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OAB
EXAME DE ORDEM
DIREITO
EMPRESARIAL
Capítulo 01
1
Olá, aluno!
Bem-vindo ao estudo para o Exame da ordem. Preparamos todo esse material para você não
só com muito carinho, mas também com muita métrica e especificidade, garantindo que você
terá em mãos um conteúdo direcionado e distribuído de forma inteligente.
Para isso, estamos constantemente analisando o histórico de provas anteriores com fins de
entender como cada Banca e cada Carreira costuma cobrar os assuntos do edital. Afinal,
queremos que sua atenção esteja focada nos assuntos que lhe trarão maior aproveitamento,
pois o tempo é escasso e o cronograma é extenso. Conte conosco para otimizar seu estudo
sempre!
Ademais, estamos constantemente perseguindo melhorias para trazer um conteúdo completo
que facilite a sua vida e potencialize seu aprendizado. Com isso em mente, a estrutura do PDF
Ad Verum foi feita em capítulos, de modo que você possa consultar especificamente os assuntos
que estiver estudando no dia ou na semana. Ao final de cada capítulo você tem a oportunidade
de revisar, praticar, identificar erros e aprofundar o assunto com a leitura de jurisprudência
selecionada.
E mesmo você gostando muito de tudo isso, acreditamos que o PDF sempre pode ser
aperfeiçoado! Portanto pedimos gentilmente que, caso tenha quaisquer sugestões ou
comentários, entre em contato conosco. Sua opinião vale ouro para a gente!
Racionalizar a preparação dos nossos alunos é mais que um objetivo para Ad Verum, trata-se
de uma obsessão. Sem mais delongas, partiremos agora para o estudo da disciplina.
Faça bom uso do seu PDF Ad Verum!
Bons estudos
O que você vai encontrar aqui?
Recorrência da disciplina e de cada assunto dentro dela
Questões comentadas
Questão desafio para aprendizagem proativa
2
Jurisprudência comentada
Indicação da legislação compilada para leitura
Quadro sinótico para revisão
Mapa mental para fixação
3
SOBRE ESTA DISCIPLINA
Daremos início ao estudo da disciplina de Direito Empresarial. Como bem sabido, a FGV
separa cinco questões para essa matéria na primeira fase da OAB, sendo o seu estudo primordial.
Dessa forma, este material busca fornecer ao aluno um conhecimento amplo e suficiente,
conforme os temas costumam ser cobrados, então, ao final dos capítulos, serão colacionadas
questões para treinamento, sempre priorizando aos concursos da área. Vale acrescentar, por
fim, que, como se constatará ao longo dos capítulos, os Examinadores do Exame de Ordem,
vem cobrando a disciplina de modo abrangente. Deste modo, em que pese alguns temas sejam
mais recorrentes, nenhum capítulo deste material deve ser negligenciado
Vamos juntos! Veja abaixo como se dá a distribuição macro da recorrência dessa
disciplina:
4
RECORRÊNCIA DA DISCIPLINA
Como dito, sabemos que estudar de forma direcionada, com base nos assuntos objetivamente
mais recorrentes, é essencial. Afinal, uma separação planejada pode fazer toda diferença.
Pensando nisso, através de estudo realizado pelo nosso setor de inteligência com base nas
últimas provas, trouxemos os temas mais abordados nessa disciplina!
Do Direito de Empresa
21%
Da Sociedade
7%
Da Recuperação
Judicial, Extrajudicial e
da Falência do
Empresário e da
Sociedade Empresária
36%
Dos Títulos de Crédito
21%
Dos Contratos
Empresariais
7%
Da Propriedade
Industrial
7%
DIREITO EMPRESARIAL
Do Direito de Empresa
Da Sociedade
Da Recuperação Judicial, Extrajudicial e da Falência do Empresário e da Sociedade Empresária
Dos Títulos de Crédito
Dos Contratos Empresariais
5
TEMAS RECORRÊNCIA
Da recuperação judicial, Extrajudicial e da Falência
Do direito de Empresa
Dos títulos de Crédito
Da Sociedade
Dos contratos empresariais
6
Assim, os assuntos de Direito Empresarial estão distribuídos da seguinte forma:
CAPÍTULOS
Capítulo 1 (você está aqui!) – Teoria Geral do Direito Empresarial
Capítulo 2 – Regime Jurídico da Atividade Empresarial
Capítulo 3 – Direito Societário
Capítulo 4 – Crise da Atividade Empresarial
Capítulo 5 – Títulos de Crédito
Capítulo 6 – Contratos Empresariais
Capítulo 7 – Propriedade Industrial
7
SOBRE ESTE CAPÍTULO
A apostila de número 01 do nosso curso de Direito Empresarial tratará sobre Teoria do
Direito Empresarial, matéria que é extremamente cobrada no Exame de Ordem ao decorrer
desses anos! De acordo com a nossa equipe de inteligência, esse assunto esteve presente 9
VEZES nos últimos 3 anos, sendo considerado um assunto de altíssima relevância.
Assim, é imprescindível que você dedique um tempo para estudar este conteúdo com
calma e responda as questões que tratam sobre o referido tema, ok?
Aqui, a banca costuma seguir o seu padrão: Apresentar um caso hipotético, pelo qual a
resposta é respaldada na legislação vigente. Por isso, recomendamos a leitura atenta da letra
seca da lei e entendimentos jurisprudenciais, e sempre em companhia de alguma doutrina à sua
escolha.
Lembre-se: A resolução de questões é a chave para a aprovação!
8
SUMÁRIO
DIREITO EMPRESARIAL ......................................................................................................................... 10
Capítulo 1 ................................................................................................................................................ 10
1. Teoria Geral Do Direito Empresarial ........................................................................................... 10
1.1 Evolução Histórica do Direito Empresarial .............................................................................................. 10
1.2 Conceito de empresa ....................................................................................................................................... 12
1.2.1 Empresa como atividade ................................................................................................................................ 14
1.2.2 Economicidade .................................................................................................................................................... 14
1.2.3 Organização .......................................................................................................................................................... 15
1.2.4 Profissionalismo .................................................................................................................................................. 17
1.2.5 Objetivo Específico ............................................................................................................................................ 17
1.3 Fixação de Regime Jurídico ........................................................................................................................... 18
1.4 O Empresário ....................................................................................................................................................... 19
1.4.1 Conceito e Espécies .......................................................................................................................................... 19
1.4.2 Caracterização...................................................................................................................................................... 21
1.4.3 Empresário Rural ................................................................................................................................................ 25
1.4.4 Empresário Casado ............................................................................................................................................ 26
1.5 Dos requisitos de regularidade ....................................................................................................................28
1.5.1 Da Inscrição .......................................................................................................................................................... 28
1.5.2 Da capacidade ..................................................................................................................................................... 29
1.5.3 Ausência de impedimento legal .................................................................................................................. 31
1.6 Da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (EIRELI) ..................................................... 33
1.7 Microempreendedor Individual, Microempresa e Empresa de Pequeno Porte ...................... 35
1.8 Estabelecimento empresarial ........................................................................................................................ 35
9
1.8.1 Trespasse ............................................................................................................................................................... 39
1.8.2 Eficácia do trespasse ......................................................................................................................................... 40
1.8.3 Responsabilidade do adquirente e do alienante ................................................................................. 42
1.8.4 Sub-rogação nos contratos de exploração............................................................................................. 45
1.8.5 Aviamento ............................................................................................................................................................. 47
1.8.6 Ponto comercial .................................................................................................................................................. 48
1.8.7 Ação Renovatória ............................................................................................................................................... 48
QUADRO SINÓTICO .............................................................................................................................. 52
QUESTÕES COMENTADAS ................................................................................................................... 53
GABARITO ............................................................................................................................................... 67
QUESTÃO DESAFIO ................................................................................................................................ 68
GABARITO QUESTÃO DESAFIO ........................................................................................................... 69
LEGISLAÇÃO COMPILADA .................................................................................................................... 71
JURISPRUDÊNCIA ................................................................................................................................... 73
MAPA MENTAL ...................................................................................................................................... 79
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................................................... 84
10
DIREITO EMPRESARIAL
Capítulo 1
1. Teoria Geral Do Direito Empresarial
1.1 Evolução Histórica do Direito Empresarial
Há um campo específico da Ciência Jurídica estruturado com base na concepção atual de
“empresa”. Essa noção, por sua vez, surgiu a partir da evolução dos critérios utilizados para
definição do objeto do Direito Empresarial.
O desenvolvimento histórico desse ramo jurídico é tão relevante que até mesmo a sua
denominação acompanhou o progresso de seus institutos. Tanto assim que superou a
designação Direito Comercial, antes utilizada para indicar o conjunto de normas, princípios e
práticas aplicáveis às relações entre aqueles que desempenhavam certa atividade econômica: o
comércio.
Pois bem, em um determinado período histórico inexistiu, sequer, nomenclatura para
designar o conjunto de práticas mercantis utilizadas pelos “cônsules” da Idade Média para a
solução de litígios. Dessa constatação, extraem-se dois aspectos elementares da primeira fase
evolutiva do Direito Empresarial: a consuetudinariedade de suas normas e a atuação do “Juízo
Consular”.
Daí se depreendem as seguintes características desse momento evolutivo inicial do Direito
de Empresa: a) costumeiro, em que os usos e costumes geralmente observados pelos
mercadores constituíam a sua principal fonte; b) internacional, uma vez que os usos e costumes
mercantis eram aplicados geralmente em toda a Europa, nas grandes feiras; e c) corporativo,
pois suas normas eram aplicadas pelo tribunal das corporações (juízo consular) no julgamento
11
das controvérsias existentes entre os seus próprios membros. O Direito Comercial é, nesse
momento, um direito de classe.
Percebe-se, assim, que um conjunto de usos e costumes foi esboçado em benefício, tão
somente, da figura do comerciante. Por esta razão, essa incipiente fase foi considerada como
subjetivista.
O cônsul era um comerciante ou um mestre artesão (dono de uma corporação de ofício)
que, em razão de sua maior experiência, dominava melhor os costumes mercantis. Por isso, era
ele quem decidia os dissídios entre mercadores, aplicando tais práticas, tendo-se em vista a
inexistência de normas codificadas.
Em um segundo momento, logo após a Revolução Francesa, buscou-se a sistematização
das normas consuetudinárias em um único diploma legal. O marco histórico dessa segunda
fase do Direito Empresarial foi a edição do Código Comercial Francês de 1807, geralmente,
associado à figura Napoleão Bonaparte.
Nessa etapa, passou a ser considerado como objeto do Direito Comercial todo e qualquer
ato enumerado, taxativamente, como mercancia. Daí falar-se na Teoria dos Atos de Comércio.
Por não se centralizar mais sobre a figura do comerciante, tal teoria imprimiu uma feição
objetivista a essa fase.
Sendo assim, pode-se dizer que essa segunda fase foi marcada pelas seguintes
características: a) clara separação entre Direito Comercial e Direito Civil como ramos
autônomos e independentes; b) especificidade do direito comercial, sendo que o próprio ato
do comércio caracterizava a profissão dos comerciantes; c) caracterização do Direito Comercial
pelo objeto (comércio) e não pelo sujeito (comerciante); d) monopólio da jurisdição pelo
Estado devido à perda da força das corporações de ofício.
Todavia, também o método de delimitação da matéria comercial proposto pela Teoria
dos Atos de Comércio se mostrou insuficiente, vez que não alcançava outros setores da
economia, tais como a indústria e a prestação de serviços.
12
Diante disso, surgiu, na Itália, nova proposta para estabelecer o alcance do ramo do
direito privado ora examinado, a qual foi marcada como terceira fase evolutiva do Direito
Empresarial. A Teoria da Empresa, recepcionada pelo Código Civil Italiano de 1942 e com
grande aceitação por diversos ordenamentos jurídicos, trouxe parâmetros bem mais sofisticados.
Conforme mencionado acima, os novos critérios provocaram, inclusive, a mudança da
terminologia utilizada para designar o setor do saber jurídico ao qual se aplicavam. Sendo assim,
de Direito Comercial passou-se à denominação Direito Empresarial.
André Luiz Ramos Santa-Cruz, inspirado nas lições de Waldirio Bulgarelli, assim compara
as duas teorias:
Para a teoria da empresa, o direito comercial não se limita a regular apenas as relações
jurídicas em que ocorra a prática de um determinado ato definido em lei como ato de
comércio (mercancia). A teoria da empresa faz com que o direito comercial não se ocupe
apenas com alguns atos, mas com uma forma específica deexercer uma atividade
econômica: a forma empresarial.1
O foco passou, então, para o exercício de atividade econômica, sob a modalidade de
empresa. Isso se dá sempre que é organizada de acordo com os parâmetros eleitos pela lei
como identificadores da atividade empresarial. Daí porque essa fase foi considerada subjetivista
moderna.
1.2 Conceito de empresa
Como vimos, a fase da teoria da empresa, também conhecida como sistema italiano,
teve como ápice o Códice Civile (Código Civil Italiano) de 1942, que pretendeu unificar o direito
privado da Itália. As três fases históricas descritas no tópico anterior espelharam-se no Brasil, o
que pode ser constatado no fluxograma abaixo, o qual demonstra a evolução dessas teorias
conforme seus respectivos marcos legais no direito pátrio.
1 RAMOS, André Luiz Santa Cruz. Direito Empresarial Esquematizado. São Paulo: Método, Rio de Janeiro: Forense,
2019, p. 37 e 38.
13
A teoria da empresa acarretou uma ampliação da abrangência do Direito Comercial (agora
Direito Empresarial). Tratando-se do sistema utilizado pelo Código Civil de 2002, com esta teoria,
surgem as ideias de empresa e de empresário. Contam com a proteção das normas de direito
empresarial aqueles que praticarem empresa (atividade econômica, exercida profissionalmente
e organizada para a produção ou circulação de bens ou de serviços).
O art. 966 do Código Civil definiu o empresário a partir do conceito de empresa,
considerando-a como atividade dotada das seguintes características: economicidade,
profissionalismo, organização e finalidade de produção ou circulação de bens ou serviços. É
importante mencionar que, embora o dispositivo não tenha contemplado a especulação, essa
também pode ser considerada uma atividade de natureza empresarial, muito embora, muitas
vezes, não repercuta na produção ou circulação de qualquer bem ou serviço.
O quadro abaixo representa os aspectos essenciais para que uma atividade seja
caracterizada como empresária:
Fase Subjetivista
Comerciante
Fase Objetivista
Atos de Comércio
(mercancia)
Fase Subjetivista
(Moderna)
Empresário
Regulamento
737 de 1850
“Considera-se
Mercancia”...
Tribunais de Comércio Código Comercial de 1850 Código Civil de 2002
14
Conforme a mesma norma, a priori, estão excluídas da noção de empresa as atividades
intelectuais de natureza artística, científica ou literária. Mas, por ora, não convém adentrar as
nuances do parágrafo único daquela norma (art. 966. CC), posto que serão melhor abordadas
posteriormente.
1.2.1 Empresa como atividade
A natureza jurídica da empresa é de atividade, porquanto consiste em um conjunto
coordenado de atos voltados à obtenção de um resultado comum. Logo, empresa não é sujeito
nem objeto de direitos. Logo, do ponto de vista jurídico, há uma impropriedade terminológica
existente em expressões como “tenho uma empresa” ou vou na empresa.
1.2.2 Economicidade
Econômica é aquela atividade que tem como fim precípuo a distribuição de lucros ou a
geração de valor. No caso do empresário individual, o lucro se destina a acrescer o próprio
Empresa = Atividade
Econômica
Organizada
Profissional
Industrial, Comercial ou de
Prestação de Serviços
15
patrimônio. Nas sociedades empresárias, o fim da atividade é a distribuição de lucros aos sócios.
Contudo, a ausência da finalidade lucrativa não descaracteriza uma atividade como empresária
caso ela se destine à circulação de riqueza ou à prestação de serviço remunerado. É o caso, por
exemplo, de uma sociedade empresária criada para objetivos filantrópicos, mas que, para
alcança-los, precisa angariar recursos comercializando bens ou cobrando por serviços prestados.
Nas palavras de André Luiz Ramos Santa Cruz
Ao destacarmos a expressão atividade econômica, por sua vez, queremos enfatizar que
empresa é uma atividade exercida com intuito lucrativo. Afinal, conforme veremos, é
característica intrínseca das relações empresariais a onerosidade. Mas não é só à ideia de
lucro que a expressão atividade econômica remete. Ela indica também que o empresário,
sobretudo em função do intuito lucrativo de sua atividade, é aquele que assume os seus
riscos técnicos e econômicos.
Entenda-se a ideia de lucro aqui como utilidade. É lucrativa a atividade que produz uma
utilidade, e não somente aquela que se traduz em dinheiro. De qualquer forma, o critério
de economicidade é essencial. A atividade deve produzir o suficiente para, pelo menos,
remunerar os fatores da produção e, dentre eles, o capital investido, de molde a assegurar,
por si mesma, a sua sobrevivência.2
1.2.3 Organização
Vimos que, sob a égide do atual Código Civil Brasileiro, a empresa é tida como atividade,
cuja marca essencial é a obtenção de lucros com o oferecimento ao mercado de bens ou
serviços, gerados mediante a organização dos fatores de produção (força de trabalho/mão
de obra, matéria-prima, capital e tecnologia).3
Asquini dividia a expressão empresa em quatro perfis. Em um perfil subjetivo, empresa
seria sinônimo de empresário. Em um perfil funcional, empresa seria a atividade (utilizado
2 RAMOS, André Luiz Santa Cruz. Direito Empresarial Esquematizado. São Paulo: Método, Rio de Janeiro:
Forense, 2018, p. 37 e 38.
3 MELLO FRANCO, Vera Helena. Manual de direito comercial. 2. ed. São Paulo: RT, 2004. p. 51. v. 1. Resume bem
a professora da USP: “a ideia de organização, assim, deve ser entendida em sentido amplo, de molde a considerar
‘organizada’ toda atividade realizada de modo profissional, isto é, que não seja extemporânea ou improvisada,
destinada à colocação de bens ou serviços no mercado”.
16
pela teoria da empresa). Em um perfil objetivo, empresa seria sinônimo de patrimônio aziendal
ou estabelecimento. Por fim, em um perfil corporativo, empresa é instituição, na medida em
que reúne pessoas com propósitos comuns (empresário e empregados). 4
Saliente-se que, conforme entendimento majoritário, o Código Civil de 2002 não
unificou o direito privado, mas apenas o direito dos contratos e das obrigações. O Direito
Empresarial permanece autônomo, apesar de o Código Comercial ter sido derrogado pelo
referido diploma (revogado parcialmente, já que a parte sobre comércio marítimo permanece
vigente).
A atividade dos empresários pode ser vista como a de articular (organizar) os fatores de
produção, que, no sistema capitalista, são quatro: capital, mão-de-obra, insumo e tecnologia.
Estruturar a produção ou circulação de bens ou serviços significa reunir os recursos financeiros
(capital), humanos (mão-de-obra), materiais (insumo) e tecnológicos que viabilizem oferece-
los ao mercado consumidor com preços e qualidade competitivos.
Organização é a reunião desses quatro fatores de produção, assim descritos por Fábio
Ulhoa Coelho:
Mão-de-obra: é um fato de produção que envolve o auxílio de prepostos do
empresário para a consecução de sua atividade, devendo, necessariamente, ser
um trabalho alheio, seja por contrato de trabalho, seja por prestação de serviço
etc. Ex.: Uma pessoa faz, embrulha e vende trufas com habitualidade e finalidade
lucrativa, mas se não possuir mão de obra contratada não poderá ser
considerada empresária, e sim apenas sociedade simples.
Insumos (matéria-prima): correspondem aos bens articulados pela empresa;
Capital: é o montante em dinheiro necessário ao desenvolvimento da atividade;
Tecnologia: faz compor a ideia de que o empresário detém as informações
necessárias ao desenvolvimento da atividade a que se propôs explorar.
Segundo o supracitado autor, a ausência de qualquer um dos quatro fatores
descaracteriza a organização e, consequentemente, a pessoa jurídica como sociedade4 ASQUINI, Alberto. Perfis da Empresa. Tradução de Fábio Konder Comparato. Revista de Direito Mercantil,
Industrial, Econômico e Financeiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, v. 35, n. 104, p.109-126, out./dez. 1996.
17
empresária ou Empresa Individual de Responsabilidade limitada e a pessoa física como
empresário individual5.
André Luiz Ramos é contrário a esse posicionamento, tendo em vista que a
automatização permite a inobservância do requisito da “mão de obra contratada”, sem
descaracterizar, em sua essência, a figura do empresário6. Para ele, estará caracterizada a
organização se a atividade fim tiver de ser exercida com a colaboração de terceiros ou
mediante recursos de terceiros (pessoas ou bens). Assim, uma lavanderia totalmente
computadorizada poderia ser considerada uma atividade empresarial. Pode-se citar também o
caso dos empresários virtuais, que, muitas vezes, atuam completamente sozinhos, resumindo-
se sua atividade à intermediação de produtos ou serviços por meio da internet.
1.2.4 Profissionalismo
O caráter profissional da atividade remete à ideia de exercício com qualificação técnica
e aprimoramento, muito embora, em vários casos, não seja necessária uma formação
específica para desempenho da empresa. Evidente, pois, que, desse somatório de elementos
organizados para exercício da atividade empresária exsurge a ideia de habitualidade na prática
desta função, podendo-se afirmar que somente a atividade praticada com certa constância
pode ser reconhecida como de natureza profissional (REsp 1.539.154 de 25/11/2015).
Se o exercício da atividade econômica se dá de forma esporádica, por exemplo, seu
promovente não será considerado empresário, não sendo abrangido, portanto, pelo regime
jurídico empresarial. Em síntese, “importa que a atividade corresponda a um constante repetir-
se, não podendo tratar-se da realização de um negócio ocasional de compra e venda ou de
mediação”.
1.2.5 Objetivo Específico
Por fim, a produção ou circulação de bens ou serviços demonstra a abrangência da
teoria da empresa, em contraposição à antiga teoria dos atos de comércio, a qual, como visto,
5 COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de direito comercial. 18. ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 13-14.
6 123.
18
restringia o âmbito de incidência do regime jurídico comercial a determinadas atividades
econômicas elencadas na lei. Para a teoria da empresa, em contrapartida, qualquer atividade
econômica poderá, em princípio, submeter-se ao regime jurídico empresarial, bastando que
seja exercida profissionalmente, de forma organizada e com intuito lucrativo. Sendo assim, a
expressão produção ou circulação de bens ou de serviços deixa claro que nenhuma atividade
econômica está excluída, em princípio, do âmbito de incidência do direito empresarial.
Além de denotar a abrangência da teoria da empresa, a expressão em análise também
nos permite concluir que só restará caracterizada a empresa quando a produção ou circulação
de bens ou serviços destinar-se ao mercado, e não ao consumo próprio.
1.3 Fixação de Regime Jurídico
É imperioso enfatizar quais são os desdobramentos da caracterização da atividade de
um sujeito de direitos como empresária, pois dela decorre sua submissão ao conjunto de regras
e princípios do Direito de Empresa (regime jurídico empresarial). Logo, diretrizes e preceitos
civilistas incompatíveis com o regramento empresarialista cederão espaço àquelas que
disciplinam a matéria com maior especificidade.
Sob essa perspectiva, cabe apontar os seguintes efeitos práticos, já os comparando com
as atividades não empresariais, as quais se submetem ao regime jurídico civil:
REGIME CARACTERÍSTICAS PRÓRIA
Civil
Subordinação dos atos ao registro civil
Sujeição ao procedimento de insolvência civil
Impossibilidade de se valer da recuperação (extra) judicial;
Ilegitimidade para ação renovatória da locação empresarial;
Empresarial Subordinação dos atos ao registro empresarial
Sujeição ao procedimento de execução concursal (falência);
19
Possibilidade de se valer da recuperação (extra) judicial;
Legitimidade para ação renovatória da locação empresarial;
Percebe-se, assim, que a noção de empresa é o principal alicerce de todo o conteúdo
didático da disciplina de Direito Empresarial, pois permite a apreensão de seus institutos jurídicos
peculiares, notadamente, as figuras do empresário e do estabelecimento empresarial. Em razão
disso, é recorrentemente cobrada nas provas de concurso, conforme se pode verificar na parte
de exercícios deste material.
1.4 O Empresário
1.4.1 Conceito e Espécies
O Código Civil de 2002, em seu art. 966, caput, nos traz o conceito de empresário como
sendo aquele que exerce, profissionalmente, atividade econômica organizada para a produção
ou a circulação de bens ou de serviços. A essa atividade exercida se dá o nome de “empresa
”.
Esse conceito legal será mais bem detalhado a seguir. Por enquanto, é importante
mencionar que a expressão “empresário” pode ser concebida em sentido amplo para abarcar
o empresário pessoa física (empresário individual) e o empresário pessoa jurídica (sociedade
empresária ou empresa individual de responsabilidade limitada - EIRELI). Em sentido estrito,
empresário é a pessoa física que exerce empresa, ou seja, o empresário individual.
Empresário (em sentido amplo)7
7 Questão 8
20
Empresário Individual
(ou empresário em sentido
estrito)
Empresa Individual de
Responsabilidade
Limitada
(EIRELI)
Sociedade Empresária
Pessoa Física que exerce
atividade econômica organizada,
conforme o art. 966 do CC.
Pessoa Jurídica
UNIPESSOAL exercente
de atividade econômica
organizada de acordo
com o art. 966 do CC.
Pessoa Jurídica, formada, em
regra, por PLURALIDADE de
membros (sócios), cujo
objeto social se destina ao
exercício de atividade
empresária (art. 966 do CC)
* Exceção: sociedade limitada
com sócio único
Mesmo sendo pessoa física, terá
CNPJ.
Pode ser simples ou
empresária.
Atualmente, a sociedade
limitada poderá ser
unipessoal
Saliente-se que a própria sociedade é quem é empresária, e não os seus sócios. Isso
porque é ela que organiza, sob sua titularidade, ou seja, em seu nome a atividade de produção
ou circulação de bens ou serviços. Assim, sócio de sociedade empresária não é considerado
empresário, mas sim um empreendedor, quando, além de ter aportado capital, também
colabora com seus serviços na organização da atividade (ex. sócio diretor) ou mero investidor,
caso não participe da condução dos negócios.
Em se tratando do empresário individual, trata-se de pessoa natural que exerce empresa,
tendo responsabilidade direta e ilimitada (todo o seu patrimônio responde por todas as
obrigações, tenha ou não relação com o exercício da atividade). A doutrina entende que o
empresário individual deve responder primeiro com os bens afetados à exploração da empresa
e, apenas subsidiariamente, com os bens não afetados. Nesse sentido:
Enunciado 5 da I Jornada de Direito Comercial: Quanto às obrigações decorrentes de
sua atividade, o empresário individual tipificado no art. 966 do Código Civil responderá
primeiramente com os bens vinculados à exploração de sua atividade econômica, nos
termos do art. 1.024 do Código Civil.
21
Consigne-se que o fato de ser pessoa natural não impede que o empresário individual
seja inserido no Cadastro Nacional das Pessoas Jurídicas - CNPJ para fins tributários. Assim, por
mais estranho que pareça, um empresário individual terá um número de CNPJ para poder
identificar os negócios praticados que se relacionam ao exercício da atividade empresária.
1.4.2 Caracterização
Conforme mencionado anteriormente, o Código CivilBrasileiro de 2002 recepcionou a
Teoria da Empresa e, por isso, adotou o conceito jurídico indeterminado de empresário em
seu artigo 966.
No entanto, a precisa interpretação desse dispositivo legal requer análise em diferentes
etapas, técnica hermenêutica denominada de “Exegese Quadripartite”8.
Essa técnica hermenêutica se concentra nos seguintes pontos relevantes, sintetizado pelo
fluxograma abaixo em quatro estágios interpretativos:
8 PARENTONI, Leonardo Netto et alii. Análise quadripartite do artigo 966 do Código Civil de 2002. Jornal da
Faculdade de Direito da UFMG (O Sino do Samuel). Belo Horizonte, Ano X, n. 78, p. 3, out. 2004.
22
Uma vez visualizadas tais etapas, cabe detalhá-las da seguinte forma:
1ª parte:
O caput dispõe que, em regra, as atividades industriais, comerciais e de prestação de
serviços são empresariais. A contrario sensu, valendo-se da ideia de exclusão, não estando
presentes os elementos da atividade empresária (atividade econômica, exercida de forma
profissional e organizada e direcionada à produção ou à circulação de bens ou serviços), a
atividade exercida será civil.
2ª parte:
São exceções aquelas decorrentes de “profissão intelectual, de natureza científica, literária
ou artística”, previstas no parágrafo único, ainda que com o concurso de auxiliares.
3ª parte:
A parte final do parágrafo único considera empresariais atividades que, embora
decorrentes de profissão intelectual, contenham elemento de empresa, situação que se configura
quando a atividade intelectiva for absorvida pela organização dos fatores de produção, sendo
Art. 966,
caput
• Regra (caput):
• Atividade empresarial (indústria, comércio, serviços)
Art. 966,
p.u., 1a
• Exceção (p. u., 1ª parte):
• Atividade intelectual científica, artística e literária
Art. 966,
p.u., 2a
• Limites da exceção ou “exceção da exceção! (p.u., parte final):
• "Elemento de Empresa”
Situações
Especiais
• Tratamento legal diferenciado (outros dispositivos legais)
• Ex. (art. 1.089, CC/02): cooperativas (sempre civis) e S/As (sempre empresárias)
23
apenas mais um dos elementos da empresa, ou seja, constitui apenas uma das etapas do
processo de produção ou circulação de mercadorias ou serviços.
Sendo assim, apenas o exercício das atividades exclusivamente intelectuais está excluído
do conceito previsto no caput do art. 966. Isso porque a presença do “elemento de empresa”
redireciona a esse preceito a caracterização da atividade, determinando-a como empresária.
Em outras palavras, “elemento de empresa” é conceito legal indeterminado que, uma vez
verificado, remete a atividade intelectual à regra do caput, categorizando-a como atividade
empresária.
Ei OABeiro, é importante dar uma lida no texto dos enunciados 193, 194 e 195 das
Jornadas de Direito Civil do CJF, que, respectivamente estabelecem: “o exercício das atividades
de natureza exclusivamente intelectual está excluído do conceito de empresa”; “os profissionais
liberais não são considerados empresários, salvo se a organização dos fatores de produção for
mais importante que a atividade pessoal desenvolvida”; e “a expressão ‘elemento de empresa’
demanda interpretação econômica, devendo ser analisada sob a égide da absorção da atividade
intelectual, de natureza científica, literária ou artística, como um dos fatores da organização
empresarial”.
4ª parte:
Por disposição legal específica, algumas atividades, ainda que insertas nas hipóteses do
caput ou do parágrafo único, devem sujeitar-se a regime jurídico especial.
São exemplos:
a) cooperativa (art. 4º e 18, § 6º, da Lei nº 5.764/1971);
b) sociedade anônima (art. 1.089, CC/02).
O primeira jamais poderá praticar atividades empresariais por expressa disposição da
24
legislação especial enquanto a segunda sempre praticará atividades empresarias, qualquer que
seja seu objeto social. Apesar de registradas na Junta Comercial (art. 18 da Lei nº 5.764/71), as
Cooperativas são sempre sociedades simples, exercendo atividade civil por força de lei (art. 982
do CC/02).
Sendo assim, não importa se uma cooperativa de produtores rurais pratica a mesma
atividade que uma indústria dedicada ao agronegócio, porque ela sempre será considerada não
empresária. Por outro lado, uma sociedade anônima sempre será considerada empresária, ainda
que tenha como fim social atividade relacionada com a prática de atos filantrópicos.
Infere-se, então, que a natureza intelectual, seja ela artística, científica ou literária,
geralmente, impede o enquadramento como empresário daquele que a pratica. No entanto,
Fábio Ulhoa Coelho invoca exceção que confirma a regra:
Há uma exceção, prevista no mesmo dispositivo legal, em que o profissional intelectual se
enquadra no conceito de empresário. Trata-se da hipótese em que o exercício da profissão
constitui elemento de empresa. Para compreender o conceito legal, convém partir de um
exemplo. Imagine o médico pediatra recém-formado, atendendo seus primeiros clientes
no consultório. Já contrata pelo menos uma secretária, mas se encontra na condição geral
dos profissionais intelectuais: não é empresário, mesmo que conte com o auxílio de
colaboradores. Nesta fase, os pais buscam seus serviços em razão, basicamente, de sua
competência como médico. Imagine, porém, que, passando o tempo, este profissional
amplie seu consultório, contratando, além de mais pessoal de apoio (secretária, atendente,
copeira etc.), também enfermeiros e outros médicos. Não chama mais o local de
atendimento de consultório, mas de clínica. Nesta fase de transição, os clientes ainda
procuram aqueles serviços de medicina pediátrica, em razão da confiança que depositam
no trabalho daquele médico, titular da clínica. Mas a clientela se amplia e já há, entre os
pacientes, quem nunca foi atendido diretamente pelo titular, nem o conhece. Numa fase
seguinte, cresce mais ainda aquela unidade de serviços. Não se chama mais clínica, e sim
hospital pediátrico. Entre os muitos funcionários, além dos médicos, enfermeiros e
atendentes, há contador, advogado, nutricionista, administrador hospitalar, seguranças,
motoristas e outros. Ninguém mais procura os serviços ali oferecidos em razão do trabalho
pessoal do médico que os organiza. Sua individualidade se perdeu na organização
empresarial. Neste momento, aquele profissional intelectual tornou-se elemento de
empresa. Mesmo que continue clinicando, sua maior contribuição para a prestação dos
25
serviços naquele hospital pediátrico é a de organizador dos fatores de produção. Foge,
então, da condição geral dos profissionais intelectuais e deve ser considerado,
juridicamente, empresário.9
Outro exemplo seria o do cartunista Maurício Ricardo, que, até pouco tempo produzia
charges eletrônicas para a Rede Globo de Televisão. No início de sua carreira, as produzia de
modo basicamente “artesanal”, e, mesmo tendo colaboradores, não poderia ser considerado
empresário, pois, em sua organização profissional, preponderava o caráter artístico de sua
atividade intelectual. Contudo, ao contratar diversos colaboradores e produzir conteúdos para
diversos clientes (ex. sítio eletrônico da UOL, programa Big Brother da Globo), teve o caráter
artístico de seu trabalho “dissolvido” em meio a diversos outros componentes da atividade
empresarial. Daí porque, nessa última situação, a produção de charges tornou-se tão somente
um dos elementos de atividade empresária de muito maior vulto.
Um último exemplo seria o de uma sociedade que presta serviços publicitários, que
consistem na consultoria e elaboração de estratégias de marketing, estudos de mercado, criação
de logotipos e slogans, não é empresária, porque esses serviços são de natureza exclusivamente
intelectual. Por outro lado, caso a mesma sociedade, alémde prestar os serviços mencionados,
comercialize cartazes, folders, materiais publicitários e espaços em outdoors, será empresária,
por associar elementos de empresa a seus serviços de natureza intelectual.
Além de denotar a abrangência da teoria da empresa, a expressão em análise também
nos permite concluir que só restará caracterizada a empresa quando a produção ou circulação
de bens ou serviços destinar-se ao mercado, e não ao consumo próprio.
1.4.3 Empresário Rural
O empresário rural tem a faculdade de se registrar ou não perante o Registro Público
de Empresas Mercantis. Se não for registrado, não é considerado empresário, exercendo
atividade civil. Se optar pelo registro na Junta Comercial, equiparar-se-á a empresário para todos
9 COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de direito comercial : direito de empresa.23. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. pp.
36-40.
26
os fins (art. 971 do CC/02). Este registro terá natureza jurídica constitutiva, sendo exceção à
regra de que o registro do empresário na Junta Comercial tem natureza meramente declaratória
(uma vez que, via de regra, considera-se empresário em razão da atividade exercida, e não em
decorrência de registro). O empresário rural só pode pedir recuperação e falir se for registrado,
já que são institutos restritos aos exercentes de empresa.
1.4.4 Empresário Casado
Duas situações que envolvem o casamento assumem grande relevância para o Direito
Empresarial, são elas:
1. A da possibilidade de cônjuges contratarem sociedade entre si ou com
terceiros; e
2. A do empresário casado e os reflexos na outorga conjugal para
determinados atos.
O art. 977 do CC/02 faculta aos cônjuges contratarem sociedade entre si ou com terceiros,
desde que não estejam casados sob o regime de comunhão universal de bens ou no de
separação obrigatória. Essa regra é relevante para o estudo de sociedades empresárias.
Estabelece ser possível que marido e mulher figurem como sócios na mesma sociedade, desde
que não sejam casados na comunhão universal ou separação obrigatória de bens. Há dispensa
de outorga conjugal para alienar ou gravar de ônus reais os imóveis da empresa.
No que tange ao instituto do empresário individual, importante analisar o art. 978 do
CC/02, que estabelece que “o empresário casado pode, sem necessidade de outorga conjugal,
qualquer que seja o regime de bens, alienar os imóveis que integrem o patrimônio da empresa
ou gravá-los de ônus real”. Essa regra abrange tão somente o empresário individual, já que, em
se tratando de sociedade empresária, a titular da empresa é a própria sociedade.
No entanto, por indicar condição não prevista na lei, causa certa polêmica o seguinte
enunciado da II Jornada de Direito Comercial da CJF:
27
Enunciado 58 da I Jornada de Direito Comercial: O empresário individual casado é o
destinatário da norma do art. 978 do CCB e não depende da outorga conjugal para alienar
ou gravar de ônus real o imóvel utilizado no exercício da empresa, desde que exista
prévia averbação de autorização conjugal à conferência do imóvel ao patrimônio
empresarial no cartório de registro de imóveis, com a consequente averbação do ato à
margem de sua inscrição no registro público de empresas mercantis.
A corrente majoritária entende que o art. 978 é especial em relação ao art. 1.647, I, do
CC/02, podendo o empresário individual casado, sem necessidade de outorga conjugal, em
qualquer que seja o regime de bens, alienar os imóveis que integrem o patrimônio da empresa
ou gravá-los de ônus real. Uma segunda corrente entende que deveria ser feita uma averbação
no Cartório de Registro de Imóveis e na Junta Comercial afetando o bem ao exercício da
atividade, autorizando a sua alienação ou que seja posto ônus real.
Importante consignar que os pactos e declarações antenupciais do empresário serão arquivados
e averbados no Registro Civil e no Registro Público de Empresas Mercantis (art. 979 do CC/02)10
e que eventual decretação ou homologação da separação judicial do empresário ou
reconciliação não poderá ser oposta a terceiro antes de arquivado e averbado no Registro
Público de Empresas Mercantis (art. 980 do CC/02).
Vejamos como esse assunto foi cobrado:
(XXII EXAME DE ORDEM – FGV - 2017) Fagundes e Pilar são noivos e pretendem se casar
adotando o regime de separação de bens mediante celebração de pacto antenupcial. Fagundes
é empresário individual e titular do estabelecimento Borracharia Dona Inês Ltda. ME. Celebrado
o pacto antenupcial entre os nubentes, o advogado contratado por Fagundes providenciará o
arquivamento e a averbação do documento
10 Vide questão 07
28
A) no Registro Público de Empresas Mercantis e a publicação na imprensa oficial.
B) no Registro Público de Empresas Mercantis e no Registro Civil de Pessoas Naturais.
C) no Registro Civil de Pessoas Naturais e a publicação na imprensa oficial.
D) no Registro Público de Empresas Mercantis e no Registro Civil de Títulos e Documentos.
Observação: A questão acima citada e seu respectivo comentário encontram-se na bateria
de questões ao final dessa apostila, ok? 😊
1.5 Dos requisitos de regularidade
1.5.1 Da Inscrição
A inscrição do empresário antes do início de sua atividade é obrigatória (art. 967 do
CC/02). Para a maioria da doutrina, conforme será melhor especificado em sede de análise dos
Registro Públicos, esse ato tem natureza declaratória. O registro das sociedades empresárias,
por sua vez, assumirá natureza constitutiva
A inscrição deve ser feita mediante requerimento que contenha: o seu nome,
nacionalidade, domicílio, estado civil e, se casado, o regime de bens; a firma, com a respectiva
assinatura autógrafa que poderá ser substituída pela assinatura autenticada com certificação
digital ou meio equivalente que comprove a sua autenticidade; o capital; o objeto e a sede da
empresa, conforme art. 968 do CC/02.
A inscrição será tomada por termo no livro próprio do Registro Público de Empresas
Mercantis, e obedecerá a número de ordem contínuo para todos os empresários inscritos. À
margem da inscrição, e com as mesmas formalidades, serão averbadas quaisquer modificações
nela ocorrentes.
29
1.5.2 Da capacidade
11O art. 972 do CC/02 exige que para o exercício da atividade de empresário a pessoa
natural esteja em pleno gozo da capacidade civil (os que não forem incapazes) e não seja
legalmente impedido (falido não reabilitado, magistrados, membros do MP, militares da ativa,
etc.). Tem-se, portanto, os requisitos para que a pessoa física exerça atividade econômica como
empresário individual: a capacidade civil e a ausência de impedimentos legais.
No que tange à capacidade civil, a regra é que o incapaz não pode ser empresário
individual, ressalvadas duas situações: a da incapacidade superveniente e do sujeito incapaz
que herda a atividade empresarial.
Assim, há idade mínima para iniciar a atividade como empresário individual (16 anos,
sendo o exercício da empresa causa de emancipação nos termos do art. 5º, parágrafo único,
inciso V, do Código Civil). Não há, contudo, idade mínima para dar continuidade a uma empresa
anteriormente iniciada por seus pais (que faleceram) ou pelo autor da herança, devendo o menor
ser representado ou assistido (princípio da preservação da empresa) (art. 974 do CC/02). No
mesmo sentido, pode o empresário continuar a empresa por ele exercida enquanto capaz no
caso de incapacidade superveniente.
Em tais hipóteses, será necessária autorização judicial, após exame das circunstâncias e
dos riscos da empresa, bem como da conveniência em continuá-la, podendo a autorização ser
revogada pelo juiz, ouvidos os pais, tutores ou representantes legais do menor ou do interdito,
sem prejuízo dos direitos adquiridos porterceiros (art. 974, §1º, do CC/02).
A prova da emancipação e da autorização do incapaz e a de eventual revogação desta
serão INSCRITAS ou AVERBADAS NO REGISTRO PÚBLICO DE EMPRESAS MERCANTIS. O uso
da nova firma caberá, conforme o caso, ao gerente; ou ao representante do incapaz; ou a este,
quando puder ser autorizado (art. 976 do CC/02)
Como forma de proteção ao incapaz, não ficam sujeitos ao resultado da empresa os bens
que ele já possuía, ao tempo da sucessão ou da interdição, desde que estranhos ao acervo da
11 Vide questão 09
30
empresa, devendo tais fatos constar do alvará que conceder a autorização (art. 974, §2º, do
CC/02).
Não se exige idade mínima para ser sócio ou titular de EIRELI (por analogia às sociedades
limitadas), mas este sócio menor deverá integralizar todo o capital, não poderá ser administrador
e deve estar assistido ou representado.
IDADE MÍNIMA
EMPRESÁRIO INDIVIDUAL Dezesseis anos para iniciar (causa de emancipação).
Não há idade mínima para continuar. Deve estar
representado ou assistido
SÓCIO TITULAR DE EIRELI Não há idade mínima. O menor deve estar
representado ou assistido, não pode ser
administrador, todo o capital da sociedade deve ser
integralizado. Se o menor for emancipado, tem plena
capacidade de ser sócio.
No que tange aos sujeitos legalmente impedidos de exercer empresa, trata-se de
situação em que os sujeitos exercem função ou possuem condição incompatível com a atividade
empresarial. Para conhecer esses impedimentos, é necessário conhecer algumas legislações
específicas.
Certas pessoas, como membros do MP e magistrados, não podem ser empresários
individuais, mas podem ser sócias de sociedade empresária, desde que não exerçam
administração. Se exercerem, apesar da proibição, serão responsabilizados pelas obrigações.
No mesmo sentido, as pessoas impedidas de ser empresários podem ser titulares de EIRELI,
desde que não a administrem. A pessoa legalmente impedida de exercer atividade própria de
empresário, se a exercer, responderá pelas obrigações contraídas (art. 973 do CC/02).
Consigne-se que, acaso incapaz o sujeito, e seu o representante ou assistente for pessoa
que, por disposição de lei, não puder exercer atividade de empresário, deve ser nomeado, com
a aprovação do juiz, um ou mais gerentes. Por exemplo, caso um menor de 16 anos herde a
31
empresa antes exercida por seus pais e o seu tutor seja impedido de exercer empresa (por ser
ele um Promotor de Justiça, por exemplo), ele deverá, com aprovação do juiz, nomear gerente.
Do mesmo modo, será nomeado gerente em todos os casos em que o juiz entender ser
conveniente. Contudo, a aprovação do juiz não exime o representante ou assistente do menor
ou do interdito da responsabilidade pelos atos dos gerentes nomeados (art. 975 do CC/02).
1.5.3 Ausência de impedimento legal
Há alguns casos previstos expressamente em lei que proíbem a pessoa de exercer
atividade empresarial.
É preciso atentar para o fato de que a proibição é para o exercício de empresa, não sendo
vedado, pois, que alguns impedidos sejam sócios de sociedades empresárias, uma vez que,
nesse caso, quem exerce a atividade empresarial é a própria pessoa jurídica, e não seus sócios.
Em suma: os impedimentos se dirigem aos empresários individuais, e não aos sócios de
sociedades empresárias.
Assim, são impedidos de exercer atividade de empresa como empresários individuais:
Membros do Ministério Público, da Magistratura, Servidores militares da ativa
das Forças Armadas e das Polícias Militares para exercer o comércio individual
ou particular de sociedade comercial, salvo se acionista ou quotista, obstada a
função de administrador;
Empresários falidos, enquanto não forem reabilitados (Lei de Falências, art. 195);
Leiloeiros (o art. 36, do Decreto nº 21.891/32 proíbe os leiloeiros de exercerem
a empresa direta ou indiretamente, bem como constituir sociedade empresária,
sob pena de destituição);
Corretores (art. 20, da Lei 6.530/78);
Despachantes aduaneiros (art. 10, inciso I, do Decreto nº 646/92);
32
Cônsules, nos seus distritos, salvo os não-remunerados (Decreto nº 4.868/82, art.
11 e Decreto 3.529/89, art. 82);
Médicos, para o exercício simultâneo da farmácia, drogaria ou laboratórios
farmacêuticos e os farmacêuticos, para o exercício simultâneo da medicina
(Decreto nº 19.606/31 c/c Decreto 20.877/31 e Lei 5.991/73). Segundo o STJ,
para ter farmácia, o médico teria que pedir desligamento do Conselho de
Medicina (REsp 796.560/AL);
Pessoas condenadas a pena que vede, ainda que temporariamente o acesso a
cargos públicos, ou por crime falimentar, de prevaricação, peita ou suborno,
concussão, peculato ou contra a economia popular, contra o sistema financeiro
nacional, contra as normas de defesa da concorrência, contra as relações de
consumo, a fé pública ou a propriedade, enquanto perdurarem os efeitos da
condenação (art. 1.011, §1º, CC);
Servidores públicos civis da ativa (Lei 1.711/52) e servidores federais (Lei 8112/90,
art. 117, X, inclusive Ministros de Estado e ocupantes de cargos públicos
comissionados em geral). Aqui é importante observar que o funcionário público
pode participar como sócio cotista, comanditário ou acionista, sendo obstada a
função de administrador;
Estrangeiros sem visto permanente (art. 98 e 99 da Lei nº 6.815/80 – Estatuto do
Estrangeiro) estão impedidos de serem empresários individuais, mas não estarão
impedidos de participar de sociedade empresária no país;
Devedores do INSS (art. 95, §2º, da Lei nº 8.212/91).
Destaque-se que o Código Civil estabelece, em seu art. 973, que “a pessoa legalmente
impedida de exercer atividade própria de empresário, se a exercer, responderá pelas obrigações
contraídas”. Portanto, as obrigações contraídas por um “empresário” impedido não são nulas.
Ao contrário, elas terão plena validade em relação a terceiros de boa-fé que com ele
contratarem.
33
1.6 Da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada
(EIRELI)
A EIRELI não é uma sociedade, mas sim pessoa jurídica de direito privado diversa (art. 44,
VI, do CC/02). No Direito Brasileiro, as únicas sociedades unipessoais existentes são a Sociedade
Unipessoal de Advogado e a Subsidiária Integral da Sociedade Anônima. A EIRELI não é
sociedade.
A EIRELI será constituída por uma única pessoa, física ou jurídica (Instrução Normativa n
º 38/2017 do Departamento de Registro Empresarial e Integração - DREI), titular da totalidade
do capital social, devidamente integralizado, que não será inferior a 100 (cem) vezes o maior
salário-mínimo vigente no País. A pessoa natural que constituir EIRELI, contudo, somente
poderá figurar em uma única empresa dessa modalidade.12
O nome empresarial deverá ser formado pela inclusão da expressão "EIRELI" após a firma
ou a denominação social.
A empresa individual de responsabilidade limitada também poderá resultar da
concentração das quotas de outra modalidade societária em um único sócio,
independentemente das razões que motivaram tal concentração. Em regra, uma sociedade se
dissolve quando ocorrer a falta de pluralidade de sócios, não reconstituída no prazo de 180
dias. Não ocorrerá a dissolução, contudo, se o sócio remanescente requerer a transformação
para empresário individual ou para EIRELI.
Poderá ser atribuída à empresa individual de responsabilidade limitada constituída para
a prestação de serviços de qualquer natureza a remuneração decorrente da cessão de direitos
patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular da
pessoa jurídica, vinculados à atividade profissional.
Aplicam-se à empresa individual de responsabilidade limitada, no que couber, as regras
previstas para as sociedades limitadas.
A limitação da responsabilidade daquele queexerce atividade econômica por meio de
EIRELI foi reafirmada pela Lei da Liberdade Econômica (Lei 13.874/2019), publicada em
.
34
30/04/2019, que incluiu o §7º ao art. 980-A do CC/02, em determinação de que “somente o
patrimônio social da empresa responderá pelas dívidas da empresa individual de
responsabilidade limitada, hipótese em que não se confundirá, em qualquer situação, com o
patrimônio do titular que a constitui, ressalvados os casos de fraude”. Importante consignar que
dispositivo de redação semelhante foi vetado anteriormente (§4º do art. 980-A do CC/02), sob
o argumento de que se aplicariam as regras das sociedades limitadas, inclusive quanto à
separação do patrimônio.
EIRELI titularizada por incapaz
No dia 8 de março de 2019, a Instrução Normativa 55 do Departamento Nacional de
Registro Empresarial e Integração - DREI foi publicada no Diário Oficial da União - DOU. Essa
instrução altera o manual de registro da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada -
EIRELI para permitir que incapaz seja titular dessa modalidade de pessoa jurídica, desde que
representado/assistido e sem exercer a administração, que deve ficar a cargo de terceiro. Perceba
que essa norma tudo tem a ver com o §3º do art. 974 do CC/02,13 pois estabelece as mesmas
exigências impostas para que o incapaz participe de sociedade. Portanto, equipara o titular da
EIRELI a um sócio meramente investidor, muito embora, na EIRELI, ele não ocupe jamais essa
posição, mas, tão somente, de proprietário/titular.
Pessoa Jurídica como titular de EIRELI
13 Vide questão 03
35
O novo manual instituído pelo Departamento de Registro Empresarial e Integração (DREI),
por meio da publicação da Instrução Normativa n. 38, em 3 de março de 2017, prevê,
expressamente, em seu item 1.2.59, a possibilidade de pessoa jurídica, nacional ou estrangeira,
ser titular de EIRELI. O novo Manual de Registro de Empresa Individual de Responsabilidade
Limitada passou a vigorar em todo o território brasileiro a partir do dia 2 de maio de 2017,
respeitados os 60 dias de vacatio legis.
1.7 Microempreendedor Individual, Microempresa e Empresa
de Pequeno Porte
Não só o empresário e o sócio podem ser classificados, mas também a empresa. Essa,
para efeitos tributários, pode ser categorizada de acordo com o fluxo financeiro que gera. Tem-
se, então, as seguintes qualificações:
Microempresa: para as sociedades empresárias (exceto a anônima) que
percebam receita bruta anual de R$ 360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais)
Empresa de Pequeno Porte: para as sociedades empresárias (exceto a anônima)
que percebam receita bruta anual de R$ 4.800.000,00 (quatro milhões e
oitocentos mil reais) (conforme alteração determinada pela LC 155/2016 sobre a
LC 123/2006).
Microempreendedor Individual: é uma espécie particular de microempresa na
qual pode se enquadrar, tão somente, o empresário individual que não exceda
a receita bruta anual de R$ 81.000,00 (oitenta e um mil reais), cf. § 1º do art. 18-
A da LC 123/06.
1.8 Estabelecimento empresarial
Também chamado de estabelecimento comercial, fundo de comércio ou azienda (artigos
1.142 ao 1.149 do CC). Estabelecimento é todo complexo de bens organizado para exercício da
36
empresa, pelo empresário ou por sociedade empresária, sendo imprescindível para o exercício
da atividade empresarial. Só fazem parte do estabelecimento os bens que estão diretamente
relacionados à atividade empresarial.
Assim sendo, o estabelecimento não se confunde com a empresa, uma vez que esta,
conforme visto, corresponde a uma atividade. Da mesma forma, o estabelecimento não se
confunde com o empresário, já que este é uma pessoa física ou jurídica que explora essa
atividade empresarial e é o titular dos direitos e obrigações dela decorrentes.
Mas, embora estabelecimento, empresa e empresário sejam noções que não se
confundem, são conceitos que se inter-relacionam, podendo-se dizer, pois, que o
estabelecimento, como complexo de bens usado pelo empresário no exercício de sua atividade
econômica, representa a projeção patrimonial da empresa ou o organismo técnico-econômico
mediante o qual o empresário atua.
Bens corpóreos ou materiais: móveis, utensílios, mercadoria, maquinários, o
próprio imóvel, veículos e todos os demais bens que o empresário utiliza para o
bom desenvolvimento e organização de sua atividade econômica. Obs.: Bem
imóvel não é o estabelecimento, mas sim elemento integrante do
estabelecimento. Isso porque estabelecimento é diferente de patrimônio;
Bens incorpóreos ou imateriais: compreendem, principalmente, os bens
industriais (registro de desenho industrial, marca registrada, patente de invenção,
de modelo de utilidade, nome empresarial e título de estabelecimento) e o ponto
(local ao qual a atividade econômica é explorada).
O enunciado 7 da I Jornada de Direito Comercial apresenta interessante exemplo de bem
incorpóreo que compõe o estabelecimento empresarial.
Enunciado 7, CJF: O nome de domínio integra o estabelecimento empresarial como bem
incorpóreo para todos os fins de direito.
Estabelecimento não é sujeito de direito, mas objeto de direito. Sujeito de direito é o
empresário individual ou a sociedade empresária.
37
É objeto unitário de direito (art. 1.143, CC). Por isso o empresário pode vender, arrendar
ou dar em usufruto o estabelecimento, pois trata-se simplesmente de um objeto. Pode o
estabelecimento ser objeto unitário de direitos e de negócios jurídicos, translativos ou
constitutivos, que sejam compatíveis com a sua natureza.
Art. 1.143. Pode o estabelecimento ser objeto unitário de direitos e de negócios jurídicos,
translativos ou constitutivos, que sejam compatíveis com a sua natureza.
O estabelecimento comercial tem natureza jurídica de universalidade de fato, sendo
composto de bens, direitos e interesses, materiais e imateriais, necessários, úteis e efetivamente
aplicados ao exercício da empresa.
A reunião de bens do estabelecimento decorre da vontade do empresário ou da
sociedade empresária, e não da vontade da lei. Logo, trata-se de uma universalidade de fato. O
estabelecimento como universalidade de fato constitui um conjunto de bens materiais e
imateriais que serve ao exercício de atividades econômicas.
Universalidade de direito é aquele conjunto de bens que são reunidos por vontade da lei.
Exemplo: herança e massa falida. Não se trata o estabelecimento empresarial, portanto, de
unidade complexa de bens destinados a um fim determinado em lei (universitas juris), mas de
um conjunto de bens com finalidade vinculada do seu dono, que é o empresário (universitas
rerum ou facti).
A doutrina brasileira majoritária, seguindo mais uma vez as ideias suscitadas pela doutrina
italiana, sempre considerou o estabelecimento empresarial uma universalidade de fato, uma vez
que os elementos que o compõem formam uma coisa unitária exclusivamente em razão da
destinação que o empresário lhes dá, e não em virtude de disposição legal.
Ao se afirmar que o estabelecimento empresarial não é sujeito de direito, o que se
pretende afastar é a noção de personalização desse complexo de bens, presente em algumas
proposições da segunda metade do século XIX, principalmente na Alemanha, que procuravam
criar um conceito legal capaz de justificar a relativa autonomia entre a empresa e o empresário.
Falava-se na tese da empresa em si.
A tentativa de personalização do estabelecimento, contudo, não logrou êxito, inclusive no
direito brasileiro. Segundo o disposto na legislação brasileira, é um equívoco considerar o
38
estabelecimento empresarial uma pessoa jurídica. Sujeito de direito é a sociedade empresária,
que, reunindo os bensnecessários ou úteis ao desenvolvimento da empresa, organiza um
complexo de características dinâmicas próprias. A ela, e não ao estabelecimento empresarial,
imputam-se as obrigações e asseguram-se os direitos relacionados com a empresa.
No âmbito do direito privado, cujos princípios gerais, à luz do art. 109 do CTN, são
informadores para a definição dos institutos de direito tributário, a filial é uma espécie de
estabelecimento empresarial, fazendo parte do acervo patrimonial de uma única pessoa jurídica,
partilhando dos mesmos sócios, contrato social e firma ou denominação da matriz. Nessa
condição, consiste, conforme doutrina majoritária, em uma universalidade de fato, não
ostentando personalidade jurídica própria, não sendo sujeito de direitos, tampouco uma pessoa
distinta da sociedade empresária. Cuida-se de um instrumento de que se utiliza o empresário
ou sócio para exercer suas atividades (REsp 1.355.812/RS).
Imaginemos a seguinte situação prática: no acervo patrimonial de determinada padaria
há dois imóveis. O primeiro é sede da sociedade empresária, enquanto o segundo, localizado
em outra unidade da federação, encontra-se alugado. Os valores recebidos a título de aluguéis
desse segundo imóvel são aplicados no ativo patrimonial da referida sociedade empresária.
Nessa situação, é correto afirmar que o imóvel alugado não faz parte do estabelecimento
empresarial da mencionada pessoa jurídica.
Ora, aquele imóvel faz parte do patrimônio da padaria, mas não integra o
estabelecimento. A padaria possui um patrimônio e dentro dele há um estabelecimento. Isso
porque só faz parte do estabelecimento os bens que estão diretamente relacionados à atividade
empresarial.
Assim, estabelecimento é diferente de patrimônio. O estabelecimento integra o
patrimônio, mas não significa que o estabelecimento é o patrimônio.
PATRIMÔNIO
=
estabelecimento + outros bens não relacionados diretamente a atividade empresarial
39
O estabelecimento empresarial não compreende os débitos da empresa. Os débitos fazem
parte do patrimônio da empresa e não do estabelecimento comercial. Sendo o estabelecimento
uma universalidade de fato, ou seja, um complexo de bens organizado pelo empresário, ele não
compreende os contratos, os créditos e as dívidas, por representarem matéria de direito.
Eis mais uma distinção que pode ser feita, portanto, entre estabelecimento e patrimônio,
uma vez que este, ao contrário daquele, compreende até mesmo as relações jurídicas – direitos
e obrigações – do seu titular.
1.8.1 Trespasse
Trespasse é o nome que se dá para o contrato de compra e venda de estabelecimento
empresarial. O trespasse não se confunde com a cessão de cotas.
Na cessão de cotas, não existe transferência da titularidade do estabelecimento, mas, tão
somente, a transferência das cotas sociais. É alteração apenas do quadro societário.
Na transferência da participação societária, o estabelecimento empresarial não muda de
titular. Tanto antes como após a transação, o estabelecimento pertencia e continua a pertencer
à sociedade empresária, à mesma pessoa jurídica, que apenas tem a sua composição de sócios
alterada. Na cessão de cotas ou alienação de controle, o objeto da venda é a participação
societária, ou seja, as cotas ou as ações, conforme a espécie societária.
Trespasse implica a transferência do conjunto de bens organizados pelo alienante ao
adquirente, de modo que este possa prosseguir com a exploração da atividade empresarial.
TRESPASSE CESSÃO DE COTAS
Provoca a transferência da titularidade do
estabelecimento.
Não ocorre a transferência da titularidade
estabelecimento, mas sim a modificação do
quadro social (alteração dos sócios).
40
Para que o trespasse produza seus efeitos entre o alienante e o adquirente, não é
necessário nenhum tipo de publicidade. Porém, para que o contrato de trespasse produza efeitos
perante terceiros, é preciso que haja averbação na junta comercial, bem como publicação na
imprensa oficial.
Art. 1.144. O contrato que tenha por objeto a alienação, o usufruto ou arrendamento do
estabelecimento, só produzirá efeitos quanto a terceiros depois de averbado à margem
da inscrição do empresário, ou da sociedade empresária, no Registro Público de Empresas
Mercantis, e de publicado na imprensa oficial.
O art. 1.144 CC estabelece que para o contrato de trespasse produzir efeitos perante
terceiros, será preciso:
Averbação do contrato na Junta Comercial;
Publicação na imprensa oficial.
Os prazos para a averbação ou publicação são indeterminados, cabendo ao interesse das
partes do contrato a publicidade imediata, levando em consideração a desoneração de
responsabilidades e efetividade da execução de direitos ou créditos.
1.8.2 Eficácia do trespasse
A eficácia do trespasse é garantida pelos bens que permanecem com o devedor, que
devem ser suficientes para saldar sua dívida.
Caso não sejam, deve-se observar a regra do art. 1.145, que estabelece o PAGAMENTO
DE TODOS OS CREDORES ou AUTORIZAÇÃO DE TODOS OS CREDORES.
É feita uma notificação dos credores, para que se manifestem, no prazo de 30 dias,
dizendo se são contra ou a favor do trespasse. O silêncio, aqui, é entendido como
consentimento.
Art. 1.145. Se ao alienante não restarem bens suficientes para solver o seu passivo, a
eficácia da alienação do estabelecimento depende do pagamento de todos os credores,
41
ou do consentimento destes, de modo expresso ou tácito, em trinta dias a partir de sua
notificação.14
A Súmula 451 do STJ autoriza a penhora da sede do estabelecimento comercial. Porém,
esta medida é excepcional, devendo ocorrer apenas em caso de não se encontrar outros bens
para penhora.
Súmula 451, STJ: É legítima a penhora da sede do estabelecimento comercial.
Segundo definiu o STJ em sede de recurso repetitivo, a penhora de imóvel no qual se
localiza o estabelecimento da empresa é excepcionalmente permitida quando inexistentes outros
bens passíveis de penhora e desde que não seja servil à residência da família (REsp 1.114.767/RS,
Rel. Ministro Luiz Fux, Corte Especial, julgado em 02/12/2009, DJe 04/02/2010).
O art. 862 do novo CPC prevê que, “quando a penhora recair em estabelecimento
comercial, industrial ou agrícola [leia-se, genericamente, estabelecimento empresarial] (...), o juiz
nomeará administrador-depositário, determinando-lhe que apresente em 10 (dez) dias o plano
de administração”. Apresentado o referido plano, o juiz ouvirá as partes e decidirá (§1º). O §2º,
porém, prevê que “é lícito às partes ajustar a forma de administração e escolher o depositário,
hipótese em que o juiz homologará por despacho a indicação”.
Corroborando o entendimento jurisprudencial do STJ, no sentido de que a penhora de
estabelecimento empresarial é medida excepcional, o art. 865 do novo CPC determina o
seguinte: “a penhora de que trata esta subseção somente será determinada se não houver outro
meio eficaz para a efetivação do crédito”.
A violação do art. 1.145 do CC enseja ato de falência. O credor pode requerer a falência
do empresário que venda bens sem respeitar o art. 1.145 do CC (sem o consentimento de todos
os credores ou não permanecendo com bens suficientes para solver seu passivo), pois esse ato
é considerado como ato de falência, conforme previsto no art. 94, III, “c” da Lei 11.101/05.
14 Questão 06
42
1.8.3 Responsabilidade do adquirente e do alienante
O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos anteriores à
transferência, desde que regularmente contabilizados. Mas atenção: a regra do art. 1.146 não se
aplica para as dívidas trabalhistas ou tributárias15.
Com relação às dívidas trabalhistas, aplica-se a regra da sucessão trabalhista, prevista nos
arts. 10 e 448, da CLT.
A responsabilidade pelas dívidas trabalhistasrecairá exclusivamente sobre o adquirente.
O alienante só terá responsabilidade solidária se o trespasse houver sido fraudulento (com base
no Código Civil).
Já no que toca às dívidas tributárias, aplica-se a regra do art. 133, do CTN.
Assim, em se tratando de dívidas tributárias ou de dívidas trabalhistas, não se aplica o
disposto no art. 1.146 do Código Civil, uma vez que a sucessão tributária e a sucessão trabalhista
possuem regimes jurídicos próprios, previstos em legislação específica (arts. 133 do CTN e 448
da CLT, respectivamente).
Exceção: não haverá sucessão trabalhista quando o trespasse decorrer de recuperação
judicial ou falência (arts. 60 e 141 da Lei 11.101/2005). Quando se tratar de compra realizada no
processo de falência ou recuperação judicial (por meio de leilão), o adquirente do
estabelecimento não responde pela falência ou pelas dívidas tributárias, trabalhistas ou
decorrentes de acidente de trabalho, nos termos do art. 141, II da Lei 11.101/05.
O alienante (devedor primitivo) continua solidariamente obrigado, mas apenas no prazo
de um ano, desde que a dívida esteja regularmente contabilizada.
Caso se trate de dívida vencida, conta-se um ano da DATA DA PUBLICAÇÃO NA
IMPRENSA OFICIAL;
Caso se trate de dívida vincenda, conta-se um ano a partir da DATA DO
VENCIMENTO.
Enunciado 233, CJF: Art. 1.142: A sistemática do contrato de trespasse delineada pelo
Código Civil nos arts. 1.142 e ss., especialmente seus efeitos obrigacionais, aplica-se
15 Vide Questão 02
43
somente quando o conjunto de bens transferidos importar a transmissão da
funcionalidade do estabelecimento empresarial.
Ou seja, essa sistemática, sobretudo para efeitos obrigacionais, só se aplica quando o
conjunto de bens transferidos importar a transmissão da funcionalidade do estabelecimento
empresarial. Justificou-se tal posicionamento sob a alegação de que, para se falar em trespasse
de estabelecimento, é necessário que haja transferência de elementos suficientes à preservação
de sua finalidade como tal, ou seja, a universalidade adquirida deve ser idônea a operar como
estabelecimento, ainda que tenham sido decotados alguns de seus elementos originais.
Difere da situação de transferência de participação em sociedade (transferência de cotas),
onde a responsabilidade do sócio que transferiu perdura por um prazo de 2 anos. Isso porque
o art. 1.003 do CC preconiza que o cedente responde solidariamente com o cessionário, perante
a sociedade e terceiros, pelas obrigações que tinha como sócio, até 2 anos depois de averbada
a modificação do contrato.
1.2. Concorrência
Antes do CC, não havia nenhuma referência legal que impedisse a concorrência. Portanto,
o que acontecia, na prática empresarial, era a confecção de um contrato, onde se inseria uma
cláusula chamada “cláusula de não-restabelecimento”.
44
Hoje, a cláusula de não-restabelecimento está prevista no art. 1.147 do CC. Assim, a
cláusula de não-restabelecimento está implícita aos contratos de trespasse, na forma do art.
1.147 do CC, de modo que se faz necessária cláusula expressa a fim de que seja possível a
concorrência.
O contrato de trespasse irá definir sobre a possibilidade de concorrência do alienante do
estabelecimento. Na omissão do contrato de trespasse, aplica-se a regra do art. 1.147 do CC.
Ou seja, não havendo autorização expressa, o alienante do estabelecimento não pode fazer
concorrência ao adquirente, nos 5 anos subsequentes à transferência.
A cláusula de não restabelecimento fixada por prazo indeterminado é considerada
abusiva.
Segundo o STJ, as partes não podem prever que a cláusula de “não restabelecimento”
será por prazo indeterminado. O ordenamento jurídico pátrio, salvo expressas exceções, não
aceita que cláusulas que limitem ou vedem direitos sejam estabelecidas por prazo indeterminado
(REsp 680.815/PR, Min. Raul Araújo, j. 20/03/2014 – inf. 554).
É possível que seja ampliado, mas ele não pode ser fixado em prazo indeterminado e, no
caso concreto, é possível que tal ampliação seja considerada abusiva se ampliar demais a
restrição. Nesse sentido:
Enunciado 490, CJF: A ampliação do prazo de 5 anos de proibição de concorrência pelo
alienante ao adquirente do estabelecimento, ainda que convencionada no exercício da
autonomia da vontade, pode ser revista judicialmente, se abusiva.
Ainda de acordo com o STJ, é válida a cláusula contratual de não concorrência, desde
que limitada espacial e temporalmente. Isso porque esse tipo de cláusula protege a concorrência
e os efeitos danosos decorrentes de potencial desvio de clientela, sendo esses valores jurídicos
reconhecidos constitucionalmente (REsp 1.203.109/MG, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado
em 6/5/2015 – Inf. 561).
O limite geográfico dessa limitação deve ser definido casualmente em função da natureza
do comércio. Deve-se analisar se o eventual restabelecimento do alienante configura, de fato,
concorrência ao adquirente. O elemento teleológico da norma referida não é a proibição do
restabelecimento do alienante, e sim a proibição da concorrência desleal ao adquirente.
45
Assim, quando a relação estabelecida entre as partes for eminentemente comercial, a
cláusula que estabeleça dever de abstenção de contratação com sociedade empresária
concorrente pode sim irradiar efeitos após a extinção do contrato, desde que por um prazo
certo e em determinado lugar específico (limitada temporária e espacialmente).
Ex.: João resolveu montar um quiosque no shopping para vender celulares, cartões pré-
pagos etc. Para isso, ele fez um contrato com a operadora de celular “XXX” por meio da qual
ele somente iria vender os produtos e serviços dessa operadora e, em troca, ela ofereceria a ele
preços diferenciados, consultoria e treinamento para abrir a loja. No contrato assinado com a
operadora, havia uma cláusula dizendo que João estava proibido, por 6 meses após a extinção
do contrato, de contratar com qualquer empresa concorrente naquela cidade. Essa cláusula de
não concorrência é válida.
No caso de arrendamento ou usufruto do estabelecimento, a proibição prevista persistirá
durante o prazo do contrato (art. 1.147, parágrafo único).
1.8.4 Sub-rogação nos contratos de exploração
É preciso entender que o contrato de trespasse não garante a clientela, que é mera
situação de fato. A clientela não é elemento integrante do estabelecimento empresarial. Por
conta disso, a fim de que a clientela se mantenha, o trespasse gera a sub-rogação automática
do adquirente nos contratos estipulados para a exploração do estabelecimento, se não tiverem
caráter pessoal.
Havendo justa causa, os terceiros podem rescindir o contrato em 90 dias, contados da
publicação da transferência. Assim dispõe o art. 1.148:
Art. 1.148. Salvo disposição em contrário, a transferência importa a sub-rogação do
adquirente nos contratos estipulados para exploração do estabelecimento, se não tiverem
caráter pessoal, podendo os terceiros rescindir o contrato em 90 dias a contar da
publicação da transferência, se ocorrer justa causa, ressalvada, neste caso, a
responsabilidade do alienante.
O art. 1.148 do CC traz uma regra importante: o adquirente terá a garantia que todos os
contratados de exploração do estabelecimento continuarão em vigor.
46
A jurisprudência e o Enunciado 234 do CJF entendem que nos contratos de trespasse
ocorre a sub-rogação automática de todos os contratos, exceto o contrato de locação, em
respeito ao art. 13 da Lei de Inquilinato (Lei 8.245/91).
Enunciado 234, CJF: Art. 1.148: Quando do trespasse do estabelecimento empresarial, o
contrato de locação do respectivo ponto não se transmite automaticamente ao adquirente.
Fica cancelado o enunciado nº 64.
A Lei de Locação (art. 13) prevê a anuência por escrito do locador do imóvel objetoda
transferência do contrato de locação.
O STJ entende que o contrato de locação, fugindo a regra do art. 1.148, não é transferido
automaticamente, dependendo da anuência do locador.
STJ: Transferência do fundo de comércio. Trespasse. Efeitos: continuidade do processo
produtivo; manutenção dos postos de trabalho; circulação de ativos econômicos. Contrato
de locação. Locador. Avaliação de características individuais do futuro inquilino.
Capacidade financeira e idoneidade moral. Inspeção extensível, também, ao eventual
prestador da garantia fidejussória. Natureza pessoal do contrato de locação.
Desenvolvimento econômico. Aspectos necessários: proteção ao direito de propriedade e
a segurança jurídica. Afigura-se destemperado o entendimento de que o art. 13 da Lei do
Inquilinato não tenha aplicação às locações comerciais, pois, prevalecendo este
posicionamento, o proprietário do imóvel estaria ao alvedrio do inquilino, já que segundo
a conveniência deste, o locador se veria compelido a honrar o ajustado com pessoa diversa
daquela constante do instrumento, que não rara as vezes, não possuirá as qualidades
essenciais exigidas pelo dono do bem locado (capacidade financeira e idoneidade moral)
para o cumprir o avençado. Liberdade de contratar. As pessoas em geral possuem plena
liberdade na escolha da parte com quem irão assumir obrigações e, em contrapartida,
gozar de direitos, sendo vedada qualquer disposição que obrigue o sujeito a contratar
contra a sua vontade. Aluguéis. Fonte de renda única ou complementar para inúmeros
cidadãos. Necessidade de proteção especial pelo ordenamento jurídico (REsp
1.202.077/MS, rel. Ministro Vasco Della Giustina – desembargador convocado do TJ/RS –
DJe 10/03/2011).
47
A cessão dos créditos referentes ao estabelecimento transferido produzirá efeito em
relação aos respectivos devedores, desde o momento da publicação da transferência, mas o
devedor ficará exonerado se de boa-fé pagar ao cedente (art. 1.149 do CC).
1.8.5 Aviamento
Aviamento é nome dado pelo mercado ao valor agregado pela articulação dos bens que
compõem o estabelecimento, na exploração de uma atividade econômica. Desta forma,
aviamento não é integrante do estabelecimento, mas sim um ATRIBUTO seu.
Em outras palavras, aviamento, ou goodwill of trade, é o potencial de lucratividade.
O aviamento é justamente a aptidão para gerar lucro do estabelecimento. Quanto mais
eficiente for a organização dos elementos do estabelecimento, mais aviado será o
estabelecimento.
Trata-se de um atributo do estabelecimento empresarial, resultado do conjunto e vários
fatores de ordem material ou imaterial que lhe conferem capacidade ou aptidão de gerar lucros.
Cada estabelecimento possui um aviamento maior ou menor. Diz-se que o aviamento é pessoal
ou subjetivo quando a capacidade de gerar lucros resulta substancialmente de qualidades do
titular da empresa; será real ou objetivo se decorrente da qualidade do estabelecimento
empresarial.
A clientela é resultante do aviamento, e este existe graças a ela – um decorre do outro.
Ambos, por não serem considerados bens, não estão sujeitos a uma proteção direta, nos moldes
do que ocorre com o patrimônio material ou imaterial da empresa.
Se liga, OABeiro! Clientela não se confunde com freguesia!!
48
CLIENTELA FREGUESIA
Conjunto de pessoas que mantém com o
empresário ou sociedade empresária
relações jurídicas constantes;
Conjunto de pessoas que passam em frente
ao ponto do negócio, em razão da sua
localização estratégica.
1.8.6 Ponto comercial
É um bem incorpóreo que integra o estabelecimento empresarial. Ponto comercial é o
local onde o empresário realiza sua atividade empresarial. O ponto é muito importante para o
estabelecimento comercial, daí porque goza de proteção legal. Essa proteção se dá através da
chamada ação renovatória.
Quando o empresário se estabelece em um ponto alugado e permanece naquele local
um determinado tempo, ele faz investimentos para ganhar o respeito dos consumidores, passar
a ser conhecido e a adquirir, consequentemente, uma clientela fiel. Por essa razão, o regime
jurídico-empresarial reconhece a esse empresário o chamado direito de inerência ao ponto,
consubstanciado na prerrogativa de permanecer naquele local mesmo na hipótese de o locador
não pretender mais a renovação do contrato locatício.
1.8.7 Ação Renovatória
A ação renovatória tem por objetivo a renovação compulsória do contrato de locação
empresarial. A ação está prevista na Lei nº 8.245/91, nos artigos 51 a 55.
Nas locações destinadas ao comércio, o locatário terá direito a renovação compulsória
do contrato, por igual prazo, desde que, cumulativamente:
Requisito formal: o contrato a renovar tenha sido celebrado por escrito e com
prazo determinado;
49
Requisito temporal: prazo mínimo de 5 anos de relação contratual contínua. O
prazo mínimo do contrato a renovar ou a soma dos prazos ininterruptos dos
contratos escritos deve ser de 5 anos;
Requisito material: o locatário esteja explorando seu comércio, NO MESMO
RAMO, pelo prazo mínimo e ininterrupto de 3 anos.
O direito assegurado neste artigo poderá ser exercido pelos cessionários ou sucessores
da locação.
A lei não está protegendo o locador, nem o locatário, mas sim o ponto comercial. Faltando
um dos requisitos, não há como se ajuizar a ação renovatória. Presentes todos os requisitos da
ação renovatória, poderá ela ser ajuizada, pois o empresário passa a ter o intitulado direito de
inerência ao ponto.
Imaginemos a seguinte situação: empresário tinha realizado um contrato de locação por
cinco anos, de modo que nos três primeiros anos possuía uma padaria no ponto e, nos últimos
dois, uma farmácia. Pode ele ajuizar a renovatória? Não, porque não permaneceu na mesma
atividade nos últimos três anos do contrato.
A propositura da referida ação renovatória, segundo o disposto no art. 51, §5º, da Lei
8.245/1991, deve ser feita “no interregno de um ano, no máximo, até seis meses, no mínimo,
anteriores à data da finalização do prazo do contrato em vigor”. Dizendo de outra forma, a ação
renovatória deve ser ajuizada nos seis primeiros meses do último ano do contrato de aluguel.
Sendo assim, faltando um ano para o término do contrato, deve o empresário locatário,
se pretender permanecer no ponto, procurar o locador para iniciar as tratativas acerca da
renovação da relação contratual. Caso o locador demonstre o interesse de retomar o ponto, não
renovando o contrato, cabe ao locatário tomar as providências necessárias ao ajuizamento da
ação renovatória, sob pena de ver decair o seu o direito à renovação compulsória da relação
locatícia.
50
Destaque-se que a legislação admite a propositura de ação renovatória nos contratos de
locação de espaços em shopping centers. Nesse caso, previu a lei que não cabe alegar, para a
retomada do imóvel, a necessidade do bem para uso próprio, nem para transferência de
estabelecimento empresarial existente há mais de um ano cuja maioria do capital seja de sua
titularidade ou de seu cônjuge, ascendente ou descendente (art. 52, §2º, da Lei 8.245/1991).
Diga-se ainda que, em tese, não é abusiva a previsão, em normas gerais de
empreendimento de shopping center ("estatuto"), da denominada "cláusula de raio", segundo a
qual o locatário de um espaço comercial se obriga – perante o locador – a não exercer atividade
similar à praticada no imóvel objeto da locação em outro estabelecimento situado a um
determinado raio de distância contado a partir de certo ponto do terreno do shopping center
(STJ, REsp 1.535.727/RS, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 10/5/2016 – inf. 585).
No caso de sublocação do imóvel, a ação renovatória é de competência exclusiva do
sublocatário já que esta ação, como dito, se propõe a proteger o ponto comercial (art. 51, §1º).51
O teto de receita bruta (faturamento) para enquadramento no Simples Nacional foi
majorado de R$ 3.600.000,00 para R$4.800.000,00 (Empresa de Pequeno Porte).
O Microempreendedor Individual (MEI) passa de um limite de R$ 60 mil para R$ 81 mil
por ano, uma média mensal de R$ 6,75mil, e a Empresa de Pequeno Porte (EPP) passa de R$
3,6 milhões para R$ 4,8 milhões anuais, média mensal de R$ 400mil.
Mas, cuidado! Persiste um “sublimite” para cálculo de ICMS e ISS. As EPPs que
ultrapassarem o valor anterior, de R$ 3,6 milhões de faturamento, terão o ICMS e o ISS
calculados fora da tabela do Simples Nacional, conforme regras estabelecidas pela lei
complementar 155/2016.
52
QUADRO SINÓTICO
QUADRO ASSOCIATIVO
(classificações de três diferentes ramos do Direito)
DIREITO CIVIL
Pessoa (art. 1º,
CC/02)
DIREITO EMPRESARIAL
Empresário (art. 966, CC/02)
DIREITO TRIBUTÁRIO
Empresa/Atividade (art. 3º, LCP
123/06)
Pessoa Física Empresário Individual
Microempresa (ME)
R.B.A. até R$ 360.000,00
ou
Empresa de Pequeno Porte
(EPP)
R.B.A. até R$ 4.800.000,00
Pessoa Jurídica
Empresa Individual de
Responsabilidade Limitada
(EIRELI)
Sociedades Empresárias (ex.
Ltda)
* Exceto as sociedades por
ações
Enquadramento possível somente para o
Empresário Individual =>
* Microempreendedor Individual
(MEI)
(ou “pequeno empresário”)
R.B.A. até R$ 81.000,00
Requisitos: ME + Pessoa Física
53
QUESTÕES COMENTADAS
Questão 1
(OAB – XXVII EOU | 2018): Roberto desligou-se de seu emprego e decidiu investir na construção
de uma hospedagem do tipo pousada no terreno que possuía em Matinhos. Roberto contratou
um arquiteto para mobiliar a pousada, fez cursos de hotelaria e, com os ensinamentos recebidos,
contratou empregados e os treinou. Ele também contratou um desenvolvedor de sites de
Internet e um profissional de marketing para divulgar sua pousada. Desde então, Roberto
dedica-se exclusivamente à pousada, e os resultados são promissores. A pousada está sempre
cheia de hóspedes, renovando suas estratégias de fidelização; em breve, será ampliada em sua
capacidade.
Considerando a descrição da atividade econômica explorada por Roberto, assinale a afirmativa
correta.
A) A atividade não pode ser considerada empresa em razão da falta tanto de profissionalismo
de seu titular quanto de produção de bens.
B) A atividade não pode ser considerada empresa em razão de a prestação de serviços não
ser um ato de empresa.
C) A atividade pode ser considerada empresa, mas seu titular somente será empresário a
partir do registro na Junta Comercial.
D) A atividade pode ser considerada empresa e seu titular, empresário, independentemente
de registro na Junta Comercial.
Comentários:
A questão versa, essencialmente, sobre os elementos característicos do empresário, associados
à obrigação de registro a esse imposta.
54
Para responder à questão, é importante lembrar que os requisitos para a configuração do
empresário são extraídos do conceito apresentado no art. 966 do CC: “Considera-se empresário
quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação
de bens ou de serviços”.
Assim, presentes os elementos constitutivos (exercício de atividade econômica; profissionalidade;
organização dos fatores de produção; produção e/ou circulação de bens e serviços), a pessoa
será considerada empresária.
O registro na Junta Comercial, por si só, não constitui o empresário. Trata-se de obrigação do
empresário, prevista no art. 967 do CC16, de observância exigida para a sua regularidade.
Desse modo, uma vez preenchidos os requisitos extraídos do art. 966 do CC, a pessoa é
considerada empresária, independentemente de seu registro na Junta Comercial. Contudo, para
a sua regularidade, exige-se o devido registro.
A partir dos elementos jurídicos trazidos, passa-se a analisar as assertivas.
Alternativa A: INCORRETA
Não apenas aqueles que exploram atividade de produção de bens exercem empresa. Também
são considerados atos de empresa a circulação de bens, bem como a prestação de serviços,
sendo incorreta a assertiva em análise.
Além disso, outro erro da alternativa é a afirmação de que Roberto não desenvolve atividade
com profissionalismo. Ao contrário do afirmado, o enunciado narrou a profissionalidade,
demonstrando a habitualidade no exercício da atividade, além de outros elementos necessário
ao enquadramento de Roberto como empresário.
Alternativa B: INCORRETA
Conforme se extrai do art. 966 do CC, a prestação de serviço é considerada ato de empresa,
sim, tornando errada a alternativa ora avaliada.
16 Questão 04
55
Alternativa C: INCORRETA
O registro na Junta Comercial não é requisito para o enquadramento da pessoa como
empresário. Trata-se de obrigação empresária, prevista no art. 967 do CC, exigida para a
regularidade do empresário. Contudo, não tem caráter constitutivo.
Assim, a alternativa em exame está errada.
Alternativa D: CORRETA
Conforme explicado, Roberto preenche os elementos necessários para a sua configuração como
empresário. Assim, será considerado empresário, independentemente de registro na Junta
Comercial. Esse registro é requisito de regularidade do empresário, e não constitutivo.
Questão 2
(XXXI EXAME DE ORDEM – FGV - 2020) As sociedades empresárias Y e J celebraram contrato
tendo por objeto a alienação do estabelecimento da primeira, situado em Antônio Dias/MG. Na
data da assinatura do contrato, dentre outros débitos regularmente contabilizados, constava
uma nota promissória vencida havia três meses no valor de R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais).
O contrato não tem nenhuma cláusula quanto à existência de solidariedade entre as partes,
tanto pelos débitos vencidos quanto pelos vincendos.
Sabendo-se que, em 15/10/2018, após averbação na Junta Comercial competente, houve
publicação do contrato na imprensa oficial e, tomando por base comparativa o dia 15/01/2020,
o alienante
A) responderá pelo débito vencido com o adquirente por não terem decorrido cinco anos da
publicação do contrato na imprensa oficial.
b) não responderá pelo débito vencido com o adquirente em razão de não ter sido estipulada
tal solidariedade no contrato.
C) responderá pelo débito vencido com o adquirente até a ocorrência da prescrição relativa à
cobrança da nota promissória.
56
D) não responderá pelo débito vencido com o adquirente diante do decurso de mais de 1 (um)
ano da publicação do contrato na imprensa oficial.
Comentários:
Art. 1.146. O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos anteriores
à transferência, desde que regularmente contabilizados, continuando o devedor primitivo
solidariamente obrigado pelo prazo de um ano, a partir, quanto aos créditos vencidos, da
publicação, e, quanto aos outros, da data do vencimento.
Questão 3
(XXIX EXAME DE ORDEM – FGV - 2019) Álvares Florence tem um filho relativamente incapaz
e consulta você, como advogado(a), para saber da possibilidade de transferir para o filho parte
das quotas que possui na sociedade empresária Redenção da Serra Alimentos Ltda., cujo capital
social se encontra integralizado.
Apoiado na disposição do Código Civil sobre o assunto, você respondeu que
A) é permitido o ingresso do relativamente incapaz na sociedade, bastando que esteja assistido
por seu pai no instrumento de alteração contratual.
B) não é permitida a participação de menor, absoluta ou relativamente incapaz, em sociedade,
exceto nos tipos de sociedades por ações.
C) não é permitida a participação de incapaz em sociedade, mesmo que esteja representado ou
assistido, salvo se a transmissão das quotas se der em razão de sucessão causa mortis.
D) é permitido o ingresso dorelativamente incapaz na sociedade, desde que esteja assistido no
instrumento de alteração contratual, devendo constar a vedação do exercício da administração
da sociedade por ele.
Comentários:
57
Art. 974. Poderá o incapaz, por meio de representante ou devidamente assistido, continuar a
empresa antes exercida por ele enquanto capaz, por seus pais ou pelo autor de herança.
§ 1 Nos casos deste artigo, precederá autorização judicial, após exame das circunstâncias e dos
riscos da empresa, bem como da conveniência em continuá-la, podendo a autorização ser
revogada pelo juiz, ouvidos os pais, tutores ou representantes legais do menor ou do interdito,
sem prejuízo dos direitos adquiridos por terceiros.
§ 2 Não ficam sujeitos ao resultado da empresa os bens que o incapaz já possuía, ao tempo da
sucessão ou da interdição, desde que estranhos ao acervo daquela, devendo tais fatos constar
do alvará que conceder a autorização.
§ 3 O Registro Público de Empresas Mercantis a cargo das Juntas Comerciais deverá
registrar contratos ou alterações contratuais de sociedade que envolva sócio incapaz, desde
que atendidos, de forma conjunta, os seguintes pressupostos:
I – o sócio incapaz não pode exercer a administração da sociedade;
II – o capital social deve ser totalmente integralizado;
III – o sócio relativamente incapaz deve ser assistido e o absolutamente incapaz deve ser
representado por seus representantes legais.
Questão 4
(XXIX EXAME DE ORDEM – FGV - 2019) Luzia Betim pretende iniciar uma sociedade empresária
em nome próprio. Para tanto, procura assessoria jurídica quanto à necessidade de inscrição no
Registro Empresarial para regularidade de exercício da empresa.
Na condição de consultor(a), você responderá que a inscrição do empresário individual é
A) dispensada até o primeiro ano de início da atividade, sendo obrigatória a partir de então.
B) obrigatória antes do início da atividade.
C) dispensada, caso haja opção pelo enquadramento como microempreendedor individual.
D) obrigatória, se não houver enquadramento como microempresa ou empresa de pequeno
porte.
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Comentários:
Art.967,CC. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis
da respectiva sede, antes do início de sua atividade.
Questão 5
(XXVI EXAME DE ORDEM – FGV - 2018) Cruz Machado pretende iniciar o exercício individual
de empresa e adotar como firma, exclusivamente, o nome pelo qual é conhecido pela população
de sua cidade – “Monsenhor”. De acordo com as informações acima e as regras legais de
formação de nome empresarial para o empresário individual, assinale a afirmativa correta.
A) A pretensão de Cruz Machado é possível, pois o empresário individual pode escolher
livremente a formação de sua firma.
B) A pretensão de Cruz Machado não é possível, pois o empresário individual deve adotar
denominação indicativa do objeto social como espécie de nome empresarial.
C) A pretensão de Cruz Machado não é possível, pois o empresário individual opera sob firma
constituída por seu nome, completo ou abreviado.
D) A pretensão de Cruz Machado é possível, pois o empresário individual pode substituir seu
nome civil por uma designação mais precisa de sua pessoa.
Comentários:
Art. 1156 C.C: O Empresário opera sob firma constituída por seu nome, completo ou abreviado,
aditando-lhe, se quiser, designação mais precisa da sua pessoa ou do gênero de atividade.
59
Questão 6
(XXV EXAME DE ORDEM – FGV - 2018) O empresário individual José de Freitas alienou seu
estabelecimento a outro empresário mediante os termos de um contrato escrito, averbado à
margem de sua inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis, publicado na imprensa
oficial, mas não lhe restaram bens suficientes para solver o seu passivo.
Em relação à alienação do estabelecimento empresarial nessas condições, sua eficácia depende
A) da quitação prévia dos créditos trabalhistas e fiscais vencidos no ano anterior ao da alienação
do estabelecimento.
B) do pagamento a todos os credores, ou do consentimento destes, de modo expresso ou tácito,
em trinta dias a partir de sua notificação.
C) da quitação ou anuência prévia dos credores com garantia real e, quanto aos demais credores,
da notificação da transferência com antecedência de, no mínimo, sessenta dias.
D) do consentimento expresso de todos os credores quirografários ou da consignação prévia
das importâncias que lhes são devidas.
Comentários:
CC
“Art. 1.145. Se ao alienante não restarem bens suficientes para solver o seu passivo, a eficácia
da alienação do estabelecimento depende do pagamento de todos os credores, ou do
consentimento destes, de modo expresso ou tácito, em trinta dias a partir de sua notificação
Questão 7
(XXII EXAME DE ORDEM – FGV - 2017) Fagundes e Pilar são noivos e pretendem se casar
adotando o regime de separação de bens mediante celebração de pacto antenupcial. Fagundes
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é empresário individual e titular do estabelecimento Borracharia Dona Inês Ltda. ME. Celebrado
o pacto antenupcial entre os nubentes, o advogado contratado por Fagundes providenciará o
arquivamento e a averbação do documento
A) no Registro Público de Empresas Mercantis e a publicação na imprensa oficial.
B) no Registro Público de Empresas Mercantis e no Registro Civil de Pessoas Naturais.
C) no Registro Civil de Pessoas Naturais e a publicação na imprensa oficial.
D) no Registro Público de Empresas Mercantis e no Registro Civil de Títulos e Documentos.
Comentário:
CC. Art. 979. Além de no Registro Civil, serão arquivados e averbados, no Registro Público de
Empresas Mercantis, os pactos e declarações antenupciais do empresário, o título de doação,
herança, ou legado, de bens clausulados de incomunicabilidade ou inalienabilidade.
Questão 8
(XX EXAME DE ORDEM – FGV - 2016) O engenheiro agrônomo Zacarias é proprietário de
quatro fazendas onde ele realiza, em nome próprio, a exploração de culturas de soja e milho,
bem como criação intensiva de gado. A atividade em todas as fazendas é voltada para
exportação, com emprego intenso de tecnologia e insumos de alto custo. Zacarias não está
registrado na Junta Comercial.
Com base nessas informações, é correto afirmar que
A) Zacarias, por exercer empresa em caráter profissional, é considerado empresário
independentemente de ter ou não registro na Junta Comercial.
B) Zacarias, mesmo que exerça uma empresa, não será considerado empresário pelo fato de
não ter realizado seu registro na Junta Comercial.
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C) Zacarias não pode ser registrado como empresário, porque, sendo engenheiro agrônomo,
exerce profissão intelectual de natureza científica, com auxílio de colaboradores.
D) Zacarias é um empresário de fato, por não ter realizado seu registro na Junta Comercial antes
do início de sua atividade, descumprindo obrigação legal.
Comentários:
CC
Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica
organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços.
Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza
científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou
colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa.
Art. 967. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis
da respectiva sede, antes do início de sua atividade.
Art. 970. A lei assegurará tratamento favorecido, diferenciado e simplificado ao empresário
rural e ao pequeno empresário, quanto à inscrição e aos efeitos daí decorrentes.
Art. 971. O empresário, cuja atividade rural constitua sua principal profissão, pode,
observadas as formalidades de que tratam o art. 968 e seus parágrafos,requerer inscrição no
Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, caso em que, depois de inscrito,
ficará equiparado, para todos os efeitos, ao empresário sujeito a registro.
Questão 9
62
(XX EXAME DE ORDEM – FGV - 2016) Maria, empresária individual, teve sua interdição
decretada pelo juiz a pedido de seu pai, José, em razão de causa permanente que a impede de
exprimir sua vontade para os atos da vida civil.
Sabendo-se que José, servidor público federal na ativa, foi nomeado curador de Maria, assinale
a afirmativa correta.
A) É possível a concessão de autorização judicial para o prosseguimento da empresa de Maria;
porém, diante do impedimento de José para exercer atividade de empresário, este nomeará,
com a aprovação do juiz, um ou mais gerentes.
B) A interdição de Maria por incapacidade traz como efeito imediato a extinção da empresa,
cabendo a José, na condição de pai e curador, promover a liquidação do estabelecimento.
C) É possível a concessão de autorização judicial para o prosseguimento da empresa de Maria
antes exercida por ela enquanto capaz, devendo seu pai, José, como curador e representante,
assumir o exercício da empresa.
D) Poderá ser concedida autorização judicial para o prosseguimento da empresa de Maria,
porém ficam sujeitos ao resultado da empresa os bens que Maria já possuía ao tempo da
interdição, tanto os afetados quanto os estranhos ao acervo daquela.
Comentários:
CC:
Art. 972. Podem exercer a atividade de empresário os que estiverem em pleno gozo da
capacidade civil e não forem legalmente impedidos.
Art. 974. Poderá o incapaz, por meio de representante ou devidamente assistido, continuar a
empresa antes exercida por ele enquanto capaz, por seus pais ou pelo autor de herança.
63
§ 2o Não ficam sujeitos ao resultado da empresa os bens que o incapaz já possuía, ao tempo
da sucessão ou da interdição, desde que estranhos ao acervo daquela, devendo tais fatos
constar do alvará que conceder a autorização.
Art. 975. Se o representante ou assistente do incapaz for pessoa que, por disposição de lei, não
puder exercer atividade de empresário, nomeará, com a aprovação do juiz, um ou mais
gerentes.
Estatuto dos servidores públicos federais (Lei nº 8.112):
Art. 117. Ao servidor é proibido:
X - participar de gerência ou administração de sociedade privada, personificada ou não
personificada, exercer o comércio, exceto na qualidade de acionista, cotista ou comanditário;
Parágrafo único. A vedação de que trata o inciso X do caput deste artigo não se aplica nos
seguintes casos:
I - participação nos conselhos de administração e fiscal de empresas ou entidades em que a
União detenha, direta ou indiretamente, participação no capital social ou em sociedade
cooperativa constituída para prestar serviços a seus membros; e
II - gozo de licença para o trato de interesses particulares, na forma do art. 91 desta Lei,
observada a legislação sobre conflito de interesses.
Questão 10
(XIX EXAME DE ORDEM – FGV - 2016) Servidor da Junta Comercial verificou que o
requerimento de alteração contratual de uma sociedade limitada com vinte e dois sócios e sede
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no município de Solidão não foi assinado pelo administrador, mas por mandatário da sociedade,
com poderes específicos. O requerimento foi instruído com uma nova versão do contrato social
desacompanhada da ata da deliberação que a aprovou. O referido servidor determinou que
fosse sanada a pretensa irregularidade.
Com base nessas informações, assinale a afirmativa correta.
A) O servidor não agiu corretamente porque cumpre à autoridade competente, antes de efetivar
o registro, fiscalizar apenas a observância das formalidades extrínsecas ao ato, e não
formalidades intrínsecas relativas aos documentos apresentados; portanto, a alteração deveria
ser arquivada.
B) O servidor agiu corretamente porque cumpre à autoridade competente, antes de efetivar o
registro, fiscalizar a observância das prescrições legais concernentes ao ato ou aos documentos
apresentados; havendo irregularidades, deve ser notificado o requerente para saná-las.
C) O servidor não agiu corretamente porque as irregularidades apresentadas no enunciado são
insanáveis por se referirem a requisitos substanciais e de validade do documento, bem como
de representação da pessoa jurídica.
D) O servidor agiu corretamente porque somente o administrador, como órgão da pessoa
jurídica, tem legitimidade para pleitear o arquivamento da alteração contratual; havendo
irregularidades, deve ser notificado o requerente para saná-las
Comentários:
Art. 1.153, caput e parágrafo único, do Código Civil.
Art. 1.153. Cumpre à autoridade competente, antes de efetivar o registro, verificar a
autenticidade e a legitimidade do signatário do requerimento, bem como fiscalizar a observância
das prescrições legais concernentes ao ato ou aos documentos apresentados.
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Parágrafo único. Das irregularidades encontradas deve ser notificado o requerente, que, se for
o caso, poderá saná-las, obedecendo às formalidades da lei.
66
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GABARITO
Questão 1 - D
Questão 2 - D
Questão 3 - D
Questão 4 - B
Questão 5 - C
Questão 6 - B
Questão 7 - B
Questão 8 - B
Questão 9 - A
Questão 10 - B
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QUESTÃO DESAFIO
Qual o conceito de empresário previsto no Código Civil?
Responda em até 5 linhas
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GABARITO QUESTÃO DESAFIO
De acordo com o CC, considera-se empresário aquele que exerce profissionalmente
atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços,
nos termos do art. 966, excluído o profissional intelectual, salvo se o exercício da profissão
constituir elemento de empresa.
Você deve ter abordado necessariamente os seguintes itens em sua resposta:
Organização
Organização, nos ensinamentos do referido doutrinador, significa que: “empresário é aquele que
articula os fatores de produção (capital, mão de obra, insumos e tecnologia)".
Profissional
Consoante o disposto no artigo 966 do Código Civil: “Considera-se empresário quem exerce
profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou
de serviços”. Nos ensinamentos de André Luiz Santa Cruz Ramos (Direito Empresarial
Esquematizado, 2012, 2ª ed., p. 37 e 38): “Da primeira expressão destacada pode-se extrair o
seguinte: só será empresário aquele que exercer determinada atividade econômica de forma
profissional, ou seja, que fizer do exercício daquela atividade a sua profissão habitual.” Desse
modo, quem exercer determinada atividade econômica de forma esporádica não será
considerado empresário.
Atividade Econômica
Ainda, acerca desse elemento enuncia o referido doutrinador: “Ao destacarmos a expressão
atividade econômica, por sua vez, queremos enfatizar que a empresa é uma atividade exercida
com intuito lucrativo”.
Produção ou circulação de bens ou serviços
Por fim, em relação a este último elemento, pode-se dizer que denota que qualquer atividade
pode, em tese, ser caracterizada como empresária, desde que presente os demais elementos
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acima mencionados. Sobre esse tema, o referido doutrinador enuncia que: “Por fim, a última
expressão demonstra a abrangência da teoria da empresa, em contraposição à antiga teoria dos
atos de comércio, a qual, como visto, restringia o âmbito de incidência do regime jurídico
comercial a determinadas atividades econômicas elencadas na lei”.
71
LEGISLAÇÃO COMPILADA
Teoria Geral do Direito Empresarial:
CC/02: arts. 966-980-A
Empresário
Enunciado 58, CJF
O empresário individual casado é o destinatário da norma do art. 978 do CCB e não depende
da outorga conjugal para alienar ou gravar de ônus real o imóvel utilizado no exercício da
empresa, desde queexista prévia averbação de autorização conjugal à conferência do imóvel
ao patrimônio empresarial no cartório de registro de imóveis, com a consequente averbação do
ato à margem de sua inscrição no registro público de empresas mercantis.
Enunciado 195, CJF
Art. 966: A expressão “elemento de empresa” demanda interpretação econômica, devendo ser
analisada sob a égide da absorção da atividade intelectual, de natureza científica, literária ou
artística, como um dos fatores da organização empresarial.
Enunciado 197, CJF
A pessoa natural, maior de 16 e menor de 18 anos, é reputada empresário regular se satisfizer
os requisitos dos arts. 966 e 967; todavia, não tem direito a concordata preventiva, por não
exercer regularmente a atividade por mais de dois anos.
Enunciado 203, CJF
O exercício de empresa por empresário incapaz, representado ou assistido, somente é possível
nos casos de incapacidade superveniente ou incapacidade do sucessor na sucessão por morte.
Enunciado 204, CJF
72
Art. 977: A proibição de sociedade entre pessoas casadas sob o regime da comunhão universal
ou da separação obrigatória só atinge as sociedades constituídas após a vigência do Código
Civil de 2002.
Enunciado 205, CJF
Art. 977: Adotar as seguintes interpretações ao art. 977: (1) a vedação à participação de cônjuges
casados nas condições previstas no artigo refere-se unicamente a uma mesma sociedade; (2) o
artigo abrange tanto a participação originária (na constituição da sociedade) quanto a derivada,
isto é, fica vedado o ingresso de sócio casado em sociedade de que já participa o outro cônjuge.
Enunciado 198, CJF
A inscrição do empresário ou sociedade empresária é requisito delineador de sua regularidade,
e não da sua caracterização.
Enunciado 199, CJF
A inscrição do empresário na Junta Comercial não é requisito para a sua caracterização,
admitindo-se o exercício da empresa sem tal providência. O empresário irregular reúne os
requisitos do art. 966, sujeitando-se às normas do Código Civil e da legislação comercial, salvo
naquilo em que forem incompatíveis com a sua condição ou diante de expressa disposição em
contrário.
Enunciado 202, CJF
O registro do empresário ou sociedade rural na Junta Comercial é facultativo e de natureza
constitutiva, sujeitando-o ao regime jurídico empresarial. É inaplicável esse regime ao empresário
ou sociedade rural que não exercer tal opção.
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JURISPRUDÊNCIA
Sociedade Empresária
STJ, 1ª Turma. REsp 1358410/RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão. julgado em
04/08/2016.
Mesmo diante de contrato locatício celebrado entre o sócio e o empreendedor (locador) de
shopping center, há legitimidade ativa concorrente do sócio (pessoa física) e da sociedade
(pessoa jurídica) para pleitear indenização causada por danos ao estabelecimento situado em
shopping center. Em um contrato de shopping center, a sociedade empresária tem legitimidade
ativa "ad causam", em concorrência com o locatário - pessoa física -, para demandar o
empreendedor nas causas em que houver interesses relativos ao estabelecimento empresarial,
desde que, no contrato firmado entre as partes, haja a expressa destinação do espaço para a
realização das atividades empresariais da sociedade da qual faça parte.
STJ, 1ª Turma. REsp 1.227.240/SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão. julgado em
09/06/2015.
De acordo com o Código Civil, as sociedades podem ser de duas categorias: simples e
empresárias. Ambas exploram atividade econômica e objetivam o lucro. A diferença entre elas
reside no fato de a sociedade simples explorar atividade não empresarial, tais como as atividades
intelectuais, enquanto a sociedade empresária explora atividade econômica empresarial,
marcada pela organização dos fatores de produção (art. 982, CC). A sociedade simples é formada
por pessoas que exercem profissão do gênero intelectual, tendo como espécie a natureza
científica, literária ou artística, e mesmo que conte com a colaboração de auxiliares, o exercício
da profissão não constituirá elemento de empresa (III Jornada de Direito Civil, Enunciados n.
193, 194 e 195). As sociedades de advogados são sociedades simples marcadas pela inexistência
de organização dos fatores de produção para o desenvolvimento da atividade a que se propõem.
Os sócios, advogados, ainda que objetivem lucro, utilizem-se de estrutura complexa e contem
74
com colaboradores nunca revestirão caráter empresarial, tendo em vista a existência de expressa
vedação legal (arts. 15 a 17, Lei n. 8.906/1994). Impossível que sejam levados em consideração,
em processo de dissolução de sociedade simples, elementos típicos de sociedade empresária,
tais como bens incorpóreos, como a clientela e seu respectivo valor econômico e a estrutura do
escritório.
STJ. REsp 1682989/ RS 2017/0144466-0. T2. Rel Min. Herman Benjamin. DJ
19/09/2017, DJP 09/10/2017
AGRAVO DE INSTRUMENTO. TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. EMPRESÁRIO INDIVIDUAL.
REDIRECIONAMENTO. 1. A controvérsia cinge-se à responsabilidade patrimonial do empresário
individual e as formalidades legais para sua inclusão no polo passivo de execução de débito da
firma da qual era titular. 2. O acórdão recorrido entendeu que o empresário individual atua em
nome próprio, respondendo com seu patrimônio pessoal pelas obrigações assumidas no
exercício de suas atividades profissionais, sem as limitações de responsabilidade aplicáveis às
sociedades empresárias e demais pessoas jurídicas. 3. A jurisprudência do STJ já fixou o
entendimento de que "a empresa individual é mera ficção jurídica que permite à pessoa natural
atuar no mercado com vantagens próprias da pessoa jurídica, sem que a titularidade implique
distinção patrimonial entre o empresário individual e a pessoa natural titular da firma individual"
(REsp 1.355.000/SP, Rel. Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em 20/10/2016, DJe
10/11/2016) e de que "o empresário individual responde pelas obrigações adquiridas pela
pessoa jurídica, de modo que não há distinção entre pessoa física e jurídica, para os fins de
direito, inclusive no tange ao patrimônio de ambos" (AREsp 508.190, Rel. Min. Marco Buzzi,
Publicação em 4/5/2017). 4. Sendo assim, o empresário individual responde pela dívida da firma,
sem necessidade de instauração do procedimento de desconsideração da personalidade jurídica
(art. 50 do CC/2002 e arts. 133 e 137 do CPC/2015), por ausência de separação patrimonial que
justifique esse rito. 5. O entendimento adotado pelo Tribunal de origem guarda consonância
com a jurisprudência do STJ, o que já seria suficiente para se rejeitar a pretensão recursal com
base na Súmula 83/STJ. O referido verbete sumular aplica-se aos recursos interpostos tanto pela
alínea "a" quanto pela alínea "c" do permissivo constitucional. Nesse sentido: REsp 1.186.889/DF,
75
Segunda Turma, Relator Ministro Castro Meira, DJe de 2.6.2010. 6. Não obstante isso, não se
constata o preenchimento dos requisitos legais e regimentais para a propositura do Recurso
Especial pela alínea "c" do art. 105 da CF. 7. A apontada divergência deve ser comprovada,
cabendo a quem recorre demonstrar as circunstâncias que identificam ou assemelham os casos
confrontados, com a indicação da similitude fática e jurídica entre eles. 8. In casu, o recorrente
não se desincumbiu do ônus de demonstrar que os casos comparados tratam da mesma
situação fática: empresário individual. Ao revés, limitou-se a transcrever ementas e trechos que
versam sobre sociedade empresarial cuja diferença em relação ao caso dos autos foi
suficientemente explanada neste julgado. 9. Recurso Especial não conhecido.)
Direitos Fundamentais
As autoridades e os agentes fiscais tributários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios podem requisitar diretamente das instituições financeiras informações sobre as
movimentações bancáriasdos contribuintes. Esta possibilidade encontra-se prevista no art. 6º
da LC 105/2001, que foi considerada constitucional pelo STF. Isso porque esta previsão não se
caracteriza como "quebra" de sigilo bancário, ocorrendo apenas a “transferência de sigilo” dos
bancos ao Fisco.
STF. Plenário. RE 603616/RO, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 4 e 5/11/2015
(repercussão geral) (Info 806).
A entrada forçada em domicílio sem mandado judicial só é lícita, mesmo em período noturno,
quando amparada em fundadas razões, devidamente justificadas “a posteriori”, que indiquem
que dentro da casa ocorre situação de flagrante delito, sob pena de responsabilidade disciplinar,
civil e penal do agente ou da autoridade, e de nulidade dos atos praticados.
76
STF. Plenário. ADI 2404/DF, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 31/8/2016 (Info
837)
É inconstitucional a expressão “em horário diverso do autorizado” contida no art. 254 do ECA.
"Art. 254. Transmitir, através de rádio ou televisão, espetáculo em horário diverso do autorizado
ou sem aviso de sua classificação: Pena - multa de vinte a cem salários de referência; duplicada
em caso de reincidência a autoridade judiciária poderá determinar a suspensão da programação
da emissora por até dois dias." O Estado não pode determinar que os programas somente
possam ser exibidos em determinados horários. Isso seria uma imposição, o que é vedado pelo
texto constitucional por configurar censura. O Poder Público pode apenas recomendar os
horários adequados. A classificação dos programas é indicativa (e não obrigatória).
Mandado de Segurança
STF. RMS 32487, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Primeira Turma, julgado em
07/11/2017
O termo inicial para a formalização de mandado de segurança pressupõe a ciência do
impetrante, nos termos dos artigos 3º e 26 da Lei nº 9.784/1999, quando o ato impugnado
surgir no âmbito de processo administrativo do qual seja parte. MANDADO DE SEGURANÇA –
DILAÇÃO PROBATÓRIA – PRESCINDIBILIDADE. Instruído o processo com documentos suficientes
ao exame da pretensão veiculada na petição inicial, descabe suscitar a inadequação
da via mandamental.
STJ. AgInt no RMS 42.563/MG, Rel. Ministra REGINA HELENA COSTA, PRIMEIRA
TURMA, julgado em 23/05/2017, DJe 29/05/2017
PROCESSUAL CIVIL. ADMINISTRATIVO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ORDINÁRIO EM
MANDADO DE SEGURANÇA. CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015. APLICABILIDADE.
PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO BÁSICA. INOBSERVÂNCIA DO PISO SALARIAL ESTABELECIDO
77
EM LEI FEDERAL. MANDADO DE SEGURANÇA. ILEGITIMIDADE PASSIVA. TEORIA DA
ENCAMPAÇÃO. APLICABILIDADE. ARGUMENTOS INSUFICIENTES PARA DESCONSTITUIR A
DECISÃO ATACADA. I - Consoante o decidido pelo Plenário desta Corte na sessão realizada em
09.03.2016, o regime recursal será determinado pela data da publicação do provimento
jurisdicional impugnado. In casu, aplica-se o Código de Processo Civil de 2015. II - A
jurisprudência desta Corte firmou entendimento segundo o qual, a aplicação da teoria da
encampação, que mitiga a indicação errônea da autoridade coatora em mandado de segurança,
tem lugar quando presentes os seguintes requisitos: (i) vínculo hierárquico entre a autoridade
que prestou as informações e aquela que determinou a prática do ato; (ii) manifestação sobre
o mérito nas informações prestadas, e; (iii) ausência de modificação na competência
constitucionalmente estabelecida. III - In casu, observo ser cabível a aplicação da teoria da
encampação, porquanto: (i) existe vínculo hierárquico entre a autoridade apontada no
mandamus e aquela que seria legitimada a figurar no polo passivo (Governador do Estado e
Secretário Estadual de Planejamento e Gestão); (ii) a autoridade Impetrada, em suas informações,
manifestou-se sobre o mérito do mandamus (fl. 111e), e; (iii) conforme o art. 106, I, c, da
Constituição do Estado de Minas Gerais, não há modificação da competência do Tribunal de
Justiça. IV - O Agravante não apresenta, no agravo, argumentos suficientes para desconstituir a
decisão recorrida. V - Agravo Interno improvido.
STF. MS 25097, Relator(a): Min. GILMAR MENDES, Segunda Turma, julgado em
28/03/2017
Mandado de Segurança. 2. Ato do TCU. Suposta cumulação indevida de proventos. Suspensão
dos pagamentos. 3. Decadência. Verificação de impetração do mandamus em data posterior ao
prazo de 120 dias da ciência do ato impugnado. Superação. Medida liminar concedida há mais
de doze anos. Preservação da segurança jurídica. Precedentes do STF. 4. Cumulação de
proventos e pensões. Cargos públicos inacumuláveis em atividade. Regimes civil e militar.
Concessão anterior à Emenda Constitucional 20/1998. Possibilidade. Precedentes. 5. Segurança
concedida.
78
79
MAPA MENTAL
80
81
82
83
84
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial, volume 1: direito de empresa. São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2016.
FAZZIO JUNIOR, WALDO. Manual de direito comercial. São Paulo: Atlas, 2017.
MAMEDE, Gladston. Manual de direito empresarial. São Paulo: Atlas, 2017.
PENANTE JR, Francisco. Resumos para concursos, vol. 37, Direito Empresarial, 2ª edição. São
Paulo: Editora JusPodivm, 2017.
PENANTE JR, Francisco. LAURINDO, Felipe. Prática empresarial. Recife: Armador, 2016
DIREITO EMPRESARIAL
Capítulo 1
1. Teoria Geral Do Direito Empresarial
1.1 Evolução Histórica do Direito Empresarial
1.2 Conceito de empresa
1.2.1 Empresa como atividade
1.2.2 Economicidade
1.2.3 Organização
1.2.4 Profissionalismo
1.2.5 Objetivo Específico
1.3 Fixação de Regime Jurídico
1.4 O Empresário
1.4.1 Conceito e Espécies
1.4.2 Caracterização
1.
1.1
1.2
1.3
1.4
1.4.1
1.4.2
1.4.3 Empresário Rural
1.4.4 Empresário Casado
1.5 Dos requisitos de regularidade
1.5.1 Da Inscrição
1.5.2 Da capacidade
1.5.3 Ausência de impedimento legal
1.6 Da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (EIRELI)
1.7 Microempreendedor Individual, Microempresa e Empresa de Pequeno Porte
1.8 Estabelecimento empresarial
1.8.1 Trespasse
1.8.2 Eficácia do trespasse
1.8.3 Responsabilidade do adquirente e do alienante
1.8.4 Sub-rogação nos contratos de exploração
1.8.5 Aviamento
1.8.6 Ponto comercial
1.8.7 Ação Renovatória
QUADRO SINÓTICO
QUESTÕES COMENTADAS
GABARITO
QUESTÃO DESAFIO
GABARITO QUESTÃO DESAFIO
LEGISLAÇÃO COMPILADA
JURISPRUDÊNCIA
MAPA MENTAL
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS