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SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA Claudio Cezar Henriques Marina C. Legroski E d u ca çã o S E M Â N T IC A E P R A G M Á T IC A C la ud io C ez ar H en riq ue s M ar in a C . L eg ro sk i De todas as ferramentas aprendidas após tantas aulas, as duas que fazem parte deste livro se sobressairão: a ferramenta estilística (que se refere à prag- mática) e a ferramenta semântica. Elas sintetizam, ou melhor, elas sublimam tudo que se estudou nas muitas disciplinas dos estudos linguísticos, desde as primeiras letras até estas Letras superiores. A ciência da expressividade e a ciência das significações. Ambas percorrem este volume, chamando de volta aquelas aulas, pesquisas e conteúdos grava- dos nas nossas lembranças – e agora mais repisados, amadurecidos, disponí- veis para uso e para uma mudança de posição no ato de aprender e ensinar. Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-85-387-6337-6 9 7 8 8 5 3 8 7 6 3 3 7 6 Claudio Cezar Henriques Marina C. Legroski Semântica e Pragmática IESDE BRASIL S/A Curitiba 2017 CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ H449s Henriques, Claudio Cezar Semântica e pragmática / Claudio Cezar Henriques, Marina C. Legroski. - 1. ed. - Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2017 260 p. : il. ; 21 cm. ISBN 978-85-387-6337-6 1. Semântica. 2. Língua portuguesa. I. Legroski, Marina C. II. Título 17-43722 CDD: 401.43 CDU: 81’37 Direitos desta edição reservados à Fael. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael. © 2009 – 2017 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br Produção FAEL Direção Acadêmica Francisco Carlos Sardo Coordenação Editorial Raquel Andrade Lorenz Revisão IESDE Projeto Gráfico Sandro Niemicz Capa Vitor Bernardo Backes Lopes Imagem Capa Shutterstock.com/xiaorui/Hong Vo/ Sona Salamzadeh/Tashatuvango. Arte-Final Evelyn Caroline dos Santos Betim Sumário Carta ao aluno | 5 1. Estilística, a ciência da expressividade | 7 2. Estilística fônica | 25 3. Estilística léxica | 43 4. Estilística sintática – I | 63 5. Estilística sintática – II | 81 6. Estilística da enunciação | 97 7. Semântica, a ciência das significações | 117 8. Relações semânticas – I | 135 9. Relações semânticas – II | 151 10. Relações semânticas – III | 171 11. Elementos centrais dos estudos da pragmática | 189 12. Estudos atuais em pragmática | 209 Gabarito | 229 Referências | 245 Carta ao aluno Nos estudos de Língua Portuguesa dedicamos uma boa parte do tempo aos conteúdos tradicionais da gramática, em especial a sintaxe, a morfologia e a fonologia. Além disso, temos sempre de nos atualizar quanto às questões da ortografia, fazer muitas leituras e redações. É, em suma, um grande aprendizado. Quando juntamos todas essas informações e refletimos seriamente sobre nossa vida escolar, podemos fazer um balanço dos proveitos que tanto estudo nos trouxe. As aulas e as orientações devem ter deixado em cada um de nós a certeza de que estamos mais conscientes de nosso papel na sociedade e de nosso compromisso com a língua portuguesa. De todas as ferramentas aprendidas após tantas aulas, as duas que fazem parte deste livro se sobressaem: a ferramenta estilística que se refere à pragmática e a ferramenta semântica. Elas sinteti- zam, ou melhor, elas sublimam tudo que se estudou nas muitas disciplinas dos estudos linguísticos, desde as primeiras letras até estas Letras superiores. – 6 – Semântica e Pragmática A ciência das significações e das intenções. Ambas percorrem este volume, chamando de volta aquelas aulas, pesquisas e conteúdos gravados nas nossas lembranças – e agora mais repisados, amadurecidos, disponíveis para uso e para uma mudança de posição no ato de aprender e ensinar. A Semântica e a Pragmática – o leitor confirmará – são disciplinas da vida acadêmica e da vida real, levando-nos em busca de um lugar expressivo e significativo, compelindo-nos ao entendimento e à explicação, à indagação, cogitação, novas sendas filológicas, pragmáticas, discursivas. Na estrutura deste livro, optamos por trabalhar separadamente a orga- nização dos capítulos, imbricando-se nos dois últimos as características das intenções, das implicaturas e dos pressupostos, matéria incisiva para a aplica- ção dos estudos da pragmática. Estilística, a ciência da expressividade O objetivo deste capítulo é conceituar os termos estilo e estilística e destacar a importância dos estudos estilísticos para a compreensão do funcionamento da língua portuguesa. 1.1 A palavra “estilo” O termo estilo (registrado pela primeira vez em nossa língua no século XIV) provém do latim stilus: “qualquer objeto em forma de haste pontiaguda, ponteiro de ferro para escrever sobre tabui- nhas enceradas”, definição que reúne as informações de duas obras homônimas, o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de J. P. Machado (1977), e o de A. Nascentes (1955). De instrumento empregado para escrever, passou a signi- ficar, por um processo metonímico, a própria escrita e, depois, a linguagem considerada em relação ao que ela tem de característico. Por fim, expandindo seu campo de significação, estilo passou tam- bém a representar qualquer conjunto de tendências e características 1 Claudio Cezar Henriques Semântica e Pragmática – 8 – formais, estéticas, que identificam ou distinguem uma obra, artista, escritor, ou determinado período ou movimento, ou até mesmo um objeto. Daí, é possível encontrarmos essa palavra acompanhada de muitas e varia- das referências (poema em estilo parnasiano; móvel em estilo colonial; atriz com um estilo afetado; filme no estilo europeu) e, genericamente, como sinô- nimo de “maneira” e “elegância” (esse é o meu estilo de vida; ela não tem estilo). Figura 1 – Estilo. Estilo: qualquer objeto em forma de haste pontiaguda, ponteiro de ferro para escrever sobre tabuinhas enceradas. Fonte: IESDE BRASIL S/A. Dessa palavra deriva, por exemplo, o substantivo estilete: utensílio com lâmina móvel e bastante afiada, protegido por invólucro de plástico, usado para cortar papelão, couro, borracha etc. Deriva também o substantivo esti- lística, tema que se aplica a variados campos de estudo, inclusive aos estudos linguísticos e literários. Nos estudos de língua, pode-se definir estilo como o modo pelo qual um indivíduo usa os recursos fonológicos, morfológicos, sintáticos, lexicais, semânticos, discursivos da língua para expressar, oralmente ou por escrito, pensamentos, sentimentos, opiniões, etc. Ou seja: nos estudos de língua portuguesa... estilo é escolha linguística. Essa escolha depende da capacidade e sensibilidade de cada usuário de res- ponder a estas perguntas: – O que tem a dizer? – 9 – Estilística, a ciência da expressividade – Para quem vai dizer? – Como vai dizer? – Quando vai dizer? Por isso, não é exagero afirmar que: 2 Quem não tem o que escolher não tem estilo... Tem cacoete. 2 Quem tem o que escolher, mas escolhe mal, também não tem estilo... Tem mau gosto. 1.2 As origens da Estilística As definições de Estilística variam conforme o recorte teórico a que per- tence o analista, mas não se pode negar que sua existência tem uma conexão histórica e semântica com a Poética (enquanto “teoria geral das obras literá- rias”) e a Retórica (enquanto “teoria do discurso”). As definições que seguem foram extraídas do Dicionário Houaiss: 2 Poética – parte dos estudos literários que se propõe a investigar os processos que dizem respeito às normas versificatórias dos textos, os componentes teóricos de que se revestem, bem como os compên- dios de poética que, desde Aristóteles até os nossos dias, abordaram o assunto (HOUAISS,2004). 2 Retórica – a arte da eloquência, a arte de bem argumentar; a arte da palavra; conjunto de regras que constituem a arte do bem dizer, a arte da eloquência; oratória (HOUAISS, 2004). A Estilística se baseia sobretudo em duas das três funções primordiais da linguagem depreendidas pelo alemão Karl Bühler (1879-1963): representação, expressão e apelo (BÜHLER, 1934). A elas correspondem, respectivamente, as faculdades de inteligência, sensibilidade e desejo ou vontade, centrando-se a Estilística na expressão e no apelo. Semântica e Pragmática – 10 – Quadro 1 – As funções da linguagem segundo Karl Bühler. 2 representação linguagem referencial denotativa eixo sintagmático(= posição no texto) 2 expressão exteriorização psíquica de nossos anseios e sentimentos denotativa / conotativa eixo paradigmático (= posição no sistema) 2 apelo exercício de influência sobre os interlocutores denotativa / conotativa eixo paradigmático (= posição no sistema) Fonte: Elaborado pelo autor. Exemplos: 1. “Jornalista é a pessoa que trabalha como redator, repórter, colu- nista ou diretor em órgão da imprensa, ou programa jornalístico no rádio ou na televisão.” (HOUAISS, 2004) 2. “Jornalista é um homem que sabe explicar aos outros o que ele próprio não entende.” (CARPEAUX, 1967) 3. “Jornalista, você tem uma missão importante na sociedade.” (Chamada publicitária) Na prática, essas três funções se integram, tanto no texto informativo quanto no literário, embora possa ocorrer o predomínio de uma ou de outra, dependendo do gênero textual ou do tipo de discurso. Nas três frases dadas, cada uma exemplifica uma das funções do quadro, na ordem. Seguindo o esquema das funções da linguagem de Karl Bühler, a Estilística é – como dissemos – a disciplina que estuda a língua nas suas funções expressiva e apelativa. Seu criador, Charles Bally (1865-1947), “pre- tendeu chamar a atenção para o lado afetivo do discurso”, como explica Melo (1976, p. 16). Outros teóricos, sobretudo Karl Vossler (1872-1949) e Leo Spitzer (1887-1960), apontaram para uma linha diversa da Estilística. Enquanto Bally, discípulo de Ferdinand de Saussure (1857-1913), bus- cava estudar a língua como expressão do pensamento que reflete determinada afetividade nos atos da fala, Vossler e Spitzer optaram por estudar as relações – 11 – Estilística, a ciência da expressividade entre expressão e indivíduo. Podemos dizer que são duas concepções exclu- dentes: uma centrada na langue (a de Bally), outra na parole. Dessas duas origens depreendem-se obviamente dois perfis de comen- tários estilísticos: um que se aproxima, comparativa e contrastivamente, da gramática descritiva; outro que dela se afasta para se aproximar dos estudos específicos de literatura, e que chegou a ser chamado de Estilística genética. Com o passar do tempo, cada perfil foi recebendo adesões e adaptações, variantes de abordagem que percorreram vertentes estatísticas, estruturais, semióticas, psicanalíticas, sociológicas. 1.3 Principais correntes da Estilística As duas grandes vertentes da Estilística são chamadas de “descritiva” e “idealista” e têm como principal diferença o enfoque dado ao objeto de seu estudo, ou seja, o texto. 1.3.1 A Estilística descritiva (Estilística linguística) A Estilística descritiva volta-se para os aspectos afetivos da língua, os quais estão a serviço do homem de forma viva, espontânea, porém sujeitos a um sistema expressivo que pode ser descrito e interpretado. Para exemplificar, vejamos uma frase citada por José de Alencar (1829- 1877) no “Posfácio” de Iracema como expressão bem popular de sua terra: 4. “A mãe diz do filho que acalentou ao colo: Está dormindi- nho.”(ALENCAR, s.d., p. 273) O vocábulo “dormindinho” não é o diminutivo de “dormindo”, mas uma forma nominal do verbo acrescida da ideia de afetividade e carinho expressada pelo sufixo -inho, assim interpretada estilisticamente pelo escri- tor cearense: “Que riqueza de expressão nesta frase tão simples e concisa! O mimo e ternura do afeto materno, a delicadeza da criança e sutileza do seu sono de passarinho, até o receio de acordá-la com uma palavra menos doce; tudo aí está nesse diminutivo verbal.” (ALENCAR, s/d, p. 273). Semântica e Pragmática – 12 – Nos estudos de língua portuguesa, podemos citar algumas obras que seguem essa corrente, entre as quais merecem menção: 2 Manuel Rodrigues Lapa – Estilística da Língua Portuguesa (1.a ed. 1945); 2 J. Mattoso Câmara Jr. – Contribuição à Estilística Portuguesa (1.a ed. 1952); 2 Gladstone Chaves de Melo – Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa (1.a ed. 1976); 2 José Brasileiro Vilanova – Aspectos Estilísticos da Língua Portuguesa (1.a ed. 1977). O que a Estilística descritiva tem como alvo é a sistematização dos meios que a língua nos oferece para exteriorizarmos nossas necessidades afetivas, isto é, os elementos emocionais que acompanham o enunciado. Comparemos a expressividade dos versos de uma canção de Chico Buarque com a objetividade de uma variante referencial: 5. Dorme, minha pequena / Não vale a pena despertar / Eu vou sair / Por aí afora /Atrás da aurora / Mais serena (“Acalanto para Helena”) 6. Dorme, minha filha, não precisa acordar. Eu vou sair para o trabalho. Comentário estilístico: embora o conteúdo informativo seja idêntico, apenas o exemplo (5) mostra o sentimento e a densidade da cena, compar- tilhando com o leitor a escolha revelada do sintagma “minha pequena” e a longa representação de sua “saída para o trabalho” (= eu vou sair por aí afora atrás da aurora mais serena). Como se vê, ao se ocupar da descrição dos recursos expressivos da língua como um todo, independentemente de sua ocorrência em obras literárias, a Estilística descritiva não está voltada exclusivamente para a literatura e se desdobra em outras vertentes, sobretudo a chamada estilística funcional, que tem Roman Jakobson (1896-1982) como seu principal representante. – 13 – Estilística, a ciência da expressividade Jakobson examina, a partir do processo de comunicação, a partici- pação do emissor, do contexto, da mensagem, do contato, do código e do destinatário. E cada um desses componentes, conforme o caso, justifica a existência de funções predominantes ou concorrentes, a saber: emotiva ou expressiva (centrada no emissor), referencial ou informativa (no contexto), poética (na mensagem), fática (no contato), metalinguística (no código) ou conativa (no destinatário). O processo básico da comunicação verbal envolve uma situação fun- damental de construção, que pode ser exemplificada na seguinte simulação: José pretende avisar a João que vai viajar. Em tal situação, temos seis fatores envolvidos na comunicação verbal. Partindo da frase do exemplo, identificamos: Quadro 2 – Comunicação verbal A – José diz que vai viajar. Ele é o... ... emissor B – A ideia que vai ser proferida por José é algo abstrato e só vai ser concretizada quando for dita por ele. Essa ideia abstrata é o... ... contexto C – Ao concretizar o contexto, isto é, ao dizer: “Vou viajar”, José se vale da... ... mensagem D - Esta mensagem, para ser entendida por João, precisa ser dita de uma forma que ele conheça, isto é, com elementos que sejam comuns a ambos, no caso, as palavras, que são o... ... código E – José fala e João escuta. Isto representa o... ... contato F – João é o objeto/alvo/indivíduo a ser alcançado por José na conversação; João é, portanto, o... ... destinatário Fonte: Elaborado pelo autor. Semântica e Pragmática – 14 – A esquematização desses seis fatores pode ser estabelecida da seguinte maneira: Figura 2 – Fatores da comunicação verbal. EMISSOR DESTINATÁRIO CONTEXTO MENSAGEM CONTATO CÓDIGO FUNÇÃO EMOTIVA FUNÇÃO CONATIVA FUNÇÃO REFERENCIAL FUNÇÃO POÉTICA FUNÇÃO FÁTICA FUNÇÃO METALINGUÍSTICA Fonte: Elaborado pelo autor. Em suma, a Estilística linguística pretende organizar e interpretar os dados expressivos “que se integram nos traços da língua e fazemda linguagem esse conjunto complexo e amplo” (CÂMARA JR., 1979, p. 15). 1.3.2 A Estilística idealista (Estilística literária) A Estilística idealista parte da reflexão, de cunho psicológico, a respeito dos desvios da linguagem em relação ao uso comum e considera que qualquer afastamento do uso linguístico normal decorre de alguma alteração do estado psíquico normal do escritor. Nesse sentido, a maneira pessoal de alguém se expressar é seu estilo, que reflete o mundo interior e a experiência de vida de quem escreve. Voltada especificamente para a produção literária, a Estilística idealista con- sidera que toda obra encerra um mistério cuja compreensão depende basicamente da intuição de quem se investe do desejo de desvendar “os mistérios de criação de uma obra e dos efeitos dessa obra sobre os leitores” (MARTINS, 1989, p. 9). Essa dimensão serviu como argumento para que alguns estudiosos defendessem a complementaridade entre as duas correntes principais. Amado – 15 – Estilística, a ciência da expressividade Alonso (1896-1952), por exemplo, chega a afirmar que a Estilística literária tem como base a Estilística linguística justamente porque é esta quem cuida do lado afetivo, imaginativo das formas da língua, encontráveis tanto na fala como na escrita, pois são esses indícios que se sobrepõem aos signos. A partir de tais elementos, a Estilística literária examinará como é constituída a obra literária e considerará o prazer estético que ela provoca no leitor. Como tudo se engloba no valor estético da obra, ela está impregnada do próprio prazer do autor ao criá-la e isso vai suscitar no leitor um prazer correspondente. Entre as obras disponíveis em língua portuguesa que seguem a corrente idealista, merecem citação: 2 Vítor Manuel de Aguiar e Silva – Teoria da Literatura (1.a ed. 1967); 2 Eduardo Portella – Teoria da Comunicação Literária (1.a ed. 1970); 2 Affonso Romano de Sant’Anna – Análise Estrutural de Romances Brasileiros (1.a ed. 1973); 2 Luiz Costa Lima – Dispersa Demanda (1.a ed. 1981). Eis alguns exemplos de comentários estilísticos sob o viés idealista: Até o momento presente, os mais importantes estudos sobre o lirismo drummondiano só trataram de aspectos parciais (temáticos ou formais) de sua obra, enquanto que a maior parte das visões de conjunto perma- nece excessivamente sintética. (MERQUIOR, 1975, p. 3) No caso de Guimarães Rosa, embora sua obra seja das mais estuda- das entre nós, o problema do magismo e de suas implicações com a apreensão estética da realidade parece completamente inexplorado. Isso propicia mal-entendidos, que mais se agravam se a ausência desta análise se combina a observações que, sendo válidas, sejam, no entanto, também tratadas parcialmente. (LIMA, 1991, p. 510) A leitura do conjunto das obras de Rubem Fonseca nos leva a des- tacar a existência de dois grandes núcleos temáticos: a violência e a busca da verdade. Poderíamos mesmo dizer que a íntima relação esta- belecida entre esses núcleos é fonte geradora de força da ficção do autor, na medida em que determina o tipo de tratamento que será dado aos temas e a consequente busca de soluções formais adequadas. (FIGUEIREDO, 1994, p. 73) Roger Fowler (1993, p. 237) nos dá uma boa definição do que se deve entender por Estilística literária, dizendo que ela é “uma subdivisão Semântica e Pragmática – 16 – historicamente isolada da crítica com seus próprios princípios e métodos”, sendo “menos difusa, mais coerente, mais mecânica do que a crítica em geral”. Em suma, a Estilística literária desvencilha-se às vezes da linguística e assume um aspecto quase genético, propondo-se a recuperar a gênese, a cria- ção poética, convivendo desafiadoramente com as relações entre forma e con- teúdo, materiais e estrutura. 1.4 Aplicações da Estilística aos estudos do Português “A Estilística vem complementar a gramática,” diz Mattoso Câmara Jr. (1979, p. 14). Por isso, para examinar que aplicações tem a Estilística nos estudos de uma língua, é preciso deixar claros seus vínculos com a gra- mática, ou seja, com o léxico, com a sintaxe, a morfologia, a fonética e a fonologia. Daí falarmos em estilística fônica (fonoestilística), em estilística da palavra (morfoestilística), em estilística sintática e até em estilística da enunciação. Afinal, [...] ler ou escrever um texto é muito mais do que apenas compreen- der ou organizar palavras em frases e parágrafos. É algo que envolve um amplo mecanismo a partir do qual o pensamento e as pretensões comunicativas do autor se apresentam para reflexão e avaliação do leitor. Como se constroem esses textos? Com palavras, sintagmas, ter- mos e orações – elementos que mantêm entre si um relacionamento interno de concordância, de regência, de atribuição. (HENRIQUES, 2008a, p. 15) A Estilística é parceira de todos os componentes do texto, desde os fonemas que constroem morfemas e palavras até os períodos e parágrafos que constroem a totalidade do texto. E a adequação gramatical de uma obra precisa estar “compatível com as pretensões e intuitos de seu autor, que – se assim julgar pertinente – procurará atingir o nível de exigência da lingua- gem padrão praticada por escrito pela comunidade culta em que se insere” (HENRIQUES, 2008a, p. 16). As relações dentro de um texto são micro ou macro, conforme o ponto de vista de quem examina o objeto de estudo. Nessa tarefa, caberá notar que tipo de expressividade se percebe, se descreve e se explica nas passagens escolhidas – 17 – Estilística, a ciência da expressividade de um texto concreto, real – produto que se tem em mãos e aos olhos para com ele se estabelecer uma “negociação de entendimento”. Para ilustrar essas considerações, vejamos dois trechos da canção intitu- lada “Cigarra”, escrita por Ronaldo Bastos e Milton Nascimento e interpre- tada por Simone. 7. Porque você pediu uma canção para can- tar / Como a cigarra arrebenta de tanta luz / E enche de som o ar / [...] Porque ainda é inverno em nosso coração / Essa canção é para cantar / Como a cigarra acende o verão / E ilumina o ar / Si, si, si, si, si, si, si, si... Os versos mostram uma expressiva identi- ficação que começa na coincidência sonora que existe entre a primeira sílaba da palavra “cigarra” e do nome da cantora “Simone”. Seria coincidên- cia, se não notássemos que a letra da música fala de alguém que “pediu uma canção para cantar”, sendo lícito supor que a onomatopeia que encerra a canção tanto poderia estar grafada com “c” como com “s” (si,si,si e ci,ci,ci). SIMONE → CIGARRA → SI, SI, SI... CI, CI, CI... Importa também observar que o verso inicial dos dois blocos tem uma estrutura sintática idêntica, com uma oração adverbial que faz uma espécie de eco à composição, talvez como esboço de um estribilho, reforçado na repeti- ção do sintagma “para cantar” e do substantivo “canção”, reiterado morfoló- gica e semanticamente com o verbo “cantar”. Quadro 4 – Repetições e escolhas morfológicas. Porque você pediu uma canção para cantar Porque ainda é inverno em nosso coração Essa canção é para cantar Fonte: Elaborado pelo autor. Fonte: Vanessa Lima. Figura 3 – Simone. Semântica e Pragmática – 18 – Esses pequenos comentários comprovam como são determinantes para a compreensão do conteúdo da canção os elementos fônicos (si/ci), os aspectos sintáticos (porque...), a escolha morfológica e lexical (canção + cantar), ape- nas para ficarmos nos que aqui focalizamos. Podemos, então, concluir, concordando com Mattoso Câmara Jr. (1981, p. 110), que a Estilística é uma “disciplina linguística que estuda a expressão em seu sentido estrito de expressividade da linguagem, isto é, a sua capaci- dade de emocionar e sugestionar.” Em resumo: Quadro 4 – Estilística x gramática. Estilística → considera e analisa a linguagem afetiva. Gramática → considera e analisa a linguagem intelectiva. Fonte: Elaborado pelo autor. Ampliando seus conhecimentos As tarefas da Estilística (GUIRAUD, 1978, p.149-151) A tarefa mais urgente da Estilística é a de definir seu objeto, sua natureza, seus fins e seus métodos, começando pela pró- pria noção de estilo. Reduzidas ao seu denominador comum, as diversas concep- ções de estilo limitam-se à seguinte definição: O estilo é o aspecto do enunciado que resulta da escolha dos meios de expressão determinada pela natureza e intenções do indivíduo que fala ou escreve. – 19 – Estilística, a ciência da expressividade Definição muito ampla, que engloba a expressão, seu aspecto, o sujeito falante, sua natureza e suas intenções. 1. Os limites da expressão – As definições do estilo dife- rem, conforme se tome a expressão no sentido mais amplo da palavra ou numa acepção limitada: a. A arte do escritor, que é o sentido tradicional, o emprego consciente de meios de expressão com fins estéticos ou literários. b. A natureza do escritor, a escolha espontânea, mais ou menos inconsciente, através da qual se exprimem o temperamento e a experiência do homem. c. A totalidade da obra, que transcende a simples forma verbal e compreende a atitude do homem na totali- dade da sua situação. 2. Os limites dos meios de expressão – O estilo é o emprego dos “meios de expressão”, termo este que pode ser tomado num sentido mais ou menos restrito: a. As estruturas gramaticais – sons, formas, pala- vras, construções. b. Os processos de composição – forma dos versos, gêneros, descrição, narração. c. O pensamento em sua totalidade – temas, visões do mundo, atitudes filosóficas. 3. A natureza da expressão – A comunicação linguística comporta diferentes valores que se superpõem e tradu- zem, seja a atitude espontânea do sujeito, seja o efeito que este quer produzir sobre seu interlocutor: a. Valores nocionais – o estilo pode ser claro, lógico, correto. b. Valores expressivos – o estilo pode ser impulsivo, infantil, provincial. Semântica e Pragmática – 20 – c. Valores impressivos – o estilo pode ser imperioso, irônico, cômico. 4. As fontes da expressão – Numa perspectiva vizinha da precedente e que a confirma, poderemos distinguir: a. Uma psicofisiologia da expressão – estilos segundo o temperamento, o sexo, a idade; estilo bilioso (mal-humorado) ou melancólico. b. Uma sociologia da expressão – estilo das diversas classes e profissões, estilos provincianos. c. Uma função da expressão – estilo literário, admi- nistrativo, legal, oratório. 5. O aspecto da expressão – Da natureza e das fontes da expressão surge nova série de definições puramente descritivas e baseadas sobre: a. A forma da expressão – estilo elíptico, metafó- rico, etc. b. A substância da expressão, o pensamento – estilo terno, triste, enérgico, etc. c. O sujeito que fala e sua situação – estilo arcaico, poético, etc. Atividades 1. Os três comentários transcritos a seguir se referem à poesia de João Cabral de Melo Neto. Reconheça se eles se enquadram na vertente descritivista (linguística) ou na vertente idealista (literária) da Estilís- tica. Justifique sua resposta. a. Os instrumentos e meios de trabalho do projetista [João Cabral] revelam uma lúcida atividade mental que se vale da geometria – 21 – Estilística, a ciência da expressividade como modelo de pensamento ativo, como metáfora de uma lin- guagem precisa que, projetando formas ideativamente puras, cria mundos paralelos às realidades concretamente dadas. b. João Cabral de Melo Neto elegeu a pedra como símbolo maior do atrito, traço ao mesmo tempo formal e temático que perpassa ob- sessivamente sua poesia. O atrito é adivinhado metonimicamente em seres, espaços e objetos de acidentada anatomia (esqueletos, corpos ossudos, paisagens escalavradas), evocado potencialmente em certos instrumentos (bisturi, espada, faca, forja), ou encaixado no discurso como nós ou arestas do texto (cacofonias, transgres- sões morfológicas, anomalias sintáticas). c. Em relação às questões propostas pelas obras anteriores, a novida- de [em O Engenheiro] está na articulação que passa a existir entre a construção da imagem poética e a problematização da poesia. Ou seja, o tratamento da imagem poética passa a ser a estratégia pela qual o poeta problematiza o poema enquanto elemento de mediação entre ele e a realidade. 2. Leia atentamente o poema de João Cabral “Catar Feijão” (MELO NETO, 1994, p. 346-347) e assinale as alternativas que contêm comen- tários estilísticos coerentes a respeito do texto. Justifique suas respostas. Catar feijão se limita com escrever: jogam-se os grãos na água do alguidar e as palavras na da folha de papel; e depois, joga-se fora o que boiar. Certo, toda palavra boiará no papel, água congelada, por chumbo seu verbo; pois catar esse feijão, soprar nele, e jogar fora o leve e oco, palha e eco. Ora, nesse catar feijão entra um risco: o de que entre os grãos pesados entre um grão qualquer, pedra ou indigesto, 05. 10. Semântica e Pragmática – 22 – um grão imastigável, de quebrar dente. Certo não, quando ao catar palavras: a pedra dá à frase seu grão mais vivo: obstrui a leitura fluviante, flutual, açula a atenção, isca-a com o risco. a. No verso 2, o pronome se tem função apassivadora e, por isso, obriga o verbo a estar na 3.a pessoa do plural, para concordar com o sujeito “os grãos”. b. O poema busca, na inter-relação de seus elementos fônicos, se- mânticos e sintáticos, a projeção significativa das ações de catar feijão e catar palavras. c. A pedra do feijão e a pedra do papel são iguais porque são pedras e porque são, ambas, indigestas e imastigáveis. d. A sequência de palavras com o fonema /g/ em “jogam-se os grãos na água do alguidar” marca o ritmo de leitura desse verso. e. Os dois últimos versos empregam três verbos transitivos diretos dispostos em ordem lógica, direta. f. Os três últimos verbos do texto contêm uma gradação importante para a compreensão do poema, colocando o verbo “iscar” como cul- minante da ideia de “colher”, “captar” o sentido “mais vivo” da frase. 3. Considerando a vertente funcional dos estudos estilísticos e os com- ponentes envolvidos no processo de comunicação citados por Roman Jakobson, complete as lacunas analisando corretamente a função da linguagem do trecho destacado. a. No mercado de cerveja, o Brasil só perde, em volume, para a Chi- na (35 bilhões de litros/ano), Estados Unidos (23,6 bilhões de litros/ano), Alemanha (10,7 bilhões de litros/ano). O consumo da bebida, em 2007, apresentou crescimento em relação ao ano anterior, totalizando 10,34 bilhões de litros. Função __________________: na totalidade do parágrafo. 15. – 23 – Estilística, a ciência da expressividade b. Beba com moderação! Se for dirigir, não beba! Função __________________: no uso dos verbos no imperativo. c. Eu bebo, sim, e vou vivendo. Tem gente que não bebe e está mor- rendo [...] Função __________________: no uso da primeira pessoa. d. Inventaram um verbo popular que é o mais lindo exemplo de criatividade sob o efeito do álcool: bebemorar. Função __________________: na explicação do neologismo. e. Alô, garçom! Você está aí?! Alguém aí pode me trazer uma cer- veja gelada? Função __________________: na tentativa de confirmação de que há um interlocutor. f. Cerveja... rios e mares de cerveja... O rádio toca canções de amor, mas o telefone segue mudo e as paredes continuam no lugar. Cer- veja... essa é a única coisa que há. Função __________________: na escolha e organização das pa- lavras de modo original. Estilística fônica O objetivo deste capítulo é observar a expressividade dos aspectos fônicos no estudo estilístico da língua portuguesa. 2.1 Distinção entre letra e fonema O estudo da Estilística fônica (ou fonoestilística, como alguns preferem) envolve necessariamente o conhecimento e domínio de um dos assuntos abordados nos estudos gramaticais, isto é, o fonema. Por esse motivo, é preciso lembrar o tema da arbitrariedade do signo linguístico e também as vinculações entre a articulação das palavras e frases no portuguêse a convenção gráfica praticada. 2 Claudio Cezar Henriques Semântica e Pragmática – 26 – Em resumo: 2 Fonema é [...] considerado como o conjunto de articulações dos órgãos fona- dores, seu efeito acústico estrutura as formas linguísticas e constitui o mínimo segmento distinto numa enunciação, o que também significa que o fonema é uma subdivisão da sílaba.(HENRIQUES, 2008b) A imagem do aparelho fonador identifica partes do corpo humano que atuam na produção dos chamados “sons da fala”, oriundos da corrente expi- ratória proveniente de nossos pulmões. Figura 1 – Aparelho fonador. fossas nasais lábios lábios cordas vocais laringe língua faringe epiglote cavidade bucal véu palatino dentes dentes Fonte: IESDE BRASIL S/A. 2 Letra – “É um sinal gráfico com o qual se constroem na língua escrita os vocábulos. Ao conjunto de letras de uma língua chama-se alfabeto.”(grifo do autor) (HENRIQUES, 2008b) – a foto ilustrativa mostra a capa da edição de 2009 do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), publicado pela Academia Brasileira de Letras, obra reedi- tada com as novas normas ortográficas apro- vadas em 29 de setembro de 2008 e com efeito desde 1.o de janeiro de 2009. Fonte: Divulgação ABL. Figura 2 – Volp. – 27 – Estilística fônica Portanto, fonemas são sons da fala usados para estruturar as formas lin- guísticas, mas que isolados não têm significação. Um som da fala só é fonema quando tem pertinência, ou seja, valor linguístico, como prova a comutação praticada na série de palavras seguinte: 1. [ ‘b r ã k a ] x [ ‘t r ã k a ] Comentário: a troca de [b] e [t] nos dá duas palavras (branca e tranca) e confirma que /b/ e /t/ são fonemas do português. 2. [ ‘ã d a ] x [ ‘õ d a ] Comentário: a troca de [ã] e [õ] nos dá duas palavras (anda e onda) e confirma que /ã/ e /õ/ são fonemas do português. 3. [‘d i v a ] x [ ‘dƷ i v a ] Comentário: a troca de [d] e [dƷ] não nos dá duas palavras, mas duas possíveis pronúncias para uma única palavra (diva) e não con- firma a pertinência de ambos como fonemas do português, mas de apenas um deles – neste caso, o /d/, que tem o [dƷ] como seu alo- fone (registra uma pronúncia típica de algumas regiões brasileiras). Alofone = variante de fonema. 4. [ ‘k u s t a ] x [ ‘k u ʃ t a ] Comentário: a troca de [s] e [ʃ] não nos dá duas palavras, mas duas possíveis pronúncias para uma única palavra (custa) e não repete a pertinência de ambos como fonemas do português (encontrável por exemplo no par “taça / taxa”) – nesse ambiente fonético de final de sílaba, os dois fonemas sempre se neutralizam e caracterizam o que se chama arquifonema. Arquifonema = neutralização permanente da oposição de fonemas. 5. [ ‘p l ã t a ] x [ ‘p r ã t a ] Semântica e Pragmática – 28 – Comentário: a troca de [l] e [r] não nos dá duas palavras, mas duas possíveis pronúncias para uma única palavra (planta) e não repete a pertinência de ambos como fonemas do português (encontrável por exemplo no par “mola / mora”) – os dois fonemas se neutrali- zam, neste exemplo, sem risco de confusão, mas caracterizam um caso de debordamento (e não de arquifonema), porque se o par fosse “planto / pranto” a neutralização se mostraria ambígua. Debordamento = neutralização eventual da oposição de fonemas. O sistema ortográfico da língua, em sua versão oficial, reproduz as palavras de acordo com a convenção em vigor. Observar como acontecem as relações entre a ortografia e a sonoridade é a tarefa do estudioso da expressividade, ou seja, da Estilística. 2.2 Expressividade das vogais e das consoantes Não obstante sejam portadores de um ou mais significados, os vocábu- los (e seus componentes) se constituem de sons e ruídos e assim atuam no mundo físico, estando “sujeitos às mesmas análises acústicas das notas musi- cais e dos produtos erráticos de vibrações irregulares” (MELO, 1976, p. 57). Os valores estilísticos podem ter uma natureza sonora e se expressam tanto no âmbito das palavras como dos enunciados. Assim, além de sua con- cretização fonética, também atuam o ritmo, a intensidade e a entonação. 2 Ritmo: é a distribuição de sons num enunciado, considerando de que modo eles se organizam ou se repetem a intervalos regulares, ou a espaços sensíveis quanto à duração e à acentuação. 2 Intensidade: é o maior grau de força expiratória com que o som da fala é proferido, força que se manifesta acusticamente na maior ou menor amplitude de vibrações. Atenção! O acento característico da língua portuguesa é a inten- sidade, sendo chamada de tônica a vogal ou sílaba sobre a qual recai a intensidade e de átona a vogal ou sílaba inacentuada. Além da intensidade, também atuam na articulação dos sons da fala o – 29 – Estilística fônica timbre (efeito acústico resultante dos diversos graus de abertura da cavidade bucal), a altura (sensação auditiva relacionada à intensi- dade do som) e a quantidade (duração da emissão de um som). 2 Entonação: é a variação de tom (fenômeno caracterizado por varia- ções de altura no corpo do vocábulo, resultantes da velocidade e vibração das cordas vocais) que tem como domínio a sentença (ora- ção, período ou frase). Tomemos como exemplo dessas referências à camada sonora o trecho abaixo, inédito: Lá vai a bola, solitária e devagar, na direção da última linha do campo. Incerteza... A alegria subterrânea se mistura com a raiva recôndita. O orgulho, com o medo. A dor pode ser uma felicidade passageira, eterna. Suspense. Angústia. Prazer. Por um breve momento, um único monossílabo pode conter todas as emoções: a palavra GOL. Ela tem três letras, mas pode ter qua- tro, dez… Dependendo do seu fôlego e da sua alegria, ela pode ter o tamanho do papel, pode até nem acabar: GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLL… Figura 3 – Gol. Fonte: IESDE BRASIL S/A. Imaginando vários modos de se narrar um gol num jogo de futebol, percebe-se que a intensidade da vogal “o”, sua duração e até sua musica- lidade têm força expressiva potencial, ainda mais se comungarmos com a Semântica e Pragmática – 30 – emoção do locutor. Porém, mesmo que o gol não seja a nosso favor, por ser o gol de uma derrota indesejada, a sonoridade dessa palavra nos marcará, impregnando-nos de tristeza tanto quanto impregnará de alegria os corações dos torcedores favorecidos pela simples passagem da bola por sobre a linha que fica debaixo da baliza. O comentário acima explica uma das possibilidades de a sonoridade da língua se manifestar. Mas há outras situações em que a massa sonora tem papel importante. 2 Na rima de um poema ou de uma letra de música: 6. De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. (MORAES, 1998) 7. Que jamais seja um sofrimento viciosamente cultivado para transformar-se em momento de verso, espúrio intento da arte. Mas a arte que, a cumprir seu fado, por força de sonho ou tormento se volva num momento dado coisa divina, imensa e à parte... (MEIRELES, 1993) Comentário: em (6) “pranto” e “branco”; “bruma” e “espuma” rimam simetricamente no esquema ABBA e causam um efeito de ritmo e musicalidade; já em (7) a rima não é simétrica (o esquema é ABACBABC), mas também há ritmo e musicalidade. 2 Numa mensagem publicitária: 8. “Plá, plé, pli, pló, plus vita! Plus Vita! Na nossa mesa tem Plus Vita todo dia!” Comentário: a progressão vocálica em série cria um ambiente des- contraído e apropriado para veicular o produto e causar uma reação favorável no destinatário. 2 Na repetição de palavras ou de sílabas: – 31 – Estilística fônica 9. Eu quero a estrela da manhã Onde está a estrela da manhã? Meus amigos meus inimigos Procurem a estrela da manhã. (BANDEIRA, 1958) Comentário: a ênfase ocorre pela reiteração do sintagma “estrela da manhã”, demonstrando a posição do “eu lírico” diante de sua (in)certeza. Na escolha estratégica de palavras com consoantes ou vogais iguais ou semelhantes:10. “Acalanto e acalento. Calo e canto por encanto. Enquanto encon- tro o esquecimento, conto a calma escuridão.” (Canção de Cezar de Souza e N. Bulhões) Comentário: a sucessão de palavras paroxítonas com as vogais nasais e a consoante /k/ traz um efeito especial que se encerra na palavra oxítona final. 2 Na invenção de palavras imitativas ou carinhosas: 11. “É na boca do trabuco, é no té-retê-retém... E sozinhozinho não estou.” (ROSA, 1986) 12. “E a fonte a cantar, chuá, chuá; e a água a correr, chuê, chuê.” (Canção de Pedro Sá Pereira e Ary Pavão) Comentário: a observação dos sons da realidade serve como suporte para sua reprodução ou para a afetividade de um trecho. 2.3 Relações expressivas entre a fala e a escrita Uma sequência sonora realizada na emissão de uma frase se decompõe em grupos onde prevalece uma única pauta acentual (com uma sílaba tônica, uma ou mais sílabas átonas pré-tônicas ou pós-tônicas e, eventualmente, alguma sílaba subtônica). Cada um desses grupos se chama “palavra fonológica”, e esta se forma em função da relação sintagmática de seus membros. Semântica e Pragmática – 32 – Na frase “Aquele quadro fez sucesso”, observam-se com nitidez duas pala- vras fonológicas e quatro palavras ortográficas. As duas palavras fonológicas são: 13. [ a k e l i ’k w a d r u ] – a sílaba tônica é [kwa], as demais são átonas. Essa palavra fonológica se formou a partir de duas palavras ortográficas. 14. [ f e ʃ s u ’s ɛ s u ] – a sílaba tônica é [sɛ], a subtônica é [feʃ], as demais são átonas. Essa palavra fonológica também se formou a partir de duas pala- vras ortográficas. Como se vê, a palavra fonológica é delineada por um contorno prosó- dico que parte de seu acento primário (no caso, das palavras quadro e sucesso). Ela representa, na hierarquia da prosódia, o primeiro nível de interação entre a fonologia e a morfologia, e ultrapassa os limites da palavra lexical. Prosódia = o estudo da variação na altura, intensidade, tom, duração e ritmo da fala, vinculando-se pois à ortoepia, que estuda a pronúncia correta das palavras. “A expressividade dos fonemas poderia passar despercebida, se os poetas não os repetissem a fim de chamar a atenção para a sua correspondência com o que exprimem” , diz Nilce Sant’Anna Martins (1989, p. 38), e podemos estender a afirmação aos publicitários, aos compositores, aos jornalistas e a qualquer um dos usuários da língua, quando agimos no processo de comuni- cação com o intuito de criar harmonia no que falamos. 2.4 Figuras de linguagem Os sons, como vimos, podem sugerir dentro da frase um valor expres- sivo para o que dizemos. Quando isso acontece, temos figuras de linguagem. Diferentemente, a utilização inexpressiva ou caótica da massa sonora caracte- rizará desvios a que chamamos vícios de linguagem. No campo da fonoestilís- tica, esses recursos podem ter as seguintes denominações: – 33 – Estilística fônica 2 Aliteração – é a repetição continuada dos mesmos sons consonan- tais, independente da posição que ocupam nas palavras, distribuí- das em sequência ou com proximidade. 15. “Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca como a chuvinha que vem vindo devagar.” (ANDRADE, 2000). Comentário: o poeta utiliza intencionalmente em quatro palavras seguidas a consoante /v/, visando a criar um efeito expressivo, afetivo. Atenção! O vício de linguagem correspondente é a colisão: repe- tição desagradável de consoantes iguais – que pode até ter como finalidade o humor ou a estranheza do interlocutor. 16. Pela primeira pesquisa, percebeu-se por que as pessoas procuram o perigo. 17. Três trabalhadores tentaram trocar o turno do trabalho. Comentário: observa-se a gratuidade da repetição, sem nenhuma pretensão estilística. 2 Assonância – é a repetição vocálica em sílabas tônicas. 18. “Sou um mulato nato no sentido lato mulato democrático do lito- ral.” (Canção de Caetano Veloso) Comentário: o compositor utiliza intencionalmente uma série de pala- vras cuja vogal tônica é /a/, visando a criar um efeito sonoro e musical. Atenção! O vício de linguagem correspondente é o hiato: sucessão desagradável de vogais – que pode até ter como finalidade o humor ou a estranheza do interlocutor. 19. Ou há o aumento, ou há a autogestão. Comentário: observa-se a gratuidade e o desconforto da repetição, sem nenhuma pretensão estilística. 2 Harmonia imitativa – ocorre quando a aliteração, combinada ou não com assonância, se associa à ideia que expressa. Semântica e Pragmática – 34 – 20. Trovões trombeteavam pelas trevas, Trastes turvos tonitruantes De um turbilhão tortuoso Como a turba triste da morte. (SOUZA, 2005) 21. O vento varria as folhas, O vento varria os frutos, O vento varria as flores... E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De frutos, de flores, de folhas. (BANDEIRA, 1958) Comentário: a sonoridade das consoantes /t/ e /r/, em (20), e /v/, /f/ e /s/, em (21), tem relação coerente com a ideia da forte tem- pestade, acentuada pelas variadas possibilidades articulatórias da consoante vibrante – em (20), e da ação do vento – em (21). 2 Homeoteleuto – é a coincidência de terminação, sobretudo em pontos sensíveis da cadeia sonora. 22. “Ainda canto o ido o tido o dito o dado o consumido o consumado / Ato do amor morto motor da saudade... Diluído na grandici- dade... / Idade de pedra [...]” (VELOSO; DUPRAT, 1969). Comentário: a escolha de palavras com sonoridade interligada (série 1: ido/ado + t/d; série 2: ...mido/...mado; série 3: mor + t) cria um efeito de sentido, mas tem força sonora identitária. Atenção! Um dos vícios de linguagem correspondentes é o eco: repetição desagradável de terminações iguais. 23. Na frente da gente, há somente um ambiente diferente. 24. O cadeado estragado foi consertado ao lado do mercado. Comentário: observa-se a gratuidade e o desconforto das sequên- cias -ente e -ado, sem nenhuma pretensão estilística. 2 Onomatopeia – é a imitação acústica de um som ou ruído ou da voz de um animal, e pode ser criada segundo três possibilidades: 25. tique-taque; zás-trás; bum; ploft; miau; cocoricó – onomatopeias puras. – 35 – Estilística fônica 26. tilintar; pifar; o cacarejo; grunhido – palavras onomatopaicas. 27. bem-te-vi; quero-quero; estou-fraco – onomatopeias interpretativas. Comentário: no primeiro grupo (25), as palavras são criadas a par- tir da utilização de fonemas que reproduzam o som; no segundo (26), há marcas morfológicas na construção de verbos, substantivos e adjetivos; no terceiro (27), palavras preexistentes são agrupadas sem razão semântica para tentar reproduzir o som. Figura 4 – Onomatopeias. BANG ! zzzz z POU! PLOFT! Fonte: IESDE BRASIL S/A. Percebe-se então que o objetivo de causar algum impacto expressivo pela escolha da camada sonora está carregado de subjetivismo e sensibilidade. Isso significa que o êxito na construção de uma determinada combinação de sons não é algo automático e garantido, pois sempre se corre o risco de produzir um efeito malsucedido, ou seja, um vício de linguagem, cabendo ainda citar os casos de: 2 Cacoépia – é o erro de pronúncia (que vira cacografia na escrita). 28. *piscicologia, em vez de psicologia, ou *mortandela, em vez de mortadela. 2 Cacófato – é o descuido no encadeamento de palavras, gerando um som obsceno ou vulgar. 29. *Entregue-me já o relatório porque essa resposta ele já havia dado. Semântica e Pragmática – 36 – 2 Cacofonia e parequema – é o descuido no encadeamento de pala- vras, gerando um som de significado concorrente ou desagradável. 30. *Já que tinha, na vez passada se interessado, apresentei-lhe uma prima minha. 31. *Deixa a chapa esquentar; *Comprei uma vaca cara; “Você fez a torta tarde”. Atenção! Como sempre, os vícios de linguagem podem ter como finalidade produzir um efeito de humor ou de estranheza/admira- ção no interlocutor. Na canção “Cálice”, de Chico Buarque e Milton Nascimento, observa-se a interessante estratégia de escreveruma palavra, o subs- tantivo “cálice”, e sugerir o entendimento da exclamação “Cale-se!”, em versos que têm essa palavra fonológica como palavra-eco, como: 32. Quero perder de vez tua cabeça. [‘kalisi] Minha cabeça perder teu juízo. [‘kalisi] Quero cheirar fumaça de óleo diesel. [‘kalisi] Me embriagar até que alguém me esqueça. [‘kalisi] Comentário: no lugar onde transcrevemos a pronúncia, qual signi- ficação caberia melhor, a da taça de vinho ou a da ordem de silên- cio? Ou ambas? Os autores, certamente, trabalharam com a pala- vra fonológica única, contrastando-a com a duplicidade da palavra ortográfica (cale-se e cálice). O efeito é expressivo, sem dúvida. Além das figuras de linguagem que aqui apresentamos, a exploração da massa sonora das palavras ainda pode produzir expressividade de mui- tas outras maneiras. Para nossos objetivos, basta mencionar por exemplo as questões inerentes à linguagem falada, em suas múltiplas variedades sociais e regionais, ou os temas específicos da arte poética ou musical, em que se pode trabalhar os conteúdos de versificação e de harmonia melódica. Enfim, as relações entre som e estilo são um caminho aberto à imaginação e arte, – 37 – Estilística fônica sempre a serviço da pretensão criativa, comunicativa, literária, jornalística de quem emprega a língua portuguesa na vida concreta. Ampliando seus conhecimentos O vocábulo como massa sonora (MELO, 1976, p. 79-80) Começaremos por insistir numa distinção conhecida mas tantas vezes esquecida: a que se deve fazer entre vocábulo e palavra. No primeiro, consideramos só a estrutura fônica. É uma sílaba, ou duas, ou mais, subordinadas ao mesmo acento intensivo Na cadeia da frase os vocábulos frequentemente se unem, fundindo-se a terminação de um no começo de outro, decor- rendo daí fenômenos diversos, que recebem nomes adequa- dos, mas aqui dispensáveis. Assim, “ainda agora” ou “com uma semana de espera”, por exemplo, soam como aindagora, cuma semana dispera. Há mesmo certos vocábulos que já perderam, ou ocasionalmente perdem a tonicidade, e, então, apoiam-se no acento do vocábulo anterior ou no do seguinte. Chamam-se clíticos, distinguindo-se em enclíticos, num caso, proclíticos noutro: chamou-me; o livro. O mesmo vocábulo pode ser suporte de várias palavras, como se vê em rio, “curso d’água”, e forma do verbo rir; manga, “parte do casaco” e fruto. Para quem não conheça o significado de oscofórias ou de liço, estas duas formas são meros vocábulos. Nos casos de polissemia, isto é, multiplicidade de significados por força de um natural desdobramento, não se pode falar, creio, em multiplicidade de palavras, porque um liame, mais ou menos estreito, une esses significados. Semântica e Pragmática – 38 – Normalmente, pois, a cada vocábulo corresponde um con- ceito ou um feixe de conceitos vizinhos. Tal correspondência é de si arbitrária e gratuita, segundo o princípio maior, definidor da língua. Nenhuma relação natural existe entre o quadrúpede amigo do homem e a palavra cão, cachorro ou dog. No entanto, estilisticamente se pode falar em adequação ou inadequação entre a massa sonora do vocábulo e o conteúdo significativo. Assim, grito é mais expressivo que brado. Entre “por muito pouco ele não morreu” e “por um tris ele não morreu”, é preferível a segunda solução, dado que estejamos preocupados com uma forma adequada. É que a massa sonora de tris sugere melhor a mínima dependência em que ficou a vida do Fulano. Se dissermos que alguém entrou solenemente no recinto, passo cadenciado e lento, sob os olhares reverentes e admirativos da multidão, teremos escolhido um vocábulo cuja massa sonora qua- dra bem ao efeito: pentassílabo paroxítono (ou grave), com tônica média e nasal e uma combinação de /l/ e /n/ muito apropriada. Um vocábulo como abreviadamente é, com certeza, ina- dequado, maior, por assim dizer, do que o seu conteúdo. Arredondamento fica bem para o sentido que tem; é vocábulo adequado. Nesta sequência – grande, enorme, gigantesco – os três vocábulos traduzem a gradação do tamanho: cada sílaba a mais acrescenta, sensivelmente, uns quilates de intensidade. Os poetas são muito sensíveis à adequação da massa sonora ao significado, e é natural que assim seja, porque a poesia é essencialmente palavra, é o esplendor da palavra. Muitas das correções que, sobretudo os parnasianos, inserem nas suas retomadas têm por base o ajuste da massa sonora. A propó- sito, é muito instrutiva a alteração feita por Raimundo Correia no último terceto de seu poema “Banzo”. Era assim a primeira versão, de 1885: – 39 – Estilística fônica Dos monolitos cresce a sombra infame... Tal em minh’alma vai crescente o vulto Desta tristeza aos poucos, lentamente A terceira (versão), que modifica levemente a segunda, de 1891, ficou assim: Vai co’a sombra crescendo um vulto enorme Do baobá... E cresce n’alma o vulto De uma tristeza imensa, imensamente... Além de ganhar em musicalidade e em cor local, com a subs- tituição de “monolitos” por “baobá”, o fecho ainda se benefi- ciou muito com a dupla “imensa, imensamente”. A massa sonora é adequada e há uma espécie de ilusão de ótica, digamos assim, que faz parecerem coordenadas as duas palavras, que na realidade não o são. Imensa é adjunto adnominal de “tristeza”, e imensamente é adjunto adverbial de “cresce”: a inteligência da frase deixa isso muito claro. No entanto, a sequência faz com que se tenha a impressão do crescimento, do alongamento, de profundidade maior, de dor mais pungente. Temos, portanto, um duplo efeito, um intelectual, outro sensí- vel, produzido pela boa utilização da massa sonora. A síntese final seria esta: “cresce cada vez mais uma tristeza cada vez maior”, com sólido apoio no material fônico. Atividades 1. Os três comentários transcritos a seguir se referem a trechos de poe- mas brasileiros. Reconheça se o recurso estilístico indicado está ade- quadamente interpretado. Justifique sua resposta. Semântica e Pragmática – 40 – a) Quando lemos os versos de Guilherme de Almeida “O sol é uma bola de enxofre fervendo, pondo empolhas redondas como gemas de ovos entre as folhas das laranjeiras”, observamos a expressividade da assonância, construída a partir da sucessão de palavras com a vogal tônica O. b) O compositor Paulo Ricardo começa uma de suas canções dizendo: “Virada do século, alvorada voraz, nos aguardam exércitos que nos guardam da paz (que paz?).” O aposto “alvorada voraz” utiliza as consoantes /v/ e /r/ que também estão presentes na primeira pala- vra da música. A repetição intencional dessas consoantes caracteriza uma figura de linguagem chamada onomatopeia. c) Em “Pedro pedreiro, pedreiro esperando o trem que já vem, que já vem, que já vem, que já vem...”, Chico Buarque utiliza a massa sonora da expressão “que já vem” repetidas vezes para enfatizar o cansaço de quem está à espera do trem na estação, o que constitui um exemplo de harmonia imitativa. 2. Leia atentamente o poema de Solano Trindade “Tem Gente com Fome” (s.d., p. 7-8) e assinale as alternativas que contêm comentários fonoestilísticos coerentes a respeito do texto. Justifique suas respostas. Trem sujo da Leopoldina, correndo, correndo, parece dizer: tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome... Piiiii! Estação de Caxias, de novo a correr, de novo a dizer: tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome... Tantas caras tristes, querendo chegar Fonte: IESDE BRASIL S/A. Figura 5 – Fome. 05. 10. 15. – 41 – Estilística fônica em algum destino, em algum lugar... Só nas estações quando vai parando, lentamente começa a dizer: se tem gente com fome, dá de comer... se tem gente com fome, dá de comer... se tem gente com fome, dá de comer... se tem gente com fome, dá de comer... Mas o freio de ar, todo autoritário, manda o trem calar: Psiuuuuuuuuu...... a. A repetição do trecho “tem gente com fome” criaum ambiente de monotonia e tédio, incompatível com o movimento de um trem ao partir da estação. b. A onomatopeia “Piiiii!” (v. 07) e a interjeição “Psiuuuuuuuuu......” (v. 33) estão conjugadas pela intensificação da vogal, o que permi- te entender a palavra que termina o poema como uma condensa- ção entre a interjeição e a onomatopeia. c. A maioria dos versos se constrói com duplas de palavras fonológi- cas (trensujo + daleopoldina // correndo + correndo // tengente + cunfome // estação + dicaxias // dinovo + acorrer // dinovo + adi- zer // sitengente + cunfome // dá + dicomer), mantendo um ritmo coeso que produz a harmonia imitativa predominante no poema. d. Na estrofe final, a referência ao trem é substituída pela participação do freio de ar, o que justifica o uso da conjunção “mas”, adversativa. e. Como a temática do poema é humana e social, é correto inter- pretar que as onomatopeias usadas como estribilho nas estrofes 20. 25. 30. Semântica e Pragmática – 42 – 1, 2 e 4 se valem de palavras preexistentes agrupadas sem razão semântica para tentar reproduzir o som do trem. f. O advérbio “lentamente”, isolado no verso 20, tem uma massa so- nora e um valor semântico que destoam expressivamente do res- tante do poema. 3. Assinale as alternativas que contêm recursos expressivos da Estilística fônica e identifique as respectivas figuras de linguagem. a. “A gente almoça e se coça e se roça e só se vicia.” (Chico Buarque) b. “Ouço o tique-taque do relógio: apresso-me então.” (Clarice Lispector) c. “Minha vida é uma colcha de retalhos, todos da mesma cor.” (Mário Quintana) d. “Não serei o poeta de um mundo caduco.” (Carlos Drummond de Andrade) e. Dentro dos meus braços, os abraços hão de ser milhões de abra- ços.” (Vinícius de Moraes) f. “Sou caipira, Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida,” (Rena- to Teixeira). Estilística léxica O objetivo deste capítulo é observar a expressividade dos aspectos lexicais no estudo estilístico da língua portuguesa. 3.1 Conceituação de léxico O estudo da Estilística lexical (ou morfoestilística, como alguns preferem) envolve necessariamente o conhecimento e domí- nio de alguns dos assuntos abordados nos estudos de morfologia, isto é, as classes gramaticais e os morfemas. A palavra léxico é sinônima de “vocabulário”, e indica portanto o repertório total de palavras existentes numa determinada língua, mas pode também ter uma significação mais restrita, referindo-se, por 3 Claudio Cezar Henriques Semântica e Pragmática – 44 – exemplo, a uma relação de palavras usadas por um autor ou por um grupo social ou profissional. As obras que se dedicam ao estudo do léxico constituem dois campos de pesquisa bastante importantes para a sociedade: a lexicogra- fia, ou seja, a técnica e o trabalho de elaboração de dicionários, vocabulários, glossários e afins; e a lexicologia, ou seja, o estudo do vocábulo quanto ao seu significado, estrutura morfológica e possibilidades flexionais, sua classificação em relação a outros vocábulos da mesma língua ou de outra, em perspectiva sincrônica ou diacrônica. Lexicografia e Lexicologia: estudo das palavras, a partir da observação de suas relações com a gramática e com a vida. Como se pode depreender dessas explicações, a ferramenta fundamental com que trabalham os lexicógrafos e os lexicólogos é o dicionário, palavra que está assim definida no Dicionário Houaiss: Dicionário – compilação completa ou parcial das unidades léxicas de uma língua (palavras, locuções, afixos, etc.) ou de certas categorias específicas suas, organizadas numa ordem convencionada, geralmente alfabética, e que fornece, além das definições, informações sobre sinô- nimos, antônimos, ortografia, pronúncia, classe gramatical, etimolo- gia, etc. ou, pelo menos, alguns destes elementos. A tipologia dos dicionários é bastante variada; os mais correntes são aqueles em que os sentidos das palavras de uma língua ou dialeto são dados em outra língua (ou em mais de uma) e aqueles em que as palavras de uma língua são definidas por meio da mesma língua. (HOUAISS, 2004) Figura 1 – Dicionário Houaiss. Fonte: Divulgação Editora Objetiva. – 45 – Estilística léxica Como diz Correia (1995), [...] a propriedade geral da linguagem humana que melhor se aplica ao léxico de uma língua é a arbitrariedade, ou seja, o fato de os signos que constituem as línguas não serem icônicos, isto é, a relação que se estabelece entre eles e as entidades da realidade que denotam ser meramente arbitrária ou convencional. Por isso não se deve entender o léxico apenas como uma lista de palavras que está contida num dicionário. Afinal, uma observação mais atenta dos verbetes dessas obras de referência mostrará que os lexicógrafos, quando redi- gem as definições de cada componente da nominata, fazem uso das regulari- dades do léxico, adotando uma estrutura redacional quase sempre simétrica e coerente. Nominata: relação de entradas de uma enciclopédia, dicionário, voca- bulário, glossário etc.; relação de nomes ou palavras; nomenclatura. Outro ponto a considerar começará a delinear as relações mais estreitas que o léxico mantém com o estilo, pois sabemos que a língua oferece recursos para que qualquer pessoa, escolarizada ou não, fale sobre qualquer aspecto da realidade. A despeito disso, as palavras usadas para expressar a realidade vivida ou imaginada são arbitrárias e variam não apenas de língua para língua, mas de modalidade para modalidade e de uso para uso. Portanto, o conhecimento lexical resulta não apenas da memorização de palavras, mas também de um princípio de economia na gestão desse acervo, pois cada falante se apropria de um vocabulário compatível com o seu grau de estudo e leitura, utilizando-o, em termos numéricos variados, conforme o empregue na oralidade ou na produção escrita. No conjunto do léxico de uma língua existem certamente mecanismos que permitem alcançar a expressividade da comunicação, e devemos consi- derar que o princípio de economia linguística não é unicamente o princípio de contabilizar palavras, mas de reconhecer a forma mais adequada para se estabelecer o entendimento mais eficiente entre as pessoas. Semântica e Pragmática – 46 – 3.2 Palavras lexicais e palavras gramaticais O léxico, como vimos, é o conjunto de palavras de uma língua, mas é preciso distinguir nesse conjunto os elementos lexicais “plenos” e os elemen- tos lexicais de natureza gramatical. Tomemos duas pequenas listas de palavras do português: 1. certo, hoje, torre, ver. 2. com, os, quando, se. Saberíamos explicar o que cada uma das palavras da série (1) significa? Ainda que pudesse haver algumas divergências na definição de palavras de significação mais ampla ou vaga, a resposta certamente seria “sim”. E quanto às palavras da série (2)? Provavelmente, as explicações ficariam restritas aos conhecimentos gramaticais de cada um, cabendo até retrucar: de que “os” ou de que “se” você está falando? A série (1) contém as chamadas “palavras lexicais”; a série (2) contém as chamadas “palavras gramaticais”. Na primeira, temos um adjetivo, um advér- bio, um substantivo e um verbo; na segunda, temos uma preposição, um artigo, uma conjunção e um pronome. Na lista (1) poderíamos acrescentar quantos adjetivos, advérbios, substantivos e verbos? O número é aberto, pois a todo momento novas palavras lexicais podem ser formadas (talibanizar? / argentinização? / palestra incomodacional? / chororosamente?). O Globo: 29/10/2008 Palestra “incomodacional” é a novidade da vez de René Simões. Técnico tricolor tem priorizado a conversa com os jogadores antes dos treinamentos. Já na lista (2) o conjunto é finito, sua dimensão é relativamente redu- zida, enumerável em extensão e praticamente restrito – embora os processos de gramaticalização permitam que as palavras se “movimentem” entre os grupos. Assim, a conjunção “porque” pode se substantivar e virar “motivo” (Não entendi o porquê de sua dúvida); o substantivo“tipo” pode vir a se gramaticalizar como – 47 – Estilística léxica conjunção (Vocal feminino possante tipo Ivete Sangalo procura banda = como) ou como preposição (Passo na sua casa tipo meio-dia = perto de). Figura 2 – Ivete Sangalo. Fonte: Divulgação MK. “As palavras gramaticais são pouco numerosas, mas de altíssima frequência nos enunciados, desempenhando funções de grande importância”, frisa Nilce Sant’Anna Martins (1989, p. 72). Essas funções são elementos-chave na cons- trução de um texto e, paradoxalmente, embora sejam desempenhadas por um contingente pouco numeroso, carregam a responsabilidade de dar à mensagem que se quer transmitir o exato valor pretendido pelo emissor – a quem compete, em última análise, dominar plenamente o uso das palavras gramaticais. Em síntese, elas servem para: 2 relacionar o enunciado com a situação de enunciação, indicando os participantes da comunicação, o espaço e o tempo em que ela se dá Semântica e Pragmática – 48 – (são os dêiticos: eu, tu, e suas variantes, aqui, aí, agora, possessivos e demonstrativos referentes à primeira e à segunda pessoas etc.); 2 substituir ou referir algum elemento presente no enunciado (são os anafóricos ou representantes: ele, demonstrativos não relacionados à primeira e à segunda pessoas etc.); 2 atualizar os nomes, transformando-os de elementos do paradigma ou palavras de dicionário em termos da frase (são os determinantes: artigos definidos e indefinidos); 2 relacionar palavras no sintagma (preposições) e orações na frase (conjunções e pronomes relativos); 2 estabelecer coesão textual, seja dentro de uma frase, seja entre frases diversas (anafóricos, conjunções, operadores argumentativos etc.). Palavras lexicais: referem-se a processos ou objetos existentes no mundo real = verbos, nomes e advérbios. Palavras gramaticais: restringem-se ao âmbito interno da língua e de seus enunciados = artigos, preposições, conectivos e palavras dêiticas. 3.3 Neologismos lexicais e semânticos A criação expressiva de palavras é uma prática bastante comum na lín- gua portuguesa. Todos os dias observamos o emprego de palavras novas, deri- vadas ou formadas de outras já existentes, e a atribuição de novos sentidos a palavras já existentes: “melancia” e “laranja” deixam de ser apenas os nomes de duas frutas e passam a funcionar como qualificador feminino ou testa de ferro, respectivamente; o torcedor que vai para a geral dos estádios vira “geraldino”, a passarela do samba é o “sambódromo”... E assim a lista vai se expandindo dia a dia, propiciando que as situações da vida sejam retratadas pelo léxico. Se os neologismos serão duradouros ou efêmeros, nunca se sabe, pois tudo depende do uso que deles se fará. Trataremos aqui de dois tipos de neologismos: os lexicais e os semânticos. – 49 – Estilística léxica 3.3.1 Neologismos lexicais No livro Morfologia: estudos lexicais em perspectiva sincrônica, assim defi- nimos os neologismos lexicais (ou formais): Palavras novas, isto é, não dicionarizadas ou recém-dicionarizadas, que podem ser objetivamente caracterizadas tomando-se como referência, no caso do Português do Brasil, o léxico oficial consignado no VOLP, embora os dicionários Aurélio, Houaiss e Michaëlis também possam ser fonte de consulta para esse fim. (HENRIQUES, 2008c, p. 138, grifos do autor) Formados a partir de critérios muito variados, os neologismos lexicais podem constituir-se, num extremo, como a própria invenção de uma palavra, sem nenhuma lógica linguística aparente, a não ser a simples junção de sons ou de letras. É o caso que Ieda Maria Alves (1990) denomina “neologismos fonológicos” (pela criação de um item lexical cujo significante é criado sem tomar como base nenhuma palavra preexistente). No samba “Idioma Esquisito”, Nélson Sargento (1996) nos mostra com muita engenhosidade uma série de palavras proparoxítonas cuja pre- tensão poderia ser resumida na discussão do seguinte slogan: “se beber, não componha”: Fui fazer meu samba na mesa de um botequim, Depois de umas e outras, o samba ficou assim: Estrambonático, palipopético, cibalenítico, estapafúrdico, Protopológico, antropofágico, presolopépico, atroverático, Batunitétrico, pratofinândolo, calotolético, carambolâmbolo, Posolométrico, pratofilônico, protopolágico, canecalônico. Os adjetivos que descrevem o samba feito “depois de umas e outras” se associam ao estado de embriaguez do eu poético. Alguns ainda conservam um vestígio de “lucidez vernacular”: antropofágico, cibalenítico (< cibalena, um comprimido para dor de cabeça), atroverático (< atroverã, remédio para enjoo). Outros parecem pedaços cambaleantes de palavras: estrambonático (< estrambólico? + lunático?), prosolométrico (< ? + métrico), protopolágico (< proto? + ??), palipopético e presolopépico (< ???). Neologismos que não deixam pistas morfológicas nem fonológicas nem semânticas são palavras perdidas, como os “gratifonísticos e os pseudoferilídicos Semântica e Pragmática – 50 – que se tengam com frédios de antimalefania”, que agora inventamos. É com- preensível então que o eu poético do samba de Nélson Sargento, ao final daquela estrofe, confesse: “É isso aí, é isso aí / Ninguém entendeu nada / Eu também não entendi / (Eu então vou repetir)[...]”(SARGENTO, 1996). Podemos entretanto afirmar que os neologismos lexicais, na maior parte das vezes, são palavras que têm nítida inspiração em outra(s): bebemorar (para fazer par com comemorar) associa as ideias de beber e comer, embora a segunda não faça parte da estrutura do verbo (co+memorar); paitrocínio se baseia na aproximação fonética com a primeira sílaba da palavra patrocínio. Caracteriza-se assim o que Ieda Alves (1990, 11-80) chama de “neologis- mos sintáticos” (criados a partir da combinação de elementos já existentes no idioma). Por essa denominação, só haverá neologismos sintáticos nos casos que envolverem o uso de afixos ou de combinação de radicais, ou seja, a derivação e a composição. Por esse motivo, a autora considera outro tipo de neologismo, de um lado, a conversão (ou derivação imprópria) e, de outro, os “processos menos produtivos” (a abreviação, a reduplicação e a regressão). Um neologismo lexical pode, em alguns casos, gerar outros neologismos lexicais, pelos mesmos princípios. É o que ocorre em palavras geradas a partir da mencionada paitrocínio, como se vê nos exemplos (3) e (4): 3. E essa simplicidade é colocada pelo elenco como um dos méritos do sucesso. “Começou como de brincadeira, sem dinheiro. Conseguimos na época R$ 1 mil de ‘tiotrocínio’ (empréstimo da família)”, conta a atriz Thaís Lopes da peça “Surto” (FM DIÁRIO, 2006). 4. Caro Diogo, não querendo acabar com a tua esperança, deixo-te a seguinte mensagem que um piloto de automóveis me disse num desses fóruns de internet. Ele disse-me o seguinte: Em Portugal há três tipos de patrocínios: o paitrocínio ou tiotrocínio e o autotrocínio, a troca de favores (exemplo: eu patrocino-te porque a empresa do teu pai compra milhares de euros de mate- rial à minha!!!!). Por isso é melhor começares a contactar o teu familiotrocínio para poderes correr nesse troféu [...] (MOTONLINE, 2005) São situações criativas que podem testemunhar o início da gramaticali- zação de um radical “-trocínio” = “financiador”, embora caiba lembrar que o substantivo patrocínio contenha na sua etimologia a referência a “pai”, pois é formado pelo radical culto “patrocin-”, cuja raiz é “pater-”. Isso mostra como – 51 – Estilística léxica muitas vezes o usuário contemporâneo já não tem consciência da informação diacrônica acerca de um vocábulo ou expressão. Mas um neologismo lexical pode igualmente produzir uma segunda nova formação com vínculos mais fonológicos do que semânticos. Um exem- plo muito utilizado pela mídia nos anos 2005 e 2006 ocorreu com a palavra valerioduto, popularizada pela imprensa para se referir a um dos muitos e grandes escândalos da política brasileira. Seu segundo componente(-duto) serviu de base fonológica para a formação de valerioindulto, onde o novo radi- cal adicionado dá mostras de que, apesar de o “condutor” ser réu confesso, os “conduzidos” nem sempre são condenados. 3.3.2 Neologismos semânticos No livro Morfologia: estudos lexicais em perspectiva sincrônica, assim definimos os neologismos semânticos (ou conceituais): Incorporar significados novos a vocábulos já existentes é o que caracte- riza a criação de neologismos semânticos, tomando-se como referência, no caso do Português do Brasil, obras como os dicionários Aurélio, Houaiss e Michaëlis, pois o VOLP é uma fonte que não tem o objetivo de registrar as acepções das palavras. (HENRIQUES, 2008c, p. 146, grifos do autor) É bom frisar, porém, que os limites de identificação de valores semân- ticos novos como neológicos podem esbarrar com os do reconhecimento de valores metafóricos também novos. Por exemplo, o neologismo semântico rato praticado em Portugal não foi adotado no Brasil, que preferiu incorporar o estrangeirismo mouse. É nítido aqui que a palavra “rato” (ainda que por uma relação metafórica) representa um novo significado, uma peça usada em computadores. A notícia de jornal que lamenta a existência de inúme- ros ratos na política nacional serve também como exemplo de neologismo semântico? A datação desse significado não é nova, mas não é isso apenas que exclui a resposta afirmativa. Certamente, a metáfora dos “dinossauros”, que é muito mais recente (está registrada no Dicionário Houaiss, e não no Dicionário Aurélio) nos servirá como dado representativo dessa fronteira nem sempre muito demarcada entre neologismo semântico e metáfora conceitual. Semântica e Pragmática – 52 – 3.4 Figuras de linguagem Tudo o que diz respeito à construção, ao uso e à escolha das palavras, como vimos, pode sugerir dentro da frase um valor expressivo para o que pretendemos comunicar. Quando isso acontece, temos figuras de linguagem. No campo da morfoestilística, esses recursos podem ser sintetizados a partir do estudo de duas figuras, a metáfora e a metonímia: Metáfora – estilisticamente, é a figura de pensamento que corresponde a uma comparação de igualdade subentendida, atuando com as relações de similaridade, onde a base comparativa é o elemento implícito que admite a variedade interpretativa. 5. Teus olhos castanhos são estrelas fulgentes. → A base de comparação entre teus olhos castanhos e estrelas fulgentes está em aberto: ambos cintilam (são fulgentes), brilham, ou são tocantes, raros, lindos, ou são inspiradores de algum sentimento. Figura 3 – Olhos fulgentes. Fonte: IESDE BRASIL S/A. Didaticamente, é um procedimento bastante proveitoso explorar a riqueza metafórica da língua viva (presente em palavras lexicais) e exercitar as – 53 – Estilística léxica distinções entre metáforas já incorporadas à linguagem do dia a dia e aquelas que poderiam ser chamadas de “inventivas”. Igualmente interessante é chamar a atenção para as metáforas con- ceituais, que se baseiam numa visão cognitivista segundo a qual conceitos abstratos que subjazem ao pensamento humano norteiam a linguagem e a maneira como nos referimos aos objetos que nos cercam (revelando, enfim, de que maneira vemos o mundo). As metáforas conceituais nada mais são do que uma espécie de denominador comum das muitas metáforas cotidianas sobre um mesmo tema. Podemos, outrossim, tirar partido de outras figuras de linguagem como a prosopopeia, o eufemismo e a catacrese, que também têm base metafórica. 6. Para mim, és um anjo, uma flor, um doce ursinho. → Metáforas “cotidianas” (?). 7. Nossos governantes são diafragmas. → Metáfora “inventiva” (?). 8. Economize seu tempo! Invista seu tempo em coisas úteis! → Metáforas conceituais (tempo = dinheiro). 9. O primo tem um alto astral, mas ele vive na fossa. → Metáforas conceituais (alegria = “para cima” e tristeza = “para baixo”). 10. O vizinho entregou a alma ao Criador. → Eufemismo (é um tipo de metáfora que tem o objetivo de suavizar uma ideia mais forte ou agressiva). 11. Nem seu travesseiro entenderia aquela proposta amarga. → Duas prosopopeias (é um tipo de metáfora que consiste em dar vida, ação, movimento ou voz a seres inanimados). 12. Se embarcar nesse trem, finalmente verei o leito do Rio Amazonas? → Duas catacreses (é um tipo de metáfora que supre, por semelhança, a ausência de uma palavra própria para representar um significado). Semântica e Pragmática – 54 – Metonímia (abrangendo a sinédoque) – atua com as relações de conti- guidade, em que prevalece o entendimento de um vocábulo por outro porque ambos são postos no mesmo campo semântico denotativo. 13. Presenciei o encontro entre um sem-terra e um sem-teto. → Tomou-se terra e teto (terra = propriedade rural; teto = moradia) mais amplamente do que em seu sentido literal. 14. O menino era a alegria da família. → Tomou-se alegria como substituto de “causa, responsável pela alegria”. 15. Bebemos várias garrafas de refrigerante. → Tomou-se garrafas como substituto de “líquido contido nas garrafas”. Os exemplos mostram como as construções metonímicas se incorporam à linguagem do dia a dia, até distanciando o componente literal da mente do usuário ou do leitor. É o que se observa, por exemplo, com os nomes das equipes esportivas que representam um país, um estado, um bairro. 16. O Brasil ganhou da Alemanha na final da Copa de 2002. → Tomou-se Brasil e Alemanha como substitutos de “país representado por um time de futebol” ou “seleção de jogadores brasileiros” e “seleção de jogadores alemães”. Assim, em resumo, devemos considerar como base interpretativa para o reconhecimento dessas duas figuras as seguintes relações: Metáfora – relação de similaridade semântica. Metonímia – relação de contiguidade semântica. Além dessas figuras, a exploração da carga expressiva das palavras tam- bém pode envolver temas ligados à flexão de gênero e número, à formação de palavras compostas ou derivadas e à própria desconstrução vocabular. 17. “Barato é o marido da barata.” 18. “Andando por esses Brasis é que entendemos o povo.” – 55 – Estilística léxica → Flexões expressivas com intuito afetivo. 19. “Saiu agorinha mesmo.” 20. “Tens todíssima razão.” 21. “É uma data que não pode nenhumamente passar em branco.” 22. “Carnaval off-Sambódromo vai ser mais quente.” → Derivações expressivas com intuito enfático, em (19/20/21), e pre- tensioso, em (22). 23. “A rainha da bateria era a toda-toda Juliana Paes”. 24. “Depois dos pitboys, pitgirls, pitpais etc, veja o que dizia ontem o craque do Flamengo, comentando a ameaça do zagueiro do Vasco, de ‘que- brá-lo’ no segundo jogo da decisão no Rio: – É... já tem até pitzagueiro.” → Composições expressivas com intuito enfático (23) e irônico (24). 25. “Mó num patropi, abençoá por Dê.” 26. “Tomei um chafé com um brasiguaio que não sabe falar portunhol.” → Desconstrução (25) ou reconstrução (26) vocabular expressiva, com intuito artístico (25) ou irônico (26). Tudo a serviço da pretensão criativa, comunicativa, literária, jornalística de quem emprega a língua portuguesa na vida concreta. Ampliando seus conhecimentos Relações morfológicas entre palavras (CORREIA, 1995) As regularidades possíveis dentro do léxico são mais facil- mente apreensíveis no domínio das palavras construídas, e em particular das palavras derivadas. Semântica e Pragmática – 56 – Neste contexto, é frequente fazer referência à produtividade e à recursividade das regras derivacionais, capazes de dar origem a longas séries de palavras, de várias categorias gramaticais, de significado relacionado e facilmente analisável porque regular. Exemplos: nação (SUBST.) → nacional (ADJ.) → internacional (ADJ.) → internacionalizar (V.) → internacionalização (SUBST.) nação (SUBST.) → nacional (ADJ.) → nacionalizar (V.) → nacionalização (SUBST.) → desnacionalização (SUBST.) nação (SUBST.) → nacional (ADJ.) → nacionalizar (V.)→ desnacionalizar (V.) → desnacionalização (SUBST.) Mas estes mecanismos derivacionais não se limitam a cons- truções de séries semelhantes à anterior. Efetivamente, muitas vezes o mesmo afixo, ao associar-se a uma série de bases de uma mesma categoria, mas com significados distintos, é capaz de “ler” as várias especificações semânticas das bases, cons- truindo os significados mais adequados às várias utilizações dos derivados assim gerados. Por outras palavras, um derivado é em geral potencialmente polissêmico, devido a estas várias “leituras”, sendo as suas várias acepções, porque geradas por uma única RFP, perfeitamente regulares e, portanto, assimiladas e geridas intuitivamente, sem qualquer esforço suplementar da memória. Tome-se como exemplo o caso do sufixo -ada. Esse sufixo per- mite formar substantivos denominais com significados distintos conforme as características semânticas das suas bases. Assim, se a base designa um objeto com o qual é possível desferir um golpe, a paráfrase composicional do derivado será “golpe/marca dado/feito com o nome-base” (ex.: martelo > martelada; faca > facada). Porém, se a base denota um produto alimentar, a paráfrase composicional do derivado será “preparação feita com o nome-base” (ex.: marisco > mariscada; arroz > arrozada; mar- melo > marmelada). – 57 – Estilística léxica Se a base denota objetos contáveis, o derivado será parafra- seável por “(grande) conjunto do nome-base”, logo o deri- vado será um nome coletivo (ex: osso > ossada; mosquito > mosquitada). Os nomes em -ada podem funcionar como aumentativos (ex: chuva > chuvada; asneira > asneirada; poeira > poeirada). Finalmente, se a base denota uma entidade passível de funcio- nar como recipiente, o significado do derivado será “conteúdo do nome-base” (ex.: tacho > tachada; alguidar > alguidarada; ninho > ninhada). Há palavras que servem de base a derivados em -ada que podem ter duas categorias diferentes, podendo ser substan- tivos ou adjetivos (ex.: chinês ou banana). Assim, derivados construídos com bases deste tipo são a princípio polissêmi- cos, apresentando de início pelo menos dois significados: 2 chinesada (construído sobre chinês ADJ): “ato próprio de chinês”, sinônimo de chinesice; (construído sobre chinês SUBST): “grande quantidade de chineses”; 2 bananada (construído sobre banana ADJ): “ato próprio de banana”, sinônimo de bananice; (construído sobre banana SUBST): “grande quantidade de bananas”. Como banana, nome contável, designa um produto alimentar, bananada é também parafraseável por “preparação feita com base em banana”. Mas, considerando que o derivado, a partir do seu processo de derivação, adquiriu em potência todos os significados possíveis em função da base, do afixo e da RFP, novos con- textos podem selecionar novas significações para a mesma palavra bananada. Considere-se o seguinte contexto, perfei- tamente gramatical: 1. Os dois vendedores de fruta, zangados, começaram a bater-se: um deles dava bananadas no adversário. [nesta frase, Semântica e Pragmática – 58 – o mesmo derivado atualiza mais um dos significados possíveis produzidos no processo derivacional, a saber: “golpe desfe- rido com o nome-base (banana)”.] A partir desta análise, podemos concluir que as palavras deri- vadas são, em geral, potencialmente polissêmicas, isto é, no momento da sua construção, além do significado básico pró- prio da regra que as gera, estas palavras constroem outros signi- ficados potenciais resultantes das “leituras” múltiplas que o afixo em questão pode fazer da sua base. O falante, ao utilizar estes derivados, conjuga o seu conhecimento estritamente linguístico com o seu conhecimento do mundo para selecionar, entre os múltiplos significados que essas palavras podem assumir, aquele que melhor se ajusta ao contexto produzido/recebido. Os contextos linguístico e situacional desempenham, pois, um papel fundamental nesta atividade, ao eliminar, entre todas as possibilidades, as não adequadas à situação. De resto, os dados da psicolinguística parecem confirmar esta hipótese teó- rica: segundo os modelos de produção e de percepção de linguagem, o falante vai reduzindo as possibilidades de escolha das unidades a usar ou identificar em função do contexto em que a unidade ocorre. Um outro exemplo interessante é o do sufixo -eir(o/a), que per- mite construir substantivos denominais, que apresentam também significados distintos segundo as características semânticas da base, dos quais podemos destacar os que a seguir se discriminam. Praticamente todos os nomes derivados em -eir(o/a) podem ser parafraseáveis por “indivíduo que exerce ofício (tem profis- são) relacionado(a) com o nome-base” (ex.: arcabuz > arca- buzeiro; banana > bananeiro; peixe > peixeiro). Esse ofício ou essa profissão podem concretizar-se sob diferentes formas de acordo com as características da entidade designada pela base: “cultiva o nome- -base” (bananeiro); “fabrica o nome-base” (arcabuzeiro, – 59 – Estilística léxica pasteleiro); “confecciona com o/a partir do nome-base” (peleiro); “arranja/conserta o nome--base” (sapateiro); “conduz o nome-base” (carroceiro); “comercializa o nome- -base” (retroseiro), etc. Porém, se a base denota uma parte de planta suficientemente relevante para que essa planta seja cultivada para sua extra- ção, o nome correspondente em -eir(o/a), além de designar o profissional que cultiva/transporta/vende essa (parte de) planta, passa a designar a planta que produz o nome-base (banana > bananeira; cacau > cacaueiro, coco > coqueiro). O gênero do derivado é determinado pelo gênero da base: base feminina > derivado feminino / base masculina > deri- vado masculino. Se a base denota uma entidade passível de ser transportada em veículo especialmente concebido para o efeito, o deri- vado é parafraseável por “veículo próprio para transportar o nome-base” (ex.: banana > bananeiro; petróleo > petroleiro; bacalhau > bacalhoeiro). Se a base denota uma entidade passível de ser guardada em recipiente ou local próprio para o efeito, o derivado pode ainda ser parafraseável por “recipiente/local próprio para guardar/armazenar o nome-base” (ex.: pimenta > pimenteiro; biscoito > biscoiteira; palha > palheiro). Aqui, ao contrário do que acontece com os nomes de plantas em -eir(o/a), o gênero dos substantivos parece não ser previsível. Tal como fizemos para os derivados em -ada, poderemos fazer algumas experiências com derivados em -eir(o/a). Tomemos o caso dos nomes bananeir(o/a) e pasteleir(o/a). Em frases como 2. A Joana pousou a *bananeira em cima da mesa e encheu-a. 2’. A Joana pousou a *pasteleira em cima da mesa e encheu-a. Semântica e Pragmática – 60 – Ambos os derivados podem ser parafraseáveis por “recipiente próprio para guardar o nome-base (bananas/pastéis)”. Tomemos agora uma pseudopalavra (sequência de sílabas que, embora não corresponda a nenhuma palavra da língua, tem uma estrutura fonológica compatível com a de uma palavra da língua), por exemplo, “barota”. Consideremos agora os seus “derivados” em -eir(o/a) inseridos nas frases seguintes: 3. O baroteiro levantou-se cedo e começou a trabalhar. 4. Os baroteiros perderam a folha devido à geada. 5. O baroteiro construído nas traseiras da fábrica ardeu no domingo. Felizmente, encontrava-se vazio. Em (3), baroteiro é parafraseável por “indivíduo que exerce atividade/tem profissão relacionada com barota” sendo barota entendido como “produto/objeto passível de estar na base de determinado ofício/profissão”. Já em (4), é lido como “parte relevante de planta”, designando o seu derivado a “planta que produz barotas”. Em (5), baroteiro é parafraseável por “local destinado a guardar/armazenar barota(s)”. Com este “jogo”, pretendemos demonstrar como cada pro- cesso derivacional atribui múltiplos significados aos seus pro- dutos, em função do significado da base envolvida. No caso da pseudopalavra em causa, o poder gerador de significaçõesmúltiplas do processo derivacional é ainda mais visível, dado que, não tendo a base qualquer significado, verifica-se que, ao ser associada a -eir(o/a) e em função dos contextos em que ocorre, ela se torna passível de assumir qualquer das significações básicas permitidas pelo sufixo e pela Regra de Formação de Palavras (RFP). – 61 – Estilística léxica Atividades 1. Observe os exemplos abaixo, com alguns gentílicos terminados em -ense (substantivos ou adjetivos de dois gêneros), transcritos do Dicio- nário Houaiss: 2 angrense – relativo a Angra dos Reis (RJ) ou o que é seu natural ou habitante; 2 berlinense – relativo a Berlim (Alemanha) ou o que é seu natural ou habitante; 2 douradense – relativo a Dourados (SP) ou o que é seu natural ou habitante; 2 joinvilense – relativo a Joinvile (SC) ou o que é seu natural ou habitante; 2 kennediense – relativo a Pres. Kennedy (TO) ou o que é seu natu- ral ou habitante; 2 vienense – relativo a ou habitante de Viena (Áustria). Um dos gentílicos dessa lista mostra uma pequena distorção redacio- nal. Qual deles e por quê? 2. O trecho seguinte é de Nelly Carvalho (1999, p. 13-14). Linguistas como David Crystal dividem as palavras em: lexicais (ou plenas) e gramaticais (ou vazias). Plenas e vazia referem-se ao significado, mas contêm um erro conceitual: nenhuma forma é totalmente vazia. A autora se refere às “palavras gramaticais” (artigos, preposições, con- junções etc.). Comente a crítica de Nelly Carvalho ao termo utilizado por Crystal. Semântica e Pragmática – 62 – 3. Assinale as alternativas que contêm recursos de morfoestilística, expli- cando a expressividade de cada ocorrência. a. “Minhoca, minhoca, me dá uma beijoca? / Não dou, não dou, não dou! / Minhoco, minhoco, tu tá ficando louco, / Você beijou errado: a cara é do outro lado.” (cantiga de roda) b. “Minha vida é uma colcha de retalhos, todos da mesma cor.” (Má- rio Quintana) c. “Às vezes parece até que a gente deu um nó. Hoje eu quero sair só.” (Lenine) d. “Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”. (Chico Buarque) Estilística sintática – I O objetivo deste capítulo é observar, no âmbito da oração, a expressividade dos aspectos sintáticos no estudo estilístico da língua portuguesa. 4.1 Conceituação de sintaxe da frase O estudo da Estilística sintática envolve necessariamente o conhecimento de alguns dos assuntos abordados nas aulas e leitu- ras de análise sintática, isto é, a estrutura da frase, começando pelo domínio a respeito do funcionamento dos termos na oração. Para explicar como se alcança essa capacidade, retomo algumas das ideias que expus no livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HENRIQUES, 2008a, p. 15-16), com o objetivo de enfatizar a contribuição desse tipo de conhecimento em nossas escolhas estilísticas. 4 Claudio Cezar Henriques Semântica e Pragmática – 64 – O estudo da análise sintática é um dos pontos fundamentais na forma- ção de quem se pretende um usuário competente de sua língua. Duas das habilidades principais de uma pessoa culta repousam nas atividades de ler e de escrever, ações que podem caracterizar não só nossas carreiras profissionais, mas também nossa vida como cidadãos. Nesse sentido, sempre que pretendemos empregar a linguagem com vistas à comunicação com nossos interlocutores nós o fazemos reunindo de modo organizado uma sequência de unidades lexicais (palavras), combinan- do-as coerentemente segundo nossas intenções comunicativas. Essa combina- ção é o que se chama de “relacionamento sintático”, pois a análise sintática é, em resumo, a análise das relações. Sintaxe → Análise das relações Na estrutura da oração, estudamos as relações que as palavras mantêm entre si na frase. Como sabemos, essas relações são binárias: sujeito e verbo; verbo e complemento; núcleo e adjunto... Por esse motivo, quando nos lem- bramos da tradicional prática de exercícios voltados para o reconhecimento da função sintática de um termo, vemos que ela nem sempre alcança o real objetivo de sua aplicação. Afinal, não se pode dizer qual é a função sintática de um termo se não se encontrar o outro termo com o qual ele se relaciona. Ou seja, não se pode encontrar o sujeito de uma oração sem que se confirme sua relação de concordância com o seu “par” (o verbo); não se pode reconhe- cer que existe um objeto direto sem apresentar a “prova” (o verbo transitivo direto); não se pode afirmar que determinado termo é o agente da passiva sem que seu “parceiro” sintático seja revelado (o verbo na voz passiva). E assim sucessivamente com todos os termos da oração, pois cada um deles só tem a classificação que tem porque possui uma relação com outro termo – e cada uma dessas relações é única, e por isso são dez os termos da oração (neste caso não contamos o vocativo). Sujeito, predicado, predicativo, objeto direto, objeto indi- reto, agente da passiva, complemento nominal, adjunto adverbial, adjunto adnominal, aposto (e vocativo). – 65 – Estilística sintática – I A sintaxe tem duas parceiras especiais. Uma é a Semântica (a ciência do significado), pois o entendimento de uma frase depende da sua estrutura e das sutilezas que envolvem a construção do sentido. Outra é a Estilística (a ciência da expressividade), já que compete ao autor da frase fazer as escolhas sobre como será sua organização, a partir do repertório que a língua lhe oferece. Figura 1 – Parcerias. Fonte: IESDE BRASIL S/A. Cabe, porém, um lembrete: o domínio da sintaxe do português tem como pré-requisito o domínio da morfologia. São dois assuntos interliga- dos, a ponto até de a toda hora nos depararmos com textos acadêmicos que empregam a palavra morfossintaxe. Morfologia → Morfossintaxe ← Sintaxe Como a morfologia é o estudo dos valores associativos das formas lin- guísticas (os vocábulos) e a sintaxe é o estudo da inserção dessas formas lin- guísticas em enunciações lineares, é bastante pertinente a afirmação de Louis Hjelmslev (1971, p. 162), segundo a qual “malgrado todos os esforços, nunca se conseguiu separar completamente a morfologia da sintaxe”. Isso significa que ter um bom conhecimento acerca das classes de palavras é fundamental para entender a estrutura de uma oração e de um período. Lembremo- nos, por exemplo, que estudamos verbos, substantivos, adjetivos e advérbios nos livros e aulas de morfologia – suas flexões, significações, particularidades. Depois, Semântica e Pragmática – 66 – estudamos o verbo como elemento central da oração, o substantivo como núcleo de um termo, o adjetivo como um elemento periférico ou atributivo de outro, o advérbio como um determinante sobretudo dos verbos. Tudo entrelaçado, interligado, no âmbito da palavra (morfologica- mente) e da oração ou da frase (sintaticamente) para permitir que alcancemos a competência discursiva ou textual, que caracteriza o saber expressivo de que fala Eugenio Coseriu (1992): Quadro 1 – Da competência linguística à competência discursiva. Saber elocutivo competência linguística geral, isto é, a capacidade de falar Saber idiomático competência linguística particular, isto é, a capa-cidade de falar em uma língua determinada Saber expressivo competência discursiva ou textual, isto é, a capaci-dade de construir textos em situações determinadas Fonte: Elaborado pelo autor. Ou seja, um uso linguístico deve estar adequado às situações e aos con- textos em que se fala ou escreve. Assim, no nível do “saber expressivo”, o usuário competente necessita responder, antes de mais nada, a três perguntas: de que pretende falar?; com quem pretende falar?; em que contexto pretende falar? Com isso, importam-lhe não as noções de certo e errado, mas de ade- quado e inadequado, ainda que também essas definições sejam deveras discu- tíveis e numerosas, fixando-se em graus bastante diferentes. Figura 2 – Saber expressivo. De que pretendo falar? Com quem pretendo falar? Em que contexto pretendo falar? Fonte: IESDE BRASIL S/A. – 67 –Estilística sintática – I Por conseguinte, as escolhas estilísticas concretizadas num texto preci- sam estar compatíveis com o planejamento (ainda que intuitivo) do seu reda- tor. Por isso é que conhecer a fundo os mecanismos sintáticos do português – inclusive quanto ao nível de exigência da linguagem padrão – é tarefa de toda pessoa que pretenda produzir um texto expressivo. 4.2 Organização das palavras na oração Todas as línguas faladas pelo homem têm uma característica em comum: são feitas de palavras que se organizam em frases segundo determinadas características e relações. Se em inglês, por exemplo, só se pode colocar o adjetivo à esquerda do substantivo e não existe concordância entre eles, em português essa posição não é a mais usual e a concordância é obrigatória. Vejamos as séries (1) e (2) para exemplificar esse comentário. 1. sweetØ eyes (sim) / eyes sweet (não) / sweets eyes (não). 2. olhos doces (sim) / doces olhos (sim) / olhos doceØ (não) / doceØ olhos (não). É o que se chama de sintaxe de colocação e de sintaxe de concordância, e cada língua tem suas próprias regras quanto a isso. No português, há duas regras básicas de concordância: 2 o verbo concorda com o sujeito em número e pessoa; 2 o adjetivo concorda com o substantivo em gênero e número. E quanto à colocação? Chama-se ordem direta (ou lógica) a sequência em que o sujeito vem à esquerda do verbo, este precede os complemen- tos e os circunstanciadores (o direto tem preferência sobre o indireto, e os objetos têm preferência sobre os adjuntos adverbiais), os determinantes vêm depois dos determinados, os termos acessórios se posicionam à direita dos seus pares, os conectores e transpositores encabeçam os sintagmas ou orações por eles interligados... A frase (3) mostra um desses casos. 3. “O arrulhar destes dois corações virgens durava até oito horas da noite, quando uma senhora de certa idade chegava a uma das janelas da casa, já então iluminada.” (ALENCAR, 1975, p. 2) Semântica e Pragmática – 68 – O trecho de Alencar exemplifica bem a ordem direta do português: 2 a frase se inicia pelo sujeito (“o arrulhar destes dois corações vir- gens”) de “durava”; 2 o núcleo do sujeito (“o arrulhar”) precede seu determinante (“des- tes dois corações virgens”); 2 o determinante de “durava” (“até oito horas da noite”) está à direita do verbo; 2 a conjunção “quando” encabeça a oração subordinada adverbial, que está posicionada depois da oração principal; 2 o sujeito da segunda oração (“uma senhora de certa idade”) precede o verbo que com ele concorda (“chegava”); 2 o determinante de “chegava” (“a uma das janelas da casa”) está à direita do verbo; 2 o determinado “casa” precede seu determinante (“já então iluminada”). Esses são apenas alguns comprovantes de que o trecho de Alencar está construído rigorosamente em ordem direta, mas isso não significa que se trata de uma ordem obrigatória no português. O mesmo trecho poderia ter sido escrito de outra maneira, sem nenhum prejuízo para sua estrutura, como vemos em (4) e (5), exatamente com as mesmas palavras: 4. Até oito horas da noite durava o arrulhar destes dois corações virgens, quando a uma das janelas da casa, já então iluminada, chegava uma senhora de certa idade. 5. Durava até oito horas da noite o arrulhar destes dois virgens corações, quando chegava uma senhora de certa idade a uma das janelas da casa, já então iluminada. Não há diferença sintática entre as frases (3), (4) e (5), mas elas não são iguais do ponto de vista estilístico. Qual das três representa de modo mais adequado a expressividade pretendida pelo autor? O deslocamento de um sintagma para a posição inicial da frase (sua topicalização) é justificável? A resposta, certamente, gerará boa e saudável discussão de Estilística sintática. – 69 – Estilística sintática – I Topicalização: termo usado para indicar o deslocamento de um sintagma de sua posição normal na frase para o início dela – o que geralmente se dá por razões de natureza discursivo-textual. Façamos agora uma exemplificação ao contrário, tomando um outro trecho do próprio Alencar, extraído do mesmo romance A Viuvinha. 6. “Pouco depois desapareceram os adornos da cerimônia, e na sala fica- ram apenas algumas pessoas que festejavam em uma reunião de amigos e de família a felicidade dos dois corações.” (ALENCAR, 1975, p. 38) Aqui, não há a rigorosa obediência à ordem lógica do português. Alencar privilegiou a ordem inversa, como destacamos nas seguintes passagens: 2 o sujeito dos verbos “desaparecer” (“os adornos da cerimônia”) e de “ficaram” (“algumas pessoas”) está posposto; 2 os determinantes de “desapareceram” (“pouco depois”) e de “fica- ram” (“na sala”) estão antes dos verbos; 2 o complemento do verbo “festejar” (“a felicidade dos dois cora- ções”) está distanciado dele pela antecipação do adjunto adverbial “em uma reunião de amigos e de família”. Porém, essa opção estilística de Alencar como ficaria se reescrita na ordem direta? 7. Os adornos da cerimônia desapareceram pouco depois, e apenas algu- mas pessoas que festejavam em uma reunião de amigos e de família a felici- dade dos dois corações ficaram na sala. Observa-se que o sujeito “apenas algumas pessoas”, ao ser posicionado à esquerda de seu verbo (“ficaram”) teve de trazer consigo toda a oração subor- dinada que o secundava, pois afinal essa oração do verbo “festejar” é adjetiva, isto é, determinante de “pessoas” e se posiciona depois desse substantivo. De novo cabe perguntar qual das maneiras se presta de modo mais ade- quado à expressividade pretendida pelo autor. E outra vez veremos que tam- bém aqui a resposta gerará boa e saudável discussão de Estilística sintática. Semântica e Pragmática – 70 – De todo modo, uma conclusão se pode alcançar desde logo: a ordem direta ou lógica nem sempre é a mais recomendável ou a melhor. Cada situa- ção discursiva, textual, é que dirá se a escolha mais apropriada é uma, outra ou mesmo um misto de ambas. 4.3 Extensão das frases Diz Mattoso Câmara Jr. que a frase é uma [...] unidade de comunicação linguística, caracterizada, como tal, do ponto de vista comunicativo – por ter um propósito definido e ser sufi- ciente para defini-lo, e do ponto de vista fonético – por uma entoação, que lhe assinala nitidamente o começo e o fim. É assim a divisão ele- mentar do discurso, mas pertence à estrutura linguística por obedecer a padrões sintáticos vigentes na língua, no seu sentido de sistema por que se pauta o discurso. (CÂMARA JR., 1981, p. 122) E complementa que a frase só é integralmente linguística, ou seja, está em padrão de oração, quando contém linguisticamente em si todos os dados para a comunicação do seu assunto, sem que haja necessidade de completá- -los com algum gesto ou e com uma situação concreta. Decidir qual a melhor extensão para uma frase é, em resumo, uma tarefa que consiste em combinar a questão sintática com a escolha estilística, e esta levará em conta aquelas mesmas três perguntas que enumeramos há pouco, na busca do “saber expressivo” (de que pretende falar?; com quem pretende falar?; em que contexto pretende falar?). Observemos o exemplo (8), tirado de uma notícia de jornal: 8. “Foi um show dentro e fora de campo. Com direito a pontapé inicial de Pelé e volta olímpica de Felipe Massa, a Seleção Brasileira goleou Portugal de forma convincente por 6 a 2 na noite desta quarta-feira, de virada, no Estádio Bezerrão, na cidade-satélite do Gama, no Distrito Federal”. (CLICRBS, 2008) O texto começa com uma frase curta, marcada pela objetividade e sín- tese. A segunda frase contém quase três linhas e, apesar disso, só tem um verbo, uma oração. Topicalizada com o sintagma que fala de Pelé e de Felipe Massa, o período mostra o verbo “golear” seguido por seu complemento – 71 – Estilística sintática – I imediato (o objeto direto “Portugal”) e depois por um longo rol de adjuntos adverbiais. Se o redator optasse por equilibrar o tamanhodas duas senten- ças ou se preferisse escrever três períodos, talvez diminuísse o impacto que a primeira frase exerce sobre o leitor da notícia e talvez quebrasse o fluxo das circunstâncias que acompanham o verbo “golear”. Os resultados, para nossa reflexão, estão nos trechos (9) e (10): 9. O Brasil deu um show dentro e fora de campo, na noite desta quarta- -feira, no Estádio Bezerrão, na cidade-satélite do Gama, no Distrito Federal. Com direito a pontapé inicial de Pelé e volta olímpica de Felipe Massa, a seleção goleou Portugal de forma convincente por 6 a 2, de virada. 10. De virada, a Seleção Brasileira goleou Portugal de forma convincente por 6 a 2. O Brasil deu um show dentro e fora de campo, na noite desta quar- ta-feira, no Estádio Bezerrão. Com direito a pontapé inicial de Pelé e volta olímpica de Felipe Massa, o jogo aconteceu na cidade-satélite do Gama, no Distrito Federal. Como avaliar as opções (8), (9) e (10) senão pela interpretação da expres- sividade pretendida pelo jornalista que redigiu a notícia? 4.4 Referenciação intrafrásica A relação que existe entre uma expressão linguística e alguma coisa que ela seleciona no mundo real ou conceitual é o que se chama de referência. “Uma expressão linguística que refere ou aponta para alguma coisa no mundo não linguístico é uma expressão referencial” (TRASK, 2004, p. 251), mas os fenômenos referenciais, por se configurarem como práticas discursivas, são um caso expressivo da relação entre linguagem e realidade, algo que é reciproca- mente constitutivo. Se considerarmos o texto a partir de uma perspectiva micro, diremos que se trata de uma reunião de frases e que estas não passam de uma reunião de termos, sintagmas e palavras. Porém, por um ponto de vista macro, devemos admitir que um texto é um conjunto de unidades micro que se formam em busca de uma unidade sistêmica, organizada e construída progressivamente com base em dois processos gerais, a sequencialidade e a topicidade. Semântica e Pragmática – 72 – A topicidade se refere ao assunto ou tópico discursivo (às vezes mais de um) tratado ao longo do texto. A sequencialidade é um componente da progressão referencial e se refere à apresentação, continuidade, identifica- ção, preservação, retomada de referentes textuais e tidas como estratégias de designação de referentes. Nesse sentido, a sucessão de palavras que forma um texto vai muito além da mera sequencialidade, pois é preciso que um entrelaçamento coerente aproxime esses componentes para lhes dar a mencionada unidade sistêmica de textualidade, isto é, promover sua coesão. Esta, por ser a representação lin- guística da coerência de um texto, concretiza-se nas relações entre elementos sucessivos (artigos, pronomes, adjetivos, verbos, advérbios), na organização de períodos, de parágrafos, de cada uma das partes do todo, formando uma cadeia de sentido capaz de apresentar e desenvolver o que se pretendeu dizer sob a forma de texto. Esses mecanismos linguísticos, que têm a função de estabelecer a conectividade e a retomada entre as partes do texto, são chamados de refe- rentes textuais. Os referentes textuais podem se valer, conforme o caso, dos mecanismos léxico-semânticos ou morfossintáticos (por meio de pronomes de terceira pessoa, de certos advérbios, conectivos, numerais ou por meio de substantivos e verbos cujo campo semântico permita o processo de substituição ou ainda pelo recurso da repetição enfática, da paráfrase, da restrição, entre outros). A compreensão de um texto também se dá por elementos não explicitados nele, sendo possível considerar que há fatores de coesão implícita, apoiados no conhecimento compartilhado que os participantes do processo comunicativo têm da língua que usam. Por exemplo: uma pessoa que está num bar tomando um refrigerante chama o garçom e lhe diz a frase (11). 11. Meu copo está vazio. Pode me trazer outro guaraná? Certamente essa pessoa não tem em mente a hipótese de que o garçom vá lhe trazer um guaraná diferente (outro guaraná = um guaraná diferente), – 73 – Estilística sintática – I mas que ele lhe trará o mesmo guaraná (outro guaraná = mais um copo do mesmo guaraná), apesar do aparente contrassenso de “outro” ser equivalente de “mesmo”. O processo comunicativo, porém, poderá resultar no entendimento do que está explícito (outro = diferente) e numa resposta como a da frase (12). 12. Infelizmente não. Só temos essa marca. Vejamos então, em dois parágrafos sucessivos (extraídos da Revista da Folha de S. Paulo, de 21/09/2008), outros exemplos de referentes textuais que atuam no interior da frase. 13. Com 240 mil veículos a mais nas ruas da capital nos últimos seis meses, que se juntaram a uma frota de seis milhões, o automóvel é cada vez mais protagonista de um pesadelo urbano no qual os paulis- tanos se veem mergulhados diariamente. 14. Parado nos congestionamentos – o recorde chegou a 266km em maio – ou na disputa inglória por uma vaga para estacionar, o carro virou um trambolho que coloca em xeque a própria sobrevivência da metrópole. “Não dá para todo mundo ter um carro hoje, a não ser que acabem com os espaços públicos e transformem a cidade em algo exclusivo para o automóvel”, ironiza a urbanista Raquel Rolnik. (SOLUÇÃO RADICAL, 2008) O parágrafo (13) possui apenas uma frase. Nela, “costuram” o interior frasal os pronomes relativos “que” (retomando “os veículos”) e “no qual” (retomando “o pesadelo urbano”), o pronome pessoal reflexivo “se” (em duas ocasiões: também retomando “os veículos” e “o pesadelo urbano”) e os substantivos “veículos”, “frota” e “automóvel” (e sua coerente hierarquia) e “capital” e “paulistanos” (também coerentes na seleção e enfatizados no adjetivo “urbano”). Já em (14), em que há duas frases (uma do jornalista, outra em discurso direto), a coesão interna se dá com o pronome relativo “que” (retomando “trambolho”), o predicador “trambolho” (substituto pejorativo de “carro”), na primeira delas. Na segunda, vemos a locução conjuntiva “a não ser que” (conector de exclusão) e os substantivos “carro” e “automóvel” (sinônimos) e “cidade” e “urbanistas” (também coerentes na seleção). Semântica e Pragmática – 74 – 4.5 Figuras de linguagem A decisão acerca do modo de se construir uma frase, como vimos, pode insinuar ou revelar um valor expressivo para o que pretendemos comunicar. Quando isso acontece, temos figuras de linguagem. No campo da Estilística sintática, entre as principais figuras, destacamos as seguintes: 2 Anacoluto e Pleonasmo Enquanto o pleonasmo sintático ocorre pela repetição enfática de um termo oracional, geralmente topicalizado, o anacoluto consiste numa topica- lização que não tem sequência sintática concreta. 15. Os meus votos, os derrotados não os anularão nunca. → Pleonasmo 16. Aos eleitos, desejamos a eles um bom mandato. → Pleonasmo 17. Os corruptos, é preciso acabar com eles. → Anacoluto 18. Os tiranos, ainda há quem goste deles. → Anacoluto Nas frases (15) e (16), os sintagmas topicalizados têm função sintática (“os meus votos” é objeto direto de “anularão”, e “aos eleitos” é objeto indireto de “desejamos”) e são repetidos adiante, numa redundância sintática enfática (o pronome oblíquo “os” é o objeto direto pleonástico de “anularão”, e “a eles” é o objeto indireto pleonástico de “desejamos”). Como se vê, em cada oração houve a redundância sintática de dois termos. Nas frases (17) e (18), os sintagmas topicalizados não têm função sintá- tica, e sua repetição adiante não é sintática, mas apenas uma estratégia coe- siva, pois afinal é preciso que o leitor entenda a frase e saiba que papel sin- tático deveriam fazer os sintagmas “os corruptos” e “os tiranos”. Os termos “com eles” e “deles” são objetos indiretos de “acabar” e “gostar”, mas em cada uma das frases só há um objeto indireto, pois “os corruptos” e “os tiranos” não têm função sintática em virtude da “quebra frasal” que caracteriza o anacoluto. 2 Silepse Uma das possibilidadesde concordância no português envolve o pro- cedimento de relacionar sintaticamente um elemento da frase ao que está implícito (em vez de explícito), descumprindo a regra básica de concordância – 75 – Estilística sintática – I entre verbo e sujeito ou entre adjetivo e substantivo. Chama-se por isso de concordância ideológica. 19. Todos os brasileiros (P6) sentimos (P4) na pele o que aconteceu. 20. Aquele discurso deixou a gente (f ) aborrecido (m) com o candidato. O sujeito da frase (19) é “os brasileiros” (= eles, P6), e o verbo poderia ser “sentiram”. Usar a forma “sentimos” (= nós, P4) significa incluir no sujeito a ideia da primeira pessoa – o que não poderia acontecer se o falante da frase fosse, por exemplo, um russo. Na frase (20) o adjetivo “aborrecido” se relaciona com a palavra “gente”, feminina. A concordância só pôde ser aceita porque “a gente” também se refere ao falante, no caso um homem. 2 Hipálage Pode-se justificar a associação de um adjetivo a um substantivo que não é, do ponto de vista lógico, o seu determinado. 21. O ambulante vendia as bandeiras felizes do grande campeão. Observe-se como o adjetivo “felizes”, logicamente referido aos torcedo- res do time campeão, transfere sua concordância para o substantivo “bandei- ras”, em virtude da contiguidade semântica entre os seus determinados lógico e sintático. 2 Assíndeto e Polissíndeto A ausência ou a reiteração de uma “conjunção coordenativa” pode ter efeito expressivo. 22. Cheguei, olhei, abafei. → Assíndeto (ausência da conjunção “e”). 23. Era sempre assim: ou chorava, ou gritava, ou morria de amor. → Polissíndeto (reiteração da conjunção “ou”). 2 Inversão (anástrofe, hipérbato e prolepse) A alteração intencional e expressiva da ordem direta de uma oração ou frase caracteriza algum dos casos de inversão. 24. Agora você já perdeu o trem, meu caro. → Prolepse (topicali- zação refutadora). 25. Sobre o meu passado não falaria nada. → Anástrofe (inversão simples). Semântica e Pragmática – 76 – 26. Assusta-me das águas o nível gigantesco. → Hipérbato (inversão complexa). Na prolepse, além da inversão é necessário que se perceba uma possível refutação ao interlocutor. Quando isso não ocorre, haverá a anástrofe. Outra figura de inversão é a sínquise, que consiste em criar uma frase ambígua pela interpenetração sintática de seus termos (melhor seria dizer que se trata, então, de um vício de linguagem – e não de uma figura). 2 Omissão (elipse e zeugma) A omissão intencional de algum termo da oração também pode ser expressiva. 27. Sobre a cabeça, os aviões. → Elipse (de “estão” ou “há”). 28. Encontrei-a sozinha, um ar triste, o rosto pálido. → Elipse (de “tinha” ou “com”). 29. Peço venham todos à festa. → Elipse (de “que”). 30. Você falou verdades e eu, mentiras. → Zeugma (de “falei”). 31. Levei dois livros: um de contos e um de poesia. → Zeugma (de “livro”). Na elipse, a palavra subentendida pode ter sido usada antes ou não. Na zeugma, a omissão é de uma palavra já empregada antes, sob forma gramatical diferente. Além dessas figuras de linguagem que aqui apresentamos, a construção de frases pode ainda produzir expressividade de muitas outras maneiras. Tudo a serviço da pretensão criativa, comunicativa, literária, jornalística de quem emprega a língua portuguesa na vida concreta. Ampliando seus conhecimentos Qualidades do parágrafo e da frase em geral (GARCIA, 1988, p. 253-254) A correção gramatical é, sem dúvida, uma das mais importan- tes qualidades do estilo. Mas nem sempre a mais importante: – 77 – Estilística sintática – I uma composição pode estar absolutamente correta do ponto de vista gramatical e revelar-se absolutamente inaproveitável. Os professores topamos todos os dias com exemplos disso. É verdade que erros grosseiros podem invalidar outras quali- dades do estilo. Mas a experiência nos ensina que os defei- tos mais graves nas redações de alunos do curso fundamental – e até superior – decorrem menos dos deslizes gramaticais que das falhas de estruturação da frase, da incoerência das ideias, da falta de unidade, da ausência de realce. Quando o estudante aprende a concatenar ideias, a estabelecer suas relações de dependência, expondo seu pensamento de modo claro, coerente e objetivo, a forma gramatical vem com um mínimo de erros que não chegam a invalidar a redação. E esse mínimo de erros se consegue evitar com um mínimo de “regrinhas” gramaticais. Isoladamente, unidade e coerência têm características pró- prias, mas quase sempre a falta de uma resulta da ausência da outra. A primeira pode ser em grande parte conseguida graças ao expediente do tópico frasal; a segunda depende princi- palmente de uma ordem adequada e do emprego oportuno das partículas de transição (conjunções, advérbios, locuções adverbiais, certas palavras denotativas e os pronomes). Em síntese, a unidade consiste em dizer uma coisa de cada vez, omitindo-se o que não é essencial ou não se relaciona com a ideia predominante no parágrafo. Evitem-se, portanto, digressões descabidas e indiquem-se de maneira clara as rela- ções entre a ideia principal e as secundárias. A falta de unidade do parágrafo seguinte decorre da ausência de conexão entre os seus dois períodos. Acabam de chegar a Cuba reforços militares da União Soviética para o regime comunista de Fidel Castro. A condecoração de “Che” Guevara, um dos colaborado- res castristas, pelo ex-presidente Jânio Quadros, por Semântica e Pragmática – 78 – afrontosa, escandalizou a opinião pública e contribuiu para a sua renúncia (redação de aluno). Pergunta-se: qual é a ideia principal desse parágrafo? A che- gada de reforços, a condecoração, o escândalo da opinião pública ou a renúncia do presidente? Se é a chegada de reforços, que relação há – ou mostrou seu autor haver – entre esse fato e os restantes? Há, sem dúvida, uma relação implí- cita, histórica, ocasional, entre as três personagens referidas, mas não entre suas ações indicadas no trecho. Falta, pois, ao parágrafo qualquer traço de unidade, coerência e ênfase. Para consegui-lo, seria necessário dar-lhe uma nova estrutura. Uma das versões possíveis seria esta: Acabam de chegar a Cuba reforços militares da União Soviética para o regime comunista de Fidel Castro. Pois foi a um dos colaboradores castristas – “Che” Guevara – que o ex-presidente Jânio Quadros condecorou, escandalizando a população e contribuindo para a sua própria renúncia. A partícula de transição “pois” (conjunção conclusiva) e a expletiva “foi... que” já denunciam certa relação com a che- gada de reforços e o que se segue esse “pois” indica vestígios de um silogismo incompleto, cuja premissa maior está implí- cita. O raciocínio que teria levado a essa estrutura deve ter sido mais ou menos o seguinte: Acabam de chegar a Cuba reforços militares da União Soviética. Isso nos leva a admitir que o regime de Fidel Castro é comunista. Ora, os comunistas não devem ser condecorados sem que se escandalize parte da opinião pública de país não comunista. Pois esse escândalo provocou-o a condecoração de “Che” Guevara pelo – 79 – Estilística sintática – I ex-presidente Jânio Quadros, escândalo que foi, prova- velmente, uma das causas da sua renúncia. Note-se, porém, que na versão proposta a ideia principal é “condecorar”; portanto, a “chegada de reforços”, sob a forma de tópico frasal, ilude o leitor, que supõe ver aí a ideia pre- dominante do parágrafo. Sugere-se então nova estrutura, de forma que as ideias secundárias assumam feição gramatical mais adequada: oração subordinada ou adjunto adverbial: Com a chegada a Cuba de reforços militares da União Soviética para o regime comunista de Fidel Castro, a con- decoração de “Che” Guevara pelo ex-presidente Jânio Quadros – gesto que talvez tenha contribuído para sua renúncia – torna-se ainda mais afrontosa à opinião pública. Sob a forma de adjunto adverbial, a “chegada de reforços” passa a ser uma ideia secundária, permitindoque se dê maior realce à contida na oração principal (“a condecoração... torna- -se ainda mais afrontosa”). A terceira ideia desse parágrafo, por ser também irrelevante, assume uma feição de subalterni- dade sob a forma de aposto: “gesto que...” Assim, nesta última versão estão mais ou menos razoavel- mente evidenciadas as três principais qualidades do parágrafo (que no caso são também do período): a) unidade – uma só ideia predominante; b) coerência – relação (no caso, de consequência) entre essa ideia predominante e as secundárias; c) ênfase – a ideia predominante não apenas aparece sob a forma de oração principal mas também se coloca em posição de relevo, por estar no fim ou próximo do fim do período-parágrafo. Semântica e Pragmática – 80 – Atividades 1. Aqui no prédio há um casal que prestigia o nosso grupo de teatro e que só perde um ensaio quando não encontram uma pessoa que possa tomar conta de sua filha pequena. O trecho acima pode exemplificar por que, às vezes, a silepse é prefe- rível à concordância lógica? Explique. 2. “E quando escuta um samba-canção / Assim como ‘Eu preciso apren- der a ser só’, / Reagir e ouvir o coração responder: / Eu preciso apren- der a só ser.” A letra de Gilberto Gil faz uma inversão das palavras “ser” e “só” com que finalidade textual? Identifique suas diferenças semânticas e mor- fossintáticas e, depois, explique em que outras posições da mesma frase essa palavra poderia ser empregada e com que consequências. 3. Assinale as alternativas que contêm recursos de Estilística sintática, explicando a expressividade de cada ocorrência. a. Ah, se todos tivéssemos esse seu jeito especial de entender o co- ração humano! b. Teus braços amigos estão sempre à minha disposição, eu sei. c. Aqueles olhos azuis, cansei de admirá-los em vão. d. Fazemos de tudo um pouco. Estilística sintática – II O objetivo deste capítulo é observar, no âmbito do período, a expressividade dos aspectos sintáticos no estudo estilístico da lín- gua portuguesa. 5.1 Conceituação de sintaxe do período Assim como uma frase não é uma reunião aleatória de palavras ou de orações, um texto não é uma reunião aleatória de frases. As decisões de estilo, no que tange à sintaxe do período (simples ou composto) têm a ver, em primeiro lugar, com o domínio do funcio- namento dos padrões frasais do português e das combinações que as orações mantêm umas com as outras dentro de uma frase verbal, a que denominamos período. No livro sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HENRIQUES, 2008a, p. 95), tratei um pouco desse tema, cabendo aqui aproveitar minhas próprias palavras para discutir como 5 Claudio Cezar Henriques Semântica e Pragmática – 82 – importam as questões sintáticas da frase na qualificação de um texto, pois sua complexidade e expressividade se medem a partir de vários parâmetros. Não resta dúvida de que um deles repousa na observação da estrutura sintática de seus períodos e parágrafos. Nesse sentido, o estudo da sintaxe é uma das estratégias para desvendar os mecanismos composicionais escolhidos pelo autor de um texto, ainda que ele precise passar pelo caminho da nomen- clatura e da fixação das regras básicas do relacionamento sintático para atingir seu alvo maior. Um texto coeso e coerente se organiza a partir de princípios lógicos, entre os quais se incluem os processos relacionais, que partem de uma “relação-mi- cro” como a que existe entre o núcleo de um termo e seu adjunto adnominal, passam por uma “relação-midi”, como a que nos mostra que uma oração é principal porque outra é sua subordinada, e se encerram numa “relação-macro”, que confirma por exemplo que uma notícia de jornal ou uma crônica literária teve começo, meio e fim – o que só acontecerá de fato se tiverem sido seguidas as regras elementares de adição, oposição, reiteração, substituição e conclusão, entre tantas outras regras que se baseiam em ampliações dos mecanismos pri- mários expressos pelos conectivos, conjunções, pronomes relativos, pessoais... Figura 1– Microrrelações, midirrelações, macrorrelações = Sintaxe. Fonte: IESDE BRASIL S/A. – 83 – Estilística sintática – II Nesse percurso do “mundo-micro”, feito com o estudo geral da estru- tura da oração, para o “mundo-macro”, é preciso examinar como funciona a estrutura do período (o “mundo-midi”), relembrando que esses três “mun- dos” nada mais são do que uma repetição um do outro, em tamanhos e graus diferentes. É preciso, portanto, frisar que o estudo da Estilística sintática, no âmbito do período, é o estudo da expressividade, da pertinência e da coesão que existe no relacionamento que as orações mantêm entre si no enunciado. Sintaxe do período → Análise das relações oracionais Interessa-nos, então, examinar como um período ou frase verbal atua em suas relações discursivas e pragmáticas com o mundo que cerca o texto. É o segundo passo no caminho da almejada qualidade e expressividade textual. 5.2 Organização das orações (no período) Há em português dois tipos de orações, conforme sejam sintaticamente independentes ou dependentes. Se um período dispõe suas orações com inde- pendência sintática, dizemos que há coordenação entre elas. Se, porém, as orações mantêm no período uma relação de dependência sintática, falamos em subordinação. Vejamos como acontecem essas relações, examinando algumas frases escritas por Graciliano Ramos no romance Angústia. 1. “Peguei um livro, abri a porta e desci os degraus do quintal, furioso com o amante de D. Mercedes. Velhaco. Devia nas lojas, devia nas mercea- rias, devia ao alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe.” (RAMOS, 1975, p. 53) O trecho contém quatro frases, sendo a segunda um efeito retórico interjectivo (equivalente muito mais expressivo do que “Era um velhaco”). A quarta frase também não tem um verbo lexicalizado, mas se entende algo como “Vivia atracado...”, de modo a deixar implícita a informação redun- dante para destacar a descrição relevante do tal amante de D. Mercedes. Considerando a inserção dos verbos, essas frases teriam orações independen- tes absolutas. Sem os verbos, são frases nominais (inseridas em um contexto ou situação). Semântica e Pragmática – 84 – Interessam-nos, porém, mais os períodos 1 e 3 do exemplo (1). Observemos a sequência de orações independentes de ambos: Período 1 2 oração 1: peguei um livro 2 oração 2: abri a porta 2 oração 3: e desci os degraus do quintal, furioso com o amante de D. Mercedes. Período 3: 2 oração 1: devia nas lojas 2 oração 2: devia nas mercearias 2 oração 3: devia ao alfaiate Nos dois períodos, a opção do escritor foi pela construção de orações independentes – tanto que até poderiam ter sido escritas com a separação por pontos, como temos em (2). 2. Peguei um livro. Abri a porta. E desci os degraus do quintal, furioso com o amante de D. Mercedes. Velhaco. Devia nas lojas. Devia nas mercea- rias. Devia ao alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe. É lícito concluir que Graciliano optou por estruturas integradas em fra- ses desse tipo, pois preferiu privilegiar um determinado nível de informação e de descrição, associando-as a um certo ritmo pausado de leitura, típico de estruturas coordenadas. Suponhamos, porém, que a escolha fosse pela construção com orações dependentes. Uma das possibilidades de reescritura (apenas dos períodos 1 e 3) do trecho nos daria o que está em (3); outra, buscando apenas os usos de estruturas dependentes, nos daria o que está em (4). 3. Depois que peguei um livro, abri a porta para, em seguida, descer os degraus do quintal, furioso com o amante de D. Mercedes. Velhaco. Tanto devia nas lojas, como devia nas mercearias e devia ao alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe. – 85 – Estilística sintática – II 4. Depois quepeguei um livro, abri a porta para em seguida descer os degraus do quintal, furioso com o amante de D. Mercedes, porque o conside- rava um Velhaco, que tanto devia nas lojas, como devia nas mercearias e devia ao alfaiate, o que o obrigava a viver atracado aos usineiros, aos banqueiros, aos homens da Associação Comercial, numa adulação torpe. Vimos quatro maneiras de construir o mesmo momento da narrativa do romance Angústia, de Graciliano Ramos. Não resta dúvida de que a opção do escritor se mostra bastante expressiva, mas sobre as outras três a única coisa inquestionável é que, sintaticamente, elas estão corretas, adequadas e bem-escritas. E estilisticamente? Cabe aqui uma boa e saudável discussão a esse respeito. Isso significa que estruturas sintáticas independentes são melhores do que as dependentes? Ou que, num texto narrativo, elas são mais recomendá- veis? Ou então que Graciliano Ramos é que tem um estilo em que predomina a coordenação sobre a subordinação? Obviamente a resposta a essas perguntas é a mesma: não, necessariamente. É preciso relativizar todas essas coisas e examinar em que circunstância elas ocorrem. Para comprovar essa “fragilidade dos dogmas sintáticos”, vejamos outras duas passagens do mesmo autor, ainda em Angústia. 5. Marina apareceu, enroscando-se como uma cobra de cipó e tão bem vestida como se fosse para uma festa. Ao pegar-me a mão, ficou agar- rada, os dedos contraídos, o braço estirado, mostrando-se, na faixa de luz que entrava pela janela. Isto me dava a impressão de que o meu braço havia crescido enormemente. (RAMOS, 1975, p. 67) 6. Marina parou diante de uma casinha baixa, hesitou, bateu à porta. Toda a minha atenção se concentrou num olho, porque na esquina em que me achava apenas apresentava à rua uma banda da cara. Quando ela entrou, desentoquei-me, aproximei-me da casinha e vi uma placa azul com letras brancas. (RAMOS, 1975, p. 157) Os três períodos do trecho (5) contêm o predomínio de estruturas dependentes, com orações substantivas, adjetivas e adverbiais, com orações desenvolvidas e reduzidas. Já no trecho (6), observa-se uma combinação entre orações independentes e dependentes dentro do mesmo período: o primeiro contém apenas orações independentes; o segundo, apenas orações Semântica e Pragmática – 86 – dependentes; o terceiro começa com uma oração dependente e prossegue com três independentes. Algum dos trechos perdeu em expressividade? Claro que não. Isso nos permite concluir que a decisão sobre as estruturas que devem figurar num período depende muito do conhecimento sintático, é claro, mas depende ainda mais da sensibilidade e da percepção estilística de quem escreve. 5.3 Referenciação interfrásica Todo emissor de uma mensagem faz uma representação mental (multi- dimensional) a respeito do referente do discurso que pretende elaborar. Referente: termo que denomina o componente do mundo real que é passível de argumentação, descrição ou relato por meio de palavras. Quando se dá a produção de um texto, essa representação mental toma uma forma concreta, que tem linearidade e temporalidade, pois deve se mate- rializar (uma ação de tempo) em unidades linguísticas (um resultado linear) com o propósito de emitir uma informação. Figura 2 – Operação cognitivo-linguística: do cérebro para o papel. Fonte: IESDE BRASIL S/A. – 87 – Estilística sintática – II A principal questão para quem redige é a que envolve essa transfe- rência do modelo mental (não linear e impalpável) para a forma concreta da frase. O ponto é como compatibilizar esses dois ambientes, como saber fazer essa passagem. Podemos resumi-la a duas operações, que interagem durante essa transferência: a) seleção e ajuste dos itens lexicais (em outros termos: achar a palavra certa e posicioná-la na frase de modo adequado); b) enquadramento das unidades linguísticas em relação aos enunciados que as precedem ou sucedem num texto (também chamados de cotexto). Enquanto a operação A se presta mais para a construção da oração ou do período, a operação B é a que expressa de fato a materialização do texto, sua efetiva construção como uma unidade de sentido. Observemos a notícia abaixo para vermos como se dão esses processos. 7. Ter autonomia para escolher o horário de início do trabalho – de manhã, à tarde, à noite ou de madrugada –, livrar-se dos imensos con- gestionamentos, que tiram o humor de qualquer pessoa, usar a roupa que achar mais confortável, decorar o ambiente com a sua cara e ser o seu próprio chefe. Quem nunca desejou pelo menos um desses privilé- gios? (GAZETA DO POVO, 2008) O redator inicia seu parágrafo com uma frase que combina com simetria cinco infinitivos verbais (ter, livrar-se, usar, decorar e ser). Até aí estamos na operação A, que verifica a seleção e ajuste dos itens lexicais. Na frase final do trecho, há entretanto um sintagma que atua no processo B (um desses privilé- gios). O demonstrativo “esses” é anafórico e faz relação com o enunciado que o precede, e o substantivo “privilégios” condensa (também anaforicamente) a série liderada pelos cinco verbos no infinitivo, acrescentando um juízo de valor que o jornalista espera ser compartilhado pelos seus leitores, a saber: as ideias representadas pelos cinco verbos no infinitivo podem ser consideradas positivas (= privilégio, no bom sentido). Alternativamente, o jornalista poderia ter evitado o demonstrativo, mas precisaria de uma palavra anafórica de outra classe para dar coerência à frase final – é o que se vê em (8). Semântica e Pragmática – 88 – 8. Quem nunca desejou pelo menos um dos privilégios citados? Também poderia ter usado um substantivo anafórico mais neutro – como em (9). Isso evitaria que algum leitor percebesse alguma sutil ironia ou inveja no uso do substantivo “privilégios”, por considerar que o repórter redator, provavelmente, não pode trabalhar apenas em casa. 9. Quem nunca desejou pelo menos uma dessas comodidades? Uma outra questão envolve as operações de enquadramento dos enuncia- dos de um texto, ainda no que tange à conexão e à segmentação. Suas unidades fundamentais são os organizadores textuais e os sinais de pontuação, que têm a função de, primeiro, “costurar” os itens lexicais (selecionados e ajustados, como dissemos na operação A) e, depois, articular ao contexto essas unidades. Quanto aos organizadores textuais, citemos alguns deles: 2 os aditivos (e, além disso, igualmente, também); 2 os alternativos (ou, ora); 2 os argumentativos (mas, embora, porque, em última análise); 2 os sequenciadores (primeiro, antes, por fim); 2 os delimitadores de espaço, tempo ou fonte (naquela época, na nossa cidade, para os governistas, segundo Platão). Já os sinais de pontuação são empregados, em especial, com a finalidade de demarcar ou segmentar as partes do texto por conta de seus termos, sin- tagmas, proposições, frases ou parágrafos. O sistema de pontuação faz parte de uma convenção gráfica, mas em síntese é um “sistema de reforço da escrita, constituído de sinais sintáticos, destinados a organizar as relações e a proporção das partes do discurso e das pausas orais e escritas” (CATACH, 1994, p. 7). Sua utilização interage com outros níveis operacionais do enunciado, ou seja, esses sinais participam também de todas as funções da sintaxe: gramaticais, ento- nacionais, semânticas, discursivas e pragmáticas. A eles se acrescentam outros recursos gráfico-frasais, como o itálico, o negrito, a sublinha etc. Sinais de pontuação [etc.] → vírgula / ponto e vírgula / ponto final, de exclamação e de interrogação / dois-pontos / reticências / aspas / travessão / parênteses e colchetes / alíneas / negritos, itálicos e sublinhas / asteriscos. – 89 – Estilística sintática – II Dois parágrafos de uma crônica de José Carlos Oliveira (2005, p. 72) nos servirão para interpretar algumas das explicações expostas neste capítulo. Reaprendo o caminho da praia. Todos os meus conhecidos estão ficando castanhos, renunciareitambém aos banhos de estrelas e de luar. E assim me incluo, sábado, entre as centenas de corpos que na areia ou na água correm, cochilam, conversam, jogam frescobol, pegam jacaré, passam óleo na pele, tomam sorvete e repetem frases que é sempre agradável (ou inevitável) dizer e ouvir: “A água está gela- díssima”; “se em outubro o sol já está assim, imagine em janeiro”; “este verão vai ser fogo”; “hoje as ondas estão brabas”; “amanhã não sei se venho, porque vai haver névoa seca”. Perdão, não fui eu quem falou em névoa seca; apenas ouvi. Não sei quem disse. Quando ia dar um mergulho, alguém fez essa observa- ção como quem diz uma coisa muito natural. Não vi quem falou. Mergulhei, fiquei um instante na areia olhando o belo mar, e de repente minha cabeça refletiu sozinha: “Névoa seca… Eu, hein, rosa!” Depois reparei que aquela frase não revelava pedantismo pro- priamente; era mais sofisticação. E mergulhei novamente enquanto minha cabeça, emérita especuladora, propunha a si mesma um pro- blema simples, qual seja: “Que espécie de pessoa, entre tantas, seria capaz de dizer aquilo sem mais nem menos?” Probleminha de fim de semana, creio eu. Na calada da noite é que me devem torturar as grandes dúvidas humanas, para as quais oferecerei resposta, segundo espero, nos livros que, segundo espero, vou começar a escrever ama- nhã. Isto é: depois de amanhã; Domingo também não é dia de salvar o mundo – creio eu. Enfim, lá estava a cabeça a funcionar gratuita- mente, sem prejudicar o sabor do momento; sentei-me na areia e sem óculos escuros olhei para o sol. A ofuscação me fez fechar os olhos, o que aproveitei para cochilar um pouquinho. José Carlos Oliveira materializa sua representação mental com unida- des linguísticas selecionadas e enquadradas em enunciados concatenados. Recursos de estilo concretizam a construção coerente dos segmentos de ora- ções, períodos e parágrafos, e o cronista exercita seu domínio sobre os instru- mentos da língua – aqui examinados apenas em alguns organizadores textuais e nos sinais de pontuação. Organizadores textuais: renunciarei também aos banhos de estrelas; E assim me incluo, sábado, entre as centenas de corpos; Semântica e Pragmática – 90 – é sempre agradável (ou inevitável) dizer e ouvir; Depois reparei que aquela frase; Que espécie de pessoa, entre tantas, seria capaz de dizer aquilo; para as quais oferecerei resposta, segundo espero; Isto é: depois de amanhã; domingo também não é dia; Enfim, lá estava a cabeça a funcionar; Sinais de pontuação: 2 dois-pontos introduzindo citações diretas (pessoais ou alheias) marcadas com aspas: Exs.: É sempre agradável dizer e ouvir: “A água está geladíssima” / qual seja: “Que espécie de pessoa, entre tantas, seria capaz?” 2 dois-pontos introduzindo citação direta (pessoais ou alheias), sem aspas Exs.: Isto é: depois de amanhã. 2 travessões indicando separação de discurso direto: Ex.: Não é dia de salvar o mundo – creio eu. 2 reticências e exclamação revelando uma modalização do narrador: Ex.: Névoa seca… Eu, hein, rosa! 2 ponto e vírgula separando blocos oracionais: Ex.: Depois de amanhã; domingo também não é dia. 2 ponto de interrogação caracterizando um recurso retórico: Ex.: Seria capaz de dizer aquilo sem mais nem menos? Mais do que o simples levantamento dessas ocorrências, que por si só não levaria a nada, vale notar como a presença desses componentes dá sentido às escolhas lexicais de substantivos, adjetivos, verbos. É preciso, enfim, haver competência no manejo dos recursos da língua, pois com eles pode-se conse- guir a expressividade textual. – 91 – Estilística sintática – II 5.4 Figuras de linguagem O estudo estilístico do período, obviamente, não deixa de ser também o estudo estilístico da oração, do parágrafo e do texto. E entre os elementos importantes da escolha consciente a ser feita no momento de produção de um texto, temos as referências fóricas. Essas unidades linguísticas englobam não apenas figuras de linguagem do campo da retórica (anáforas, epanáforas, epíforas, epístrofes), mas também os processos coesivos. Fóricos: termo genérico que designa a propriedade de algumas unidades linguísticas (como alguns pronomes, advérbios, substantivos e verbos) de fazer referência a um componente do próprio texto ou ao contexto situacional, em vez de serem interpretados semanticamente por si sós. Vamos examinar aqui as possibilidades coesivas dessas unidades, recor- rendo a alguns exemplos que incluímos no livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HENRIQUES, 2008a, p. 169-172). 10. Ela só faz isso quando está lá. Para entender a frase (10), é indispensável que haja algum contexto que nos permita responder a três perguntas: Quem é ela? O que ela faz? Onde ela está quando faz isso? 11. Todos os anos, Telma, o marido e os três filhos passam o Natal em Belo Horizonte, na casa dos pais de Anselmo. Ela é uma dessas mulheres que não movem uma palha dentro de casa. Aliás, não arruma nem a própria cama. Acontece que, como a sogra é uma megera, ela só faz isso quando está lá. Esclarecido o contexto em (11), teríamos então estas respostas: 12. Ela (Telma) só faz isso (arruma a própria cama) quando está lá (na casa da sogra). [Ou seja: Telma só arruma a própria cama quando está na casa da sogra.]. O emprego de palavras que, dentro de um contexto, fazem referência a termos usados anteriormente – e evitam sua repetição – tem o nome de “aná- fora”. No exemplo, as palavras anafóricas são: ela + faz isso + lá. Semântica e Pragmática – 92 – Quando a frase remete para uma unidade linguística que está adiante, o nome que se dá é “catáfora”. É o que encontramos em (13), reescritura de uma das frases do exemplo (11). (13) Telma é uma mulher que tem um único defeito: não move uma palha dentro de casa. [Um único defeito → não mover uma palha dentro de casa]. Aqui o elemento catafórico é “um único defeito”, que está à esquerda de “não move uma palha dentro de casa” e tem a finalidade de apontar para essa ideia à direita. Mas, se invertêssemos os dois componentes, colocando “esse único defeito” à direita, ele apontaria para a ideia à esquerda e caberia ao demonstrativo “esse” fazer o papel anafórico. É o que mostra a frase (14). 14. Telma é uma mulher que não move uma palha dentro de casa, e esse é seu único defeito. [Não mover uma palha dentro de casa ← esse (único defeito)]. Essas relações fóricas (a anáfora e a catáfora) são chamadas de “endofó- ricas”, pois atuam na esfera do texto e se explicam nesse ambiente “interno” (endo- = para dentro). Quando as relações fóricas se explicam por componen- tes exteriores ao texto, elas se chamam “exofóricas” (exo- = para fora). Na língua falada, usa-se muito a menção às noções de tempo, espaço e pessoa sem as nominalizar no texto, mas apenas no cenário em que se trans- mite uma ideia. Se estou numa sala de aula da UERJ no último dia de aula do ano letivo de 2009 e digo “Eu espero ver vocês aqui no ano que vem”, a frase não é autoexplicável, mas a situação identifica os valores concretos de “eu” (= Claudio), “aqui” (= na UERJ) e “no ano que vem” (= 2010). Para concluir, acrescentemos uma outra possibilidade que ocorre no trabalho com frases e textos. Referimo-nos àquelas situações em que há necessidade de se reiterar um conceito, reforçar um ponto de vista ou reto- mar a expressão de um pensamento, uma ideia, uma opinião. Fazer isso engloba uma série de aspectos da estrutura textual: a escolha de palavras, o domínio das estruturas sintáticas, a viabilidade da repetição expressiva, o conhecimento dos valores semânticos e a perícia Estilística. Para desenvolver essa técnica, o redator é levado a um exame panorâ- mico do que planeja dizer e, a partir daí, deve fazer as escolhas seguras con- forme sua intenção comunicativa. Ilustremos essas considerações com dois exemplos de paráfrase a partir dos seguintes fragmentos: – 93 – Estilística sintática – II 15. “Nãohá nada tão pernicioso à filosofia como o fato de as coisas familiares e que ocorrem com frequência não atraírem e não prenderem a reflexão dos homens, mas serem admitidas sem exame e investigação das suas causas.” (Francis Bacon) 16. “Foi pelo trabalho que a mulher transpôs, em grande parte, a dis- tância que a separava do macho; é só o trabalho que pode garantir-lhe uma liberdade concreta.” (Simone de Beauvoir) As propostas de reescritura sinonímica para os textos acima poderiam ser: 17. Nenhuma coisa é tão nociva à filosofia quanto a falta de atenção e de consideração dos homens em relação aos acontecimentos familiares corri- queiros, que são aceitos sem que se examinem ou se investiguem suas origens. 18. As diferenças entre os sexos começaram a ser superadas a partir do momento em que a mulher começou a trabalhar. Para conseguir a liberdade completa, o que ela precisa fazer é continuar trabalhando. Chamamos a esse tipo de exercício “redação sinonímica”. Seu objetivo é manter a significação global de um período ou de um parágrafo, a partir da alteração localizada de palavras e expressões de linguagem. Como em várias outras questões que envolvem a produção de texto, estas possibilidades também estão a serviço da pretensão criativa, comunicativa, literária, jornalística de quem emprega a língua portuguesa na vida concreta. Ampliando seus conhecimentos Paralelismo rítmico e sintático (GARCIA, 1988, p. 274-275) A coerência consiste em ordenar e interligar as ideias de maneira clara e lógica e de acordo com um plano definido. Sem coerência é praticamente impossível obter-se ao mesmo tempo unidade e clareza. Ela é, por assim dizer, a “alma” da composição. Os organismos vivos, os próprios mecanismos, Semântica e Pragmática – 94 – só funcionam quando suas partes componentes se ajustam, se integram numa unidade compósita. Podem-se reunir as mil e uma peças de um aparelho de televisão, mas o conjunto só funcionará quando todas estiverem adequadamente ajustadas e conectadas segundo o esquema de montagem. Onze excelen- tes jogadores de futebol, onze Pelés, pouco rendimento obte- rão numa partida, se não se conjugarem as habilidades de cada um na sua posição e movimentação dentro do campo, segundo o plano do jogo e o objetivo do gol. Em outras palavras: assim como não basta encontrarem-se em campo onze Pelés que não se entendam, que não se articulem, assim também não é suficiente dispor de excelentes ideias que não se ajustem, não se entrosem de maneira clara, harmoniosa e coerente. Em geral, escrevemos à medida que as ideias nos vão sur- gindo: mas, como nosso raciocínio nem sempre é lógico, ocorrem lapsos, hiatos e deslocações extremamente prejudi- ciais à coerência e à clareza. Para evitar esse inconveniente, torna-se necessário planejar o desenvolvimento das ideias, pondo-as numa ordem adequada ao propósito da comunica- ção e interligando-as por meio de conectivos e partículas de transição. Ordem e transição constituem, pois, os principais fatores de coerência. [...] A ordem de colocação é indispensável à coerência; mas não é suficiente. Urge cuidar também da transição entre as ideias, da conexão entre elas. Palavras desconexas são como fragmentos de um jarro de porcelana. É preciso “colá-las”, interligá-las para se obter uma unidade de comunicação eficaz. É certo que na língua falada ou escrita, quando se traduzem situações simples, a inter-relação entre as ideias pode pres- cindir das partículas conectivas mais comuns. A justaposição mostra como o liame entre orações e períodos muitas vezes se faz implicitamente, sem a interferência desses conectivos: uma pausa acentuada, uma entonação de voz podem ser suficien- tes para interligar e inter-relacionar ideias. – 95 – Estilística sintática – II (1) Estou muito preocupado. Há vários dias que não recebo notícias de minha filha. Temos aí dois períodos justapostos. A pausa e o tom da voz mostram que o segundo indica o motivo ou a explicação do primeiro. A ausência da conjunção explicativa (pois, porque) não impede que se perceba nitidamente essa relação. Mas, em situações complexas, a presença dos conectivos e locuções de transição se torna quase sempre indispensável para entrosar orações, períodos e parágrafos. Quanto mais civilizada é uma língua, quanto mais apta a veicu- lar o raciocínio abstrato, tanto maior o acervo desses utensílios gramaticais. Alguns são legítimos conectivos: os intervocabu- lares, como, ocasionalmente, as conjunções aditivas e, sem- pre, todas as preposições; e os interoracionais, como todas as conjunções, os pronomes relativos e os interrogativos indire- tos. Outros seriam mais apropriadamente chamados palavras de referência: os pronomes em geral, certas partículas e, em determinadas situações, advérbios e locuções adverbiais. Em sentido mais amplo, até mesmo orações, períodos e parágra- fos servem de transição no fluxo do pensamento. A uns e outros englobamos aqui na dupla designação de partículas de transição e palavras de referência, que, na sua maioria, têm valor anafórico (quando no texto relacionam o que se diz com o que se disse) ou catafórico (quando relacionam o que se diz ao que se vai dizer). Tal é a importância desses elementos, que muitas vezes todo o sen- tido de uma frase, parágrafo ou página inteira deles depende. Dois enunciados soltos, isto é, duas orações independentes e descone- xas como “Joaquim Carapuça costuma vir ao Rio” e (ele) “Ganha muito dinheiro em São Paulo” assumem configuração muito diversa conforme seja a conexão que entre eles se estabeleça. Joaquim Carapuça costuma vir ao Rio (quando / enquanto / por- que / se / e mbora) ganha/ganhe muito dinheiro em São Paulo. Semântica e Pragmática – 96 – Atividades 1. Após consultar dicionários gerais ou de arte poética, explique o signi- ficado das figuras de linguagem anáfora, epanáfora, epífora e epístrofe, dando exemplo. 2. Leia atentamente o parágrafo abaixo e escolha uma forma expressiva de preencher as lacunas frasais. Justifique sua escolha. Todos os anos, Telma, o marido e os três filhos passam o Natal em Belo Horizonte, na casa dos pais de Anselmo. Ela é uma dessas mulheres que não movem uma palha dentro de casa. Aliás, não arruma nem a própria cama. Acontece que, como a sogra é uma megera, ela só faz isso quando está lá. Assim, para manter as aparências, Telma prefere não dar chance para que ______________ encha de novo a cabeça ______________ chamando-a de parasita, ou coisa que o valha. 3. “A gravata enrolava-se como uma corda sobre a camisa rasgada e suja, das bainhas das calças e dos cotovelos puídos saíam fiapos, manchas de poeira alastravam-se na roupa, a sola dos sapatos estava gasta, os meus olhos se enevoavam por causa da fome e descobriam entre as árvores cenas irreais.” (RAMOS, 1975, p. 174) Sem considerar o caso da expressão comparativa introduzida pelo conectivo “como”, o período de Graciliano Ramos, em Angústia, é composto por seis orações independentes. Parafraseie o fragmento acima (em um ou dois períodos) evitando orações coordenadas e, depois, compare sua paráfrase com a versão original comentando a expressividade de ambas. Estilística da enunciação O objetivo deste capítulo é observar a expressividade dos aspectos enunciativos no estudo estilístico da língua portuguesa. As definições de enunciado e enunciação variam muito, conforme o autor ou a corrente de estudos a que está filiado. Basicamente, podemos dizer que a concepção que se faz dessas pala- vras oscila entre o ponto de vista discursivo e o ponto de vista lin- guístico, mas que ambas são conciliáveis. Sob o enfoque discursivo, a enunciação está vinculada ao contexto em seus incontáveis aspectos sociais e psicológicos. Sob o enfoque linguístico, indica o conjunto de ações que o emissor pra- tica para construir e produzir um enunciado, e este se define como uma “unidade de comunicação elementar, uma sequência verbal investida de sentido e sintaticamentecompleta” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 196), ou seja, um “fragmento de fala marcado de algum modo como unidade; por exemplo, por meio de pausas e pela entonação” (TRASK, 2004, p. 92), para ficarmos com definições que atendem a nossos objetivos aqui. 6 Claudio Cezar Henriques Semântica e Pragmática – 98 – 6.1 Adequação sintática e adequação semântica Chamamos adequação sintática a construção coerente de períodos e ora- ções, observadas as relações existentes entre seus termos e a sua organização. A inadequação sintática pode gerar desde dificuldades localizadas de com- preensão até a completa ausência de sentido. A esse vício de linguagem dá-se o nome de obscuridade. A adequação semântica ocorre quando um texto demonstra competên- cia na argumentação (ou na descrição ou na narração ou na interpretação), evidenciada por seu autor a partir de uma seleção de opiniões, dados e fatos fundamentados no seu conhecimento de mundo. Mas é sempre oportuno lembrar que, embora recomendáveis para as situações referenciais da vida comum, os paralelismos semântico e sintático podem ser quebrados com arte e criatividade. É o que Thais Nicoleti de Camargo (2002) comenta no artigo “Falta de paralelismo semântico cria efeito de estilo”: Preservar o paralelismo semântico é tão importante quanto preservar o paralelismo sintático. Mas, na pena de um bom escritor, a quebra da simetria semântica pode resultar em curiosos efeitos de estilo. Não foi outra coisa o que fez Machado de Assis no conhecido trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que, irônica e amargamente, o narrador diz: “Marcela amou-me durante 15 meses e 11 contos de réis”. No mesmo livro: “antes cair das nuvens que de um terceiro andar”. O uso desse artifício parece ser uma das marcas Estilísticas do autor. Na abertura de Dom Casmurro, o narrador diz: “encontrei um rapaz, que eu conheço de vista e de chapéu”. No conto “O Enfermeiro”, ao anunciar que vai relatar um episódio, o narrador adverte que poderia contar sua vida inteira, “mas para isso era preciso tempo, ânimo e papel”. O elemento “papel”, disposto nessa sequência, surpreende o leitor e instala o discurso irônico. Ter ou não papel para escrever é algo prosaico. A falta de ânimo, um problema pessoal, está em outro patamar semântico. (CAMARGO, 2002) Não foi o que aconteceu com a manchete de jornal ou com a placa do salão de beleza que estão reproduzidas a seguir. Ambas esbarram na falta de paralelismo, pois a escolha sintática não representa a intenção comunicativa, que só é compreendida porque o leitor reinterpreta o que vê para constituir a adequação inexistente no enunciado. – 99 – Estilística da enunciação Figura 1 – Missa pela febre? Ou “Papa tem febre e cancela missa?” Fonte: Divulgação Folha de São Paulo. No livro Sintaxe: estudos descritivos da frase ao texto (HENRIQUES, 2008a, p. 17-19) exemplifico os problemas de inadequação a partir do trecho de um anúncio publicado na Folha de S. Paulo em 17 de junho de 1998. Vale aqui repassar meus comentários. Figura 2 – Exemplo de inadequação sintática e semântica. JOSÉ DA PENHA SANTOS, depois de ter ultrapassado o pórtico de um século de idade, no próximo dia 18 de junho, 98, a partir das 18h30, na LIVRARIA CULTURA, Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional, a quem o honrar com a sua presença, dará autógrafos da 4.a edição de CONHECIMENTO E VENTURA, muito ampliada, pois se a 3.a edição tinha 526 páginas, tem esta 860 e 4 278 pensamentos dos maiores homens de todos os tempos. Propagar esta obra, não é por vaidade do autor, mas cumpre o sagrado dever de levar a desencanta- dos corações o encanto de viver, con- forme afirma o eminente economista HENRY MAKSOUD: “O livro Conhecimento e Ventura está entre aqueles que se deve ter à mão como recurso nos momentos em que falta a esperança e os problemas parecem intransponíveis. José da Penha Santos nos oferece a ponte sólida e amiga”. Jornal Fonte: Henriques (2008A, p. 17-19). Semântica e Pragmática – 100 – É claro que o objetivo principal do anúncio é o aviso sobre o lançamento de um livro. No entanto, suas múltiplas inadequações sintáticas, ainda que não impeçam a compreensão dos dados objetivos sobre local, data, horário, poderão comprometer o comparecimento do público ao evento e até mesmo a vendagem do livro anunciado. Afinal, se o anúncio tem tantos problemas textuais, não será de estranhar que o livro citado (substituíram-se os nomes do livro e do autor) esteja no mesmo nível. Vejamos alguns dos “problemas” sintáticos do texto: 2 Há quase 40 palavras entre o sujeito “José da P. Santos” e o predi- cado “dará autógrafos”. Esse distanciamento tira a objetividade do trecho e prejudica a compreensão da mensagem. 2 A sequência antecipada de expressões entre vírgulas nesse mesmo tre- cho é inadequada, pois mistura elementos de função diferente, a saber: 2 “depois de ter ultrapassado o pórtico de um século de idade” refere-se ao sujeito, mas a data que vem a seguir não é a do seu aniversário; 2 a cadeia “no próximo dia 18 de junho, 98”, “a partir das 18h30” e “na LIVRARIA CULTURA” refere-se circunstan- cialmente ao sintagma “dará autógrafos”, e o número 98 entre vírgulas é supérfluo pois o texto já usara “próximo dia 18 de junho” (de 1998 – é claro!); 2 “Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional” identifica uma cir- cunstância de “Livraria Cultura”, por meio da ideia implícita de localização; 2 “a quem o honrar com a sua presença” complementa o verbo “dar”. 2 A expressão causal “pois se a edição [...] de todos os tempos”, que encerra o primeiro parágrafo, é mal construída porque: 2 o sujeito (com a palavra “edição” subentendida) está depois do verbo e há dois numerais seguidos (o primeiro com a palavra “páginas” subentendida); 2 entre a palavra “pois” e o restante da expressão causal foi inserida uma oração condicional com apenas a vírgula da direita (toda inver- são de oração circunstancial deve ser marcada por duas vírgulas). – 101 – Estilística da enunciação 2 O segundo parágrafo começa com três erros graves, a saber: 2 a vírgula entre o sujeito “propagar esta obra” e o seu predicado “não é”; 2 o emprego desnecessário da preposição “por” (o correto seria: “propagar esta obra não é vaidade do autor”); 2 a oração adversativa “mas cumpre o sagrado dever [...]” não dá sequência ao trecho anterior (ou seja: propagar esta obra não é vai- dade – verbo de ligação + substantivo –, mas cumpre – verbo transi- tivo?) = a coesão se daria se estivesse assim: “propagar esta obra não é vaidade do autor, mas é o cumprimento do sagrado dever de”. Ora, se o redator do anúncio tivesse observado a ordem das palavras nas frases e considerado a hierarquização das informações, teria produzido um texto mais objetivo e claro. Um dos resultados, procurando ao máximo respeitar as escolhas lexicais do original, poderia ser: Figura 3 – Versão adequada sintática e semanticamente. Depois de ter ultrapassado o pórtico de um século de idade, José da PENHA SANTOS dará autógrafos da 4.a edição de CONHECIMENTO E VENTURA a partir das 18h30 do próximo dia 18 de junho, na LIVRARIA CULTURA (Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional), a quem o honrar com a sua presença. Muito ampliada, tem esta edição 860 pági- nas e 4 278 pensamentos dos maiores homens de todos os tempos, enquanto a 3.a tinha 526 páginas. Propagar esta obra não é vai- dade do autor, mas o cumprimento do sagrado dever de levar a desen- cantados corações o encanto de viver, conforme afirma o eminente econo- mista HENRY MAKSOUD: “O livro Conhecimento e Ventura está entre aqueles que se deve ter à mão como recurso nos momentos em que falta a esperança e os problemas parecem intransponíveis. José da Penha Santos nos oferece a ponte sólida e amiga”. Jornal Fonte: Henriques (2008a, p. 17-19). Semântica e Pragmática – 102 – Assim, falar em adequação sintática significa falar em “bom senso e cri- tério nas escolhas sintáticas”,tanto no âmbito da frase como no âmbito do parágrafo e do texto. Fica evidente que a chamada adequação sintática é um instrumento em favor da adequação semântica, que outra coisa não é senão a realização coe- rente do que se pretende dizer. Por isso concordamos com Carlos Franchi (2006, p. 102) quando afirma que “a teoria gramatical visa a estabelecer a relação entre a forma das expressões e sua significação”, ou seja, que é necessá- rio “mostrar as correlações entre a estrutura sintática e a estrutura semântica”. 6.2 As pessoas do discurso e as pessoas gramaticais Entre os temas que envolvem a produção de um texto, precisamos incluir as decisões a respeito da forma linguística a ser usada nas referências à pessoa que escreve e também, se for o caso, às pessoas que a circundam no texto. Numa das hipóteses, o texto tem um leitor, um destinatário a quem o emissor se refere nos enunciados: uma carta, uma convocação, uma circular, por exem- plo. Noutra das hipóteses, o texto menciona pessoas (ou seres) em seus enun- ciados e apresenta relatos ou considerações acerca das ações praticadas por essas pessoas (ou seres): um relatório, uma ata, um conto, uma novela, por exemplo. Por isso, o entendimento e o estudo dos mecanismos que giram em torno das “pessoas”, tanto no campo do discurso como no campo da gramá- tica, são fundamentais para seguirmos na interpretação estilística dos textos. Todo texto emerge de um gênero e de um tipo de discurso, e a complexi- dade da cena de enunciação, nesse caso, deve ser igualmente considerada, pois as várias facetas do “eu” enunciador podem agir com complexidade na articu- lação entre o plano linguístico (as frases propriamente ditas) e o plano textual. Como diz Benveniste (1991, p. 248), é preciso procurar saber “como cada pessoa se opõe ao conjunto das outras e sobre que princípio se funda a sua oposição”, tendo em vista que não podemos chegar a elas a não ser pelo que as diferencia. E isso vale, obviamente, nas escolhas específicas que fazemos de verbos, pronomes, advérbios – em suma, todas as palavras que representam – 103 – Estilística da enunciação no âmbito da frase concretamente dita ou escrita as pessoas e coisas do mundo. Sim, porque as coisas também são representadas por pronomes pessoais (a caneta = ela) e por pessoas verbais (a caneta quebra = P3, 3.a p.sg.). Resumidamente, os dois quadros abaixo mostram como isso funciona no português. Quadro 1– Pessoas do discurso e pessoas gramaticais. Pessoas do discurso (e seus pronomes de referência) 1.a → quem fala = eu e nós (a gente*) 2.a → com quem se fala = tu e vós (você* e vocês*)... 3.a → de quem(que) se fala = ele, ela e eles e elas... Pessoas gramaticais 1.a pessoa do singular (P1) e do plural (P4) 2.a pessoa do singular (P2) e do plural (P5) 3.a pessoa do singular (P3) e do plural (P6) Obs.: “a gente” leva o verbo à P3; “você” e “vocês” levam o verbo à P3 ou à P6. Fonte: Elaborado pelo autor. Nas combinações entre os dois quadros, é preciso observar bem o que ocorre com os pronomes pessoais e, consequentemente, com as demais classes envolvidas (verbos e pronomes possessivos, demonstrativos). Nunca é demais repetir que os usos linguísticos variam com o tempo, o espaço e a situação comunicativa, mas isso não significa a defesa da subversão do normativismo, e sim sua atualização, como diz Carlos Alberto Faraco (2006, p. 26): A crítica à gramatiquice e ao normativismo não significa, como pen- sam alguns desavisados, o abandono da reflexão gramatical e do ensino da norma-padrão. Refletir sobre a estrutura da língua e sobre seu fun- cionamento social é atividade auxiliar indispensável para o domínio da fala e da escrita. E conhecer a norma-padrão é parte integrante do amadurecimento das nossas competências linguístico-culturais. Portanto, não se pode deixar de considerar algumas informações essen- ciais quanto aos usos das “pessoas” em enunciados. A primeira delas é sobre a escolha entre os pronomes “tu” e “você(s)”, que pode ser determinada pela noção afetiva de proximidade ou intimidade Semântica e Pragmática – 104 – entre emissor e destinatário. O tratamento de 2.a pessoa mais usual no territó- rio brasileiro é “você”; em Portugal predomina o tratamento “tu”. Porém, em áreas não bem delimitadas do Sul e Norte do país, o pronome “tu” também tem uso corrente. Além disso, pode ser identificado como marca sociodialetal. 1. “Você passa e não me olha, mas eu olho pra você.” 2. “Tu és divina e graciosa, estátua majestosa.” Nas regiões do Brasil onde o pronome “tu” está em desuso, emprega-se o pronome de tratamento “você” no trato com pessoas de nível hierárquico igual ou inferior ou com jovens e crianças; para o tratamento formal ou res- peitoso usam-se formas como “o(s) senhor(es)”, “a(s) senhora(s)”. 3. “Você está convidado a comparecer e vibrar com nossos atletas.” 4. “Se o senhor não está lembrado, dá licença de contar.” A segunda é sobre o pronome “você”, que se refere à segunda pessoa do discurso, mas leva o verbo à terceira pessoa, divergindo da concordância que se faz com o pronome “tu”, que leva o verbo à segunda pessoa (embora na língua popular ambos levem o verbo à P3). Há, ainda, sobretudo no registro oral, o emprego do pronome “você” com valor indefinido, quando não se refere à pessoa com quem se fala, mas a um ser indefinido, genérico (= qual- quer pessoa). 5. “Você se lembra? Foi isso mesmo que se deu comigo.” 6. “Morena linda, onde é que tu tava, onde é que tava tu?” 7. “Pois é! Quando você (= uma pessoa, se) perde o emprego, tudo fica difícil.” A terceira é sobre o pronome “vós”, que nos dias de hoje é pouco usado tanto no Brasil quanto em Portugal, estando restrito a situações de extremo formalismo, ou à linguagem religiosa (8), quando se refere a Deus ou a Nossa Senhora. No entanto, o possessivo “vosso” continua em uso na linguagem corrente lusitana (9) e se refere à segunda pessoa (= “seu”, “de você”). 8. “Vós sois o sal da terra. Vós sois a luz do mundo.” 9. “Então, como está o vosso sobrinho?” – 105 – Estilística da enunciação A quarta é sobre os pronomes de tratamento mais formais (Vossa Senhoria, Vossa Excelência), que podem ser construídos com “Vossa” (abre- viatura: V.) e com “Sua” (abreviatura: S.): na forma “Vossa+Nome” se refere a “com quem se fala”; “Sua+Nome”, a “de quem se fala”. O pronome de tratamento exige verbo e pronome na P3, bem como silepse de gênero com o adjetivo e o particípio, como temos em (10) e (11). 10. Prezado cliente, V.S.a foi indicado a participar da promoção... 11. Sr. Ministro, V.Ex.a está apreensivo? A última é sobre o pronome de tratamento “a gente”, exclusivo da lin- guagem informal brasileira (12). 12. “A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer.” Na linguagem formal é obrigatória a uniformidade de tratamento, mas em textos literários, musicais, jornalísticos nem sempre isso acontece. 13. Eu gostaria de falar contigo (P2) ainda hoje. Você (P3) pode me esperar? 14. Vem (P2) pra Caixa você (P3) também. 15. A gente (P3) sempre acha que a nossa (P4) casa é o melhor lugar. Recomenda-se, então, que essas informações sejam devidamente consi- deradas pelo usuário da língua sempre que a situação comunicativa assim o exigir. Isso certamente incluirá uma apurada revisão do emprego de verbos no imperativo e dos pronomes oblíquos (átonos e tônicos), em especial os da P3 e P6: o, a, os, as, lhe, lhes e si, consigo. 6.3 Tipos de discurso Como destaca Nilce Sant’Anna Martins (1989, p. 122), um dos assuntos mais importantes para os estudos da Estilística da enunciação “é o da intertex- tualidade, do aproveitamento ou citação de enunciados por um falante”. Ela e muitos outros autores têm se dedicado a observar as maneiras e os efeitos que ocorrem quando um discurso inclui “de forma explícita ou implícita, percep- tível ou velada, palavras, expressões, enunciados tomados a outros discursos”. O tema da intertextualidade se conecta com o da polifonia. Nãoé o caso de Semântica e Pragmática – 106 – enveredarmos aqui e agora por esses dois temas, bastando-nos lembrar que ambos se referem às possíveis combinações que podem ser feitas entre textos e entre vozes. Por conta dessas combinações, uma característica muito comum nos tex- tos é a possibilidade de um mesmo enunciado ser reproduzido, reduplicado entre os usuários da língua. “Quem conta um conto aumenta um ponto”, diz o provérbio. Com essa citação, não apenas reexplico o que está na primeira frase deste parágrafo, mas também a tomo como exemplo de um uso inter- textual concreto. Afinal, esse provérbio não foi criado por mim, que apenas o incorporei ao texto por razões didáticas discursivas. Ao nos referirmos a outros locutores e a seus enunciados, podemos usar os procedimentos disfarçados de reprodução de vozes, opiniões, sentidos que pairam no imaginário da sociedade (é o que se chama polifonia), mas também podemos ter a pretensão de reproduzir o que foi dito – pelo menos é isso que se presume. A língua oferece modos concretos de se fazer isso, e seu estudo acontece no capítulo que fala do discurso direto e do discurso indireto, os quais serão explicados a partir de um texto de Millôr Fernandes (1972, p. 196), abaixo reproduzido. Num mundo em que a comunicação é tudo e o dinheiro sempre pouco, conta-se aqui uma história altamente moral sobre a inutilidade da primeira enquanto se economiza o segundo. E chamou o pintor e lhe encomendou a placa para anunciar a espe- cialidade do seu negócio: “Nesta casa se vende ovos frescos”. Além dos dizeres recomendou ao pintor que bolasse uma figura, qualquer alegoria referente ao ramo. E perguntou quanto era. O pintor disse que ficaria em 50.000 cruzeiros. Cinquenta mil o quê? indagou o negociante, pensando, inutilmente, numa moeda mais desvalorizada do que o cruzeiro. Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. Ah, não vale, disse então o negociante. Como não vale? retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que atingido em sua economia. O senhor não poderia reduzir um pouco? arriscou o negociante. Claro que posso, disse o pintor, posso reduzir a figura e os dizeres. Como assim? disse o negociante. Olha, explicou o pintor, pra começo de conversa, não precisamos usar figura nenhuma. Se se diz que o senhor vende ovos não há necessidade de colocar nenhuma galinha pintada, não é mesmo? Se o normal são ovos de galinha o fato de não ter nenhuma outra ave faz com que os ovos sejam, presumivelmente, de galinha. É certo, concordou o negociante. Então, fez o pintor, vinte – 107 – Estilística da enunciação mil cruzeiros de menos. Agora, também não é necessário dizer nesta casa. Se o freguês passa por aqui e vê: Se vende ovos frescos já sabe que é nesta casa. Ele não vai pensar que é na casa do lado, não é mesmo? Certíssimo! exclamou o comerciante. Então, continuou o pintor, por que colocar Se vende? Se o freguês potencial lê Ovos Frescos já sabe que se vende. Ninguém pensaria que o senhor vai abrir uma casa comercial para alugar ovos ou apenas para expô-los, right? É mesmo! espantou-se ainda mais o comerciante. Quanto aos Frescos, continuou impávido o pintor, refletindo melhor não é de boa psicologia usar essa palavra. Frescos lembra sempre a hipótese contrária, a de ovos velhos. Não deve nem ter passado pela cabeça do comprador a ideia de que seus ovos podem ser outra coisa senão frescos. Portanto, tiremos também o frescos! Certíssimo! berrou o negociante, agora profunda- mente entusiasmado com a dialética do pintor. Façamos, portanto, apenas ovos. Por favor, desenhe aí só essa palavra, bem bonita, bem clara: ovos! Só ovos, ovos tout-court, ovos em si mesmos, que se ven- dam pela sua pura e simples aparência de ovos, pelo seu inimitável oval! Então vamos lá, concordou o pintor. Mas antes de começar a usar o pincel voltou-se para o negociante e perguntou, preocupado: Mas, me diga aqui, amigo – pensando bem, por que vender ovos? Em Comunicação em Prosa Moderna (1988, p. 129-151), Othon M. Garcia apresenta minucioso estudo sobre o aproveitamento ou citação de enunciados, que acontece quando retransmitimos o pensamento expresso por outra pessoa (real ou fictícia). Nesse caso, o narrador pode servir-se do discurso direto ou do discurso indireto, e, às vezes, de uma contaminação de ambos, o chamado discurso indireto livre (também chamado misto ou semi-indireto). Aqui, combinaremos alguns dos ensinamentos da obra de Garcia com passagens da crônica transcrita, interpretando a expressividade de cada cons- trução. Millôr conta uma história que envolve um vendedor de ovos e um pintor de placas. Para contá-la, o cronista nos apresenta como se passou o diálogo entre ambos. Observa-se na crônica uma interessante variação no uso das formas bási- cas de reprodução da fala (nesse caso, dos dois personagens). Millôr recorre ao discurso direto (a oratio recta do latim) para reproduzir textualmente as palavras (a fala) dos dois profissionais: 16a. Cinquenta mil o quê? indagou o negociante. 17a. Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. Semântica e Pragmática – 108 – Porém, contrabalança essa possibilidade com a do discurso indireto (a oratio obliqua do latim), incorporando na sua linguagem a fala dos perso- nagens, transmitindo-nos apenas a essência do pensamento a eles atribuído: 18a. E perguntou quanto era. 19a. O pintor disse que ficaria em 50.000 cruzeiros. A título de comparação, vejamos de novo essas quatro frases empre- gando os discursos direto e indireto de modo invertido: 16b. O negociante indagou de que natureza eram os cinquenta mil. 17b. O pintor disse que eram cinquenta mil cruzeiros. 18b. E perguntou: Quanto é? 19b. O pintor disse: Ficará em 50.000 cruzeiros. Para construir ambos os discursos, Millôr fez uso de verbos que consti- tuem o núcleo do predicado da oração principal (disse, perguntou, indagou), aquela que explicita no nível do enunciado a integralidade da estrutura sin- tática. Esses verbos são chamados verbos de elocução, dicendi ou declarandi, e sua principal função é indicar que o interlocutor está com a palavra (na crônica de Millôr, o negociante ou o pintor). Mas, além desses, há uma classe bastante numerosa de verbos de elocução, que não são propriamente “de dizer” mas “de sentir”, e que, por analogia, podem ser chamados sentiendi: gemer, suspirar, lamentar(-se), queixar-se, explodir, enca- vacar, e outros, que expressam estado de espírito, reação psicológica da persona- gem, emoções, enfim. Na crônica, Millôr também os empregou (arriscar = dizer com receio / espantar-se = dizer com espanto): 20. O senhor não poderia reduzir um pouco? arriscou o negociante. 21. É mesmo! espantou-se ainda mais o comerciante. O curioso é que, embora possamos considerar que a lista de verbos dicendi do português está praticamente fechada (Garcia aponta nove áreas semânticas para eles), a relação de verbos sentiendi não tem limite, aberta à criatividade do escritor e do falante, metafórica e metonimicamente, como vemos na linguagem contemporânea, onde alfinetar, destilar, tricotar é o – 109 – Estilística da enunciação mesmo que “dizer com maldade” (e variantes), festejar é “dizer com alegria”, contabilizar é o mesmo que “dizer com números”. Uma outra função dos verbos dicendi é permitir a utilização de expres- sões modalizadoras (adverbiais ou predicativas) e de orações adverbiais (quase sempre reduzidas de gerúndio) com as quais o narrador sublinha a fala das personagens, anotando-lhes a reação física ou psíquica. 22. Cinquenta mil o quê? indagou o negociante, pensando, inutilmente, numa moeda mais desvalorizada do que o cruzeiro. 23. Como não vale? retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que atingido em sua economia. 24. Quanto aos “frescos”, continuou impávido o pintor, refletindo melhor não é de boa psicologia usar essa palavra. Convenhamos também que a reprodução de uma conversa, se tivesse todas as suas falas marcadas pela presençaexplícita de verbos de elocução, ficaria cansativa para o leitor. Por isso, é uma prática comum omiti-los nas falas curtas entre apenas dois interlocutores, desde que a disposição gráfica do texto o permita. Millôr optou por não usar parágrafos e travessões para separar as falas e preferiu colocar a oração do verbo de elocução no fim da fala ou no meio dela. Por isso, sua crônica registra um altíssimo número de verbos dicendi, característica que ficaria minimizada se as frases fossem apresentadas num formato mais convencional, como mostra o trecho abaixo, com parágra- fos e travessões. No formato que vemos em (25), não haveria problema se todas as orações com o verbo “dizer” fossem suprimidas, pois a alternância indicada pelos travessões bastaria para que soubéssemos quem está com a palavra. 25. — Cinquenta mil o quê? indagou o negociante, pensando, inutilmente, numa moeda mais desvalorizada do que o cruzeiro. — Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. — Ah, não vale, disse então o negociante. — Como não vale? retrucou o pintor, ofendido em sua arte mais do que atingido em sua economia. Semântica e Pragmática – 110 – — O senhor não poderia reduzir um pouco? arriscou o negociante. — Claro que posso, disse o pintor, posso reduzir a figura e os dizeres. — Como assim? disse o negociante. — Olha, explicou o pintor, pra começo de conversa, não precisamos usar figura nenhuma. Se se diz que o senhor vende ovos não há necessidade de colocar nenhuma galinha pintada, não é mesmo? Se o normal são ovos de galinha o fato de não ter nenhuma outra ave faz com que os ovos sejam, presumivelmente, de galinha. — É certo, concordou o negociante. — Então, fez o pintor, vinte mil cruzeiros de menos. Como já se pôde depreender por estas explicações, as opções pelo dis- curso direto ou pelo indireto representam também compromissos com a escolha de palavras, com a adequação sintática e com as formas gramaticais a serem empregadas (que incluem a conjunção integrante como o conectivo prototípico). Os tempos verbais, os advérbios de tempo ou de lugar, as pes- soas gramaticais e do discurso, tudo está envolvido na escrita da fala que se quer reproduzir. Se voltarmos às frases (19a) e (19b), veremos que o discurso indireto levou ao futuro do pretérito o verbo que, no discurso direto, estava no futuro do presente. Expandindo-se essa mesma frase, podemos concluir mais algumas coisas a respeito dessas mudanças gramaticais. 26. DD: O pintor disse: “Essa placa custará, hoje, 50.000 cruzeiros”. 27. DI: O pintor disse que aquela placa custaria, naquele dia, 50.000 cruzeiros. Além da variedade de possibilidades quanto ao uso do discurso direto e do discurso indireto, há ainda um tipo de discurso, muito utilizado na narra- tiva de ficção, que consiste na associação dos já existentes, combinando valores estilísticos de um e de outro. É o discurso indireto livre, no qual o enunciado reproduzido não é introduzido por um verbo de elocução nem por uma con- junção integrante, misturando-se às vezes com a palavra do próprio narrador, o que permite ao autor explorar os recursos psicológicos no trato da narrativa. Mattoso Câmara Jr. faz um estudo primoroso sobre esse tipo de discurso no artigo “O Discurso Indireto Livre em Machado de Assis”, publicado em – 111 – Estilística da enunciação Ensaios Machadianos (1977, p. 25-41). Diz o autor: “O traço mais curioso desse tipo sintático é que ele conserva as interrogações sob a sua forma ori- ginária” (p. 29), embora mantenha as transposições gramaticais típicas do discurso indireto estrito. E acrescenta que o discurso indireto livre não reduz as interrogações “a uma incolor forma assertiva” e mantém “as exclamações e a espontânea reprodução de palavras e locuções do personagem”, como mostra um trecho de Machado em Dom Casmurro (1971, p. 826): Minha mãe foi achá-lo à beira do poço e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de parecer que ia ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder um emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pai de família, imitar a mulher e a filha... O comentário estilístico de Mattoso Câmara (1977, p. 29), que aqui resu- mimos, destaca a série que começa no segundo período, onde se tem, em dis- curso indireto livre, um apanhado de palavras da mãe do narrador, D. Glória, cujo assunto fora sintetizado pelo romancista na oração integrante anterior (“intimou-lhe que vivesse”). Surge aí diante do leitor uma interrogação excla- mativa e a locução textual “Não, senhor [...]”, apresentada com unidade no todo da frase, porque o discurso indireto livre, ao contrário daquele em que há elo subordinativo, mantém espontaneamente os elementos afetivos do discurso. Tem razão Mattoso ao falar dos elementos espontâneos do discurso. Imagine-se como transferir do discurso direto para o indireto uma frase como “Caramba!” ou “Valha-me Deus!” – de tão difícil transporte como o peremp- tório “Não, senhor [...]” do trecho machadiano. O discurso indireto livre (não apenas na linguagem ficcional, mas sobre- tudo nela) dá mais espaço ao personagem, que parece ocupar por vezes o lugar do narrador. Daí surgem outras formas de escritura, que abrem cami- nho para o monólogo interior, para o monólogo entrecruzado e para o fluxo da consciência, tudo envolvendo de que forma e em que grau acontece a participação da voz do personagem ou (em textos jornalísticos mistos) dos seres reais que nos circundam na vida em sociedade. Não se deixe de considerar por fim que, na combinação da frase do autor com a frase que ele quer reproduzir, é ele (o relatante) quem decide qual o verbo de elocução a usar (ou se vai omiti-lo). É ele, em última análise, quem escolhe as palavras que, supostamente, teriam sido proferidas pela pessoa Semântica e Pragmática – 112 – relatada. Assim, se o porta-voz de um enunciado (o narrador, o jornalista, o eu lírico, o remetente...) é quem nos apresenta a versão de um fato, não deve- mos nunca esquecer que aquela é apenas a sua versão, apresentada segundo sua maneira de ver o mundo ou seus interesses particulares. Ampliando seus conhecimentos Língua, discurso e texto (AZEREDO, 2007, p. 18-19) A aptidão humana para a comunicação através de símbolos é condição indispensável à vida na dimensão cultural. A mani- festação mais ampla e versátil dessa aptidão constitui o que chamamos de língua. A atividade comunicativa por meio de uma língua constitui o discurso. E os objetos por meio dos quais essa atividade se desenrola se chamam textos. É por meio de textos, básica e universalmente orais, mas em muitas sociedades também escritos, que os conteúdos ou informa- ções circulam entre as pessoas. Materialmente falando, os textos são entidades construídas por meio de palavras. Mas, quando chamamos um objeto verbal qualquer de texto, não levamos em consideração ape- nas sua face material, representada nas palavras e construções. Mais que isso, os textos são objetos linguísticos investidos de função social no amplo e complexo jogo das interações huma- nas. Não são meros instrumentos, mas partes essenciais dos acontecimentos que dinamizam as relações sociais e fazem a história das sociedades, a própria face do relacionamento humano. Há uma íntima integração entre as funções socio- comunicativas dos textos e a respectiva formatação (gênero, – 113 – Estilística da enunciação modo de organização, registro, vocabulário, gramática). E mesmo a eventual supressão do discurso – o silêncio – não constitui sua negação, mas uma de suas expressões. Os conteúdos e informações veiculados nos textos têm um certo “valor interlocutivo” no mercado das trocas verbais. Esse valor interlocutivo lhes é conferido pelas coordenadas do contrato de comunicação vigente em cada evento interativo. Uma receita médica, por exemplo, detém em nossa sociedade um valor interlocutivo bem distinto do que comumente se atri- bui a um horóscopo. O contrato de comunicação que rege cada um dessestextos só confere o status de uma prescrição ao primeiro. Certos textos são “caminhos de mão única”: o manual do Imposto de Renda, as instruções de uso de eletrodomésticos, as receitas médicas, as convenções de condomínio. Estes são, em geral, textos utilitários, de viés institucional ou normativo, típicos das práticas discursivas caracterizadas por uma assime- tria dos papéis discursivos – e por consequência das prerroga- tivas de fala – desempenhados pelos interlocutores. Outros textos, porém, têm “sentido flutuante”, de acordo com as experiências e interesses das pessoas que se comunicam. Nesses casos, podemos dizer que os sentidos não dependem apenas daquilo que a pessoa que fala ou escreve “quer ou tem a dizer”; eles tendem a ser elaborados numa espécie de negociação dialética entre o autor e o leitor. Essa heterogênea classe de textos compreende as obras a que o leitor responde basicamente com a reflexão. São os textos “formadores”, que veiculam valores de toda ordem – estéticos, morais, místicos, ideológicos, etc. – e que inspiram ações por opção de seus leitores. Aí se incluem os textos de ficção, de opinião, humo- rísticos, filosóficos, os poemas. Semântica e Pragmática – 114 – Podemos ainda conceber uma terceira classe: a dos textos construídos com a finalidade explícita de criar ou influenciar comportamentos. É o caso do horóscopo. E também os tex- tos publicitários e de propaganda, alguns textos religiosos, didáticos, as “correntes” e as “simpatias”. Esta categoria abriga ainda textos como o do seguinte recado, que se vê afixado em tantas portas de garagem: “Entrada e saída de veículos.” A mensagem é apenas um disfarce para amenizar o verdadeiro recado: “Não estacione!” Contribuir e atribuir sentido é a síntese do processo que cha- mamos de “interação humana” e que codificamos em sinais de toda espécie, como gestos, desenhos, cores, sons, palavras. Esse processo envolve múltiplos fatores de ordem afetiva, cultural, sociocultural, psicossocial e ideológica. Um dado, porém, é por si só evidente e embasa qualquer tentativa de compreender e explicar o evento comunicativo: a comunica- ção entre as pessoas se processa num contexto sociocomuni- cativo. Este não se resume no cenário físico e social objetivo, mas corresponde, principalmente, ao condicionamento men- tal ou psicológico que nos predispõe ao comportamento dis- cursivo adequado e pertinente. É claro que o cenário físico e social faz parte desse condicionamento, mas nem sempre é seu componente mais decisivo. O componente crucial é a imagem que os interlocutores fazem um do outro, o papel social que cada um atribui ao outro enquanto atores do evento comunicativo em curso. A atuação discursiva dos interlocutores no respectivo con- texto sociocomunicativo é necessariamente sensível, portanto, a um conjunto de convenções constitutivas do contrato de comunicação, segundo uma terminologia já corrente. Este corresponde, em última análise, a um acordo, não necessa- riamente consciente, entre os interlocutores sobre cinco pon- tos: 1) os respectivos papéis sociointerativos, 2) as estratégias – 115 – Estilística da enunciação comunicativas a serem empregadas, 3) os conteúdos oportu- nos, 4) a variedade de língua utilizada e 5) as formas de dis- curso (tipos, gêneros e modos de organização) pertinentes. Atividades 1. Observe a letra da música “Pense em Mim”, de Leandro e Leonardo, e comente o tema “formas de tratamento” no português contempo- râneo brasileiro. Em vez de você ficar pensando nele Em vez de você viver chorando por ele Pense em mim, chore por mim Liga pra mim, não liga pra ele, pra ele Não chore por ele Se lembre que eu há muito tempo te amo Quero fazer você feliz Vamos pegar o primeiro avião Com destino à felicidade A felicidade pra mim é você Pense em mim, chore por mim Liga pra mim (etc.) 2. Reescreva o trecho de Fernando Sabino (“Reunião de Mães”) empre- gando apenas o discurso indireto. — Meu filho – perguntei, ansioso, assim que saímos – em que turma você está? Na 12 ou na 13? — Na 14 – ele respondeu distraído. Respirei com alívio: e nem podia ser de outra maneira, não era isso mesmo? — Fico satisfeito de saber – comentei apenas. Semântica e Pragmática – 116 – Ele não perdeu tempo. — Então eu queria te pedir um favor – aproveitou-se logo – Que você mandasse ao Padre-Diretor um bilhete dizendo que eu não posso comer verdura. 3. A notícia abaixo contém problemas textuais localizados, causados por algumas inadequações sintáticas e semânticas. Reescreva-a de modo claro e adequado. Notas de R$1,00 somem e os comerciantes reclamam das dificuldades na hora do troco e dos prejuízos nas vendas. Os comerciantes contam que moedas em geral e, principalmente as de um real, sumiram prati- camente. A escassez de moedas também vale para as de menor valor, como as de 25 e 50 centavos de real. “A nota de R$1,00 já estava faltando, mas as moedas resolviam o problema. Mas hoje as moedas estão sumindo também”, reclama Júlia Roberta, caixa de uma loja que fica no centro da cidade, de bolsas e acessórios. Semântica, a ciência das significações Este capítulo tem por objetivo conceituar os termos signifi- cante e significado, apresentar as principais correntes da Semântica e destacar a importância dos estudos semânticos para a compreensão do funcionamento da língua portuguesa. 7.1 Significante e significado Para Bernard Pottier (1992, p. 11), a Semântica se preo- cupa com “mecanismos e operações relativos ao sentido, através do funcionamento das línguas naturais [...]”, tentando “explicitar os elos que existem entre os comportamentos discursivos num dado envolvimento, constantemente renovado, e as representações men- tais que parecem ser partilhadas pelos usuários das línguas naturais”. Essa reflexão traça um “percurso entre o individual e o universal, através do cultural” e procura conciliar “a extensão e a variedade das manifestações linguísticas e a necessidade de uma apresentação rela- tivamente simples dos funcionamentos profundos da língua”. 7 Claudio Cezar Henriques Semântica e Pragmática – 118 – Por esse motivo, podemos entender a Semântica como o estudo do signi- ficado das expressões das línguas naturais, para ficarmos com uma definição bem objetiva, escrita por Gennaro Chierchia (2003, p. vii). Todos os dias, nas situações mais comuns de nossas vidas, “praticamos” a semântica, pois sempre estamos buscando entender o significado de palavras e de frases: a manchete de um jornal, o trecho de uma música, a fala de um personagem na novela, a gíria ou o xingamento que alguém disse perto de nós... Figura 1 – Língua e semântica. Minha pátria é minha língua! Fonte: IESDE BRASIL S/A. A Semântica examina como funciona o sistema de signos empregado pelas pessoas de uma comunidade idiomática para se comunicar. O signo linguístico é a associação convencional de uma palavra ou expressão (a que chamaremos significante) com o seu valor comunicativo (a que chamare- mos significado). Experimentemos juntar os pares de significante + significado dos grupos abaixo e veremos que só é possível completar as tabelas quando conseguimos estabelecer os elos significativos entre as duas colunas. – 119 – Semântica, a ciência das significações Quadro 1– Significante e significado. Grupo I: Significante é um... Significado Ronaldinho Gaúcho cantor de MPB Raimundo Fagner linguista brasileiro William Bonner jogador de futebol Mattoso Câmara apresentador de telejornal Grupo II: Significante é um... Significado Aldo Boaventura Lins ?????????? Percival Dias Lopes ?????????? Igor Resende Gomes ?????????? Manuel Abel de Lima ?????????? Grupo III: Significado é um... Significado ?????????? lutador de caratê ?????????? cineasta português ?????????? dono da cantina da escola ?????????? patrão do seu marido Fonte: Elaborado pelo autor. Se não sabemos qual o significado ou se não reconhecemos qual o signi- ficante, não podemoscompreender o signo linguístico. Quando isso acon- tece, não podemos participar do processo de comunicação, pois não sabemos do que ou de quem se está falando. 7.2 Principais correntes da Semântica Maria Helena Marques (1990, p. 7) diz no primeiro parágrafo de seu livro Iniciação à Semântica: Semântica e Pragmática – 120 – A semântica é um dos domínios da linguagem que tem apresentado sérias dificuldades para a investigação científica. Essas dificuldades estão intimamente ligadas à amplitude e à complexidade inerentes aos fenômenos relativos ao significado e decorrem do tipo de trata- mento que a semântica tem recebido nos estudos linguísticos. A reflexão evidencia o que ela mesma chama de “pluralidade e diversi- dade das diretrizes teóricas e metodológicas propostas para o tratamento do significado” (p. 8). Talvez seja isso uma consequência natural da busca de atribuir à palavra significado uma explicação “científica” que dê conta de sua importância na faculdade humana da linguagem. Revela, por outro lado, a indiscutível necessidade de examinar os mecanismos gramaticais das línguas e suas relações com os processos semânticos de veiculação do sentido. Pode-se atribuir a Michel Bréal o emprego da palavra “semântica” como “ciência das significações”. É dele um artigo publicado em 1883, no qual se lê (apud MARQUES, 1990, p. 33): O estudo que propomos ao leitor é de natureza tão nova que nem chegou ainda a receber um nome. A preocupação da maioria dos lin- guistas tem-se voltado sobretudo para a análise do corpo e da forma das palavras: as leis que presidem à alteração de sentidos, à escolha de novas expressões, ao nascimento e à morte das locuções foram dei- xadas à margem ou apenas acidentalmente assinaladas. Como este estudo, do mesmo modo que a fonética e a morfologia, merece ter seu nome, nós o chamaremos semântica (do verbo semaínein), isto é, a ciência das significações. Bréal toca no ponto essencial dos interesses da Semântica, pois fala de estudos que analisam “o corpo e a forma das palavras” (estes não são semân- ticos) e de estudos cuja preocupação seja com a “alteração dos sentidos”, a “escolha de novas expressões”, o “nascimento e a morte das locuções” (estes são semânticos). O termo generalizou-se e foi amplamente difundido, tendo sido utilizado pela primeira vez no Brasil num livro de Manuel Pacheco Silva Jr., publicado em 1903, Noções de Semântica. Os estudos semânticos tiveram, como não poderia deixar de ser, reper- cussões em trabalhos realizados por especialistas do campo da estilística, da etimologia, da sintaxe – e de muitos outros, como da pragmática e da aná- lise do discurso. Não é exagero dizer que a visão dos estruturalistas teve grande influência sobre os rumos que a semântica seguiu após a divulgação, – 121 – Semântica, a ciência das significações na primeira metade do século passado, das ideias de Ferdinand de Saussure (a partir de 1906, na França) e Leonard Bloomfield (a partir de1914, nos Estados Unidos). Saussure propõe que se investigue a maneira como, em determinado ponto do tempo, as formas e os sentidos estão inter-relacionados num deter- minado sistema linguístico. Ele define a tarefa da linguística como o estudo de signos por meio dos quais se exprimem ideias. Dentre os princípios que defende podemos citar: 2 A distinção entre língua (langue) e fala (parole): A língua é um produto social, um conjunto de convenções. A fala é o uso individual, concreto. 2 A conceituação de língua como um sistema de relações: A língua é um sistema de signos que se relacionam e cujos valores dependem da coexistência entre eles. 2 A definição de signo linguístico e suas noções de significante e significado, que incluem os conceitos de significação e valor, forma e substância, e as relações sintagmática (combinatória) e paradig- mática (associativa): A substância é o elemento abstrato que atua no plano do conteúdo e da expressão. A forma se concretiza na dicotomia significante + significado (ex.: “Como expres- sar a noção de criança do sexo masculino” x menino). Duas formas linguísticas podem ter uma mesma signi- ficação e valores diferentes (ex.: cadeira e cátedra). Semântica e Pragmática – 122 – As relações paradigmáticas se organizam fora do discurso e se constroem a partir das associações que se podem fazer entre os signos linguísticos (ex.: os três paradigmas dos verbos). Nas relações sintagmáticas, as combinações se baseiam no encadeamento de duas ou mais formas consecutivas num enunciado (ex.: a relação sujeito-predicado). 2 As características de arbitrariedade e de linearidade do signo linguístico: A relação que existe entre o significante e o significado é arbitrária. Os signos linguísticos estão dispostos linearmente no plano das dimen- sões espaciais, isto é, na linha do tempo. 2 As perspectivas sincrônica e diacrônica no tratamento dos fatos linguísticos: A sincronia aborda os fatos da língua sob uma perspectiva estática e os analisa como ocor- rem num dado momento histórico. A diacronia aborda os fatos da língua numa perspectiva evolutiva, comparativa. A descrição diacrônica é, em síntese, uma comparação entre sincronias. Bloomfield, embora sob outra perspectiva, também valorizou os estudos históricos da linguagem e publicou trabalhos que favoreceram o desenvolvi- mento dos estudos semânticos. Para ele (1961, p. 140), o significado de uma forma linguística se define a partir da combinação de dois componentes: A situação em que o falante enuncia a forma linguística; e A resposta que ela provoca no ouvinte. – 123 – Semântica, a ciência das significações Por isso, defende que a descrição linguística não pode ser meramente física, pois deve demonstrar, de preferência, os fatos estruturais, ou seja, o papel que os sons/fonemas representam no funcionamento da língua. Na segunda metade do século XX, um tipo de estudo semântico que esteve em voga tinha como foco o campo vocabular, examinando possibili- dades de análise para o léxico e estudando os “campos semânticos” e a esfera conceitual das palavras. Hjelmslev (1971), por exemplo, ao retomar a noção saussuriana de que a língua é forma e distinguir, no signo linguístico, uma expressão e um conteúdo, tendo ambos forma e substância, não se afasta da maior fonte para os semanticistas. Não nos parece totalmente desviada desse foco no léxico a chamada teo- ria gerativista (ou transformacional), pois afinal também lida com as senten- ças que se podem formar a partir de regras dominadas pelos falantes quando fazem uso da língua. A diferença principal é que o gerativismo investiga regras subjacentes, as estruturas invariantes (ou profundas) que, por supressão, acréscimo ou permuta de constituintes, definem as estruturas superficiais. Na versão inicial de sua teoria, Chomsky reconhece a existência de correlações sistemáticas entre forma e sentido, mas, em face da com- plexidade das questões semânticas e da alegada independência do plano sintático em relação ao semântico, declara ser possível deixar o estudo do significado “para depois”. (MARQUES, 1990, p. 52) Certamente por isso, a pergunta que Chomsky (2002, p. 93) faz, “Como se pode construir uma gramática que não apele para o significado?”, é mostrada adiante por ele como uma questão malformulada, pois o cor- reto seria indagar “Como se pode construir uma gramática?”. Sua conclusão, depois de dizer que não está seguro para apresentar um propósito rigoroso e específico quanto ao uso da informação semântica na construção de uma gramática, é direta: gramática e significado são autônomos e independentes. A despeito disso, é inegável que as correspondências entre “estruturas super- ficiais” e “estruturas profundas” giram em torno de entendimentos e equi- valências de significados entre palavras, sintagmas e expressões. A gramática gerativa, em qualquer de suas fases, não foge portanto do trabalho com o significado, ainda que se possa concordar com suarecomendação de que o interesse pela semântica precisa ser acompanhado de um aprofundamento nos estudos da sintaxe. Semântica e Pragmática – 124 – 7.3 Semântica do texto e do contexto O estudo da significação recebe muito pouca atenção nas aulas de língua portuguesa. Rodolfo Ilari (2001, p. 11) considera essa uma das características do empobrecimento no ensino. E argumenta: O tempo dedicado a esse tema é insignificante, comparado àquele que se gasta com “problemas” como a ortografia, a acentuação, a assimila- ção de regras gramaticais de concordância e regência, e tantos outros, que deveriam dar aos alunos um verniz de “usuário culto da língua”. Esse descompasso, prossegue Ilari, é “problemático quando se pensa na importância que as questões da significação têm, desde sempre, para a vida de todos os dias”, isso sem falar no peso que se atribui às questões de interpre- tação de textos como instrumento de avaliação em exames importantes para ingresso em cursos superiores. Para identificar e descrever as questões de semântica, uma boa estratégia é utilizar atividades que abordem “fatos de semântica”, que familiarizarão o estudante com a nomenclatura básica que faz referência a esse tipo de análise – com a ressalva de que a ênfase na discussão terminológica, nesse âmbito, é desmotivadora e preju- dicial ao conhecimento do que é realmente importante no estudo dos significados. Por exemplo, pode-se tomar como objetivo buscar a interpretação de frases ou textos utilizando-se versões lógicas que ajudem a captar determinados aspectos do significado. Outra estratégia é confrontar os princípios de verdade e de falsidade em relação ao significado. Também se pode tentar explicar as relações entre a forma linguística de um enunciado e as situações ou ainda o contexto em que ele ocorre. No exame de 2008 (Enade), uma das questões de múltipla escolha usava a expressão “relações semânticas” no seu enunciado. As alternativas nos mostram que a banca aproveitou o farto material à disposição da ciência do significado para incluir nas mencionadas “relações” elementos morfológicos, sintáticos e lexicais, pois obviamente é com esses elementos (mas não só) que se faz a construção do sentido. A questão 12 queria saber qual “a opção incorreta a respeito das relações semânticas do texto verbal”, transcrito a seguir com a imagem alusiva que o acompanhava na prova: – 125 – Semântica, a ciência das significações Figura 2 – Galhos. Fonte: Divulgação O Estadão. Shirley Paes Leme tem no desenho a alma de sua obra. Os galhos retorcidos e enegrecidos pela fumaça são seus traços a lápis, que ela articula ora em feixes escultóricos, ora em instalações. Produz tam- bém delicados desenhos com a sinuosidade da fumaça. Para fazer a peça em homenagem à companhia de dança goiana Quasar, Shirley conta ter se inspirado na grande concentração de energia no espaço necessária para que um espetáculo de dança se realize. “A ideia da coreografia só consegue ser concretizada com movimento porque todos ficam antenados para um trabalho conjunto”, diz. A obra de Shirley tem linhas-galhos que se movem em tempos diferentes, impulsionadas por motores ocultos. (TERRITÓRIO Expandido, 1999, p. 12-13. Adaptado.) As cinco alternativas confirmam uma das dimensões universais da lin- guagem, a semanticidade. Afinal, como lembra E. Bechara (1999, p. 29), “na linguagem tudo significa, tudo é semântico”. a) Mudando-se o foco da ênfase, que está na autora, “Shirley Paes Leme” (linha 1), para a ênfase na obra, “desenho” (linha 1), a alteração da primeira oração do texto ficaria adequada da seguinte forma: Está no desenho a alma da obra de Shirley Paes Leme. Semântica e Pragmática – 126 – b) Na linha 3, a preposição “com” tem a função semântica de introduzir uma caracte- rística para “delicados desenhos”. c) Depreende-se do emprego do conector “ora [...] ora” em “ora em feixes escultó- ricos, ora em instalações” (linha 2), que “feixes escultóricos” se transformam em “instalações” e “instalações” se transformam em “feixes escultóricos”. d) A noção de reflexividade, ou seja, a de que agente e paciente de um verbo repor- tam-se ao mesmo referente, está presente tanto em “Shirley conta ter se inspirado” (linha 5) como em “linhas-galhos que se movem” (linha 8). e) O desenvolvimento do texto permite depreender o significado da palavra “linhas- -galhos” (linha 8) a partir dos significados de galho e de linha. [A resposta correta está na letra C] A opção (A) fala em foco da ênfase, algo que pode nos lembrar o fenô- meno da topicalização, pois consiste em identificar o componente frasal que está à frente do enunciado. No texto original, o primeiro sintagma é o sujeito da oração, fato normal quando se escreve em ordem direta. A alteração pro- posta é que o foco passe a ser a palavra “desenho”, resultando na frase ofere- cida na alternativa, que coloca o foco no predicado: Está no desenho a alma da obra de Shirley Paes Leme. A opção (B) sugere que há uma conexão entre “delicados desenhos” e “com a sinuosidade da fumaça”, pois considera que o objeto direto e seu verbo formam um conglomerado semântico do qual depende o adjunto adverbial: A desenhista produz (alguma coisa, isto é, delicados desenhos) com a sinuosidade da fumaça. A resposta a ser marcada está na opção (C), pois os dois componentes da série alternativa (os feixes escultóricos e as instalações) são autoexcludentes e não podem se transformar mutuamente um no outro. Pelo contrário, quem se trans- forma em feixes escultóricos ou em instalações são os traços a lápis da artista. Na opção (D), fala-se em noção de reflexividade, algo que nos dois tre- chos transcritos se confirma pela presença do pronome “se”. Os verbos “ins- pirar + se” e “mover + se” estão construídos na chamada “voz reflexiva”, sim. Uma simplificação bem banal mostraria que significam, respectivamente, “Shirley tinha inspirado Shirley” (= Shirley tinha se inspirado) e “as linhas movem as linhas” (= linhas-galhos que se movem). – 127 – Semântica, a ciência das significações Por fim, na opção (E), afirma-se que o significado do substantivo com- posto neológico “linhas-galhos” pode ser depreendido a partir dos significados de cada um de seus membros, o que de fato se confirma pela leitura do texto, onde as palavras “galhos” e “linhas” estão empregadas em seu sentido literal. Para concluir, retomamos novamente as palavras de Ilari (2001, p. 12), que enfatiza: “as atividades voltadas para a significação não são contra outras práticas pedagógicas”, o que se deseja é que o professor saiba combiná-las de modo adequado e proveitoso. Ampliando seus conhecimentos Relação linguagem e conhecimento (MARCUSCHI, 2004, p. 263-268) Parece que entre as contribuições mais importantes da linguís- tica contemporânea para o estudo da relação entre língua e conhecimento está justamente a descoberta de que a língua funciona como um sistema de conhecimento estreitamente ligado ao ser humano em todos os aspectos. Assim, caberia discutir e analisar relações tais como: 2 linguagem e mente (processos cognitivos na relação com a língua); 2 processos referenciais e sua relação com a noção de verdade; 2 formação de categorias, prototipicidade e constituição de conceitos; 2 metáforas, metonímias (espaços mentais de um modo geral). Sem negar que a língua se porta por regras e que obedece a determinações específicas e precisas para sua organização morfossintática, a abordagem experiencial da linguagem, pro- posta por Lakoff e boa parte da linguística funcionalista atual, Semântica e Pragmática – 128 – acentua o aspecto prático do uso diário que as pessoas fazem da língua. Por exemplo: se alguém pede para descrever o que nos vem à mente quando ouvimos a palavra “carro”, podemos dizer que se trata de um objeto do tipo de um grande caixão, com portas, janelas, assentos, motor, freio, mudanças, freios, pneus, etc. Mas podemos também mencionar que se trata de um veículoconfortável, prático, rápido, que dá mobilidade, e que dá status ao seu dono, ou então associar “carro” a certas experiências, como o primeiro caso de amor ou algum aci- dente, se tivermos tais experiências. Há mais “legitimidade” em alguma dessas associações do que em outras? É deste modo que a experiência entra nas categorias que com a língua vamos construindo e nos seus usos. E os conhecimen- tos partilhados pelas pessoas que vivem em culturas similares permitem que se consiga interagir sem maiores problemas. Mas isto exigirá ir além dos aspectos lógicos da língua, ou seja, exigirá que nos voltemos também para os usos ditos figurativos e metafóricos como modos naturais de operar com a língua. Suponha-se que alguém chega a nós e diz: “Meu carro quebrou.” Mesmo não sabendo com certeza o que ocorreu (o que foi que pifou no carro), sabemos que o carro não anda mais; também sabemos que ele não quebrou do mesmo modo que uma cadeira quebra, ou que a ponta do lápis quebra e assim por diante. A transferência de experiências no uso de itens lexicais de um espaço mental estável para outro emergente é feita sem problemas. Fauconnier (1997) mostra isso com elegância suficiente. Assim, podemos usar o verbo “quebrar” para uma série de situações mesmo que a quebra não seja caracterizada pelo mesmo tipo de ação. Por exemplo: – quebrar um copo (destruir fisicamente algo) – quebrar um juramento (romper um compromisso) – 129 – Semântica, a ciência das significações – quebrar um recorde (ultrapassar um dado limite anterior) – quebrar um banco (levar uma instituição à falência) – quebrar a cabeça (tentar resolver um problema difícil) – quebrar a cara (dar-se mal em alguma iniciativa) Além desses, podemos fazer muitos outros usos desse verbo, todos possíveis e inteligíveis, desde que saibamos ordenar as experiências de que tratam. Isto é interessante, pois tem relevância nos usos diários da língua. Aquilo que damos a entender com nossos usos linguísticos não está previsto de uma vez por todas no sistema da língua e sim nas formas de vida. Talvez, como lembra Ariel (2002), seja este aspecto aquele mínimo que constitui o “sentido literal” e que deve ser visto sempre dentro de um formato de produção. [...] Já não é irrelevante indagar-se quais as relações entre experiência e língua. Contudo, as respostas vão variar muito, pois há quem negue que a experiência entre na língua (por exemplo, os gerativistas em geral); e outros afirmam que a língua está intimamente ligada à experiência (por exemplo, Lakoff). Mas há os que julgam que a língua é um organizador da experiência e que nossos sentidos só são responsáveis pela sensação primária. Também há a posição de Austin (1962), para quem o mundo da sensação e da experiência é incorpo- rado como uma instância de decisões pragmáticas, de modo que eu posso fazer certas asserções com base em conteúdos mínimos. Suponhamos, com Austin, que uma certa tarde esta- mos reunidos na casa de um amigo e de repente ouvimos um estampido e sem que se tenha qualquer outra informação além desse som, o dono da casa diz: - É a terceira batida de carro nesta semana nessa esquina. De onde ele tirou essa conclusão? Que informações ele usou? Como se relacionam conhecimentos sensoriais e conhecimentos linguísticos? O conhecimento linguístico é um Semântica e Pragmática – 130 – estado mental, como quer Chomsky, ou é um estado socio- cultural também? [...] Segundo a posição de G. Lakoff (1977), “não há pro- priamente nenhuma habilidade puramente linguística”, já que todas elas são permeadas e mediadas pela experiência em vários níveis de modo integrado. [...] Mas pretendo ressal- tar um aspecto fundamental: o século XX dedicou-se como nenhum outro ao estudo das relações entre linguagem e conhecimento. Cada vez mais, no século XX, a linguística foi se aproximando de questões cognitivas. Neste século XXI parece claro que trabalhar linguagem é trabalhar um fenômeno essencialmente cognitivo. Isso veio se firmando de tal modo que já é comum ouvir-se que a linguagem é um empreendi- mento sociocognitivo. Assim, pode-se dizer que a contribuição da linguística contempo- rânea para a compreensão da atividade cognitiva e para o próprio processo de produção e recepção do conhecimento se dá pre- cisamente no entendimento da natureza cognitiva da linguagem. Atividades 1. Preencha as lacunas convenientemente. Nos estudos semânticos é importante a definição de signo linguís- tico, que inclui as noções de _____________________________ e significado, de ___________________________ e substância, as rela- ções sintagmática e ____________________________ e o conceito de __________________________ e linearidade do signo, o que implica saber fazer a distinção entre os enfoques _______________________ e diacrônico. – 131 – Semântica, a ciência das significações 2. Os quatro textos transcritos a seguir podem ser classificados a partir das suas relações de sentido (internas e externas). Reconheça qual deles (A) contém coerência, mas não tem coesão; (B) contém coe- são, mas não tem coerência; (C) contém coesão e coerência; (D) não contém nem coerência nem coesão. Primeiro texto ( ): a. Tenho uma casa em Santos. O meu bisavô era português. Gosto muito do Rio de Janeiro. Na infância eu tomava banho quente. Quando os carros dos bombeiros passam, uma nuvem estava on- tem no céu. Conheço bem a Filomena. Sempre tive um fascínio pelos bailes populares. Foi mesmo um susto! Segundo texto ( ): b. Manuel comprou um pastel. O pastel é feito com massa. A massa é uma substância mole e pastosa que se põe no fogo. Se onde há fumaça, há fogo, também onde há fogo há fumaça. Aliás, dizem que inalar fumaça pode até matar uma pessoa. Mas a gente não conhece uma pessoa só nesta vida. Por outro lado, a vida que a gente leva pode nos marcar para sempre. Mas isso é um tema que pode nos levar a falar em eternidade – aí eu desisto. Terceiro texto ( ): Ouvi falar de uma bicicleta elétrica que usa uma bateria de íon e pode ser recarregada em apenas 30 minutos. Cada carga tem autonomia suficiente para quase 50km de uso, e o melhor de tudo é que ela pode ser recarregada em qualquer tomada elé- trica. Ela também funciona como uma bicicleta comum, com câmbio de 8 marchas e um corpo de alumínio. Quarto texto ( ): c. O jogo. O ingresso. A vontade. O amigo. O empréstimo. A fila. A compra. A camisa. A corneta. O Maracanã. A arquibancada. A Semântica e Pragmática – 132 – entrada em campo. A charanga. Os gols. A goleada. O êxtase. O delírio. O pós-jogo. Quanta emoção! Epa, o dia seguinte... 3. Leia atentamente a letra de Cazuza “Codinome Beija-Flor” (1985) e assinale as alternativas que contêm afirmações corretas a respeito das relações semânticas do texto. Pra que mentir, fingir que perdoou, Tentar ficar amigos sem rancor? A emoção acabou, que coincidência é o amor: A nossa música nunca mais tocou Pra que usar de tanta educação Pra destilar terceiras intenções, Desperdiçando o meu mel, devagarzinho flor em flor, Entre os meus inimigos, Beija-Flor Eu protegi seu nome por amor, em um codinome Beija-Flor Não responda nunca meu amor, nunca pra qualquer um na rua Beija-Flor Que só eu que podia, Dentro da tua orelha fria, Dizer segredos de liquidificador. Você sonhava acordada Um jeito de não sentir dor, Prendia o choro e aguava o bom do amor. Prendia o choro e aguava o bom do amor. a. ( ) A primeira estrofe da canção fala do início e do fim de um romance. Para isso, associa as palavras “amor” e “música” e se vale dos significados que ambas assumem no texto. b. ( ) Os dois primeiros versos da segunda estrofe empregam a pre- posição “para” com valores idênticos e afirmativos quanto aos objetivos da pessoa recém-separada. 05. 10. 15. – 133 – Semântica, a ciência das significações c. ( ) Ao dizer “protegi teu nome por amor” fica claro que a necessi- dade de resguardar a identidadeda pessoa amada tinha o amor como uma concessão. d. ( ) No trecho final da canção, a ênfase está na pessoa amada, como mostra o foco na palavra “você” no verso 16. Relações Semânticas – I Partindo dos conceitos de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia, este capítulo tem o objetivo de identificar caracte- rísticas semânticas do léxico, examinando os casos de sinonímia, antonímia, homonímia e paronímia. 8.1 Noções de Lexicologia, Lexicografia e Terminologia Para se começar a fazer qualquer estudo semântico que foca- lize o léxico em suas incontáveis possibilidades de significação, é indispensável conhecer as disciplinas que lidam com ele de modo sistemático e científico. São três as ciências do léxico: a Lexicologia, a Lexicografia e a Terminologia. Vamos examiná-las a partir de perguntas e respostas disponíveis na página do GTLex (Grupo de Trabalho de Lexicografia, Lexicologia e Terminologia da Associação Nacional de Pós-Graduação em 8 Claudio Cezar Henriques Semântica e Pragmática – 136 – Letras e Linguística [ANPOLL]).1 Selecionamos alguns trechos, com peque- nas adaptações aos nossos objetivos neste capítulo. 2 O que é léxico? Léxico é o conjunto das palavras de uma língua, também chama- das de lexias. As lexias são unidades de características complexas cuja organização enunciativa é interdependente, ou seja, a sua tex- tualização no tempo e no espaço obedece a certas combinações. Embora possa parecer um conjunto finito, o léxico de cada uma das línguas é tão rico e dinâmico que mesmo o melhor dos lexicó- logos não seria capaz de enumerá-lo. Isso ocorre porque dele faz parte a totalidade das palavras, desde as preposições, conjunções ou interjeições, até os neologismos, regionalismos, passando pelas terminologias, pelas gírias, expressões idiomáticas e palavrões. 2 O que é Lexicologia? Lexicologia é uma disciplina que estuda o léxico e a sua organização a partir de pontos de vista diversos. Cada palavra remete a particulari- dades diversas relacionadas ao período histórico ou à região geográfica em que ocorre, à sua realização fonética, aos morfemas que a com- põem, à sua distribuição sintagmática, ao seu uso social e cultural, político e institucional. Desse modo, cabe à Lexicologia dizer cien- tificamente em seus variados níveis o que diz o léxico, ou seja, a sua significação. Ao lexicólogo, especialista da área, incumbe levar a termo essa tarefa tão complexa sobre uma ou mais línguas. 2 O que é Lexicografia? Lexicografia é uma disciplina intimamente ligada à Lexicologia. Ela se ocupa da descrição do léxico de uma ou mais línguas, a fim de produzir obras de referência, principalmente dicionários (em formato impresso ou eletrônico) e bases de dados lexicológicas. Dessa lexicografia prática distingue-se a lexicografia teórica, ou 1 As respostas são dos colegas de GT Adriana Zavaglia, Herbert Welker, Magali Duran, Patrí- cia Chittoni Reuillard, Gladis Maria de Barcellos Almeida e Margarita Correia. O acesso ao GTLex está em: <www.mel.ileel.ufu.br/gtlex/> (para os três links). – 137 – Relações Semânticas – I metalexicografia, que estuda todas as questões ligadas aos dicioná- rios (história, problemas de elaboração, análise, uso). 2 O que é Terminologia? A palavra terminologia pode ter duas acepções distintas. A primeira refere-se ao conjunto vocabular próprio de uma ciência, técnica, arte ou atividade profissional, como por exemplo a terminologia da Informática, da Biotecnologia, do Direito, da Música etc. A segunda acepção designa não só o conjunto de práticas e métodos utilizados na compilação, descrição, gestão e apresentação dos termos de uma determinada linguagem de especialidade (= terminologia enquanto atividade), como também o conjunto de postulados teóricos necessá- rios para dar suporte à análise de fenômenos linguísticos concernentes à comunicação especializada, incluídos aí os termos, evidentemente (= terminologia enquanto teoria). 8.2 Dicionários gerais e específicos Há dicionários de todos os tipos, desde os que chegam às nossas mãos nos primeiros momentos de nossa vida de leitores (geralmente os encontra- mos em casa e nas escolas sob a forma de minidicionários ou pequenos dicio- nários) até os mais sofisticados (muitos se assemelham a enciclopédias). Para falar de dicionários, é preciso primeiro lembrar que chamamos de verbete cada um dos itens que nos dão informações sobre uma palavra. Outro termo importante no manuseio de um dicionário é o que se chama de entrada, ou seja, a própria palavra que é incluída na abertura de um verbete. O conjunto de verbetes recebe o nome de nominata. Os dicionários variam muito quanto ao número de verbetes e quanto às finalidades. Também variam quanto à temática ou ao modo de apresentar o léxico. Há os dicionários gerais, assim denominados porque seu objetivo é apresentar as palavras sem qualquer distinção quanto ao campo semântico (são monolíngues, bilíngues, trilíngues ou multilíngues) e os específicos, que podem tratar de qualquer assunto em particular (sinônimos, termos jurídi- cos, publicidade, palavras cruzadas, filosofia, verbos, gírias etc.). Semântica e Pragmática – 138 – Alguns são verdadeiros tesouros lexicais (às vezes com mais de cem mil entradas); outros prestam apoio didático (dicionários pedagógicos) e cultural (dicionários enciclopédicos, normalmente ilustrados). A maioria dos dicionários se estrutura no modelo “palavra por palavra” (chamam-se semasiológicos ou alfabéticos), mas há os que são organizados no modelo “ideia por ideia” (chamam-se analógicos ou onomasiológicos). Como o hábito das pessoas é saber qual o significado de uma palavra, a prá- tica comum é consultar os dicionários alfabéticos. Os dicionários de ideias têm como principal diferença o fato de que o consulente pode recorrer a eles quando está à procura de uma palavra que não sabe qual é. Vejamos a seguir como se organizam normalmente os verbetes dos dicio- nários alfabéticos. Para isso, reproduzimos o conteúdo do verbete “cada”, da edição eletrônica do Dicionário Aurélio (vrs. 5.0): cada [Do gr. katá, ‘conforme’, ‘segundo’, pelo lat. tard. cata.] Pronome indefinido de dois gêneros. 1. Palavra com que se designa uma unidade num grupo de pes- soas, animais ou coisas de que é parte, ou um conjunto, cons- tituído de duas ou mais partes, desse grupo: “Prova. Olha. Toca. Cheira. Escuta. / Cada sentido é um dom divino” (Manuel Bandeira, Estrela da Vida Inteira, p. 20); “Receitou xarope, uma colher cada duas horas.” (Dalton Trevisan, Novelas nada Exemplares, p. 10); Em cada 10 alunos, um revelava inteligência acima do normal. 2. Também é us. com valor intensivo: “Estou contente com a minha [roseira]; / Cada botão! cada rosa!” (Alberto de Oliveira, Poesias, 3ª série, p. 36); Na praia se vê cada pequena! 2 Cada qual. 1. Cada um (1). 2 Cada um. 1. Todo homem; cada qual: Cada um puxa a brasa para sua sardinha. 2. Uma unidade, um conjunto: Comprou os livros e teve de examinar cada um separadamente. – 139 – Relações Semânticas – I Na primeira linha a entrada do verbete. Na segunda linha, uma informação etimológica (a origem da palavra), que poderia ser acrescida da sua datação na língua portuguesa (quando foi registrada por escrito pela primeira vez em nosso idioma). Na terceira linha, a classe gramatical e o gênero. Nas linhas seguintes, apresentam-se as informações semânticas, separa- das por acepção (neste caso há duas acepções). As acepções são ilustradas por exemplos abonados (com autoria) ou não. Ao final, duas locuções em que a palavra “cada” está presente, também com suas acepções e exemplos. Observemos agora uma das maneiras como se pode organizar um dicionário analógico. O exemplo que escolhemos é do Dicionário Mais: da ideia às palavras. Escaneamos a página 518, onde destacamos o verbete “sapato”. Num dicionário alfabético comum, encontraríamos os significados desse substantivo. Aqui, o que se encontra são as palavras do camposemân- tico de “sapato”, incluindo uma ilustração que ajuda a identificar o vocabulário específico desse tipo de calçado, seja por um determinado uso (mocassim, sabrina, escarpim, sapatilha, tênis, tamanco, soca, chanca, chinelo, chinela, alper- cata, alpergata, alparcata, alpargata, galocha, botina, patim, cáliga, sandália, botas de neve, babucha, soco, coturno, borzeguim), um dado relativo a ele (biqueira, gáspea, pala, palmilha, sola, tacão, atacador, salto, encos- pas, encóspias, alargadeira, forma, empenha, pomada, lustro, verniz, sapateira, sapateiro) ou uma expressão idiomática em que apareça (desconfiar = ter a pedra no sapato). Figura 1 – Dicionário Mais. Fonte: Divulgação Lisboa Editora. Semântica e Pragmática – 140 – Figura 3 – Página de dicionário. Fonte: Divulgação Lisboa Editora. Assim, qualquer que seja o resultado da obra elaborada pelo lexicógrafo (nome que se dá ao especialista da área), um dicionário tem o objetivo de – 141 – Relações Semânticas – I levar ao seu leitor informações desconhecidas ou esquecidas. Por isso, ela- borar e publicar dicionários é realizar um trabalho de utilidade pública, que serve ao homem comum e ao intelectual, ao estudante e ao pesquisador, dis- seminando o conhecimento e a cultura. O primeiro dicionário de que se tem notícia foi feito há mais de 4 mil anos, como conta Mauro Villar. Isso aconteceu [...] no tempo em que os amoritas dominavam a Babilônia e a Mesopotâmia, e no Egito o Médio Império florescia. A biblioteca em que foi encontrado pertencia aos reis de Ebla, cidade bíblica cujo fastí- gio se deu na Idade do Bronze, e que, destruída pelos hititas em 1600 a.C., só em 1968 seria redescoberta no Norte da Síria. A biblioteca é formada por cerca de 17 mil tabletes de argila e fragmentos, e o dicioná- rio, bilíngue, eblaíta-sumeriano, foi compilado entre 2350 e 2300 a.C. Os gregos, a partir do século I de nossa, fizeram dicionários, assim como houve lexicógrafos escolásticos durante a Idade Média. Mas qual a afinidade dos primitivos dicionários com os atuais. Como nas- ceram os dicionários modernos? Sua gênese está ligada a dois fenômenos. Em primeiro lugar, ao esta- belecimento dos romanços como línguas nacionais, processo que se inicia seguramente já no fim do século IV, com a fixação posterior de sua gramática e seu levantamento lexical em relação ao latim. Em segundo lugar, com a prática das chamadas anotações interlineares (glosae) nos cimélios medievais (a partir do século VII), glosas essas que acabaram por grupar-se no final dos livros e posteriormente tornaram-se livros autônomos (glosarii). Os primeiros dicionários dessa nova fase, assim como acontecia com a maior parte dos da Antiguidade, eram bilíngues, geralmente confrontando o latim com as línguas vernáculas. Seu público-alvo eram, não só os estudantes, mas viajantes, comerciantes, evangelizadores, diplomatas, etc. O primeiro dicionário do português é considerado o do bacharel for- mado em Cânones e poeta Jerônimo Cardoso – uma obra bilíngue: Hieronymi Cardosi Lamacensis Dictionarium ex Lusitanico in latinum sermonem. Ulissipone: Ex offic. Joannis Alvari 1562. Houve antes do seu aparecimento alguns glossários, mas obras pequenas, pouco importantes. Cardoso foi professor de Humanidades na Universidade, quando esta tinha sede em Lisboa e morreu nessa cidade em 1569. Este seu famoso dicionário teve diversas edições, até 1694. (VILLAR, 2002, p. 195-196) Para seguirmos com essa história até chegarmos aos dicionários brasi- leiros, vamos dar um pequeno salto no tempo, sem deixar de dizer que, no Semântica e Pragmática – 142 – século XVIII, foi publicado em Portugal um trabalho monumental, em dez volumes (dois eram suplementos), o Vocabulário Português e Latino, do padre Rafael Bluteau (primeiro tomo no ano de 1712, e o décimo tomo em 1728). Embora seja um dicionário bilíngue, a parte relativa à nossa língua é pratica- mente uma descrição do léxico português daquela época. Essa referência é importante porque é a obra de Bluteau que dá origem ao mais conhecido dicionário brasileiro do século XIX, o Dicionário de Morais, de Antônio de Morais Silva, natural do Rio de Janeiro (onde nasceu em 1757). O livro foi publicado (com a autoria principal atribuída a Bluteau) em Portugal em 1789 e, por isso, muitos não o consideram o primeiro dicionário brasileiro. A segunda edição (de 1813) já estava inteiramente sob a responsabilidade de Morais, que também é o autor das edições de 1823 e de 1831 (póstuma), e é nesta que encontramos um argumento para defender a ideia de que Antônio Morais Silva é sim o autor do primeiro dicionário brasileiro, como explica Gladstone Chaves de Melo (1947, p. 14): Entretanto, o velho Morais prosseguia na sua penosíssima faina de vocabularista, “no sertão de Pernambuco”, como nos informam os referidos editores, e, ali, “em horas furtadas à vida rústica, tornava a ler e conferir os autores capitais da Língua Portuguesa e ainda achava que recopilar deles artigos que não vêm nos dicionários mais amplos” (Prólogo dos editores da 4.a edição). O Morais, como ficou conhecido, teve depois disso sucessivas reedições, as quais foram sendo desvirtuadas por seus editores e reorganizadores. Gozou, porém, de alto prestígio, como atesta o seguinte comentário de Machado de Assis sobre uma palavra cujo uso ele defendia sob a alegação de que “lá a pôs no seu dicionário o nosso velho patrício Morais” (Bons Dias!, 22 mar. 1889). Entre os principais dicionários gerais brasileiros contemporâneos, pode- mos citar os Dicionários Houaiss, Aurélio, Caldas Aulete2, Michaëlis e Borba. 2 O dicionário Caldas Aulete só existe na versão on-line (não possui uma versão impressa). É instalado gratuitamente nos computadores de qualquer usuário da internet. Por ser perma- nentemente atualizado, constitui-se num extraordinário banco de dados da língua portuguesa. Para baixá-lo, basta entrar na página: <www.lexikon.com.br/colaboracao/convide.aspx> e cli- car em “download”. – 143 – Relações Semânticas – I 8.3 Sinonímia e antonímia Relações semânticas entre palavras podem ter muitas facetas a explorar. Duas das mais conhecidas são a sinonímia e a antonímia, que podem ser definidas a partir da propriedade que dois termos têm de serem empregados como substitutos um do outro. Se, a princípio, esse emprego não causar prejuízo no que se pretende comunicar, diremos que há sinonímia entre eles. Se a substituição, porém, resultar em significações opostas, haverá antonímia entre eles. Sinonímia = equivalência semântica Antonímia = oposição semântica Vamos exemplificar os dois casos imaginando a situação do diretor de uma firma que vai sortear passagens aéreas entre os funcionários por ocasião dos festejos de fim de ano. Se ele escolher qualquer das frases seguintes, nada mudará na sua comunicação para os empregados: 1. Amanhã é dia de fazer o sorteio das duas passagens para Salvador. 2. Amanhã é dia de realizar o sorteio das duas passagens para Salvador. 3. Amanhã é dia de proceder ao sorteio das duas passagens para Salvador. Os verbos “fazer”, “realizar” e “proceder”, nesse contexto, são intercam- biáveis, são sinônimos. O chefe diz que vai fazer/realizar/proceder (a)o sor- teio, mas escuta um dos funcionários comentar, desconfiado: 4. Será que este ano corremos de novo o risco de, depois, ele desfazer o sorteio e entregar as duas passagens para algum puxa-saco? 5. Será que este ano corremos de novo o risco de, depois, ele melar o sorteio e entregar as duas passagens para algum puxa-saco? 6. Será que este ano corremos de novo o risco de, depois, ele anular o sorteio e entregar as duas passagens para algum puxa-saco? Agora, o trio de verbos é outro. Também são intercambiáveis e, nessa situação, servem como sinônimos entre si. No entanto, também servem como Semântica e Pragmática – 144 – antônimos dos três anteriores, haja vista que, no primeiro caso, o sorteio “tem validade” e, no segundo, “ficainválido”. As relações de antonímia e de sinonímia podem acontecer no âmbito da morfologia, com a troca dos significantes (fazer = realizar) ou com o acréscimo de algum morfema (fazerXdes+fazer), mas também podem se expressar por meio de estruturas sintáticas diferentes. É o que temos nas duas frases seguintes: 7. Assassinaram o camarão. Assim começou a tragédia no fundo do mar. O caranguejo levou preso o tubarão. 8. Alguém assassinou o camarão. Assim começou a tragédia no fundo do mar. O tubarão foi levado preso pelo caranguejo. Em (7) estão transcritos os três primeiros versos do samba “O Assassinato do Camarão”, de Zerê e Ibraim. Na reescritura (8), a sinonímia acontece por substituição sintática, alterando-se o tipo de sujeito ou a voz do verbo, mas mantendo-se a significação original. 8.4 Homonímia e paronímia Duas outras relações semânticas importantes que se estabelecem entre palavras são a homonímia e a paronímia, que acontecem em decorrência da propriedade que dois termos têm de se aproximarem em virtude de sua com- posição fonológica. Se as duas palavras tiverem uma estrutura fonológica idêntica, diremos que há homonímia entre elas, mas se suas pronúncias forem apenas semelhan- tes, haverá paronímia entre elas. Homonímia = identificação fono-ortográfica Paronímia = aproximação fono-ortográfica Os vocábulos que se pronunciam da mesma forma, mas cujos sentidos e grafias são diferentes são chamados homônimos homófonos, como nos casos de “cessão” (= ato de ceder), “seção” (= repartição) e “sessão” (= espaço de tempo) ou de “coser” (= costurar) e “cozer” (= cozinhar). – 145 – Relações Semânticas – I Palavras que se escrevem com as mesmas letras, mas cujas pronúncias e significados são diferentes são chamadas homônimas homógrafas, o que não deixa de ser uma contradição quanto à definição, pois nesse caso não há estru- tura fonológica idêntica, mas apenas ortográfica. De todo modo, a tradição gramatical assim classifica pares como “consolo” (ô) e “consolo” (ó) ou “gelo” (ê) e “gelo” (é). Os vocábulos de significado diverso que se pronunciam e se escrevem do mesmo modo são homônimos perfeitos: “cedo” (advérbio) e “cedo” (pre- sente de “ceder”); “manga” (fruta) e “manga” (parte do vestuário). Nesses exemplos há homonímia, que não deve ser confundida com a polissemia (propriedade semântica de uma única palavra recobrir mais de uma signifi- cação, como “anjo”: ser espiritual ou pessoa boa). Repita-se: na homonímia há duas palavras (e dois significados), e na polissemia há apenas uma pala- vra (e mais de um significado). Homonímia – duas ou mais palavras, cada uma com a sua significação Polisssemia – uma única pala- vra com dois ou mais sentidos E os vocábulos de significado e pronúncia diversos que se distinguem graficamente apenas pela acentuação gráfica são homógrafos imperfeitos: “convém” e “convêm” (do verbo convir); “camelo” (animal) e “camelô” (ven- dedor ambulante) Há paronímia quando os vocábulos são diferentes, mas sua pronúncia e grafia são semelhantes. É o que ocorre em “ratificar” (confirmar) e “retificar” (corrigir) ou “segmento” (pedaço de um todo) e “seguimento” (continuidade). A homonímia e a paronímia são fenômenos que acontecem nas fron- teiras das distinções fonológica e semântica e, por isso, é um procedimento didático natural redobrar a atenção contra os perigos de se empregar um homônimo ou um parônimo pelo outro. Semântica e Pragmática – 146 – Ampliando seus conhecimentos Diferenças entre sinônimos (ULLMAN, 1964, p. 291-295) “As palavras”, observou certo dia o Dr. Johnson, “raras vezes são exatamente sinônimas”. Macaulay exprimiu a mesma ideia em termos que se recomendam por si próprios ao linguista moderno: “Modifica a estrutura da oração, substitui um sinô- nimo por outro; e todo o efeito será destruído.” Na linguística contemporânea tornou-se quase axiomático que a completa sinonímia não existe. Segundo as palavras de Bloomfield, “cada forma linguística tem um significado constante e específico. Se as formas são fonemicamente diferentes, supomos que os seus significados são também diferentes... Supomos, em resumo, que não há sinônimos reais.” Muito antes de Bloomfield, Bréal tinha falado de uma “lei de repartição” na linguagem, segundo a qual “palavras que deveriam ser sinônimas, e que o eram efetiva- mente, tomaram, entretanto, sentidos diferentes e não mais ser empregadas uma por outra” (1925 e 1992, p. 33). Embora haja de fato uma grande dose de verdade em tais afirmações, seria errôneo negar a possibilidade de completa sinonímia. Bastante paradoxalmente, encontra-se onde menos seria de esperar: nas nomenclaturas técnicas. O fato de os termos científicos serem precisamente delimitados e emocio- nalmente neutros permite-nos averiguar de modo absoluta- mente definido se dois deles são completamente permutáveis, e a sinonímia absoluta não é, de modo algum, pouco vulgar. Estudos recentes sobre a formação de terminologias industriais mostraram que vários sinônimos surgirão por vezes em torno de uma nova invenção, até que, eventualmente, se sepa- ram. Tal sinonímia pode mesmo persistir durante um período – 147 – Relações Semânticas – I indefinido. [...] Em fonética, consoantes como s e z são conhecidas como espirantes ou fricativas e o mesmo escritor pode empregar ambos os termos sinonimamente. A própria semântica tem um sinônimo um tanto deselegante em semasio- logia, que é agora pouco usada em inglês e em francês, mas que está firmemente estabelecida nalgumas outras línguas. [...] No entanto, é perfeitamente verdade que a absoluta sinonímia vem contra o nosso modo habitual de considerar a linguagem. Quando vemos palavras diferentes, supomos que deve haver também alguma diferença no significado, e, na vasta maioria dos casos, há de fato uma distinção, muito embora ela possa ser difícil de formular. Muito poucas palavras são completamente sinônimas no sentido de serem permutáveis em qualquer con- texto, sem a mais leve alteração do significado objetivo, do tom sentimental ou do valor evocativo. W. E. Collinson (1939, p. 61-2) fez uma interessante tentativa de esquematizar as diferenças mais típicas entre sinônimos. Distingue nove possibilidades1:3 1. Um termo é mais geral que outro – recusar – rejeitar. 2. Um termo é mais intenso que outro – repudiar – rejeitar. 3. Um termo é mais emotivo que outro – declinar – rejeitar. 4. Um termo pode implicar aprovação ou censura moral enquanto o outro é neutro – despida – nua – pelada. 5. Um termo é mais profissional que outro – óbito – morte. 6. Um termo é mais literário que outro – descansar – morrer. 7. Um termo é mais coloquial que outro – marrento – zangado. 8. Um termo é mais local ou dialetal que outro – farol – semáforo. 1 Os exemplos foram adaptados ou atualizados para este capítulo. Semântica e Pragmática – 148 – 9. Um dos sinônimos pertence à linguagem infantil – dindinha – madrinha. Atividades 1. Reconheça se as afirmativas são verdadeiras (V) ou falsas (F), corrigin- do-as conforme o caso. a. ( ) O estudo do léxico segundo suas peculiaridades históricas, geográficas, gramaticais, sociais, culturais e políticas é tarefa da Lexicologia. b. ( ) A Lexicografia tem como objeto de estudo a descrição do léxico de uma ou mais línguas, a fim de produzir obras de referên- cia, principalmente dicionários. c. ( ) Um dos objetivos da Terminologia é reunir um conjunto voca- bular próprio de uma ciência, técnica, arte ou atividade profissional. d. ( ) O conjunto de entradas de um dicionário chama-se verbete ou nominata, indicando cada um dos itens que nos dão informa- ções sobre uma palavra. e. ( ) Os dicionários gerais se estruturam num modelo alfabético, di- ferindo dos dicionários específicos, que são organizados por ideias. 2. O poema a seguir se chama “Manhã” e é de autoria de Murilo Men- des (1972, p. 128). Preencha as lacunas com as palavras que, do ponto de vista semântico, lhe pareçam as mais apropriadasao texto, justificando sua escolha. Identifi- que se há palavras que não podem preencher as lacunas coerentemente. – 149 – Relações Semânticas – I As estátuas sem mim não podem mover os ________ (braços / seios) Minhas antigas namoradas sem mim não podem amar seus ___________ (maridos / esposos) Muitos versos sem mim não poderão ____________ (viver / existir). É inútil deter as aparições da ________________ (divindade / musa) É difícil não amar a __________________ (existência / vida) Mesmo explorado pelos outros ___________ (indivíduos / homens) É absurdo achar mais realidade na lei que nas ____ (estrelas / sereias) Sou poeta ______________ (irrefutavelmente / irrevogavelmente). 3. Reescreva o texto abaixo, corrigindo os empregos equivocados das palavras homônimas e parônimas. Nossos colegas pediram despensa do serviço porque já se sabe que infrigiram o regulamento. Por não terem comprido o disposto, colo- caram em xeque suas carreiras e por hora vão espiar suas culpas numa xácara longínqua. Relações Semânticas – II Este capítulo tem por objetivo identificar características semânticas do léxico, examinando os casos de hiperonímia, hiponí- mia, eponímia e antonomásia. 9.1 Campos associativos, conceituais e semânticos A imagem empregada por Ferdinand de Saussure (1972, p. 146) para explicar as associações que as palavras mantêm entre si sugere que cada uma delas é como se fosse o centro de uma constelação, “o ponto para onde convergem outros termos coordenados cuja soma é indefinida”. 9 Claudio Cezar Henriques Semântica e Pragmática – 152 – Figura 1 – Constelação da palavra cruzamento. cruzamento interseção fumacento cruzar isolamento esquina suculento cruzador fechamento etc. etc. etc. etc. Fonte: Elaborado pelo autor. A associação entre palavras pode ser feita a partir de ligações de sentido, mas também pode acontecer por razões puramente formais ou até por uma combinação entre forma e significado. A “constelação” da palavra “cruza- mento” mostra quatro linhas, assim justificáveis: 2 linha 1 – “cruzamento / interseção / esquina”: associação semântica; 2 linha 2 – “cruzamento / cruzar / cruzador”: associação morfos- semântica externa (identidade do radical, fator determinante para reconhecer palavras cognatas, também chamadas palavras da mesma família etimológica); 2 linha 3 – “cruzamento / isolamento / fechamento”: associação morfossemântica interna (identidade do sufixo formador de substantivo abstrato); 2 linha 4 – “cruzamento / fumacento / suculento”: associação fonológica (identidade das terminações). Como Saussure diz que “a soma é infinita”, a título de ilustração pode- ríamos pensar em fazer outras associações a partir dessa palavra. Por exemplo, uma linha 5 nos levaria a uma série como “cruzamento / trân- sito / automóveis” ou a outra como “cruzamento / chute / gol”, se as associações fossem feitas considerando o cruzamento de duas ruas ou o cruzamento como – 153 – Relações Semânticas – II uma jogada numa partida de futebol. Aqui, teríamos também associações exclu- sivamente semânticas. Mas uma linha 6 talvez nos mostrasse uma série de palavras com qua- tro sílabas e dez letras: “cruzamento / flamejante / supertinta” (associação fono-ortográfica). E assim outras “linhas” poderiam ser formadas mediante outras hipóteses coerentes. Como se percebe, as associações não são feitas apenas nas relações gramaticais, pois se constroem a partir do raciocínio humano e, portanto, não há limites para elas. A razão para o surgimento do verbo “bebemorar” (incorporado recentemente aos dicionários portugueses) é o verbo “comemorar”. A associação semântica que serviu de base para essa criação é morfologicamente infundada: “comemorar” é derivado de “memorar” e não de “comer”. Apesar disso, as duas primeiras sílabas fazem uma homonímia com o verbo “comer” e por esse motivo, “comemorar” pode dar origem a “bebemorar” (e – por que não? – a fumamorar ou a dormimo- rar...), se pensarmos na coerência da aproximação de “comer” com “beber”. Como a Lexicologia procura definir os campos linguísticos, é preciso distinguir os tipos de relações associativas entre as palavras e, para isso, usare- mos as expressões campo associativo, campo conceitual e campo semântico. 2 Campo associativo – expressão genérica que permite reunir pala- vras a partir de qualquer associação coerente (semântica ou não) que exista ou se faça entre elas: nos seis exemplos dados a partir da palavra “cruzamento”, todas as “linhas” são de campos associativos. 2 Campo conceitual – expressão que se refere ao contingente de palavras que se agrupam, ideologicamente, por meio de uma rede de associações e interligações de sentido: nos seis exemplos dados a partir da palavra “cruzamento”, apenas as “linhas” 1 e 5 são de campos conceituais. 2 Campo semântico – expressão que se refere ao contingente de palavras que se agrupam, linguisticamente, por meio de uma rede de associações e interligações de sentido: nos seis exemplos dados a partir da palavra “cruzamento”, apenas as “linhas” 2 e 3 são de campos semânticos. Semântica e Pragmática – 154 – Por esse raciocínio, a teoria dos campos conceituais (que alguns autores também chamam, por comodidade didática, de campos associativos) considera os agrupamentos de palavras para construir os esquemas representacionais da sociedade. Já a teoria dos campos semânticos privilegia a estrutura lexical como um todo. Convém, porém, advertir que é uma prática comum usar a expres- são campo semântico genericamente, com o mesmo sentido que aqui demos apenas para campo associativo. 9.2 Hiperonímia e hiponímia Nos estudos do léxico, as relações semânticas podem ser estabelecidas por meio de um critério que conjuga as ideias de “parte” e “todo”. Durante a reda- ção de um texto, quando precisamos evitar a repetição de uma palavra, temos à disposição uma ferramenta coesiva importante: os hiperônimos e os hipônimos. Uma definição bem simples para essas palavras dirá que o hipônimo é a palavra particularizadora e que o hiperônimo é a palavra generalizadora. Hiperonímia = do significado geral para o específico. Hiponímia = do significado específico para o geral. Por exemplo: se nos pedirem uma pequena lista com o nome de quatro animais, talvez nossas lembranças imediatas recaiam sobre aqueles com os quais convivemos, como o cachorro, o gato, o cavalo e o papagaio. Talvez nos venham ideias menos óbvias e a lista seja feita de animais nada amistosos, como o lobo, o jacaré, o orangotango e o urubu. Quem sabe, poderíamos fazer um rol apenas com os nomes daqueles que, quando se aproximam, nós é que ficamos hostis, como a barata, o rato, o mosquito e a lacraia. Mas nada impediria que uma preferência “politicamente correta” nos levasse a fazer uma lista-denúncia, com nomes de animais já extintos ou em extinção, como o dinossauro, o mamute, o auroque e o dodó (extintos) ou o panda, o tucano, a ariranha e o mico-leão (em extinção). – 155 – Relações Semânticas – II Todos esses substantivos são específicos, se considerarmos que os toma- mos pensando num termo genérico dado: a palavra “animal” é o hiperônimo, e cada bichinho citado é um dos hipônimos. Hipo- (prefixo grego): posição inferior, subordinada (= sob, sub) Hiper- (prefixo grego): posição superior, elevada (= sobre, super) No entanto, essa relação entre o termo geral e o termo específico pode ser outra. Uma palavra específica como “dinossauro”, hipônimo em relação ao conjunto “animais”, seu hiperônimo, pode fazer parte de um outro conjunto, onde assume o papel de termo genérico. É o que mostra a figura abaixo, com o agora hiperônimo “dinossauros” e os hipônimos que listam alguns de seus tipos: o braquiossauro, o diplodoco, o camptossauro, o ancilossauro, o hadrossauro, o tiranossauro, o estegossauro e o celófise. Figura 2 – Hiperônimo “dinossauros” e seus hipônimos. Fonte: Divulgação Lisboa Editora e Siebenaler. Vamos examinar um texto deinformação científica sobre um desses dinos- sauros, marcamos em itálico todas as palavras ou expressões substantivas que Semântica e Pragmática – 156 – se referem especificamente aos celófises. O objetivo é verificar como o redator colocou em uso as relações de hipo- e hiper(o)- nímia que esse termo possui. (1) Em 1947, em uma expedição ao Ghost Ranch, no Novo México, EUA, paleontólogos fizeram uma grande descoberta: um grande número de fósseis de dinossauros, mais tarde denominados celófises. Esses fósseis eram todos parte de um grupo provavelmente devastado por uma inun- dação no período triássico tardio. Os animais variavam de filhotes recém- -saídos do ovo a adultos com pouco mais de dois metros de comprimento. O corpo do celófise tinha uma cauda longa e esguia. Suas mandíbulas eram dotadas de dezenas de dentes afiados. O celófise era um predador incomum, pois vivia em grandes rebanhos, algo que não acontece no mundo atual. Animais como o caribu ou o gnu, que se alimentam pastando, vivem em rebanhos, mas o mesmo não ocorre com os pre- dadores, que não vivem em grandes grupos. Áreas pisoteadas em torno do Ghost Ranch sugerem que os rebanhos de celófises migravam. As patas traseiras do animal eram fortes e ágeis. Ele tinha pés com três dedos longos e um curto, e saltava rapidamente para escapar de pre- dadores de maior porte, como o phytossauro, um animal semelhante ao crocodilo. As patas dianteiras do celófise eram pequenas e provavel- mente não eram usadas para caminhar. O mais provável é que fossem usadas para recolher alimentos. A cabeça do animal era grande, com um focinho pontudo e olhos grandes. O celófise era um mestre da emboscada. É possível que esse predador com cerca de 45 quilos se ali- mentasse de peixes e, por isso, vivesse à margem de rios, caminhando entre a vegetação rasteira e sempre atento a inimigos. Também comia insetos, répteis semelhantes a lagartos e outros pequenos dinossauros. Além dos esqueletos do Ghost Ranch, no Novo México, foram encontra- dos celófises no Painted Desert do Arizona. Os troncos petrificados encon- trados lá, muitos com comprimento superior a 30 metros, mostram que aparência tinham as florestas pelas quais esses dinossauros corriam. Eles estão entre os mais antigos (se não são os mais antigos) dinos- sauros da América do Norte. O nome celófise quer dizer “forma oca”, em referência aos ossos ocos de suas pernas, que se assemelhavam aos ossos dos pássaros, desenvolvidos para ter o mínimo de peso com o máximo de força. A única espécie conhecida é o Coelophysis bauri. Nas caixas torácicas de dois adultos encontrados no Ghost Ranch havia esqueletos de jovens celófises. Eles eram grandes e desenvolvidos demais para que fossem bebês ainda não nascidos. Isso sugere que os celófises podem ter sido canibais e que a presa teria sido engolida inteira. – 157 – Relações Semânticas – II Os parentes do celófise incluem o podoquessauro; o halticossauro e o protocompsógnato, da Alemanha; e o sintarso do Zimbábue e Arizona. (CELÓFISE, 2008) Sem incluirmos na contagem as ocorrências em que o nome do ani- mal foi substituído por outros processos coesivos (como os pronomes retos, oblíquos e possessivos ou a elipse), o texto empregou por dezenove vezes uma forma substantiva que nos informa algo sobre os celófises, sendo onze as passagens em que a opção foi pela própria palavra “celófise”. Mas o redator também usou os hiperônimos “animal” (três vezes), predador e dinossauro (duas vezes cada um) e o hipônimo sinônimo Coelophysis bauri (uma vez). A estratégia mostra que, em cada parágrafo, o substantivo principal foi usado comedidamente, a saber: uma vez no 1.º; três vezes no 2.º; duas vezes no 3.º; uma vez no 4.º; uma vez no 5.º; duas vezes no 6.º e uma vez no 7.º. O terceiro parágrafo, que é o maior do texto, tem sete informações sobre o celófise. Duas delas aparecem com o próprio hipônimo, duas com o hipe- rônimo “animal”, uma com o hiperônimo “predador” e duas (indiretas) com as expressões que sublinhamos “predadores de maior porte” (o que mostra o celófise como um predador de menor porte) e “outros pequenos dinossauros” (o que confirma que o celófise não é de grande porte). A conclusão a que se chega é que o autor do artigo organizou adequa- damente esse jogo alternativo entre o hipônimo e seus hiperônimos (mais de um, como vimos pela explicação). Afinal, nessa relação entre o específico e o geral, uma regra de três se reproduz quando pensamos na progressão: assim como todo celófise é um dinossauro, todo dinossauro é um predador, e todo predador é um animal. A recíproca (partindo do geral para o específico), porém, é falsa, pois nem todo animal é predador, nem todo predador é um dinossauro e nem todo dinossauro é um celófise. 9.3 Antonomásia e eponímia Um outro tipo de relação semântica que se pode examinar no estudo do léxico é o que costuma ocorrer nos intercâmbios funcionais entre subs- tantivos próprios e comuns, ainda conjugando as ideias de “parte” e “todo”. Se escrevemos um texto sobre uma pessoa ou sobre um lugar, é provável que tenhamos de pensar em algo que nos faça evitar a repetição desse nome Semântica e Pragmática – 158 – próprio – caso em que entra em cena a antonomásia. Numa outra situação, o que está à nossa disposição não é uma palavra substituta, mas um substantivo próprio transformado metonimicamente em comum – caso da eponímia. Pode-se dizer, então, que esses dois recursos estão interligados por uma espécie de cruzamento morfossemântico. A antonomásia faz parte de um grupo de termos (epítetos, cognomes, ape- lidos e alcunhas) e consiste no emprego de substantivos comuns (ou expressões substantivas) tomados a partir de uma motivação metonímica ou metafórica – conhecida ou desconhecida – como substitutos de um nome próprio e, em decorrência disso, às vezes redigidos também como substantivos próprios. Ilustram o que dissemos acima as referências que se fazem a alguns escri- tores, ao longo do tempo, utilizando-se um sem-número de antonomásias, algumas das quais ultrapassam gerações e se mostram como “sinônimos” per- feitos para suas matrizes semânticas. Estão neste caso expressões como “Boca do Inferno”, “Poeta dos Escravos”, “Águia de Haia” e “Poetinha”, que podem ser empregadas como identificadoras dos nomes dos autores no lugar dos quais se põem, com pouca margem de risco quanto a uma possível incompreensão. Figura 3 – Antonomásia: “poetinha” substitui na manchete o antropônimo Vinicius de Moraes. Fonte: Divulgação O Estado de São Paulo. – 159 – Relações Semânticas – II Mas as antonomásias não são recursos exclusivos dos antropônimos. Também os nomes de lugar (topônimos) podem ser substituídos, como vemos em “Veneza Brasileira” (em lugar de Recife), “Cidade Maravilhosa” (em lugar de Rio de Janeiro) ou “Princesa do Sertão” (Feira de Santana). Figura 4 – Recife, a Veneza brasileira (antonomásia com motivação metafórica por causa dos canais que passam por dentro das duas cidades). Fonte: Domínio público Lugares famosos, vilarejos perdidos no mapa, pessoas comuns, perso- nagens da história, políticos, artistas, atletas e escritores – todo substantivo próprio se enquadra da mesma forma nesse processo de combinação entre nome qualificado e qualificador do nome. Um estádio de futebol pode ser conhecido como o Caldeirão do Boca tanto quanto uma praia pode ser a Princesinha do Mar. Se um bairro fica famoso como o Berço do Samba, por que não dizer que a minha cidade é o Túmulo do Funk? Alguém pode ser o Fenômeno, o Matador, o Patriarca da Independência, o Mestre do Suspense, o Deus da Raça, a Namoradinha do Brasil, a Musa do Verão, o Nazareno, o Careca do 302, a Garota de Ipanema. Tudo se admite nessa relação, desde que se estabeleça alguma coerência entre os dois componentes: de um lado o substantivo próprio, de outro o seu “apelido”, sua antonomásia. Semântica e Pragmática – 160 – De todo modo, sempre que se usa uma expressão em vezde uma única palavra para se fazer essa substituição, diz-se que a antonomásia é também uma perífrase (pois substitui o que poderia ser expresso por um menor número de palavras). Isso quer dizer que esses dois termos, embora não sejam sinônimos, às vezes coincidem. Por exemplo, os ex-jogadores Romário e Edmundo têm antonomásias (ou apelidos, epítetos, cognomes) muito conhecidas, “Baixinho” e “Animal” (não há perífrase em nenhum dos dois casos). Mas chamar Pelé de “Rei do Futebol” e Zico de “Galinho de Quintino” é o que caracteriza uma antonomásia perifrástica. Os dois trechos seguintes mostram o emprego da antonomásia como elemento de coesão textual: o primeiro é o recorte de uma notícia de jornal; o segundo reproduz os dois parágrafos iniciais de um texto acadêmico. Ambos se referem a Machado de Assis. (2) Há três meses, o Ministério da Cultura anunciou que 2008 será o Ano Nacional de Machado de Assis. Em setembro, completam-se 100 anos da morte do escritor carioca. As editoras se apressam e colocam nas prateleiras, ainda em 2007, os primeiros lançamentos da comemoração. A humildade em tom de elegância, cortesia da mentalidade ainda romântica que o escritor cultivava, soa irônica às vésperas do cen- tenário de sua morte. Hoje, quem declarar o carioca como o maior escritor da Literatura Brasileira vai encontrar poucas pessoas dispos- tas a discordar. Ao que parece, o Bruxo aprontou mais uma das suas. Adivinhou seu futuro e escondeu sua profecia sob o véu da ironia. (O ANO DO BRUXO, 2007) (3) O jogo intertextual é um dos traços mais fascinantes da prosa de Machado de Assis. E, se é verdade que todo grande escritor é, antes de tudo, um leitor contumaz, isto se aplica perfeitamente ao nosso Bruxo, cujo intercâmbio com a literatura universal é um fator constituinte da natureza de seus escritos. Há, na ficção de Machado, uma enorme enciclopédia literária, a que ele faz alusões, de que faz citações (literais ou não), sempre pressu- pondo no leitor um parceiro à altura, capaz de decifrar-lhes as signifi- cações. O repertório é imenso. Desde Contos Fluminenses, publicado em 1869, até o último romance, Memorial de Aires, cuja primeira edição é de 1908, ano da morte do escritor, Machado é um citador incansável. (SENNA, 2008, p. 7) – 161 – Relações Semânticas – II Machado tem um dos epítetos mais difundidos da literatura brasileira. Talvez seja muito difícil encontrar um texto sobre ele que não recorra à anto- nomásia “Bruxo do Cosme Velho” ou apenas “Bruxo”. Observe-se porém que, para quem escreve, esse apelido é uma alternativa a mais para se evitar a repetição do nome do romancista. Aliás, como devemos agir ao escrever um texto longo sobre Machado. Quais os limites para se usar o seu nome? E para substituí-lo? Machado e suas anáforas: “escritor carioca”, “o romancista”, “o criador de Capitu”, “o autor de Brás Cubas”, “o fundador da Academia”... Por fim, vamos falar da eponímia. Passagem de antropônimo a substan- tivo comum, o epônimo costuma ser apresentado como resultado de um pro- cesso metonímico que se baseia numa relação de contiguidade entre nomes de pessoas e significações que não têm uma palavra própria para exprimi-las ou para as quais se propõe uma nova denominação. Essa passagem a substantivo comum não caracteriza mudança de classe, mas de subcategoria (substantivo próprio > substantivo comum). Há epônimos sincrônicos, os que têm vínculos referenciais ainda muito nítidos com o antropônimo que lhes deu origem (amélia, arquibaldo, barbie, bel- zebu, camões, cupido, drácula, he-man*, quixote, sansão, tarzã...), e há epônimos diacrônicos, os que só podem ser assim identificados mediante uma informação histórica que contextualize sua criação a partir de um antropônimo (baderna, carrasco, gandula, gari, gilete, winchester...). Em ambos os casos, todas as palavras dos exemplos representam nomes de pessoas que viraram nomes de coisas, sendo pertinente falar-se que, numa língua, assim como existe o processo de “personifi- cação” (exs.: o Hino Nacional, a Pátria), há também o processo de “coisificação”: A palavra baderna, de acordo com o dicionário de Macedo Soares (apud Houaiss), tem origem no antropônimo Marieta Baderna, dan- çarina italiana que esteve no Rio de Janeiro em 1851, provocando “um certo frisson”. Seus admiradores eram chamados de “os bader- nas”; daí, por extensão, seu principal significado em nossa língua: situação em que reina a desordem; confusão, bagunça. Já o vocábulo gandula está datado no dicionário Houaiss como de 1975. A origem do termo é o antropônimo Bernardo Gandulla, fute- bolista argentino que atuou num clube do Rio de Janeiro no final da década de 1930 e que tinha o hábito de buscar as bolas que saíam de campo. O termo expandiu-se do uso restrito do jogo de futebol e, Semântica e Pragmática – 162 – hoje, se refere àquele que apanha e devolve aos jogadores as bolas que saem do campo durante uma partida, sobretudo de futebol. Finalmente, o substantivo gari, inspirado no nome Aleixo Gary, pes- soa responsável pela empresa à qual esteve confiado o serviço público de limpeza das ruas, no Rio de Janeiro. Segundo o dicionário Houaiss, a palavra foi empregada pela primeira vez na revista Careta, em 1909. Notícia publicada no Jornal do Brasil em 1.o de setembro de 1892 dá conta de que “foi rescindido o contrato assinado com os Srs. Aleixo Gary & C. para a limpeza da cidade.” (HENRIQUES, 2008c, p. 146) As relações entre a eponímia e a antroponímia têm uma condição que as limita, pois a transposição de substantivo próprio para substantivo comum só ocorre mediante a atribuição de um sentido impessoal ao nome próprio. E só se pode fazer essa “ponte” tomando-se uma certeza ou suposição a respeito do ser humano real. Assim, ao princípio metonímico norteador da criação de um epônimo, devemos acrescentar a possibilidade de uma interpretação metafórica que justifique sua existência ou emprego. Os epônimos, no entanto, não são criados apenas a partir de pessoas reais. Há também os que se inspiram em seres fictícios, como é o caso da palavra amélia (= mulher amorosa, passiva e serviçal), significação extraída do contexto do samba Ai! que saudades da Amélia, de autoria de Ataulfo Alves e Mário Lago, de 1942. A canção fala de uma “mulher de verdade”, que “às vezes passava fome ao meu lado / E achava bonito não ter o que comer / Mas, quando me via contrariado, dizia: Meu filho, que se há de fazer!”. Nesses casos de epônimos de base ficcional incluem-se as referências a perso- nagens de obras do cinema, do teatro, da televisão, da literatura e até da indústria de consumo. Esses epônimos dependem da repercussão e permanência, na cul- tura e/ou imaginário da sociedade, dos antropônimos que os originaram. Muitos têm vida curta e saem de cena tão logo cesse sua presença na mídia. E, como nas relações semânticas tudo pode acontecer, a roda das signi- ficações não para de girar. Nosso último exemplo focaliza a possibilidade de uma palavra mudar sucessivamente de sentido, primeiro por antonomásia, depois por eponímia. Esse caso, normalmente, acontece pela situação habitual de o traço físico de alguém ser usado para denominá-lo (como os personagens infan- tis Bolinha, Cascão, João Bafo de Onça, Capitão Gancho...). Por causa das – 163 – Relações Semânticas – II famosas pernas tortas de seu dono, o substantivo “garrincha” eponimizou-se exatamente com esse sentido, nas referências coloquiais a pessoas que têm algum tipo de arqueamento nas pernas. Acontece que o jogador Garrincha recebeu esse apelido porque gostava de caçar passarinhos, e não porque tinha as pernas tortas. De posse dessas informações semânticas, fechamos o círculo: Figura 5 – Relações semânticas do nome Garrincha. 1. garrincha 4. “garrincha” 3. pernas do Garrincha 2. Garrincha Fonte: Domínio Público, divulgação UFPA e Carlos Vieira. (1) garrincha (subst. comum = passarinho) > (2) Garrincha (subst. pró- prio = Manuel Franciscodos Santos + (3) o “craque das pernas tortas” > (4) “garrincha” (gíria, subst. comum = pessoa com as pernas tortas). 1 > 2 por antonomásia 2+3 > 4 por eponímia Semântica e Pragmática – 164 – Ampliando seus conhecimentos Desenvolvimento de novas marcas (PINHO,1996, p.19-21) Apesar das importantes funções que o nome de marca desempenha, pouca atenção é dada ao seu desenvolvimento. Normalmente, a empresa dirige seus maiores esforços e cui- dados para o planejamento de novos produtos, o desenvol- vimento da embalagem, o estabelecimento de canais de dis- tribuição, e só mais tarde acaba por descobrir que a escolha de um nome não apropriado pode trazer sérias dificuldades para a companhia ou até mesmo a retirada do produto do mer- cado. Por exemplo, o lançamento do cigarro Peter Stuveysant no Brasil fracassou devido à pouca familiaridade do consumi- dor com a pronúncia do nome do produto, o que não mere- ceu o devido cuidado no programa de comunicação. Outro problema comum é o nome ser adequado para o mercado nacional, mas mostra-se incoveniente em outros países, como o modelo Nova, da General Motors, que no México teve o nome original alterado para Caribe, pois soava em espanhol como “Não funciona”. Portanto, o desenvolvimento de nomes para novos produtos deve obedecer a um planejamento criterioso e cuidadoso. Murphy (1987: 88 – 94) sugere quatro etapas distintas, mas intimamente relacionadas, no processo de desenvolvi- mento de marcas nominais. São elas: a definição de uma estra- tégia de marca, a determinação de temas de criação, a geração de nomes e a seleção final. – 165 – Relações Semânticas – II 1.ª Etapa – A definição da estratégia do nome de marca A estratégia de desenvolvimento de nomes de marcas é similar ao processo de desenvolvimento de novos produtos ou ao esta- belecimento de estratégias de posicionamento e de propaganda. Ela envolve o levantamento de informações sobre produtos e o mercado, a determinação do papel específico a ser cumprido pela marca registrada e o estabelecimento dos objetivos da marca nominal, que são essenciais para orientar toda a sequência de desenvolvimento de um nome forte e apropriado. Produto – as informações dizem respeito ao conceito de pro- duto, especificações, propriedades e formas de uso; posição no mercado; satisfações que vão proporcionar ao usuário e as neces- sidades que vão atender; sua relação com os produtos concorren- tes; os planos de distribuição e de mídia; os pontos-de-venda; e o relacionamento do produto com a marca da companhia e com marcas registradas de produtos similares existentes. Mercado – dados qualitativos e quantitativos de mercado, se o papel do novo produto e o ambiente em que será lançado são claramente compreendidos. Marca registrada – envolve a descrição dos países, língua e culturas onde o regristro da marca será efetuado, para deter- minar se é ou não apropriada para os diferentes mercados; a mensagem ou mensagens que a marca nominal deve comu- nicar; a existência de marcas concorrentes; as restrições ao tamanho do nome; e os atributos e qualidades fonéticas e gráficas que a marca deve preencher. Objetivo do nome de marca – o gerente de produto, a alta administração, a agência de propaganda e o designer de embalagem devem estabelecer em comum os objetivos a Semântica e Pragmática – 166 – serem cumpridos pela marca, que vão funcionar como ele- mentos unificadores na escolha de um nome. 2.ª Etapa – A determinação dos temas de criação Os temas constituem enfoques a partir dos quais serão gera- das as sugestões de nomes para o produto ou serviço. No caso, de um automóvel, os nomes podem estar associados a temas como desempenho, potência, tecnologia, sofisticação e estilo de vida. Qualquer que seja o tema escolhido, ele exer- cerá uma grande influência na personalidade da marca e no programa de comunicação a ser desenvolvido para o produto. 3.ª Etapa – A geração de nomes de marca A partir dos temas escolhidos, o estágio seguinte é criar pala- vras, analogias e ideias, tarefa geralmente confiada à equipe de criação, cujos participantes serão selecionados por sua atividade, habilidades e domínio da língua e capacidade de trabalhar em grupo. A geração de nomes por computador também pode ser empregada, com base em bancos de dados e dicionários, já que os programas existentes para criação de nomes por permutação de vogais, consoantes e sílabas geram milhões de nomes, mas em sua maioria totalmente inúteis. 4.ª Etapa – A seleção do nome de marca Nesta etapa tem lugar um cuidadoso processo de seleção. Primeiramente, são eliminadas as palavras que apresentem difi- culdades de pronúncia em todas as línguas, de legibilidade ou de memorização, e aquelas que não permitem o registro legal, sejam parecidas com as marcas dos concorrentes ou tenham um tamanho excessivo. A relação deve então ser submetida a uma checagem e comparação com as palavras de todas as línguas envolvidas no projeto, para verificar se não apresentam significações obscenas, ofensivas ou negativas. – 167 – Relações Semânticas – II O próximo passo é a busca de uma eventual concessão de regristro a nomes iguais ou similares nos países e mercados onde se pretende comercializar a nova marca. Todos os nomes devem ser pesquisados pelos advogados locais em um primeiro país a ser designado, os remanescentes seguem para uma busca no próximo país e assim por diante. No entanto, não é incomum defrontar-se no caminho com objeções apa- rentes, que devem ser checadas. Às vezes, os proprietários devem ser contatados e, em certos casos, é necessário nego- ciar acordos comerciais ou conduzir investigações sigilosas para verificar se uma marca registrada está sendo usada e em que classes de produtos e serviços. Neste ponto, a relação provavelmente vai estar reduzida a alguns poucos nomes, que devem ser testados com consumi- dores e hierarquizados de acordo com as preferências. Pode ser descrito o conceito de produtos e a seguir solicitado que os consumidores expressem, para cada nome em exame, a sua aprovação (“Gosto” ou “Não gosto”) ou que eles expli- citem associações mais profundas, do tipo forte versus fraco, masculino versus feminino, caro versus barato. Por se tratar de produto ainda não disponível no mercado, é importante levar em conta as ponderações de Murphy (1990: 79) quanto à subjetividade das técnicas atualmente em uso: O teste de nomes potenciais para produtos ou servi- ços ainda não existentes é excepcionalmente difícil. Na situação da pesquisa, existe o perigo real de os consu- midores atribuírem escores mais altos para nomes que soem mais familiares, rejeitando assim aqueles que são mais inovadores. (Tem-se discutido que, se Steve Jobs tivesse empregado técnicas convencionais de teste de nomes, a Apple Computadores teria sido chamada IRG Corporation, Compumax ou algum outro nome similar, pouco excitante. Também se a Revlon tivesse pesqui- sado a marca Charlie, poderia ter rejeitado este grande Semântica e Pragmática – 168 – nome em favor de um nome como Fleurs de Paris ou Arc de Triomphe). No momento da decisão final, o profissional de Marketing deve basear seu julgamento na sua familiaridade com o mer- cado, nas informações provenientes dos testes com consumi- dores, na assistência de profissionais de marcas e patentes e também na sua própria intuição. Atividades 1. Observe a letra da canção “Amor e Sexo” (RITA LEE, 2003), de Rita Lee, Roberto de Carvalho e Arnaldo Jabor, e faça uma tabela com duas colunas, uma para a palavra “sexo”, outra para a palavra “amor”. Trans- creva da canção as palavras ou expressões usadas pelos autores para ca- racterizar cada uma das duas. Ao final, interprete os dados recolhidos, tanto do ponto de vista conceitual quanto semântico, e responda qual dos dois substantivos é apresentado de modo mais favorável na canção. Amor é um livro. Sexo é esporte Sexo é escolha. Amor é sorte Amor é pensamento, teoremaAmor é novela. Sexo é cinema 05. Sexo é imaginação, fantasia Amor é prosa. Sexo é poesia O amor nos torna patéticos Sexo é uma selva de epiléticos Amor é cristão. Sexo é pagão 10. Amor é latifúndio. Sexo é invasão Amor é divino. Sexo é animal – 169 – Relações Semânticas – II Amor é bossa nova. Sexo é carnaval Amor é para sempre. Sexo também Sexo é do bom. Amor é do bem 15. Amor sem sexo é amizade. Sexo sem amor é vontade. Amor é um. Sexo é dois Sexo antes. Amor depois Sexo vem dos outros e vai embora. 20. Amor vem de nós e demora. 2. Tomando por base a imagem de uma constelação que Ferdinand de Saus- sure empregou para explicar as associações que as palavras mantêm entre si, parta da palavra “brancura” e forme duas séries de cinco palavras: uma apenas por razões formais, outra por razões morfossemânticas. 3. Complete os espaços abaixo coerentemente: a. A palavra “eletrodoméstico” é um hiperônimo destas cinco pala- vras: __________________________________________________ . b. Juquinha, Marina, Pedro, Tonhão e Luciana são hipônimos de __ _______________________________________________________ . c. Meu time é conhecido pela antonomásia _____________________ ________________________________________________________. d. A definição é “a saliência da cartilagem tireoide”, o nome popular é “gogó”, mas o epônimo é ________________________________. Relações Semânticas – III Este capítulo tem por objetivo identificar características semânticas do léxico, examinando os casos de paráfrase, perífrase, ambiguidade e polissemia. 10.1 Paráfrase Ocorre paráfrase quando um enunciado possui a mesma informação que outro enunciado no qual ele se inspira. Geralmente, quem parafraseia uma sentença, um parágrafo (ou mesmo um texto) executa uma tarefa de reescritura no âmbito do léxico e da morfos- sintaxe, e não deveria comprometer o teor informativo, descritivo ou opinativo do texto original. Para- (proximidade) + Frase (elocução) É, no entanto, improvável que uma paráfrase não deixe de apresentar alguma marca estilística ou ideológica de seu autor, que 10 Claudio Cezar Henriques Semântica e Pragmática – 172 – escolhe novos verbos, adjetivos, procura sinônimos, inverte sintagmas, muda os focos dos enunciados. Tudo isso tem alguma consequência pragmática, discursiva, sendo possível inclusive que o texto parafraseado fique melhor do que o original. Os dois pequenos parágrafos abaixo contêm um texto de divulgação. Um deles é o original, o outro é a paráfrase: 1. Às vésperas de completar 36 anos, Júlia decide ser mãe solteira. Assim começam nove meses de estudos, pesquisas e leitura de publi- cações especializadas. Em Perto do Ninho, Lídia Zoitman, um dos grandes nomes da literatura contemporânea, mostra que domina a arte do romance de humor e que conhece bem a alquimia do riso. 2. Júlia resolve ser mãe solteira quando está prestes a completar 36 anos. Serão nove meses estudando, pesquisando e lendo matérias especiali- zadas no assunto. Lídia Zoitman, um dos destaques da literatura atual, mostra em Perto do Ninho que o romance de humor é uma de suas especialidades e que a química do riso está na sua veia de escritora. Qual é o original? Qual é a paráfrase? Não é preciso responder, pois o obje- tivo aqui é mostrar que o trabalho de reescrever/repetir o que outra pessoa já disse é uma operação comum – e não representa falsidade ideológica, pois nos casos científicos e acadêmicos o recurso precisa estar devidamente acompanhado dos créditos de autoria (segundo Bakhtin... de acordo com Bechara... para Fiorin...). Agora, voltemos ao parágrafo do exemplo e imaginemos que a tarefa é reescrever a mesma informação para publicar numa revista jovem. A paráfrase vai ter de ser diferente, escolhendo palavras que pareçam mais adequadas aos leitores da revista: 3. Júlia já passou dos 35 e quer arranjar um filho numa produção independente. Vai ter que ralar nove meses traçando tudo que pintar sobre gravidez e parto. Essa é a história que Lídia Zoitman escreveu em Perto do Ninho. Ela é uma fera da literatura atual, saca tudo de romance de humor e escreve de um jeito bem maneiro. Os exemplos (1-3) mostram que há variados recursos a serem empre- gados cumulativa e simultaneamente na construção de trechos, períodos ou parágrafos inteiros parafraseados. Como mostra Ilari (2001, p. 140-61), uma – 173 – Relações Semânticas – III parte desses recursos consiste em aplicar transformações de caráter sintático, e outra parte depende do conhecimento do léxico e da capacidade de percepção das equivalências de palavras e construções. Vamos examinar, resumidamente, algumas das estratégias de redação contidas nos exemplos dados: Quadro 1 – Estratégias de redação. Exemplo (1) Exemplo (2) Exemplo (3) Às vésperas de com- pletar 36 anos prestes a completar 36 anos já passou dos 35 Júlia decide ser mãe solteira Júlia resolve ser mãe solteira Júlia quer arranjar um filho numa produ- ção independente Assim começam nove meses de estudos, pes- quisas e leituras Serão nove meses estu- dando, pesquisando e lendo Vai ter que ralar nove meses traçando tudo que pintar um dos grandes nomes da literatura contemporânea um dos destaques da literatura atual uma fera da literatura atual Fonte: Elaborado pelo autor. As mudanças podem ser apenas de palavra por palavra (decide X resolve) ou de locução por locução (às vésperas de X prestes a), mas também podem ser morfossintáticas (meses de estudo, pesquisas e leituras X meses estudando, pesqui- sando e lendo) ou simplesmente sintáticas (o exemplo 1 começa com o predica- dor da idade de Júlia X os exemplos 2 e 3 começam com o sujeito da oração). No caso do texto (3), o dado que se sobressai tem ainda um outro componente, a que chamaremos de “tom”. A paráfrase, nesse caso, depende do domínio de um outro recurso, além dos dois mencionados por Ilari. A equivalência de palavras e construções, em (3), é léxico-semântica e morfossintática, mas não é pragmático-discursiva, já que o vocabulário agora é mais coloquial, íntimo, jovem. Ele precisa estar adequado ao público a que se destina a informação sobre o livro escrito por uma “fera” da literatura – observe que, na minha frase, a palavra está entre aspas, mas no parágrafo hipotético da revista, ela não precisa- ria desse recurso gráfico, pois ali a gíria da juventude e o coloquialismo são o tom de redação esperado. Semântica e Pragmática – 174 – A paráfrase também pode ser usada como um elemento de sequencia- ção textual e tem por finalidade repetir com outras palavras o que o próprio texto disse. Nesse caso, a língua oferece certas expressões introdutórias típicas, como “isto é / ou seja / quer dizer / em outras palavras / em resumo / em síntese / em suma / ou melhor / explicando melhor”. (4) A cultura da elite engrandece personagens que na sua maioria não signi- ficaram nada para o país, mas que, por um fato considerado importante pela elite dominante, passou a ser um herói. Em outras palavras, a elite cria heróis ou fatos culturais que atendam às suas necessidades e que conduzam o povo a uma falsa admiração. (FOLHA DE IRATI, 2008) (5) Nos lares, nas ruas, nas cidades, por todos os lugares triunfam as nuli- dades, prospera a desonra, reina a corrupção, crescem as injustiças, multiplica-se a violência bestial, agiganta-se o poder dos maus. Em resumo, o mal está vencendo o bem de mil a zero. Só não vê quem não quer. (KHAREIS, 2008) (6) Um sinal de que a situação econômica das famílias está se degradando é o fato de que também aumentam as situações em que o casal tra- balha sem que seu rendimento mensal seja suficiente para suportar as despesas de habitação, alimentação e educação dos filhos. Em suma, a situação econômica de algumas famílias está piorando, e os serviços públicos preveem que no próximo ano letivo aumentem os pedidos de auxílio econômico escolar. (JORNAL DA BATALHA, 2008) Os três recortes de matériasde jornal mostram como o trecho que está à direita da expressão destacada repete (por condensação, reiteração ou reajuste informacional) o que foi dito antes. 10.2 Perífrase Ao se escrever um texto, eventualmente é preciso praticar uma ação de prolongamento frasal. Esse recurso pode ser empregado por uma simples necessidade retórica de “não se ir direto ao assunto”, mas também pode ser um vício de linguagem, caracterizando um uso excessivo de palavras na cons- trução de um enunciado que não chega a ser expresso totalmente ou com clareza. Nesse caso, o efeito vira defeito, e o que poderia ser uma boa estra- tégia de redação se transforma num fiasco, chamado na linguagem polida de “rodeio” e popularmente de “enchimento de linguiça”. – 175 – Relações Semânticas – III Peri- (em torno de) + Frase (elocução) Quando a técnica é bem-sucedida, dizemos que há uma perífrase expres- siva; quando é um problema textual, dizemos que há uma perífrase viciosa ou um circunlóquio. Vejamos alguns exemplos: 7. Convidamos a redação dos cadernos de cultura desse prestigioso jornal para um projeto intercultural de teatro contemporâneo em nossa cidade. Buscando a visibilidade como instrumento de nossa sustentabilidade, pedimos o apoio fundamental da imprensa. 8. Na sua multipluralidade significativa, a unidade da língua escrita situada entre dois espaços em branco muitas vezes vacila ao posicionar- -se definitoriamente na conceituação que expõe numa folha de papel. Há um circunlóquio na segunda frase do exemplo (7), que poderia dizer apenas: “Pedimos o seu apoio na divulgação”, ou seja, “Divulguem senão vai ser um fracasso”. O mesmo acontece em (8). Será que “a uni- dade da língua escrita situada entre dois espaços em branco” não poderia ser apenas “palavra”? No caso de “multipluralidade significativa”, o inte- ressante é uso hiperbólico do prefixo multi-, pois “pluralidade” já é algo múltiplo. Por fim, “ao posicionar-se definitoriamente na conceituação que expõe numa folha de papel” ficaria bem mais claro se fosse apenas “ao tentar definir um conceito”. 9. Hoje, às oito horas, terá início, em todo o território nacional, a colheita de votos na maior e mais importante consulta popular de toda a histó- ria republicana. Dos 11 milhões de eleitores inscritos esperam os par- tidos que compareçam às urnas um mínimo de 8 milhões, em todo o país. Observadores extrapartidários consideram, entretanto, esses cál- culos com algum pessimismo, levando em conta, sobretudo, a circuns- tância de não ter sido declarado feriado o dia de hoje. 10. A obra ceciliana é, ao mesmo tempo, universal e atemporal, porque pertence ao seleto grupo de autores que se sobrepõem ao seu tempo e a todos os tempos, e sua obra se eterniza. Emprega o português clássico e usa com o mesmo desembaraço metros e rimas variados. Semântica e Pragmática – 176 – 11. Não falte com a verdade, menina. Não é porque seu pai entregou finalmente a alma ao Criador que vamos esquecer que ele enrique- ceu por meios ilícitos. 12. Quero que o senhor indique qual é o lado maior desse triân- gulo retângulo. O exemplo (9) é a transcrição de uma notícia publicada no dia 3 de outu- bro de 1950, data em que haveria “a colheita de votos” (eleição) “na maior e mais importante consulta popular de toda a história republicana” (para Presidente da República). A linguagem jornalística da época era dada a perífrases, como também se percebe no longo objeto direto que encerra o parágrafo. Em (10), o texto acadêmico enaltece as qualidades de Cecília Meireles com um texto de tamanho ampliado. Se fosse para dizer o mesmo em poucas palavras, bastaria escrever “Cecília Meireles é uma ótima escritora, e sua obra é eterna”. Em (9-10), a perífrase expressiva foi usada para valorizar o texto, mas há casos em que ela pode ocorrer para suavizar uma ideia mais forte, como em (11), onde as três perífrases são por eufemismo: Não minta, menina. Não é porque seu pai morreu que vamos esquecer que ele foi um ladrão. Ou para tornar mais claro o entendimento, como em (12), onde não se usou o termo técnico “hipotenusa”. Vimos até aqui exemplos de perífrase lexical, em que o conceito a ser transmitido acontece por meio de uma expressão ou frase inteira, mas há também a perífrase morfológica, apresentada sob a forma de locução. Nesse caso, o vocábulo da esquerda é o auxiliar gramatical, e o vocábulo principal concentra o significado lexical. As conjugações perifrásticas (locuções cujo auxiliar não conserva sua significação verbal), as locuções adjetivas e as locu- ções adverbiais são alguns desses casos. 13. Lecionei numa escola do subúrbio, mas gostava de ver como os alunos estudavam com empenho. Em (13), empregou-se a locução adjetiva “do subúrbio” em lugar de “suburbano” e a locução adverbial “com empenho” em lugar de “empenha- damente”. O exemplo mostra que, as perífrases morfológicas têm uma finali- dade diferente da que vimos nas perífrases lexicais, pois não há nenhuma das três mencionadas justificativas que vimos em (9-12). – 177 – Relações Semânticas – III Quanto às conjugações perifrásticas, basta que nos lembremos dos seguintes tipos de locuções verbais do português: 2 verbo ter ou haver + particípio = tempo composto [tinham ou haviam saído]; 2 verbo ser ou estar + particípio de verbo transitivo direto = voz pas- siva [era, estava ou ficava cercado pelos alunos]; 2 verbo ir + infinitivo = aspecto aproximativo de ação ou estado [ia falar / vai ser]; 2 verbo estar + gerúndio (ou preposição “a” + infinitivo) = aspecto durativo [estou escrevendo ou a escrever]; 2 verbo ir (sem indicar ação) + gerúndio = aspecto durativo [vou escrevendo]. Os casos descritos excluem as locuções cujo auxiliar conserva sua signi- ficação verbal. Não há perífrase em locuções como “fomos conversando até o aeroporto”, “preciso sair”, “temos de conversar” etc. 10.3 Ambiguidade e polissemia A ambiguidade ocorre quando há duplo sentido. Isso significa que ela não é necessariamente um vício de linguagem, pois muitas vezes a usamos intencionalmente. Os textos de humor e de publicidade, por exemplo, lidam com a ambiguidade para atingir seus objetivos. 14. Quando eu era criança, todo mundo na minha casa tinha medo de “untar”. Era só chegar “untar” de cobrador que a tristeza tomava conta da tropa. 15. Pare de reclamar. Nunca mais você verá o seu carro sujo... Ele acaba de ser roubado! 16. Vende-se cama de solteiro dobrável... Depois que a pessoa casa, fica mais difícil de dobrar. Semântica e Pragmática – 178 – 17. — Pedrinho, diga quanto é o dobro de dois mais dois? — É oito, professora. — É seis, Joãozinho. — Como assim, professora?. — O dobro de dois é quatro; mais dois dá seis. Vê se presta mais atenção da próxima vez! 18. Conselho útil: A sua mãe disse que o seu jantar vai ser servido na mesa do seu quarto? Nessa hora só me resta perguntar: quem tem uma mesa no quarto, você ou ela? 19. “LINDA E SEM ROUPA”, diz a frase principal de um comercial de máquina de lavar roupa. Figura 1 – Comercial de lavadora. Fonte: Domínio público. 20. “De manhã... cedo; de tarde... cedo; de noite... cedo. Eu tam- bém estou solidário com a campanha de educação no trânsito” é a legenda de um prospecto do Departamento de Trânsito, cujo slogan é “Dirija sem violência, tenha fair-play ao volante”. 21. “O mundo todo só fala nele” – é a chamada de um comercial de telefone celular. – 179 – Relações Semânticas – III Como lembra Ullmann (1964, p. 323), “a ambiguidade é uma situação linguística que pode surgir por vários modos”, mas que do ponto de vista puramente linguístico pode ocorrer por razões fonéticas, gramaticais ou lexi- cais – mas acrescentamos: sempre no ambiente pragmático-discursivo. A ambiguidade fonética, obviamente, restringe-se à língua falada e ocorre geralmente pelas coincidências que podem existir entre palavras foné- ticas e palavras ortográficas, como se vê em (14), onde “untar” é combinação de “um+tal”. Na ambiguidadegramatical, é possível encontrar uma combina- ção de palavras apta a gerar dupla interpretação, como em (15-17), ou então ocorrer um emprego de palavra que, por admitir mais de uma referência gra- matical, também pode criar confusão, como se vê em (18) com o possessivo ambíguo. Na frase (19) a duplicidade de compreensão não é concomitante, pois a chamada do comercial parece associar os dois sintagmas a uma figura de mulher. Porém, como no português o gênero feminino não é prerrogativa de seres humanos, o entendimento inicial fica diluído quando se lê a frase seguinte, revelando que linda é a máquina de lavar. Os exemplos (19-21) mostram a ambiguidade lexical, feita em virtude da existência de casos de homonímia (20) e de polissemia (21) na língua. No caso de “cedo”, explorando-se a homonímia entre o advérbio de tempo e o indicativo do verbo. O recurso tem sucesso porque a frase do comercial começa com um par de termos que admite a duplicidade de compreensão: de manhã cedo X de manhã, eu cedo. Nos dois trechos seguintes, isso não é possível, pois não se diz o advérbio “cedo” junto das locuções “de tarde” e “de noite”. Na frase (21), “falar” é a fonte da ambiguidade, pois tanto pode ser usado literalmente (= conversar, fazer ligações telefônicas) como em sentido figurado (= comentar com intensidade). Para que haja homonímia, é preciso haver mais de uma palavra (como em “cedo”, o advérbio de tempo e a flexão do verbo). Para que haja polis- semia, só pode haver uma palavra (como em “falar”, com dois significados interligados a partir de uma única base semântica). Com isso chegamos a uma outra questão que envolve a polissemia, a continuidade de sentidos que uma palavra pode assumir (na homonímia, há descontinuidade). Ullmann (1964, p. 331) diz que “a polissemia é um traço fundamental da fala humana, que pode surgir de maneiras múltiplas” e cita as fontes que Semântica e Pragmática – 180 – poderiam explicitar esse fenômeno em uma língua. Adaptando-as um pouco à língua portuguesa, ei-las: 2 Mudanças de aplicação – um determinado item lexical pode expan- dir sua quantidade de sentidos graças ao emprego que ele abarca num determinado contexto de uso. Às vezes essas ramificações semânticas ocorrem em função do funcionamento da palavra na frase, como ocorre muito com os adjetivos. Em português podemos dizer que o adjetivo “belo” é sinônimo de “lindo” e significa “dotado de formas e proporções esteticamente harmônicas”, tendo como antônimo o adje- tivo “feio”. Mas, quando dizemos que uma pessoa apareceu um belo dia na nossa casa ou que vamos receber um belo aumento de salário, não haverá risco de alguém pensar que “belo dia” é o mesmo que “bonito dia” ou que um “belo aumento” é o contrário de “feio aumento”. 2 Especialização num meio social – um item lexical pode adquirir um certo número de significados específicos, cada qual aplicável em determinado campo de ação e atuação. A palavra “cadeira”, num ambiente acadêmico, não significa apenas “peça do mobiliário”, mas pode ser um sinônimo de “disciplina”, palavra que também tem um sentido restrito ao meio escolar, onde quer dizer “maté- ria de ensino”, diferente do significado comum de “obediência às regras e aos superiores”. 2 Linguagem figurada – um item lexical pode assumir um ou mais sentidos figurados, que coexistem lado a lado sem se confundi- rem e sem haver a perda do seu significado original. Aqui as novas acepções ocorrem por ação da metáfora ou da metonímia, figuras fundamentais para a atividade da língua. Na linguagem contempo- rânea, a palavra “monstro” assumiu o papel de qualificador positivo (liquidação monstro, comício monstro), e o verbo “chutar” expandiu seu uso no jargão esportivo e pode ser usado quando um joga- dor de basquete arremessa (= chuta) uma bola para a cesta: ambos por metáfora. Uma acepção nova, por metonímia, aconteceu com a palavra “trilha”, usada para representar a música que toca num filme ou numa novela: a “trilha” e o “trilho”, confundidos com os – 181 – Relações Semânticas – III sulcos dos antigos discos de vinil, passam a representar a música que passa por esses trilhos, trilhas ou sulcos. 2 Parônimos reinterpretados – dois itens lexicais de som semelhante e de significação diferente (de fato ou supostamente) tendem a ser con- siderados uma única palavra com dois sentidos ou então passam a ser duas palavras com uma única pronúncia. Ou seja, mudam do grupo da paronímia para o da polissemia (uma palavra com dois sentidos) ou o da homonímia (duas palavras com uma pronúncia), conforme o caso. É o que se chama “etimologia popular”. Assim, “fusível” vira “fuzil”, “fígado” vira “figo” (criando homonímias, pois os significados não são aproximáveis) e o verbo “soltar” assume o significado de “sol- tar” quando uma pessoa diz que vai “soltar do ônibus” (nesse caso, há polissemia, pois a significação dos dois verbos é aproximável). 2 Influência estrangeira – um item lexical já existente na língua sofre influência da importação do significado de uma palavra estran- geira, o que cria a coexistência dos dois significados, o antigo e o novo, e origina a polissemia. O substantivo “cachorro” é, hoje, no português, sinônimo de um tipo de sanduíche de salsicha, acepção oriunda da importação do anglicismo “hot-dog”. De todo modo, pode-se dizer que a polissemia é um fenômeno bastante comum numa língua, servindo como um fator de economia e de flexibilidade para o léxico. Como lembra Ilari (2002, p.151), a polissemia “afeta a maioria das construções gramaticais”. Seu exemplo mostra o caso do aumentativo dos nomes, como acontece com a palavra “Paulão”. As razões para que alguém seja assim chamado podem ser muitas: “porque é alto, porque é grande, por- que é grosseiro, porque é desajeitado, porque é uma pessoa com quem todos se sentem à vontade.” Como conclui Ilari, é mesmo “difícil dizer até que ponto vale cada uma dessas explicações”, já que “da ideia de tamanho passa-se à de um certo modo de ser e de relacionar-se.” Se procurarmos no âmbito morfossintático, também encontraremos a polis- semia, responsável por alterações na regência de alguns verbos. Foi a aproximação dos sentidos de verbos como “demorar”, “custar” e “faltar” que fez com que se identificassem suas regências, pelo menos na linguagem do cotidiano. 22. (Ela) demorou a fazer um sinal para nós. Semântica e Pragmática – 182 – 23. (Ela) custou a fazer um sinal para nós [em vez de Custou-lhe fazer um sinal para nós./ Custou a ela fazer um sinal para nós]. 24. (Ela) faltou fazer um sinal para nós [em vez de Faltou-lhe fazer um sinal para nós / Faltou a ela fazer um sinal para nós]. Os três verbos parece que assumiram os significados uns dos outros, ou seja, cada um ganhou uma nova acepção, a qual está em processo de incorporação à língua padrão (HENRIQUES, 2008c, p. 49). Como mostram esses exemplos, [...] uma análise voltada para a variação dos meios ou dos modos de expressão de significados semelhantes leva à percepção de que os fenô- menos de transferência de significado envolvem tanto a seleção lexical quanto a seleção de estruturas discursivas que são utilizadas metáforas ou metonímias. (MARQUES, 1990, p. 158) A conclusão a que se chega nos estudos semânticos é que, dentro dos mecanismos em uso na estruturação da língua, as redes de significação do léxico geral estão sempre em condições de estabelecer uma conexão de sen- tido. Cabe ao falante colocar em funcionamento esse sistema que está à dis- posição de todos os membros de uma comunidade idiomática. Ao estudioso compete observar, descrever, interpretar e analisar – semanticamente também. Ampliando seus conhecimentos De quando o povo modifica o povo: a etimologia popular influenciando a vida de toda uma comunidade (SIQUEIRA, 2008, p. 1) Cidade Ocian é um dos trinta e dois bairros do município de Praia Grande (SP). O local como hoje se conhece tem suas origens datadas da década de 1950, impulsionadas pela construçãode 22 prédios, num total de aproximadamente 1 600 apartamentos e é hoje um dos bairros mais importantes de Praia Grande, com mais de 10 mil moradores, cerca de 4% – 183 – Relações Semânticas – III da atual população do município que, em 2008, tinha cerca de 250 mil habitantes. Esta grandiosa obra, inaugurada em 27 de maio de 1956, quando Praia Grande ainda pertencia a São Vicente (desmem- brou-se em 19 de janeiro de 1967), foi considerada até 1960, ano de fundação de Brasília, “a cidade mais bem planejada” e “a estrutura urbana mais moderna do Brasil”, como afirma o número 28 do Informativo Cultural da Associação Centro de Estudos Amazônicos de Praia Grande, de abril de 1980. Fonte: Prefeitura Municipal de Praia Grande. Figura 1 – Edificações. O conjunto de edificações (figura 01) e, por consequên- cia, todo o bairro ganharam a alcunha de “Cidade Ocian” devido à infraestrutura, que não era encontrada nem mesmo em cidades emancipadas, e à sigla OCIAN da empresa res- ponsável pela execução da obra, a Organização Construtora e Incorporadora Andraus (figura 2). Semântica e Pragmática – 184 – Fonte: Prefeitura Municipal de Praia Grande. Figura 2 – Transporte. A Cidade Ocian tinha – e ainda tem, mais de 50 anos depois de sua inauguração – como seu símbolo-maior a estátua de Netuno, localizada (figura 3) defronte à atual praça Roberto Andraus e ao Espaço Ocian. [...] O tempo passa, os mais velhos se vão e deixam seus lugares aos mais jovens. Muitas vezes, nessas idas e vindas, a história se perde. Alguns anos depois de sua fundação, o bairro passou a ser grafado, nos mais diversos locais, como Cidade Ocean ou, simplesmente, Ocean (figuras 4 e 5). Temos aí um caso típico de etimologia popular, que se deu no âmbito vocabular, pois a alte- ração se concretiza apenas na grafia e não na fonética. As razões estão intimamente ligadas à forte presença da estátua de Netuno – marco que presenciou a comemoração de muitas conquistas do município, como a vitória do plebiscito pró-emancipação político-administra- tiva, em 1963, quando muitas pessoas se reu- niram em volta do Netuno, festejando o fato Fonte: Domínio público. Figura 3 – Netuno. – 185 – Relações Semânticas – III entusiasticamente. Além disso, trata-se de um bairro praiano (é bom lembrar que “ocean” significa “oceano”, em inglês). Há ainda de se ressaltar que o nome de um dos logradouros mais importantes da Cidade Ocian é a Rua Oceânica Amábile (figura 6), situada paralelamente às avenidas D. Pedro II e Vicente de Carvalho, principal corredor comercial do bairro. Fonte: Domínio público. Figura 4 – Banca Ocean. Fonte: Domínio público. Figura 5 – Grafia. Semântica e Pragmática – 186 – [...] A grafia “Ocean” também é encontrada em muitas pro- pagandas e anúncios (figura 5), sendo curioso observar como são detectadas as duas formas num mesmo impresso comer- cial, o que permite deduzir que há uma convivência entre elas e que ambas permitem plenamente a mesma recepção. [...] A presença maciça da grafia com “e” em vez de “i” (Ocean) é bastante percebida em websites, chats e páginas de relacio- namento da internet. Muito provavelmente, isso se deve ao fato de os internautas moradores de Ocian desconhecerem a história oficial do bairro, ou terem sofrido influência, desde a infância, da variante irregular, só reconhecendo essa grafia por julgarem-na padrão. Fonte: Google Maps. Figura 6 – Mapa. Mesmo com o esforço do poder público de, ao longo dos anos, vir substituindo placas grafadas erroneamente, com o intuito de divulgar o nome e a história oficiais da Cidade Ocian, só o tempo poderá elucidar qual a forma que haverá de prevalecer, com Netuno a espreitar a sucessão de aconte- cimentos desse dilema. – 187 – Relações Semânticas – III Atividades 1. Por não existir como reproduzir a entonação, frases imperativas po- dem gerar mal-entendidos. Redija quatro frases que exemplifiquem o emprego do modo imperativo exprimindo ideias de ordem, conselho, convite, pedido. Depois interprete cada uma delas e explique as pos- síveis ambiguidades discursivo-pragmáticas. 2. Complete as lacunas coerentemente. a. “Palmeiras joga com o Bahia no seu campo” – a manchete do jor- nal contém ambiguidade porque _______________________ ________________________________________________ . b. O jornalista recebe a tarefa de escrever uma coluna para a revista. O espaço é limitado em algo equivalente a uma folha de caderno, mas o tema é amplo: A História da República no Brasil… Uma das coisas que, com certeza, o jornalista vai fazer é evitar as perí- frases, pois _________________________________________ _________________________________________________ ________________________________________________ . c. Uma frase solta como “vou deitar e rolar” pode servir para ilustrar a diferença entre a linguagem literal e a linguagem ___________ _______________________ . Na primeira hipótese, a expressão significa ___________________________________________ _________________________ ; na segunda, ______________ _________________________________________________. d. O jornal diz: “O escritor colombiano Gabriel García Márquez, ganhador do prêmio Nobel de literatura em 1982, publicará antes do fim de 2008 um novo livro sobre o amor.” Se quiséssemos rees- crever essa frase aumentando consideravelmente seu tamanho, um dos resultados poderia ser: _________________________ _________________________________________________ ________________________________________________ . Semântica e Pragmática – 188 – 3. Para Barbosa (1996, p. 245-249), um item lexical polissêmico é aque- le que preserva uma unidade de significado, isto é, a sua unidade é garantida pelo núcleo semântico comum aos múltiplos setores de traços semânticos. Com efeito, esse núcleo comum é que permite ao falante identificar um único signo linguístico em suas diferentes realizações no discurso. 4. A partir dessas considerações, reconheça, entre as frases abaixo, aque- las que contêm no par destacado um exemplo de polissemia. a. Não beberei suas palavras nem brindarei às suas ideias. b. Parto sem dor para fazer o parto do meu amor. c. Não me compete decidir quem poderá competir nas Olimpíadas. d. A roupa de quem está no xadrez não devia ser listrada, mas xadrez. e. À noite, não use o farol alto quando passar por algum cruzamento com farol. f. “Sonhei que estava sonhando e que no meu sonho havia um outro sonho esculpido”. (Drummond) g. “A morte não existe para os mortos.” (Drummond) h. “Esse amanhecer mais noite que a noite.” (Drummond) Elementos centrais dos estudos da pragmática Neste capítulo, abordaremos as bases de estudos das teo- rias pragmáticas. Apesar de contemporaneamente os pesquisadores desta área não mais se debruçarem sobre os aspectos que abordare- mos aqui, todo o alicerce do que é feito modernamente parte dos pressupostos assumidos por Herbert Paul Grice (1975), presentes no texto fundador que discutiremos neste capítulo. Veremos o que é o Princípio de Cooperação, o que são as máximas conversacionais – são conceitos norteadores dos diálogos que temos – e como isso tudo estrutura a pragmática como uma disciplina com bases cientí- ficas e filosóficas coerentes. 11 Marina C. Legroski Semântica e Pragmática – 190 – 11.1 O jogo linguístico Dentro da linha filosófica que vamos adotar aqui, pensar em estudos pragmáticos é, antes de mais nada, pensar na língua em uso da mesma maneira que se pensa num jogo já iniciado em cima de um tabuleiro, isto é, já mon- tado e sem ordem. A comparação com o jogo não é gratuita: é Wittgenstein (2010[1958]) que a coloca dessa maneira. Mas, aqui, tomamos a liberdade de empreender uma comparação de forma mais livre. Antes de começar um jogo, pegamos um manual e vemos as regras, o valor de cada peça, a forma como cada uma se movimenta, a ordem em que cada jogador terá a sua vez, se o número de casas andadas será contado por pontos ou por um dado e seé necessária uma ampulheta ou algo do tipo, por exemplo. Uma vez que o jogo começa, acordos que não estão nas regras podem ser feitos, tais como: se perdemos a ampulheta que vinha na caixa, podemos contar o tempo com o cronômetro do celular; se alguém esqueceu de olhar o tempo, o outro jogador pode ganhar alguns segundos a mais na sua vez; alguém pode fazer dois movimentos em seguida por alguma razão qualquer e, então, todos ganham o mesmo direito; casais que estejam jogando juntos podem vir a ser separados para não formarem uma dupla mais forte que as demais, e assim por diante. Portanto, novas regras podem ser estabe- lecidas, mesmo que não estejam antecipadamente no manual, desde que os participantes entrem em acordo. Porém, isso não necessariamente valerá para todas as outras partidas, pois quando formos jogar o mesmo jogo, com as mesmas peças, em outro espaço, com outros participantes, esses novos acor- dos podem não ser aceitos. No entanto, aquelas regras que estão previstas no manual ainda deverão ser mantidas. Com base nessa metáfora, olhamos agora para o funcionamento da lín- gua. Podemos observar que há nela uma parte estável na sua significação, que comparamos com as regras do jogo. Essa parte é o básico compartilhado por todos os falantes: os componentes lexicais, morfológicos, sintáticos e semânti- cos. Mas, alguns desses componentes podem ser negociados quando os parti- cipantes começam o jogo e essa negociação pode depender de fatores externos, (como a falta da ampulheta, no exemplo do jogo) ou de fatores internos (como o exemplo do casal que não poderia ficar no mesmo time). – 191 – Elementos centrais dos estudos da pragmática Os fatores externos, no caso da língua, podem ser entendidos como aqueles puramente contextuais, relacionados à conjuntura situacional, como o espaço onde os interlocutores se encontram, os objetivos que têm em comum, o tipo de ambiente em que estão. Já os fatores internos dizem respeito ao conteúdo linguístico que com- partilham, informações que já possuem em relação ao assunto ou a eles pró- prios, estruturas gramaticais, a forma de montar as sentenças, o vocabulário que compartilham, os sons da língua que falam etc. Nesse sentido, vemos que até mesmo uma simples sentença que pode parecer uma afirmação sobre um estado de coisas no mundo, como (01) a seguir, pode ter mais que apenas um significado, a depender desses fatores internos e externos que comentamos. Vejamos: (01) O Pedro lava a louça todo dia. Assim, isolada de contexto, (01) parece apenas uma informação que estou dando a você a respeito das atividades cotidianas realizadas por Pedro. Isso é uma informação que qualquer falante, independentemente de conhe- cer essa pessoa e seus hábitos, vai conseguir interpretar apenas pelo conteúdo linguístico que está sendo veiculado na sentença. Porém, se você conhece Pedro, sabe quem ele é – por exemplo, meu primo, e eu o estou convidando para sair, e minha tia se posiciona contra- riamente porque ele ainda não fez as suas tarefas domésticas diárias –, isso pode soar como um apelo. Em outro contexto, se estou ouvindo uma amiga reclamar que o marido não faz nada em casa, (01) pode ter sido usada como um argumento de que, por lavar a louça todo dia, Pedro acha que não precisa fazer mais nenhuma tarefa em casa. Em outras palavras, não é o valor linguístico de (01) que significa “deixa meu primo sair comigo” ou “comece a fazer algo a mais porque você também mora aqui”, mas o conteúdo que está além do que é dito, ou seja, o conteúdo proferido pelos falantes que, sendo somados às informações que são compar- tilhadas pelas pessoas que estão ali, naquela interação, constituem o sentido final daquilo que se objetivou dizer. Semântica e Pragmática – 192 – Para que a relação entre o conteúdo proferido e a as informações parti- lhadas entre os interagentes da situação de comunicação fiquem mais claras, vamos explicitar melhor alguns conceitos nos itens a seguir. Mas, primeira- mente, vamos dar uma olhada em como surgiu o olhar para esses fenômenos. 11.2 Grice, o princípio de cooperação e as máximas conversacionais Talvez o texto mais famoso sobre pragmática seja Lógica e conversação, escrito por Grice para ser proferido como uma aula de Filosofia1 em 1967. Como outros filósofos do seu tempo, Grice estava inserido no espírito da época, tecendo considerações em torno do fato de que língua, pela filosofia, como um objeto lógico, deixava de fora aspectos importantes e, principal- mente, regulares. Nos capítulos sobre semântica, você viu que essa disciplina procura estu- dar o aspecto estável do significado, aquele relativamente independente de contexto, ou seja, a parte que, em maior ou menor grau, é compartilhada por todos os falantes de uma mesma língua2. Sendo assim, teria ficado para a pragmática se debruçar sobre tudo o que não fosse regularizável; que depen- desse da situação, dos participantes, das circunstâncias, como se nada mais além do que é estritamente estável pudesse ser previsto ou generalizável3. É nesse contexto que o texto de Grice se torna tão famoso: o que ele tenta fazer é, pela primeira vez, uma generalização a respeito de como somos 1 As William James Lectures são uma espécie de aula-magna, ministradas em Harvard, organiza- das pelos departamentos de Filosofia e Psicologia, com professores convidados. Esse projeto foi iniciado em 1930, em homenagem ao filósofo William James, mas continua até hoje, sempre com a presença de pesquisadores relevantes para essas áreas. 2 Evidentemente, a dimensão do que é “a mesma língua” e “outra língua” não nos cabe discutir aqui, mas podemos tomar por base que o significado de uma palavra também é parte do limite da língua (pense em casos como cafeteria em inglês e português ou propina em português e espanhol). 3 Conferir, por exemplo, o clássico texto de Bar-Hillel (1982), que tratou das expressões in- diciais, mostrando que existem fenômenos relativamente estáveis ainda que sejam, ao mesmo tempo, relativamente contextuais. – 193 – Elementos centrais dos estudos da pragmática capazes de inferir coisas que não foram ditas com todas as palavras, ou seja, aquela capacidade que todos nós temos de ler nas entrelinhas. 11.2.1 O princípio de cooperação Para tal, Grice (1975) parte do princípio de que todos os seres humanos que vivem em comunidade cooperam uns com os outros em determinados momentos, principalmente em tarefas nas quais os participantes possuem um objetivo em comum, ainda que aquele objetivo seja circunstancial. Por exemplo, se eu paro na beira da estrada com um pneu furado, meu objetivo é trocar o pneu. Se para alguém do meu lado e me oferece ajuda, o objetivo dessa pessoa passa a ser o mesmo que o meu. Não importa que a pessoa que parou tenha a intenção de me ajudar a trocar o pneu porque, na verdade, ela quer roubar, por exemplo, o meu carro e eu ainda não sei disso: o caso aqui é que, com pneu furado, nem eu nem ela poderemos rodar. Então não haveria contradição em nos ajudarmos mutuamente, porque eu não sei ainda que a pessoa quer roubar meu carro. Em termos de conversação, podemos imaginar que cooperamos quando uma pessoa fala conosco e nos engajamos naquele diálogo, seja pelo objetivo que for – ainda que seja o simples e corriqueiro objetivo de fazer o tempo passar enquanto estamos no ponto de ônibus. Uma vez que a conversa está estabelecida, passamos a imaginar que aquela pessoa está envolvida com o mesmo objetivo e, portanto, também assumimos que ela está colaborando. É quase como se fosse um contrato tácito, um pacto social que aceitamos na medida em que nos engajamos naquela interação. Nas palavras de Grice Nós podemos então formular um princípio geral, em que será espe- rado dos participantes, desde que se mantenham inalteradas todas as outras coisas: Dê sua contribuição à comunicação na maneira soli- citada, no momento em que ela ocorre, pelo objetivo reconhecido da comunicação de que você está participando.Pode-se intitular isso como o Princípio da Cooperação. (GRICE, 1975, p. 45) Isso não quer dizer que necessariamente todas as conversas se deem dessa maneira. Existem casos em que, claramente, vemos que as pessoas não estão cooperando, ou porque não querem falar – quando sabemos que elas estão Semântica e Pragmática – 194 – mentindo – ou porque optam por falar em alguma língua estrangeira, por exemplo. Mas, o ponto principal é que grande parte das trocas comunicativas que temos no nosso cotidiano se estabelecem assim e é por isso que as toma- mos como um princípio, pois é o que fazemos e o que esperamos dos outros se nada mais estiver indicando o contrário. 11.2.2 As máximas conversacionais Inspirado em Kant, Grice (1975) propõe quatro categorias pelas quais esse princípio pode ser realizado, ou mesmo verificado, divididas em fórmulas que ficaram conhecidas como máximas conversacionais. Segundo o próprio autor, poderiam ser outras, ou mesmo chamadas por outros nomes (e, como veremos adiante, a literatura posterior as acabou adaptando), mas que servem para entender o funcionamento dialógico. Nenhuma delas é mais ou menos importante ou frequente que a outra: todas são observáveis e foram assim dispostas pelo próprio autor. Na categoria de quantidade, poderíamos verificar duas máximas: “i) Faça sua contribuição tão informativa quanto é solicitado (para os objetivos em questão da conversa) e ii) Não faça a sua contribuição mais informativa do que é solicitado” (GRICE, 1975, p. 45). Em seguida, na categoria qualidade, teríamos uma grande máxima (“tente fazer uma contribuição verdadeira”) que poderia se dividir em: “i) Não afirme aquilo que você acredita ser falso e não diga aquilo para o que você não tem evidência” (GRICE, 1975, p. 46). Sobre a categoria de relação, existe apenas uma máxima: “seja relevante” (GRICE, 1975, p. 46), que o autor considera que, por ser assim, concisa, levanta várias questões sobre o que seria ser relevante nos diversos contextos interacionais. Como veremos mais adiante, existe uma teoria que emergiu a partir dessa máxima. A categoria de modo (ou maneira) diz respeito à forma como fazemos nossa contribuição e não ao conteúdo do que é dito, como as outras. Grice apresenta uma máxima mais abrangente, “seja perspicaz”, e a divide da seguinte maneira: “i) Evite a obscuridade da expressão; ii) Evite ambiguidade; iii) Seja – 195 – Elementos centrais dos estudos da pragmática breve – e evite complicações desnecessárias, iv) Seja ordenado (GRICE, 1975, p. 47) e assim por diante, segundo o autor. Mas, como verificamos, o papel das máximas é o de estabelecer em que termos as trocas conversacionais se dão, não o de ser Os dez mandamentos de uma comunicação. As máximas descrevem, portanto, uma situação padrão, sem maiores intercorrências. E, como bem sabemos, não é sempre o caso de termos conversas desse tipo. 11.3 Violação das máximas, inferências e implicaturas No entanto, quando alguma dessas máximas é violada, afetando alguma das categorias que esperamos encontrar na conversação, é possível, ainda, extrair significado daquela interação. Isso ocorre porque, como vimos, espe- ramos que a pessoa com quem falamos esteja sendo cooperativa e, portanto, mesmo que uma máxima seja violada, o princípio geral continua valendo. Nesse sentido, temos um processamento de informações que acontece mais ou menos da seguinte forma como podemos observar em (02). (02) [Contexto: Duas pessoas estão conversando a respeito de filmes. A pessoa B não assistiu ao filme citado por A.] A: E de Star Wars? Você gosta? B: As pessoas falam muito bem desse filme, né? Como vimos anteriormente, todos somos capazes de inferir algumas informações que não estão sendo explicitamente ditas em determinado diá- logo. No caso (02), eu contei para você que a pessoa B não sabia falar com muita propriedade sobre o assunto. Mas, se você não soubesse disso, talvez até fosse capaz de imaginar uma sequência como (03): (03) A: Mas eu perguntei a sua opinião. O falante B deu menos do que a informação requerida por A. Sabemos que ele fez isso porque não assistiu ao filme e, de certa maneira, isso fica implícito no que ele disse, porque ele não foi capaz de responder “Eu gosto” Semântica e Pragmática – 196 – ou “Eu não gosto”, usando opiniões de outras pessoas ao invés da sua própria. Ao conteúdo que fica implícito, chamamos de implicatura. Porém, nem sempre sabemos todas as informações que estão no con- texto, como no caso exemplificado. Imagine a seguinte situação: (04) [Contexto: É o primeiro dia de aula e é a primeira vez que determi- nado professor (A) vai ministrar a disciplina. O aluno (B) fala.] A: Eu vou utilizar o livro X. Fiz essa escolha porque ele é mais barato e mais fácil de ser encontrado. Sei que não é o mesmo que o outro pro- fessor usava... B: É a terceira vez que eu estou cursando essa matéria. Espero não ser reprovado dessa vez. Como não temos mais informações sobre esse contexto, somos levados a refletir sobre o que o aluno quis dizer com essa frase, que não era uma colabo- ração informativa, ou necessariamente verdadeira, ou, ainda, relevante para o professor naquela situação. Tratava-se de uma ameaça velada? De um pedido de socorro? Seria um pedido para não precisar comprar um terceiro livro? Muitas são as razões pelas quais podemos violar as máximas. Grice (1975) mostra, inclusive, que podemos ferir algumas para proteger as outras. Por exemplo, quando não temos informação de qualidade (ou porque não podemos provar ou porque não temos certeza), podemos dar menor quanti- dade do que foi solicitado – como no exemplo (02). Nas palavras do próprio autor, alguém que profere uma sentença i. Pode calma e desapercebidamente VIOLAR uma máxima; se isso acontecer, em alguns casos, ele pode tender a induzir a erro. ii. Pode RECUSAR tanto as operações das máximas quanto o princí- pio de cooperação; pode dizer, indicar ou permitir que fique claro que ele está se recusando a cooperar da forma que a máxima requer. Ele pode dizer, por exemplo, “não posso mais falar; meus lábios estão selados”. – 197 – Elementos centrais dos estudos da pragmática iii. Pode enfrentar um CONFLITO: ele pode estar incapacitado, por exemplo, de atender à primeira máxima de Quantidade (“Seja tão informativo quanto o solicitado”) sem violar a segunda máxima de Qualidade (“Tenha a evidência adequada para aquilo que você está dizendo”). iv. Pode DESPREZAR uma máxima; quer dizer, ele DESCARADAMENTE pode falhar em cumpri-la. Assumindo-se que o falante possa cumprir uma máxima sem violar outra (por conta de um conflito), não a está recusando, e nem está, dada a evidência do seu ato, tentando induzir alguém ao erro, o ouvinte se depara com um pequeno problema: como pode, dizendo o que disse, este falante estar de acordo com a suposição de que esteja observando o PC? Essa situação é a que caracteristicamente dá ori- gem a uma implicatura conversacional; e quando uma implica- tura conversacional é gerada, dessa forma, eu devo dizer que uma máxima está sendo utilizada. (GRICE, 1975, p. 49, grifos nossos) Essa é a regularidade encontrada por Grice (1975) nas conversações que indicamos no início do capítulo. Para este autor, tal regularidade é um jogo de linguagem tão conhecido que todos sabemos que as máximas são assim e que estão disponíveis para todos, por isso somos capazes de utilizá-las para dizer coisas de uma maneira diferente. Em outras palavras, quando nos utilizamos das máximas, estamos con- tando com a capacidade do nosso interlocutor perceber que violamos, de maneira direta, uma das máximas que era esperado que não violássemos. E que ele seja capaz de atribuir algum sentido a essa violação, sendo coerente com o contexto que circunda esse diálogo. O raciocínio que está por trás de tentarmos entender o que a pessoa quis dizer, uma vez que ela parece ter violado uma (ou mais) das máximas conver- sacionais é chamado de cálculoinferencial. Existe uma diferença importante entre inferência e implicatura conversacional que muitas vezes não é capturada pelos manuais de pragmática disponíveis: inferência é o processo que os falan- tes da língua fazem para tentar entender o que o outro quis dizer; implicatura é o efeito gerado com aquela fala, seja ele intencional ou não. No exemplo Semântica e Pragmática – 198 – (04), o aluno pode não ter tido a intenção de ameaçar, por exemplo, o que não impede que alguém tenha entendido sua fala dessa maneira. 11.3.1 Exemplos de violação das máximas Cada uma das máximas pode ser violada, como vimos nas palavras do próprio autor. Veremos, a seguir, alguns exemplos de diálogos que se utilizam de violações e o tipo de significação que elas produzem. 11.3.1.1 Violação de quantidade [Contexto: Mãe sabe que o filho anda doente porque está se alimen- tando mal, mas o filho mora sozinho e tem muita preguiça de cozinhar.] Mãe: Você comeu alguma coisa hoje? Se alimentou direitinho? Filho: Ai, mãe. Minha amiga veio aqui. Fica nítido, pelo teor da conversa, que o filho deu menos informação do que o desejado pela mãe. No entanto, pela resposta, não é possível afirmar que ele não tenha comido direito. Pode-se inferir, pelo fato de ele ter dito “minha amiga veio aqui”, que ele tenha feito comida porque recebeu visita, que ela possa ter levado comida, ou feito a comida, ou que os dois possam ter saído juntos para comer. Dessa maneira, ainda que a quantidade de informa- ção não seja suficiente dentro do solicitado pela mãe, é possível fazer alguma inferência a respeito da pergunta que ela fez. 11.3.1.2 Violação de qualidade [Contexto: O professor entrega as provas. Todos sabem que A nunca estuda para a prova, mesmo que tire notas cada vez mais baixas.] A: Nossa, um 0 de vez em quando é bom pra dar uma variada! Ao afirmar uma coisa que o falante sabe que é falsa e que todos os ouvin- tes também sabem que é falsa, ele ostensivamente viola a máxima “não diga o que acredita ser falso”. Dizendo isso, ele pode estar querendo produzir algum efeito cômico, ou uma ironia, conforme podemos notar. – 199 – Elementos centrais dos estudos da pragmática 11.3.1.3 Violação de relação [Contexto: O casal está conversando sobre o que comer no jantar. Um deles é reconhecido por ser péssimo cozinheiro.] A: O que será que eu cozinho para a gente hoje? B: Hoje não é dia de promoção na pizzaria da esquina? A pessoa B, sabendo que A não cozinha muito bem, rapidamente res- ponde algo que viola a máxima “Seja relevante”, ou seja, não tem relevância4 imediata para a pergunta que A fez. Porém, dada essa descontinuidade na comunicação, podemos inferir pela resposta que B não quer comer a comida que A cozinha, ou que B prefere comer pizza, ou que B prefere dar o assunto proposto por A como encerrado. Também podemos imaginar que B prefere não ofender, ou que A não gosta muito de ser contrariado, e muitas outras suposições das quais trataremos um pouco mais adiante. 11.3.1.4 Violação de modo [Contexto: Locutor de propaganda de TV: Esse é o revolucionário Rotator. Ele não é só mais um aparelho: com ele você pode fazer diver- sas coisas. Ele é a união de vários utilitários em um só! Chega de gastar dinheiro em várias peças que apenas ocupam espaço e não cumprem aquilo que prometem! Basta de produtos de difícil manuseio que só atrapalham a sua vida. Rotator é prático, é leve, é moderno! Rotator tem a nova tecnologia Rotation360, que tem nanoesferas siliconizadas que atuam ionicamente garantindo o turbilhonamento! Veja essa simu- lação no microscópio! Mas não é só isso! Ligando agora, você adquire mais essa sensacional oferta: o Mini Rotator portátil. Ideal para carregar na bolsa, na mochila, para passeios ou até mesmo viagens! Ligue já e adquira o seu Rotator!] Como verificamos, violar qualquer uma das máximas da categoria de modo diz respeito a, pela forma, tornar a mensagem veiculada um pouco mais custosa a ser interpretada. O texto que você leu é fictício, mas parece com alguns que já viu por aí. Parece que, por falar tantas coisas ao mesmo 4 Veja o capítulo Estudos atuais em pragmática, na sequência. Semântica e Pragmática – 200 – tempo, usar palavras desconhecidas, repetições, clichês e vários adjetivos sem de fato chegar a um ponto, o anúncio não passa credibilidade. Ou seja, vemos algo que viola as máximas “Seja breve”, “Evite obscuridade”, “Seja ordenado”. Qual a intenção comunicativa? Pode-se fazer várias inferências a partir daí. 11.3.2 Propriedades das implicaturas Grande parte do jogo pragmático, como vimos, se estabelece como uma soma de fatores linguísticos e extralinguísticos, que dependem de princípios que podem fugir do nosso controle. Tudo se estabelece em um jogo que pre- cisa mais ou menos do seguinte vai-e-vem de informações: A diz q; B ouve q mas entende que B não tem razão para dizer q, a não ser porque não pode ou não quer dizer q; A espera que B seja capaz de fazer esse raciocínio; portanto, B infere que p. Ou, nas palavras de Levinson F diz que p produz conversacionalmente a implicatura q se e somente se i. Se presume que F está observando as máximas ou, pelo menos (em caso de infrações), o princípio cooperativo; ii. Para preservar essa suposição, deve-se supor que F pensa que q iii. F pensa que F e o destinatário O sabem mutuamente que O pode calcular que se exige q como condição para que a suposição (i) seja confirmada. (LEVINSON, 2007, p. 140) São tantas conjecturas e hipóteses feitas no meio do caminho que isso pode dar bastante errado. E, portanto, tem que haver uma maneira de cance- lar esse processo em algum momento. E há. Justamente por não serem ditas explicitamente, e por estarem apenas no campo do implícito, as implicaturas conversacionais são canceláveis, ao contrário das pressuposições e acarretamen- tos, que, por estarem no campo das relações semânticas, não são. Vejamos os exemplos a seguir. (05) Abílio começou a fumar. Quando dizemos isso, interpretamos que, antes do momento que essa sentença focaliza como tempo presente (que pode ser um intervalo maior ou menor de tempo), Abílio não fumava; isso está pressuposto no conteúdo dessa frase. Seria contraditório se disséssemos algo como: – 201 – Elementos centrais dos estudos da pragmática (06) Abílio começou a fumar, mas eu não quis dizer que antes ele não fumava. (?) Para transmitir uma informação como (6), precisaríamos usar a expres- são “voltou a fumar”, e não “começou a fumar”, porque sabemos que o signi- ficado de “começar a” sempre é fazer algo que não se fazia antes. Isso não depende de quem é Abílio, de eu conhecê-lo ou não, ou em qual situação essa sentença foi proferida; em outras palavras, esse significado não depende do contexto. Outro exemplo é o da sentença (07): (07) Eu não sou preconceituoso, mas um filho meu não aceito que... Na sentença (7), é do funcionamento da conjunção “mas” que decorre o significado que o que vem depois dela é um argumento contrário ao que foi dito antes. Logo, quando uma pessoa profere X mas Y, é a própria palavra “mas” que carrega a ideia de contradição entre os argumentos; não precisamos nem saber do que se trata o final da frase. Por outro lado, vamos retomar o diálogo do casal conversando sobre o jantar, mas agora com uma cena a mais. A: O que será que eu cozinho para a gente hoje? B: Hoje não é dia de promoção na pizzaria da esquina? A: Você está querendo dizer que prefere não comer a minha comida? B: Não foi isso que eu quis dizer! Eu só lembrei que hoje é promoção... Você pode cozinhar amanhã... Não é contraditório que B responda o que disse. Podemos imaginar que é só uma tentativa de se livrar de uma discussão: como a pizzaria está em promoção, é melhor que eles peçam a pizza hoje e deixem o jantar feito em casa para o dia seguinte. Não existe uma contradição ali, e a interpretação de A para a fala de B pode, perfeitamente, ser cancelada. Não existem evidên- cias linguísticas de queB se negava a comer a comida de A; isso estava dado apenas pelo contexto conhecido pelos participantes da enunciação – e por nós, que sabíamos que A ainda precisa melhorar um pouco sua habilidade na cozinha. Semântica e Pragmática – 202 – Ou seja, não se pode negar que a violação de uma máxima desencadeie um processo inferencial no ouvinte; nem que ela gere uma implicatura con- versacional quando somos capazes de perceber que a violação foi intencional. Assim, as implicaturas geradas, por não terem um teor gramatical, podem ser sempre canceladas, uma propriedade que não é compartilhada com os signi- ficados carregados linguisticamente. Outra propriedade que podemos perceber nas implicaturas é o fato de elas serem não destacáveis, ou seja, não se pode mudar uma implicatura tro- cando as palavras utilizadas por sinônimos, pois a implicatura não vem das palavras utilizadas, mas do conteúdo veiculado por aquela sentença. Como exemplo, tomemos (08): (08) [Contexto: Bruno falou alguma coisa muito errada durante a aula.] A: Bruno é um gênio. (implicatura: Bruno é burro) A implicatura extraída do proferimento de A teria sido a mesma caso o proferimento tivesse sido qualquer um dos listados a seguir em (09). (09) a. Bruno é um prodígio. b. Bruno é um ser humano excepcionalmente inteligente. c. Bruno só fala coisas muito relevantes. d. Bruno é muito erudito. A terceira propriedade que podemos observar nas implicaturas é o fato de que elas são calculáveis. Em outras palavras, sempre que houver um pro- ferimento que viole uma máxima, a partir do princípio de cooperação e das máximas, ou seja, de seu significado pragmático, e do seu significado literal, um ouvinte tenta fazer o cálculo inferencial para preservar o princípio de cooperação. Esse tipo de raciocínio é bastante considerado pela teoria da rele- vância, como veremos no capítulo a seguir, mas é interessante observar que o próprio Grice (1975) nota que os interlocutores procuram manter o princí- pio de cooperação preservado ou, ao menos, é necessário que ajam como se ele estivesse preservado para calcular a implicatura. – 203 – Elementos centrais dos estudos da pragmática Por fim, a quarta propriedade que emerge das implicaturas conversa- cionais é o fato de elas serem não convencionais5, ou seja, elas não são parte do conteúdo composicional veiculado pela sentença; não estão presentes nos itens lexicais ali dispostos, mas são depreendidas pelo processo inferencial que descrevemos anteriormente. Se elas fossem parte do conteúdo composicional, que é dado linguisticamente, não poderiam ser consideradas implicaturas, mas fenômenos semânticos como acarretamentos ou pressuposições, con- forme vimos anteriormente. Dessa maneira, uma implicatura não é necessariamente exata; e nem sempre o ouvinte vai calcular a implicatura que o falante desejava que ele tivesse calculado. Tal fato pode gerar mal-entendidos durante a comunica- ção, evidentemente, o que nos leva, novamente, à questão da cancelabilidade. Se podemos cancelar uma implicatura, podemos também desfazer quaisquer mal-entendidos que possam vir a ter surgido durante esse processo. A essa altura talvez você esteja se perguntando sobre o porquê de uma pessoa preferir dizer alguma coisa por meio de uma implicatura e não simples- mente de maneira mais direta. Acredito que demos algumas pistas ao longo deste capítulo: dizer algo assim pode acrescentar informações, emoções, con- textos, enfim, parece que podemos lidar com outros graus de informatividade que uma sentença simples não daria. Nesse sentido, podemos confrontar os dois exemplos a seguir (adaptados de Levinson, 2007). (10) Carlos convidou você não sabe quantas pessoas pra você não imagina o quê. (11) Carlos convidou muitas pessoas para um noivado surpresa. Parece que o exemplo em (10) traz mais carga emotiva (mais tom de segredo, fofoca) do que a sentença em (11), que parece apenas uma constata- ção. Se esse exemplo parece pouco convincente, dê uma olhada em algo que falamos, praticamente, diariamente. (12) Estou morrendo de fome. 5 Grice (1975) chega a apontar que existem implicaturas convencionais, mas elas não seriam conversacionais e convencionais. Porém, neste material, não abordaremos esse assunto. Semântica e Pragmática – 204 – O conteúdo de (12) é claramente uma violação da máxima de qualidade. Essa não é uma sentença para a qual temos evidência ou algo que acreditamos ser verdadeiro. Porém, ao proferirmos isso, despertamos no nosso interlo- cutor algum tipo de reação: ou que ele se apresse, ou que nos sirva logo a comida, ou que ele nos dê um pedaço daquilo que está comendo. Veiculamos, enfim, conteúdos extralinguísticos quando lidamos com implicaturas. Além disso, por serem canceláveis, uma pessoa poderia usar implicaturas para testar suas possibilidades em determinados jogos sociais a que nos expo- mos diariamente. Pinker (2008) dá o exemplo do jogo da sedução. Se você convida uma pessoa para sair, e faz isso diretamente, o risco que você corre ao ter a sua investida negada é alto. Se, por outro lado, faz isso de uma forma velada, indireta, não estaria apostando tão alto e, uma vez rejeitado, pode-se ainda negar que o que foi dito foi uma investida. Isso poderia ser visto con- frontando os dois exemplos a seguir. (13) A: Quer sair comigo pra gente dar uns beijos? (14) A: Quer sair comigo pra tomar uma cerveja? Podemos fazer um quadro comparativo das chances de A e das conse- quências de sua investida da seguinte maneira: Quadro 1– Proposta direta. Situação (13) Interlocutor aceita Interlocutor não aceita A faz a proposta Sucesso Vergonha Fonte: Elaborado pela autora. Quadro 2– Proposta indireta. Situação (14) Interlocutor aceita Interlocutor não aceita A faz a proposta Sucesso “Ok, fica pra próxima” Fonte: Elaborado pela autora. Não se trata, portanto, de uso linguístico rebuscado ou destinado a fina- lidades discursivas especiais: é algo cotidiano que serve como recurso para maximizar a troca comunicativa ou conseguir testar possibilidades sem ter – 205 – Elementos centrais dos estudos da pragmática que dizer as coisas com todas as letras, em casos como (13), em que corremos algum tipo de risco. Várias outras questões importantes ainda foram consideradas por Grice (1975) a respeito das implicaturas que, por razão de espaço, deixamos de fora deste capítulo. Algumas delas retomaremos no capítulo a seguir, como a poli- dez e a relevância. Outras delas deixaremos a cargo do interesse particular de cada um a respeito desse vasto campo de estudos. Esperamos ter despertado seu interesse a respeito, porque as possibilidades são realmente interessantes. Ampliando seus conhecimentos Mencionamos a base griceana e o Princípio de Cooperação (GRICE, 1975). Porém, como vimos, nem todas as comu- nicações podem buscar a maximização da cooperação, ou, principalmente, o termo pode ser vago entre uma cooperação que se dá em termos linguísticos (em que os envolvidos estão engajados em manter o diálogo) ou em termos mais objetivos (em que os envolvidos buscam agir em favor uns dos outros). A seguir, temos as palavras de Fujihara (2016). Pragmática e não cooperação [...] De acordo com Attardo (1997), a formulação do Princípio da Cooperação conforme enunciada por Grice sofre de uma ambiguidade sistemática, oscilando entre a postulação da necessidade de cooperação linguística e extralinguística (p. 753). Considere-se o célebre exemplo de Grice abaixo: A: Estou sem gasolina. B: Tem um posto ali na esquina. Semântica e Pragmática – 206 – Conforme Attardo aponta, a resposta de B só faz sentido se considerarmos o objetivo de A no mundo real (abaste- cer seu carro). Um indício disso, apontado pelo próprio Grice, é a relevância da informação sobre o posto estar aberto, por exemplo. Se tomarmos a frase de A como um mero pedido de informação a respeito de onde se pode achar gasolina, então a resposta de B deveria ser igualmente relevantee cooperativa a despeito do fato de o posto estar aberto ou não. Em ambos os casos, a sentença em B seria, a princípio, cooperativa. No caso de o posto estar fechado, contudo, a sentença seria cooperativa exclusiva- mente no nível linguístico, ao passo que no caso de estar aberto ela seria cooperativa no nível dos objetivos práticos extralinguísticos do falante (p. 759-760). Essa diferença nas interpretações leva Attardo a postular dois tipos diferentes de cooperação, a cooperação locucionária e a coopera- ção perlocucionária, ecoando a terminologia de Austin. A cooperação locucionária (CL) seria “a quantidade de cooperação, baseada no princípio, em que dois falantes precisam colocar no texto para codificar e decodificar o significado pretendido”, ao passo que a cooperação per- locucionária seria “a quantidade de cooperação que dois falantes devem colocar no texto ou situação para atingir os objetivos que o falante (e/ou o ouvinte) queriam atingir com a proposição” (ATTARDO, 1997, p. 756). De acordo com o autor, a compreensão de uma determinada sentença envolveria sempre a cooperação locucionária, enquanto que a cooperação perlocucionária (CP) precisa- ria ser assumida quando os interlocutores perseguem con- juntamente um objetivo fora da esfera comunicativa (idem). Um outro exemplo seria a frase “guerra é guerra” (Grice, 1989, p. 33). Tomada literalmente, a sentença seria uma tautologia, fornecendo pouca ou nenhuma informação, o que levaria o ouvinte a interpretá-la como algo como “em – 207 – Elementos centrais dos estudos da pragmática uma guerra é necessário agir de modos que seriam ina- propriados fora dela”. Contudo, se dita por alguém que escondeu um tesouro durante a Segunda Guerra durante uma tentativa de encontrá-lo, embora fosse compreensível e claramente locucionariamente cooperativa, ajudaria muito pouco a encontrar o tesouro, sendo muito pouco coopera- tiva do ponto de vista perlocucionário. A implicatura seria compreendida perfeitamente a despeito disso, o que, para Attardo, significaria que toda sentença deve “passar duas vezes” pelo Princípio da Cooperação – uma passagem locucionária e outra perlocucionária (p. 758). [...] Atividades 1. A respeito da teoria pragmática, considere as seguintes afirmações e assinale a alternativa correta: a. Não é possível prever nada a respeito do que as pessoas irão dizer, porque o significado varia de pessoa para pessoa e de situ- ação para situação. b. Chegar a um acordo sobre os contextos é muito difícil porque em cada situação comunicativa, as pessoas mudam aquilo que que- rem dizer. c. Quando nos comunicamos por escrito, o contexto não está presen- te, de maneira que a pragmática não afeta esse tipo de comunicação. d. Existem certas previsões que podem ser feitas, mesmo que os diálo- gos variem em contextos, e é isso que essa teoria pretende estudar. e. Falar corretamente é falar obedecendo a todas as máximas con- versacionais. Semântica e Pragmática – 208 – 2. Leia os diálogos a seguir e indique quais máximas foram violadas: a. A: Você sabe se a professora Ana deu aula hoje? B: Eu a vi pelos corredores. b. A: Quanto você pagou nesse casaco? B: A vida é muito curta! 3. Considere o diálogo a seguir e tente refazer o cálculo inferencial. A: Você sabe me dizer onde tem uma padaria aqui por perto? B: Não se preocupe, eu comprei bastante pão hoje. 4. Qual é a implicatura para esse diálogo? A: Todo Natal eu peço de presente para minha mãe um pijama de unicórnio e toda vez ela me dá uma coisa de comer... B: Viu, você tem o telefone da Ana Maria? Estudos atuais em pragmática Neste capítulo, veremos os desdobramentos filosóficos, teó- ricos e de análise das propostas griceanas apresentadas no capítulo anterior, majoritariamente a teoria da polidez, calcada em aspectos sociais e culturais da interação; a teoria da relevância, que se baseia em aspectos cognitivos e de cálculo de inferência entre as pessoas que participam da interação; e, por fim, falaremos brevemente sobre a pragmática formal, uma vertente que tem bases na semântica, mas tem se desenvolvido de maneira consistente na modernidade, buscando entender fatores da significação que se constroem com base nas trocas comunicativas. 12 Marina C. Legroski Semântica e Pragmática – 210 – 12.1 Desdobramentos possíveis No capítulo anterior, fizemos um apanhado geral das implicaturas con- versacionais desenvolvidas por Grice (1975) em seu texto clássico, Lógica e con- versação. Acabamos por deixar de lado alguns conceitos, como as implicaturas convencionais – que dizem respeito a informações veiculadas pelos próprios significados comumente atribuídos às palavras pelos falantes1, mas desenvolve- mos aquilo que a literatura posterior acabou por tornar mais consagrado. Neste capítulo, porém, iremos nos debruçar sobre as principais correntes que surgiram a partir daquele texto fundador: cada uma delas partindo de um ponto específico, com considerações diferentes, igualmente pertinentes, mas que partem de um mesmo texto para chegar a conclusões e pontos de vista bastante diferentes sobre as relações humanas e sobre como a comunicação pode acontecer. Na primeira parte, falaremos sobre a teoria da polidez, desen- volvida por Brown e Levinson (1987) e sobre a teoria da relevância, conforme Sperber e Wilson (2005). 12.1.1 Teoria da polidez Dentre as máximas que Grice (1975) disse que poderiam existir, mas que ele mesmo acabou por não desenvolver longamente e optou por deixar de fora, figura a máxima da polidez. Segundo o autor, as pessoas são polidas (ou educadas, corteses) também por propósitos sociais e comunicativos e a não observação ou demasia dessa demanda durante a troca conversacional pode vir a gerar implica- turas, tanto quanto a violação das máximas que vimos no capítulo anterior. Ocorre, porém, que Grice (1975) não desenvolveu profundamente essa máxima; ao menos não muito além do que expusemos. Foram os pesquisa- dores Penélope Brown e Stephen Levinson (1987) que levaram adiante essa possibilidade, explicitando como as línguas se utilizam de mecanismos gra- maticais para expressar polidez e como isso repercute, em termos sociais, para o falante que resolve violar o combinado. Estes pesquisadores se utilizam, a princípio, de um conceito cunhado pelo sociólogo Erving Goffman (1967) chamado de face. Para esse pesquisador, 1 Desenvolveremos mais esse conceito no item 12.1.3, Teoria da relevância. – 211 – Estudos atuais em pragmática cada pessoa teria uma espécie de fachada, que seria a contraparte social da sua personalidade, a forma que gostaria que os outros a vissem, por assim dizer. Essa face seria resultado de atitudes verbais e não verbais, de compor- tamentos e atitudes que temos diante das outras pessoas e que contribuiriam para a construção e manutenção do olhar que os outros dispensam a nós, conferindo o nosso status naquele grupo, e seria equivalente à forma como gostaríamos que as pessoas nos vissem. Brown e Levinson (1987), porém, desenvolvem ainda mais essa noção: para eles, poderíamos pensar que a face de cada pessoa teria dois lados: um positivo e um negativo. O lado positivo diria respeito ao aspecto amigável, à aprovação e à valorização social que almejamos obter; o negativo, por outro lado, diria respeito à manutenção da liberdade e da individualidade, de poder fazer o que tivermos vontade de fazer, sem sermos tolhidos ou contraditos. Como esses pesquisadores demonstram interesse nos aspectos verbais da interação – justamente naqueles fatores que chamamos de linguísticos – e que tocam mais diretamente na máxima da polidez deixada de lado por Grice, eles buscam observar como as interações sociais verbais podem ser ameaçadoras às faces e, assim, como os falantes desenvolvem estratégias para amenizar essas ameaças. Mas como será que podemos ameaçar a face dos outros membros da nossa sociedade, se ela é algo que criamos para nós mesmos? Alguns teóricos dessalinha dizem que basta qualquer interação verbal acontecer para que isso seja um ato de ameaça, uma vez que qualquer demanda conversacional externa já nos tira do estado em que estávamos, ou seja, ataca o nosso direito de permanecer engajados no que estávamos fazendo para que precisemos dar atenção àquela pessoa que nos contatou. Por outro lado, o conteúdo veiculado nessa interação também pode ser ameaçador, porque a pessoa pode vir a solicitar que façamos algo por ela, ou perguntar algo que não queiramos dizer (ameaçando nossa face negativa); ou vir a fazer uma crítica, um insulto, nos desaprovar de qualquer maneira (ameaçando nossa face positiva). Para entender melhor como esse mecanismo funciona, podemos fazer um paralelo com as regras do Princípio de Cooperação (GRICE, 1975) que mencionamos no capítulo anterior: as regras de polidez são tácitas, e Semântica e Pragmática – 212 – é esperado que os falantes as observem, e todos os falantes esperam que os seus interlocutores as observem, considerando que todos têm as suas faces vulneráveis e as querem preservar ([1999]: 2005, p. 311). Ferir qualquer parte desse processo pode prejudicar a interação social. Para além disso, Brown e Levinson (1987) ainda consideram que se deve levar em conta pelo menos três grandes fatores contextuais: i) a distância social entre os inter- locutores; ii) a distância de poder entre os interlocutores e iii) imposições culturais e situacionais. Quanto maior for o peso de cada um desses fatores, maior será o peso do ato de ameaça à face. Esse é um ponto de particular interesse porque, nas diversas culturas do mundo, cada um desses fatores pode ter pesos maiores ou menores. Se tomamos como exemplo uma sociedade como a brasileira, percebemos que a formalidade é uma característica não muito valorizada em contextos cotidianos. Em diálogos entre desconhecidos, em situação de grande distância social, como clientes em um guichê de banco, por exemplo, é comum que ouçamos diálogos como (01). (01) Atendente: O senhor gostaria de... Cliente: “O senhor” está no céu... Por outro lado, basta nos compararmos com uma sociedade como a alemã, por exemplo, para percebermos que não é assim em todos os lugares. Logo nas primeiras aulas de alemão como língua estrangeira, aprende-se que se deve tratar qualquer pessoa desconhecida pelo pronome pessoal Sie, que é formal, mesmo que ela seja um colega de trabalho da mesma idade. Só se deve chamar o colega pelo pronome du, equivalente a você, em português, se ele assim o permitir. Apenas para ficar com as línguas ocidentais mais conhe- cidas, o mesmo ocorre com o italiano, o espanhol, o francês, por exemplo. Anteriormente, foram oferecidos dois exemplos de estratégias linguís- ticas que podem ser utilizadas para mitigar as ameaças à face, que vão da ordem de estruturas gramaticais às implicaturas, que vimos no final do capítulo anterior. Mas, Brown e Levinson (1987) descrevem várias outras situações, inclusive a opção por não diminuir a ameaça feita. Vamos explo- rar cada uma delas na Figura 1 a seguir. – 213 – Estudos atuais em pragmática Figura 1 – Atos de ameaça à face. Fazer o ato de ameaça à face Explicitamente Sem ação de reparo Com polidez negativa Não fazer o ato de ameaça Não explicitamente Com ação de reparo Com polidez positiva Fonte: Elaborada pela autora com base em Brown e Levinson (1987). Quando o falante não executa o ato de ameaça à face de seu interlocu- tor, segundo os autores, não há implicações linguísticas interessantes a serem exploradas, uma vez que, se não há ameaça, não há necessidade de adotar qualquer estratégia de polidez para dirimi-la. Porém, quando se sabe que há uma ameaça envolvida, várias são as opções que um falante pode adotar para amenizá-la. O primeiro caso que observa- remos aqui é quando a ameaça não é explícita, ou seja, é feita indiretamente. Retomando Grice (1975), a ameaça não explícita seria aquela comunicada via implicatura. Imagine uma situação na qual duas pessoas estão caminhando pela rua juntas (que designaremos interlocutor A e interlocutor B) depois da aula, por exemplo, e o interlocutor A convida o interlocutor B para tomar um café. O interlocutor B, que foi convidado, diz algo como: (02) Nossa! Esqueci minha carteira em casa! Semântica e Pragmática – 214 – Em (2), o interlocutor A pode interpretar que B está pedindo para que o primeiro pague o café; porém, B poderia negar que teve esta intenção se, por qualquer razão, A entendesse que essa situação fosse constrangedora ou desse a entender que B ultrapassou algum limite. Além dessa estratégia de indire- tividade, outros processos, tais como a ironia, a metáfora, as perguntas retó- ricas, as redundâncias, ou qualquer outro tipo de pista indireta que o falante pode dar ao seu ouvinte para que ele tenha espaço para oferecer a gentileza, podem ser considerados como estratégias não explícitas. Por outro lado, se na mesma situação o interlocutor B dissesse: (03) Vamos, mas você paga. Em (3) ele estaria executando o ato de ameaça à face sem qualquer estra- tégia de reparo, apenas invadindo o território do outro e dando pouco espaço para sua recusa à proposta. Ordens diretas desse tipo podem ser interpreta- das como grosseria na maioria dos contextos, exceto em contextos fortes o suficiente para que isso fosse cancelado, tais como em situações de emergên- cia; ou naquelas em que a ordem dificilmente seria interpretada como ofensa (casos como “entre!” ou “sente-se!”). Além disso, em casos nos quais a distân- cia social entre os interactantes suporta a discrepância, como pessoas muito próximas, ou, ainda, em casos de diferença de autoridade, como um professor que diz aos alunos “copiem isso!”; ou o chefe que diz ao subordinado “faça tal tarefa!”, a ordem direta não traz ameaça à face de quem a está enunciando. Caso contrário, dar uma ordem direta causa dano à face negativa do ouvinte, mas também à face positiva do enunciador daquela ordem, uma vez que o julgamento social para interlocutores que se utilizam de tais construções pode ser negativo, podendo a pessoa ficar conhecida como mandona, por exemplo. Outra opção, considerada menos rude socialmente, por outro lado, seria o enunciador amenizar a ofensa à face, utilizando as estratégias linguísticas disponíveis para a polidez. Duas seriam as opções, portanto: utilizar a polidez positiva e a polidez negativa. Estratégias de polidez positiva são aquelas que enaltecem a face positiva do ouvinte, ou seja, atuam sobre a imagem que o ouvinte quer projetada dele mesmo, na tentativa de enaltecê-la, ou melhorá-la. Incluem-se nessa categoria – 215 – Estudos atuais em pragmática os elogios, palavras que façam com que a pessoa se sinta parte do grupo2. Vejamos a situação (04). (04) Seria mesmo muito legal tomar um café com você, mas, para isso, eu precisaria que alguém muito solícito me emprestasse algum dinheiro. Por outro lado, as estratégias de polidez negativa dizem respeito ao fato de o falante atenuar a ameaça à liberdade do ouvinte, mostrando que ele sabe que está fazendo isso, mas que tenta deixar seu interlocutor livre o suficiente para que se desvencilhe do que lhe foi solicitado, sem que a imagem da sua face positiva seja danificada. Assim, imagine a mesma resposta ao convite do café na sentença (05). (05) Adoraria tomar um café com você, mas estou sem dinheiro. Seria abusar se eu te pedisse para me emprestar um pouquinho? Para esse tipo de estratégia, os autores enumeram a atenuação do pedido por meio da utilização de verbos modalizadores (em português, o futuro do pretérito em variedades consideradas cultas – eu gostaria, você poderia – e, em outras variedades, o pretérito imperfeito – eu queria, você podia); da diminuição do que está sendo solicitado (empresta só um pouquinho de dinheiro?, dá um pedacinho do seu lanche?, será que vai fazer falta se você me der) ou, ainda, quando é feito um pedido que pode ser consideradouma per- gunta cuja resposta é óbvia, se tomada literalmente, mas é pragmaticamente interpretado como um pedido (você tem horas?; você pode me alcançar o sal?, você sabe que dia é hoje?), entre outras. Com todas essas estratégias, basicamente, almeja-se um balanço entre não afetar a face negativa do outro e, ao mesmo tempo, não afetar a nossa face positiva: é um equilíbrio delicado porque a face é uma faca de dois gumes. Ao fazer uma solicitação, estamos invadindo o espaço do outro e, por isso mesmo, podemos ter a nossa imagem projetada para o grupo prejudicada. Por outro lado, aquele que recusa atender um pedido pode ter a sua própria face positiva afetada, a menos que tenha evidência contextual o suficiente para tanto. Se o pedido foi feito com grosseria, por exemplo, outros membros 2 Citamos aqui como exemplo quando um funcionário é chamado de colaborador ou um gar- çom de meu amigo, em português; ou, mesmo, o uso de pronomes pessoais ou de tratamento que remetam à proximidade, principalmente em línguas estrangeiras que possuem o sistema de oposição entre formal x não formal. Semântica e Pragmática – 216 – da comunidade vão apoiá-lo para que o ouvinte não o realize sem que isso danifique a sua face, por exemplo. Brown e Levinson (1987) vão além e chegam a uma correspondência entre a violação das máximas propostas por Grice (1975) e estratégias de reparação à ameaça da face. Segundo esses autores, para cada uma das viola- ções corresponderiam diferentes possibilidades de diminuir a invasão causada pela interação comunicativa. A teoria desses autores vai, ainda, muito além do que apresentamos aqui. Porém, para que tenhamos uma ideia dos seus desdobramentos analíticos, muitos dos pragmaticistas que atuam nessa linha teórica trabalham com aná- lises que buscam, nas mais diversas línguas, encontrar as estratégias de polidez utilizadas em diferentes gêneros textuais orais ou escritos: quando o falante e o ouvinte pertencem a círculos sociais diferentes (quando o ouvinte é de uma hierarquia social superior ou inferior ao falante ou vice-versa, seja essa hierar- quia motivada por poder, idade, status ou qualquer outro tipo de marcador social); em culturas que prezam mais ou menos a deferência entre os falantes; marcadores que são presentes na estrutura linguística ou são estratégias adqui- ridas via implicaturas e assim por diante. Esse é um campo de estudo bastante prolífico e que ainda tem muito a ser explorado. 12.1.2 Teoria da relevância Outra teoria relevante para os estudos da pragmática é aquela originada com base nas considerações griceanas e concebida como teoria da relevân- cia, desenvolvida por Dan Sperber e Deirdre Wilson a partir da década de 1980. Para esses autores, não basta dizer que a comunicação se pauta por um processo de implicaturas e de cooperação (reflexão, inclusive, que os autores discordam, em certos termos), o importante é a relevância como principal fator comunicativo a ser buscado, tanto pelo falante, quanto pelo ouvinte. Nas palavras dos autores: A afirmação central da teoria da relevância é a de que expectativas de relevância geradas por um enunciado são precisas e previsíveis o suficiente para guiar o ouvinte na direção do significado do falante. O objetivo é explicar em termos cognitivamente realísticos a que essas expectativas equivalem e como elas podem contribuir para uma – 217 – Estudos atuais em pragmática abordagem empiricamente plausível de compreensão. (WILSON; SPERBER, 2005, p. 222) Ora, se nos lembrarmos das máximas propostas por Grice (1975), que estudamos no capítulo anterior, relevância (ou relação) diz respeito a ser rele- vante para o interlocutor ou para aquilo que a demanda conversacional solicite. No entanto, essa máxima pode ser compreendida como resumo das outras, uma vez que é necessário ser relevante para qualquer resposta que se dê, sob pena de que se interprete que a demanda conversacional não foi satisfeita. O que Sperber e Wilson (2005) somam, em sua teoria, contudo, não é trivial: para esses autores, a relevância não é apenas um processo comunica- tivo, mas uma característica básica da cognição humana e, mais que qualquer contrato tácito social, compartilhada por todos os falantes. Assim, todos bus- cariam ser relevantes porque sabem que, assim, atingiriam a otimização das suas interações. De acordo com os autores, Nos termos da teoria da relevância, qualquer estímulo externo ou representação interna que fornece um input para processos cognitivos pode ser relevante para um indivíduo em algum momento. De acordo com a teoria da relevância, enunciados geram expectativas de relevân- cia, não porque falantes obedeçam a um princípio de cooperação ou a alguma outra convenção comunicativa, mas porque a busca pela rele- vância é uma característica básica da cognição humana, que comuni- cadores podem explorar. (WILSON; SPERBER, 2005, p. 223) Dessa maneira o jogo da interação não fica sujeito apenas aos cálculos das implicaturas, mas leva em conta todas as estratégias que estão sendo utilizadas e exploradas pelos participantes em busca da atribuição daquele significado, inclusive não verbais, como pensamentos, memórias e as próprias implicaturas. Para os autores, portanto, naquilo que chamaram de primeiro princípio da relevância, ecoando Grice (1975), a “cognição humana tende a ser dirigida para a maximização da relevância” (SPERBER; WILSON, 2005, p. 227). Com isso, eles exploram as capacidades cognitivas e sensoriais de atribuir sig- nificado a acontecimentos ao nosso redor. O exemplo por eles utilizado é o de que todos somos capazes de identificar, em determinados ambientes, o som de um copo caindo e quebrando, mas provavelmente prestaríamos mais aten- ção ou agiríamos de forma diferente se, por alguma razão, identificássemos Semântica e Pragmática – 218 – tal copo como sendo nosso, procurando identificar, na situação, quais conclu- sões possuem mais significado para nós. Há, nesse exemplo narrado, mecanismos de memória (“droga, é o quinto que eu quebro esse mês!”), identificação de dano (“por sorte esse copo não era de cristal”), cálculo de consequências (“vou ter que comprar um novo para o dono da casa”), talvez até de causas (“por que eu fui deixar o copo na janela?”), e todos esses processos ativados sem que uma pala- vra fosse emitida. Isso serve para ilustrar como a nossa mente funciona de forma atenta para capturar relevância em eventos corriqueiros. Nossa mente funciona, portanto, do mesmo modo, em eventos comunicativos. Ora, como salientam os autores, sabendo de tudo isso, somos capazes de, em certa medida, manipular os estados mentais dos nossos interlocuto- res para atribuir maior relevância para nossa fala e, também, nosso ouvinte será capaz de maximizar a relevância daquele input que recebeu. São dois processos distintos que se passam aqui: no falante e no ouvinte. Vamos ver os dois separadamente. O falante, sabendo das capacidades cognitivas de seu interlocutor, poderá dispor de elementos que estão fora da esfera linguística, como vimos. A isso, os autores chamam de comunicação ostensiva. A comunicação, por exemplo, quando alguém mostra a carteira vazia diante da solicitação de dinheiro. Os autores fazem uma separação técnica entre a intenção de informar e a inten- ção de comunicar que, por razões de espaço, não nos cabe adentrar aqui. A questão é que podemos entender que a carteira vazia quer dizer que a pes- soa não tem dinheiro, tanto se ela ostensivamente nos mostra-a, quanto se apenas a notamos, mas em um dos casos a pessoa tinha o objetivo de que soubéssemos disso; no outro não. Por outro lado, o ouvinte, segundo os autores, tentaria percorrer o menor caminho (aquele com o menor custo cognitivo) para encontrar relevância na comunicação, inclusive porque ele espera isso do falante. Nas palavras dos autores, esse processo se daria da seguinte maneira: [...] a. Siga um caminho de menor esforço no cômputo de efeitos cognitivos:teste hipóteses interpretativas (desambiguações, resolução de referências, implicaturas etc.) em ordem de acessibilidade. b. Pare quando suas expectativas de relevância forem satisfeitas. (SPERBER; WILSON, 2005, p. 232) – 219 – Estudos atuais em pragmática Os autores admitem, é claro, que parte desse processo interpretativo pode desembocar em uma inferência que não corresponda com aquilo que o falante esperava, mas isso não pode ser considerado um erro ou uma falha do ouvinte “uma vez que a compreensão é um processo de inferência não demonstrativo, essa hipótese bem pode ser falsa; porém, ela é a melhor que um ouvinte racional pode fazer” (SPERBER; WILSON, 2005, p. 233). Apenas para que possamos compreender melhor a proposta dos autores, até mesmo o silêncio pode ser interpretado como significativo dentro dessa teoria. Nas palavras deles: Suponha que eu faça uma questão a você e você permanece em silêncio. Silêncio, nessas circunstâncias, pode ou não ser um estí- mulo ostensivo. Quando não é, nós naturalmente o tomamos como indicando que o destinatário não foi capaz de ou não está disposto a responder. Se você está claramente disposto a responder, eu estou autorizado a concluir que você é incapaz; se você claramente é capaz de responder, eu sou autorizado a concluir que você não está dis- posto. Quando o silêncio é ostensivo, nós seríamos capazes, prova- velmente, de analisá-lo como envolvendo meramente um nível extra de intenção e, por isso, como comunicando – ou implicando – que o destinatário é incapaz de ou está indisposto a responder. (SPERBER, WILSON, 2005, p. 231) Portanto, podemos inferir de uma pessoa que não quis responder, se de fato percebemos que isso foi intencional, que aquela recusa possui algum sig- nificado. Ainda que não sejamos capazes de dizer com precisão o que aquele silêncio significa, a teoria griceana apenas nos leva a concluir que a pessoa não estava cooperando. Por outro lado, nessa teoria há a previsão de que o silêncio é significativo, porque ele faz parte daquele ato comunicativo. Dentro da teoria da relevância (SPERBER; WILSON, 1987), por- tanto, as análises são feitas sempre considerando os cálculos inferenciais que os ouvintes/leitores fazem das mensagens que chegaram até eles e quais são as possibilidades de interpretação. A parte técnica é mais com- plexa do que essa introdução, mas optamos por apresentar mais os pressu- postos do que o arsenal de análise3. 3 Na seção Ampliando seus conhecimentos trazemos um exemplo da interpretação de uma piada feita com base nas teorias da pragmática. Semântica e Pragmática – 220 – 12.2 Ainda outras possibilidades Apesar de serem as duas mais famosas decorrências da teoria griceana, a polidez e a relevância não são as duas únicas possibilidades de análise prag- mática na contemporaneidade. Existe uma vertente importante que emerge, principalmente, da necessidade de as teorias semânticas incorporarem algu- mas características que, anteriormente, eram consideradas discursivas, con- textuais, mas que hoje são vistas como sendo parte calculável, estável, da mesma maneira que os outros fenômenos apresentados neste capítulo. A abordagem, porém, é outra, e os pressupostos também são outros. Um dos fenômenos que estava no âmbito da semântica formal clássica, dizia respeito aos chamados dêiticos, aquelas palavras cuja referência só é conhecida quando buscada no contexto. Vejamos o exemplo do enunciado (06). (06) Vou fazer um chá porque hoje está fazendo muito frio aqui. Você só será capaz de calcular o valor de verdade dessa sentença se souber o significado de todas as palavras presentes. Porém, como é que vamos saber a quem se refere eu (em “vou”), hoje, aqui? Se eu, autora deste texto, enuncio essa sentença em determinado dia, de determinado mês, de determinado ano, é pos- sível que verifiquemos que ela é verdade. Se outra pessoa a enunciar em outra data, o valor de verdade muda. Hoje calculamos que o valor dessas expressões não é definido pelo contexto, porque sabemos que elas significam algo como “procure a pessoa que enunciou a sentença”; “procure o lugar onde a pessoa que enunciou a sentença está” e assim por diante. Esse significado é estável e não muda a cada vez; o que muda é apenas a referência. Sabemos disso hoje, princi- palmente graças ao trabalho de Benveniste (2006a; 2006b) e Bar-Hilel (1982), que citamos no capítulo anterior, dentre outros teóricos. Há, ainda, outros problemas semelhantes para a pesquisa com palavras cuja significação não é tão simples quanto parece. Umas delas é o operador lógico ou. Observe a sentença a seguir, retirada de uma manchete. (07) Estudo revela que 2 bilhões de pessoas sofrem com obesidade ou sobrepeso. – 221 – Estudos atuais em pragmática Nossa interpretação é a de que, dentro desses 2 bilhões de pessoas, exis- tem os indivíduos que são afetados pela obesidade e os que são afetados pelo sobrepeso, mas não faria sentido pensar que existem ali pessoas que são afe- tadas pelas duas coisas, certo? Principalmente porque obesidade é um estágio posterior de alguém que já teve sobrepeso, e não um fenômeno que ocorre simultaneamente. Observe, porém, a sentença (08), também título de uma matéria veiculada na internet. (08) Agressividade do seu cachorro pode estar relacionada a medo ou excesso de mimos. Não é como se o mesmo cachorro pudesse ser apenas medroso ou mimado. Ele pode muito bem ser as duas coisas ao mesmo tempo. Porém, se todas as vezes em que nos depararmos com um ou tivermos que decidir se ele está incluindo ou excluindo as possibilidades, como ficamos diante de uma construção como (09)? (09) Pais, mães ou responsáveis: ... A questão, portanto, é tentar prever do que estamos diante: de uma palavra cuja significação é estável ou se ela está à mercê de ser reinterpretada a cada nova utilização? Chierchia (2008) tem uma hipótese que apresentaremos de forma resu- mida. Segundo o autor, utilizando as máximas griceanas, o raciocínio que podemos fazer seria algo como: a) (Queremos) pais, mães OU responsáveis. b) (Queremos) pais, mães E responsáveis. c) O recado traz a. e não b. que, presumivelmente, poderia ter sido também relevante. d) b. acarreta a., então informa mais. e) Se quem escreveu o bilhete quisesse ter dito b.; teria feito assim (qualidade). Para esse autor, no entanto, é como se houvesse uma escala na qual vários processos são implicados: como se uma sentença com ou projetasse um con- junto com várias alternativas, cada uma delas implicando: i) que são necessários Semântica e Pragmática – 222 – todos os envolvidos (na criação da criança); ii) alguns envolvidos, menos envol- vidos e, não todos dessa escala; iii) pelo menos um desses envolvidos. A interpretação da sentença, portanto, não ficaria à mercê do contexto, mas se daria entre o conjunto de alternativas projetado pelo significado da palavra e a escolha de informatividade despertada pelo cálculo de implica- turas. O que vale salientar aqui é que, como consequência disso, não olha- mos mais para o ou como apenas um operador lógico que inclui ou exclui as variantes, mas como uma palavra que projeta alternativas selecionáveis pela relevância da situação comunicativa em questão. O mesmo se aplica para palavras e expressões como nem todo(s), alguns, pouco(s), muito(s), a maioria, todos; os numerais; verbos modais; adjetivos gra- dientes, como nos exemplos a seguir. (10) Você não pode me pagar até o final do mês. Você deve me pagar até o final do mês. (11) O João tem três filhos. O que acontece em (10), como podemos ver, a negação não incide sobre o verbo poder, como se o destinatário não pudesse pagar, mas sobre a modalidade de pagar: mais do que poder pagar, ele deve pagar. Novamente, é uma escala de obrigações que está em jogo. Em (11), podemos imaginar um contexto no qual, para ser beneficiário de determinado projeto social, a pessoa precisasse ter, no mínimo, três filhos. Quando profiro (11), posso estarquerendo dizer que João tem exatamente três filhos, mas também posso estar querendo dizer que ele tem, no mínimo, três filhos; sendo que (11) pode ser verdadeira também no caso de ele ter quatro ou cinco filhos. Se você consegue entender o caráter escalar presente aqui, você entendeu por que a pragmática ajuda no entendimento não absoluto do significado dessas sentenças. 12.3 Considerações finais Nesses dois capítulos, vimos que a Pragmática é uma disciplina bastante abrangente, porém totalmente sistematizável. Quando começou a se pen- sar em uma disciplina que estudasse o contexto, em meados do século XX, – 223 – Estudos atuais em pragmática imaginava-se algo completamente confuso, caótico e distante de qualquer possibilidade de sistematização. Grice (1975) foi o principal expoente, mas não o único filósofo, que trabalhou pelo status de cientificidade desses estudos que, como vimos neste capítulo, desembocaram em diferentes projetos, com focos distintos. Isso, porém, não torna a pragmática menos interessante; pelo contrário, a faz diversa e disposta a diálogos cada vez mais elaborados. Atualmente, a pragmática tem linhas que estudam a evolução, a cogni- ção, a sociedade, as diferentes culturas e suas manifestações e até mesmo intersubjetividades, o que faz com que alguns pragmaticistas, inclusive, tenham deixado de considerá-la um ramo da Linguística para considerá-la uma maneira de ver o mundo, usando a Linguística apenas como uma ferra- menta de análise possível, dentre todas as outras que estão disponíveis (como teorias da mente, sociologia, antropologia, psicologia e demais teorias das ciências humanas). Outros, como os que apresentei neste capítulo, continuam insistindo que a pragmática pode ser uma fronteira interessante a se cruzar para atingir o estudo de significação que tenha mais características da Linguística que da Lógica, uma vez que entendem que os significados linguísticos são construí- dos no uso e são moldados por ele, como nos exemplos que apresentamos. Em certos aspectos, algumas análises semânticas vigentes ainda levam isso pouco em consideração, então há, ainda, muito trabalho pela frente em busca de descrições mais condizentes com os significados próximos do falante. Há, portanto, ainda muito a se fazer em qualquer um desses âmbitos pelos quais se olhe. Esperamos que esses capítulos tenham sido proveitosos para instigá-lo no estudo dessa disciplina que tanto tem, ainda, para nos aju- dar a descobrir sobre como somos e como nos comportamos em sociedade. Ampliando seus conhecimetos A seguir podemos ver os princípios que vimos no decorrer desses dois capítulos aplicados no caso de interpretação de piadas. Transcrevemos, para tal, um excerto de um artigo de Santos e Godoi que fazem essa análise a partir dos postulados Semântica e Pragmática – 224 – da pragmática. Recomendamos, além do excerto, a leitura completa do artigo para que você possa verificar a aplicação das teorias dessa ciência a um objeto. Por falar em humor... A relevância da cogni- ção na interpretação da piada (SANTOS; GODOI, 2010, p. 2-3) [...] O contrato comunicativo O milionário foi operado da vista. Como sinal de gratidão, mandou colocar um enorme olho de vidro na fachada da clínica, em cuja pupila há um retrato do cirurgião. Após a inauguração, ele pergunta ao cirurgião: — O que achou da surpresa? — Achei que foi uma sorte não lhe ter operado das hemorroidas... Para Gil (1998), diferentemente da conversa séria, improvi- sada, que ocorre em um nível socialmente circunspeto, que tem maior compromisso com a verdade, a piada evoca um dito jocoso, alegre, que apresenta a verdade com uma outra roupagem, por vezes bem mais eficaz que a conversa séria. Segundo a autora, a comutação do modo circunspeto ao jocoso se realiza por meios explícitos e implícitos, já que os falantes explicitamente dão a conhecer que se encontram no modo jocoso de contar piadas. Dessa forma, no caso da piada ser manifesta oralmente, quando alguém diz “vou te contar uma piada” ou “sabe aquela piada da bichinha (do mineiri- nho, do gaúcho etc.)?”, o contador da piada, nesse instante, propõe ao seu interlocutor um jogo de entretenimento humo- rístico. Na opinião da autora, – 225 – Estudos atuais em pragmática Essa substituição, sendo antecipada ao receptor, por meio de contextualizadores, acaba por contar com sua adesão para o entendimento e para o riso. No modo sério de comunicação, o emissor está comprometido com a ver- dade dos pronunciamentos. No modo jocoso de contar piada, o emissor abandona o comprometimento com a verdade, sem se tornar, por causa disso, um mentiroso ou um desequilibrado. A comunicação se opera com a cooperação dos receptores, que se previnem para enten- derem o discurso que se segue como uma piada, e não como um pronunciamento sério, ativam em sua memória o modelo do que seja uma piada (GIL, 1998, p. 297). Nessa perspectiva, sobre a piada acima, se alguém diz “sabe aquela do cara que foi operado da vista e para agradecer o cirurgião colocou um enorme olho de vidro na clínica?” Se o ouvinte, pelo Princípio de Cooperação griceano (GRICE, 1975) e de Relevância (SPERBER e WILSON, 1986/95), olha para o narrador e não reage negativamente (recusando o convite) implica que ele (ouvinte) aceita jogar o jogo de entretenimento humorístico proposto, sejam quais sejam as regras que o jogo exigirá. Neste exato momento se estabe- lece, entre narrador e ouvinte, uma espécie de pacto de har- monia humorística que vai comandar o jogo piadístico entre ambos. A esse pacto de harmonia humorística, firmado entre ambos, chamamos de contrato comunicativo humorístico. Pelo contrato comunicativo humorístico o ouvinte sabe de ante- mão que será levado a um labirinto de interpretações absurdas, ilógicas, paradoxais e irreais, no qual se justapõem expectativas de incongruências com possibilidades humorísticas. Aceitar ou não jogar o jogo proposto pelo narrador faz parte do processo humorístico (no caso da piada escrita, o contrato comunicativo se estabelece pela intenção do leitor em lê-la). No jogo de entretenimento humorístico, segundo Conde (2005), a piada é encarada como uma mentira, uma Semântica e Pragmática – 226 – invenção, pois ela cria seu próprio mundo, cujas leis pragmá- ticas internas se enlaçam com as do exterior, numa circunlari- dade constitutiva. [...] No mundo fantasioso da piada os fatos mais paradoxais, incoerentes e inimagináveis podem acontecer, tais como mortos falarem, pessoas reais do mundo real se envolverem em situações as mais absurdas possíveis, santos e demônios se alternarem com garotos espertos, com gaúchos machos, com mineirinhos matreiros, além de japoneses pouco dota- dos, portugueses néscios, russos beberrões, judeus e tur- cos mesquinhos, argentinos arrogantes, sogras incômodas, loiras burras, adúlteros inconsequentes, negros pobretões, caipiras inteligentes, bichas inoportunas, pescadores men- tirosos, bêbados inveterados, e outros tantos estereótipos profissionais, raciais e outros – ou temas tabus, como o sexo e religião – que dão vida ao mundo piadístico. [...] Atividades 1. Com base na teoria da polidez, tente explicar o que acontece na co- municação a seguir. [Contexto: A mãe se dirige para a filha pequena.] Mãe: A senhora ainda não arrumou os seus brinquedos? 2. Aponte algumas estratégias que você conhece que servem para marcar polidez em língua portuguesa. – 227 – Estudos atuais em pragmática 3. Por que razão a teoria da relevância não é uma mera repetição da máxima griceana “seja relevante”? 4. Tente fazer um esboço do cálculo inferencial realizado para a interpre- tação da seguinte atitude comunicativa. [Contexto: O casal está trabalhando em casa, em silêncio. Um fala para o outro.] A: Amor, corre lá dentro que o cachorro está fazendo barulho de es- tourar plástico-bolha. E nós não temos plástico-bolha em casa. – 229 – Gabarito Gabarito – 230 – Semânticae Pragmática 1. Estilística, a ciência da expressividade 1. Opções (a) e (c): Estilística literária. Justificativa: os dois comentários contêm reflexões de cunho psicoló- gico a respeito da maneira de João Cabral se expressar e de revelar seu mundo interior e experiência de vida. Opção (b): Estilística linguística. Justificativa: o comentário aborda uma questão do léxico, examina sua carga semântica na obra e destaca aspectos linguísticos objetivos para buscar a interpretação do texto. 2. As opções (a) e (e), embora corretas, não contêm comentários estilís- ticos, mas observações sintáticas objetivas, que não fazem nenhuma interpretação do texto. As opções (b), (d) e (f ) apresentam comentários estilísticos baseados em questões linguísticas e procuram interpretar a expressividade das escolhas do poeta. A opção (c) contém uma interpretação equivocada, pois o texto dis- tingue “a pedra do papel” como a “que dá à frase o seu grão mais vivo”, ou seja, ela é inovadora, pois “açula a atenção” e é força criativa. 3. a. Função referencial (ou informativa). b. Função conativa. c. Função emotiva (ou expressiva) – Obs.: trecho de canção com- posta por Luiz Antônio. – 231 – Gabarito d. Função metalinguística. e. Função fática. f. função poética – Obs.: tradução livre de uma estrofe do poema Beer, de Charles Bukowski. 2. Estilística fônica 1. A opção (a) está correta, havendo erro na opção (b), pois a figura é a aliteração, e na opção (c), já que o intuito da harmonia imitativa é reproduzir o ruído dos freios do trem. 2. A opção (a) contém interpretação equivocada, pois repetir “tem gente com fome” não causa monotonia, e sim ideia de movimento. Também há erro de interpretação na opção (e), pois as palavras usadas nas ono- matopeias como estribilho conservam seu valor semântico para confir- mar a temática social. Por fim, há erro na opção (d), pois o comentário feito é de Estilística sintática. 3. As opções (b), (c) e (f ) estão corretas. As alternativas (c) e (d) não contêm recursos de Estilística fônica. Nas demais opções, temos: (a) aliteração; (b) onomatopeia; (e) assonância; (f ) homeoteleuto. 3. Estilística léxica 1. Destoa o gentílico “vienense”, pois o que predomina no modelo desse tipo de verbete é a estrutura “relativo a (nome da cidade + estado ou país) + ou o que é seu natural ou habitante”. Para haver simetria com o modelo adotado pela obra, o verbete deveria estar assim apresentado: – 232 – Semântica e Pragmática vienense – relativo a Viena (Áustria) ou o que é seu natural ou habitante. 2. A autora critica a possível interpretação de que as chamadas palavras gramaticais seriam totalmente vazias de sentido, quando na verdade o linguista opõe a ideia de plenitude semântica à de esvaziamento semân- tico levando em conta os valores extragramaticais das palavras lexicais. No entanto, é correto o entendimento de que as palavras gramaticais também possuem algum valor semântico “externo”. Assim, pode-se concluir que palavras plenas não são as lexicais e, sim, as gramaticais. 3. a. O substantivo “minhoca” é epiceno e não tem flexão de gênero; mas a cantiga fala em “minhoco”, uma flexão expressiva que tem valor afetivo e humanizador. b. Há uma metáfora expressiva, que iguala a vida do eu lírico a uma colcha de retalhos, ou seja, a vida é uma amontoado de ocorrências que se costuram aleatoriamente – embora, frise-se, sejam todos da mesma cor (outra metáfora, para dizer que é uma vida monótona). c. A imagem que Lenine usa está na expressão metafórica “deu um nó”, pela similaridade com a ideia de “estar preso, amarrado” na relação amorosa. d. Chico Buarque usa “Neruda” em lugar de “livro do Neruda”, exemplo simples de metonímia, em que o nome do autor é usado em lugar do nome da obra. 4. Estilística sintática – I 1. A silepse de número ocorre no trecho final (quando não encontram uma pessoa que possa tomar conta de sua filha pequena), cujo sujei- – 233 – Gabarito to tem como antecedente o substantivo “casal”, palavra singular com significado plural (= eles). O distanciamento entre o verbo “encontrar” e o referente “casal” justifica a silepse como forma mais apropriada ao trecho, que correria algum risco se usasse o singular “quando não en- contra uma pessoa que possa tomar conta de sua filha pequena”. 2. Em “preciso aprender a ser só”, “só” significa “sozinho” (é adjetivo). Em “preciso aprender a só ser”, “só” significa “apenas” (é palavra denotativa de restrição). Como adjetivo, desempenha a função de predicativo do sujeito, devendo manter-se na posição final da frase (sua antecipação, mesmo colocado entre vírgulas, poderia gerar am- biguidade). Como palavra denotativa, “só” não tem função sintática, podendo deslocar-se para outros pontos da oração, mas passaria a restringir outras palavras (na letra original, só restringe o verbo ser, sinônimo de existir). Pode-se dizer que a finalidade do autor foi fazer uma referência intertextual (com o citado samba-canção) vinculada ao argumento do combate à tristeza e à solidão. 3. a. A silepse de pessoa se explica pela pretensão do autor de se incluir no sujeito “todos”. b. A hipálage mostra a transferência de relação sintática de “amigos” – logicamente atribuído ao interlocutor, mas sintaticamente atri- buído a “braços”. c. O pleonasmo ocorre na duplicação do objeto direto de “admirar”. É uma forma de ênfase Estilística. d. Na ordem direta, a frase seria “fazemos um pouco de tudo”. A inversão dá destaque ao indefinido “tudo” e não tem maior com- plexidade, o que caracteriza a anástrofe. – 234 – Semântica e Pragmática 5. Estilística sintática – II 1. Anáfora – repetição de uma ou mais palavras no princípio de dois ou mais segmentos sintáticos ou poéticos sucessivos. Exemplos: “É pau, é pedra, é o fim do caminho.” (Tom Jobim) “Sonharei em Mariana, / sonharei no trem de ferro, / sonharei no acaba-mundo.” (Alphonsus de Guimaraens Filho) Epanáfora – tipo de anáfora que ocorre quando a repetição se dá no início de parágrafos ou estrofes sucessivas. Para alguns autores, epaná- fora e anáfora são termos sinônimos. Exemplos: [“Tragédia no Mar”, que faz parte do poema O Navio Negreiro, de Castro Alves, tem suas quatro primeiras estrofes iniciadas pela expres- são “‘Stamos em pleno mar”] [A letra da música “Construção”, de Chico Buarque, repete o início de cada um dos versos da primeira estrofe nas estrofes subsequentes, alterando apenas as palavras finais dos versos] Epífora – repetição de uma ou mais palavras no final de dois ou mais segmentos sintáticos ou poéticos sucessivos. Exemplos: – 235 – Gabarito “Ninguém se lembra de nada. Estrelas ermas na altura, se brilham, não dizem nada.” (Emílio Moura) “A noite esfriou, / o dia não veio, / o bonde não veio, / o riso não veio, / não veio a utopia / e tudo acabou.” (Carlos Drummond de Andrade) Epístrofe – tipo de epífora que ocorre quando a repetição do termo ou expressão se dá em toda a estrofe ou em muitos segmentos sintáticos sucessivos. Para alguns autores, epístrofe e epífora são termos sinônimos. Exemplos: “Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia assim! de um sol as- sim!” (Olavo Bilac) “Talvez isto realmente se desse... / Verdadeiramente se desse... / Sim, carnalmente se desse...” (Fernando Pessoa) 2. As sugestões são: na primeira lacuna, “a mãe de seu marido” ou “Dona Maria”; na segunda lacuna, “de Anselmo” ou “do filho”. Na primeira lacuna, “a mãe de seu marido” substitui perfeitamente a pa- lavra “sogra” (empregada duas linhas antes) e evita uma repetição viciosa. A opção por “Dona Maria” também seria adequada, pois o contexto da segunda lacuna identificaria sem dúvida a que personagem se referiria. Na segunda lacuna, “do filho” parece-nos mais conveniente do que a locução “de Anselmo”, embora aqui não esteja caracterizada a repeti- ção viciosa porque a outra ocorrência de “Anselmo” está distante, no início do parágrafo. – 236 – Semântica ePragmática Em ambos os casos, porém, o redator teve de se valer de seu vocabulá- rio pessoal para buscar os sinônimos adequados às suas necessidades e às do texto. 3. Eis uma reescritura possível: A gravata enrolava-se parecendo uma corda colocada por cima da camisa rasgada e suja, ao mesmo tempo em que apareciam fiapos nas bainhas das calças e nos cotovelos puídos. A roupa estava cada vez mais empoeirada, combinando com a sola gasta dos sapatos e com o que fazia a fome com os meus olhos, que descobriam, entre as árvo- res, cenas irreais. [Dois períodos com orações apenas dependentes]. O comentário, com essa reescritura, deve destacar que as duas reda- ções são expressivas, mas que há mais força descritiva no texto origi- nal do que na nova redação. A sucessão de orações independentes dá equilíbrio às imagens fortes e arrastadas que o narrador quis retratar. 6. Estilística da enunciação 1. Na letra da música, o eu lírico faz uma proposta à sua amada, que no discurso ocupa a posição da 2.a pessoa (com quem se fala). A letra, no entanto, emprega de modo irregular as formas de tratamento de P2 e P3 gramaticais quando se refere a essa pessoa. Comprovam essa afirmação os pronomes “você” (4 ocorrências) e “te” (1 ocorrência) e os verbos no imperativo: pense, chore, não chore e (se) lembre (P3) e liga, não liga (P2) – embora o imperativo negativo não tenha a forma “não liga” na variante padrão. Essa flutuação é típica da oralidade do português brasileiro contemporâneo. – 237 – Gabarito 2. Eis uma reescritura possível, mantendo ao máximo os itens lexicais do texto original: Perguntei, ansioso, a meu filho, assim que saímos, em que turma ele está, se na 12 ou na 13. Ele me respondeu distraído que está na 14. Respirei com alívio: e nem podia ser de outra maneira, não era isso mesmo? Comentei apenas que ficava satisfeito de saber. Ele não perdeu tempo e logo se aproveitou para dizer que queria então me pedir um favor. Queria que eu mandasse ao Padre-Diretor um bilhete dizendo que ele não pode comer verdura. 3. Eis uma reescritura possível, mantendo ao máximo os itens lexicais do texto original: Notas de R$1,00 somem, e comerciantes reclamam das dificuldades no troco e dos prejuízos nas vendas. Eles contam que as moedas, em especial as de um real, praticamente sumiram. A escassez também vale para as de menor valor, como as de 25 e 50 centavos. “As notas de R$1,00 já esta- vam faltando, mas as moedas resolviam o problema. Hoje até elas estão sumindo”, reclama Júlia Roberta, caixa de uma loja de bolsas e acessórios que fica no centro da cidade. 7. Semântica, a ciência das significações 1. Nos estudos semânticos é importante a definição de signo linguístico, que inclui as noções de significante e significado, de forma e substân- cia, as relações sintagmática e paradigmática e o conceito de arbitra- riedade e linearidade do signo, o que implica saber fazer a distinção entre os enfoques sincrônico e diacrônico. – 238 – Semântica e Pragmática 2. A marcação correta é: (D), (B), (C), (A). 3. As opções (a) e (d) estão corretas; a opção (b) é falsa, pois no verso 5 a preposição introduz uma interrogação (o poeta quer saber qual a finalidade de “usar tanta educação”); também é falsa a opção (c), pois o amor é mostrado como a causa da proteção da pessoa amada. 8. Relações semânticas – I 1. São verdadeiras as afirmações (a), (b) e (c). Na letra (d) é o conjunto de verbetes que se chama “nominata”. Na letra (e), tanto os dicioná- rios gerais como os específicos podem ser estruturados num modelo alfabético, ou seja “palavra por palavra”. 2. A transcrição correta do poema é a que segue: “As estátuas sem mim não podem mover os braços / Minhas antigas namoradas sem mim não podem amar seus maridos / Muitos versos sem mim não poderão existir. // É inútil deter as aparições da musa / É difícil não amar a vida / Mesmo explorado pelos outros homens / É absurdo achar mais realidade na lei que nas estrelas / Sou poeta irrevogavelmente.” A única palavra que parece não se ajustar ao texto é “seios” (1.o verso), tendo em vista se relacionar com o verbo “mover” (apesar disso, a ideia de “mover os seios” não é de todo incoerente). No penúltimo verso, não ha- veria incoerência dizer “sereias” em vez de “estrelas”, pois o poeta também poderia, de alguma forma, comparar a realidade da lei com a das sereias. Nos demais versos, a substituição não mudaria o significado do verso, mas poeticamente talvez houvesse variações de expressividade. 3. O parágrafo, reescrito com as correções, ficará assim: Nossos colegas pediram dispensa do serviço porque já se sabe que infringiram o regula- – 239 – Gabarito mento. Por não terem cumprido o disposto, colocaram em cheque suas carreiras e por ora vão expiar suas culpas numa chácara longínqua. 9. Relações semânticas – II 1. A coluna da palavra “amor” terá os seguintes elementos: livro + sorte + pensamento + teorema + novela + prosa + torna patético + cristão + latifúndio + divino + bossa nova + para sempre + do bem + amizade + um + depois + vem de nós + demora. A coluna da palavra “sexo” terá: esporte + escolha + cinema + ima- ginação + fantasia + poesia + selva de epiléticos + pagão + invasão + animal + carnaval + para sempre + do bom + vontade + dois + antes + vem dos outros + vai embora. Nenhum dos dois grupos contêm palavras que representem, necessaria- mente, uma ideia de inferioridade ou negatividade – tanto do ponto de vista conceitual quanto semântico. Os autores trabalharam com pares opositivos alternativos (p. ex.: esporte x cultura; novela x cinema; cris- tão x pagão; bossa nova x carnaval) e, mesmo quando ao final dizem que “o amor vem de nós e demora” e que “o sexo vem dos outros e vai embora”, nem aí é possível garantir a supremacia de um dos campos sobre o outro. Parece que o intuito é fazer com que nossa conclusão seja pela combinação dos dois, pois afinal “sexo sem amor é vontade” e “amor sem sexo é amizade”, ou seja, sexo não é amizade e amor não é vontade, como quem diz: melhor é amor com sexo e sexo com amor... 2. [Sugestões] Série formal, apenas com palavras que rimam com “bran- cura”: dentadura, formosura, segura, tortura, loucura // série mor- fossemântica, com palavras da mesma família etimológica: branco, branquear, esbranquiçar, branqueamento, branqueador. – 240 – Semântica e Pragmática 3. a. [Sugestão] Geladeira, televisão, liquidificador, batedeira e enceradeira. b. [Sugestão] Crianças. c. [Sugestão] O Mais Querido do Brasil. d. Pomo de adão. 10. Relações semânticas – III 1. [Resposta-guia] Ordem: Saia da minha frente imediatamente! / Con- selho: Tenha cuidado quando falar com ela. / Convite: Venha e traga sua família. / Pedido: Por favor, leve a mochila da sua irmã. As frases sugeridas minimizaram os riscos de ambiguidade porque continham elementos auxiliares que favoreciam a compreensão da or- dem, do conselho, do convite ou do pedido. Mas nada impede que uma frase que comece com “por favor” seja dita num tom de voz au- toritário e signifique na prática uma ordem e não um pedido. Ou que a frase “Saia da minha frente”, em vez de ordem contenha um apelo desesperado de alguém que corre em busca de socorro num hospital. 2. a. ... porque o possessivo tanto pode se referir ao campo do Palmeiras como ao do Bahia. b. ... pois o conteúdo proposto é excessivo e não haverá necessidade de “esticar” o tamanho das frases. c. ...diferença entre a linguagem literal e a linguagem coloquial. Na primeira hipótese, “vou deitar e rolar” pode se referir a alguém que está numa praia e brinca de deitar e rolar na areia; na segunda, é sinônimo de aproveitar bastante alguma coisa. – 241 – Gabarito d. [sugestão] O renomado e conhecido escritor e pensador colom- biano Gabriel García Márquez, autor do aclamado romance Cem Anos de Solidão e ganhador do prêmio Nobel de literatura em 1982, publicará antes do final do ano de 2008 um novo livro sobre o amor, que irá se juntara outros títulos como O Amor nos Tempos do Cólera e Do Amor e Outros demônios. 3. a) (não) verbos diferentes, embora do mesmo campo conceitual / b) (não) palavras homônimas / c) (sim) competir = caber (1) e concorrer (2) / d) (sim) xadrez = cadeia (1) e com desenhos quadriculados (2) / e) (sim) farol = lanterna de automóvel (1) e sinal de trânsito (2) / f) (não) verbo sonhar = visualizar, durante o sono, imagens, pessoas (1) e (2) // (não) substantivo sonho = ação de sonhar (3) e (4) / g) (não) palavras diferen- tes, embora da mesma família etimológica. / h) (sim) noite = desesperan- ça, escuridão (1) e espaço de tempo entre o ocaso e o nascer do sol (2). 11. Elementos centrais dos estudos da pragmática 1. D. “Existem certas previsões que podem ser feitas, mesmo que os diálogos variem em contextos, e é isso que essa teoria pretende es- tudar”. A teoria pragmática não pretende ser uma teoria sobre falar corretamente, mas sobre uma regularidade observável, sobre pa- drões conversacionais que somos capazes de encontrar nos diálogos que mantemos. 2. a: Máxima de quantidade “Dê a quantidade de informação que foi solicitada”, para não violar a máxima da qualidade “Não afirme nada para o que não tenha evidência”. b: Máxima da relevância. – 242 – Semântica e Pragmática 3. B inferiu que A queria saber onde ficava a padaria porque queria com- prar pães e quis ser cooperativo perlocucionariamente oferecendo os pães para A. 4. As respostas podem variar entre “Vamos mudar de assunto”; “Não quero falar sobre isso”; “Esse assunto é chato”; “Não me interessa”. 12. Estudos atuais em pragmática 1. Por estar hierarquicamente em uma posição superior à filha, a mãe não precisa se dirigir a ela utilizando estratégias de polidez, como senhora. Esse uso pode ser considerado irônico, mas também pode ser considerado uma estratégia de amenizar a ordem direta (que teria sido apenas “guarde seus brinquedos”). 2. a. O uso de pronomes de tratamento: o senhor, a senhora, meu amigo. b. o uso de formas verbais modalizadas (no futuro do pretérito ou, em variedades consideradas não padrão, no pretérito imperfeito): eu gostaria..., você poderia...; eu queria; eu gostava... c. expressões de cortesia: por favor, por gentileza, por obséquio, muito obrigada, agradeço muitíssimo; grata. d. uso de indiretividade; entre outras. 3. A teoria da relevância leva em consideração processos mentais, cogni- tivos, e cálculos inferenciais que vão além do discurso e chegam a tentar entender o funcionamento da mente, indo além do modelo interacional previsto por Grice. – 243 – Gabarito 4. Apenas esboçando, poderíamos entender que: a. Plástico-bolha estoura. b. Plástico-bolha não tem valor financeiro. c. Plástico-bolha não oferece risco para o cachorro, na opinião de A. d. Se as pessoas não têm plástico bolha em casa, o barulho vem de outro lugar. e. O cachorro está fazendo o barulho. f. O barulho pode ser de alguma coisa com valor. g. Ou que ofereça risco para o cachorro. h. No caso de f ou g, a intervenção deve ser rápida. i. A quer que B vá ver o que está acontecendo, provavelmente por- que a está ocupado. Referências Semântica e Pragmática – 246 – ALENCAR, José de. Iracema. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s/d. ______. Obra completa. v. 2. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1958. ______. A viuvinha. São Paulo: Ática, 1975. ALI, M. Said. Meios de expressão e alterações semânticas. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1971. ALVES, Ieda Maria. Neologismo, criação lexical. São Paulo: Ática, 1990. ANDRADE, Eugénio de. O sal da língua. Porto: Fund. Eugénio de Andrade, 2000. 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