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DIAZEPAM O diazepam é um princípio ativo do grupo farmacológico das benzodiapezinas, do qual é o mais representativo, sendo por muitos considerado o protótipo deste grupo. Esta substância ativa possui uma especificidade de ação ansiolítica e uma curva doseresposta muito achatada, daí que a designação de tranquilizante seja muito apropriada. No ramo da neuropsicofarmacologia, existem dois grandes grupos de fármacos que devem ser diferenciados – os barbitúricos e as benzodiazepinas. Embora tendo-se presente a possibilidade de uma significativa sobreposição dos respectivos perfis farmacológicos em algumas áreas de atuação, consoante a dose e a via de administração, os fármacos benzodiazepínicos diferem dos primeiros no facto de possuírem seletividade na ação ―calmante‖, ansiolítica e corretora da tensão emocional, com menor capacidade de provocar sonolência. As benzodiazepinas não provocam anestesia geral, depressão respiratória ou paralisia bulbar fatal, mesmo quando usadas em doses múltiplas das terapêuticas, ao contrário do que acontece com os sedativos barbitúricos. Os barbitúricos exibem uma inclinação linear, típica de agentes sedativo-hipnóticos. Os desvios de uma relação dose-resposta linear que ocorrem nas benzodiazepinas, exigem incrementos proporcionalmente maiores da dose para obter-se uma depressão do Sistema Nervoso Central (SNC) mais profunda do que a hipnose, resultando assim, numa superior margem de segurança que, por conseguinte, fornece uma importante razão para o seu uso clínico extenso no tratamento dos estados de ansiedade e distúrbios do sono. As benzodiazepinas afiguram-se, portanto, como fármacos muito eficazes, que têm uma menor probabilidade de interagir com outros medicamentos, de provocar overdose e menor potencial de provocar dependência quando comparados com os barbitúricos. Classificação química: O diazepam (C16H13ClN2O ou 7-cloro-1,3-dihidro-1-metil-5- fenil-2H-1,4-benzodiazepina-2-ona) existe nas condições ambientais sob a forma um pó cristalino branco ou quase branco, muito pouco solúvel na água e solúvel em etanol. Apresenta um pKa de 3,4. A sua estrutura consiste num núcleo 1,4-benzodiazepínico, que possui um grupo carboxamida no anel heterocíclico com sete membros. É necessário um átomo de cloro na posição 7 para conferir atividade sedativo- hipnótica. Mecanismo de ação: O ácido gama-aminobutírico (GABA) é o principal neurotransmissor inibitório do SNC. Os benzodiazepínicos atuam seletivamente como agonistas nos receptores GABA, mais especificamente na subunidade GABAA, que medeia a transmissão sináptica inibitória em todo o SNC. Os benzodiazepínicos intensificam a ação do GABA ao facilitar a abertura dos canais de cloreto, promovendo a hiperpolarização das células onde atuam. Daqui resulta um aumento da frequência de eventos de abertura destes canais, tal como, demonstram estudos electrofisiológicos. Estes fármacos, do qual faz parte o diazepam, ligam-se especificamente a um local deste receptor, distinto de onde se liga o GABA, e atuam alostericamente, aumentando a afinidade do GABA pelo receptor. Os benzodiazepínicos são mais seletivos (do que os barbitúricos por não envolverem mais sítios de ligação), resultando portanto numa margem de segurança maior como já se referiu atrás. Indicações terapêuticas: No Prontuário Terapêutico Nacional (2011) o diazepam encaixa no grupo de fármacos indicados na terapêutica de estados ansiedade e sintomas ansiosos, relaxante muscular e anticonvulsivante. O diazepam está indicado no tratamento sintomático da ansiedade, tensão e outros distúrbios físicos ou psicológicos associados à ansiedade (por exemplo, alterações de comportamento ou esquizofrenia). Existem situações para as quais a prescrição de diazepam se torna questionável. O recurso a este fármaco é desnecessário e até de eficácia discutível no tratamento de uma pequena ou média ansiedade ou insónia, podendo mesmo acarretar efeitos nefastos. Prescrevê-lo para tratamento de ansiedade em situações que exijam concentração, como acontece em exames de condução ou uma apresentação em público, pode resultar no resultado oposto ao desejado. Farmacocinética – as etapas de transformação do diazepam no organismo: 1. Absorção: Em administração oral, a absorção do diazepam é rápida, obtendo-se concentrações plasmáticas máximas entre os 30 e 90 minutos após a administração (Roche, 2010). O diazepam é bem absorvido pelo que tem uma biodisponibilidade sistémica de 70-100%. O diazepam pode ser também administrado por via intravenosa em epiléticos quando não é possível administrar oralmente; ou no tratamento agudo da febre convulsa, como solução retal. Após uma injeção intramuscular de diazepam em pessoas saudáveis, alcoólicos crónicos ou em abstinência, a absorção é lenta (o pico de concentração plasmática ocorre após 10-12h do início da infusão) e errática, mas completa. Como consequência os efeitos clínicos são atrasados e imprevisíveis, pelo que não deve ser administrado por esta via. A absorção a partir de supositórios segue o mesmo perfil. 2. Distribuição: O diazepam tal como outras benzodiazepinas é largamente distribuído pelo organismo. Esta substância ativa é das mais lipofílicas do seu grupo farmacológico, e apresenta um volume de distribuição aumentado nos indivíduos do sexo feminino e indivíduos com mais de 70 anos de idade. Este volume de distribuição em estado de equilíbrio poderá ser devido, em parte, ao prolongado tempo de semi-vida (3 horas). O diazepam e seus metabolitos unem-se extensamente às proteínas plasmáticas, estimando-se que a fracção ligada atinja os 98%. Devido ainda à sua lipofília, o diazepam atravessa a placenta e aparece em quantidades residuais no leite de amamentação (a sua concentração no leite materno é cerca de 1/10 da concentração no plasma materno). A sua concentração no cérebro, fígado e baço ultrapassa a quantidade não ligada no plasma 3. Biotransformação (metabolização): O diazepam é submetido à biotransformação a nível hepático, sofrendo um metabolismo oxidativo mediado pelas isoenzimas CYP2C19 e CYP3A do citocromo P450, dando origem a metabolitos com atividade farmacológica como N-desmetildiazepam (ou nordazepam), temazepam (ou 3-hidroxiazepam) e oxazepam. 4. Eliminação: A concentração plasmática de diazepam decai de forma bifásica ao longo do tempo. Numa fase inicial, verifica-se a distribuição rápida e extensa, e seguindo-se a fase de eliminação terminal prolongada. O diazepam e seus metabolitos são excretados principalmente na urina predominantemente na forma conjugada, sendo, no entanto, o oxazepam conjugado com ácido glucorónico o produto urinário encontrado em maior quantidade. ÁCIDO ACETILSALICÍLICO (AAS) O ácido acetilsalicílico é utilizado há mais de 100 anos por seus efeitos analgésico, antipirético e antiinflamatório e somente em 1960 foi descrito seu efeito antiagregante plaquetário. Em 1971, foi descoberta a acetilação irreversível da cicloxigenase, o que explica seu efeito antiagregante. Mecanismo de ação: A atividade dos AINE como antiagregantes plaquetários e sua capacidade de prolongar o tempo de sangramento devem-se ao efeito inibidor da síntese de prostaglandinas, mediante a inativação da cicloxigenase – enzima que catalisa a síntese de prostaglandinas a partir do ácido araquidônico. Consequentemente, produz-se, nas plaquetas, uma redução da formação e da liberação de tromboxano A2 , que é um potente vasoconstritor e estimulador da agregação plaquetária. Diferentemente de outros AINE, o ácido acetilsalicílico inibe a agregação plaquetária de forma irreversível. Por isso, a recuperação da hemostasia normal,após a interrupção do tratamento, depende da produção de novas plaquetas funcionantes (7 a 10 dias). Por outro lado, o efeito antiagregante de outros AINE é mantido somente enquanto permanecem no plasma. Doses recomendadas: O ácido acetilsalicílico é absorvido parcialmente no estômago e rapidamente no jejuno. Concentrações plasmáticas eficazes são alcançadas vinte a trinta minutos após uma dose de 75 a 325 mg; o pico de concentração é atingido uma a duas horas após sua administração.2 A dose ótima de ácido acetilsalicílico como profilático antitrombótico ainda é debatida. As doses superiores a 325 mg/ dia estão associadas a uma maior freqüência de reações adversas; por outro lado, as doses inferiores a 75 mg/dia não foram suficientemente estudadas e não há evidências de sua eficácia. A inibição da cicloxigenase é teoricamente completa após alguns dias de tratamento com doses de 75 mg/dia de ácido acetilsalicílico. Doses maiores não melhoram substancialmente o efeito antiagregante, mas aceleram o alcance do efeito máximo, que é quase imediato após a administração de doses de 160 a 325 mg de ácido acetilsalicílico. Pelo contrário, as doses superiores a 325 mg inibem também, no endotélio, a síntese de prostaciclinas – com capacidade antiagregante –, produzindose um efeito contrário ao pretendido. Nas situações agudas, considerando-se a importância do tratamento de emergência com ácido acetilsalicílico, recomenda-se uma dose inicial de 160 a 325 mg, que proporciona um efeito antiagregante rápido e completo. A dose de manutenção é de 75 a 325 mg/dia (conforme o caso), no mínimo por dois anos. Recomenda-se manter o tratamento por tempo indefinido – especialmente em idosos e em pacientes de “alto risco” – sempre que não surgirem efeitos adversos ou exista contra-indicação para seu uso. O tratamento preventivo com ácido acetilsalicílico não deve substituir outros tratamentos medicamentosos cardiovasculares ou medidas como abandono do tabagismo, prática de exercício físico, dieta adequada, etc. Segurança do uso de ácido acetilsalicílico: Os principais efeitos adversos do ácido acetilsalicílico são os gastrintestinais. Podem ocorrer erosões e úlceras gástricas, com apresentação de anemia e (ou) hemorragia. Estes efeitos são de caráter dose-dependente e ocorrem em 25 a 30% dos pacientes tratados com doses de 75 a 325 mg/dia. Muitos dos pacientes permanecem assintomáticos (cerca de 60%). Estudos longitudinais mostram que uma dose diária de 75 mg causa um leve, porém significativo, sangramento gastrintestinal; este efeito dobra com 300 mg/dia e quintuplica com 1,8 a 2,4 g/dia. Sugere-se que doses inferiores a 30 mg/dia provavelmente não apresentem problemas gastrintestinais, porém, não há evidências de sua eficácia na tromboprofilaxia.1,5,6, 9 Apesar de ser bem conhecido o efeito gastroerosivo, habitualmente não se preconiza a utilização de medidas farmacológicas gastroprotetoras, exceto naqueles pacientes com antecedentes de enfermidade gastroduodenal ou história de sangramento prévio, em especial nos primeiros meses de tratamento. Em princípio, poderia se supor que as formulações de liberação entérica ou de liberação prolongada apresentassem menor risco de produzir efeitos adversos gastrintestinais do que as formulações normais de ácido acetilsalicílico. As evidências disponíveis demonstram que a utilização dessas formulações especiais pode reduzir a possibilidade das lesões gástricas por ação do contato direto de ácido acetilsalicílico com as mucosas. Porém, isso não evita as lesões relacionadas ao efeito inibidor sistêmico sobre a síntese de prostaglandinas – independente da via de administração e da forma farmacêutica empregada.1 Outro importante efeito adverso, embora incomum, é o acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico, não dose-dependente. Sua incidência foi estimada em 0,7 por 1000 pacientes tratados, em um subgrupo de estudo que apresentou redução em AVC isquêmico de 10 por 1000 pacientes tratados. Não obstante o risco de sangramento gastrintestinal, não seria esperada a diminuição do risco de AVC hemorrágico, a menos que doses muito baixas de ácido acetilsalicílico fossem empregadas; neste caso, as doses seriam insuficientes para atingir o nível máximo de inibição da função plaquetária, comprometendo o efeito protetor cardiovascular pretendido. Outros efeitos como broncoespasmo (em pacientes com a tríade de asma, alergia e pólipos nasais induzidos por ácido acetilsalicílico), angioedema, urticária ou reação anafilática são menos freqüentes. Evidências sobre a eficácia: O uso do ácido acetilsalicílico, em doses baixas (75 a 325 mg/dia), pode reduzir em 25 a 50% o risco de recidivas e de surgimento de novos eventos vasculares oclusivos. A ticlopidina e o clopidogrel são modesta, mas significativamente mais efetivos do que o ácido acetilsalicílico na prevenção de eventos vasculares graves em pacientes de alto risco. Contudo, a dimensão desta vantagem não está bem estabelecida. O tratamento antiagregante com ácido acetilsalicílico foi o mais amplamente estudado, sendo o mais econômico e melhor tolerado; por isso, a maioria dos especialistas o propõe como antiagregante de eleição. Como tratamento alternativo – em casos de intolerância, contra-indicação ou ineficácia – recomenda-se a ticlopidina. Alguns especialistas propõem a associação de algum outro antiagregante plaquetário ao ácido acetilsalicílico com o objetivo de melhorar sua eficácia. Contudo, há controvérsias sobre a utilidade clínica dessas associações; além disso, esta prática provavelmente aumenta o risco de hemorragias.1 A eficácia do ácido acetilsalicílico é independente de sexo, idade ou da presença de outras doenças associadas – como diabetes ou hipertensão. No entanto, é mais eficaz no período de maior risco de eventos vasculares graves como, por exemplo, nas semanas posteriores à ocorrência de um infarto do miocárdio.1 As evidências dos ensaios clínicos mostra que todas as doses que inibem completamente a função plaquetária são eficazes na prevenção de tromboembolismo. O grupo “Antiplatelet Trialists’ Collaboration” (ATC) publicou uma metanálise de 145 ensaios clínicos randomizados de tratamento antiplaquetário. Quarenta e seis ensaios (alguns ensaios contribuíram para mais que uma comparação) com o uso isolado do ácido acetilsalicílico, foram analisados para comparar três regimes de dose: <160 mg (principalmente 75 a 150mg) (7 ensaios) 160 a 325 mg (12 ensaios) 500 a 1500 mg/dia (30 ensaios) As reduções de risco para infarto do miocárdio, AVC ou morte vascular para estes três regimes foram de 26%, 28% e 21%, respectivamente, não sendo significativamente diferentes.3 Em três ensaios clínicos foram comparadas doses elevadas de ácido acetilsalicílico (500 a 1500 mg/dia) com doses mais baixas (75 a 325 mg/dia). Não houve diferença significativa em eficácia entre estes regimes. Estes ensaios forneceram evidência substancial de que as doses diárias de 75 mg/dia são efetivas. A inibição da agregação plaquetária é uma medida com eficácia demonstrada na prevenção de trombose arterial na enfermidade vascular. O ácido acetilsalicílico, em doses diárias de 75 a 325 mg, é o fármaco de eleição em doença coronariana aguda ou crônica (exceto prevenção primária em paciente com risco estimado de doença coronariana abaixo de 15% e cuja pressão arterial não esteja controlada), pacientes portadores de pontes coronárias, doença vascular cerebral e alguns casos de fibrilação auricular crônica. A ticlopidina demonstrou igual eficácia, porém, a maior freqüência de efeitos colaterais e seu custo elevado limitam sua indicação aos casos em que esteja indicada a antiagregação e o ácidoacetilsalicílico não seja tolerado. É razoável usar doses de ácido acetilsalicílico que sejam baixas a ponto de minimizar os riscos e garantir suficientemente o efeito inibitório máximo sobre a função plaquetária. Atualmente, não há evidências suficientes para afirmar que doses inferiores a 75 mg/dia sejam adequadas para prevenir tromboses. ANTIBIÓTICOS/ANTIMICROBIANOS Os antimicrobianos correspondem a uma classe de fármacos que é consumida frequentemente em hospitais e na comunidade. Entretanto, são os únicos agentes farmacológicos que não afetam somente aos pacientes que os utilizam, mas também interferem de forma significativa no ambiente hospitalar por alteração da ecologia microbiana. O conhecimento dos princípios gerais que norteiam o uso de antimicrobianos, assim como das propriedades e características básicas dos antimicrobianos disponíveis, são essenciais para uma escolha terapêutica adequada. Na prática clínica o uso de antimicrobianos tem duas finalidades: profilática; terapêutica. Os fatores que influenciam a escolha dos antimicrobianos são: 1. As características do paciente como: idade, função renal e hepática, estado imunológico, localização do processo infeccioso, terapia prévia com antimicrobianos, gravidez/lactação e sensibilidade do paciente; 2. Os agentes etiológicos que envolvem a análise do antibiograma e os prováveis mecanismos de resistência; 3. As propriedades dos antimicrobianos como a farmacocinética e a farmacodinâmica, mecanismo de ação, sinergismo ou antagonismo, toxicidade, interação medicamentosa e custos. Propriedades farmacológicas dos antimicrobianos (farmacocinética e farmacodinâmica) Para que o antimicrobiano exerça sua atividade, primeiramente deverá atingir concentração ideal no local da infecção, ser capaz de atravessar, de forma passiva ou ativa, a parede celular, apresentar afinidade pelo sítio de ligação no interior da bactéria e permanecer tempo suficiente para exercer seu efeito inibitório. Farmacocinética O que é? A farmacocinética estuda a atuação do antimicrobiano no interior do organismo a partir dos parâmetros de velocidade de absorção, distribuição e eliminação da droga e de seus metabólitos. Através dos conhecimentos de farmacocinética e das características do microrganismo frente ao antimicrobiano, é possível adequar posologia, via de administração e intervalo entre cada dose, visando melhorar o resultado terapêutico e, ao mesmo tempo, reduzir a probabilidade de desenvolver efeitos tóxicos potenciais. Concentração sérica Após a administração de dose padronizada de um antimicrobiano, sua concentração plasmática aumenta rapidamente, até atingir a concentração sérica máxima; depois disso, na medida em que se distribui entre os tecidos e é eliminado ou metabolizado, sua concentração no sangue vai diminuindo progressivamente até se tornar nula. A concentração do antimicrobiano detectada no sangue antes da administração da dose seguinte (respeitando o intervalo padronizado) corresponde à concentração sérica mínima. Representação gráfica A representação gráfica da relação concentração sérica do fármaco com o tempo (horas) é dada pela curva de concentração sérica-tempo de antimicrobiano É importante saber que: após alcançarem a corrente sanguínea, os antimicrobianos estabelecem ligações protéicas em proporção variável (índice de ligação protéica), mas sabe-se que só a fração livre do antimicrobiano é dotada de atividade anti-bacteriana; a ligação dos antimicrobianos com as proteínas plasmáticas exerce influência sobre várias outras características farmacocinéticas, como sua difusão nos tecidos e líquidos orgânicos, a rapidez com que ultrapassa as membranas celulares, a intensidade de seu efeito antimicrobiano e sua velocidade de eliminação. Outro conceito importante é a meia-vida do antimicrobiano, que corresponde ao tempo necessário para que a concentração sérica máxima, alcançada com a administração de uma dose padrão, se reduza à metade. Este índice independe da intensidade ou pico da concentração sérica máxima e é determinado pelo grau de excreção ou metabolização e pela rapidez de difusão tecidual do antimicrobiano. Excreção A eliminação (excreção) das drogas no organismo é realizada, principalmente, através dos rins e do fígado, embora algumas possam ser eliminadas pelo pulmão, trato gastrintestinal ou pele. As substâncias eliminadas nas fezes são geralmente aquelas ingeridas por via oral e não absorvidas ou metabólitos eliminados pela bile e não reabsorvidos. Pode haver eliminação pelo leite, pouco importante como via de eliminação, mas de interesse pela possibilidade de causar efeitos no lactante. Pequenas quantidades do medicamento podem ser eliminadas pelo suor ou pela saliva. Farmacodinâmica Conceito A farmacodinâmica relaciona as concentrações do fármaco com sua atividade antimicrobiana. A sensibilidade dos microrganismos aos antimicrobianos é representada pela concentração inibitória mínima (CIM ou MIC) de cada microrganismo para cada antimicrobiano, que corresponde à menor concentração do antimicrobiano capaz de inibir o desenvolvimento visível do microrganismo. Classificação A partir dos estudos farmacodinâmicos os antimicrobianos podem ser classificados em: tempo-dependentes; concentração-dependentes. Antimicrobianos tempo-dependentes: São aqueles que têm sua ação regida pelo tempo de exposição das bactérias às suas concentrações séricas e teciduais. A ação destes antimicrobianos independe dos níveis séricos que atingem, mas dependem do tempo que permanecem acima da concentração inibitória mínima para esse microrganismo. Importante: Na prática, quando utilizamos um antimicrobiano tempo-dependente devemos procurar maximizar a duração da exposição do patógeno ao fármaco. Neste grupo encontram-se: vancomicina; antimicrobianos β-lactâmicos; Atenção: Os antimicrobianos β-lactâmicos apresentam melhor atividade quando suas concentrações permanecem, constantemente, acima da CIM dos microrganismos. Exemplo de maximização de exposição: O aumento do tempo de infusão destes fármacos, associados ou não a doses mais elevadas, particularmente em infecções causadas por bactérias com CIMs mais elevadas, como Pseudomona aeruginosa e Acinetobacter baumannii. Antimicrobianos concentração ou dose-dependentes Por outro lado, os antimicrobianos concentração ou dose-dependentes (aminoglicosídeos e fluoroquinolonas) são aqueles que exibem propriedades de destruição de bactérias em função da concentração, isto é: Quanto maior a concentração da droga, mais rápida a erradicação do patógeno. Parâmetro indicador No caso das drogas dependentes da concentração, o melhor parâmetro indicador é o pico de concentração da droga em relação à CIM, ou o índice da área abaixo da curva (AAC ou AUC) dividido pela CIM (Figura 2). Efeito pós-antimicrobiano O efeito pós-antimicrobiano reflete a manutenção da supressão de crescimento bacteriano mesmo quando as concentrações séricas do fármaco já são inferiores à CIM. Exemplo: microrganismos gram-negativos expostos aos aminoglicosídeos. Esta é uma razão a mais para o uso desses antimicrobianos em dose única. Lembre-se: A maioria dos β-lactâmicos não apresenta efeito pós- antimicrobiano. O intervalo de administração será dependente da meia-vida de cada droga. Resistência bacteriana Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento da resistência bacteriana aos antimicrobianos. Um dos fatores de risco mais importante é a exposição repetida a concentrações de antimicrobianos abaixo do adequado!!! Por que isso ocorre? Concentrações subletais de um antimicrobiano exercempressão seletiva sobre a população de bactérias, sem erradicá-las. Assim, cepas mutantes que possuem certo grau de resistência à droga são favorecidas e tendem a dominar a população. 1. ß-Lactâmicos O grupo de antimicrobianos classificados como ß-lactâmicos possui em comum no seu núcleo estrutural o anel ß-lactâmico, o qual confere atividade bactericida. Conforme a característica da cadeia lateral definem-se seu espectro de ação e suas propriedades farmacológicas. Pertencem a este grupo: penicilinas cefalosporinas carbapenens monobactans Os mecanismos de ação e de resistência são comuns a todos! Algumas particularidades como farmacocinética, uso clínico e efeitos colaterais de cada classe, serão descritas separadamente. Mecanismo de ação dos ß-lactâmicos O mecanismo de ação dos antimicrobianos ß-lactâmicos resulta em parte da sua habilidade de interferir com a síntese do peptideoglicano (responsável pela integridade da parede bacteriana). Para que isto ocorra: 1. devem penetrar na bactéria através das porinas presentes na membrana externa da parede celular bacteriana; 2. não devem ser destruídos pelas ß-lactamases produzidas pelas bactérias; 3. devem ligar-se e inibir as proteínas ligadoras de penicilina (PLP) responsáveis pelo passo final da síntese da parede bacteriana. Mecanismo de resistência aos ß-lactâmicos São descritas três formas principas pelas quais as bactérias apresentam resistência aos antimicrobianos ß–lactâmicos: A. Produção de ß–lactamases: é o meio mais eficiente e comum das bactérias se tornarem resistentes aos antimicrobianos ß– lactâmicos; B. Modificações estruturais das proteínas ligadoras de penicilina (PLP) codificadas pelo gene mecA; C. Diminuição da permeabilidade bacteriana ao antimicrobiano através de mutações e modificações nas porinas, proteínas que permitem a entrada de nutrientes e outros elementos para o interior da célula. 1.1 PENICILINAS Descobertas em 1928, por Fleming, permanecem até hoje como uma excelente classe de antimicrobianos. São divididas em: penicilinas naturais ou benzilpenicilinas; aminopenicilinas; penicilinas resistentes às penicilinases; penicilinas de amplo espectro, as quais foram desenvolvidas na tentativa de evitar a aquisição de resistência das bactérias. Em relação à farmacocinética, as penicilinas apresentam várias diferenças, as quais definem seu uso clínico: A. Benzilpenicilinas ou penicilinas naturais; B. Aminopenicilinas; C. Penicilinas resistentes às penicilinases; D. Penicilinas de amplo espectro, obtidas por associação com inibidores de ß- lactamase. A. Benzilpenicilinas ou penicilinas naturais Entre as benzilpenicilinas, a associação da penicilina com determinadas substâncias determina sua farmacocinética e farmacodinâmica. Penicilina cristalina ou aquosa: restrita ao uso endovenoso. Apresenta meia-vida curta (30 a 40 minutos), é eliminada do organismo rapidamente (cerca de 4 horas). Distribuí-se amplamente pelo organismo, alcançando concentrações terapêuticas em praticamente todos os tecidos. É a única benzilpenicilina que ultrapassa a barreira hemato-encefálica em concentrações terapêuticas, e mesmo assim, somente quando há inflamação. Penicilina G procaína: apenas para uso intramuscular. A associação com procaína retarda o pico máximo e aumenta os níveis séricos e teciduais por um período de 12 horas. Penicilina G benzatina: é uma penicilina de depósito, pouco hidrossolúvel, e seu uso é exclusivamente intramuscular. Os níveis séricos permanecem por 15 a 30 dias, dependentes da dose utilizada. Penicilina V: apenas para uso oral. Os níveis séricos atingidos por esta preparação são 2 a 5 vezes maiores do que os obtidos com as penicilinas G administradas por via intramuscular e com distribuição tecidual similar a esta. Pode ser utilizada como terapêutica seqüencial oral na substituição das penicilinas parenterais, exceto contra Neisseria spp e Haemophilus spp.. B. Aminopenicilinas As aminopenicilinas são penicilinas semi-sintéticas, disponíveis desde 1960, após a adição de um grupo amino na cadeia lateral, e de espectro de ação mais amplo, em relação às benzilpenicilinas. Apresentam boa absorção, tanto oral como parenteral. As aminopenicilinas disponíveis para uso clínico no Brasil são: Ampicilina e Amoxacilina. C. Penicilinas resistentes às penicilinases Após o advento da penicilina G, houve uma rápida disseminação de resistência a esta droga, por produção de ß-lactamases, pelos estafilococos. Assim, foram desenvolvidas as penicilinas resistentes às penicilinases. No Brasil, atualmente, o único representante disponível é a oxacilina. D. Penicilinas de amplo espectro, obtidas por associação com inibidores de ß-lactamase Apesar do desenvolvimento de toda essa variedade de penicilinas, a produção das ß-lactamases continuou sendo o meio mais eficiente e comum das bactérias se tornarem resistentes aos antimicrobianos ß–lactâmicos. Novas estratégias foram desenvolvidas para recuperar o espectro destes antimicrobianos. Os inibidores de ß–lactamases, quando em associação com antimicrobianos ß-lactâmicos, ligam- se às ß-lactamases. Dessa forma, evitam a hidrólise do anel ß–lactâmico e potencializam sua atividade. Indicações clínicas das penicilinas A. Pneumonias B. Otites e sinusites C. Faringites e epiglotites D. Infecções cutâneas E. Meningites bacterianas F. Infecções do aparelho reprodutor G. Endocardites bacterianas H. Profilaxia Efeitos Colaterais A. Reações de hipersensibilidade; B. Manifestações cutâneas; C. Toxicidade renal; D. Toxicidade hematológica; E. Neurotoxidade 2. QUINOLONAS As primeiras quinolonas foram utilizadas no início dos anos 60, com a introdução do ácido nalidíxico na prática clínica. No início dos anos 80, com o acréscimo de um átomo de flúor na posição 6 do anel quinolônico, surgiram as fluorquinolonas (principal representante: ciprofloxacina), com aumento do espectro, para os bacilos gram-negativos e boa atividade contra alguns cocos gram-positivos, porém, pouca ou nenhuma ação sobre Streptococcus spp., Enterococus spp. e anaeróbios. Este foi um dos principais motivos para o desenvolvimento das novas quinolonas: levofloxacina, gatifloxacina, moxifloxacina e gemifloxacina. Recentemente, foram descritas alterações nos níveis de glicemia com o uso dessas quinolonas mais associadas com a gatifloxacina, sobretudo em pacientes idosos e diabéticos, motivo pelo qual essa quinolona foi retirada de mercado. Mecanismo de ação: Inibem a atividade da DNA girase ou topoisomerase II, enzima essencial à sobrevivência bacteriana. A DNA girase torna a molécula de DNA compacta e biologicamente ativa. Ao inibir essa enzima, a molécula de DNA passa a ocupar grande espaço no interior da bactéria e suas extremidades livres determinam síntese descontrolada de RNA mensageiro e de proteínas, determinando a morte das bactérias. Também inibem, in vitro, a topoisomerase IV, porém não é conhecido se este fato contribui para a ação antibacteriana. Mecanismo de resistência: A resistência ocorre, principalmente, por alteração na enzima DNA girase, que passa a não sofrer ação do antimicrobiano. Pode ocorrer por mutação cromossômica nos genes que são responsáveis pelas enzimas alvo (DNA girase e topoisomerase IV) ou por alteração da permeabilidade à droga pela membrana celular bacteriana (porinas). É possível a existência de um mecanismo que aumente a retirada da droga do interior da célula (bomba de efluxo). Propriedades farmacológicas São bem absorvidas pelo trato gastrintestinal superior. A biodisponibilidade é superior a 50% e o pico sérico é atingido em 1 a 3 horas após a administração.Os alimentos não reduzem substancialmente a absorção, mas retardam o pico da concentração sérica. A ligação protéica está normalmente entre 15 e 30%. O volume de distribuição geralmente é alto. As concentrações na próstata, fezes, bile, pulmão, neutrófilos e macrófagos excedem as concentrações séricas. Já as concentrações na saliva, ossos, e líquido cérebro espinhal são menores que as plasmáticas. As novas quinolonas como a levofloxacina, atingem altas concentrações séricas, concentração máxima de 4mg/L, após 500mg por via oral. A área sob a curva é elevada. Possui meia-vida de 7 a 8 horas, podendo ser administrada tanto por via endovenosa, como oral, uma única vez ao dia. A ligação protéica é de 20 a 30%, sendo a eliminação predominantemente renal, 80 a 90%. Indicações clínicas A seguir serão descritas as principais indicações clínicas das quinolonas. A. Trato genito-urinário B. Trato gastrintestinal C. Trato respiratório D. Osteomielites E. Partes moles F. Ação contra micobactérias 3. AMINOGLICOSÍDEOS A estreptomicina foi o primeiro aminoglicosídeo obtido a partir do fungo Streptomyces griseus em 1944. As principais drogas utilizadas atualmente em nosso meio, além da estreptomicina, são: GENTAMICINA, tobramicina, amicacina, netilmicina, paramomicina e espectinomicina. Mecanismo de ação Ligam-se à fração 30S dos ribossomos inibindo a síntese protéica ou produzindo proteínas defeituosas. Para atuar, o aminoglicosídeo deve primeiramente ligar-se à superfície da célula bacteriana e posteriormente deve ser transportado através da parede por um processo dependente de energia oxidativa. Mecanismos de resistência Existem três mecanismos reconhecidos de resistência bacteriana aos aminoglicosídeos: 1. alteração dos sítios de ligação no ribossomo; 2. alteração na permeabilidade; 3. modificação enzimática da droga. Os genes que conferem resistência podem estar associados a plasmídeos conjugativos e não conjugativos e em transposons, e parecem ser constitutivos, não sendo induzidos pela presença do antimicrobiano. O desenvolvimento da resistência durante o tratamento é raro. Propriedades famacológicas Pouco absorvíveis por via oral, sendo utilizados por esta via somente para a descontaminação da flora intestinal (neomicina). Os níveis séricos máximos são obtidos após 60 a 90 minutos, por via intramuscular, e em infusões intravenosas por 30 minutos. Sua atividade bactericida está relacionada ao seu pico sérico, ou seja, quanto maior a concentração da droga mais rápida e maior o efeito bactericida, mostrando ainda importante atividade bacteriostática residual, principalmente quando do uso concomitante com antimicrobianos ß-lactâmicos. Distribuem-se bem no líquido extracelular, porém a concentração intracelular é pequena, por necessitarem de transporte ativo para sua absorção. Exceção são as células tubulares renais proximais onde fazem com que a urina atinja concentrações 25 a 100 vezes a sérica. A penetração nas secreções pulmonares alcança 20% da concentração sérica, também é baixa a penetração em liquor, exceto em recém-nascidos. São eliminados quase que inalterados por filtração glomerular. Indicações clínicas Os principais usos dos aminoglicosídeos são: septicemias, infecções do trato urinário, endocardites, infecções respiratórias, infecções intra-abdominais, meningites em recém- nascidos, infecções oculares, osteomielites e infecções de articulações. têm grande atividade contra bacilos e cocos gram-negativos aeróbios, entre eles, Klebsiella spp., Serratia spp., Enterobacter spp., Citrobacter spp., Haemophilusspp., Acineto bacter spp. e cepas de Pseudomonas aeruginosa. Apresentam também atividade contra bactérias gram-positivas, entre elas: Staphylococcus aureus, S. epidermidis, Listeria monocytogenes,Enterococcus faecalis e Nocardia asteroides, além de serem ativas contra micobactérias. Gentamicina Utilizada no tratamento de infecções por bacilos gram-negativos, com ação contra P. aeruginosa ou S. marcescens. Também usada em esquemas combinados com ß-lactâmicos para infecções mais graves por enterococos.