Prévia do material em texto
301 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia INCIDÊNCIAS OBLIQÜAS PROGRESSIVAS Ocasionalmente, o achado mamográfico identificado nas incidências habituais ou em apenas uma projeção não é elucidado utilizando-se as técnicas já descritas acima. Permane- ce a dúvida se a imagem observada representa uma somação de estruturas fibroglandulares ou se constitui lesão real. Recentemente foi descrito um novo recurso técnico por PEARSON ( 2000 ). Essa técnica denominada de incidências obliqüas progressi- vas, consiste em obter imagens adicionais em posição obliqüa, adici- onando 15° a cada nova incidência. Inicia-se a partir da projeção onde a imagem é observada em direção a outra incidência padrão. Por exemplo, se a densidade for identificada apenas em crânio-caudal (0 graus) então faz-se novas incidências inclinando Figura 7 - DIAGRAMA FRONTAL DA MAMA DIREITA – nas incidências crânio- caudal e lateral da mama é fácil determinar a localização do tecido. Nas incidências CC, o tecido medial se projeta medialmente e o tecido lateral, lateralmente. Nas incidências 90º laterais, o tecido superior se projeta acima do mamilo, enquanto o tecido inferior se projeta sob o mamilo. Todavia em uma incidência oblíqua médio- laterla, algum tecido no quadrante inferior externo projeta-se superiromente ou aci- ma do nível do mamilo (A) e algum tecido no quadrante superior se projeta inferior- mente ou abaixo do nível do mamilo (B). 302 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia o tubo de RX progressivamente em 15°, 30° e 45° na direção da incidência padrão médio-lateral obliqua. Ou, se a imagem for observada na médio-lateral obliqua (60°) então as novas incidências serão realizadas em 45°, 30° e 15° na direção da incidência padrão crânio-caudal. Da mesma forma, pode-se utilizar essa técnica com incidên- cias obliquas progressivas à partir de 90 graus (perfil absoluto). Nessa técnica é essencial que os mamilos permaneçam na mesma altura durante o posicionamento para a obtenção das imagens. Da mesma forma, ao dispor os filmes no negatoscópio, esse detalhe deve ser respeitado, e esses orientados para formar uma linha reta horizontal imaginária. Para facilitar esse procedimento, pode-se colocar um re- paro metálico no mamilo antes de obter as imagens. Figura 8 - Esquema ilustrando o adequado posicionamento dos filmes nesse tipo de estudo. Estes deverão ser colocados em seqüência progressiva, conforme a angulação, que estará assinalada no alto da imagem. É essencial que os mamilos fiquem orien- tados de tal modo a formarem uma linha imaginária horizontal (linha vermelha). Modificado de PEARSON ET AL ( 2000 ) 303 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Caso o achado mamográfico inicial não seja identificado nas incidências oblíquas progressivas, conclui-se que se trata de somação de estruturas fibroglandulares e prossegue-se apenas com controle de rotina. Se a imagem permanecer visível, mas apresentar conside- rável alteração em seu tamanho, forma e densidade, pode-se considerá-la como tecido fibroglandular residual assimétrico. Nesse caso, também não necessita de avaliações adicionais. Ocorrendo persistência da imagem ou sem alteração evi- dente após a utilização desta técnica, a comparação com ma- mografia prévia é indispensável. A inexistência desta lesão no exame anterior pode representar uma neodensidade. Assim como, ao mostrar-se associada a uma distorção fibroglandular, pode representar um carcinoma infiltrativo, especialmente o lobular. Em ambas condições deve-se prosseguir investigação. Figura 9 - Técnica de incidências oblíqüas progressivas aplicada ao caso anterior, evidenciando que a assimetria era um arte- fato por somação de imagens. (a) angulação em 15°; (b) angulação em 30°; (c) angulação em 45° e (d) angulaçãoem 60° 304 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia ASSIMETRIAS EM MAMAS DENSAS Quando detectada uma ASSIMETRIA em MAMAS DENSAS observamos com relativa freqüência que a compres- são seletiva não oferece maiores informações persistindo a dú- vida inicial. Assim nossa rotina nesses casos é complementar inicialmente com a ultra-sonografia. Figura 10 - Paciente apresentando exame mamográfico com assimetria na intersecção dos quadrantes inferiores à direita, mais evidente na incidência crânio-caudal (a) e cuja compressão seletiva não elucidou a dúvida diagnóstica. Realizadas incidências anguladas progressivas respectivamente em 15°(b), 30°(c), 45°(d), 60°(e) e 90°(f) mostrando alteração da forma e atenuação da densidade. OBS.: Notar a presença de reparo metálico nos mamilos orientando a disposição dos filmes de modo a formar uma linha imaginária horizontal, fato que facilita a localiza- ção da imagem nas outras incidências. 305 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Ao se visibilizar lesão nodular à mamografia e necessitando-se de avaliação adicional, damos preferência à complementação pela ultra-sonografia. Isso porque, principalmente nos casos de mamas densas, o tecido fibroglandular é firme e a pressão direta exercida pelo compressor não “espalha” o contorno encoberto da imagem. É freqüente utilizar-se nesses casos de uma ou mais inci- dências sem se obter um diagnóstico conclusivo. Evitam-se es- sas exposições desnecessárias, que também elevam o custo do exame, se selecionarmos melhor os casos e indicar a ultra- sonografia como primeiro recurso adicional. A seguir, ilustramos dois casos onde a COMPRESSÃO LO- CALIZADA não foi elucidativa, mas a ULTRA-SONOGRAFIA possibilitou a orientação adequada da conduta. Figura 11 - (a) Incidências padrão mostrando área de densidade em quadrante súpero-lateral esquerdo (b) Compressão seletiva que não mostrou alteração da área. (c) Compressão seletiva com rolamento da mama que também não evidenciou alteração. (d) Ultra-sonografia complementar que diagnosticou um nódulo sólido. 306 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Figura 12 - (a) Incidências padrão mostrando área de assimetria em quadrante súpero-lateral esquerdo (b) Compressão seletiva que não mostrou alteração da área. (c) Ultra-sonografia complementar que diagnosticou dois cistos adjacentes. 307 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia E. CRITÉRIOS PARA BIÓPSIA E SEGUIMENTO DE NÓDULOS, CALCIFICAÇÕES E ASSIMETRIAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. American College of Radiology (ACR). Breast imaging reporting and data system (BI-RADS™) Second edition. Reston (VA) ; 1995. 2. KOPANS DB. Proyecciones mamográficas. In KOPANS DB. La mama em imagen. Madrid;. Editorial Marban. 1994, 43 – 58. 3. PEARSON KL, SICKELS EA, FRANKEL SD, LEUNG JWT. Efficacy of step- oblique mammography for confirmation and localization of densities seen on only one standard mammographic view. AJR 2000; 174: 745 – 752. 4. KEMP C, BARACAT FF, ROSTAGNO R. Lesões não palpáveis da mama – diagnóstico e tratamento. Revinter 2003, 75 – 84. 5. CARDEÑOSA G. Interpretação de imagens da mama. Guanabara Koogan 2004 . Segunda edição. 6. LOUVEIRA MH, KEMP C, RAMOS MM, FREITAS AR, CASTRO IM, SJEJNFELD J. Densidade mamográfica assimétrica: como investigar – revisão de literatura e apresentaão de rotina de investigação. Radiol Bras 2004;37(3):199-205. (*) conduta de acordo com o BI-RADS final 308 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia IX. CINTILOGRAFIA MAMÁRIA Mario Luiz Vieira Castiglioni A cintilografia mamária é uma técnica não invasiva de imagem que é tão ou mais sensível que a mamografia e a resso- nância nuclear magnética, mas com maior especificidade na caracterização das lesões malignas. Os dados da imagem po- dem aumentar a compreensão da natureza de qualquer lesão mamária, orientando melhor o diagnóstico e a terapêutica. Essa técnica oferece a possibilidade de aprimorar o diag- nóstico do câncer de mama sem a necessidade de equipamen- tos ultra dedicados e técnicasque consomem muito tempo na sua execução e conclusão final. Fornece informações funcio- nais e biológicas, complementando as informações anatômicas obtidas com os outros métodos. A cintilografia mamária requer a administração endovenosa de um radiofármaco adequado, seguido da aquisi- ção de imagens de emissão usando uma gama-câmera para iden- tificar a presença e o local da lesão. RADIOFÁRMACOS Desenvolvidos inicialmente como agentes de perfusão miocárdica, partir de 1989 os agentes lipofílicos marcados com tecnécio-99m foram amplamente utilizados na detecção de inúmeros neoplasmas, aparecendo como agentes adequados para explorar processos celulares específicos e a biologia das células malignas. Nessa classe estão incluídos o sestamibi (MIBI) e o tetrofosmin (TTF), que têm características biofísicas, quí- 309 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia micas e farmacocinéticas semelhantes, compartilhando meca- nismos de captação nas células normais e malignas. MECANISMO DE CAPTAÇÃO DOS RADIOFÁRMACOS A captação dos agentes lipofílicos pelas células tumorais depende de um mecanismo de transporte ativo (ATP-depen- dente), sendo necessário haver fluxo sangüíneo regional ade- quado, integridade da membrana celular e integridade do po- tencial transmembrana das mitocôndrias. Concentram-se no interior das mitocôndrias e no citoplasma das células normais e cancerosas. Como as células cancerosas tendem a ser metaboli- camente muito mais ativas, mais mitocôndrias existem em seu interior, e maior é a concentração do radiofármaco, chegando a ser nove vezes maior que as células normais ao seu redor. Como resultado desse transporte ativo, as imagens obtidas estão rela- cionadas à atividade metabólica e não necessariamente ao ta- manho do tumor. Tanto a captação como a saída desses radiofármacos do interior das células estão relacionadas a vários fatores. A captação inicial dos agentes lipofílicos pode estar rela- cionada ao grau de proliferação celular. Algumas evidencias mostram que em lesões malignas da mama existe correlação do grau histológico de proliferação com a intensidade de capta- ção dos agentes lipofílicos. Em contra partida à proliferação existe a apoptose celu- lar, que é um mecanismo ATP-dependente e auto-regulado que leva a morte celular programada. Existem dois caminhos para se iniciar a apoptose: o primeiro é mediado por receptores de morte nas membranas celulares e o outro é mediado pelas 310 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia mitocôndrias. Ambos os caminhos estimulam substâncias intracelulares que promovem a clivagem de substratos celula- res e causam as mudanças biológicas e morfológicas caracterís- ticas da apoptose. Alteração no controle desse mecanismo pode estar relacionada à expressão exagerada de proteínas anti- apoptóticas (família Bcl-2) que estão localizadas no interior da membrana mitocondrial inibindo a sua permeabilização. A expressão aumentada dessas proteínas está relacionada à baixa captação dos agentes lipofílicos pela célula tumoral, e está rela- cionada à resistência aos tratamentos quimioterápico e radioterápico. Um componente dinâmico de extração remove ativamen- te os agentes lipofílicos do citoplasma e das mitocôndrias. Um dos mecanismos desse componente parece estar ligado ao gene de resistência a múltiplas drogas (MDR-1), envolvido no me- canismo de resistência de vários tumores a drogas quimioterápicas. Os agentes lipofílicos são substratos da P- glicoproteína (Pgp), que é codificada pelo MDR-1, e que pa- rece transportá-los ativamente para fora da célula, numa velo- cidade que é dependente da expressão do MDR-1 e do con- teúdo celular de Pgp. A expressão da Pgp parece estar relacio- nada a menor sobrevivência de pacientes com câncer de mama. Esse mecanismo de retirada do meio intracelular torna-se útil na determinação da resposta dos tumores à quimioterapia, já que o clareamento da substância do local de captação torna-se rápido e possível de ser determinado. Portanto, baseado no parâmetro utilizado para a análise da cintilografia mamária em pacientes com câncer de mama, a informação coletada pode estar relacionada a diferentes pro- 311 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia cessos celulares, mas todos parecem estar relacionados à susce- tibilidade do câncer de mama ao tratamento. TÉCNICA DE EXAME Os agentes catiônicos lipofílicos são fornecidos em fras- cos, liofilizados, prontos para a marcação, que é feita com tecnécio-99m em condição asséptica. Esse procedimento não leva mais que 40 minutos para ser efetuado. A dose é separada do frasco de marcação e injetada no paciente. Atividade de 555 a 740 MBq é suficiente para ob- tenção de imagens de boa qualidade, podendo-se chegar até a 1,1 GBq sem risco para o paciente. Injeta-se nas veias dos pés, para evitar artefatos decorren- tes de extravasamento do material se injetado nas veias dos bra- ços ou das mãos. Caso as veias dos pés não estejam disponíveis por algum motivo, deve-se injetar o material no braço contra lateral da mama com a lesão suspeita. Caso haja lesões suspeitas nas duas mamas e as veias dos pés não estejam disponíveis acon- selha-se que as veias dos braços sejam puncionadas com muita cautela, e é recomendável uma imagem inicial dos membros superiores para se detectar extravasamento do material. Nenhum preparo específico é exigido para esse procedi- mento. EQUIPAMENTO Gama-câmeras de uso geral podem ser utilizadas para a obtenção das imagens. Deverão estar em bom estado de manu- tenção, com boa resolução intrínseca e boa uniformidade. Um colimador de alta resolução é essencial. Equipamentos com duas cabeças necessitam menor manipulação do paciente para seu 312 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia adequado posicionamento. Gama-câmeras dedicadas a cintilo- grafia mamária vêm sendo desenvolvidas, com resultados inici- ais melhores que o de equipamentos de uso geral. POSICIONAMENTO Os agentes lipofílicos foram desenvolvidos originariamen- te para estudos cardíacos de perfusão e são primariamente eli- minados pelo fígado nas vias biliares. Esses dois órgãos podem dificultar a visibilização das lesões nas mamas por interposição da sua atividade sobre elas. O posicionamento do paciente deve ser feito em posição prona, diminuindo essa interferência. É adequado o uso de coxim específico com cortes laterais para que as mamas fiquem completamente pendentes durante a aquisição. PROTOCOLO DE IMAGEM As imagens devem ser adquiridas de 5 a 10 minutos após a injeção do radiofármaco, sempre nas projeções laterais em posição prona, e anterior em posição supina com os braços ele- vados acima do tórax para clara visibilização da região das axi- las. Nas imagens laterais, a mama contra lateral deverá estar comprimida contra o coxim para prevenir interferência de ati- vidade. Obliquas posteriores podem ser úteis em alguns casos de lesões nos quadrantes laterais muito perto do tórax, onde a ati- vidade subjacente ou a atividade ao redor pode mascará-las. A cabeça da gama-câmera deverá estar o mais perto pos- sível do paciente, sem causar incômodo. Cada imagem deverá ter a duração de 10 a 15 minutos, a fim de se obter contagem adequada para uma boa diferenci- 313 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia ação das áreas suspeitas. Marcar os mamilos com fonte puntiforme de tecnécio-99m e obter imagens com 3 minutos de duração nas devidas projeções pode ser útil na localização espacial de algumas lesões peri-areolares, já que esse estudo pode não conseguir boas referencias estruturais. Imagens tardias de 1 a 4 horas após a injeção do radiofármaco poderão ser realizadas nas mesmas projeções, para se definir o clareamento do radiofármaco quando o estudo detectar lesão que sugira processo maligno, tentando-se definir prognóstico dessa lesão. Estudo tomográfico poderáser obtido (SPECT – Single Photon Emission Computed Tomography) em ambas as fases. Os cortes ortogonais do tórax fornecem separação espacial mais adequada da atividade, melhorando a detecção de lesões prin- cipalmente no cavo axilar, disseminação linfonodal nas axilas, e território da cadeia mamária interna quando nestas houver suspeita. Todas as imagens deverão ser impressas em filme radioló- gico ou papel para documentação das lesões, após ter-se defini- do a melhor relação de brilho e contraste. As lesões muitas ve- zes são mais bem definidas na tela do computador. INTERPRETAÇÃO DA IMAGENS Concentração leve e homogênea nas mamas é considera- do como um estudo normal. Hiperconcentração focal intensa nas mamas, com contor- nos relativamente bem delineados, sugere processo maligno. Hiperconcentração irregular ou difusa nas mamas, de intensidade leve a moderada, sem definição adequada das bor- 314 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia das e geralmente bilateral, tem baixa probabilidade de ser pro- cesso maligno, e pode estar associado a patologias benignas (fibroadenomas, papilomas, hiperplasia epitelial, mastite, escleroadenose e doença fibrocística da mama). Hiperconcentração focal (um foco ou mais) na axila, na ausência de extravasamento no local da punção, na presença de lesão na mama ipsilateral é altamente suspeito de envolvimento metastático linfonodal. SENSIBILIDADE E ESPECIFICIDADE A cintimamografia tem uma sensibilidade de 70 a 96% (média de 84,5%) e uma especificidade de 71 a 100% (média de 89%) na detecção de processos malignos, que é similar àque- las referidas para o estudo com FDG-PET (Positron Emission Tomography). O valor preditivo negativo é referido como sen- do de 81 a 97% (média de 84%), com uma exatidão (acurácia) média de 86%. A maioria dos exames falsos negativos ocorre com lesões menores que 1,0 a 1,5cm ou lesões não palpáveis. Nessas, a sensibilidade cai para 48,2 a 72%. INDICAÇÕES Detecção do câncer em pacientes com mamas densas Detecção do câncer quando a mamografia e o exame físi- co não mostrarem anormalidades em pacientes de alto risco. Detecção da recorrência do câncer após a cirurgia quan- do fibrose e tecido cicatricial obscurecerem o resultado da mamografia Monitorizar resposta da quimioterapia neo-adjuvante 315 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Localização estereotáxica da área de hiperconcentração do radiofármaco antes de alterações anatômicas aparecerem na mamografia PROTEÇÃO RADIOLÓGICA Nas doses habitualmente utilizadas de 740 MBq a 1,1 GBq a dose efetiva no paciente é de 0,0085 mSv/MBq, sendo que o órgão que recebe a maior dose de radiação é a vesícula biliar, visto que os agentes catiônicos são eliminados pelo fíga- do no sistema biliar (0,014 mGy/MBq). CONSIDERAÇÕES FINAIS A cintimamografia não compete com a mamografia no diagnóstico do câncer de mama e não deve ser o primeiro exa- me na definição de lesões diagnosticadas ou suspeitadas clini- camente. A mamografia ainda é o exame de escolha para se fazer a triagem das lesões das mamas, sendo a cintimamografia indicada sempre na seqüência da investigação, quando houver suspeita ou dúvida de um processo maligno. Os dados obtidos na cintimamografia em uma popula- ção devem ser analisados pelo mastologista sempre com o co- nhecimento dos dados clínicos, o risco de neoplasia mamária para a população avaliada e correlacionando com o resultado da mamografia. BIBLIOGRAFIA CONCISA Khalkhali, I.; Caravaglia, G; Abdel-Nabi, H.H.; Peller, P.J.; Taillefer, R.; Streek, P.R.V; Van de Wiele, C. - Society of nuclear medicine procedure guideline for breast scintigraphy – in www.snm.org 316 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Bombardieri, E.; Aktolun, C.; Baum, R.P.; Bishof-Delaloye, A.; Buscombe, J.; Chatal, J.F.; Maffioli, L.; Moncayo, R.; Mortelmans, L.; Reske, S.N. - Breast scintigraphy procedure guidelines for tumor imaging – in www.eanm.org Buscombe, J.; Hill, J.; Parbhoo, S. - Scintimammography – A guide to good pratice – 1998, Gibbs Associates Limited, England Schillaci, O, Buscombe, J. – Breast scintigraphy: indications and limitations – Eur Jour Nucl Med Mol imaging, 2004;31(1): S35-S45 Del Vecchio, S., Salvatore, M. – 99mTc-MIBI in the evaluation of breast cancer biology – Eur J Nucl Med Mol Imaging, 2004;31(1): S88-S96 Tiling, R.; Stephan, K.; Sommer, H.; Shabani, N.; Linke, R.; Hahn, K. – Tissue specific effects on uptake of 99mTc-sestamibi by breast lesions: A targeted analysis of false scintigrafic diagnoses – J Nucle Med, 2004;45:1822-1828 Del Vecchio, S; Zannetti, A; Aloj,L; Salvatore, M – MIBI as prognostic factor in breast cancer – Q J Nucl Med 2003;47:46-50 Khalkhali, I.; Baum, J.K.; Villanueva-Meyer, J.; Edell, S.L.; Hanelin, L.G.; Lugo, C.E.; Taillefer, R.; Freeman,L.M.; Neal, C.E.; Scheff, A.M.; Connoly, J.L.; Schnitt, S.J.; Houlihan, M.J.; Sampalis, J.S.; Haber, S.B. – 99mTc-Sestamibi breast imaging for the examination of patiets with dense and fatty breasts – Radiology, 2002;222:149-155 Polan,R.L.; Klein, B.D.; Richman, Polan,R.L.; Klein, B.D.; Richman, R.H. – scintimammography in patients with minimal mammographic or clinical findings – Radiographics, 2001;21:641-655 De Cicco C, Trifiro G, Baio S, Sierra ML, Pizzamiglio M, Cassano E, Prisco G, Gatti G, Galimberti V, Luini A, Paganelli G. - Clinical utility of 99mTc-sestamibi scintimammography in the management of equivocal breast lesions. Cancer Biother Radiopharm. 2004;19(5):621-626. 317 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia X. CIRURGIA RADIOGUIADA PARA BIÓPSIA DO LINFONODO SENTINELA Cláudio Kemp Mario Luiz Vieira Castiglioni INTRODUÇÃO O termo linfonodo sentinela foi primeiramente utilizado por Gould et al. em 1960 ao estudarem o câncer das glândulas parótidas. Descreveram o primeiro linfonodo que recebia os vasos linfáticos provenientes do tumor. A importância dessa drenagem linfática foi destacado por Cabañas ao pesquisar pacientes portadores de câncer de pênis e, evidenciar sobrevida de 90% em 5 anos , naqueles casos em que a histologia mostrava ausência de metástase nesse linfonodo. Morton et al. (1994) reforçaram esse conceito ao con- firmarem os achados da biopsia do linfonodo sentinela, traba- lhando com pacientes portadores de melanoma maligno,. Os primeiros a investigar o LS nos carcinoma de mama foram Krag em 1993 e Giuliano em 1994. Krag descreveu a localização através do radiofarmaco e Giuliano a técnica do corante azul patente. A partir daí, o interesse pela identificação do LS foi cres- cente, principalmente, após as evidencias de serem muito baixas, a freqüência de metástases axilares nos tumores iniciais da mama. De fato, Silverstein (1994), em 96 casos de T1a encontrou apenas 3% de axila comprometida. Já, Paganelli e Veronesi, em 318 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia estudo de 436 casos de câncer inicial (menor que 1.2cm) mostra- ram que a dissecção axilar podia ser evitada sem risco significante, com 98% de sobrevivência após 5 anos de seguimento. Confirmando esses achados, estudo multicêntrico dirigi- do por Krag, (1998), com 443 casos mostraram resultados se- melhantes. Demonstrou que as paciente eram expostas desne- cessariamente aos riscos operatórios e as suas complicações se a dissecção da axila fosse realizada sistematicamente. Por outro lado, essas evidencias apontavam que o esvazia- mento axilar não deveria ser visto como curativo e sim como um procedimento para estadiar e obter a maior quantidade de informações prognósticas possíveis. De fato, Veronessi et al. 1999, comparando 737 pacientes que se submeteram a mas- tectomia radical com e sem linfonodectomia da cadeia mamá- ria interna não encontraram diferença de sobrevida, após 30 anos de seguimento, entre os dois grupos. CONCEITO O conceitodo linfonodo sentinela basea-se em dois prin- cípios básicos: a) a existência de uma drenagem linfática ordenada e previsível para um linfonodo, b) a função desse primeiro linfonodo atuar como filtro para as células tumorais. Desse modo, o linfonodo sentinela é o primeiro da ca- deia linfática de drenagem do tumor, e deve refletir, o estado de todo esse conjunto linfonodal. Por isso, sua utilização basea- se na premissa de que estes são os linfonodos de maior risco para metástases do câncer e que, se eles forem negativos, os 319 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia linfonodos remanescentes da cadeia de drenagem serão tam- bém negativos, evitando-se assim a necessidade de um esvazia- mento linfonodal loco-regional amplo. A drenagem linfática das mamas tende a acompanhar o suprimento sangüíneo, representado principalmente pelos va- sos axilares e mamários internos e, uma contribuição mínima dos vasos perfurantes das cadeias intercostais. A maioria da linfa drena para os linfonodos axilares. Aproxi- madamente, apenas 3% drenam para a cadeia mamária interna. A drenagem linfática das mamas faz-se para o plexo lin- fático ao redor de cada lóbulo mamário, que segue o caminho dos ductos galactóforos, convergindo para a aréola para for- mar o plexo sub-areolar de Sappey que é parte do plexo subcu- tâneo e depois, superficialmente através do quadrante súpero- lateral, dirigi-se para a região axilar (FIGURA 1). Cintilografia mamária Evidenciando o local de injeção do radiofarmaco, o duto linfático e o linfonodo sentinela 320 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia RADIOFÁRMACOS Os radiofármacos utilizados são denominados radiocolóides. O radiocolóide ideal deve prover a visualização dos ca- nais linfáticos a partir do local da injeção até o linfonodo cor- respondente, ficando ai retido. Após a injeção, os radiocolóides são drenados com a linfa numa velocidade que é inversamente proporcional ao tamanho da partícula. As partículas de tama- nho maior ficam retidas indefinidamente no local da injeção e as partículas menores tendem a migrar e até ultrapassar o pri- meiro linfonodo, dirigindo-se para os linfonodos do segundo e do terceiro nivel . Esse processo de drenagem pode durar horas. A quantidade de radioatividade retida no linfonodo sen- tinela, 15 a 18 horas após a injeção, é muito baixa, sendo ao redor de 1% quando a injeção é intradérmica ou subdérmica e, de 0,1% quando a injeção é peri-tumoral. Vários são os radiocolóides utilizados no estudo do linfonodo sentinela. No nosso meio os mais utilizados são o Dextran500, o estanho coloidal e o fitato, todos preparados a partir de frascos liofilizados e marcados “in vitro” com a adição de tecnécio-99m, de maneira asséptica. TÉCNICA DE INJEÇÃO Três parâmetros devem ser levados em conta durante a injeção dos radiocolóides: o local da injeção, o volume injetado e a atividade injetada. Pode-se ainda, considerar o tempo de injeção em relação a realização da cirurgia. 321 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia As técnicas de injeção utilizadas são: a intratumoral, a peri-tumoral intersticial e a intradérmica/subdérmica. A injeção intratumoral pode ser feita utilizando-se uma atividade maior de radiocolóide de até 4 mCi (158 MBq) em um volume de solução de até 4 ml, objetivando aumentar a pressão do liquido no interstício intratumoral e forçar a sua drenagem pelo sistema linfático. A injeção peri-tumoral intersticial é feita adjacente ao tumor, podendo ser realizada de forma radial em pelo menos 4 pontos com um volume não maior que 1 ml por ponto de inje- ção, e atividade total não maior que 1 a 2 mCi ( 37 a 74 MBq). A injeção intradérmica é feita na pele sobre a lesão em um volume de no máximo 0,3 ml, com atividade de no máxi- mo 1 mCi (37 MBq), podendo em alguns casos ser utilizada a injeção peri-areolar. Das três técnicas, aquela que promove a migração mais rápida do material, é a intradérmica/subdérmica, podendo-se detectar o linfonodo em 20 a 30 minutos após. AQUISIÇÃO DAS IMAGENS O estudo deve ser iniciado imediatamente após a injeção do radiocolóide e deve terminar quando o linfonodo sentinela for localizado. As imagens iniciais são importantes para se definir as vias de drenagem linfática, podendo ser detectado mais de uma base de drenagem na axila. Antes do inicio da aquisição das imagens é conveniente que após a injeção uma leve massagem seja feita sobre a região por 2 a 3 minutos. No entanto, essa técnica é controversa pois 322 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia demonstrou-se que as células benignas podem chegar ao LS por transporte passivo. Isto inclui na verdade, as biópsias prévias, já que as células epitelias durante a manipulação cirúrgica são ar- rastadas para o espaço intersticial e são drenadas para aos canais linfáticos onde são carregadas até o LS por transporte passivo. Por outro lado , essas células tumorais isoladas não são metástases verdadeiras e são desprovidas de implicação prognóstica , no entanto, podem trazer dificuldades diagnós- tica no momento da análise intra-operatória. Esses achados são mais freqüente em pacientes com cirurgia prévia (Jacub et al) Imagens na projeção anterior (com os braços completa- mente abduzidos), lateral e obliquas (quando necessário) do tórax, são obtidas durante todo o tempo de estudo. Após detectado, o linfonodo sentinela é marcado sobre a pele com tinta permanente, preferencialmente em dois planos nas projeções anterior e lateral, para se ter noção da profundidade. Isso se faz, com a paciente deitada com os braços abduzidos em 90 graus, já que essa será a posição utilizada durante a cirurgia. Essas coordenadas deverão ser as mais acuradas possíveis, para que no ato operatório, faça-se uma dissecção bem orien- tada, o que diminui em muito o tempo cirurgico e aumenta a exatidão na localização do linfonodo sentinela. Para melhor identificação topográfica desse linfonodo é importante enviar uma imagem com os contornos da paciente e a localização do linfonodo sentinela marcado com o tecnésio. SONDA DE DETECÇÃO (“GAMMA-PROBE”) INTRA- OPERATÓRIO Os principais parâmetros de uma sonda de detecção são sen- 323 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia sibilidade (taxa de contagens por unidade de atividade – cts/KBq), resolução energética (importante para a rejeição da radiação de fundo), e resolução espacial (capacidade de localizar a atividade dentro do volume que está sendo explorado). Vários modelos de sondas de detecção existem atualmente e todos têm os parâmetros acima bem definidos, com alta capacidade de detecção. A sonda de detecção deverá ser encoberta com uma capa estéril para sua utilização no campo operatório. Após posicionar o paciente na mesa cirúrgica, a escolha do melhor local para incisão deverá ser feita com a sonda de detecção rastreando sobre a pele, o local de maior captação (área quente), a partir das marcas na pele deixadas pelo médico nuclear no momento da realização da cintilografia mamária (FIGURA 2). Identificação da área mais captante correspondente ao linfonodo sentinela 324 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia A área demarcada deverá ser dissecada e a atividade de captação medida constantemente, até aproximar-se do linfonodo mais captante ( “quente”). Quando este for detecta- do, faz-se nova verificação da captação sobre o mesmo (“in vivo”) e compara-se com outra área longe daquelas de maior captação. Após a exerese é conveniente verificar a captação na peça (“ex vivo”) para confirmar sua retirada, antes dela ser en- viada para exame histológico. Em seguida, faz-se verificação no leito cirúrgico para se certificar da ausência de atividade ou, existência apenas residual, ou da presença de outros linfonodos (FIGURA 3). Sonda detectando a radioatividadedos linfonodos extirpados O linfonodo sentinela deverá ter, comparativamente, uma captação de 10% ou mais da área de injeção inicial e, de no mínimo dez vezes, a da área de radiação de fundo escolhida, lon- ge da área de injeção inicial e do linfonodo . Por isso, durante o procedimento , na pesquisa do linfonodo sentinela, a sonda 325 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia deverá estar direcionada para longe dos locais da injeção do material, afim de evitar riscos de contaminação na captação . Pode-se, também, realizar ambulatorialmete a exerese do LS com anestesia local. O objetivo é obter previamente o resulta- do do exame anátomo-patológico do espécime, o que, possibili- ta melhor consenso para o planejamento cirúrgico definitivo . Por outro lado, há uma curva de aprendizado nessa téc- nica, que é variável para cada cirurgião. São necessários em tor- no de 30 casos para que se aumente a sensibilidade de detec- ção do LS a níveis aceitáveis ( Cox et al,2001). INDICAÇÕES A pesquisa do LS tem mostrado resultados encorajadores: acuracia de 97%, sensibilidade de 93% e especificidade de 100% (7). Assim, a biopsia do LS está indicada, e deve-se tornar prática usual, nas pacientes em que a axila encontra-se clinica- mente negativa e quando tratar-se de casos iniciais (T < 3,0 cm), já que o comprometimento axilar está relacionado direta- mente ao aumento do volume tumoral. No entanto, alguns tumores ditos especiais, por seu com- portamento biológico menos agressivo tais como os que se apre- sentam circunscritos, mucinoso, papilífero, adenóide cístico e, o subtipo tubular, que freqüentemente apresentam baixo ín- dice de metastatização para os linfonodos axilares, podem ser beneficiado pela pesquisa do linfonodo sentinela, mesmo com diâmetros tumorais maiores ( < 5 cm ). Outra questão é o carcinoma “in situ” extenso. Também deve ser considerado para essa pesquisa pela possibilidade de 326 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia invasão na investigação posterior na peça cirúrgica. De fato, Lagios (1982) estudando 186 casos de ca in situ, mostrou que aqueles com extensão abaixo de 2,5 cm não apresentaram metátase nos linfonodos axilares, já os maiores que 2,5cm , atin- giram até 47% de comprometimento axilar. Assim também, os casos com programação para mastec- tomia, principalmente, quando estão associados a reconstru- ção mamária de imediato, também deveriam ser considerados para esse procedimento. Procedimentos invasivos, PAAF, BAG e MMT , não inviabilizam a pesquisa do linfonodo sentinela Já, as biópsias cirúrgicas prévias mantém opiniões con- traditórias. É consistente com o conceito anatômico que o sucesso da identificação do linfonodo sentinela depende da normalidade e integridade da anatomia do quadrante superior lateral e da re- gião axilar da mama, já que a drenagem dos vasos linfáticos dessa glândula, contornam os lóbulos mamarios e voltam-se para a su- perfície onde coalescem na região sub-areolar, e então, se diri- gem superficialmente para os linfonodos axilares (Shons, 2002). Por este motivo, esse autor assegura, que próteses mamá- rias não deveriam ser inseridas através da técnica trans-axilar ou, até mesmo , peri-areolar e orienta para que se empregue técnicas que utilizam o sulco infra-mamário , tendo como obje- tivo, não afetar o fluxo de drenagem linfática superficial da mama e, com isso, interferir na identificação do verdadeiro linfonodo sentinela, Afirmação essa, também compartilhada por Gray et al, 2004. 327 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Para Luine et al (2005) que estudaram 543 pacientes que se submeteram a biópsia prévia e, o LS foi identificado em 99% dos casos, não há diferença de sensibilidade na realização do método com ou sem biópsia prévia. Da mesma forma, a importância da detecção dos linfonodos da cadeia mamária interna não tem ainda signifi- cado clínico definido. De fato, Veronessi et al (1999), com- parando 737 pacientes randomizadas, que se submeteram a cirurgia radical de Hasted e aquelas com mastectomia radical e dissecção dos linfonodos da mamária interna , após 30 anos de seguimento, observaram que não houve diferença na curva de sobrevida entre os dois grupos. Concluiram que esses achados confirmam que o tratamento dos linfonodos regionais não alteram a sobrevida, no entanto, referem que para fins de estadiamento, a biópsia seletiva desses linfonodos deveria ser considerada, principalmente, quando a localiza- ção dos tumores estão nos quadrantres mediais. Para isso, quando nessas localizações, a identificação se dá, mais fre- qüentemente, quando o marcador radioativo é injetado na parte inferior do nódulo profundamente, no parênquima mamário. Alem disso, de forma geral, evita-se o esvaziamento axilar sistemático quando o LS resulta sem comprometi- mento, com baixo risco de falso negativo. Diga-se de pas- sagem que esses resultados representam apenas 3% dos casos. Isto é relevante para o seguimento clinico dessas pacientes. Por outro lado, reduz custo do tratamento ao dimi- nuir o tempo do procedimento cirúrgico, da internação 328 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia e, conseqüentemente, das suas complicações imediatas e tardias . As causas de insucesso, estão relacionadas diretamente a experiência dos profissionais envolvidos no processo de iden- tificação da lesão, sua correta localização, na escolha do mé- todo para injeção do marcador radioativo, na técnica de rea- lização do procedimento nuclear e cirúrgico. Além disso , há aquelas relacionados às pacientes; alto índice de massa corpórea (pacientes obesas), a idade avan- çada, ambos pela dificuldade de difusão do marcador radi- oativo e, invasão metastática extensa nos linfonodos regio- nais, pois nesses casos , pode ocorrer o desvio do fluxo para outros níveis da cadeia de drenagem dificultando a identifi- cação do LS verdadeiro (Birdwell et al,2001) (FIGURA 4,5). Peça evidenciando a presença de multiplos linfonodos comprometidos 329 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Deve ser considerada ainda, a possibilidade de detecção de mais de um linfonodo sentinela, principalmente quando se faz a injeção peri-tumoral . Esse achado se dá, em média, de 2 a 3 linfonodos por paciente. A identificação do LS compreen- de o linfonodo corado em azul pelo corante vital utilizado (pa- tente blue) com o canal linfático tambem de cor azul que che- ga diretamente nele ou, qualquer linfonodo com radioativida- de com 10% ou mais daquela do local da injeção inicial. O número de linfonodos removidos é pouco relevante já que está diretamente relacionado ao objetivo de identificar o linfonodo positivo, e assim, evitar falsos negativos . De fato , a percenta- gem de falso negativo é menor quando se identifica múltiplos LS comparado com apenas um. (Jakub et al 2004). Cintilografia mamária prévia evidenciando multiplos linfonodos captantes 330 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia PROTEÇÃO RADIOLÓGICA É procedimento seguro tanto para a paciente como para os profissionais envolvidos no processo de realização do método. Ensaios realizados em pacientes portadores de melanoma maligno, após a injeção intradérmica com uma atividade de 15 a 37 MBq, obteve-se uma dose efetiva de 0,0019 mSv/MBq, sendo o órgão que recebeu a maior dose de radiação foi o baço (0,015 mGy/MBq). Essas dosagens tornam o procedimento extremamente seguro na faixa das atividades utilizadas. A equipe médica, de enfermagem e os técnicos envolvi- dos no procedimento, poderão utilizar dosimetros pessoais, embora, a exposição para os níveis de atividade empregados, ser extremamente baixa. A dose de radiação estimada para as mãos do cirurgião é de 5 a 94 mSv por paciente, que fica muito abaixo, por exem- plo da radiação recebida anualmente de fontesnaturais que é de 3 mSv. Todo e qualquer material utilizado na cirurgia que teve contato com a(s) peça(s) cirúrgica(s) ou com o campo operató- rio deverá ser segregado e encaminhado para avaliação e poste- rior descarte, conforme as normas de radioproteção vigentes. BIBLIOGRAFIA Cabañas, R.M. – An approach for the treatment of penile carcinoma. Cancer 1977;127:392-399 Morton, D.L; Wen, D.R.; Wong, J.H., et al – Technical details of intraoperative lymphatic mapping for early-stage melanoma. Arch Surg 1994;220:392-399 Giulliano, A.E.; Kirgan, D.M.; Guenther, J.M.; et al – Lymphatic mapping and sentinel lymphadenectomy for breast cancer. Ann Surg 1994;220:391-401 Jakub, J.W.; Pendas, S.; Reintgen, D.S. – Current status of sentinel lymph node mapping and biopsy: facts and controversies. The Oncologist 2003;8:59-68 331 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Cody III, H. S. – Clinical aspects of sentinel node biopsy. Breast Cancer Res 2001;3:104-108 Cox CE, Dupont E, Whithead GF, et al : learning curves for breast cancer sentinel lymph node mapping based on surgical volume analysis. J Am Coll Surg.193:593-600,2001 Tansi, P.J.; Nieweg, O.E.; Olmos, R.A.V.; et al – History of sentinel node and validation of the technique. Breast Cancer Res 2001;3:109-112 Gray RJ, Forstner-Barthell AW, Pockaj BA, Schild SE, Halyard MY: Breast conserving therapy and sentinel lymphy node biopsy are feasible in cancer patients with previous implant breast augmentation. Am J Surg 188:122-5, 2004 Mariani, G; Moresco, L.; Vilae,G.; et al – Radioguided sentinel lymph node biopsy in breast câncer surgery. J Nucl Med 2001;42:1198-1215 Cantin, J.; Scarth, H.; Levine, M.; Hugi, M. – Clinical pratice guidelines for the care and treatment of breast cancer: 13. Sentinel lymph node biopsy. CMAJ 2001; 165(2):166-173. Alazraki, N; Glass, E.C.; Castronovo, F.; Olmos, R. A. V.; Podoloff, D. – Society of Nuclear Medicine procedure guideline for lymphoscintigraphy and the use of intraoperative gamma probe for sentinel lymph node localization in melanoma of intermediate thickness. Version1.0, approved June 15, 2002 – in www.snm.org - acessado em 04/04/2005 Lagios, MD, Westdahl PR, Margolin FR, Rose MR. Duct carcinoma in situ . Relationship of extent of noninvasive disease to the frequency of accult invasion , multicentricity , lymph node metastases, and short-term treatment failures. Cancer. 1982; 50: 1309-14 Trifiro G, Viale G, Gentilini O, Travaini LL, Paganelli G. – Sentinel node detection in pre-operative axillary staging. Eur J Nucl Med Mol Imaging 2004;31(1):S46- S55 Brenot-Rossi, I; Houvenaeghel, G; Jacquemeier, J.; Bardou V.J.; Martino, M.; Hassan- Sebag, N.; Pasquier, J. – Nonvisualization of axillary sentinel node during lymphoscintigraphy: Is there a pathologic significance in breast cancer? J Nucl Med 2003;44:1232-1237 Kumar, R.; Jana, S.; Heiba, S.I.; Dakhel, M.; Axelrod, D.; Siegel, B.; Bernik, S.; Mills, C.; Wallack, M. – Retrospective analysis of sentinel node localization in multifocal, multicentric, palpable and non-palpable breast cancer. J Nucl Med 2003;44:7-10 Luini A, Gatti G, Zurrida S, Galimberti V, Paganelli G, Naninato P, Caldarella P, Rotmensz N, Winnikow E, Viale G. - The sentinel lymph node biopsy under local anesthesia in breast carcinoma: experience of the European Institute of Oncology and impact on quality of life. Breast Cancer Res Treat. 2005;89(1):69- 74. 332 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Luini A, Galimberti V, Gatti G , Arnone P, Vento AR, Trifiro G, Viale G, Rotmensz N, Fernandez JR, Gilardi D, Paganelli G.: The sentinel node biopsy after previous breast surgery: preliminary results on 543 patients treated at the European institute of Oncology. Breast Cancer Res Treat. 2005: 89; 159-63. Birdwell, RL; Smith, k l ; Betts, B J; Ikeda, DM; Straus, W; Jeffrey,SS: Breast cancer: variables affecting sentinel lymph node visualization at preoperative lymphoscintigraphy. Radiology.2001;220:47-53 Veronessi U, Cascinelli,N, Bufalino R, Morabito A, Greco M, Galuzzo D, Delle Donne V, De Lellis, R, Pioti P, Sachini V, Conti R, Clemente C: Risk of internal mammary node metástases and its relevance on prognosis of breast câncer patients. Annals of surgery:1983; 19:681-4 Shons AR.- Breast cancer and augmentation mammoplasty: the preoperative consultation.Plastic and reconstructive surgery. 2002,383-5 Veronessi U, Marabini L, Valagussa P, Zucali R: The dissection of internal mammary nodes does not improve the survival of breast cancer patients. 30 years results of a randomized trial. European Journal of Cancer: 35,1320-1325. 333 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia XI. LOCALIZAÇÃO PRÉ-CIRÚRGICA DE LESÕES NÃO PALPÁVEIS Cláudio Kemp Mario Luiz Vieira Castiglioni INTRODUÇÃO Por muitos anos, a biópsia cirúrgica a céu aberto foi o único método de escolha para cirurgiões removerem amostras de áreas suspeitas para análise histopatológicas. No caso das lesões não palpáveis, foram realizadas seg- mentectomia ou quadrantectomia as cegas, orientada apenas pela localização espacial de duas projeções da mamografia. No entanto, provaram ser excessivas, além das alterações cosméti- cas e radiográficas observadas em controle posterior. O procedimento que mostrou ser mais efetivo para ori- entar o cirurgião na extirpação dessas lesões, foi utilizar a colo- cação de reparo metálico, introduzindo-o no interior da mama, objetivando identificar a região desejada para biópsia. O guia metálico era introduzido a “mão livre”, através da ori- entação espacial das duas projeções crânio-caudal e perfil absoluto. Posteriormente com o advento do compressor fenestrado, a orientação biplanar, simplificou enormemente esta localização, sendo a técnica mais largamente utilizada nos dias atuais (6). Em 1992, outra grande inovação somou-se a esses pro- cedimentos, a mamografia digital de campo localizado. Essa técnica reduziu para 20 segundos a obtenção de imagem, tor- nando-o rápido, de fácil manejo e mais aceitável pela paciente. Além disso, permitia ampliar a lesão em estudo melhorando 334 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia sensivelmente a acuracidade do método (1). Em seguida, em 1993, descreveu-se nova técnica para localização pré-operatória de lesões não palpáveis da mama com resultados encorajadores. Trata-se da injeção intratumoral de colóide de alto peso molecular marcado com isótopos radioati- vos. Durante o procedimento cirúrgico, usa-se uma sonda por- tátil (gama-probe) que detecta a irradiação gama proveniente da lesão. Daí, pesquiza-se o ponto de máxima captação que in- dica onde se encontra o nódulo, denominado de ROLL ( radio- guided occult lesion locatization) (9). A cirurgia precedida pela localização dessas lesões, ainda é, considerada como o método mais preciso. No entanto, apre- senta falhas em 4% das vezes, variando de 0,2 a 20% (2). Sem- pre que corretamente realizado, mostra-se método seguro e orienta o cirurgião na ressecção da área desejada para estudo. Mesmo nos casos em que o diagnóstico de câncer já foi feito previamente por um dos procedimentos invasivos (PAAF, BAG ou MMT), a localização da lesão se faz necessário, objetivando a complementação cirúrgica adequada para cada caso. A escolha do método e do material a ser utilizado depende: do exame que identificou a lesão, da sua localização. do equipa- mento disponível e da experiência do profissional envolvido. TÉCNICA DE LOCALIZAÇÃO A marcação pode ser feita utilizando-se um conjunto de agu- lha e fio-guia, através de corantes ou mais recentemente, do ROLL. Quando se opta pela colocação do reparo metálico, deno- minado na prática de agulhamento pré-operatório, pode ser dirigida pela mamografia ou pela ultrassonografia. Essa escolha depende de qual método se identificou a lesão com mais nitidez. 335FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia No caso da mamografia, pode-se utilizar os métodos do compressor fenestrado ou estereotaxia. Emprega-se a mamo- grafia convencional, com filmes radiográficos ou mamografia digital. Essa última diminui em muito o tempo do procedi- mento porém o alto custo dificulta sua aquisição. O método do compressor fenestrado é o mais utilizado. A técnica é simples, rápida e praticamente indolor. Além disso, o compressor fenestrado e o colimador com marcador óptico são peças opcionais disponíveis na maioria dos mamógrafos co- mercializados. A estereotaxia pode ser utilizada com a paciente em posi- ção sentada ou deitada e, nesse ultimo caso, utiliza-se uma mesa dedicada para este fim. O material específico é composto por uma agulha e um fio com um gancho em sua extremidade visando fixar-se no tecido da lesão. Há também sistemas cujo fio apresenta uma porção mais espessa em sua extremidade o que facilita sua localização durante o ato operatório e impede o corte acidental do fio. (FIGURA 1). FIGURA 1 – Fotografia evidenciando os diversos sistemas de fio guia 336 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Para auxiliar a localização do fio durante a cirurgia, fo- ram desenvolvidas cânulas rígidas estéreis que são introduzidas através do fio guia e podem ser mais facilmente palpadas pelo cirurgião. Na falta da cânula, pode-se substituí-la por abbocath ou gelco número 16 ou 18, conforme a espessura do fio utili- zado no agulhamento (5). Pode-se também optar pela marcação da lesão através da injeção de corante (azul patente ou do azul de metileno), em- pregando-os isoladamente ou associados com o fio guia. A des- vantagem desta técnica é a rápida difusão dos corantes pelos tecidos ao redor, demarcando uma extensão maior que o ne- cessário, e a possibilidade, de reação alérgica. Outro método é a utilização de partículas de carbono, que é um material inerte e não se difunde nos tecidos. Tem a vantagem da marcação pré-cirúrgica ser realizada até com dias de antece- dência. No entanto, durante o ato operatório, seguir uma fina li- nha negra pode ser trabalhoso e pode ocorrer retirada de tecido maior do que o necessário. Do mesmo modo, o sangramento pode obscurecer a marcação, perdendo-se o local da lesão. Antes de iniciar o procedimento, é importante rever o exame que identificou a lesão. para a escolha do método a ser empregado, mamografia e/ou a ultra-sonografia. Igualmente, para certificar-se da localização da lesão e planejar a via de acesso. Quando observada pela mamografia, a lesão deve ser identificada nas duas radiografias ortogonais, o que dá, a sua exata localização e possibilita escolher a melhor via de acesso. que será, a menor distância possível entre a pele e a lesão. Geralmente, as lesões localizadas nos quadrantes superi- ores, quer medial ou lateral , é utilizada a introdução do fio guia pela incidência crânio-caudal. Quando se localiza em um 337 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia dos quadrantes inferiores, a técnica empregada respeita o quadrante onde se encontra a lesão. ou seja, se mais lateral- mente, insere-se pela incidência lateral, ou medial, se estiver no quadrante ínfero-medial. Mais freqüentemente se aplica a incidência caudo-cranial quando a area desejada está na jun- ção das quadrantes inferiores (FIGURA 2-3-4-5-6). FIGURA 3 – Fotografia exibindo o compressor fenestrado em incidência crânio-caudal FIGURA 2 – Quadro ilustrativo mostrando as opções de planejamento e vias de acesso para lesão. ( 5) 338 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia FIGURA 4 - adiografia revelando a lo- calização da lesão na incidência crâ- nio-caudal FIGURA 5 – Fotografia evidenciando a técnica do agulhamento 339 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Deve-se estar atento para as lesões cutâneas. Nesses casos, pode-se realizar radiografias tangenciais para melhor demonstrá- las, evitando procedimento cirúrgico desnecessário. Se as lesões forem múltiplas, deve-se analisar cuidadosa- mente a correspondência exata entre elas, nas incidências crâ- nio-caudal e médio-lateral. Por vezes, deve-se colocar mais de um fio-guia. O mesmo pode ocorrer nas lesões extensas, visan- do assegurar-se da sua completa remoção . Se observada à ultra-sonografia, a escolha será sempre por esse método. Como é realizada com a paciente em decúbito dorsal propicia maior conforto, rapidez e, principalmente, permite o monitoramento da imagem em tempo real (5) (FIGURA 7-8). . FIGURA 6 – Radiografia mostrando a agulha na posição correta junto à lesão 340 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia FIGURA 7 – Fotografia exemplificando a técnica de localização por meio da ultra- sonografia FIGURA 8 – Imagem ultra-sonográfica evidenciando a localização da agulha no interior do nódulo 341 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia ESCOLHA DA INCISÃO E CUIDADOS CIRÚRGICOS As complicações cirúrgicas incluem posição inadequada, deslocamento ou corte acidental do fio guia. Alem da experiência dos profissionais envolvidos no pro- cedimento, quer do imaginolista ou do cirurgião, a causa mais freqüente é a posição inadequada do reparo metálico. Isso se dá, quando ocorre sangramento, reflexo vaso-vagal ou a pa- ciente refere algum grau de dor, impossibilitando realizar sa- tisfatoriamente a técnica do agulhamento. Já no ato cirúrgico, verifica-se o deslocamento do fio guia, quando se faz forte tra- ção durante sua manipulação ou, em mamas gordurosas, por não haver tecido firme para fixá-lo adequadamente (5). O deslocamento desse fio pode ocorrer quando as lesões se localizam em áreas onde predominam tecido gorduroso. A tração exercida para retificar o fio e introduzir a cânula de re- vestimento ou, sua manipulação durante o ato cirúrgico. po- dem deslocar o gancho porque esse tecido não oferece resis- tência para sua fixação . Em mamas com predomínio de tecido fibraglandular isso raramente ocorre. A escolha do local da incisão também é importante: se for peri-areolar e a lesão estiver próxima, não há dificuldades. Em lesões mais distantes da região areolar, a cânula de revestimento é de grande auxílio por ser rígida e facilmente palpada, orientan- do o local da incisão e, a extração da lesão. Outra possibilidade é fazer a incisão no local de entrada do fio guia na pele e, seguir com a dissecção até sua extremidade, no interior da mama. Nes- sa circunstância, geralmente remove-se grande quantidade de tecido, o que geralmente inviabiliza essa opção técnica, igual- mente, para certificar-se da retirada total da lesão. 342 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Outra complicação indesejada é a transsecção acidental do fio durante a cirurgia, o que pode provocar a permanência de fragmentos de fio no interior da mama, e, por vezes, a não retirada da lesão (FIGURA 9). A freqüência deste acontecimen- to gira em torno de 3%. Isto ocorre quando se utiliza fios muito finos no agulhamento e a tesoura na técnica de dissecção. Para se evitar estes contratempos, recomenda-se utilizar apenas o bis- turi na dissecção. Ao identificar o fio-guia, deve-se puxa-lo para o interior da mama para retira-lo junto com a peça cirúrgica. Além destas medidas, deve-se confirmar a retirada completa do fio e da lesão na radiografia da peça cirúrgica. FIGURA 9 – Radiografia exemplificando a secção acidental do fio guia e não retirada da lesão 343 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia A radiografia da peça operatória é obrigatória, permite certificar-se da extirpação da lesão. Mais ainda, possibilita ao pato- logista identifica-la para o exame de congelação e orienta, quando necessário, ampliação das margens cirúrgicas. Além disso, o pato- logista pode ter uma avaliação mais completa da lesão na peça cirúrgica do que nosfragmentos de biópsia por agulha grossa (core biopsy), mamotomia ou da citologia (4) (FIGURA 10-11). FIGURA 10 – Radiografia evidenciando a retirada da peça operatória orientada com auxílio de marcador metálico (agulhas) e mostrando a retirada da lesão FIGURA 11 – Radiografia da peça operatória em duas incidências, exemplificando a margem cirúrgica coincidente com a lesão. 344 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia O acompanhamento de pacientes com fragmentos de fio metálico deixados na mama por períodos de até 11 anos, cons- tatou que não ocorreu sua migração e que apenas uma peque- na minoria das pacientes referiu dor local. A retirada do frag- mento pode ser realizada cirurgicamente, precedida por novo agulhamento, ou até mesmo. por mamatomia visando proce- dimento menos invasivo. Na peça cirúrgica, pode-se ser en- contrar necrose gordurosa, ou apenas tecido normal, não se notando infecção ou reação de corpo estranho(2). LOCALIZAÇÃO RADIOGUIADA (ROLL – Radioguided Occult Lesion Localisation) A técnica consiste em injetar no centro da lesão, macroagregados de albumina serica humana (cujas partículas são de 10 a 150 um), estanho coloidal ou fitato., marcados com uma substância radioativa, 99m TC tecnesio. Esses radiocoloides são partículas maiores que permanecem estáveis no local da injeção, sem migração linfática considerável ou dis- persão nos tecidos adjacentes definindo, desse modo, a área a ser extirpada. Após a localização pré-operatória com o sistema agulha- reparo metálico, retira-se o fio guia do interior da agulha e in- jeta-se o radiocolóide no interior da lesão.. O volume do radiocolóide injetado não deve exceder a 0,2 ml, pois volumes maiores tendem a se disseminar para os tecidos vizinhos preju- dicando a definição das margens de exerese. A atividade pode chegar até a 37 MBq, em casos onde a localização for feita no dia anterior à cirurgia, pensando-se na drenagem linfática do material no sitio da lesão e do decaimento radioativo do tecnécio- 345 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia 99m. Pode-se fazer a injeção em mais de uma lesão na mesma mama ou na mama contra-lateral, sempre lembrando que em lesões muito próximas pode não haver diferenciação espacial das mesmas pela interferência da radiação de uma na outra. A introdução pode ser realizada sob orientação ultra- sonográfica ou estereotáxica através da mamografia. Quando executado através da ultra-sonografia é mais fácil e rápida, que na localização estereotaxica, pois o procedimento é realizado em tempo real. De fato, o posicionamento considerado bom, pela técni- ca ultra-sonográfica ocorre em 96,7% dos casos e na estereotáxica em 94,8%. Na estereotaxia, após a injeção da substancia radioativa, pode-se optar por introduzir um contraste radiopaco e fazer-se nova incidência mamográfica para verificar a distancia entre a lesão e a imagem radiopaca. Quando se superpõe, o posicionamento é considerado apropriado e a paciente é libe- rada para cirurgia. Caso essa diferença revele-se maior que 2 cm, o que raramente ocorre, deve-se julga-lo como inadequa- do e, realizar a localização pré-cirúrgica por outra técnica. Posteriormente, faz-se imagens cintilográficas objetivan- do comprovar o aparecimento de captação focal no radiotraçador, ou seja, pequena área delimitada apontada como “área quente” (FIGURA 12). Ao mesmo tempo, evidência possíveis áreas de contaminação que podem ocorrer no trajeto da agulha ou na pele. que, geralmente desaparecem até o mo- mento cirúrgico. Nesse caso, faz-se a limpeza da pele e repete- se a cintilografia. No entanto, trata-se de acontecimentos que não interferem no procedimento cirúrgico (9). 346 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Eventualidade rara é a difusão da substância radioativa pelos tecidos da mama. Isso se dá na introdução acidental den- tro dos ductos ou nos vasos linfáticos. Nesses casos as imagens cintilográficas mostram áreas de captação anômala ou difusa, respectivamente. Considera-se como falha do método e pro- cede-se a localização através de outra técnica. Para facilitar o cirurgião na localização da lesão, faz-se uma marca na pele suprajacente ao ponto de máxima capta- ção, usando o detector portátil de irradiação gama. A escolha do local da incisão cirúrgica, pode ser feita so- bre a marca da pele dirigindo-se depois, diretamente para a lesão ou, conforme prévia programação, observando critérios oncológicos nos casos suspeitos ou ainda, visando resultados cosméticos, nos benignos. Local da injeção FIGURA 12 – Imagem cintilográfica evidenciando o local da injeção 347 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Durante a cirurgia, utiliza-se a sonda, para confirmar a posi- ção da “área quente” (origem da máxima captação) orientando a excisão da região delimitada (FIGURA 13). Após sua remoção, a sonda é direcionada para a peça cirúrgica para comprovar a extirpação da lesão. Isso é feito confrontando-se os níveis de capta- ção máxima alcançados, com aqueles obtidos antes da cirurgia Em seguida, coloca-se a sonda na cavidade cirúrgica para verificar a presença de eventual atividade radioativa. Se houver ainda, sinais no traçador radiotivo, maiores que aqueles residu- ais esperados, em geral maior que 10% da máxima captação, nova ressecção deve ser realizada objetivando completa remo- ção da lesão (7) (FIGURA 14). FIGURA 13 – Identificação pré-operatória da área mais captante correspondente ao sítio da lesão 348 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia A localização correta da lesão no geral ocorre em torno de 99,5% dos casos. Além disso, permite menor remoção de tecidos, melhorando os resultados cosméticos da cirurgia (FIGURA 15). FIGURA 14 – Identificação intra-operatória da área mais captante correspondente ao sítio da lesão FIGURA 15 – Identificação na peça da área de captação correspondente a lesão. 349 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia A técnica é de fácil aprendizado e realização e não apre- senta risco de contaminação aos envolvidos na sua execução. A curva de aprendizado na cirurgia radioguiada, é variável para cada cirurgião. Não existe um consenso de quantos casos são necessários para que se aumente a capacidade de localiza- ção e exérese total da lesão. Sugere-se que os primeiros 10 casos sejam feitos conjuntamente com o fio guia no interior da mama, já que essa técnica é praticada pela maioria dos cirurgiões. BIBLIOGRAFIA 1. BURBANK, F . Stereotatic breast biopsy : It´s history , it´s present , it´s future . Am Surg 1996: 62; 128-49 2. DAVIS PS ,WECHLER RJ, FEIG SA; MARCH DE . Migration of breast biopsy localization wire . AJR 1988: 150; 787-8. 3. DE CICCO, M; PIZZAMIGLHIO, G; TRIFIRO, A; LUINI, M., FERRARI, G; PRISCO, V.; GALIMBERTIK, E.; CASSANO, G.; VIALE, M.; VERONESI, G.; PAGANELI, G.: Radioguided occult lesion locolization (ROLL) and surgical biopsy câncer. QJ NUCL MED, 2002, 46:145-51. 4. DORSI PS . Manejament of the breast specimen . Radiology , 1995: 194; 297- 302 5. FINGUERMAN,F E KEMP,C. Localização pré-cirurgica. In- KEMP,C.; BARACAT,F.F.;RASTAGNO,R.: Lesões não papáveis diagnóstico e tratamento. Rio de Janeiro. Revinter 2003. 6. JACKSON VP. Presurgical needle localization : in – BASSET LW, JACKSON VP; JAHAN R ; FU YS ; GOLD RH : Diagnosis of diseses of the breast . Philadelphia , WB Saunders , 1997 , pp 243-50. 7. PAGANELLI, G. E VERONESI, U.: Innovation in early breast cancer: radio- guided occult lesion localization and sentinel node biopsy. Nuclear medicine communications, 2002, 23:625-7. 8. SILVERSTEIN, M.J.; GIERSON, E.D.; WAISMAN J.R.; SENOFSKY, G.M.; COLBURN, W.J.; GAMAGAMI, P. Axillary Iymph node dissection for T1 a breast carcinoma. Cancer 1994; 73:664-7. 9. VERONESI, U.; PAGANELLI, G.; GALIMBERT, V.; VIALE, G.; ZURRIDA, S.; BEDONI, M.; COSTA, A.;DE CICCO, C.; GERAGHTY, J.G.; LUINI, A.; SACCHINI, V.; VERONESI, P. Sentinel-node biopsy to avoid dissection in breast cancer wuth clinically nehative lymph-nodes. Lancet 1997; 349:1864- 67. 350 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia XII. PROCEDIMENTOS INVASIVOS Claudio Kemp A análise de materiais vários, obtidos por punção de cavi- dades, órgãos ou tumores com agulhas ou trocateres , não é procedimento nada recente. Os primeiros relatos referem-se a Stanley em 1833, que estudou o material aspirado de abscessos hepáticos. A partir daí, o método foi também usado para ana- lisar tumores em geral. Foram Martin e Ellis em 1930, entretanto , os primeiros a descrever a técnica de biópsia aspirativa para tumores palpá- veis de mama. No entanto, encontrou seu grande desenvolvi- mento na Suécia a partir de 1950. No início dos anos 70, o instituto Karolinska consolidou seu uso no diagnóstico pré-operatório das lesões não palpáveis ao desenvolver uma mesa de estereotaxia para o emprego da PAAF, demonstrando ser técnica convincente para localizar es- sas anormalidades radiológicas. Como conseqüência a biópsia percutânea experimentou um crescimento sólido e eficaz. Paralelamente na década de 80, Lindgren desenvolveu uma caixa de metal contendo molas que disparavam um trocarte com o propósito de obter fragmentos de tecidos de rim orien- tado pela USG, denominado então de “core biopsy” objetivan- do suprir as deficiências da biópsia por agulha fina. Em 1988, Parker,adaptou esse propulsor de biopsia au- tomático em um sistema de biopsia estéreotáxica com a pacien- te em posição sentada. Buscando diminuir as dificuldades ob- servadas ao realizar o procedimento por essa técnica, adptou 351 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia esse propulsor na mesa estereotáxica desenvolvida na Suécia , que permitia realizar esse procedimento em posição deitada. Em 1992, outra grande inovação somou-se a esses pro- cedimentos, a mamografia digital de campo localizado. Essa técnica reduziu para 20 segundos a obtenção de imagem, além disso, permitia ampliar a lesão em estudo melhorando sensivel- mente a acuracidade do método. A partir de 1996, surgiu a biópsia percutânea direcional assistida a vácuo, denominada mamotomia, com intuito de re- solver as dificuldades inerentes aos métodos anteriores(1). PUNÇÃO ASPIRATIVA POR AGULHA FINA A biópsia aspirativa por agulha fina é método eficaz, se- guro e alcança acurácia em torno de 92%. É indicada para se obter amostras de alterações palpáveis que se mostram suspeitas ao exame fisico das mamas ou, para confirmar seu caráter benigno, diante de pacientes ansiosas. Mais recentemente, com o advento dos programas de ras- treamento, lesões não palpeis tem sido a principal indicação desse método. O material é simples, pouco dispendioso e consiste de agulha 25/6 , uma seringa de 20 ml, ambas descartáveis,e de uma empunhadura para acoplar a seringa. A técnica é de fácil aprendizado, procedimento rápido, mesmo quando se tratam de lesões não palpáveis. Desinfeta-se a pele e insere-se a agulha, em linha reta, na região a ser explo- rada. Se palpável, fixa-se a área a ser puncionada entre os de- dos indicador e médio da outra mão. Quando não palpável, essa orientação se faz pela visão direta no monitor da ultra- 352 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia sonografia. Isso exige, preparo e conhecimento do método de imagem. Ao introduzir a agulha dentro da lesão, faz-se a retra- ção do êmbolo que cria uma pressão negativa cuja finalidade é aspirar o conteúdo tumoral para o interior da agulha. Move-se a ponta da agulha para trás e para frente, varias vezes , dentro do tumor visando obter material representativo da lesão. Em seguida transfere-se o produto aspirado para a lâmina de vidro e faz-se o esfregaço. A coloração mais freqüentemente usada é a de Papanicoloau(3). A análise do aspecto macroscópico é importante para avaliar a qualidade do material obtido. Haja visto que , a coleta inadequada de material, seu preparo de forma tecnicamente insatisfatória e a leitura por citopatologista inexperiente , são as principais causas de eventuais resultados díspares(4). De fato, a porcentagem de material insuficiente aumenta de 5,1% com apenas um examinador experiente,para 22,9% quando vários iniciam a prática do método. Da mesma forma, índices variáveis de resultados negativo e positivo com corres- pondente variação na curva de material insufiente e suspeito tam- bém se observa no inicio do aprendizado do citopatologista (3). As lesões mais comun na mama feminina durante o menacme são os cistos. Geralmente cistos identificados na USG quando assinto- máticos, não são aspirados, exceto quando demonstram, em controle posterior (4 a 6 meses), grande velocidade de cresci- mento ou, quando se assemelham aos nódulos sólidos (cistos espessos)ou, se existem áreas sólidas no seu interior (cistos com lesões papilíferas). Nesse último caso, indica-se exérese cirúrgi- ca, bem como, aqueles cistos cuja citologia resultou positiva para neoplasia, o que raramente ocorre (1%)(3). 353 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Outras indicações resultam da ansiedade da paciente, por vezes do médico, principalmente quando os cistos são palpá- veis e, naquelas que apresentam dor localizada. Para nódulos sólidos benignos, o material insuficiente é a grande limitação. Em casos de fibroadenoma ou das alterações não especi- ficas que resultam alterações fibrocísticas, chegam a 16%. Não esquecer, porém de associar a este resultado a imagem da ma- mografia ou da ultrassonografia que podem ditar a conduta cirúrgica ou expectante de um controle próximo - 6 meses(12). Essa medida também pode ser utilizada em outras lesões sólidas benignas, menos freqüentes, como papiloma ou linfonodo. No entanto, habitualmente, essas lesões fornecem células para análise citológica, partindo daí a conduta. A necrose gordurosa, mais difícil de diferenciar, mesmo na citologia, pode produzir falsos resultados. A biópsia con- vencional ou a mamotomia para diagnóstico definitivo nesses casos é a melhor indicação. No carcinoma, como era de se esperar o diagnóstico citológico é efetivo, mesmo para lesões mínimas. A porcentagem de material insuficiente na neoplasia maligna é extremamente baixa e, geralmente, o diagnóstico citológico é estabelecido com segurança. Têm-se considerado que a ultra-sonografia não tem va- lor na investigação diagnóstica das microcalcificações. No en- tanto, após ter sido diagnosticada pela mamografia e, usufru- indo, da orientação espacial que possibilita o exame radiológi- co, pode-se identificar imagens correspondentes àquelas lesões em até 59%. 354 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia As alterações mais comuns vistas pela ultrassonografia nas áreas de microcalcificação são atenuações do feixe sonoro (43%) ou distorção e nódulos (25%). Focos de hiperecogenicidade com ou sem atenuação posterior ocorre em apenas 15% das vezes(14). As vantagens de se utilizar a ultrassonografia como guia para punção são várias. A técnica é realizada em tempo real e na inserção usa-se o menor trajeto para se chegar na lesão. Pode-se realizar movi- mentos multidirecionados, monitorizados pela imagem, dimi- nuindo os resultados insuficientes. É mais acessível e menos onerosa, não necessita de investimento em aparelhos adicionais caros. É procedimento pouco traumático, rápido e facilmente realizável. A PAAF, é método seguro de diagnóstico, principalmen- te, em lesões não palpáveis. Além disso, quando comparadas com a biópsia a céu aberto apresentam-se sem complicações, custo reduzido, sem cicatriz ou interferência em mamogramas futuros e reduzem o número de cirurgias desnecessárias(3,4). BIÓPSIA PERCUTÂNEA COM AGULHA GROSSA COM PISTOLA AUTOMÁTICA-BAG (CORE BIOPSY) Outra técnicade biópsia, que recentemente vem sendo utilizada, é a BAG (Core Biopsy). Tem-se demonstrado que esse método é superior a biópsia aspirativa por agulha fina na acuracidade diagnóstica das lesões não palpáveis, mais ainda, apresenta menor porcentagem de material insatisfatório. Esse método apresenta, aproximadamente, acurácia de 94,6%, especificidade de 100% e, sensibilidade de 72%(5,7,10). 355 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia As indicações são as mesmas apresentadas para a PAAF, ou seja, nódulos palpáveis ou aqueles identificadas nos méto- dos de imagem, quer pela USG ou mamografia. O material é mais complexo e dispendioso que aquele utilizado na PAAF. A técnica é mais difícil, necessita aprendiza- do cuidadoso e médico experimentado na sua realização. Quando orientados pela imagem mamógrafica ou ultra- sonográfica há que ter experiência na identificação da lesão , na escolha da via de acesso , nas dificuldades da metodologia e nas suas complicações. Utiliza-se mesa para dispor material de assepsia, de anes- tesia local, campo fenestrado e bisturi para se fazer corte na pele (3mm) visando facilitar a introdução da agulha. Faz´se assepsia na pele , identifica-se a lesão e usa-se agulha grossa 12G adaptada a um propulsor automático que tem a finalidade de impulsionar ambas agulhas para frente 2,2cm em grande velo- cidade . A primeira é sólida e contém na sua extremidade distal uma chanfradura onde se aloja o material. A segunda, que a reveste , corta o tecido e prende o espécime nessa chanfradura. Após o disparo, retira-se o sistema, faz-se a compressão da mama enquanto recolhe-se a amostra tissular do compartimento da agulha. Arma-se e introduz-se novamente a agulha e novo disparo é realizado. Os fragmentos vão sendo colhidos como um tiro ao alvo, buscando espécimes representativos da lesão(7,8,10). A análise macrocópica da amostra é obrigatória para ava- liar sua qualidade. Aqueles amarelados onde predomina o teci- do gorduroso ou sanguinolento são pouco representativos. Já os mais consistentes, de coloração bege ou esbranquiçada são de melhor qualidade. 356 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia A posição da paciente depende da técnida utilizada. Quando palpável, a mulher fica em decúbito dorsal e o nódu- lo é fixado entre os dedos para se orientar a inserção e a intro- dução da agulha na lesão. Somente a ponta da agulha deve introduzida dentro do nódulo. Além de fixa-lo, pode-se calcu- lar o deslocamento da agulha e isso é particularmente impor- tante quando a área estudada situa-se profundamente. Por isso, essa técnica é realizada quase sempre com a paciente em posi- ção oblíqua para que a agulha possa correr paralela ao tórax. Quando o método é orientado pela USG, esse cuidado torna-se mais importante. Na posição de decúbito dorsal a pres- são do transdutor sobre a mama, torna-a menos espessa e por causa da significante propulsão do cursor da agulha para fren- te (2,2 cm) pode ocorrer indesejável complicação como pneumotórax. Outras complicações são: infecção, hematoma e dor. Necessita de profissional bem experimentado(5,8). Torna-se efetiva em nódulos acima de 1,5 cm, pois per- mitem a coleta de fragmentos mais representativos, contribu- indo para a resolução diagnóstica. Os falsos resultados são mais freqüentes em lesões meno- res que 1 cm por perda da área em estudo durante o procedi- mento. Isso acontece pela movimentação da paciente por dor, ansiedade ou sangramento. Nessas condições a extração do frag- mento fica prejudicada. Já quando ocorre sangramento, além de borrar a imagem dificultando o correto posicionamento para os disparos subseqüentes, inviabiliza a extração de tecidos obtendo-se mais freqüentemente , coágulos (7) Quando a técnica é orientada pela estereotaxia, sua limi- tação, são as lesões localizadas junto a parede torácica ou a papila, ou aquelas menores que um cm. Assim como, as microcalcifi- 357 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia cações pouco numerosas, lesões tênues, ou ainda, as assimétrias focais e as distorções fibroglandulares. Nesses casos, pela difi- culdade de localiza-las nas incidências anguladas de +15 e –15 que permitem o calculo da profundidade. Alem disso, apresenta taxas de subestimação diagnóstica nas hiperplasias atípicas em torno de 50% e no carcinoma in situ, de 30%(7,10). Mesmo assim, a BAG tem-se mostrado superior a PAAF na acurácia diagnóstica das lesões palpáveis e das não palpáveis, principalmente, pela menor percentagem de material inadequa- do, além de fornecer diagnóstico histopatológico conclusivo. Tratando-se de método ambulatorial , resultados conclu- sivos são essenciais para o desfecho da conduta final . Vale ressaltar ainda que se a imagem for incompatível com os achados anátomopatológico , deve-se reavaliar o caso para uma conduta acertada , principalmente quando esses re- sultados histopatológicos forem de benignidade e o aspecto da imagem , suspeita(7). BIÓPSIA PERCUTÂNEA COM AGULHA GROSSA VÁ- CUO ASSISTIDA (MAMOTOMIA) A mamotomia surgiu em 1996 com o objetivo de trans- por os limites dos métodos anteriores. A acuracidade diagnós- tica é de praticamente 100%, tanto para lesões benignas quan- to para malignas. Quando malignas permite planejamento cirúrgico pré- operatório com segurança, dispensando exame por congelação. Quando a lesão é benigna esse método mostra sua supre- macia sobre os demais. Não há resultados suspeitos ou inconclusivos. Por dar diagnósticos de certeza, evita cirurgia 358 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia posterior para confirmação e possibilita seguimento de rotina. Falsos negativos ocorrem praticamente no início do trei- namento. Geralmente, por perda da lesão. Tratam-se de altera- ções que se localizam em áreas de acesso difícil como região axilar, junto da parede torácica ou por serem muito tênues, como se dá, com certa freqüência, com microcalcificações, distorção fibroglandular ou nas assimetrias focais. Por vezes, são identificadas com segurança em apenas uma incidência na mamografia (crânio-caudal ou perfil) dificultando sobremaneira a escolha da área mais representativa da lesão(5,7,10). Radiografia dos fragmentos para confirmar a presença das microcalcificações e diagnóstico anátomopatológico com- patível com o esperado pela imagem são elementos fundamen- tais para se evitar falsos resultados. É mais onerosa que a punção aspirativa por agulha fina e a biópsia percutânea por agulha grossa com pistola automática por exigir materiais mais dispendiosos. Tecnicamente, porém, apresenta vantagens substanciais em relação aos métodos anteriores. Maior comodidade no procedimento já que se introduz a sonda apenas uma vez para retirada dos fragmentos em compara- ção com as múltiplas e descontínuas inserções requeridas pela BAG. Além disso, o processo de aquisição das amostras se dá de for- ma contígua, girando a agulha e aspirando os fragmentos até com- pletar a volta (360º), tornando-os mais representativos da lesão. Por outro lado, o vácuo, associado ao sistema e a lâmina do bisturi circular em alta rotação, obtêm fragmentos íntegros e de melhor qualidade. Isso facilita a análise macroscópica e elimina resultados insatisfatórios. Mais ainda, permite aspirar o sangue durante o procedimento e após término do mesmo. 359 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Assim ao se fazer o curativo compressivo, evita-se o sangramen- to e a formação de hematoma (5,9). Infecção é praticamente inexistente. Depende da assepsia e dos cuidados ao se realizar o procedimento. A escolha da via de acesso, ultrassonografia ou estereota- xia, depende das características das lesões. Nódulos sólidos, são mais facilmente identificados pela USG e tem aqui sua maior indicação. Como já referido, microcalcifica- ções também podem ser identificadas pelaultrassonografia(14). Inicialmente a técnica de mamotomia dirigida pela USG necessitava de um sistema de braços articulados para fixar o mamotome. Dessa forma, o operador tinha uma das mãos livres para manipular o transdutor e a outra para operar o sistema. Já modificado, nos dias atuais, o sistema que contém a son- da é leve, de fácil manipulação, não necessitando da articulação mecânica para fixar o aparelho. Os movimentos de introdução e localização são feitos à mão livre, tornando-o muito prático. Diante das facilitações técnicas e dos baixos índices de complicações extendeu-se o objetivo nos casos provavelmente benignos´, para remoção da lesão, tornado essa metodologia também terapêutica.De fato, remoção completa da lesão até 1,5 cm pode-se observar entre 84,3% a 88% (2,6,11; Fine, 2003; kemp, 2005) Por outro lado, lesões identificadas apenas no exame mamográfico são as indicações precisas da mamotomia orien- tada pela estereotaxia: Microcalcificações, distorção fibroglan- dular e assimetrias focais suspeita. Eventualmente o mesmo se dá com nódulos que estão em áreas de substituição gordurosa e mostram dificuldade de vizibilização na USG. Nesses casos pre- ferir também a orientação pela estereotaxia(9,10,11). 360 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Da análise de todos os métodos de diagnóstico, uma ati- tude a se considerar, quais anormalidades podem ser seguidas e quais removidas. A argumentação “Biópsia para ter segurança” e subme- ter as pacientes a cirurgias muitas vezes desnecessárias, revela a insegurança do profissional, nos meios de diagnóstico. “Espe- rar para ver” pode retardar o diagnóstico e modificar uma con- duta conservadora. Quando em dúvida, o benefício de uma reavaliação a curto período, 6 meses, pode evitar cirurgias desnecessárias, sem alterar o curso da moléstia(13). Apresenta, no entanto, uma desvantagem. Não há ga- rantia da lesão ser benigna e a paciente experimenta um pro- longado estresse emocional pensando em uma anormalidade não diagnosticada. Portanto, o conhecimento das indicações e limitações de cada método e, se possível, a associação entre eles é a melhor orientação para se definir uma conduta frente a lesões duvidosas. Lesão Redonda ou Oval Irregular Espiculada Microcalcificações Assimetria focal Distorção Fibroglandular USG USG Estereotaxia Estereotaxia Cisto Sólido PAAF BAG MMT PAAF PAAF BAG MMT MMT Quadro 1 - Quadro ilustrativo da indicação dos métodos de intervenção percutânea segundo os achados imaginológicos · BAG = Core Biopsy ; MMT = Mamotomia;PAAF = Punção Aspirativa por Agulha Fina 361 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Típico Atípico PAAF Benigno Atipia Diagnóstico TecidualSeguimento Cisto Quadro 2 - Algoritmo dos procedimentos invasivos segundo as características da lesão determinadas pela ultra-sonografia quando se tratam de cistos. Quadro 2 - Algoritmo dos procedimentos invasivos segundo as características da lesão determinadas pela ultra-sonografia e ou mamografia. Benigno Suspeito Orientação da Conduta Diagnóstico Tecidual Seguimento Sólido PAAF Material Positivo Compatível com a imagem Incompatível com a imagem 362 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Como se observa na figura 1, para os cistos típicos faz-se apenas controle de rotina e quando resultam cistos atípicos, pode-se realizar a PAAF, objetivando surpreender um cisto espesso ou, o câncer, o que ocorre raramente. Há uma superposição dos métodos quando se trata de nódulos sólidos. Essa escolha depende, além dos aspectos técnicos já dis- cutidos, da interação médico-paciente. Na presença de nódulos sólidos isolados redondo ou oval de contornos regulares característicos pela mamografia e USG a conduta mais apropriada é a observação a curto prazo de 6 meses (13) No entanto para as pacientes mais ansiosas ou aquelas que necessitam mais consistência para essa conduta o método me- nos agressivo é a PAAF. Essa necessidade inclui pacientes com dificuldade de se fazer controle pelas condições geográficas, aquelas desejosas de gravidez e com receio das alterações gravídicas e suas conse- qüências, as que vão se submeter a cirurgia plástica, as que tem carcinoma contra-lateral ou ipsilateral mas em outro quadrante, as de alto risco para câncer e por fim aquelas que querem diag- nóstico imediato. Se a lesão for hiperdensa, irregular, espiculada sugestiva de malignidade e a citologia positiva para câncer confirmando esse achado o tríplice diagnóstico é praticamente 100% e dá segurança para ambos nessa conduta(3,5). Nos casos de citologia incaracterística, material inadequa- do, suspeito ou seu resultado incompatível com a imagem é preferível as biópsias percutâneas com agulha grossa (BAG ou 363 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia MMT). Assim também para a paciente que exigir o método mais seguro. Dá o diagnóstico histológico, evita exame por congela- ção e permite orientação apropriada. Se resultar benigno, como o fibroadenoma, somente observação, nos malignos, orienta a conduta cirúrgica ou quimioterápica, conforme o estadiamento clínico. O tamanho da lesão pode servir de limite na indicação entre as duas técnicas BAG e MMT. Nódulos maiores que 1,5 cm preferir BAG, aqueles menores eleger a MMT. A razão dessa medida é porque, nódulos menores que 2,0 cm podem ser quase ou totalmente extirpados pela MMT. Nessas circunstâncias é mais apropriado optar por um método que retire toda a lesão. Por outro lado, como já discutido lesões menores que 1,0 cm podem trazer dificuldades na avaliação pela BAG(6,7). Além disso, esses nódulos mesmo com resultado benigno se experimentar um crescimento em controle posterior vão para cirurgia excisional temendo-se os resultados falsos negativos. Isso pode acontecer com os fibroadenomas, por exemplo, que mais freqüentemente crescem e se estabilizam em torno de 2,0 a 3,0 cm . Já para as lesões; microcalcificações, distorção fibroglandu- lar e assimetria focal a opção é MMT através da estereotaxia (8). O motivo dessa orientação é o encontro de lesões sub- estimadas em torno de 56% para HDA e 20% para CDIS na BAG enquanto que na MMT isso ocorre próximo de 25% para HDA e 11% para CDIS(5,8). Do mesmo modo, lesões complexas como cicatriz radial, papilíferas, carcinoma tubular e as neoplasias lobulares trazem 364 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia dificuldades para patologistas na análise dos fragmentos da BAG. Resultados falsos negativos ocorreram em torno de 13% na cicatriz radial e 9% nas lesões papilíferas. Já na neoplasia lobular, a variedade dos achados desde hiperplasia lobular até o carcinoma lobular in situ e a possibilidade de sua extensão para os ductos, torna ainda mais difícil o diagnóstico dessas le- sões em pequenas quantidades de tecido. Os índices de diag- nóstico sub-estimados em torno de 34% e, não raramente, a dificuldade de distinção com o CA ductal in situ tornam a es- colha pela MMT ou até mesmo a biópsia excisional mais apro- priada nessas situações(7). BIBLIOGRAFIA 1- BURBANK F, Stereotatic breast biopsy: Its history, its present, its future. Am Surg 1996: 62; 128-49 2- FINE RE, WHITWORTH PW, KIM JA, HARNESS JK , BOYD BA, BURAK WE. – Low-risk palpable breast masses removed using o vacuum-assisted hand- held device. AJR: 186 ;362-7, 2003 3- KEMP C., ELIAS S., BORRELLI K., et al – Punção Aspirativa por Agulha Fina Orientada por Ultra-Sonografia em Lesões não-palpáveis,RBGO 23(5): 321- 327, 2001. 4- KEMP,C.; RODRIGUES DE LIMA. Fine needle aspiration biopsy: importance of the cytologist during removal of the material and analysis of the sample . A study of 1938 cases. In: Figueira ASS, Novaes Dias, Salvador-Silva, HM, Barros,ACSD. Mastology breast disease . Amsterdam Elsevier; 1999,pg 223-30. 5- KEMP,C; BARACAT,FF; ROSTAGNO,R; Lesões não palpáveis da mama: di- agnóstico e tratamento. Rio de Janeiro Revinter, 2003 6- KEMP C, BORRELLI K, SCHOR AP, KEMP CGM, FOCHI G, FINGERMAN F. Prospective study using ultrasound guided mammotomy in the removal of abnormal breast tissue with 11 and 8 gauge mammotome probes. Breast cancer research and treatment: vol 88, supplement 1 S42: 2005 7- LIBERMAN, L. Clinical management issues in percutaneous core breast biopsy – in: Feig.S.A.; The radiologic clinics of north America – 38 (4). 791 – 807, 2000. 365 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia 8- MICHELIN J, LEVY, l.Ultra-sonografia da mama diagnóstica e intervencionista. Rio de Janeiro. Medsi , 2001, pg 23-40 9- PARKER SH, Steps in a stereotatic mammotome biopsy. Breast imaging and intervencion in to the 21st century. Fort Myers , Flórida: Sillabus, 1999, pg 1-7. 10-PARKER, S. H., BURBANK, F., JACKMAN, R.J., et al – Percutaneous Large- Core Breast Biopsy. A Multi-institutional Study. Radiology –193:359-364, 1994. 11-PARKER SH, KLAUS AJ, MCWEY PJ, SCHILLING KJ, CUPPLES TE, DUCHESNE N, GUEIN MA, HARNESS JK.- Sonographically guided directional vacuum-assited breast biopsy using a handeheld divice. AJR: 177,2001: 405-8 12-SICKLES, EA , Probably benign breast lesions: When should follow-up be recommended and what is the optimal follow-up protocoll . Radiology 1999: 11-14. 13-STAVROS, A.T., THICKMAN, D., RAPP C.L., DENNIS M.A, PARKER, S.,SISNEY, G.- Solid Breast Nodules: use of Sonography to Distinguish beetween Bening and Malignant Lesions. Radiology – 196(1) 123-34, 1995. 14-TECH WL WILSON A, EVANS AJ, BURREL H, PINDER SE, ELLIS IO, Ultrasound guided core biopsy of suspicious mammographic and power doppler ultrasound. Radiology 2000;55:390-4 366 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia XIII. PRINCIPAIS INDICAÇÕES E CONTRA-INDICAÇÕES DA RESSONÂNCIA MAGNÉTICA DE MAMAS (RMM): Vanessa Sales Vilar Suzan Menasce Goldman A RMM é um procedimento não-invasivo que permite a visualização interna da mama através da produção de imagens nos diversos planos: axial, sagital e coronal (26, 27). Os equipamentos de RM são compostos por um campo magnético estático e forte (grande ímã) com orifício central, supercondutores (imersão em hélio e nitrogênio líquido), entre 0.5 e 3 Tesla (campo magnético da terra = 0.05 Tesla), um se- gundo campo magnético (gradiente), transmissores e receptores de ondas de rádio (bobinas) e computadores poderosos para cál- culos, armazenamento e manipulação das imagens (26, 27). A paciente é posicionada geralmente em decúbito ven- tral, com as mamas pendentes e encaixadas numa bobina (re- ceptor de sinal). A cama vai avançando em direção ao magneto aberto, permanecendo a paciente nesta posição por cerca de 20-40 minutos para a aquisição das imagens (25). As primeiras imagens de RM de mama in vivo foram obtidas por Mansfiel em 1979, Ross em 1982 e El Yousef em 1982, utilizando bobina de corpo inteiro e seqüências spin- eco. Devido à pouca resolução espacial e baixa relação sinal- ruído, não conseguiram alcançar eficácia clínica (1). 367 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Em 1984, com o emprego da bobina de superfície por Axel e Fritschy, a resolução espacial aumentou (1). Com a introdução dos meios de contraste, (Gd-DTPA), por Heywang e colaboradores (1986), o índice de informa- ções obtidas com as imagens de RM aumentou significativa- mente, estabelecendo-se o ponto de partida para um novo e revolucionário método de estudo das mamas (1). O FDA (“US Food and Drug Administration”) aprovou sua utilização em 1991 como método auxiliar da mamografia na detecção, diagnóstico e estadiamento do câncer de mama (2). No mesmo ano, Merchant e colaboradores realizaram um estudo demonstrando que os fibroadenomas, assim como os tumores malignos, apresentavam realce após a administração do meio de contraste. Mais tarde foi observado que o tipo de realce era diferente entre eles (3,4). A RM mostrou uma série de vantagens, como a capaci- dade de adquirir imagens multiplanares, avaliação do sinal das lesões nas seqüências ponderadas em T1 e T2, análise do realce após a injeção do gadolínio, extensão ductal e para a parede torácica. Dessa forma, tem importante papel no direcionamento do tratamento a ser seguido pela paciente (2). Atualmente a sensibilidade do método na detecção do câncer de mama invasivo é de aproximadamente 100%, dire- tamente relacionada ao uso dos meios de contraste, avanços tecnológicos das bobinas de superfície e desenvolvimento de novas técnicas de aquisição de imagem, que levaram a uma melhor resolução espacial (5,6) . Sua especificidade varia em torno de 37 a 100% (7, 25). Recentemente, alguns trabalhos mostraram a utilidade 368 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia da RMM no diagnóstico do câncer de mama residual (dife- renciando lesão de seroma) e na distinção das alterações pós- cirúrgicas (5) . Após 6 meses da cirurgia, a cicatriz “madura” (fibrose) que simula morfologicamente o carcinoma, não apresenta mais realce, enquanto que o tumor recorrente continua a realçar (8). A ocorrência de margens positivas após nodulectomia gira em torno de 50%, o que requer cirurgia adicional. A RMM quando utilizada rotineiramente antes da cirurgia, tem a capa- cidade de oferecer um melhor planejamento cirúrgico, evitan- do a persistência de tumor residual ou de focos de tumor mul- ticêntrico ou multifocal, não caracterizados por outros méto- dos (mamografia e ultra-som) (8) . Com base nos resultados promissores desses estudos, tem sido proposto que a RMM pode ser utilizada como método auxiliar na caracterização do câncer de mama invasivo, princi- palmente do carcinoma ductal (5-6, 9-12) . Permite a deteção do carcinoma com extenso componente ductal e do carcinoma lobular infiltrativo, cujas extensões são subestimadas pela ma- mografia (7) . Auxilia na detecão de carcinoma multifocal, multicêntri- co ou bilateral, com um alto valor preditivo negativo (8) . A RMM detecta carcinoma não identificado na mama ipsilateral em torno de 25% e na contra-lateral em aproxima- damente 3 a 6% das pacientes durante o estadiamento pré- operatório (7,8). É então considerado o exame padrão ouro para o estadiamento pré-operatório do câncer mamário devido à gran- de acurácia diagnóstica (7) . 369 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia É também o exame de escolha para a detecção do câncer oculto mamário em pacientes com adenopatia axilar positiva para adenocarcinoma, exame físico e mamografia negativos. Detecta cerca de 86% dos carcinomas ocultos, com isso reduz as taxas de mastectomia desnescessárias e permitindo tratamento conservador (7) . Pacientes com alto risco para o desenvolvimento do cân- cer de mama devem começar o seguimento mamogáfico antes dos 40 anos. Neste grupo estão inclusas as pacientes com histó- ria prévia de câncer, história familiar, mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, diagnóstico de atipias por biópsias prévias, carcinoma lobular in situ e radioterapia prévia para doença de Hodgkin (13). É descrito que a mamografia possui uma baixa sensibilidade (33 a 50%) para a detecção do câncer nestas em relação à população geral, enquanto que a RMM possui uma alta sensibilidade que varia em torno de 86 a 100% (13). Para a interpretação do exame de RMM são utilizados termos e definições recomendados pelo Comitê de Ressonân- cia Magnética de Mamas do ACR (Colégio Americano de Radiologia), de acordo com o vocabulário do BIRADS. O Comitê enfatiza que as imagens obtidas são tridimensionais e que informações sobre a morfologia e cinética das lesões são cruciais na determinação da conduta a ser segui- da pela a paciente. É importante saber informações sobre a história clínica da paciente, como tamanho e localização da lesão, duração dos sintomas,biópsia ou cirurgia prévia e seus resultados, em que fase do ciclo menstrual ela se encontra e se está fazendo terapia de reposição hormonal. 370 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia É necessária a comparação com exames anteriores para certificar se a lesão é nova, estável ou se sofreu alguma modifi- cação ou ainda com outros métodos de imagem (mamografia e/ou ultra-sonografia). Existe uma terminologia padronizada para classificar a composição mamária, realces anormais e compatíveis com ma- lignidade. Estes devem ser analisados na primeira seqüência de imagens pós-contraste, quando o realce é mais intenso e dife- rente do que ocorre com o tecido fibroglandular normal. Por ser uma técnica de alta resolução, a RMM permite a análise morfológica minuciosa da lesão, caracterizando com precisão suas bordas, arquitetura interna e padrão de realce. Os achados na RMM são classificados da seguinte forma: – Realces focais: realces puntiformes separados por tecido normal. – Massa: lesão tridimensional. Pode ainda ser classificada quan- to à margem em lisa, irregular ou espiculada e quanto à for- ma em redonda, ovalada, lobulada ou irregular. Massas ir- regulares ou espiculadas são sugestivas de carcinoma e lisas, sugestivas de lesão benigna. As margens e forma da lesão devem ser analisadas nas primeiras imagens pós-contraste para evitar clareamento (“wash-out) da lesão e progressivo realce do tecido fibroglandular adjacente normal. Seu real- ce pode ser homogêneo, sugestivo de processo benigno ou heterogêneo, sugestivo de malignidade, sobretudo quando é periférico. Os fibroadenomas possuem septos internos que não realçam e os cistos brilham na seqüência T2, podendo apresentar realce periférico. A necrose gordurosa possui baixo sinal central e realce periférico. 371 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia – Realce amorfo: quando não é focal, nem em formato de massa. É classificado de acordo com sua distribuição em área focal de realce (<25% da mama), linear (em forma de li- nha), ductal (linear em direção à papila), segmentar (em forma de cone na direção do mamilo, é ductal), regional (abrange vários sistemas ductais), múltiplas regiões (pelo menos duas áreas de realce separadas por tecido normal) e difuso (distribuído por todo o tecido fibroglandular). Pode ser simétrico ou assimétrico. O simétrico é o realce em espe- lho das duas mamas (benigno), enquanto que o assimétrico é mais proeminente em uma das mamas. O carcinoma ductal infiltrativo é identificado como ima- gem geralmente espiculada, irregular, com intensidade de si- nal semelhante ao tecido fibroglandular em T1, com realce intenso e clareamento após o contraste. Realces segmentares e ductais também podem ser caracterizados, geralmente em di- reção à papila (16) (Figura 1). Figura 1. a)Corte axial de RMM (subtração das imagens pré das pós-contraste): processo expansivo na mama direita, com comprometimento da pele e musculatura adjacentes; b) Reconstrução MIP axial (subtração); c) Reconstrução MIP sagital (subtração). (BIRADS 5). a b c 372 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia O carcinoma lobular pode ser caracterizado como uma massa irregular e mal delimitada, podendo haver distorção arquitetural associada. O realce é intenso e acompanha o pa- drão de qualquer processo expansivo maligno, com clareamento, ou ainda, “platô” (Figura 2). Figura 2. a) Cortes de RMM T1 pós-contraste reconstrução sagital e b) Axial: áreas focais de lesões suspeitas na mama esquerda. Diagnóstico de ca lobular infiltrativo por biópsia prévia (BIRADS 6). É bastante freqüente o encontro de pequenos focos irregulares de realce semelhantes ao da massa principal, ca- racterizando multifocalidade e/ou multicentricidade (17) (Fi- gura 3). 373 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia A RM também pode ser utilizada no acompanhamento da terapia neoadjuvante (QT pré-cirúrgica). Oferece informa- ção precisa sobre o tamanho do tumor e se houve ou não res- posta ao tratamento (8, 22, 23) (Figura 4). Figura 3. a) Corte axial T2: na mama direita, observa-se lesão com contornos espiculados e limites imprecisos, a maior no QSM com 2,0 cm e componente ductal e na mama esquerda, imagens arredondadas hiperintensas que correspondem a cis- tos; b) Corte axial T1 pós-contraste: intenso realce da lesão espiculada e do compo- nente ductal da mama direita e ausência de realce nas lesões císticas à esquerda. c) Curvas dinâmicas de realce das lesões espiculadas (multifocais) na mama direita, em vermelho e amarelo: tipo III, clareamento (“wash-out”).(BIRADS 5). 374 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Já os fibroadenomas são caracterizados à RM como nó- dulos arredondados, bem definidos, com contornos lobulados, com sinal geralmente hiperintenso em T2, hipointenso em T1. Após contraste apresentam realce lento e progressivo, predo- minantemente periférico e ainda septos hipointensos no seu interior (15) (Figura 5). a b Figura 4. a) Corte sagital T1 pós-contraste (pré-QT): lesão espiculada na JQM da mama direita com intenso realce; b) Corte sagital T1 subtração (pós-QT): importan- te redução do tamanho da lesão, realce apenas na periferia. (BIRADS 5). a b c Figura 5. a, b) Corte axial T1 subtração: lesão ovalada, circunscrita no QSM da mama direita, com realce lento e progressivo (curva tipo I); c) Corte axial T2: a lesão se apresenta hiperintensa. (BIRADS 2). A RMM é indicada na a avaliação dos implantes mamá- rios (próteses). A prótese íntegra apresenta contornos geralmente 375 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia regulares com dobras radiais que são caracterizadas por ima- gens lineares hipointensas que vão até a periferia do invólucro. A rotura intra-capsular é identificada pela presença de inúme- ras imagens lineares hipointensas no centro da prótese, com aspecto serpiginoso, ou o chamado “sinal do linguine”. É im- portante ressaltar que estas imagens lineares não atingem a pe- riferia. Já a rotura extra-capsular é caracterizada pela presença de descontinuidade da prótese, material com sinal de silicone livre no parênquima (fora da prótese) (21, 28) (Figura 6). a b Figura 6. Paciente com próteses mamárias bilaterais: a)Axial T2 e b)Sagital T2: imagens lineares hipointensas no interior das próteses, com aspecto serpiginoso, que não chegam até a periferia: “sinal do linguine” (sinais de rotura intra-capsular). Descontinuidade do invólucro à esquerda, na face posterior (sinais de rotura extra-capsular). (BIRADS 2). A avaliação cinética também auxilia na diferenciação do diagnóstico através da análise do comportamento dinâmico das lesões. Existem curvas de realce estabelecidas para nortearem o raciocínio, como as ilustradas abaixo (18): 376 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia · tipo I é aquela que apresenta realce lento e progressivo (exemplos: fibroadenoma e tecido fibroglandular); · tipo II, platô, é incaracterística. Tumores malignos e al- terações benignas podem ter este comportamento; · tipo III, clareamento, é a curva mais característica de tumores malignos. Desenho esquemático da curva dinâmica de intensidade de sinal x tempo. Tipo Ia corresponde a uma linha reta de realce lento e progressivo ao longo do estudo dinâmico; tipo Ib, contínua, torna-se plana numa fase tardia após injeção do contras- te decorrente da saturação.Tipo II é a platô, curva que inicialmente apresenta um realce rápido e sofre um corte abrupto, começando a aplainar no período intermedi- ário pós-contraste. Tipo III, clareamento, após captação rápida (realce intenso pre- coce), ocorre lavagem imediata (“wash-out”) no período intermediário pós-contras- te (2–3 minutos após injeção do meio de contraste [SI c - SI]/SI) (18). 377 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Para a realização de um exame adequado são necessári-os: equipamento de alto campo (1 a 3 T) e bobina dedicada ao estudo das mamas, com as seguintes seqüências: GE 3D (gradi- ente eco 3D) com saturação de gordura, sendo SPGR (para o equipamento da GE), FFE (Philips) e Flash 3D (Siemens) com tempo de aquisição (TA) = +ou- 2 minutos; espessura= 2 a 3 mm (aquisição paralela bilateral de ambas as mamas); 4 fases (1 pré e 3 pós-contraste); dose do contraste= 0,1-0,2 mmol/Kg; T2 TSE FAT SAT sagital (T2 turbo spin eco com saturação de gordura) com TA= 3 minutos; espessura= 2 mm. Diante desse novo panorama que vem surgindo com o advento da RMM, resumimos abaixo suas principais indica- ções clínicas (7, 24, 25): · Estadiamento local pré-operatório (maior indicação) · Avaliação de recorrência tumoral · Pesquisa de tumor residual · Avaliação de resposta ao tratamento · Pesquisa de câncer oculto na mama · Exame adicional quando a mamografia ou ultra- sonografia não conseguem elucidar o problema · Rastreamento de pacientes de alto risco · Avaliação de implantes · Apesar das suas inúmeras vantagens, não é capaz de subs- tituir os exames padrões para diagnóstico e “screening” do cân- cer de mama (exame físico, mamografia, PAAF ou biópsia). Devemos salientar que a mamografia é ainda considera- da o principal método de diagnóstico por imagem utilizado no rastreamento e diagnóstico do câncer de mama. Apresenta sen- sibilidade em torno de 39% e especificidade em torno de 98%. 378 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia A maior dificuldade são as mamas com alta densidade (19). A ultra-sonografia é um método auxiliar da mamografia utilizado na avaliação das pacientes com mamas densas (jovens ou com TRH) e na distinção entre nódulo sólido e cisto. Possui sensibilidade de aproximadamente 33% e especificidade de 91% (19). A RMM possui também limitações, contra-indicando em alguns casos a sua utilização. São elas (7): · Necessidade de utilização de contraste endovenoso · Alto custo · Claustrofobia · Utilização de dispositivos de metal incompatíveis com a RM (alguns clips de aneurisma, marca-passo, implantes metálicos) · Inexistência de protocolo e técnica consensuais · Pouca disponibilidade de sistemas de biópsia compatí- veis com o magneto (maior limitação) Portanto a RM já possui papel determinante na avalia- ção e acompanhamento de pacientes com câncer de mama e provavelmente no futuro fará parte do arsenal para o rastrea- mento do câncer mamário (14). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 1. History of Breast MRI. Breiter N. Journal of European Radiology 1997. Dispo- nível em URL: http://wwwuser.gwdg.de/mrbreast/History.htm [acessado em 12/03/05]. 2. Magnetic Resonance Breast Imaging. Disponível em URL : http://imaginis.com/ breasthealth/mri.asp [acessado em 12/03/05]. 3. Merchant TE, de Graaf PW, Nieuwenhuizen CW, Kievit HC, Bakker CJ, Den Otter W. Fibroadenoma of the breast: in vivo magnetic resonance characterization. Eur J Radiol. 1991 Sep-Oct;13(2):91-5. 4. Flinkiger FW, Allison JK, Sherry RM, Wright JC. Differentiation of benign from malignant breast masses by time-intensity valuation of contrast enhanced MRI. 379 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia J Magn Reson Med 1993; 11:617-620. 5. Orel SG, Mitchell D. Schnall. MR Imaging of the Breast for the Detection, Diagnosis, and Staging of Breast Cancer. Radiology 2001; 220: 13-30. 6. Viehweg P, Paprosch I, Strassinopoulou M, Heywang-Kobrunner SH. Contrast- enhanced magnetic resonance imaging of the breast: interpretation guidelines. Top Magn Reson Imaging 1998; 9(1): 17-43. 7. Morris EA. Review of Breast MRI: Indications and Limitations. Seminars in Roentgenology 2001; 36(3): 226-237. 8. Porter BA, Smith JP. Clinical Indications for Contrast Breast MR. First Hill Diagnostic Imaging. Disponível em URL: www.fisthill.com/cifcmrv2.pdf [acessado em 09/03/05]. 9. Orel SG, Schnall MD, LiVolsi VA, Troupin RH. Suspicious breast lesions: MR imaging with radiologic-pathologic correlation. Radiology 1994; 190:485-493. 10.Hylton NM, Kinkel K. Technical aspects of breast magnetic resonance imaging. Top Magn Reson Imaging 1998; 9:3-16. 11.Hylton NM, Frankel SD. Imaging techniques for breast MR imaging. Magn Reson Imaging Clin N Am 1994; 2:511-525. 12.Hylton NM, Shimakawa A, Foo TKF, et al. A comparison of fast scan techniques for breast imaging (abstr). Berkeley, Calif: Society of Magnetic Resonance in Medicine, 1993; 2:856. 13.Morris EA. Screening for Breast Cancer MRI. Seminars in Ultrasound, CT, and MRI 2003; 24(1): 45-54. 14.Schnal MD. Application of magnetic resonance imaging to early detection of breast cancer. Breast Cancer Res 2001; 3:17-21. 15.Rocha DC, Bauab SP. Ressonância Magnética Mamária in Atlas de Imagem da Mama, capítulo 24: 675. 16.Rocha DC, Bauab SP. Ressonância Magnética Mamária in Atlas de Imagem da Mama, capítulo 24: 689. 17.Weinstein SP, Orel Sg, Heller R, Reynolds C, Czerniecki B, Solin LJ, Schanall M. MR Imaging of the Breast in Patients with Invasive Lobular Carcinom. AJR 2001; 176: 399-406. 18.KK Christiane, M Peter, K Sven, L Claudia, W Eva, Gieseke J, H H Schild. Dynamic Breast MR Imaging: Are Signal Intensity Time Course Data Useful for Differential Diagnosis of Enhancing Lesions? Radiology 1999; 211: 101-110. 19.Annual Breast MRI Urged for High-Risk Women. 27th Annual San Antonio Breast Cancer Symposium, Dec 10, 2004. Vogin GD. 20.What is breast ultrasonography? Disponível em URL: http://www.ewbc.com/ diagnostic_exams/ultrasound.html [acessado em 18/08/05]. 21.Aplicaciones de la RM de la Mama. Disponível em URL: http:// www.iatm.com.co/html/boletines/boletin_20.htm [acessado em 18/08/05]. 22.Delille JP, Slanetz PJ, Yeh ED, Halpern EF, Kopans DB, Garrido L. Invasive 380 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Ductal Breast Carcinoma Response to Neoadjuvant Chemotherapy: Noninvasive Monitoring with Functional MR Imaging- Pilot Study. Radiology 2003; 228: 63-69. 23.Meisamy S, Bolan PJ, Baker EH, Bliss RL, Gulbahce E, Everson LI, Nelson MT, Emory TH, Tuttle TM, Yee D, Garwood M. Neoadjuvant Chemotherapy of Locally Advanced Breast Cancer: Predicting Response with in Vivo 1H MR Spectroscopy - A Pilot Study at 4 T. Radiology 2004; 233: 424-431. 24.Sardanelli F, Lozzelli A, Fausto A. MR imaging of the breast: indications, established technique, and new directions. Eur Radiol 2003; Nov 13 Suppl 3: 28-36. 25.Liberman L, Morris EA, Lee MJY, Kaplan JB, LaTrenta LR, Menell JH, Abramson AF, Dashnaw SM, Ballon DJ, Dershaw DD. Breast Lesions Detected on MR Imaging: Features and Positive Predictive Value. AJR 2002; 179: 171-178. 26. WestbrooK C, Kaut C. Ressonância Magnética Prática. Segunda Edição, Guanabara Koogan, 2000. 27.Ronald L. Eisenberg. Radiology, An Illustrated History. Mosby Year Book. Inc. 1992. 28.Rocha DC, Bauab SP. Ressonância Magnética Mamária in Atlas de Imagem da Mama, capítulo 24: 475. 381 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia XIV. A MAMOGRAFIA COMO MÉTODO DE RASTREAMENTO POPULACIONAL Simone Elias Martinelli O padrão da cura das doenças decorre da seqüência di- agnóstico-tratamento. No entanto, esse modelo simplista nem sempre dispõe da eficácia necessária para atingir seu objetivo. Tanto o diagnóstico quanto o tratamento não alcançam 100% de eficácia, principalmente quando se trata de doenças malig- nas. Assim, quando a terapia não consegue o objetivo final, tenta- se através de métodos diagnósticos, detectar a doença precoce- mente, facilitando a tarefa curativa. Um exemplo adequado é o câncer da mama. Frente aos poucos progressos terapêuticos dos últimos anos, têm-se tenta- do melhorar o diagnóstico primário, no intuito de melhorar a sobrevida. Esse objetivo é tão exaustivamente perseguido, que deu origem ao conceito atual “prevenção secundária” do carci- noma da mama. Na falta de uma real prevenção primáriapara toda a população, pretende-se um diagnóstico precoce, de modo a garantir uma maior sobrevida e até a cura. Tábar expressa “que a prevenção primária do câncer de mama é de pouca utilidade, por ser uma doença de origem multifatorial” e que “o diagnóstico em uma etapa inicial ou pre- coce tem demonstrado uma redução adicional da mortalidade da doença”. O’Blake Cady completa que “nenhuma das opções cirúrgicas, tampouco a quimioterapia ou a radioterapia têm con- 382 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia seguido diminuir substancialmente a mortalidade”. Por essas con- siderações, parece que apenas a detecção precoce do câncer de mama modifica a história natural dessa enfermidade. Deve-se ter claro que o objetivo final na identificação precoce por meio de um teste de triagem consiste em prevenir ou retardar o surgimento de uma doença ou em retardar ou eliminar as conseqüências desta. E, a doença onde a triagem é valiosa deve ter algumas características: ser grave, tratável e não muito rara. Deve ter uma fase pré-clínica identificável e o tra- tamento instituído nesta fase deve ter resultado superior ao conseguido se realizado mais tardiamente. Esses critérios são plenamente cumpridos no caso do câncer de mama. Foi apenas nas duas últimas décadas que o achado mamográfico substituiu a manifestação clínica como o primei- ro sinal de câncer de mama e embora a taxa de incidência do câncer de mama continue aumentando, a mortalidade por essa doença declinou cerca de 30%. Esse importante fato deve-se quase que exclusivamente aos programas de rastreamento que permitiram e permitem a detecção em fases cada vez mais inici- ais, quando o potencial de cura é indiscutivelmente maior. As principais metas são: melhorar a qualidade de vida com cirurgias menos mutilantes; melhorar a sobrevida global e conseguir alcançar a cura. Dentre as estratégias disponíveis es- tão: o rastreamento mamográfico; exames clínicos por profissi- onais treinados e o auto-exame das mamas. Até o momento, a experiência com a triagem mamográfica do câncer de mama ainda questiona diversas situações. Apesar de diversos ensaios clínicos aleatórios controlados terem eviden- ciado a redução significativa na mortalidade por essa doença, 383 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia este ainda permanece controverso para muitos. As recomenda- ções sobre a realização da mamografia regularmente colocam algumas considerações: a maioria das mulheres que participam do rastreamento não irão desenvolver a doença; muitas mu- lheres serão submetidas a biópsia que não resultarão em cân- cer; bem como muitas serão tratadas de carcinoma ductal in situ, cuja evolução pode não ser a invasão. AVALIAÇÃO DE UM TESTE DE TRIAGEM A maioria concorda que o resultado mais apropriado da mensuração da eficácia da triagem é a mortalidade da doença específica. Essa medida do resultado em geral é enunciada como risco relativo (RR), sendo a relação da mortalidade específica da doença em um grupo examinado em comparação com um grupo não examinado, que nesse caso mede até que ponto o risco de morte por câncer de mama de uma mulher comum será modificado pelo fato de ter sido submetida a uma triagem. É consenso que os ensaios clínicos aleatórios controlados (ECAC) sejam o melhor meio de avaliar uma triagem. Esses estudos permitem a avaliação isolada do efeito da triagem so- bre a mortalidade específica da doença. Apesar de serem o método de escolha para essa avaliação, os ECAC têm limitações importantes e também incluem altos custos financeiros da triagem e do acompanhamento, que são considerações vitais no dia-a-dia. No início dos anos 60, os radiologistas no M. D. Anderson Cancer Center da Universidade do Texas em Houston, e no Health Insurance Plan of Greater New York (HIP) realizaram os primeiros estudos da exeqüibilidade do uso da mamografia 384 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia em grandes programas de triagem de mulheres assintomáticas. Seu objetivo era averiguar se a triagem periódica para câncer de mama com mamografia e exame clínico das mamas promo- via uma redução da mortalidade na população de mulheres por essa doença. Entre 1963 e 1982, sete ensaios de triagem para câncer de mama foram lançados nos EUA, Canadá e Europa. Esses es- tudos incluíram cerca de 500.000 mulheres e apresentavam ca- racterísticas semelhantes, mas também diferenças metodológicas importantes. Entre as diferenças incluíram-se a diversidade da faixa etária, a inclusão do ECM no protocolo de triagem, a quan- tidade de incidências mamográficas por exame e a duração do intervalo entre os exames de triagem. O QUADRO 1 resume os 8 principais ensaios aleatórios realizados. QUADRO 1 - METODOLOGIA DOS ENSAIOS CLÍNICOS ALEATÓRIOS CON- TROLADOS DE TRIAGEM PARA CÂNCER DE MAMA 2/1 = duas incidências na primeira triagem e uma incidência nas subseqüentes ECM = exame clínico das mamas NBSS= National Breast Screening Study 385 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia QUE FAIXA ETÁRIA DEVE SER SUBMETIDA AO RAS- TREAMENTO ? QUAL INTERVALO ? Em 1977, o primeiro ensaio clínico aleatório controla- do, HIP, revelou uma redução de 29% na mortalidade por câncer de mama ( RR= 0,71, com intervalo de confiança de 95% , IC= 0,55 a 0,92 ) para as mulheres submetidas à mamo- grafia, em comparação ao grupo controle, após 9 anos de acom- panhamento. Esse benefício global e a redução de 35% no RR observada nas mulheres com 50 a 64 anos por ocasião da in- clusão no estudo eram estatisticamente significativos; em con- traste com a redução muito pequena para mulheres incluídas com 40 a 49 anos. O estudo sueco também apresentou resul- tados significantes estatisticamente apenas para mulheres na faixa de 50 a 74 anos. Os outros estudos também apresenta- vam esta mesma tendência, porém sem significado estatístico. À medida que o seguimento foi ampliado e entrou na segunda década, os estudos passaram a apontar também uma redução na mortalidade nas mulheres com 40 a 49 anos. Re- centemente, em 1997, os estudos de Malmö e Gotemburgo relataram reduções na mortalidade estatisticamente significati- vas de 36% e 44%, respectivamente em mulheres com 40 a 49 anos. No entanto, o estudo de Malmö incluiu mulheres apenas acima de 45 anos e o de Gotemburgo apresentou certa tendenciosidade da aleatorização. Em 1995, o estudo sueco (Swedish two-county study) de- monstrou uma redução na mortalidade de 34% em mulheres entre 50 e 74 anos e de 13% em mulheres com 40 a 49 anos. Os resultados desses estudos mostraram que o menor impacto sobre a mortalidade nesta faixa etária de mulheres foi devido, ao me- 386 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia nos em parte, ao crescimento mais rápido do tumor e também ao aumento da incidência durante esta década da vida. A evidência da redução da mortalidade como resultado da triagem para câncer de mama em mulheres com 50 a 69 anos resultou na concordância quase universal acerca do valor da triagem nessas mulheres. Gotzche e Olsen (2000) publicaram uma meta-análise sobre os 8 principais ensaios clínicos de rastreamento mamográfico (já enumerados no QUADRO 1) sugerindo que este não apre- sentava benefícios. Os autores apresentam diversas críticas, prin- cipalmente sobre o processo de aleatorização em 6 dos 8 estudos (sendo que apenas o estudo canadense e o de Mälmo produzi- ram grupos similares). Entretando, é o estudo canadense que apresenta erros evidentes no processo de aleatorização (contami- nação das amostras e tendenciosidade no grupo submetido ao rastreamento), e esse estudo não evidenciou impacto sobre a mortalidade das mulheres com idade entre 50 e 59 anos, nem tampouco em mulheres entre 40 e 49 anos. VALOR DO RASTREAMENTO POPULACIONAL EM MULHERES ENTRE 40 E 49 ANOS Esse é provavelmente um dos temas de maior controvér- sia na Mastologia Preventiva. Mas, apesardas divergências quan- to ao nível de significado estatístico da redução da mortalidade como resultado da triagem de mulheres com 40 a 49 anos, existe concordância geral acerca de dois achados: I. A redução da mortalidade resultante da triagem mamográfica é menor nas mulheres com 40 a 49 anos do que naquelas com 50 a 69 anos. 387 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Essa observação dá origem a duas questões: · existe algo diferente acerca das mulheres mais jovens ou de seus cânceres mamários que poderia explicar os diferentes efeitos da triagem mamográfica sobre a mor- talidade por câncer de mama nesses dois grupos etários? · o que explica a maior demora em reconhecer um be- nefício de sobrevida nas mulheres mais jovens? Parece que em mulheres mais jovens o tempo de duplica- ção tumoral é menor, resultando em um crescimento mais rá- pido e também em uma fase pré-clínica mais curta que os cân- ceres de mulheres com mais de 50 anos. Quando se começou a indicar a mamografia à partir dos 40 anos, timidamente, a cada dois anos Stephen Feig foi cate- górico e estabeleceu “que a vantagem da mamografia anual sobre o rastreamento bienal poderia significar a diminuição de uns 10% na redução da estimativa da mortalidade”. Pensando em uma real antecipação diagnóstica, devemos aceitar como fato que o carcinoma dos 50 anos se iniciou na década dos 40. E, se a cinética celular tumoral indica que é necessário um período de oito a dez anos para sua manifesta- ção clínica, devemos aceitar também que as possibilidades de antecipação diagnóstica da mamografia ainda não são suficien- tes, e essa deverá ter sua eficiência aprimorada, para detectar precocemente aquele carcinoma, cuja evolução para atipia se- guramente iniciou-se antes dos 50 anos. II. A sensibilidade mamográfica nas mulheres mais jovens está re- duzida devido ao fato dessas possuírem, geralmente mamas ra- diologicamente densas. 388 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia São duas as possibilidades para explicar o reconhecimen- to tardio dos benefícios da triagem em mulheres jovens: pode existir um redução real, porém retardada nas mulheres jovens OU o benefício da triagem constitui uma conseqüência quan- do essas mulheres atingem os 50 anos. Sabe-se que existem cânceres de intervalo, onde o rastrea- mento mamográfico provavelmente não modificará a sua histó- ria natural, pois geralmente são tumores indiferenciados, de alto grau histológico e conseqüentemente de tempo de duplicação tumoral menor (tumores mais agressivos e de pior prognóstico). Porém esses são raros. Também com a melhora da sensibilidade da mamografia (aparelhos de alta resolução), mais carcinomas in situ são diagnosticados, e sua evolução para carcinoma invasivo é incerta. No entanto, não é ético deixar de intervir nesses acha- dos, embora alguns casos sejam supertratados (overtreatment). A seguir o QUADRO 2 mostra os números estimados de vidas prolongadas/1.000 mulheres submetidas a uma triagem durante os próximos 10 anos, de acordo com a idade e a redu- ção do risco relativo estimado. QUADRO 2 - REDUÇÕES RELATIVAS E ABSOLUTAS DO RISCO EM VIRTUDE DA MAMOGRAFIA DE RASTREAMENTO,POR IDADE IDADE 40 50 60 RISCO POR 1.000 MULHERES* 7,8 12,9 19,5 REDUÇÃO RELATIVA DO RISCO** 1318 2329 2329 REDUÇÃO ABSOLUTA DO RISCO*** 1,01,4 3,03,7 4,55,7 (*) taxa de óbito dentro de 15-20 anos de câncer de mama diagnosticados nos próxi- mos 10 anos (**) estimativas de risco baseadas na revisão global sueca de 1993, da metanálise de 1995, e da metanálise de 1997. (***) número de vidas salvas por 1000 pela triagem anual durante os próximos 10 anos. Adaptado de: HARRIS R: Variation of benefits and harms of breast câncer screening with age. Monogr Natl Câncer Inst 22:139-1143, 1997 389 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia A freqüência de mamografias anormais por ocasião da primeira triagem é a mesma para todos os grupos etários. En- tretanto, a probabilidade de uma mamografia anormal resul- tar em um diagnóstico de câncer ( valor preditivo positivo ) declina de 17 a 19% nas mulheres com mais de 60 anos, para cerca de 4% para as mulheres entre 40 e 49 anos. O QUA- DRO 3 ilustra o resultado de um único ciclo de primeira tria- gem em 1000 mulheres de acordo com a faixa etária. Dados de KERLIKOWSKE K et al.: Positive predictive value of screening mammography by age and family history of breast cancer. JAMA 270:2444-2450, 1993. QUADRO 3 1000 mulheres 40 - 49 anos 935 exames normais 65 exames anormais 49 sem necessidade de biópsia 16 biópsias excisionais 13 benignas 1,5 CDIS 1,5 Câncer invasivo 1000 mulheres 50 - 69 anos 930 exames normais 70 exames anormais 46 sem necessidade de biópsia 24 biópsias excisionais 15 benignas 2 CDIS 7 Cânceres invasivo JUSTIFICATIVAS PARA INICIAR O RASTREAMENTO AOS 40 ANOS Em 1995, no estudo dos dois municípios suecos, Tábar e cols, observaram uma redução de 30% na mortalidade de uma população de 133.065 mulheres entre 40 e 74 anos. A redu- 390 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia ção foi de 34% nas mulheres do grupo compreendido entre 50 a 74 anos ( intervalo de rastreamento de 33 meses ) e de 13% nas mulheres do grupo entre 40 e 49 anos ( intervalo de rastreamento de 24 meses ). Provavelmente essa diferença seja conseqüência de dois fatores principais, já mencionados acima: os tumores de mulheres jovens crescem mais rapidamente e é elevada a prevalência de mulheres jovens com mamas radiolo- gicamente densas, diminuindo a sensibilidade do exame. Os autores consideraram ainda outro fator para justifi- car o menor impacto do rastreamento mamográfico nessa faixa etária: o intervalo entre os exames. Para estabelecer o intervalo do rastreamento deve-se conhecer a taxa de crescimento do tumor. O tempo de permanência média - TPM ( duração mé- dia da fase pré-clínica ) constitui a janela da oportunidade para a triagem. Neste estudo, os autores encontraram um TPM dos cânceres de mama das mulheres com 40 a 49 anos de 1,7 anos ; na faixa 50 a 59 anos de 3,3 anos e na faixa de 60 a 69 anos de 3,8 anos. Estes dados mostram que o tempo de dura- ção da fase pré-clínica das mulheres mais jovens foi pratica- mente igual à metade daquele dos cânceres de mulheres mais idosas. Conclui-se que o TPM das mulheres jovens ( 1,7 anos ) reduz a probabilidade de um câncer ser identificado por ma- mografia em uma triagem realizada a cada dois anos ( como neste estudo sueco ), diminuindo obviamente o benefício po- tencial da triagem, quando realizada neste intervalo. Ainda nesse estudo, os autores estimaram o tempo de duplicação do volume tumoral, baseando-se no tamanho dos tumores diagnosticados nas mamografias e o intervalo entre os exames. Calcularam que este tempo é de 178 dias nas mulhe- 391 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia res entre 40 e 49 anos e de 255 dias nas mulheres entre 50 e 74 anos. Segundo suas estimativas, a redução da mortalidade por câncer de mama no grupo de mulheres entre 40 e 49 anos aumentaria para 19% caso esse rastreamento fosse realizado anualmente. Ainda, Sickles, apoiando o rastreamento em idade mais precoce, informa “que existem mais de 10 mil mortes nos Esta- dos Unidos por câncer de mama desenvolvido em mulheres de 40 a 49 anos por ano”. CA Cancer J Clin 2003;53: 141-169 RESULTADOS MAIS RECENTES DOS ESTUDOS DE RASTREAMENTO MAMOGRÁFICO E SUA RESPECTIVA REDUÇÃO DE MORTALIDADE STUDO HIP MALMÖ SUECO EDIMBURGO ESTOCOLMO CANADÁ NBSS – 1 CANADÁ NBSS – 2 GOTEMBURGO TODOS OS ESTUDOS IDADE DA INCLUSÃO 40-64 45-69 40-74 45-64 40-49 50-59 40-64 39-59 39 - 74 PORCENTAGEM DAREDUÇÃO DA MORTALIDADE 24 (7, 38) 19 (-8, 39) 32 (20, 41) 21 (-2, 40) 26 (-10, 50) -3 (-26, 27) -2 (-33, 22) 16 (-39, 49) 24 (18,30) Provavelmente a única argumentação para os que ainda não estão convencidos dos benefícios do rastreamento mamográfico, é a aparentemente pouco favorável relação cus- to/benefício do mesmo. Na medicina atual, infelizmente, as perdas e os avanços são aferidos com freqüência pelo custo do procedimento em questão. Segue uma tabela a respeito de custo/benefício, construída em termos de expectativa ano/vida ganha, que ilus- tra a relação de diferentes programas de prevenção. 392 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Nessa tabela não se nota uma diferença muito importan- te no custo/benefício do rastreamento dos 40-49 anos e dos 50-59 anos. Também se observa que o rastreamento de câncer de mama é menor que o de colo uterino (que se estende por um período maior da vida da mulher) e da osteoporose. Com- parando um exemplo em área não-médica, observamos que os valores para evitar e reduzir acidentes no trânsito são muito superiores. Outros autores, por exemplo Salzman e cols. compara- ram o custo-benefício de várias técnicas diferentes de triagem. A triagem bianual de mulheres com 50 a 59 anos, em compa- ração com nenhuma triagem, produziu um custo por ano de vida preservada de US$21.400. O acréscimo da triagem de mulheres com 40 a 49 anos a cada 18 meses ao programa de- monstrou um custo por ano de vida preservada de US$105.000. DIRETRIZES E RECOMENDAÇÕES As nações desenvolvidas constantemente deparam-se com o mesmo dilema: determinar a eficácia dos programas de ras- treamento para câncer de mama em diferentes grupos etários e comparar os benefícios potenciais da triagem com os enormes custos desses programas. PROGRAMA CÂNCER CÓLON-RETAL MAMA (50-59 ANOS) MAMA (40-49 ANOS) COLO UTERINO OSTEOPOROSE CINTO DE SEGURANÇA E AIR BAG CUSTO (DÓLARES AMERICANOS) 3.000 4.000 – 9.000 5.000 – 10.000 12.000 18.000 32.000 393 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Em 1993, a Sociedade Européia da Mastologia manifes- tou-se contrária a triagem mamográfica de rotina para mulhe- res com 40 a 49 anos. A maioria dos países europeus continua realizando a triagem somente em mulheres com mais de 50 anos. Na Holanda, na Finlândia e na maior parte do Canadá e do Reino Unido a prática consiste em uma mamografia bianual (a cada três anos no Reino Unido), começando aos 50 anos e terminando entre 63 e 70 anos. Nos EUA, em contraste com a estabilidade e uniformi- dade das diretrizes européias, consiste em recomendações di- vergentes e em contínua mudança decorrente de pressões exercidas por grupos especializados, sociedades profissionais, políticas de saúde e peritos. Em 1987, várias organizações profissionais promulgaram em conjunto as recomendações da triagem para câncer de mama a favor do início da mamografia aos 40 anos. Em 1993, o National Câncer Institute (NCI) modificou sua recomendação genérica de realizar a triagem de mulheres em sua 5a. década a favor das discussões caso-a-caso de triagem das mulheres e seus médicos. Assim, o NCI uniu-se ao American College of Physicians (ACP), à American Academy of Family Practice (AAFP) e à United States Preventive Services Task For- ce (USPSTF) nas seguintes recomendações: · mulheres acima de 50 anos devem ser submetidas a uma triagem com mamografia e exame clínico a cada um a dois anos; · mulheres com 40 a 49 anos devem discutir a conveni- ência da triagem com seus médicos pessoais. A American Cancer Society (ACS) tem recomendado sis- 394 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia tematicamente o início da triagem aos 40 anos, e não especifi- ca um limite de idade superior. O QUADRO 4 a seguir resume as diretrizes de triagem para câncer de mama de diferentes instituições. QUADRO 4 - DIRETRIZES DE TRIAGEM PARA CÂNCER DE MAMA DE GRUPOS PROFISSIONAIS SELECIONADOS MMG= mamografia; ECM= exame clínico de mama; AEM= auto-exame de mama · USPSTF. A intensidade das recomendações é abreviada com a letra entre parênteses: ( A ) boas evidências apoiando essa recomendação ( B ) evidências razoáveis apoiando essa recomendação ( C ) evidências insuficientes ou não inclusão dessa recomendação A revisão das evidências induz a apoiar vigorosamente a triagem mamográfica de mulheres entre 50 e 69 anos com um intervalo nunca superior a dois anos, já que essa rotina apre- senta um impacto real sobre a mortalidade por câncer de mama (33%). É razoável realizar a triagem em mulheres acima de 70 anos que tenham uma expectativa de vida favorável. Não po- demos ignorar o estudo de maior casuística (estudo sueco dos dois municípios) que demonstrou um impacto menor, porém significativo (13%) na taxa de mortalidade por câncer de mama nas mulheres entre 40 e 49 anos; sendo que este pode ainda ser 395 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia melhorada (19%) caso a triagem seja realizada anualmente. Em nosso meio, as estatísticas mostram que a incidência do câncer de mama nas faixas etárias entre 40 e 49 anos e 50 e 59 anos se equivalem, como demonstrado no gráfico abaixo. Assim, baseando-se nas evidências atuais a triagem mamográfica Deverá ser recomendada em mulheres: · a partir de 40 anos - anualmente · entre 50 e 69 anos – a cada um ou dois anos (anual naquelas sob terapia hormonal e alto risco) · após os 70 anos – de acordo com a expectativa de vida Uma proposta prudente seria a concretização da instala- ção de programas de rastreamento (com equipamentos e re- cursos humanos eficientes e suficientes em centros de atendi- mento comunitário), seguida da implementação de mecanis- mos para a realização de exames periódicos. DISTRIBUIÇÃO DAS NEOPLASIAS MALIGNAS DE MAMA FEMININA SEGUN- DO FAIXA ETÁRIA REGISTRO HOSPITALAR DE CÂNCER DO ESTADO DE SÃO PAULO. 2000-2001 Fonte: FOSP / F. SEADE 396 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Esses programas deveriam estar disponíveis para a popu- lação feminina, cuja principal condição para a realização do exame é a idade superior a 40 anos. Em nosso meio, se desconhece um estudo populacional sobre o impacto da mamografia de rastreamento. Várias são as dificuldades: infra-estrutura para realização dos exames; custo do exame; seguimento a médio e longo prazo da população estudada. A falta de informações sobre os custos do rastreamento e dos procedimentos adicionais até o diagnóstico definitivo da doença é fator essencial para a avaliação de sua aplicabilidade como política de saúde pública. Desse modo, objetivamos demonstrar os custos de um ciclo de rastreamento mamográfico em uma amostra populaci- onal determinada (do momento da realização da mamografia até o diagnóstico histopatológico) juntamente com o custo do tratamento dos casos detectados, e comparar com os custos do tratamento de pacientes com câncer mamário avançado, visan- do ressaltar as vantagens econômicas do diagnóstico precoce da doença. Na Sessão de Diagnóstico da Disciplina de Mastologia do Departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina – realizou-se um ras- treamento mamográfico em 1014 pacientes inicialmente aten- didas no ambulatório de Climatério. Efetuou-se um único ci- clo de rastreamento sem considerar o ulterior seguimento. As pacientes encontravam-se na faixa etária entre 46 e 62 anos. Os exames foram realizados em mamógrafo de alta resolução, em filme e processadoras dedicadas, e obtidas inicialmente in- 397 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia cidências-padrão (oblíqüa médio-lateral e crânio-caudal). Classificaram-se as mamografias de acordo com as cate- gorias do sistema BI-RADSä e as lesões detectadas, quando in- dicado, foram submetidas a estudo citológico ou histológico, através de procedimentos invasivos dirigidos por ultra- sonografia ou estereotaxia (biópsia dirigida por agulha fina - BAAF ou biópsia percutânea com agulha grossa – BPAG). Os custosde todos os exames e procedimentos realizados nas pacientes foram estimados com base na tabela de procedi- mentos médicos da AMB – Associação Médica Brasileira de 1992 - e avaliado o valor do rastreamento por paciente e tam- bém o valor do diagnóstico dos casos de câncer de mama de- tectados. Os custos dos procedimentos terapêuticos realizados também foram estimados para análise comparativa. A Tabela I mostra a classificação imagenológica final da população submetida ao rastreamento. Foi necessário investi- gar 53 lesões e os resultados citohistológicos estão resumidos na Tabela II. TABELA I - CLASSIFICAÇÃO IMAGENOLÓGICA FINAL DA POPULAÇÃO DE 1014 MULHERES SUBMETIDAS AO RASTREAMENTO ACHADOS MAMOGRÁFICOS SEM ACHADOS CALCIFICAÇÕES ASSIMETRIAS NÓDULOS TOTAL= 1014 1 261 261 2 482 102 87 671 3 06 07 46 59 4 15 02 05 22 5 1 1 BI-RADS® Foi necessário investigar 52 lesões e os resultados citohistológicos estão resumidos na Tabela 2. 398 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Considerando nossa casuística, calcularam-se os custos dos exames e dos procedimentos ambulatoriais realizados baseados na Tabela AMB 92 que estão expressos na Tabela III. TABELA II - RESULTADOS CITOHISTOLÓGICOS DAS 53 LESÕES INVESTIGADAS PROCEDIMENTO REALIZADO VIA US BAAF (CISTOS) BPAG (SÓLIDOS) BPAG (SÓLIDOS) VIA ESTEREO BPAG (CALCIF.) BPAG (NÓDULO) TOTAL CASOS 24 9 6* 16 4 52 P N 24 3 27 S 4* 4* MI 2* 2* RESULTADOS CITOLÓGICOS Benigno 5* 12 4 21 Maligno 1* 4 5 ACHADOS HISTOPATOLÓGICOS TABELA III - CUSTO DOS PROCEDIMENTOS REALIZADOS NO RASTREA- MENTO NA POPULAÇÃO AVALIADA DE 1014 MULHERES PROCEDIMENTO MAMOGRAFIA USG MAMAS BAF ORIENTADA CITOLOGIA BAG ORIENTADA ANÁTOMO-PATOLÓGICO CUSTO TOTAL NÚMERO 1014 71 33 33 26 26 VALOR (AMB 92) 62,00 48,80 102,27 27,00 192,78 37,80 VALOR TOTAL 62.868,00 3.464,80 3.374,91 891,00 5.012,28 982,80 R$ 76.593,79 Verificamos que um ciclo de rastreamento mamográfico dessa população custou cerca de R$ 66.332,80 (mamografias e ultra-sonografias). Para o diagnóstico histopatológico dispenderam-se mais R$ 10.260,99, totalizando R$ 76.593,79 para a detecção de 5 casos de câncer. A média de custo por paciente foi de R$ 75,35. 399 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia A detecção do câncer de mama em fases iniciais propicia, mais freqüentemente, o tratamento com cirurgias conservado- ras, associadas ou não a radioterapia e agentes anti-estrogênicos (tamoxifeno) reduzindo substancialmente o custo do tratamen- to (15). Já nas fases avançadas, obviamente as terapias são mais agressivas, aumentando consideravelmente os custos. Há de se considerar ainda, além do emprego de cirurgias mais radicais, os exames de estadiamento da doença; maior permanência hos- pitalar; radioterapia mais ampla e principalmente o uso da quimioterapia (que além do alto custo, também se associa a maior morbidade). A análise de dados disponíveis da Fundação Oncocentro de São Paulo (16), tanto os de mortalidade como os de registro hospitalar de câncer, evidenciam a importância do câncer da mama no estado de São Paulo. Em 2003 a taxa bruta de inci- dência do câncer de mama em mulheres nesse estado foi de 78,69 por 100.000, registrando-se no mesmo período cerca de 15.530 casos novos (sendo 6681 deles em mulheres com idade média de 56 anos). A taxa bruta de mortalidade por cân- cer de mama por 100.000 mulheres, entre 1995 e 1999 no estado de São Paulo foi de 14,05 (17). No biênio 1999-2000 cerca de 43% desses óbitos ocorreram na faixa etária entre 40 a 59 anos. Cerca de 70% dessa população chegou ao hospital sem diagnóstico ou tratamento e os 30% restantes chegaram com diagnóstico, mas sem tratamento. Cerca de 20% dos tumores estavam nos estágios 0 e I e 80% classificados como II, III e IV. 400 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Dentre os tratamentos empregados, as modalidades mais freqüentes foram: cirurgia, radioterapia e quimioterapia (23,1%); cirurgia isolada (16%); cirurgia e quimioterapia (14,5%) e quimioterapia isolada (10,2 %). O custo do atendimento e tratamento do câncer no esta- do de São Paulo no ano de 2002 atingiu cerca de 230 milhões de reais, sendo que 37 milhões foram gastos com atendimento ambulatorial e hospitalar; 30 milhões com radioterapia e quase 165 milhões com quimioterapia (16). Fica evidente que, se o diagnóstico ocorrer em fases mais iniciais (carcinoma “in situ”, estádios Ia e Ib) os gastos se reduzirão em torno de 70% do total, já que o tratamento quimioterápico será evitado. Em nosso estudo, avaliamos um ciclo de rastreamento em 1014 mulheres, desde a fase do teste de triagem - mamografia – até a fase de diagnóstico, estabelecendo os custos populacio- nais, individuais e por diagnóstico positivo realizados. DISTRIBUIÇÃO DAS NEOPLASIAS MALIGNAS DE MAMA FEMININA SEGUN- DO ESTADIAMENTO CLÍNICO REGISTRO HOSPITALAR DE CÂNCER DO ESTADO DE SÃO PAULO. 2000-2001 401 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Verificamos que um ciclo de rastreamento mamográfico dessa população custou cerca de R$ 62.868,00 (estão incluí- das as incidências mamográficas adicionais - compressão e am- pliação). Acrescenta-se a este valor as ultra-sonografias (R$ 3.464,80) e, para o diagnóstico histopatológico dispenderam- se mais R$ 10.260,99. Totalizou-se então R$ 76.593,79 para a detecção de 5 casos de câncer. Convém ressaltar que no diagnóstico mamográfico (des- de o exame radiográfico até o diagnóstico histopatológico) o que mais onerou o rastreamento foram as radiografias, respon- sável por cerca de 80% dos custos. Conclui-se assim, que a pro- pedêutica complementar (ultra-sonografia e procedimentos invasivos) totalizaram 18% do custo global. A média do custo do diagnóstico por paciente foi de R$ 75,35. O custo do tratamento dos casos detectados nessa casuística (estádios 0 e I), incluindo cirurgia (média de R$ 3.000,00) e radioterapia (média de R$ 3.000,00) foi de R$ 6.000,00 (assim, 5 casos despenderam R$ 30.000,00). Podemos então consideram que o diagnóstico precoce e seu tratamento em uma população de aproximadamente 1000 mulheres totalizaram cerca de R$ 100.00,00 (cem mil reais), cerca de R$ 100,00 por mulher. A previsão de custo do tratamento de uma única pacien- te no estádio III ou IV pode variar de R$25.000,00 a R$62.500,00. Este inclui: internação e cirurgia (R$ 3.000,00 a 5.000,00), quimioterapia (R$3.000,00 a 9.000,00 por apli- cação – média de 6 aplicações) e radioterapia (R$ 3.000,00). Deve-se considerar que o tratamento de 2 a 4 mulheres com câncer de mama avançado (considerados aqui apenas os 402 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia custos econômicos) pode ser equivalente ao custo do rastrea- mento de 1000 mulheres. Apesar de ainda existirem controvérsias sobre o impacto do rastreamento mamográfico sobre a mortalidade pelo cân- cer de mama, os custos econômicos aqui apresentados mostram que os programas de rastreamento do câncer de mama consti- tuem uma política de saúde, pois além de inúmeros outros benefícios sociais aqui não considerados, refletem em econo- mia dos cofres públicos. Sabe-se que a estimativa do custo de um rastreamento é difícil, pois é dependente de diversas variáveis, portanto com- plexa. Esse estudo foi uma tentativa inédita em nosso meio de avaliar os gastos no rastreamento e diagnóstico do câncer da mama e comparar com os custos do tratamento da doença em fases mais avançadas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Smith R A, Saslow D, Sawyer K A, Burke W et al. American Cancer Society Guidelines for Breast Cancer Screening: update 2003. CA Cancer J Clin 53:141- 169, 2003. 2. Bailar JC III , MacMahon B. Randomization in the Canadian National Breast Screening study: a review for evidenceof subversion. Can Med Assoc J 156(2):193-199, 1997. 3. Breast Imaging Reporting and Data System ( BI-RADSä ) American College of Radiology ( ACR ) Second Edition. Reston ( VA ): 1995. 4. Costanza ME. Breast cancer screening in older women. Cancer 69:1925- 193112,1992. 5. Feig SA. Determination of mammographic screening intervals with surrogate measures for women 40-49 years. Radiology 193:311-314, 1994. 6. Feig SA. Screening mammography in women under fifty years of age. Breast J. 2:221,1996. 7. Gotzsche P C, Olsen O. Is screening for breast cancer with mammography justifiable ? Lancet ; 355:129-134, 2000. 403 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia 8. Holleb AI. Review of breast cancer screening guidelines. Cancer 69:1911- 1912,1992. 9. Kerlikoeske K, Grady D, Barclay J, Sickels EA, et al. Positive predictive value of screening mammography by age and family history of breast cancer.. JAMA 270; (20):2444-2450, 1993. 10.Miller AB, To T, Baines CJ, Wall C. Canadian National Breast Screening Study - 2 : 13-Year results of a randomized trial in women aged 50-59 years. J Natl Cancer Inst 92:1490-1499, 2000 11.Nyström L, Rutqvist LE, Wall S et al. Breast cancer screening with mammography: overview of Swedish randomised trials. Lancet; 341:973-78, 1993. 12.Peer PGM, van Dijck JAAM, Hendriks JHCL, et al. Age dependent growth rate of primary breast cancer. Cancer 71:3547-3551, 1993 13.Shapiro S, Smart CR, Costanza ME, Henson DE et al. Guidelines for breast cancer screening. Cancer Supplement. April 1, 69(7):2001-2002, 1992. 14.Shapiro S, Strax P, Venet L. Periodic breast cancer screening in reducing mortality from breast cancer. JAMA, 215: 1777-85, 1971 15.Shapiro S: Periodic breast cancer screening in seven foreign countries. Cancer 69:1919-1924, 1992. 16.Sickles E, Ominsky SH, Sollitto RA, Galvin HB Monticciolo DL. Medical audit of a rapid-throughput mammography screening practice: methodology and results of 27.114 examinations. Radiology; 175:323-327, 1990. 17.Smith RA, Black BL, Price GW et al. Legal aspects, legislative effect, cost effectiveness, and barriers to breast cancer screening. Cancer Supplement. April 1, 69(7):2005-2007, 1992. 18.Surgical Clinics of North America. Vol 79 , number 5. W.B. Saunders Company. 1999. 19.Tabar L, Fagerberg G, Chen HH, et al. Efficacy of breast cancer screening by age: new results from the swedish two-county trial. Cancer 75:2507-2517, 1995 20.Welch Hg, Albertsen PC, Nease Rf, et al. Estimating treatment benefits for the elderly: the effect of competing risks. Ann Intern Med 124:577-584, 1996. 21. Woolf SH. United States Preventive Services Task Force recommendations on breast cancer screening. Cancer 69:1913-1918, 1992. 404 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia XV. CONSIDERAÇÕES TERAPÊUTICAS Domingos Auricchio Petti O diagnóstico do câncer de mama está baseado na anamnese, no exame físico e em exames complementa- res42,43. Na anamnese além da queixa clínica, têm papel impor- tante os dados epidemiológicos relacionados ao câncer de mama como idade da paciente, história familiar de câncer de mama, história reprodutiva da paciente (menarca, idade do primeiro parto, menopausa), patologia mamária pregressa (câncer, hiperplasia, doenças benignas), exposição a radiações e alcoo- lismo42,43,47. A paciente será considerada de risco se ela tiver entre 40-70 anos, se tiver familiar de 1o. grau afetado pela doen- ça antes da menopausa, e se ela mesmo já tiver tido patolo- gia mamária como hiperplasia atípica, CA in situ ou mesmo CA invasivo, se ela tiver tido menarca precoce, ou meno- pausa tardia e se for nuligesta ou primipara tardia (após 30 anos) e se faz uso de terapia hormonal e se foi exposta a radi- ações e se fizer uso de bebidas alcoólicas (mais de dois drinques por dia) 42,43,47. 405 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia O câncer de mama se apresenta em geral como um tu- mor. Pode se manifestar com dor, alteração cutânea ou descar- ga papilar42,43,47. No exame físico deve-se através da inspeção estática e di- nâmica observar a presença de edema da pele, tumor, abaula- mento ou retração da superfície cutânea. Na palpação, identi- ficar a presença de lesão nodular ou espessamento localizado, avaliando-se a sua consistência, mobilidade, relação com os te- cidos adjacentes, presença ou ausência de dor pelas manobras, limites, superfície. Através de expressão da glândula mamária, notar se há saída de secreção pelo mamilo e as características da mesma. Através da palpação das axilas e da fossa supra e infraclavicular identificar os linfonodos42,43,47. Serão suspeito para câncer de mama, edema, retração ou abaulamento que se relaciona com lesão nodular e espessa- Risco muito elevado (RR e ≥3.0) Mãe ou irmã com câncer de mama na pré-menopausa Antecedente de hiperplasia epitelial atípica ou neoplasia lobular in situ Suscetibilidade genética comprovada (mutação de BRCA1-2) Risco medianamente elevado (1.5 ≤RR < 3.0) Mãe ou irmã com câncer de mama na pós-menopausa Nuliparidade Antecedente de hiperplasia epitelial sem atipia ou macrocistos apócrinos Risco pouco elevado (1.0 ≤RR < 1.5) Menarca precoce (≤12 anos) Menopausa tardia (≥55 anos) Primeira gestação de termo depois de 34 anos Obesidade Dieta gordurosa Sedentarismo Terapia de reposição hormonal por mais de 5 anos Ingestão alcoólica excessiva Idade entre 40-70 anos Quadro 1 - Fatores de risco para o câncer de mama3 406 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia mento localizado indolor, com limite pouco preciso, de mobili- dade restrita, superfície irregular, consistência firme. O encon- tro de secreção sero-sanguínea ou como água de rocha tam- bém reforçam a suspeita. O achado de linfonodos aumenta- dos, coalescentes, eleva a suspeita42,43,47. No entanto, o diagnóstico de câncer de mama pode ser feito sem que haja sintomatologia clínica através de exames como: 1) mamografia (MMG) quando se pode diagnosticar al- terações como nódulo não palpável, distorção arquitetural, microcalcificação, dilatação ductal isolada, aumento de densi- dade pré-existente, neodensidade, densidade assimétrica focal ou difusa, espessamento cutâneo localizado e linfoadenopatia axilar44,45,46. 2) Ultrassonografia (USG) que identifica lesão sólida, principalmente na mama densa, distorção arquitetural, massa intraductal e intracística que dependendo das características com que se apresentam são fortemente suspeitas de malignida- de44,45,46,47. Além dos exames que visam o estudo da mama propria- mente dito, como a MMG e a USG mamária, pode-se eventu- almente diagnosticar CA de mama com a RNM TC, Cintilografia mamária, Cintilografia óssea, Rx de tórax, e a USG de abdome, através de achados que sugerem ser metástases como imagem nodular em campo pulmonar, imagem nodular em parenquina hepático, concentração de radiofarmaco em ossos, ou imagem nas mamas em tomografia, em RNM e em cintolografia42,47. Os exames de imagem servem não só para diagnosticar o câncer de mama mas para monitorar procedimento e orientar 407 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia a seleção do tratamento a ser feito e o seguimento da paciente. Após um diagnóstico feito pela clínica e corroborado pelos exames de imagem ou apenas suspeitado por estes, deve-se avan- çar na propedêutica realizando uma punção (PAF) ou biópsia (transcutanea, mamotomia ou cirúrgica) 46. A punção com agulha fina, só deve ser usada para os ca- sos de lesões sólidas (tumores), ou do componente sólido no interior dos cistos. A acurácia do método gira em torno de 90%. O valor preditivo de malignidade é aproximadamente 98%. A porcentagem de resultado suspeito gira em torno de 10% e de achado falso negativo próximo de 10% também. Resultado falso positivo são raros atingindo cifra de até 1,5%. A biópsia por agulha, com equipamentosapropriados acoplados a mesma, como pistola, mecanismos de vácuo, per- mite obter material para estudo histológico. Quando não se dispuser destas técnicas, faze-se biópsia cirúrgica que pode ser orientada pela colocação de marcador metálico, feito previamente,utilizando-se um dos métodos de imagem (USG,MMG ou RNM). Quando for necessária a utilização de um método de ima- gem, desde que seja factível, deve-se sempre optar pelo Ultrassom, para a sua realização, por ser realizado em tempo real. Os exames imagenológicos podem orientar no sentido do tipo de tratamento que deve ser utilizado, para tanto é ne- cessário ter-se em mente o estádio da doença, as formas de tra- tamento adequado ao mesmo. ESTADIAMENTO O estadiamento do câncer de mama é baseado na classi- ficação TNM (T: tumor, N: linfonodo, M: metástase)9. 408 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia O quadro 2 apresenta a classificação TNM e o quadro 3 sintetiza o agrupamento por estadios nas diversas combina- ções possíveis. Quadro 2 - Classificação clínica do câncer de mama pelo sistema TNM T - Tumor TX O tumor primário não pode ser avaliado T0 Sem evidência de tumor primário Tis Carcinoma in situ: carcinoma intraductal ou carcinoma lobular in situ ou doença de Paget da papila sem tumor T1 Tumor com 2 cm ou menos em sua maior dimensão T1a - tumor com 0,5 cm ou menos em sua maior dimensão T1b - tumor com mais de 0,5 cm e até 1 cm em sua maior dimensão T1c - tumor com mais de 1 cm e até 2 cm em sua maior dimensão T2 Tumor com mais de 2 cm e até 5 cm em sua maior dimensão T3 Tumor com mais de 5 cm em sua maior dimensão T4 Tumor de qualquer tamanho, com extensão direta à parede torácica ou à pele T4a - extensão para parede torácica T4b - edema (incluindo peau d’orange) ou ulceração da pele da mama ou nódulos cutâneos satélites, confinados à mesma mama T4c - T4a e T4b associados T4d - carcinoma inflamatório N - Linfonodais regionais NX Os linfonodos regionais não podem ser avaliados (por ex. foram removi- dos previamente) N0 Ausência de metástases nos linfonodos regionais N1 Metástase em linfonodo(s) auxiliar(es) homolateral (is) móvel (is) N2 Metástase nos linfonodos axilares homolaterais fixos uns aos outros ou a outras estruturas N3 Metástase nos linfonodos da cadeia mamária interna homolateral M - Metástases a distância MX A presença de metástases a distância não pode ser avaliada M0 Ausência de metástases a distância M1 Metástases a distância (incluindo as metástases nos linfonodos supraclaviculares) 409 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Quadro 2: Classificação clínica do câncer de mama pelo sistema TNM. Quadro 3: Estadiamento do câncer de mama em função das diversas combinações possíveis pelo sistema TNM. O tratamento do câncer de mama pode ser curativo ou paliativo. O tratamento curativo está indicado para os casos de doença loco-regional. O tratamento paliativo está indicado para pacientes com metástases à distância ou para pacientes que fo- ram previamente tratadas e desenvolveram metástases à distân- cia ou recorrência local42,44. MODALIDADES TERAPÊUTICAS O tratamento para o câncer de mama deve ser ministra- do por uma equipe multidisciplinar visando o tratamento inte- gral da paciente. As modalidades terapêuticas são a cirurgia e a radioterapia para tratamento loco-regional e a quimioterapia e a hormonioterapia para tratamento sistêmico. Estadio 0 Tis N0 M0 Estadio I T1 N0 M0 Estadio IIa T0 N1 M0 T1 N1 M0 T2 N0 M0 Estadio IIb T2 N1 M0 T3 N0 M0 Estadio IIIa T0 N2 M0 T1 N2 M0 T2 N2 M0 T3 N1, N2 M0 Estadio IIIb T4 qualquer N M0 qualquer T N3 M0 Estadio IV qualquer T qualquer N M1 Quadro 3 - Estadiamento do câncer de mama em função das diversas Combinações possíveis pelo sistema TNM 410 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia CIRURGIA Tipos de Cirurgia Conservadoras: Tumorectomia (exérese do tumor sem margens); Ressecção segmentar ou setorectomia (exérese do tumor com margens). Não conservadoras: Adenomastectomia subcutânea ou mastectomia subcutânea (retirada da glândula mamária, pre- servando-se pele e complexo aréolo-papilar) ; Mastectomia sim- ples ou total (retirada da mama com pele e complexo aréolo- papilar) ; Mastectomia com preservação de um ou dois múscu- los peitorais com linfadenectomia axilar (radical modificada); Mastectomia com retirada do(s) músculo(s) peitoral(is) com linfadenectomia axilar (radical). Indicações Cirúrgicas Carcinoma in situ: Lobular: Indica-se apenas biópsia excisional, que é sufi- ciente para diagnóstico e tratamento desta condição que é so- mente um fator de risco para o desenvolvimento de carcino- ma, e exige vigilância clínica e mamográfica rigorosa 10, po- dendo ser considerado o uso de tamoxifeno com finalidade profilática 11. Ductal: A mastectomia simples é um tratamento curati- vo para 98% dos casos12, mas certamente representa procedi- mento excessivamente mutilante para considerável parcela de casos. Os tumores com diâmetro inferior a 2 cm e margens cirúrgicas livres de comprometimento podem ser tratados pela ressecção segmentar seguida da radioterapia complementar. Foi descrito por Solin e col.13 a taxa de sobrevivência em 15 anos 411 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia de 96% com a rotina de ressecção segmentar e radioterapia. No entanto, para casos menores do que 4 cm e margens de ressecção livres, a conduta conservadora com radioterapia leva em torno de 10% de recidiva local14. Em casos selecionados de bom prognóstico, e margens superiores a 1 cm, pode-se omitir a radioterapia15. Indicam-se cirurgias não conservadoras da mama, seguida ou não de reconstrução mamária, para tumo- res maiores do que 2 cm, ou com impossibilidade de se assegu- rar a obtenção de margens livres em função da extensão ou multicentricidade tumoral15. A linfadenectomia de nível I (base da axila) ou a dissecção do linfonodo sentinela deve ser realiza- da em casos de comedonecrose ou alto grau nuclear (GIII), devido a possibilidades de microinvasão e envolvimento axi- lar14. Recomenda-se a seguir hormonioterapia adjuvante com tamoxifeno 20 mg/dia por 5 anos. Estudo clínico aleatorizado, com 5 anos de seguimento, mostrou redução da média anual de recorrências invasoras pós-cirurgia conservadora e radiote- rapia de 1,6% para 0,9% (risco relativo: 0,56 e redução de risco absoluto: 0,7%)16. Carcinomas invasores com diâmetro tumoral inferior a 3 cm: Pesquisas do Instituto de Tumores de Milão demonstra- ram que os tumores menores que 3 cm tratados pela ressecção segmentar, seguida de linfadenectomia axilar e radioterapia, têm os mesmos resultados oncológicos do que aqueles tratados por mastectomia radical17. Assim, a cirurgia conservadora pre- enche os pré-requisitos que norteiam o tratamento cirúrgico do câncer de mama que são: máximo de controle loco-regio- nal, estadiamento, prognóstico com menores morbidade e mutilação. São pré-requisitos para se indicar cirurgia conserva- 412 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia dora: mamografia prévia, diâmetro inferior a 3 cm, ausência de comprometimento de pele, tumor único, avaliação das mar- gens cirúrgicas18. Ressalte-se que podem ocorrer recidivas locais após ci- rurgia conservadora em até 10% dos casos, com prejuízo emo- cional e repercussão negativa no prognóstico oncológico. A recidiva local depende do grau de agressividade do tumor, do diâmetro tumoral e do comprometimento microscópico das margens cirúrgicas. A avaliação das margens pode ser feita no intraoperatório, pois modifica a extensão da cirurgia e contri- bui para reduzir a incidência de recidiva local após as cirurgias conservadoras19.20. Quando for feita posteriormente a cirurgia e for identificado comprometimento das mesmas, recomenda- se a re-intervenção cirúrgica. Nas cirurgias conservadoras recomenda-sede rotina a radioterapia complementar na mama, sendo opcional o “boost” de reforço na área tumoral prévia17. A linfadenectomia axilar seletiva é baseada na retirada do linfonodo sentinela (LS), que é o primeiro linfonodo a dre- nar as micrometastases do tumor primário. O LS pode ser iden- tificado pelo cirurgião pela injeção de corantes vitais ou radio- fármacos, seguido de linfocintilografia e uso de detector portá- til de radiação (probe). O exame citohistológico feito por pato- logista pode indicar ou não a presença de micrometástases. Trata-se de nova modalidade para selecionar as pacientes com tumores menores que 3 cm, sem adenomegalia axilar, para a linfadenectomia. Deve ser realizada por equipe multidiscipli- nar treinada (mastologista, patologista e médico nuclear). Não se deve indicar em pacientes submetidas previamente a biópsia 413 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia com hematoma, cicatrizes extensas, plástica de mama ou quimioterapia neoadjuvante. Não havendo disponibilidade da técnica do linfonodo sentinela pelo cirurgião ou em caso de positividade histopatológica do mesmo, deve-se fazer a linfade- nectomia axilar21.22. Carcinomas invasores com diâmetro tumoral superior ou igual a 3 cm (com ou sem quimioterapia neoadjuvante): A mastectomia com linfadenectomia deve ser indicada para tu- mores maiores que 3 cm. As técnicas modificadas, com preser- vação de um ou ambos músculos peitorais, são mais emprega- das, pois asseguram resultados semelhantes à radical, facilitam a reconstrução plástica e reduzem a morbidade23. A opção pela técnica depende das condições locais intra- operatórias, clínicas e idade da paciente. Sempre que se indica uma mastectomia em pacientes com bom prognóstico e boas condições clínicas, pode-se indicar a reconstrução mamária. A reconstrução plástica não interfere no prognóstico oncológico das pacientes e condiciona melhor equilíbrio emocional e qua- lidade de vida24. RADIOTERAPIA Após cirurgia conservadora, deve-se irradiar toda a mama das pacientes submetidas a esse tipo de cirurgia, independente do tipo histológico, idade, uso de quimioterapia e/ou hormo- nioterapia e mesmo com margens cirúrgicas livres de compro- metimento neoplásico25. O reforço da dose na área tumoral (“boost”) está indi- cado nas pacientes com menos de 50 anos, com mais de 25% de carcinoma ductal in situ na peça cirúrgica, na presença de 414 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia margens exíguas (menor que 1 cm), comprometidas ou desco- nhecidas e em tumores com alta agressividade local26. Com relação aos carcinomas ductais in situ, se a opção for cirurgia conservadora, as pacientes devem ser submetidas à radioterapia pós-operatória em toda a mama. Na indicaçãodo “boost”, levar em conta o tamanho do tumor, grau nuclear, presença de comedonecrose e margens (menores do que 1 cm)27. O papel da radioterapia pós-mastectomias tem sido con- troverso, mas algumas publicações randomizadas recomendam esta indicação28,29 . No encontro de St. Gallen, (Suíça), foram definidos fatores considerados consensuais, bastando somente a presença de um deles para a indicação de radioterapia pós- mastectomia30. Foram eles: Tumores maiores ou iguais a 5 cm (somar com biópsia prévia); Pele comprometida; Grau III; Dissecção axilar inadequada (menos do que 10 linfonodos); Invasão extra-capsular linfonodal (mesmo em um único linfonodo); Margemcomprometida (menor que1cm); Quatro ou mais linfonodos comprometidos. A utilização de quimioterapia com antracíclicos no pe- ríodo pós-operatório, tanto das cirurgias conservadoras quanto das mastectomias, protela o início da radioterapia para o térmi- no da terapêutica sistêmica, não devendo ultrapassar o período de 6 meses da cirurgia. A indicação de se irradiar as drenagens linfáticas é a 415 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia mesma tanto para as cirurgias conservadoras quanto para as mastectomias. A presença de um único linfonodo comprome- tido é suficiente para irradiar-se a fossa supra clavicular homolateral. Existindo acima de 4 linfonodos axilares compro- metidos e em tumores centrais ou mediais, pode-se incluir os linfonodos da cadeia da mamária interna, principalmente nos 3 primeiros espaços intercostais, uma vez que a probabilidade de comprometimento é de 30%. As condições técnicas mínimas para a execução de radiote- rapia pós-operatória das pacientes com carcinoma de mama são: Imobilização individualizada; Simulação; Homogeneidade da dose (variação de 8 a 12%); “Portal” filmes semanais. TERAPIA SISTÊMICA ADJUVANTE: QUIMIOTERAPIA E HORMONIOTERAPIA Quimioterapia neoadjuvante O objetivo da quimioterapia neoadjuvante é reduzir o volume tumoral tornando tumores irressecáveis em ressecáveis, e/ou possibilitando a cirurgia conservadora nos tumores inici- almente candidatos à mastectomia radical31. O esquema quimioterápico utilizado deve ser baseado em regimes contendo antraciclinas (Doxorrubicina ou Epirrubicina) associadas a Taxanes (AT) ou ciclofosfamida e Fluorouracil (FAC, FEC, AC) administrando-se de 3 a 4 ciclos de acordo com a resposta. A resposta à quimioterapia neoadjuvante é um fator preditivo de sobrevida livre de doença e sobrevida global32. 416 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Tratamento adjuvante sistêmico Hormonioterapia Adjuvante: Hormonioterapia adjuvante com Tamoxifeno 20 mg/dia por 5 anos deve ser empregada em todas as pacientes com re- ceptor hormonal positivo, sendo o benefício observado nas pacientes na pré ou pós-menopausa, com ou sem utilização de quimioterapia. Quimioterapia Adjuvante: Poliquimioterapia adjuvante deve ser recomendada nas pacientes com tumores maiores que 1 cm, independente do status linfonodal, receptores hormonais, idade ou menopausa. Para pacientes com tumores menores que 1 cm a decisão deve ser individualizada33. Linfonodos Axilares Negativos: Recomenda-se como esquemas de quimioterapia apro- priados CMF (ciclofosfmida, metrotrexate, fluorouracil) por 6 meses ou AC (adriblastina, ciclofosfamida) por 4 ciclos34. Linfonodos Axilares Positivos: Regimes baseados em antraciclinas apresentam resulta- dos superiores ao esquema CMF, devendo ser preferencialmente empregados35. Recomenda-se como regimes apropriados FAC (fluorouracil, adriblastina, ciclofosfamida), FEC (fluorouracil, epirubicina, ciclofosfamida), AC, CMF, A-CMF36. A utilização de paclitaxel na adjuvância é ainda objetivo de estudo37. Observações: A dose das medicações empregadas nos regimes quimioterápicos administrados para a adjuvância não deve ser 417 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia diminuída arbitrariamente, devendo ser reajustadas somente em caso de toxicidade de acordo com os critérios estabelecidos sob pena de prejudicar o resultado terapêutico38. O aumento da intensidade de dose além do que é con- vencionalmente empregado é contra-indicado no momento39. Ablação ovariana (cirúrgica, radioterápica ou análogos de LHRH ou GnRH) nas pacientes pré-menopausadas está associada à redução do risco de recidiva e morte na ausência de utilização da quimioterapia33. Terapia Biológica: Tratamento ainda de uso restrito, em que através de anti- corpo monoclonal se bloqueia o crescimento das células tumorais. Algoritmos de conduta - Carcinoma lobular in situ ↓↓↓↓↓ Marcador de risco Biópsia excisional Considerar tamoxifeno 20 mg/dia por 5 anos Cirurgia conservadora e radioterapia* Carcinoma ductal in situ T< 2cm e T≥≥≥≥≥ 2cm ou Margens livres Multicentricidade Tamoxifeno 20 mg/dia por 5 anos Comedocarcinoma e/ou GIII realizar linfadenectomia de base da axila ou dissecção de linfonodo sentinela * Em casos selecionados pode-se omitir radioterapia 418 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia SEGUIMENTO Está demonstrado queo prognóstico das pacientes trata- das de câncer de mama não muda se houver intensa propedêutica para diagnosticar metástases a distância subclínicas ou se a propedêutica for mínima40 . Por isso, a recomendação básica é a de exame clínico 3-6 meses nos primeiros 2 anos após o tratamento e depois anual- mente. É importante que a mamografia seja anual para acompa- nhamento das mamas tratadas conservadoramente “screening” das mamas contra-laterais e que a primeira mamografia após cirurgia conservadora seja realizada em 6meses40. Algoritmos de conduta – Carcinoma invasor T < 3cm ↓↓↓↓↓ Marcador de risco Cirurgia conservadora Linfadenectomia axilar* Radioterapia de mama (“boost”opcional) * A linfadenectomia axilar pode ser orientada pela biópsia do linfonodo sentinela Carcinoma invasor T ≥ 3cm* (ou casos que não preencherem os pré-requisitos para cirurgia conservadora) Mastectomia radical ou radical modificada Considerar a reconstrução imediata ou tardia Não indicar radioterapia T< 5cm Axila negativa Ausência de comprometimento De pele ou músculo Radioterapia Complementar E I, II e IIa com 1-3 E IIIb ou qualquer caso com Linfonodos axiliares pelo menos 4 linfonodos Axilares comprometidos Plastrão Plastrão Fossa supraclavicular Fossa supraclavicular Mamária Interna 419 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Após o tratamento do câncer, durante o seguimento da doente, vai ser usada a mamografia e o ultrassom com a finali- dade de monitorar a mama contralateralmente e diagnosticar recidiva, ou novo tumor da mama tratada. Deve-se lembrar que a mama operada vai se apresentar com modificações devi- do à retirada de parte da mesma. Dessa forma pode-se ter di- minuição de seu volume, presença de distorção da sua arquite- tura, área de fibrose cicatricial (tanto da pele quanto do parênquima), retrações, calcificações (por necrose dos tecidos ou de suturas) presença de prótese, reparo metálico, processo reacional ao tratamento radioterápico que trazem dificuldades Quimioterapia Adjuvante T< 1cm T≥< 1cm Não está indicada Estádios I e IIa com Estádios IIb, III ou qualquer Linfonodos axilares livres estádio com linfonodos - CMF - FAC - FAC ou FEC - FEC - AC - A CMF - AC Taxanos - Taxanos - CMF (em função de idade avançada ou condições clínicas desfavoráveis) Hormonioterapia Adjuvante - Tamoxifeno 20 mg/dia por 5 anos Se os receptores estrogênis e/ou de Progesterona forem positivos (independente do estado menstrual) ou na pós-menopausa com receptores não avaliados 420 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia de interpretação dos achados. As alterações encontradas são freqüentes nos primeiros anos após o tratamento mas tendem a se atenuar e se estabilizam com o passar dos anos. O seguimento da doente também é feito no sentido de se diagnosticar as metástases à distância. Para tanto ao lado da anamnese e do exame físico o médico poderá diante de acha- dos físicos e da sintomatologia da paciente se valer de exames como Rx de tórax (meta tórax) USG abdome (meta hepática ou anexial) cintilografia (meta óssea), T.C. (meta cerebral) ou pedir logo um PET SCAN para avaliar o corpo todo. Caso não haja queixas e nem achados físicos, por estudos feitos, não se justifica a solicitação destes exames como rotina. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Johnson-Thompson MC, Guthrie J. Ongoing research to identify environmental risk factors in breast carcinoma. Cancer 2000; 88:1224-9. 2. Bilmoria MM. The woman at increased risk for breast cancer:evaluation and management strategies. Cancer 1995; 45:263-78. 3. Morgan JW, Gladson JE, Rau KS. Position paper of the American Council on Science and Health on risk factors for breast cancer:established, speculated and unsupported. Breast J 1998; 4:177-97. 4. Fitzgibbons PL, Page DL, Weaver D, et al. Prognostic factors in breast cancer. College of American Pathologists Consensus Statement 1999. Arch Pathol Lab Med 2000; 124:966-78. 5. Carter CL, Allen C, Henson DE. Relation of tumor size, lymph-node status and survival in 24740 breast cancer cases. Cancer 1989; 63:181-7. 6. Schnitt SJ, Abner A, Gelman R, et al. The relationship between microscopic margins of resection and the risk of local recurrence in patients with breast cancer treated with breast conserving surgery and radiation therapy. Cancer 1994; 74:1746-51. 7. 8° Reunião Nacional de Consenso. Sociedade Brasileira de Mastologia. Grama- do; 2001. 8. Allred DC, Jennet M, Harvey JN, et al. Prognostic and predictive factors in 421 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia breast cancer by immunohistochemical analysis. Mod Pathol 1998; 11:155-68. 9. Fleming ID, Cooper IS, Henson DE, et al. AJCC Cancer Staging Manual. Philadelphia: Lippincott; 1997. 10. Bodian CA, Perzin KH, Lattes R. Lobular neoplasia. Long-term risk of breast cancer and relation to other factors. Cancer 1996; 78:1024-34. 11. Fisher B, Constantino JP, Wickerhn DL, et al. Tamoxifen for prevention of breast cancer: report of the National Surgical Adjuvant Breast and Bowel Project P-1 study. J Natl Cancer Inst 1998; 90:1371-88. 12. Schwartz GF, Solin LJ, Olivotto IA, et al. The consensus conference on the treatment of in situ ductal carcinoma of the breast. Breast J 2000; 6:4-13. 13. Solin LJ, Kurtz J, Fourquet A, et al. Fifteen-year results of breast conserving surgery and definitive breast irradiation for the treatment of ductal carcinoma in situ of the breast. J Clin Oncol 1996; 14:754-63. 14. Silverstein MJ, Poller DN, Waisman JR, et al. Prognostic classification of breast ductal carcinoma in situ. Lancet 1995; 345:1154-7. 15. Silverstein MJ, Lagios MD, Groshen S, et al. The influence of margin width on local control of ductal carcinoma in situ of the breast. N Engl J Med 1999; 340:1455-61. 16. Fisher B, Dignam J, Wolmark N, et al. Tamoxifen in treatment of intraductal breast cancer: National Surgical Adjuvant Breast and Bowel Project B24 randomized controlled trial. Lancet 1999; 353:1993-2000. 17. Veronesi U, Salvadori B, Luini A, et al. Conservative treatment of early breast cancer. Long-term results of 1232 cases treated with quadrantectomy axillary dissection and radiotherapy. Ann Surg 1990; 211:250-9. 18. Veronesi U, Salvadori B, Luini A, et al. Breast conservation is a safe method in patients with small cancer of the breast. Long-term results three randomized trials on 1973 patients. Eur J Cancer 1995; 31A:1567-9. 19. Barros ACSD, Carvalho FM, Souen JS, et al. Experiência com a avaliação intraoperatória das margens cirúrgicas no tratamento de carcinoma invasor inici- al de mama: influência na conduta imediata. Rev Ginecol Obstet 2000; 11:231- 6. 20. Pinotti JA, Barros ACSD, Teixeira LC, et al. Carcinoma invasor inicial de mama: efeito do tratamento orientado pela avaliação intraoperatória das margens cirúrgicas sobre o prognóstico oncológico. Rev Soc Bras Mastol 2000; 10:169- 76. 21. Hsueh E, Hansen N, Giuliano A. Intraoperative lymphatic mapping and sentinels lymph node dissection in breast cancer. CA Cancer J Clin 2000; 50: 279-91. 22. Sociedade Brasileira de Mastologia 7ª Reunião Nacional de Consenso. Biópsia do linfonodo sentinela no câncer de mama. Salvador; 2000. 23. NCCN Practice Guidelines for breast cancer. National Compreheensive Cancer Netwook. Disponível em URL: http://www.nccn.org. 422 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia 24. Brenelli HB. Influência da reconstrução imediata com retalho miocutâneo abdo- minal no prognóstico e na qualidade de vida da mulher com câncer de mama [tese]. Campinas: Universidade Estadual de Campinas; 1994. 25. Fisher B, Anderson S, Redmond CK, et al. Reanalysis and results after 12 years of follow-up in a randomized clinical trial comparing total mastectomy with lumpectomy with or without irradiation in the treatment of breastcancer. N Engl J Méd 1995; 333:1456-61. 26. Hammer J, Van Limbergen E. Consensus meeting on breast cancer: to boost or not to boost and how to do it. Stresa: European Society for Therapeutic Radiology and Oncology; 2001. 27. Fisher B, Costantino J, Redmond C, et al. Lumpectomy compared with lumpectomy and radiation therapy for the treatment of intraductal breast cancer. N Engl J Méd 1993; 328:1581-6. 28. Overgaard M, Hansen P, Overgaard J, et al. Postoperative radiotherapy in high- risk premenopausal women with breast cancer who receive adjuvant chemotherapy. N Engl J Med 1997; 337:949-54. 29. Ragaz J, Jackson SM, Le N, et al. Adjuvant radiotherapy and chemotherapy in nodepositive premenopausal women with breast cancer. N Engl J Med 1997; 337:956-62. 30. 7th International Conference – St. Gallen/Switzerland. Adjuvant therapy of primary breast cancer (abstract book); 2001. 31. Fisher B, Brown A, Mamounas E, et al. Effect of preoperative chemotherapy on locoregional disease in women with operable breast cancer: findings from National Surgical Adjuvant Breast and Bowel Project B-18. J Clin Oncol 1997; 15:2483-93. 32. Bonadonna G, Valagussa P, Brambilla C, et al. Primary chemotherapy in operable breast cancer: eight-year experience an the Milan Cancer Institute. J Clin Oncol 1998; 16:93-100. 33. Early Breast Cancer Trialists’ Collaborative Group. Ovarian ablation inearly breast cancer: an overview of the randomized trials. Lancet 1996; 348:1189- 96. 34. Mansour EG, Gray R, Shatila AH, et al. Survival advantage of adjuvant chemotherapy in high-risk node-negative breast cancer: tenyear analysis – an intergroup study. J Clin Oncol 1998; 16:3486-92. 35. Early Breast Cancer Trialists’ Collaborative Group. Polychemotherapy for early breast cancer: an overview of the randomized trials. Lancet 1998; 352:930-42. 36. Levine MN, Bramwell VH, Pritchard KI, et al. Randomized trial of intensive cyclophosphamide, epirubicin, and fluorouracil chemotherapy compared with cyclophosphamide, methotrexate, and fluorouracil in premenopausal women with node-positive breast cancer. J Clin Oncol 1998; 16:2651-8. 37. Henderson IC, Berry D, Demetri G, et al. Improved disease-free and overall 423 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia survival from addition of sequential paclitaxel but not from escalation of doxorubicin dose level in the adjuvant chemotherapy of patients with node- positive primary breast cancer. Proc Am Soc Clin Oncol 1998; 17:101a. 38. Budman DR, Berry DA, Cirrincione CT, et al. Dose and dose intensity as determinants of outcome in the adjuvant treatment of breast cancer. J Natl Cancer Inst 1998; 90:1205-11. 39. Fisher B, Anderson S, Wickerham DL, et al. Increased intensification and total dose of cyclophosphamide in a doxorubicincyclophosphamide regimen for the treatment of primary breast cancer: findings from National Surgical Adjuvant Breast and Bowel Project B-22. J Clin Oncol 1997; 15:1858-69. 40. Del Turco MR, Palli D, Cariddi A, et al. Intensive diagnostic follow-up after treatment of primary breast cancer. JAMA 1994; 271:1593-7. 41. Projeto Diretrizes. Ass.Méd.Bras e Conselho Federal de Medicina. Agosto 2001. 42. Harris JR, Lippman ME, Marrow M, Osborne CK. Disases of the Breast. 2a. edição. Lippincott W&W. 43. Donegon WL and Spratt JS. Cancer of the Breast. 4a. edição. W.B. Saunders. 44. Tabar L. and Dean Peter. Mamografia 2a. edição Revinter. 45. Gamagami P. Atlas of Mamography 1a. edição. Blackwell Sicence 46. Pasqualette HA. Koch HA, Soares-Pereira PM, Kemp C. Mamografia atual 1a. edição Revinter. 47. Bland KI and Copeland EW. A Mama. 1a. edição Manole Ltda. 424 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia XVI. REFLEXÕES A RESPEITO DA POSTURA DO PROFISSIONAL EM MASTOLOGIA / MAMOGRAFIA Eduardo Navajas Filho Muito se poderia escrever e pensar sobre o tema propos- to, mas nos ateremos aos aspectos relacionais e terapêuticos destas especialidades e procedimentos médicos. Daremos ênfa- se a como pode se processar o que acontece do ponto de vista emocional nestas atividades profissionais. Ao receber, estas pacientes não me atenho tanto aos as- pectos clínicos e patológicos presentes mas em que pessoa (pa- ciente) está acontecendo tudo isto. Procuro entender como que elas sentem e processam tal ou qual situação e aconteci- mentos clínicos, e tanto quanto possível procuro co-relacionar este funcionar dinâmico-emocional com os mesmos. Assim, se houver depressão e/ou ansiedade procuro loca- lizar isto não só por ocasião do aparecimento dos sintomas mas dentro de um contexto histórico-pessoal e da sua subjetivida- de, procurando assim ajudar a paciente a entender os sentidos de seu infortúnio e sofrimento e podendo elaborá-los dentro do processo terapêutico possível. Entendemos por subjetividade as manifestações do sujei- to, ou seja, de como a pessoa sente e processa os acontecimen- tos da vida, e é de natureza, como não poderia deixar de ser, basicamente emocional. É parte constante desta subjetivida- de, a sexualidade das pessoas incluindo aí seus relacionamen- tos interpessoais e sua atividade sexual. 425 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Diga-se a bem da verdade, que levamos anos num proces- so complexo para realizarmos esta tarefa. De maneira nenhuma deixamos de considerar que para os médicos de especialidades clínicas e cirúrgicas, por não terem esta formação, resulta difícil este proceder com relação aos aspectos emocionais das pacientes. É preciso reconhecer que não é tarefa fácil integrar de modo eficiente e eficaz as emoções que acontecem no encontro médico-paciente, tanto do ponto-de-vista das pacientes quan- to do médico, com o estabelecimento de condutas, sejam clíni- cas ou cirúrgicas. Em outras palavras, Integrar o subjetivo com a objetividade que o ato médico implica. Não obstante, no cotidiano clínico de qualquer especia- lidade clínica, a dimensão emocional é inerente e presente sem- pre, muitas vezes determinantes de como se dá a consulta, o prognóstico e conduta adotados. Não reconhecer isto pode comprometer parcial ou totalmente o processo terapêutico em curso. Em toda consulta médica sabemos que o clima é denso, intensamente emocional e que muitas vezes a objetividade com que a paciente é atendida não contempla os aspectos emocio- nais presentes que estão demandando atenção nestas ocasiões. É desejável que se constitua uma aliança terapêutica que é quando há um entendimento mútuo da situação em curso, bem como uma cumplicidade de ambos no sentido de benefi- ciar do melhor modo possível o atendimento à paciente e seu tratamento. É sobre isto que nos propomos a abordar e desenvolver este tema de tal modo que possa resultar útil e benéfico para os colegas na sua função terapêutica e, principalmente, para os pacientes. 426 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Temos atendido, como dito anteriormente, algumas pes- soas que nos foram encaminhadas por colegas clínicos ou ci- rurgiões com o peso e a suspeita de diagnostico de malignidade e pude constatar as mais variadas reações e conseqüências em suas vidas, do casal bem em suas famílias, a partir desta cir- cunstância principalmente após confirmado o diagnóstico. Tais reações variam de intensidade e qualidade depen- dendo da personalidade do paciente, sua dinâmica e contexto de vida, seja do casal ou de sua família. Mesmo que esses fatores aparentemente estejam favoráveis esta condição não absolutamente impede reações e conseqüências até desastrosas. Desastrosas a que me refiro são reações de intensa angústia e depressão após o diagnóstico e antes dele a simples sus- peita era carregada de muitas fantasias e ansiedade. Penso que es- tas constatações não são exclusividade de nossa clínica, é muito mais observável nos consultórios e clínicas daqueles que nos enca-minham. Daí ser imprescindível para eficiência e eventual êxito do trabalho médico, que o mesmo se intere destes aspectos da vida da paciente e é por aí que a mesma sente o interesse e presença do médico bem como sua disponibilidade de escutá-la , formando o que se chama de vínculo afetivo-emocional através do qual o mé- dico pode exercer sua função terapêutica. Então podemos dizer e pensar que o processo terapêutico de qualquer paciente começa por ocasião da percepção do des- conforto ou sintoma seguido da decisão de procurar este ou aquele médico. É bem verdade que existem inúmeros pacien- tes que, frente a seu quadro clínico, postergam a procura de profissionais ou simplesmente não os procuram , numa clara atitude de negação ou não enfrentamento do problema. 427 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Imaginemos uma pessoa, mulher, no nosso caso específi- co, que ao fazer o auto-exame na hora do banho, como é reco- mendação dos especialistas da área, nota um “caroço” no seio direito e também algumas “bolinhas” na axila correspondente. Tentemos pensar e sentir com empatia e sensibilidade o que pode passar por sua mente, o que este achado mobiliza bas- tando para isso, observar reações na clínica, seja ginecológica, mastológica ou psiquiátrica/psicoterápica e interagir com elas. A angústia da dúvida de não saber ao certo do que se trata, “Pode ser maligno?”. Esta incerteza mobiliza como dissemos uma avalanche de emoções nas pacientes , umas de forma mais contida e não menos intensa, outras de forma mais explícita e expansiva. É compreensível que aparecem sim, intuições e fantasias sombrias sobre o que aconteceria se fosse confirmada a suspeita acima, justamente pelo seu gineco, masto ou imagenologista nem sempre nesta ordem. É justamente sobre estes profissionais que recai toda esta intensa carga emocional composta de sentimentos, ressentimen- tos, ódio da realidade (de um eventual diagnóstico maligno)., de não entender porque justamente “acontecer isto” neste momento da vida, do porque ser “comigo”, etc. Isto pode levar há um comprometimento da auto-esti- ma da paciente, desestruturar casamentos dependendo de como e em que condições e dinâmica pré-existentes, bem como, a dinâmica de sua família. Sentimentos de solidão e mágoas da vida podem ser in- tensificados nestas circunstâncias, sem que a paciente encontre oportunidade de se comunicar com alguém sobre tudo isso, tendo apenas a chance de falar com aquele profissional que 428 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia está prestes a fazer o diagnóstico. Isso caracteriza uma situação clínica difícil de lidar do ponto-de-vista emocional. Deman- dando certas atitudes que não se ensinam em livros, mas que podem ser apreendidas por experiência clínica , mas muito mais, por supervisão e convivência com psicoterapêutas , tanto a ní- vel de clínica privada como em equipes multi e interprofissionais. É preciso pensar o diagnóstico e a doença como episódios críticos da vida e , como já dissemos, mobilizam fantasias e esta- dos mentais que acabam sendo determinantes do prognóstico e evolução clínicos destes quadros. É freqüente observar que o diagnóstico e a doença possam desencadear além de problemas específicos daquela circunstância desencadeiem também lem- branças, traumas, perdas e mágoas de outras épocas da vida. Potencializando assim, a carga emocional do diagnóstico atual . Não queremos caracterizar um perfil psicológico destas pacientes, mas sim se elas realmente buscam a oportunidade de conversar sobre tudo isso com seu gineco/masto, complementado pela capacidade destes profissionais de ter es- cuta, sensibilidade e capacidade de empatia e, como conseqüên- cia disso, poder entender o sofrimento. Não existe condição melhor onde se pode notar a de- manda da paciente de ser atendida e compreendida no seu sofrimento. É preciso atender e compreender do ponto de vis- ta do profissional, tudo isto acontecendo, antes de se pensar em qualquer encaminhamento para psiquiatra/psicoterapia. A paciente sente e percebe que o médico está presente na escuta de suas queixas, percebe também a disponibilidade do mesmo, bem como serve de continência para estas fantasias e/ou pensa- mentos que produzem angústia e/ou depressão . Isto é o prin- 429 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia cípio da psicoterapia de qualquer médico fora da área mental. A psicoterapia, como um processo, começa justamente no consultório do médico clínico que atende a paciente. E é deste período que, dependendo de como ele é feito, se dá con- tinuidade ao processo psicoterápico através do encaminhamen- to, exitoso ou não, para profissionais específicos. É preciso que a paciente não se sinta encaminhada para estes profissionais sem que ela entenda, emocionalmente, o por- que do mesmo. E ao chegar a estes profissionais encontra senti- do em sua presença nesse lugar, e daí possa dar continuidade ao que aí foi fazer. A ênfase não é tanto no quadro psicopatológico, depres- são por exemplo, nem em perfis psicológicos, ou ainda, no co- nhecimento deste tema pelo gineco/masto, mas sim na combi- nação de escuta, sensibilidade, capacidade de empatia do pro- fissional com a facilidade ou dificuldade da paciente se expor emocionalmente e se sentir compreendida e acolhida, ao mes- mo tempo que compreender e acolher o que diz o médico. Em outras palavras, compreender e ser compreendida. Antes de qualquer encaminhamento para profissionais da área mental, psiquiatra e/ou psicoterapeuta , é absulotamente imprescindível , e disso depende o êxito do mesmo, é impor- tante ressaltar que o médico saiba do que se passa com aquela paciente e avalie basicamente quais os recursos disponíveis para tratá-la, seja tratamento medicamentoso ou psicoterápico, ou em outras palavras, quando o gineco-masto é suficientemente informado e sabe discriminar desde o seu consultório após tri- agem , para quem encaminhar. É importante considerar também que, além das caracte- 430 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia rísticas da personalidade da paciente, a sua faixa etária combi- nadas. Por exemplo uma jovem menos estruturada emocional- mente e uma mulher de mais idade com mais recursos emocio- nais ou vice-versa. Queremos enfatizar que absolutamente não se trata de exi- gir do médico nenhuma técnica psicoterápica específica formal para estas pacientes, mas principalmente ser terapêutico, o que compreende escuta, empatia sensibilidade e, claro, o conheci- mento básico do tema que é inerente à clínica gineco-mastológica. É importante para o mastologista que ele procure se in- teirar do histórico e das características emocionais de sua pa- ciente, para poder adequar a sua comunicação desses diagnós- ticos dentro de um “timing”. Recomenda-se também, do ponto de vista do papel terapêutico do médico, que a escuta não seja uma escuta passi- va mas sim seletiva, atenta ao que é comunicado para si e ao que ele irá comunicar à sua paciente, sempre levando em con- sideração o “timing” desse encontro. Quando falamos em subjetividade não nos referimos àque- la das pacientes que atendemos mas do que esta subjetividade provoca na nossa. E é desta interação que chamamos de intersub- jetividade que é o terreno onde acontece determinante da quali- dade e êxito ou não, de uma consulta ou tratamento médico. É importante assinalar que, além da formação profissio- nal específica em questões emocionais presentes no cotidiano clínico, é desejável que o médico clínico/cirurgião à semelhan- ça do que é imprescindível na formação de psicoterapeutas psicodinâmicos e psicanalista, que se tome essa iniciativa. Disso decorre que o básico para fazer o encaminhamen- 431 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia to para psicoterapia é que este profissional realmente acredite na possibilidadede eficiência da mesma, até por experiência própria como paciente, e isto, de algum modo, será repassado e sentido pelas pacientes como algo que lhes poderá ser útil e verdadeiro, na medida em que poderão ser contemplados os complexos aspectos emocionais sempre presentes nas diferen- tes situações clínicas nesta ou naquela paciente. Em outras palavras, é estar presente no momento da con- sulta e durante o tratamento procurando ser neutro, mas pelo menos, não distante ou defendido emocionalmente. Sabemos que não é fácil conseguir isto, pois demanda formação profis- sional e, principalmente, pessoal, além de supervisão. Podemos afirmar que é impossível não se emocionar por ocasião do atendimento médico, seja ele clínico, cirúrgico ou exa- me subsidiário de tecnologia de ponta, como é o caso da mamo- grafia, mas é fundamental saber o que fazer com estas emoções. Não se emocionar, reprimir a emoção, distanciar-se da paciente poderá comprometer, parcial ou totalmente, a opor- tunidade de ser terapêutico durante a consulta e o processo terapêutico. Ressalvando , é claro, a objetividade necessária para a conduta adequada. É preciso que o gineco-masto considere que dependendo do diagnóstico, ao se proceder a conduta médica adequada para esta ou aquela pessoa , pode implicar em mutilações que irão, como já dissemos mobilizar intensas reações emocionais que en- volvem não apenas a paciente, mas o casal e sua família. É preciso pensar também que do ponto-de-vista do médico, embora am- parado por conhecimentos e experiência clínica/cirúrgica obje- tivos haverá um “custo” emocional subjetivo para o mesmo. 432 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Por ocasião do encaminhamento ao imagenologista após feito vínculo com o gineco- masto há o risco de que o primeiro passe a ser o “ carrasco” da situação, por fazer um diagnóstico de malignidade por meios “tecnológicos e frios”. Isso nos leva a pensar qual é o lugar da atenção ao emoci- onal em meio a tanta tecnologia de ponta e precisão diagnósti- ca, mas que não evitariam, pelo menos atualmente, as condutas cirúrgicas, como a mastectomia parciais ou radicais , além de quimioterapias, e obviamente suas conseqüências emocionais. Se nos propusermos fazer e pensar o que foi referido aci- ma estaremos nos aproximando do que é essencial da profissão médica, ou seja, ser terapêutico, poder ajudar e aliviar o sofri- mento dos nossos pacientes sensu lato, ou seja, integrando a tecnologia de ponta e o progresso científico ao emocional. Dependendo desta relação podemos pensar ao que se fala como consentimento informado ou, como se diz, atualmente, decisão compartilhada sem tantos riscos de surpresas e turbu- lências emocionais que isso possa implicar. Como dissemos desde o início há inúmeros aspectos, nes- ta temática, que geralmente não são simples e estão interligados, demandando sempre a nossa atenção e pensamento. No entan- to, não é possível abarcá-los todos, muito menos solucioná-los, mas sempre buscando caminhos possíveis e adequados a cada pessoa (paciente) que já atendemos, e que iremos atender. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS · FREUD, S. - Obras Completa . Rio de Janeiro(RJ). Imago; Edição Estandard Brasileira – 1976 · BALINT, MICAHEL Y ENID - Técnicas Psicoterapêuticas em Medicina . . Siglo XXI Editores, S. A. México, 12 Distrito Federal – 1966 433 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia · BALINT, MICAHEL - the Doctor , His patient and the Illness(1957) – 2ª Ed. Revista – Pitman Paperbacks - 1968 · PERESTRELLO, D.; Medicina da Pessoa – Editora Atheneu; 4ª Edição - 1974 · KRISCHNAMURTI - O mistério da compreensão – Cultrix – São Paulo – 1992 · McDOUGALL, J. – Teatros do Corpo – Livraria Martins Fontes Editora – 1991 · BACON, S.L.; RENNECKER, R. & CUTLER, M. – A psychosomatic survey of cancer of the breast – PSYCHOSOM. MED 14; 453/458 – 1952 · DEWIT, J.E. – The enigmatic behavior of breast cancer - CANCER vol 27 ; 12 – 1971 · STOLL, BASIL, A. Mind and Cancer prognosis; John Wiley Sons; London – 1979 · EKSTERMAN, A. O Corpo como linguagem - X Congresso Brasileiro de Psicanálise, rio de Janeiro - 1985 434 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia XVII. ASPECTOS MÉDICOS LEGAIS DA MAMOGRAFIA João Baptista Optz Jr Para se falar do aspecto médico legal em mamografia, a que se lembrar que trata-se de metodologia não invasiva, po- rem, que pode provocar procedimentos invasivos. Significando dizer que tem que ser considerado a condi- ção de co-responsabilidade entre as conclusões contidas num laudo mamográfico e a conseqüência gerada sobre o aspecto de dano psicológico, material e moral do resultado contido no laudo. Por outro lado, por definição não se poder pensar em exame “defensivo”, ou seja, deixar de considerar de forma es- crita aspectos que possam sob o ponto de vista diagnóstico ter importância na evolução do estudado mamograficamente. Este e o principal segredo para que o mamografista mantenha o equilíbrio entre seu resultado escrito e as conseqüências por ele geradas ao paciente e ao médico que solicitou a investigação. Sem contudo perder a maestria e importância do exame no prognóstico e procedimento a ser adotado. Sendo assim entendo de fundamental importância para o mamografista a definição dos conceitos jurídicos básicos aos quais está submetido no exercício de sua profissão. RESPONSABILIDADE Designa a situação especial de toda pessoa, física ou jurí- dica, que infringe norma ou preceito de direito objetivo e que, em decorrência da infração, que gerou danos, fica sujeita a determinada sanção. (J. Cretella Júnior). 435 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Responsabilidade civil contratual Aquela que decorre do descumprimento de uma cláusu- la contratual, ensejando prejuízos a um dos contratantes – Art. 1056 do Código Civil: “não cumprindo a obrigação, ou deixan- do de cumpri-la pelo modo e no tempo devidos, responde o deve- dor por perdas e danos”. Responsabilidade civil extracontratual Aquele em que o agente causador do dano não está liga- do à vitima por laços contratuais. Por ser expressa pelo Artigo 159 do Código Civil: “Aquele que, por ação ou omissão voluntá- ria, negligência ou imprudência violar direito, ou causar prejuí- zo a outrem, fica obrigado a reparar o dano”. CULPA Em sentido amplo, é a falta cometida contra o dever, por ação ou emissão precedida de ignorância ou negligência – re- vela a violação de um dever preexistente, implicando sempre a falta de diligência que é devida na execução do ato a que se está juridicamente obrigado. DOLO Ocorre quando há positiva intenção de causar o dano. Tipos de culpa contratual In abstrato ou objetiva: se a falta era evitável, caso houvesse emprego de diligência ou cuidados comuns, por parte do agente. In concreto ou subjetiva: quando o agente causador do dano revela falta de atenção ou omissão involuntária da diligencia, que normalmente emprega nos seus negócios. 436 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia In comittendo ou positiva: quando a falta se origina de uma ação ou ato positivo que ocasiona lesão ao direito de al- guém. In omittendo ou negativa: quando a falta é motivada por omissão ou abstenção da prática do ato. Tipo de culpa extracontratual ou de terceiro In eligendo: quando o dano provém da falta de cautela ou providência na escolha do preposto. In vigilando: quando o dano é causado pela falta de dili- gência, vigilância, atenção, fiscalização ou qualquer outro ato de segurança por parte do agente no cumprimento do dever. O RISCO E A RESPONSABILIDADE CIVIL Risco É a possibilidade de perigo por acontecimento eventual incerto, mas previsível, que ameaça de dano à pessoa ou a coisa. Teoria do risco O risco determina que o seu responsável suporte as con- seqüências de seus atos,mormente quando são sintetizados em danos a terceiros, ainda que sem culpa, bastando o fato nocivo ser um efeito, cuja causa esteja no simples desenvolvimento da atividade humana, na atividade profissional – cabe a responsabilização do agente independente de culpa. SUJEITOS DA RESPONSABILIDADE CIVIL Sujeito passivo Pessoa natural ou jurídica sobre quem atua o direito de outrem, ou perante a qual é obrigado (réu). 437 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Sujeito ativo Pessoa natural ou jurídica que tem o poder de exercitar certo direito subjetivo de que é titular, em virtude de lei ou contrato – no caso de morte os sucessores. SOLIDARIEDADE QUANTO À RESPONSABILIDADE CIVIL A solidariedade corresponde a coexistência e interdependência de direitos, obrigações, ou responsabilida- des comuns a várias pessoas, num mesmo ato ou fato. Há soli- dariedade quando, na mesma obrigação, concorre mais de uma credor ou mais de devedor, cada um com um direito, ou obri- gado à dívida toda. Ordinariamente, no caso de responsabilidade solidária, a vitima pode acionar qualquer um dos co-responsáveis ou to- dos, para quitar parte ou o total da indenização devida. Ao co- responsável solidário que quitou o total da indenização, caberá a parte proporcional que lhe couberem. DANO Todo mal ou ofensa que tenha uma pessoa causada a ou- trem, quer em razão da existência de um vínculo contratual, quer extracontratualmente. Há sempre um nexo psicológico entre o autor e o fato por ele praticado que resultou no dano, o qual configura sempre um ilícito: a culpabilidade. O requisito fundamental para efeito do dever de indeni- zar á a dano, o prejuízo causado a outrem – não há indenização se não há dano a ser ressarcido. 438 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Classificação do dano · Simples: compõem-se de apenas em elemento. · Qualificado: cometido com violência ou outro meio que o torne mais grave. · Atual ou iminente: quando está preste a verificar-se. · Material ou patrimonial: afeta diretamente um bem material. · Moral: quando afeta os bens de ordem moral, relacio- nados à liberdade, honra, pessoa, família, atividade profissio- nal etc. · Ex delicto: resulta da prática de um ilícito penal. · Irreparável: aquele que provocou uma perda ou preju- ízo irreversível. · Coletivo: quando lesa ou ofende direitos de um grupo de indivíduos. Dano moral – responsabilização civil Não se pode negar as ligações e relações entre o Direito e a Ética – do grego ethos, significando costume – como padrão de comportamento, sancionado pela sociedade que o adotou. A ética designa a reflexão sobre a moralidade, as regras e os códigos morais – que norteiam a saúde humana – esclarece e sistematiza as bases do fato moral e determina as diretrizes e os princípios abstratos da moral. A moral vem a ser o conjunto de prescrições a respeito do comportamento humano, no que concerne a condutas con- sideradas lícitas e ilícitas, estabelecidas e aceitas numa época por determinada comunidade humana. Assim, o dano moral, diz respeito a ofensa ou violação que não fere os direitos patrimoniais, mas sim os seus bens de 439 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia ordem moral, referentes a sua liberdade, honra (pessoal e fami- liar), reputação, conceito social, estima, etc. Segundo Cícero: “honos praemium virtutis” (a honra é o prêmio da virtude). Associe-se a isto alguns fatores de cunho social que envol- vem o profissional médico: 1. Baixo nível na formação técnico profissional 2. Carência de recursos tecnológicos na maioria dos hospitais. 3. Perda do status médico com a socialização da medicina. 4. Ausência de hábito do médico em escrever e descrever seus procedimentos, recorrendo a siglas e abreviações. 5. Exploração do profissional por capital nacional e estrangei- ro. 6. Pobreza populacional e alto custo do exercício da medicina. 7. Baixa remuneração do médico, dificultando a atualização e reciclagem profissional, levando-o a sujeitar-se às regras do capital. 8. Nenhuma formação e informação técnico-jurídica do pro- fissional médico. 9. Vislumbramento da população de enriquecimento fácil pela falta de formação inata do brasileiro. 10. Mudança da relação médico-paciente oriunda das trans- formações sociais influenciadas pela maior conscientização populacional de seus direitos. RESPONSABILIDADE DO MÉDICO Fenômeno médico-jurídico – relação médico paciente Alguns apontam a opinião de que o exercício da ativida- de médica, na época contemporânea, perdeu completamente 440 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia a grandeza da sua função social, transformando-se num inescrupuloso (e, atualmente, nem sempre lucrativo) negócio, salvo honrosas exceções. A medicina também é uma forma de saber que atribui a um sujeito “um poder de vida e morte”, de separar a saúde da doença, reproduzindo as relações de poder da sociedade como um todo. Assim, o médico é obrigatoriamente responsável pelo bom uso deste poder. Concepção da responsabilidade contratual do médico A atividade médica: configura um contrato entre médi- co e paciente, de molde a caracterizar a hipótese semelhante ao do mandato? O simples fato de considerar a atividade médica como contratual não tem o condão, ao contrário do que poderia pa- recer, de presumir a culpa, como acontece nos contratos civis comuns. O princípio é no sentido de que ao cliente incumbe provar a inexecução da obrigação, por parte do profissional. Diz-se, juridicamente, que o ônus da prova é do paciente. Exis- tem, contudo, exceções, que serão apontadas. Saliente-se que a “prova” supracitada não é tão difícil de ser produzida: diagnós- ticos diferenciais ou mesmo perícias médicas judiciais (sempre realizadas nas ações envolvendo erros médicos) podem ser soli- citadas pela vítima e comprovarem a culpa do profissional, es- tabelecendo o nexo causal entre a sua conduta e os danos ocor- ridos na vítima. Relacionamento médico-paciente Consulta = apuração de sintomas + solicitação de exames e pareceres complementares + obtenção de um diagnóstico + 441 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia elaboração de um prognóstico + estabelecimento da melhor terapêutica a ser adotada. Qualquer erro neste processo pode assumir graves conseqüências. Obrigação de meio e obrigação de resultado no campo médico Teoricamente e, via de regra, a obrigação do médico para com o seu paciente é classificada como uma “obrigação de meio”, ou seja, obriga-se a diligenciar, a empregar todos os meios téc- nicos disponíveis para o exercício de sua função, sem, todavia, garantia do resultado. Diz-se, ainda no plano teórico, que se o resultado não for à cura, o médico não pode sofrer sanção, a menos que tenha cometido negligência, imprudência ou im- perícia. Entretanto, até pelo fato de a Medicina não ser uma ci- ência exata, mas sim de conceitos e verdades transitórias, tal conceito não é absoluto: a relação do médico para com o paci- ente pode, em grande parte dos casos, ser caracterizada como uma obrigação de resultado (ou mista, de meio e de resultado), em que o médico se obriga a realizar certo fim, além da cogita- ção dos meios – a execução considera-se atingida quando o médico cumpre o objetivo final. Tal questão é de fundamental importância para a avalia- ção da responsabilidade do médico e somente será definida pelos registros e provas das condutas adotadas em face de todas as circunstâncias que o caso apresentou ao profissional. Alguns exercícios da atividade médica podem, entretan- to, ser encarados absolutamente como uma obrigação mista (de meio e de resultado): · Ao médico anestesista cabe atingir um resultado único. · Quanto ao cirurgião plástico também temos a mesma 442 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia situação, a menos que se trate de umacirurgia reparadora. · Aos procedimentos médicos desnecessários para preser- vação da saúde do paciente, ou sem caráter reparador, solicita- do muitas vezes para o atendimento da vaidade do paciente: cabe a execução de um resultado único, preestabelecido. Que, levaram à avalanche de ações que hoje tramitam em nossos egrégios tribunais. Chega-se ao cúmulo de denomi- na-se “erro médico” as ações e inquéritos que investigam proce- dimentos oriundos de atos médicos, sem ter-se concluído pela culpa ou não do profissional, o que chega a ser um pré-julga- mento, pois, quando duma interpelação já se intitula como erro, subentende-se o profissional cometeu engano e conseqüente- mente deverá ser punido; sendo que não se pode falar em erro, se ficar provado que, apesar de todo empenho profissional, não se alcançou o resultado desejado ou, que, a evolução do proce- dimento médico escapou ao controle, mesmo tendo ele proce- dido dentro dos padrões técnico-científicos preconizados, a chamada “Lex Artis”. Denota-se uma tendência atual a consagrar o conceito subjetivo de culpa, no campo da responsabilidade civil, que, parece estar cedendo espaço ao conceito de risco, no qual o indivíduo responde apenas pelo dano causado, estando isen- to nos casos de força maior, culpa da vítima, atos de terceiros ou a não existência de nexo causal entre o fato e o ato propri- amente dito. Assim sendo, conclui-se que, todas as vezes que se provar a razão direta de causa e efeito, na aplicação da teo- ria do risco, obrigar-se-á o profissional a reparar o dano na forma da lei. 443 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia Responsabilidade civil nos métodos invasivos Sob o ponto de vista social (e não médico), os procedi- mentos invasivos são aqueles que mais colocam a prova a capa- cidade técnica do profissional médico e, conseqüentemente, seu poder de decisão, sendo estes, dentro do exercício da Me- dicina, a maior causa das conseqüências físicas e psíquicas, in- cluindo-se, obviamente, a cirurgia dentro desses procedimen- tos. É fundamental a manifestação da vontade ou da aquies- cência do paciente ou seu responsável para execução de qual- quer procedimento invasivo, uma vez que envolvem a questão do direito, a integridade física embasada na Declaração de Narumberg, datada de 1946, ficando apenas excluídas as emer- gências legalmente provadas que imponham prejuízo ao aten- dido. Art. 46 do C.E.M.: “É vedado ao médico: efetuar qual- quer procedimento médico sem o esclarecimento e o consenti- mento prévios do paciente ou de seu responsável legal, salvo em iminente perigo de vida”. Art. 146, § 3° do Código Penal: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistên- cia, a não fazer o que a lei permite, ou fazer o que ela não man- da: pena – detenção de 3 meses a 1 ano ou multa. § 3° não compreendem na disposição deste artigo: a intervenção médi- ca ou cirúrgica, sem o consentimento do paciente ou de seu representante legal, se justificada por iminente perigo de vida”. Nos procedimentos estéticos reparadores nos quais o pa- ciente busca corrigir uma imperfeição ou a melhora de sua 444 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia aparência, de uma forma geral supõe-se sob o ponto de vista jurídico-sociológico, que o paciente não é doente, nem tão pou- co pretende ficá-lo, conseqüentemente o médico, não se engaja na cura. O médico, neste caso, propõe-se a um resultado preten- dido pelo paciente e não deve proceder a intervenção caso não possa corresponder à expectativa deste. Crescendo desta forma o dever de informação e sobretu- do a obrigação da vigilância, devendo até mesmo recusar-se caso os riscos gerem desequilíbrio na chamada relação custo- beneficio. Acredito que a obrigação de resultado em determinados procedimentos, aliada a pouca ou nenhuma documentação pré, durante e pós-procedimento e principalmente quando enten- der o atendido tratar-se de dano a sua pessoa caberá ao médico provar que o resultado não se deu por sua culpa, mas também que a condição geradora do resultado não era imprevisível. CONSEQUENCIAS PENAIS NA RESPONSABILIDADE DO ERRO MÉDICO Exposição ao perigo Código Penal – Art. 132: expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente. Pena: detenção, de 3 meses a 1 ano, se o fato não consti- tui crime mais grave. Havendo morte do paciente Código Penal – Art. 121: matar alguém § 3°: se o homicídio é culposo, a pena é detenção de 1 a três anos. 445 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia § 4: no homicídio culposo, a pena é aumentada de um terço, se o crime resulta de inobservância de regra prática de profissão, arte ou oficio, ou se o agente deixar de prestar imedi- ato socorro à vítima, não procurar diminuir as conseqüências do ato, ou foge para evitar a prisão em flagrante. Havendo lesões corporais Código Penal – Art. 129: ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem. Pena: detenção de 3 meses a 1 ano. § 6°: se a lesão é culposa, a pena é detenção de dois meses a um ano. § 7°: no caso de lesão culposa, aumenta-se a pena de um terço se o crime resulta de inobservância de regra prática de profissão, arte ou oficio, ou se o agente deixar de prestar imedi- ato socorro à vítima, não procurar diminuir as conseqüências do ato, ou foge para evitar a prisão em flagrante. MEDIDAS INDISPENSÁVEIS E OBRIGATORIAS PARA UM MELHOR RESGUARDO PROFISSIONAL NO EXERCICIO DA MEDICINA · Registro de toda a consulta, em todas as suas fases (apu- ração de sintomas + solicitação de exames e pareceres de cole- gas + obtenção de um diagnóstico + elaboração de um prog- nóstico + estabelecimento da melhor terapêutica a ser adota- da) em forma escrita. · Registro especial dos procedimentos de risco ao pacien- te, com autorização e ciência do paciente ou de seu responsável legal. · Registro especial da terapêutica prescrita ao paciente, principalmente na prescrição de medicamentos. 446 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia · Embasamento da terapêutica em literatura médica. · Ciência do paciente ou de seus representantes legais nas intervenções cirúrgicas. · Estudo preliminar detalhado e pormenorizadamente embasado sob o ponto de vista técnico nos casos de interven- ções cirúrgicas com ou sem caráter reparador. · Estudo preliminar detalhado e pormenorizadamente embasado sob o ponto de vista técnico nos procedimentos mé- dicos que caracterizam uma obrigação de resultado. · Manutenção do sigilo médico. · Formalização na apresentação “verbal” de diagnósticos e resultados laboratoriais – acesso restrito ao médico responsá- vel pelo tratamento ou ao colega que o encaminhou. É a Medicina, de todas as ciências humanas, a mais difícil de ser exercida, sob o ponto de vista legal, pois o seu objetivo único é a preservação da vida e manutenção da saúde humana. Equivale dizer que o simples fato de o médico ter sido aprovado e ter-lhe sido dado o diploma é uma prova oficial de seu conhecimento cientifico, porém, a sua ilibada moral pro- fissional será questionada diuturnamente durante todo o exer- cício profissional, o que significa dizer que mesmo tendo o médico a maior das especializações aliada a melhor formação do mundo, isto não lhe dá passaporte para que aja indistinta- mente. Finalmente, entendo estar o erro profissional médico de forma cabal ligado à personalidade de quem executa a Medici- na e ignora a relação médico-paciente, independentemente de sua formação profissional. 447 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia RESPONSABILIDADE CIVIL NOS MÉTODOS INVASIVOS Constitui sob ponto de vista social (e não médico) que os procedimentos invasivos são aqueles que mais colocam à prova a capacidade técnica do profissional médico e conseqüentemen- te seu poder de decisão, sendoestes, dentro do exercício da Medicina, a maior causa de conseqüências físicas e psíquicas, incluindo-se, obviamente, a cirurgia dentro destes procedimen- tos. É fundamental a manifestação da vontade ou da aquies- cência do paciente ou se responsável para execução de qual- quer procedimento invasivo, uma vez que envolvem a questão do direito, à integridade física, embasada na Declaração de Nuremberg datada de 1946, ficando apenas excluídas as emer- gências legalmente provadas que imponham prejuízo ao aten- dido. ART. 46 do CEM: “É vedado ao médico: efetuar qualquer procedimento médico sem o esclarecimento e o consentimento prévios do paciente ou de responsável legal, salvo em iminente perigo de vida.” Art. 146, § 3°, do Código Penal: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ame- aça, ou depois de lhe haver reduz\ido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite, ou fazer o que ela não manda: Pena – detenção de 3 meses a 1 ano ou multa. 448 FEBRASGO - Manual de Orientação Mamografia § 3° não compreendem na disposição deste artigo: a intervenção médica ou cirúrgica, sem o consentimento do pa- ciente ou de seu representante legal, se justificada por iminen- te perigo de vida”. Os procedimentos estéticos reparadores de uma forma geral, no qual o paciente busca corrigir um imperfeição ou a melhora de sua aparência, supõe sob o ponto de vista jurídico- sociológico que este não é doente e nem tão pouco pretende ficá-lo, consequentemente o médico não se engaja na cura. O médico, neste, caso, propõe-se a um resultado preten- dido pelo paciente e não deve proceder a intervenção caso não possa corresponder à expectativa deste. Crescendo desta forma o dever de informação e sobretu- do a obrigação de vigilância, devendo até mesmo recusar-se a intervir caso os riscos gerem desequilíbrio na chamada relação custo-benefício. Acredito que a obrigação de resultado em determinados procedimentos, aliada a pouca ou nenhuma documentação pré, durante e pós procedimento e principalmente quando enten- der o atendido tratar-se de dano à sua pessoa caberá ao médico provar que o resultado não se deu por sua culpa, mas também que a condição geradora do resultado não era previsível. BIBLIOGRAFIA Código do Processo Civil Brasileiro Orlando Estêvão da Costa Soares. 2ª ed. Responsabilidade Civil do Direito Brasilei- ro. Rio de Janeiro: Editora Forense, 1997. João Baptista Opitz Junior/Luiz Alberto Calil Antonio. 1ª ed. Erro Médico – Perícia e Doutrina - Civil e Trabalhista. São Paulo: LTr, 2002.