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Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala Apresentação A psicolinguística busca constantemente entender os processos mentais que estão ligados à linguagem humana. A mente humana, assim, com sua posição central, é explorada com afinco. A psicolinguística trata tanto dos processos de codificação quanto de decodificação de mensagens, buscando estabelecer a relação entre eles para que possamos entender cada vez mais nosso desenvolvimento cognitivo como espécie. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar a relação entre a fala e o pensamento, além das diferenças entre as abordagens desse tema. Também as funções de cada hemisfério cerebral serão exploradas, e você irá conhecer as diferentes etapas da produção da linguagem e entender a relevância desse tema. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever a relação entre linguagem, fala e pensamento. • Identificar as funções dos hemisférios cerebrais para a fala e a linguagem. • Caracterizar as diferentes etapas da produção da linguagem. • Desafio A produção da linguagem apresenta grande complexidade. Contudo, o falante não tem noção dos passos que segue, pois, para ele, trata-se de um processo automático. Quando se trata de pensar a linguagem como representação mental, para os processos do pensamento se realizarem, o conhecimento precisa ser codificado e armazenado, o que acontece de algumas formas específicas. Imagine que você é um professor em uma universidade e precisa escrever um guia sobre questões relacionadas às formas de representação mental. Você precisa explicar para os alunos de uma disciplina inicial de Psicolinguística diferentes maneiras de o cérebro codificar e armazenar os conhecimentos para realizar processos como o raciocínio, o planejamento, a solução de problemas, a formulação de hipóteses: enações, imagens, proposições e traços e protótipos. Você recebe os trechos a seguir para serem usados como exemplos das explicações: Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/2a0f5c86-3295-46a5-b274-d312884032ae/5b0e405e-bd3a-421c-961a-5b4aa9411a4e.jpg Assim, explique cada uma dessas maneiras com suas palavras e utilize os trechos citados para exemplificá-las, identificando a forma de representação que lhe parece que corresponda a cada conteúdo apresentado. Infográfico A psicolinguística busca a compreensão dos processos mentais envolvidos no uso e na aquisição da linguagem. Realizam-se esforços para tentar alcançar e entender esses três eixos complementares, de modo a buscar cada vez mais abrangência desse seu olhar peculiar sobre a linguagem humana. No Infográfico a seguir, amplie seu conhecimento quanto a um dos modelos de representação do processamento da linguagem, de modo a ter maior noção da sequencialidade do processo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/5e9cc50c-22e0-4fc8-8783-ca9a80b1d6cb/3bb7862b-05ce-416d-8a7f-22d028f282ba.jpg Conteúdo do livro Se, para a psicolinguística, a mente humana ocupa posição central, a linguagem, inerente ao homem, abre inúmeras possibilidades para que se possa acessar não a totalidade, mas ao menos uma parcela do pensamento. Assim, podemos buscar cada vez mais o conhecimento sobre nosso desenvolvimento cognitivo. No capítulo Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala, da obra Psicolinguística, amplie seu conhecimento nesse campo, já que o capítulo trata de um processo fundamental nesse sentido. A relação entre a fala e o pensamento, e as diferenças entre as abordagens desse tema, serão tratadas aqui, bem como funções de cada hemisfério cerebral. Por fim, estude as diferentes etapas da produção da linguagem e entenda a relevância da temática. Boa leitura. PSICOLINGUÍSTICA Lia Emília Cremonese Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever a relação entre linguagem, fala e pensamento. Identificar as funções dos hemisférios cerebrais para a fala e a linguagem. Caracterizar as diferentes etapas da produção da linguagem. Introdução A psicolinguística trata da mente humana e vê a linguagem não apenas como intrínseca ao homem, mas também — e em virtude disso — como uma oportunidade de vislumbre do pensamento. A linguagem é algo que dá acesso não à totalidade, mas a uma parte daquilo que se espera poder alcançar um dia em relação ao conhecimento sobre a evolução e o funcionamento cognitivo de nossa espécie. Neste capítulo, você estudará sobre a relação entre linguagem, fala e pensamento e verá que a diferença entre essas abordagens gerou uma grande transformação nessa linha de pesquisa. Além disso, verificará que cada hemisfério cerebral tem uma função distinta e interfere de alguma forma no desenvolvimento cognitivo do ser humano. Por fim, conhecerá as diferentes etapas da produção da linguagem, bem como os desdobramentos possíveis por esse caminho. Linguagem, fala e pensamento Para compreender a relação entre a linguagem, a fala e o pensamento, den- tro dos parâmetros da psicolinguística, é necessário, inicialmente, entender determinados conceitos. Afi nal, como apontava Saussure (2006, p. 15), “[...] bem longe de dizer que o objeto precede o ponto de vista, diríamos que é o ponto de vista que cria o objeto [...]”. Ou seja, somente podemos identifi car efetivamente um objeto de estudo a partir da determinação do ponto de vista teórico que o cientista adotará. Assim, é preciso explicitar que, do ponto de vista da psicolinguística, quando falamos em linguagem, estamos nos referindo a um elemento que faz parte da constituição biológica do cérebro. Segundo Pinker (2002, p. 9), a linguagem “[...] é uma habilidade complexa e especializada, que se desenvolve espontaneamente na criança, sem qualquer esforço consciente ou instrução formal [...]”. O autor ainda afirma que a linguagem já foi descrita como “[...] uma faculdade psicológica, um órgão mental, um sistema neural ou um módulo computacional [...]”, mas que ele prefere “[...] o simples e banal termo ‘instinto’ [...]”. Tal termo é adotado pelo autor por lembrar o fato de que a linguagem não é uma “[...] invenção cultural [...]”, na medida em que não foi criada pelo homem. Segundo ele, ao considerarmos a linguagem como “[...] uma adapta- ção biológica para transmitir informação [...]”, passamos a respeitar cada ser humano, independentemente de sua origem ou de sua formação, e qualquer língua que seja em sua própria complexidade. Nesse contexto, Balieiro Jr. (2004, p. 191) afirma que “[...] se consideramos as bases indubitavelmente cerebrais (ou mentais) do pensamento e a hipótese de que este pensamento se articula com a linguagem [...]”, precisamos reco- nhecer “[...] que o acesso que temos a este processamento é indireto, ou seja, supomos que existe um processamento linguístico na mente ou no cérebro da pessoa, mas somente temos acesso aos eventos físicos a ele relacionados, sejam estes eventos a fala, o gesto ou a escrita [...]” (BALIEIRO JR., 2004, p. 192). Assim, outros dois conceitos cuja explicitação se faz necessária são língua e fala. Segundo Slobin (1980, p. 204), “A fala é um processo físico tangível que resulta na produção dos sons da fala”, ao passo que a “língua é um sistema intangível de significados e estruturas linguísticas [...]” . Como nosso acesso ao pensamento é restrito, é normal que tenham sido elaboradas diferentes teorias sobre a relação entre a linguagem, a fala e o pensamento. No início do século XX, havia uma crença preponderante acerca desse tema. De acordo com Slobin (1980), os behavioristas defendiam que pensamento e fala estavam intrinsecamenteligados. A posição mais radical, Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala2 do americano John B. Watson, era de que fala e pensamento seriam a mesma coisa; já a dos psicólogos russos, como Ivan Sechenov, era de que fala e pensa- mento estariam relacionadas nas crianças, porém, nos adultos, o pensamento seria um pouco mais livre. Entretanto, basta pensar em um exemplo simples, como alguém que sofre um acidente e fica desprovido da capacidade de fala, mas compreende o que lhe é dito e se comunica de outra forma que não a oral, para que se perceba que essa relação não pode ser verdadeira. Os teóricos Jean Piaget e Lev Vygotsky tiveram posicionamentos diferentes, os quais, simultaneamente (ambos nasceram no mesmo ano, 1896) e em dife- rentes lugares (Suíça e Rússia, respectivamente) estudaram o mesmo tema (o desenvolvimento cognitivo), porém sem nunca terem se encontrado. Segundo o primeiro, “[...] o desenvolvimento cognitivo avança por si, em geral seguido pelo desenvolvimento linguístico, ou encontrando reflexo na linguagem da criança. O intelecto da criança se desenvolve por meio da interação com as coisas e pessoas do seu meio ambiente [...]” (SLOBIN, 1980, p. 203). Já para Vygotsky, “[...] a fala pode servir ao pensamento, e o pensamento pode ser revelado na fala [...]” (SLOBIN, 1980, p. 202). Slobin (1980) ressalta que a crença de Watson relaciona a fala ao pensa- mento, ao passo que Vygotsky e Piaget relacionam linguagem e pensamento, ou seja, “[...] as relações entre linguística interna e estruturas cognitivas [...]” (SLOBIN, 1980, p. 204). Para ir além, pode-se “[...] indagar se é possível o pensamento sem a FALA INTERIOR — isto é, sem alguma atividade da lin- guística interna [...]. Há muitos processos mentais que parecem pré-linguísticos ou não linguísticos [...]” (SLOBIN, 1980, p. 205) — um exemplo seria tentar encontrar uma palavra mais adequada para expressar o que se deseja. Pode-se observar que “[...] uma frase não é um mapeamento direto a um pensamento [...]” (SLOBIN, 1980 p. 206); se assim fosse, não haveria necessidade de buscar uma “palavra ideal” em determinado momento, por exemplo. Vygotsky (1939, documento on-line) afirmou não haver correspondência entre as unidades do pensamento e aquelas da fala: “[...] o pensamento tem a sua própria estrutura e a transição entre ele e a linguagem não é coisa fácil [...]”. Slobin (1980, p. 202) afirma que, ainda que sem a língua a existência humana — cultura, comportamento, pensamento — certamente não seria como é, e que, portanto, “[...] ninguém negue o papel central da língua na vida humana, definir a natureza desse papel tem sido um problema difícil e persistente [...]”. Assim, é muito difícil determinar qual o espaço e os atributos da linguagem verbal em relação ao pensamento em toda a sua complexidade, com “[...] imagens e emoções, intenções e abstrações, lembranças de sons e perfumes e sentimentos, e muita coisa mais [...]” (SLOBIN, 1980, p. 202). 3Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala Representação mental e instrumentos do pensamento Segundo Slobin (1980), ao considerarmos a relação entre língua e cognição, é necessário levantar duas questões, segundo o ângulo a partir do qual olhamos tal relação. “Se consideramos a língua como uma entre as muitas formas de REPRESENTAÇÃO MENTAL [...]”, devemos nos perguntar quais são as relações entre essas formas, o que consiste em “[...] uma questão estrutural [...]” (SLOBIN, 1980, p. 207). Por outro lado, “Se consideramos a língua como um dos INSTRUMENTOS DO PENSAMENTO [...]”, precisamos entender como esse “[...] ‘instrumento’ infl uencia os processos cognitivos [...]”, o que é “[...] uma questão de uso [...]” (SLOBIN, 1980, p. 207). No que concerne à linguagem como representação mental, “[...] para que os processos do pensamento se realizem — raciocínio, planejamento, solução de problema, etc. —, é necessário que o conhecimento seja codificado e armazenado de alguma forma [...]” (SLOBIN, 1980, p. 208). Algumas formas de representação são: enações, imagens, proposições, traços e protótipos. A ideia de representação enativa liga-se à capacidade sensório-motora. Na infância, em particular, aprende-se muito por meio da manipulação. Para exemplificar, basta lembrar do ato de dar laço no tênis, de dançar, de usar instrumentos. Os adultos mantêm representações enativas, como, por exemplo, fazer gestos com os braços. O escritor Millôr Fernandes jocosamente afirmou, desafiando uma famosa frase, que “Se uma imagem vale mais que mil palavras, então diga isso com uma imagem”. No entanto, certos conhecimentos apenas podem ser expressos por palavras. Não poderíamos representar uma teoria, por exemplo, por meio de imagens. Contudo, as imagens mentais (interiores) têm grande relevância. Cores, faces, representações artísticas, todas são representadas por imagens no pensamento. Um questionamento importante é se haveria algum tipo de estrutura comum a palavras e imagens. As proposições igualmente fazem parte da representação mental, corres- pondendo a uma “[...] rede de conceitos inter-relacionados, que é mais abstrata e mais geral que qualquer expressão linguística particular em palavras e frases ou a imagem de qualquer acontecimento particular [...]” (SLOBIN, 1980, p. 210). Mais especificamente, esses elementos seriam representações subjacentes, como descrições de situações — por exemplo, “mamãe me deu um brinquedo”. Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala4 Os traços ou protótipos dizem respeito a atributos que agrupam deter- minados elementos. Por exemplo, brinquedos, louças e ferramentas têm em comum o fato de serem inanimados; cachorrinhos, bebês e pintinhos, de serem filhotes. Os traços, no entanto, não dão conta de tudo. Para Eleanor Rosch, que ampliou a ideia de Wittgestein de que o armazenamento de conceitos é feito por meio de semelhanças parciais e traços que se cruzam, esse conjunto de informações é ampliado pela noção de transvariação (SLOBIN, 1980) Segundo tal acepção, nenhum elemento de um conjunto (família) apresenta todos os traços semelhantes, mas há um prototípico que reunirá a maior parte deles. Assim, sabiás e corujas são bons exemplos de aves, mas pinguins e avestruzes, ainda que se enquadrem, parecem menos aves que os primeiros, por não voarem ou serem muito grandes. Dessa forma, “[...] muitas categorias se organizam de maneira vaga, em torno do melhor exemplo e protótipo, esmaecendo nos limites [...]” (SLOBIN, 1980, p. 213). Você sabe a que nos referimos quando falamos em enação? Uma representação enativa, explica Slobin (1980, p. 209), diz respeito às capacidades motoras: “[...] as crianças aprendem muito do mundo através de manipulação ativa e há um bom número de provas de que a representação enativa, ou imagem muscular, é um antigo modo de representar objetos [...]”. O autor ainda lembra que, mesmo quando adultos, seguimos usando esse tipo de representação ao utilizar gestos para solicitar ou mesmo nos referir a algo na comunicação cotidiana. Se, por exemplo, fazemos um gesto imitando o movimento de cortar quando queremos que a pessoa próxima nos alcance uma faca, ou um movimento imitando uma tesoura com os dedos, isso sugere “[...] que os padrões motores continuam a desempenhar um papel em nossos modos de conceber objetos e acontecimentos [...]” (SLOBIN, 1980, p. 209). Independentemente do tipo de representação do pensamento, há ainda dois aspectos importantes. O primeiro diz respeito ao fato de que, por mais que isso seja um problema, uma vez que a psicolinguística aborda as relações entre pensamento e linguagem, há uma conceituação clara de pensamento que subjaz à teoria. O segundo ponto é que a forma de interação entre os 5Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala diferentes sistemas de representação mental (sejam eles linguísticos ou não) não estão claras. Haveria uma espéciede “mentalês”, uma linguagem da mente por meio da qual se teria a capacidade de “[...] traduzir imagens sensoriais, pensamentos abstratos e expressões linguísticas?” (SLOBIN, 1980, p. 214). Quando se trata a língua como um dos instrumentos do pensamento, é pre- ciso levar em consideração o uso da língua como instrumento do pensamento, internamente, e como instrumento de comunicação, interpessoalmente. Ambos os aspectos relacionam-se de forma direta com os papéis que a linguagem exerce tanto na aprendizagem quanto na memória. “A capacidade de codi- ficar experiências verbalmente influencia, muitas vezes, o modo pelo qual essas experiências são lembradas. De fato, muitas lembranças são distorcidas JUSTAMENTE PORQUE estão armazenadas de forma verbal [...]” (SLOBIN, 1980, p. 216). No entanto, como nem tudo pode ser representado verbalmente de forma tão precisa, a memória pode falhar. Memórias que associam elementos verbais e visuais tendem a ser mais facilmente acessíveis — a associação de uma forma a um nome de objeto, por exemplo. Slobin (1980, p. 217) destaca algumas mudanças que nossas memórias de histórias e de acontecimentos sofrem. O nivelamento implica que muitos acontecimentos desaparecem para uma maior concisão, deixando a história “[...] mais curta e esquemática [...]”. Já o aguçamento faz alguns detalhes ganharem maior destaque, sendo “[...] várias vezes repetidos e recontados [...]”. Por fim, há a “[...] assimilação e alguns esquemas, ou estereótipos ou expectativas [...]”. Como afirma Slobin (1980, p. 217), “[...] até certo ponto, nós lembramos os acontecimentos como queremos lembrá-los; as recordações se mudam, muitas vezes, para atender aos nossos preconceitos ou desejos — para se tornarem a nós mais plausíveis ou aceitáveis [...]”. Vale questionar, aqui, qual seria, afinal, o objetivo desse tipo de esque- matização que ocorre na memória. A resposta é bastante simples: trata-se de uma necessidade, posto que não conseguiríamos lembrar de todas as coisas que nos acontecem. Imagine que você precisasse recordar algo que aconteceu no dia anterior: se não se lembrasse de tudo, teria de reviver o dia todo, no mesmo período, para recordar algum evento. As funções dos hemisférios cerebrais para a fala e a linguagem Os seres humanos são dotados de um órgão altamente especializado, cuja totalidade de funções e alcance ainda estamos longe de conhecer. Nosso cérebro Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala6 é relativamente grande (cerca de 1,5 kg), se comparado ao nosso corpo, e a sua quantidade de células é “[...] superior ao número que tem o cérebro de qualquer outro animal do mesmo peso [...]” (SLOBIN, 1980, p. 165). Poderíamos supor que o tamanho do cérebro seja determinante para a aquisição da linguagem, mas isso não é, necessariamente, verdade. Brunoni et al. (2016), por exemplo, fazem um acompanhamento de crianças com microcefalia e relatam o atraso, mas não a ausência do desenvolvimento linguístico em tais crianças. Portanto, como afi rma Slobin (1980), a nossa capacidade para a linguagem deve estar relacionada à organização do cérebro, e não à sua massa. Segundo Pinker (2002, p. 47), se a linguagem é um instinto, como ele defende, deve haver uma “localização identificável no cérebro [...] que ajude a mantê-la no lugar. No caso de danos desses [...] neurônios, deveria haver prejuízo da linguagem sem que outras partes da inteligência fossem afetadas”. Embora ainda não tenha sido encontrado um órgão da linguagem, diz o autor, a pesquisa continua, e se há um endereço no cérebro para a linguagem, este é o hemisfério esquerdo. De modo geral, o sistema nervoso dos animais é simétrico (SLOBIN, 1980). Nos seres humanos, entretanto, os hemisférios cerebrais diferem estrutural- mente, e essa diferença reflete no funcionamento. Scliar-Cabral (2018) relata que os primeiros estudos com relação à distinção entre produção e compreensão da linguagem verbal foram feitos por neurologistas. Paul Broca, em 1861, realizou um exame post mortem do cérebro de um paciente que, ainda que entendesse o que lhe diziam, havia perdido a capacidade de produzir palavras, exceto o monossílabo tan. A partir desse exame, Broca constatou uma lesão na parte frontal do hemisfério esquerdo, “[...] antes do córtex motor e acima da fissura transversal, conhecida como fissura de Sylvius, que separa a região temporal da parietal e de parte da região frontal [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 429). Lesões nessa região, chamada então de área de Broca, provocam a afasia de Broca ou de produção (Figura 1). Pouco depois, em 1874, Wernicke “[...] formulou a hipótese de uma conexão entre a parte posterior do giro temporal do hemisfério esquerdo, que processa as imagens sensoriais acústicas das palavras com a que processa as imagens motoras de palavras e sílabas [...]”, o que explicaria o fato de haver pacientes cujas lesões na posteriormente chamada área 22 de Brodmann “[...] tivessem a compreensão verbal comprometida, embora eles produzissem um discurso fluente, mas sem sentido, conhecido como discurso da jargonofasia. A deno- minação corrente para esse tipo de afasia passou a ser afasia de recepção ou receptiva [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 429). 7Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala Figura 1. Partições do sistema nervoso central para as funções da linguagem verbal oral. Vistas da área de Broca, localizada no giro frontal inferior (GFI), e da área de Wernicke, localizada no giro temporal superior (GTS), ambas no hemisfério esquerdo. Fonte: Scliar-Cabral (2018, p. 430). Posterior Superior Anterior Inferior Giro frontal inferior (GFI) Giro temporal superior (GTS) Giro temporal médio (GTM) 44/45 22/38/42 21/37 Giro de Heschl (GH) Córtex auditivo primário (CAP) Lobo temporal Lobo occipital Sulco temporal superior (STS) Área de Wernicke (AB 42/22) Opérculo frontal (OPF) Área de broca (AB 44/45) Sulco frontal inferior (SFI) Lobo frontal Córtex pré-motor (AB 6) Córtex motor primário Área de Brodmann (AB 4) Sulco central Lobo parietal Lembre-se de que os hemisférios cerebrais recebem informação do lado oposto do corpo, e conexões transmitem essas informações entre os lados (SLOBIN, 1980). “Se a língua está ‘localizada’ no hemisfério esquerdo, o ouvido direito deve estar mais em condições de realização da linguagem que o ouvido esquerdo [...]” (SLOBIN, 1980, p. 170). De fato, Doreen Kimura descobriu, por meio de um teste denominado “tarefa de audição dicotômica”, que os ouvintes “[...] relatam com mais exatidão a matéria verbal apresentada no ouvido direito do que a matéria simultaneamente apresentada ao ouvido esquerdo [...]” (SLOBIN, 1980, p. 170). Não se trata de uma diferença fisiológica de recepção sonora entre os ouvidos, mas de interpretação diferenciada pelo cérebro. “O hemisfério esquerdo se ajusta, perfeitamente, a receber os sons para fins de realização estritamente linguística ou acústica. O hemisfério direito Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala8 é superior ao esquerdo na tarefa de detectar sons ambientais não linguísticos e melodias [...]” (SLOBIN, 1980, p. 170). Pinker (2002, p. 391) apresenta a hipótese de que a linguagem, nos seres humanos, pode ter se concentrado no hemisfério esquerdo por ser “[...] coordenada no tempo, embora não no espaço ambiental [...]”, ou seja, “[...] palavras são reunidas em ordem, mas não apontadas em várias direções [...]”. Muitos psicólogos cognitivistas, diz Pinker (2002, p. 391), creem que “[...] uma grande quantidade de processos mentais que exigem coordenação sequencial e ordenação de partes, como reconhecer e imaginar objetos de muitas partes e empreender passo a passo raciocínios lógicos, resida no hemisfério esquerdo [...]”. Há, contudo, capacidade linguística no hemisfério direito. Para Slobin (1980), isso possivelmente é uma garantia do cérebro para o caso de haver alguma lesão no ladoesquerdo. Essa capacidade linguística, entretanto, é limitada. Se há dano cerebral no lado esquerdo ainda na infância, o lado direito assume sua função, e a aquisição de palavras ocorre normalmente, porém a capacidade sintática (de combinações), mesmo que adequada, não se iguala à alcançada pelo hemisfério esquerdo. Pinker (2002) aponta o fato de que o hemisfério esquerdo controla a linguagem de 97% dos destros, mas, quanto aos canhotos, 19% têm sua linguagem controlada pelo hemisfério direito, 68% pelo esquerdo, e os demais por ambos os lados, casos em que os indivíduos, devido à linguagem estar distribuída de forma mais uniforme, apresentam maior possibilidade, no caso de terem lesão cerebral, de não sofrerem afasia. Além disso, “[...] alguns dados demonstram que, embora os canhotos se destaquem em matemática e atividades espaciais e artísticas, eles são mais suscetíveis a distúrbios de linguagem, dislexia e gagueira [...]” (PINKER, 2002, p. 391). Duas questões ainda devem ser abordadas: por que um ser humano leva três anos para dominar completamente a gramática (como conjunto de regras) de sua língua? (Ainda que isso seja surpreendente, considerando-se o grau de especialização e complexidade da linguagem humana. Pense no tempo que levam os outros animais para se exprimirem conforme sua espécie.) E por que há um limite para a aquisição da linguagem? O desenvolvimento da linguagem nos bebês não parte do zero. Lembre-se de que, para Pinker (2002), a língua é um instinto, então nascemos “programados” para usá-la, o que já foi comprovado por testes. O autor narra o experimento que Peter Eimas e Peter Jusczyk realizaram com bebês de um mês: 9Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala [...] colocaram dentro de uma chupeta um dispositivo conectado a um gravador, de tal modo que, quando o bebê sugava, a fita tocava. Quando a fita tocava monotonamente ba, ba, ba, ba..., os bebês demonstravam seu fastio sugando mais lentamente. Mas, quando as sílabas mudavam para pa, pa, pa..., os bebês começavam a sugar com mais vigor, para escutar mais sílabas. Além disso, não escutavam as sílabas apenas como sons brutos; usavam o sexto sentido, a percepção da fala: dois ba que diferem acusticamente entre si tanto quanto um ba difere de um pa, mas que são ambos escutados como ba por adultos, não reavivaram o interesse das crianças (PINKER, 2002, p. 335). Conforme Pinker (2002), as crianças ouvem como os adultos, e já nascem com essa habilidade; ela não é aprendida com os pais. No entanto, ainda precisam da interação social (i.e., ouvir regularmente a fala dos adultos) para apreenderem a gramática de sua língua (i.e., a gramática interna, o conjunto de regras fonéticas, lexicais e morfossintáticas da língua) e desenvolverem pragmaticamente a fala. Na verdade, as crianças nascem com a habilidade de ouvir todos os fonemas possíveis em todas as línguas, mas, à medida que vão crescendo, aprendem a melodia e selecionam os fonemas necessários para a língua que os cerca. As- sim “[...] por volta dos dez meses, já não são mais foneticistas universais [...]”, fazendo “[...] essa transição antes de emitir ou compreender palavras, portanto, sua aprendizagem não pode depender de conseguir correlacionar som e sentido [...]”. As crianças “[...] devem estar sintonizando de alguma maneira seu módulo de análise da fala para emitir os fonemas usados em sua língua. Esse módulo provavelmente serve de unidade avançada do sistema que aprende palavras e gramática [...]” (PINKER, 2002, p. 335–336). Pinker (2002) faz uma síntese do desenvolvimento da linguagem nas crian- ças. Ele explica que, entre os 5 e os 7 meses, os bebês começam a brincar com sons, e entre os 7 e os 8 meses, a balbuciar sílabas verdadeiras, cujos sons “[...] consistem em padrões de fonemas e sílabas comuns a todas as línguas [...]” (PINKER, 2002, p. 338). Essa fase é importante porque “[...] ao escutar seu próprio balbucio, os bebês [...] aprendem quando devem mover que músculo em que sentido para obter que mudança no som [...]” (PINKER, 2002, p. 338). Um pouco antes de 1 ano, as crianças começam a compreender palavras, e, em seguida, com cerca de 1 ano, a emiti-las. “Por volta dos dezoito meses, a linguagem deslancha. O incremento de vocabulário ganha a velocidade de no mínimo uma-palavra-nova-a-cada-duas-horas que a criança irá manter até o fim da adolescência [...]” (PINKER, 2002, p. 341). E do final do segundo ano até os três anos e meio, aproximadamente, “[...] a linguagem das crianças transforma-se numa conversa gramatical fluente, desabrochando de maneira Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala10 tão rápida que desconcerta os pesquisadores, e até agora ninguém conseguiu descobrir a sequência exata desse processo [...]” (PINKER, 2002, p. 341–342). Retomando nosso questionamento, pode-se dizer que é provável que os seres humanos levem cerca de 3 anos até o domínio completo de sua língua materna, uma vez que a linguagem se desenvolve à medida que a criança cresce e, consequentemente, seu cérebro também se desenvolve. Os seres humanos, diferentemente dos outros animas, não nascem prontos. Se o tempo da gestação humana fosse proporcional ao dos demais primatas, duraria 18 meses, idade em que, de fato, as crianças começam a juntar palavras. Asso, “A linguagem parece desenvolver-se na velocidade que o cérebro em crescimento tolera [...]” (PINKER, 2002, p. 368). Chegamos ao nosso questionamento sobre a idade-limite para a aquisição da linguagem. Sabe-se que é mais difícil para um adulto aprender uma nova língua, visto que os aspectos fonológicos acabam não sendo totalmente apreendidos, e a organização morfossintática pode ser mais bem recebida, mas a fluência dificilmente será a de um nativo. Casos de crianças que, por algum motivo, foram mantidas em isolamento até a adolescência e lesões cerebrais a partir desse período também costumam deixar sequelas irreversíveis. Segundo Slobin (1980, p. 174), “Pode haver uma ‘idade crítica’ para o hemisfério esquerdo na sua missão de desenvolver as funções da linguagem, como também para o hemisfério direito quando precisa assumir tais funções [...]”. Corroborando essa ideia, Pinker (2002, p. 374) afirma que “[...] a aquisição de uma linguagem normal é certa para crianças até seis anos, fica comprometida depois dessa idade até pouco depois da puberdade e é rara depois disso [...]”. Considerando-se que, segundo essa teoria, a capacidade de aquisição de linguagem é instintiva, ela não deveria acompanhar o indivíduo ao longo da vida? Com efeito, o hemisfério direito do cérebro não sofre essa espécie de “atrofia” que ocorre no hemisfério esquerdo, aponta. O autor responde à questão ao relacionar tal “atrofia” justamente às necessidades instintivas do ser humano. O hemisfério que se relaciona com a linguagem está “[...] predisposto a adquirir a língua NUM ESTÁGIO APROPRIADO DE MATURAÇÃO. [...] o aprender a falar está condicionado pela complexa tabela do crescimento físico [...]” (SLOBIN, 1980, p. 175). Ou seja, não faria sentido manter o cé- rebro ocupado com a obtenção da linguagem após o período em que isso ocorre plenamente, sendo mais útil direcionar os esforços neuronais a outras atividades. Ratificando esse ponto de vista, Pinker (2002, p. 375) afirma que “[...] aprender uma língua – em oposição a usar uma língua – é extremamente 11Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala útil uma única vez. Uma vez aprendidos os detalhes da língua local falada pelos adultos, qualquer outra capacidade de aprender (afora o vocabulário) é supérflua [...]”. Isso tem relação com a nossa constituição biológica, decorrente da evolução. Metabolicamente, “[...] o cérebro consome um quinto do oxigênio do corpo e porções igualmente grandes de suas calorias e fosfolipídios [...]” (PINKER, 2002, p. 376). Assim, é natural que, pela seleção natural, os recursos do corpo sejam diferenciadosao longo de nossa existência física, e corpos que envelhecem precisam destinar energia para sua sobrevivência — a linguagem, afinal, já está apreendida e em pleno uso. Para se aprofundar nas questões abordadas pelo psicolinguista Steven Pinker, ampla- mente citado, acesse o site do autor, disponível por meio do link a seguir (em inglês). stevenpinker.com As etapas da produção da linguagem A primeira pergunta a ser feita nesta seção, por mais banal que pareça, é: o que é produção da linguagem no âmbito da psicolinguística? Rodrigues (2015, p. 85) dá uma defi nição clara e sucinta: “Produção da Linguagem é um processo altamente complexo, que ocorre de forma automática, podendo se dar num ritmo de duas a três palavras por segundo [...]”. A autora comenta, ainda, que, cotidianamente, apenas nos damos conta dessa complexidade em situações em que há falha no processo, originando lapsos em “[...] unidades fônicas, em trocas semelhantes às induzidas em brincadeiras de trava-língua [...]”, em “[...] elementos da morfossintaxe, como nos chamados ‘erros de concordância’ – por exemplo, em O estudo dos lapsos de fala geraram [...]” ou, ainda, em “[...] trocas de ordem semântica como a que se observa no sintagma perdas e danos, quando o falante desejava dizer perdas e ganhos [...]” (RODRIGUES, 2015, p. 85). Assim, a partir tanto das análises feitas dos lapsos quanto dos resultados decorrentes de experimentação prática, os pesquisadores conseguem construir Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala12 “[...] modelos psicolinguísticos acerca do tipo da representação e dos processos mentais envolvidos na produção da fala [...]” (RODRIGUES, 2015, p. 85). Scliar-Cabral (2018, p. 428) menciona o desafio em que consiste a elaboração de modelos de produção da linguagem verbal, devido a: [...] várias dificuldades metodológicas, desde a elaboração dos experimentos que possam testar empiricamente as representações mentais que governam como se iniciam as intenções pragmáticas de produzir um texto, como são gerados os significados a serem lexicalizados, enfim, todas as etapas de pro- cessamento até a execução que exterioriza o texto, monitorado continuamente pelo locutor e acessível à inspeção experimental. A autora destaca que é mais difícil produzir um texto oral do que o entender. Afinal, em primeiro lugar, o falante decide o que e como vai dizer, ao passo que o ouvinte reconhecerá e interpretará a mensagem recebida. Além disso, “[...] os modelos psicolinguísticos de produção da linguagem verbal oral têm que dar conta de como somos capazes de produzir palavras numa velocidade de até três por segundo, isto é, 180 por minuto [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 428). Scliar-Cabral (2018) destaca Paul Broca e Karl Wernicke, citados ante- riormente, como precursores em relação à produção de modelos. Embora eles fossem da área de neurologia, seus estudos foram extremamente significativos para o desenvolvimento da ciência psicolinguística, cujo objetivo “[...] não é a descrição da estrutura do sistema nervoso central, mas testar hipóteses e teorias que expliquem como ele funciona quando recebemos e produzimos mensagens verbais, bem como o modo de adquirirmos e aprendermos tais capacidades [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 430). A autora explica que o léxico mental é: [...] constituído por unidades dotadas de significado que são arquivadas na memória permanente, à medida que o indivíduo as percebe e recorta, usadas nos mesmos contextos de uso. Há diferentes léxicos, arquivados em áreas distintas do cérebro, mas a divisão maior é entre os vários léxicos ligados às referências externas à gramática de qualquer língua, abertos ao registro con- tínuo de novas entradas e o léxico gramatical, ligado às estruturas sintáticas, em número fechado e limitado (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 428). Como há diferentes formas de se conceber essas unidades, existem também diferentes modelos de representação da produção da linguagem. 13Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala Modelo de produção da linguagem Optamos por mostrar aqui o mais conhecido, o modelo de Levelt, Roelofs e Meyer (1999). Segundo Scliar-Cabral (2018), há três propriedades importantes relacionadas a esse modelo. A primeira trata da questão da precedência do input (i.e., estímulo auditivo a que o indivíduo é exposto) sobre o output (i.e., resposta do indivíduo) e dependência do output em relação ao input. Isso implica que a criança poderá falar apenas se tiver ouvido adultos falando e perceptivelmente tenha dado sinais, embora ainda não consiga produzi-los, de tê-los compreendido. A segunda propriedade dita que a produção verbal implica tradução de conceitos, noções, pensamentos lexicais em palavras. Por fi m, no último momento da produção verbal oral, há a execução dos gestos motores do aparelho fonador, que “[...] ocorre a partir da ativação das sílabas fonéticas que formam a palavra escolhida, constantes no silabário que começa a ser fi xado na fase do balbucio [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 435). O silabário, explica Scliar-Cabral (2018, p. 435), “[...] surge quando as sílabas entram na composição de palavras, ou seja, de unidades com significado [...]”. Para a pesquisadora, isso ocorre quando os bebês deixam de ser o que Pinker (2002, p. 335) chama de “[...] foneticistas universais [...]” e passam a ter sensibilidade para os traços fonéticos de sua língua. Scliar-Cabral (2018, p. 435–436) ainda destaca que: [...] apesar da complexidade dos comandos que devem acionar, sinergicamente, músculos pertencentes a diferentes sistemas do aparelho fonador, a criança, por volta dos doze meses, já demonstra domínio articulatório de algumas sílabas como /pa/, /ma/, /da/, /ne/ e logo terá um repertório de cinquenta palavras [...]. Vamos às etapas do modelo em si. O nível em que ocorre o processo, da mensagem, esclarece Scliar-Cabral (2018, p. 436), “[...] é o mais alto e abs- trato e deslancha os conceitos que deverão posteriormente ser lexicalizados e inseridos nas estruturas sintáticas. É movido pelas intenções pragmáticas dos falantes, tanto ao iniciarem a conversação, quanto quando a mantêm [...]”. Assim que a mensagem é definida, ocorre a preparação conceitual, como conceitos lexicais. O produtor tem muitas possibilidades e as selecionará de acordo com sua intenção comunicativa. Um exemplo seria, [...] apresentada a figura de um cavalo, o sujeito poder acionar os seguin- tes conceitos lexicais: CAVALO, BICHO, ANIMAL, JUMENTO, JEGUE, PINGO, POTRO, entre outros. Os conceitos lexicais integram o que tradi- cionalmente é conhecido em psicolinguística como memória semântica [...] (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 436). Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala14 Segue-se, então, para a seleção lexical, que seria a “[...] seleção de um lema correspondente a esse conceito. O lema pode ser entendido como uma representação de propriedades gramaticais e sintáticas do item lexical (classe da palavra, traços gramaticais, estrutura argumental, etc.) [...]” (RODRIGUES, 2009, documento on-line). Após essa seleção, ocorre a codificação morfofonológica e a silabifica- ção, nível, chamado por Levelt, Roelofs e Meyer (1999) de forma, em que aparecem os morfemas integrantes da palavra, cujos fonemas constituintes e sua ordem são determinados. “Da combinação dos morfemas resulta o output seguinte, que é a palavra fonológica [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 437). O próximo momento é a codificação fonética, à qual “[...] cabe computar a pontuação gestual da palavra fonológica, ou seja, especificar a tarefa arti- culatória na produção da palavra [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 437). Nesse momento, ocorre “[...] a especificação das sílabas fonéticas que serão ativadas no silabário fonético para que o programa motor acione os músculos adequados para a produção dos gestos fonatórios e a atribuição da prosódia, ou seja, como se distribuem os acentos [...]”(SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 437). Dá-se, então a articulação pelo aparelho fonador, sendo necessárias tanto a coordenação de “[...] músculos em movimentos simultâneos para a obtenção de um mesmo alvo, quanto, simultaneamente, a antecipação dos gestos da sílaba seguinte, com todos os efeitos das mudanças contextuais decorrentes, já que a execução é dinâmica [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 438). Por último, tem-se a autorregulação. Por exemplo, nós constatamos falhas de fala do interlocutor, mas, certamente, também em nossa própria fala, uma vez que o sinal acústico retorna aos nossos ouvidos. Além disso, realizamos autorregulação de nosso discurso interior, o que afeta o tempo de reação da fala, uma vez que a decodificação se torna mais lenta. É importante lembrar que os modelos que tentam identificar os processos da linguagem são construtos teóricos utilizados como recurso para dife- rentes estudos. O falante não tem, evidentemente, consciência das etapas de produção de sua fala. Há incontáveis estudos possíveis relacionados à produção da linguagem. Entre os vários exemplos dados por Rodrigues (2015, p. 88), estão questões relativas à representação — como a discussão sobre se existiria “[...] um pensamento para falar [...] diferente de outros tipos de pensamento, voltados para outras finalidades [...]” —, à passagem do conceito para a codificação gramatical — “[...] discute-se se a formu- lação linguística propriamente dita poderia ou não ter início antes de uma representação completa de natureza conceptual ter sido construída [...]” —, à construção de estrutura sintática — há modelos de orientação lexical, 15Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala em que “[...] a construção da estrutura sintática é lexicalmente guiada [...]” e “[...] modelos segundo os quais a estrutura sintática [é] independente de informação lexical específica [...]” —, à codificação morfofonológica — em que se busca “[...] identificar quais as unidades de processamento desse nível e quais os passos envolvidos nessa etapa da produção [...]” (RODRIGUES, 2015, p. 89). Essas são apenas algumas possibilidades dentre as tantas que há. Um aspecto, contudo, é comum a quaisquer investigações nessa linha: “[...] diferentemente do que ocorre nas pesquisas em compreensão, no estudo da produção não se tem acesso direto ao ponto de partida do processo, o que dificulta o controle e a manipulação de variáveis na condução de experimentos [...]” (RODRIGUES, 2015, p. 89–90). Rodrigues (2015) dá vários exemplos de pesquisas realizadas na produção da linguagem. Um deles é o que reproduzimos aqui (Figura 2). A pesquisadora explica que, no estudo da concordância, um procedimento é o uso de lapsos induzidos: “[...] a técnica consiste na apresentação prévia de preâmbulos que deverão ser empregados na posição de sujeito de uma sentença a ser construída. A continuidade da sentença pode ser livre, ou podem ser indicados verbos ou adje- tivos (reais ou pseudopalavras) com os quais o preâmbulo deverá ser combinado [...]” (RODRIGUES, 2015, p. 91). Figura 2. Representação esquemática do experimento. Fonte: Rodrigues (2015, p. 91). Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala16 BALIEIRO JR., A. P. Psicolinguística. In: MUSSALIN, F.; BENTES, A. C. (org.). Introdução à linguística. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2004. v. 2. BRUNONI, D. et al. Microcefalia e outras manifestações relacionadas ao vírus Zika: impacto nas crianças, nas famílias e nas equipes de saúde. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 21, n. 10, p. 3297–3302, 2016. LEVELT, W. J. M.; ROELOFS, A.; MEYER, A. S. A theory of lexical access in speech produc- tion. Behavioral and Brain Sciences, Cambridge, v. 22, n. 1, p. 1-75, 1999. PINKER, S. O instinto da linguagem: como a mente cria a linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2002. RODRIGUES, E. S. O estudo psicolinguístico da produção da linguagem: uma breve apresentação de métodos empregados na investigação do processamento adulto. Revista Linguística, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 110–128, 2009. 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No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 17Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala Dica do professor Os estudos na área de aquisição da linguagem abarcam boa parte das pesquisas feitas na psicolinguística. Esse tema tão relevante quanto rico apresenta muitos desdobramentos. Nesta Dica do Professor, veja um breve apanhado da maneira como tem sido estudada a questão da perda da memória da primeira infância, tema que sempre gera muita curiosidade, porque é fascinante. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/33e76ab050bcd02f3823dd052481895f Exercícios 1) A relação entre o pensamento e a linguagem é um tema atual, mas, ao mesmo tempo, fundador na área da psicolinguística. Assinale a afirmativa correta quanto a esse assunto: A) O fato de as pessoas procurarem pela “palavra certa” para as situações comprova a tese behaviorista de que fala e pensamento são equivalentes. B) O fluxo do pensamento é acompanhado simultaneamente pela sequência de fala correspondente, conforme a psicolinguística. C) A fala, para a psicolinguística, ainda que seja um dos muitos instrumentos do pensamento, não corresponde ao pensamento em sua totalidade. D) Segundo os behavioristas, fala e pensamento eram entidades separadas, e, assim, o pensamento era disponível de forma direta ao estudo científico. E) Para entender a relação entre linguagem e pensamento na psicolinguística, podemos usar a noção cotidiana de linguagem, pois se trata de um estudo do seu uso cotidiano. 2) A língua e a cognição sempre despertaram curiosidade, e, consequentemente, muitos estudos trataram desses temas. Sobre língua como representação mental e como instrumento do pensamento, podemos afirmar corretamente que: A) analisar em que atividades mentais o uso da língua tem um papel significativo relaciona-se à consideração da língua como uma entre as formas de representação do pensamento. B) a relação entre as imagens e as palavras faz pensar se haveria alguma estrutura comum aos diferentes tipos de representação mental, o que ainda não tem resposta. C) qualquer conhecimento pode ser simultaneamente representado por enações, imagens, proposições e traços e protótipos. D) o entendimento de que há várias maneiras de descrever a estrutura do conhecimento relaciona-se a perceber a língua como instrumento do pensamento. E) as imagens mentais têm relevância enquanto a criança ainda não adquiriu a fala; depois, têm papel secundário. 3) A identificação das funções dos hemisférios cerebrais para a fala e a linguagem tem grande relevância nos estudos da psicolinguística.Assinale a alternativa correta sobre esse tópico: A) A capacidade do ser humano para a linguagem tem relação com a maior massa cerebral e, consequentemente, com o número de neurônios superior em relação aos outros animais. B) As funções relacionadas à linguagem humana estão localizadas no hemisfério esquerdo do cérebro; por isso, danos cerebrais nessa área impossibilitam a fala. C) Já que a maioria dos sujeitos destros tem a linguagem controlada pelo hemisfério esquerdo do cérebro, eles são mais propensos a ter distúrbios de linguagem. D) Supõe-se que no hemisfério esquerdo resida a capacidade de executar processos mentais que exigem organização em sequências e ordenação de partes. E) A detecção físico-acústica do som é feita de forma diferenciada nos dois ouvidos, sendo que, no direito, os sons para realização linguística são mais bem percebidos. 4) Uma importante linha de estudo da área da psicolinguística é a aquisição da linguagem. Quanto a essas pesquisas, assinale a alternativa correta: A) A audição dos bebês se desenvolve com o crescimento, e a percepção dos fonemas da língua evolui na medida desse progresso. B) A compreensão das palavras pelos bebês se inicia entre os 5 e os 7 meses, como preparação para a fase seguinte da aquisição, a do balbucio. C) A aquisição da linguagem pela criança depende da interação direta dos adultos da comunidade linguística a que esse indivíduo pertence. D) A fase do balbucio das crianças em desenvolvimento não tem relevância para o período da aquisição da linguagem, ainda que seja importante para estudos linguísticos. E) A aquisição da linguagem acontece primordialmente na infância e na adolescência em decorrência de que evolutivamente o aprendizado da língua é mais necessário nesse momento. 5) A produção da linguagem se dá de forma automática para o falante, mas há inúmeros estudos nessa linha. Sobre esse recorte, assinale a alternativa correta: A) Os estudos da produção da linguagem não têm acesso direto ao ponto de partida do processo, o que dificulta o controle de variáveis na condução de experimentos. B) A primazia do output sobre o input resulta em que a criança poderá falar apenas se tiver ouvido adultos falando. C) Segundo o modelo de Levelt, Roelofs e Meyer, a preparação lexical é o momento em que há seleção do conceito lexical, de acordo com a intenção comunicativa. D) É por meio de análises feitas em lapsos de fala produzidos espontaneamente por falantes que os pesquisadores elaboram modelos de representação da produção da linguagem. E) Na articulação pelo aparelho fonador, última etapa no modelo de Levelt, Roelofs e Meyer, ocorre a produção física da fala. Na prática Para a psicolinguística, a mente humana ocupa posição central, e a linguagem, inerente ao ser humano, permite inúmeras possibilidades para acessar ao menos uma parcela do pensamento. A discussão sobre a relação entre a linguagem e o pensamento permeia todo o desenvolvimento dessa área. Na Prática, acompanhe Luísa, cujo professor de Psicolinguística fez uma interessante solicitação de trabalho para a faculdade, e amplie seu conhecimento sobre esse tópico. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: GT em Psicolinguística da ANPOLL O Grupo de Trabalho em Psicolinguística da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL) reúne os pesquisadores e os professores que atuam nas subáreas de aquisição, processamento e distúrbios da Linguagem nas universidades e nos institutos de pesquisa do Brasil. Você pode acessá-lo por meio do endereço abaixo, no qual terá acesso aos links que trazem, por exemplo, os laboratórios em que são feitas as pesquisas da área no País e o Sistema de Informação em Psicolinguística e Aquisição da Linguagem (SIPA), que divulga os eventos da área. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Pensamento e linguagem A obra Pensamento e linguagem, de Lev Vygotsky, está em domínio público e encontra-se disponível para download no link abaixo. Nessa obra, o autor russo mostra o resultado de anos de estudos sobre a relação entre o pensamento e a linguagem, entes até então estudados de forma estanque. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Portal da Língua Portuguesa Este site português é um repositório de recursos linguísticos para quem trabalha com a língua portuguesa e tem interesse ou dúvidas sobre seu funcionamento. Seu conteúdo é de livre acesso e está em constante desenvolvimento. Nesse portal, é possível encontrar um dicionário de termos linguísticos. Nele, há, também, o subdomínio Psicolinguística, no qual você encontra uma lista de termos da área para consulta. https://anpollgtpsicolinguistica.wordpress.com/ http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/vigo.pdf Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. http://www.portaldalinguaportuguesa.org/