde chegava a autoridade dos magistrados das corporações, isto é, até os 
inscritos na matrícula; e, igualmente à jurisdição consular estavam sujeitos, somente, os 
membros da corporação. 
Todavia, essa estruturação do direito comercial gerou um problema. A determinação 
da competência judiciária dos cônsules, pelo exercício da profissão comercial, não era 
suficiente, pois nem toda a vida e a atividade do comerciante eram absorvidas pela sua 
profissão, impondo-se a necessidade de delimitar o conceito de matéria de comércio. Era 
considerada matéria do comércio a compra e venda de mercadoria para revenda e a sucessiva 
revenda; os negócios de moeda através dos bancos; e as letras de câmbio, pela sua conexão 
com os negócios comerciais propriamente ditos. 
Começa então, a era do chamado “segundo período”, que abriu margem para o 
conceito objetivista fundado sobre o ato de comércio, estudo do terceiro período. 
 
SEGUNDO PERÍODO – SÉC. XVI A XVIII 
Com o fortalecimento dos Estados, e consequentemente do mercantilismo, a 
Península Itálica perdeu força de êxito e importância, ao passo em que França e Inglaterra 
passaram a ter maior relevância no que tange à normatização do comércio, iniciando-se, 
então, a uniformização das normas jurídicas econômicas, sobretudo entre esses dois países. 
Com o sistema Comum Law, as corporações de ofício foram perdendo sua 
importância rapidamente, ante a necessidade de estabelecer órgãos comuns para criação de 
normas e julgamento das demandas sociais e a facilidade em que a teoria do precedente se 
instaurava. 
No sistema Civil Law, a perda de importância das corporações de ofício também 
ocorreu, todavia, de forma mais lenta, haja vista a necessidade primeira de criar normas 
positivadas para tanto. 
Nesse segundo período nasce a primeira forma de sociedade: a sociedade anônima, 
que consistiu na principal contribuição do período. A sociedade anônima surgiu em função 
dos empreendimentos mercantis da expansão colonial, pois necessitavam de alto capital e de 
limitação de riscos. 
 
TERCEIRO PERÍODO – SÉC. XIX E XX 
Nesse período, surge a classe burguesa (pós Iluminismo). Nessa fase, o imperativo da 
igualdade e da fraternidade exigia que todos tivessem acesso igualitário aos mecanismos de 
tratamento. 
Passou-se assim, no que tange às tratativas de comércio, do sistema subjetivo puro 
para o sistema objetivo, valendo-se da ficção segundo a qual deve reputar-se comerciante 
ADENDO: no início, o ramo do Direito ora em estudo chamava-se Direito Mercantil, 
depois passou a se chamar Direito Comercial, e atualmente é chamado de Direito 
Empresarial. 
qualquer pessoa que atue em juízo por motivo comercial. Essa ficção favoreceu a extensão do 
direito especial dos comerciantes a todos os atos de comércio, fosse quem fosse seu autor. 
Nesse contexto, surgem os códigos napoleônicos (Código Civil Francês de 1804 e 
Código Comercial de 1808). O Código Comercial Napoleônico adotou declaradamente o 
conceito objetivo, estruturando-o sobre a teoria dos atos de comércio. Agindo assim, o código 
punha-se a serviço dos ideais da Revolução Francesa, de igualdade de todos perante a lei, 
excluindo, em tese, o privilégio de classe. Diante dessa filosofia política, o Código Comercial 
francês de 1808 anunciava a erradicação de prerrogativas e privilégios dos mercadores, já que 
passava a ser um estatuto disciplinador dos atos de comércio, a que estavam sujeitos todos os 
cidadãos. 
No entanto, o que se pode concluir disso tudo, é que apesar de objetivo e prometedor 
de uma igualdade de tratamento, todo o sistema que se utilizava do Código Comercial francês 
de 1808, e até mesmo o próprio código, não era nada imparcial. 
A lógica da teoria dos atos de comércio consistia no fato de que a prática do ato 
comercial ensejaria, à época, a tutela das normas comerciais. Assim, enquanto nas 
compilações anteriores ao Código Comercial francês o ato de comércio se referia sempre ao 
comerciante e à indústria mercantil, com o advento do aludido código, se desvincula pela 
primeira vez o ato de comércio da pessoa do comerciante e se formula, dessa maneira, o 
conceito de ato objetivo de comércio que serviu para fundar o sistema legislativo em muitas 
nações, inclusive no Brasil, o que veremos mais adiante. 
 
QUARTO PERÍODO – CODIFICAÇÃO ITALIANA 
Com a tendência da mercantilização do direito civil, tornaram-se os atos de comércio 
inadequados para, por si só, diferenciá-los dos atos civil, levando o sistema objetivo à 
completa ruína. 
Para se ter uma ideia, o antigo professor da Universidade de Roma, Cesare Vivante, 
denunciou publicamente, em palestra na Universidade de Bolonha, que o sistema objetivo não 
era tão objetivo assim, tendo em vista que, em sua perspectiva, foi desenvolvido para tutelar 
os interesses da burguesia e era extremamente burocrático. Vivante, então, condenou a 
autonomia do direito comercial e defendeu, naquele momento, a unificação deste ramo com o 
Direito Civil. 
Algum tempo mais tarde, incumbido de elaborar o anteprojeto do Código Comercial 
italiano, Vivante reviu suas ideias e passou a defender a separação do Direito Civil e do 
Direito Comercial. Tal perspectiva se deu por questões metodológicas de ensino, haja vista a 
impossibilidade de trataro Direito Civil em pé de igualdade com o Direito Comercial, uma 
vez que tais sistemas possuem uma base principiológica totalmente distinta. 
Vivante passou a enxergar que o Direito Comercial tem, de fato, uma índole 
cosmopolita que decorre do próprio comércio, além de que o direito comercial regula os 
negócios em massa, ao passo em que o Direito Civil se ocupa de atos isolados. 
Nessa perspectiva, o Código Civil italiano de 1942 trouxe como solução a inclusão 
de um livro especial dedicado às normas do Direito Comercial. Nasce daí, o sistema subjetivo 
moderno. 
Para o Código Civil italiano de 1942, não era mais necessário verificar se o ato 
praticado pelo sujeito ensejaria a tutela das normas comerciais. O importante era verificar se o 
sujeito era empresário! Tanto o ato de comércio como o comerciante somente passaram a 
adquirir importância para o direito comercial quando se referiam à exploração de uma 
empresa. Surge assim, a empresa mercantil, e o direito comercial passa a ser o direito das 
empresas comerciais. 
Nesta senda, é inaugurada a teoria da empresa, que veremos mais adiante. 
 
HISTÓRIA DO DIREITO COMERCIAL NO BRASIL 
Durante o período Brasil-colônia as relações jurídicas pautavam-se, como não podia 
deixar de ser, pela legislação de Portugal. Imperavam, portanto, as Ordenações Filipinas, sob 
a influência do direito canônico e do direito romano. 
Em janeiro de 1808, com a chegada da Família Real ao Brasil, surgiu a necessidade 
de modernização da colônia e consequente organização da Corte, como sede de uma 
monarquia. Dentre as evoluções primevas, destaca-se a abertura dos portos, a instituição de 
um Tribunal do Comércio (denominado de Real Junta de Comércio, Agricultura, Fábricas e 
Navegação) e a criação do Banco do Brasil. 
Proclamada a Independência (1822), a Assembleia Constituinte e Legislativa de 1823 
promulgou a Lei 20 de Outubro, ordenando que continuassem em vigor no território brasileiro 
as leis portuguesas vigentes a 25 de abril de 1821. Entre essas leis, estava a Lei da Boa Razão, 
que autorizava invocar como subsídio nas questões mercantis as normas legais “das nações 
cristãs, iluminadas e polidas, que com elas estavam resplandecendo na boa, depurada e sã 
jurisprudência” (as chamadas nações amigas). 
Essa curiosa lei tornava plausível a invocação do direito estrangeiro como subsidiário 
do direito lusitano e do direito brasileiro. Com isso, o Código Comercial francês de 1808, com 
irradiação intensa pelo mundo inteiro, passou a constituir a verdadeira legislação mercantil 
nacional. 
Em 1824 foi promulgada a primeira Constituição do Brasil, e esta exigia que o país 
editasse três leis: o Código Civil (sancionado em 1916), o Código Penal (sancionado em 
1917) e o Código Empresarial (sancionado em 1850). 
O Código Comercial Brasileiro de 1850 (Lei nº 556, de 25 de junho de 185), como já 
era de se esperar, teve como influências próximas o Código Comercial francês de 1808 e o 
Código Civil napoleônico de 1804, adotando, dessa forma, a teoria dos atos de comércio, 
sistema objetivo que regia as relações comerciais. 
No entanto, um fato curioso merece destaque: embora o Código Comercial brasileiro 
tenha adotado a teoria dos atos de comércio, o texto normativo não expressou em seu corpo a 
teoria que deveria ser aplicada às relações comerciais dali em diante, gerando inúmeros 
percalços. Essa omissão resultou, então, na edição, em setembro de 1850, do Regulamento 
737, que expressamente fazia menção à adoção da teoria dos atos de comércio e pontuava os 
atos de mercancia. 
Nesse contexto de criação e consolidação das leis brasileiras, Teixeira de Freitas, à 
época jurisconsulto brasileiro, reconhecido como o jurisconsulto do império, foi contratado 
para, no prazo de três anos (1854/1856), fazer a consolidação das leis civis. 
Em menos de dois anos, Teixeira de Freitas entregou seu projeto, inclusive com 
comentário às normas. 
Aprovada a Consolidação, Teixeira de Freitas foi contratado em 1858 para elaborar 
um anteprojeto de Código Civil Brasileiro. Passou, pois, a trabalhar no seu Esboço, que se 
apresentou, de 1860 a 1865, em três partes, sob a forma de anteprojeto com 4.908 artigos. 
Faltou uma parte final dos direitos reais e o regime dos direitos das sucessões, tendo 
deixado de ser impressas mais algumas centenas de artigos, de tal modo que o Esboço 
completo deveria ter cerca de 5.300 artigos, tornando-se um dos mais longos do mundo. Nele 
Teixeira de Freitas propôs ao governo a unificação do direito civil e comercial, pois achava 
arbitrário e sem justificação científica a divisão do Direito Privado em civil e comercial. 
O Esboço constituiu, certamente, um dos mais importantes diplomas legais latino-
americanos do século XIX, tanto do ponto de vista legislativo como do doutrinário e 
influenciou as legislações da Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai. 
Deve-se lembrar também que, movido pelo espírito humanista, Teixeira de Freitas 
não mencionou um artigo concernente à escravidão por ser totalmente contra esse regime. 
Para ele as pessoas eram todas iguais perante a lei e o espírito humano era um só. 
Infelizmente o governo imperial não aceitou o Esboço por não concordar com a unificação do 
direito civil e comercial e por não constar nada sobre a escravidão. 
Após esse episódio, Clóvis Beviláqua foi contratado para elaborar o Código Civil 
brasileiro. Seu projeto resultou no Código Civil de 1916, indiferente ao Direito Comercial, 
que continuou a ser regido pelo Código Comercial de 1850. 
Na Itália, Vivante foi contratado para confeccionar o Código Civil italiano (1942) e, 
pautado na sua retratação quanto à divisão entre Direito Civil e Direito Comercial, propôs um 
código que, apesar de unificado, previu um capítulo em separado para as normas de Direito 
Comercial. Estas, por sua vez, foram baseadas na teoria da empresa. 
O Código Civil de 2002, praticamente copiou o Código Civil italiano de 1942 no que 
tange às tratativas do Direito Comercial. 
 
 
EMPRESAS 
 
TEORIA DA EMPRESA 
Ultrapassados por completo os condicionantes econômicos, políticos e históricos que 
ambientaram sua formulação, a teoria dos atos de comércio acabou revelando suas 
insuficiências para delimitar o objeto do Direito Comercial. Na maioria dos países em que foi 
adotada, a teoria experimentou ajustes que, em certo sentido, a desnaturaram. Na Alemanha, 
em 1897, por exemplo, o Código Comercial definiu os atos de comércio como sendo todos 
aqueles que o comerciante, em sua atividade, praticava, alargando enormemente o conceito. 
Outrossim, mesmo onde havia sido concebida e sedimentada a teoria dos atos de 
comércio, não se distinguiam mais os atos de comércio dos civis segundo os parâmetros desta 
teoria. 
As mesmas perplexidades e os mesmos problemas do direito estrangeiro refletiam 
sobre a doutrina nacional. O Regulamento nº 737, de 1850, no art. 19, ao enumerar os atos de 
comércio, incluiu as empresas, dando início, no campo do direito comercial pátrio, aos 
trabalhos de sua conceituação. 
É evidente que o legislador, ao incluir a empresa entre os atos, como figurativas ou 
componentes da mercancia, usou a expressão como repetição de atos praticados a título 
profissional. Entretanto, esse estreito conceito de “empresa” não mais serve à doutrina 
moderna. 
Nesse contexto, a insuficiência da teoria dos atos de comércio forçou o surgimento 
de outro critério identificador do âmbito de incidência do Direito Comercial: a teoria da 
empresa. 
Tal teoria, como já visto, foi implementada no sistema de regulação das atividades 
econômicas dos particulares na Itália, em 1942, com o advento do Código Civil italiano 
criado em plena ditadura fascista comandadapor Benito Mussolini. 
O Código Civil italiano de 1942, por sua vez, como não poderia ser diferente, 
influenciou sobremaneira o Projeto do novo Código Civil brasileiro, iniciado em 1975 e 
culminado no codex de 2002, atualmente em vigor no Brasil. Assim, de início, é de se 
destacar que o Direito brasileiro também adota a teoria da empresa como critério identificador 
para fins de incidência das normas de Direito Comercial. 
Na evolução acerca da teoria da empresa tiveram grande influência as observações 
do Professor Alberto Asquini, um dos expoentes da doutrina comercialista italiana, ao tempo 
do governo fascista. Percebeu este jurista que as dificuldades com que se deparavam os 
comercialistas decorriam da complexidade do fenômeno empresa, pois não lhes era possível 
obter conceito unitário, estanque. Dessa forma, observou que, “apresentando o fenômeno 
econômico da empresa, perante o Direito, aspectos diversos, não deve o intérprete operar com 
o preconceito de que o mesmo caiba, forçosamente, num esquema jurídico unitário”. 
Alberto Asquini, então, na intenção de conceituar a empresa, lançou a tese de que a 
empresa é um fenômeno poliédrico, a qual vislumbra a empresa sob quatro diferentes perfis. 
São eles: 
 
a) perfil subjetivo: que vê a empresa como empresário, ou seja, quem exerce a atividade 
comercial. 
b) perfil funcional: que vê a empresa como atividade empreendedora, isto é, o exercício 
da atividade para o atingimento dos objetivos comerciais. 
c) perfil patrimonial ou objetivo: que vê a empresa como estabelecimento, como forma 
organizada dos bens individualmente considerados para o exercício da atividade empresarial. 
d) perfil corporativo/institucional: que vê a empresa como instituição na qual 
trabalhadores, sócios e administradores comungam de um mesmo esforço para atingirem um 
interesse em comum: o sucesso da empresa. 
 
O conceito de empresa quanto ao perfil subjetivo emerge da definição dada pelo 
Código Civil italiano de 1942 ao empresário, isto é, quem exercita profissionalmente uma 
atividade econômica organizada com o fim de produção ou troca de bens ou de serviços. 
Dessa definição decorrem os elementos: o sujeito de direito (quem exercita), a atividade 
peculiar, a finalidade produtiva e a profissionalidade. 
Quanto ao perfil funcional, explica Asquini que “do ponto de vista funcional ou 
dinâmico, a empresa aparece como aquela particular força em movimento que é a sua 
atividade dirigida a um determinado escopo produtivo”. 
O perfil patrimonial ou objetivo, ou a empresa como estabelecimento resulta da 
projeção do fenômeno econômico sobre o terreno patrimonial, que “dá lugar a um patrimônio 
especial distinto para o seu fim, do remanescente patrimônio do empresário”. Aqui, não se 
deve confundir empresa com estabelecimento. 
Segundo Asquini, esses três perfis têm em vista a empresa sob o ângulo 
individualista do empresário, mas existe também o perfil corporativo (ou institucional), no 
qual ela é considerada como organização de pessoal, formada pelo empresário e seus 
colaboradores. “O empresário”, explica Asquini, “segundo o perfil corporativo, e seus 
colaboradores não constituem simplesmente uma pluralidade de pessoas, ligadas entre si por 
uma soma de relações individuais de trabalho com fins individuais; antes, formam um núcleo 
social organizado, em função de um objetivo comum, no qual se fundem os fins individuais 
do empresário e dos colaboradores singulares para o melhor resultado econômico da 
produção”. 
É importante pontuar que a tese de Asquini da empresa como fenômeno poliédrico 
foi lançada sob as diretrizes do regime fascista da época, que visava a prevalência dos 
conceitos de nação e raça sobre os valores individuais, autocráticos e centralizados. Daí, a 
justificativa do perfil corporativo que, nas ideias de Asquini, apenas servia para mascarar os 
conflitos classistas. Ora, é fato inconteste que entre o proletariado e os empresários existem 
distintos interesses, de maneira a ser inconcebível a afirmativa de que a empresa se volta para 
interesses comuns do empresário e de seus colaboradores, consubstanciando esta em uma das 
principais críticas ao fenômeno poliédrico afirmado por Asquini, principalmente quanto ao 
perfil corporativo/institucional, o que tornou defasada e insuficiente a tese em questão. 
Em razão das diversas críticas, a teoria da empresa acabou se desvencilhando das 
raízes ideológicas fascistas. Por seus méritos jurídicos-tecnológicos, sobreviveu à 
redemocratização da Itália e permanece delimitando o Direito Comercial daquele país até 
hoje. Também por sua operacionalidade, adequada aos objetivos da disciplina da exploração 
de atividades econômicas por particulares no nosso tempo, a teoria da empresa inspirou a 
reforma da legislação comercial de outros países, inclusive a do Brasil, como já frisado 
anteriormente. 
No contexto brasileiro, a comissão de professores que elaborou o Projeto do Código 
Civil de 2002, embora adepta à teoria em comento, evitou definir a empresa. Adotou o mesmo 
critério do Código Civil italiano, conceituando apenas o empresário. Assim, o empresário, 
para o Projeto e agora também pelo novo Código, é “quem exerce profissionalmente atividade 
econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços” (art. 966). 
Alicerçada no dispositivo que conceitua o empresário, a doutrina majoritária, então, 
define a empresa como sendo o exercício de uma atividade econômica de maneira 
profissional, organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Em suma, a 
empresa vem a ser a atividade exercida pelo empresário. 
A partir dessas considerações, começa-se a estabelecer um melhor entendimento 
acerca das concepções modernas sobre empresa. É o que se vê a seguir. 
 
A EMPRESA COMO ABSTRAÇÃO 
Inicialmente, para se alcançar o objetivo deste tópico, é preciso desfazer uma série de 
equívocos e preconceitos que perturbam a exata compreensão do fenômeno econômico e 
jurídico que é a empresa. 
A figuração que o leigo faz de empresa é no sentido objetivo de sua materialização. 
Daí a confusão entre empresa e estabelecimento comercial (art. 1.142, CC) e, no mesmo 
sentido, entre empresa e sociedade. É comum o empresário referir-se ao seu estabelecimento 
comercial, ou à sociedade de que é titular ou sócio proeminente, como “a minha empresa”. Os 
conceitos, no entanto, são inconfundíveis. 
É preciso compreender que a empresa, como entidade jurídica, é uma abstração. Tal 
afirmativa é melhor compreendida nos seguintes dizeres do professor italiano Brunetti: “a 
empresa, se do lado político-econômico é uma realidade, porque reconhecendo-se como 
organização de trabalho formada das pessoas e dos bens componentes do estabelecimento, a 
relação entre a pessoa e os meios de exercício não pode conduzir senão a uma entidade 
abstrata, devendo-se na verdade ligar à pessoa do titular, isto é, ao empresário”. É da ação 
intencional (elemento abstrato) do empresário em exercitar a atividade econômica que surge a 
empresa. Aqui, todavia, uma observação merece importância: a empresa é caracterizada pelo 
exercício da organização. Se todos os seus elementos estiverem organizados, mas não se 
efetivar o exercício dessa organização, não se pode falar em empresa. 
O empresário, assim, organiza a sua atividade, coordenando os seus bens (capital) 
com o trabalho aliciado de outrem. Eis a organização. Essa organização, em si, constitui 
apenas um complexo de bens e um conjunto de pessoal inativo. Esses elementos – bens e 
pessoal – não se junta por si; é necessário que sobre eles, devidamente organizados, atue o 
empresário, dinamizando a organização, imprimindo-lhe atividade que levará à produção.Tanto o capital do empresário como o pessoal que irá trabalhar nada mais são isoladamente do 
que bens e pessoas. A empresa somente nasce quando se inicia a atividade sob a orientação do 
empresário. 
Dessa explicação surge a nítida ideia de que a empresa é essa organização dos fatores 
da produção exercida, posta a funcionar, pelo empresário. Desaparecendo o exercício da 
atividade organizada do empresário, desaparece, também, a empresa. 
Daí por que o conceito de empresa se firma na ideia de que é ela o exercício da 
atividade produtiva. E do exercício de uma atividade não se tem senão uma ideia abstrata. 
 
CARACTERÍSTICAS DO EMPRESÁRIO E DA EMPRESA 
O empresário é definido na lei como o profissional exercente de “atividade 
econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços” (art. 966, CC). 
Destacam-se da definição as noções de profissionalismo, atividade econômica organizada e 
produção ou circulação de bens ou serviços. Abaixo, uma síntese de cada uma delas. 
 
PROFISSIONALISMO: A noção de exercício profissional de certa atividade é associada, na 
doutrina, a considerações de três ordens. A primeira diz respeito à habitualidade. Não se 
considera profissional quem realiza tarefas de modo esporádico. Não será empresário, por 
conseguinte, aquele que organizar episodicamente a produção de certa mercadoria, mesmo 
destinando-a à venda no mercado. Se o sujeito está apenas fazendo um teste, com o objetivo 
de verificar se tem apreço ou desapreço pela vida empresarial ou para socorrer situação 
emergencial em suas finanças, e não se torna habitual o exercício da atividade, então ele não é 
empresário. O segundo aspecto do profissionalismo é a pessoalidade. O empresário, no 
exercício da atividade empresarial, deve contratar empregados. São estes que, materialmente 
falando, produzem ou fazem circular bens ou serviço. O requisito da pessoalidade explica 
porque não é o empregado considerado empresário. Enquanto este último, na condição de 
profissional, exerce atividade empresarial pessoalmente, os empregados, quando produzem ou 
circulam bens ou serviços, fazem-no em nome do empregador. 
Estes dois pontos normalmente destacados pela doutrina na discussão do conceito de 
profissionalismo, não são os mais importantes. A decorrência mais relevante da noção está no 
monopólio das informações que o empresário detém sobre o produto ou serviço objeto de 
sua empresa. Este é o sentido com que se costuma empregar o termo no âmbito das relações 
de consumo. Como o empresário é um profissional, as informações sobre os bens ou serviços 
que oferece ao mercado – especialmente as que dizem respeito às suas condições de uso, 
qualidade, insumos empregados, defeitos de fabricação, riscos potenciais à saúde ou vida dos 
consumidores – costumam ser de seu inteiro conhecimento. Porque profissional, o empresário 
tem o dever de conhecer estes e outros aspectos dos bens ou serviços por ele fornecidos, bem 
como o de informar amplamente os consumidores e usuários. 
Obs.: A profissionalidade não está necessariamente vinculada à ideia de competência técnica. 
 
ATIVIDADE: Se empresário é o exercente profissional de uma atividade econômica 
organizada, então empresa é uma atividade; a de produção ou circulação de bens ou serviços. 
É importante destacar a questão. Na linguagem cotidiana, mesmo nos meios jurídicos, usa-se 
a expressão “empresa” com diferentes e impróprios significados. Se alguém diz “a empresa 
faliu” ou “a empresa importou essas mercadorias”, o termo é utilizado de forma errada, não 
técnica. A empresa, enquanto atividade, não se confunde com o sujeito de direito que a 
explora, o empresário. É ele que fale ou importa mercadorias. Similarmente, se uma pessoa 
exclama “a empresa está pegando fogo!” ou constata “a empresa foi reformada, ficou mais 
bonita”, está empregando o conceito equivocadamente. Não se pode confundir a empresa com 
o local em que a atividade é desenvolvida. O conceito correto nessas frases é o de 
estabelecimento empresarial; este sim pode incendiar-se ou ser embelezado, nunca a 
atividade. Por fim, também é equivocado o uso da expressão como sinônimo de sociedade. 
Não se diz “separam-se os bens da empresa e os dos sócios em patrimônios distintos”, mas 
“separam-se os bens sociais e os dos sócios”; não se deve dizer “fulano e beltrano abriram 
uma empresa”, mas “eles constituíram uma sociedade”. 
Somente se emprega de modo técnico o conceito de empresa quando for sinônimo de 
empreendimento. Se alguém reputa “muito arriscada a empresa”, está certa a forma de se 
expressar: o empreendimento em questão enfrenta consideráveis riscos de insucesso, na 
avaliação desta pessoa. Como ela se está referindo à atividade, é adequado falar em empresa. 
Obs.: A atividade empresária não pode ser um ato. É um conjunto de atos voltados para um 
objetivo maior. 
Importante! 
É qualquer atividade que é considerada empresa? NÃO! Vejamos o parágrafo único do artigo 966 do CC: 
 
Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, 
ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. 
 
A atividade empresarial não é qualquer atividade, tendo em vista que a atividade intelectual de natureza científica, literária ou 
artística, por exemplo, é excluída do conceito de atividade empresária, a princípio. Mais à frente, aprofundaremos mais a 
respeito das atividades de natureza intelectual. 
ECONÔMICA: Para que a atividade seja caracterizada como empresária, tem que estar 
economicamente enviesada, direcionada para o mercado e com finalidade lucrativa. A 
atividade empresarial é econômica no sentido de que busca gerar lucro para quem a explora. 
Note-se que o lucro pode ser o objetivo da produção ou circulação de bens ou serviços, ou 
apenas o instrumento para alcançar outras finalidades. Religiosos podem prestar serviços 
educacionais (numa escola ou universidade) sem visar especificamente o lucro. É evidente 
que, no capitalismo, nenhuma atividade econômica se mantém sem lucratividade e, por isso, o 
valor total das mensalidades deve superar o das despesas também nesses estabelecimentos. 
Mas a escola ou universidade religiosas podem ter objetivos não lucrativos, como a difusão de 
valores ou criação de postos de emprego para os seus sacerdotes. Neste caso, o lucro é meio e 
não fim da atividade econômica (é o que acontece também nas associações civis). 
 
ORGANIZADA: A empresa é atividade organizada no sentido de que nela se encontram 
articulados, pelo empresário, os quatro fatores de produção: capital, mão de obra, insumos e 
tecnologia. Não é empresário quem explora atividade de produção ou circulação de bens ou 
serviços sem alguns desses fatores. A organização também diz respeito ao fato de que a 
atividade tem que usufruir de uma junção de bens aleatórios para formação de um conjunto 
útil ao seu objetivo. Essa organização consiste, dentre outros fatores, no estabelecimento 
comercial e nos bens que o compõe. 
 
PRODUÇÃO DE BENS OU SERVIÇOS: Produção de bens é a fabricação de produtos ou 
mercadorias (é aquilo que o antigo regulamento 737 de 1950 chamava de mercancia). É o ato 
que gera a riqueza. Toda atividade de indústria é, por definição, empresarial. Produção de 
serviços, por sua vez, é a prestação de serviços. São exemplos de produtores de bens: 
montadoras de veículos, fábricas de eletrodomésticos, confecções de roupas; e de produtores 
de serviços: bancos, seguradoras, hospitais, escolas, estacionamentos, provedores de acesso à 
internet. Circulação de bens ou serviços. A atividade de circular bens é a do comércio, em sua 
manifestaçãooriginária: ir buscar o bem no produtor para trazê-lo ao consumidor. É a 
atividade de intermediação na cadeia de escoamento de mercadorias. O conceito de 
empresário compreende tanto o atacadista como o varejista, tanto o comerciante de insumos 
como o de mercadorias prontas para o consumo. Os de supermercados, concessionárias de 
automóveis e lojas de roupas são empresários. Circular serviços é intermediar a prestação de 
serviços. A agência de turismo não presta os serviços de transporte aéreo, traslados e 
hospedagem, mas, ao montar um pacote de viagem, os intermedeia. 
 
BENS OU SERVIÇOS: Até a difusão do comércio eletrônico via internet, no fim dos anos 
1990, a distinção entre bens ou serviços não comportava, na maioria das vezes, maiores 
dificuldades. Bens são corpóreos, enquanto os serviços não têm materialidade. A prestação de 
serviços consistia sempre numa obrigação de fazer. Contudo, com a intensificação do uso da 
internet para a realização de negócios e atos de consumo, certas atividades resistem à 
classificação nesses moldes. A assinatura de jornal-virtual, com exatamente o mesmo 
conteúdo do jornal-papel, é um bem ou serviço? Os chamados bens virtuais, como programas 
de computador ou arquivo de música baixada pela internet, em que categoria devem ser 
incluídos? Mesmo sem resolver essas questões, não há dúvidas, na caracterização de 
empresário, de que o comércio eletrônico, em todas as suas várias manifestações, é atividade 
empresarial. 
 
PRINCÍPIOS DO DIREITO EMPRESARIAL 
A principiologia do Direito Empresarial, apesar de as normas deste ramo estarem 
materialmente unificadas no Código Civil, é lastreada de diferenças quando em comparação 
com o Direito Civil. Vejamos alguns dos princípios do Direito Empresarial: 
 
Princípio da liberdade de iniciativa: Primeiramente, temos que o princípio em questão não 
se confunde com a liberdade de associação. Liberdade de iniciativa é ter o livre direito de 
iniciar, por si mesmo, ou com outras pessoas, uma atividade empresária. Tal princípio está 
positivado como norma fundamental da Constituição Federal de 1988 (arts. 5º e 170). Esse 
princípio tem duas perspectivas: a perspectiva pública e a privada. 
Perspectiva pública: significa que o estado não pode proibir a participação do 
indivíduo no mercado, cabendo a ele apenas regular e organizar as práticas comerciais. 
Perspectiva privada: significa que outras pessoas não podem praticar contra o 
indivíduo que está inserido no mercado infrações econômicas, a exemplo do cartel, 
oligopólio, etc. 
 
Princípio da função social da empresa: Embora sem previsão expressa, a doutrina entende 
ter sido a função social da empresa acolhida pelo Código Civil de 2002, seja em razão do 
expresso reconhecimento da função social de outros dois institutos vinculados ao exercício da 
empresa, o contrato (art. 422, CC) e a propriedade (art. 1228, §1º, CC), de cujo cumprimento 
não pode o empresário se escusar, em virtude dos critérios dirigentes da interpretação do 
diploma civil de 2002, que são a eticidade, a socialidade e a operabilidade. 
Aplicada à empresa, a função social somente passou a ser expressamente prevista com a 
edição de Lei 6.404/76 (Lei das Sociedades Anônimas), em seus artigos 116, parágrafo único, 
e 154, caput. Vejamos: 
 
Art. 116, Parágrafo único. O acionista controlador deve usar o poder com o fim de fazer 
a companhia realizar o seu objeto e cumprir sua função social, e tem deveres e 
responsabilidades para com os demais acionistas da empresa, os que nela trabalham e 
para com a comunidade em que atua, cujos direitos e interesses deve lealmente respeitar 
e atender. 
 
Art. 154. O administrador deve exercer as atribuições que a lei e o estatuto lhe conferem 
para lograr os fins e no interesse da companhia, satisfeitas as exigências do bem público 
e da função social da empresa. 
 
Como se percebe, a função social da empresa trata-se de princípio de difícil definição, cujo 
conteúdo não pode ser depreendido a partir dos dispositivos a ela aplicáveis. Conceitos 
bastante difundidos são aqueles trazidos pelas duas principais teorias que se debruçam sobre o 
tema. 
Uma teoria, chamada de Teoria da Firma (ou Teoria dos Shareholders), diz que a empresa só 
cumpre sua função social quando gera empregos e quando paga os tributos, pois assim 
colabora para o desenvolvimento econômico e participa indiretamente da distribuição de 
renda (maximização do lucro). 
A outra teoria, a Teoria dos Stakeholders, afirma que o administrador da empresa não precisa 
se preocupar somente com a maximização do lucro, promovendo o bem-estar dos acionistas, 
mas sim, deve-se preocupar também com os empregados, com os consumidores e com a 
coletividade, prezando pelo meio ambiente e pelos interesses dos operários e dos demais 
interessados. Por essa teoria, a empresa deve agir em prol de todos que por ela são afetados de 
alguma forma. 
Não existe, no entanto, uma tendência doutrinária acerca dessas teorias. Existem aqueles mais 
liberais que aplicam a primeira teoria, assim como também são muitos os que entendem pela 
adoção, do ordenamento, da segunda teoria, já que a Lei de S/A, ao tratar da função social da 
empresa, positiva as ideias da Teoria dos Stakeholders (artigos 116, parágrafo único, e 154, 
caput, acima transcritos). 
 
Princípio da livre concorrência: É um princípio que também está expresso na CF (art. 170). 
Os atores da atividade econômica possuem a garantia de concorrer livremente entre si, sem 
intervenção estatal desnecessária. O Estado não pode proibir ou discriminar injustamente uma 
atividade econômica por si só, sem fundamentos justos. Ao contrário, o Estado deve 
promover incentivos (sobretudo fiscais) aos atores financeiros que estejam cumprindo 
requisitos legais, atuando em áreas de manutenção da sobrevivência humana e encorajando 
outros atores financeiros à atuação pelos ditames legais. Pelo referido princípio também 
entende-se que não se pode exercer a concorrência desleal. 
 
Princípio da preservação da empresa: É um princípio relativamente novo. Isso porque está 
especialmente trabalhado na Lei 11.101/2005 (Nova Lei de Falências). A Lei prevê a 
possibilidade de recuperação da empresa com o fito de preservá-la e, de certa forma, de 
protegê-la dos efeitos nefastos de uma crise econômica. A preservação da empresa, então, está 
diretamente ligada à função social que ela exerce. 
 
Obs.: Uma corrente extremamente minoritária defende o princípio da dignidade da pessoa 
jurídica. No entanto, esse princípio não é muito aceito, principalmente pelo professor. 
 
PESSOAS QUE ESTÃO EXCLUÍDAS DA ATIVIDADE EMPRESARIAL 
 Como já dito alhures, aqueles que exercem atividade intelectual estão excluídos da 
atividade empresarial e, por conseguinte, das normas do sistema empresarial. 
 O empresário rural, por sua vez, tem a prerrogativa de escolher qual o sistema que irá 
se submeter, se o sistema civil ou empresarial. 
 
Mas atenção! 
Elemento de Empresa: Aqui vale uma observação. Embora tais pessoas estejam excluídas da 
atividade empresarial por exercerem atividade intelectual, a lei estabelece que se o indivíduo 
exerce “elemento de empresa”, estará ele exercendo atividade de natureza iminentemente 
empresarial, e, portanto, estará submetido às normas do Direito Empresarial (exs.: clínicas 
estéticas direcionadas para o lucro de médicos que se organizam para exercer suas atividades 
profissionais). Nesse conceito, a atividade intelectual perde sua essência e vira elemento da 
empresa. Vejamos o dispositivo que traduz essa exceção (parágrafo único, do artigo 966, do 
Código Civil): 
 
Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissãointelectual, de 
natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou 
colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. 
 
DISTINÇÃO ENTRE EMPRESA E SOCIEDADE 
A principal distinção, e mais didática, entre empresa e sociedade empresária é a que 
vê na sociedade o sujeito de direito, e na empresa, mesmo como exercício de atividade, o 
objeto de direito. 
Com efeito, a sociedade empresária, desde que esteja constituída nos termos da lei, 
adquire categoria de pessoa jurídica. Torna-se capaz de direitos e obrigações. A sociedade, 
assim, é empresária, jamais empresa. É a sociedade, como empresário, que irá exercitar a 
atividade produtiva. 
Outra distinção fácil é a de que empresa pode ser o exercício da atividade individual, 
de pessoa natural. É a empresa individual, contrapondo-se à empresa coletiva, que é a 
exercida pela sociedade empresária. A empresa não pressupõe, como se vê, necessariamente, 
uma sociedade empresária. 
Além disso, pode haver sociedade empresária sem empresa. Duas pessoas, por 
exemplo, juntam seus cabedais, formam o contrato social, e o registram na Junta Comercial. 
Eis aí a sociedade, e, enquanto estiver inativa, a empresa não surge. 
 
DISTINÇÃO ENTRE EMPRESÁRIO INDIVIDUAL E SOCIEDADE EMPRESÁRIA 
 Aquele que exerce pessoalmente e por ele mesmo a atividade empresarial é chamado 
de empresário individual. Mas quando a atividade empresarial é exercida por mais de uma 
pessoa, o empresário é a sociedade, usualmente denominada sociedade empresária. 
 
Obs1: O empresário individual, apesar de não consistir em uma pessoa jurídica, recebe um 
registro no CNPJ, para fins de diferenciação da pessoa física, especialmente com o fito de 
tributação. 
 
Obs2: Existe a figura do Micro e Pequeno Empreendedor, passível de proteção prevista na 
CF. O Micro Empreendedor é aquele que não possui renda anual bruta superior a R$ 
360.000,00. Já o Empresário de Pequeno Porte é aquele que fatura renda anual bruta entre R$ 
360.000,00 e R$ 3.600.000,00. É importante frisar que esses valores estão sujeitos a 
alterações constantes, tendo em vista a valorização da moeda e os índices de reajuste. 
 
Obs3: ME e EPP são apenas qualificações que podem ser aplicadas tanto à sociedade 
empresária, quanto ao empresário individual. Cada uma dessas qualificações possui seus 
benefícios e está vinculada a requisitos específicos. 
 
Obs4: Existe também a qualificação do Micro Empreendedor Individual (MEI), que consiste 
em uma categoria especial de empresário individual. Significa que sociedade empresária não 
pode se qualificar como MEI. O MEI pode ter renda anual bruta de até R$ 60.000,00 e ter 
apenas um empregado. 
 
Obs5: Essas qualificações (ME, EPP e MEI) não são obrigatórias, mas se os requisitos são 
preenchidos, é bom que o empresário individual ou a sociedade empresária pleiteie a 
respectiva qualificação, tendo em vista os benefícios que essas categorias proporcionam. 
 
 Abaixo, um quadro exemplificativo que auxilia no entendimento da distinção entre 
empresário individual e sociedade empresária, bem como no enquadramento como ME, EPP e 
MEI: 
 
 
 
OBRIGAÇÕES DOS EMPRESÁRIOS 
 A maioria das obrigações do empresário diz respeito à contabilidade da atividade 
empresarial. Tais obrigações repercutem, inclusive, nas associações e fundações, com as 
adequações pertinentes à suas naturezas. 
 
1) Inscrição no Registro Mercantil (arts. 967 – 971, CC): Uma das obrigações do 
empresário, isto é, do exercente de atividade econômica organizada para a produção 
ou circulação de bens ou serviços é a de inscrever-se no Registro das Empresas, antes 
de dar início à exploração de seu negócio. Vejamos: 
 
Art. 967. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de 
Empresas Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua atividade. 
 
Obs.: O registro não constitui em ato constitutivo, ao contrário do que acontece com 
associações e fundações. 
 
2) Escrituração uniforme dos Livros (art. 1179, CC) e adoção dos Livros 
Obrigatórios (arts. 1180 – 1185, CC): De acordo com o artigo 1.179 do Código 
Civil, a empresa poderá usar um sistema de escrituração de livros, manual, 
mecanizado ou eletrônico. 
 
Art. 1.179. O empresário e a sociedade empresária são obrigados a seguir um 
sistema de contabilidade, mecanizado ou não, com base na escrituração uniforme 
de seus livros, em correspondência com a documentação respectiva, e a levantar 
anualmente o balanço patrimonial e o de resultado econômico. 
 
 As escriturações devem ficar a cargo de um profissional contabilista, legalmente 
habilitado para exercer tal feito, a não ser que na localidade da empresa não exista 
nenhum. Nesse caso, o empresário deverá contratar profissional que entenda 
competentemente para o desenvolvimento de tal tarefa. 
Além, de contar com o contabilista altamente habilitado para tal, ou, profissional que 
seja competente no assunto, o empresário contará com livros obrigatórios, que são de 
suma importância, subdivididos em comuns e especiais. Os livros especiais são 
específicos para cada atividade, a título de exemplo, Livro de Registro de Duplicatas, 
Livro de Ações Nominativas das Sociedades Anônimas, Livros de Atas de 
Assembléias Gerais. Já os livros comuns independem da atividade exercida ou do tipo 
societário, haverá apenas um único exemplar, a exemplo do Livro Diário. Destarte, 
poderá o empresário contar, a seu critério, com livros facultativos que servem apenas 
para aprimorar o sistema de controle da atividade empresarial. 
Os livros obrigatórios são imprescindíveis para que se prove a regularidade do 
exercício da atividade empresarial e a inobservância a essa obrigação pode gerar 
consequências jurídicas. 
 
3) Levantamento anual do Balanço Patrimonial e Resultado Econômico (art. 1179, 
CC): A obrigação de levantar, anualmente, dois balanços – o balanço patrimonial, 
demonstrando o ativo e passivo, compreendendo todos os bens, créditos e débitos, e o 
balanço de resultado econômico, demonstrando a conta dos lucros e perdas – é 
imposta a todos os empresários, pessoas físicas ou jurídicas (CC, art. 1.179). A esta 
obrigação não pode furtar-se nenhum empresário, exceto o microempresário e o de 
pequeno porte. Há empresários obrigados a levantar balanço e outros demonstrativos 
em período mais breve que o anual (como as instituições financeiras que, em virtude 
do contido no art. 31 da Lei 4.595/64, Lei de Reforma Bancária, devem fazê-lo 
semestralmente). 
A Lei de Falências, no art. 178, define como crime falimentar a inexistência dos 
documentos de escrituração contábil obrigatórios, entre os quais se incluem os 
balanços patrimoniais e de resultado econômico. Assim, incorrem em conduta 
criminosa o empresário e os representantes legais da sociedade empresária caso venha 
a ser decretada a sua falência se os balanços anuais não tinham sido levantados, 
escriturados e autenticados pelo Registro do Comércio. 
A obrigação de levantamento anual de balanço, dessa forma, traz ao empresário que a 
descumpre e vem a falir, requer a recuperação judicial ou homologação da 
recuperação extrajudicial, a sanção penal do art. 178 da LF. 
Além de afastar a conduta criminosa, o cumprimento dessa obrigação traz benefícios 
ou evita prejuízos para o empresário. Por exemplo: a) as sociedades anônimas estão 
sujeitas a regime próprio sobre demonstrações financeiras, que incluem o balanço 
patrimonial (LSA, arts. 178 a 184) e o demonstrativo de resultados do exercício (art. 
187), e a ausência de seu levantamento acarreta responsabilidade dos administradores; 
b) a legislação tributária sobre impostode renda sujeita determinadas categorias de 
empresários contribuintes ao dever de elaboração de balanços periódicos; c) o acesso 
ao crédito bancário tem sido condicionado à apresentação dos balanços regularmente 
elaborados, de modo a restar fechado o acesso ao crédito bancário aos empresários que 
não os possuam; d) a participação em licitações públicas depende de comprovação da 
regularidade econômico-financeira, feita inclusive por meio da apresentação de 
balanços (Lei 8.666/93, art. 31, I). 
Em resumo, balanço patrimonial é listar os ativos e passivos de uma atividade 
empresária. Já o resultado econômico é o resultado do último ano fiscal, 
consubstanciado na apreensão, positiva ou não, do ano de trabalho/exercício. 
Obs.: A data pode ser colocada conforme a escolha do empresário, mas recomenda-se 
fortemente que o ano fiscal da empresa corresponda ao calendário civil. 
 
4) Guarda da Escrituração e demais papeis relacionados à atividade (art. 1194 e Lei 
11.638/07): Nada mais é do que custodiar os documentos relacionados ao exercício da 
atividade. É primordial para fins de comprovação do lucro obtido. A transparência da 
contabilidade é fundamental, também, para que as SA‟s se integrem e/ou avancem nos 
níveis de corporação regulados por agências específicas (nível 1, 2, 3, novo 
mercado...). 
 
 A inobservância de cada uma dessas obrigações não exclui o empresário do regime 
jurídico-comercial, mas importa consequências diversas, que visam mais a estimular o 
cumprimento dessas obrigações que, propriamente, punir o empresário pelo descumprimento. 
 Isso não significa que tais consequências sejam desprovidas de caráter sancionador. 
Pelo contrário, elas importam, até, em alguns casos, prática de crime. 
 
 
EXIBIÇÃO JUDICIAL E EFICÁCIA PROBATÓRIA DOS LIVROS 
 Os livros comerciais, em tese, gozam da proteção do princípio do sigilo, cujo perfil 
legal encontra-se no art. 1.190 do CC. A exibição de livros empresariais em juízo, por esta 
razão, não pode ser feita por simples vontade das partes ou por decisão do juiz, senão em 
determinadas hipóteses da lei. 
 Em primeiro lugar, deve-se distinguir a exibição parcial da exibição total. Aquela se 
destina a garantir o princípio do sigilo, resguardando da curiosidade alheia as partes da 
Atenção! Essas obrigações não se aplicam ao Micro Empresário Individual (MEI). 
escrituração mercantil que não interessam a uma certa demanda judicial, além de, é claro, não 
dificultar a sua elaboração e utilização. Assim, a exibição parcial se faz por extração da suma 
que interessa ao juízo e restituição imediata do livro ao empresário. 
 Já a exibição total dos livros pode importar sua retenção em cartório durante todo o 
andamento da ação, não se assegurando o sigilo de seus dados e dificultando a sua utilização e 
escrituração pelo empresário. Por estas razões é que a exibição total dos livros comerciais só 
pode ser determinada pelo juiz, a requerimento da parte, em apenas algumas ações (por 
exemplo: questões relativas à sucessão, comunhão ou sociedade, administração ou gestão à 
conta de outrem ou falência), ao passo que a exibição parcial pode ser decretada de ofício ou a 
requerimento da parte, em qualquer ação judicial, sempre que útil à solução da demanda. 
Somente na falência pode o juiz determinar de ofício a exibição total dos livros. A Súmula 
260 do STF, pela qual “o exame de livros comerciais, em ação judicial, fica limitado às 
transações entre os litigantes”, não exclui a exibição total da escrita dos empresários, quando 
autorizada em lei. 
 Exibido total ou parcialmente, ou tendo sido objeto de perícia judicial contábil, o livro 
empresarial terá a força probante (ou eficácia probatória) que a lei processual estabelece. Ou 
seja, o livro empresarial prova contra o seu titular, sendo-lhe permitido, contudo, demonstrar, 
por outros meios probatórios, a eventual inveracidade dos dados contábeis que lhe são 
desfavoráveis; e prova a favor de seu titular, em demanda entre empresários, desde que 
atendidos os requisitos intrínsecos e extrínsecos já assinalados. Conclui‑se, pois, que, de um 
lado, para que tenha eficácia probatória contra o seu titular, o livro empresarial não precisa, 
necessariamente, atender aos requisitos legais de escrituração, os quais a lei só exige para fins 
de eficácia probatória em favor do empresário que os escriturou. 
 A tutela do sigilo dos livros empresariais não tem o alcance de eximir o empresário da 
sua exibição para determinadas autoridades administrativas (CC, art. 1.193). Ao contrário, em 
duas hipóteses o legislador expressamente garante a certos funcionários públicos irrestrito 
acesso à escrituração mercantil: o art. 195 do CTN prevê a inaplicabilidade de qualquer 
exclusão do direito de exame da escrituração do empresário pela autoridade fiscal e o art. 33, 
§ 1º, da Lei n. 8.212/91 reconhece à fiscalização da Seguridade Social idêntica prerrogativa. 
 Evidentemente, quanto às demais autoridades administrativas, prevalece ainda o 
princípio do sigilo consagrado pela legislação cível. O funcionário da Prefeitura do setor de 
fiscalização da segurança de uso dos imóveis, por exemplo, não pode ter acesso à escrituração 
do empresário, porque não existe expressa disposição na legislação federal que afaste a 
incidência do art. 1.190 do CC na espécie, abaixo transcrito: 
 
Art. 1.190. Ressalvados os casos previstos em lei, nenhuma autoridade, juiz ou tribunal, 
sob qualquer pretexto, poderá fazer ou ordenar diligência para verificar se o empresário 
ou a sociedade empresária observam, ou não, em seus livros e fichas, as formalidades 
prescritas em lei. 
 
INSCRIÇÃO 
 A inscrição da atividade empresária é feita na junta comercial da sede da empresa e 
consiste em ato público. 
 O Registro das Empresas está estruturado de acordo com a Lei nº 8.934, de 1994 (Lei 
de Registro Público de Empresas Mercantis – LRE), que dispõe sobre o registro público de 
empresas mercantis e atividades afins. Trata-se de um sistema integrado por órgãos de dois 
níveis diferentes de governo: no âmbito federal, o Departamento Nacional do Registro do 
Comércio (DNRC); e no âmbito estadual, a Junta Comercial. Essa peculiaridade do sistema 
repercute no tocante à vinculação hierárquica de seus órgãos, que varia em função da matéria. 
 O Departamento Nacional do Registro do Comércio integra o Ministério do 
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, e é o órgão máximo do sistema. Entre as 
suas atribuições, destacam-se as seguintes: 
 
 Supervisionar e coordenar a execução do registro de empresa, expedindo, para esse 
fim, as normas e instruções necessárias, dirigidas às Juntas Comerciais de todo o País; 
 Orientar e fiscalizar as Juntas Comerciais, zelando pela regularidade na execução do 
registro de empresa. Caso suas instruções não sejam satisfatoriamente atendidas, 
caberá, na forma da lei, promover a representação às autoridades administrativas 
competentes, como os Secretários de Estado a que esteja vinculada a Junta ou, até 
mesmo, ao próprio Governador; 
 Promover ou providenciar medidas correicionais do Registro de Empresa. Dessa 
competência não deriva o poder para intervir unilateralmente nos serviços da Junta 
Comercial, quando necessário à correção de falhas ou deficiências. Como a 
competência do DNRC tem natureza exclusivamente supletiva, conforme esclarece a 
própria lei, em obediência ao princípio constitucional federativo, só poderá ocorrer a 
intervenção se resultar frutífera a representação endereçada à autoridade estadual 
hierarquicamente superior à Junta e essa autoridade, então, concordar que a correção 
se faça pelo órgão federal; 
 Organizar e manter atualizado o Cadastro Nacional dasEmpresas Mercantis. Esse 
cadastro não tem efeitos registrários, ou seja, a inscrição do empresário nele efetuada 
não supre o registro na Junta Comercial, para fins de regularidade do exercício do 
comércio; cuida-se, isto sim, de um simples banco de dados de natureza 
essencialmente estatística, que serve de subsídio à política econômica federal. 
 
 Por esse rol das principais atribuições do DNRC, pode-se ter uma ideia do perfil que o 
legislador lhe conferiu. Trata-se de órgão do sistema de registro de empresas sem função 
executiva, isto é, ele não realiza qualquer ato de registro de empresa. Compete-lhe, todavia, 
fixar as diretrizes gerais para a prática dos atos registrários, pelas Juntas Comerciais, 
acompanhando a sua aplicação e corrigindo distorções. 
 Já às Juntas Comerciais, órgãos da administração estadual, cabe a execução do registro 
de empresa, além de outras atribuições legalmente estabelecidas. Destacam-se as seguintes 
competências: 
 
 Assentamento dos usos e práticas mercantis. O comércio rege-se também por normas 
consuetudinárias, cuja compilação é da incumbência da Junta Comercial. Na forma de 
seu regimento interno, o assentamento deve ser precedido de ampla discussão no meio 
empresarial e análise de sua adequação à ordem jurídica vigente, pela Procuradoria. 
Uma vez deliberado o assentamento, a Junta pode expedir aos interessados as 
correspondentes certidões, que servem em juízo como início de prova; 
 Habilitação e nomeação de tradutores públicos e intérpretes comerciais. A Junta 
funciona, nesse caso, como órgão profissional dessas categorias paracomerciais, 
cabendo-lhe exercer o poder disciplinar, bem como estabelecer o código de ética da 
atividade e controlar o exercício da profissão; 
 Expedição da carteira de exercício profissional de empresário e demais pessoas 
legalmente inscritas no registro de empresa. 
 
 A subordinação hierárquica da Junta Comercial é híbrida. Deve esse órgão, de acordo 
com a matéria em pauta, reportar‑se ou ao DNRC ou ao governo estadual a que pertença, 
segundo se trate, respectivamente, de matéria técnica de registro de empresa ou de matéria 
administrativa. Assim, não pode o governador do Estado expedir decreto referente a registro 
de sociedade empresária, assim como o DNRC não pode interferir com as questões 
específicas do funcionalismo ou da dotação orçamentária do órgão estadual. Em se tratando, 
portanto, de questões de direito comercial, a subordinação hierárquica da Junta diz respeito ao 
DNRC; já em termos de direito administrativo e financeiro, diz respeito ao Poder Executivo 
estadual de que faça parte. 
 A Junta Comercial, no exercício de suas funções registrárias, está adstrita aos aspectos 
exclusivamente formais dos documentos que lhe são dirigidos. Não lhe compete negar a 
prática do ato registral senão com fundamento em vício de forma, sempre sanável. E, mesmo 
nesta seara, a sua atuação deve orientar-se pelas prescrições legais, sendo-lhe defeso exigir o 
atendimento de requisito formal não estabelecido no ordenamento jurídico em vigor. O 
prejudicado por ilegalidade da Junta poderá, evidentemente, socorrer-se do Poder Judiciário. 
A propósito, a Justiça competente para conhecer a validade dos atos da Junta Comercial é a 
Estadual, a menos que se trate de mandado de segurança contra ato pertinente ao registro das 
empresas, hipótese em que o órgão estadual age por orientação do DNRC e, por essa razão, é 
da Justiça Federal a competência (CF, art. 109, VIII). 
 O Registro do Comércio é público e qualquer pessoa tem o direito de consultar os seus 
assentamentos, sem necessidade de alegar ou provar interesse, na forma que for determinada 
pelo regimento interno da junta Comercial. As certidões do registro serão fornecidas sem 
embaraços, mediante o pagamento das respectivas taxas, denominadas emolumentos. 
Aplicam-se, dessa forma, ao Registro do Comércio as disposições legais referentes à 
publicidade de que se reveste o Registro Civil. 
 É preciso acentuar que o registro dos atos de comércio não é constitutivo de direitos. 
Assim, por exemplo, a inscrição de firma individual, ou do contrato social, não assegura a 
qualidade de comerciante, pelo só efeito do registro. Essa qualidade constante do registro 
pode ser elidida por qualquer prova em contrário. 
 A falta de registro mercantil tem como consequência o afastamento da aplicação das 
normas de Direito Comercial, ou seja, a tutela passa a ser das normas do Direito Civil (lógica 
do art. 4º do antigo Código Comercial e art. 48 da Lei de Falência). 
 Da mesma forma, temos que o registro no órgão próprio não é da essência do conceito 
de empresário. Será empresário o exercente profissional de atividade econômica organizada 
para a produção ou circulação de bens ou serviços, esteja ou não inscrito no registro das 
empresas. Entretanto, o empresário não registrado não pode usufruir dos benefícios que o 
direito comercial libera em seu favor, de sorte que a eles se aplicam as seguintes restrições, 
quando se tratar de exercente individual da empresa: 
 
 O empresário irregular não tem legitimidade ativa para o pedido de falência de seu 
devedor, consoante prescreve o art. 97, § 1º, da LF. Por este dispositivo, somente o 
empresário inscrito na Junta Comercial e que exiba o comprovante desta inscrição está 
em condições de postular a falência de outro empresário. O irregular, embora não 
possa requerer a falência de outro exercente de empresa, pode ter a sua própria 
falência requerida e decretada e pode requerer a própria falência (autofalência); 
 O empresário irregular não tem legitimidade ativa para requerer a recuperação 
judicial, na medida em que a lei elege a inscrição no Registro de Empresa como 
condição para ter acesso ao favor legal (LF, art. 51, V); 
 O empresário irregular não pode ter os seus livros autenticados no Registro de 
Empresa, em virtude da falta de inscrição (CC, art. 1.181). Desta maneira, não poderá 
se valer da eficácia probatória que a legislação processual atribui a esses instrumentos; 
outrossim, se for decretada a sua falência, esta será, necessariamente, fraudulenta, 
incorrendo o empresário no crime falimentar previsto no art. 178 da LF. 
 
 Essas são as consequências que advêm do exercício de atividade empresarial por 
pessoa física sem regular inscrição no Registro de Empresa. Quando se tratar de sociedade 
empresária, além dessas consequências, deve-se acrescentar mais a do art. 990 do CC 
(“sociedade em comum”), vale dizer, a responsabilidade pelas obrigações sociais solidária e 
ilimitada dos sócios, respondendo diretamente aquele que, dentre estes, administrou a 
sociedade. 
 
Art. 990. Todos os sócios respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais, 
excluído do benefício de ordem, previsto no art. 1.024, aquele que contratou pela 
sociedade. 
 
 Assim, além das consequências acima referidas, há verdadeiras sanções reservadas 
pelo direito comercial aos empresários irregulares, podendo ser elencados os seguintes efeitos 
secundários do exercício da empresa sem o necessário registro na Junta Comercial: 
 
 Impossibilidade de participar de licitações, nas modalidades de concorrência pública e 
tomada de preço (Lei n. 8.666/93, art. 28, II e III); 
 Impossibilidade de inscrição em Cadastros Fiscais (Cadastro Nacional de Pessoas 
Jurídicas – CNPJ, Cadastro de Contribuintes Mobiliários – CCM, e outros), com as 
decorrentes sanções pelo descumprimento dessa obrigação tributária acessória; 
 Ausência de matrícula junto ao INSS, que, em relação aos empresários, é processada 
simultaneamente à inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica – CNPJ, o que o 
sujeita à pena de multa (Lei n. 8.212/91,art. 49, I) e, na hipótese de sociedade 
empresária, também a proibição de contratar com o Poder Público (CF, art. 195, § 3º). 
 
 Em resumo, para as pessoas jurídicas de atividade empresária, especificamente, caso 
ausente o registro na junta comercial, os atos praticados são considerados válidos como sedo 
praticados apenas por uma sociedade contratual (sociedade de fato, “em comum”), e não por 
uma pessoa jurídica de atividade empresária devidamente registrada. 
 Tal diferenciação gera efeitos quando envolvem direitos de terceiros, por exemplo, que 
terão tutela jurídica inclusive por meio de execução que pode atingir o patrimônio daqueles 
sócios contratuais (sócios de fato), tudo isso porque a sociedade não foi devidamente 
registrada e, portanto, está sujeita às regras gerais do direito civil. 
 Daí, conclui-se que o registro na junta comercial não é obrigatório, mas quando 
inexistente esse registro, está-se a assumir um risco, uma vez que na sociedade de fato (ou em 
comum), impera a responsabilidade solidária e ilimitada. 
 
ATOS DO REGISTRO MERCANTIL 
 A Lei nº 8.934, de 1994 (LRE) prevê três atos do registro de empresa: a matrícula, o 
arquivamento e a autenticação. 
 A matrícula é o nome do ato de inscrição dos tradutores públicos, intérpretes 
comerciais, leiloeiros, trapicheiros e administradores de armazéns-gerais. Trata-se de 
profissionais que desenvolvem atividades paracomerciais (de auxílio ou que estão sujeitas ao 
controle das Juntas Comerciais). 
 O arquivamento é pertinente à inscrição do empresário individual, isto é, do 
empresário que exerce sua atividade econômica como pessoa física, bem como à constituição, 
dissolução e alteração contratual das sociedades empresárias. Dessa forma, por exemplo, os 
atos constitutivos de uma sociedade empresária são arquivados. São igualmente arquivados os 
atos relacionados aos consórcios de empresas e aos grupos de sociedades, assim como os 
concernentes a empresas mercantis estrangeiras autorizadas a funcionar no Brasil. Arquivam-
se, finalmente, as declarações de microempresa e, analogicamente, também as de empresa de 
pequeno porte, além de quaisquer outros documentos ou atos de interesse de empresários. O 
Código Civil determina que os atos modificativos da inscrição do empresário sejam averbados 
à margem desta (art. 968, § 1º). A averbação é uma espécie de arquivamento. 
 Já a autenticação está ligada aos denominados instrumentos de escrituração, que são 
os livros comerciais e as fichas escriturais. Nesse caso, a autenticação é condição de 
regularidade do documento, já que configura requisito extrínseco de validade da escrituração 
mercantil. Ela pode revestir-se, contudo, também de outra natureza, isto é, a de mero ato 
confirmatório da correspondência material entre cópia e original do mesmo documento, desde 
que esteja registrado na Junta (LRE, art. 39, II). 
ADENDO 
Assentamento: A Lei determina que incumbe às juntas Comerciais o assentamento dos 
usos e práticas mercantis, ou seja, alguns costumes regionais podem ser levados a 
assentamento nas Juntas Comerciais para que passem a ser exigidos em determinados atos 
correspondentes. Por estarem fadados ao desuso, os usos e costumes comerciais assentados 
têm que ser revisados a cada cinco anos. 
PROCESSO DECISÓRIO DO REGISTRO DE EMPRESA 
 Prevê a lei dois regimes de execução do registro de empresa: o da decisão colegiada e 
o singular (LRE, arts. 41 e 42). 
 
Art. 41. Estão sujeitos ao regime de decisão colegiada pelas juntas comerciais, na 
forma desta lei: 
I - o arquivamento: 
a) dos atos de constituição de sociedades anônimas, bem como das atas de 
assembleias gerais e demais atos, relativos a essas sociedades, sujeitos ao Registro 
Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins; 
b) dos atos referentes à transformação, incorporação, fusão e cisão de empresas 
mercantis; 
c) dos atos de constituição e alterações de consórcio e de grupo de sociedades, 
conforme previsto na Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; 
II - o julgamento do recurso previsto nesta lei. 
 
Art. 42. Os atos próprios do Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades 
Afins, não previstos no artigo anterior, serão objeto de decisão singular proferida 
pelo presidente da junta comercial, por vogal ou servidor que possua comprovados 
conhecimentos de Direito Comercial e de Registro de Empresas Mercantis. 
Parágrafo único. Os vogais e servidores habilitados a proferir decisões singulares 
serão designados pelo presidente da junta comercial. 
 
 Processa-se pelo regime de decisão colegiada o arquivamento de atos relacionados 
com a sociedade anônima, tais como os estatutos, as atas de assembleias gerais, do conselho 
de administração etc. Nesse mesmo regime se enquadra o arquivamento da transformação, 
incorporação, fusão e cisão de sociedade empresária de qualquer tipo, além dos relacionados 
a consórcio de empresas ou grupo de sociedade. 
 As Juntas Comerciais possuem dois órgãos colegiados: o Plenário e as Turmas. No 
primeiro, têm assento os vogais (no mínimo 11 e no máximo 23), que, excluídos o Presidente 
e o Vice‑Presidente, serão distribuídos, na sessão inaugural do órgão, em Turmas de 3 
membros cada. As decisões colegiadas competem às Turmas (LRE, art. 21), que deliberam 
por maioria. O prazo para a decisão colegiada é de 5 dias, findos os quais poderão os 
interessados requerer o arquivamento independentemente de deliberação. 
 Já o regime de decisão singular compreende a matrícula, a autenticação e todos os 
demais arquivamentos. Assim, o contrato social de uma sociedade limitada, sua alteração 
contratual e a inscrição do empresário individual são, por exemplo, arquivados por decisão 
singular. Quem determina a prática do ato registral sujeito ao regime de decisão singular é o 
Presidente da Junta ou o vogal por ele designado. 
 Possibilita a lei também que a designação recaia sobre funcionário público do órgão, 
que possua conhecimentos comprovados de direito comercial e de registro de empresa. 
 O prazo para a decisão singular é de 2 dias. O julgamento de recurso dos atos 
praticados pela Junta sempre se faz pelo regime de decisão colegiada, ainda que o ato 
recorrido tenha sido praticado em outro regime. A instância competente para julgar o recurso 
é o Plenário (LRE, art. 19). 
PROCEDIMENTO DE REGISTRO 
 Nos procedimento de registro, os atos de registro vão ser chamados de arquivamento, 
no qual é realizado por meio de um processo parecido com administrativo, com direito a 
recurso. 
 
Prazo geral: para levar os atos a registro o prazo geral é de 30 dias corridos, contados a partir 
da data que consta no documento. 
Ex.: se um documento é datado e assinado no dia 25/10, ter-se-á, a partir daquela data, 30 dias 
para leva-lo a registro na unta Comercial, ou seja, até 25/11. Após o deferimento de 
arquivamento, e desde que o requerimento seja feito dentro do prazo legal, os efeitos 
retroagem à data do ato, logo, no exemplo supracitado, o vai gerar efeitos desde o momento 
em que fora praticado (25/10). 
Obs.: A regra dos prazos comporta uma exceção, prevista no artigo 1.075, §2, do Código 
Civil, que impõe o prazo de 20 dias corridos para o registro da ata de assembleia geral das 
sociedades limitadas (LTDA). Vejamos: 
 
Art. 1.075. A assembleia será presidida e secretariada por sócios escolhidos entre os 
presentes. 
(...) 
§ 2
o
 Cópia da ata autenticada pelos administradores, ou pela mesa, será, nos vinte 
dias subsequentes à reunião, apresentada ao Registro Público de Empresas Mercantis 
para arquivamento e averbação. 
 
 Da análise formal do requerimento, se estiver tudo certo, a Junta defere e arquiva o ato 
correspondente.Do deferimento do registro, como dito alhures, seu efeitos retroagem à data 
em que o ato fora praticado. 
 
Envio fora do prazo: se o requerimento para registro do ato demorar mais de 30 dias (ou 20, 
se for o caso) o ato só passa a produzir efeitos a partir no deferimento do registro e 
consequente arquivamento, ou seja, não retroage de forma alguma; o ato só produz seus 
efeitos na data do efetivo arquivamento, conforme preceitua o artigo 1.151, §§ 1º e 2º. 
Ex.: se um documento é datado e assinado no dia 25/10, mas só é levado a registro dia 05/12 
(fora do prazo legal), a Junta levará cerca de 5 dias úteis para analisar e deferir o registro e, 
com isso, só no dia 10/12 é que o ato passará a existir no plano jurídico, surtindo efeitos a 
partir desta data. 
 
Art. 1.151. O registro dos atos sujeitos à formalidade exigida no artigo antecedente 
será requerido pela pessoa obrigada em lei, e, no caso de omissão ou demora, pelo 
sócio ou qualquer interessado. 
§ 1
o
 Os documentos necessários ao registro deverão ser apresentados no prazo de 
trinta dias, contado da lavratura dos atos respectivos. 
§ 2
o
 Requerido além do prazo previsto neste artigo, o registro somente produzirá 
efeito a partir da data de sua concessão. 
 
Dos vícios insanáveis: A não observância aos requisitos formais pode gerar vícios insanáveis 
e sanáveis. O vício insanável compromete o requisito de validade do ato e neste caso o 
requerimento será indeferido. Ex.: vender lote na lua. 
 
Dos vícios sanáveis: Diante da ocorrência de um vício sanável, aquele que apenas 
compromete a eficácia ou registrabilidade do ato (exs.: grafia incorreta e que prejudica a fiel 
interpretação do documento, a falta cláusula obrigatória, entre outros), o requerimento será 
convertido em ocorrências formuladas pela Junta Comercial, a serem cumpridas pelo 
interessado, em até 30 dias, contados da data da ciência dessas exigências ou da publicação do 
despacho. Diz-se que a Junta coloca o processo em exigência. 
Obs1: Se persistir o erro, repete-se o prazo de 30 dias para correção. 
Obs2: Qual a sanção para quem descumpre o prazo de 30 dias para cumprimento da 
exigência? Ao devolver o processo, o analista não o recebe, e aquilo é considerado como 
desistência. Assim, o interessado vai ter que requerer o registro do ato novamente e se sujeitar 
a novas taxas. 
Obs3: Se o ato se refere à constituição de sociedade empresária, enquanto não é efetivamente 
arquivado a sociedade é regida pelas normas atribuídas à sociedade comum, com efeitos inter 
partes e se sujeita à responsabilidade ilimitada, como já visto anteriormente. 
 
Aprovação por decurso do prazo: A aprovação por decurso de prazo está prevista no artigo 
43 da Lei de Registros Públicos Empresarias (Lei 8.934/94). Dessa forma, se os atos 
estiverem previstos no rol do artigo 41 da mesma Lei, a Junta terá um prazo de 2 dias úteis 
para analisa-los. Caso a previsão for do artigo 42, o prazo será de 5 dias úteis. Se a Junta 
Comercial não analisar o requerimento de registro dentro dos prazos legais supracitados, abre-
se a oportunidade para que seja requerida a aprovação por decurso de prazo. Essa aprovação 
não é de ofício, ou seja, sempre vai depender da provocação do interessado. Abaixo, a 
transcrição dos dispositivos mencionados: 
 
Art. 41. Estão sujeitos ao regime de decisão colegiada pelas juntas comerciais, na 
forma desta lei: 
I - o arquivamento: 
a) dos atos de constituição de sociedades anônimas, bem como das atas de 
assembleias gerais e demais atos, relativos a essas sociedades, sujeitos ao Registro 
Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins; 
b) dos atos referentes à transformação, incorporação, fusão e cisão de empresas 
mercantis; 
c) dos atos de constituição e alterações de consórcio e de grupo de sociedades, 
conforme previsto na Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; 
II - o julgamento do recurso previsto nesta lei. 
 
Art. 42. Os atos próprios do Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades 
Afins, não previstos no artigo anterior, serão objeto de decisão singular proferida 
pelo presidente da junta comercial, por vogal ou servidor que possua comprovados 
conhecimentos de Direito Comercial e de Registro de Empresas Mercantis. 
Parágrafo único. Os vogais e servidores habilitados a proferir decisões singulares 
serão designados pelo presidente da junta comercial. 
 
Art. 43. Os pedidos de arquivamento constantes do art. 41 desta Lei serão decididos 
no prazo máximo de 5 (cinco) dias úteis, contados do seu recebimento; e os pedidos 
constantes do art. 42 desta Lei serão decididos no prazo máximo de 2 (dois) dias 
úteis, sob pena de ter-se como arquivados os atos respectivos, mediante provocação 
dos interessados, sem prejuízo do exame das formalidades legais pela procuradoria. 
 
Obs.: Em que pese a ser a Junta Comercial obrigada a registrar o ato por decurso de prazo, se 
tiver um erro muito grave e o mesmo for verificado, é facultado ao órgão comunicar a 
situação ao Ministério Público Federal para que ele adote as providências necessárias. Por 
isso, muitas das vezes não é interessante ter o ato arquivado por decurso do prazo. 
 
INATIVIDADE DA EMPRESA 
 O empresário individual e a sociedade empresária que não procederem a qualquer 
arquivamento no período de dez anos devem comunicar à Junta que ainda se encontram em 
atividade, nos termos do art. 60 da LRE. Se não o fizerem, serão considerados inativos. A 
inatividade da empresa autoriza a Junta a proceder ao cancelamento do registro, com a 
consequente perda da proteção do nome empresarial pelo titular inativo. 
 Exige a lei que a Junta comunique, previamente, o empresário acerca da possibilidade 
do cancelamento, podendo fazê-lo por edital. Se atendida a comunicação, desfaz-se a 
inatividade; no caso de não atendimento, efetua-se o cancelamento do registro, informando-se 
o fisco. Se, no futuro, o empresário pretender reativar o registro, deverá obedecer aos mesmos 
procedimentos relacionados com a constituição de uma nova empresa, não tendo o direito de 
reivindicar o mesmo nome empresarial anteriormente adotado, caso este tenha sido registrado 
por outro empresário. 
 Do cancelamento do registro por inatividade não decorre a dissolução da sociedade, 
mas apenas a sua irregularidade na hipótese de continuar funcionando. Quer dizer, a 
sociedade com arquivamento cancelado não deve necessariamente entrar em liquidação; mas 
sobrevêm as consequências do exercício irregular da atividade empresarial, caso os sócios não 
a encerrem. 
 
Art. 60. A firma individual ou a sociedade que não proceder a qualquer arquivamento 
no período de dez anos consecutivos deverá comunicar à junta comercial que deseja 
manter-se em funcionamento. 
§ 1º Na ausência dessa comunicação, a empresa mercantil será considerada inativa, 
promovendo a junta comercial o cancelamento do registro, com a perda automática 
da proteção ao nome empresarial. 
§ 2º A empresa mercantil deverá ser notificada previamente pela junta comercial, 
mediante comunicação direta ou por edital, para os fins deste artigo. 
§ 3º A junta comercial fará comunicação do cancelamento às autoridades 
arrecadadoras, no prazo de até dez dias. 
§ 4º A reativação da empresa obedecerá aos mesmos procedimentos requeridos para 
sua constituição. 
CAPACIDADE DO EMPRESÁRIO 
 É preciso ter a plena capacidade civil do art. 3º do CC/02, pois é preciso praticar atos. 
Ocorre que existe a previsão do art. 5º, V, CC/02, segundo o qual a menoridade cessa pelo 
estabelecimento civil ou comercial ou pela existência de relação de emprego, desde que, em 
função deles, o menor com dezesseis anos completos tenha economia própria.Não há uma 
contradição nisso? A situação se resolve da seguinte maneira: não se pode começar uma 
empresa sendo menor (é preciso ter capacidade para começar uma empresa). Mas pode-se 
continuar como empresário quando se é herdeiro de empresário. Observemos o art. 974, 
caput, do CC/02: 
 
Art. 974. Poderá o incapaz, por meio de representante ou devidamente assistido, 
continuar a empresa antes exercida por ele enquanto capaz, por seus pais ou pelo 
autor de herança. 
 
Obs.: É preciso autorização judicial para continuar a empresa do de cujus, sendo que para tal 
autorização ser concedida é preciso analisar as circunstâncias e os riscos da empresa, bem 
como da conveniência em continuá-la. Além disso, tal autorização é precária, podendo ser 
revogada a cada tempo. 
 
Requisitos próprios: 
 
1) Falido não reabilitado (art. 181 I, LFR): se você faliu e não foi reabilitado, não se pode ser 
empresário. 
 
Art. 181. São efeitos da condenação por crime previsto nesta Lei: 
I – a inabilitação para o exercício de atividade empresarial; 
 
2) Servidor Público (art. 117, X, da Lei 8.112/90): servidor público federal não pode exercer a 
empresa, não pode ser empresário, nem sócio administrador da sociedade empresária. Pode 
ser apenas sócio ou acionista. 
 
Art. 117. Ao servidor é proibido: 
(...) 
X - participar de gerência ou administração de sociedade privada, personificada ou 
não personificada, exercer o comércio, exceto na qualidade de acionista, cotista ou 
comanditário; 
 
3) Militares (art. 204, CPM): militares não podem exercer atividade empresarial. 
 
Art. 204. Comerciar o oficial da ativa, ou tomar parte na administração ou gerência 
de sociedade comercial, ou dela ser sócio ou participar, exceto como acionista ou 
cotista em sociedade anônima, ou por cotas de responsabilidade limitada: 
Pena - suspensão do exercício do pôsto, de seis meses a dois anos, ou reforma. 
 
4) Magistrados e Promotores (art. 36, I, LC 35/79 – Estatuto da Magistratura): magistrados e 
promotores não podem exercer a atividade empresarial, exceto como acionista ou quotista. 
 
Art. 36 - É vedado ao magistrado: 
I - exercer o comércio ou participar de sociedade comercial, inclusive de economia 
mista, exceto como acionista ou quotista; 
 
Representante impedido: 
 Quando o representante do incapaz for impedido de exercer a empresa ou sobrevier 
qualquer causa de impedimento no curso da representação, o juiz vai nomear um gerente para 
o exercício da atividade empresária. O representante, então, continuará a gerir todos os atos da 
vida civil do incapaz, mas para o exercício da empresa, se ele for impedido (ex.: servidor 
público, magistrado, promotor, etc.), o juiz vai conferir poderes a um terceiro (gerente) por 
meio de procuração para que ele possa gerenciar tão somente a empresa. 
 
RESPONSABILIDADE DO EMPRESÁRIO INDIVIDUAL E PATRIMÔNIO ÚNICO 
 Ao tratarmos de responsabilidade no âmbito do Direito Empresarial, é preciso, 
primeiro, ter em mente que quando falamos em empresário estamos nos referindo à pessoa 
que exerce a atividade empresarial no seu próprio nome. O empresário, por sua vez, é pessoa 
física ou pessoa jurídica (sociedade empresária) e pode se enquadrar como microempresa ou 
empresa de pequeno porte. 
 O artigo 966 do Código Civil, ao conceituar empresário como aquele que exerce 
profissionalmente atividade econômica organizada, não está se referindo apenas à pessoa 
física (ou pessoa natural) que explora atividade econômica, mas também à pessoa jurídica. 
Ressalta-se que o legislador não se preocupou apenas em conceituar o empresário individual 
no referido artigo, mas cuidou também de estabelecer um conjunto de regras gerais para a 
disciplina do exercício individual da empresa. 
 Portanto, temos que empresário pode ser um empresário individual (pessoa física 
que exerce profissionalmente atividade econômica organizada) ou uma sociedade 
empresária (pessoa jurídica constituída sob a forma de sociedade, cujo objeto social é a 
exploração de uma atividade organizada). 
 A pessoa física que desenvolve uma atividade produtiva pode ser empresário 
individual, titular de empresa individual, pois se enquadra no conceito previsto no Código 
Civil. Por outro lado, a pessoa jurídica pode ser uma sociedade empresária, porque 
desenvolve atividade empresarial. 
 Com relação à responsabilidade dos empresários individuais, essa categoria de 
empresários em regra assume o risco de forma pessoal e ilimitada, inexistindo diferenciação 
patrimonial, o que possibilita que os bens pessoais do empresário, bem como os da atividade 
empresarial respondam por dívidas contraídas independente da origem e natureza. 
 Significa, então, que para fins de responsabilização patrimonial, os empresários 
individuais possuem um único patrimônio, sem distinção de pertencimento à pessoa física ou 
pessoa exercente da atividade empresária, isto é, todo patrimônio responde pela atividade 
empresarial, pois o patrimônio é único. 
 
Obs1: O art. 978 c/c 1.647 do CC: o art. 978 é uma exceção ao art. 1.647, ou seja, permite 
que se estabeleça um micro patrimônio de afetação dentro do patrimônio potencialmente 
afetado. 
 
Art. 978. O empresário casado pode, sem necessidade de outorga conjugal, qualquer 
que seja o regime de bens, alienar os imóveis que integrem o patrimônio da empresa 
ou gravá-los de ônus real. 
 
Art. 1.647. Ressalvado o disposto no art. 1.648, nenhum dos cônjuges pode, sem 
autorização do outro, exceto no regime da separação absoluta: 
I - alienar ou gravar de ônus real os bens imóveis; 
II - pleitear, como autor ou réu, acerca desses bens ou direitos; 
III - prestar fiança ou aval; 
IV - fazer doação, não sendo remuneratória, de bens comuns, ou dos que possam 
integrar futura meação. 
 
 Além disso, o Enunciado nº 5 da I Jornada de Direito Comercial do Conselho de 
Justiça Federal/STJ, afirmam que a responsabilidade do empresário individual é ilimitada, 
mas ela é subsidiária com base no art. 1.024, CC, que preceitua que não se pode penhorar 
bens dos sócios antes de se penhorar os bens da sociedade. Vejamos o texto do enunciado 
mencionado: 
 
Enunciado nº 5 da 1ª JDC: 
Quanto às obrigações decorrentes de sua atividade, o empresário individual 
tipificado no art. 966 do Código Civil responderá primeiramente com os 
bens vinculados à exploração de sua atividade econômica, nos termos do 
art. 1.024 do Código Civil. 
 
 A crítica feita ao enunciado retro transcrito, contudo, é de que usaram o artigo 1.024 
de forma equivocada, pois ele está vinculado à sociedade empresária, e não ao empresário 
individual. Vejamos abaixo: 
 
Art. 1.024. Os bens particulares dos sócios não podem ser executados por dívidas da 
sociedade, senão depois de executados os bens sociais. 
 
Obs2: Bem de família – art. 1º, Lei 8009/90: a regra do bem de família se aplica tanto à 
atividade pessoal quanto à empresarial: 
 
Art. 1º O imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade familiar, é impenhorável 
e não responderá por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal, previdenciária 
ou de outra natureza, contraída pelos cônjuges ou pelos pais ou filhos que sejam seus 
proprietários e nele residam, salvo nas hipóteses previstas nesta lei. 
Parágrafo único. A impenhorabilidade compreende o imóvel sobre o qual se assentam 
a construção, as plantações, as benfeitorias de qualquer natureza e todos os 
equipamentos, inclusive os de uso profissional, ou móveis que guarnecem a casa, 
desde que quitados. 
EMPRESÁRIO RURAL 
 A categoria do empresário rural, basicamente, encontra respaldo nos artigos 971 e 984 
do Código Civil. 
 Assim, porforça de disposição legal, art. 971 do Código Civil, aquele que exerce uma 
atividade de natureza rural possui a opção de se sujeitar ou não ao regime empresarial, mas 
caso deseje, basta que proceda com o seu registro na Junta Comercial de sua sede, tornando, a 
partir do registro um empresário, devendo cumprir com as obrigações decorrentes do regime 
jurídico empresarial, tal como a manutenção de escrituração contábil e realização de balanços. 
 Esta faculdade decorre do disposto no artigo 970 que preceitua que a lei assegurará 
tratamento favorecido, diferenciado e simplificado ao empresário rural e ao pequeno 
empresário, quanto à inscrição e os efeitos daí decorrentes. 
 Assim, o produtor rural, aquele que exerce atividade agrícola, pecuária, extrativa entre 
outras atividades conexas será considerado empresário rural somente quando esteja 
devidamente inscrito no registro de comércio, sujeitando-se ao regime falimentar e de 
recuperação judicial. 
 É facultado também ao empresário rural o registro em sociedade ou sozinho, devendo, 
em ambas as hipóteses, proceder ao registro na Junta Comercial caso opte pelo regime 
comercial. Porém, em caso de sociedade não empresária, ou seja, se o exercício da atividade 
rural for realizado em sociedade, mas sem aplicação do regime comercial, o registro da 
sociedade deverá ser feito junto ao Cartório de Registro Civil das Pessoas Jurídicas. 
 
NOME EMPRESARIAL 
 
Natureza e espécies 
 O empresário, seja pessoa física ou jurídica, tem um nome empresarial, que é aquele 
com que se apresenta nas relações de fundo econômico. Quando se trata de empresário 
individual, o nome empresarial pode não coincidir com o civil; e, mesmo quando 
coincidentes, têm o nome civil e o empresarial naturezas diversas. A pessoa jurídica 
empresária, por sua vez, não tem outro nome além do empresarial. O Código Civil reconhece 
no nome, civil ou empresarial, a manifestação de um direito da personalidade da pessoa física 
ou jurídica (arts. 16, 52 e 1.164). 
 Como elemento de identificação do empresário, o nome empresarial não se confunde 
com outros elementos identificadores que habitam o comércio e a empresa, os 
quais têm, também, proteção jurídica, assim como a marca, o nome de domínio e o título de 
estabelecimento. Enquanto o nome empresarial identifica o sujeito que exerce a empresa, o 
empresário, a marca identifica, direta ou indiretamente, produtos ou serviços, o nome de 
domínio identifica a página na rede mundial de computadores e o título do estabelecimento, o 
ponto. Na maioria das vezes, por conveniência econômica ou estratégia mercadológica, opta-
se pela adoção de expressões idênticas ou assemelhadas, o que, a rigor, não tem nenhuma 
relevância jurídica, posto que nome empresarial, marca, nome de domínio e título de 
estabelecimento continuam a ser considerados institutos distintos, ainda quando possuírem 
um mesmo conteúdo e forma. Cada um destes elementos de identificação recebe, do direito, 
tratamentos específicos, próprios, decorrentes de sua natureza. 
 O direito contempla duas espécies de nome empresarial: a firma (ou razão social) e a 
denominação. No linguajar cotidiano do comércio, firma tem o sentido de sociedade ou de 
empresa, mas, no rigor da técnica jurídica, essa expressão é reservada para uma das espécies 
de nome empresarial. 
 A firma e a denominação se distinguem em dois planos, a saber: quanto à estrutura, ou 
seja, aos elementos linguísticos que podem ter por base; e quanto à função, isto é, a utilização 
que se pode imprimir ao nome empresarial. 
 No tocante à estrutura, a firma só pode ter por base nome civil, do empresário 
individual ou dos sócios da sociedade empresária. O núcleo do nome empresarial dessa 
espécie será sempre um ou mais nomes civis. Já a denominação deve designar o objeto da 
empresa e pode adotar por base nome civil ou qualquer outra expressão linguística (que a 
doutrina costuma chamar de elemento fantasia). Assim, “A. Silva & Pereira Cosméticos 
Ltda.” é exemplo de nome empresarial baseado em nomes civis; já “Alvorada Cosméticos 
Ltda.” é nome empresarial baseado em elemento fantasia. 
 Somente levando-se em conta a estrutura, por vezes, não é possível discernir se um 
determinado nome empresarial é firma ou denominação. Claro, se não há referência ao ramo 
de atividade econômica, não pode ser denominação; se fundado em elemento fantasia, não 
pode ser firma. Mas, desde que ambas as espécies podem adotar nome civil como base para a 
construção do nome empresarial, a identificação de uma ou outra espécie não deve deixar de 
considerar a função que o nome empresarial exerce. No exemplo acima citado de nome 
empresarial composto sobre nome civil, é rigorosamente impossível descobrir sua espécie 
sem consulta ao contrato social da sociedade limitada e análise da sua utilização. 
 Explique-se: quanto à função, os nomes empresariais se diferenciam na medida em 
que a firma, além de identidade do empresário, é também a sua assinatura, ao passo que a 
denominação é exclusivamente elemento de identificação do exercente da atividade 
empresarial, não prestando a outra função. 
 O empresário individual, ao se obrigar juridicamente, e o representante legal da 
sociedade empresária que adota firma, ao obrigá-la juridicamente, devem ambos assinar o 
respectivo instrumento não com o seu nome civil, mas com o empresarial. 
 Portanto, se Antônio Silva Pereira é empresário individual inscrito sob a firma “Silva 
Pereira, Livros Técnicos”, a assinatura apropriada para os instrumentos obrigacionais 
relacionados com o seu giro econômico deverá reproduzir essas expressões, inclusive “livros 
técnicos”. Se ele é administrador de sociedade que comercie sob a firma “Silva Pereira e Cia. 
Ltda.”, não deverá assinar sua assinatura civil, mesmo que sobre o nome empresarial da 
sociedade, escrito, impresso ou carimbado. Deverá assinar o nome empresarial da sociedade, 
na forma com que assinou, no campo próprio, o contrato social; isto é, reproduzindo com seu 
estilo individual as expressões constituintes da firma, inclusive “e Cia. Ltda.”. 
 Já o representante legal de sociedade empresária que gire sob a denominação 
“Alvorada Cosméticos Ltda.”, para obrigar a sociedade, deve lançar a sua assinatura civil 
sobre o nome empresarial dela, escrito, impresso ou carimbado. Não poderá, neste caso, 
assinar a denominação. 
 Por esta razão, pelas diferenças funcionais entre a firma e a denominação, é que os 
contratos sociais de sociedades empresárias que adotam firma devem ter campo próprio para 
que o representante ou representantes legais assinem o nome empresarial. 
 Geralmente, ao pé da última página do instrumento, sob o título “firma por quem de 
direito”, é que eles lançam a assinatura que usarão no exercício dos poderes de representação. 
E geralmente fazem uso da mesma assinatura que têm para os atos da vida civil, o que, 
embora, a rigor, não corresponda à prescrição legal, vem sendo sedimentado há tempos pelo 
costume. 
 Conclui-se, pois, que a análise da natureza do nome empresarial daqueles empresários 
legalmente autorizados a usarem firma ou denominação, e que adotaram nome empresarial 
baseado em nome civil, não pode prescindir da consulta ao ato constitutivo (contrato social ou 
estatuto). Se dele constar cláusula em que o representante legal assenta a assinatura que usará 
nos instrumentos obrigacionais relativos aos negócios sociais, então é o caso de firma. Na 
ausência de cláusula com tal objetivo, será denominação. A simples análise da estrutura do 
nome empresarial é insuficiente para uma conclusão correta sobre o assunto. 
 
Alteração do nome empresarial 
 O nome empresarial, ao contrário do nome civil, pode ser alterado pelasimples 
vontade do empresário, seja este pessoa física ou jurídica, desde que respeitadas as normas de 
formação. É a hipótese de alteração voluntária do nome empresarial, que depende 
exclusivamente da vontade do seu titular. Se sociedade empresária, é claro, a alteração 
voluntária exigirá a concorrência da vontade de sócios que detenham participação do capital 
social que lhe assegure o direito de alterar o contrato social. 
 Além desta hipótese, há outras em que a alteração do nome empresarial opera-se 
independentemente da vontade do empresário. Trata-se, agora, de alteração obrigatória, ou 
vinculada. 
 Em relação aos nomes empresariais fundados em nome civil, são causas de alteração 
obrigatória: 
 
a) Saída, retirada, exclusão ou morte de sócio cujo nome civil constava da firma social: neste 
caso, enquanto não se proceder à alteração do nome empresarial, o ex-sócio, ou o seu espólio, 
continua a responder pelas obrigações sociais nas mesmas condições em que respondia 
quando ainda integrava o quadro associativo (CC, arts. 1.158, § 1º, e 1.165); 
 
b) Alteração da categoria do sócio, quanto à sua responsabilidade pelas obrigações sociais, 
se o nome civil dele integrava o nome empresarial: se sócio comanditado de uma sociedade 
em comandita simples passa a ser comanditário, ou se o acionista não diretor da sociedade em 
comandita por ações deixa as funções administrativas, o seu nome civil não poderá continuar 
a compor o nome da sociedade, a firma social. Até que se altere este nome, o sócio continuará 
a responder pelas obrigações sociais como se ainda integrasse a categoria anterior (CC, art. 
1.157); 
 
c) Alienação do estabelecimento por ato entre vivos: o empresário individual ou a sociedade 
empresária não podem alienar o nome empresarial (CC, art. 1.164). Mas, na 
hipótese de alienação do estabelecimento empresarial, por ato entre vivos, se previsto em 
contrato, o adquirente pode usar o nome do alienante, precedido do seu, com a qualificação de 
sucessor de. 
 Estas três causas de alteração obrigatória do nome empresarial fundado em nome civil 
decorrem de regra de composição que se costuma chamar de “princípio da veracidade” (LRE, 
art. 34). De acordo com este princípio, é defeso ao empresário valer-se, na composição de seu 
nome empresarial, de elementos estranhos ao nome civil, de que seja titular como pessoa 
física, ou de que sejam titulares os seus sócios, se pessoa jurídica. Este princípio não se aplica, 
integralmente, à denominação da sociedade anônima, que pode ser composta por nome civil 
de fundador ou pessoa que tenha concorrido para o êxito da empresa, ainda que não seja mais 
acionista (CC, art. 1.160, parágrafo único; LSA, art. 3º). 
 Além das alterações em decorrência do princípio da veracidade, prevê o direito duas 
outras causas que ensejam a mudança compulsória da firma ou denominação: 
 
a) Transformação: a sociedade empresária pode experimentar alteração de tipo societário 
(passar de sociedade limitada para anônima, ou vice-versa). Nesta hipótese, as regras de 
formação do nome empresarial relativas ao tipo societário em que se transformou a sociedade 
devem ser observadas, alterando-se os aspectos do nome empresarial então existentes que 
com elas forem incompatíveis. A consequência da não alteração do nome comercial será a 
ineficácia da transformação perante terceiros que contratarem com a sociedade. 
 
b) Lesão a direito de outro empresário: pelo sistema de proteção do nome empresarial, o 
empresário estará obrigado a alterar o seu nome empresarial sempre que este lesar direito de 
outro exercente de atividade empresarial, sob pena de alteração coercitiva e responsabilização 
por perdas e danos. 
 
Proteção ao nome empresarial 
 Inicialmente, deve-se atentar para o fato de que o direito protege o nome empresarial 
com vistas à tutela de dois diferentes interesses do empresário: de um lado, o interesse na 
preservação da clientela; de outro, o da preservação do crédito. 
 Com efeito, se determinado empresário, conceituado no meio empresarial, vê um 
concorrente usando nome empresarial idêntico, ou mesmo semelhante ao seu, podem ocorrer 
consequências, que devem ser prevenidas, em dois níveis. Quanto à clientela, pode acontecer 
de alguns mais desavisados entrarem em transações com o usurpador do 
nome empresarial, imaginando que o fazem com aquele empresário conceituado, importando 
o uso indevido do nome idêntico ou assemelhado em inequívoco desvio de clientela. 
 Quanto ao crédito daquele empresário conceituado, poderá ser, parcial e 
temporariamente, abalado com o protesto de títulos ou pedido de falência do usurpador. Tanto 
num quanto noutro nível, o empresário que teve o seu nome imitado poderá sofrer 
consequências patrimoniais danosas. 
 Ao proteger o nome empresarial, portanto, o direito tem em vista a tutela desses dois 
interesses. Por esta razão, porque não visa somente a evitar o desvio desleal de clientela, é que 
a proteção não deve se restringir aos empresários que atuem no mesmo ramo da atividade 
empresarial. Como tem em mira, também, a preservação do crédito, não pode o empresário 
que explora determinada atividade pretender usar nome imitado de empresário explorador de 
atividade diversa, sob o pretexto de não ser possível a concorrência entre ambos. Salvo, é 
claro, autorização contratual, pela qual o titular do nome empresarial legitima o uso de nome 
idêntico ou semelhante por outro empresário. 
 O titular de um nome empresarial tem o direito à exclusividade de uso, podendo 
impedir que outro empresário se identifique com nome idêntico ou semelhante, que possa 
provocar confusão em consumidores ou no meio empresarial. 
 Assim, em caso de identidade ou semelhança de nomes, o empresário que 
anteriormente haja feito uso dele terá direito de obrigar o outro a acrescer ao seu nome 
distintivos suficientes, alterando-o totalmente, inclusive, se não houver outra forma de 
distingui-los com segurança. É o que decorre dos arts. 35, V, da LRE, 1.163 do CC e 3º, § 2º, 
da LSA. 
 Mas o que seja um nome idêntico ou semelhante, isto a lei não esclarece. A solução, 
assim, é dada pelo seguinte critério de natureza doutrinal: a identidade ou semelhança não diz 
respeito senão ao núcleo do nome empresarial. Os elementos identificadores do tipo 
societário, do ramo de atividade, bem como as partículas gerais (“& Cia.”, “Irmãos”, 
“Sucessor de” etc.), devem ser desprezados na análise da identidade ou semelhança entre dois 
nomes empresariais. 
 Por núcleo do nome empresarial se entende a expressão que é própria do seu titular, 
aquela que o torna conhecido, tanto entre os consumidores como entre os fornecedores. É a 
parte do nome empresarial que não se pode abstrair sem desnaturá-lo, sem perder de vista 
aquele específico sujeito de direito que se pretende identificar. 
 Exemplificativamente, considerem-se os seguintes três nomes empresariais: 
 
a) “Alvorada – Comércio e Indústria Ltda.”; 
b) “Primavera – Comércio e Indústria Ltda.”; 
c) “Companhia Exportadora e Importadora Primavera”. 
 
 Os nomes a e b, embora tenham mais elementos absolutamente idênticos entre si, são 
nomes empresariais diferentes e o titular de um deles não tem qualquer direito em relação ao 
titular do outro. Isto porque o núcleo de um (“Alvorada”) é inconfundível com o do outro 
(“Primavera”). Já os nomes b e c possuem somente uma expressão idêntica, sendo todas as 
demais completamente diferentes. Inobstante, o titular do nome empresarial anterior terá 
direito de obrigar o titular do outro a abster-se de fazer uso dele, posto que o núcleo de ambos 
é igual (“Primavera”). 
 O Registro do Comércio adota esse entendimento de restringir ao núcleo do nomeempresarial a análise da identidade ou semelhança apenas quando se trata de denominação 
com expressões de fantasia incomuns. Em relação às demais denominações e às firmas, 
recomenda o Departamento Nacional do Registro do Comércio que as Juntas levem em conta 
a composição total do nome, sendo idênticos os homógrafos e semelhantes os homófonos 
(LRE, art. 35, V). 
 No campo do direito penal, a lei define a usurpação de nome empresarial como crime 
de concorrência desleal (LPI, art. 195, V). 
 
 
 
 
 
ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL 
 O estabelecimento é o objeto onde a relação empresarial será exercida, e seu conceito 
está expresso no art. 1.142, CC. Vejamos: 
 
Art. 1.142. Considera-se estabelecimento todo complexo de bens organizado, para 
exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária. 
 
 Hoje, no Brasil, o nome mais comum que se refere ao estabelecimento é 
“Estabelecimento Comercial”. Entretanto, existem outras expressões usadas também para 
referenciar o estabelecimento, como “Fundo de Comércio” e “Azienda”. 
 
Teorias sobre o estabelecimento: 
RESUMINDO... 
 O nome é um direito de personalidade, faz parte da identidade. O empresário 
quando nasce, seja ele pessoa natural ou jurídica, ganha um nome (ou acréscimo no nome). 
 No direito brasileiro, quando nos referimos ao nome empresarial, estamos nos 
referindo a firmas/razão social ou a denominações. Vejamos: 
 
a) Firma ou Razão Social: são expressões composta pelos nomes dos sócios ou 
pelo próprio nome do empresário individual (Ex.: Martins e David Sociedade, 
Francisco de Paiva Monteiro). 
 
b) Denominação: uma expressão qualquer, mesmo em língua inglesa, que indica a 
atividade prestada, o objeto a ser explorado pela empresa (Ex.: Centro de 
Odontologia Integrada, Master Cursos, Construtora Lions). 
 
Obs1: No caso da firma ou razão social, quando os nomes dos sócios compõem o nome 
empresarial, se um deles desfizer a sociedade, o seu nome respectivo deve ser retirado do 
nome da empresa, uma vez que consiste em direito de personalidade e acompanha o 
sujeito. Em vista disso, a firma ou a razão social não são recomendáveis, pois quando 
desfeita a sociedade ou alterado o quadro de sócios, o nome empresarial necessariamente 
deve mudar. É mais aconselhável, então, utilizar a denominação. 
 
Obs2: O nome fantasia é diferente do nome empresarial e não é marca. É uma expressão 
corriqueiramente utilizada, conhecida no mercado. 
 
Obs3: Quem faz o controle dos nomes é a Junta Comercial que, por sua vez, tem atuação 
estadual. Isso significa que, se uma empresa quiser exclusividade no nome em âmbito 
nacional, deverá registrá-lo em todos os estados do país. Do contrário, o nome estará 
protegido apenas no estado em que se deu o registro, podendo outros registros iguais serem 
feitos nos demais estados. 
 Oito teorias se debruçam sobre o nome empresarial, estado elas divididas em doutrinas 
clássicas e doutrinas modernas. Abaixo, as características principais de cada uma delas. 
 
Doutrinas clássicas: 
1) Personalidade jurídica do estabelecimento: Para essa teoria, o estabelecimento tem 
personalidade jurídica própria. Assim, em caso de morte dos sócios, o estabelecimento 
permanece dotado de direitos e deveres, pois teria personalidade jurídica. 
2) Patrimônio autônomo: Para essa teoria, o estabelecimento seria um patrimônio 
“embarreirado”, distinto do patrimônio pessoal do empresário. Todavia, essa teoria é 
falha, pois o patrimônio do empresário não é autônomo, tendo em vista que está 
necessariamente atrelado a uma pessoa. No direito brasileiro apenas as Fundações têm 
patrimônio autônomo. 
3) “Maison de Commerce” (Casa de Comércio + Fundo de Comércio): O 
estabelecimento, para essa teoria, seria a soma da casa de comércio com o fundo de 
comércio. A casa de comércio seria, então, composta por pessoas, sujeitos (sócios, por 
exemplo). Já o fundo de comércio seria o complexo de objetos no qual a atividade 
seria exercida. 
4) Estabelecimento como negócio jurídico (conceito de empresa – Coase): Coase 
afirmava que empresa era um feixe de contratos. Assim, os doutrinadores apoiados 
nessa concepção afirmavam que o estabelecimento seria um negócio jurídico, um 
grande contrato em que o estabelecimento seria o objeto e os sócios, empregados e 
fornecedores as partes contratantes. 
5) Estabelecimento como instituição: O estabelecimento seria uma organização instituída 
(assim como a Igreja), independente do que o direito vá dizer. 
 
Doutrinas modernas: 
6) Estabelecimento como bem imaterial: Basicamente afirma que o estabelecimento é 
mais um bem que faz parte do conjunto de bens da empresa. Essa teoria é falha porque 
o estabelecimento já é o conjunto dos bens úteis ao exercício da atividade empresária, 
não podendo ele fazer parte dele mesmo. 
7) Teorias atomistas: Ao contrário da teoria que afirma que o estabelecimento é um bem 
imaterial, as teorias atomistas pregam que o estabelecimento é um conjunto de 
unidades de bens. No entanto, essa teoria não é atualmente útil, pois impede que o 
estabelecimento seja repassado na sua integralidade, de forma que a disposição do 
estabelecimento implicaria na disposição individualizada dos conjuntos de bens que 
formam o estabelecimento. Em outras palavras, para essa teoria, não é possível vender 
um estabelecimento comercial com todos os bens, deve-se, pois, vender 
separadamente os conjuntos de bens que compõem o estabelecimento comercial, como 
cadeiras, mesas, painéis, etc. 
8) Teorias patrimonialistas (art. 90 e 91 do CC): Para essa teoria, o estabelecimento é 
uma universalidade de fato. Assim, o estabelecimento é uma universalidade de bens 
singulares pertinentes a uma mesma pessoa, cuja destinação é unitária (art. 90 do 
Código Civil). Aqui, vale ressaltar que os bens são pertinentes e não pertencentes a 
uma pessoa, pois para dar a destinação devida, não precisa ter o domínio, a 
propriedade sobre o bem, baste ter a posse (a exemplo do cômodo comercial locado 
por uma sociedade empresária). 
Para o direito brasileiro, então, o estabelecimento é um conjunto complexo de bens 
voltado a uma finalidade, bens estes pertinentes a uma pessoa (universalidade de fato). 
 
Art. 90. Constitui universalidade de fato a pluralidade de bens singulares que, 
pertinentes à mesma pessoa, tenham destinação unitária. 
Parágrafo único. Os bens que formam essa universalidade podem ser objeto de 
relações jurídicas próprias. 
 
Mas afinal, o que é o estabelecimento empresarial/comercial?: 
 Explica-se: primeiramente, é preciso compreender que o estabelecimento não pode ser 
entendido como o local onde se exerce a atividade. Apesar de se usar corriqueiramente esse 
sentido, trata-se de um equívoco do ponto de vista jurídico. O estabelecimento é um complexo 
de bens organizados pelo empresário e não apenas o imóvel utilizado para o exercício da 
atividade. O estabelecimento não se confunde com a coisa comercial, com o local físico do 
exercício da atividade. Esse complexo de bens não precisa, necessariamente, pertencer ao 
empresário, que pode eventualmente locar bens. O essencial é que esse complexo de bens seja 
organizado pelo empresário para o exercício da empresa. A organização do empresário para 
uma finalidade comum é que vai dar ao complexo de bens a natureza de um estabelecimento. 
 Para se entender a natureza desse instituto jurídico é útil socorrer-se de uma analogia 
com outro conjunto de bens: a biblioteca. Nela, não há apenas livros agrupados ao acaso, mas 
um conjunto de livros sistematicamente reunidos, dispostos organizadamente, com vistas a 
um fim – possibilitar o acesso racional a determinado tipo de informação.Uma biblioteca tem 
o valor comercial superior ao da simples soma dos preços dos livros que a compõem, 
justamente em razão desse plus, dessa organização racional das informações contidas nos 
livros nela reunidos. 
 O estabelecimento empresarial é a reunião dos bens necessários ao desenvolvimento 
da atividade econômica. Quando o empresário reúne bens de variada natureza, como as 
mercadorias, máquinas, instalações, tecnologia, prédio etc., em função do exercício de uma 
atividade, ele agrega a esse conjunto de bens uma organização racional que importará em 
aumento do seu valor enquanto continuarem reunidos. Alguns autores usam a expressão 
“aviamento” para se referir a esse valor acrescido. 
 Devido à intangibilidade dessa organização racional que o empresário introduz na 
utilização dos bens integrantes do estabelecimento empresarial, e tendo em vista que ela tem 
valor de mercado, o direito necessita desenvolver mecanismos para tutela desse plus e do 
valor que ele representa. Cada bem, isoladamente, possui uma proteção jurídica específica 
(como, por exemplo, os interditos possessórios ou a responsabilização civil e penal por dano 
patrimonial etc.); o estabelecimento empresarial, essa disposição racional dos bens em vista 
do exercício da atividade econômica, por sua vez, necessita de uma forma própria de 
proteção. O direito, assim, em geral, deve garantir a justa retribuição ao empresário quando 
este perde, por culpa que não lhe seja imputável, o valor representado pelo estabelecimento 
empresarial. Assim, em caso de desapropriação do imóvel em que o empresário mantém o seu 
estabelecimento empresarial, a indenização correspondente deve compreender o valor do 
fundo de empresa por ele criado. Na sucessão por morte ou na separação do empresário 
individual, o estabelecimento empresarial deve ser considerado não apenas pelo valor do 
simples somatório do preço dos bens, singularmente considerados, que o compõem, mas pelo 
valor destes agregado ao decorrente da situação peculiar em que se encontram – reunidos para 
possibilitar o pleno desenvolvimento de uma atividade empresarial. 
 
Estabelecimento x patrimônio do empresário: 
 O estabelecimento apresenta-se para o empresário como o instrumento hábil para o 
exercício da atividade empresarial. Entretanto, conforme já ressaltado, não é essencial que os 
bens componentes do estabelecimento pertençam ao empresário, que pode eventualmente 
locar bens. O essencial para a formação do estabelecimento é que o empresário possua um 
título jurídico que lhe assegure a legitimação para o uso do bem. 
 A possibilidade de o empresário não ser proprietário dos bens que compõem o 
estabelecimento já demonstra que ele não se identifica com o patrimônio do empresário. Além 
disso, a unidade dos bens que integram o patrimônio de uma pessoa decorre da propriedade 
comum. Já no estabelecimento o essencial é a destinação comum dos bens como instrumento 
para o exercício da atividade. 
 
O estabelecimento é objeto de direitos reais ou de direitos pessoais?: 
 Partindo-se do pressuposto de que o estabelecimento é uma universalidade de fato, 
surge uma questão extremamente relevante, qual seja, saber se o estabelecimento é objeto de 
direitos reais ou de direitos pessoais. 
 Afirma-se expressamente que não há um direito real sobre o estabelecimento, mas 
apenas um tratamento unitário dos vários elementos que o compõem, permitindo falar em 
negócio jurídico sobre o estabelecimento. Dentro desse entendimento, não é possível falar em 
posse, reivindicação, usucapião, penhor ou usufruto do estabelecimento, mas apenas dos 
elementos que o compõem. Em síntese, os direitos reais se exercem sobre os elementos que 
integram o estabelecimento e não sobre ele mesmo. 
 A unidade do estabelecimento serve apenas para determinar o objeto de determinados 
negócios ou para fins de sucessão, e não para se identificar um direito sobre o 
estabelecimento, distinto do direito real incidente sobre os componentes do estabelecimento. 
A favor dessa tese, invoca também o fato dos componentes poderem pertencer a pessoas 
diferentes. 
 Assim, a mera possibilidade dos elementos integrantes do estabelecimento não 
pertencerem ao empresário já afasta a possibilidade de vislumbrar uma propriedade plena 
sobre o conjunto. A unidade do estabelecimento existe apenas para fins obrigacionais e por 
isso deve-se falar em direitos pessoais sobre o estabelecimento. 
 
Elementos do Estabelecimento Empresarial: 
 Do próprio conceito, depreende-se que o estabelecimento é formado por vários bens 
distintos. É o conjunto dos bens que representa o estabelecimento, não se devendo confundi-
lo com o local do exercício da atividade. O estabelecimento é um conceito mais amplo que 
abrange todos esses bens, unidos pelo empresário para o exercício da empresa. Nesse sentido, 
o estabelecimento é composto por dois tipos de bens: 
a) bens corpóreos: mercadorias do estoque, terrenos, edifícios, construções, usinas, 
armazéns, máquinas, equipamentos, produtos acabados, balcões, mobiliário, veículos, etc. 
 
b) bens incorpóreos: nome comercial objetivo, título e insígnia do estabelecimento, patentes 
de invenção, de modelos de utilidade, registro de desenhos industriais; marcas de produto 
ou serviço, marcas de certificação, marcas coletivas, obras literárias, artísticas, científicas, 
estratégia, logística, nome empresarial, titulo do estabelecimento, know how, ponto 
comercial e o aviamento. 
 
 O traço comum entre os vários elementos integrantes do estabelecimento é a 
organização feita pelo empresário para o desenvolvimento da atividade. Não é essencial que 
todos os elementos integrantes estejam sujeitos ao mesmo tipo de direito do empresário, isto 
é, os elementos podem ser objetos de direitos distintos (propriedade, uso, direitos pessoais). 
Em função disso, não é correto falar em propriedade do estabelecimento, mas em titularidade 
dos direitos que asseguram a utilização dos vários elementos. 
 Como já dito, esses vários elementos, que integram o estabelecimento, podem ser 
tanto bens materiais quanto imateriais. Na primeira categoria encontramos mercadorias do 
estoque, mobiliário, equipamentos e maquinaria. Já na segunda categoria encontramos 
patentes de invenção, marcas registradas, nome empresarial, título do estabelecimento, ponto 
empresarial e nomes de domínio (Enunciado 7 da I Jornada de Direito Comercial). 
 Alguns desses elementos merecem um tratamento especial, seja pela sua importância, 
seja pela controvérsia sobre a sua natureza de elemento do estabelecimento. Vejamos: 
 
O ponto empresarial 
 Diretamente relacionado ao imóvel, mas não se confundindo com ele, está o chamado 
ponto empresarial, que é um elemento incorpóreo do estabelecimento que pertence ao 
empresário. 
 Em muitos casos, a localização do exercício da empresa se mostra fundamental para o 
sucesso da empresa. Na maioria dos casos, a clientela do empresário surge e aumenta em 
função especificamente do local onde se exerce a atividade. Tal localização também pode ser 
atrativa para os próprios fornecedores, especialmente no caso das atividades industriais. 
 Uma loja de roupas, situada num centro comercial de grande movimento, tem 
expectativas maiores de lucros, em função do local em que está situada. Do mesmo modo, os 
restaurantes em centros empresariais, aeroportos. Outro exemplo que pode ser dado, embora 
um tanto mórbido, é o caso da localização de funerárias próximas a hospitais. 
 Em todos esses casos, o local assume papel preponderante, e se destaca da própria 
propriedade do imóvel, surgindo o ponto empresarial como bem incorpóreo integrante do 
estabelecimento. O ponto empresarial é um bem diferente do imóvel,tanto que pode ser até 
objeto de locação, sem que isso desvirtue a sua natureza de elemento do estabelecimento. 
 Quando o imóvel pertence ao empresário, a proteção do ponto decorre da própria 
proteção da propriedade do imóvel. Mesmo nos casos de locação do imóvel, o ponto 
empresarial é protegido como um elemento integrante do estabelecimento, assegurando-se ao 
empresário o direito de renovação da locação, atendidas determinadas hipóteses legais, e a 
indenização no caso de não renovação. 
 Ressalte-se que no caso de locação não há uma dupla propriedade sobre o imóvel, o 
que há é um direito pessoal do locatário em face do proprietário. A Lei 8.245/91, em seu 
artigo 51, garante ao empresário o direito de renovar a locação desde que: (a) o contrato de 
locação tenha sido celebrado por escrito e tenha prazo determinado; (b) o prazo mínimo do 
contrato a renovar ou a soma dos prazos ininterruptos dos contratos escritos seja de cinco 
anos; (c) o locatário esteja explorando a mesma atividade nos últimos três anos 
ininterruptamente. 
 Com esses requisitos, protege-se o interesse do empresário que já conquistou alguma 
clientela, em função daquele ponto empresarial. Todavia, essa proteção não pode representar 
uma violação ao direito constitucional de propriedade do locador, que poderá opor a chamada 
exceção de retomada, no caso do artigo 52, da Lei 8.245/91. A proteção do ponto cede espaço 
à proteção do direito de propriedade, em situações que justifiquem esta última. 
 O locador não está obrigado a renovar o contrato se tiver que fazer obras no imóvel 
que impliquem sua radical transformação, por determinação do poder público, ou para fazer 
modificações que aumentem o valor do negócio ou de sua propriedade. Também não há 
obrigação de renovação, quando o locador resolver retomar o imóvel para uso próprio. 
 Ainda não caberá a renovação no caso de retomada do imóvel para instalação de 
estabelecimento existente há mais de um ano, cujo titular seja seu cônjuge, ascendente ou 
descendente, ou ainda para sociedade cuja maioria do capital social pertença ao locador, seu 
cônjuge, ascendente ou descendente. Nesses casos, o imóvel não poderá ser usado para o 
mesmo ramo do locatário, salvo se a locação envolva instalações e pertences. Tais hipóteses 
de retomada não se aplicam à locação em shopping centers (art. 52, § 2Q, da Lei 8.245/91). 
 O locador pode ainda evitar a renovação se a proposta do locatário não atender ao 
valor locativo real do imóvel, descontada a valorização decorrente da atividade do locatário. 
Também se pode evitar a renovação se houver proposta de terceiro para locação em condições 
melhores. Neste último caso, a proposta não pode ser para atuação no mesmo ramo do 
locatário, e este tem o direito de igualar a proposta para obter a renovação. 
 Protege-se também o ponto empresarial, assegurando-se ao locatário uma indenização 
pelos prejuízos decorrentes da mudança de lugar, se for negada a renovação em função da 
proposta de terceiros e, se no prazo de três meses, o locador não iniciar as obras, ou não der o 
destino prometido ao imóvel (art. 52, § 3º, da Lei 8.245/91). Essa indenização deve abranger 
o dano emergente e os lucros cessantes decorrentes da mudança, da perda do local e da 
desvalorização do estabelecimento. 
 
Aviamento 
 O aviamento é um dos bens incorpóreos que compõe o estabelecimento e consiste no 
sobrevalor pago pela organização do estabelecimento. O aviamento, por sua vez, pode ser 
objetivo ou subjetivo, não sendo rara a cumulação desses dois tipos. 
 O aviamento objetivo, não depende de algum sujeito para acontecer, isto é independe 
da atitude do empresário. Ex.: Basta que o estabelecimento esteja localizado em um shopping 
para que ele tenha valor agregado. O sobrevalor é medido pela capacidade de o 
estabelecimento gerar lucro. 
 Já o aviamento subjetivo consiste no sobrevalor que depende da ação do empresário 
(melhores fornecedores, melhor atendimento, estética mais apresentável, etc.). 
 A franquia, por exemplo, é um aviamento subjetivo, pois ao adquirir uma franquia, 
está-se adquirindo também uma organização própria, personalizada. 
 
Nome empresarial 
 O nome empresarial também consiste em um elemento incorpóreo do estabelecimento. 
Isso porque, o “bom nome na praça” está incorporado ao negócio. 
 
Contratos 
 Os contratos são elementos incorpóreos que compõem o estabelecimento, podendo ser 
renunciados por cláusula específica no trespasse. 
 
Títulos e PI 
 Os títulos de propriedade intelectual são incorpóreos, e pode ou não serem 
transmitidos pelo trespasse. Essa transmissão, embora não dependa de cláusula específica no 
contrato de trepasse, é recomendável que cláusulas especificas sejam previstas no trespasse, 
devendo, ainda, o contrato de trespasse ser encaminhado ao INPI para fins de comunicação da 
transmissão e alteração da propriedade no registro. 
 
Imóveis? 
 Não se pode negar que o imóvel é um bem que é utilizado pelo empresário para o 
exercício da atividade empresarial. Todavia, discute-se na doutrina se o imóvel compõe o 
estabelecimento empresaria. 
 Marlon Tomazette, por exemplo, afirma que os imóveis seriam elementos integrantes 
do estabelecimento quando pertencentes ao empresário. Nos casos de locação ou outros usos 
do imóvel, Marlon Tomazette reconhece este não integra o estabelecimento, mas apenas o 
direito de uso sobre aquele imóvel. 
 Rubens Requião, por sua vez, nega tal qualidade aos imóveis, afirmando que eles 
seriam elementos da empresa, mas não do estabelecimento. Ele justifica sua tese com o 
argumento de que o estabelecimento é uma coisa móvel e que por isso não poderia ser 
constituído de coisas imóveis. 
 O professor é adepto à concepção de Requião, isto é, entende que o imóvel não integra 
o estabelecimento com base no fato que a tutela do estabelecimento na lei não abrange o 
imóvel. Se for transferida a propriedade de um estabelecimento, por exemplo, o imóvel em 
que a empresa concentra suas atividades deve ser vendido por meio de um contrato 
separado, e a propriedade somente será reconhecida mediante as regulares solenidades 
legais (escritura pública e registro em Cartório de Imóveis). Isso demonstra que o imóvel 
não é considerado parte do estabelecimento no direito atual. 
 
Aviamento x Clientela: 
 O estabelecimento, enquanto articulado para o exercício da atividade empresarial, 
possui um sobrevalor em relação à soma dos valores individuais dos bens que o compõem, 
relacionado a uma expectativa de lucros futuros, a sua capacidade de trazer proveitos. Essa 
mais-valia do conjunto é que se denomina, como já visto, de aviamento. 
 O aviamento pode decorrer das causas mais variadas. Ele pode ser subjetivo, quando 
ligado às qualidades pessoais do empresário, ou objetivo, quando ligado aos bens 
componentes do estabelecimento na sua organização. Em qualquer acepção, o aviamento deve 
ser entendido como o sobrevalor em relação a simples soma dos valores dos bens singulares 
que integram o estabelecimento e resumem a capacidade do estabelecimento, por meio dos 
nexos organizativos entre os seus componentes singulares, de oferecer prestações de empresa 
e de atrair clientela. Em outras palavras, o aviamento é a aptidão da empresa para produzir 
lucros, decorrente da qualidade de sua organização. 
 Esse aviamento tem um valor próprio, reconhecido pelo próprio Código Civil, em seu 
artigo 1.187, III, que representa um acréscimo em relação aos demais componentes do 
estabelecimento. Assim, a soma dos bens singulares que compõem o estabelecimento é menor 
do que o valor do estabelecimento em si. O valor do estabelecimento não é dado 
simplesmente pela soma dos valores singularesdos elementos que o compõem, mas também 
pela soma dos valores dos elementos e do aviamento que, em razão de sua natureza, também 
compõe o estabelecimento. 
 O aviamento, enquanto elemento do estabelecimento, é medido essencialmente pela 
clientela do empresário, vale dizer, quanto maior for o número de clientes, maior é o 
aviamento. A clientela é o conjunto de pessoas que, de fato, mantêm com a casa de comércio 
relações contínuas para aquisição de bens ou serviços. Ela não se confunde com o aviamento, 
sendo apenas um efeito seu, que se converte em uma espécie de coeficiente, vale dizer, quanto 
maior a clientela, maior o aviamento. 
 Tal conjunto de pessoas, como se pode intuir, não é um bem, e consequentemente não 
pode ser objeto de um direito do empresário, não havendo que se falar em um direito à 
clientela. A clientela é uma situação de fato, fruto da melhor organização do estabelecimento, 
do melhor exercício da atividade. Diante disso, não pode restar dúvida de que não se pode 
incluir a clientela como um elemento do estabelecimento. A clientela não é um bem imaterial, 
objeto autônomo de direito; é uma situação de fato, à qual se atribui um valor econômico, 
muitas vezes relevante, que é protegido indiretamente pela lei. 
 Não obstante seja incorreto falar-se em direito à clientela, é certo que há uma proteção 
jurídica a ela, consistente nas ações contra a concorrência desleal. Todavia, tal proteção não 
torna a clientela objeto de direito do empresário, pois o que se protege na verdade são os 
elementos patrimoniais da empresa, aos quais está ligada a clientela. Esta recebe uma 
proteção apenas indireta. O que o ordenamento jurídico protege são os instrumentos usados 
para formar e conservar a clientela. 
 
O estabelecimento enquanto objeto de negócios jurídicos: 
 O empresário, para exercer a empresa, necessita de um complexo de bens dos mais 
diversos tipos, móveis, imóveis, materiais, imateriais etc. Apesar da diversidade, tais bens são 
unidos pela finalidade comum a que se destinam, formando o estabelecimento. Tal unidade 
permite que tratemos o conjunto de bens como um todo, não sendo necessário o tratamento 
separado para cada um dos seus componentes. 
 Ora, sendo possível o tratamento unitário do conjunto, é certo que o conjunto de bens - 
o estabelecimento - pode ser objeto de negócios jurídicos, que sejam compatíveis com a sua 
natureza. O Código Civil reconhece tal possibilidade expressamente no seu artigo 1.143 e no 
artigo seguinte menciona a possibilidade de alienação, arrendamento ou instituição de 
usufruto do estabelecimento. 
 Todavia, há que se ressaltar que os negócios com o estabelecimento não se confundem 
com os negócios envolvendo um conjunto qualquer de bens. A organização dos bens para 
determinado fim é extremamente relevante e influi até no valor dos negócios. Assim sendo, é 
certo que são negócios distintos os que envolvem o estabelecimento e os que envolvem um 
conjunto de bens, cabendo perquirir a vontade das pessoas envolvidas para definir de que tipo 
de negócio está se tratando. 
 Além disso, os negócios com o estabelecimento também não se confundem com os 
negócios envolvendo quotas ou ações de sociedade. Nestes casos, a sociedade continuará 
sendo a mesma e manterá os mesmos direitos sobre o estabelecimento. 
 O que poderá ocorrer é apenas a mudança da titularidade do controle da sociedade e, 
por conseguinte, da direção da atividade, não havendo qualquer mudança nos direitos que são 
exercidos sobre os bens, uma vez que a pessoa jurídica continuará a ser a mesma. 
 A forma dos negócios sobre o estabelecimento empresarial é livre. Exige-se forma 
escrita para fins de prova e validade perante terceiros. No caso de bens que exijam forma 
especial para o negócio, como os imóveis, a forma especial deverá ser obedecida. 
 Os negócios que envolvem o estabelecimento (alienação, usufruto, arrendamento) 
podem influir diretamente sobre interesses de terceiros, especialmente os credores do 
empresário. Em função disso, esses terceiros devem ter a oportunidade de tomar 
conhecimento dos negócios envolvendo o estabelecimento. Por essa razão, o artigo 1.144 do 
Código Civil estabelece um regime de publicidade e publicação oficial para os negócios 
envolvendo o estabelecimento. 
 Assim, a lei exige que os negócios envolvendo o estabelecimento sejam averbados no 
registro público de empresas mercantis, à margem do registro do empresário, e que seja feita 
uma publicação na imprensa oficial sobre o negócio. A averbação deixa um registro aberto ao 
público em geral. Qualquer pessoa pode ter acesso ao teor da negociação, uma vez que o 
registro é público. 
 A publicação na imprensa oficial funciona como uma comunicação geral, presumindo-
se o conhecimento do negócio por terceiros. Vale dizer, a publicação no órgão oficial da 
notícia da negociação funcionará como uma espécie de primeira notificação aos credores para 
que tenham conhecimento da negociação, resguardem seus direitos e saibam quem é o titular 
do estabelecimento, a partir de então. 
 Compete à junta comercial a exigência de apresentação do comprovante de publicação 
na imprensa oficial, nos termos do artigo 1.152 do Código Civil. Vale destacar que a lei exige 
apenas a publicação na imprensa oficial, sendo uma mera faculdade a publicação em jornal de 
grande circulação, vale dizer, há uma exceção legal ao regime de publicação do artigo 1.152, 
§ l e, do Código Civil. 
 A publicidade e a publicação oficial não são condições de validade do negócio, mas 
condições de eficácia perante terceiros. Apenas com o cumprimento de tais exigências é que 
os negócios envolvendo o estabelecimento produzem efeitos perante terceiros. 
 Por exemplo, o artigo 1.146 do Código Civil afirma que as obrigações regularmente 
contabilizadas são transferidas ao adquirente do estabelecimento, permanecendo o alienante 
solidariamente responsável pelo prazo de um ano. Esse efeito só é produzido com a averbação 
e a publicação. Do mesmo modo, o prazo mencionado só começa a ser contado com a 
publicação. 
 No presente estudo, ganhará destaque o negócio jurídico de transferência do 
estabelecimento, denominado trespasse. Vejamos abaixo. 
 
Alienação do estabelecimento: 
 Tratando-se de uma universalidade de fato, é certo que o estabelecimento pode ser 
alienado como um todo, como uma coisa coletiva – é o que recebe na doutrina a denominação 
de trespasse. Nessa negociação, transfere-se o conjunto de bens e seus nexos organizativos e, 
por conseguinte, o aviamento. Ressalte-se desde já que se cogita da venda em conjunto dos 
bens necessários para o exercício da atividade e não das quotas ou ações de uma sociedade. 
 No trespasse há uma alteração do titular do estabelecimento. Mesmo nos casos de 
alienação parcial, se é transferida a funcionalidade do estabelecimento devem ser aplicadas as 
regras inerentes ao trespasse. 
 
Das condições de eficácia da alienação 
 O trespasse pode influenciar diretamente nos interesses dos credores do alienante do 
estabelecimento, na medida em que boa parte de seu patrimônio poderá estar passando às 
mãos de outra pessoa. Diante disso, o Código Civil (art. 1.145) protege mais diretamente os 
credores do alienante, impondo como condição de eficácia da alienação o pagamento de todos 
os credores ou a concordância expressa ou tácita sobre alienação. 
 Pagos os credores, seus interesses deixarão de existir em relação ao trespasse. Mesmo 
sem o pagamento, o trespasse poderá ser eficaz se os credores concordarem tácita ou 
expressamente com a alienação dentro do prazo de 30 dias após a sua notificação, 
demonstrando que seus interesses não serão prejudicados com o negócio. Neste particular, é 
oportunoressaltar que não basta a publicidade normal do trespasse, é necessária uma 
notificação pessoal aos credores (cartório, carta com aviso de recebimento...). 
 Nessa linha, o Código Civil reforça a proteção dos interesses dos credores e dá uma 
segurança maior ao negócio. Todavia, nada impede que posteriormente se configure a 
ineficácia do negócio, nos termos do artigo 129, VI, da Lei 11.101/05, o qual também inquina 
de ineficácia a alienação do estabelecimento sem o pagamento de todos os credores, ou sem o 
consentimento expresso ou tácito destes em 30 dias contados de sua notificação. 
 Em qualquer caso, será válida e eficaz a alienação se o empresário mantiver bens 
suficientes para o pagamento dos credores. 
 Trata-se de uma inovação salutar que permite de forma ágil o combate a fraudes no 
trespasse, na medida em que permite o reconhecimento da ineficácia da alienação, na proteção 
dos interesses dos credores. 
 
Da transferência dos débitos 
 Partindo-se do pressuposto de que o estabelecimento é uma universalidade de fato, isto 
é, um conjunto de bens, é certo que os débitos do empresário não integram o estabelecimento, 
embora façam parte do patrimônio do mesmo. Os débitos não são bens que integram o 
estabelecimento, eles são apenas ônus que gravam o patrimônio do empresário. Como não 
integram o estabelecimento, no trespasse as dívidas não eram transferidas, salvo disposição 
em contrário das partes, obtida a anuência dos credores, ou da lei (art. 133 do CTN e art. 448 
da CLT). 
 Assim, antes do Código Civil era necessária a inserção de uma cláusula no contrato do 
trespasse para que houvesse a sucessão, ou uma determinação legal específica. Com o advento 
do Código Civil (art. 1.146), o adquirente do estabelecimento sucede o alienante nas 
obrigações regularmente contabilizadas, como ocorre no direito italiano. Todavia, há que se 
ressaltar que o alienante continua solidariamente obrigado por um ano a contar da publicação 
do trespasse no caso de obrigações vencidas, ou a contar do vencimento no caso das dívidas 
vincendas. 
 Essa regra não se justifica pela essência do contrato de trespasse, mas pela proteção 
dos terceiros credores, que são titulares de créditos ligados ao exercício da empresa. Tal 
proteção, contudo, é temperada pela proteção à boa-fé do adquirente, que deve saber das 
obrigações para poder ser responsabilizado. 
 Muitas vezes, pelo tamanho do estabelecimento, os terceiros têm a confiança de que a 
obrigação será cumprida. Esses terceiros veem nos elementos do estabelecimento sua maior 
garantia e devem continuar a ter nesses elementos sua garantia, mesmo após a transmissão. 
Por isso, o adquirente sucede o alienante nas obrigações. 
 Há uma dupla proteção: o adquirente como titular do estabelecimento passa a ser o 
devedor da obrigação e o alienante continua solidariamente responsável. 
 Vale destacar que a responsabilidade do adquirente atinge apenas as obrigações 
regularmente contabilizadas, isto é, a sucessão só ocorrerá se houver escrituração e esta 
estiver regular. Em todo caso, o adquirente pode e deve requerer a exibição integral dos livros 
do alienante, para conhecer essas obrigações. 
 
 Débitos tributários 
No que tange aos débitos tributários, não se cogita da aplicação do artigo 1.146 do 
Código Civil, mas do artigo 133 do Código Tributário Nacional. Por força deste 
dispositivo, independentemente da contabilização, o adquirente do 
estabelecimento terá responsabilidade pelas obrigações tributárias do alienante 
relativas ao exercício da atividade. Registre-se que não se trata de uma sucessão 
universal nas obrigações tributárias, mas de uma sucessão limitada às obrigações 
referentes ao exercício da atividade empresarial, protegendo-se o fisco. Tal 
responsabilidade poderá ser integral ou subsidiária, a depender da postura do 
alienante. 
Caso o alienante prossiga na exploração ou inicie, dentro de seis meses a contar 
da data da alienação, nova atividade econômica, a responsabilidade do adquirente 
pelas obrigações tributárias será apenas subsidiária, vale dizer, ele somente será 
chamado a responder se o alienante não honrar tais obrigações. Nesses casos, 
apesar da transferência do estabelecimento, entende-se que o alienante continua a 
ter condições de arcar com suas obrigações, responsabilizando-se o adquirente 
apenas subsidiariamente. 
De outro lado, caso o alienante não prossiga e não reestabeleça em seis meses 
qualquer atividade econômica, a responsabilidade do adquirente será integral. 
Nesse caso, presume-se que o alienante não tem mais capacidade de arcar com as 
obrigações tributárias que lhe tocavam e, por isso, impõe-se a responsabilidade 
por tais obrigações exclusivamente ao adquirente. A ideia aqui é manter a 
obrigação com quem possui a titularidade dos bens vinculados ao exercício da 
atividade. 
Parte da doutrina afirma que esse integralmente deve ser entendido como 
solidariamente em relação ao alienante, pois nem sempre o adquirente terá 
condições de arcar com os débitos tributários. No entanto, como a solidariedade 
não se presume, outra parte da doutrina, entende que essa responsabilidade 
integral significa que o adquirente responde sozinho. 
Em todo caso, lembre-se que as partes poderão disciplinar a sucessão tributária 
entre elas. Contudo, tal disciplina não afetará o fisco, uma vez que as convenções 
particulares não têm o condão de modificar a definição legal do sujeito passivo 
das obrigações tributárias (CTN, art. 123). Qualquer ajuste feito entre alienante e 
adquirente valerá entre as partes, mas não terá qualquer efeito sobre o fisco. 
 
 Débitos trabalhistas 
Em razão da natureza protetiva do Direito do Trabalho, o artigo 448 da CLT 
estabeleceu expressamente: “A mudança na propriedade ou na estrutura jurídica 
da empresa não afetará os contratos de trabalho dos respectivos empregados”. 
Apesar das diferenças terminológicas, o referido dispositivo impõe a transferência 
automática dos contratos de trabalho e de todas as obrigações trabalhistas ao 
eventual adquirente do estabelecimento. Quem tem a propriedade dos bens 
essenciais ao exercício da atividade terá todas as responsabilidades trabalhistas 
ligadas a essa atividade. 
Todavia, em que pese a tratativa da Justiça do Trabalho em favor do trabalhador, 
aplicando-se o artigo 448 da CLT, é plenamente possível a aplicação do artigo 
1.146 do Código Civil a tais obrigações, isso porque, prevê tal dispositivo que a 
sub-rogação dos contratos é presumida quando não há previsão no contrato e 
desde que os contratos não sejam personalíssimos. Em sendo o contrato de 
trabalho personalíssimo, há entendimentos (inclusive do professor) de que o 
contrato de trabalho não se transmite, por expressa previsão do Código Civil. O 
problema reside no fato de que, o que se vende no contrato de trespasse é o 
estabelecimento, e não a pessoa jurídica e nem as relações trabalhistas. O 
trespasse, portanto, gera um risco, tendo em vista o impasse descrito. 
 
 Processos de falência e de recuperação judicial 
Outra situação especial envolve os processos de falência e de recuperação judicial. 
Nesses processos, é inegável que pode ocorrer a alienação de estabelecimento, 
seja para a satisfação dos credores, seja como forma de manutenção da atividade, 
nas mãos de outra pessoa. Para tomar viável tal alienação, não haverá nenhum 
tipo de sucessão em relação às obrigações do devedor, inclusive as de natureza 
tributária ou trabalhista (Lei 11.101/2005, arts. 60 e 141). 
Vale a pena destacar que não haverá nenhum tipo de sucessão em relação às 
obrigações do devedor, inclusive as de natureza tributária. Privilegia-se a 
continuação da atividade que, alongo prazo, terá maiores benefícios do que o 
simples pagamento dos credores. A sorte da empresa (atividade) é distinta da sorte 
do empresário e, por isso, deve-se viabilizar sua continuação sem as obrigações 
que tocavam ao devedor. Neste particular, os credores também não restarão 
prejudicados, na medida em que eles se sub-rogarão no produto da venda dos 
estabelecimentos isolados. 
O STJ e o STF têm reconhecido que a competência para decidir se há ou não 
sucessão é do juízo da recuperação e este vem afirmando não haver sucessão pelas 
obrigações trabalhistas. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento da ADIN 
3.934, acabou concluindo pela perfeita constitucionalidade do referido 
dispositivo, asseverando que: “Do ponto de vista teleológico, salta à vista que o 
referido diploma legal buscou, antes de tudo, garantir a sobrevivência das 
empresas em dificuldades – não raras vezes derivadas das vicissitudes por que 
passa a economia globalizada –, autorizando a alienação de seus ativos, tendo em 
conta, sobretudo, a função social que tais complexos patrimoniais exercem, a teor 
do disposto no art. 170, III, da Lei Maior”. 
Para evitar que pessoas de má-fé se beneficiem dessa não responsabilização, 
haverá sucessão por todas as obrigações do devedor se o adquirente for sócio do 
devedor ou de sociedade controlada pelo devedor; parente, em linha reta ou 
colateral até o 4º grau, consanguíneo ou afim, do devedor ou de sócio da 
sociedade devedora; ou for identificado como agente do devedor com o intuito de 
fraudar a sucessão. O grau de proximidade entre o adquirente e o devedor é um 
indício suficiente de má-fé para afastar o benefício na não responsabilização. 
 
Da transferência dos créditos 
 A transmissão dos créditos, relativos ao exercício da atividade, decorre diretamente do 
trespasse, seja como contrapartida da assunção de débitos, seja pelo fato de os créditos serem 
integrantes do estabelecimento. Quem assume débito deve ter a contrapartida dessas 
obrigações, recebendo os créditos ligados à atividade. Além disso, os créditos devem ser 
considerados bem incorpóreos que integram o estabelecimento e consequentemente são 
transferidos no trespasse. 
 A cessão dos créditos, em regra geral, depende da notificação do devedor para 
produzir efeitos perante o mesmo (Código Civil, art. 290). Diferente não é a situação no 
trespasse, uma vez que a cessão só produz efeitos perante os devedores a partir da publicação 
do trespasse no órgão oficial (Código Civil, art. 1.149). 
 Tal publicação funcionaria como uma notificação a todos os devedores. Apesar da 
cessão operada, nem sempre os devedores tomarão conhecimento efetivo do trespasse, 
podendo, eventualmente, efetuar o pagamento ao antigo titular do estabelecimento. Nesse 
caso, protege-se a boa-fé dos terceiros, exonerando aquele que pagou de boa-fé ao alienante, 
restando ao adquirente um acerto com o alienante. 
 Ora, não é razoável exigir a conferência dos registros públicos do empresário antes de 
efetuar um pagamento ao mesmo, para verificar se ele não transferiu o estabelecimento. Tal 
exigência não se coadunaria com a celeridade dos negócios empresariais. Além disso, o 
adquirente não fica prejudicado, na medida em que pode exigir do alienante o recebimento 
dos créditos. 
 
Da transferência dos contratos 
 O trespasse tem por objeto não apenas um mero conjunto de bens, mas um conjunto de 
bens coordenados para o exercício de uma atividade. Assim sendo, com o trespasse devem ser 
dadas as condições necessárias para a continuação da atividade. Neste particular, ganham 
especial relevo os contratos firmados para o exercício da atividade empresarial, na medida em 
que há uma estreita conexão entre os contratos e os bens integrantes do estabelecimento. 
 Em função disso, conquanto a princípio não integrem o estabelecimento, pois não são 
bens, o Código Civil (art. 1.148) estabelece que, salvo disposição em contrário, o adquirente 
se sub-roga nos contratos estipulados para exploração do estabelecimento, se não forem 
personalíssimos. Trata-se de uma sub-rogação legal que independe da vontade do contratante, 
excepcionando-se a regra geral de sucessão nos contratos. 
 Para a sub-rogação, exige-se, em primeiro lugar, que o contrato seja relativo ao 
exercício da empresa, isto é, deve haver um nexo entre o contrato e a atividade exercida por 
meio do estabelecimento. Além disso, se exige que o contrato não tenha caráter pessoal. 
 Assim, haverá sucessão em contratos de compra e venda de mercadorias e em 
contratos de prestação de serviços, ligados ao exercício da empresa. O disposto no artigo 
1.148 é uma regra geral, que pode ser excepcionada pela vontade das partes. Além disso, na 
condição de regra geral, tal dispositivo cede lugar a regras especiais que podem impedir a 
transferência de contratos, como no caso dos contratos administrativos e do contrato de 
locação. O contrato de locação não é transferido no trespasse, por força do artigo 13 da Lei 
8.245/91, que exige formalidades adicionais para a transferência do contrato de locação. 
 Nesse sentido o Enunciado 234 da III Jornada de Direito Civil: “Quando do trespasse 
do estabelecimento empresarial, o contrato de locação do respectivo ponto não se transmite 
automaticamente ao adquirente”. 
 Trata-se de medida extremamente justa e lógica, pois se protege a manutenção da 
unidade econômica do estabelecimento, sem, contudo, afetar as relações personalíssimas, nas 
quais não haverá sucessão. O adquirente é protegido diretamente com a sucessão legal. 
Entretanto, os terceiros não são prejudicados na medida em que, nas relações personalíssimas 
ou quando houver justa causa, não haverá a sucessão. 
 A proteção ao adquirente do estabelecimento com a sub-rogação legal não é absoluta, 
isto é, o terceiro contratante pode se proteger em caso de sub-rogações injustificadas. Os 
terceiros poderão rescindir o contrato, nos 90 dias seguintes à publicação do trespasse, desde 
que haja justa causa para tal rescisão. 
 Tal justa causa pode dizer respeito às qualidades pessoais do adquirente do 
estabelecimento, pois, se as condições pessoais do alienante foram determinantes na 
formulação do negócio, não se pode exigir que o contratante prossiga com outra parte na 
avença. Além disso, a justa causa pode dizer respeito também a questões de formulação 
objetiva como, por exemplo, a existência de uma ação judicial do terceiro contratante em 
desfavor do adquirente, se a transferência acarretar situação diversa da combinada ou mesmo 
das expectativas, para a execução das prestações pendentes. 
 Rescindido o contrato por justa causa, é certo que tal justa causa decorreu do trespasse. 
Em tais casos, há um inadimplemento por parte do alienante do estabelecimento, que 
consequentemente deve ser responsabilizado pelos danos decorrentes. Se ao transferir o 
contrato o alienante acabou dando causa à rescisão do mesmo, ele deve responder pelos 
prejuízos causados. 
 
Da cláusula de não restabelecimento 
 Regularizado o trespasse, discutia-se, no regime anterior (Código Civil de 1916), a 
validade da chamada cláusula de não restabelecimento, vale dizer, da imposição do alienante 
não fazer concorrência ao adquirente, diante do texto constitucional que estabelece a liberdade 
para o exercício da profissão. Tal cláusula era implícita no próprio negócio, tendo em vista a 
necessidade de se manter a integridade do estabelecimento para manter a capacidade objetiva 
de percepção de lucros. 
 O Código Civil de 2002 (art. 1.147), adota-se a orientação do direito italiano, 
estatuindo legalmente a proibição de concorrência pelo prazo de cinco anos, salvo disposição 
expressa em contrário. 
 De imediato, é oportunoesclarecer que não se trata de uma proibição do exercício da 
mesma atividade anteriormente desenvolvida, mas sim de uma proibição de concorrência 
entre alienante e adquirente. O alienante pode continuar desenvolvendo a mesma atividade 
empresarial, desde que não faça concorrência ao adquirente do estabelecimento. 
 Trata-se de uma proteção do aviamento, que não viola qualquer liberdade 
constitucional, na medida em que limitada no tempo tal proibição. Caso se tratasse de uma 
proibição por prazo indeterminado, não haveria dúvida da inconstitucionalidade desta. 
 Todavia, com a limitação de cinco anos, se restringe uma liberdade para tutelar outra, 
sem destruir nenhuma das duas. Não se limita a liberdade de concorrência, mas se evita a 
concorrência desleal. 
 Ora, a pessoa que adquire um estabelecimento em operação, ao invés de constituir um 
estabelecimento partindo do nada, o faz em virtude da expectativa de lucro decorrente do 
estabelecimento. Quem adquire um estabelecimento paga um valor a mais por essa 
expectativa – o aviamento –, que na maioria dos casos está ligada a relações pessoais que o 
empresário mantém com a clientela. Assim sendo, nada mais justo e lógico do que assegurar 
ao adquirente o gozo desse aviamento, proibindo o alienante de lhe fazer concorrência, 
roubar-lhe a clientela e, consequentemente, se enriquecer indevidamente. 
 Trata-se de um meio indireto de tentar transferir a clientela, uma vez que essa 
transferência direta é impossível. A clientela não é um bem e consequentemente não pode ser 
vendida. Apesar disso, no trespasse o objetivo maior é que a clientela continue vinculada ao 
estabelecimento e um dos meios de conseguir isso é justamente o não restabelecimento do 
alienante. 
 
Ainda sobre o trespasse, recapitulando... 
 O estabelecimento, devido sua natureza, pode ser objeto de negócio jurídico, como 
usufruto, hipoteca, etc. Neste estudo, o aprofundamento da matéria pautou-se na transferência 
do estabelecimento. 
 Assim, preconiza o CC que pode ser o estabelecimento objeto de negócio jurídico 
translativo ou constitutivo. Vejamos: 
 
Art. 1.143. Pode o estabelecimento ser objeto unitário de direitos e de negócios jurídicos, 
translativos ou constitutivos, que sejam compatíveis com a sua natureza. 
 
 A compra e venda de um estabelecimento recebe um nome espacial: “Trespasse”, que 
consiste em uma das maneiras de vender o estabelecimento de outrem. 
 O artigo 1.148 do CC preceitua que, salvo disposição expressa, o trespasse importa na 
sub-rogação dos contratos inerentes àquele estabelecimento, ou seja, os contratos essenciais à 
organização vão englobados na venda. Como o próprio artigo prevê, se no contrato tiver 
cláusula expressa prevendo o contrário, os contratos inerentes não são transferidos. 
 Outra observação vale ser pontuada: a sub-rogação dos contratos é presumida quando 
não há previsão no contrato e desde que os contratos não sejam personalíssimos, em regra. 
 Dai constata-se um problema: a CLT, no artigo 448, no entanto, estabelece que os 
contratos de trabalhos, cuja natureza é personalíssima, permanecem inalterados, aconteça o 
que acontecer com a pessoa jurídica. Todavia, há entendimentos de que o contrato de trabalho 
não se transmite, por expressa previsão do Código Civil. Essa concepção consiste em um dos 
piores problemas do Direito Empresarial, haja vista que a Justiça do Trabalho aplica o artigo 
448 da CLT nas demandas trabalhistas. 
 O problema reside no fato de que, o que se vende no contrato de trespasse é o 
estabelecimento, e não a pessoa jurídica e nem as relações trabalhistas. O trespasse, portanto, 
gera um risco, tendo em vista o impasse descrito. 
 Abaixo, o dispositivo civilista que aduz ser intransferível os contratos personalíssimos 
em caso de venda do estabelecimento comercial: 
 
Art. 1.148. Salvo disposição em contrário, a transferência importa a sub-rogação do 
adquirente nos contratos estipulados para exploração do estabelecimento, se não tiverem 
caráter pessoal, podendo os terceiros rescindir o contrato em noventa dias a contar da 
publicação da transferência, se ocorrer justa causa, ressalvada, neste caso, a 
responsabilidade do alienante. 
 
 O artigo retrotranscrito ainda prevê que os terceiros podem rescindir o contrato em 
noventa dias a contar da publicação da transferência, se ocorrer justa causa, recaindo ao 
alienante eventual responsabilidade por dano gerado ao comprador do estabelecimento em 
decorrência da rescisão contratual. A lógica aqui é que, ao comprar o estabelecimento, o valor 
do contrato rescindido estava embutido na venda, pois era inerente à organização do 
estabelecimento. Sendo assim, o dano deve ser recompensado em caso de não subsistirem os 
contratos sub-rogados no prazo previsto em lei. 
 O contrato cujo objeto é o estabelecimento empresarial ainda só vai surtir efeitos a 
terceiros quando registrado na Junta Comercial: 
 
Art. 1.144. O contrato que tenha por objeto a alienação, o usufruto ou arrendamento do 
estabelecimento, só produzirá efeitos quanto a terceiros depois de averbado à margem 
da inscrição do empresário, ou da sociedade empresária, no Registro Público de 
Empresas Mercantis, e de publicado na imprensa oficial. 
 
 O artigo 1.145 do CC, por sua vez, estabelece que a transferência do estabelecimento 
pode ser ineficaz se não restar bens para adimplir o passivo do alienante. Todavia, essa regra 
comporta exceções lógicas. A transferência pode surtir efeitos se, antes de ser efetivada, o 
alienante quitar suas dívidas. A segunda hipótese em que a transferência terá eficácia é no 
caso em que o alienante notifica seus credores acerca da venda e, passados trinta dias, nenhum 
deles se manifesta, ocorrendo a anuência tácita quanto à alienação. 
 
Art. 1.145. Se ao alienante não restarem bens suficientes para solver o seu passivo, a 
eficácia da alienação do estabelecimento depende do pagamento de todos os credores, 
ou do consentimento destes, de modo expresso ou tácito, em trinta dias a partir de sua 
notificação. 
 
 O artigo 94, III, “c”, da Lei 11.101/05, prevê uma sanção ao empresário que transfere 
o estabelecimento comercial mediante manifestação contrária de seus credores e sem que haja 
resguardo para fins de quitação das dívidas, consistente na decretação da falência do 
alienante. Vejamos: 
 
 Art. 94. Será decretada a falência do devedor que: 
(...) 
III – pratica qualquer dos seguintes atos, exceto se fizer parte de plano de recuperação 
judicial: 
c) transfere estabelecimento a terceiro, credor ou não, sem o consentimento de todos os 
credores e sem ficar com bens suficientes para solver seu passivo; 
 
 
EIRELI – UM RECORTE DO DIREITO SOCIETÁRIO 
(EMPRESARIAL II) 
 
EIRELI (EMPRESA INDIVIDUAL DE RESPONSABILIDADE LIMITADA) 
 A EIRELI, Empresa Individual de Responsabilidade Limitada, é uma modalidade 
nova prevista na Lei 12.441/2011. 
 A primeira questão que se pontua acerca da modalidade em questão diz respeito à 
pronúncia: é EIRÉLI ou EIRELÍ? É EIRELÍ! 
Há muito tempo já se vinha discutindo técnicas de limitação do risco, pois em 
responsabilidade limitada se consegue dimensionar o quanto vai se apostar no negócio. A 
grande questão que sempre se discutiu no cenário internacional é limitar o crédito. 
Nesse contexto, há dois modelos de limitação do risco: LTDA e S.A. 
No direito estrangeiro são adotadas as seguintes técnicas de limitação do risco: 
 
a) Sociedades unipessoais: adotada pelo direito alemão, ela segue as regras das sociedades 
limitadas, mas ela tem apenas um sócio: eu mesmo. Constitui-se uma pessoa jurídica e o sócio 
exerce ele mesmo a atividade. No Brasil, aplicou-se essa teoria permitindo atualmenteque um 
advogado pode constituir uma sociedade sozinho. 
 
b) Patrimônio de afetação: adotada em Portugal e Espanha, coloca-se uma barreira no 
patrimônio de forma que somente pode ser afetado o patrimônio da sociedade. 
 
 No Brasil, no que se refere à limitação de risco, foi inventada uma nova pessoa 
jurídica prevista no art. 44, CC, a EIRELI. Com a atualização legal, têm-se agora três 
formas de empreender atividade de empresário: a) Empresário Individual; b) Sociedade 
Empresária; e c) EIRELI. 
 Mas qual seria a natureza jurídica da EIRELI? O que quis o legislador? Criar uma 
nova espécie de Empresário Individual ou Sociedade Unipessoal? Essa indagação surge por 
causa da “confusão” causada pelo próprio dispositivo legal que regula a Empresa Individual 
de Responsabilidade Limitada. O art. 980-A do Código Civil, inserido pela Lei 12.441/2011, 
menciona “empresa individual” e “capital social” no caput. 
 
Art. 980-A. A empresa individual de responsabilidade limitada será constituída por 
uma única pessoa titular da totalidade do capital social, devidamente integralizado, 
que não será inferior a 100 (cem) vezes o maior salário-mínimo vigente no País. 
 
 A primeira expressão induz pensar que se trata de um Empresário Individual e a 
segunda se relaciona à Sociedade Empresária, haja vista a necessidade de composição do 
capital social. Ocorre que a expressão “empresa individual” é tecnicamente imprópria, posto 
que “empresa” se trata de uma atividade e não de uma pessoa natural ou jurídica. De igual 
modo, a sociedade pressupõe a união de esforços de várias pessoas e, por isso, seria 
inadequado dizer que a EIRELI é uma sociedade unipessoal ou sociedade de uma pessoa só. 
 Para dirimir a questão, a I Jornada de Direito Comercial do Conselho de Justiça 
Federal, leciona no enunciado nº 3 que “a Empresa Individual de Responsabilidade Limitada 
– EIRELI não é sociedade unipessoal, mas um novo ente, distinto da pessoa do empresário e 
da sociedade empresária”. 
 Em resumo, no que diz respeito à EIRELI, durante anos, os empreendedores 
brasileiros conviviam com um impasse, pois caso pretendessem constituir empresa em que 
pudessem desenvolver a atividade pessoalmente teria que ver comprometido o seu 
patrimônio pessoal pelos ônus decorrente de seu negócio, já que não existia legislação que 
regulasse tal situação. 
 A fim de suprir essa lacuna jurídica, foi criado o instituto da empresa individual de 
responsabilidade limitada, cuja sua sigla é EIRELI pela Lei n° 12.441 de 2011, trazendo 
para o Código Civil a vigência do artigo 980-A – “Da Empresa Individual de 
Responsabilidade Limitada” e consequentemente a alteração do Código Civil nos artigos 44 
(inserindo o inciso VI, do qual enumera a EIRELI no rol das pessoas jurídicas de direito 
privado) e 1.033 (estabelecendo a possibilidade de requerimento de transformação de 
sociedade, obstruindo sua dissolução compulsória). 
 A partir de então, tornou-se possível à constituição de empresa, tendo como titular 
um único indivíduo e ao mesmo tempo vê-se separado o seu patrimônio particular daquele 
integralizado ao capital social da empresa. Portanto, a responsabilidade do empresário 
limita-se ao capital social da empresa, salvo em caso de comprovada fraude. 
 A lei da EIRELI dispõe que de forma subsidiária, no que couber, que deverão ser 
aplicadas as regras previstas para as sociedades limitadas. 
 O referido instituto tem como requisitos aqueles já utilizados na constituição do 
empresário individual de responsabilidade ilimitada (capacidade, exercício dos atos de 
comércio e profissão habitual), denominados pela doutrina como gerais, bem como aqueles 
elencados no artigo 980-A do Código Civil (único titular, capital social igual ou superior a 
100 vezes o maior salário-mínimo do país, devendo ser totalmente integralizado), chamados 
pela doutrina como requisitos específicos. 
 A constituição de tal modalidade empresarial pode ser realizada originalmente, a 
partir da elaboração e registro do contrato que disciplinará a sua vida empresarial, ou de 
forma derivada, através da transformação de sociedade empresária ou empresário individual 
de responsabilidade ilimitada em EIRELI. No caso da transformação da sociedade 
empresária em ERELI, um dos sócios adquire a cota dos demais e concentra em seu poder o 
capital social. 
 É importante frisar, também, que nas hipóteses de transformação em EIRELI, o 
CNPJ da pessoa jurídica permanece o mesmo. 
 No tocante ao nome empresarial, o legislador deixou esclarecido no §1º do artigo 
980-A a inclusão da sigla “EIRELI” após a firma ou denominação social da empresa 
constituída, por exemplo, “JOÃO DA SILVA – EIRELI” (firma) ou “FLASH PRODUTOS 
ESPORTIVOS – EIRELI” (denominação). 
 A administração da EIRELI poderá ser feita tanto pelo seu titular ou até mesmo por 
uma ou mais pessoas distintas de seu instituidor. Desde que, dentre os quais designados no 
ato constitutivo como administradores, seja declarada a inexistência de impedimento para o 
exercício de tal função, nos termos do artigo 1.011 do Código Civil e na Instrução 
Normativa DNRC nº 17. 
 No que se refere à dissolução da EIRELI, aplica-se de forma subsidiária, no que 
couber, as possibilidades de dissolução de sociedade dispostas no Código Civil em seu 
artigo 1.033, como por exemplo, pelo vencimento do prazo do contrato constitutivo, por 
deliberação pessoal do empreendedor. 
 Da mesma maneira, os institutos jurídicos da desconsideração da personalidade 
jurídica, recuperação e falência também são empregados de forma subsidiária, à EIRELI. A 
desconsideração da personalidade jurídica será aplicada nos casos em que seja caracterizado 
o abuso de poder ou desvio de finalidade por parte do empresário instituidor. E, no que 
tange a recuperação e falência, vale salientar que após ser decretada a falência da EIRELI, 
haverá a arrecadação somente do patrimônio da pessoa jurídica, ausentando-se desse rol, os 
bens pessoais do instituidor, como também não será considerado falido o titular da EIRELI, 
portanto não sofrerá os efeitos da falência. 
 
Críticas e indagações: 
A pessoa que forma a EIRELI pode ser natural ou jurídica ou incapaz? De onde vem esse 
valor estipulado para constituir o capital social? 
Constituição da EIRELI 
 O §2º do artigo 980-A preceitua que a EIRELI só pode ser constituída por uma única 
pessoa natural. 
 
Obs1: Incapaz pode constituir? O §6º do artigo 980-A preceitua que se aplica as disposições 
da LTDA e, portanto, o incapaz devidamente representado ou assistido pode ser titular de 
EIRELI (lembrando que o incapaz não poderá ser o empresário). Contudo, o DREI 
(Departamento de Registro Empresarial e Integração), na Instrução Normativa nº 10/2013, 
afirma que o incapaz não pode ser titular de EIRELI, ao argumento de que a EIRELI é um 
instrumento de proteção ao indivíduo e, por isso, o incapaz não estaria apto a ser titular de 
uma EIRELI, já que o exercício dessa modalidade de atividade empresarial dependeria de um 
terceiro que, por óbvio, estaria colocando em risco o patrimônio alheio. 
 
Obs2: Pessoa jurídica pode constituir EIRELI? Primeiro há de se destacar que o caput do 
artigo 980-A se refere à pessoa, que no ordenamento jurídico brasileiro pode ser natural ou 
jurídica. Todavia, o §2ª do aludido dispositivo menciona a pessoa natural. Assim, é possível 
que a interpretação sistêmica aponte para a possibilidade de constituição de EIRELI também 
por pessoa jurídica. 
No entanto, ainda assim, pela Lei, é impossível responder tal indagação. Dessa forma, o 
CJF/STJ se manifestou por meio do Enunciado nº 468 da VJDC que a pessoa jurídica não 
pode constituir EIRELI, em razão da possibilidade de fraudesque isso geraria, principalmente 
no que tange à dificultação de responsabilização (afetação). 
O Enunciado, então, passou a ser incorporado pelas Juntas Comerciais, que proibiam a 
constituição de EIRELI por pessoa jurídica, embora haja essa possibilidade numa 
interpretação extensiva da Lei. No entanto, recentemente, o DREI editou uma Instrução 
Normativa autorizando a constituição de EIRELI por pessoa jurídica, o que passou a ser 
plenamente permitido e possível. 
 
Ato constitutivo da EIRELI 
 Não existe contrato social para constituição de EIRELI, uma vez que não existem 
sócios na sua formação. O ato constitutivo da EIRELI, então, é chamado apenas de “Ato 
Constitutivo”, “Ato de Fundação” ou “Estatuto”, e suas regras seguem as formas previstas 
para a LTDA. 
 
Peculiaridades da EIRELI 
 A principal delas diz respeito ao capital social (capital inicial), que deve ser igual ou 
superior a 100 vezes o maior salário-mínimo do país. Isso por si só já gera uma crítica 
significativa. Isso porque, uma pessoa natural que investe cem salários-mínimos está disposta 
a assumir um risco alto, uma vez que passa a exercer atividade empresarial com 
responsabilidade limitada atrelada a um valor considerável, muitas das vezes mais alto do que 
o valor eventualmente afetado se fosse empresário individual, com responsabilidade ilimitada. 
A solução (desvio) para esse problema é a comum prática do 99% contra 1%, na qual a pessoa 
constitui uma sociedade limitada com capital social inferior a 100 salários-mínimos, 
colocando 1% das cotas em nome de outrem e 99% em nome próprio. Assim, percebe-se que 
a EIRELI não cumpre sua finalidade, na maioria dos casos. 
 Outra crítica que surge é com relação à constitucionalidade do requisito, uma vez que 
a Constituição veda a utilização do salário mínimo como base de cálculo, bem como que a 
quantidade expressiva para a constituição do capital social exigido impede substancialmente a 
livre iniciativa, já que a parcela da população que tem condições de investir nessas proporções 
é mínima. 
 Ainda no que tange ao capital social de uma empresa, é possível afirmar que o capital 
inicial desempenha algumas funções. Uma delas é a realização da atividade empresarial. 
Outra função é o poder político, consubstanciado na capacidade de tomada de decisões, uma 
vez que o capital social é uma das formas de ditar qual dos sócios tem mais poder de decisão. 
Essas duas funções são caracterizadas como funções internas, ou seja, diz respeito à sociedade 
constituída. 
 A terceira função do capital social, esta caracterizada como função externa, se refere à 
garantia dos credores, tendo em vista que, na pior das hipóteses, o credor da sociedade 
empresária terá como garantia o capital social correspondente. 
 Abaixo os seis parágrafos do artigo 980-A do Código Civil, que exprimem com 
exatidão as demais peculiaridades da EIRELI: 
 
§ 1º O nome empresarial deverá ser formado pela inclusão da expressão "EIRELI" 
após a firma ou a denominação social da empresa individual de responsabilidade 
limitada. 
§ 2º A pessoa natural que constituir empresa individual de responsabilidade limitada 
somente poderá figurar em uma única empresa dessa modalidade. 
§ 3º A empresa individual de responsabilidade limitada também poderá resultar da 
concentração das quotas de outra modalidade societária num único sócio, 
independentemente das razões que motivaram tal concentração. 
§ 4º VETADO. 
§ 5º Poderá ser atribuída à empresa individual de responsabilidade limitada 
constituída para a prestação de serviços de qualquer natureza a remuneração 
decorrente da cessão de direitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca 
ou voz de que seja detentor o titular da pessoa jurídica, vinculados à atividade 
profissional. 
§ 6º Aplicam-se à empresa individual de responsabilidade limitada, no que couber, as 
regras previstas para as sociedades limitadas. 
 
 
TÍTULOS DE CRÉDITO 
 
Noções básicas sobre o crédito: 
 Por crédito entende-se o dinheiro que um indivíduo ou uma instituição empresta a 
alguém, estipulando certas condições para a sua devolução (juros, prazos, etc.). 
 Um crédito bancário, por exemplo, é aquele que é oferecido por um banco aos seus 
clientes. Neste caso, o banco torna-se credor ao entregar uma determinada quantia ao cliente, 
que passa a ser devedor. A devolução do empréstimo deve realizar-se conforme os requisitos 
acordados; caso contrário, podem aplicar-se distintos tipos de punições. 
 Existem diferentes tipos de créditos que podem gerar diferentes resultados (lucros e/ou 
prejuízos), a depender do risco que envolve as relações obrigacionais garantidas pelos mais 
diversos títulos de crédito. 
 Os créditos de consumo, por exemplo, são aqueles que são disponibilizados às pessoas 
com mais facilidade, para os mais diversos fins (realizar uma viagem, remodelar a casa ou 
organizar um casamento, por exemplo), exigindo-se, normalmente, um ônus elevado, 
consubstanciado em juros significativos que recaem sobre as parcelas do crédito 
correspondente. 
 Os créditos de capital, em contrapartida, são outorgados para fins de investimento e, 
por este motivo, geralmente apresentam as taxas de juros mais brandas do mercado. São 
exemplos os créditos voltados para aquisição de imóveis, maquinários, ampliação de cômodo 
comercial, etc. Além disso, perante as instituições financeiras autorizadas a emitirem crédito, 
são exigidos procedimentos específicos para sua obtenção e a comprovação da utilização do 
crédito, fatores que justificam, em primeira análise, a discrepância entre as taxas de juros 
aplicadas ao crédito de consumo e as taxas aplicadas ao crédito de capital. 
 
Importância dos títulos de crédito: 
 Os títulos de crédito são instrumentos que facilitam a circulação de riqueza 
materializada na cártula, com fundamento no crédito. O crédito, por seu turno, pode ser 
definido como a junção da confiança (moral e jurídica) com o prazo conferido para 
cumprimento da obrigação descrita no referido instrumento ou cártula. 
 Aqui, aquele que tem o potencial de investimento maior que o potencial de gasto 
fornece o crédito para aquele em que a realidade é inversa, ou seja, que tem o potencial de 
gasto maior que o potencial de investimento. 
 Dessa forma, o mercado é constantemente alimentado com os benefícios oriundos dos 
créditos, gerando poder de compra, avanço em inovações, desenvolvimento econômico, etc. 
 
Conceito clássico de título de crédito: 
 Segundo o conceito clássico do italiano Cesare Vivante, “título de crédito é o 
documento necessário para o exercício do direito, literal e autônomo, nele mencionado”. Esse 
conceito doutrinário foi praticamente reproduzido pelo art. 887 do CC, senão veja-se: “título 
de crédito é o documento necessário ao exercício do direito literal e autônomo nele contido, 
mas que somente produz efeitos quando preenche os requisitos da lei”. 
 Deste conceito é possível extrair os princípios gerais do regime jurídico-cambial, ou 
seja, do direito cambiário. Três são os princípios que informam o regime jurídico-cambial: 
cartularidade, literalidade e autonomia. A seguir, breves ponderações acerca dos princípios 
mencionados. 
 
Princípios gerais do regime jurídico-cambial: 
 
 Princípio da Cartularidade (ou incorporação): exige a existência material do título 
ou, como versa Vivante, o documento necessário. Assim sendo, para que o credor 
possa exigir o crédito deverá apresentar a cártula original do documento – título de 
crédito. 
Garante, portanto, este princípio, que o possuidor do título é o titular do direito de 
crédito. Significa dizer que o direito se incorpora no documento, exigindo-se a 
apresentaçãoda cártula de crédito para o exercício do direito nela contido. 
Esse princípio comporta algumas mitigações. Sendo assim, para fins de instrução 
processual, alguns títulos, principalmente aqueles de alto valor, podem ser dispensados 
mediante requerimento, da apresentação do documento original logo no início do 
processo, exigindo-se o compromisso de que o mesmo título seja apresentado ao final 
da lide. Tal mitigação se justifica pela falta de segurança nas secretarias das varas 
judiciais que, em regra, deveriam acautelar a cártula de crédito. 
Outra maneira de mitigação a esse princípio é quando o título de crédito é necessário 
para a instrução de um processo, mas, que no momento instrui outros autos, sendo 
permitido, nesse caso, a reprodução de cópias. 
A cartularidade tem admitido, atualmente, a desmaterialização dos títulos de créditos, 
em razão das transações digitais que podem gerar boletos que correspondem a 
determinada duplicada, por exemplo. Assim, a quitação do boleto anula a duplicata. 
Nesse contexto, é possível afirmar, conforme entendimento da doutrina majoritária, 
que a cartularidade ganhou novos contornos, consistente no fato de que o direito se 
incorpora tanto a documentos físicos quanto nos documentos virtuais, bastando que 
seja seguro e suficientemente hábil a demonstrar qual o direito existente. 
 
 Princípio da Literalidade: o título vale pelo que nele está mencionado, em seus 
termos e limites. Para o credor e devedor só valerá o que estiver expresso no título. 
Deve, por conseguinte, constar a assinatura do avalista para que seja válido o aval, por 
exemplo. 
Esse princípio é importante para aferir quem é responsável pelo cumprimento da 
obrigação descrita literalmente no título de crédito, bem como qual a extensão de tal 
obrigação – o que passa a ser uma segurança para a circulação dos títulos de crédito. 
Destaque-se que a cobrança de valores acessórios que decorrem de lei (ex.: correção 
monetária e juros de mora se estiverem explícitos no título de crédito) não se encontra 
prejudicada por tal princípio, havendo quem indique que nesses casos haveria 
“literalidade indireta”. Por outro lado, de acordo com nova tendência da jurisprudência 
do STJ, os títulos de crédito também podem servir para cobrança de encargos previstos 
em outro documento, desde que o título de crédito faça remissão a tal documento. 
 
 Princípio da Autonomia: desvincula-se toda e qualquer relação havida entre os 
anteriores possuidores do título com os atuais e, assim sendo, o que circula é o título 
de crédito e não o direito abstrato contido nele. 
É o princípio mais importante, segundo o qual a emissão do título de crédito ou 
qualquer declaração acessória nele contida (ex.: aval, endosso) constitui direito novo, 
autônomo e completamente desvinculado da relação jurídica que lhe deu origem. A 
doutrina normalmente ainda se refere a dois subprincípios para facilitar a compreensão 
da autonomia. Vejamos: 
a) Abstração: Estabelece que eventual irregularidade ou nulidade do negócio 
jurídico que motivou a emissão do título de crédito não macula a validade deste. 
Em outras palavras, não se vincula a cártula ao negócio jurídico principal que a 
originou, visando a proteção do possuidor de boa-fé. 
b) Inoponibilidade de exceções pessoais aos terceiros de boa-fé: o devedor não 
pode se negar a cumprir o que consta do título de crédito, apresentando exceções 
pessoais referentes a anteriores portadores ou titulares da cártula, salvo se ficar 
cabalmente demonstrado que o atual titular recebeu a cártula de má-fé. Trata-se 
da manifestação processual do princípio da autonomia. Abaixo, o esquema que 
representa várias relações autônomas que deverão ser cumpridas pelo que consta 
no título de crédito repassado de uma relação a outra. 
 
 
 
 
 
 A - B - C - D - E 
 
 
 
 
 
Solidariedade cambiária (art. 47, LUG): 
 Ainda valendo-se do esquema acima, é possível afirmar que várias pessoas podem ser 
responsáveis por um único título de crédito mediante assinatura (saque, emissão, aceite, 
endosso, aval e intervenção). Dessa forma, havendo a transmissão do título em diversas 
relações, presentes os requisitos, o credor de posse do título pode exigir de um, de alguns ou 
de todos o pagamento integral. Importante esclarecer, porém, que a solidariedade aqui não é 
igual a do Direito civil, mas ambas possibilitam a integral exigência da dívida. Abaixo, as 
principais diferenças: 
 
SOLIDARIEDADE CIVIL SOLIDARIEDADE CAMBIAL 
A obrigação de cada devedor decorre de uma 
causa comum 
A obrigação de cada devedor decorre de uma 
causa distinta 
Existe uma unidade de prestação (art. 264, CC) 
Existe uma pluralidade de prestações, conforme a 
quantidade de devedores dos títulos 
O devedor que adimplir tem direito de regresso 
quanto aos demais. 
Nem todos terão o direto de regresso (exemplo: o 
aceitante da letra de câmbio) 
A solidariedade pode ser convencional ou legal 
(art. 265, CC) 
Será sempre Legal (art. 47, LUG) 
 
 
 
 
Relação 1 
Relação 2 
Relação 3 
Relação 4 
Qualquer devedor pode extinguir a obrigação Há devedor principal 
O que adimplir a totalidade tem o benefício da 
divisão, regresso em desfavor de todos, conforme 
a quota de cada co-devedor (art. 283, CC) 
Solidariedade sucessiva. Se nascer o direito de 
regresso ele só pode ser exigível aos devedores 
anteriores. Quando exigido o regresso será por 
todo o valor do título e não pela quota 
A interrupção da prescrição em desfavor de um 
devedor afeta os demais (art. 177 e 204, CC) 
A prescrição é autônoma e individual para cada 
devedor (art. 70 e 71, LUG) 
Simples e pura condicional (Art. 266, CC) 
Não admite obrigação condicional (arts. 1º, 12 e 
26, LUG) 
 
Legislação cambiária: 
 Cada título de crédito é regulado primeiramente por uma lei especial (Ex.: a Lei 
Uniforme de Genebra que trata do regime da letra de câmbio e da nota promissória, a Lei do 
Cheque, a Lei das Duplicatas etc.). As disposições do Código Civil sobre os títulos de crédito 
(arts. 887 a 926) somente têm aplicabilidade subsidiária e em último caso, se omissa ou 
lacunosa a legislação especial, conforme regra do seu art. 903: “salvo disposição diversa em 
lei especial, regem-se os títulos de crédito pelo disposto neste Código”. 
 
Títulos de créditos típicos e atípicos: 
 Fábio Ulhoa Coelho afirma que não existe título de crédito sem previsão legal. 
Todavia, alguns doutrinadores afirmam que se podem criar títulos de créditos, tendo em vista 
as regras gerais estabelecidas pelo Código Civil para nortear eventual criação de títulos de 
crédito entre particulares. Esse entendimento também é o entendimento do professor, que 
afirma que os títulos atípicos são regulados pelo Código Civil, e ignorar a existência de títulos 
atípicos significaria também ignorar as regras impostas pelo Código. 
 Para o professor, é imprescindível ter em mente que o Código Civil de 2002 contém 
uma disciplina geral para os títulos de crédito idealizada com os objetivos de: a) autorizar a 
criação dos títulos de crédito atípicos ou inominados; b) servir de disciplina suplementar aos 
títulos de crédito nominados ou típicos, naquilo em que houver compatibilidade; e c) conferir 
aos títulos novos ou aos que vierem a ser criados uma disciplina referencial para remissão, 
visto que as leis específicas de vários títulos determinam que a eles se apliquem, quando 
cabíveis, subsidiária ou complementarmente, as normas sobre as cambiais. 
 Não houve o intuito de conformar uma disciplina geral de títulos de crédito visando a 
enumeração e reunião dos dispositivos comuns de parte ou da totalidade das inumeráveisespécies existentes de títulos de crédito. Optou-se por arquitetar uma disciplina básica, 
genérica, direcionada para os títulos atípicos ou inominados, isto é, àqueles documentos 
dotados de certas características próprias dos títulos de crédito, criados de conformidade com 
as exigências e dinâmica dos negócios, porém não previstos em lei. A regulamentação geral 
não se aplica, destarte, diretamente aos títulos de crédito definidos e disciplinados em leis 
especiais (cédulas de crédito, duplicatas, nota promissória, letra de câmbio, etc.), a não ser 
quando compatíveis com estes e em caráter suplementar (CC, art. 903). 
 Adotou-se, assim, tal como no Código Civil Italiano de 1942, o princípio da livre 
criação e emissão de títulos de crédito atípicos ou inominados. 
 Ao que parece, o intuito do legislador foi de fixar os requisitos mínimos dos títulos de 
crédito, ou uma tentativa de construção de uma teoria geral dos títulos de crédito (embora a 
regulamentação permaneça por lei especial e cambiária), ou melhor, para os futuros títulos de 
crédito. 
 Para melhor compreensão, é necessário conceituar e explicar os títulos de crédito 
típicos e atípicos. Entendemos por TÍTULOS TÍPICOS aqueles definidos por um modelo 
legal, ou melhor, consistem na impossibilidade de se emitirem títulos de crédito que não 
estejam definidos pela própria lei. Os títulos típicos, ou com previsão legal, são em numerus 
clausus e só podem ser emitidos quando especialmente regulados por lei. 
 Ao revés, os TÍTULOS ATÍPICOS designam um documento não expressamente 
previsto na legislação, mas que, nem por isso, estão inteiramente afastados dos princípios 
reguladores dos títulos típicos ou nominados. 
 No Brasil, adotava-se um posicionamento sobre os títulos de crédito, segundo o qual 
os mesmos somente podem ser criados por lei diante da necessidade de garantir certeza e 
segurança no recebimento do crédito, em intensa circulação nas atividades mercantis. 
 Todavia esse posicionamento tomou novos contornos com o Código Civil de 2002, no 
qual foi proposta a possibilidade dos particulares, diante de necessidades específicas, criarem 
títulos de crédito ao lado do legislador ordinário. Este procedimento já ocorre em outros 
países, como na Itália no seu Código Civil de 1942, na Suíça no seu Código Federal das 
Obrigações, e no México na sua Lei Geral de Títulos de Operações de Crédito de 1932, e suas 
posteriores alterações. Com esse procedimento, ou melhor, com a adoção desse procedimento, 
extingue-se o monopólio legal do estado de criação dos títulos de crédito, transferindo-se essa 
função igualmente aos particulares como exercício da autonomia privada. 
 O argumento mais convincente utilizado pela doutrina para adoção e criação dos 
títulos de crédito atípicos ou inominados é a de que eles fomentam a dinamicidade dos 
negócios, possibilitando concretizar a criatividade das fontes materiais do Direito 
Empresarial. Mas este não é um posicionamento pacífico, porquanto sujeito a muitas 
controvérsias. 
 São exemplos de títulos típicos a letra de câmbio, nota promissória, cheque, etc. 
 Um exemplo de título de crédito atípico usado no país é o chamado FICA (ou “vaca 
papel”), que visa instrumentalizar os direitos decorrentes do contrato de parceria pecuária. 
Neste contrato, o objeto é a cessão de animais para cria, recria, invernagem e engorda, 
mediante partilha proporcional dos riscos e dos frutos ou lucros havidos. O título (vaca-papel) 
representaria justamente o direito ao recebimento dos lucros e à devolução dos animais 
entregues. 
 É certo, contudo, que os títulos atípicos, embora sejam títulos de crédito, não são 
títulos executivos, na medida em que a executividade pressupõe um reconhecimento legal 
específico. A tipicidade não atinge mais os títulos de crédito, mas atinge ainda os títulos 
executivos. 
 
Características dos títulos de crédito: 
 Conforme exposto acima, o legislador, ao recepcionar a definição clássica do que 
seriam os títulos de crédito, adicionou a previsão: "somente produz efeitos quando 
preencha os requisitos da Lei", ou seja, permitiu‐se que cada título de crédito tenha 
características próprias que poderão ser dispostas em legislação específica. No entanto 
existem algumas características em comum que devem ser destacadas. São elas: 
 
 Natureza jurídica 
O título de crédito é um bem móvel e está sujeito aos princípios gerais dos bens 
móveis. A posse de boa-fé equivale à propriedade (art. 16 da Lei Uniforme de 
Genebra – LUG). A natureza móvel atende uma das principais funções dos títulos 
de crédito que é a rápida circulação. 
 
 Pro solvendo ou pro soluto? 
A simples emissão e entrega do título não extingue a obrigação que a originou, 
assim, o título possui característica pro solvendo, sendo necessário para extinção o 
efetivo pagamento. Em outras palavras, significa que a simples entrega do 
título não dá ensejo à efetivação do pagamento. Representará, apenas, uma 
quantia em dinheiro que o credor receberá em momento oportuno, quando, aí sim, 
haverá a extinção da obrigação correspondente. A obrigação originária e a 
cambiária coexistem. O desaparecimento do título não obstaria uma cobrança 
baseada em eventual contrato que originou a dívida ou ainda uma ação de 
conhecimento para que se reconheçam os direitos do credor. 
De outra sorte, excepcionalmente o título de crédito pode também assumir o 
caráter pro soluto. A diferença é que, nesse caso, haverá a extinção da obrigação 
com a mera transferência do título ao credor, pois, aqui, a entrega corresponderá 
ao pagamento e, por conseguinte, à extinção da obrigação de origem. De forma 
que o credor terá apenas o direito cambial, não podendo rediscutir a causa 
debendi. 
Mister ressaltar que, para que o título assuma o caráter pro soluto, será necessário 
que seja assinalado expressamente a quitação com a simples tradição do título. 
Assim, reclama-se, para operar esse efeito, de cláusula explícita, o que raramente 
acontece na praxe. 
 
 Circulação 
Para assegurar a rápida o segura circulação de riquezas o ordenamento jurídico 
conferiu maior proteção aos títulos de crédito. Contudo, existem títulos que não 
circulam, mas é exceção. 
 
 Título de resgate 
O título é criado não para permanecer entre as partes originárias, mas para ser 
resgatado pelo devedor, quando do pagamento da obrigação pactuada. Assim, 
uma vez apresentado e o devedor pagar o título, o credor deve devolvê-lo para o 
devedor. 
O resgate, então, significa tirar o título de circulação quando quitada a obrigação 
nele veiculada. 
 
 Título de apresentação 
Em regra, os títulos de créditos devem ser apresentados para que a obrigação 
possa ser exigida. Dessa forma, é aconselhável que o pagamento só se dê 
mediante apresentação do título, objetivando o seu resgate logo após. Do 
contrário, ter-se-á o risco de o título continuar circulando e outra pessoa 
apresentá-lo para pagamento. Esse descuido pode ser representado pelo brocardo 
“quem paga mal paga duas vezes”. 
 
 Obrigação quesível 
Em toda obrigação, uma das partes deve tomar a iniciativa para o adimplemento. 
No caso dos títulos de crédito o credor deve dirigir-se ao devedor para exigir o 
cumprimento da obrigação, até porque, devido à natureza circulatória do título, 
nem sempre o devedor saberá quem é o credor tratando-se, portanto, de 
uma obrigação quesível. 
 
 Executividade 
Os títulos de crédito possuem eficácia processual abstrata, pois permitem a 
execução direta, sem a necessidade de uma ação de conhecimento para reconhecer 
o crédito. Os títulos de crédito são títulos executivos extrajudiciais (art. 784, CPC) 
e não precisam de ratificaçãojudicial. Essa característica aplica-se apenas aos 
títulos típicos. 
 
 Formalidade 
Os títulos de créditos são formais. Isto quer dizer que deverão obedecer a uma 
forma prescrita em lei, sob pena de não representarem valor como título de 
crédito. 
Se no título faltar, por exemplo, a expressão "Nota Promissória", este documento 
poderá ser considerado como uma confissão de dívida, mas nunca uma Nota 
Promissória. É que, nessa hipótese, estará ausente um requisito essencial de ordem 
legal. 
É também o caso da Nota Promissória que não contenha o valor por extenso ou 
em que o valor escrito esteja rasurado. 
Importante ressaltar que, em regra, o título pode ser formalizado em qualquer 
meio escrito (qualquer papel, pro exemplo), desde que obedecidas as formalidades 
legais. Essa observação, no entanto, não se aplica ao cheque, que deve ser 
redigido sobre material específico, por exigência do Banco Central. 
Assim, no que tange ao modelo propriamente dito, ele pode ser livre ou vinculado. 
No primeiro, basta atender os requisitos legais. No segundo, além dos requisitos 
legais, há um modelo padronizado, como é o caso do cheque que deve seguir o 
modelo estabelecido pelo Banco Central. 
 
Classificações dos títulos de crédito: 
 
 Quanto à natureza 
 
Títulos causais: São aqueles que guardam vínculo com a causa que lhes deu 
origem, constando expressamente no título a obrigação pelo qual o título foi 
assumido, sendo assim, só poderão ser emitidos se ocorrer o fato que a lei elegeu 
como uma possível causa para o mesmo. Podem circular por endosso. Ex.: 
duplicatas. 
 
Títulos abstratos: São aqueles que não mencionam a relação que lhes deu origem, 
podendo ser criados por qualquer motivo. Ex.: letra de câmbio, cheque. Essa 
característica exprime a ideia do princípio da abstração, ou seja, os títulos se 
abstraem do negócio de origem. 
 
Obs.: É possível transformar um título de crédito naturalmente abstrato em título 
causal, bastando apenas que conste em seu corpo a vinculação a determinado 
negócio jurídico. 
 
Títulos limitados (fuc): É uma subcategoria criada por Fábio Ulhoa. Consiste no 
título que só pode ser emitido em virtude de um negócio (compra e venda de 
produto ou prestação de um serviço). Esse subcategoria não faz muito sentido, 
pois está abarcada pela classificação dos “títulos causais”. 
 
 Quanto ao modo de circulação 
 
Títulos nominativos: O nome do credor (pessoa indicada como beneficiária da 
prestação a ser realizada) vem mencionado no texto do título de crédito. 
Significa que o título carrega o nome do beneficiário. Sua circulação se faz 
mediante um termo de cessão ou de transferência. 
 
Títulos à ordem: São título nominativos, mas significa que o título circula 
mediante endosso (assinatura de transferência do título). A transmissão da 
propriedade do documento se realiza com a somatória de uma declaração 
(endosso) e a tradição do documento. O texto do documento menciona a 
identidade do credor por meio de uma declaração de vontade (o endosso). 
 
Títulos não à ordem: Não circulam por endosso, mas isso não significa que o 
título não circula. Sua circulação se dará por cessão de crédito. É uma alteração 
dos títulos „à ordem‟. Sua circulação se faz através de uma cessão, que requer 
um termo de transferência assinado pelo cedente e pelo cessionário. Como 
consequência da cessão, o cedente se obriga apenas com o cessionário, não em 
relação aos posteriores possuidores do título. 
 
Títulos ao portador (cheques Lei 9.069/96): Não se menciona a identidade do 
credor (beneficiário da prestação). Será considerado titular dos direitos 
incorporados nos documentos a pessoa que com ele se apresentar e, ainda, a sua 
circulação se faz por simples tradição manual, basta a transmissão da posse do 
documento. É a forma menos segura, porque se houver o extravio do título, 
perde-se também o crédito. No Brasil, a Lei 8.021/90 (art. 4º) proibiu os títulos 
ao portador. No entanto, o cheque consiste em exceção quando o valor nele 
contido é inferior a R$ 100,00 (cem) reais. 
 
 Quanto à estrutura 
 
Ordem de pagamento: Tem-se a ordem de pagamento quando alguém ordena o 
pagamento para outrem. Relação sacado-sacador-tomador. Em outras palavras, 
por esta estrutura o saque cambial dá origem a três situações distintas: sacador ou 
emitente, que dá a ordem para que outra pessoa pague; sacado, que recebe a 
ordem e deve cumpri-la; e o beneficiário, que recebe o valor descrito no título. 
Ex.: letra de câmbio, cheque. 
 
Promessa de pagamento: Não é ordem, paga-se diretamente ao outro polo da 
relação e, por isso, envolve apenas duas situações jurídicas: promitente, que deve, 
e beneficiário, o credor que receberá a dívida do promitente. Ex.: nota 
promissória. 
 
 Quanto ao modelo 
 
Títulos livres: é aquele em que o modelo é livre, podendo ser feito em qualquer 
papel. 
 
Títulos vinculados: Devem atender a um padrão específico, definido por lei, para 
a criação do título. Um título que exemplifica essa categoria é o cheque, pois o 
modelo do cheque é regulado pelo Banco Central. 
 
 Quanto ao prazo de pagamento 
 
Título à vista: O título vence quando é apresentado (não significa que o título é 
compensado na hora, sua compensação depende da apresentação ao devedor). 
 
Título à prazo: Há um prazo estabelecido para o pagamento, podendo ser a) a 
certo termo da vista; b) a certo termo da dato; e c) termo certo. Vejamos: 
 
>> Certo termo da vista: Nesta modalidade, o vencimento será 
marcado com o decurso de prazo determinado pelo sacador cujo início 
coincide com a data do aceite realizado pelo aceitante. Significa dizer 
que o prazo é estabelecido e contabilizado a partir da vista do título 
pelo devedor. 
 
>> Certo termo da data: O texto do título prevê um prazo para o 
vencimento do título de crédito, que é contado a partir da data de 
criação do título. O título pode ser compensado durante o período 
estabelecido. 
 
>> Termo certo: A data certa para vencimento é disposta no título. 
 
 
LETRA DE CÂMBIO E ALGUNS ELEMENTOS EM COMUM DOS TÍTULOS DE 
CRÉDITOS 
 
Conceito de Letra de Câmbio: 
 Entende-se por Letra de Câmbio uma ordem dada, por escrito, a uma pessoa, para 
que pague a um beneficiário indicado, ou à ordem deste, uma determinada importância em 
dinheiro. A letra de câmbio é um título de crédito, dotado de literalidade e de autonomia das 
obrigações. Desempenha importantíssima função econômica pela ampla utilização do 
crédito que proporciona. 
 A letra de câmbio não é muito usual hoje em dia. Todavia, é importante o seu estudo, 
pois as suas normas são aplicáveis e incorporados nos demais títulos de créditos. 
 
Origem: 
 A letra de câmbio, praticamente, começou a se formar na Itália, no século XIV. Para 
não transportar dinheiro de uma cidade para outra, estando uma pessoa sujeita à emboscada e 
à perda, procurava um banqueiro de sua própria cidade, que tinha relação comercial com 
outro banqueiro onde pretendia se dirigir, e entregava-lhe o dinheiro. Em troca, recebia uma 
carta, uma ordem de pagamento, que dava tal incumbência ao banqueiro de outra cidade, onde 
faria o pagamento. Assim, em vez de as pessoas transportarem dinheiro, transportavam a 
carta, documento representativo da soma a ser paga. Essa prática deu origem ao atual título de 
crédito, hoje de uso universal. Portanto, enviava-se dinheiro de um local para outro através do 
instrumento do contrato de câmbio: uma ordem de pagamento. 
 Facilmente podemos imaginar a intervenção de, pelo menos, três pessoas nessa 
operação: o banqueiro que recebia o dinheiroe expedia a carta – o sacador; aquele que 
recebia a carta – o tomador ou beneficiário; e o encarregado do pagamento – o sacado. 
 Atualmente, o mecanismo é o mesmo: há o sacador que emite a letra de câmbio, 
entregando-a ao tomador (credor), para que este receba do sacado (devedor). 
 
Histórico: 
 
 Período Italiano: 
Período compreendido desde o início dos burgos independentes da baixa idade média 
até meados do século XVII; foi durante esse lapso temporal que se assistiu o surgimento do 
documento cambio per literas, que posteriormente viria a ser chamado de letra de pagamento 
de câmbio e, posteriormente, reduzido apenas à letra de câmbio. 
O aparecimento desse documento se deu diante do seguinte contexto: cada cidade 
italiana cunhava suas próprias moedas, acarretando intensos problemas ao intercâmbio 
comercial. Já era feito o câmbio local, mas com a transferência de valores por praças 
diferentes surgiu o problema de transportar consigo grandes somas por grandes distâncias, 
devido ao peso e volume das moedas. Também constituíam problemas os fatos de os viajantes 
serem frequentemente assaltados durante o trajeto e o difícil curso da moeda de outra praça no 
local onde se pretendia usá-la. O câmbio se caracteriza a partir de então pela distantia loci, 
passando o cambista a trocar a moeda presente pela promessa de moeda ausente naquela 
praça, mas que lhe seria entregue na praça de destino daquele que negocia com o cambista. 
 Todo esse mecanismo era reduzido a escrito por um notário, de forma que contivesse a 
promessa de pagar e o reconhecimento expresso de um débito por parte do cambista ou 
banqueiro. Esse escrito era o que se convencionou chamar de cambium per literas ou cautio 
discreta. Com o passar do tempo, esse documento foi simplificado, contendo uma delegação 
de pagamento, entregue ao tomador com uma carta de apresentação ao correspondente. 
Figurava-se a letra de pagamento de câmbio. Para a emissão desse documento havia a 
necessidade de preencher três requisitos básicos, quais sejam: a) distancia loci (praças 
diferentes), b) permutatio pecunia (as moedas das respectivas praças também precisavam ser 
diferentes) e c) provisão do pagamento (existência de igual valor ao da letra de câmbio nas 
mãos do sacado, para que este pudesse efetuar o pagamento). 
Questionamento importante surge nesse período acerca do caso de não pagamento 
pelo sacado. Entendeu-se que nesses casos o apresentante do título deveria levá-lo ao notário 
para atestar a mora perante testemunha. Era o instituto da protestatio, que muito se relaciona 
com o protesto atualmente tido como meio garantidor de pagamento dos títulos de crédito. 
 
 Período Francês: 
O período francês compreende o intervalo entre 1650 e 1848, de modo que as 
principais inovações surgiram com a Ordenança de 1673. Primeiramente, criou-se a cláusula à 
ordem, por meio da qual o tomador poderia transferir o título a qualquer pessoa mesmo sem o 
consentimento do sacador; a pessoa que recebia essa letra de câmbio adquiria todos os 
poderes de seu antecessor. Essa alteração permitiu maior circulação da letra de cambio por 
meio do instituto do endosso. Além disso, com o aceite da dívida, é preciso que haja um 
avalista a fim de se garantir o pagamento desta. Também é característica do período francês a 
possibilidade de protesto. 
 
 Período Alemão: 
O período alemão compreende o intervalo de 1848 a 1930. Foi nesse lapso temporal 
que se processou a unificação do Direito Cambiário, com a origem da famosa Ordenança 
Geral Cambiária Alemã, influenciada pela teoria de Einnert. Fundamenta a teoria alemã a 
ideia de que para exercer a ação cambial não precisa o credor de dados que não constem na 
própria cambial e a ideia de a promessa não se dirige a credor determinado, pois é feita de 
forma geral ao público. 
De teoria vitoriosa de Einnert, consagrada no direito positivo, decorrem, entre outros, 
os seguintes efeitos para a cambia: a) desaparecem os requisitos de distancia loci e do valor 
recebido; b) a endossabilidade se torna elemento natural, implícito, desaparecendo a 
necessidade de cláusula “à ordem”; c) pode ser apresentada ao aceitante, e o portador exerce o 
direito de regresso contra o sacador, desde que não seja aceita ou paga; d) a assinatura posta 
no título é autônoma, independente das demais; e) é credor quem possui o título por uma série 
não interrompida de endossos; f) ao credor não podem ser opostas as exceções fundadas no 
direito pessoal. 
 
 Fase da Unificação: 
Corresponde ao período dos anos 30 até os dias atuais. O marco histórico para o 
delineamento desse período foi a Convenção de Genebra de 1930, por meio da qual se 
concretizou a unificação universal das leis cambiais. Depois de longo período de discussão 
sobre o tema e de algumas tentativas não concretizadas, em 7 de junho de 1930, foram 
assinadas três convenções sobre os títulos de crédito, assim enumeradas: a) convenção de uma 
lei uniforme para a letra de câmbio e a nota promissória; b) convenção para regular os 
conflitos de leis sobre a letra de câmbio, nota promissória e protocolos; c) convenção no 
direito de selo de letras de câmbio e notas promissórias. O Brasil apenas em 1942 adere 
formalmente às três convenções, sendo que só foram aprovadas pelo Congresso Nacional em 
1964, tendo o Presidente da República em 1966 determinado que fossem executadas e 
cumpridas. Há que se mencionar, no entanto, que o Brasil fez algumas reservas às 
convenções, não incorporando ao Direito Brasileiro os preceitos atingidos pela “reserva”, 
hipótese em que se aplica o Decreto nº 2.044 de 1908 aos casos concretos pertinentes. 
 
Partes: 
Na letra de câmbio os intervenientes possuem, no título, funções diversas. Vejamos: 
 SACADOR, SUBSCRITOR ou EMITENTE – é aquele que dá a ordem, aquele que 
cria e emite a letra, dando a ordem de pagamento (é também denominado credor). 
 SACADO ou DEVEDOR – é aquele a quem a ordem é dada, contra quem a ordem é 
dirigida. 
 TOMADOR ou BENEFICIÁRIO – é aquele a favor de quem é emitida a ordem (é 
aquele que porta o título e que fica no lugar do credor). 
 
Legislação: 
>> Decreto 57.663/1966 que introduziu no Direito brasileiro a Lei Uniforme da Convenção 
de Genebra de 07/06/1930, constante do Anexo I, excetuados alguns artigos do Anexo II. 
>> Decreto 2.044/1908 nas partes não derrogadas e quando a LUG for silente, conforme 
entendimento do STF 
 
Obs.: Tanto o Decreto nº 2.044, como a Lei Uniforme tratam da Letra de Câmbio e da Nota 
promissória – são esses títulos diferentes, se bem que tenham muitos princípios em comum 
– dada a existência de tais princípios, a letra de câmbio e a nota promissória são chamadas 
de títulos cambiários ou, simplesmente, cambiais. 
 
Requisitos: 
 Todo e qualquer título de crédito tem que obedecer a requisitos. Os títulos de crédito, 
especialmente pela cartularidade e literalidade, são marcados por extremo rigor formal. 
 A letra de câmbio possui requisitos intrínsecos e extrínsecos. Intrínsecos são os 
requisitos previstos no artigo 104 do Código Civil, próprios do negócio jurídico. Assim, a 
validade do negócio jurídico requer: agente capaz, objeto lícito, possível e determinado ou 
determinável e forma prescrita ou não defesa em lei. 
 Em princípio, os mesmos elementos essenciais do ato jurídico devem estar presentes 
na letra de câmbio, embora o direito cambiário tenha feito algumas adaptações; por exemplo, 
no caso de uma letra ser assinada por um incapaz, ela não será considerada nula, pois, a 
legislação cambiária, levando em consideração os princípios da autonomia das obrigações 
constantes nos títulos, e da independência das assinaturas,não impõe nulidade à letra de 
câmbio. 
 Os requisitos extrínsecos, por suas vezes, estão previsto nos artigos 1º e 2º da LUG e 
são supríveis. Abaixo, os requisitos extrínsecos e suas características: 
 
Denominação: as palavras letra de câmbio, expressas no corpo do título e grafadas na língua 
empregada na sua redação. Este requisito foi denominado de cláusula cambiária, cuja função é 
a de identificar o título de crédito que se pretende circular. O nome do título de crédito é 
imprescindível. 
 
Ordem de pagamento: significa o mandato puro e simples. Aqui, ressalta-se que a ordem é 
incondicional, uma vez que a incondicionalidade é da essência da circulação do título, assim o 
cumprimento da obrigação materializada no título não pode se sujeitar ao implemento de 
condição alguma, seja ela suspensiva ou resolutiva. 
Primeira pergunta sobre a ordem: o que é uma condição? Evento futuro e incerto. Sabemos 
isso desde o estudo dos negócios jurídicos. Os títulos de crédito não podem ter seu 
cumprimento subordinado a uma condição. Não está escrito “pague-se a Vossa Senhoria se.” 
Essa incondicionalidade é tão forte que mesmo os países que não se vincularam à Convenção 
de Genebra adotam esse raciocínio. 
 
Nome da pessoa a quem a ordem é endereçada: qual é mesmo o nome dessa pessoa? O 
sacado. A pessoa responsável tem que ser especificada. 
 
Nome da pessoa a quem ou à ordem de quem deve ser feito o pagamento: quem é essa 
pessoa? O tomador/beneficiário. Aqui surge uma peculiaridade: a quem ou à ordem de quem 
deve ser efetuado o pagamento. Primeira situação: o tomador deve estar especificado, e a letra 
de câmbio não pode ser sacada ao portador. Significa que a letra de câmbio é um título 
eminentemente à ordem! Pelo menos quando de seu nascimento. Pode eventualmente se 
tornar ao portador, mas nasce à ordem. É próprio da circulação do título de crédito. 
 
Assinatura de quem dá a ordem de pagamento: quem é? O sacador. Dessa assinatura, 
geralmente acompanhada do nome do sacador, decorre a criação do título de crédito e a 
vinculação do sacador como codevedor do título. Por que a assinatura é essencial? A firma do 
emitente do título faz com que se crie a obrigação cambiária. O que é isso? Teoria da criação. 
Ao assinar, a ordem já possui vigência no ordenamento jurídico. Além de criar a letra de 
câmbio, o sujeito se coloca na condição de codevedor do título de crédito, o que implica 
solidariedade passiva. Mesmo assim deve-se buscar o devedor principal primeiro. Na hipótese 
de descumprimento que se busca, em juízo, qualquer um deles. 
 
Data do saque (ato de criação da letra de câmbio): o que é o saque? A criação da letra de 
câmbio. Por que a data do saque é importante, um requisito essencial, extrínseco? Para se 
apurar o vencimento ou eventual prescrição do título, que é a perda da pretensão da ação para 
exigir seu pagamento. Também para apurar a capacidade civil do sacador. Isso porque 
partimos do pressuposto que os requisitos intrínsecos já foram satisfeitos. 
Em suma, a importância da data do saque está relacionada com a verificação do vencimento, 
o transcurso do pagamento, e a apuração da capacidade civil do sacador. 
 
Lugar do pagamento ou menção de um lugar ao lado do nome do sacado. Observação: o 
art. 4º da LUG permite que a letra seja paga na localidade onde o sacado tem seu domicílio ou 
em qualquer outro lugar à sua indicação. Pode-se expressar o lugar em que o pagamento 
deverá ser efetuado. Em caso de silêncio, a regra é que se pague no endereço indicado ao lado 
do nome do Arthur, ou, se não houver nada mesmo, no domicílio do Arthur. 
 
Lugar do saque ou menção de um lugar ao lado do nome do sacador: para que isto? Para 
firmarmos a competência de jurisdição. 
 
 Acerca dos requisitos extrínsecos, ainda vale a seguinte observação: qual a 
importância da data do saque? Verificação do vencimento. Mas, se assim é, não seria um 
requisito essencial da letra de câmbio? Faz sentido sacar uma letra de câmbio sem 
vencimento? A LU convencionou que a data do vencimento não é um requisito essencial, 
pois, sem a menção da data, pressupõe-se que o vencimento do título de crédito é à vista. Por 
isso não temos data do vencimento como requisito essencial. Se nada for dito acerca do 
vencimento, ele será à vista. 
 
Título em branco atende a formalidade?: 
 O STF, por meio da Súmula 387 entende que a letra de câmbio emitida ou aceita 
com omissões, ou em branco, pode ser completada pelo credor de boa-fé antes da cobrança 
ou do protesto. 
 
Declarações cambiais: 
 As declarações cambiais dividem-se em a) declaração cambial necessária ou 
originária: saque ou emissão; e b) declarações cambiais eventuais ou sucessivas: aceite, 
endosso, aval e protesto. 
 
a) Obrigações necessárias ou originárias – saque ou emissão: Emissão ou saque são 
termos que buscam identificar a criação do título de crédito. Nesse caso é declaração 
cambial necessária, essencial e completa-se forçosamente pela assinatura do 
declarante. 
A assinatura do declarante corresponde à declaração principal, porque sem ela não 
existirá o título. 
A assinatura, atendidos os requisitos legais, poderá constituir uma promessa direta de 
pagamento (ex., na nota promissória) ou numa promessa indireta de pagamento (ex., 
na letra de câmbio). 
É a assinatura o requisito mais importante de qualquer declaração cambial, pois dela 
decorre a obrigação do signatário. 
A declaração cambial que cria a nota promissória chama-se emissão e se completa 
pela assinatura do emitente. Essa declaração corresponde a uma promessa direta de 
pagamento que o emitente faz a favor do beneficiário da declaração. 
Há um compromisso direto de pagar a quantia determinada no título de crédito ao 
beneficiário. 
Já a declaração cambial que cria a letra de câmbio chama-se saque, correspondendo a 
uma ordem de pagamento. 
O saque é uma ordem de pagamento (ou promessa indireta de pagamento) dada pelo 
sacador (quem dá a ordem) ao sacado (a quem a ordem é dada) a favor do tomador 
(beneficiário da ordem). 
 
b) Obrigações eventuais ou sucessivas: Criado o título de crédito, as demais declarações 
podem surgir ou não, dependendo do interesse das partes envolvidas. Somente a 
primeira declaração é indispensável, pois as demais surgem em razão da conveniência 
das partes interessadas. 
Se a assinatura torna o signatário do título obrigado, cada nova assinatura representa 
mais uma declaração (constitui-se nova obrigação), fato que aumenta a garantia 
oferecida ao credor do título (portador). 
 
Aceite: 
 O aceite é uma das espécies de declaração cambiária e não constitui elemento de todos 
os títulos de crédito. É imprescindível somente na letra de câmbio e duplicata. 
 O aceite é a declaração produzida pela assinatura de quem o procede a fim de garantir 
o pagamento do título de crédito ao seu beneficiário. 
 Nada obriga o sacado a aceitar a Letra de Câmbio, sendo que nenhuma obrigação lhe é 
colocada pelo fato do sacador ter-lhe endereçado a ordem de pagamento. Somente pelo aceite 
o sacado assume a sua obrigação cambial, pois é um ato livre de sua vontade. 
 Regra geral, tem-se o aceite a partir da assinatura do sacado no anverso da Letra de 
Câmbio, devendo ter a respectiva expressão “aceito” ou outra equivalente, para que esse se 
torne válido. Sua forma tradicional é a assinatura do sacado no anverso do título, mas pode ser 
feita no verso do título, desde que igualmente seguida da expressão “aceito” ou afins. 
 
Aceite riscado – Art. 29, LUG: Se o sacado, antes da restituição da letra, riscar o 
aceite que tiver dado, tal aceite é considerado como recusado. Salvo prova em 
contrário, a anulaçãodo aceite considera-se feita antes da restituição da letra. 
Se, porém, o sacado tiver informado por escrito o portador ou qualquer outro 
signatário da letra de que a aceita, fica obrigado para com estes, nos termos do seu 
aceite. Vejamos o dispositivo correspondente a esta regra: 
 
Art. 29. Se o sacado, antes da restituição da letra, riscar o aceite que tiver dado, 
tal aceite é considerado como recusado. Salvo prova em contrário, a anulação do 
aceite considera-se feita antes da restituição da letra. 
Se, porém, o sacado tiver informado por escrito o portador ou qualquer outro 
signatário da letra de que aceita, fica obrigado para com estes, nos termos do seu 
aceite. 
 
 
Data do aceite: A regra é de que a data não é imprescindível. No entanto, existem 
duas exceções. A primeira é consubstanciada no vencimento a certo termo da 
vista, isso porque, para que se saiba o prazo de vencimento deve-se ter ciência da 
data do aceite. A segunda é quando se tem uma data certa para apresentação da 
letra de câmbio para aceite. 
Em outras palavras, quando se trata de uma letra pagável a certo termo de vista, 
ou que deva ser apresentada ao aceite dentro de um prazo determinado por 
estipulação especial, o aceite deve ser datado do dia em que foi dado, salvo se o 
portador exigir que a data seja a da apresentação. 
 
Apresentação para aceite: A apresentação pode determinar o vencimento da 
letra: a letra sacada à vista vence no ato em que o portador a apresenta ao sacado, 
por isso que ela não é apresentada anteriormente. Se a Letra de Câmbio tiver data 
certa de vencimento, será facultativa a sua apresentação. 
A apresentação para o aceite é um ato fundamental, portanto, somente para as 
letras que devam vencer a certo tempo da apresentação. O início do prazo 
concedido para o vencimento e o pagamento da letra é marcado a partir da 
apresentação. 
No próprio título, o sacador pode proibir a apresentação para o aceite, somente 
podendo o portador apresentar na data de pagamento. 
 
 
Reapresentação (Art. 24, LUG): O sacado pode pedir que a letra lhe seja 
apresentada uma segunda vez no dia seguinte ao da primeira apresentação (prazo 
máximo de 24 horas). Nesse caso, o portador não é obrigado a deixar nas mãos do 
aceitante a letra apresentada ao aceite. 
Esse prazo é denominado “prazo de respiro”, afigurando-se como uma faculdade 
legal conferida ao sacado. É, portanto, um direito potestativo do sacado de pedir 
que o título seja reapresentando no prazo máximo de 24 horas, servindo para que 
o sacado verifique a veracidade do título de crédito, não podendo ser exigida, 
contudo, a retenção do título. 
 
Efeitos do aceite: Enquanto o sacado não aceita a ordem contida no título de 
crédito o devedor principal do título é o sacador. A partir do momento em que o 
sacado aceita o título, ele vira aceitante e, portanto, se torna o devedor principal. 
Esse é o primeiro efeito do aceite. 
Outro efeito do aceite consiste no fato que se o título for rejeitado, a relação com 
o sacado se extingue e o sacador permanece sendo o devedor principal. A recusa, 
ainda, importa no vencimento antecipado do título. 
 
 O aceite estudado até aqui é o aceite caracterizado como puro e simples. Todavia, ele 
ainda pode ser classificado como “aceite qualificado”, ou seja, o aceite que resulta na 
modificação das cláusulas do título. Essa classificação comporta duas modalidades: 
 
Aceite limitativo: O sacado muda o valor do título, diminuindo-o. Significa que o 
aceitante concorda em pagar uma parte do valor do título. O valor remanescente é 
de responsabilidade do sacador. 
 
Aceite modificativo: É o aceite em que o sacado adere à ordem, alterando parte 
das condições fixadas na letra, como por exemplo, a época do vencimento. O 
aceite modificativo, por sua natureza, importa como recusa. Assim, a cobrança 
pode ser feita diretamente ao sacador, em consequência da recusa. Mas ainda 
assim, estará o sacado obrigado a ressarcir o sacador nos moldes da mudança por 
ele estabelecida. 
Ex.: Se o sacado altera a data de pagamento para um mês após a apresentação, 
poderá o beneficiário exigir o pagamento diretamente do sacador, uma vez que 
houve a quebra da confiança e não precisa esperar por tempo diverso do avençado 
para receber seu crédito. Nesse caso, procedendo ao pagamento do título, o 
devedor poderá cobrar o valor dispendido do sacado (aceitante que modificou 
cláusula do título) na data por este estipulada para o pagamento. 
 
 Ainda, por meio da cláusula “não aceitável”, é possível proibir que o título seja 
apresentando para aceite, visando evitar o seu vencimento antecipado. A regra que autoriza 
esse feito está contida no artigo 22 da LUG, que prevê que o sacado poderá valer-se do 
expediente previsto na lei, consiste na “cláusula não aceitável” (salvo nas hipóteses 
proibidas pelo dispositivo legal), fazendo com que o portador não possa antecipar o 
pagamento e não possa protestar por aceite. Abaixo, a transcrição do dispositivo 
supracitado: 
 
Art. 22. O sacador pode, em qualquer letra, estipular que ela será apresentada ao aceite, 
com ou sem fixação de prazo. 
Pode proibir na própria letra a sua apresentação ao aceite, salvo se se tratar de uma 
letra pagável em domicilio de terceiro, ou de uma letra pagável em localidade diferente 
da do domicílio do sacado, ou de uma letra sacada a certo termo de vista. 
O sacador pode também estipular que a apresentação ao aceite não poderá efetuar-se 
antes de determinada data. 
Todo endossante pode estipular que a letra deve ser apresentada ao aceite, com ou sem 
fixação de prazo, salvo se ela tiver sido declarada não aceitável pelo sacador. 
 
Endosso: 
 O endosso é o ato pelo qual se transfere o direito de receber o valor que consta no 
título através da tradição da própria cártula. De acordo com o art. 893 do Código Civil: “a 
transferência do título de crédito implica a de todos os direitos que lhe são inerentes” e, por 
assim dizer, entende-se que não só a propriedade da letra que se transfere, como também a 
garantia de seu adimplemento. Significa dizer que no endosso, quem transfere o título de 
crédito responde pela existência do título e também pelo seu pagamento. 
 
Figuram dois sujeitos no endosso: 
>> Endossante ou endossador: quem garante o pagamento do título transferido por endosso; 
>> Endossatário ou adquirente: quem recebe por meio dessa transferência a letra de câmbio. 
 
 O endosso responsabiliza solidariamente o endossante ao pagamento do crédito 
descrito na cártula caso o sacado e sacador não efetuem o pagamento. Portanto, se o devedor 
entregar a seu credor um título, por mera tradição e sem endosso, não estará vinculado ao 
pagamento deste crédito caso as outras partes se tornem inadimplentes. 
 
Pressuposto do endosso: Para que o título circule por endosso, é essencial que o 
título tenha cláusula à ordem. Para se restringir a circulação, a contrario sensu, é 
imprescindível a cláusula não à ordem. Mesmo com essa cláusula é possível que o 
título circule, mas circulará somente por meio de cessão de crédito. 
 
Forma do endosso: A simples assinatura no verso do título de outras pessoas que 
não sejam o emitente presume-se o endosso. A assinatura na frente seguida da 
expressão “endosso”, “pague a” e afins, também se presume endosso. 
 
Poderá o endosso se apresentar: 
 
Em preto: Quando na própria letra traz a indicação do endossatário do crédito. 
Também conhecido por endosso nominal. Em suma, se diz para quem se está 
endossando o título. Logo, para executividade do título, o juiz verificará a lisura 
da cadeia de endosso. 
 
Em branco: Quando apenas constar aassinatura do endossante, sem qualquer 
indicação de quem seja o endossatário. Deverá este ser feito sempre no verso do 
título e se tornará um título ao portador. 
No endosso em branco não se coloca o nome do destinatário do título. O endosso 
em branco resulta na caracterização de título ao portador. Em que pese ser 
proibida essa modalidade no Brasil, o STF já reconheceu a possibilidade de 
endosso em branco (título ao portador) desde que a cadeia seja preenchida antes 
de o título ser levado para via judicial para ser executado. 
 
 Segundo o artigo 12 da LUG, o endosso deve ser puro e simples. Assim, qualquer 
condição a que ele esteja condicionado considera-se não escrita e implica na sua nulidade. 
Significa que o endosso não pode ser parcial. Vejamos: 
 
Art. 12. O endosso deve ser puro e simples. Qualquer condição a que ele seja 
subordinado considera-se como não escrita. 
O endosso parcial é nulo. 
O endosso ao portador vale como endosso em branco. 
 
 O endosso gera alguns efeitos, a maioria já intrínsecos à sua conceituação, 
modalidades e características. Vejamos: 
 
Efeitos do endosso: Sendo o efeito principal do endosso transmitir os direitos 
emergentes da letra, tornando, por via de dispositivo legal, o endossante 
solidariamente se responsabiliza pelo aceite e pelo pagamento (art. 14, LUG). 
Ao endossatário cabe não somente praticar todos os atos para o resguardo e 
garantia desses direitos como, igualmente, reclamar o embolso da soma 
especificada dos obrigados na letra (inclusive dos demais endossantes, avalistas 
ou sacador, se o sacado não se obrigou a pagar – não aceitou –, ou tendo se 
obrigado se recusou a pagar). 
Além disso, por ser legalmente o novo titular dos direitos que emanam do título, 
o endossatário, a quem a letra foi transferida pelo endosso, pode, por vontade 
própria, transmitir o título a outra pessoa. 
O proprietário da letra, que a transfere mediante endosso, perde a titularidade 
dos direitos incorporados no título, mas não se desvincula do cumprimento das 
obrigações contidas na letra, pelo princípio legal da garantia de aceitação e de 
pagamento assumida no lugar da assinatura no título. Daí resulta que, se a letra 
não for paga no vencimento, o endossante fica com a obrigação de pagá-la. Essa 
obrigação é solidária com as daqueles que lançaram suas assinaturas no título. 
Os endossos, sendo lançados sucessivamente na letra, formam uma cadeia, pela 
qual se pode acompanhar a sucessividade dos proprietários no título. 
 
 O efeito do endosso também pode ser modulado pelo endossante, como acontece na 
inserção de cláusula proibitiva de novo endosso, prevista no artigo 15 da LUG. Vejamos: 
 
Cláusula de proibição de novo endosso – Art. 15, LUG: O endossante pode 
proibir um novo endosso e, nesse caso, não estará obrigado a garantir a dívida 
para os demais endossatários do endosso não permitido. 
Em outras palavras, a cláusula proibitiva de novo endosso é inserida no título de 
crédito e não obsta a transferência do direito de crédito autônomo constante no 
título. Entretanto, o endossante que insere a cláusula proibitiva de endosso não vai 
garantir o pagamento dos endossos que forem realizados após o seu. Mesmo 
inserindo esta cláusula o endossante garante o pagamento das relações cambiárias 
existentes naquele título de crédito e anteriores ao seu endosso. Na verdade quem 
insere a cláusula proibitiva de novo endosso está apenas dizendo que não garantirá 
o pagamento dos futuros endossos posteriores ao seu. 
 
Art. 15. O endossante, salvo cláusula em contrário, é garante tanto da aceitação 
como do pagamento da letra. O endossante pode proibir um novo endosso, e, neste 
caso, não garante o pagamento às pessoas a quem a letra for posteriormente 
endossada. 
 
 Existem, ainda, as figuras do endosso-mandato e do endosso-caução. Vejamos: 
 
Endosso-mandato: Não se transfere a propriedade do título, apenas é feito uma 
procuração para o exercício do direito da letra de câmbio. O endossatário exerce o 
direito no lugar do endossante. 
Nada mais é do que a criação de uma relação de representação. O endossante 
mandante transfere poderes ao endossatário mandatário para que ele atue em 
nome e por conta do endossante mandante. Dessa forma o endossante passa a ser 
representado pelo endossatário. Usada para a efetivação da cobrança do título. 
Confere poderes para que outra pessoa faça a cobrança em seu nome (usada 
muito no âmbito bancário). 
Ao lado ou abaixo da assinatura vai conter uma menção específica, “por 
procuração”, “para cobrança” ou “por mandato”. Menção específica indicando 
que não está sendo transferida a propriedade do título, mas sim os exercícios do 
direito. 
Há uma responsabilidade do endossatário perante o endossante. O endossatário 
tem o dever de conservar o título física e juridicamente (tomar todas as 
providências necessárias à preservação dos direitos do endossante). 
A LUG quando dispôs sobre o endosso mandato, fez menção à possibilidade do 
endossatário mandatário fazer um novo endosso no título. Ele não pode 
transferir a propriedade, mas pode transferir os poderes que lhe foram 
conferidos. Se ele faz um novo endosso, tem os efeitos de 
um substabelecimento. 
Obs.: Pode-se colocar uma cláusula vetando novos endossos por parte do 
mandatário. 
 
Endosso-caução – Art. 19, LUG: Neste tipo de endosso, não se tem por 
intenção transferir a propriedade do título, mas apenas e tão somente constituir 
um penhor sobre o documento. Não se transfere o crédito, apenas se deixa o 
título em garantia de outra obrigação. 
Em síntese, o endosso-caução ou endosso-pignoratício é um endosso especial 
que transfere a posse do título a uma pessoa, em garantia de alguma obrigação. 
Para tanto, o endossante deverá acrescentar alguma cláusula no endosso, como 
“valor em garantia”, ou “por caução” ou “em penhor”. 
Não há uma fórmula solene, o que se exige é que a intenção de apenas deixar o 
título em garantia seja clara. Não havendo essa menção clara, o endosso será 
interpretado como endosso translativo. 
Feito o endosso-caução ou pignoratício, surgem dois sujeitos no título: o 
endossante-pignoratício e o endossatário-pignoratício, cada um com uma 
situação diferente em relação ao título. 
O endossante-pignoratício continua sendo o proprietário do documento, o credor 
do título, mas, normalmente, é devedor do endossatário-pignoratício por outra 
obrigação. 
Nessa condição, ele tem o dever de honrar sua obrigação perante o endossatário, 
sob pena de o endossatário fazer valer os seus direitos de credor sobre o título 
dado em garantia. 
Quitando esta outra obrigação, terá o direito de retomar o título dado em 
garantia. O endossatário-pignoratício é um possuidor legítimo do título, mas não 
o seu proprietário. Diante dessa condição, a legislação lhe assegura o exercício 
de todos os direitos decorrentes do título, exceto a transferência da propriedade 
do documento, uma vez que tem apenas a posse do documento. 
Ele poderá apresentar o título para aceitação ou para pagamento, levar o título a 
protesto e ajuizar ações, isto é, a lei lhe assegura a prática de todos os atos 
necessários à defesa e conservação do título. 
Tais poderes, contudo, não envolvem a transferência do documento em si, logo, 
ele não pode realizar endosso translativo. 
Assim, qualquer endosso que ele realizar deverá ser entendido como um 
endosso-mandato, na medida em que as demais modalidades de endosso não 
podem ser realizadas por ele, que é um mero possuidor. 
Nem outro endosso-caução ele poderá realizar, pois não se pode dar em garantia 
apenas a posse do título. Para proteger o credor pignoratício queaceitou os 
títulos em garantia, a legislação lhe garante o exercício dessa posse em nome e 
em proveito próprio. 
Ele poderá promover a ação cambial contra os obrigados no título, que não 
poderão invocar contra o portador as exceções fundadas nas relações deles com 
o endossante, salvo se o portador tiver agido de má-fé (art. 19, al. 2, LUG). 
Embora seja um mero possuidor, ele exercerá os direitos de forma autônoma em 
relação ao endossante, restando bem protegido dos eventuais problemas do 
endossante. Por agir em nome e em proveito próprio, o endossatário-pignoratício 
assumirá todos os riscos das suas ações. 
Se ele causar um dano a alguém no exercício dos direitos inerentes ao título, é 
ele que irá responder pela indenização, ao contrário do que ocorria no endosso-
mandato. 
Obs.: Com o adimplemento da obrigação e devolução do título de crédito ao 
endossante-pignoratício, este poderá exercer a titularidade do título, inclusive 
exigindo-se o seu pagamento. Nesse caso, a cadeia de endosso não o prejudica, 
mesmo que seu nome não conste como último endossatário, uma vez que o 
endosso realizado caracteriza-se tão somente como endosso-caução e, portanto, 
não houve a transmissão da titularidade do crédito, tampouco o exercício de seu 
direito. 
 
Endosso x cessão de crédito: 
 Como já visto, endosso é o ato pelo qual o credor de um título de crédito com a 
cláusula à ordem transmite os seus direitos à outra pessoa. 
 Por outro lado, a cessão civil é o ato pelo qual o credor de um título de crédito com a 
cláusula não à ordem transmite os seus direitos à outra pessoa. 
 No endosso, quem transfere o título de crédito responde pela existência do título e 
também pelo seu pagamento. Todavia, o devedor não pode alegar exceções pessoais contra 
o endossatário. 
 Já, na cessão civil, quem transfere o título de crédito só responde pela existência do 
título, mas não responde pelo seu pagamento (art. 295, CC). Entretanto, o devedor pode 
alegar exceções pessoais contra o cessionário (art. 294, CC). 
 Acerca da cessão de crédito, o artigo 290 do Código Civil preceitua que “a cessão do 
crédito não tem eficácia em relação ao devedor, senão quando a este notificada; mas por 
notificado se tem o devedor que, em escrito público ou particular, se declarou ciente da cessão 
feita”. Assim, conclui-se que sessão de crédito precisa ser notificada ao devedor para surtir 
seus efeitos em relação ao devedor. 
 
 
AVAL 
 
 O aval é negócio jurídico informal, unilateral, formal e simples, por meio do qual 
alguém assume a posição de garante do pagamento de um título e equipara sua 
responsabilidade à de um dos coobrigados existentes. 
 Em relação à unilateralidade, vale destacar que aval não é contrato. Não há contrato 
em aval, mas uma única obrigação. O aval só se materializa por meio do título de crédito. 
 Ele só se concretiza pela assinatura na face do título de crédito, sempre havendo 
menção “em garantia”. Além disso, pode-se dizer que o aval é negócio jurídico simples, 
pois não há parcialidade. Quem assume o aval se torna o “avalista”. 
 Ao assumir a posição de garante, ele tem a possibilidade de regular qual será a 
magnitude de sua responsabilidade e para isso ele escolhe um dos coobrigados do título de 
crédito, que será o chamado “avalizado”. Vale destacar, o avalizado não fornece declaração 
de vontade, não aquiescendo a escolha como avalizado, ele apenas será um parâmetro da 
responsabilidade do avalista. 
 Além disso, o coobrigado precisa ser existente. A obrigação precisa existir entre 
tanto sua obrigação não precisa ser válida. Ou seja, o avalizado não precisa ser pessoa capaz 
para validar sua obrigação, mas apenas existente. 
 Se nada for mencionado há uma presunção absoluta que o avalizado é o sacador do 
título de crédito. 
 
Obs.: Pelo princípio da literalidade e da cartularidade, no Brasil não se admite o aval dado em 
documento apartado do título de crédito. Ela pode ser feita do anexo, pois ele é o próprio 
título. 
 
Fiança e aval: Fiança e Aval produzem garantia. A semelhança é que os dois produzem 
garantias pessoais. Entretanto a Fiança é um contrato, pois há troca de consentimento, no 
aval há apenas a um negócio unilateral. Além disso, a fiança é um contrato acessório que é 
sempre celebrada em função de um contrato antecedente, já no Aval há autonomia do 
título. Também o aval cria uma garantia objetiva, no sentido do avalista garantir o 
pagamento como fato. Já na fiança há uma garantia subjetiva, pois o fiador está garantindo a 
conduta do afiançado. Isso gera uma diferença referente ao benefício de ordem, sendo que 
no aval nunca há benefício de ordem. Por fim, o âmbito de aplicação do aval é apenas nos 
títulos de crédito enquanto a fiança tem âmbito de aplicação nos contratos. 
 
Outorga conjugal: Art. 1.647, CC/02: para ser fiador ou avalista quando se é casado, exceto 
no caso de separação “absoluta”, é necessária outorga conjugal. Lembrando que a não 
oposição da outorga conjugal, enseja a anulabilidade do aval prestado. A anulabilidade deverá 
ser alegada no prazo de dois anos contados após o término da sociedade conjugal, que se dá 
por separação de fato ou direito, divórcio ou morte. Em razão da ausência de segurança 
jurídica nestas situações, a jurisprudência começou a entender que se não houver a outorga, a 
obrigação persiste para o cônjuge que deu o aval, não atingindo os bens do outro cônjuge. Em 
outras palavras, a ausência de assinatura não invalida o ato, apenas ressalva os bens do 
cônjuge que não assinou. 
 
Aval Parcial: O avalista está declarando vontade e tem como modular sua 
responsabilidade. Pelo art. 31 da LUG, é possível se obrigar por uma parcela desse valor. 
 
Multiplicidade de Avais: A multiplicidade de avais se estabelece quando se tem mais de 
um avalista que indicou o mesmo avalizado. Os avalistas no caso são equiparados ao 
mesmo coobrigado. Essa situação gera algumas questões referente à relação entre os 
avalistas. Para solucionar essa questão foram elaboradas duas hipóteses: 
 
Avais simultâneos: Os avais são considerados simultâneos quando os avalistas 
não estabeleceram distinção de grau de responsabilidade e se colocaram no 
mesmo patamar de responsabilidade, fazendo o rateio entre os avalistas. A 
solução é uma situação de solidariedade passiva simples. 
 
Avais sucessivos: Nos avais sucessivos há graus diferentes de responsabilidade 
conforme as suas declarações de vontade. O avalista no caso se volta sobre 
quem tem responsabilidade sobre ele e cobra pelo total, é um caso de reembolso 
total junto à pessoa que tem mais responsabilidade. 
 
Aval em branco: É o aval que não menciona a pessoa por ele favorecida, nele constando 
apenas a assinatura do avalista. É como um endosso em branco. De acordo com o artigo 31 
da LUG, o “avalista em branco” torna-se avalista do devedor principal. Vejamos: 
 
Art. 31. O aval é escrito na própria letra ou numa folha anexa. Exprime-se pelas 
palavras "bom para aval" ou por qualquer fórmula equivalente; e assinado pelo dador 
do aval. 
O aval considera-se como resultante da simples assinatura do dador aposta na face 
anterior da letra, salvo se se trata das assinaturas do sacado ou do sacador. 
O aval deve indicar a pessoa por quem se dá. Na falta de indicação, entender-se-á pelo 
sacador. 
 
A Súmula 189 do STF, por sua vez, preceitua que “avais em branco e superpostos 
consideram-se simultâneos e não sucessivos”. 
 
Responsabilidade do avalista: Tamanha é a responsabilização do avalista que o mesmo 
responde pela obrigação que garantiu em pé de igualdade com o devedor principal, sendo 
facultado ao credor exigir simultaneamentedo devedor e avalista o pagamento da obrigação 
inadimplida, não havendo que se falar em ordem de exigência do pagamento, em razão da 
autonomia do aval. Sob outro aspecto, ainda no tocante a responsabilidade do avalista, esta 
perdura ainda mesmo quando declarada nula a obrigação garantida, salvo caracterização de 
vicio de forma no tocante a instituição do aval. Sobre a responsabilidade do avalista, 
estabelece o artigo 47 da LUG: 
 
Art. 47. Os sacadores, aceitantes, endossantes ou avalistas de uma letra são todos 
solidariamente responsáveis para com o portador. 
O portador tem o direito de acionar todas estas pessoas individualmente, sem estar 
adstrito a observar a ordem por que elas se obrigaram. 
O mesmo direito possui qualquer dos signatários de uma letra quando a tenha pago. 
A ação intentada contra um dos coobrigados não impede acionar os outros, mesmo os 
posteriores àquele que foi acionado em primeiro lugar. 
 
Obs.: A obrigação do avalista é autônoma, portanto, ela não é prejudicada pela nulidade da 
obrigação principal. 
 
O artigo 50 da LUG prevê os direitos do avalista. Vejamos abaixo: 
 
Art. 50. Qualquer dos coobrigados, contra o qual se intentou ou pode ser intentada uma 
ação, pode exigir, desde que pague a letra, que ela lhe seja entregue com o protesto e um 
recibo. 
Qualquer dos endossantes que tenha pago uma letra pode riscar o seu endosso e os dos 
endossantes subseqüentes. 
 
 
Regresso: Na hipótese do avalista proceder ao pagamento da obrigação no lugar do devedor 
principal, lhe é assegurado, como demonstrado acima, o direito de exigir do credor além da 
entrega do titulo, a quitação regular da obrigação. Anote-se que em tal hipótese é assegurado 
ao avalista, ainda, o direito a ação de regresso contra o devedor principal para reaver o valor 
pago com as correções legais. 
 
Forma do aval: Conforme artigo 31 da LUG, a mera assinatura na frente do título, sem ser a 
do emitente e sem expressão alguma, presume aval. Mas ele pode ser dado no verso se ela 
vier acompanhada da expressão “em garantia”. 
A respeito da forma do aval, o STJ entende que se a assinatura estiver no verso e não for 
endosso, ela indica aval. Ainda segundo o STJ, presume-se que assinatura fora da cadeia de 
endosso é aval. 
 
 
NOTA PROMISSÓRIA 
 
 Enquanto a letra de câmbio é uma ordem de pagamento, porque através dela o 
signatário (sacador) do título requisita a uma pessoa (sacado) o pagamento de uma soma, a 
nota promissória é uma promessa de pagamento feita pelo próprio devedor, que se obriga, 
dentro de certo prazo, ao pagamento de uma soma pré-fixada. Portanto, a nota promissória é 
um título pelo qual alguém se compromete a pagar a outrem, determinada quantia em 
dinheiro, num certo prazo. Como é emitida pelo próprio devedor, ela passa a ser um título de 
crédito desde a sua emissão, e o seu possuidor ou portador poderá, logo após o vencimento, 
não sendo paga, propor ação executiva para recebê-la. 
 Trata-se de um título autônomo que independe da indagação da causa que motivou a 
obrigação. “Nota promissória regularmente emitida e avalizada, mesmo originária de um 
contrato particular, – decidiu o Tribunal – pode circular. Uma vez endossada, representa 
dívida autônoma, com causa legítima” (in RT 659/150). 
 Em conclusão: nota promissória é uma promessa direta que o devedor faz ao credor, 
pois ela é emitida pelo devedor. Já a letra de câmbio é emitida por uma pessoa que dá uma 
ordem ao seu devedor (sacado) para pagar certa quantia a um terceiro. 
 
As pessoas que intervêm na nota promissória: Quando a nota promissória é emitida, 
intervêm, necessariamente, duas pessoas: o emitente que é o devedor, e o beneficiário, que é o 
credor. 
Além das duas personagens principais, sem as quais não haveria nota promissória, podem 
aparecer outras pessoas, como o “avalista”, que se obriga com o emitente, solidariamente, ao 
pagamento do título e o “endossatário”, ou terceiro, em cujas mãos passa o título quando o 
credor o aliena. 
 
Requisitos essenciais da nota promissória: Os requisitos essenciais da nota promissória são 
quase equivalentes aos da letra de câmbio, com a diferença fundamental de que esta é 
assinada pelo sacador, que não é o devedor, enquanto naquela (NP) aparece a assinatura do 
devedor, que é também o emitente do título. Em tudo o mais, a nota Promissória obedece à 
disciplina jurídica da letra de câmbio. A seguir são apresentados os seus requisitos essenciais: 
 
1. a denominação nota promissória; 
2. a importância por extenso a ser paga; 
3. o nome da pessoa a quem deve ser paga; 
4. a assinatura de próprio punho do emitente (devedor) ou do mandatário especial. 
 
Esses requisitos devem ser lançados por extenso no seu contexto, como acontece com a letra 
de câmbio; a assinatura do devedor deve ficar do lado direito e no final; o nome do credor 
deve aparecer logo após a expressão “nota promissória” situada no centro do título. 
Cabe lembrar que, na falta de um dos requisitos supra, o título deixa de ser nota promissória, 
isto é, deixa de ser um título de crédito. 
 
Emissão em branco e ao portador: A nota promissória não pode ser emitida ao portador. 
Um de seus requisitos essenciais é que ela contenha o nome do credor. “A nota promissória 
ao portador não constitui, per se, título de dívida líquida e certa – decidiu certa vez o Tribunal 
– podendo, quando muito, auxiliar a prova da obrigação assumida pelo signatário para com o 
autor, cobrável pela via ordinária, e não pela executiva” (in RT 598/213). Atualmente, a ação 
própria para a cobrança via ordinária é a “ação monitória”, vista no capítulo anterior. 
Por outro lado, nada impede que se emita a nota e seja a mesma entregue ao credor sem 
indicação do seu nome. Trata-se de emissão em branco que poderá circular livremente. 
Somente no momento de ser apresentada em juízo, ou no Cartório de Protesto deve ser 
colocado o nome do credor. O Tribunal já decidiu que não enseja execução o título 
incompleto, “por lhe faltar um requisito de forma” (in RT 591/220). “Se o credor não 
exercitar os poderes que lhe são conferidos no mandato tácito contido na emissão da nota 
promissória em branco, deixando de complementá-la até o momento de sua cobrança, não se 
reconhece ao título a natureza cambial, tornando nula a execução nele embasada” (in RT 
588/210). 
Portanto, os requisitos devem estar totalmente cumpridos antes da cobrança judicial ou do 
protesto do título, devido ao princípio de que o portador de boa-fé é procurador bastante do 
emitente para completar a nota promissória emitida com omissões. 
 
Formas de vencimento da nota promissória: O pagamento da promissória será feito no 
tempo indicado no próprio título. Se não se determina o prazo para pagamento, entende-se 
que se trata de promissória à vista. 
A nota promissória pode ser passada: 
 
1. à vista; 
2. em dia certo; 
3. a tempo certo da data da emissão; neste caso, a data da emissão tem relevância. 
 
Da abdicação das normas sobre letra de câmbio às notas promissórias: Tanto a letra de 
câmbio como a nota promissória são disciplinadas pelas regras da Lei Uniforme de Genebra 
e, em caso de lacuna, aplicam-se os princípios do Decreto nº 2.044, de 1.908. Pelo art. 77 da 
Lei Uniforme, são aplicáveis à nota promissória todas as disposições da letra de câmbio, 
evidentemente no que não lhe contrariem a natureza. Assim, tudo o que foi visto sobre a letra 
de câmbio, a respeito do protesto, do endosso, do aval e da prescrição, aplica-se, mutatis 
mutandis, à nota promissória, exceto no que se refere ao aceite, pois na promissória não se 
utiliza o instituto do aceite, pela simples razão de que o próprio emitenteda promissória 
equipara-se ao aceitante da letra de câmbio. É por isso que a nota promissória é um título de 
crédito desde o seu nascedouro. 
 
Prescrição: Como são aplicadas todas as disposições da letra de câmbio à nota promissória, a 
prescrição é de três anos do credor contra o emitente e o respectivo avalista e, de um ano, a 
ação do portador contra o endossante. 
 
Súmula 258 do STJ: nota promissória ilíquida não é título de crédito (questão que cai bastante em 
concurso). Em razão dessa proibição, surgiu uma nova figura: a CCB (cédula de crédito bancário), que 
é um título que pode ser auto executado. Ela resume o contrato feito com o banco. 
 
Súmula 258: 
A nota promissória vinculada a contrato de abertura de crédito não goza de autonomia 
em razão da iliquidez do título que a originou. 
 
 
CHEQUE 
 
 O cheque é uma ordem incondicional de pagamento à vista, de certa quantia em 
dinheiro, dada com base em suficiente provisão de fundos ou decorrente de contrato de 
abertura de crédito disponíveis em banco ou instituição financeira equiparada. 
 
Intervenientes: 
 
Emitente: É a pessoa que dá a ordem de pagamento para o sacado, após verificação dos 
fundos. É o devedor principal. 
 
Sacado: O banco ou instituição financeira a ele equiparada. O sacado de um cheque não tem, 
em nenhuma hipótese, qualquer obrigação cambial. 
 
Beneficiário: É a pessoa a quem o sacado deve pagar a ordem emitida pelo sacador. 
 
Obs.: Os fundos disponíveis em conta corrente pertencem, até a liquidação do cheque, ao 
correntista sacador. 
 
Requisitos: São requisitos do cheque: 
 
Extrínsecos: Agente capaz, cuja vontade foi livremente expressa, sem qualquer vício. 
 
Intrínsecos: 
a) A denominação “cheque”, inscrita no próprio texto; 
b) A ordem incondicional de pagar uma quantia determinada; 
c) O nome do banco/instituição que deve pagar (sacado); 
d) A indicação da data e lugar de emissão; 
e) A indicação do lugar do pagamento; 
f) A assinatura do emitente ou a de seu mandatário com poderes especiais. 
 
Tipos de cheques: 
 
Cheque cruzado: possibilita a identificação do credor e só poderá ser pago via depósito em 
conta.O cruzamento pode ser: 
• Geral: Dois traços paralelos no anverso; 
• Especial: Entre os traços, figura o nome do Banco. 
 
Cheque para ser creditado em conta: O emitente/portador proíbe o pagamento em dinheiro 
mediante a inscrição no anverso da expressão: “para ser creditado em conta”. 
 
Cheque visado: é aquele garantido pelo banco sacado durante certo período. 
 
Cheque Administrativo: é aquele sacado pelo banco contra um de seus estabelecimentos. 
 
Endosso: O cheque é título de modelo vinculado. A transmissão de cheque pagável a pessoa 
qualificada é TRANSMISSÍVEL através do ENDOSSO, com ou sem a cláusula “à ordem”. 
A sua circulação segue a mesma regulamentação da letra de câmbio, com as seguintes 
diferenças: 
 não se admite o endosso-caução; 
 o endosso do sacado é nulo, VALENDO APENAS COMO QUITAÇÃO (exceção: 
endosso feito por um dos estabelecimentos do sacado para pagamento em outro 
estabelecimento); 
 o endosso feito após o prazo de apresentação serve apenas como cessão civil de 
crédito. 
 
Aval: Expresso da forma convencional ou pela simples assinatura no anverso do cheque. Na 
falta de indicação, considera-se avalizado o emitente. 
 
Aceite: O cheque não admite aceite. A praça é obrigada a aceitar pagamentos em cheque. 
 
Vencimento: Sempre à vista, contra apresentação. 
Pagamento: Cheque sem fundos é tipificado como estelionato. O credor não pode recusar 
pagamento parcial. O sacado não deve pagar o cheque após o prazo de prescrição. 
 
Obs.: A execução de cheques sem fundos prescreve em 6 meses a partir do término do prazo 
para apresentação. Após o decurso deste prazo, será admissível ação com base em 
locupletamento sem causa no prazo de 2 anos. 
 
Sustação de cheque: A sustação do cheque pode ser: 
 revogação (contraordem), notificação dos motivos, feitos após o prazo para 
apresentação do cheque e 
 oposição, aviso escrito, relevante razão de direito, antes da liquidação do título. A 
sustação pode configurar crime de fraude no pagamento por cheque (art. 171). O 
sacado não pode questionar a ordem. 
 
Prazo prescricional: 
a) 6 meses, contados da expiração do prazo de apresentação: 
- Do portador contra o emitente e seus avalistas; 
- Do portador contra os endossantes e seus avalistas. 
 
b) De qualquer dos coobrigados contra os demais: 6 meses contados do dia em que pagou o 
cheque ou foi acionado. 
 
Obs.: A ação de enriquecimento ilícito contra o emitente ou coobrigados prescreve em 2 
anos contados do dia em que se consumar a prescrição da ação de execução. 
 
 
 
DUPLICATA 
 
 A duplicata é um título de crédito em que sua emissão depende de uma causa anterior. 
Determina a Lei 5.474 de 18/07/1968 em seu artigo 1º que em todo o contrato de compra e 
venda mercantil entre partes domiciliadas no território brasileiro, com prazo não inferior a 30 
(trinta) dias, contado da data da entrega ou despacho das mercadorias, o vendedor extrairá a 
respectiva fatura para apresentação ao comprador. 
 A fatura discriminará as mercadorias vendidas ou, quando convier ao vendedor, 
indicará somente os números e valores das notas parciais expedidas por ocasião das vendas, 
despachos ou entregas das mercadorias. A fatura é dispensável quando a nota fiscal é do tipo 
“nota fiscal-fatura”, na qual já constam os elementos da fatura, necessários à emissão da 
duplicata. 
 A duplicata somente pode ser emitida após a emissão da fatura. Assim estabelece o 
artigo 2º da Lei das Duplicatas que no ato da emissão da fatura, dela poderá ser extraída uma 
duplicata para circulação como efeito comercial, não sendo admitida qualquer outra espécie 
Atenção: CHEQUES PÓS-DATADOS 
É interessante lembrar que, segundo a Lei Uniforme sobre Cheques, este título é ordem de 
pagamento à vista. Desta maneira, os cheques com data futura ao dia real da emissão não 
devem ser levados em conta. A data futura não é considerada e o cheque sempre é pagável 
à vista. 
de título de crédito para documentar o saque do vendedor pela importância faturada ao 
comprador. 
 Assim, a duplicata é um título de crédito causal vinculado a operações de compra e 
venda de mercadorias (envolvendo um empresário como sacador) ou de prestação de serviços 
(envolvendo um prestador de serviços – empresário ou não – como sacador) com pagamento à 
vista ou a prazo, e representativo do crédito originado a partir de referidas operações. 
 No que se refere à duplicata de prestação de serviços, a Lei das Duplicatas em seu 
artigo 20 estabelece que as empresas, individuais ou coletivas, fundações ou sociedades civis, 
que se dediquem à prestação de serviços, poderão, também, na forma desta Lei, emitir fatura e 
duplicata. 
 Assim, a fatura deverá discriminar a natureza dos serviços prestados; a soma a pagar 
em dinheiro corresponderá ao preço dos serviços prestados, sendo aplicado à fatura e a 
duplicata de prestação de serviços, com as adaptações cabíveis, as disposições relativas à 
fatura e duplicada de venda mercantil. 
 Nas operações envolvendo a emissão de duplicatas temos as seguintes partes: 
 
a) o sacador ou emitente que é o titular (empresário, sociedade empresária ou não) do crédito 
originado contra o adquirente de produtos ou contratante de serviços. 
 
b) o sacado que é a pessoa contra quem a ordem é emitida, seja um adquirente de produtos, 
seja um contratante de serviços quaisquer, consumidor ou não. 
 
 Observemos que a duplicata diferente dos demaistítulos examinados carece de uma 
causa de natureza prévia para sua emissão, qual seja, a venda de mercadoria ou a prestação de 
serviços, não existindo uma destas causas, sua emissão é proibida. Portanto, tem por 
finalidade primordial assegurar a eficaz satisfação do direito de crédito detido pelo emitente 
contra o devedor nestas operações. Havendo perda ou extravio da duplicata, poderá ser 
emitida uma triplicata, que na verdade representa a segunda via da duplicata. 
 Os requisitos essenciais para a emissão da duplicata estão relacionados no artigo da 
Lei de Duplicatas (2º, § 1º) São eles: 
 
a) a denominação "duplicata", a data de sua emissão e o número de ordem; 
b) o número da fatura; 
c) a data certa do vencimento ou a declaração de ser a duplicata à vista; 
d) o nome e domicílio do vendedor e do comprador; 
e) a importância a pagar, em algarismos e por extenso; 
f) a praça de pagamento; 
g) a cláusula à ordem; 
h) a declaração do reconhecimento de sua exatidão e da obrigação de pagá-la, a ser assinada 
pelo comprador, como aceite cambial; 
i) a assinatura do emitente. 
 
 A duplicata deve conter o aceite, haja vista ser ordem de pagamento emitida contra o 
devedor. Sobre este ato, determina o artigo 6º da Lei das Duplicatas que a remessa de 
duplicata poderá ser feita diretamente pelo vendedor ou por seus representantes, por 
intermédio de instituições financeiras, procuradores ou correspondentes que se incumbam de 
apresentá-la ao comprador na praça ou no lugar de seu estabelecimento, podendo os 
intermediários devolvê-la, depois de assinada, ou conservá-la em seu poder até o momento do 
resgate, segundo as instruções de quem lhes cometeu o encargo. 
 O prazo para remessa da duplicata será de 30 (trinta) dias, contado da data de sua 
emissão. Se a remessa for feita por intermédio de representantes, instituições financeiras, 
procuradores ou correspondentes, estes deverão apresentar o título ao comprador dentro de 10 
(dez) dias, contados da data de seu recebimento na praça de pagamento. 
 Ainda sobre a questão do aceite, a duplicata, quando não for à vista, deverá ser 
devolvida pelo comprador ao apresentante dentro do prazo de 10 (dez) dias, contados da data 
de sua apresentação, devidamente assinada ou acompanhada de declaração, por escrito, 
contendo as razões da falta do aceite. 
 Quanto ao protesto da duplicata, conforme o disposto nos artigos 13 e 14 da Lei de 
Duplicatas, deve ser efetuado na praça de seu pagamento, dentro do prazo de 30 (trinta) dias 
contados de ser vencimento, podendo o título ser protestado pelas seguintes razões: 
 
a) por falta de aceite. 
b) por falta de devolução. 
c) por falta de pagamento. 
 
 Caso o protesto não seja efetuado dentro desse prazo, o sacador ou credor perderá o 
direito de crédito contra os endossantes e seus respectivos avalistas. 
 Também na duplicata temos que observar os prazos prescricionais para propositura de 
ação executiva, cujo foro competente para a cobrança judicial da duplicata ou da triplicata é o 
da praça de pagamento constante do título, ou outra de domicílio do comprador e, no caso de 
ação regressiva, a dos sacadores, dos endossantes e respectivos avalistas. 
 Para a propositura da ação executiva judicial devem ser observados os seguintes 
prazos prescricionais: 
 
a) contra o sacado e respectivos avalistas, 03 (três) anos, contados da data do vencimento do 
título. 
 
b) contra o(s) endossante(s) e ser(s) avalista(s), 01 (um) ano, contado da data do protesto. 
 
c) de qualquer dos coobrigados contra os demais, 01 (um) ano, contado da data em que tenha 
sido efetuado o pagamento do título. 
 
 Observe-se que de acordo com os parágrafos do artigo 18 da Lei das Duplicatas, a 
cobrança judicial poderá ser proposta contra um ou contra todos os coobrigados, sem 
observância da ordem em que figurem no título. E mais, os coobrigados da duplicata 
respondem solidariamente pelo aceite e pelo pagamento. 
 
 
 
 
ADENDO: DUPLICATA VIRTUAL 
 
 Tendo em vista a evolução e a dinamicidade das transações comerciais, a duplicata 
desprendeu-se das regras disciplinadas em sua lei específica, assumindo uma dinâmica 
influenciada principalmente pelo desenvolvimento da eletrônica e da informática. Assim, 
tornou-se comum a emissão de duplicata virtual, que nada mais é do que uma modalidade 
de título cambiário que caracteriza-se pela emissão em meio magnético, isto é, sem sua 
materialização física, em papel. 
 A duplicata virtual, em razão de sua natureza, possui um procedimento de emissão 
diferente, que funciona da seguinte forma: uma vez finalizado o contrato, o agente 
econômico responsável pela emissão da duplicata transmite em meio magnético (pela 
internet) a uma instituição financeira os dados referentes ao negócio jurídico (partes, 
relação das mercadorias vendidas, preço etc.). A mesma instituição financeira, também 
pela internet e com base nos dados fornecidos, emite uma ficha de compensação (boleto 
bancário) para que o devedor pague a obrigação originada no contrato, o qual poderá fazê-
lo na rede bancária diretamente, ou até por meio da própria internet. Essa ficha de 
compensação não é a duplicata, mas um aviso bancário para tornar a obrigação portável, 
que se baseia na duplicata que existe apenas em meio magnético. 
 Não honrada a duplicata, o credor ou o próprio banco, encarregado da cobrança, 
pode encaminhar em meio magnético os dados ao cartório para que este efetue o protesto 
do título. Lavrado o protesto e subsistindo o inadimplemento, o interessado pode ajuizar 
ação de execução que será fundamentada no protesto realizado e no comprovante de 
entrega de mercadorias ou da prestação de serviços, sem que seja necessária a apresentação 
física da duplicata. 
 Em que pese as discussões acerca da força executiva da duplicata virtual, o STJ já 
se manifestou sobre a legitimidade dessa modalidade de título eletrônico, pacificando o 
entendimento de que é possível a sua execução (EREsp 1.024.691-PR, Rel. Min. Raul 
Araújo, julgado em 22/8/2012). Segundo decidiu o STJ, as duplicatas virtuais emitidas e 
recebidas por meio magnético ou de gravação eletrônica podem ser protestadas por mera 
indicação, de modo que a exibição do título não é imprescindível para o ajuizamento da 
execução, conforme previsto no art. 8º, parágrafo único, da Lei 9.492/1997.

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