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Nota do tradutor*. 
No decorrer da obra, a palavra "comportamento" foi traduzida para o equivalente 
em português, "comportamento". Logo, às partes do livro onde se encontravam expressões 
como "la conducta o comportamiento" foram adaptadas para, somente, "o 
comportamento". 
À ocorrência de silepses (concordância com a idéia de uma oração e não com a 
palavra expressa) da língua espanhola (p. e., "as pessoas temos dentro de nós"), optou-se 
em alguns casos por modificar os pronomes, ou acrescentá-los, no intuito de eliminar a 
figura de estilo. 
 
* Tradução por Thomas Pierre Castegnaro, graduando do Curso de Psicologia da UFSC, em 2007. 
 
TREZE TRUQUES DE MAGIA 
A ORIGEM VERBAL DOS MITOS EM PSICOLOGIA 
EXPLICAÇÕES FICTÍCIAS OU PSEUDO-EXPLICAÇÕES SOBRE O COMPORTAMENTO 
HUMANO 
 
Dedicamos este livro aos estudantes de psicologia de qualquer lugar do mundo, 
convidando-os a terminar esta carreira como cientistas do comportamento e não como 
mágicos. 
 
INTRODUÇÃO 
 
Este livro se refere às descrições e explicações fictícias (pseudo-explicações) sobre 
o comportamento humano. Infelizmente, esta classe de "descrições" e "explicações" 
persistem atualmente no campo da psicologia e impedem o progresso desta disciplina 
como ciência, obstaculizando a compreensão genuína (efetiva) do comportamento 
humano, de nosso comportamento. 
Por meio de um espetáculo que inclui treze truques de magia, um mágico tão 
comum quanto surpreendente executa alguns dos truques que a maioria da gente, 
incluindo psicólogos, realizam ao tratar de explicar o comportamento humano. Estes 
truques consistem em meras práticas verbais, as quais, infelizmente, são tão estendidas 
quanto inapropriadas e prejudiciais. 
Este livro, como qualquer outro, é produto de muitas pessoas, por isso usarei o 
pronome nós e não o eu. 
Escrevemos este livro pensando no público em geral, não apenas naqueles que 
conhecem sobre psicologia, por isso tratamos de escrever o mais claro possível, utilizando 
palavras simples. 
Claro, nosso objetivo não é esgotar o tema sobre as explicações do comportamento. 
Está claro que outros psicólogos, lingüistas e filósofos poderão decidir muito mais sobre 
este tópico. Também eles poderiam nos criticar pelo que dizemos, mas nosso interesse é 
promover a reflexão, mais que tentar apresentar a "Verdade Completa". 
Se a leitura deste livro lhe é útil para refletir sobre o tema que aqui se trata, 
independentemente de que esteja ou não de acordo com ele, nós sentiremos ter 
conseguido nosso objetivo. 
Também esperamos que o conteúdo do mesmo lhe ajude a compreender o 
comportamento humano, de maneira que esta compreensão lhe permita viver melhor e 
ajudar a outros a fazê-lo. 
 
Talvez o comportamento humano não seja tão complexo como o consideramos; 
fazemo-lo complexo com nossa maneira de descrevê-lo e tratar de explicá-lo. 
 
PARTE 1 – OS TREZE TRUQUES DE MAGIA 
 
PREÂMBULO 
 
O espetáculo que descreveremos em seguida se desenvolve em um teatro, e o ator 
principal é um talentoso mágico. Participam também dois atores mais, João e Pedro, que 
permanecerão no cenário durante toda a apresentação, ainda que seus papéis ativos 
terminarão muito rapidamente. 
Muitos são os espectadores no teatro, poderíamos dizer milhares; entre eles, 
estamos você e eu. Viemos juntos para desfrutar da apresentação. 
 
I 
INÍCIO 
 
Levanta-se a cortina e no centro do cenário aparece um mágico. Veste-se como 
tradicionalmente o fazem os mágicos: traje negro de gala, camisa branca engomada, 
gravata borboleta, cartola e uma varinha em sua mão. Um momento depois aparecem em 
cena duas pessoas mais e apresentam-se ao público com os nomes de João e Pedro. 
Todos nós aplaudimos, uns de nós ficamos em pé. 
Enquanto o mágico saúda e agradece nossa presença, João se aproxima de Pedro e 
golpeia-lhe fortemente na face. Todos nos surpreendemos. O mágico se dirige até nós, e 
com voz tranqüila e cerimoniosa, diz: 
- Acabamos de observar uma ação, comportamento ou comportamento1 que 
chamamos golpear2. Peço-lhes, por favor, que não se angustiem pelo ocorrido; asseguro-
lhes que João não voltará a golpear Pedro. Esta vez o golpeou a pedido meu para poder 
realizar os treze truques de magia deste espetáculo3. 
Todos os expectadores, inclusive você e eu, relaxamos. Certamente nos pareceu 
muito estranho que uma pessoa golpeasse a outra como parte de uma apresentação de 
magia. 
- Seria interessante – acrescenta o mágico – conhecer por que os seres humanos 
nomeiam este comportamento ou ação com a palavra "golpear"4; mas esta é uma 
apresentação de magia e não uma conferência sobre a origem das palavras. Portanto, basta 
com que todos nós estejamos de acordo que João golpeou a Pedro. A propósito, estão de 
acordo? – pergunta o mágico. 
- Sim, estamos de acordo! – responde a maioria dos espectadores. 
Você e eu permanecemos calados. Talvez emocionados pela grandeza do teatro e a 
grande quantidade de pessoas que vieram desfrutar a apresentação. 
- Perfeito – diz o mágico sorrindo e movendo graciosamente sua cabeça para os 
lados. – Sempre busco que meus atos de magia sejam interativos, gosto que o público 
participe como vocês o fazem agora: interagindo é como aprendemos. 
Sorrio e volto a olhar para você. Você também sorri. Para ambos é muito agradável 
conhecer um mágico que leva em consideração seu público. 
- Como todos sabemos – continua dizendo o mágico com firmeza –, as ações ou 
comportamentos se nomeiam ou descrevem5 com palavras que chamamos "verbos"6. Não 
descrevemos ações com substantivos7 nem adjetivos, muito menos com artigos. Um verbo 
se conjuga porque todos nós atuamos: tu, ele, ela, vocês, eles e eu: todos!, incluindo aos 
organismos não humanos, como os ratos e as pombas. Todos, como seres vivos que somos, 
nos comportamos. Estão de acordo com essa afirmação? 
- Sim! – gritamos. O teatro retumba, o mágico assente com a cabeça e coloca a 
varinha mágica sob o braço. 
- Pelo tanto, tudo o que as pessoas fazem como golpear, falar, brincar, caminhar, 
ler, pensar8, bater, beijar, sentir, acreditar, imaginar, escrever, se nomeia ou descreve com 
verbos. Estão de acordo? – volta a perguntar o mágico. 
- Sim! – respondemos aplaudindo efusivamente, não porque seja admirável o que 
ele fez até agora, mas porque já queremos que iniciem os atos de magia. 
Nesse momento o mágico caminha até o centro do cenário e anuncia o que 
esperávamos: 
- Agora, amável público, não há tempo a perder. Executarei o primeiro truque. 
 
As ações ou comportamentos se nomeiam e descrevem com palavras que 
chamamos "verbos". 
 
II 
PRIMEIRO TRUQUE 
 
O mágico dá uns passos até a frente do cenário, colocando ao mesmo tempo umas 
luvas brancas que pega do bolso de seu casaco. 
- Apresentar-lhes-ei o primeiro ato de magia. A Associação Internacional de 
Mágicos o chama Re-verbalização Redutiva1. – anuncia ajeitando cuidadosamente a 
gravata. – Há uns momentos dissemos que utilizamos verbos para nomear nossas ações; 
agora diremos também que é possível utilizar verbos para nomear a um grupo de ações ou 
comportamentos. 
O mágico introduz dentro de sua cartola os verbos "golpear", "bater", "empurrar", 
"beliscar", e agita-a, misturando todas estas palavras. Imediatamente depois tira da cartola 
o verbo agredir2. 
Todos nós aplaudimos. 
- Agredir é um verbo que acabou de aparecer e chamo-o "genérico"3 – diz o mágico, 
mostrando-nos o verbo como se fosse uma pomba. 
Todos nós concordamos e o mágico continua: 
- Notem que agredir é um verbo; não um substantivo, nem um adjetivo, muito 
menos um artigo. Agredir éum verbo genérico, ou seja, um verbo que nomeia uma classe 
de ações ou comportamentos que, por sua vez, são nomeadas por outros verbos4 esclarece 
o mágico. 
Todos nós aplaudimos. 
- Então, podemos dizer que – continua o mágico – o que faz João não só se poder 
nomear com o verbo golpear, mas também com o verbo agredir. Fica claro: agredir nomeia 
o comportamento de João. 
Até aqui o espetáculo me parece bastante interessante, excetuando a importância 
que o mágico confere às palavras. 
"Não vim ao teatro para ter uma classe de gramática", penso. Olho para você e você 
me diz: 
- Simples, não é? 
Afirmo sorrindo. 
- Antes de continuar – adverte-nos o mágico –, quero informar-lhes que este truque 
como todos os que executarei em seguida parecem simples, mas na verdade não o são. Não 
é fácil transformar vários verbos em um. Precisou-se de milhares de anos para que a 
humanidade o fizesse, assim como tomou muitíssimo tempo nomear uma ação ou 
comportamento com uma palavra que se pudesse aplicar, com pequenas modificações, ao 
que todos fazemos; ao que vocês, nós, ele, ela e eu fazemos, fizemos e faremos. 
- É verdade – você diz afirmando com a cabeça – a, aprender a falar nos tomou 
milhares de anos. 
- Por isso – acrescenta o mágico –, antes de continuar, quero confirmar que todos 
estamos de acordo em que com o verbo agredir podemos nomear5 uma grande variedade 
de atos ou comportamentos, como golpear, bater, beliscar, empurrar, e não apenas um 
comportamento em particular. 
Todos os espectadores aplaudem como mostra de aceitação. 
Nesse momento sobe ao estrado apressadamente uma bonita jovem; coloca na 
parte de trás uma mesinha com uma jarra de água e um vaso. O mágico unicamente diz 
"obrigado". A jovem sorri, desce e senta-se entre o público. 
 
Também é possível utilizar verbos para nomear a um grupo de ações ou 
comportamentos. 
 
III 
SEGUNDO TRUQUE 
 
- Até aqui, com os verbos golpear ou agredir só nomeamos o que fez João1 - explica 
o mágico ajeitando delicadamente a cartola. – Agora, ensinar-lhes-ei como descrever o 
comportamento de João, de maneira que a descrição em si mesma seja útil para explicar 
seu comportamento2 ou, ao menos, para iniciar uma explicação adequada do mesmo. 
Todos aplaudimos e, sem esperar que deixemos de fazê-lo, o mágico continua. 
- Vocês sabem que quando queremos compreender o comportamento, não nos 
interessa apenas nomeá-lo ou descrevê-lo, mas o fazer de tal forma que facilite explicá-lo. 
Não apenas queremos saber como se comporta uma pessoa; mas por que se comporta 
como o faz3. Claro, tudo o que nos conduz a sabê-lo é bem-vindo. 
Todos assentimos. É surpreendente a clareza e a precisão com que o mágico se 
expressa. Lembra-me do professor que tive sorte de ter na faculdade. Falava pouco, mas 
muito bem. 
- A este truque se lhe conhece com o nome de Descrição Fictícia I4 – diz o mágico, 
retrocedendo e girando sua varinha. – Por favor, prestem muita atenção e respondam esta 
pergunta: O que vocês acreditam que fez João quando golpeou Pedro?... Seguramente 
responderão que simplesmente lhe golpeou. Mas não, olhem bem o que farei com o verbo 
agredir, mesmo verbo que utilizei para nomear o comportamento de João. Tocá-lo-ei com a 
varinha, e o que fez João, ele golpeou, converter-se-á em agrediu. Portanto, João não 
somente golpeou Pedro, como também o agrediu5. 
Aplaudimos de novo, surpreendidos de que já em seu segundo ato, o mágico nos 
revelou o que João realmente fez. 
- Golpear é uma ação ou comportamento que não somente consiste em tocar 
bruscamente alguém. A um nível mais profundo, quando João golpeia Pedro, agride-o; ou 
seja, o que na realidade faz João é agredir Pedro. Em poucas palavras: João agrediu Pedro, 
compreendem? - pergunta o mágico. 
- Sim – respondemos, ainda que não saibamos a razão de todas as diferenças 
assinaladas pelo mágico. 
Volto a olhar para você e você me diz em voz baixa: 
- Para mim, o que fez João foi golpear Pedro, e ainda que utilizemos outras palavras 
para descrever o que fez João, como agredir, estas sempre se referirão a golpear6. 
- Assim é – respondo gaguejando. – Mas, temos que aceitar que o mágico teve êxito 
em convencer o resto do público que a melhor maneira de descrever um comportamento é 
dar-lhe um nome que ignore as comportamentos particulares. Pelo tanto, dizer que João 
agrediu Pedro descreve melhor o que fez João, que dizer que João golpeou Pedro7 - 
acrescento. 
- Bom – você responde –, provavelmente é assim, mas... 
Nesse momento, a pessoa que está sentada ao nosso lado volta-se e pede-nos 
silêncio: 
- "Não viemos aqui para conversar, muito menos em voz alta, mas para desfrutar 
dos truques do mágico. Ademais, não há por que duvidar de sua sabedoria". Pedimos-lhe 
desculpas e continuamos esperando em silêncio. 
- Fixe-se bem, neste ato de magia não só descrevi o comportamento de João, como 
também comecei a explicá-lo – informa-nos o mágico tirando e pondo a cartola. – O fato é 
que se descrevemos o que realmente João fez a Pedro, começaremos a explicar por que o 
fez, ou seja, as razões ou causas de seu comportamento – acrescenta. 
Eu me pergunto: Como é possível que uma palavra que utilizamos para nomear o 
comportamento de golpear possa-nos conduzir à explicação desse comportamento? 
Todos aplaudem, inclusive você. Sinto-me confuso; não sei se é o mágico, o que ele 
diz e faz, ou a multidão no teatro. Respiro profundamente duas ou três vezes e tranqüilizo-
me um pouco. 
- Agora, simplesmente com o propósito de confirmar se me entenderam, farei um 
par de perguntas que eu mesmo responderei. Espero que estejam de acordo com minhas 
respostas – diz o mágico movendo-se com rapidez de um lado a outro pelo cenário. – Se 
lhes pergunto, o que fez João?, em vez de dizer "golpeou Pedro" vocês podem responder 
"agrediu Pedro". Mas se lhes pergunto: como o fez?, vocês responderão "dando-lhe um 
golpe na face", não é? 
- Sim – contestamos em uníssono. 
- Muito bem, esperava o seu acordo, não poderia ser de outra maneira – conclui o 
mágico atirando a varinha para cima e pegando-a com a outra mão por trás das costas com 
uma velocidade surpreendente. 
Volto a olhar para você e você sorri. 
 
O mágico diz: João não apenas golpeou Pedro, mas também o agrediu. 
 
IV 
TERCEIRO TRUQUE 
 
- Agora – anuncia o mágico – dou início ao terceiro truque de magia. A Real 
Academia de Mágicos conhece-o com três nomes, Substantivação1, Nominação do 
Verbo2 ou Reificação3. 
Ele tira a cartola e coloca dentro o verbo agredir que apareceu no ato anterior. 
Pronuncia as palavras mágicas e tira da cartola o substantivo agressão. 
Todos nós ovacionamos o mágico. Isto é precisamente o que esperávamos. É 
maravilhoso ver como, baseando-se unicamente no comportamento de golpear, o mágico 
foi capaz de fazer aparecer o verbo agredir e, depois de introduzi-lo em sua cartola, 
transformou-o no substantivo agressão. Então penso: "o que fez o mágico foi ir do golpe ao 
golpear, do golpear ao agredir, e do agredir à agressão. Ou seja, de algo que se faz e 
nomeia-se com um verbo, a algo que é e que se nomeia com um substantivo". 
- Surpreendente! – exclama você e eu me estremeço. – Como pode converter algo 
dinâmico, que ocorre como ação ou comportamento de agredir, em algo estático, em uma 
coisa: a agressão4? 
Concordo com a cabeça sentindo-me menos confuso e recuperado do susto. 
O mágico faz uma pausa e dirige-se à pequena mesa que a jovem colocou no fundo 
do cenário ao final do primeiro ato. Serve-se de água e bebe apressadamente para depois 
voltar para frente. 
 
O que fez o mágico foi ir do golpe ao golpear, do golpear ao agredir, e do agredir à 
agressão.Ou seja, de algo que se faz e nomeia-se com um verbo, a algo que é e que se 
nomeia com um substantivo. 
 
V 
QUARTO TRUQUE 
 
- Em continuação – anuncia orgulhosamente o mágico –, vou apresentar o quarto 
truque. Conhece-se-lhe pelo nome de Descrição Fictícia II1. Prestem muita atenção 
porque o que farei é tão delicado como colocar algo dentro de uma pessoa sem a ferir. Sim, 
acreditem-me, colocarei algo dentro de João, e ele não sentirá a mínima dor! 
Então, o mágico toma o substantivo agressão que apareceu no truque anterior e 
com muito cuidado coloca-o justamente sobre a cabeça de João. Depois pronuncia umas 
palavras mágicas que não consegui escutar. Ato seguido, a agressão desaparece. 
Todos nos espantamos ao observar que João não sentiu dor, pelo menos não o 
mostrou em seu rosto. 
- Por isso, de hoje em diante, quando observarmos João golpear Pedro, 
descreveremos seu comportamento referindo-nos ao que tem e não ao que faz; diremos: 
"João tem agressão nele: e não apenas "João golpeia ou agride Pedro"2. Ao dizê-lo assim 
conseguiremos descrever com mais precisão o comportamento de João e além disso 
começaremos a explicá-la referindo-nos ao que João tem dentro, ou seja, a agressão3, como 
o indica nosso senso comum. 
Todos nós estamos felizes por termos descoberto, graças ao mágico, a existência da 
agressão. É indubitável que unicamente um mágico possa ajudar-nos a descobrir o que há 
dentro de cada um de nós. Observo para os lados e vejo todos os espectadores 
completamente absortos; alguns desfrutam do espetáculo com a boca aberta. 
- A agressão é uma emoção; negativa, mas ao fim e ao cabo uma emoção – afirma o 
mágico – e todas as emoções, todas, estão localizadas dentro de nós4. É claro que uma 
emoção não pode existir fora de alguém. Ou por acaso algum de vocês viu uma emoção 
voando? 
Todos nós rimos. Volto a olhar para você e pergunto-me, em que lugar dentro dele 
estará localizada a agressão? Deve estar aí – penso – escondida em alguma parte do seu 
corpo esperando o momento preciso para converter-se em um golpe5 ou em um grito 
violento ou, por que não?, em uma careta agressiva. 
Durante quase um minuto, o mágico permanece em silêncio e todos nós com ele. 
Sinto-me incomodado, só escuto algumas pessoas tossirem. Acomodo-me várias vezes na 
poltrona e olho de novo para trás. O teatro está completamente cheio e agora em silêncio. 
Pergunto-me qual será a intenção do mágico ao interromper a apresentação. Talvez deseje 
que suas revelações se aprofundem, que todos nos convençamos de que o que ele mostrou 
realmente existe. 
Nesse momento você se volta e diz-me em voz muito baixa: 
- É óbvio, João não apenas golpeou Pedro, mas como também o agrediu; e não 
apenas o agrediu, mas como também tem agressão dentro dele. Ninguém pode negá-lo, 
não é? Seria estúpido dizer que é mentira, não é? 
Afirmo com a cabeça sentindo que aceito uma explicação que na realidade não me 
convence. Analisando o que aconteceu até o momento, advirto que do comportamento de 
golpear, o mágico fez aparecer o agredir; logo afirmou que uma pessoa que golpeia outra, 
agride-a; e finalmente concluiu que se uma pessoa agride, deve ter algo dentro dela que se 
chama agressão. Mas, apesar de que eu me dê conta de todos estes truques verbais, prefiro 
acreditar que não o são, que são realidades e não meras palavras que se derivam umas de 
outras. Ademais, ninguém quer ser um estúpido. Como dizia o meu avô: "Há um prazer nos 
mitos que é difícil refutar, como há uma atração na multidão da qual é difícil escapar". 
Sem me dar conta, repito o que pensei em voz alta: "Há um prazer nos mitos que é 
difícil refutar..." 
Neste momento você se volta para mim e pergunta: 
- O que disse? 
- Nada, só estava pensando. 
- Pois pensa em volume muito alto – comenta você, rindo-se de sua piada. 
- Agora, como complemento deste truque lhes apresentarei um que chamo Sentir 
Fictício I6 - diz o mágico enquanto se dirige para onde se encontram João e Pedro. De pé 
em frente a Pedro, pergunta-nos com sua voz ressoante: 
- O que vocês acreditam que sentiu Pedro quando João o golpeou? 
- Sentiu dor! – respondemos rapidamente. 
- Estão certos de que unicamente sentiu dor? Não acham que sentiu o golpe e 
também a agressão? 
- Sim, Pedro sentiu três coisas – respondemos em uníssono. 
- Isso! Muito bem! – exclama o mágico emocionado, estendendo sua mão para 
frente e contando com seus dedos. – Sentiu o golpe, a dor e a agressão. 
Volto a olhar para você e pergunto-lhe intrigado: 
- O que você acha? Concorda que Pedro sentiu isso tudo? 
- Acho, quando nos golpeiam sentimos três coisas: o golpe, a dor e a agressão de 
quem nos golpeou. 
Sorrio e volto a sentir que, de uma maneira muito sutil, o mágico nos está 
enganando. Mas na verdade não importa; de qualquer forma, estamos aprendendo a 
descrever e a explicar o comportamento. Ademais, se todo o público parece de acordo, 
qual é a razão para eu não estar? 
Agora, para assegurar-se de que entendemos, o mágico pergunta: 
- Como acreditam que se sentiu Pedro quando João o golpeou? Contente ou 
agredido? 
- Agredido – respondemos. 
- Assim é, sentiu-se agredido, porque sentiu agressão. 
Todos nós ficamos olhando fixamente o mágico. Ele sorri satisfeito e observo que 
seus dentes são muito brancos e estão perfeitamente alinhados. 
- Sentir dor, sentir agressão e sentir-se agredido são emoções distintas – 
acrescenta. 
É surpreendente nos darmos conta como, de truque em truque, aumenta nosso 
conhecimento acerca do comportamento. Ademais, sentimo-nos muito satisfeitos por vir 
ao teatro e orgulhosos de responder corretamente todas as perguntas que nos punha o 
mágico. Noto que minha confusão e mal-estar diminuíram ao longo do espetáculo. 
Sinto-me melhor e concluo: "Não é normal duvidar do que é tão evidente, de algo 
com o que estão de acordo todos os presentes. Não tenho por que sentir que me estão 
enganando". 
 
Há um prazer nos mitos que é difícil refutar, como há uma atração na multidão da 
qual é difícil escapar. 
 
O mágico diz: Quando observarmos João golpear Pedro, descreveremos seu 
comportamento referindo-nos ao que tem e não ao que faz; diremos: "João tem agressão 
nele: e não apenas "João golpeia ou agride Pedro". 
 
O mágico diz: Quando nos golpeiam sentimos três coisas: o golpe, a dor e a 
agressão de quem nos golpeou. 
 
VI 
QUINTO TRUQUE 
 
- Estamos já no quinto truque, que se chama: "Colocar um traço"1. Ainda que este 
truque seja simples, peço-lhes que prestem muita atenção porque o resultado é 
sumamente importante par entender o comportamento humano – assinala o mágico com 
certa ironia. 
- Simples? – você me pergunta. – Não creio que exista algo simples no 
comportamento humano. 
Passa um momento e esperamos em completo silêncio. 
- Mas, esquecia-me de dizer-lhes – explica o mágico olhando-nos profundamente –, 
que antes de colocar um traço, executarei rapidamente três truques, um que chamo Sentir 
Fictício II, outro que chamo Re-substantivação, e outro que os mágicos conhecem como 
Construtivação. 
O mágico tira a cartola e arrumando seu cabelo, continua: 
- Prestem muita atenção: dissemos que o que sentiu Pedro quando João o golpeou 
foi agressão, não apenas o golpe e a dor2. Agora, por favor, sejam amáveis em me 
responder a esta pergunta: o que acreditam que João sentiu ao golpear Pedro? Sim, olhem 
bem, refiro-me ao que sentiu João, não ao que sentiu Pedro – esclarece. 
- Agressão também – respondemos. 
- Perfeito, sua resposta está correta, ambos sentiram a emoção que chamamos 
agressão3. Pedro sentiu a agressão de João e este sentiu a agressão dentro de si mesmo. 
Todos aplaudimos. Olho paravocê e você me diz: "Todos temos emoções em nosso 
interior. Nem você nem eu, nem ninguém viu jamais uma emoção fora de nosso corpo". 
Fora de nosso corpo – digo-me em silêncio. 
- É evidente – afirma o mágico – que dentro de João está a emoção chamada 
agressão. 
- Sim, dentro dele está essa emoção – respondemos todos e aplaudimos. 
- Agora passo ao truque resubstantivação4 – diz o mágico. – Primeiro tomo o 
substantivo agressão, que fiz aparecer anteriormente, e transformo-o no substantivo 
agressividade5. 
Outra mais das magníficas aparições do mágico – penso. 
- Agora sim – anuncia esfregando as mãos em frente ao seu rosto e soprando – 
executarei o ato que chamo "colocar um traço". Por favor, observem como, com a ajuda de 
minha varinha mágica, colocarei a recém-aparecida agressividade em João. Mas primeiro 
terei que fazer aparecer o que chamamos personalidade. Para isso, executarei outro truque 
que denomino: Constructivação6. 
O mágico pega as mãos de João e as introduz na cartola, depois põe suas mãos e 
tira a personalidade7. 
Todos aplaudimos, inclusive alguns gritam. 
- Agora sim poderei colocar a agressividade em João. 
O mágico pronuncia as palavras mágicas e ocorre a transferência. 
- Como podem confirmá-lo, agora João não apenas tem dentro dele a emoção que 
chamamos agressão, como também o traço de personalidade que chamamos agressividade 
– diz e, ao terminar, inclina-se cerimoniosamente ante nós. 
Surpreendidos, todos aplaudimos. 
Eu deduzo o seguinte e digo-lho sem reserva: 
- "É verdade que João não somente golpeou Pedro, mas o agrediu, como também o 
é, que João tem agressão dentro dele ou, melhor dizendo, tem agressividade. Isso é tão 
óbvio como estamos aqui sentados neste imenso teatro". 
Você sorri e acrescenta: 
- "Mas lembre-se de que João não só tem agressividade, também tem uma 
personalidade, e é uma personalidade agressiva; isto é tão real como o que você acaba de 
dizer". 
- Sim, claro – respondo, corrigindo interiormente minha omissão. 
 
O mágico diz: Pedro sentiu a "agressão" de João e este sentiu a "agressão" dentro 
de si mesmo. 
 
O mágico diz: Agora passo ao truque re-substantivação. Tomo o substantivo 
"agressão", que fiz aparecer anteriormente, e transformo-o no substantivo 
"agressividade". 
 
O mágico diz: Colocarei a recém aparecida "agressividade" em uma parte de João 
que chamarei "personalidade". 
 
VI 
SEXTO TRUQUE 
 
- A Real Academia de Mágicos chama ao seguinte truque Gerundização1. É tão 
simples como o anterior, por isso raramente o incluo como parte do espetáculo. Não 
obstante, nessa ocasião, e só desta vez, executá-lo-ei como resposta a seus amáveis e 
calorosos aplausos – diz o mágico arrumando sua gravata borboleta e sua calça folgada. 
- Estamos de acordo com que o que faz João é agredir; mas na realidade, enquanto 
João golpeia Pedro, não faz precisamente isso – diz o mágico esfregando o verbo agredir 
com suas mãos. 
Uns segundos depois, ele abre suas mãos e mostra-nos o agredindo. 
Todos aplaudimos. O agredir se transformou em agredindo. 
- Por isso – interroga-nos o mágico –, o que me responderiam se eu lhes 
perguntasse o que está fazendo João? 
- Agredindo Pedro – respondemos, e assombro-me pela facilidade com que 
entendemos. 
- Perfeito, agredindo não é um substantivo, mas um modo do verbo agredir. 
Agredindo descreve algo que está ocorrendo agora mesmo. Por isso, se queremos falar 
com precisão, devemos dizer que no momento em que João golpeia Pedro não o agride, 
mas que o está agredindo – diz o mágico enquanto ajeita com a varinha o engomado de sua 
camisa. Todos rimos, pois o faz com muita graça e habilidade. 
A apresentação não apenas se está tornando interessante, como também divertida. 
É surpreendente a forma como o mágico manipula sua varinha e fala do comportamento, 
utilizando palavras que tira de sua cartola. 
É verdade, concluo, que uma coisa é que João golpeie a Pedro, outra que o agrida e 
outra mais que o esteja agredindo nesse momento. 
 
O mágico diz: Falando com precisão, devemos dizer que no momento em que João 
golpeia Pedro não o agride, mas que o está agredindo. 
 
VIII 
SÉTIMO TRUQUE 
 
- Pessoalmente, inventei e intitulei o seguinte truque – anuncia o mágico com 
bastante arrogância. – Chamei-o Adverbialização1. Meses depois, a Real Academia de 
Mágicos o fez seu. Devo confessar-lhes que o plágio também existe na comunidade de 
mágicos – acrescenta sorrindo. 
Então introduz com presteza o substantivo agressividade na cartola e golpeia-o 
três vezes com a varinha mágica, convertendo-o no advérbio agressivamente. 
- Observamos que João golpeou Pedro; vocês acreditam que o fez amavelmente? – 
pergunta o mágico. 
- Não, ele o fez agressivamente! – respondemos. 
- Sua resposta é tão rápida quanto correta! – exclama o mágico inclinando sua 
cartola para nós como mostra de aprovação. 
- Agora entendemos perfeitamente que a ação de agredir, feita por uma pessoa que 
tem o traço de agressividade em sua personalidade, é executada agressivamente2 - 
acrescenta. 
O público aplaude, também eu e você. O mágico nos corresponde aplaudindo. É 
claro que todos estamos aprendendo coisas muito diferentes sobre a natureza humana, 
melhor dizendo, sobre o comportamento humano. 
 
O mágico introduz o substantivo "agressividade" na cartola e golpeia-o três vezes 
com a varinha mágica, convertendo-o no advérbio "agressivamente". 
 
IX 
OITAVO TRUQUE 
 
- Este truque se conhece com o nome de Adjetivação1 e o executarei rapidamente 
porque tenho várias apresentações mais para frente – informa-nos o mágico. Então, 
utilizando novamente a varinha mágica, com grande habilidade converte o nome agressão 
no adjetivo agressivo. Sua execução é tão súbita quanto surpreendente. 
- Agora, João não apenas tem agressão, mas também é agressivo – assinala o mágico 
com sua voz potente. 
Tão logo o disse, repito – " João não apenas tem agressão dentro dele, mas também 
é agressivo". 
Depois, tocando o seu ombro, eu digo-lhe: "É lógico que se uma pessoa tem 
agressão dentro dela, seja agressiva2, não é? 
"Certo" – respondes com firmeza –, "seria um estúpido se não estivesse de acordo 
com isso. É tão claro, não é?" 
Eu unicamente sorrio e espero com impaciência o ato seguinte. 
 
O mágico converte o nome "agressão" no adjetivo "agressivo". 
 
X 
NONO TRUQUE 
 
- Agora, por favor, observem com cuidado – pede-nos o mágico. – Executarei um 
pequeno truque que se conhece como Etiquetar o ator1. 
Então ele coloca os substantivos agressividade e agressão dentro da cartola e, 
utilizando a varinha, converte-os no adjetivo agressor. 
- Aqui está o adjetivo agressor, o qual utilizamos para dizer o que João é. Ele é um 
agressor porque tem agressão ou agressividade nele – conclui o mágico ensinando o 
adjetivo ao público. 
Todos assentimos. Parece-nos uma conclusão correta. Então o mágico tira uma 
folha do bolso de seu casaco. 
Agora nos lerá algo – penso. 
O mágico desdobra a folha com cuidado e diz-nos: 
- Para que não se lhes esqueça o que aprenderam até agora, ensiná-los-ei uma 
canção que compus há anos. Por favor, repitam junto comigo: "Tralalá; quando João 
golpeia, João agride. Lalalá; quando João agride o faz agressivamente". 
Todos tratamos de imitá-lo e o mágico continua: 
- Tralalá; se João agride, então é agressivo. Lalalá; se João é agressivo, então tem 
agressão. Tralalá; se tem agressão, então tem em sua personalidade um traço de 
agressividade. Lalalá..." 
A canção é ridiculamente monótona, mas ao fim deste truque todos a cantamos 
divertidos. 
 
O mágico diz: João é um agressor, porque tem agressividade nele.XI 
DÉCIMO TRUQUE 
 
- Perfeito! – diz o mágico e aplaude-nos com entusiasmo. – Escutar esta canção é 
muito inspirador, sua letra é fundamental para entender o comportamento humano. 
Tenham-na sempre em sua memória. 
Ter algo na memória, guardá-la sempre ali – penso. 
- Sim – continua o mágico –, na verdade me sinto muito, mas muito satisfeito de 
estar-lhes divertindo. Ademais, não achem que minto, se lhes digo que vocês são tão 
afinados quanto eu. 
Todos rimos e imediatamente depois ele dá alguns passos para frente e detém-se 
justamente na borda do cenário. Um momento depois nos pede que fiquemos em silêncio 
colocando o dedo indicador sobre seus lábios e inclinando-se um pouco para frente. Todos 
obedecemos impressionados de sua maestria e autoridade. 
- A este truque se lhe chama Explicação Fictícia I. Peço-lhes que prestem muita 
atenção, porque o que vamos fazer é aprender a explicar o comportamento. Sim, nosso 
comportamento! – exclama o mágico. 
Aprenderei a explicar o comportamento, por fim saberei por que sou como sou – 
penso. 
- Fiz aparecer a agressividade e a personalidade agressiva – continua o mágico –, 
justamente o que necessitamos para saber por que nos comportamos como o fazemos. 
Agora introduzo na cartola a pergunta: "Por que João golpeou Pedro?", e obtenho a 
resposta: "Porque tem uma personalidade agressiva ou algo dentro dele que se chama 
agressividade". Agora coloco a pergunta: "Como sabemos que ele tem uma personalidade 
agressiva ou agressividade?", e obtenho a resposta: "Porque golpeou Pedro"1. 
Muito simples, não há mais o que pensar. 
Volto a olhar para você e você parece tão impressionado quanto eu e o resto do 
público. 
- Estão de acordo? – pergunta o mágico sorrindo. 
- Sim, claro que sim – respondemos imediatamente. 
Ainda que, pensando-o melhor, dou-me conta de que, com este truque, o mágico 
nos faz acreditar que explicamos o comportamento de João, usando somente palavras que 
ele fez aparecer anteriormente baseando-se no verbo golpear. Mas apesar de dar-me conta 
disso, estou muito surpreso com os poderes explicativos do mágico ou de sua grande 
criatividade verbal. 
- O que acha dessa magia? – pergunto-lhe, confuso. 
- Neste momento não sei o que lhe dizer – responde-me você –, de alguma maneira 
que ainda não posso explicar o mágico nos está fazendo acreditar em alguma coisa que não 
é muito certa. 
- Provavelmente nos está enganando, mas, seja o que for, não podemos negar a 
grandiosidade de cada um de seus truques – respondo-lhe e confirmo que, geralmente, os 
bons amigos pensam o mesmo. 
 
O mágico introduz na cartola a pergunta: "Por que João golpeou Pedro?", e obtém a 
resposta: "Porque tem uma personalidade agressiva ou algo dentro dele que se chama 
agressividade". Agora coloca a pergunta: "Como sabemos que ele tem uma personalidade 
agressiva ou agressividade?", e obtém a resposta: "Porque golpeou Pedro". 
 
XII 
DÉCIMO PRIMEIRO TRUQUE 
 
Ajustando as mangas de sua camisa e com voz rigorosa, o mágico anuncia: 
- À seguinte execução se lhe nomeia Explicação Fictícia II. Introduzo na cartola a 
pergunta: "Por que João golpeou Pedro?, e obtemos a resposta: "Porque é agressivo". Agora 
coloco na cartola a pergunta: "Por que é agressivo?", e obtemos a resposta: "Porque 
golpeou Pedro"1. 
Passam alguns segundos e o mágico, olhando-nos misteriosamente, interroga-nos: 
- Estão de acordo? 
- Sim, claro, também com isto estamos de acordo – respondemos e escuto que você 
acrescenta: "totalmente". 
Não me explico por que nossas dúvidas desaparecem gradualmente. Talvez faça 
parte da magia. 
Repito para mim: "João golpeia porque é agressivo e é agressivo porque golpeia. 
Não há dúvida, esta é uma boa explicação de seu comportamento". 
 
O mágico introduz na cartola a pergunta: "Por que João golpeou Pedro?, e obtém a 
resposta: "Porque é agressivo". Depois coloca na cartola a pergunta: "Por que é agressivo?", 
e obtém a resposta: "Porque golpeou Pedro". 
 
XII 
DÉCIMO SEGUNDO TRUQUE 
 
Considero que estes são os melhores truques de magia que já desfrutei em minha 
vida. É surpreendente que a partir de um comportamento tão simples e pontual como João 
golpeando Pedro, o mágico tenha feito aparecer coisas novas e interessantes. 
Claro – concluo – deve existir uma ciência que se dedique a estudar cada um dos 
truques e das coisas que o mágico fez aparecer. Seria uma lástima que tudo isso ficasse 
sem análise, sem uma ciência que o considerasse como seu objeto de estudo1. 
Agora o mágico, com uma expressão de completa confiança e satisfação, apresenta 
o seguinte ato. 
- O seguinte truque se intitula: Explicação Fictícia III. Introduzo na cartola a 
pergunta: "Por que João é agressivo?", e obtenho a resposta: "Porque tem agressão". Agora 
coloco a pergunta: "Por que tem agressão?", e obtenho a resposta: "Porque é agressivo"1. 
Nessa ocasião o mágico não confirma se estamos de acordo com sua afirmação. 
Talvez para ele seja óbvio que concordamos. E é verdade. Como poderíamos negar algo 
que é tão claro e evidente? 
"João agrediu porque tem agressão e tem agressão porque é agressivo", repito em 
voz alta tratando de aprender esta admirável e completa explicação sobre o 
comportamento humano. 
 
O mágico introduz na cartola a pergunta: "Por que João é agressivo?", e obtém a 
resposta: "Porque tem agressão". Depois coloca a pergunta: "Por que tem agressão?", e 
obtém a resposta: "Porque é agressivo". 
 
XIV 
DÉCIMO TERCEIRO TRUQUE 
 
- Agora, com o mágico número treze chegamos ao último truque. Espero que 
tenham desfrutado da apresentação e aprendido a nomear, descrever e explicar o 
comportamento, seja o de vocês ou o dos outros – anuncia o mágico com um sorriso de 
plena satisfação. 
Eu penso que sim, então me volto para você e, com curiosidade, lhe pergunto: 
- Você aprendeu algo? 
- Sim, claro, aprendi muitíssimo sobre o comportamento humano – responde-me 
convencido. 
Sorrio como mostra de acordo e acomodo-me na poltrona. Então, o mágico tropeça 
com o microfone, ouvindo-se um forte ruído no teatro. 
- Perdão! – exclama o mágico inclinando-se imediatamente para levantá-lo –, neste 
último ato sempre me sinto muito nervoso porque, ainda que pareça simples, é 
extremamente difícil. Precisa-se de uma longa preparação para poder realizá-lo, por esta 
razão sempre o deixo para o fim do espetáculo. Por favor, prestem muita atenção a tudo o 
que faço e digo – adverte-nos. 
O mágico caminha lentamente até a parte de trás do cenário. Apagam-se todas as 
luzes exceto uma que permanece dirigida a ele. Seu traje negro brilha mais do que antes. 
Todos estamos em completo silêncio. 
- Amável público – diz –, tudo o que fiz aparecer tem que ocorrer e existir em 
alguma parte1. Em algum lugar tem que estar a agressão, a agressividade, o agressivo, em 
algum lugar do qual surja. Como poderia ser de outra maneira? – pergunta-nos. 
Então, avança dois passos lentamente até a frente e a luz o segue. A cena se torna 
estranha, um tanto mística. 
- Agora lhes mostrarei de onde ocorreu tudo o que sucedeu ao longo da 
apresentação; revelar-lhes-ei as misteriosas origens do comportamento ou 
comportamento humano – exclama o mágico com uma voz forte e penetrante. 
Pela primeira vez se escuta música de fundo, não identifico a melodia, mas é 
clássica. Pode ser Beethoven ou Mozart. Então o mágico caminha até a frente 
pronunciando as palavras mágicas e aparece: A Mente. 
- Esta é A Mente! – exclama o mágico levantando os braços até o céu. – Ela explica 
toda o comportamento e contém todas as causas de nosso comportamento. Sem ela 
seríamos animais irracionais. 
Muitos dos presentes se inclinam e sintocalafrios. Sem dúvida este foi o truque 
mais impressionante que jamais presenciei em toda minha vida. Depois todos aplaudimos 
tão efusivamente que chegamos a nos aturdir. Alguns de nós ficamos em pé e gritamos 
emocionados: "Viva, viva o mágico! Viva, viva A Mente!". 
- Na mente está a agressão que é a causa de que João agrida – acrescenta o mágico 
em voz alta, aparentando não se importar com os aplausos. – Foi A Mente o que 
primeiramente converteu João em agressivo e depois o fez com que golpeasse Pedro. É na 
Mente que reside a agressão de João. Ela é a com que faz que alguém seja um agressor e 
que atue agressivamente. Nela está tudo e a explicação de tudo, assim, milagrosamente 
simples. Nossa personalidade, o que somos na realidade, está na Mente. 
"Assim, milagrosamente simples", repito para mim. 
Então, o mágico dá uns passos para trás e a luz continua sobre ele. 
- Repito, a Mente contém tudo e é a causa e a origem de todo comportamento. Sem 
a Mente nem vocês nem eu nos comportaríamos como o fazemos. Não há mais o que dizer. 
Nesse momento alguém do público grita: 
- João golpeou Pedro porque quis. Ele o fez porque sentiu vontade de fazê-lo, 
porque era sua intenção ou propósito. Essa é a explicação verdadeira2! 
O mágico caminha para frente, olha fixamente o indivíduo que o interrompeu e 
admoesta-o apontando-lhe o dedo indicador. 
- Escute bem; não quero que nem você nem todos os demais que estão aqui 
abandonem o teatro sem entender que, ao referir-nos a um sentimento como a causa de 
um comportamento, sem explicar de onde se origina esse sentimento, é um velho truque 
de magia. Um truque passado de moda, verdadeiramente ridículo. Sim, ridículo – repete o 
mágico em voz alta3. 
O indivíduo admoestado se senta lentamente e eu concluo que a causa de seu 
comportamento é que sente vergonha. Tão logo o penso dou-me conta que precisamente 
estou explicando suo comportamento referindo-me a um sentimento, à vergonha. Volto a 
olhar o mágico temendo que ele se tenha dado conta de meu erro. É certo que o criador da 
mente também tem o poder de lê-la. 
- É por isso que não incluo este ato em meu repertório – acrescenta o mágico 
impaciente dando alguns passos para trás. – Não há dúvida, os sentimentos e intenções 
não se auto-originam, mas que se originam na Mente4. Lembrem-se: a Mente sempre é 
primeira, a Mente é primeira! – repete o mágico apontando para a cabeça. 
A pessoa que interrompeu pede desculpas de seu lugar, mas o faz de uma maneira 
tão infantil que todos nos rimos. 
- Talvez – grita outro espectador – João golpeou Pedro porque tem pensamentos 
ou crenças irracionais, porque pensa e acredita em algo que não é certo. 
- Voltamos ao mesmo – responde incomodado o mágico. – Mas suponhamos que 
assim fosse; em todo caso, não se explica como se originam os pensamentos irracionais ou 
as falsas crenças5 – esclarece. – A origem é a Mente, lembrem-se: a origem é a Mente. Não é 
necessário buscar outra resposta – insiste. 
Nesse momento um jovem que está em frente a nós se põe em pé e grita com 
frustração: 
- Creio que João golpeou Pedro porque Pedro iria golpeá-lo. 
O mágico se volta para ele e sinto que me olha a mim. Sorrio nervosamente. 
- Sim, este pode ser outro truque, mas infelizmente, devido ao pouco tempo hoje 
não o apresentarei. Conhece-se-lhe com o nome de Teleologia6 e consiste em lograr que 
algo que ocorrerá no futuro, seja a causa de algo que ocorre no presente. Se houver tempo, 
prometo-lhes executar esse truque na seguinte apresentação; confesso-lhes que é bastante 
interessante. 
O jovem se senta e eu me recupero de meu nervosismo. Nesse momento outra 
pessoa do público objeta: 
- Todos os seus truques são excelentes, mas opino que João golpeou Pedro porque 
tem um gene agressivo ou alguma desordem orgânica7. 
O mágico ri estrepitosamente, golpeando o piso várias vezes com o pé direito. Há 
uma mudança de luzes, agora a luz que o ilumina é avermelhada. 
- Devo admitir que os truques mais populares na atualidade são os genéticos ou 
biológicos. Mas, pessoalmente, desagradam-me porque são muito simplistas; 
reducionistas, diria eu – e continua rindo-se. 
- Simplistas, reducionistas? – pergunta ainda perturbado o mesmo indivíduo que 
fez a intervenção. 
- Sim – responde o mágico com um gesto de indiferença. – Simplistas, porque se 
não se sabe como explicar um comportamento, inventa-se um gene ou uma causa 
orgânica. E reducionistas, porque se tenta explicar tudo fazendo referência ao organismo. 
Isto não tem nada de profissional, não é? 
Murmuramos com assombro. O mágico é grandioso, suas respostas são totalmente 
convincentes. 
Outro espectador, um ancião de barba branca que está sentado na parte mais 
escura do teatro grita com dificuldade: 
- Todos vocês estão equivocados, todos, inclusive o mágico! João golpeou Pedro 
porque tem uma desordem mental e nada mais8! 
O mágico sorri maliciosamente e, dirigindo-se ao ancião, declara: 
- Com todo o respeito que o senhor e todos merecem, digo-lhes que inventar uma 
desordem mental ou psicológica é mais fácil ainda que inventar uma orgânica. É assim, 
porque não existe nenhuma possibilidade de determinar se uma desordem mental existe 
ou não. Certamente que existe a Mente, mas nunca poderemos vê-la... Senhor, devo dizer 
que esse é um truque de principiantes, ainda que eu admita que é muito atrativo. 
Imediatamente ao terminar esse comentário o mágico faz uma caravana, indicando 
com isso que sua apresentação havia terminado. A iluminação passa do vermelho a um 
azul muito tênue. Aplaudimos pela última vez e vemo-lo retirar-se lentamente pelo lado 
direito do cenário. 
Tão logo desaparece sentimos um enorme apreço por ele. É claro que foi ele quem 
nos brindou com a oportunidade de descobrir o que já existia, ainda que não nos déssemos 
conta e, sobretudo, quem nos revelou o lugar onde ocorre e origina-se todo o 
comportamento ou comportamento, onde sucede o que nos faz seres humanos. 
Volto-me para ver você e você me diz: 
- Continua me parecendo maravilhoso que o mágico tenha feito aparecer tantas 
coisas, baseando-se em um comportamento tão simples como golpear9. 
- É surpreendente, de fato – acrescento e, emocionado, esfrego as mãos. 
Todas as pessoas se levantam; em contraste, nós ficamos sentados para esperar 
que se descongestione a saída. Passam-se uns minutos e de novo se abre o telão. O mágico 
está aí, outra vez, informando que apresentará outra apresentação. Algumas pessoas, 
incluindo nós, permanecemos sentados para ver de novo sua demonstração. Minutos 
depois descobrimos que são os mesmos truques e, ainda que sejam interessantes, não são 
o suficiente para vê-los uma segunda vez. Finalmente decidimos nos ir. Caminhamos até o 
que parece ser a saída principal do teatro e por sorte encontramos um lanterninha. 
- Por favor, poderia você nos indicar a saída? – perguntamos-lhe. 
- Com gosto, ainda que vocês possam permanecer na sala o tempo que quiserem, 
lembrem-se de que não se cobra nada por esta apresentação. 
- Obrigado, você é muito amável, mas precisamos ir, temos coisas para fazer – você 
o responde apressadamente. 
- Não há de que, mas insisto que seria melhor que permanecessem na sala – insiste 
o lanterninha. – Se ficarem, asseguro-lhes que cada vez entenderão melhor os truques e, 
com sorte, terminarão fazendo-os vocês mesmos em suas casas frente a familiares ou 
amigos, será muito divertido. 
- Obrigado, mas por favor, mostre-nos a saída – você insiste, quase rogando. 
- Se é isso o que querem, assim o farei; mas não entendo a sua pressa – responde 
secamente o lanterninha. 
Passamos entre centenas de pessoas que entram e saem do teatro, todos se vêem 
emocionados. Finalmentechegamos a uma sala que está quase vazia e caminhamos 
justamente pelo centro. O piso é de mármore, sente-se muito frio o ambiente e, ainda que a 
sala tenha grandes janelas, está muito escura. 
Ante o silêncio aproveito para pedir ao lanterninha que nos explique o que na 
verdade está acontecendo no teatro. 
- Quanto tempo se está exibindo essa apresentação? 
- Mais de dois mil anos. 
- Dois mil anos?! – perguntamos surpresos. 
- Sim, desde os tempos da antiga Grécia, milhões de espectadores assistiram. Todos 
eles foram e continuaram sendo enganados. Agora também vocês tiveram esse privilégio. 
- Você diz que o mágico nos enganou e que ser enganado é um privilégio? – você 
pergunta imediatamente, mostrando claramente o seu desacordo, para não dizer a sua 
raiva. 
- Claro. Vocês e toda a humanidade têm sido e continuam sendo enganados 
diariamente em todas as apresentações. É um privilégio ser como todos, ou seja, ser 
normal, não é? 
- Bom, não necessariamente – você responde, perturbado. 
O lanterninha sorri e convida-nos de novo para regressar ao teatro. 
- Não poderia dizer, por favor, exatamente em que fomos enganados? 
- Em muitas coisas que se resumem no seguinte: fazê-los acreditar que toda 
palavra necessariamente tem um referente, algo que existe e que nomeia – prossegue o 
lanterninha sem nos olhar nos olhos. – Palavras que se referem unicamente a outras 
palavras ou a nada, esse foi o engano. 
- Então, o mágico nos enganou intencionalmente? – você pergunta, aflito. 
O lanterninha se detém rapidamente e olhando-nos nos olhos, responde: 
- Acaso isso importa? De qualquer maneira o efeito é o mesmo. Os espectadores, 
incluindo vocês, acabam acreditando que o comportamento ou o comportamento se 
podem explicar por meio de truques ou artifícios verbais, com palavras que o mágico tira 
da cartola. 
- Truques verbais – repito em voz baixa. 
- Sim, truques lingüísticos – responde o lanterninha, dando mostra de sua 
capacidade auditiva –, artifícios semânticos ou gramaticais que... 
- Entendemos, entendemos perfeitamente – você interrompe e eu vejo em seu 
rosto uma expressão de angústia –, mas ainda assim, não entendo o que na verdade está 
acontecendo nesse teatro. 
O lanterninha continua caminhando e nós o seguimos, perplexos. 
- Olhem, vocês devem entender que os mágicos vivem de seus truques e fazem 
todo o possível para manter o público enganado, ou dito elegantemente, entretido. Claro 
que nenhum mágico deseja que o público descubra seus segredos. De que viveriam os 
mágicos se não enganassem as pessoas? 
Sinto-me enjoado. É difícil respirar. Olho para trás e a sala, que há poucos segundos 
estava quase vazia, agora está completamente cheia. Você pede ao lanterninha que, por 
favor, apresse-se e mostre-nos a saída. Pressuponho que você se sente como eu. 
- Por aqui – diz o lanterninha saindo da sala –, não há necessidade para se 
angustiarem, asseguro-lhes que nada de mal acontecerá, ademais do que já passa há tantos 
séculos. 
Durante vários minutos continuamos por um corredor longo e estreito. Há quadros 
colados em ambas as paredes. Ao início são imagens de filósofos gregos e orientais, e ao 
final, fotos de psicólogos modernos. O último quadro contém a foto de uma pessoa maior 
com frente muito ampla. O quadro está inclinado e tem o cristal roto. Na parte inferior da 
foto se diz com letras muito pequenas: "B. F. Skinner"10. 
Nesse momento, o lanterninha se detém e olhamos intrigados para ele. 
- Ali está a saída – diz-nos, assinalando-nos uma estreita porta ao final do corredor. 
– Podem ir vocês sozinhos, eu fico aqui. Não encontraria trabalho fora do teatro – 
acrescenta com voz entrecortada. 
- Obrigado – dizemos e aceleramos o passo, deixando para trás o lanterninha. Sinto 
pena por ele. Por seu tom de voz e sua maneira de caminhar que me dão a impressão de 
que queria vir conosco e sair do teatro. 
Passamos através da porta com muita dificuldade, como se uma lufada de vento 
nos empurrasse para dentro. 
Nesse momento tudo me parece um sonho, ou melhor dizendo, um pesadelo. O que 
quero é estar fora do teatro o mais rápido possível. 
Uma vez fora, busco por você, mas não lhe encontro em lugar algum, seguramente 
você caminhou mais rápido do que eu ou talvez não conseguiu resistir ao vento. 
Agora posso respirar sem dificuldade e sinto-me melhor. Antes de ir para casa olho 
rapidamente para trás para procurar por você pela última vez, mas não você está. Sinto 
tristeza, e entristeço ainda mais quando me dou conta de que poderias ficar vendo a 
apresentação mil e uma vezes. Dou uns passos para frente, não sei se volto ou vou para 
casa. Nesse momento descubro um enorme cartaz colocado em frente ao teatro, com letras 
grandes e luminosas diz: "Psicologia". Sob elas, com letras menores, mas chamativas, diz: 
"Bem-vindos ao teatro mais antigo do mundo", mais abaixo anuncia o nome do mágico: 
"O Grande Psicólogo" e o nome da apresentação: "Treze truques de magia". Na parte 
direita do cartaz diz com letras diferentes e cores muito brilhantes: "Apresentações 
diárias e contínuas. Admissão grátis para crianças e adultos". Ao ler isso, 
indubitavelmente decido ir para casa. 
De alguma maneira, sinto que perdi você. 
 
- Esta é A Mente! – exclama o mágico levantando os braços para o céu. – Ela explica 
todo comportamento, ela contém todas as causas de nosso comportamento. 
 
PARTE II – APRENDER A SER MÁGICO 
 
Para facilitar que o leitor aprenda os treze truques de magia executados pelo 
mágico, em seguida descrevemos cada um deles. Pensamos que isto poderia animar ao 
leitor a executar estes truques frente a seus familiares e amigos. 
Lembre-se de que a única coisa em que o mágico se baseou para executar os treze 
truques foi no comportamento ou comportamento de golpear João. Tanto o mágico como 
nós nomeamos o que João fez a Pedro com o verbo "golpear". 
 
TRUQUE 1 
Nome: Re-verbalização redutiva 
Descrição do truque: neste primeiro truque, o mágico nomeia a ação de golpear 
com o verbo "agredir". Justifica o uso do verbo agredir, porque com ele podemos designar 
uma grande variedade de atos ou comportamentos, como golpear, bater, beliscar, 
empurrar. Também justifica a mudança de nome dizendo que, quando golpear tem a 
intenção (função ou propósito) de machucar, é mais apropriado usar o termo "agredir". 
Note que o mágico somente mudou o nome do comportamento de João: de 
"golpear" para "agredir". 
Se você deseja executar esse e os seguintes truques, pode pedir de favor a um 
amigo e a namorada de seu amigo que lhe sirvam de sujeitos. 
Para realizar este truque, primeiro peça a seu amigo que beije-a, abrace-a, que 
pegue a mão dela e acaricie-lhe. Se você executar com êxito esse truque, seu amigo e a 
noiva de seu amigo terminarão designando o comportamento de beijar com a palavra 
"amar". 
Note que você só mudou o nome do comportamento de seu amigo: de "beijar" para 
"amar". 
 
TRUQUE 2 
Nome: Descrição Fictícia I 
Descrição do truque: neste truque, o mágico faz aparecer o termo "agrediu" e 
utiliza-o para descrever o comportamento de golpear de João. Para o mágico, João não 
golpeou Pedro, mas o "agrediu" dando-lhe um golpe. 
Você pode executar este truque fazendo aparecer a palavra "amou" e utilizando-a 
para descrever o que seu amigo fez com sua namorada, no lugar da palavra "beijou". Claro 
que a namorada de seu amigo se lhe agradecerá, porque se sentirá melhor ao saber que 
seu namorado não apenas a beijou, mas que também a amou. 
 
TRUQUE 3 
Nome: Substantivação, nominação do verbo ou reificação 
Descrição do truque: neste ato o mágico converte o verbo "agredir" no substantivo 
"agressão". 
Aqui vocêpode fazer o "amar", que você mesmo fez aparecer no truque um, 
converter-se em "amor". 
Agora existe o "amor", mas nem você nem eu nem ninguém saberia dizer onde 
está: se em seu amigo, em sua namorada, em ambos, ou justamente entre ambos. É certo 
que seus amigos se maravilharão com este truque. Você fez aparecer o amor! 
 
TRUQUE 4 
Nome: Descrição Fictícia II 
Descrição do truque: neste ato o mágico introduz "a agressão" dentro de João. O 
mágico, como resultado de sua magia, conclui que uma melhor descrição do 
comportamento de João é dizer que "tem agressão". 
Junto com este truque o mágico executa outro ao qual lhe chama Sentir Fictício I. 
Como resultado desta magia, o mágico conclui que quando João golpeou Pedro, este sentiu 
"agressão", não apenas dor. 
Continuando com sua tentativa de ser mágico. Você pode introduzir o "amor" 
dentro de seu amigo. Não se angustie, não lhe fará mal; fazemos isso o tempo todo. Agora 
podemos dizer que, se seu amigo beija a namorada, descreveremos melhor o que fez 
afirmando que seu amigo "tem amor" dentro dele. Claro, podemos esquecer-nos do beijo. 
Que importância tem um beijo quando existe amor? 
 
TRUQUE 5 
Nome: Colocar um traço 
Descrição do truque: o mágico converte "a agressividade" em um traço de 
personalidade. 
Antes deste truque, o mágico executa três truques aos quais nomeia: Sentir Fictício 
II, Re-substantivação e Construtivação. 
Como resultado do truque Sentir Fictício II, o mágico afirma que João sentiu 
"agressão" quando golpeou Pedro. 
Como resultado do truque Re-substantivação, o mágico faz aparecer o substantivo 
"agressividade" baseando-se no substantivo "agressão. " 
Como resultado do truque Construtivação, o mágico faz aparecer a personalidade. 
Você pode executar estes truques sem dificuldade. Primeiro, afirme que seu amigo 
"sentiu amor" quando beijou sua namorada. Logo, faça aparecer o substantivo 
"amorosidade", baseando-se no substantivo "amor". Logo, introduza as mãos de seu amigo 
na cartola e faça aparecer a personalidade. 
Por último, coloque a "amorosidade" na recém aparecida personalidade de seu 
amigo. 
Se lhe perguntarem: "Onde está a personalidade?", você responde: "Bom, veremos 
no truque 13". 
Claro, a palavra "amorosidade" não existe em português, mas não se angustie, os 
dicionários finalmente acrescentam palavras que o público usa. Lembre-se: os dicionários 
os fazemos nós. Tudo é questão de tempo, do número de pessoas que utilizem as palavras 
que depois incluirão. 
 
TRUQUE 6 
Nome: Gerundização 
Descrição do truque: o mágico converte o termo "agredir" no termo "agredindo" e 
conclui que no momento em que João golpeia Pedro não o agride, mas o está agredindo. 
Você pega agora o verbo "amar" e converte-o em "amando". Se obtiver êxito, seu 
amigo não estará unicamente beijando a sua namorada, nem terá "amor" dentro dele; mas 
estará "amando"-a. Claro, a namorada de seu amigo lho agradecerá. É tão bonito saber que 
alguém nos está amando! 
 
TRUQUE 7 
Nome: Adverbialização 
Descrição do truque: o mágico converte o substantivo "agressividade" no advérbio 
"agressivamente". 
Continuando com seu interesse pela magia, você pode tomar o substantivo "amor" 
(o que tem seu amigo dentro dele) e convertê-lo no advérbio: "amorosamente". 
Desta maneira, seu amigo trata "amorosamente" a sua namorada, não apenas a 
ama ou lhe dá um beijo. Claro, a namorada ficará contente com o resultado do truque e não 
demorará para dizer que seu amigo a trata "amorosamente". 
 
TRUQUE 8 
Nome: Adjetivação 
Descrição do truque: o mágico converte o substantivo "agressão" no adjetivo 
"agressivo". Assim, o mágico conclui que João não apenas "tem agressão", mas que "é 
agressivo". 
Você pode executar este truque sem dificuldade. Tome o substantivo "amor" e 
converta-o em "amoroso". É provável que a namorada de seu amigo tenha executado esse 
ato de magia antes que você, dizendo a seu amigo "amoroso". Mas não se sinta mal, os atos 
de magia que você está aprendendo nós todos os executamos, constantemente e sem nos 
darmos conta. Talvez seja precisamente nisso onde reside a destreza dos mágicos: 
ensinam-nos a executar este e outros truques desde que somos crianças, sem dar-se conta 
do que fazem. 
 
TRUQUE 9 
Nome: Etiquetar o ator 
Descrição do truque: o mágico converte a "agressividade" e a "agressão" no 
adjetivo "agressor". 
Por sua vez, tome você com muito cuidado a "amorosidade" e o "amor" de seu 
amigo; misture-os e converta-os em "amante" ou em "amador". A namorada de seu amigo 
agora tem um amante ou amador. Na verdade não sei dizer como responderá ela com a 
palavra "amante", já que esta tem tanto conotações positivas como negativas. Para alguns, 
um amante é alguém que vem, ama e vai; para outros, é alguém que ama como se estivesse 
sempre muito privado de amor. Por isso é melhor que unicamente lhe informe que seu 
amigo é um "amador". 
 
TRUQUE 10 
Nome: Explicação Fictícia I 
Descrição do truque: neste truque o mágico faz aparecer a seguinte "explicação": 
João golpeou Pedro porque tem agressividade ou uma personalidade agressiva. 
Se a namorada de seu amigo lhe pergunta: Por que ele me beijou?, responda: 
"Porque tem uma personalidade amorosa ou amorosidade". Asseguro-lhe que ela ficará 
satisfeita com a resposta. 
 
TRUQUE 11 
Nome: Explicação Fictícia II 
Descrição do truque: o mágico faz aparecer a seguinte "explicação": João golpeou 
Pedro porque é agressivo. 
Aqui, diga-lhe, melhor dizendo, explique à namorada que seu amigo a beijou 
porque é amoroso. 
 
TRUQUE 12 
Nome: Explicação Fictícia III 
Descrição do truque: neste truque o mágico faz aparecer a seguinte "explicação": 
João é agressivo porque tem agressão, ou uma personalidade agressiva ou porque tem 
agressividade. 
Aqui você pode dizer à namorada de seu amigo que ele é amoroso porque tem 
amor, uma personalidade amorosa ou porque tem amorosidade. Asseguro-lhe que ela 
gostará de o saber. Dirá surpreendida: "Então ele não apenas me beija, nem apenas me 
ama, mas sua maneira de ser, sua personalidade é amorosa. Que emoção!" 
 
TRUQUE 13 
Nome: Aparição da Mente 
Descrição do truque: neste último truque o mágico faz aparecer a mente, na qual 
(segundo os psicólogos em geral) reside o comportamento e as causas do mesmo. 
Na verdade, não sei se você poderá realizar este truque, nem sequer estou seguro 
de que seja conveniente que você trate de o aprender. Creio que é melhor deixá-lo apenas 
aos mágicos. 
 
 
Em seguida, os truques que o mágico e você executaram. 
 
1. Reverbalização Redutiva 
O mágico: 
Do "golpear", "bater", "empurrar", "beliscar" ao "agredir". 
Você: 
Do "beijar", "abraçar", "tomar a mão", e "acariciar" ao "amar". 
 
2. Descrição Fictícia I 
O mágico: 
Do "golpeou" ao "agrediu". 
Você: 
Do "beijou" ao "amou". 
 
3. Substantivação, nominação ou reificação 
O mágico: 
Do "agredir" à "agressão". 
Você: 
Do "amar" ao "amor". 
 
4. Descrição Fictícia II 
O mágico: 
Do "João golpeia ou agride Pedro" ao "João tem agressão nele". 
Você: 
Do "seu amigo beija sua namorada", ao "seu amigo tem amor nele". 
 
Sentir Fictício I 
O mágico: 
De que Pedro "sinta o golpe" a que Pedro "sinta a agressão". 
Você: 
De que a namorada de seu amigo "sinta o beijo" a que ela "sinta o amor". 
 
5. Colocar um traço 
O mágico: 
Da "agressividade" a colocá-la na personalidade (personalidade agressiva). 
Você: 
Da "amorosidade" a colocá-la na personalidade (personalidade amorosa). 
 
Sentir Fictício II 
O mágico: 
De que João "sinta que golpeia Pedro" a que João "sinta agressão".Você: 
De que seu amigo "sinta que beija sua namorada" a que ele "sinta amor". 
 
Re-substantivação 
O mágico: 
Do substantivo "agressão" ao substantivo "agressividade". 
Você: 
Do substantivo "amor" ao substantivo "amorosidade". 
 
Construtivação 
O mágico: 
Aparece a personalidade. 
Você: 
Aparece a personalidade. 
 
6. Gerundização 
O mágico: 
Do "agredir" ao "agredindo". 
Você: 
Do "amar" ao "amando". 
 
7. Adverbialização 
O mágico: 
Da "agressividade" ao "agressivamente". 
Você: 
Da "amorosidade" ao "amorosamente". 
 
8. Adjetivação 
O mágico: 
Da "agressão" ao "agressivo". 
Você: 
Do "amor" ao "amoroso". 
 
9. Etiquetar o ator 
O mágico: 
Da "agressividade" e "a agressão" ao "agressor". 
Você: 
Da "amorosidade" e "o amor" ao "amante" ou "amador". 
 
10. Explicação Fictícia I 
O mágico: 
Por que João golpeou Pedro? – Porque tem "agressividade", uma "personalidade 
agressiva". – Como se sabe que tem "agressividade" ou uma "personalidade agressiva"? – 
Porque João golpeou Pedro. 
Você: 
Por que seu amigo beijou sua namorada? – Porque tem "amor", uma 
"personalidade amorosa". – Como se sabe que tem "amor" ou uma "personalidade 
amorosa"? – Porque seu amigo beijou sua namorada. 
 
11. Explicação Fictícia II 
O mágico: 
Por que João golpeou Pedro? – Porque é "agressivo". – Por que João é "agressivo"? 
– Porque João golpeou Pedro. 
Você: 
Por que seu amigo beijou sua namorada? – Porque é "amoroso". – Por que seu 
amigo é "amoroso"? – Porque beijou sua namorada. 
 
12. Explicação Fictícia III 
O mágico: 
Por que João é "agressivo"? – Porque tem "agressão". – Por que tem "agressão"? – 
Porque é "agressivo". 
Você: 
Por que seu amigo é "amoroso"? – Porque tem "amor". – Por que tem "amor"? – 
Porque é "amoroso". 
 
13. A aparição da Mente 
O mágico: 
Da "agressão", a "agressividade", a "personalidade agressiva" e do "agressivo" à 
Mente. 
Você: 
Do "amor", "amorosidade", a "personalidade amorosa" e do "amoroso" à Mente. 
 
PARTE III – NOTAS 
 
Colocamos as notas ao final do livro e não ao pé de cada página para não distrair o 
leitor. 
Na medida do possível, escrevemos as notas de maneira que você entenda o que 
dizem sem necessidade de recorrer ao texto ao qual se referem. 
Lembre-se de que as notas, como todo o conteúdo desse livro, não são um produto 
acabado (não é tudo o que se pode dizer sobre o tema, nem a melhor forma de dizê-lo). São 
uma invenção para refletir e precisar o que os autores trataram aqui. 
Este livro está em processo, não é um livro acabado. Esperamos seus comentários. 
 
 
I 
 
1. Ao longo deste livro utilizamos os termos "ação", "comportamento" e 
"comportamento" de maneira indistinta. Ainda que reconheçamos a importância da 
análise destes conceitos, realizar esta análise não é agora nosso objetivo. 
 
2. "Golpear" (o comportamento de João), é um verbo freqüentativo ou iterativo 
(expressa uma ação que consiste na repetição de um mesmo ato), ainda que nesse caso 
João golpeasse Pedro somente uma vez. 
Existe uma grande quantidade de ações ou comportamentos humanas nas quais o 
mágico, você e todos nos podemos basear para executar estes truques. Na parte II deste 
livro você se baseou no comportamento de beijar. 
Ao ler este livro, descobrirá que a maioria dos termos que utiliza a psicologia para 
descrever e explicar o comportamento são produtos de magia, truques executados por 
psicólogos ao longo da história desta ciência, ou seja, são truques psicológicos. 
 
3. É muito importante ter presente que a única coisa que fez João no cenário 
foi golpear Pedro. O mesmo que é importante lembrar é que o fez porque o mágico 
se o pediu, e se o pediu para poder executar seus treze truques de magia. Portanto, a 
explicação do comportamento de João (por que ocorreu o comportamento) é porque o 
mágico pediu a João que o fizesse. Se o mágico não lhe pedisse, João não golpearia Pedro 
(ao menos nesse momento). 
Claro, João cumpre com a instrução do mágico, porque o mágico lhe paga para isso. 
O mágico reforçou com dinheiro o comportamento de João de cumprir suas instruções. Se 
um dia João não golpeasse Pedro na apresentação (não cumprisse com as instruções do 
mágico), muito provavelmente o mágico o despedirá e João ficará sem trabalho e sem 
dinheiro. 
 
4. A palavra "golpe" vem do latim "colaphus" que significa bofetada ou murro, e do 
grego "kólaphos", que significa bofetão. 
 
5. "As ações ou comportamentos se nomeiam ou descrevem..." diz o mágico. 
 
Diferença entre nomear e descrever. 
Existe uma diferença entre nomear e descrever um comportamento ou 
comportamento. Observamos que João com seu punho fechado toca violentamente Pedro 
na face e nomeamos esse comportamento com o termo golpear. Descrevemos o 
comportamento de João dizendo: "João golpeia Pedro com o punho". A descrição pode 
variar em níveis de especificação. Por exemplo: "João golpeia Pedro uma vez na face, com o 
punho de sua mão direita" descreve melhor o comportamento do que dizer: "João golpeia 
Pedro". 
"Golpear" é a resposta à pergunta: Como se nomeia à ação ou comportamento de 
João? 
"João golpeia Pedro com o punho" é a resposta à pergunta: O que fez João? 
"Golpeando" ("João está golpeando Pedro") descreve o comportamento de João 
nesse momento e responde a pergunta: O que está fazendo João agora? 
"Golpeou" ("João golpeou Pedro") descreve o comportamento passada de João, e 
responde à pergunta: O que fez João? 
 
6. "Golpear": um verbo 
Golpear é o verbo no infinitivo. Verbo no infinitivo: forma do verbo que expressa a 
ação em abstrato, sem objetivar uma pessoa, um tempo ou um número (Pequeno 
Larousse, 2002). 
"Golpeando" e "golpeou" não são formas de verbo no infinitivo. Para nomear um 
comportamento usamos verbos no infinitivo, ainda que não o façamos para descrever um 
comportamento. 
"Falar", "correr", "pensar", "imaginar", "sentir" e muitos outros são verbos no 
infinitivo que nomeiam comportamentos. 
 
Definição de verbo 
"Verbo" se define como a palavra com que se expressam as ações e o estado dos 
seres, e os processos. Uma definição tomada de "El Diccionario del Uso del Español" (María 
Moliner. Editorial Gredos, 1998), é a seguinte: "palavra que se conjuga, ou seja, que é 
susceptível de mudanças que lhe permitem expressar os acidentes de tempo, número, 
pessoa e modo". 
 
Classificação de verbos 
Existem vários tipos de verbos. É interessante referir-nos a alguns deles e dar-nos 
conta de que utilizamos diferentes tipos de verbos para falar de processos de 
comportamento (caminhar) ou de processos não de comportamento (chover). Um 
processo é algo que ocorre (que sucede) e não algo que é, não é uma coisa; é uma sucessão 
ou evento. 
Em seguida apresentamos uma classificação de verbos: 
Do ponto de vista formal, os verbos podem ser regulares, irregulares e defectivos. 
Segundo critérios morfossintáticos, os verbos se classificam em verbos auxiliares, 
plenos, copulativos, predicativos, transitivos, intransitivos, pronominais e impessoais. 
Segundo seu significado léxico, em verbos perfectivos e imperfectivos, incoativos, 
freqüentativos e iterativos. 
 
Verbo pleno. Verbo que possui conteúdo semântico pleno. Exemplo: chorar, 
golpear, dormir, correr, comer. 
Verbo atributivo ou copulativo. Verbo usado para unir um atributo ao sujeito 
que se predica. Os verbos "ser" e "estar" são fundamentalmente atributivos. Exemplo: 
"Você é amável", "Suo comportamento é amável". 
Note-se que quando dizemos "Você é amável" o verbo atributivo ("ser") o 
aplicamos a uma pessoa, e quando dizemos "Suocomportamento é amável" o verbo 
atributivo ("ser") o aplicamos a um comportamento, não a uma pessoa. Os mágicos 
rotulam pessoas. O comportamentalismo não rotula pessoas, mas comportamentos. Os 
mágicos dizem que uma pessoa "é esquizofrênica", que uma criança "é autista", os 
comportamentalistas dizem que o comportamento da pessoa é esquizofrênico, que o 
comportamento da criança é autista. 
Verbo predicativo. Verbo que tem significado pleno e constitui o núcleo sintático 
e semântico do predicado. Exemplo: "o gato dorme", "o empregado trabalha", "a máquina 
funciona". 
Verbo transitivo. Verbo que necessita de um objeto ou complemento direto para 
completar eu significado. Exemplo: "João come verduras". 
Verbo intransitivo. Verbo que não necessita um complemento direto, tem 
significado completo. Exemplo: "João corre". 
Verbo causativo ou factivo. Verbo que significa fazer ou realizar a algo ou a 
alguém a ação expressada. Exemplo: "Subir em", "Fazer subir ao segundo piso", "Fazer 
chorar alguém", "No teatro João fez Pedro sofrer". 
Verbo pronominal ou pronominado. Verbo que se conjuga somente com um 
pronome reflexivo. Exemplo: "arrepender-se", "atrever-se", "alegrar-se", "entristecer-se", 
"manchar-se", "assombrar-se". 
Verbo impessoal. Verbo que carece de sujeito, principalmente se se refere a 
fenômenos atmosféricos. Exemplo: "chove", "neva", "troveja". Claro, fica explícito que nem 
todos os verbos se referem ao comportamento de um organismo, o comportamento do 
mundo físico e outros processos que não são o comportamento dos organismos também se 
descrevem com verbos. Os mundos físico e químico também se comportam. 
Verbo perfectivo. Verbo que expressa uma ação cuja realização é instantânea ou é 
expressada como acabada. Exemplo: "estalar", "sair", "morrer", "nascer". 
Verbo imperfectivo. Verbo que não necessita alcançar sua culminação para que a 
ação ou processo tenha lugar ou seja completa. Exemplo: "nadar", "pintar", "ler", 
"escrever", "andar". 
Verbo incoativo. Verbo que enuncia a iniciação de uma ação ou a passagem a 
certo estado. Exemplo: "empalidecer", "florescer", "irritar-se", "entristecer-se", 
"enriquecer-se". Este verbo é muito importante como descritor do comportamento. O 
comportamento é um processo, uma sucessão, não uma coisa; portanto, um verbo 
incoativo a descreve melhor. Por exemplo, é mais exato dizer: "comportamento de irritar-
se", que dizer: "comportamento de estar irritado ou de irritação". 
Verbo freqüentativo. Verbo que indica uma ação freqüente ou habitual. Exemplo: 
"cortejar", "tutear†". 
Verbo iterativo ou reiterativo. Verbo que expressa uma ação que consiste na 
repetição do mesmo ato. Exemplo: "golpear", "pestanejar", "vagabundear", "bater". 
Outros tipos de verbos são: 
Verbo determinado. Verbo que rege a outros formando oração com ele. Exemplo: 
em "quero vir" ("quero" é o verbo determinante e "vir" o determinado). "João desejo 
golpear Pedro e por isso o golpeou" seria a forma pela qual o mágico explicou o 
comportamento de golpear. 
 
† A tradução correta para este verbo seria "tratar por tu", uma vez que na língua espanhola, 
bem como em outros idiomas, é impolido conversar com as pessoas com quem não se tem 
intimidade tratando-as pela segunda pessoa do singular ("tu"); indica-se nesses casos ou o 
pronome de tratamento ("você" – "usted") ou a segunda pessoa do plural ("vós" – "vosotros"). Na 
língua portuguesa do Brasil, essa diferença de tratamento não é corrente. [Nota do tradutor.] 
Verbo de língua. Verbo que expressa uma ação que consiste em dizer ou falar. 
Exemplo: "João disse o seguinte...". 
Verbo modal ou de vontade. Verbo que exprime uma ação em que há uma 
participação da vontade, o entendimento, a afetividade ou outra faculdade do sujeito. 
Exemplo: "dever", "desejar", "tentar", "mandar", "poder", "querer", "saber", "temer". Os 
verbos modais foram os mais utilizados pela psicologia. Muitos deles foram inventados 
por psicólogos. Exemplo: "traumatizar". 
Verbo reflexivo. A ação do verbo recai no mesmo sujeito que a realiza. Exemplo: 
"Tapando-me a boca deixei de falar". 
Verbo substantivo. Verbo que pode funcionar como substantivo em uma oração. 
Os verbos "ser", "fazer", "viver", "amar" pode ser verbos substantivos nos casos de "o ser", 
"o fazer", "o viver" e "o amar". "O viver é tão difícil quanto o amar". 
Verbo recíproco. Verbo que se refere a uma ação que afeta a todos os sujeitos 
envolvidos. Exemplo: amamo-nos, agredimo-nos. 
Verbo quase-reflexo oblíquo. Verbo que expressa emoção ou estado de ânimo. 
Exemplo, "você se espanta de mim" e "espanto-me de tudo". 
Verbo quase-reflexo pronominal enfático. Exemplo: "você bebeu uma copa", 
"você decidiu escrever"‡. 
Verbo quase-reflexo pronominal obrigatório. Exemplo: "você se engana" (não 
podemos dizer apenas "engana"). 
 
Apresentamos alguns tipos de verbos para mostrar a amplia variedade de palavras 
(verbos) que inventamos para falar sobre o comportamento ou sobre outros eventos 
naturais que são processos, não coisas. A utilização de verbos nos levou milhares de anos. 
De fato, todavia ainda estamos aprendendo a usar verbos e não substantivos para nos 
referirmos à comportamento. 
 
7. Verbo substantivo 
Como o vimos, existe uma classe especial de verbos que se lhes chama: verbos 
substantivos, "o golpear" e "o agredir" são verbos substantivos. 
 
8. Pensar é um comportamento 
 
‡ Os exemplos citados pela edição em espanhol ("beber-se" e "decidir-se") são 
pronominados; em português, ambos são verbos transitivos não pronominados. Seria mais 
conveniente, para a tradução, utilizar verbos como "fazer-se" ("você se fez gente"). [Nota do 
tradutor.] 
Pensar é algo que uma pessoa faz, portanto, nomeia-se com um verbo: você pensa, 
eu penso. 
Pensar é um comportamento, e como tal, podemos observá-lo e registrá-lo. Por 
exemplo: podemos observar e registrar as vezes que pensamos sobre algo em particular 
durante o dia. Podemos observar que deixamos de comportar-nos de uma forma (de 
escrever) e comportamo-nos pensando. Assim dizemos: "Deixei de escrever e agora estou 
pensando sobre o que escrevi", "deixei de falar e agora estou pensando". 
Claro, pensar não é um comportamento discreto, com um início e um final 
facilmente identificáveis. Se nesse momento digo ao leitor: "Por favor, conte do um ao dez; 
mas os números do seis em diante não os diga, mas apenas os pense", é muito provável 
que o leitor observe quando começou a dizer "seis" pensando e quando terminou de dizer 
"dez" pensando. Neste caso o comportamento de pensar é discreto. 
É claro que sempre que pensamos, pensamos em algo. Como sempre que falamos, 
falamos algo. Posso pensar em algo: em minha amiga ou no final de semana que passei na 
praia. Posso registrar as vezes que durante o dia penso sobre o que minha amiga e eu 
fizemos na praia. 
 
 
II 
 
1. Re-verbalização redutiva 
"Re-verbalização redutiva" é um termo inventado pelo autor, é uma palavra que 
não existe no dicionário. 
O neologismo "re-verbalização" significa: integrar a vários verbos em um só. Por 
exemplo: o verbo "amar" pode aglutinar os verbos "beijar", "acariciar", "compreender", 
"ajudar", "abraçar". Classificamos a re-verbalização como redutiva quando de muitos 
verbos fazemos um. O termo "re-verbalização extensiva" o usamos para nos referirmos ao 
fato de ir de um verbo a muitos. 
 
2. Significado etimológico do termo "agredir". 
O verbo agredir provém do latim aggredi que significa "ir até" (com hostilidade). 
Gradi significa ir, caminhar. 
Existem outras palavras que se derivam da palavralatina "aggredi", como 
congresso (caminhar juntos), egresso, progresso (caminhar para frente). Provavelmente 
se utilizou a palavra "agredir" porque ao fazê-lo "sempre uma parte de nosso corpo ou 
algo vai até algo ou alguém". 
 
3. Verbo genérico 
Verbo genérico é um termo inventado pelo autor. É um verbo que nomeia uma 
classe de verbos. 
Classe de verbos: verbos que descrevem comportamentos com uma função ou 
elemento em comum. "Acariciar" é um verbo genérico porque nomeia várias 
comportamentos com uma função equivalente. Podemos acariciar de muitas maneiras. 
 
4. Como dissemos na nota 7 do capítulo I, existem verbos que se utilizam para 
nomear um comportamento, a estes verbos se lhes chama: verbos substantivos. Assim 
dizemos: "o golpear", "o agredir". 
Note-se que neste truque (primeiro truque da apresentação) o mágico propõe uma 
mudança de nome à comportamento de João, ou seja, em lugar de nomeá-la com a palavra 
"golpear", propõe nomeá-la com a palavra "agredir". Isto não representa um problema 
para a ciência do comportamento, já que o mágico simplesmente sugere outra palavra 
para nomear a mesmo comportamento. Poderia ter selecionado a palavra "rontiar" e 
haveria dado no mesmo. Lembre-se de que o uso de uma palavra sempre é arbitrário. 
 
5. Note-se que o mágico está utilizando o verbo "agredir" para nomear um 
conjunto de comportamentos as quais, por sua vez, foram nomeadas por outros verbos. O 
mágico faz isso ao executar o truque: re-verbalização redutiva. 
 
Por que inventamos os verbos genéricos? 
É provável que o uso de verbos genéricos se deva aos benefícios implicados em 
economizar palavras. Assim, em lugar de dizer: "Maria beija, abraça, acaricia, compreende, 
sente falta, defende, cuida, elogia, admira José", dizemos: "Maria ama José". 
O emprego dos verbos genéricos para nomear classes de comportamentos não 
teria sido um obstáculo para a compreensão científica do comportamento, se seu uso se 
tivesse restringido a descrições resumidas de comportamento (nomear a um conjunto de 
comportamentos que têm um ou vários elementos em comum, ou seja, alguma função 
similar), se estes verbos não tivessem sido usados para tentar "explicar" o 
comportamento. Por exemplo: não há problema em designar com o verbo "amar" vários 
comportamentos de Maria, mas sim, ao tratar de explicar estes comportamentos dizendo: 
"Maria beija José porque o ama". 
 
 
III 
 
1. O mágico usa os verbos "golpear" e "agredir" para nomear tanto 
comportamentos específicas como classes de comportamentos. Às comportamentos 
específicas, de golpear, bater, beliscar e empurrar, nomeou-as com o verbo "agredir". Os 
autores propõe o adjetivo "genérico" para nomear essa "classe de verbos". 
 
Classe de verbos 
Classe de verbos é o conjunto de verbos que nomeiam comportamentos que têm 
uma função similar. O termo "função" pode ser sinônimo do termo objetivo, meta, 
propósito, ou intenção, ainda que seja conveniente considerar que estes termos têm 
conotações que não se ajustam a uma terminologia científica comportamental: o 
comportamento não é propositiva, não atuamos como o fazemos para obter objetivos ou 
metas, ou porque temos a intenção de fazê-lo. Atuamos como o fazemos porque no 
passado atuar de modo similar teve certo tipo de conseqüências. Ou seja, porque como 
resultado de nosso comportamento, no passado, obtivemos algo agradável (reforçador 
positivo) ou se nos reduziu ou eliminou algo desagradável (reforçador negativo). 
 
Então, para o comportamentalismo não temos objetivos nem metas na vida? 
Claro que na vida temos objetivos, metas, propósitos ou intenções (dizemos: "vou 
conseguir isso", "de hoje em diante este será o meu objetivo, meu propósito", "trabalharei 
para me comprar uma casa", "tenho a intenção de ir ver minha família"). Mas não são 
objetivos, metas, propósitos ou intenções as razões pelas quais nos comportamentos como 
o fazemos. "Ter objetivos", "fixar metas", "ter propósitos" ou "ter intenções" são 
comportamentos que necessitam ser explicados. Eles não podem provocar outros 
comportamentos. 
É verdade que um estudante tem como objetivo obter boas notas no exame de 
amanhã, mas não é verdade que as boas notas de amanhã sejam o que o faz estudar agora. 
Como pode um evento que não aconteceu afetar a outro que está acontecendo agora? 
Desta maneira, a explicação comportamentalista de por que um estudante estuda 
agora, é porque no passado, quando estudou, obteve boas notas ou evitou más notas. Seu 
comportamento de estudar foi reforçado. A explicação de um comportamento não está no 
que vai acontecer, mas no que já aconteceu. 
 
2. É importante observar que o termo que se utiliza para nomear um 
comportamento pode já conter uma (ou o início de uma) explicação fictícia (pseudo-
explicação) da mesma. Por exemplo, se observamos que Marta beija e acaricia Roberto, e 
nomeamos seu comportamento com a palavra "amar", é muito provável que quando se nos 
perguntem: “por que Marta beija e acaricia Roberto?”, respondamos: "porque o ama, 
porque tem amor nela", ou "porque tem um sentimento chamado amor". Assim a pessoa, 
neste caso Marta, não só faz alguma coisa (comportamento) que nomeamos com a palavra 
"amar", mas tem algo nela que nomeamos com a palavra "amor". 
Segundo o mágico, como a maioria dos psicólogos, as pessoas têm algo dentro de si 
que faz com que se comportem da maneira como o fazem, terem pensamentos e 
sentimentos que as fazem comportar-se de uma ou outra forma. Marta tem amor e o 
expressa com beijos e carícias. José tem ódio e o expressa com golpes e gritos. Eu tenho 
vontade de escrever e você tem vontade de ler; por isso eu escrevo e você lê. 
Claro, para os comportamentalistas, as pessoas sentem e pensam, mas não "têm 
sentimentos ou pensamentos" nem estes são a causa de suo comportamento. O pensar e 
sentir são comportamentos, como também o são beijar, acariciar, golpear e gritar. 
 
Sentir e ter 
É importante observar que, para os mágicos, a palavra "sentir" implica que existe 
algo que se sente. Assim, para eles, algo existe e logo se sente. 
Se o mágico diz: "ao apanhar um lápis sentimos o lápis na mão. Sentir que temos o 
lápis na mão é uma coisa e o lápis é outra", estamos de acordo. Mas se diz: "sente-se um 
sentimento, e este sentimento existe independentemente do que sentimos", não estamos 
de acordo. Os sentimentos não são objetos como o lápis, não estão ali e os pomos dentro 
de nós para senti-los. O que se sente não é um sentimento; o que se sente é o sentimento. 
Para o mágico, primeiro existe o amor, e logo o sentimos. Para ele, o que sentimos 
não é amor, mas algo que primeiro existe, e logo o sentimos. 
Para isso, os mágicos utilizam a palavra sentir para referir-se a sentir "o amor", "o 
ódio", "a fome", "o medo", etc., como se fossem algo. Mas "o amor", "o ódio", "a fome", "o 
medo" não são algo, não são entes que existem independentemente do sentido. São o 
sentir em si mesmo. Por exemplo: o frio e o calor não existem como algo; não se os sente, 
mas são o sentido em si mesmo. O frio e o quente são o sentido. Assim, é mais preciso 
dizer: "sinto frio ou calor", que dizer: "sinto o frio ou o calor". 
O sentido sempre é um estado corporal. Ocorre em nosso organismo e a isso 
chamamos frio, calor, fome, etc.. Ocorre algo no organismo e a isso chamamos "tristeza". 
Alguém se sente deprimido ou com força, tenso ou relaxado, segundo o estado de 
nosso organismo. Claro, os estados de nosso organismo não se auto-originam, mas são 
produto de nossa interação com o meio. 
 
3. A ciência do comportamento (Análise do Comportamento) não se interessa 
unicamente na observação e descrição do comportamento, mas de sua explicação.Os 
analistas do comportamento estão interessados não apenas em observar e descrever o 
comportamento, mas em explicá-la. 
 
4. Chamamos fictícia ou "pseudo-explicação" a um tipo de descrição que: 
a) Refere-se ao que não existe. Por exemplo, dizer: "o tritano é um elemento 
químico composto de potássio e zinco", quando na verdade "tritano" não existe. A palavra 
"tritano" não tem nenhum referente. 
b) Não descreve o que tenta descrever. Por exemplo: descrever a "mesa" dizendo: 
"a mesa tem uma superfície onde é possível sentar-se e um encosto onde é possível 
descansar". (Descrição que corresponde à cadeira, não à mesa). 
Quando o mágico utiliza a palavra "agrediu" e refere-se com ela a algo mais que o 
que fez João, ou à função do que fez (machucar Pedro), a palavra "agrediu" descreve outra 
coisa. 
Não é problemático dizer: "João 'agrediu' Pedro" quando "agrediu" é sinônimo de 
"golpeou com a intenção de machucar", e não quando se refere a outra coisa. Assim, 
podemos dizer que alguém tem a "intenção de machucar aos outros" quando a 
conseqüência que mantém o seu comportamento é o machucado que causa aos outros. 
Contudo, é problemático dizer: "João não apenas golpeou Pedro como o agrediu porque 
tem agressão". 
 
5. O mágico afirma que: "João não apenas golpeou Pedro mas também o agrediu". 
Aqui é importante considerar de novo que a distinção feita pelo mágico poderia ser 
apropriada. Agredir difere de golpear, enquanto que o termo agredir não faz referência 
apenas ao golpe mas à "intenção" ou a função do golpear, que é machucar. No caso de que 
João golpeia distraidamente Pedro, não é exato dizer que João agrediu Pedro, ainda que o 
tenha golpeado. 
Desta maneira, com o termo "agredir" se nomeiam duas coisas: o comportamento 
de golpear e a função da mesma, ou seja, o que se faz e o que mantém ao que se faz: causar 
dano. Em termos comportamentais diríamos: se o comportamento de golpear de João está 
mantida por machucar Pedro, então podemos rotular este comportamento com a palavra 
"agressão". 
Justifica-se que o mágico invente e utilize a palavra "agressão", só se com ela vá 
nomear outras comportamentos que se executam com a mesma intenção de machucar aos 
outros; melhor dizendo, comportamentos que se mantém porque têm como conseqüência 
machucar aos outros. Mas não se justifica usar a palavra "agressão" como substantivo para 
explicar o comportamento de agredir, como quando o mágico diz: "João agride Pedro 
porque tem agressão". 
 
6. "Para mim, o que fez João foi golpear Pedro, e ainda que utilizemos outras 
palavras para descrever o que fez João, como agredir, estas sempre se referirão a golpear", 
diz meu amigo. 
Se o mágico logo utiliza a palavra "agredir" para descrever o que João fez (golpear 
Pedro)e a função do que fez (machucar Pedro), então o mágico está utilizando 
apropriadamente a palavra "agredir". Portanto, a afirmação de meu amigo de que 
"agredir" sempre se referirá a golpear é verdadeira, ainda que incompleta. É verdade, 
porque o termo "agredir" nomeia o comportamento de golpear de João; mas é incompleta, 
porque "agredir" também se refere à função do comportamento de golpear de João: 
machucar. 
Do ponto de vista da ciência do comportamento, não existe nenhum problema com 
que o mágico use a palavra "agredir" para nomear o golpear ou qualquer outro 
comportamento de uma pessoa que machuca a outra. O problema se inicia quando, com o 
termo "agredir" se nomeia algo mais que não seja o comportamento e sua função: algo que 
explica o comportamento de golpear ou agredir. 
 
7. Por que é melhor dizer: "João agrediu Pedro", que dizer: "João golpeou Pedro"? 
Talvez, como dissemos anteriormente, porque o termo agredir implica a intenção de 
machucar a outros ou a um objeto; em termos comportamentais, porque o comportamento 
de agredir tem a função de causar dano a outros ou a uma coisa. Assim, ao usar o termo 
descritivo "agrediu" nos referimos tanto à forma do comportamento quanto a sua função. 
Enquanto que com o termo "golpear" unicamente nos referimos à forma do 
comportamento, mas não a sua função. 
Agora, se Pedro lhe pede a João que o golpeie e João o golpeia, então a função do 
comportamento de João não é machucar Pedro, mas cumprir com a instrução que Pedro 
lhe deu. Neste caso e ainda que fosse a mesma forma de comportamento (golpear), não 
podemos nomeá-la como "agredir", mas como "cumprir instruções". 
Em referência ao nomear o comportamento de João com o termo "agredir" talvez 
seja mais apropriado utilizar o advérbio "intencionalmente". Portanto, em lugar de dizer: 
"João agrediu Pedro", dizemos: "João golpeou intencionalmente Pedro", já que 
"intencionalmente" qualifica o comportamento de golpear e sua função (a forma e a função 
de golpear) e não substitui o termo golpear nem se refere a algo mais, como acontece com 
o termo "agrediu". 
 
 
IV 
 
1. Antes de definir substantivação definiremos o termo substantivo. 
Um substantivo é uma palavra que se utiliza para expressar ou nomear objetos: 
tanto aqueles que têm existência independente, como "mesa", "casa", como aqueles que 
existem unicamente como conceitos, "beleza", "bondade". 
Substantivação é a ação de substantivar, transformar em substantivo uma palavra 
que não é um substantivo. Por exemplo, o mágico transforma o verbo "agredir" em 
"agressão", quando ao "agredir de João" converte-o em "a agressão de João". Outro 
exemplo é transformar o verbo "amar" no substantivo "amor", convertendo "o amar de 
Marta" em "o amor de Marta". 
Outros exemplos de substantivação de um verbo: 
Sofrer – sofrimento 
Desejar – desejo 
Odiar – ódio 
Imaginar – imaginação 
Lembrar – lembrança 
Memorizar – memória 
 
Quando substantivamos um verbo, de uma ação fazemos uma coisa. O que 
acontece como um processo, o fazemos objeto. Reificar etimologicamente significa "fazer 
objeto". 
 
A memória 
Em geral, os mágicos estudam a memória como se fosse algo; inclusive alguns 
animam os neurofisiólogos a buscá-la em alguma parte do cérebro. Para a psicologia, como 
ciência natural do comportamento, a memória não existe, o que existe são as 
comportamentos de memorizar e lembrar. Podemos memorizar o número de telefone de 
um amigo e podemos lembrar-nos dele no momento em que precisamos falar com ele. 
O som "mamãe" não existe antes que você e eu emitamos esse som. As 
comportamentos de lembrar-se do número de telefone de um amigo e que devo ligar para 
ele não existem antes de se as lembrar. Não há um lugar dentro de nós – a memória – onde 
está armazenado o que devemos lembrar. Não há um armazém em nosso cérebro onde 
está guardado o número de telefone de nosso amigo antes de dizer "12-22-88", ou o som 
"mamãe" antes de dizer: "mamãe". Imagine a cada um de nós cheios de números 
telefônicos e sons! 
Um som não existe antes de ocorrer, nem depois de ocorrer. Claro que nosso 
organismo é biologicamente capaz de emitir sons e de lembrar. Mas repetimos, nem o som 
"mamãe", nem o número, estão armazenados em alguma parte de nosso corpo antes que 
nós digamos "mamãe" ou lembremos que ficamos de convidar nosso amigo para jantar. 
 
Substantivando um pronome 
Também é possível substantivar um pronome, por exemplo: "Ele é bom" a "o bom". 
Aparentemente, para a ciência do comportamento, não existe problema em 
substantivar um pronome. Não obstante, dizer que uma pessoa – e não suo 
comportamento – é boa, conduz-nos a pensar que o bom reside dentro da pessoa e não 
que seu comportamento é o que "é bom ou desejável". Também nos conduz a considerar 
que algo é bom ou mau, independentemente dos critérios sociais. Do ponto de vista 
comportamental, as pessoas não são boasnem más, são suas comportamentos as 
apropriadas ou as inapropriadas. 
Para o comportamentalismo, não existe a bondade além do comportamento 
bondoso. Que fique claro que não existe a bondade, não significa que não nos 
comportemos bondosamente ou que não devamos fazer nada, mas uma pessoa não cuida 
de outra porque tem bondade dentro dela, mas sim pelo efeito que cuidar ao próximo tem 
nela. Pelas conseqüências que suo comportamento bondosa teve no passado. 
Não podemos ensinar a uma pessoa a ser bondosa indo dentro dela e instalando-
lhe a bondade; ensinamos "bondade" (comportamento bondosa) quando damos as 
conseqüências apropriadas ao comportamento bondoso, quando reforçamos este 
comportamento. 
 
Substantivar um adjetivo 
Também podemos substantivar um adjetivo, por exemplo: "Pedro é bondoso" – a – 
"a bondade de Pedro". 
Ao substantivar um adjetivo vamos de uma ação ou comportamento "bondoso", a 
dizer que a pessoa que executou esta ação "é bondosa". Depois substantivamos este 
adjetivo com a palavra "bondade", concluindo finalmente que esta pessoa tem dentro dela 
"a bondade". 
 
2. Nominação do verbo 
O termo "nominal" se utiliza para nomear o que existe apenas como nome. 
Nominamos um verbo quando convertemos a ação à qual o verbo se refere no nome de 
algo. Por exemplo: nominamos o verbo "amar" quando o convertemos em "amor". 
 
3. Reificação 
Reificação significa: fazer coisa (coisificar), algo que não é coisa. Reificação vem de 
res, que em latim quer dizer "coisa", e "edificar". Ao reificar convertemos em coisa algo 
que não o é. 
 
4. Dizer "o que sucede" é diferente do que dizer "o que é". O que sucede é um 
processo e o que é, é um objeto ou coisa. 
O mágico vai do golpear ao agredir, e do agredir à agressão. Vai de algo que se faz 
(golpear) a algo que é (agressão). O mágico reifica o verbo "agredir" (o que se faz) com a 
"agressão" (o que é). Lembre-se de que reificar é fazer coisa o que não é coisa. 
Também podemos ir do beijar (algo que se faz) ao amar e do amar ao amor (algo 
que é), o mesmo que do chorar ao entristecer e do entristecer à tristeza. 
Existem os verbos atributivos "ser" e "estar" que se usam inapropriadamente 
dentro da ciência do comportamento, mas não no contexto da poesia e da literatura. 
Usamos os verbos atributivos para ir de um comportamento que ocorre a algo que está. 
Por exemplo: vamos do chorar ao estar triste e do estar triste à tristeza. Poeticamente, 
podemos dizer: "choro, estou triste por ti, amada minha. Esta tristeza me mata". 
 
 
V 
 
1. Como mencionamos anteriormente, chamamos "descrição fictícia" a um tipo de 
descrição que: 
a) Descreve o que na realidade não existe, por exemplo: "O tritano é largo, 
vermelho e pesado", quando especificamente o "tritano" não existe, é uma palavra que não 
tem referente. 
b) Não descreve o que afirma descrever, por exemplo: descrever uma poltrona com 
palavras que se referem a uma mesa. Assim, quando o mágico utiliza a palavra agredir 
para descrever o comportamento de golpear, ainda que "se manifeste 
comportamentalmente", origina-se em uma entidade que existe dentro da pessoa: a 
agressão. 
Claro, como o dissemos várias vezes nestas notas, a palavra agredir poderia ser 
utilizada apropriadamente para descrever o comportamento de golpear, se esta palavra 
fosse um sinônimo da palavra golpear e não se referisse a outra coisa. 
Podemos utilizar o substantivo agressão para nos referirmos a uma classe de 
comportamentos cujo elemento comum é o de ocasionar dano as pessoas, animais ou 
coisas. Portanto, a agressão não existe mais além de uma palavra que se utiliza para 
nomear a um conjunto ou classe de comportamentos; mas, nem neste caso, nem em 
nenhum outro, "a agressão" é algo que se tenha. 
 
2. Ao nos referirmos ao que uma pessoa tem e não ao que faz, afirmamos que 
possui algo que existe, independentemente de suo comportamento. Dizer que João golpeia 
Pedro não significa que João tenha em algum lugar de seu corpo o golpe, o golpear, o 
agredir ou a agressão. João não possui nada, João só faz algo que em português nomeamos: 
golpear. 
Se observamos que Marta beija José, descrevemos o comportamento de Marta 
dizendo: "Marta beija José". Mas segundo o mágico podemos descrever o comportamento 
de Marta dizendo: "Marta tem amor por José", ou "Marta ama José". 
Para a ciência natural do comportamento, o comportamento não se tem, mas 
ocorre. É um processo ou evento. 
 
3. O mágico não apenas descreve o comportamento referindo-se ao que João tem 
dentro dele, também afirma que ao descrevê-la dessa maneira (fazendo referência ao 
interior João) começou a explicá-la. Para o mágico, o enunciado "João golpeia Pedro" 
descreve o comportamento de João, mas não indica uma possível explicação do 
comportamento. Para o mágico o enunciado "João tem agressão" é uma descrição mais 
exata e uma que nos conduz a uma explicação do comportamento (neste caso, o 
comportamento de golpear de João). 
Não explicamos um comportamento quando nos referimos a uma palavra que 
inventamos para nomear a mesmo comportamento. Portanto, João não golpeia Pedro 
porque tem agressão, mas ao que se faz se nomeia "agressão". Uma pessoa não chora 
porque tem tristeza, mas ao que faz se lhe denomina com a palavra "tristeza". 
Para o comportamentalismo, o enunciado: "João tem agressão" não é uma 
descrição do comportamento de golpear João, mas uma pseudo-explicação do 
comportamento; é-o porque o termo "agressão" se refere a algo que se tem e não a algo 
que se faz, da mesma forma que o uso deste termo implica já a existência de algo ao que se 
nomeia "agressão". 
"Agressão" é algo que o mágico inventou (fez aparecer) e colocou dentro de João, 
como um evento não orgânico, como um evento que ocorre independente do organismo 
(evento psicológico, mental). 
 
4. Com a palavra "agressão" nos referimos a uma emoção, então a "agressão" existe 
como um estado corporal, como o sentido. Sentimos algo em nosso corpo e chamamos a 
isso de "agressão". Igualmente dizemos que sentimos medo quando ocorrem certas coisas 
em nosso organismo. Tanto "medo" como "agressão" nomeiam um estado corporal. 
A palavra "agressão" não descreve o comportamento de golpear de João, mas o 
sentido por João. O sentido por João é um evento orgânico. 
A emoção chamada "agressão", como qualquer outra emoção, não descreve nem 
explica o comportamento de golpear. Não golpeamos porque sentimos agressão, mas por 
outras razoes; por aquelas que precisamente, entre outros efeitos, fizeram-nos sentir o 
que chamamos agressão. 
Todas as razões pelas quais golpeamos são eventos que acontecem no meio com o 
qual interagimos. Por exemplo: tiram-nos algo e quando agredimos, nos devolvem; a 
conseqüência que recebemos por agredir foi recuperar o que perdemos. 
 
5. "A agressão se converte em golpe", é um enunciado que implica primeiro que a 
agressão está ali (em algum lugar), e logo se transfigura, atualiza ou manifesta em um 
golpe. 
A emoção que chamamos "agressão" não se converte em um comportamento que 
chamamos "agressiva". Os temos "emoção"e "golpear" se referem a processos distintos; 
um não se transforma em outro. Ambos os eventos são comportamentos: comportamento 
emocional "agressiva" e comportamento de golpear. 
Vejamos outro exemplo para esclarecer o anterior: diz-se que o amor, como uma 
emoção ou um sentimento, torna-se em um "beijo ou uma carícia; que o ódio se converte 
em um "olhar ou palavra de ódio"; que a inveja se transforma em "uma fora de olhar ou em 
um gesto". 
Independente de que estes enunciados possam ser mais ou menos poéticos ("e teu 
olhar se converteu em ódio e este em um golpe na face"), nãosão válidos cientificamente. 
Nenhuma emoção se converte em comportamento, porque nenhum comportamento se 
converte em outra. 
O que chamamos emoção é um estado corporal. Desde pequenos aprendemos a 
nomear estados corporais. Quando uma criança sorri, está especialmente ativa e fala sobre 
coisas positivas, dizemos-lhe que se sente feliz; então, a criança aprende a nomear o que 
sente com a palavra "felicidade". Podemos ensinar a uma criança a nomear o que todos 
sentimos como felicidade, com a palavra "tristeza". O significado das palavras é arbitrário. 
 
Um comportamento não se transforma em outra 
Uma pessoa vai apartear a mão de outra, mas antes de fazê-lo abraça-a (decide 
abraçá-la). O anterior não significa que o comportamento de apertar a mão se converta em 
uma abraço, mas que antes de abraçá-lo ocorreu outro comportamento. Abraçar é um 
comportamento que geralmente ocorre com o comportamento de apertar a mão. 
Eu estou pensando em ir visitar um amigo. Pela tarde vou visitá-lo. O 
comportamento de pensar em "ir visitar um amigo" não se transformou em visitá-lo. 
Pensar em visitá-lo e visitá-lo são comportamentos diferentes. Os pensamentos não se 
transformam em ações. 
 
"Ter a intenção" 
"Ter a intenção de fazer algo ou decidir fazer algo" é, em parte, pensar em 
comportar-nos de uma forma. E pensamos comportar-nos de certa maneira dependendo 
das condições com as quais interagimos nesse momento. Estas condições têm a função de 
fazer-nos "ter uma intenção" ou "decidir dizer ou fazer algo" porque, no passado, em 
condições similares, quando "tínhamos a intenção ou decidimos dizer ou fazer algo", 
obtivemos como conseqüência algo reforçador. Ou seja, porque nos reforçou o 
comportamento de "ter essa intenção". 
Não é possível que alguém "tenha a intenção" ou tenha decidido comportar-se de 
determinada maneira, sem que pense em fazê-lo. (Claro que é possível ter a intenção ou 
decidir fazer algo sem observar-nos ou sem pensar nas conseqüências de fazê-lo; mas em 
todo caso estou pensando, ainda que sem dar-me conta de que o faço. Este é um exemplo 
de um comportamento não observada). 
No comportamento respondente ou reflexa, o organismo não tem a intenção de 
vomitar quando algo estimula sua garganta ou tem a intenção de contrair a pupila ante 
uma luz; simplesmente o faz como resposta a um estímulo. Independentemente de que 
pense que tem que fechar a pupila ante a luz, fá-lo-á; tenha ou não a intenção. 
 
6. Nomeamos este truque "Sentir fictício" porque o que se sente – a agressão –, na 
realidade não existe. O mágico diz: "Pedro sentiu o golpe, a dor e a agressão de João", mas, 
falando com mais precisão, Pedro não sentiu precisamente o golpe, mas o efeito do golpe 
no corpo; sentiu a dor produzida pelo golpe. 
Pedro tampouco sentiu a agressão de João, mas observou algumas 
comportamentos de João que freqüentemente estão presentes quando nos dão um golpe 
para nos machucarmos, para "agredir-nos". 
Não se sente a dor; sente-se dor. Há uma diferença entre sentir algo (a dor) e o que 
se sente. O sentido é a dor em si mesma. Não se sente "a sede", sente-se sede (um estado 
corporal que ocorre quando os tecidos não têm suficiente líquido). 
 
 
VI 
 
Um traço se refere a uma maneira de ser ou de atuar da pessoa. A definição do 
termo "traço" implica que uma pessoa "tem uma maneira de ser", por exemplo, é 
agressiva; e "uma maneira de atuar", atua agressivamente. 
Para o comportamentalismo, a pessoa não "tem uma maneira de ser", mas "uma 
maneira de comportar-se". Falando com mais precisão, não "tem uma maneira de 
comportar-se", mas "se comporta de uma maneira". 
Então, a que nos referimos quando dizemos: "gosto de sua maneira de ser" ou "não 
gosto de sua maneira de ser"? 
Referimo-nos pelo menos a duas coisas: 
a) A um conjunto de comportamentos (um repertório de comportamento), não 
apenas a uma só comportamento isolada. Se de uma pessoa apenas observamos uma 
instância de comportamento amável, por exemplo: que nos diga "sente-se, por favor", não 
podemos assegurar que "é amável". Para dizer que uma pessoa é amável, necessitamos 
observar outras comportamentos que sejam elementos da classe de comportamento de 
amabilidade. 
b) A que as comportamentos nomeadas "amáveis" estejam mantidas por 
reforçadores apropriados. 
Daniel saúda e beija amavelmente todas as visitas de sua mãe o ameaçou se não o 
fizesse. Claro, este comportamento não é parte de um repertório de "ser amável". Diremos 
que este comportamento é parte de um repertório "ser amável" apenas se Daniel se 
comporta amavelmente sem ameaças ou instruções de outros. 
Ainda no caso em que se comporte amavelmente por que sua mãe lhe dizer que lhe 
dará um doce, diremos que este comportamento não é parte de um repertório de "ser 
amável". ("Daniel realmente não está sendo amável"). 
Assim, "ser amável" nomeia um repertório de comportamento de amabilidade que 
está reforçado por certas conseqüências. Por exemplo, a conseqüência de observar-se a si 
mesmo, comportando-se amavelmente, pode funcionar como um reforçador intrínseco. 
 
Em geral, as palavras que se referem ao comportamento são somente 
aparições de mágicos 
Ao largo da história da civilização, quase todas as palavras que utilizamos para 
referir-nos ao comportamento são produtos de magia, aparições de mágicos. Estas 
palavras se foram colocando nos dicionários em ordem alfabética. 
 
2. O mágico diz que tanto João como Pedro sentiram a emoção chamada agressão. 
Podemos dizer que João sentiu agressão quando golpeou Pedro, no sentido de que 
João sentiu um estado corporal que a comunidade lingüística na qual vive chama 
"agressão". Se João fosse membro de outra comunidade verbal, ao mesmo estado corporal 
poderia nomear com outra palavra. 
Mas Pedro não sentiu agressão, porque não sentiu o mesmo estado corporal de 
João; em todo caso, sentiu-se agredido, sentiu dor e observou certas comportamentos de 
João. Por exemplo: a expressão facial de João antes e depois de golpeá-lo. Também 
observou o que aconteceu depois de João o golpear (que não pediu desculpas). 
 
3. O mágico afirma que João golpeou Pedro, e que Pedro sentiu agressão, não só o 
golpe e a dor. A dor sentida em certas condições a chamamos de "sentir agressão". Sente-se 
agressão quando, além de receber um golpe, manifestam-se outras comportamentos. Por 
exemplo, não sentimos agressão quando uma pessoa que estimamos, ao tratar de nos dar 
um copo de água, derruba-o e molha-nos a roupa. De outro modo, sentimos agressão 
quando acontece o mesmo depois de ter discutido acaloradamente com quem nos molhou. 
 
4. Re-substantivação é um termo alcunhado pelo autor e refere-se ao fato de fazer 
um substantivo de outro substantivo. O mágico re-substantiva quando: do substantivo 
agressão aparece o substantivo agressividade. 
 
5. "Agressividade" é um substantivo: "a agressividade". Um substantivo sempre se 
refere e algo que existe na realidade ou na fantasia, mas é algo. Por exemplo, "o unicórnio" 
é um substantivo que não existe na realidade, ainda que exista na fantasia. Podemos 
desenhar um unicórnio e diferenciá-lo de um cavalo. 
 
6. Construtivação é um termo inventado pelo autor para referir-se a qualquer 
truque onde aparece um "construto hipotético". 
Um dicionário de psicologia define construto hipotético como "um conceito 
operacional de apreensão imediata que faz referência a entidades ou qualidades não 
observáveis ou detectáveis diretamente..." (Dicionário de Psicologia, F. Dorsch. 1985, 
Herder). 
 
7. O mágico fez aparecer "a agressividade" e por não saber onde a colocar, inventou 
"a personalidade". Segundo o mágico, "a agressividade" existe napersonalidade. 
A personalidade é um tema de estudo da psicologia. 
Na "personalidade" os mágicos colocam todos os traços comportamentais com os 
quais descrevemos aos outros e a nós mesmo. Também colocam as causas destes traços. 
 
 
VII 
 
1. Gerúndio é: "Forma verbal não conjugável que marca a ação em seu curso e 
duração" (Gramática Prática. 2001. Ed. EDAF). 
"Gerundização" é o termo que se utiliza para referir-se ao fato de que a um verbo 
se lhe dá a forma de gerúndio. 
Exemplos de gerundização: 
Agredir – agredindo 
Sofrer – sofrendo 
Golpear – golpeando 
 
 
VIII 
 
1. Advérbio é: a palavra que utilizamos para modificar a ação expressada pelos 
verbos. Exemplo: João come muito, Pedro trabalha pouco. Quanto come João? Muito. 
Quanto trabalha Pedro? Pouco. 
Adverbialização. Existem dois tipos de adverbializações: morfológica e sintática. 
Morfológica: um adjetivo se converte em advérbio acrescentando-lhe a forma 
"mente". 
Exemplo: 
Inteligente – inteligentemente 
Agressivo – agressivamente 
 
Sintática: 
Não se utiliza a forma "mente". 
Exemplo: 
Forte – pisar forte (Gramática Prática, 2001). 
 
2. O vocábulo "agressivamente" não só se refere à maneira como se executou um 
comportamento, mas à função da mesma. "João golpeou Pedro com muita força, com uma 
expressão facial de ódio e desprezo, dizendo-lhe "matar-te-ei" e, principalmente, com a 
"intenção" de machucá-lo. 
O termo técnico para "intenção" é "função". A função que tem o comportamento de 
golpear para João é fazer mal a Pedro, ou seja, o comportamento de golpear de João está 
mantida pela conseqüência reforçadora: fazer mal a Pedro. Uma conseqüência reforçadora 
é aquela que aumenta a probabilidade de que um comportamento ocorra. 
Portanto, "inteligentemente" não só se refere à maneira que se executa uma o 
comportamento (sua forma), mas a sua função. "Marta atua inteligentemente" significa 
que Marta se comporta de maneira que obtém um resultado que chamamos "inteligente". 
A classificação de um resultado como inteligente depende do que considere como 
inteligente a sociedade onde vive o indivíduo. 
Se dizemos que quem responde corretamente a todo o que perguntamos sobre 
história universal se comportará inteligentemente, então; Marta se comportará 
inteligentemente. 
 
O comportamento inteligente, o comportar-se inteligentemente 
À comportamento de uma pessoa que se comporta ou atua inteligentemente, 
nomeia-se-o comportamento inteligente, e a ela, "pessoa inteligente". Se disséssemos 
somente isto não haveria problema algum, mas os mágicos fizeram aparecer "a 
inteligência" como algo que existe independentemente do comportamento e, não 
contentes com isso, usaram-na para explicar o comportamento que chamamos inteligente. 
Fazer aparecer "a inteligência" é um dos truques que executam os mágicos. 
 
 
IX 
 
1. Adjetivo é uma palavra que utilizamos para expressar as qualidades do 
substantivo. Exemplo: livro grande, homem bom, comportamento apropriada, 
comportamento indesejável (Gramática Prática, 2001). 
Adjetivação é transformar um substantivo ou verbo em adjetivo. Por exemplo: o 
substantivo "tristeza" no adjetivo "triste", o substantivo "amabilidade" no adjetivo 
"amável". O verbo "acariciar" no adjetivo "acariciador" ou o verbo "escrever" no adjetivo 
"escritor". 
"Golpe" é um substantivo, "golpear" é um verbo. Adjetiva-se o substantivo "golpe" 
em "golpeador" e o verbo "golpear" em "golpeador". 
 
2. Há uma diferença entre dizer que uma ação é agressiva e dizer que suo 
comportamento é agressiva. 
A ciência do comportamento utiliza adjetivos para classificar comportamentos, não 
pessoas. Por exemplo: o adjetivo agressivo para classificar o comportamento do indivíduo e 
não o indivíduo. 
 
 
X 
 
1. Etiquetar ou rotular é colocar uma etiqueta a alguém ou a algo. 
Etiqueta é uma cédula que se adere a um objeto especificando o que é, seu 
conteúdo ou qualquer outra indicação (Dicionário O Pequeno Larousse Ilustrado). 
A ciência do comportamento não rotula nem etiqueta às pessoas, só as suas 
comportamentos. As pessoas não têm algo dentro de si que haja que etiquetar. 
Podemos etiquetar o comportamento, mas não à pessoa que se comportar (os 
autores sugerimos o termo "comportante" para nomear à pessoa que se comporta). 
 
 
XI 
 
1. Ao final deste truque o mágico nos faz acreditar que estamos explicando o 
comportamento de João de golpear quando nos referimos a um traço de personalidade 
("agressividade") que ele mesmo fez aparecer em um de seus truques. 
O mágico também inventou a "personalidade" para colocar ali o traço 
"agressividade". Assim, para o mágico, existe uma "personalidade" e nela estão localizados 
os traços. 
A definição de traço em um dicionário comum é: linha ou traço que se faz sobre um 
papel. Então, em psicologia, a agressividade seria como o papel onde se faz o traço. ("A 
agressividade", "a amabilidade", "a honestidade", etc., seriam traços na personalidade). 
 
 
XII 
 
1. Ao final desta execução o mágico nos fez acreditar que estamos explicando o 
comportamento de João (golpear Pedro) quando utilizamos a palavra agressivo, palavra 
que ele mesmo criou (fez aparecer) em um de seus truques para etiquetar João. 
É curioso, baseando-se no comportamento do indivíduo, a psicologia tradicional o 
etiqueta ou rotula. Depois usa o mesmo rótulo que inventou para "explicar" o 
comportamento o pseudo-explicá-la. Por exemplo: Maria passa grande parte do dia 
sentada, olhando para o piso, sem falar e quase não come. Os mágicos rotularam Maria 
como "deprimida" e "explicam"suo comportamento dizendo que Maria "tem depressão". 
Em psicologia existe uma grande quantidade de rótulos ou etiquetas que a maioria 
dos psicólogos utilizam para "explicar" o comportamento. De fato, uma associação de 
mágicos publicou, em forma de manuais, classificações elaboradas destes rótulos. 
Note-se que a palavra explicar está entre aspas; porque com estes rótulos os 
psicólogos os acreditam explicar o comportamento. 
 
 
XIII 
 
1. A psicologia é uma ciência ou, melhor dito, um projeto de ciência. 
 
2. Com esta execução, o mágico nos fez crer que explica o comportamento de João 
(golpear Pedro) referindo-se a duas aparições mágicas: o adjetivo agressivo e o 
substantivo agressão. 
O mágico afirma que João e agressivo porque tem agressão e tem agressão porque é 
agressão. 
Outro exemplo de explicação fictícia III é o seguinte: Roberto fala fora de contexto, 
diz coisas que não estão relacionadas com o que acontece, grita dizendo que há uma baleia 
embaixo de sua cama, diz que seu melhor amigo quer golpeá-lo. Os mágicos o 
diagnosticam: "esquizofrenia" e rotulam Roberto como "esquizofrênico". Se perguntamos 
à maioria dos psicólogos atuais por que Roberto é "esquizofrênico", respondem-nos: 
"porque tem esquizofrenia". Se lhes perguntamos como se dão conta que Roberto tem 
esquizofrenia, dir-nos-ão: "porque fala fora de contexto, porque grita dizendo que há uma 
baleia embaixo de sua cama, porque diz que seu melhor amigo quer machucá-lo". A 
circularidade na explicação (pseudo-explicação) é óbvia. 
 
 
XIV 
 
1. Dizer: "Tem que ocorrer e existir em alguma parte" implica que se existe algo, 
necessariamente deve estar localizado em algum lugar. Portanto, a mente se concebe como 
algo que existe em algum lugar e contém outros "algos" (pensamentos, intenções, desejos, 
etc.). Mas os mágicos não chegam a um acordo, alguns mágicos afirmam que a mente 
reside no cérebro, outros que a mente é o cérebro; e outros, que não está em parte alguma. 
 
2. Os mágicos afirmam que as intenções, propósitos e desejos seoriginam na mente, 
e o que se origina na mente explica o comportamento. Mas ao afirmar o anterior, os 
mágicos não explicam por que estas intenções, propósitos e desejos se originam na mente. 
Como explicamos que agora e não amanha temos a intenções, propósitos e desejos de fazer 
algo? 
Para o mágico, "ter uma intenção, um propósito ou desejo" implica ter algo. Mas a 
intenção, o propósito e o desejo não são coisas que se têm, mas comportamentos que 
ocorrem. O verbo poderia ser "intencionar" (verbo que nem existe), "propor-se" e 
"desejar". Os processos não existem como coisas em algum lugar. Os processos ocorrem e 
os observamos. 
 
Intenção como pensar 
"Tenho a intenção de colocar na estante o livro que agora está sobre a mesa". 
Levanto-me, tomo o livro e coloco-o na estante. A intenção não explica meu 
comportamento de colocar o livro na estante. A intenção é pensar em que o colocarei antes 
de colocá-lo. Mas este comportamento de pensar não se auto-origina, nem é criada pela 
mente. O que pensei (colocar o livro na estante) ocorreu porque vi o livro fora de seu lugar, 
sobre a mesa. "O livro sobre a mesa" foi um estímulo para pensar em colocá-lo na estante 
("ter a intenção"), porque no passado observei que os livros que estão sobre a mesa se 
misturam com os alimentos, ou estorvam-me ao comer. Também, porque no passado 
desfrutei de ver os livros acomodados na estante e encontrá-los ali quando os necessitei. 
Estas são algumas das possíveis razões de por que tive a intenção de colocar o livro na 
estante. 
"Tenho o propósito de fumar menos". Então ao compro cigarros, nem aceito 
quando me convidam para fumar. O propósito é pensar que não fumarei, dizer-me a mim 
mesmo "não fumarei mais". Mas este comportamento de pensar que não fumarei não se 
auto-origina na mente, mas é produto de minha interação com o meio. Por exemplo, de ler 
que o fumar está relacionado com o câncer pulmonar, de conhecer pessoas que estão 
doentes por fumar, de sentir-me fraco (que me falta ar ao realizar qualquer exercício 
físico). 
Assim, nem o comportamento de ter a intenção de não fumar como a de não 
comprar e de não aceitar cigarros, estão originadas na mente, mas nas conseqüências que 
para mim tem fumar. 
"Desejo comer chocolates". Vou ao mercado, compro um e como-o. O desejo não 
explica meu comportamento de ir ao mercado, comprar um e comer. O desejo de comer 
chocolates não se auto-origina, é efeito de minha interação com meu meio. Gosto de 
chocolates – são um reforçador positivo para mim – e há vários dias que quero comer um. 
"Tenho a intenção de ir ao mercado e comprar pão". Vou ao mercado e compro-o. 
A intenção não explica meu comportamento de ir ao mercado. Não vou à tenda 
porque tenho a intenção, nem tenho a intenção porque desejo comer pão; mas tenho 
desejos de comer pão, a intenção de ir ao mercado comprá-lo, e vou ao mercado e compro-
o, porque no passado comportar-me assim nessas circunstâncias, teve como conseqüência 
comer pão. 
 
3. "Referir-se a um sentimento como a causa de um comportamento, sem explicar 
de onde se origina o sentimento, é um velho truque de magia. É um truque passado de 
moda, verdadeiramente ridículo", afirmou o mágico. 
Ao dizer isto, parece que o mágico está de acordo com uma explicação científica 
natural do comportamento, dado que não confere aos sentimentos uma função causal, o 
mesmo que parece rechaçar ao referir-se a sentimentos, sem explicar sua origem. Mas o 
problema é que, para o mágico, o sentir se origina na mente e os sentimentos existem, 
independentemente do sentir. 
Para a ciência do comportamento, o sentir (o que sentimos) é produto de nossa 
interação com o meio. 
 
Os sentimentos não existem independentemente do sentir 
Não se sente um sentimento; o que se sente é o sentimento. 
Sentimos algo, e o que sentimos é o que sucede nesse momento em nosso 
organismo. Por exemplo, sentimos dor quando um estímulo afeta nosso organismo de 
certa maneira. Mas "dor" é o nome que damos ao sentido, a dor não é um sentimento que 
está ali e que logo sentimos, algo que chega e entra a nosso organismo, como o faria uma 
bactéria ou um vírus. "Dor" é só o nome que damos ao sentido. 
O que sentimos não se auto-origina, mas é produto de nossa interação com o meio. 
Por exemplo: vejo uma criança faminta e sinto o que me foi ensinado a nomear como 
"tristeza" ou "lástima". Sentir, em si mesmo, é a tristeza. A tristeza não é algo que está ali e 
logo sentimos; não é algo que me "transmitiu" a criança. A tristeza não se auto-originou, 
mas foi um efeito de ver a criança. E a criança me provoca sentir tristeza porque as 
crianças como a que vejo agora, no passado foram associadas com eventos aversivos 
(desagradáveis), eventos "tristes". 
 
4. O mágico diz: "Não há dúvida, os sentimentos e intenções não se auto-originam, 
mas se originam na mente". Esta afirmação é parcialmente verdadeira. É verdade que o 
que sentimos é o querer fazer algo não se auto-originam – sempre há algo que nos faz 
sentir ou tentar fazer algo –, mas não é verdade que se originem na mente. 
O que pensamos e sentimos é produto de nossa interação com o meio. A origem de 
nosso comportamento está em nossa interação com o meio. 
 
5. Para o mágico, os pensamentos (crenças) e os sentimentos irracionais explicam 
o comportamento. Para o mágico, este tipo de crenças e sentimentos residem na mente e 
originam-se nela. Um problema é que o mágico não explica por que os pensamentos e 
sentimentos irracionais, e não os "racionais", foram originados pela "mente" e 
permaneceram nela. 
 
6. Uma explicação teleológica é aquela que "explica" a ocorrência de um evento que 
sucede neste momento (no presente) referindo-se a algo que ocorrerá no futuro. Por 
exemplo: "estou comendo agora para evitar ter fome depois" é uma explicação teleológica 
do comportamento atual de comer. "Vou ao mercado porque vou comprar pão e leite", é 
uma explicação teleológica de meu comportamento de ir ao mercado. 
Claro, fazemos coisas pensando no futuro, mas não as fazemos por razoes que 
estão no futuro. Fazemo-las (incluindo o comportamento de pensar no futuro) pelas 
conseqüências que obtivemos ao fazê-las no passado. 
 
7. As explicações orgânicas (biológicas) do comportamento são freqüentes. 
Atualmente as explicações genéticas são moda entre certos tipos de mágicos. Eles tratam 
de explicar o comportamento agressiva com o "gene agressivo", o comportamento autista 
com o "gene autista". Para explicar o comportamento empática recorrem ao "gene da 
empatia". 
Claro, todo comportamento tem um correlato ou substrato biológico, mas o 
biológico (o orgânico) não é comportamental. 
 
8. O mágico diz que não é correto aplicar o comportamento de golpear de João 
referindo-nos a uma desordem mental ou psíquica, e justifica seu argumento afirmando 
que é impossível determinar se existe ou não uma desordem mental ou psíquica em uma 
pessoa. O mágico aceita a existência destas causas, mas as rechaça por não poder estar 
seguro de sua ocorrência nesse momento. 
Para a ciência do comportamento, o chamado "mental" ou "psíquico" não é a causa 
do comportamento; não o é, simplesmente porque a mente não existe como um ente 
originador, contenedor e mantedor do comportamento. 
Para evitar mal-entendidos é necessário esclarecer, uma vez mais, que o fato de 
que para o comportamentalismo a mente não exista não implicam que não existam 
processos de pensar e de sentir. 
 
9. Há que se lembrar de que o mágico executou todos os seus truques baseando-se 
unicamente no comportamento de golpear de João. Deste comportamento apareceu "a 
agressão", "a agressividade", "a mente". Mas o mágico não apenas as fezaparecer, mas as 
ofereceu como explicações do comportamento, como entes que se originam e se têm na 
mente. Por isso, o mágico afirma que a explicação do comportamento de golpear Pedro, é 
que João é "agressivo" ou "tem agressividade", e que a "agressividade" está localizada em 
sua personalidade e esta em sua mente. 
 
10. B. F. Skinner (1904-1990). Psicólogo fundador da ciência da análise do 
comportamento e da filosofia comportamentalista radical. Skinner não negou a existência 
de eventos privados, como pensar e sentir, mas os considerou como objetos de estudo da 
ciência do comportamento. Neste sentido, o comportamentalismo proposto por Skinner é 
radical – fundamental. 
 
Explicação comportamentalista do comportamento de João de golpear Pedro 
A explicação comportamentalista é a seguinte: 
O mágico pediu a João que desse um golpe em Pedro para poder realizar os treze 
truques. João cumpriu com a instrução e golpeou Pedro na face. João o fez pelas 
conseqüências que teve ao cumprir com instruções dadas pelo mágico. João trabalha para 
o mágico, o mágico o paga para cumprir com suas instruções; se João deixa de cumprir as 
instruções do mágico, será despedido. 
 
 
Nota. 
Para evitar mal-entendidos é importante deixar claro que de maneira 
alguma convidamos o leitor a negar ou ignorar a existência do sentir e do pensar 
(sentimentos ou cognições), ou a considerar aos seres humanos como animais 
irracionais. Claro, todos pensamos e sentimos (de fato você e eu o fazemos nesse 
momento). Também pensaram e sentiram João, Pedro, o mágico e todos os 
espectadores dos Treze Truques de Magia. 
Nosso convite é a questionar a existência da mente como uma entidade 
contenedora, mantenedora e originadora do comportamento; como um artifício com 
o qual, durante centenas de anos, escapamos e evitamos mudar o meio, do qual 
nosso comportamento é função.

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