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Produção da linguagem: processamentos 
mentais envolvidos na fala
Apresentação
A psicolinguística busca constantemente entender os processos mentais que estão ligados à 
linguagem humana. A mente humana, assim, com sua posição central, é explorada com afinco. A 
psicolinguística trata tanto dos processos de codificação quanto de decodificação de mensagens, 
buscando estabelecer a relação entre eles para que possamos entender cada vez mais nosso 
desenvolvimento cognitivo como espécie.
Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar a relação entre a fala e o pensamento, além das 
diferenças entre as abordagens desse tema. Também as funções de cada hemisfério cerebral serão 
exploradas, e você irá conhecer as diferentes etapas da produção da linguagem e entender a 
relevância desse tema.
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Descrever a relação entre linguagem, fala e pensamento. •
Identificar as funções dos hemisférios cerebrais para a fala e a linguagem. •
Caracterizar as diferentes etapas da produção da linguagem. •
Desafio
A produção da linguagem apresenta grande complexidade. Contudo, o falante não tem noção dos 
passos que segue, pois, para ele, trata-se de um processo automático. Quando se trata de pensar a 
linguagem como representação mental, para os processos do pensamento se realizarem, o 
conhecimento precisa ser codificado e armazenado, o que acontece de algumas formas específicas.
Imagine que você é um professor em uma universidade e precisa escrever um guia sobre questões 
relacionadas às formas de representação mental. Você precisa explicar para os alunos de uma 
disciplina inicial de Psicolinguística diferentes maneiras de o cérebro codificar e armazenar os 
conhecimentos para realizar processos como o raciocínio, o planejamento, a solução de problemas, 
a formulação de hipóteses: enações, imagens, proposições e traços e protótipos. Você recebe os 
trechos a seguir para serem usados como exemplos das explicações:
Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.
 
https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/2a0f5c86-3295-46a5-b274-d312884032ae/5b0e405e-bd3a-421c-961a-5b4aa9411a4e.jpg
Assim, explique cada uma dessas maneiras com suas palavras e utilize os trechos citados 
para exemplificá-las, identificando a forma de representação que lhe parece que corresponda a 
cada conteúdo apresentado.
Infográfico
A psicolinguística busca a compreensão dos processos mentais envolvidos no uso e na aquisição da 
linguagem. Realizam-se esforços para tentar alcançar e entender esses três eixos complementares, 
de modo a buscar cada vez mais abrangência desse seu olhar peculiar sobre a linguagem humana.
No Infográfico a seguir, amplie seu conhecimento quanto a um dos modelos de representação do 
processamento da linguagem, de modo a ter maior noção da sequencialidade do processo.
Aponte a câmera para o 
código e acesse o link do 
conteúdo ou clique no 
código para acessar.
https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/5e9cc50c-22e0-4fc8-8783-ca9a80b1d6cb/3bb7862b-05ce-416d-8a7f-22d028f282ba.jpg
 
 
Conteúdo do livro
Se, para a psicolinguística, a mente humana ocupa posição central, a linguagem, inerente ao 
homem, abre inúmeras possibilidades para que se possa acessar não a totalidade, mas ao menos 
uma parcela do pensamento. Assim, podemos buscar cada vez mais o conhecimento sobre nosso 
desenvolvimento cognitivo.
No capítulo Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala, da obra 
Psicolinguística, amplie seu conhecimento nesse campo, já que o capítulo trata de um processo 
fundamental nesse sentido. A relação entre a fala e o pensamento, e as diferenças entre as 
abordagens desse tema, serão tratadas aqui, bem como funções de cada hemisfério cerebral. Por 
fim, estude as diferentes etapas da produção da linguagem e entenda a relevância da temática.
Boa leitura.
PSICOLINGUÍSTICA
Lia Emília Cremonese
Produção da linguagem: 
processamentos mentais 
envolvidos na fala
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Descrever a relação entre linguagem, fala e pensamento.
  Identificar as funções dos hemisférios cerebrais para a fala e a 
linguagem.
  Caracterizar as diferentes etapas da produção da linguagem.
Introdução
A psicolinguística trata da mente humana e vê a linguagem não apenas 
como intrínseca ao homem, mas também — e em virtude disso — como 
uma oportunidade de vislumbre do pensamento. A linguagem é algo 
que dá acesso não à totalidade, mas a uma parte daquilo que se espera 
poder alcançar um dia em relação ao conhecimento sobre a evolução e 
o funcionamento cognitivo de nossa espécie.
Neste capítulo, você estudará sobre a relação entre linguagem, fala e 
pensamento e verá que a diferença entre essas abordagens gerou uma 
grande transformação nessa linha de pesquisa. Além disso, verificará 
que cada hemisfério cerebral tem uma função distinta e interfere de 
alguma forma no desenvolvimento cognitivo do ser humano. Por fim, 
conhecerá as diferentes etapas da produção da linguagem, bem como 
os desdobramentos possíveis por esse caminho.
Linguagem, fala e pensamento
Para compreender a relação entre a linguagem, a fala e o pensamento, den-
tro dos parâmetros da psicolinguística, é necessário, inicialmente, entender 
determinados conceitos. Afi nal, como apontava Saussure (2006, p. 15), “[...] 
bem longe de dizer que o objeto precede o ponto de vista, diríamos que é o 
ponto de vista que cria o objeto [...]”. Ou seja, somente podemos identifi car 
efetivamente um objeto de estudo a partir da determinação do ponto de vista 
teórico que o cientista adotará. 
Assim, é preciso explicitar que, do ponto de vista da psicolinguística, 
quando falamos em linguagem, estamos nos referindo a um elemento que 
faz parte da constituição biológica do cérebro. Segundo Pinker (2002, p. 9), a 
linguagem “[...] é uma habilidade complexa e especializada, que se desenvolve 
espontaneamente na criança, sem qualquer esforço consciente ou instrução 
formal [...]”. O autor ainda afirma que a linguagem já foi descrita como “[...] 
uma faculdade psicológica, um órgão mental, um sistema neural ou um módulo 
computacional [...]”, mas que ele prefere “[...] o simples e banal termo ‘instinto’ 
[...]”. Tal termo é adotado pelo autor por lembrar o fato de que a linguagem 
não é uma “[...] invenção cultural [...]”, na medida em que não foi criada pelo 
homem. Segundo ele, ao considerarmos a linguagem como “[...] uma adapta-
ção biológica para transmitir informação [...]”, passamos a respeitar cada ser 
humano, independentemente de sua origem ou de sua formação, e qualquer 
língua que seja em sua própria complexidade.
Nesse contexto, Balieiro Jr. (2004, p. 191) afirma que “[...] se consideramos 
as bases indubitavelmente cerebrais (ou mentais) do pensamento e a hipótese 
de que este pensamento se articula com a linguagem [...]”, precisamos reco-
nhecer “[...] que o acesso que temos a este processamento é indireto, ou seja, 
supomos que existe um processamento linguístico na mente ou no cérebro 
da pessoa, mas somente temos acesso aos eventos físicos a ele relacionados, 
sejam estes eventos a fala, o gesto ou a escrita [...]” (BALIEIRO JR., 2004, 
p. 192). Assim, outros dois conceitos cuja explicitação se faz necessária são 
língua e fala. Segundo Slobin (1980, p. 204), “A fala é um processo físico 
tangível que resulta na produção dos sons da fala”, ao passo que a “língua é 
um sistema intangível de significados e estruturas linguísticas [...]” .
Como nosso acesso ao pensamento é restrito, é normal que tenham sido 
elaboradas diferentes teorias sobre a relação entre a linguagem, a fala e o 
pensamento. No início do século XX, havia uma crença preponderante acerca 
desse tema. De acordo com Slobin (1980), os behavioristas defendiam que 
pensamento e fala estavam intrinsecamenteligados. A posição mais radical, 
Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala2
do americano John B. Watson, era de que fala e pensamento seriam a mesma 
coisa; já a dos psicólogos russos, como Ivan Sechenov, era de que fala e pensa-
mento estariam relacionadas nas crianças, porém, nos adultos, o pensamento 
seria um pouco mais livre. Entretanto, basta pensar em um exemplo simples, 
como alguém que sofre um acidente e fica desprovido da capacidade de fala, 
mas compreende o que lhe é dito e se comunica de outra forma que não a oral, 
para que se perceba que essa relação não pode ser verdadeira.
Os teóricos Jean Piaget e Lev Vygotsky tiveram posicionamentos diferentes, 
os quais, simultaneamente (ambos nasceram no mesmo ano, 1896) e em dife-
rentes lugares (Suíça e Rússia, respectivamente) estudaram o mesmo tema (o 
desenvolvimento cognitivo), porém sem nunca terem se encontrado. Segundo 
o primeiro, “[...] o desenvolvimento cognitivo avança por si, em geral seguido 
pelo desenvolvimento linguístico, ou encontrando reflexo na linguagem da 
criança. O intelecto da criança se desenvolve por meio da interação com as 
coisas e pessoas do seu meio ambiente [...]” (SLOBIN, 1980, p. 203). Já para 
Vygotsky, “[...] a fala pode servir ao pensamento, e o pensamento pode ser 
revelado na fala [...]” (SLOBIN, 1980, p. 202). 
Slobin (1980) ressalta que a crença de Watson relaciona a fala ao pensa-
mento, ao passo que Vygotsky e Piaget relacionam linguagem e pensamento, 
ou seja, “[...] as relações entre linguística interna e estruturas cognitivas [...]” 
(SLOBIN, 1980, p. 204). Para ir além, pode-se “[...] indagar se é possível o 
pensamento sem a FALA INTERIOR — isto é, sem alguma atividade da lin-
guística interna [...]. Há muitos processos mentais que parecem pré-linguísticos 
ou não linguísticos [...]” (SLOBIN, 1980, p. 205) — um exemplo seria tentar 
encontrar uma palavra mais adequada para expressar o que se deseja. Pode-se 
observar que “[...] uma frase não é um mapeamento direto a um pensamento 
[...]” (SLOBIN, 1980 p. 206); se assim fosse, não haveria necessidade de buscar 
uma “palavra ideal” em determinado momento, por exemplo. 
Vygotsky (1939, documento on-line) afirmou não haver correspondência 
entre as unidades do pensamento e aquelas da fala: “[...] o pensamento tem a 
sua própria estrutura e a transição entre ele e a linguagem não é coisa fácil 
[...]”. Slobin (1980, p. 202) afirma que, ainda que sem a língua a existência 
humana — cultura, comportamento, pensamento — certamente não seria 
como é, e que, portanto, “[...] ninguém negue o papel central da língua na 
vida humana, definir a natureza desse papel tem sido um problema difícil e 
persistente [...]”. Assim, é muito difícil determinar qual o espaço e os atributos 
da linguagem verbal em relação ao pensamento em toda a sua complexidade, 
com “[...] imagens e emoções, intenções e abstrações, lembranças de sons e 
perfumes e sentimentos, e muita coisa mais [...]” (SLOBIN, 1980, p. 202).
3Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala
Representação mental e instrumentos do pensamento
Segundo Slobin (1980), ao considerarmos a relação entre língua e cognição, é 
necessário levantar duas questões, segundo o ângulo a partir do qual olhamos 
tal relação. “Se consideramos a língua como uma entre as muitas formas de 
REPRESENTAÇÃO MENTAL [...]”, devemos nos perguntar quais são as 
relações entre essas formas, o que consiste em “[...] uma questão estrutural 
[...]” (SLOBIN, 1980, p. 207). Por outro lado, “Se consideramos a língua como 
um dos INSTRUMENTOS DO PENSAMENTO [...]”, precisamos entender 
como esse “[...] ‘instrumento’ infl uencia os processos cognitivos [...]”, o que 
é “[...] uma questão de uso [...]” (SLOBIN, 1980, p. 207).
No que concerne à linguagem como representação mental, “[...] para que 
os processos do pensamento se realizem — raciocínio, planejamento, solução 
de problema, etc. —, é necessário que o conhecimento seja codificado e 
armazenado de alguma forma [...]” (SLOBIN, 1980, p. 208). Algumas formas 
de representação são: enações, imagens, proposições, traços e protótipos.
A ideia de representação enativa liga-se à capacidade sensório-motora. 
Na infância, em particular, aprende-se muito por meio da manipulação. Para 
exemplificar, basta lembrar do ato de dar laço no tênis, de dançar, de usar 
instrumentos. Os adultos mantêm representações enativas, como, por exemplo, 
fazer gestos com os braços.
O escritor Millôr Fernandes jocosamente afirmou, desafiando uma famosa 
frase, que “Se uma imagem vale mais que mil palavras, então diga isso com 
uma imagem”. No entanto, certos conhecimentos apenas podem ser expressos 
por palavras. Não poderíamos representar uma teoria, por exemplo, por meio 
de imagens. Contudo, as imagens mentais (interiores) têm grande relevância. 
Cores, faces, representações artísticas, todas são representadas por imagens 
no pensamento. Um questionamento importante é se haveria algum tipo de 
estrutura comum a palavras e imagens.
As proposições igualmente fazem parte da representação mental, corres-
pondendo a uma “[...] rede de conceitos inter-relacionados, que é mais abstrata 
e mais geral que qualquer expressão linguística particular em palavras e 
frases ou a imagem de qualquer acontecimento particular [...]” (SLOBIN, 
1980, p. 210). Mais especificamente, esses elementos seriam representações 
subjacentes, como descrições de situações — por exemplo, “mamãe me deu 
um brinquedo”.
Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala4
Os traços ou protótipos dizem respeito a atributos que agrupam deter-
minados elementos. Por exemplo, brinquedos, louças e ferramentas têm em 
comum o fato de serem inanimados; cachorrinhos, bebês e pintinhos, de serem 
filhotes. Os traços, no entanto, não dão conta de tudo. Para Eleanor Rosch, 
que ampliou a ideia de Wittgestein de que o armazenamento de conceitos é 
feito por meio de semelhanças parciais e traços que se cruzam, esse conjunto 
de informações é ampliado pela noção de transvariação (SLOBIN, 1980) 
Segundo tal acepção, nenhum elemento de um conjunto (família) apresenta 
todos os traços semelhantes, mas há um prototípico que reunirá a maior parte 
deles. Assim, sabiás e corujas são bons exemplos de aves, mas pinguins e 
avestruzes, ainda que se enquadrem, parecem menos aves que os primeiros, 
por não voarem ou serem muito grandes. Dessa forma, “[...] muitas categorias 
se organizam de maneira vaga, em torno do melhor exemplo e protótipo, 
esmaecendo nos limites [...]” (SLOBIN, 1980, p. 213).
Você sabe a que nos referimos quando falamos em enação?
Uma representação enativa, explica Slobin (1980, p. 209), diz respeito às capacidades 
motoras: “[...] as crianças aprendem muito do mundo através de manipulação ativa e há 
um bom número de provas de que a representação enativa, ou imagem muscular, é 
um antigo modo de representar objetos [...]”. O autor ainda lembra que, mesmo quando 
adultos, seguimos usando esse tipo de representação ao utilizar gestos para solicitar 
ou mesmo nos referir a algo na comunicação cotidiana. Se, por exemplo, fazemos 
um gesto imitando o movimento de cortar quando queremos que a pessoa próxima 
nos alcance uma faca, ou um movimento imitando uma tesoura com os dedos, isso 
sugere “[...] que os padrões motores continuam a desempenhar um papel em nossos 
modos de conceber objetos e acontecimentos [...]” (SLOBIN, 1980, p. 209).
Independentemente do tipo de representação do pensamento, há ainda 
dois aspectos importantes. O primeiro diz respeito ao fato de que, por mais 
que isso seja um problema, uma vez que a psicolinguística aborda as relações 
entre pensamento e linguagem, há uma conceituação clara de pensamento 
que subjaz à teoria. O segundo ponto é que a forma de interação entre os 
5Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala
diferentes sistemas de representação mental (sejam eles linguísticos ou não) 
não estão claras. Haveria uma espéciede “mentalês”, uma linguagem da mente 
por meio da qual se teria a capacidade de “[...] traduzir imagens sensoriais, 
pensamentos abstratos e expressões linguísticas?” (SLOBIN, 1980, p. 214).
Quando se trata a língua como um dos instrumentos do pensamento, é pre-
ciso levar em consideração o uso da língua como instrumento do pensamento, 
internamente, e como instrumento de comunicação, interpessoalmente. Ambos 
os aspectos relacionam-se de forma direta com os papéis que a linguagem 
exerce tanto na aprendizagem quanto na memória. “A capacidade de codi-
ficar experiências verbalmente influencia, muitas vezes, o modo pelo qual 
essas experiências são lembradas. De fato, muitas lembranças são distorcidas 
JUSTAMENTE PORQUE estão armazenadas de forma verbal [...]” (SLOBIN, 
1980, p. 216). No entanto, como nem tudo pode ser representado verbalmente de 
forma tão precisa, a memória pode falhar. Memórias que associam elementos 
verbais e visuais tendem a ser mais facilmente acessíveis — a associação de 
uma forma a um nome de objeto, por exemplo.
Slobin (1980, p. 217) destaca algumas mudanças que nossas memórias 
de histórias e de acontecimentos sofrem. O nivelamento implica que muitos 
acontecimentos desaparecem para uma maior concisão, deixando a história 
“[...] mais curta e esquemática [...]”. Já o aguçamento faz alguns detalhes 
ganharem maior destaque, sendo “[...] várias vezes repetidos e recontados 
[...]”. Por fim, há a “[...] assimilação e alguns esquemas, ou estereótipos ou 
expectativas [...]”. Como afirma Slobin (1980, p. 217), “[...] até certo ponto, nós 
lembramos os acontecimentos como queremos lembrá-los; as recordações se 
mudam, muitas vezes, para atender aos nossos preconceitos ou desejos — para 
se tornarem a nós mais plausíveis ou aceitáveis [...]”.
Vale questionar, aqui, qual seria, afinal, o objetivo desse tipo de esque-
matização que ocorre na memória. A resposta é bastante simples: trata-se de 
uma necessidade, posto que não conseguiríamos lembrar de todas as coisas 
que nos acontecem. Imagine que você precisasse recordar algo que aconteceu 
no dia anterior: se não se lembrasse de tudo, teria de reviver o dia todo, no 
mesmo período, para recordar algum evento.
As funções dos hemisférios cerebrais para
a fala e a linguagem
Os seres humanos são dotados de um órgão altamente especializado, cuja 
totalidade de funções e alcance ainda estamos longe de conhecer. Nosso cérebro 
Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala6
é relativamente grande (cerca de 1,5 kg), se comparado ao nosso corpo, e a sua 
quantidade de células é “[...] superior ao número que tem o cérebro de qualquer 
outro animal do mesmo peso [...]” (SLOBIN, 1980, p. 165). Poderíamos supor 
que o tamanho do cérebro seja determinante para a aquisição da linguagem, 
mas isso não é, necessariamente, verdade. Brunoni et al. (2016), por exemplo, 
fazem um acompanhamento de crianças com microcefalia e relatam o atraso, 
mas não a ausência do desenvolvimento linguístico em tais crianças. Portanto, 
como afi rma Slobin (1980), a nossa capacidade para a linguagem deve estar 
relacionada à organização do cérebro, e não à sua massa.
Segundo Pinker (2002, p. 47), se a linguagem é um instinto, como ele 
defende, deve haver uma “localização identificável no cérebro [...] que ajude 
a mantê-la no lugar. No caso de danos desses [...] neurônios, deveria haver 
prejuízo da linguagem sem que outras partes da inteligência fossem afetadas”. 
Embora ainda não tenha sido encontrado um órgão da linguagem, diz o autor, 
a pesquisa continua, e se há um endereço no cérebro para a linguagem, este 
é o hemisfério esquerdo.
De modo geral, o sistema nervoso dos animais é simétrico (SLOBIN, 1980). 
Nos seres humanos, entretanto, os hemisférios cerebrais diferem estrutural-
mente, e essa diferença reflete no funcionamento. Scliar-Cabral (2018) relata 
que os primeiros estudos com relação à distinção entre produção e compreensão 
da linguagem verbal foram feitos por neurologistas. Paul Broca, em 1861, 
realizou um exame post mortem do cérebro de um paciente que, ainda que 
entendesse o que lhe diziam, havia perdido a capacidade de produzir palavras, 
exceto o monossílabo tan. A partir desse exame, Broca constatou uma lesão 
na parte frontal do hemisfério esquerdo, “[...] antes do córtex motor e acima 
da fissura transversal, conhecida como fissura de Sylvius, que separa a região 
temporal da parietal e de parte da região frontal [...]” (SCLIAR-CABRAL, 
2018, p. 429). Lesões nessa região, chamada então de área de Broca, provocam 
a afasia de Broca ou de produção (Figura 1). 
Pouco depois, em 1874, Wernicke “[...] formulou a hipótese de uma conexão 
entre a parte posterior do giro temporal do hemisfério esquerdo, que processa 
as imagens sensoriais acústicas das palavras com a que processa as imagens 
motoras de palavras e sílabas [...]”, o que explicaria o fato de haver pacientes 
cujas lesões na posteriormente chamada área 22 de Brodmann “[...] tivessem 
a compreensão verbal comprometida, embora eles produzissem um discurso 
fluente, mas sem sentido, conhecido como discurso da jargonofasia. A deno-
minação corrente para esse tipo de afasia passou a ser afasia de recepção ou 
receptiva [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 429).
7Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala
Figura 1. Partições do sistema nervoso central para as funções da linguagem verbal oral. 
Vistas da área de Broca, localizada no giro frontal inferior (GFI), e da área de Wernicke, 
localizada no giro temporal superior (GTS), ambas no hemisfério esquerdo.
Fonte: Scliar-Cabral (2018, p. 430).
Posterior
Superior
Anterior
Inferior
Giro frontal inferior (GFI)
Giro temporal superior (GTS)
Giro temporal médio (GTM)
44/45
22/38/42
21/37
Giro de Heschl (GH)
Córtex auditivo primário (CAP)
Lobo temporal
Lobo occipital
Sulco temporal
superior (STS)
Área de Wernicke
(AB 42/22)
Opérculo frontal (OPF)
Área de broca
(AB 44/45)
Sulco frontal
inferior (SFI)
Lobo frontal
Córtex pré-motor
(AB 6)
Córtex motor primário
Área de Brodmann (AB 4)
Sulco central
Lobo parietal
Lembre-se de que os hemisférios cerebrais recebem informação do lado 
oposto do corpo, e conexões transmitem essas informações entre os lados 
(SLOBIN, 1980). “Se a língua está ‘localizada’ no hemisfério esquerdo, o 
ouvido direito deve estar mais em condições de realização da linguagem que 
o ouvido esquerdo [...]” (SLOBIN, 1980, p. 170). De fato, Doreen Kimura 
descobriu, por meio de um teste denominado “tarefa de audição dicotômica”, 
que os ouvintes “[...] relatam com mais exatidão a matéria verbal apresentada 
no ouvido direito do que a matéria simultaneamente apresentada ao ouvido 
esquerdo [...]” (SLOBIN, 1980, p. 170). Não se trata de uma diferença fisiológica 
de recepção sonora entre os ouvidos, mas de interpretação diferenciada pelo 
cérebro. “O hemisfério esquerdo se ajusta, perfeitamente, a receber os sons para 
fins de realização estritamente linguística ou acústica. O hemisfério direito 
Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala8
é superior ao esquerdo na tarefa de detectar sons ambientais não linguísticos 
e melodias [...]” (SLOBIN, 1980, p. 170).
Pinker (2002, p. 391) apresenta a hipótese de que a linguagem, nos 
seres humanos, pode ter se concentrado no hemisfério esquerdo por ser
“[...] coordenada no tempo, embora não no espaço ambiental [...]”, ou seja, 
“[...] palavras são reunidas em ordem, mas não apontadas em várias direções 
[...]”. Muitos psicólogos cognitivistas, diz Pinker (2002, p. 391), creem que 
“[...] uma grande quantidade de processos mentais que exigem coordenação 
sequencial e ordenação de partes, como reconhecer e imaginar objetos de 
muitas partes e empreender passo a passo raciocínios lógicos, resida no 
hemisfério esquerdo [...]”.
Há, contudo, capacidade linguística no hemisfério direito. Para Slobin 
(1980), isso possivelmente é uma garantia do cérebro para o caso de haver 
alguma lesão no ladoesquerdo. Essa capacidade linguística, entretanto, é 
limitada. Se há dano cerebral no lado esquerdo ainda na infância, o lado direito 
assume sua função, e a aquisição de palavras ocorre normalmente, porém a 
capacidade sintática (de combinações), mesmo que adequada, não se iguala 
à alcançada pelo hemisfério esquerdo. Pinker (2002) aponta o fato de que o 
hemisfério esquerdo controla a linguagem de 97% dos destros, mas, quanto 
aos canhotos, 19% têm sua linguagem controlada pelo hemisfério direito, 68% 
pelo esquerdo, e os demais por ambos os lados, casos em que os indivíduos, 
devido à linguagem estar distribuída de forma mais uniforme, apresentam maior 
possibilidade, no caso de terem lesão cerebral, de não sofrerem afasia. Além 
disso, “[...] alguns dados demonstram que, embora os canhotos se destaquem 
em matemática e atividades espaciais e artísticas, eles são mais suscetíveis 
a distúrbios de linguagem, dislexia e gagueira [...]” (PINKER, 2002, p. 391).
Duas questões ainda devem ser abordadas: por que um ser humano leva 
três anos para dominar completamente a gramática (como conjunto de regras) 
de sua língua? (Ainda que isso seja surpreendente, considerando-se o grau de 
especialização e complexidade da linguagem humana. Pense no tempo que 
levam os outros animais para se exprimirem conforme sua espécie.) E por 
que há um limite para a aquisição da linguagem?
O desenvolvimento da linguagem nos bebês não parte do zero. Lembre-se de 
que, para Pinker (2002), a língua é um instinto, então nascemos “programados” 
para usá-la, o que já foi comprovado por testes. O autor narra o experimento 
que Peter Eimas e Peter Jusczyk realizaram com bebês de um mês:
9Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala
[...] colocaram dentro de uma chupeta um dispositivo conectado a um gravador, 
de tal modo que, quando o bebê sugava, a fita tocava. Quando a fita tocava 
monotonamente ba, ba, ba, ba..., os bebês demonstravam seu fastio sugando 
mais lentamente. Mas, quando as sílabas mudavam para pa, pa, pa..., os bebês 
começavam a sugar com mais vigor, para escutar mais sílabas. Além disso, 
não escutavam as sílabas apenas como sons brutos; usavam o sexto sentido, 
a percepção da fala: dois ba que diferem acusticamente entre si tanto quanto 
um ba difere de um pa, mas que são ambos escutados como ba por adultos, 
não reavivaram o interesse das crianças (PINKER, 2002, p. 335).
Conforme Pinker (2002), as crianças ouvem como os adultos, e já nascem com 
essa habilidade; ela não é aprendida com os pais. No entanto, ainda precisam da 
interação social (i.e., ouvir regularmente a fala dos adultos) para apreenderem a 
gramática de sua língua (i.e., a gramática interna, o conjunto de regras fonéticas, 
lexicais e morfossintáticas da língua) e desenvolverem pragmaticamente a fala. 
Na verdade, as crianças nascem com a habilidade de ouvir todos os fonemas 
possíveis em todas as línguas, mas, à medida que vão crescendo, aprendem a 
melodia e selecionam os fonemas necessários para a língua que os cerca. As-
sim “[...] por volta dos dez meses, já não são mais foneticistas universais [...]”, 
fazendo “[...] essa transição antes de emitir ou compreender palavras, portanto, 
sua aprendizagem não pode depender de conseguir correlacionar som e sentido 
[...]”. As crianças “[...] devem estar sintonizando de alguma maneira seu módulo 
de análise da fala para emitir os fonemas usados em sua língua. Esse módulo 
provavelmente serve de unidade avançada do sistema que aprende palavras e 
gramática [...]” (PINKER, 2002, p. 335–336). 
Pinker (2002) faz uma síntese do desenvolvimento da linguagem nas crian-
ças. Ele explica que, entre os 5 e os 7 meses, os bebês começam a brincar com 
sons, e entre os 7 e os 8 meses, a balbuciar sílabas verdadeiras, cujos sons “[...] 
consistem em padrões de fonemas e sílabas comuns a todas as línguas [...]” 
(PINKER, 2002, p. 338). Essa fase é importante porque “[...] ao escutar seu 
próprio balbucio, os bebês [...] aprendem quando devem mover que músculo 
em que sentido para obter que mudança no som [...]” (PINKER, 2002, p. 338). 
Um pouco antes de 1 ano, as crianças começam a compreender palavras, e, 
em seguida, com cerca de 1 ano, a emiti-las. “Por volta dos dezoito meses, 
a linguagem deslancha. O incremento de vocabulário ganha a velocidade de 
no mínimo uma-palavra-nova-a-cada-duas-horas que a criança irá manter até 
o fim da adolescência [...]” (PINKER, 2002, p. 341). E do final do segundo 
ano até os três anos e meio, aproximadamente, “[...] a linguagem das crianças 
transforma-se numa conversa gramatical fluente, desabrochando de maneira 
Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala10
tão rápida que desconcerta os pesquisadores, e até agora ninguém conseguiu 
descobrir a sequência exata desse processo [...]” (PINKER, 2002, p. 341–342).
Retomando nosso questionamento, pode-se dizer que é provável que os 
seres humanos levem cerca de 3 anos até o domínio completo de sua língua 
materna, uma vez que a linguagem se desenvolve à medida que a criança cresce 
e, consequentemente, seu cérebro também se desenvolve. Os seres humanos, 
diferentemente dos outros animas, não nascem prontos. Se o tempo da gestação 
humana fosse proporcional ao dos demais primatas, duraria 18 meses, idade 
em que, de fato, as crianças começam a juntar palavras. Asso, “A linguagem 
parece desenvolver-se na velocidade que o cérebro em crescimento tolera [...]” 
(PINKER, 2002, p. 368).
Chegamos ao nosso questionamento sobre a idade-limite para a aquisição da 
linguagem. Sabe-se que é mais difícil para um adulto aprender uma nova língua, 
visto que os aspectos fonológicos acabam não sendo totalmente apreendidos, 
e a organização morfossintática pode ser mais bem recebida, mas a fluência 
dificilmente será a de um nativo. Casos de crianças que, por algum motivo, 
foram mantidas em isolamento até a adolescência e lesões cerebrais a partir 
desse período também costumam deixar sequelas irreversíveis. Segundo Slobin 
(1980, p. 174), “Pode haver uma ‘idade crítica’ para o hemisfério esquerdo na 
sua missão de desenvolver as funções da linguagem, como também para o 
hemisfério direito quando precisa assumir tais funções [...]”. Corroborando 
essa ideia, Pinker (2002, p. 374) afirma que “[...] a aquisição de uma linguagem 
normal é certa para crianças até seis anos, fica comprometida depois dessa 
idade até pouco depois da puberdade e é rara depois disso [...]”.
Considerando-se que, segundo essa teoria, a capacidade de aquisição de 
linguagem é instintiva, ela não deveria acompanhar o indivíduo ao longo 
da vida? Com efeito, o hemisfério direito do cérebro não sofre essa espécie 
de “atrofia” que ocorre no hemisfério esquerdo, aponta. O autor responde à 
questão ao relacionar tal “atrofia” justamente às necessidades instintivas do ser 
humano. O hemisfério que se relaciona com a linguagem está “[...] predisposto 
a adquirir a língua NUM ESTÁGIO APROPRIADO DE MATURAÇÃO. [...] 
o aprender a falar está condicionado pela complexa tabela do crescimento 
físico [...]” (SLOBIN, 1980, p. 175). Ou seja, não faria sentido manter o cé-
rebro ocupado com a obtenção da linguagem após o período em que isso 
ocorre plenamente, sendo mais útil direcionar os esforços neuronais a outras 
atividades. Ratificando esse ponto de vista, Pinker (2002, p. 375) afirma que 
“[...] aprender uma língua – em oposição a usar uma língua – é extremamente 
11Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala
útil uma única vez. Uma vez aprendidos os detalhes da língua local falada 
pelos adultos, qualquer outra capacidade de aprender (afora o vocabulário) é 
supérflua [...]”. Isso tem relação com a nossa constituição biológica, decorrente 
da evolução. Metabolicamente, “[...] o cérebro consome um quinto do oxigênio 
do corpo e porções igualmente grandes de suas calorias e fosfolipídios [...]” 
(PINKER, 2002, p. 376). Assim, é natural que, pela seleção natural, os recursos 
do corpo sejam diferenciadosao longo de nossa existência física, e corpos que 
envelhecem precisam destinar energia para sua sobrevivência — a linguagem, 
afinal, já está apreendida e em pleno uso.
Para se aprofundar nas questões abordadas pelo psicolinguista Steven Pinker, ampla-
mente citado, acesse o site do autor, disponível por meio do link a seguir (em inglês).
stevenpinker.com
As etapas da produção da linguagem
A primeira pergunta a ser feita nesta seção, por mais banal que pareça, é: o que 
é produção da linguagem no âmbito da psicolinguística? Rodrigues (2015, p. 
85) dá uma defi nição clara e sucinta: “Produção da Linguagem é um processo 
altamente complexo, que ocorre de forma automática, podendo se dar num 
ritmo de duas a três palavras por segundo [...]”. A autora comenta, ainda, que, 
cotidianamente, apenas nos damos conta dessa complexidade em situações 
em que há falha no processo, originando lapsos em “[...] unidades fônicas, em 
trocas semelhantes às induzidas em brincadeiras de trava-língua [...]”, em “[...] 
elementos da morfossintaxe, como nos chamados ‘erros de concordância’ – por 
exemplo, em O estudo dos lapsos de fala geraram [...]” ou, ainda, em “[...] 
trocas de ordem semântica como a que se observa no sintagma perdas e danos, 
quando o falante desejava dizer perdas e ganhos [...]” (RODRIGUES, 2015, p. 
85). Assim, a partir tanto das análises feitas dos lapsos quanto dos resultados 
decorrentes de experimentação prática, os pesquisadores conseguem construir 
Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala12
“[...] modelos psicolinguísticos acerca do tipo da representação e dos processos 
mentais envolvidos na produção da fala [...]” (RODRIGUES, 2015, p. 85).
Scliar-Cabral (2018, p. 428) menciona o desafio em que consiste a elaboração 
de modelos de produção da linguagem verbal, devido a:
[...] várias dificuldades metodológicas, desde a elaboração dos experimentos 
que possam testar empiricamente as representações mentais que governam 
como se iniciam as intenções pragmáticas de produzir um texto, como são 
gerados os significados a serem lexicalizados, enfim, todas as etapas de pro-
cessamento até a execução que exterioriza o texto, monitorado continuamente 
pelo locutor e acessível à inspeção experimental.
A autora destaca que é mais difícil produzir um texto oral do que o entender. 
Afinal, em primeiro lugar, o falante decide o que e como vai dizer, ao passo 
que o ouvinte reconhecerá e interpretará a mensagem recebida. Além disso, 
“[...] os modelos psicolinguísticos de produção da linguagem verbal oral têm 
que dar conta de como somos capazes de produzir palavras numa velocidade 
de até três por segundo, isto é, 180 por minuto [...]” (SCLIAR-CABRAL, 
2018, p. 428).
Scliar-Cabral (2018) destaca Paul Broca e Karl Wernicke, citados ante-
riormente, como precursores em relação à produção de modelos. Embora eles 
fossem da área de neurologia, seus estudos foram extremamente significativos 
para o desenvolvimento da ciência psicolinguística, cujo objetivo “[...] não é 
a descrição da estrutura do sistema nervoso central, mas testar hipóteses e 
teorias que expliquem como ele funciona quando recebemos e produzimos 
mensagens verbais, bem como o modo de adquirirmos e aprendermos tais 
capacidades [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 430).
A autora explica que o léxico mental é:
[...] constituído por unidades dotadas de significado que são arquivadas na 
memória permanente, à medida que o indivíduo as percebe e recorta, usadas 
nos mesmos contextos de uso. Há diferentes léxicos, arquivados em áreas 
distintas do cérebro, mas a divisão maior é entre os vários léxicos ligados às 
referências externas à gramática de qualquer língua, abertos ao registro con-
tínuo de novas entradas e o léxico gramatical, ligado às estruturas sintáticas, 
em número fechado e limitado (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 428).
Como há diferentes formas de se conceber essas unidades, existem também 
diferentes modelos de representação da produção da linguagem.
13Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala
Modelo de produção da linguagem
Optamos por mostrar aqui o mais conhecido, o modelo de Levelt, Roelofs e 
Meyer (1999). Segundo Scliar-Cabral (2018), há três propriedades importantes 
relacionadas a esse modelo. A primeira trata da questão da precedência do 
input (i.e., estímulo auditivo a que o indivíduo é exposto) sobre o output (i.e., 
resposta do indivíduo) e dependência do output em relação ao input. Isso 
implica que a criança poderá falar apenas se tiver ouvido adultos falando e 
perceptivelmente tenha dado sinais, embora ainda não consiga produzi-los, 
de tê-los compreendido. A segunda propriedade dita que a produção verbal 
implica tradução de conceitos, noções, pensamentos lexicais em palavras. Por 
fi m, no último momento da produção verbal oral, há a execução dos gestos 
motores do aparelho fonador, que “[...] ocorre a partir da ativação das sílabas 
fonéticas que formam a palavra escolhida, constantes no silabário que começa 
a ser fi xado na fase do balbucio [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 435). 
O silabário, explica Scliar-Cabral (2018, p. 435), “[...] surge quando as sílabas 
entram na composição de palavras, ou seja, de unidades com significado [...]”. Para 
a pesquisadora, isso ocorre quando os bebês deixam de ser o que Pinker (2002, p. 
335) chama de “[...] foneticistas universais [...]” e passam a ter sensibilidade para os 
traços fonéticos de sua língua. Scliar-Cabral (2018, p. 435–436) ainda destaca que:
[...] apesar da complexidade dos comandos que devem acionar, sinergicamente, 
músculos pertencentes a diferentes sistemas do aparelho fonador, a criança, por 
volta dos doze meses, já demonstra domínio articulatório de algumas sílabas 
como /pa/, /ma/, /da/, /ne/ e logo terá um repertório de cinquenta palavras [...].
Vamos às etapas do modelo em si. O nível em que ocorre o processo, da 
mensagem, esclarece Scliar-Cabral (2018, p. 436), “[...] é o mais alto e abs-
trato e deslancha os conceitos que deverão posteriormente ser lexicalizados 
e inseridos nas estruturas sintáticas. É movido pelas intenções pragmáticas 
dos falantes, tanto ao iniciarem a conversação, quanto quando a mantêm [...]”. 
Assim que a mensagem é definida, ocorre a preparação conceitual, como 
conceitos lexicais. O produtor tem muitas possibilidades e as selecionará de 
acordo com sua intenção comunicativa. Um exemplo seria, 
[...] apresentada a figura de um cavalo, o sujeito poder acionar os seguin-
tes conceitos lexicais: CAVALO, BICHO, ANIMAL, JUMENTO, JEGUE, 
PINGO, POTRO, entre outros. Os conceitos lexicais integram o que tradi-
cionalmente é conhecido em psicolinguística como memória semântica [...] 
(SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 436).
Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala14
Segue-se, então, para a seleção lexical, que seria a “[...] seleção de um 
lema correspondente a esse conceito. O lema pode ser entendido como uma 
representação de propriedades gramaticais e sintáticas do item lexical (classe 
da palavra, traços gramaticais, estrutura argumental, etc.) [...]” (RODRIGUES, 
2009, documento on-line).
Após essa seleção, ocorre a codificação morfofonológica e a silabifica-
ção, nível, chamado por Levelt, Roelofs e Meyer (1999) de forma, em que 
aparecem os morfemas integrantes da palavra, cujos fonemas constituintes e 
sua ordem são determinados. “Da combinação dos morfemas resulta o output 
seguinte, que é a palavra fonológica [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 437). 
O próximo momento é a codificação fonética, à qual “[...] cabe computar a 
pontuação gestual da palavra fonológica, ou seja, especificar a tarefa arti-
culatória na produção da palavra [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 437). 
Nesse momento, ocorre “[...] a especificação das sílabas fonéticas que serão 
ativadas no silabário fonético para que o programa motor acione os músculos 
adequados para a produção dos gestos fonatórios e a atribuição da prosódia, ou 
seja, como se distribuem os acentos [...]”(SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 437). 
Dá-se, então a articulação pelo aparelho fonador, sendo necessárias tanto a 
coordenação de “[...] músculos em movimentos simultâneos para a obtenção 
de um mesmo alvo, quanto, simultaneamente, a antecipação dos gestos da 
sílaba seguinte, com todos os efeitos das mudanças contextuais decorrentes, 
já que a execução é dinâmica [...]” (SCLIAR-CABRAL, 2018, p. 438). Por 
último, tem-se a autorregulação. Por exemplo, nós constatamos falhas de 
fala do interlocutor, mas, certamente, também em nossa própria fala, uma 
vez que o sinal acústico retorna aos nossos ouvidos. Além disso, realizamos 
autorregulação de nosso discurso interior, o que afeta o tempo de reação da 
fala, uma vez que a decodificação se torna mais lenta. 
É importante lembrar que os modelos que tentam identificar os processos 
da linguagem são construtos teóricos utilizados como recurso para dife-
rentes estudos. O falante não tem, evidentemente, consciência das etapas 
de produção de sua fala. Há incontáveis estudos possíveis relacionados à 
produção da linguagem. Entre os vários exemplos dados por Rodrigues 
(2015, p. 88), estão questões relativas à representação — como a discussão 
sobre se existiria “[...] um pensamento para falar [...] diferente de outros 
tipos de pensamento, voltados para outras finalidades [...]” —, à passagem 
do conceito para a codificação gramatical — “[...] discute-se se a formu-
lação linguística propriamente dita poderia ou não ter início antes de uma 
representação completa de natureza conceptual ter sido construída [...]” —, 
à construção de estrutura sintática — há modelos de orientação lexical, 
15Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala
em que “[...] a construção da estrutura sintática é lexicalmente guiada [...]” 
e “[...] modelos segundo os quais a estrutura sintática [é] independente de 
informação lexical específica [...]” —, à codificação morfofonológica — em 
que se busca “[...] identificar quais as unidades de processamento desse nível 
e quais os passos envolvidos nessa etapa da produção [...]” (RODRIGUES, 
2015, p. 89). Essas são apenas algumas possibilidades dentre as tantas que 
há. Um aspecto, contudo, é comum a quaisquer investigações nessa linha: 
“[...] diferentemente do que ocorre nas pesquisas em compreensão, no estudo 
da produção não se tem acesso direto ao ponto de partida do processo, o que 
dificulta o controle e a manipulação de variáveis na condução de experimentos 
[...]” (RODRIGUES, 2015, p. 89–90).
Rodrigues (2015) dá vários exemplos de pesquisas realizadas na produção da linguagem. 
Um deles é o que reproduzimos aqui (Figura 2).
A pesquisadora explica que, no estudo da concordância, um procedimento é o uso 
de lapsos induzidos: “[...] a técnica consiste na apresentação prévia de preâmbulos que 
deverão ser empregados na posição de sujeito de uma sentença a ser construída. 
A continuidade da sentença pode ser livre, ou podem ser indicados verbos ou adje-
tivos (reais ou pseudopalavras) com os quais o preâmbulo deverá ser combinado [...]” 
(RODRIGUES, 2015, p. 91).
Figura 2. Representação esquemática do experimento.
Fonte: Rodrigues (2015, p. 91).
Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala16
BALIEIRO JR., A. P. Psicolinguística. In: MUSSALIN, F.; BENTES, A. C. (org.). Introdução à 
linguística. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2004. v. 2.
BRUNONI, D. et al. Microcefalia e outras manifestações relacionadas ao vírus Zika: 
impacto nas crianças, nas famílias e nas equipes de saúde. Ciência & Saúde Coletiva, 
Rio de Janeiro, v. 21, n. 10, p. 3297–3302, 2016.
LEVELT, W. J. M.; ROELOFS, A.; MEYER, A. S. A theory of lexical access in speech produc-
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PINKER, S. O instinto da linguagem: como a mente cria a linguagem. São Paulo: Martins 
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RODRIGUES, E. S. O estudo psicolinguístico da produção da linguagem: uma breve 
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RODRIGUES, E. S. Produção da linguagem. In: MAIA, M. (org.). Psicolinguística, psicolin-
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SAUSSURE, F. Curso de linguística geral. 9. ed. Tradução de Antônio Chelini, José Paulo 
Paes e Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix, 2006.
SCLIAR-CABRAL, L. Modelos psicolinguísticos de produção da linguagem verbal oral. 
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SLOBIN, D. I. Psicolinguística. Tradução de Rosine Sales Fernandes. São Paulo: Nacional, 
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VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. [S. l.]: Ridendo Castigat Mores, 1939. Disponível 
em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/vigo.pdf. Acesso em: 13 nov. 2019.
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17Produção da linguagem: processamentos mentais envolvidos na fala
Dica do professor
Os estudos na área de aquisição da linguagem abarcam boa parte das pesquisas feitas na 
psicolinguística. Esse tema tão relevante quanto rico apresenta muitos desdobramentos.
Nesta Dica do Professor, veja um breve apanhado da maneira como tem sido estudada a questão 
da perda da memória da primeira infância, tema que sempre gera muita curiosidade, porque é 
fascinante.
Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.
 
 
 
 
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Exercícios
1) A relação entre o pensamento e a linguagem é um tema atual, mas, ao mesmo tempo, 
fundador na área da psicolinguística. 
Assinale a afirmativa correta quanto a esse assunto:
A) O fato de as pessoas procurarem pela “palavra certa” para as situações comprova a tese 
behaviorista de que fala e pensamento são equivalentes.
B) O fluxo do pensamento é acompanhado simultaneamente pela sequência de fala 
correspondente, conforme a psicolinguística.
C) A fala, para a psicolinguística, ainda que seja um dos muitos instrumentos do pensamento, 
não corresponde ao pensamento em sua totalidade.
D) Segundo os behavioristas, fala e pensamento eram entidades separadas, e, assim, o 
pensamento era disponível de forma direta ao estudo científico.
E) Para entender a relação entre linguagem e pensamento na psicolinguística, podemos usar a 
noção cotidiana de linguagem, pois se trata de um estudo do seu uso cotidiano.
2) A língua e a cognição sempre despertaram curiosidade, e, consequentemente, muitos 
estudos trataram desses temas.
Sobre língua como representação mental e como instrumento do pensamento, podemos 
afirmar corretamente que:
A) analisar em que atividades mentais o uso da língua tem um papel significativo relaciona-se à 
consideração da língua como uma entre as formas de representação do pensamento.
B) a relação entre as imagens e as palavras faz pensar se haveria alguma estrutura comum aos 
diferentes tipos de representação mental, o que ainda não tem resposta.
C) qualquer conhecimento pode ser simultaneamente representado por enações, imagens, 
proposições e traços e protótipos.
D) o entendimento de que há várias maneiras de descrever a estrutura do conhecimento 
relaciona-se a perceber a língua como instrumento do pensamento.
E) as imagens mentais têm relevância enquanto a criança ainda não adquiriu a fala; depois, têm 
papel secundário.
3) A identificação das funções dos hemisférios cerebrais para a fala e a linguagem tem grande 
relevância nos estudos da psicolinguística.Assinale a alternativa correta sobre esse tópico:
A) A capacidade do ser humano para a linguagem tem relação com a maior massa cerebral e, 
consequentemente, com o número de neurônios superior em relação aos outros animais.
B) As funções relacionadas à linguagem humana estão localizadas no hemisfério esquerdo do 
cérebro; por isso, danos cerebrais nessa área impossibilitam a fala.
C) Já que a maioria dos sujeitos destros tem a linguagem controlada pelo hemisfério esquerdo 
do cérebro, eles são mais propensos a ter distúrbios de linguagem.
D) Supõe-se que no hemisfério esquerdo resida a capacidade de executar processos mentais que 
exigem organização em sequências e ordenação de partes.
E) A detecção físico-acústica do som é feita de forma diferenciada nos dois ouvidos, sendo que, 
no direito, os sons para realização linguística são mais bem percebidos.
4) Uma importante linha de estudo da área da psicolinguística é a aquisição da linguagem. 
Quanto a essas pesquisas, assinale a alternativa correta:
A) A audição dos bebês se desenvolve com o crescimento, e a percepção dos fonemas da língua 
evolui na medida desse progresso.
B) A compreensão das palavras pelos bebês se inicia entre os 5 e os 7 meses, como preparação 
para a fase seguinte da aquisição, a do balbucio.
C) A aquisição da linguagem pela criança depende da interação direta dos adultos da 
comunidade linguística a que esse indivíduo pertence.
D) A fase do balbucio das crianças em desenvolvimento não tem relevância para o período da 
aquisição da linguagem, ainda que seja importante para estudos linguísticos.
E) A aquisição da linguagem acontece primordialmente na infância e na adolescência em 
decorrência de que evolutivamente o aprendizado da língua é mais necessário nesse 
momento.
5) A produção da linguagem se dá de forma automática para o falante, mas há inúmeros 
estudos nessa linha.
Sobre esse recorte, assinale a alternativa correta:
A) Os estudos da produção da linguagem não têm acesso direto ao ponto de partida do 
processo, o que dificulta o controle de variáveis na condução de experimentos.
B) A primazia do output sobre o input resulta em que a criança poderá falar apenas se tiver 
ouvido adultos falando.
C) Segundo o modelo de Levelt, Roelofs e Meyer, a preparação lexical é o momento em que há 
seleção do conceito lexical, de acordo com a intenção comunicativa.
D) É por meio de análises feitas em lapsos de fala produzidos espontaneamente por falantes que 
os pesquisadores elaboram modelos de representação da produção da linguagem.
E) Na articulação pelo aparelho fonador, última etapa no modelo de Levelt, Roelofs e Meyer, 
ocorre a produção física da fala.
Na prática
Para a psicolinguística, a mente humana ocupa posição central, e a linguagem, inerente ao ser 
humano, permite inúmeras possibilidades para acessar ao menos uma parcela do pensamento. A 
discussão sobre a relação entre a linguagem e o pensamento permeia todo o desenvolvimento 
dessa área.
Na Prática, acompanhe Luísa, cujo professor de Psicolinguística fez uma interessante solicitação de 
trabalho para a faculdade, e amplie seu conhecimento sobre esse tópico.
Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!
 
Saiba +
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor:
GT em Psicolinguística da ANPOLL
O Grupo de Trabalho em Psicolinguística da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em 
Letras e Linguística (ANPOLL) reúne os pesquisadores e os professores que atuam nas subáreas de 
aquisição, processamento e distúrbios da Linguagem nas universidades e nos institutos de pesquisa 
do Brasil. Você pode acessá-lo por meio do endereço abaixo, no qual terá acesso aos links que 
trazem, por exemplo, os laboratórios em que são feitas as pesquisas da área no País e o Sistema de 
Informação em Psicolinguística e Aquisição da Linguagem (SIPA), que divulga os eventos da área.
Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.
Pensamento e linguagem
A obra Pensamento e linguagem, de Lev Vygotsky, está em domínio público e encontra-se disponível 
para download no link abaixo. Nessa obra, o autor russo mostra o resultado de anos de estudos 
sobre a relação entre o pensamento e a linguagem, entes até então estudados de forma estanque.
Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.
Portal da Língua Portuguesa
Este site português é um repositório de recursos linguísticos para quem trabalha com a língua 
portuguesa e tem interesse ou dúvidas sobre seu funcionamento. Seu conteúdo é de livre acesso e 
está em constante desenvolvimento. Nesse portal, é possível encontrar um dicionário de termos 
linguísticos. Nele, há, também, o subdomínio Psicolinguística, no qual você encontra uma lista de 
termos da área para consulta.
https://anpollgtpsicolinguistica.wordpress.com/
http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/vigo.pdf
Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.
http://www.portaldalinguaportuguesa.org/

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