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1 FACULDADE FUTURA CONTÉUDOS E METODOLOGIA DA MATEMÁTICA VOTUPORANGA – SP 2 SUMÁRIO 1 O CURRÍCULO E SEUS ENTRAVES ............................................... 5 2 O CURRÍCULO .................................................................................. 6 3 POLÍTICA CURRICULAR .................................................................. 9 4 GESTÃO PARTICIPATIVA .............................................................. 10 5 PLANEJAMENTO ............................................................................ 13 6 RECURSOS ..................................................................................... 16 7 FORMAÇÃO DE PROFESSOR ....................................................... 18 8 A MODELAGEM MATEMÁTICA NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM DE MATEMÁTICA. ............................................................. 20 9 O JOGO NA EDUCAÇÃO: ASPECTOS DIDÁTICO- METODOLÓGICOS DO JOGO NA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA .................... 23 10 Texto adaptado de Prof.ª Drª Regina Célia Grando...................... 23 11 JOGO DESENVOLVIMENTO ....................................................... 24 12 JOGO NO ENSINO DA MATEMÁTICA ........................................ 25 13 COOPERAÇÃO NO JOGO DE REGRAS .................................... 28 14 A ANÁLISE DE POSSIBILIDADES NO JOGO DE REGRAS ....... 30 15 O ERRO NA SITUAÇÃO DE JOGO ............................................. 30 16 CÁLCULO MENTAL E JOGO ....................................................... 31 17 MATEMÁTICA NO ENSINO FUNDAMENTAL ............................. 32 18 BREVE ANÁLISE DA TRAJETÓRIA DAS REFORMAS CURRICULARES ............................................................................................. 33 19 O CONHECIMENTO MATEMÁTICO ............................................ 40 19.1 PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS ....................................... 40 20 MATEMÁTICA E CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA ...................... 43 21 A MATEMÁTICA E OS TEMAS TRANSVERSAIS ....................... 46 22 ÉTICA ........................................................................................... 47 3 22.1 ORIENTAÇÃO SEXUAL ........................................................ 48 22.2 MEIO AMBIENTE ................................................................... 49 22.3 SAÚDE ................................................................................... 50 22.4 PLURALIDADE CULTURAL .................................................. 51 22.5 TRABALHO E CONSUMO ..................................................... 52 23 APRENDER E ENSINAR MATEMÁTICA NO ENSINO FUNDAMENTAL .............................................................................................. 56 24 O PROFESSOR E O SABER MATEMÁTICO .............................. 57 25 O ALUNO E O SABER MATEMÁTICO ........................................ 58 26 AS RELAÇÕES PROFESSOR-ALUNO E ALUNO-ALUNO ......... 59 27 A RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS E O ENSINO-APRENDIZAGEM DE MATEMÁTICA ............................................................................................ 62 28 ALGUNS CAMINHOS PARA “FAZER MATEMÁTICA” NA SALA DE AULA 65 29 O RECURSO À HISTÓRIA DA MATEMÁTICA ............................ 66 30 O RECURSO ÀS TECNOLOGIAS DA COMUNICAÇÃO ............. 67 31 O RECURSO AOS JOGOS .......................................................... 71 32 SELEÇÃO DE CONTEÚDOS ....................................................... 73 33 NÚMEROS E OPERAÇÕES ........................................................ 75 34 ESPAÇO E FORMA ..................................................................... 76 35 GRANDEZAS E MEDIDAS ........................................................... 77 36 TRATAMENTO DA INFORMAÇÃO .............................................. 78 37 ORGANIZAÇÃO DE CONTEÚDOS ............................................. 79 38 AVALIAÇÃO EM MATEMÁTICA................................................... 80 39 A EDUCAÇÃO MATEMÁTICA...................................................... 83 40 O SURGIMENTO DA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA ENQUANTO CAMPO PROFISSIONAL E CIENTÍFICO ........................................................ 84 41 O OBJETO DE ESTUDO DA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA .......... 86 4 41.1 Objetivos da pesquisa em Educação Matemática .................. 86 41.2 Algumas questões ou perguntas específicas da investigação em Educação Matemática ............................................................................ 86 41.3 Tendências temáticas e metodológicas da pesquisa em Educação Matemática .................................................................................. 87 42 Processos de ensino/aprendizagem de Matemática: ................... 87 43 Mudanças curriculares: ................................................................. 88 44 Emprego de novas tecnologias no ensino de Matemática: ........... 90 44.1 Práticas docentes (crenças, concepções e saberes práticos): 90 44.2 Desenvolvimento profissional (de professores): ..................... 91 44.3 Práticas de avaliação: ............................................................ 92 45 Contexto sociocultural e político do ensino e aprendizagem de Matemática: 92 46 Algumas linhas internacionais de pesquisa em Educação Matemática 93 47 O QUE SÃO TENDÊNCIAS DA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA? .... 95 48 AS TENDÊNCIAS ATUAIS NO ENSINO DE MATEMÁTICA – EDUCAÇÃO MATEMÁTICA ............................................................................. 97 49 EDUCAÇÃO MATEMÁTICA CRÍTICA .......................................... 98 50 ETNOMATEMÁTICA .................................................................... 98 51 MODELAGEM MATEMÁTICA ...................................................... 99 52 MÍDIAS TECNOLÓGICAS ............................................................ 99 53 HISTÓRIA DA MATEMÁTICA .................................................... 100 54 INVESTIGAÇÃO MATEMÁTICA ................................................ 100 55 RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS ................................................ 101 56 A RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS NUMA PERSPECTIVA METODOLÓGICA .......................................................................................... 103 bibliografia ........................................................................................... 105 5 1 O CURRÍCULO E SEUS ENTRAVES Fonte: www.escolaaberta.com.br/ 1 A educação atual passa por inúmeros entraves. Vários aspectos são pensados e analisados em prol da qualidade de ensino, porém o que se identifica como elemento chave nesta complexidade são as características curriculares e o seu funcionamento. O currículo é um instrumento de função socializador, um elemento imprescindível à prática pedagógica, pois ele está estritamente ligado às variações dos conteúdos, a sociedade a profissionalização dos docentes. A educação tem poder ímpar na sociedade, através dela é que o conhecimento é distribuído e o currículo passa a ser considerado como um veículo de interesses sociais que concordam com valores e crenças dos grupos dominantes. O currículo é o enfoque principal da educação, pois é só através dele que acontecem os processos de mudanças. O mundo está em movimento acelerado de transformações e a escola, como veículo socializador, deve oferecer um currículo que acompanhe essas mudanças para que não se torne 1 Texto adaptado de Kátia Saone Santos Araújo 6 algo obsoleto, sem funcionalidadequando relacionarmos com outras instâncias de informações tão próximas e tão presentes na vida da humanidade. 2 O CURRÍCULO Fonte: www.4.bp.blogspot.com/ Ao relacionar mudanças e transformações ao contexto escolar estamos analisando os aspectos reais e criando hipóteses de solucionar ou interpretar o mundo moderno e a escola. É nessa perspectiva que propomos uma análise da realidade escolar atual, tal como se dá o processo educacional e a relação que se deve estabelecer entre responsabilidade social e o papel da escola, pois o currículo nos níveis de educação obrigatório, pretende refletir o esquema socializador formativo e cultural que a instituição escolar tem. (Sacristan, 2000). Para se ter claro o “x” da questão é necessário esclarecer o conceito de currículo e só então relacionar seus problemas aos fatores reais e atuais da educação. Muitos teóricos se assemelham, outros divergem quando se conceitua o currículo, porém o que se percebe é que esta discussão no âmbito pedagógico é muito recente: Normalmente atribuímos essa problemática aos comportamentos didáticos, políticos, administrativos e econômicos, mas todos esses aspectos estão ligados entre si e todos são responsáveis por essa construção e disseminação, porém é necessário um olhar minucioso no que se 7 refere à prática curricular e a complexidade em que ela está envolvida, pois o fazer pedagógico deve ter a excelência das mudanças e transformações sócias. Grundy (1987) apud Sacristan (2000) analiza-o como: O currículo não é um conceito, mas uma construção cultural. Isto é, não se trata de um conceito abstrato que tenha algum tipo de existência fora e previamente à experiência humana. É, antes, um modo de organizar uma série de práticas educativas. O currículo não pode ser associado a apenas um documento didático, seu aspecto é bem maior e abrange uma gama de caracteres do âmbito educacional e social simultaneamente, essa relação significa uma organização das experiências humanas em prol da prática educativa, porém seu conceito abrange diversos seguimentos da educação. De acordo com a expressão de Grundy (1987), o currículo não pode estar fora e nem prévios as experiências humanas. É o que nos faz pensar em como acontece o processo ensino aprendizagem? E como se relacionam os envolvidos nesta perspectiva de educação? O desenvolvimento curricular nas escolas não corresponde ao que é necessário e nem atrativo para o sistema educacional atual, visto que as mudanças ocorridas são muitas e as escolas não acompanham essa evolução. O desenvolvimento científico e tecnológico é visível. É necessário que a escola repense sobre a sua função e como se processa dentro desse contexto atual. Pois o mito que a escola era única fonte de conhecimento e de cultura já está ultrapassado. É lamentável que as aprendizagens escolares continuam sendo dissociadas da aprendizagem experiencial dos alunos, pois essas experiências são recursos de libertação e de conscientização crítica. Para Sacristan (2000) esse distanciamento se deve à própria seleção de conteúdo dentro do currículo e a ritualização dos procedimentos escolares, esclerosados na atualidade. É necessário que a escola se torne aliada desse desenvolvimento realizando uma educação completa aos atrativos sociais, evitando que aconteça a famosa escolaridade paralela, tão frequente nas classes média e 8 alta dos ambientes urbanos. Essa dissociação entre a cultura curricular e os meios externos vão deixando a primeira mais obsoleta, ocasionando consequências visíveis aos grupos de alunos, pois ao analisarmos as causas do fracasso escolar percebemos que um dos principais motivos do desinteresse dos alunos é a falta de atrativo do sistema educacional. Mas Perrenoud, em seu livro Pedagogia da Diferença (2000), constata o fracasso escolar como um dueto entre as desigualdades reais de capital cultural e as hierarquias de excelência. Essa forma de analisar o fracasso escolar, na visão de Perrenoud, demonstra a falta de oportunidade de alguns (quase todos), em usufruir da educação. Porém acredito que essa dominância do saber deve ser derrubada, pois já basta essa sociedade excludente de oportunidades e de perspectivas futuras, é necessário acabar com esse quadro vergonhoso, a escola deve conscientizar-se do seu papel e analisar quais são os entraves e as formas de modificar essa realidade tão enraizada na educação brasileira. Desta forma, ainda especifico o currículo como a principal diretriz para o quadro educacional e atribuo a ele os méritos e os fracassos da educação, pois um currículo onde se focaliza um olhar à singularidade, que assume sua função socializadora, onde o principal objetivo é o compromisso o fazer pedagógico, esse sim, refere-se ao currículo real. Mas, a visão que prolifera é de currículo como grade curricular, ou seja, um agrupamento de assuntos a serem desenvolvidos durantes alguns anos de uma série determinada, sem dar valor ou significado ao que se deve ser aprendido e sem nenhum compromisso com o fazer social. Rule (1973), define o currículo como experiências humanas organizadas para a prática educativa e que se diferenciam através dos objetivos e da forma expressada no programa da escola. Desta forma, compreender o currículo através das sistematizações das experiências dos alunos significa relacioná-lo à tradição cultural, a reflexão do contexto social, pois esse mecanismo de aprendizagem distribui o conhecimento concreto, real e crítico, fazendo com que os alunos se tornem agentes construtores do processo. O currículo está basicamente ligado ao contexto educacional, mas para compreender seu significado deve-se conhecer as estruturas internas, 9 Sacristan (2000), que estão ligadas ao enquadramento político, à divisão de decisão, ao planejamento, a tradução de materiais, ao manejo por parte do professorando das tarefas de aprendizagem e a avaliação dos resultados. 3 POLÍTICA CURRICULAR Fonte: www.notícias.universia.com.br/ Ao que no referimos quando falamos em política curricular? Este é um aspecto especifico da política educativa que estabelece a forma de selecionar, ordenar e mudar o currículo dentro do sistema educativo, tornado claro o poder e a autonomia que diferentes agentes têm sobre ele, intervindo, dessa forma, na distribuição do conhecimento dentro do sistema escolar e iniciando na prática educativa, enquanto apresenta o currículo seus consumidores, ordenam seus conteúdos e códigos de diferentes tipos. (SACRISTAN, 2000; p 109). A política é responsável por selecionar, ordenar e mudar o currículo, este trecho da citação de Sacristan (2000), deixa a reflexão sobre o quê e quem estabelece interesses pelo contexto educacional, já que veículo passa por instâncias administrativas que regulam e condicionam o sistema curricular. Quando a escola utiliza o currículo através das prescrições política está homogeneizando a aprendizagem, executá-lo desta maneira deixa de ser uma sistematização de experiência para se torna uma forma empírica de educação, deformando toda a ideia central que o currículo é um instrumento significativo para desenvolver os processos de conservação, transformação e renovação dos conhecimentos, Moreira (2003). 10 Sabe-se que a política administrativa interfere na política curricular, pois a relação entre ambas é alicerçada nos interesses próprios de cada uma, estabelecendo mecanismo para homogeneizar informações e condicionar conteúdos que favoreça a instância mais importante. Porém, não se pode separar uma da outra, o ideal seriaque a política administrativa exercesse a função de reguladora do sistema curricular, ou seja, assumiria a função de criar dispositivos para uma organização de conteúdo, relacionando a cultura aos saberes específicos de cada grupo. No Brasil, a realidade é ainda muito diferente, pois a alienação social e o “descompromisso” diante da educação, Gadotti (2000), é um fato. Ficando para poucos, o que seria de todos. Só se sabe o que é educação quem constrói educação. O ideal seria que todos estivessem comprometidos em prol de um objetivo único, ou seja, a valorização da educação, assegurando assim, o direito a um diferencial educacional, tornando esse contexto um veículo para a ascensão social. 4 GESTÃO PARTICIPATIVA Fonte: www.inesc.org.br A educação numa perspectiva de mudança curricular envolve todos os grupos sociais. Paulo Freire em uma das mais conceituadas citações, “Ninguém educa ninguém. Ninguém se educa sozinho. Os homens se educam 11 em comunhão, mediados pelo mundo”, destaca a importância do meio como estratégia de aprendizagem. Desta forma vale analisar o funcionamento da escola e os aspectos sociais que a envolve. No livro Gestão da Escola, Desafios a Enfrentar, Vieira (2002) aborda a educação contemporânea e os aspectos que influenciaram esse sistema. Dos fatores destacados um é bastante pertinente para a reflexão de que a escola por si só não garante os desafios modernos. Vieira (2002) transferiu de forma grandiosa a responsabilidade dos pilares da educação ao sistema de gestão da escola, ou seja, aprender a conhecer, aprender a fazer aprender a conviver e aprender o ser (UNESCO 1999), não é função apenas do sistema escolar como um todo, mas competências a serem conquistada pelo gestor educacional. 1. Aprender a conhecer o mundo contemporâneo e relacioná- lo com as demandas de cada escola (sua clientela - seus sonhos, suas necessidades, seus direitos – seus profissionais, sua vizinhança, suas condições etc.); 2. Aprender a planejar e fazer (construir, realizar) a escola que se quer (o seu projeto pedagógico); 3. Aprender a conviver com tantas diferentes pessoas, definindo e partilhando com elas o projeto da escola; 4. Aprender a utilizar, sem medos, as próprias potencialidades de crescimento e formação contínua. O mundo está em processo de transformações contínuas. As mudanças ocorridas na sociedade devem estar conectadas com a escola, pois a função da mesma é possibilitar o crescimento intelectual, crítico e participativo dos cidadãos, sendo ela o melhor meio para disseminar essa cultura. Desta forma, é necessário que a mesma reveja os seus conceitos, assim como seu processo. Se a escola tem como objetivo uma formação democrática ela deve ter uma prática democrática, ou seja, o conhecimento deve expandir os muros da escola, e desarticular o que temos hoje, herança da cultura da educação tradicional, onde a prática educativa baseava-se na transmissão e na 12 assimilação dos conteúdos pré-estabelecidos de um currículo muito convencional. Vivemos ainda na marca do tradicionalismo, onde um sabe e o outro aprende do que sabe, não há integração nem reformulação, há sim uma transmissão. Essa prática circunda todo universo escolar. Um ensina e o outro aprende, um manda e o outro obedece. Se procurarmos rever essa prática teremos que mudar a postura, e uma das formas para que isso aconteça é a delegação de atividades e a descentralização do comando. A escola não está disposta a um único sistema, a escola é de todos e para todos (UNESCO). A escola por si, não resolve a questão curricular, mas ela e seus agentes internos (gestão, professores e alunos) são fatores imprescindíveis para o seu desenvolvimento. Um sistema único e descentralizado supõe objetivos e metas educacionais claramente estabelecidos entre a escola e o governo, visando à democratização do acesso e da gestão e a construção de uma nova qualidade de ensino, fundada nas necessidades básicas de aprendizagem da comunidade. (GODOTTI, 2000; p 51). A hierarquia do poder é algo forte que mexe com as estruturas internas do coletivo, como já citado, somos sustentados pela prática da obediência, desta forma o universo escolar torna-se um espaço complexo no que se refere ao comando, não somos educados para dividirmos soluções, e sim de aceitá-las ou discordá-la alicerçando a cultura do falar mal do sistema. Infelizmente ainda há necessidades de mudanças. Mudanças essas que passam além do universo da escola. Para que isso aconteça é necessário uma reformulação na capacitação do gestor, onde se torne claro que o seu papel é de organizador de um sistema onde todos são participantes ativos na busca de um objetivo único, a educação. Durante muito tempo, o gestor escolar deveria ter apenas a competências de resolver problemas burocráticos, como organizar orçamentos, calendários, vagas entre outros, porém a escola urge por muito mais, ela não se vale apenas disso. O gestor educacional ainda possuindo tais competências precisa assumir uma postura de líder, ou seja, ser capaz de entender todas as instâncias da educação exercendo sua função de administrador cumprido com os prazos e metas, compreendendo e qualificando o fazer pedagógico, e 13 envolvendo a comunidade no processo escolar, tornando a escola um agente social. Visto que a LDB/96 aprova no art. 3º uma gestão democrática, e o grau de complexidade que envolve essa demanda, é que se torna necessário o gestor estar próximo da comunidade, percebendo suas necessidades e fazendo da escola um local para um ideal de transformação. 5 PLANEJAMENTO Fonte: www.ceviu.com.br/ Toda organização é fundamental, o ato de planejar é algo constante em nossas vidas, pois a todo tempo estamos planejando ou organizando uma ação. Mas para escola o planejamento tem um valor fundamental ele circunda todas as instâncias da educação, ou seja, se planeja a escola pra se planejar a aula. Vasconcelos (1995), confirma essa hipótese quando diz que o planejamento é o processo de tomada de decisões sobre a dinâmica da ação escolar. É previsão sistemática e ordenada de toda a vida escolar do aluno. Organizar o currículo é atribuir sentido para uma nova prática, ou seja, é possibilitar uma operação entre a intenção e a ação. 14 O plano curricular é forma de executar o que foi idealizado é atribuir sentido ao projeto pedagógico, pois a escola se assume em sua ação no fazer educação. A construção do planejamento curricular está ligada à forma em que ele será executado, muitas vezes ficando por conta da política que o prescreveu ou então dos fabricantes de livros didáticos que lhe construiu. Desta forma, a escola é apenas um executor de uma receita pronta, é disseminadora de uma cultura local que muitas vezes não é a real. Uma educação voltada para uma intencionalidade tem que haver uma organização mais substancial na construção do currículo. Favorecendo um plano em que o currículo seja significativo para os alunos. Ao desprezar a visão tradicional do currículo como organizador de conteúdo, e reavaliar o conceito do mesmo atribuindo seu significado como projeto educativo a ser construído com base nas necessidades de um grupo e na sistematização de conceitos próprios, é estamos dando a aprendizagem uma forma real e significativa para seus educandos. Os professores são mediadores entre o currículo e os alunos, nesta perspectiva o planejamento da prática deve envolver singularidades dos alunos e os aspectos culturais e sociais do meio em que ele faz parte, pois planejar está além de atenderos objetivos e conteúdo do currículo, Sacristan (2000), tornando assim o contexto de sala de aula um ambiente em que a aprendizagem ocorra de acordo com os ideais da realidade. Sabala (1998), ao se referir ao fazer pedagógico, no seu livro Prática Educativa, ele não descarta a possibilidade de utilização dos materiais curriculares e sim uma reavaliação dos mesmos em função da demanda escolar. Os materiais curriculares, como variável metodológica, seguidamente são menosprezados, apesar de este menosprezo ser coerente, dada à importância real em que tem estes materiais. (ZABALA, pg. 167, 1998). Neste trecho, Zavala (1998) deixa claro que os materiais curriculares são fontes para os professores, mas no próximo seguimento ele justifica que os 15 mesmo se não forem utilizados de forma adequada pode ditar convenções e regras determinadas por uma visão unilateral e até mesma estereotipada de uma realidade dita convencional. O projeto pedagógico muitas vezes é confundido como plano, não que nele seja descartado as metas e os procedimentos, mas que nele abranja outras demandas da escola, Gadotti (2000), conceitua o projeto pedagógico como o confronto entre instituído e o instituinte, ou seja, a escola não deve negar ao instituído a sua história, a sua vivência e sim relacioná-la com o contexto educacional tornando o sujeito da sua aprendizagem. É nesta perspectiva que se torna essencial o papel do gestor e seu envolvimento com a diversidade, pois só através dessa relação é que ele se torna apto para construir um verdadeiro projeto pedagógico valorizando as diferenças e especificidades do seu sistema educativo. A escola não tem um fim em si mesma. Ela está a serviço da comunidade. Gadotti (2000), desta forma torna se claro o papel da escola e a função do gestor no que se refere em tornar a escola um objeto de sistematização das necessidades sociais e a melhor forma para conhecer estas necessidades e proporcionando uma relação mútua entre a escola e os seus envolvidos (alunos, pais, professores, comunidade), tornando todos participantes nesta construção. O envolvimento da comunidade na escola não deve se limitar a reuniões periódicas para transmissão de informações e sim na participação ativa das tomadas de decisões, elaborando uma consciência crítica, criativa e autônoma na construção do projeto pedagógico. O gestor deve ter a consciência da capacidade funcional dos seus atores e através deles criar projetos ousados em prol do crescimento da sua comunidade, ou seja, a formação é necessária e a valorização dos seus componentes também. Desta forma, a escola se tornará espaço onde se construa saber e que se prolifere a ação comunitária. 16 6 RECURSOS Os recursos didáticos são fontes fundamentais na elaboração e na execução do currículo, seu caráter muitas vezes chega a determinar, ditar e conduzir a ação do professor. Porém não se pode desprezar o valor dos recursos em prol da aprendizagem, pois a existência de tais meios favorece, ampliam e veiculam as tomadas de decisões na escola. Para se ter claro à importância deste aspecto Zabala (1998), conceitua os recursos didáticos como: Fonte: www.treasy.com.br Os materiais curriculares ou materiais de desenvolvimento curricular são todos aqueles instrumentos que proporcionam ao educador referências e critérios parar tomar decisões, tanto no planejamento com a intervenção direta no processo de ensino/aprendizagem e em sua avaliação. (1998 pg.167). O autor evidência neste trecho a importância dos recursos como instrumento para tomadas de decisão, tornando este aspecto fundamental para o desenvolvimento curricular, mas o que proponho é uma reflexão sobre os aspectos dominantes dos recursos. Um dos maiores entraves do currículo é torná-lo significativo e ao mesmo tempo atraente para os alunos, ou seja, vivemos hoje rodeados por uma infinidade de recursos. A todo tempo estamos em contato com informações, e estas são transmitidas de diferentes formas, tornando a escola e seu conteúdo obsoleto para as pretensões dos alunos. 17 Desta forma caracterizo a utilização dos recursos como algo imprescindível para educação, pois se tomarmos como premissa que a educação se constrói a todo instante, teremos a confirmação que a todo o momento estamos passando por construção ou por uma ressignificação de conceitos, podendo este acontecer de forma determinada ou não. Infelizmente, a realidade atual da educação brasileira deixa a desejar tanto no seu funcionamento quanto na sua execução, desta forma possibilitar a educação um currículo compatível com as mudanças sociais é mesmo que proporcionar recursos compatíveis para seu desenvolvimento, pois a educação não se faz apenas com transmissão. É percebível a dificuldade das escolas em ter acesso aos recursos pedagógicos primários para o desenvolvimento da prática educativa, mas é necessário que a mesma identifique no social os caracteres importantes para seu funcionamento, assim como é fundamental que as políticas públicas disponibilizem recursos para sua aquisição e expansão nas escolas. Tendo em vista a dificuldade que o sistema educacional enfrenta é que se faz necessário uma análise sobre como se desenvolve a política educacional perante a aquisição dos materiais didáticos. As políticas públicas têm a consciência que a educação é um instrumento fundamental para o desenvolvimento econômico do país desta forma estabelecer subsídios para esse desenvolvimento é promover a redução da pobreza. Sabendo que a educação se faz mola mestre na economia do país é que investidores como o Banco Mundial, possibilitam meios como estratégia de custo benefício. A educação básica proporciona o conhecimento, as habilidades e as atitudes essenciais para funcionar de maneira efetiva na sociedade sendo, portanto, uma prioridade em todo lugar. (BANCO MUNDIAL apud TOMMASI, 2003, pg. 131). Como o BM tem interesse em aumentar a qualidade educacional valorizando esse aspecto como subsidio para o desenvolvimento social, disponibiliza recursos através de financiamentos de projetos que acumulam cerca 250 bilhões de dólares Soares (2003), o propósito deste, é impulsionar 18 as mudanças necessária na alocação dos recursos, definindo como ações prioritária para mudanças significativas no âmbito educacional. Uma das principais medidas é providenciar livros didáticos e outros materiais de ensino (livros de leitura, jogos e brinquedo pedagógico), Tommasi (2003). A disponibilização de tais recursos é fundamental para o desenvolvimento do currículo, visto que, o BM definiu a melhoria dele como frente de trabalho no setor da educação primaria Tommasi (2003), porém acredito que um se relaciona com o desenvolvimento do outro, apesar da preocupação central estar na aquisição dos livros didáticos, compreendo a necessidade dos recursos ultrapassarem as fronteiras dos livros, não desmerecendo sua necessidade, mas compreendendo que apenas eles não satisfazem as mudanças necessárias na educação. O livro didático alicerça uma cultura educacional, assim como o currículo como todo, pois alguns profissionais conceituam o currículo apenas como aglomerados de conteúdo ou conceitos a serem seguidos e estes muitas vezes ditam ou determinam. 7 FORMAÇÃO DE PROFESSOR Fonte: blogsferas.files.wordpress.com/ O professor como executor do currículo escolar, torna-se elemento chave para o desenvolvimento do mesmo, pois através da prática docente é que se atribui significância ao currículo escolar. 19 Sabendo que, o currículo não se determinacomo um programa de ensino e que a sua execução se faz em um ambiente repleto de subjetividade e complexidade é que se torna necessário uma avaliação sobre como se baseia e se executa a prática pedagógica. Autores como Demo (1993), Sacristan (2000), Perround (2000), Gadotti (2000) e Pimenta (2002), evidenciam em suas obras a importância da formação do professor, destacando que o professor não é apenas um executor do currículo como ferramenta e sim um construtor deste subsídio, que baseia a educação. Ao analisar a importância do professor e da sua formação Demo (1993), caracteriza atuação como algo insubstituível, porém ele compreende o professor como um pesquisador, onde a sua meta é de ser mestre e jamais discípulo, desta forma ele evidencia o valor do mesmo e da sua formação, pois nada mais essencial que o professor estabelecer uma crítica perante o regime e a sua atuação educacional. Sabe-se que a evolução e a transmissão dos conhecimentos se propagam velozmente e que a formação do professor não dá conta dessa demanda, as exigências perante a ação educacional são grandes. O professor como pesquisador é fundamental, porém acredito que é necessário possibilitar a construção de um currículo renovador, onde tanto o professor quanto o aluno possa ser o mediador desta construção, Pimenta (2002) confirma essa hipótese referindo-se que a formação inicial, por melhor que seja não dá conta de colocar o professor à altura desta responsabilidade através de seu trabalho, assim como das novas necessidades que lhe são exigidas para melhorar a qualidade social de escolarização. Desta forma evidencia uma das competências descrita por Perrenoud (2000), que é o professor administrar sua própria formação contínua. Para Sacristan (2000): A formação do professor não costuma ser das mais adequada quanto ao nível e a qualidade para que estes possam abordar com autonomia o plano de sua própria prática. Com certeza porque tecnicamente não esteja bem estruturada e desenvolvida, mas talvez também parta do pressuposto que tal competência possa ser substituída por outros meios. 20 Essa citação deixa a ambivalência sobre o seu sentido, pois o professor como autônomo desenvolve sua prática significativa, apesar da sua formação não possibilitar subsídios e competências para isto, ele como participante da ação curricular tem o dever torná-lo com a prática, baseada ação cultural e social. Mas ao mesmo tempo Sacristan (2000), desresponsabiliza o professor de tal atuação confirmando a teoria que a aprendizagem pode e deve acontecer em diferentes ambientes. 8 A MODELAGEM MATEMÁTICA NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM DE MATEMÁTICA. Fonte: www.1.bp.blogspot.com/ Texto adaptado de Vilma Cândida Bueno e Frederico da Silva Reis A Modelagem Matemática trata do processo da criação de um modelo que posteriormente deverá ser aplicado na resolução do problema que originou a criação do modelo. Entendemos que “o fazer Modelagem Matemática” consiste em partir de um fato real ou semirreal e criar, por meio da coleta, análise e organização dos dados coletados, uma expressão em linguagem matemática que possa servir de parâmetro para descrição e compreensão da 21 realidade pelo modelo criado. Assim, é contundente dizer que o modelo matemático é obtido quando conseguimos traduzir para a linguagem formal- simbólica a linguagem das hipóteses, ou seja, quando conseguimos extrair o essencial da situação–problema e transformá-lo em linguagem matemática sistematizada. É passível dizer que do ponto de vista conceitual, não existe uma definição única do que seja Modelagem Matemática, tanto na fala de educadores quanto na fala de pesquisadores sobre o assunto. Pesquisas a respeito do assunto nos levam à conclusão de que existem diversas linhas nesse segmento. A maioria, no entanto, identifica o “modelo” como a descrição de um problema em termos reais onde a resolução é estudada, sistematizada em informações matemáticas e trazidas de volta ao problema original (ANASTÁCIO, 1991; BASSANEI, 2002; MULLER, 1986; BARBOSA, 1999, 2002, BIEMBENGUTT, 1990; BIEMBENGUTT & HEIN, 2003). Embora reconhecendo que a Modelagem Matemática possa ser analisada em diversas linhas de seguimento; passando pelo campo cientifico, pela matemática aplicada, pelos experimentos sociais até o campo do ensino e aprendizagem; este minicurso terá sua atenção voltada à Modelagem Matemática vista como método alternativo de ensino, na perspectiva da Educação Matemática. No que diz respeito à aprendizagem de conceitos matemáticos, a Modelagem Matemática vem sendo considerada bastante eficaz, em vários níveis de ensino, enfatizada no currículo de Matemática “como processo de capacitação do aluno para a análise global da realidade na qual ele tem sua ação” (D’AMBROSIO, citado por ANASTÁCIO,1991, p.51). Ensinar por meio da modelagem, no entanto, exige um arriscado trabalho de tentativas. Pode-se, ainda, esbarrar em obstáculos como falta de tempo, falta de interesse dos alunos e despreparo dos professores. Sendo assim, um bom trabalho com Modelagem Matemática, como instrumento metodológico, exige três coisas essenciais: flexibilidade, criatividade e entusiasmo, tanto por parte dos alunos como por parte do professor. Diversas abordagens teóricas e práticas têm sido sugeridas e desenvolvidas por educadores matemáticos como alternativa de ensino que busca o equilíbrio entre currículo e aplicabilidade do conhecimento. Segundo 22 BIEMBENGUT (1990), no Brasil, a proposta da Modelagem Matemática emergiu por volta da década de 70. Encontramos vasto material que comprova que esse segmento tem chamado à atenção da comunidade de educadores matemáticos e que as experiências desenvolvidas abrangem desde os primeiros anos do ensino fundamental até cursos de pós-graduação. Na visão de BIENBENGUT & HEIN (2003), a interação que permite transformar uma situação real em um “modelo matemático” pertinente deve seguir três etapas básicas, sendo cada etapa subdividida em duas subetapas: “Interação” Reconhecimento da situação-problema; Familiarização com o assunto a ser modelado. “Matematização” Formalização do problema; Resolução do problema em termos do modelo. “Modelo Matemático” Interpretação da solução; Validação do modelo. Segundo a proposta curricular de Matemática para a Educação Básica – 2005, da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais, o projeto pedagógico para a Matemática deve ser elaborado de forma articulada com as outras disciplinas e, sempre que possível, ressaltar a relação entre os conceitos abstratos com as suas aplicações concretas tanto na aula de matemática quanto na disciplina em que está sendo utilizada. Compactuando com esta ideia, a Modelagem Matemática é justificada dentro da proposta curricular porque oferece amplo espaço para investigação e análise de problemas que transitam por vários campos do conhecimento como mecânica, economia, biologia, crescimento populacional, agricultura, setor industrial, saúde, engenharia, construção civil, área comercial, etc. Na visão de BARBOSA (2002), a modelagem como ambiente de aprendizagem favorece a investigação de outras áreas do conhecimento por meio da matemática: 23 Modelagem é um ambiente de aprendizagem no qual os alunos são convidados a indagar e/ou investigar, por meio da matemática, situações oriundas de outras áreas do conhecimento. Se tomarmos modelagem de um ponto de vista sócio crítico, a indagação ultrapassa a formulação ou compreensão de um problema, integrandoos conhecimentos de matemática, de modelagem e reflexivo (p.06). Uma característica fortemente observada nos princípios norteadores pautados nos PCN é que a matemática deve ter um aspecto de inserção social e política, o que certamente conduzirá a uma maior aplicabilidade dos conceitos aprendidos. É necessário, portanto, implementar nas salas de aula uma prática de ensino e aprendizagem que valorize o espírito de investigação, a formulação de conjecturas e a argumentação. Nesta ótica, parece razoável apontar aspectos em que os PCN apresentam consenso com a área da Modelagem Matemática, como por exemplo, indicar questões que geram reflexões e uma atuação construtiva e cooperativa no meio em que se vive. Além disso, tem-se em vista a busca de explicações para fenômenos sociais e naturais de outras áreas do conhecimento, legitimando assim a sua relevância. 9 O JOGO NA EDUCAÇÃO: ASPECTOS DIDÁTICO-METODOLÓGICOS DO JOGO NA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA 10 TEXTO ADAPTADO DE PROF.ª DRª REGINA CÉLIA GRANDO As crianças, desde os primeiros anos de vida, gastam grande parte de seu tempo brincando, jogando e desempenhando atividades lúdicas. Os adultos têm dificuldades de entender que o brincar e o jogar, para a criança, representam sua razão de viver, onde elas se esquecem de tudo que as cerca e se entregam ao fascínio da brincadeira. Muitos pais consideram que a brincadeira representa um prêmio e não é compreendida como uma necessidade da criança. A criança pode começar a se desinteressar pelas atividades escolares, pois estas representam um empecilho à brincadeira, uma forma de punição. 24 Ao ser observado o comportamento de uma criança em situações de brincadeira e/ou jogo percebe-se o quanto ela desenvolve sua capacidade de resolver problemas. Fonte: www.msalx.revistaescola.abril.com.br 11 JOGO DESENVOLVIMENTO A psicologia do desenvolvimento destaca que a brincadeira e o jogo desempenham funções psicossociais, afetivas e intelectuais básicas no processo de desenvolvimento infantil. O jogo se apresenta como uma atividade dinâmica que vem satisfazer uma necessidade da criança. O jogo propicia um ambiente favorável ao interesse da criança pelo desafio das regras impostas por uma situação imaginária que pode ser considerada como um meio para o desenvolvimento do pensamento abstrato. É fundamental inserir as crianças em atividades que permitam um caminho que vai da imaginação à abstração de estratégias diversificadas de resolução dos problemas em jogo. O processo de criação está diretamente relacionado à imaginação. É a estrutura da atividade de jogo que permite o surgimento de uma situação imaginária. 25 É no jogo e pelo jogo que a criança é capaz de atribuir aos objetos significados diferentes; desenvolver a sua capacidade de abstração e começar a agir independentemente daquilo que vê, operando com os significados diferentes da simples percepção dos objetos. O jogo depende da imaginação e é a partir desta situação imaginária que se traça o caminho à abstração. O jogo pode representar uma simulação matemática na medida em que se caracteriza por ser uma situação irreal, criada para significar um conceito matemático a ser compreendido pelo aluno. Não se pode apenas observar um fenômeno matemático acontecendo e tentar explicá-lo, como acontece com a maioria dos fenômenos físicos ou químicos. A matemática existe no pensamento humano e depende de muita imaginação para definir suas regularidades e conceitos. É necessário que a escola esteja à importância do processo imaginativo na constituição do pensamento abstrato. Nos jogos simbólicos, ocorre a representação pela criança, do objeto ausente, já que se estabelece uma comparação entre um elemento real, o objeto e um elemento imaginado, o que ele corresponde, através de uma representação fictícia. A regra estabelece o movimento a ser conferido ao jogo. O mais importante é que além da regra, as jogadas dos adversários também representam um limitador, definindo uma interdependência entre as várias jogadas. O planejamento no jogo de regras é definido pelas várias antecipações e construções de estratégias. 12 JOGO NO ENSINO DA MATEMÁTICA Ao analisarmos os atributos e/ou características do jogo que pudessem justificar sua inserção em situações de ensino, evidencia-se que este representa uma atividade lúdica, que envolve o desejo e o interesse do jogador pela própria ação do jogo, e envolve a competição e o desafio que motivam o jogador a conhecer seus limites e suas possibilidades de superação 26 de tais limites, na busca da vitória, adquirindo confiança e coragem para se arriscar. Quando são propostas atividades com jogos para alunos, a reação mais comum é de alegria e prazer pela atividade a ser desenvolvida. O interesse pelo material do jogo, elas regras ou pelo desafio proposto envolvem o aluno, estimulando-o à ação. Fonte: www.3.bp.blogspot.com/ É necessário que a atividade de jogo proposta, represente um verdadeiro desafio ao sujeito despertando-o para a ação, para o envolvimento com a atividade, motivando-o ainda mais. O jogo, pelo seu caráter propriamente competitivo, apresenta-se como uma atividade capaz de gerar situações-problemas provocadoras, onde o sujeito necessita coordenar diferentes pontos de vista, estabelecer várias relações, resolver conflitos e estabelecer uma ordem. As crianças pequenas aprendem muito, apenas com a ação nos jogos. Para o adolescente, onde a cooperação e interação no grupo social são fontes de aprendizagem, as atividades com jogos de regras representam situações bastante motivadoras e de real desafio. Quando nos referimos à utilização de jogos nas aulas de matemática como um suporte metodológico, consideramos que tenha utilidade em todos os níveis de ensino. O importante é que os objetivos com o jogo estejam claros, a metodologia a ser utilizada seja adequada ao nível que se 27 está trabalhando e, principalmente, que represente uma atividade desafiadora ao aluno para o desencadeamento do processo. É na ação do jogo que o sujeito, mesmo que venha a ser derrotado, pode conhecer-se, estabelecer o limite de sua competência enquanto jogador e reavaliar o que precisa ser trabalhado, desenvolvendo suas potencialidades, para evitar uma próxima derrota. Fonte: www.2.bp.blogspot.com/ Considera-se que o jogo, em seu aspecto pedagógico, se apresenta produtivo ao professor que busca nele um aspecto instrumentador, e, portanto, facilitador na aprendizagem de estruturas matemáticas, muitas vezes de difícil assimilação, e também produtivo ao aluno, que desenvolveria sua capacidade de pensar, refletir, analisar, compreender conceitos matemáticos, levantar hipóteses, testá-las e avaliá-las com autonomia e cooperação. Portanto, situações que propiciem à criança uma reflexão e análise do seu próprio raciocínio, que esteja fora do objeto, nos níveis já representativos, necessitam ser valorizados no processo de ensino- aprendizagem da matemática e o jogo demonstra ser um instrumento importante na dinamização desse processo. 28 A competição inerente aos jogos garante-lhes o dinamismo, o movimento, propiciando um interesse e envolvimento naturais do aluno e contribuindo para seu desenvolvimento social, intelectual e afetivo. 13 COOPERAÇÃO NO JOGO DE REGRAS O desenvolvimento da criatividade é resultante da ação do indivíduo no jogo, onde ele exerce seu poder criador, elaborando estratégias, regras e cumprindo-as. No contexto do jogo, ele se insere nummundo de fantasia, irreal, criado por ele, onde exerce um certo poder e é capaz de criar. Fonte: www.encrypted-tbn2.gstatic.com/ Não se pode negar a importância dos jogos no desenvolvimento da criatividade, já que eles representam a própria criação humana, que vem satisfazer a necessidade do indivíduo de conhecimento da realidade, pelo prazer propiciado pelas atividades lúdicas. O jogo propicia o desenvolvimento de estratégias de resolução de problemas na medida em que possibilita a investigação. Analisando a relação entre o jogo e a resolução de problemas, ambos enquanto estratégias de ensino, evidenciam-se vantagens no processo de criação e construção de conceitos, quando possível, através de uma ação 29 comum estabelecida a partir da discussão matemática entre os alunos e entre o professor e os alunos. Para efeito de se trabalhar com jogos numa perspectiva de resolução de problemas, estas etapas se confundem, pois, muitas vezes, o aluno, na situação de jogo, só compreende o problema depois que o executa e a avaliação de uma jogada pode vir a acontecer depois de muitas outras jogadas. A inserção de jogos no contexto de ensino-aprendizagem implica em vantagens e desvantagens por inúmeros estudiosos: Para a atividade de jogo em ambiente escolar, a combinação jogo com a linguagem de programação pode vir a facilitar o trabalho do professor- 30 orientador da ação, na medida em que possibilita o resgate das estratégias de jogo, a partir do programa do aluno. 14 A ANÁLISE DE POSSIBILIDADES NO JOGO DE REGRAS Diante das situações-problema de jogo que se apresentam ao sujeito, quando ele age sobre o jogo e o constante desafio em vencê-lo, novos espaços para a elaboração de estratégias de jogo são abertos. A análise de possibilidades é marcada por tomada de decisões sobre quais estratégias poderiam ser eficazes. Os jogos de estratégia favorecem a construção e a verificação de hipóteses. As possibilidades de jogo são construídas a partir destas hipóteses que vão sendo elaboradas pelos sujeitos. Fonte: www.educarepreciso.files.wordpress.com/ 15 O ERRO NA SITUAÇÃO DE JOGO É possível a um jogador errar em uma jogada, não optando pela melhor, e, obter a vitória no jogo. A constatação sobre o conjunto de jogadas mal realizadas, ao final de um jogo em que o sujeito perde para o adversário, 31 pode levá-lo a refletir sobre ações realizadas e elaborar estratégias a fim de vencer o jogo, resolver o problema. Após a constatação de um fenômeno, ou mesmo a construção de um sistema, os erros obtidos durante o processo são repensados, reformulados e abolidos, dando lugar ao rigor na apresentação. A análise do erro do aluno e a construção das estratégias de resolução dos problemas de jogo fornecem ao professor subsídios para a sistematização dos conceitos trabalhados durante a situação de jogo. O processo de sistematização dos conceitos e/ou habilidades do pensamento matemático que vão emergindo no decorrer das situações de jogo deve ser desencadeado pelo profissional responsável pela intervenção pedagógica com os jogos. Momentos de jogo: 1º) Familiarização com o material do jogo; 2º) Reconhecimento das regras; 3º) O jogo pelo jogo, 4º) Intervenção pedagógica verbal; 5º) Registro do jogo; 6º) Intervenção escrita; 7º) Jogar com competência. 16 CÁLCULO MENTAL E JOGO A importância da habilidade de cálculo mental é apontada por vários autores como sendo necessária para uma significativa compreensão do número e de suas propriedades, estabelecimento de estimativas e para o uso prático nas atividades cotidianas. Além disso, a habilidade com o cálculo mental pode fornecer notável contribuição à aprendizagem de conceitos matemáticos e ao desenvolvimento da aritmética. O cálculo mental está centrado no fato de que um mesmo cálculo pode ser realizado de diferentes formas. 32 O mais importante ao cálculo mental é a reflexão sobre o significado dos cálculos intermediários, facilitando a compreensão das regras que determinam os algoritmos do cálculo escrito. Fonte: www.msalx.revistaescola.abril.com.br/ As estratégias de cálculo mental utilizada pelos sujeitos no seu cotidiano são, na maioria das vezes, bem diferentes dos métodos de cálculo aprendidos em aritmética, na escola. As estratégias representam um plano, um método ou uma série de ações a fim de obter um objetivo específico, resolver um cálculo mental. A matemática escolar valoriza o cálculo do papel e lápis, mesmo sendo pouco significativo para o aluno e demonstrando quase nenhum raciocínio empregado. É importante observar que o cálculo mental não exclui a utilização de papel e lápis, como um registro dos cálculos intermediários. O registro do cálculo mental possui uma forma específica de ser realizado. Para o professor o objetivo da resolução das situações-problema escritas é o registro e análise das formas de raciocínio que estão sendo processadas pelos alunos, nas situações simuladas de jogo. 17 MATEMÁTICA NO ENSINO FUNDAMENTAL Discussões no âmbito da Educação Matemática que acontecem no Brasil e em outros países apontam a necessidade de adequar o trabalho escolar a uma nova realidade, marcada pela crescente presença da 33 Matemática em diversos campos da atividade humana. Tais discussões têm influenciado análises e revisões nos currículos de Matemática no ensino fundamental. Para melhor compreender os rumos dessas novas propostas é importante retomar a trajetória das reformas curriculares ocorridas nos últimos anos e analisar, mesmo que brevemente, o quadro atual do ensino de Matemática no Brasil. 18 BREVE ANÁLISE DA TRAJETÓRIA DAS REFORMAS CURRICULARES Os movimentos de reorientação curricular ocorridos no Brasil a partir dos anos 20 não tiveram força suficiente para mudar a prática docente dos professores para eliminar o caráter elitista desse ensino bem como melhorar sua qualidade. Em nosso país o ensino de Matemática ainda é marcado pelos altos índices de retenção, pela formalização precoce de conceitos, pela excessiva preocupação com o treino de habilidades e mecanização de processos sem compreensão. Nas décadas de 60/70, o ensino de Matemática no Brasil, assim como em outros países, foi influenciado por um movimento de renovação que ficou conhecido como Matemática Moderna. A Matemática Moderna nasceu como um movimento educacional inscrito numa política de modernização econômica e foi posta na linha de frente do ensino por se considerar que, juntamente com a área de Ciências, ela constituía uma via de acesso privilegiada para o pensamento científico e tecnológico. Para tanto procurou-se aproximar a Matemática desenvolvida na escola da Matemática como é vista pelos estudiosos e pesquisadores. O ensino proposto fundamentava-se em grandes estruturas que organizam o conhecimento matemático contemporâneo e enfatizava a teoria dos conjuntos, as estruturas algébricas, a topologia etc. Esse movimento provocou, em vários países, inclusive no Brasil, discussões e amplas reformas no currículo de Matemática. No entanto, essas reformas deixaram de considerar um ponto básico que viria tornar-se seu maior problema: o que se propunha estava fora do 34 alcance dos alunos, em especial daqueles das séries iniciais do ensino fundamental. O ensino passou a ter preocupações excessivas com formalizações, distanciando-se das questões práticas. A linguagem da teoria dos conjuntos, por exemplo, enfatizava o ensino de símbolos e de uma terminologia complexa comprometendo o aprendizado do cálculoaritmético, da Geometria e das medidas. Fonte: www.ariquemes.ro.gov.br/ No Brasil, o movimento Matemática Moderna, veiculado principalmente pelos livros didáticos, teve grande influência, durante longo período, só vindo a refluir a partir da constatação de inadequação de alguns de seus princípios básicos e das distorções e dos exageros ocorridos. Em 1980, o National Council of Teachers of Mathematics — NCTM —, dos Estados Unidos, apresentou recomendações para o ensino de Matemática no documento “Agenda para Ação”. Nele a resolução de problemas era destacada como o foco do ensino da Matemática nos anos 80. Também a compreensão da relevância de aspectos sociais, antropológicos, linguísticos, além dos cognitivos, na aprendizagem da Matemática, imprimiu novos rumos às discussões curriculares. Essas ideias influenciaram as reformas que ocorreram em todo o mundo, a partir de então. As propostas elaboradas no período 1980/1995, em diferentes países, apresentaram pontos de convergência, como: • direcionamento do ensino fundamental para a aquisição de competências básicas necessárias ao cidadão e não apenas voltadas para a preparação de estudos posteriores; 35 • importância do desempenho de um papel ativo do aluno na construção do seu conhecimento; • ênfase na resolução de problemas, na exploração da Matemática a partir dos problemas vividos no cotidiano e encontrados nas várias disciplinas; • importância de trabalhar com amplo espectro de conteúdo, incluindo já no ensino fundamental, por exemplo, elementos de estatística, probabilidade e combinatória para atender à demanda social que indica a necessidade de abordar esses assuntos; • necessidade de levar os alunos a compreender a importância do uso da tecnologia e a acompanhar sua permanente renovação. Essas ideias vêm sendo discutidas no Brasil e algumas aparecem incorporadas pelas propostas curriculares de Secretarias de Estado e Secretarias Municipais de Educação, havendo experiências bem-sucedidas que comprovam sua fecundidade. No entanto, é importante salientar que ainda hoje nota-se, por exemplo, a insistência no trabalho com a linguagem da teoria dos conjuntos nas séries iniciais, a formalização precoce de conceitos, o predomínio absoluto da Álgebra nas séries finais e as poucas aplicações práticas da Matemática no ensino fundamental. A análise das propostas curriculares oficiais, realizada em 1995 pela Fundação Carlos Chagas, mostra a marca dessa influência em algumas das propostas curriculares estaduais e municipais, mesmo as que foram elaboradas recentemente: “... os currículos dividem-se em duas grandes famílias: os que estão impregnados pela teoria dos conjuntos e os que a eliminaram ou a reduziram ao mínimo”. Por outro lado, as propostas curriculares mais recentes são ainda bastante desconhecidas de parte considerável dos professores, que, por sua vez, não têm uma clara visão dos problemas que motivaram as reformas. O que se observa é que ideias ricas e inovadoras, veiculadas por essas propostas, não chegam a eles, ou são incorporadas superficialmente, ou ainda recebem interpretações inadequadas, sem provocar mudanças desejáveis. Quadro atual do ensino de Matemática no Brasil Entre os obstáculos que o Brasil tem enfrentado em relação ao ensino de Matemática, aponta-se a falta de uma formação profissional qualificada, as 36 restrições ligadas às condições de trabalho, a ausência de políticas educacionais efetivas e as interpretações equivocadas de concepções pedagógicas. No entanto, muitos esforços vêm sendo empreendidos para minimizar esses problemas. Alguns com bastante sucesso, como os que acontecem em escolas que têm elaborado projetos educativos de modo a que contemple os interesses e necessidades da comunidade. Também existem professores que, individualmente ou em pequenos grupos, têm iniciativa para buscar novos conhecimentos e assumem uma atitude de constante reflexão, o que os leva a desenvolver práticas pedagógicas mais eficientes para ensinar Matemática. De modo semelhante, universidades, secretarias de educação e outras instituições têm produzido materiais de apoio para a prática do professor. No entanto, essas iniciativas ainda não atingiram o conjunto dos professores e por isto não chegam a alterar o quadro desfavorável que caracteriza o ensino de Matemática no Brasil. A formação dos professores, por exemplo, tanto a inicial quanto a continuada, pouco tem contribuído para qualificá-los para o exercício da docência. Não tendo oportunidade e condições para aprimorar sua formação e não dispondo de outros recursos para desenvolver as práticas da sala de aula, os professores apoiam-se quase exclusivamente nos livros didáticos, que, muitas vezes, são de qualidade insatisfatória. A interpretação equivocada de concepções pedagógicas também tem sido responsável por distorções na implementação das ideias inovadoras que aparecem em diferentes propostas. Assim, por exemplo, a abordagem de conceitos, ideias e métodos sob a perspectiva de resolução de problemas — ainda bastante desconhecida da grande maioria — quando é incorporada, aparece como um item isolado, desenvolvido paralelamente como aplicação da aprendizagem, a partir de listagens de problemas cuja resolução depende basicamente da escolha de técnicas ou formas de resolução memorizadas pelos alunos. De forma semelhante, nem sempre são observadas recomendações insistentemente feitas para que conteúdos sejam veículos para a aprendizagem de ideias fundamentais (como as de proporcionalidade, equivalência etc.) e que 37 devem ser selecionados levando em conta sua potencialidade, quer para instrumentação para a vida, quer para o desenvolvimento de formas de pensar. Quanto à organização dos conteúdos, de modo geral observa-se uma forma excessivamente hierarquizada de fazê-la. É uma organização dominada pela ideia de pré-requisito, cujo único critério é a estrutura lógica da Matemática. Nessa visão, a aprendizagem ocorre como se os conteúdos se articulassem na forma de uma corrente, cada conteúdo sendo um pré-requisito para o que vai sucedê-lo. Embora se saiba que alguns conhecimentos precedem outros e que as formas de organização sempre indicam um certo percurso, não existem, por outro lado, amarras tão fortes como algumas que podem ser observadas comumente, tais como: apresentar a representação fracionária dos racionais, para introduzir posteriormente a decimal; desenvolver o conceito de semelhança, para depois explorar o teorema de Pitágoras. Por vezes, essa concepção linear faz com que, ao se definir qual será o elo inicial da cadeia, tomem-se os chamados fundamentos como ponto de partida. É o que ocorre, por exemplo, quando se privilegiam as noções de “ponto, reta e plano” como referência inicial para o ensino de Geometria ou quando se tomam os conjuntos como base para a aprendizagem de números e operações, caminhos que não são necessariamente os mais adequados. O que também se observa em termos escolares é que muitas vezes os conteúdos matemáticos são tratados isoladamente e são apresentados e exauridos num único momento. Quando acontece de serem retomados (geralmente num mesmo nível de aprofundamento, apoiando-se nos mesmos recursos), é apenas com a perspectiva de utilizá-los como ferramentas para a aprendizagem de novas noções. De modo geral, parece não se levar em conta que, para o aluno consolidar e ampliar um conceito, é fundamental que ele o veja em novas extensões, representações ou conexões com outros conceitos. Também a importância de levar em conta o conhecimento prévio dosalunos na construção de significados geralmente é desconsiderada. Na maioria das vezes, subestimam-se os conceitos desenvolvidos no decorrer das vivências práticas dos alunos, de suas interações sociais imediatas, e parte-se para um tratamento escolar, de forma esquemática, privando os alunos da riqueza de conteúdos proveniente da experiência pessoal. 38 Fonte: www.3.bp.blogspot.com/ Outra distorção perceptível refere-se a uma interpretação equivocada da ideia de contexto, ao se trabalhar apenas com o que se supõe fazer parte do dia-a-dia do aluno. Embora as situações do cotidiano sejam fundamentais para conferir significados a muitos conteúdos a serem estudados, é importante considerar que esses significados podem ser explorados em outros contextos como as questões internas da própria Matemática e dos problemas históricos. Caso contrário, muitos conteúdos importantes serão descartados por serem julgados, sem uma análise adequada, que não são de interesse para os alunos porque não fazem parte de sua realidade ou não têm uma aplicação prática imediata. Apresentada em várias propostas como um dos aspectos importantes da aprendizagem matemática, por propiciar compreensão mais ampla da trajetória dos conceitos e métodos dessa ciência, a História da Matemática também tem se transformado em assunto específico, um item a mais a ser incorporado ao rol de conteúdo, que muitas vezes não passa da apresentação de fatos ou biografias de matemáticos famosos. Do mesmo modo, a resolução de problema, que vem sendo apontada como um bom caminho para trabalhar conceitos e procedimentos matemáticos, tem sido objeto de interpretações equivocadas, pois ainda se resume em uma mera atividade de aplicação ao final do estudo de um conteúdo matemático. 39 A recomendação do uso de recursos didáticos, incluindo alguns materiais específicos, é feita em quase todas as propostas curriculares. No entanto, na prática, nem sempre há clareza do papel desses recursos no processo ensino-aprendizagem, bem como da adequação do uso desses materiais, sobre os quais se projetam algumas expectativas indevidas. Os obstáculos apontados explicam em grande parte o desempenho insatisfatório dos alunos revelado pelas elevadas taxas de retenção em Matemática, o que a faz atuar como filtro social no Ensino Fundamental, selecionando os que terão oportunidade ou não de concluir esse segmento de ensino. Os resultados obtidos pelos alunos do ensino fundamental nos testes de rendimento em Matemática, aplicados em todo o país, também são indicadores expressivos de como se encontra o ensino dessa área. As provas de Matemática aplicadas em 1993, pelo Sistema Nacional de Avaliação Escolar da Educação Básica — SAEB — indicavam que, na primeira série do ensino fundamental, 67,7% dos alunos acertavam pelo menos metade dos testes. Esse índice caía para 17,9% na terceira série, tornava a cair para 3,1%, na quinta série e subia para 5,9% na sétima série. Nas provas de Matemática, aplicadas em 1995, abrangendo alunos de quartas e oitavas séries do ensino fundamental, os percentuais de acerto por série/grau e por capacidades cognitivas, além de continuar diminuindo à medida que aumentavam os anos de escolaridade, indicavam também que as maiores dificuldades se encontravam nas questões relacionadas à aplicação de conceitos e à resolução de problemas. Desse modo, pode-se concluir que em relação ao ensino de Matemática há problemas antigos e novos a serem enfrentados e resolvidos, tarefa que requer operacionalização efetiva das intenções anunciadas nas diretrizes curriculares dos anos 80 e início dos anos 90, e a inclusão de novos elementos na pauta de discussões e que este documento procura contemplar. 40 19 O CONHECIMENTO MATEMÁTICO Para dimensionar a Matemática no currículo do ensino fundamental é importante que se discuta sobre a natureza desse conhecimento e que se identifiquem suas características principais e seus métodos particulares como base para a reflexão sobre o papel que essa área desempenha no currículo, a fim de contribuir para a formação da cidadania. 19.1 PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS A Matemática caracteriza-se como uma forma de compreender e atuar no mundo e o conhecimento gerado nessa área do saber como um fruto da construção humana na sua interação constante com o contexto natural, social e cultural. Esta visão opõe-se àquela presente na maioria da sociedade e na escola que considera a Matemática como um corpo de conhecimento imutável e verdadeiro, que deve ser assimilado pelo aluno. A Matemática é uma ciência viva, não apenas no cotidiano dos cidadãos, mas também nas universidades e centros de pesquisas, onde se verifica, hoje, uma impressionante produção de novos conhecimentos que, a par de seu valor intrínseco, de natureza lógica, têm sido instrumentos úteis na solução de problemas científicos e tecnológicos da maior importância. Em contrapartida, não se deve perder de vista os caracteres especulativos, estético não imediatamente pragmático do conhecimento matemático sem os quais se perde parte de sua natureza. Duas forças indissociáveis estão sempre a impulsionar o trabalho em Matemática. De um lado, o permanente apelo das aplicações às mais variadas atividades humanas, das mais simples na vida cotidiana, às mais complexas elaborações de outras ciências. De outro lado, a especulação pura, a busca de respostas a questões geradas no próprio edifício da Matemática. A indissociabilidade desses dois aspectos fica evidenciada pelos inúmeros exemplos de belas construções abstratas originadas em problemas aplicados e, por outro lado, de surpreendentes aplicações encontradas para as mais puras especulações. 41 A Matemática faz-se presente na quantificação do real — contagem, medição de grandezas — e no desenvolvimento das técnicas de cálculo com os números e com as grandezas. No entanto, esse conhecimento vai muito além, criando sistemas abstratos, ideais, que organizam, inter-relacionam e revelam fenômenos do espaço, do movimento, das formas e dos números, associados quase sempre a fenômenos do mundo físico. Fruto da criação e invenção humanas, a Matemática não evoluiu de forma linear e logicamente organizada. Desenvolveu-se com movimentos de idas e vindas, com rupturas de paradigmas. Frequentemente um conhecimento foi amplamente utilizado na ciência ou na tecnologia antes de ser incorporado a um dos sistemas lógicos formais do corpo da Matemática. Exemplos desse fato podem ser encontrados no surgimento dos números negativos, irracionais e imaginários. Uma instância importante de mudança de paradigma ocorreu quando se superou a visão de uma única geometria do real, a geometria euclidiana, para aceitação de uma pluralidade de modelos geométricos, logicamente consistentes, que podem modelar a realidade do espaço físico. A Matemática desenvolveu-se seguindo caminhos diferentes nas diversas culturas. O modelo de Matemática hoje aceito, originou-se com a civilização grega, no período que vai aproximadamente de 700 a.C. a 300 d.C., abrigando sistemas formais, logicamente estruturados a partir de um conjunto de premissas e empregando regras de raciocínio preestabelecidas. A maturidade desses sistemas formais foi atingida no século XIX, com o surgimento da Teoria dos Conjuntos e o desenvolvimento da Lógica Matemática. O advento posterior de uma multiplicidade de sistemas matemáticos — teorias matemáticas — evidenciou, por outro lado, que não há uma via única ligando a Matemática e o mundo físico. Os sistemas axiomáticos euclidiano e hiperbólico na Geometria,equivalentes sob o ponto de vista da consistência lógica, são dois possíveis modelos da realidade física. Além disso, essa multiplicidade amplia-se, nos tempos presentes, com o tratamento cada vez mais importante dos fenômenos que envolvem o acaso — a Estatística e a probabilidade — e daqueles relacionados com as noções matemáticas de caos e de conjuntos fractais. 42 Convém, ainda, ressaltar que, desde os seus primórdios, as inter- relações entre as várias teorias matemáticas, sempre tiveram efeitos altamente positivos para o crescimento do conhecimento nesse campo do saber. Por fim, com o advento da era da informação e da automação e com a rapidez, antes impensada, na realização dos cálculos numéricos ou algébricos, torna-se cada vez mais amplo o espectro de problemas que podem ser abordados e resolvidos por meio do conhecimento matemático. O acervo de conhecimento matemático tem sido preservado e exposto pela via da dedução lógica, no âmbito de um sistema de axiomas. A comunicação do saber matemático, seja nos periódicos especializados e nos livros, seja nos vários ambientes escolares, tem, tradicionalmente, seguido esse caminho. Na criação desse conhecimento, contudo, interferem processos heurísticos e intervêm a criatividade e o senso estético, do mesmo modo que em outras áreas do conhecimento. A partir da observação de casos particulares, as regularidades são desvendadas, as conjecturas e teorias matemáticas são formuladas. Esse caráter indutivo é, em geral, pouco destacado quando se trata da comunicação ou do ensino do conhecimento matemático. O exercício da indução e da dedução em Matemática reveste-se de importância no desenvolvimento da capacidade de resolver problemas, de formular e testar hipóteses, de induzir, de generalizar e de inferir dentro de determinada lógica, o que assegura um papel de relevo ao aprendizado dessa ciência em todos os níveis de ensino. Ao longo de sua história, a Matemática tem convivido com a reflexão de natureza filosófica, em suas vertentes da epistemologia e da lógica. Quando se reflete, hoje, sobre a natureza da validação do conhecimento matemático, reconhece-se que, na comunidade científica, a demonstração formal tem sido aceita como a única forma de validação dos seus resultados. Nesse sentido, a Matemática não é uma ciência empírica. Nenhuma verificação experimental ou medição feita em objetos físicos poderá, por exemplo, validar matematicamente o teorema de Pitágoras ou o teorema relativo à soma dos ângulos de um triângulo. Deve-se enfatizar, contudo, o papel heurístico que têm 43 desempenhado os contextos materiais como fontes de conjecturas matemáticas. Essas características permitem conceber o saber matemático como algo flexível e maleável às inter-relações entre os seus vários conceitos e entre os seus vários modos de representação, e, também, permeável aos problemas nos vários outros campos científicos. Um saber matemático desse tipo pode ser o motor de inovações e de superação dos obstáculos, desde os mais simples até aqueles que significam verdadeiras barreiras epistemológicas no seu desenvolvimento. 20 MATEMÁTICA E CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA Falar em formação básica para a cidadania significa refletir sobre as condições humanas de sobrevivência, sobre a inserção das pessoas no mundo do trabalho, das relações sociais e da cultura e sobre o desenvolvimento da crítica e do posicionamento diante das questões sociais. Assim, é importante refletir a respeito da colaboração que a Matemática tem a oferecer com vistas à formação da cidadania. A sobrevivência na sociedade depende cada vez mais de conhecimento, pois diante da complexidade da organização social, a falta de recursos para obter e interpretar informações, impede a participação efetiva e a tomada de decisões em relação aos problemas sociais. Impede, ainda, o acesso ao conhecimento mais elaborado e dificulta o acesso às posições de trabalho. Em função do desenvolvimento das tecnologias, uma característica contemporânea marcante no mundo do trabalho, exigem-se trabalhadores mais criativos e versáteis, capazes de entender o processo de trabalho como um todo, dotados de autonomia e iniciativa para resolver problemas em equipe e para utilizar diferentes tecnologias e linguagens (que vão além da comunicação oral e escrita). Isso faz com que os profissionais tenham de estar num contínuo processo de formação e, portanto, aprender a aprender torna-se cada vez mais fundamental. 44 No entanto, mesmo que o cidadão esteja qualificado para o mundo do trabalho, é verdade que ele terá de enfrentar uma acirrada disputa no campo profissional, pois o avanço tecnológico também gera diminuição de postos de trabalho, exigindo níveis de formação cada vez mais elevados. Por isso, na sociedade atual a um grande número de pessoas impõem-se novas necessidades de buscar formas alternativas para inserir-se na economia como a formação de cooperativas ou a atuação no mercado informal. Parece haver um razoável consenso de que para responder a essas exigências é preciso elevar o nível da educação de toda a população. Desse modo, não cabe ao ensino fundamental preparar mão-de-obra especializada, nem se render, a todo instante, às oscilações do mercado de trabalho. Mas, é papel da escola desenvolver uma educação que não dissocie escola e sociedade, conhecimento e trabalho e que coloque o aluno ante desafios que lhe permitam desenvolver atitudes de responsabilidade, compromisso, crítica, satisfação e reconhecimento de seus direitos e deveres. Nesse aspecto, a Matemática pode dar sua contribuição à formação do cidadão ao desenvolver metodologias que enfatizem a construção de estratégias, a comprovação e justificativa de resultados, a criatividade, a iniciativa pessoal, o trabalho coletivo e a autonomia advinda da confiança na própria capacidade para enfrentar desafios. Por outro lado, para a inserção de cada indivíduo no mundo das relações sociais, a escola deve estimular o crescimento coletivo e individual, o respeito mútuo e as formas diferenciadas de abordar os problemas que se apresentam. Também é importante salientar que a compreensão e a tomada de decisões diante de questões políticas e sociais dependem da leitura crítica e interpretação de informações complexas, muitas vezes contraditórias, que incluem dados estatísticos e índices divulgados pelos meios de comunicação. Ou seja, para exercer a cidadania é necessário saber calcular, medir, raciocinar, argumentar, tratar informações estatisticamente etc. No que se refere à inserção no mundo da cultura, a pluralidade de etnias existente no Brasil, que dá origem a diferentes modos de vida, valores, crenças e conhecimentos, apresenta-se para a educação matemática como um desafio interessante. 45 A par dos esquemas de pensamentos e práticas próprias das culturas de diferentes grupos sociais, todo aluno brasileiro faz parte de uma sociedade em que se fala uma mesma língua, utiliza o mesmo sistema de numeração, o mesmo sistema monetário; além disso, recebe informações veiculadas por mídias abrangentes, que usam de linguagens e recursos gráficos comuns, independentemente das características particulares dos grupos receptores. Desse modo, um currículo de Matemática deve procurar contribuir, de um lado, para a valorização da pluralidade sociocultural, evitando o processo de submissão no confronto com outras culturas; de outro, criar condições para que o aluno transcenda um modo de vida restrito a um determinado espaço social e se torne ativo na transformação de seu ambiente. Para que ocorram as inserçõesdos cidadãos no mundo do trabalho, no mundo das relações sociais e no mundo da cultura e para que desenvolvam a crítica diante das questões sociais, é importante que a Matemática desempenhe, no currículo, equilibrada e indissociavelmente, seu papel na formação de capacidades intelectuais, na estruturação do pensamento, na agilização do raciocínio do aluno, na sua aplicação a problemas, situações da vida cotidiana e atividades do mundo do trabalho e no apoio à construção de conhecimentos em outras áreas curriculares. Fonte: www.ultracurioso.com.br 46 21 A MATEMÁTICA E OS TEMAS TRANSVERSAIS A proposta de trabalhar com questões de urgência social numa perspectiva de transversalidade aponta para o compromisso a ser partilhado pelos professores das áreas, uma vez que é o tratamento dado aos conteúdos de todas as áreas que possibilita ao aluno a compreensão de tais questões, o que inclui a aprendizagem de conceitos, procedimentos e o desenvolvimento de atitudes. Assim, ela traz aos professores de cada área a necessidade de um estudo sobre tais questões, o que pode ser feito inicialmente por meio da leitura dos documentos de Temas Transversais, que fazem parte dos Parâmetros Curriculares Nacionais, e de sua discussão no âmbito da escola. O trabalho educativo que ocorre na escola é sempre marcado por concepções, valores e atitudes, mesmo que não-explicitados e, muitas vezes, contraditórios. Desse modo, é fundamental que os professores planejem não apenas como as questões sociais vão ser abordadas em diferentes contextos de aprendizagem das várias áreas, mas também como elas serão tratadas no convívio escolar. Em termos de operacionalização dos temas em cada área, é preciso levar em conta que eles precisam se articular à própria concepção da área, o que significa que isso vai ocorrer de diferentes maneiras de acordo com a natureza de cada tema e de cada área. Também é importante destacar que a perspectiva da transversalidade não pressupõe o tratamento simultâneo, e num único período, de um mesmo tema por todas as áreas, mas o que se faz necessário é que esses temas integrem o planejamento dos professores das diferentes áreas, de forma articulada aos objetivos e conteúdos delas. Tendo em vista a articulação dos Temas Transversais com a Matemática algumas considerações devem ser ponderadas. Os conteúdos matemáticos estabelecidos no bloco Tratamento da Informação fornecem instrumentos necessários para obter e organizar as informações, interpretá-las, fazer cálculos e desse modo produzir argumentos para fundamentar conclusões sobre elas. Por outro lado, as questões e situações, práticas vinculadas aos temas fornecem os contextos que possibilitam explorar de modo significativo conceitos e procedimentos matemáticos. 47 22 ÉTICA Em sociedade, a Matemática usufrui de um status privilegiado em relação a outras áreas do conhecimento, e isso traz como consequência o cultivo de crenças e preconceitos. Muitos acreditam que a Matemática é direcionada às pessoas mais talentosas e também que essa forma de conhecimento é produzida exclusivamente por grupos sociais ou sociedades mais desenvolvidas. Embora equivocadas, essas ideias geram preconceitos e discriminações, no âmbito mais geral da sociedade, e também se refletem fortemente no convívio da escola, fazendo com que a Matemática acabe atuando como filtro social: de um modo direto porque é uma das áreas com maiores índices de reprovação no ensino fundamental e, indiretamente, porque seleciona os alunos que vão concluir esse segmento do ensino e de certa forma indica aqueles que terão oportunidade de exercer determinadas profissões. De maneira geral a escola, hoje, se organiza e difunde os conhecimentos matemáticos partindo de uma concepção idealizada do que seja esse conhecimento e de como ele deva ser ensinado/aprendido, sem considerar a existência de estilos cognitivos próprios a cada indivíduo e sem levar em conta que habilidades cognitivas não podem ser avaliadas fora de um contexto cultural. Com essa atitude cometem-se agressões culturais, rotulando e discriminando alunos, em função de certas predominâncias de ordem sociocultural. Além de cometer injustiça ao não reconhecer o conhecimento do aluno, quando esse conhecimento não coincide com o da cultura dominante, a escola assume uma postura essencialmente reprodutivista ao favorecer apenas os alunos que já têm certo domínio sobre as representações da Matemática valorizadas e difundidas por ela. Por outro lado, o ensino de Matemática muito pode contribuir para a formação ética à medida que se direcione a aprendizagem para o desenvolvimento de atitudes, como a confiança dos alunos na própria capacidade e na dos outros para construir conhecimentos matemáticos, o 48 empenho em participar ativamente das atividades em sala de aula e o respeito ao modo de pensar dos colegas. Isso ocorrerá à medida que o professor valorizar a troca de experiências entre os alunos como forma de aprendizagem, promover o intercâmbio de ideias como fonte de aprendizagem, respeitar ele próprio o pensamento e a produção dos alunos e desenvolver um trabalho livre do preconceito de que Matemática é um conhecimento direcionado para poucos indivíduos talentosos. A construção de uma visão solidária de relações humanas nas aulas de Matemática contribuirá para que os alunos superem o individualismo por meio do diálogo e da valorização da interação e da troca, percebendo que as pessoas se complementam e dependem umas das outras. 22.1 ORIENTAÇÃO SEXUAL Os conteúdos matemáticos permitem a construção de um instrumental fundamental para a compreensão e análise das questões relativas à sexualidade numa dimensão macrossocial. Por exemplo, é possível compreender por meio da análise de dados estatísticos a diferença de remuneração de trabalho de homens e mulheres e do acesso aos cargos de chefia; o aumento da incidência da gravidez prematura entre jovens e adolescentes; o comportamento das doenças sexualmente transmissíveis, e discutir e avaliar a eficiência das políticas públicas voltadas para essa questão. As medidas estatísticas permitem aos jovens compreender, por exemplo, a evolução da Aids nos diferentes grupos: se, por um lado, o número de homens infectados é maior que o de mulheres, por outro, a taxa de crescimento da doença entre as mulheres é maior do que a dos homens — o que leva a prever que no futuro serão elas as maiores vítimas. Por outro lado, situar num mesmo patamar os papéis desempenhados por homens e mulheres na construção da sociedade contemporânea ainda encontra barreiras que ancoram expectativas bastante diferenciadas com relação ao papel futuro de meninos e meninas. Essas expectativas talvez possam influenciar comportamentos e desempenhos dos jovens na aprendizagem das diferentes áreas que compõem 49 o currículo. É possível mesmo que os próprios docentes, em decorrência de seus valores e de suas representações acerca das competências de ambos os sexos para aprender Matemática, contribuam para que rapazes e moças sintam-se mais ou menos capazes ante esse conhecimento. Como importante instituição formadora de cidadãos, a escola não pode reafirmar os preconceitos em relação à capacidade de aprendizagem de alunos de diferentes sexos. Esse preconceito, na maioria das vezes, é muito sutil e, dificilmente, o professor faz essa discriminação conscientemente. É importante, então, que os professores reflitam permanentemente sobre essas questões de gênero. 22.2 MEIO AMBIENTE A busca de caminhos pessoais e coletivos que levemao estabelecimento de relações econômicas, sociais e culturais cada vez mais adequadas à promoção de uma boa qualidade de vida para todos, exige profundas mudanças na visão que ainda prevalece sobre o que se chama de natureza e sobre as relações estabelecidas entre a sociedade humana e seu ambiente de vida. A perspectiva ambiental consiste num modo de ver o mundo em que se evidenciam as inter-relações e a interdependência dos diversos elementos na constituição e manutenção da vida neste planeta. Em termos de educação, essa perspectiva contribui para evidenciar a necessidade de um trabalho vinculado aos princípios da dignidade do ser humano, da participação, corresponsabilidade, solidariedade, equidade. E a necessidade de se estender o respeito e o compromisso com a vida — para além dos seres humanos — a todos os seres vivos. A compreensão das questões ambientais pode ser favorecida pela organização de um trabalho interdisciplinar em que a Matemática esteja inserida. A quantificação de aspectos envolvidos em problemas ambientais favorece uma visão mais clara deles, possibilitando tomar decisões e fazer intervenções necessárias (reciclagem e reaproveitamento de materiais, por exemplo). 50 O estudo detalhado das grandes questões do Meio Ambiente — poluição, desmatamento, limites para uso dos recursos naturais, sustentabilidade, desperdício, camada de ozônio — pressupõe que o aluno tenha construído determinados conceitos matemáticos (áreas, volumes, proporcionalidade etc.) e procedimentos (coleta, organização, interpretação de dados estatísticos, formulação de hipóteses, realização de cálculos, modelização, prática da argumentação etc.). Desse modo, as possibilidades de trabalhar as questões do Meio Ambiente em Matemática parecem evidentes. 22.3 SAÚDE As questões relacionadas à saúde no Brasil são bastante complexas e muitas vezes contraditórias. Por um lado, há informações de que a média de nossos padrões de saúde é aceitável dentro dos critérios apresentados pela Organização Mundial de Saúde. Por outro, existem estatísticas alarmantes quanto aos índices da fome, da subnutrição e da mortalidade infantil em várias regiões do país. Hoje também se sabe que a falta de condições básicas de subsistência está alterando as médias do desenvolvimento físico de muitos brasileiros. Enquanto em países da Europa e nos Estados Unidos essas médias estão aumentando, em algumas regiões do Brasil ela está diminuindo. Outro indicador que costuma surpreender é o elevado número de médicos/população, frequentemente apresentado por várias cidades brasileiras. À primeira vista, esses números dão a impressão de um bom atendimento na área da saúde. Mas, ao serem cruzados esses dados com outras informações — como, por exemplo, o tempo real de trabalho dos médicos que atuam no setor público, as condições de atendimento nos postos de saúde e hospitais públicos, a falta de medicamentos para atender a população — pode-se perceber que a primeira impressão é insuficiente para compreender a questão de um modo mais amplo. A análise dessas situações, tão presentes na vida da maioria dos alunos, é bastante favorável para que eles compreendam a relatividade das 51 medidas estatísticas e de como elas podem ser manipuladas, em função de determinados interesses. Além de permitir a compreensão das questões sociais relacionadas aos problemas de saúde, as informações e dados estatísticos relacionados a esse tema também favorecem o estabelecimento de comparações e previsões que contribuem para o autoconhecimento, favorecendo o autocuidado. Os levantamentos de saneamento básico, condições de trabalho, assim como o acompanhamento do próprio desenvolvimento físico (altura, peso, musculatura) e o estudo dos elementos que compõem a dieta básica, são alguns exemplos de trabalhos que podem servir de contexto para a aprendizagem de conteúdos matemáticos. 22.4 PLURALIDADE CULTURAL A construção e a utilização do conhecimento matemático não são feitas apenas por matemáticos, cientistas ou engenheiros, mas, de formas diferenciadas, por todos os grupos socioculturais, que desenvolvem e utilizam habilidades para contar, localizar, medir, desenhar, representar, jogar e explicar, em função de suas necessidades e interesses. Valorizar esse saber matemático cultural e aproximá-lo do saber escolar em que o aluno está inserido, é de fundamental importância para o processo de ensino e aprendizagem. Por outro lado, ao dar importância a esse saber, a escola contribui para a superação do preconceito de que a Matemática é um conhecimento construído exclusivamente por determinados grupos sociais ou sociedades mais desenvolvidas. Pela análise da história da produção do conhecimento matemático os alunos verificarão também as contribuições significativas de culturas que não tiveram hegemonia política. No estudo comparativo dos sistemas de numeração, por exemplo, poderão constatar a supremacia do sistema indo arábico e concluir que a demora de sua adoção pelos europeus deveu-se também ao preconceito contra os povos de tez mais escura e não- cristãos. Outros exemplos poderão ser encontrados ao se pesquisar a produção do conhecimento matemático em culturas como a chinesa, a maia e a romana. 52 Desse modo, é possível visualizar melhor a dimensão da História da Matemática no currículo da escola fundamental como um campo de problemas para construção e evolução dos conceitos e como um elemento de integração da Matemática com o tema Pluralidade Cultural. Conhecer os obstáculos enfrentados pelo homem na produção e sistematização desse conhecimento também pode levar o professor a uma melhor compreensão e aceitação das dificuldades enfrentadas pelos alunos e pensar em estratégias mais adequadas para favorecer a aprendizagem de conceitos e procedimentos matemáticos. Ainda com relação às conexões entre Matemática e Pluralidade Cultural, destaca-se, no campo da educação matemática brasileira, um trabalho que busca explicar, entender e conviver com procedimentos, técnicas e habilidades matemáticas desenvolvidas no entorno sociocultural próprio a certos grupos sociais. Trata-se do Programa Etnomatemática, com suas propostas para a ação pedagógica. Tal programa não considera a Matemática como uma ciência neutra e contrapõe-se às orientações que a afastam dos aspectos socioculturais e políticos — fato que tem mantido essa área do saber atrelada apenas a sua própria dinâmica interna. Por outro lado, procura entender os processos de pensamento, os modos de explicar, de entender e de atuar na realidade, dentro do contexto cultural do próprio indivíduo. A Etnomatemática procura entender a realidade e chegar à ação pedagógica de maneira natural mediante um enfoque cognitivo com forte fundamentação cultural. Assim, tanto a História da Matemática como os estudos da Etnomatemática são importantes para explicitar a dinâmica da produção desse conhecimento, histórica e socialmente. 22.5 TRABALHO E CONSUMO Uma primeira aproximação entre o tema do Trabalho e a Matemática está em reconhecer que o conhecimento matemático é fruto do trabalho humano e que as ideias, conceitos e princípios que hoje são reconhecidos como conhecimento científico e fazem parte da cultura universal, surgiram de necessidades e de problemas com os quais os homens depararam ao longo da 53 história e para os quais encontraram soluções brilhantes e engenhosas, graças a sua inteligência, esforço, dedicação e perseverança. Todos os grupos sociais trabalham, seja em ocupação remunerada ou não, seja na produção de bens para a própriasobrevivência ou para a sobrevivência de outros. Assim, de formas diferenciadas e desiguais, as pessoas produzem e consomem bens, produtos e serviços, estabelecendo relações por meio de trocas de caráter econômico, político e cultural, produzindo modos de ser e de viver. Numa sociedade que a cada dia se torna mais complexa, produzindo e incorporando informações novas a todo instante, alterando as relações e modos de vida em curtos espaços de tempo, o conhecimento em seus aspectos mais essenciais — ao qual a maioria da população só tem acesso pela via da escola — torna-se indispensável para desenvolver qualquer uma dessas formas de trabalho e como condição de uma sobrevivência digna. Um outro ponto a ser considerado é a influência das mudanças tecnológicas nos meios de produção. Essas características dominantes neste final de século imprimem novos sistemas organizacionais ao trabalho. Sistemas que exigem trabalhadores versáteis, dotados de iniciativa e autonomia, capazes de resolver problemas em equipe, de interpretar informações, de adaptar-se a novos ritmos e de comunicar-se fazendo uso de diferentes formas de representação. Porém, é preciso pensar que as transformações políticas e econômicas, muitas vezes decorrentes do próprio avanço tecnológico, afastam cada vez mais setores da população do usufruto dos direitos ao trabalho. Assim, para garantir a sobrevivência grandes contingentes da população têm de encontrar formas de organização de trabalho que rompam com o modelo clássico do emprego. Para atuarem no mercado informal ou organizarem formas alternativas como as cooperativas, também é preciso ter domínio dos conhecimentos essenciais. Para atender as demandas do trabalho contemporâneo é inegável que a Matemática pode dar uma grande contribuição à medida que explora a resolução de problemas e a construção de estratégias como um caminho para ensinar e aprender Matemática na sala de aula. Também o desenvolvimento da capacidade de investigar, argumentar, comprovar, justificar e o estímulo à 54 criatividade, à iniciativa pessoal e ao trabalho coletivo favorecem o desenvolvimento dessas capacidades. Fonte: www.pueridomusararaquara.com.br/ Nesse sentido, situações ligadas ao tema do trabalho podem se tornar contextos interessantes a serem explorados em sala de aula: o estudo de causas que determinam aumento/diminuição de empregos; pesquisa sobre oferta/procura de emprego; previsões sobre o futuro mercado de trabalho em função de indicadores atuais; pesquisas dos alunos dentro da escola ou na comunidade, a respeito dos valores que os jovens de hoje atribuem ao trabalho. Questões comuns à problemática do trabalho e do consumo — que envolvem a relação entre produtividade e distribuição de bens — dependem não só do acesso a informações, mas também de todo um instrumental matemático que permite analisar e compreender os elementos da política econômica que direciona essa relação. O discurso, bastante difundido, de que somos todos igualmente livres para trabalhar, escolher o tipo de trabalho e consumir, encobre as reais questões das desigualdades de acesso ao trabalho, aos bens de consumo e aos serviços. A compreensão da noção de renda per capita, assim como a comparação entre os percentuais que indicam a distribuição de salários pelas camadas da população brasileira, evidenciam o quanto esse discurso é falso. 55 Fonte: www.utfpr.edu.br/ Além disso, com a criação permanente de novas necessidades transformando bens supérfluos em vitais, a aquisição de bens se caracteriza pelo consumismo. O consumo é apresentado como forma e objetivo de vida. É fundamental que nossos alunos aprendam a se posicionar criticamente diante dessas questões e compreendam que grande parte do que se consome é produto do trabalho, embora nem sempre se pense nessa relação no momento em que se adquire uma mercadoria. É preciso mostrar que o objeto de consumo — seja um tênis ou uma roupa de marca, um produto alimentício ou aparelho eletrônico etc. — é fruto de um tempo de trabalho, realizado em determinadas condições. Quando se consegue comparar o custo da produção de cada um desses produtos com o preço de mercado é possível compreender que as regras do consumo são regidas por uma política de maximização do lucro e precarização do valor do trabalho. Aspectos ligados aos direitos do consumidor também necessitam da Matemática para serem mais bem compreendidos. Por exemplo, para analisar a composição e a qualidade dos produtos e avaliar seu impacto sobre a saúde e o meio ambiente, ou para analisar a razão entre menor preço/maior quantidade. Nesse caso, situações de oferta como “compre 3 e pague 2” nem sempre são vantajosas, pois geralmente são feitas para produtos que não 56 estão com muita saída — portanto, não há, muitas vezes, necessidade de comprá-los em grande quantidade — ou que estão com os prazos de validade próximos do vencimento. Habituar-se a analisar essas situações é fundamental para que os alunos possam reconhecer e criar formas de proteção contra a propaganda enganosa e contra os estratagemas de marketing a que são submetidos os potenciais consumidores. Fonte: www.escolaeducacao.com.br 23 APRENDER E ENSINAR MATEMÁTICA NO ENSINO FUNDAMENTAL O estudo dos fenômenos relacionados ao ensino e à aprendizagem de Matemática pressupõe a análise de variáveis envolvidas nesse processo - aluno, professor e saber matemático -, assim como das relações entre elas. Numa reflexão sobre o ensino de Matemática é de fundamental importância ao professor: • identificar as principais características dessa ciência, de seus métodos, de suas ramificações e aplicações; 57 • conhecer a história de vida dos alunos, seus conhecimentos informais sobre um dado assunto, suas condições sociológicas, psicológicas e culturais; • ter clareza de suas próprias concepções sobre a Matemática, uma vez que a prática em sala de aula, as escolhas pedagógicas, a definição de objetivos e conteúdo de ensino e as formas de avaliação estão intimamente ligadas a essas concepções. 24 O PROFESSOR E O SABER MATEMÁTICO Para desempenhar seu papel de mediador entre o conhecimento matemático e o aluno, o professor precisa ter um sólido conhecimento dos conceitos e procedimentos dessa área e uma concepção de Matemática como ciência que não trata de verdades infalíveis e imutáveis, mas como ciência dinâmica, sempre aberta à incorporação de novos conhecimentos. Tornar o saber matemático acumulado um saber escolar, passível de ser ensinado/ aprendido, exige que esse conhecimento seja transformado, pois a obra e o pensamento do matemático teórico geralmente são difíceis de ser comunicados diretamente aos alunos. Essa consideração implica rever a ideia, que persiste na escola, de ver nos objetos de ensino cópias fiéis dos objetos da ciência. Além disso, essa transposição implica conhecer os obstáculos envolvidos no processo de construção de conceitos e procedimentos para que o professor possa compreender melhor alguns aspectos da aprendizagem dos alunos. Esse processo de transformação do saber científico em saber escolar não passa apenas por mudanças de natureza epistemológica, mas é marcado significativamente por condições de ordem social e cultural que resultam na elaboração de saberes intermediários, como aproximações provisórias, necessárias e intelectualmente formadoras. Por outro lado, um conhecimento só é pleno se for mobilizado em situações diferentes daquelas que serviram para lhe dar origem. Para que sejam transferíveis a novas situaçõese generalizados, os conhecimentos 58 devem ser descontextualizados, para serem novamente contextualizados em outras situações. Mesmo no ensino fundamental, espera-se que o conhecimento aprendido não fique indissoluvelmente vinculado a um contexto concreto e único, mas que possa ser generalizado, transferido a outros contextos. 25 O ALUNO E O SABER MATEMÁTICO As necessidades cotidianas fazem com que os alunos desenvolvam capacidades de natureza prática para lidar com a atividade matemática, o que lhes permite reconhecer problemas, buscar e selecionar informações, tomar decisões. Quando essa capacidade é potencializada pela escola, a aprendizagem apresenta melhor resultado. Por isso é fundamental não subestimar o potencial matemático dos alunos, reconhecendo que resolvem problemas, mesmo que razoavelmente complexos, ao lançar mão de seus conhecimentos sobre o assunto e buscar estabelecer relações entre o já conhecido e o novo. O significado da atividade matemática para o aluno também resulta das conexões que ele estabelece entre os diferentes temas matemáticos e também entre estes e as demais áreas do conhecimento e as situações do cotidiano. Ao relacionar ideias matemáticas entre si, podem reconhecer princípios gerais, como proporcionalidade, igualdade, composição, decomposição, inclusão e perceber que processos como o estabelecimento de analogias, indução e dedução estão presentes tanto no trabalho com números e operações como no trabalho com o espaço, forma e medidas. O estabelecimento de relações é fundamental para que o aluno compreenda efetivamente os conteúdos matemáticos, pois, abordados de forma isolada, eles não se tornam uma ferramenta eficaz para resolver problemas e para a aprendizagem/construção de novos conceitos. 59 Fonte: www.mensagens10.com.br/ 26 AS RELAÇÕES PROFESSOR-ALUNO E ALUNO-ALUNO Tradicionalmente, a prática mais frequente no ensino de Matemática tem sido aquela em que o professor apresenta o conteúdo oralmente, partindo de definições, exemplos, demonstração de propriedades, seguidos de exercícios de aprendizagem, fixação e aplicação, e pressupõe que o aluno aprenda pela reprodução. Assim, considera-se que uma reprodução correta é evidência de que ocorreu a aprendizagem. Essa prática de ensino tem se mostrado ineficaz, pois a reprodução correta pode ser apenas uma simples indicação de que o aluno aprendeu a reproduzir alguns procedimentos mecânicos, mas não apreendeu o conteúdo e não sabe utilizá-lo em outros contextos. É relativamente recente a atenção ao fato de que o aluno é agente da construção do seu conhecimento, pelas conexões que estabelece com seu conhecimento prévio num contexto de resolução de problemas. 60 Naturalmente, à medida que se redefine o papel do aluno diante do saber, é preciso redimensionar também o papel do professor que ensina Matemática no ensino fundamental. Numa perspectiva de trabalho em que se considere o aluno como protagonista da construção de sua aprendizagem, o papel do professor ganha novas dimensões. Uma faceta desse papel é a de organizador da aprendizagem; para desempenhá-la, além de conhecer as condições socioculturais, expectativas e competência cognitiva dos alunos, precisará escolher os problemas que possibilitam a construção de conceitos e procedimentos e alimentar os processos de resolução que surgirem, sempre tendo em vista os objetivos a que se propõe atingir. Além de organizador o professor também é facilitador nesse processo. Não mais aquele que expõe todo o conteúdo aos alunos, mas aquele que fornece as informações necessárias, que o aluno não tem condições de obter sozinho. Nessa função, faz explanações, oferece materiais, textos etc. Outra de suas funções é como mediador, ao promover a análise das propostas dos alunos e sua comparação, ao disciplinar as condições em que cada aluno pode intervir para expor sua solução, questionar, contestar. Nesse papel, o professor é responsável por arrolar os procedimentos empregados e as diferenças encontradas, promover o debate sobre resultados e métodos, orientar as reformulações e valorizar as soluções mais adequadas. Ele também decide se é necessário prosseguir o trabalho de pesquisa de um dado tema ou se é o momento de elaborar uma síntese, em função das expectativas de aprendizagem previamente estabelecidas em seu planejamento. Atua também como organizador ao estabelecer as condições para a realização das atividades e fixar prazos, respeitando o ritmo de cada aluno. Como um incentivador da aprendizagem, o professor estimula a cooperação entre os alunos, tão importante quanto a própria interação professor-aluno. O confronto entre o que o aluno pensa e o que pensam seus colegas, seu professor e as demais pessoas com quem convive é uma forma de aprendizagem significativa, principalmente por pressupor a necessidade de formulação de argumentos (dizendo, descrevendo, expressando) e de validá- los (questionando, verificando, convencendo). 61 Destaca-se ainda a tarefa de avaliador do processo, que também é parte integrante do papel do professor. Ao procurar identificar e interpretar, mediante observação, diálogo e instrumentos apropriados, sinais e indícios das competências desenvolvidas pelos alunos, o professor pode julgar se as capacidades indicadas nos objetivos estão se desenvolvendo a contento ou se é necessário reorganizar a atividade pedagógica para que isso aconteça. Também faz parte de sua tarefa como avaliador levar os alunos a ter consciência de suas conquistas, dificuldades e possibilidades para que possam reorganizar suas atitudes diante do processo de aprendizagem. Além da interação entre professor-aluno, a interação entre alunos desempenha papel fundamental no desenvolvimento das capacidades cognitivas, afetivas e de inserção social. Em geral, explora-se mais o aspecto afetivo dessas interações e menos sua potencialidade em termos de construção de conhecimento. Ao tentar compreender outras formas de resolver uma situação, o aluno poderá ampliar o grau de compreensão das noções matemáticas nela envolvidas. Assim, trabalhar coletivamente, por sua vez, favorece o desenvolvimento de capacidades como: • perceber que além de buscar a solução para uma situação proposta devem cooperar para resolvê-la e chegar a um consenso; • saber explicitar o próprio pensamento e procurar compreender o pensamento do outro; • discutir as dúvidas, supor que as soluções dos outros podem fazer sentido e persistir na tentativa de construir suas próprias ideias; • incorporar soluções alternativas, reestruturar e ampliar a compreensão acerca dos conceitos envolvidos nas situações e, desse modo, aprender. Essas aprendizagens só serão possíveis à medida que o professor proporcionar um ambiente de trabalho que estimule o aluno a criar, comparar, discutir, rever, perguntar e ampliar ideias. É importante atentar para o fato de que a explicitação clara de papéis e de responsabilidades é fundamental para nortear as interações que ocorrem na sala de aula — entre professor e aluno ou entre alunos. Também é necessário 62 avaliar em conjunto essas relações em função dos papéis e responsabilidades definidas para redirecionar os rumos do processo de ensino e aprendizagem. Ao trabalhar com essas relações nos terceiro e quarto ciclos o professor deve levar em conta que os alunos adolescentes/jovens atuam mais em grupo do que individualmente e, por isso, a interlocução direta com um determinado aluno é mais difícil de se estabelecer, principalmente diante de outros alunos. Tal fato exige do professor uma profundacompreensão das mudanças pelas quais eles estão passando, além da perseverança e criatividade para organizar e conduzir as situações de ensino de modo que garanta suas participações e interesses. 27 A RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS E O ENSINO-APRENDIZAGEM DE MATEMÁTICA Em contrapartida à simples reprodução de procedimentos e ao acúmulo de informações, educadores matemáticos apontam a resolução de problemas como ponto de partida da atividade matemática. Essa opção traz implícita a convicção de que o conhecimento matemático ganha significado quando os alunos têm situações desafiadoras para resolver e trabalham para desenvolver estratégias de resolução. Todavia, tradicionalmente, os problemas não têm desempenhado seu verdadeiro papel no ensino, pois, na melhor das hipóteses, são utilizados apenas como forma de aplicação de conhecimentos adquiridos anteriormente pelos alunos. A prática mais frequente consiste em ensinar um conceito, procedimento ou técnica e depois apresentar um problema para avaliar se os alunos são capazes de empregar o que lhes foi ensinado. Para a grande maioria dos alunos, resolver um problema significa fazer cálculos com os números do enunciado ou aplicar algo que aprenderam nas aulas. Desse modo, o que o professor explora na atividade matemática não é mais a atividade, ela mesma, mas seus resultados, definições, técnicas e demonstrações. 63 Consequentemente, o saber matemático não se tem apresentado ao aluno como um conjunto de conceitos inter-relacionados, que lhes permite resolver um conjunto de problemas, mas como um interminável discurso simbólico, abstrato e incompreensível. Nesse caso, a concepção de ensino e aprendizagem subjacente é a de que o aluno aprende por reprodução/imitação. A resolução de problemas, na perspectiva indicada pelos educadores matemáticos, possibilita aos alunos mobilizar conhecimentos e desenvolver a capacidade para gerenciar as informações que estão a seu alcance. Assim, os alunos terão oportunidade de ampliar seus conhecimentos acerca de conceitos e procedimentos matemáticos bem como de ampliar a visão que têm dos problemas, da Matemática, do mundo em geral e desenvolver sua autoconfiança. A própria História da Matemática mostra que ela foi construída como resposta a perguntas provenientes de diferentes origens e contextos, motivadas por problemas de ordem prática (divisão de terras, cálculo de créditos), por problemas vinculados a outras ciências (Física, Astronomia), bem como por problemas relacionados a investigações internas à própria Matemática. A resolução de problemas, como eixo organizador do processo de ensino e aprendizagem de Matemática, pode ser resumida nos seguintes princípios: • a situação-problema é o ponto de partida da atividade matemática e não a definição. No processo de ensino e aprendizagem, conceitos, ideias e métodos matemáticos devem ser abordados mediante a exploração de problemas, ou seja, de situações em que os alunos precisem desenvolver algum tipo de estratégia para resolvê-las; • o problema certamente não é um exercício em que o aluno aplica, de forma quase mecânica, uma fórmula ou um processo operatório. Só há problema se o aluno for levado a interpretar o enunciado da questão que lhe é posta e a estruturar a situação que lhe é apresentada; • aproximações sucessivas de um conceito são construídas para resolver um certo tipo de problema; num outro momento, o aluno utiliza o que aprendeu para resolver outros, o que exige transferências, retificações, 64 rupturas, segundo um processo análogo ao que se pode observar na História da Matemática; • um conceito matemático se constrói articulado com outros conceitos, por meio de uma série de retificações e generalizações. Assim, pode-se afirmar que o aluno constrói um campo de conceitos que toma sentido num campo de problemas, e não um conceito isolado em resposta a um problema particular; • a resolução de problemas não é uma atividade para ser desenvolvida em paralelo ou como aplicação da aprendizagem, mas uma orientação para a aprendizagem, pois proporciona o contexto em que se pode apreender conceitos, procedimentos e atitudes matemáticas. Considerados esses princípios, convém precisar algumas características das situações que podem ser entendidas como problemas. Um problema matemático é uma situação que demanda a realização de uma sequência de ações ou operações para obter um resultado. Ou seja, a solução não está disponível de início, mas é possível construí-la. Em muitos casos, os problemas usualmente apresentados aos alunos não constituem verdadeiros problemas, porque, via de regra, não existe um real desafio nem a necessidade de verificação para validar o processo de solução. Fonte: www.img1.recadosonline.com/ 65 O que é problema para um aluno pode não ser para outro, em função dos conhecimentos de que dispõe. Resolver um problema pressupõe que o aluno: • elabore um ou vários procedimentos de resolução (como realizar simulações, fazer tentativas, formular hipóteses); • compare seus resultados com os de outros alunos; • valide seus procedimentos. Resolver um problema não se resume em compreender o que foi proposto e em dar respostas aplicando procedimentos adequados. Aprender a dar uma resposta correta, que tenha sentido, pode ser suficiente para que ela seja aceita e até seja convincente, mas não é garantia de apropriação do conhecimento envolvido. Além disso, é necessário desenvolver habilidades que permitam provar os resultados, testar seus efeitos, comparar diferentes caminhos para obter a solução. Nessa forma de trabalho, a importância da resposta correta cede lugar a importância do processo de resolução. O fato de o aluno ser estimulado a questionar sua própria resposta, a questionar o problema, a transformar um dado problema numa fonte de novos problemas, a formular problemas a partir de determinadas informações, a analisar problemas abertos — que admitem diferentes respostas em função de certas condições —, evidencia uma concepção de ensino e aprendizagem não pela mera reprodução de conhecimentos, mas pela via da ação refletida que constrói conhecimentos. 28 ALGUNS CAMINHOS PARA “FAZER MATEMÁTICA” NA SALA DE AULA É consensual a ideia de que não existe um caminho que possa ser identificado como único e melhor para o ensino de qualquer disciplina, em particular, da Matemática. No entanto, conhecer diversas possibilidades de trabalho em sala de aula é fundamental para que o professor construa sua prática. Dentre elas, destacam-se a História da Matemática, as tecnologias da comunicação e os jogos como recursos que podem fornecer os contextos dos 66 problemas, como também os instrumentos para a construção das estratégias de resolução. 29 O RECURSO À HISTÓRIA DA MATEMÁTICA A História da Matemática pode oferecer uma importante contribuição ao processo de ensino e aprendizagem dessa área do conhecimento. Ao revelar a Matemática como uma criação humana, ao mostrar necessidades e preocupações de diferentes culturas, em diferentes momentos históricos, ao estabelecer comparações entre os conceitos e processos matemáticos do passado e do presente, o professor cria condições para que o aluno desenvolva atitudes e valores mais favoráveis diante desse conhecimento. Além disso, conceitos abordados em conexão com sua história constituem veículos de informação cultural, sociológica e antropológica de grande valor formativo. A História da Matemática é, nesse sentido, um instrumento de resgate da própria identidade cultural. Fonte: www.matematicazup.com.br/Ao verificar o alto nível de abstração matemática de algumas culturas antigas, o aluno poderá compreender que o avanço tecnológico de hoje não seria possível sem a herança cultural de gerações passadas. Desse modo, será possível entender as razões que levam alguns povos a respeitar e 67 conviver com práticas antigas de calcular, como o uso do ábaco, ao lado dos computadores de última geração. Em muitas situações, o recurso à História da Matemática pode esclarecer ideias matemáticas que estão sendo construídas pelo aluno, especialmente para dar respostas a alguns “porquês” e, desse modo, contribuir para a constituição de um olhar mais crítico sobre os objetos de conhecimento. Assim, a própria história dos conceitos pode sugerir caminhos de abordagem deles, bem como os objetivos que se pretendem alcançar com eles. Por exemplo, isso fica evidente quando se percebe que a ampliação dos campos numéricos historicamente está associada à resolução de situações- problema que envolvem medidas. Entretanto, essa abordagem não deve ser entendida simplesmente que o professor deva situar no tempo e no espaço cada item do programa de Matemática ou contar sempre em suas aulas trechos da história da Matemática, mas que a encare como um recurso didático com muitas possibilidades para desenvolver diversos conceitos, sem reduzi-la a fatos, datas e nomes a serem memorizados. 30 O RECURSO ÀS TECNOLOGIAS DA COMUNICAÇÃO As tecnologias, em suas diferentes formas e usos, constituem um dos principais agentes de transformação da sociedade, pelas modificações que exercem nos meios de produção e por suas consequências no cotidiano das pessoas. Estudiosos do tema mostram que escrita, leitura, visão, audição, criação e aprendizagem são influenciados, cada vez mais, pelos recursos da informática. Nesse cenário, insere-se mais um desafio para a escola, ou seja, o de como incorporar ao seu trabalho, tradicionalmente apoiado na oralidade e na escrita, novas formas de comunicar e conhecer. Por outro lado, também é fato que as calculadoras, computadores e outros elementos tecnológicos estão cada vez mais presentes nas diferentes atividades da população. 68 O uso desses recursos traz significativas contribuições para se repensar sobre o processo de ensino e aprendizagem de Matemática à medida que: • relativiza a importância do cálculo mecânico e da simples manipulação simbólica, uma vez que por meio de instrumentos esses cálculos podem ser realizados de modo mais rápido e eficiente; • evidencia para os alunos a importância do papel da linguagem gráfica e de novas formas de representação, permitindo novas estratégias de abordagem de variados problemas; • possibilita o desenvolvimento, nos alunos, de um crescente interesse pela realização de projetos e atividades de investigação e exploração como parte fundamental de sua aprendizagem; • permite que os alunos construam uma visão mais completa da verdadeira natureza da atividade matemática e desenvolvam atitudes positivas diante de seu estudo. Embora os computadores ainda não estejam amplamente disponíveis para a maioria das escolas, eles já começam a integrar muitas experiências educacionais, prevendo-se sua utilização em maior escala a curto prazo. Eles podem ser usados nas aulas de Matemática com várias finalidades: • como fonte de informação, poderoso recurso para alimentar o processo de ensino e aprendizagem; • como auxiliar no processo de construção de conhecimento; • como meio para desenvolver autonomia pelo uso de softwares que possibilitem pensar, refletir e criar soluções; • como ferramenta para realizar determinadas atividades — uso de planilhas eletrônicas, processadores de texto, banco de dados etc. Além disso, tudo indica que pode ser um grande aliado do desenvolvimento cognitivo dos alunos, principalmente na medida em que possibilita o desenvolvimento de um trabalho que se adapta a distintos ritmos de aprendizagem e permite que o aluno aprenda com seus erros. Por outro lado, o bom uso que se possa fazer do computador na sala de aula também depende da escolha de softwares, em função dos objetivos 69 que se pretende atingir e da concepção de conhecimento e de aprendizagem que orienta o processo. As experiências escolares com o computador também têm mostrado que seu uso efetivo pode levar ao estabelecimento de uma nova relação professor-aluno, marcada por uma maior proximidade, interação e colaboração. Isso define uma nova visão do professor, que longe de considerar-se um profissional pronto, ao final de sua formação acadêmica, tem de continuar em formação permanente ao longo de sua vida profissional. Portanto, longe da ideia de que o computador viria substituir o professor, seu uso vem, sobretudo, reforçar o papel do professor na preparação, condução e avaliação do processo de ensino e aprendizagem. Quanto ao uso da calculadora, constata-se que ela é um recurso útil para verificação de resultados, correção de erros, podendo ser um valioso instrumento de auto avaliação. A calculadora favorece a busca e percepção de regularidades matemáticas e o desenvolvimento de estratégias de resolução de situações-problema pois ela estimula a descoberta de estratégias e a investigação de hipóteses, uma vez que os alunos ganham tempo na execução dos cálculos. Assim elas podem ser utilizadas como eficiente recurso para promover a aprendizagem de processos cognitivos. Como exemplo de uma situação exploratória e de investigação que se tornaria imprópria sem o uso de calculadora, poder-se-ia imaginar um aluno sendo desafiado a descobrir e a interpretar os resultados que obtém quando divide um número sucessivamente por dois (se começar pelo 1, obterá 0,5; 0,25; 0,125; 0,0625; 0,03125; 0,015625). Usando a calculadora, podem colocar sua atenção no que está acontecendo com os resultados, compará-los, levantar hipóteses e estabelecer relações entre eles, construindo significado para esses números. Além disso, ela possibilita trabalhar com valores da vida cotidiana cujos cálculos são mais complexos, como conferir os rendimentos na caderneta de poupança, cujo índice é um número com quatro casas decimais. No mundo atual saber fazer cálculos com lápis e papel é uma competência de importância relativa e que deve conviver com outras modalidades de cálculo, como o cálculo mental, as estimativas e o cálculo 70 produzido pelas calculadoras, portanto, não se pode privar as pessoas de um conhecimento que é útil em suas vidas. A utilização de recursos como o computador e a calculadora pode contribuir para que o processo de ensino e aprendizagem de Matemática se torne uma atividade experimental mais rica, sem riscos de impedir o desenvolvimento do pensamento, desde que os alunos sejam encorajados a desenvolver seus processos metacognitivos e sua capacidade crítica e o professor veja reconhecido e valorizado o papel fundamental que só ele pode desempenhar na criação, condução e aperfeiçoamento das situações de aprendizagem. Em Matemática existem recursos que funcionam como ferramentas de visualização, ou seja, imagens que por si mesmas permitem compreensão ou demonstração de uma relação, regularidade ou propriedade. Um exemplo bastante conhecido é a representação do teorema de Pitágoras, mediante figuras que permitem “ver” a relação entre o quadrado da hipotenusa e a soma dos quadrados dos catetos. Outro aspecto a ser considerado é o fato de que hoje a computação gráfica é um recurso bastante estimulador para compreensão e análise do comportamento de gráficos de funções como as alterações que estes sofremquando ocorrem mudanças nos parâmetros de suas equações. Assim, a visualização e a leitura de informações gráficas em Matemática são aspectos importantes, pois auxiliam a compreensão de conceitos e o desenvolvimento de capacidades de expressão gráficas. A disponibilidade de modernos recursos para produzir imagens impõe a necessidade de atualização das imagens matemáticas, de acordo com as tendências tecnológicas e artísticas, incorporando a cor, os gráficos, a fotografia, assim como a importância de ensinar os alunos a fazer uso desses recursos. Também a atual tecnologia de produção de vídeos educativos permite que conceitos, figuras, relações, gráficos sejam apresentados de forma atrativa e dinâmica. Nos vídeos, o ritmo e a cor são fatores estéticos importantes para captar o interesse do observador. Além disso, esse tipo de recurso possibilita uma observação mais completa e detalhada na medida em que permite parar a imagem, voltar, antecipar. 71 Mesmo o rádio, que à primeira vista parece limitado como meio para a aprendizagem, pode ser um importante recurso para fazer chegar a diferentes localidades programas educativos para formação de professores e alunos, além de ser um veículo de acesso à informação. Assim, o que se propõe hoje é que o ensino de Matemática possa aproveitar ao máximo os recursos tecnológicos, tanto pela sua receptividade social como para melhorar a linguagem expressiva e comunicativa dos alunos. É esperado que nas aulas de Matemática se possa oferecer uma educação tecnológica, que não signifique apenas uma formação especializada, mas, antes, uma sensibilização para o conhecimento dos recursos da tecnologia, pela aprendizagem de alguns conteúdos sobre sua estrutura, funcionamento e linguagem e pelo reconhecimento das diferentes aplicações da informática, em particular nas situações de aprendizagem, e valorização da forma como ela vem sendo incorporada nas práticas sociais. 31 O RECURSO AOS JOGOS Os jogos constituem uma forma interessante de propor problemas, pois permitem que estes sejam apresentados de modo atrativo e favorecem a criatividade na elaboração de estratégias de resolução e busca de soluções. Propiciam a simulação de situações problema que exigem soluções vivas e imediatas, o que estimula o planejamento das ações; possibilitam a construção de uma atitude positiva perante os erros, uma vez que as situações se sucedem rapidamente e podem ser corrigidas de forma natural, no decorrer da ação, sem deixar marcas negativas. Na situação de jogo, muitas vezes, o critério de certo ou errado é decidido pelo grupo. Assim, a prática do debate permite o exercício da argumentação e a organização do pensamento. Os jogos podem contribuir para um trabalho de formação de atitudes — enfrentar desafios, lançar-se à busca de soluções, desenvolvimento da crítica, da intuição, da criação de estratégias e da possibilidade de alterá-las quando o resultado não é satisfatório — necessárias para aprendizagem da Matemática. 72 Nos jogos de estratégia (busca de procedimentos para ganhar) parte- se da realização de exemplos práticos (e não da repetição de modelos de procedimentos criados por outros) que levam ao desenvolvimento de habilidades específicas para a resolução de problemas e os modos típicos do pensamento matemático. As atividades de jogos permitem ao professor analisar e avaliar os seguintes aspectos: • compreensão: facilidade para entender o processo do jogo assim como o autocontrole e o respeito a si próprio; • facilidade: possibilidade de construir uma estratégia vencedora; • possibilidade de descrição: capacidade de comunicar o procedimento seguido e da maneira de atuar; • estratégia utilizada: capacidade de comparar com as previsões ou hipóteses. A participação em jogos de grupo também representa uma conquista cognitiva, emocional, moral e social para o estudante e um estímulo para o desenvolvimento de sua competência matemática. Além de ser um objeto sociocultural em que a Matemática está presente, o jogo é uma atividade natural no desenvolvimento dos processos psicológicos básicos; supõe um “fazer sem obrigação externa e imposta”, embora demande exigências, normas e controle. Objetivos gerais para o ensino fundamental As finalidades do ensino de Matemática visando à construção da cidadania indicam como objetivos do ensino fundamental levar o aluno a: • identificar os conhecimentos matemáticos como meios para compreender e transformar o mundo à sua volta e perceber o caráter de jogo intelectual, característico da Matemática, como aspecto que estimula o interesse, a curiosidade, o espírito de investigação e o desenvolvimento da capacidade para resolver problemas; • fazer observações sistemáticas de aspectos quantitativos e qualitativos da realidade, estabelecendo inter-relações entre eles, utilizando o conhecimento matemático (aritmético, geométrico, métrico, algébrico, estatístico, combinatório, probabilístico); 73 • selecionar, organizar e produzir informações relevantes, para interpretá-las e avaliá-las criticamente; • resolver situações-problema, sabendo validar estratégias e resultados, desenvolvendo formas de raciocínio e processos, como intuição, indução, dedução, analogia, estimativa, e utilizando conceitos e procedimentos matemáticos, bem como instrumentos tecnológicos disponíveis; • comunicar-se matematicamente, ou seja, descrever, representar e apresentar resultados com precisão e argumentar sobre suas conjecturas, fazendo uso da linguagem oral e estabelecendo relações entre ela e diferentes representações matemáticas; • estabelecer conexões entre temas matemáticos de diferentes campos e entre esses temas e conhecimentos de outras áreas curriculares; • sentir-se seguro da própria capacidade de construir conhecimentos matemáticos, desenvolvendo a autoestima e a perseverança na busca de soluções; • interagir com seus pares de forma cooperativa, trabalhando coletivamente na busca de soluções para problemas propostos, identificando aspectos consensuais ou não na discussão de um assunto, respeitando o modo de pensar dos colegas e aprendendo com eles. Conteúdos de Matemática para o ensino fundamental A discussão sobre a seleção e a organização de conteúdos tem como diretriz a consecução dos objetivos arrolados no item precedente e seu caráter de essencialidade ao desempenho das funções básicas do cidadão brasileiro. 32 SELEÇÃO DE CONTEÚDOS Atualmente, há consenso a fim de que os currículos de Matemática para o ensino fundamental devam contemplar o estudo dos números e das operações (no campo da Aritmética e da Álgebra), o estudo do espaço e das formas (no campo da Geometria) e o estudo das grandezas e das medidas (que permite interligações entre os campos da Aritmética, da Álgebra, e da Geometria e de outros campos do conhecimento). Um olhar mais atento para nossa sociedade mostra a necessidade de acrescentar a esses conteúdos 74 aqueles que permitam ao cidadão “tratar” as informações que recebe cotidianamente, aprendendo a lidar com dados estatísticos, tabelas e gráficos, a raciocinar utilizando ideias relativas à probabilidade e à combinatória. O desafio que se apresenta é o de identificar, dentro de cada um desses vastos campos que conceitos, procedimentos e atitudes são socialmente relevantes. Também apontar em que medida os conteúdos contribuem para o desenvolvimento intelectual do aluno, ou seja, para a construção e coordenação do pensamento lógico-matemático, para o desenvolvimento da criatividade, da intuição, da capacidade de análise e de crítica, que constituemesquemas lógicos de referência para interpretar fatos e fenômenos. Embora nestes Parâmetros a Lógica não se constitua como um assunto a ser tratado explicitamente, alguns de seus princípios podem e devem ser integrados aos conteúdos, desde os ciclos iniciais, uma vez que ela é inerente à Matemática. No contexto da construção do conhecimento matemático é ela que permite a compreensão dos processos; é ela que possibilita o desenvolvimento da capacidade de argumentar e de fazer conjecturas e generalizações, bem como o da capacidade de justificar por meio de uma demonstração formal. A seleção de conteúdo a serem trabalhados pode se dar numa perspectiva mais ampla, ao procurar identificá-los como formas e saberes culturais cuja assimilação é essencial para que produza novos conhecimentos. Dessa forma, pode-se considerar que os conteúdos envolvem explicações, formas de raciocínio, linguagens, valores, sentimentos, interesses e condutas. Assim, nesses parâmetros os conteúdos estão dimensionados não só em conceitos, mas também em procedimentos e atitudes. Conceitos permitem interpretar fatos e dados e são generalizações úteis que permitem organizar a realidade, interpretá-la e predizê-la. Sua aprendizagem desenvolve-se de forma gradual e em diferentes níveis e supõe o estabelecimento de relações com conceitos anteriores. Nos terceiro e quarto ciclos alguns conceitos serão consolidados, uma vez que eles já vêm sendo trabalhados desde os ciclos anteriores, como o conceito de número racional. Outros serão iniciados como noções/ideias que vão se completar e consolidar no ensino médio, como é o caso do conceito de número irracional. 75 Os procedimentos por sua vez estão direcionados à consecução de uma meta e desempenham um papel importante pois grande parte do que se aprende em Matemática são conteúdos relacionados a procedimentos. Os procedimentos não devem ser encarados apenas como aproximação metodológica para aquisição de um dado conceito, mas como conteúdo que possibilitem o desenvolvimento de capacidades relacionadas com o saber fazer, aplicáveis a distintas situações. Esse “saber fazer” implica construir as estratégias e os procedimentos, compreendendo os conceitos e processos neles envolvidos. Nesse sentido, os procedimentos não são esquecidos tão facilmente. Exemplos de procedimentos: resolução de uma equação, traçar a mediatriz de um segmento com régua e compasso, cálculo de porcentagens etc. As atitudes envolvem o componente afetivo — predisposição, interesse, motivação — que é fundamental no processo de ensino e aprendizagem. As atitudes têm a mesma importância que os conceitos e procedimentos, pois, de certa forma, funcionam como condições para que eles se desenvolvam. Exemplos de atitudes: perseverança na busca de soluções e valorização do trabalho coletivo, colaborando na interpretação de situações problema, na elaboração de estratégias de resolução e na sua validação. Os conteúdos selecionados aparecem organizados em blocos, que serão apresentados a seguir. 33 NÚMEROS E OPERAÇÕES Ao longo do ensino fundamental o conhecimento sobre os números é construído e assimilado pelo aluno num processo em que tais números aparecem como instrumento eficaz para resolver determinados problemas, e também como objeto de estudo em si mesmos, considerando-se, nesta dimensão, suas propriedades, suas inter-relações e o modo como historicamente foram constituídos. Nesse processo, o aluno perceberá a existência de diversos tipos de números (números naturais, negativos, racionais e irracionais) bem como de seus diferentes significados, à medida que deparar com situações-problema 76 envolvendo operações ou medidas de grandezas, como também ao estudar algumas das questões que compõem a história do desenvolvimento do conhecimento matemático. Com relação às operações, o trabalho a ser realizado se concentrará na compreensão dos diferentes significados de cada uma delas, nas relações existentes entre elas e no estudo do cálculo, contemplando diferentes tipos — exato e aproximado, mental e escrito. Embora nas séries iniciais já se possa desenvolver alguns aspectos da álgebra, é especialmente nas séries finais do ensino fundamental que as atividades algébricas serão ampliadas. Pela exploração de situações-problema, o aluno reconhecerá diferentes funções da Álgebra (generalizar padrões aritméticos, estabelecer relação entre duas grandezas, modelizar, resolver problemas aritmeticamente difíceis), representará problemas por meio de equações e inequações (diferenciando parâmetros, variáveis, incógnitas, tomando contato com fórmulas), compreenderá a “sintaxe” (regras para resolução) de uma equação. Esse encaminhamento dado a Álgebra, a partir da generalização de padrões, bem como o estudo da variação de grandezas possibilita a exploração da noção de função nos terceiro e quarto ciclos. Entretanto, a abordagem formal desse conceito deverá ser objeto de estudo do ensino médio. 34 ESPAÇO E FORMA Os conceitos geométricos constituem parte importante do currículo de Matemática no ensino fundamental, porque, por meio deles, o aluno desenvolve um tipo especial de pensamento que lhe permite compreender, descrever e representar, de forma organizada, o mundo em que vive. O estudo da Geometria é um campo fértil para trabalhar com situações- problema e é um tema pelo qual os alunos costumam se interessar naturalmente. O trabalho com noções geométricas contribui para a aprendizagem de números e medidas, pois estimula o aluno a observar, perceber semelhanças e diferenças, identificar regularidades etc. 77 O trabalho com espaço e forma pressupõe que o professor de Matemática explore situações em que sejam necessárias algumas construções geométricas com régua e compasso, como visualização e aplicação de propriedades das figuras, além da construção de outras relações. Este bloco de conteúdos contempla não apenas o estudo das formas, mas também as noções relativas a posição, localização de figuras e deslocamentos no plano e sistemas de coordenadas. Deve destacar-se também nesse trabalho a importância das transformações geométricas (isometrias, homotetias), de modo que permita o desenvolvimento de habilidades de percepção espacial e como recurso para induzir de forma experimental a descoberta, por exemplo, das condições para que duas figuras sejam congruentes ou semelhantes. Além disso, é fundamental que os estudos do espaço e forma sejam explorados a partir de objetos do mundo físico, de obras de arte, pinturas, desenhos, esculturas e artesanato, de modo que permita ao aluno estabelecer conexões entre a Matemática e outras áreas do conhecimento. 35 GRANDEZAS E MEDIDAS Este bloco caracteriza-se por sua forte relevância social devido a seu caráter prático e utilitário, e pela possibilidade de variadas conexões com outras áreas do conhecimento. Na vida em sociedade, as grandezas e as medidas estão presentes em quase todas as atividades realizadas. Desse modo, desempenham papel importante no currículo, pois mostram claramente ao aluno a utilidade do conhecimento matemático no cotidiano. As atividades em que as noções de grandezas e medidas são exploradas proporcionam melhor compreensão de conceitos relativos ao espaço e às formas. São contextos muito ricos para o trabalho com os significados dos números e das operações, da ideia de proporcionalidade e um campo fértil para uma abordagem histórica. Neste bloco serão tratadas diferentes grandezas (comprimento, massa, tempo, capacidade, temperatura etc.) incluindo as que são determinadas pela razão ou produto de duasoutras (velocidade, energia elétrica, densidade 78 demográfica etc.). Será explorada a utilização de instrumentos adequados para medi-las, iniciando também uma discussão a respeito de algarismo duvidoso, algarismo significativo e arredondamento. Outro conteúdo destacado neste bloco é a obtenção de algumas medidas não diretamente acessíveis, que envolvem, por exemplo, conceitos e procedimentos da Geometria e da Física. Além disso, os conteúdos referentes a grandezas e medidas proporcionarão contextos para analisar a interdependência entre grandezas e expressá-la algebricamente. 36 TRATAMENTO DA INFORMAÇÃO A demanda social é que leva a destacar este tema como um bloco de conteúdo, embora pudesse ser incorporado aos anteriores. A finalidade do destaque é evidenciar sua importância, em função de seu uso atual na sociedade. Integrarão este bloco estudos relativos a noções de Estatística e de probabilidade, além dos problemas de contagem que envolvem o princípio multiplicativo. Evidentemente, o que se pretende não é o desenvolvimento de um trabalho baseado na definição de termos ou de fórmulas envolvendo tais assuntos. Com relação à Estatística, a finalidade é fazer com que o aluno venha a construir procedimentos para coletar, organizar, comunicar dados, utilizando tabelas, gráficos e representações que aparecem frequentemente em seu dia- a-dia. Além disso, calcular algumas medidas estatísticas como média, mediana e moda com o objetivo de fornecer novos elementos para interpretar dados estatísticos. Com relação à probabilidade, a principal finalidade é a de que o aluno compreenda que muitos dos acontecimentos do cotidiano são de natureza aleatória e que se podem identificar possíveis resultados desses acontecimentos e até estimar o grau da possibilidade acerca do resultado de um deles. As noções de acaso e incerteza, que se manifestam intuitivamente, podem ser exploradas na escola, em situações em que o aluno realiza experimentos e observa eventos (em espaços equiprováveis). 79 Relativamente aos problemas de contagem, o objetivo é levar o aluno a lidar com situações que envolvam diferentes tipos de agrupamentos que possibilitem o desenvolvimento do raciocínio combinatório e a compreensão do princípio multiplicativo para sua aplicação no cálculo de probabilidades. 37 ORGANIZAÇÃO DE CONTEÚDOS Uma vez selecionados os conteúdos para o ensino fundamental, eles se organizam em ciclos e, posteriormente, em projetos que cada professor realizará ao longo de um ano letivo. A organização de conteúdos pressupõe, portanto, que se analisem alguns pontos: • a variedade de conexões que podem ser estabelecidas entre os diferentes blocos, ou seja, ao planejar suas atividades, o professor procurará articular múltiplos aspectos dos diferentes conteúdos, visando a possibilitar a compreensão mais ampla que o aluno possa atingir a respeito dos princípios e métodos básicos do corpo de conhecimentos matemáticos (Proporcionalidade, equivalência, indução, dedução etc.); além disso, buscará estabelecer ligações entre a Matemática, as situações cotidianas dos alunos e as outras áreas do conhecimento; • as possibilidades de sequenciar os conteúdos são múltiplas e decorrem mais das conexões que se estabelecem e dos conhecimentos já construídos pelos alunos do que da ideia de pré-requisito ou de uma sucessão de tópicos estabelecida a priori. Embora existam conhecimentos que precedam outros, a hierarquização entre eles não é tão rígida como tradicionalmente é apresentada; • os conteúdos organizados em função de uma conexão não precisam ser esgotados necessariamente de uma única vez, embora deva-se chegar a algum nível de sistematização para que possam ser aplicados em novas situações. Alguns desses conteúdos serão aprofundados, posteriormente em outras conexões, ampliando dessa forma a compreensão dos conceitos e procedimentos envolvidos; 80 • os níveis de aprofundamento dos conteúdos em função das possibilidades de compreensão dos alunos, isto é, levando em conta que um mesmo tema será explorado em diferentes momentos da aprendizagem e que sua consolidação se dará pelo número cada vez maior de relações estabelecidas; • a ênfase maior ou menor que deve ser dada a cada item, ou seja, que pontos merecem mais atenção e que pontos não são tão essenciais; assim, por exemplo, o estudo da representação decimal dos números racionais é fundamental devido à disseminação das calculadoras e de outros instrumentos que a utilizam. O detalhamento de conteúdos por ciclos, que será feito na sequência deste documento, não implica sua imediata transposição para a prática da sala de aula. É fundamental ressaltar que, ao serem reinterpretados regionalmente (nos estados e municípios) e localmente (nas unidades escolares), os conteúdos, além de incorporar elementos específicos de cada realidade, serão organizados de forma articulada e integrada ao projeto educacional de cada escola. 38 AVALIAÇÃO EM MATEMÁTICA Mudanças na definição de objetivos para o ensino fundamental, na maneira de conceber a aprendizagem, na interpretação e na abordagem dos conteúdos matemáticos implicam repensar sobre as finalidades da avaliação, sobre o que e como se avalia, num trabalho que inclui uma variedade de situações de aprendizagem, como a resolução de problemas, o uso de recursos tecnológicos, entre outros. Nesse sentido, é preciso repensar certas ideias que predominam sobre o significado da avaliação em Matemática, ou seja, as que concebem como prioritário avaliar apenas se os alunos memorizam as regras e esquemas, não verificando a compreensão dos conceitos, o desenvolvimento de atitudes e procedimentos e a criatividade nas soluções, que, por sua vez, se refletem nas possibilidades de enfrentar situações-problema e resolvê-las. Outra ideia 81 dominante é a que atribui exclusivamente ao desempenho do aluno as causas das dificuldades nas avaliações. Na atual perspectiva de um currículo de Matemática para o ensino fundamental, novas funções são indicadas à avaliação, na qual se destacam uma dimensão social e uma dimensão pedagógica. No primeiro caso, atribui-se à avaliação a função de fornecer aos estudantes informações sobre o desenvolvimento das capacidades e competências que são exigidas socialmente, bem como auxiliar os professores a identificar quais objetivos foram atingidos, com vistas a reconhecer a capacidade matemática dos alunos, para que possam inserir-se no mercado de trabalho e participar da vida sociocultural. No segundo caso, cabe à avaliação fornecer aos professores as informações sobre como está ocorrendo a aprendizagem: os conhecimentos adquiridos, os raciocínios desenvolvidos, as crenças, hábitos e valores incorporados, o domínio de certas estratégias, para que ele possa propor revisões e reelaborações de conceitos e procedimentos ainda parcialmente consolidados. Assim, é fundamental que os resultados expressos pelos instrumentos de avaliação, sejam eles: provas, trabalhos, registros das atitudes dos alunos, forneçam ao professor informações sobre as competências de cada aluno em resolver problemas, em utilizar a linguagem matemática adequadamente para comunicar suas ideias, em desenvolver raciocínios e análises e em integrar todos esses aspectos no seu conhecimento matemático. As formas de avaliação devem contemplar também as explicações, justificativas e argumentações orais, uma vez que estas revelam aspectos do raciocínio que muitas vezes não ficam evidentes nas avaliações escritas. Se os conteúdos estão dimensionados em conceitos, procedimentos eatitudes, cada uma dessas dimensões pode ser avaliada por meio de diferentes estratégias. A avaliação de conceitos acontece por meio de atividades voltadas à compreensão de definições, ao estabelecimento de relações, ao reconhecimento de hierarquias, ao estabelecimento de critérios para fazer classificações e também à resolução de situações de aplicação envolvendo conceitos. A avaliação de procedimentos implica reconhecer como eles são 82 construídos e utilizados. A avaliação de atitudes pode ser feita por meio da observação do professor e pela realização de auto avaliações. O grau de complexidade a ser avaliado é definido por critérios traduzidos em afirmações que precisem o tipo de aprendizagem desejados. Por exemplo, numa situação de aprendizagem em que se avalia a capacidade de resolver problemas abertos, os critérios relevantes podem ser o planejamento correto da situação, a originalidade na resolução e a variedade de estratégias utilizadas. É fundamental que na seleção desses critérios se contemple uma visão de Matemática como uma construção significativa, se reconheçam para cada conteúdo as possibilidades de conexões, se fomente um conhecimento flexível com várias possibilidades de aplicações, se inclua a valorização do progresso do aluno, tomando ele próprio como o referencial de análise, e não exclusivamente sua posição em relação à média de seu grupo classe. Nesse sentido, a observação do trabalho individual do aluno permite a análise de erros. Na aprendizagem escolar o erro é inevitável e, muitas vezes, pode ser interpretado como um caminho para buscar o acerto. Quando o aluno ainda não sabe como acertar, faz tentativas, à sua maneira, construindo uma lógica própria para encontrar a solução. Ao procurar identificar, mediante a observação e o diálogo, como o aluno está pensando, o professor obtém as pistas do que eles não estão compreendendo e pode planejar a intervenção adequada para auxiliar o aluno a refazer o caminho. Na tentativa de mudar os rumos do que habitualmente acontece nas avaliações em Matemática, alguns professores têm procurado elaborar instrumentos para registrar observações sobre os alunos. Um exemplo são as fichas para o mapeamento do desenvolvimento de atitudes, que incluem questões como: Procura resolver problemas por seus próprios meios? Faz perguntas? Usa estratégias criativas ou apenas as convencionais? Justifica as respostas obtidas? Comunica suas respostas com clareza? Participa dos trabalhos em grupo? Ajuda os outros na resolução de problemas? Contesta pontos que não compreende ou com os quais não concorda? Ao levantar indícios sobre o desempenho dos alunos, o professor deve ter claro o que pretende obter e que uso fará desses indícios. 83 Embora a avaliação esteja intimamente relacionada aos objetivos visados, estes nem sempre se realizam plenamente para todos os alunos. Por isso, constroem-se critérios de avaliação com a função de indicarem as expectativas de aprendizagem possíveis de serem desenvolvidas pelos alunos ao final de cada ciclo, com respeito às capacidades indicadas. A determinação desses critérios deve ser flexível e levar em conta a progressão de desempenho de cada aluno, as características particulares da classe em que o aluno se encontra e as condições em que o processo de ensino e aprendizagem se concretiza. 39 A EDUCAÇÃO MATEMÁTICA A Educação Matemática pode ser caracterizada como uma área de atuação que busca, a partir de referenciais teóricos consolidados, soluções e alternativas que inovem o ensino de Matemática. Vários autores definem o que entendem por Educação Matemática. Em 1993 durante o I Seminário de Educação Matemática, definiu-se educação matemática como área autônoma de conhecimento com objeto de estudo e pesquisa interdisciplinar. (SOUZA et al., 1991). De acordo com Carvalho, “A Educação Matemática é uma atividade essencialmente pluri e interdisciplinar. Constitui um grande arco, onde há lugar para pesquisas e trabalhos dos mais diferentes tipos. ” Para Bicudo a Educação Matemática possui um campo de investigação e de ação muito amplo. Os pesquisadores devem sempre analisar criticamente suas ações com o intuito de perceber no que elas contribuem com a Educação Matemática do cidadão. Portanto, para resumir, podemos dizer que a educação matemática é uma área de estudos e pesquisas que possui sólidas bases na Educação e na Matemática, mas que também está contextualizada em ambientes interdisciplinares. Por este motivo, caracteriza-se como um campo de pesquisa amplo, que busca a melhoria do processo ensino-aprendizagem de Matemática. 84 Vamos então retomar a discussão inicial sobre as tendências da Educação Matemática, porém com uma visão mais clara sobre o significado de Educação Matemática. O educador matemático é aquele que concebe a Matemática como um meio: ele educa através da Matemática. Tem por objetivo a formação do cidadão e, devido a isso, questiona qual a Matemática e quais ensinos são adequados e relevantes para essa formação. Suas atividades se desenvolvem nas escolas de ensino fundamental e médio, nas Secretarias de Educação e nos centros de formação de professores. É o educador matemático um profissional responsável pela formação educacional e social de crianças, jovens e adultos, dos professores de matemática (de nível fundamental e médio) e também pela formação dos formadores de professores. Suas pesquisas são realizadas, utilizando-se essencialmente fundamentação teórica e métodos das Ciências Sociais e Humanas. 40 O SURGIMENTO DA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA ENQUANTO CAMPO PROFISSIONAL E CIENTÍFICO Tomando por base o estudo de Kilpatrick (1992), poderíamos destacar pelo menos três determinantes para o surgimento da Educação Matemática enquanto campo profissional e científico. O primeiro é atribuído à preocupação dos próprios matemáticos e de professores de Matemática sobre a qualidade da divulgação e socialização das ideias matemáticas às novas gerações. Essa preocupação dizia respeito tanto à melhoria de suas aulas quanto à atualização e modernização do currículo escolar da Matemática. De acordo com Schubring (1999) a Matemática foi a primeira das disciplinas escolares a deflagrar um movimento internacional de reformulação curricular. Este movimento aconteceu a partir da Alemanha, no início do século XX, sob a liderança do matemático Felix Klein. O segundo fato é atribuído à iniciativa das universidades europeias, no final do século XIX, em promover formalmente a formação de professores secundários. Isso contribuiu para o surgimento de especialistas universitários em ensino de Matemática. 85 O terceiro fato diz respeito aos estudos experimentais realizados por psicólogos americanos e europeus, desde o início do século XX, sobre o modo como as crianças aprendiam a Matemática. No entanto, em nível internacional, a pesquisa em Educação Matemática daria um salto significativo a partir do “Movimento da Matemática Moderna”, ocorrido nos anos 50 e 60. Esse movimento surgiu de um lado motivado pela Guerra Fria, entre Rússia e Estados Unidos e, de outro, como resposta à constatação após a 2a Guerra Mundial, de uma considerável defasagem entre o progresso científico-tecnológico e o currículo escolar então vigente. A Sociedade norte americana de Matemática, por exemplo, optou, em 1958, por direcionar suas pesquisas ao desenvolvimento de um novo currículo escolar de Matemática. Surgiram então vários grupos de pesquisa envolvendo matemáticos, educadores e psicólogos. O mais influente deles foi o School Mathematics Study Grou, que se notabilizoupela publicação de livros didáticos e pela disseminação do ideário modernista para além das fronteiras norte- americanas, atingindo também o Brasil. É a partir desse período que também surgem, principalmente nos Estados Unidos, os primeiros programas específicos de mestrado e doutorado em Educação Matemática. Os estudos nessa área cresceram tanto, que, segundo Kilpatrick (1992), até o final dos anos 80, já haviam sido realizados mais de cinco mil estudos na área, a maioria nos Estados Unidos. O surgimento da Educação Matemática no Brasil também teve início a partir do Movimento da Matemática Moderna, mais precisamente no final dos anos 70 e durante a década de 80. É nesse período que surge a Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM) e os primeiros programas de pós-graduação em Educação Matemática. Existem no Brasil, atualmente (2000), quase duas dezenas de programas stricto sensu de Pós-graduação (mestrado e doutorado) em Educação Matemática. Dentre eles: a UNESP- Rio Claro, USU- Rio de Janeiro, PUC- SP, FE-UNICAMP- Campinas, FE-USP-SP, PUC-RJ, FEUFSC, UFRN, UFES, UFMS, UNISINOS, FURB, UPF, UNIJUI. Temos hoje, no Brasil, uma comunidade de educadores matemáticos que conta com uma associação própria (SBEM). Congregando cerca de 12 mil associados. 86 41 O OBJETO DE ESTUDO DA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA Embora ainda em construção, poderíamos dizer que o objeto de estudo da Educação Matemática consiste nas múltiplas relações e determinações entre ensino, aprendizagem e conhecimento matemático. Isso não significa que uma determinada investigação não possa priorizar o estudo de um desses elementos da tríade, ou de uma dessas relações. Mas, ao mesmo tempo que isso acontece, os outros elementos jamais podem ser totalmente ignorados. 41.1 Objetivos da pesquisa em Educação Matemática Embora os objetivos da investigação em Educação Matemática sejam múltiplos e difíceis de serem categorizados, pois variam de acordo com cada problema ou questão de pesquisa, podemos afirmar que, sob um aspecto amplo e não imediato, existem dois objetivos básicos: Um, de natureza pragmática, que visa a melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem da Matemática; Outro, de natureza científica, que visa desenvolver a Educação Matemática enquanto campo de investigação e produção de conhecimentos. 41.2 Algumas questões ou perguntas específicas da investigação em Educação Matemática Apesar da Educação Matemática estar na interseção de vários campos científicos (Matemática, Psicologia, Pedagogia, Sociologia, Epistemologia, Ciências Cognitivas...) ela tem seus próprios problemas e questões de estudo, não podendo ser vista como aplicação particular desses campos. Existem dois tipos básicos de perguntas quando se faz pesquisa em Educação Matemática e têm a ver com os objetivos expostos anteriormente: Aquelas que surgem diretamente da prática de ensino, ou melhor, da reflexão do educador sobre sua própria prática e sobre a prática dos outros. 87 Aquelas que são geradas a partir de investigações ou estudos precedentes ou da própria literatura. 41.3 Tendências temáticas e metodológicas da pesquisa em Educação Matemática De acordo com Kilpatrick (1994) existem sete temáticas de investigação, em Educação Matemática, “em alta” nos anos 90. São elas: Processos de ensino/aprendizagem de Matemática; Mudanças curriculares; Emprego de tecnologias no ensino de Matemática; Prática docente; Desenvolvimento profissional (de professores); Práticas de avaliação; contexto sociocultural e político do ensino/aprendizagem de Matemática. 42 PROCESSOS DE ENSINO/APRENDIZAGEM DE MATEMÁTICA: Nesta temática estão relacionados os estudos que tem como objeto de pesquisa o processo de ensino e aprendizagem de Matemática. A principal mudança verificada nos últimos anos é que estes estudos deixaram de focalizar aspectos muito gerais da aprendizagem e passaram a focalizar a aprendizagem de conteúdos matemáticos mais específicos. O foco de estudo mais prestigiado pelas pesquisas tem sido o processo de contagem e as operações fundamentais com números naturais, nas séries iniciais. Só mais recentemente, maior atenção tem sido dada ao estudo dos números racionais, da Álgebra, da Geometria, da Probabilidade e do Cálculo Diferencial e Integral. Relacionadas a esta temática são encontradas as seguintes tendências: Ensino médio e superior passaram a ser, também, fortes objetos de investigação; À medida que surgem novas aplicações da Matemática, têm surgido pesquisas sobre como elas poderiam ser ensinadas ou aprendidas; 88 As respostas corretas e incorretas às tarefas ou problemas matemáticos e as estratégias utilizadas pelos alunos e outros sujeitos para obtê-las, continuam ainda a Interessar os pesquisadores da área; Ainda são pesquisados os esquemas cognitivos gerais e as estruturas cognitivas desenvolvidas pelos alunos frente à solução de problemas; As pesquisas sobre aprendizagem individual são ainda predominante em relação àquela que ocorre em grupos de alunos nos processos interativos em sala de aula; As atitudes, crenças e concepções dos alunos frente à Matemática continuam atraindo a atenção dos investigadores, embora seja notada uma leve mudança nos últimos anos, tendo surgido também interesse pelas representações sociais. Além dessas tendências apontadas, verificamos recentemente a emergência de estudos metacognitivos, isto é, aqueles que procuram investigar o modo como os alunos percebem e relatam seu processo de solução de problemas ou de aprendizagem de algum conceito matemático. Essas pesquisas têm frequentemente utilizado como recurso de coleta de dados os mapas conceituais elaborados pelos próprios alunos. 43 MUDANÇAS CURRICULARES: A primeira questão que surge para o investigador, com relação a esse tema, é: “quais são os fatores que provocam as mudanças curriculares e como estas se processam na prática escolar? ” Podemos apontar, além das pressões sociais, econômicas e políticas em relação à formação dos novos profissionais, a pressão dos especialistas e acadêmicos em querer transpor para a sala de aula os resultados de suas pesquisas sobre o ensino da Matemática. Um terceiro tipo de mudança é atribuída aos próprios professores que, através da pesquisa-ação, tentam, eles mesmos, produzir as inovações curriculares que julgam convenientes. 89 O estudo dessas mudanças e, sobretudo, dos efeitos dessas mudanças, constituem temas ou problemas de interesse da pesquisa em Educação Matemática: Efeitos do Movimento da Matemática Moderna na prática escolar ou no ideário dos professores de Matemática; Estudos comparativos entre diversos países tanto em relação ao currículo proposto oficialmente quanto em relação ao currículo “em ação” (aquele que efetivamente acontece na sala de aula) ou àquele que os alunos realmente aprendem; Efeitos do uso da modelagem matemática – explorando o estudo de problemas da vida real – no ensino e na aprendizagem de Matemática nas escolas; Efeitos do uso de tecnologias educacionais (vídeo, calculadoras, computadores, internet) no ensino de Matemática – que podem promover uma mudança na abordagem (ou prática pedagógica) e no modo de ver e conceber a Matemática e seu ensino; A importância do estudo da história e epistemologia das ideias matemáticas na configuração do currículo; Devido à recente concepção de que a aprendizagem representa um processo de construção social de significados, a pesquisa tem passado a dar mais atenção à visão e aos sentidosque os alunos apresentam em relação às ideias e representações matemáticas do que simplesmente às informações que os alunos recebem em aula e são capazes de devolvê-las nas provas. Outra mudança da investigação em Educação Matemática que se tem verificado ultimamente é a maior importância atribuída pelos investigadores ao currículo em ação – aquele que efetivamente acontece em classe - em detrimento daquele proposto ou planejado e supostamente avaliado pelos professores. 90 44 EMPREGO DE NOVAS TECNOLOGIAS NO ENSINO DE MATEMÁTICA: A atenção dos investigadores e elaboradores de tecnologia educacional e vídeo interativo foi direcionada ao desenvolvimento de projetos e programas para o ensino, alguns para alunos e outros para professores, para serem manejados por professores e não por técnicos. As novas tecnologias permitem aos estudantes não apenas estudar temas tradicionais de maneira nova, mas também explorar temas novos como a geometria fractal. Embora as calculadoras, sobretudo as gráficas, que produzem gráficos e trabalham com funções algébricas) sejam ainda utilizadas e investigadas em sala de aula, atualmente, os microcomputadores e a internet vêm ganhando cada dia mais espaço e adeptos tanto na prática escolar como na pesquisa educacional. Entretanto, pouco ainda se conhece sobre o impacto das novas tecnologias em sala de aula, tanto no que diz respeito às crenças, às habilidades, às concepções e reações de professores, alunos e pais como, também, ao próprio processo de ensino. Alguns acreditam (sobretudo os responsáveis pelas políticas educacionais) que as novas tecnologias são a nova panaceia para solucionar todos os males da educação. 44.1 Práticas docentes (crenças, concepções e saberes práticos): Até meados da década de 70, as pesquisas em Educação Matemática focalizavam mais a aprendizagem que o processo de ensino ou o trabalho didático-pedagógico. Quando os estudos sobre o processo de ensino começaram a aparecer com mais frequência, estes revelavam uma preocupação maior com os efeitos dos diferentes métodos ou materiais de ensino na aprendizagem dos alunos. Estes estudos compreendiam basicamente testagem ou validação de novas técnicas ou materiais de ensino. A partir da metade da década de 80, os pesquisadores passaram a interessar-se, por um lado, sobre como os professores manifestam seus 91 conhecimentos e suas crenças no processo de ensino e, por outro lado, sobre como os alunos aprendem e compreendem aspectos específicos da Matemática. No início da mesma década, Thompson (1984) deu início às investigações sobre a relação entre as concepções e crenças dos professores e sua prática pedagógica. Os resultados dos estudos que se seguiram mostram que o conhecimento e as crenças dos professores transformam-se continuamente e afetam, de modo significativo, a forma como os professores organizam e ministram suas aulas. A partir dos anos 80, surgem também estudos que investigam os conhecimentos profissionais dos professores. Estudos mais recentes, partindo do pressuposto que os professores produzem, na prática, saberes práticos sobre a Matemática escolar, currículo, atividade, ensino, aprendizagem, mostram que esses saberes práticos se transformam continuamente sobretudo quando realizam uma prática reflexiva ou investigativa. 44.2 Desenvolvimento profissional (de professores): Os estudos sobre os saberes profissionais do professor têm revelado baixos níveis de compreensão e domínio do conhecimento matemático a ser ensinado. Relacionado a esse problema, ainda continua em alta o debate sobre que tipo de conhecimento matemático devem ter os professores e como devem combiná-lo com seu conhecimento pedagógico. Se a pesquisa não pode decidir sobre isso, pelo menos ela pode aprofundar nossa compreensão sobre como os professores utilizam seu conhecimento no ensino. Os estudos de correlação entre as características dos professores e sua relação com o desempenho dos alunos têm sido, em sua maior parte, improdutivos. Por isso, os pesquisadores começaram a entrar em sala de aula para avaliar de perto a ação e o desempenho docente. Os estudos que relacionam ações específicas do professor com o desempenho dos alunos, muito frequentes na década de 70, foram aos poucos dando lugar às investigações do tipo: • Contraste entre professor principiante e professor experiente; 92 • Tentativas (alternativas) para melhorar a prática pedagógica do professor; • Descrições de como o professor “constrói significados e percebe sua vida profissional”; • Estudo das crenças e concepções do professor; • Estudo de alguns programas de formação continuada ou permanente. 44.3 Práticas de avaliação: Muitas mudanças curriculares fracassaram porque entraram em conflito com as avaliações externas. Existe hoje um esforço para que as mudanças da prática docente em sala de aula venham acompanhadas de mudanças também no processo de avaliação. Em todos os países do mundo, em função da crescente interferência do governo na educação, tem havido nos últimos anos um aumento das avaliações externas. Estas, entretanto, nem sempre estão sintonizadas com os princípios de uma Educação Matemática crítica ou transformadora. O que tem ocorrido, com frequência, é uma adaptação da prática docente aos princípios e critérios que regem essas avaliações. Kilpatrick (1994) lamenta que as pesquisas em Educação Matemática não tenham se debruçado sobre este problema. Na verdade, as pesquisas que investigam a avaliação e as políticas públicas têm sido muito tímidas quanto à análise dos processos de adoção, adaptação ou resistência dos professores às avaliações externas. Numa visão mais abrangente do problema, a avaliação no processo e, do processo de ensino e aprendizagem de Matemática tem sido muito pouco investigada pelos educadores matemáticos. 45 CONTEXTO SOCIOCULTURAL E POLÍTICO DO ENSINO E APRENDIZAGEM DE MATEMÁTICA: As pesquisas que buscam relacionar o ensino e aprendizagem de Matemática ao contexto sociocultural foram a grande novidade da pesquisa em 93 Educação Matemática nos anos 80. Nesse contexto, a Matemática e a Educação Matemática, são vistas como práticas socioculturais que atendem a determinados interesses sociais e políticos. São inúmeras as pesquisas que procuram investigar a relação entre a cultura da Matemática escolar, a cultura matemática que o aluno traz para a escola e a cultura matemática produzida pelos trabalhadores (adultos e algumas crianças trabalhadoras) ao realizar suas atividades profissionais. Esta é a área de investigação em que o Brasil mais tem se destacado internacionalmente: • Na Etnomatemática – linha de pesquisa criada e desenvolvida pelo educador matemático brasileiro mais reconhecido internacionalmente, Ubiratan D’Ambrósio; • Nos estudos de cognição matemática em diferentes contextos socioculturais – linha de investigação desenvolvida no Brasil pelo grupo de Recife; • Nas determinações sócio-políticas e ideológicas na prática do ensino de Matemática. • Portanto, da ausência de crítica, nos anos 70, passamos a um período (anos 80) de amplas discussões políticas, sociais e ideológicas. De uma preocupação muito grande com o como ensinar? Passamos para o por que, para que, e para quem ensinamos Matemática? Entretanto, alguns destes estudos brasileiros, ao priorizar aspectos pedagógicos e socioculturais muito amplos do fenômeno educacional, deixaram para segundo plano aspectos mais específicos do saber matemático, além de descuidar do próprio processo de investigação. 46 ALGUMASLINHAS INTERNACIONAIS DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO MATEMÁTICA De acordo com levantamento realizado por Batanero e col (1992) os programas de Mestrado e Doutorado em Educação Matemática têm realizado trabalhos dentro das seguintes linhas de pesquisa: Resolução de problemas; 94 Informática, computadores e ensino/aprendizagem de Matemática; Geometria, visualização e representação espacial e pensamento geométrico; Álgebra e pensamento geométrico; Desenvolvimento curricular; Avaliação e atribuição de notas Proporcionalidade e pensamento proporcional; Aritmética e pensamento aritmético Tecnologia educacional (vídeos, uso de calculadoras...); Formação e treinamento de professores; Estatísticas e probabilidade e pensamento estatístico e probabilístico; Ensino de cálculo e pensamento diferencial; Atitudes, concepções e crenças de professores; Atitudes em relação à Matemática; Diferenças individuais; História e Filosofia da Matemática e da Educação Matemática; Educação infantil ou alfabetização matemática; Linguagem no ensino de Matemática e lógica matemática no ensino; Raciocínio analógico, cálculo mental, estimativas; Modelagem matemática; Funções, gráficos e pensamento funcional; Ensino interdisciplinar com aplicações; Etnomatemática; Instrução conceptual e processual; Metodologia da pesquisa em Educação Matemática; Provas e demonstrações Processos cognitivos; Construtivismo; Fatores sociais e afetivos e estudantes com dificuldades de aprendizagem; Professores escolares como pesquisadores; Teoria e Epistemologia em Educação Matemática; 95 Crenças, concepções e representações sociais de alunos; Abordagens investigativas para a Matemática. 47 O QUE SÃO TENDÊNCIAS DA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA? A área da Educação tem sido alvo de constantes pesquisas que buscam inovar a sala de aula e desenvolver uma prática docente criativa e adequada às necessidades da sociedade do século XXI. A Educação Matemática não ficou de fora deste processo. Ao contrário, também abre espaço para pesquisas e discussões que envolvam o ensino da Matemática. Neste contexto, surgem tendências tanto na área da Educação como na de Educação Matemática, que envolvem diferentes abordagens consideradas importantes quando aplicadas ao processo de ensino-aprendizagem. Pesquisadores da educação matemática mostram diferentes abordagens quando tratam das tendências da Educação Matemática. Para entender a evolução histórica, é necessário conhecer o trabalho de Fiorentini, que apresenta uma categorização a partir da análise histórica do ensino da Matemática ao longo dos anos. O autor definiu aspectos para diferenciar cada uma das tendências como, por exemplo, a concepção de ensino, aprendizagem e de Matemática, as finalidades e os valores atribuídos ao ensino de Matemática e a relação professor-aluno. As tendências apresentadas são: empírico-ativista, formalista-moderna, tecnicista e suas variações, construtivista, histórico-crítica e sócio- etnoculturalista. Vamos conhecer um pouco das concepções gerais destas tendências! Na década de 1930, com o nascimento da Escola Nova, a Matemática é ensinada pelos seus valores utilitários, suas relações com as outras ciências e suas aplicações para resolver problemas do dia-a-dia. Utilizam-se atividades experimentais, a resolução de problemas e o método científico acreditando-se que o aluno aprende fazendo. Esta forma de trabalho é chamada de tendência empírico-ativista. 96 Nas décadas de 1960 e 1970 o ensino de Matemática foi influenciado por um movimento de renovação conhecido como Matemática Moderna. Neste período, caracteriza-se a tendência formalista-moderna, com ênfase no uso da linguagem, no rigor e nas justificativas. O ensino era centrado no professor e distanciava-se das aplicações práticas. Nos anos setenta, surge a tendência tecnicista, na qual os conteúdos são apresentados como uma instrução programada. Os recursos e as técnicas de ensino passam a ser o centro do processo ensino-aprendizagem. Os alunos e o professor passam a meros executores de um processo desenvolvido por especialistas. O construtivismo é a base da tendência construtivista, que considera o conhecimento matemático resultante da ação interativa-reflexiva do indivíduo com o meio ambiente. Destaca-se o aprender a aprender e o desenvolvimento do pensamento lógico-formal. A tendência histórico-crítica trata de uma aprendizagem significativa, que acontece quando o aluno consegue atribuir sentido e significado às ideias matemáticas e sobre elas é capaz de pensar, estabelecer relações, justificar, analisar, discutir e criar. A tendência sócioetnocultural traz uma visão antropológica, social e política da Matemática e da Educação Matemática. Parte-se de problemas da realidade, inseridos em diversos grupos culturais, que gerarão temas de trabalho na sala de aula. As tendências apresentadas pelo pesquisador Fiorentini seguem uma evolução histórica vivenciada pelo processo educacional. Podemos dizer que as tendências da Educação Matemática vêm acompanhando as da área da Educação. Atualmente, outros autores citam formas de trabalho que podem ser consideradas tendências da Educação Matemática. Por exemplo, Carvalho trata das tendências em Educação Matemática quando apresenta as linhas de pesquisa em Educação Matemática fornecidas em 1993 por instituições que atuavam nesta área tais como: resolução de problemas, informática e Educação Matemática, etnomatemática. Já Bicudo, Viana e Penteado6 apresentam como diretrizes de pesquisa a visão histórica da Matemática, a ideologia presente nos discursos 97 matemáticos (linguagem matemática) e a etnomatemática. Para Lopes e Borba uma tendência é uma forma de trabalho que surgiu a partir da busca de soluções para os problemas da Educação Matemática. A partir do momento que é usada por muitos professores ou, mesmo que pouco utilizada, resulte em experiências bem sucedidas, estamos diante de uma verdadeira tendência. Colocam, ainda, que a Educação Matemática crítica, a etnomatemática, a modelagem matemática, o uso de computadores e a escrita na Matemática são verdadeiras tendências. Assim, podemos perceber que, apesar de citarem diferentes formas de trabalho ou linhas de pesquisa, os autores concordam que a utilização de uma tendência no processo ensino- aprendizagem da Matemática pode contribuir para que professores e alunos vivenciem diferentes formas de ensinar e aprender Matemática. Nesta apostila, vamos dar ênfase ao estudo de algumas tendências. No entanto, antes disso vamos apresentar um panorama sucinto sobre as tendências atuais da Educação Matemática. 48 AS TENDÊNCIAS ATUAIS NO ENSINO DE MATEMÁTICA – EDUCAÇÃO MATEMÁTICA Com a deflagração de um processo de discussão coletiva direcionado pela Secretaria da Educação, envolvendo principalmente professores e pedagogos para se compuser as Diretrizes Curriculares, a Educação Matemática que já vinha conquistando seu espaço passa a ser considerada oficialmente como campo de estudo. O “professor de matemática” está sendo desafiado a ser substituído pelo “educador matemático” que vê a matemática como um campo investigativo, onde ele vai construir seus próprios métodos e não apenas seguir modismos de opinião pública. A Secretaria de Estado da Educação por meio das Diretrizes Curriculares, (2009), apresenta as tendências metodológicas que compõe o campo de estudo da Educação Matemática: Etnomatemática, Modelagem Matemática, Mídias Tecnológicas,História da Matemática, Investigação Matemática e Resolução de Problemas. 98 49 EDUCAÇÃO MATEMÁTICA CRÍTICA A educação matemática crítica surge na década de 1980 como um movimento que promove debates acerca do tema poder. Ao levar em consideração os aspectos políticos da educação matemática praticada, busca respostas para perguntas tais como: Para quem a Educação Matemática deve estar voltada? A quem interessa? Quando se tenta responder perguntas deste tipo, levantam-se debates sobre questões de preconceito, democracia, interesses políticos etc. Ao trabalhar com a matemática crítica é possível mostrar ao aluno outra faceta do papel da Matemática na sociedade, tornando-a uma ferramenta importante na busca de uma sociedade mais justa. 50 ETNOMATEMÁTICA Segundo D'Ambrosio (1987): Etno (sociedade, cultura, jargão, códigos, mitos, símbolos) + matema (explicar, conhecer) + tica (tchné, arte e técnica). Raízes socioculturais da arte ou técnica de explicar e conhecer. A etnomatemática prioriza a cultura local onde quer que o trabalho seja desenvolvido valorizando sempre a matemática presente nas diferentes culturas. Tem como ponto de partida o conhecimento prévio, isto é, o conhecimento adquirido com as experiências e observações fora do âmbito escolar dos alunos. Partindo dos conceitos informais trazidos pelos alunos, a etnomatemática, contraria a concepção de que todo conhecimento matemático é adquirido na escola, pois se vale desses conceitos e de situações existentes na comunidade escolar para formalizar os conceitos. O professor precisa se inteirar dos costumes, para perceber se os conceitos que os alunos têm sobre determinados assuntos são válidos, e assim saber o que pode ser mudado ou complementado. Isso exige muita 99 disponibilidade do professor. Os principais trabalhos nesta linha são: D'Ambrosio (1986); Carraher, Carraher & Schlieman (1988), entre outros. 51 MODELAGEM MATEMÁTICA A Modelagem Matemática é conceituada por diferentes autores, alguns com conceitos mais detalhados, outros menos. Contudo, todos dão a entender que se trata da arte de transformar problemas da realidade em problemas para serem resolvidos em sala de aula, analisando os resultados. Ao falar sobre as atividades de modelagem matemática em sala de aula, Burack (2004) apresenta as etapas para o encaminhamento e desenvolvimento desse trabalho: escolha do tema; pesquisa exploratória; levantamento dos problemas; resolução do (s) problema (s) e desenvolvimento da Matemática relacionada ao tema; análise crítica da (s) solução (es). De acordo com o autor, o grande desafio para o professor é que os problemas levantados com a pesquisa exploratória determinam o conteúdo matemático a ser trabalhado e, muitas vezes, diferem dos conteúdos trabalhados na série em que está se desenvolvendo esta atividade de modelagem. Cabe ao professor, romper com a sequência estabelecida, “abrir parênteses” e trabalhar com os problemas encontrados de acordo com o nível dos alunos. A modelagem, como uma alternativa metodológica para o ensino de Matemática na Educação Básica é uma estratégia desafiadora, que rompe as barreiras do ensino tradicional na perspectiva de um ensino, onde o aluno participa na construção dos conceitos e dos conhecimentos matemáticos. 52 MÍDIAS TECNOLÓGICAS De acordo com Moran (2007), o uso de novas tecnologias na escola está sendo implantado gradativamente. Este uso tem sem dúvida seus pontos positivos, no entanto, sabemos que, muitas vezes a tecnologia é usada sob o pretexto de modernização, tentando ocultar os problemas sérios que a escola enfrenta. 100 As tecnologias precisam ser compreendidas como ferramentas que auxiliam o trabalho do professor, pois os conteúdos, as informações podem estar contidas em grande quantidade em um pequeno espaço como CD-ROM, Pen Drive e, até mesmo, estar disponíveis na internet, porém o professor é indispensável no processo de interpretação, de relacionamento, de julgamento, para fazer as considerações e tirar as conclusões, fazendo as complementações necessárias. No Paraná, no Portal Dia-a-Dia Educação (http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br), o professor tem disponível um site da disciplina de matemática (http://matematica.seed.pr.gov.br) que tem a finalidade de informar os professores, servindo como recurso de apoio a implementação de tecnologias na prática pedagógica 53 HISTÓRIA DA MATEMÁTICA A História da Matemática, de acordo com as Diretrizes Curriculares do Estado do Paraná (2009), pode servir como referência na elaboração de atividades e problemas favorecendo o entendimento de conceitos matemáticos. Ela nos mostra que as grandes descobertas matemáticas surgiram da necessidade ou pela curiosidade em descobrir as relações entre medidas para se chegar a uma fórmula matemática, ou a uma constante numérica, como é o caso do p. Através da história da Matemática o estudante pode ser instigado a compreender como o conhecimento matemático é construído tornando-o, assim mais significativo para o aluno. 54 INVESTIGAÇÃO MATEMÁTICA De acordo com as Diretrizes Curriculares do Estado do Paraná (2009), a prática pedagógica da investigação matemática vem despontando como um caminho aceito e recomendado por muitos estudiosos como forma de proporcionar ao aluno uma melhor compreensão da disciplina. As atividades investigativas devem ser desafiadoras e preparadas com antecedência pelo professor, que poderá usar um mesmo texto com questões 101 diferentes aos grupos participantes. Podemos dividir em três etapas a atividade de investigação: a introdução da tarefa, a sua realização pelos alunos com acompanhamento do professor e a discussão/reflexão entre alunos de grupos diferentes com a participação do professor. 55 RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS Das tendências metodológicas, para o ensino da matemática, entendemos que, por meio da resolução de problemas, é que a matemática se desenvolve por manter um elo, com todas as outras tendências da Educação Matemática. Os problemas são importantes porque trazem ideias novas, impulsionando os diversos ramos da matemática, muitas vezes sem estarem diretamente ligados. De acordo com Polya (2006) à medida do possível, é importante que os problemas sejam provocativos, pois quando o aluno é desafiado, suas emoções de entusiasmo na busca de solução são despertadas. Para esse autor, se o professor apresentar aos alunos problemas que desafiem a curiosidade certamente vai despertar o interesse dos mesmos, para resolvê-los. A satisfação gerada, pela solução encontrada, pode ativar um talento natural para a matemática que poderá ser um instrumento profissional ou até mesmo a própria profissão. Isso significa dizer que ninguém pode saber o gosto de alguma coisa sem antes experimentá-la. O autor ressalta ainda que, os problemas precisam estar adequados ao nível dos alunos, isto é, nem tão difíceis para que não desanimem frente às dificuldades encontradas e nem tão fáceis para que não percam o interesse por julgarem fáceis demais. Segundo Polya (2006), outra questão que não pode ser desconsiderada pelo professor é o momento da explicação de como se resolve um problema. É preciso deixar claro aos alunos que essa não é tarefa fácil, pois podemos encarar um problema de diferentes maneiras. Muitas vezes, o nosso entendimento do problema, quando lemos pela primeira vez é parcial, só vai se completando na medida em que lemos mais atentamente e, dessa forma, nos organizamos em busca da solução. 102 Para resolver um problema não podemos seguir regras, ou simplesmente fazero uso de algum algoritmo, pois os problemas quando bem formulados exigem muito mais que uma forma mecânica para resolver. Os problemas variam muito, mas de uma maneira geral, existem etapas que podem ajudar na resolução. Essas etapas não são rígidas nem infalíveis e podem variar quanto ao número, geralmente de três a cinco, podendo ser mais, ou menos. Polya (2006) apresenta quatro etapas principais para resolução de problemas: • Compreender o problema: quem vai resolver um problema, primeiramente precisa entender o que se pede, através de uma leitura atenta, ou até mais de uma, interpretando corretamente, para saber o que se pretende calcular. São partes importantes de um problema: a incógnita; os dados fornecidos pelo problema e a condição que deve ser satisfeita relacionando esses dados conforme as condições estabelecidas no enunciado. • Elaboração de um plano: depois de interpretar o problema é preciso escolher uma estratégia de ação, que pode variar muito dependendo da natureza do problema. Pode se iniciar com o esboço de uma figura geométrica, com um gráfico, uma tabela ou um diagrama; fazer uso de uma fórmula; tentativa-e-erro sistemática, entre outras. • Executar o plano: se o plano foi bem elaborado, não fica tão difícil resolver o problema, seguindo passo a passo o que foi planejado, efetuando todos os cálculos, executando todas as estratégias, podendo haver maneiras diferentes de resolver o mesmo problema. O importante é que o professor acompanhe todos os passos, questionando o aluno, podendo dar alguma ajuda, mas que o aluno se sinta o idealizador e realizador do plano. • Retrospecto ou verificação: depois de encontrar a solução é hora de verificar se as condições do problema foram satisfeitas, se o resultado encontrado faz sentido. Pode-se questionar também sobre outras maneiras de resolver o mesmo problema, como também a resolução de outros problemas correlatos, usando a mesma estratégia. Entendemos que todas as etapas mencionadas são importantes, mas se a primeira não acontecer a contento, nenhuma outra poderá levar ao objetivo final que é a resolução e o entendimento do problema. Uma leitura bem-feita, 103 para que o aluno consiga captar todas as informações contidas no enunciado do problema, isto é, investigar tudo o que o problema encerra, é mais que meio caminho andado para se chegar a solução. É papel do professor de Matemática, como educador, propiciar as condições necessárias aos alunos, através de problemas bem formulados. Conforme o nível de compreensão dos alunos, o professor pode ir adequando os problemas, para que os mesmos possam fazer uma leitura interpretativa. Cabe ainda ao professor, acompanhar e questionar o aluno, para saber se houve entendimento, auxiliando-o, quando ele apresentar dificuldades. Para Butts (apud Dante, 2005), primeiramente, é necessário distinguir um problema de um exercício. Segundo esse autor, o exercício serve apenas para treinar uma habilidade em praticar determinados processos algorítmicos, e o problema é descrito como uma situação, onde não se sabe de antemão por qual meio se chega à solução, não existindo nenhum algoritmo que possa previamente considerar como caminho. 56 A RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS NUMA PERSPECTIVA METODOLÓGICA A resolução de problemas, no final da década de 80, começa a ter uma nova dimensão, despontando como metodologia de ensino. Osborne e Kasten (1996) afirmam que usar um problema como recurso para desenvolver e introduzir tópicos de matemática pode ser considerado uma metodologia importante que pode contribuir com o trabalho do professor. Considera-se como um problema toda situação que pode ser problematizada, tais como: jogos, em que se busca uma estratégia para vencer, qualquer tipo de atividade planejada, levantamento e seleção de informações, qualquer atividade que requeira uma atitude investigativa. Uma situação problematizada não se resolve simplesmente através de fórmulas ou aplicação de uma determinada regra, é necessário uma atitude de investigação mais profunda, onde a resposta encontrada não é mais importante do que o caminho percorrido para se chegar até ela. Na Resolução de Problemas como metodologia de ensino, os conceitos e as técnicas operatórias são apresentados aos alunos fazendo uma relação 104 entre a ideia matemática e o contexto. Diniz (2001) afirma que a resolução de problemas é um caminho para se ensinar matemática. Nessa perspectiva, por meio da resolução de problemas, como ponto de partida, é possível introduzir novos conceitos, fazer a conexão com outros ramos da matemática e iniciar novos conteúdos. Na resolução de problemas, a comunicação é essencial, seja ela oral, escrita, ou através de desenhos. Isso possibilita ao professor, observar as mudanças de atitudes e acompanhar o progresso do aluno, bem como, interferir nas dificuldades encontradas, seja para o desenvolvimento das estratégias planejadas, ou mesmo para entender determinados conceitos. 105 BIBLIOGRAFIA ANASTACIO, M. Q. A. Considerações sobre a modelagem Matemática e a Educação Matemática (Tese de Mestrado) – UNESP – Rio Claro, 1991. BARBOSA, J. C. Modelagem matemática e os futuros professores. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPED, 25. 2002, Caxambu. Anais... Caxambu: ANPED, 2002. Disponível em <http:// sites.uol.com.Br/joneicb>. Acessado em 25/06/2005. BARBOSA, J. C. O que pensam os professores sobre a modelagem matemática? Zetetiké, Campinas, v.7, n. 11, p. 67-85, 1999. BASSANEZI, R. R; Modelagem Matemática – Um Método Cientifico de Pesquisa ou uma Estratégia de Ensino e Aprendizagem? In: Ensino – Aprendizagem com Modelagem Matemática: Uma Nova Estratégia/ Rodney Bassanezi; S. Paulo: Contexto, 2002. BIEMBENGUT, M. 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