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Material da disciplina Tópicos Especiais de Obrigações e Contratos: reúne a Aula 1 sobre Bases da Teoria do Negócio Jurídico, com temas como constituições, Código Civil de 1916, princípios (autonomia, isonomia), teoria da imprevisão, jurisprudência, cláusulas, distrato, atividades e exercícios com gabarito.

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TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 1 
Apresentação ................................................................................................................................ 8 
Aula 1: Bases da Teoria do Negócio Jurídico ............................................................................... 10 
 ........................................................................................................................... 10 Introdução
 .............................................................................................................................. 10 Conteúdo
Constituições .................................................................................................................... 10 
Constituições .................................................................................................................... 11 
Código Civil de 1916 ........................................................................................................ 12 
Justiça Social .................................................................................................................... 13 
Princípio da isonomia ..................................................................................................... 14 
Constituição Federal de 1988 ........................................................................................ 15 
Apelação Cível .................................................................................................................. 16 
Relação do consumo ...................................................................................................... 17 
Recurso Especial nº 1.194.627-RS ................................................................................. 17 
Qualidade intrínseca ....................................................................................................... 18 
Declaração ........................................................................................................................ 20 
Papel da Jurisprudência ................................................................................................. 20 
Ordenamento jurídico .................................................................................................... 20 
Princípio da autonomia .................................................................................................. 21 
Autonomia privada .......................................................................................................... 21 
Teoria da imprevisão ...................................................................................................... 22 
Princípio da conservação ............................................................................................... 23 
Contratos ........................................................................................................................... 23 
Direito privado .................................................................................................................. 24 
Informativo nº 492 do STJ ............................................................................................. 24 
Recurso Especial nº 1.321.655-MG ............................................................................... 25 
STJ – Superior Tribunal de Justiça............................................................................... 25 
Recurso Especial nº 1.132.943-PE ................................................................................. 26 
Cláusulas ........................................................................................................................... 26 
Distrato .............................................................................................................................. 26 
Modelo individualista-liberal ......................................................................................... 27 
Conclusão ......................................................................................................................... 27 
Atividade proposta .......................................................................................................... 27 
........................................................................................................................... 28 Referências
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 2 
 ......................................................................................................... 29 Exercícios de fixação
Notas ........................................................................................................................................... 33 
Chaves de resposta ..................................................................................................................... 33 
 ..................................................................................................................................... 33 Aula 1
Exercícios de fixação ....................................................................................................... 33 
Aula 2: Boa-Fé Objetiva ............................................................................................................... 36 
 ........................................................................................................................... 36 Introdução
 .............................................................................................................................. 36 Conteúdo
Lealdade contratual ......................................................................................................... 36 
Boa-fé subjetiva ............................................................................................................... 37 
Ordenamento jurídico .................................................................................................... 37 
Intérprete jurídico ............................................................................................................ 38 
Contratos de adesão ....................................................................................................... 38 
Renúncia antecipada ....................................................................................................... 39 
Direito de sequela ............................................................................................................ 39 
Súmula ............................................................................................................................... 39 
Função social do contrato ............................................................................................. 40 
Conduta leal ...................................................................................................................... 40 
Intenção ............................................................................................................................. 41 
Violação positiva do contrato ....................................................................................... 41 
Aplicação da violação positiva ...................................................................................... 42 
Deveres anexos ................................................................................................................ 43 
Contorno jurídico ............................................................................................................ 43 
Funções da boa-fé objetiva ........................................................................................... 44 
Boa-fé objetiva x boa-fé subjetiva ................................................................................ 45 
Jurisprudencialização do direito .................................................................................. 46 
Jurisprudência ..................................................................................................................46 
Transmissão das obrigações ......................................................................................... 47 
Tribunais estaduais .......................................................................................................... 48 
Dever de lealdade ............................................................................................................ 49 
Segunda seção do STJ .................................................................................................... 49 
Informativos do STJ ........................................................................................................ 50 
Conduta de lealdade ....................................................................................................... 50 
Contratos ........................................................................................................................... 52 
Ordenamento jurídico nacional ................................................................................... 52 
Desfazimento da pactuação .......................................................................................... 53 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 3 
Vício redibitório ................................................................................................................ 53 
Diploma civil ..................................................................................................................... 54 
Informativo 506 do STJ .................................................................................................. 54 
Garantia contratual .......................................................................................................... 54 
Dever anexo de lealdade ................................................................................................ 55 
Ascendente e descendente ........................................................................................... 55 
Conclusão ......................................................................................................................... 56 
Atividade proposta .......................................................................................................... 57 
........................................................................................................................... 57 Referências
 ......................................................................................................... 57 Exercícios de fixação
Chaves de resposta ..................................................................................................................... 62 
 ..................................................................................................................................... 62 Aula 2
Exercícios de fixação ....................................................................................................... 62 
Aula 3: Função Social do Contrato .............................................................................................. 65 
 ........................................................................................................................... 65 Introdução
 .............................................................................................................................. 66 Conteúdo
Função social do contrato ............................................................................................. 66 
Direito civil-constitucional ............................................................................................. 66 
Eficácia interna e externa ............................................................................................... 66 
Função socioambiental do contrato ............................................................................ 70 
Institutos jurídicos ........................................................................................................... 71 
Código Civil brasileiro ..................................................................................................... 71 
Cláusula solve et repete ................................................................................................. 72 
Sistema jurídico ................................................................................................................ 73 
Enriquecimento sem causa ........................................................................................... 73 
Contrato de comodato ................................................................................................... 74 
Obrigações indivisíveis ................................................................................................... 75 
Cessão de crédito ............................................................................................................ 76 
Pagamento indevido ....................................................................................................... 76 
Tribunais brasileiros ........................................................................................................ 78 
Tipos de contratos ........................................................................................................... 78 
Denunciação da lide ....................................................................................................... 79 
Dação em pagamento .................................................................................................... 80 
Teoria do adimplemento substancial .......................................................................... 80 
Conclusão ......................................................................................................................... 81 
Atividade proposta .......................................................................................................... 81 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 4 
........................................................................................................................... 82 Referências
 ......................................................................................................... 82 Exercícios de fixação
Chaves de resposta ..................................................................................................................... 87 
 ..................................................................................................................................... 87 Aula 3
Exercícios de fixação ....................................................................................................... 87 
Aula 4: Institutos da boa-fé objetiva ........................................................................................... 89 
 ........................................................................................................................... 89 Introdução
 .............................................................................................................................. 90 Conteúdo
Contextualização ............................................................................................................. 90 
Abuso de direito – Conceito ......................................................................................... 90 
Abuso de direito – Controle preventivo e repressivo............................................... 91 
Venire contra factum proprium – Conceito .............................................................. 92 
Venire contra factum proprium – Jurisprudência .................................................... 92 
Obrigação de dar coisa incerta ..................................................................................... 93 
Não declaração de nulidade de contrato de compra e venda ............................... 94 
Promessa de doação .......................................................................................................96 
Duty to mitigate the loss ................................................................................................ 97 
A função de integração da boa-fé objetiva ................................................................ 98 
Supressio e surrectio ..................................................................................................... 100 
Supressio e surrectio – Código civil ........................................................................... 101 
Tu quoque ....................................................................................................................... 102 
Atividade proposta ........................................................................................................ 103 
......................................................................................................................... 104 Referências
 ....................................................................................................... 104 Exercícios de fixação
Notas ......................................................................................................................................... 108 
Chaves de resposta ................................................................................................................... 108 
 ................................................................................................................................... 108 Aula 4
Exercícios de fixação ..................................................................................................... 108 
Aula 5: Formação dos contratos eletrônicos ............................................................................ 111 
 ......................................................................................................................... 111 Introdução
 ............................................................................................................................ 111 Conteúdo
Conceito de contrato .................................................................................................... 111 
Características do contrato .......................................................................................... 112 
Fases da formação contratual ..................................................................................... 112 
Fase de negociações preliminares ou de puntuação ............................................. 113 
Fase de proposta, policitação ou oblação ................................................................ 114 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 5 
Proposta entre ausentes e presentes ......................................................................... 115 
Fase de contrato preliminar ......................................................................................... 115 
Fase de contrato definitivo .......................................................................................... 117 
Contextualização sobre a formação do contrato pela via eletrônica ................. 118 
Aplicação do Código de Defesa do Consumidor aos contratos eletrônicos ..... 118 
Formação do contrato pela via eletrônica ................................................................ 120 
A visão jurisprudencial acerca dos contratos eletrônicos ..................................... 120 
Atividade proposta ........................................................................................................ 123 
......................................................................................................................... 124 Referências
 ....................................................................................................... 124 Exercícios de fixação
Notas ......................................................................................................................................... 129 
Chaves de resposta ................................................................................................................... 129 
 ................................................................................................................................... 129 Aula 5
Exercícios de fixação ..................................................................................................... 129 
Aula 6: Revisão judicial dos contratos ....................................................................................... 131 
 ......................................................................................................................... 131 Introdução
 ............................................................................................................................ 132 Conteúdo
Revisão judicial dos contratos ..................................................................................... 132 
Quando há um conflito de interpretação de cláusulas .......................................... 133 
Diante da abusividade de cláusulas contratuais ...................................................... 134 
O que o juiz pode fazer diante da abusividade de cláusulas contratuais 
considerando a função social do contrato? ................................................................. 134 
Quando ocorre fato imprevisível ................................................................................ 135 
Fato imprevisível – aplicação pelo judiciário ........................................................... 136 
Onerosidade excessiva ................................................................................................. 137 
Necessidade de o fato ser imprevisível ..................................................................... 137 
Análise jurisprudencial .................................................................................................. 138 
Inadimplemento obrigacional e inexecução voluntária do negócio jurídico ... 139 
Execução forçada nas obrigações de dar coisa certa ............................................. 139 
Pagamento de astreintes .............................................................................................. 141 
Pagamento das perdas e danos .................................................................................. 143 
Cláusula penal ................................................................................................................ 144 
Cláusula penal – Comodato ........................................................................................ 146 
Contrato de doação ...................................................................................................... 147 
Atividade proposta ........................................................................................................ 150 
......................................................................................................................... 150 Referências
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 6 
 ....................................................................................................... 150 Exercícios de fixação
Notas ......................................................................................................................................... 155 
Chaves de resposta ................................................................................................................... 155 
 ................................................................................................................................... 155 Aula 6
Exercícios de fixação ..................................................................................................... 155 
Aula 7: Direito contratual e Direito obrigacional ...................................................................... 159 
 .........................................................................................................................159 Introdução
 ............................................................................................................................ 160 Conteúdo
Conceito de contrato .................................................................................................... 160 
Direito à moradia ........................................................................................................... 160 
Direito à saúde ............................................................................................................... 164 
Direito fundamental - entrega de diploma ............................................................... 165 
Tutela jurisdicional ........................................................................................................ 165 
Abandono afetivo .......................................................................................................... 166 
Abandono afetivo - STJ ................................................................................................ 168 
Atividade proposta ........................................................................................................ 169 
......................................................................................................................... 170 Referências
 ....................................................................................................... 170 Exercícios de fixação
Chaves de resposta ................................................................................................................... 175 
 ................................................................................................................................... 175 Aula 7
Exercícios de fixação ..................................................................................................... 175 
Aula 8: Relações de consumo .................................................................................................... 178 
 ......................................................................................................................... 178 Introdução
 ............................................................................................................................ 179 Conteúdo
Conceito e classificação do contrato ........................................................................ 179 
Contrato de adesão ....................................................................................................... 180 
Artigo 54 do CDC – parágrafo 2º ............................................................................... 181 
Artigo 54 do CDC – parágrafo 3º ............................................................................... 182 
Artigo 54 do CDC – parágrafo 4º ............................................................................... 184 
Artigo 51 do CDC ........................................................................................................... 186 
Onerosidade excessiva ................................................................................................. 189 
Descumprimento de cláusula contratual – plano de saúde ................................. 190 
Abuso do direito – renovação de contrato .............................................................. 190 
Atividade proposta ........................................................................................................ 192 
......................................................................................................................... 192 Referências
 ....................................................................................................... 193 Exercícios de fixação
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 7 
Chaves de resposta ................................................................................................................... 198 
 ................................................................................................................................... 198 Aula 8
Exercícios de fixação ..................................................................................................... 198 
Conteudista ............................................................................................................................... 200 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 8 
 
É possivel afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o 
maior negócio jurídico. Dessa maneira, a apreensão, tanto de sua base 
principiológica, quanto de sua formação, torna-se um verdadeiro diferencial aos 
operadores do direito. 
 
O atual Direito Civil vem incorporando o fenômeno de constitucionalização aos 
seus institutos, modificando os critérios de interpretação e aplicação do negócio 
jurídico. Nesse sentido, o Código Civil de 2002 já não é mais concebido como 
um diploma patrimonialista e individualista, mas sim social. 
 
O direito civil-constitucional é materializado, por meio do exercício 
jurisprudencial, a partir da aplicação dos princípios da boa-fé objetiva e da 
função social do contrato aos casos concretos. 
 
Esses princípios, atualmente, devem ser levados em consideração, diante da 
revisão judicial dos contratos, da formação dos contratos pela via eletrônica e 
pela via consumerista, além de determinarem a preservação do patrimônio 
mínimo dos contratantes. 
 
Sendo assim, esta disciplina tem como objetivos: 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 9 
1. Compreender o negócio jurídico à luz do direito civil-constitucional, por meio 
da aplicação dos princípios constitucionais às relações contratuais; 
 
2. Analisar a formação dos contratos, sua revisão judicial e a preservação do 
patrimônio mínimo dos contratantes; 
 
3. Observar a relação existente entre os contratos civis e os contratos 
consumeristas; 
 
4. Definir a aplicação jurisprudencial nas obrigações e nos contratos em geral. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 10 
Introdução 
É possível afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o 
maior negócio jurídico, e, desta forma, a apreensão de sua base principio lógica 
se torna um verdadeiro diferencial aos operadores do direito. 
 
O atual Direito Civil vem incorporando o fenômeno de constitucionalização aos 
seus institutos, modificando os critérios de interpretação e aplicação do negócio 
jurídico. Assim, o Código Civil de 2002 já não é mais concebido como um 
diploma patrimonialista e individualista, mas, sim, social. 
 
Para tanto, a materialização dos princípios constitucionais às relações privadas, 
antes submissas ao império da autonomia privada sem limites e do seu 
correlato pacta sunt servanda, tornou-se uma realidade a partir do respeito aos 
valores da isonomia, da dignidade da pessoa humana, da solidariedade, dentre 
outros. 
 
Objetivo: 
1. Analisar o negócio jurídico à luz do direito civil-constitucional por meio da 
aplicação da isonomia e da dignidade humana às relações contratuais; 
2. Analisar os novos contornos jurídicos do princípio da autonomia privada e do 
pacta sunt servanda nas relações contratuais. 
Conteúdo 
Constituições 
Atualmente, o ordenamento jurídico civilista encontra-se influenciado pela 
Constituição Federal, acarretando verdadeira transformação paradigmática em 
sua interpretação. 
 
Como resultado, a doutrina e a jurisprudência pátrias desenvolveram as bases e 
premissas metodológicas do direito civil-constitucional, entendido, pois, 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 11 
como uma nova técnica hermenêutica, que busca aplicar os princípios e 
direitos fundamentais às relações privadas. 
 
É possível constatar, como seu objetivoprecípuo, a unificação do direito a partir 
do desiderato constitucional, consubstanciado nos valores da isonomia, da 
dignidade da pessoa humana, da solidariedade, dentre outros. 
 
Sob a égide do direito civil-constitucional, a doutrina vem transformando as 
bases conceituais dos institutos que compõem a teoria do negócio jurídico, 
sendo a interpretação e aplicação contratuais aquelas que mais sofreram 
modificações. 
 
Assim, a imutabilidade contratual vem comportando verdadeira intromissão 
estatal, que tende a evitar o enriquecimento sem causa e a desproporção 
negocial, acarretando a nulidade das cláusulas consideradas abusivas. 
 
Constituições 
Atualmente, o ordenamento jurídico civilista encontra-se influenciado pela 
Constituição Federal, acarretando verdadeira transformação paradigmática em 
sua interpretação. 
 
Como resultado, a doutrina e a jurisprudência pátrias desenvolveram as bases e 
premissas metodológicas do direito civil-constitucional, entendido, pois, 
como uma nova técnica hermenêutica, que busca aplicar os princípios e 
direitos fundamentais às relações privadas. 
 
É possível constatar, como seu objetivo precípuo, a unificação do direito a partir 
do desiderato constitucional, consubstanciado nos valores da isonomia, da 
dignidade da pessoa humana, da solidariedade, dentre outros. 
 
Sob a égide do direito civil-constitucional, a doutrina vem transformando as 
bases conceituais dos institutos que compõem a teoria do negócio jurídico, 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 12 
sendo a interpretação e aplicação contratuais aquelas que mais sofreram 
modificações. 
 
Assim, a imutabilidade contratual vem comportando verdadeira intromissão 
estatal, que tende a evitar o enriquecimento sem causa e a desproporção 
negocial, acarretando a nulidade das cláusulas consideradas abusivas. 
 
Código Civil de 1916 
É importante destacar que o Código Civil de 1916 era considerado um 
sistema jurídico individualista e patrimonialista, não se preocupando com 
direitos sociais, nem, tampouco, com os direitos de personalidade. 
 
A própria origem do direito civil perpassa pelos direitos de propriedade, 
consagrados pela ideologia burguesa de acumulação de riquezas e 
disciplinamento detalhado do dever-ser. 
 
Dessa maneira, o direito civil moderno, inaugurado com o Código Napoleônico 
de 1804, retoma a noção romana ao fenômeno jurídico, atribuindo força plena 
à vontade e à impessoalidade do vínculo. Na presente perspectiva, o indivíduo é 
concebido como sujeito de direito e detentor de liberdade volitiva para poder 
gozar dos institutos da propriedade e do contrato. 
 
O autor italiano De Cupis criticou tal concepção, observando a configuração de 
interesses relacionados ao indivíduo, que são suscetíveis de proteção jurídica, 
e, de fato, são mais merecedores de tutela que os bens econômicos. 
 
Ao inverter a visão clássica da sociedade civil, o autor desloca a 
pessoa humana para o centro do universo jurídico. 
 
Com isso, foi constituída a unidade conceitual de situações jurídicas subjetivas 
acerca dos direitos de personalidade, em um momento de total ausência do 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 13 
direito privado em matéria de proteção dos direitos relacionados ao indivíduo, 
ainda como consequência do caráter patrimonial do ordenamento jurídico. 
 
Justiça Social 
O Código Civil de 2002, a partir de uma leitura constitucionalizada do 
ordenamento jurídico, apresenta mecanismos que visam atenuar o princípio da 
autonomia privada por meio da incorporação da justiça social distributiva 
aos negócios jurídicos. 
 
Dessa forma, o presente diploma foi alçado a uma posição de norma regulatória 
geral das relações privadas, não excluindo a legislação específica 
(microssistemas que visam a proteção da parte hipossuficiente, como o Código 
de Defesa do Consumidor), nem a aplicabilidade da interpretação constitucional 
às situações que disciplina. 
 
Assim, por meio da técnica hermenêutica denominada diálogo das fontes, 
busca-se a harmonização entre as diversas normas do sistema jurídico nacional. 
 
Dentro da presente concepção social da obrigação, esta passa a ser 
entendida como um processo de cooperação contínuo e efetivo entre credor e 
devedor, segundo a doutrina alemã, na tentativa de mitigar a subordinação do 
devedor ao credor ao redirecionar-se o olhar para o adimplemento mais 
satisfatório ao credor e menos oneroso ao devedor. Importante destacar que a 
responsabilidade do devedor restringe-se ao seu patrimônio, nos moldes do 
Artigo 391 do CC. 
 
A fim de ilustrar o fato de que a responsabilidade do devedor restringe-se 
ao seu próprio patrimônio, cabível citar decisão prolatada no Recurso 
Especial nº 1.130.742-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 
1º/10/2013. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 14 
Para a Quarta Turma do STJ, não cabe prisão civil do inventariante em razão do 
descumprimento do dever do espólio de prestar alimentos, uma vez que a 
restrição da liberdade constitui sanção de natureza personalíssima, não 
podendo recair sobre terceiro, estranho ao dever de alimentar. Como é sabido, 
a prisão civil somente pode ser imposta ao devedor de alimentos, nos moldes 
do Artigo 733, §1°, do CPC. 
 
Ainda consta da decisão a possibilidade que tem o próprio herdeiro em requerer 
ao juízo, durante o processamento do inventário, a antecipação de recursos 
para a sua subsistência, podendo o magistrado conferir eventual adiantamento 
de quinhão necessário à sua mantença, dando, assim, efetividade ao direito 
material da parte pelos meios processuais cabíveis, sem que se ofenda, para 
tanto, um dos direitos fundamentais do ser humano: a liberdade. 
 
O inventariante é considerado um terceiro estranho na relação entre exequente 
e executado, configurando constrangimento ilegal à possibilidade de prisão. O 
referido é apenas um auxiliar do juízo, nos moldes do Artigo 139 do CC, não 
podendo ser civilmente preso pelo descumprimento de seus deveres, mas, sim, 
destituído por um dos motivos do Artigo 995 do CC. 
 
Princípio da isonomia 
Dentre os princípios constitucionais aplicáveis ao direito civil, destaca-se o 
princípio da isonomia. 
 
Por isonomia, entende-se que todos são iguais perante a lei, sem distinção de 
qualquer natureza, conforme Artigo 5º da Constituição Federal. 
 
Na tentativa de apreender seus parâmetros, que, uma vez violados, geram 
ofensa à igualdade, Bandeira de Melo enumera: primeiro, o elemento tomado 
como fator de desigualação; segundo, a correlação lógica abstrata existente 
entre o fator erigido em critério de discrímen e a disparidade estabelecida no 
tratamento jurídico diversificado; e, por último, a consonância desta correlação 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 15 
lógica com os interesses absorvidos no sistema constitucional e destarte 
juridicizados. 
 
Interessante discussão acerca da aplicação do princípio da isonomia às relações 
privadas envolve a taxa de juros cobrada pelas instituições financeiras, 
pois existe verdadeira disparidade estabelecida no tratamento jurídico 
concebido aos bancos em relação aos particulares. 
 
No atual cenário jurídico, vem prevalecendo o entendimento trazido pela 
Súmula nº 596, de 15/12/1976, do STF: “As disposições do Decreto 
22.626 de 1933 não se aplicam às taxas de juros e aos outros encargos 
cobrados nas operações realizadas por instituições públicas ou privadas, que 
integram o sistema financeiro nacional”. 
 
Constituição Federal de 1988 
É de se perceber que a referida súmula foi concebida antesda Constituição 
Federal de 1988, o que corrobora o entendimento por sua não incidência às 
relações contratuais. 
 
A Constituição da República é clara ao elencar, dentre os seus valores 
fundamentais, a isonomia, sendo oportuno questionar a razão que exclui das 
limitações da Lei de Usura as instituições bancárias. 
 
Assim, se um particular quiser emprestar um determinado valor a outro sujeito 
por meio de contrato de mútuo feneratício, nos moldes do Artigo 591 do 
CC, deverá respeitar a limitação imposta pelo Artigo 1º da Lei de Usura 
(Decreto nº 22.626/33), mas o mesmo não se aplica aos bancos, que, desta 
maneira, podem fixar a taxa de juros compensatórios que bem lhes 
aprouverem. Importante esclarecer a existência de divergência jurisprudencial a 
esse respeito, e a tendência majoritária pela continuidade de aplicação da 
Súmula nº 596 do STF. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 16 
Apelação Cível 
Segundo a Apelação Cível nº 195.023.114, Rel. Darci Waccholz, 1º Grupo 
Cível do TARGS, a Súmula nº 596 não pode ser aplicada segundo seus 
fundamentos, pois feriu o princípio da isonomia ao reconhecer privilégio 
desproporcional em favor das instituições financeiras ao estabelecer, sem uma 
relevante razão, diferenças entre as pessoas, além de a referida súmula 
encontrar-se desatualizada. 
 
Porém, a aplicabilidade da Súmula nº 596 constitui entendimento majoritário na 
jurisprudência brasileira, como consta do seguinte julgado do STJ: 
 
Outra discussão que envolve a mesma matéria se relaciona ao fato de que fere 
a isonomia o comportamento dos bancos, ao remunerarem, de forma 
desproporcional, as atividades que realiza. 
 
Porque, ao depositar em poupança, o sujeito é remunerado com uma taxa 
baixa e, ao contratar um financiamento com o mesmo banco, o sujeito é 
obrigado a desembolsar uma taxa exorbitante? A Súmula nº 297 do STJ 
determina: “O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições 
financeiras”. 
 
Assim, no mesmo tribunal, apresentam-se decisões antagônicas, já que não se 
estabelece um limite às atividades realizadas pelas instituições financeiras, mas 
seus clientes gozam, em tese, do conjunto protetivo disciplinado pelo CDC. 
 
AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO. CONTRATO 
BANCÁRIO. AFASTAMENTO DA LIMITAÇÃO DOS JUROS 
REMUNERATÓRIOS EM 12% AO ANO. INAPLICABILIDADE, NO CASO, 
DA LEI DE USURA. INCIDÊNCIA DA LEI Nº 4.595 /64 E DA SÚMULA 
596/STF. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. 1. Nos termos da pacífica 
jurisprudência desta Corte Superior de Justiça, os juros remuneratórios 
cobrados pelas instituições financeiras não sofrem a limitação imposta pelo 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 17 
Decreto nº 22.626/33 (Lei de Usura), a teor do disposto na Súmula 596/STF, 
de forma que a abusividade da pactuação dos juros remuneratórios deve ser 
cabalmente demonstrada em cada caso, com a comprovação do desequilíbrio 
contratual ou de lucros excessivos, sendo insuficiente o só fato de a estipulação 
ultrapassar 12% ao ano ou de haver estabilidade inflacionária no período. 2. 
Agravo regimental improvido. (grifos nossos). 
 
Relação do consumo 
Segundo o STJ 
No que diz respeito à relação de consumo, segundo o próprio STJ, configura 
hipótese de violação do Artigo 51, II e IV, do CDC, as cláusulas contratuais que 
estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o 
consumidor em desvantagem exagerada ou sejam incompatíveis com a boa-fé 
ou a equidade. 
 
Artigo 51 
Nesse contexto, cabe ressaltar o disposto no Artigo 51, §1º, III, do CDC, que 
presume ser exagerada a vantagem que “se mostra excessivamente onerosa 
para o consumidor, considerando-se a natureza e conteúdo do contrato, o 
interesse das partes e outras circunstâncias peculiares do caso”. Como 
resultado, devem ser tais cláusulas declaradas nulas de pleno direito, uma vez 
que violam o ordenamento jurídico civil-constitucional. 
 
Recurso Especial nº 1.194.627-RS 
Já no Recurso Especial nº 1.194.627-RS, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 
1º/12/2011, a turma julgadora entendeu pela aplicação do Código de Defesa do 
Consumidor à relação contratual de mútuo estabelecida pelas partes com a 
instituição financeira para compra de ações da Copesul. 
 
Nesse contexto, o que se ventilava na ação não era a redução da taxa de juros 
compensatórios, mas, sim, a declaração de nulidade da cláusula de eleição de 
foro contratualmente pactuada. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 18 
 
Para o Min. Relator, o simples fato de os recorrentes, pessoas físicas, terem 
utilizado o financiamento obtido junto à instituição financeira para investimento 
em ações não desnatura a relação de consumo estabelecida entre as partes. 
 
Somente se afastaria a figura do destinatário final daquele que contrai mútuo 
com instituição financeira caso ele se dedicasse à atividade financeira, valendo-
se da quantia obtida para reemprestá-la, cobrando juros de terceiros. 
 
Portanto, deve-se afastar a validade da cláusula de eleição, prevalecendo o foro 
do domicílio do consumidor para processamento e julgamento da demanda em 
que se discute a validade do contrato de financiamento. 
 
Qualidade intrínseca 
Dentre os princípios constitucionais aplicáveis ao direito civil, destaca-se o 
Princípio da Dignidade Humana. Segundo Sarlet, dignidade da pessoa humana 
pode ser entendida como: 
 
 
 
Qualidade 
A qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano, que o faz merecedor do 
mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, 
implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais 
que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante 
e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas 
para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e 
corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com 
os demais seres humanos. 
 
Relações privadas 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 19 
Aplicar a dignidade da pessoa humana às relações privadas é tarefa recorrente 
no atual ordenamento jurídico por meio da jurisprudência. No Recurso 
Especial nº 1.324.712-MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 
24/9/2013, o STJ decidiu ser incabível a exigência de caução para atendimento 
médico-hospitalar emergencial. Dessa forma, o Tribunal Superior vem 
materializando o valor jurídico-constitucional da dignidade aos contratos de 
prestação de serviços médicos, afastando a constituição de garantia para 
tratamento emergencial, mesmo que a mencionada caução tenha sido pactuada 
entre as partes ou seus familiares. 
 
 
Atenção 
 O Superior Tribunal de Justiça, antes da vigência da Lei nº 
12.653/2012, já havia se manifestado no sentido de que é dever 
do estabelecimento hospitalar, sob pena de responsabilização 
cível e criminal, da sociedade empresária e prepostos, prestar o 
pronto atendimento. Com a superveniente vigência da Lei nº 
12.653/2012, que veda a exigência de caução e de prévio 
preenchimento de formulário administrativo para a prestação de 
atendimento médico-hospitalar premente, a solução para o caso 
é expressamente conferida por norma de caráter cogente. 
 
Negócios jurídicos 
Também constitui aplicação da dignidade humana aos negócios jurídicos, a 
determinação de que o Estado, em todas as suas esferas de poder, deve 
assegurar às crianças e aos adolescentes, com absoluta prioridade, o direito à 
vida e à saúde, fornecendo gratuitamente o tratamento médico cuja família não 
tem condições de custear. Assim, há responsabilidadesolidária, estabelecida 
nos Artigos 196 e 227 da Constituição Federal e Artigo 11, §2º, do ECA, 
podendo o autor da ação exigir, em conjunto ou separadamente, o 
cumprimento da obrigação por qualquer dos entes públicos, 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 20 
independentemente da regionalização e hierarquização do serviço público de 
saúde. 
 
Declaração 
De outra sorte, nos Embargos de Declaração no Agravo nº 1.023.858-RJ, 
Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 4/12/2008, o STJ afastou a interpretação 
civil-constitucional ao possibilitar a penhora do único bem de família do fiador, 
nos moldes do Artigo 3º, VII, da Lei nº 8.009/1990. 
 
O Min. Relator destacou que a orientação divergente de Tribunal 
estadual não tem o condão de afastar o entendimento predominante 
nos Tribunais Superiores no sentido de ser penhorável o imóvel 
familiar do fiador em contrato de locação. 
 
Papel da Jurisprudência 
Em conclusão, foi possível perceber o papel da jurisprudência diante da 
interpretação e aplicação dos princípios constitucionais às relações contratuais, 
com destaque para a isonomia e a dignidade da pessoa humana. 
 
Assim, por meio da análise de casos concretos, foi constatada a tendência ao 
dirigismo contratual por parte do Estado, mas sem esvaziar por completo a 
autonomia privada, inerente aos negócios jurídicos modernos. 
 
Ordenamento jurídico 
Como analisado anteriormente, o ordenamento jurídico civilista estrutura-se no 
Estado Democrático de Direito, inaugurado com a Constituição Federal de 
1988, a partir de uma nova leitura acerca dos negócios jurídicos que disciplina. 
A visão tradicional de que o contrato fazia lei entre as partes (pacta sunt 
servanda) resta superada, permitindo-se, desta forma, uma maior intromissão 
estatal na autonomia das vontades, o chamado dirigismo contratual. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 21 
Tal dirigismo é a faculdade outorgada por lei ao magistrado para que este 
reveja o contrato e estabeleça condições para sua execução, fazendo com que 
cláusulas sejam impostas em substituição da declaração volitiva do contratante. 
 
Porém, isso não deve levar ao esvaziamento total do princípio da autonomia 
privada, mas, sim, à sua mitigação diante da aplicação da boa-fé objetiva e da 
função social aos negócios jurídicos, princípios corolários de uma leitura 
constitucionalizada do fenômeno privado. 
 
Dessa maneira, a função social do contrato não tem a aptidão de afastar a 
autonomia privada, tal como determinado no Enunciado 23 da I Jornada de 
Direito Civil do CJF/STJ: “a função social do contrato, prevista no Artigo 421 
do novo Código Civil, não elimina o princípio da autonomia contratual, mas 
atenua ou reduz o alcance deste princípio quando presentes interesses 
metaindividuais ou interesse individual relativo à dignidade da pessoa humana”. 
 
Princípio da autonomia 
Conceitua-se o princípio da autonomia privada como sendo um regramento 
básico, de ordem particular – mas influenciado por normas de ordem pública –, 
pelo qual, na formação do contrato, além da vontade das partes, entram em 
cena outros fatores: psicológicos, políticos, econômicos e sociais. 
Trata-se do direito indeclinável de a parte autorregulamentar os seus 
interesses, decorrente da dignidade humana, mas que encontra limitações em 
normas de ordem pública, particularmente nos princípios sociais contratuais. 
 
Autonomia privada 
 
Contratos de adesão 
Com a redução da autonomia privada, o negócio jurídico paritário perdeu 
espaço social em detrimento dos contratos de adesão, que passam a 
constituir a regra geral. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 22 
Extinção dos contratos 
Apesar de tal mudança ocorrer, isto não acarreta a extinção dos contratos, 
mas, sim, a mudança de sua estrutura e conceituação. O contrato muda a sua 
disciplina, as suas funções e a sua própria estrutura segundo o contexto 
econômico-social em que está inserido. 
 
Padronização das transações 
Assim, para uma parte da doutrina, a liberdade de contratar não mais existe, 
uma vez que o contrato foi transformado em norma unilateral imposta pela 
empresa que está em situação dominante, a partir de um fenômeno conhecido 
como padronização das transações, decorrente de uma economia de 
massa. 
 
Teoria da imprevisão 
Dirigismo contratual 
É possível afirmar que, no campo intervencionista consubstanciado no dirigismo 
contratual, situa-se a teoria da imprevisão, nos moldes do Artigo 478 do CC. 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 23 
Desequilíbrio contratual 
Dessa forma, atingindo o plano de desequilíbrio contratual pela ocorrência de 
fato imprevisível e/ou extraordinário, o direito deverá ser acionado e a 
obrigatoriedade contratual deixada de lado. 
 
Ordenamento jurídico 
O relatado desequilíbrio possibilita a revisão ou extinção do contrato em 
respeito ao ordenamento jurídico, que não mais tolera a desproporção negocial, 
em que um se enriquece de forma desarrazoada em detrimento do 
empobrecimento de outrem. 
 
Princípio da conservação 
Como decorrência do princípio da conservação do negócio jurídico diante da 
necessidade de aplicação da teoria da imprevisão, estabelece o Enunciado 
176 da III Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “Em atenção ao princípio 
da conservação dos negócios jurídicos, o Artigo 478 do Código Civil de 2002 
deverá conduzir, sempre que possível, à revisão judicial dos contratos e não à 
resolução contratual”. 
 
Contratos 
No Recurso Especial nº 936741/GO, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, é 
possível estabelecer uma digressão entre as várias espécies de contratos 
existentes no ordenamento jurídico pátrio. Anteriormente, foi afirmado que a 
autonomia privada vem sofrendo atenuações como decorrência do exercício 
jurisprudencial, a fim de adequar a estrutura do contrato às exigências 
constitucionais. 
 
Porém, diante de contrato de compra e venda de safra futura, não há que 
se aplicar a teoria da imprevisão em decorrência da onerosidade excessiva. 
Dessa maneira, contratos empresariais não devem ser tratados da mesma 
forma que contratos cíveis em geral ou contratos de consumo, pois, nestes, 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 24 
admite-se o dirigismo contratual; naqueles, devem prevalecer os princípios da 
autonomia da vontade e da força obrigatória dos negócios jurídicos. 
 
Direito privado 
Ainda é possível extrair do julgado que Direito Civil e Direito Empresarial, ainda 
que ramos do Direito Privado, submetem-se a regras e princípios próprios. 
Logo, o fato de o Código Civil ter submetido os contratos cíveis e empresariais 
às mesmas regras gerais não significa que estes contratos sejam 
essencialmente iguais. A não incidência da teoria da imprevisão, nos moldes do 
Artigo 478 do CC, decorre dos seguintes argumentos: 
 
Os contratos em discussão não são de execução continuada ou diferida, mas 
contratos de compra e venda de coisa futura, a preço fixo. 
 
Alta do preço da soja não tornou a prestação de uma das partes 
excessivamente onerosa, mas apenas reduziu o lucro esperado pelo produtor 
rural. 
 
A variação cambial que alterou a cotação da soja não configurou um 
acontecimento extraordinário e imprevisível, porque ambas as partes 
contratantes conhecem o mercado em que atuam, pois são profissionais do 
ramo e sabem que tais flutuações são possíveis. 
 
Informativo nº 492 do STJ 
Assim, de acordo com o Informativo nº 492 do STJ, nos contratos aleatórios 
de compra e venda de safra futura, as variações de preço, por si só, não 
motivam a resoluçãocontratual com base na teoria da imprevisão. 
 
Ocorre que, para a aplicação dessa teoria, é imprescindível que as 
circunstâncias que envolveram a formação do contrato de execução diferida 
não sejam as mesmas no momento da execução da obrigação, tornando o 
contrato extremamente oneroso para uma parte em benefício da outra. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 25 
 
E ainda que as alterações que ensejaram o referido prejuízo resultem de um 
fato extraordinário e impossível de ser previsto pelas partes. 
 
Recurso Especial nº 1.321.655-MG 
De outra sorte, no Recurso Especial 1.321.655-MG, Rel. Min. Paulo de 
Tarso Sanseverino, julgado em 22/10/2013, o STJ mitigou a força obrigatória 
do contrato ao estabelecer como abusiva a cláusula penal de contrato de 
pacote turístico que estabeleça, para a hipótese de desistência do consumidor, 
a perda integral dos valores pagos antecipadamente. 
 
Dessa maneira, não é possível falar em perda total dos valores pagos 
antecipadamente por pacote turístico, sob pena de se criar uma situação que, 
além de vantajosa para a empresa de turismo (fornecedora de serviços), 
mostra-se excessivamente desvantajosa para o consumidor, o que implica 
incidência do Artigo 413 do CC, segundo o qual a penalidade deve 
obrigatoriamente (e não facultativamente) ser reduzida equitativamente pelo 
juiz se o seu montante for manifestamente excessivo. 
 
STJ – Superior Tribunal de Justiça 
O STJ tem o entendimento de que, em situação semelhante (nos contratos de 
promessa de compra e venda de imóvel), é cabível ao magistrado reduzir o 
percentual da cláusula penal com o objetivo de evitar o enriquecimento sem 
causa por qualquer uma das partes. 
 
Além disso, no que diz respeito à relação de consumo, evidencia-se, na 
hipótese, violação do Artigo 51, II e IV, do CDC, de acordo com o qual são 
nulas de pleno direito as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de 
produtos e serviços que subtraiam ao consumidor a opção de reembolso da 
quantia já paga, nos casos previstos neste código. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 26 
Recurso Especial nº 1.132.943-PE 
No mesmo sentido do Recurso Especial nº 1.132.943-PE, Rel. Min. Luis 
Felipe Salomão, julgado em 27/8/2013, que decidiu ser abusiva a cláusula de 
distrato (fixada no contexto de compra e venda imobiliária mediante 
pagamento em prestações) que estabeleça a possibilidade de a construtora 
vendedora promover a retenção integral ou a devolução ínfima do valor das 
parcelas adimplidas pelo consumidor distratante. 
 
Cláusulas 
Os Artigos 53 e 51, IV, do CDC coíbem cláusula de decaimento que determine a 
retenção de valor integral ou substancial das prestações pagas, por 
consubstanciar vantagem exagerada do incorporador. 
 
Nesse contexto, o Artigo 53 dispõe que, nos “contratos de compra e venda de 
móveis ou imóveis mediante pagamento em prestações, bem como nas 
alienações fiduciárias em garantia, consideram-se nulas de pleno direito as 
cláusulas que estabeleçam a perda total das prestações pagas em benefício do 
credor que, em razão do inadimplemento, pleitear a resolução do contrato e a 
retomada do produto alienado”. 
 
Distrato 
Além disso, o fato de o distrato pressupor um contrato anterior não implica 
desfiguração da sua natureza contratual. Isso porque, nos moldes do Artigo 
472 do CC, "o distrato faz-se pela mesma forma exigida para o contrato", o que 
implica afirmar que o distrato nada mais é que um novo contrato, distinto ao 
contrato primitivo. 
 
Dessa forma, como em qualquer outro contrato, um instrumento de distrato 
poderá, eventualmente, ser eivado de vícios, os quais, por sua vez, serão 
passíveis de revisão em juízo, sobretudo no campo das relações de consumo. 
Em outras palavras, as disposições estabelecidas em um instrumento de 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 27 
distrato são, como quaisquer outras disposições contratuais, passíveis de 
anulação por abusividade. 
 
Modelo individualista-liberal 
Em síntese, o princípio da autonomia privada pode ser apreendido como a 
possibilidade, oferecida e assegurada aos particulares, de regularem suas 
relações mútuas dentro de determinados limites, por meio de negócios 
jurídicos, enquanto o pacta sunt servanda é concebido como o princípio que 
determina a força obrigatória dos contratos. 
 
Importante relembrar que, no modelo individualista-liberal, típico dos códigos 
oitocentistas, tais princípios eram tomados como absolutos. No entanto, na 
concepção atual do direito civil-constitucional, ocorreu sua relativização com 
vistas à melhor proteção da dignidade humana. 
 
Conclusão 
Conclui-se, portanto, que, ao surgirem questões práticas acerca da aplicação do 
princípio da autonomia privada, da liberdade e da dignidade da pessoa 
humana, deve-se privilegiar a liberdade do sujeito em detrimento dos interesses 
patrimoniais inerentes ao negócio jurídico, já que prevalece o direito 
existencial no sistema jurídico pátrio. 
 
Atividade proposta 
Leia sobre um case que aborda o conteúdo discutido nesta aula. Em seguida, 
diante do exposto, faça a analise do acórdão e identifique se há ou não 
desrespeito ao princípio da dignidade da pessoa humana, diante da 
possibilidade de penhorar o único bem de família do fiador. 
 
“TJRJ - DES. MARIO ASSIS GONCALVES - Julgamento: 09/05/2012 - TERCEIRA 
CAMARA CIVEL. Embargos à execução. Fiador. Bem de família. Penhorabilidade. 
Constitucionalidade reconhecida pelo STF. O inciso VII do artigo 3º, da Lei 
8.009/90 afasta a impenhorabilidade do bem de família na hipótese de 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 28 
execução de obrigação decorrente de fiança concedida em contrato de locação. 
Assim, o imóvel apontado pelo exequente, ainda que seja o único, pode ser 
objeto da execução. A constitucionalidade do referido dispositivo legal foi 
declarada pelo Supremo Tribunal Federal em julgamento de Recurso 
Extraordinário no qual se reconheceu a existência de repercussão geral. A 
matéria é, inclusive, objeto do verbete sumular nº 63 deste Tribunal. Desta 
forma, legítima a penhora realizada sobre o bem de propriedade da fiadora. Por 
fim cumpre destacar que a fiança é uma obrigação de garantia. Nesse tipo de 
obrigação, aquilo a que se obriga o fiador é pagar a obrigação se o devedor 
não o fizer. A fiança é outra relação jurídica da qual o devedor não faz parte e 
que se estabelece entre o credor e o fiador, são duas relações jurídicas 
distintas. Há uma relação jurídica principal que se estabelece entre credor e o 
devedor e há outra relação jurídica acessória que se estabelece entre o credor e 
o fiador. Da principal o fiador não é parte, assim como da acessória é o devedor 
que não é parte. Desta forma, quitado o débito pelo fiador este se sub-roga nos 
direitos do locador, podendo executar a dívida em virtude do direito de 
regresso. Recurso ao qual se dá provimento”. 
 
Chave de resposta: À luz do direito civil-constitucional, é cabível o 
questionamento acerca da constitucionalidade do Artigo 3º, VII, da Lei nº 
8.009/90, que possibilita a penhora do único bem de família do fiador. 
Importante lembrar que a referida lei encontra fundamento na doutrina do 
patrimônio mínimo do devedor, materializando a dignidade da pessoa humana 
nas relações contratuais. É de se concluir que tal precedente acaba criando um 
ambiente inseguro ao fiador e, por conseguinte, inviabiliza a assunção desta 
responsabilidade. 
 
Referências 
DE CUPIS, Adriano. Os direitos da personalidade. Campinas: Romana 
Jurídica, 2004. p. 121. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS29 
MELLO, Celso Antonio Bandeira. Conteúdo jurídico do princípio da 
igualdade. 3. ed. São Paulo: Malheiros, 1995. p. 21. 
TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. 3. ed. São Paulo: Método, 2013. p. 
539. 
 
Exercícios de fixação 
Questão 1 
(Magistratura do Trabalho) 
A liberdade de contratar, segundo preceito expresso na Lei Civil, será exercida 
em razão e nos limites da função social do contrato, porque o Código Civil 
vigente traz uma maior preocupação com a dignidade da pessoa humana, 
quando visualiza o contrato como instrumento de integração do homem na 
sociedade: 
a) As duas expressões são falsas 
b) A primeira é verdadeira, e a segunda é falsa 
c) A primeira é falsa, e a segunda é verdadeira 
d) As duas são verdadeiras, e a segunda justifica a primeira 
e) As duas são verdadeiras, e a segunda não justifica a primeira 
 
Questão 2 
De acordo com os princípios que regem a relação contratual, identifique aquele 
que não se aplica a presente relação. 
a) Princípio da dignidade da pessoa humana 
b) Princípio da função social dos contratos 
c) Princípio da responsabilidade pessoal do devedor 
d) Princípio da boa-fé objetiva 
 
Questão 3 
O processo de mitigação dos tradicionais critérios para solucionar o conflito 
entre regras, em que se busca a harmonização entre as diversas normas do 
ordenamento jurídico ao invés do afastamento de uma delas, é denominado de: 
a) Crise dos contratos 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 30 
b) Pacta sunt servanda 
c) Dirigismo contratual 
d) Diálogo das fontes 
 
Questão 4 
É possível afirmar que o direito civil-constitucional pode ser considerado como: 
a) Uma nova técnica de hermenêutica, em que os princípios constitucionais 
deverão ser aplicados às relações privadas. 
b) Uma nova técnica de hermenêutica, em que o credor deverá se 
submeter ao inadimplemento voluntário do devedor. 
c) Uma nova técnica de hermenêutica, em que se reafirma o Código Civil 
como diploma patrimonialista e individualista. 
d) Uma nova técnica de hermenêutica, em que o devedor deverá se 
submeter às cláusulas determinadas pelo credor. 
 
Questão 5 
(OAB) 
Semprônio realiza contrato de locação com Terêncio, de imóvel residencial 
urbano. Para garantir a avença, intercede Esculápio na condição de fiador pelo 
período do contrato, renunciando ao benefício de ordem. No curso da avença, o 
devedor, por motivos de doença da família, deixa de quitar algumas prestações. 
Após o período de dificuldades, credor e devedor ajustam a prorrogação do 
contrato, não informando tal situação ao fiador. Diante do exposto, marque a 
alternativa correta: 
a) O fiador não será responsável, diante da prorrogação do contrato. 
b) A fiança não constitui uma das espécies de garantia locatícia. 
c) Qualquer modificação no contrato não precisa ser comunicada ao fiador. 
d) O único bem de família do fiador poderá ser penhorado, por expressa 
força de lei. 
 
Questão 6 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 31 
A possibilidade, oferecida e assegurada aos particulares, de regularem suas 
relações mútuas, dentro de determinados limites, por meio de negócios 
jurídicos, constitui um dos princípios fundamentais da relação contratual. 
Aponte, dentre as alternativas abaixo, o presente princípio: 
a) Princípio da função social dos contratos 
b) Princípio da autonomia da vontade 
c) Princípio do pacta sunt servanda 
d) Princípio da conservação do negócio jurídico 
 
Questão 7 
Quanto aos princípios que regem a relação contratual, assinale a resposta 
incorreta. 
a) Autonomia da vontade é a possibilidade, oferecida e assegurada aos 
particulares, de regularem suas relações mútuas, dentro de 
determinados limites, por meio de negócios jurídicos. 
b) Função social do contrato é um princípio contratual, de ordem pública, 
pelo qual o contrato deve ser necessariamente visualizado, interpretado 
e estruturado de acordo com o contexto da sociedade. 
c) Pelo princípio da boa-fé objetiva, os contratantes estão obrigados a 
cumprir suas prestações de forma leal e proba, sob pena de cometerem 
abuso de direito, o que acarreta responsabilidade civil. 
d) A liberdade de contratar não será exercida em razão e nos limites da 
função social do contrato. 
 
Questão 8 
(OAB) 
Silvana, promitente compradora, celebrou instrumento de promessa de compra 
e venda de imóvel no valor de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) com Ivana, 
promitente vendedora, através de instrumento público. Durante a vigência do 
pacto, Silvana e Ivana decidiram desfazer o negócio e celebraram novo acordo 
por meio de instrumento particular, extinguindo o contrato inicial. Qual é o 
instituto jurídico pertinente? 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 32 
a) Trata-se de distrato, que deverá seguir a mesma forma exigida por lei 
para a realização do contrato. 
b) Trata-se de distrato, que não precisará seguir a mesma forma exigida 
por lei para a realização do contrato. 
c) Trata-se de resilição unilateral do contrato. 
d) Trata-se de resolução contratual. 
 
Questão 9 
José celebrou contrato de compra e venda de safra futura de soja com Antônio, 
em que ficou determinado o pagamento por toda a safra de soja do segundo, 
mesmo que esta não venha a existir. Quanto à classificação, é possível afirmar 
que: 
a) O contrato é comutativo, cabendo aplicar a teoria da imprevisão. 
b) O contrato é aleatório, cabendo aplicar a teoria da imprevisão. 
c) O contrato é comutativo, não cabendo aplicar a teoria da imprevisão. 
d) O contrato é aleatório, não cabendo aplicar a teoria da imprevisão. 
 
Questão 10 
(Exame da OAB – 2012) 
Embora sujeito às constantes mutações e às diferenças de contexto em que é 
aplicado, o conceito tradicional de contrato sugere que ele represente o acordo 
de vontades estabelecido com a finalidade de produzir efeitos jurídicos. 
Tomando por base a teoria geral dos contratos, assinale a afirmativa correta: 
a) A celebração de contrato atípico, fora do rol contido na legislação, não é 
lícita, pois as partes não dispõem da liberdade de celebrar negócios não 
expressamente regulamentados por lei. 
b) A atipicidade contratual é possível, mas, de outro lado, há regra 
específica prevendo não ser lícita a contratação que tenha por objeto a 
herança de pessoa viva, seja por meio de contrato típico ou não. 
c) A liberdade de contratar é limitada pela função social do contrato, e os 
contratantes deverão guardar, assim na conclusão, como em sua 
execução, os princípios da probidade e da boa‐fé subjetiva, princípios 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 33 
estes ligados ao voluntarismo e ao individualismo que informam o nosso 
Código Civil. 
d) Será obrigatoriamente declarado nulo o contrato de adesão que contiver 
cláusulas ambíguas ou contraditórias. 
 
Contrato de mútuo feneratício: No presente empréstimo de bens fungíveis, 
permite-se a previsão de juros compensatórios entre os contratantes. Segundo 
o Artigo 591 do CC: “Destinando-se o mútuo a fins econômicos, presumem-se 
devidos juros, os quais, sob pena de redução, não poderão exceder a taxa a 
que se refere o Artigo 406, permitida a capitalização anual”. 
 
Juros compensatórios: Tal espécie de taxa de juros tem a finalidade de 
capitalizar o valor nominal que foi emprestado. Para os contratos pactuados 
entre pessoas físicas ou jurídicas que não exerçam atividade financeira, sua 
base normativa será a Lei de Usura. 
 
Aula 1 
Exercícios de fixação 
Questão 1 - D 
Justificativa: O Código Civil de 2002, a partir de uma leitura constitucionalizada 
do ordenamento jurídico, apresenta mecanismosque visam atenuar o princípio 
da autonomia privada por meio da incorporação da justiça social distributiva 
aos negócios jurídicos, bem como da dignidade da pessoa humana. 
 
Questão 2 - C 
Justificativa: Conforme Artigo 391 do CC: “Pelo inadimplemento das obrigações, 
respondem todos os bens do devedor”. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 34 
Questão 3 - D 
Justificativa: Cláudia Lima Marques denomina como diálogo das fontes o 
processo de mitigação dos tradicionais critérios hermenêuticos, utilizados para 
se determinar qual norma deverá ser aplicada em dado caso concreto. 
 
Questão 4 - A 
Justificativa: Atualmente, o ordenamento jurídico civilista encontra-se 
influenciado pela Constituição Federal, acarretando verdadeira transformação 
paradigmática em sua interpretação. Como resultado, a doutrina e a 
jurisprudência pátrias desenvolveram as bases e premissas metodológicas do 
direito civil-constitucional, entendido, pois, como uma nova técnica 
hermenêutica, que busca aplicar os princípios e direitos fundamentais às 
relações privadas. 
 
Questão 5 - D 
Justificativa: Conforme Artigo 3º, VII, da Lei nº 8.009/1990. 
 
Questão 6 - B 
Justificativa: Em síntese, o princípio da autonomia privada pode ser apreendido 
como a possibilidade, oferecida e assegurada aos particulares, de regularem 
suas relações mútuas, dentro de determinados limites, por meio de negócios 
jurídicos. 
 
Questão 7 - D 
Justificativa: Conforme Artigo 421 do CC: “A liberdade de contratar será 
exercida em razão e nos limites da função social do contrato”. 
 
Questão 8 - A 
Justificativa: Conforme Artigo 472 do CC: “O distrato faz-se pela mesma forma 
exigida para o contrato”. 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 35 
Questão 9 - D 
Justificativa: Informativo nº 492 do STJ: “Nos contratos aleatórios de compra e 
venda de safra futura, as variações de preço, por si só, não motivam a 
resolução contratual com base na teoria da imprevisão”. 
 
Questão 10 - B 
Justificativa: Conforme Artigo 425 do CC: “É lícito às partes estipular contratos 
atípicos, observadas as normas gerais fixadas neste Código”; e Artigo 426 do 
CC: “Não pode ser objeto de contrato a herança de pessoa viva”. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 36 
Introdução 
É possível afirmar que na sociedade atual o contrato se corporifica como o 
maior negócio jurídico. E, dessa forma, a apreensão de sua base principiológica 
torna-se um verdadeiro diferencial aos operadores do direito. 
 
Nesse contexto, insere-se o princípio da boa-fé objetiva, a partir da 
personificação dos anseios constitucionais às relações privadas. Com isso, a 
exigência de conduta pautada na lealdade dos contratantes torna-se 
imprescindível e sua violação passa a constituir abuso de direito. 
 
Diante da jurisprudencialização do ordenamento jurídico, as decisões judiciais 
ganham importância fundamental para apreensão dos institutos de direito. 
Diante dessa premissa, convém analisar a ocorrência ou inocorrência da boa-fé 
objetiva nos casos concretos submetidos à apreciação judicial, cabendo a 
seguinte pergunta: qual é o contorno jurídico que o Poder Judiciário tem 
agregado ao referido princípio civil-constitucional? 
 
Objetivo: 
1. Analisar os elementos constitutivos do princípio da boa-fé objetiva: conceito, 
regulamentação, requisitos para aplicação, funções, deveres anexos, abuso de 
direito e violação positiva do contrato; 
2. Analisar a aplicação jurisprudencial do princípio da boa-fé objetiva e 
perceber sua ocorrência nas obrigações e nos contratos em geral. 
Conteúdo 
Lealdade contratual 
A boa-fé objetiva determina que os contratantes estão obrigados a cumprir 
suas prestações de forma leal e proba, sob pena de cometerem abuso de 
direito (Artigo 187, CC), o que acarreta responsabilidade civil, constituindo uma 
verdadeira cláusula geral, já que materializa um preceito de ordem pública. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 37 
Boa-fé subjetiva 
Com o intuito de diferenciar a boa-fé subjetiva da boa-fé objetiva, leciona 
Gonçalves, citando Martins-Costa: 
 
“Num primeiro plano, a boa-fé subjetiva implica a noção de entendimento 
equivocado, em erro que enreda o contratante (...), sendo que a situação é 
regular e essa sua ignorância escusável reside no próprio estado (subjetivo) da 
ignorância (as hipóteses de casamento putativo, da aquisição da propriedade 
alheia mediante usucapião), seja numa errônea aparência de certo ato 
(mandato aparente, herdeiro aparente, etc).” 
 
Ordenamento jurídico 
Para doutrina italiana, a boa-fé é elemento constitutivo da fattispecie liberatória 
e a sua prova cabe ao devedor. 
 
De acordo com o Enunciado nº 548 da VI Jornada de Direito Civil do 
CJF/STJ, “caracterizada a violação de dever contratual, incumbe ao devedor o 
ônus de demonstrar que o fato causador do dano não lhe pode ser imputado, 
conforme Artigos 389 e 475, CC”. 
 
Tal enunciado justifica-se no fato do ordenamento jurídico ser composto por 
regras, princípios e valores coerentes entre si, o que acarreta a imposição do 
ônus de provar ao devedor, que não foi ele quem descumpriu a obrigação, 
tanto nas hipóteses de mora e de inadimplemento, quanto nos casos de 
cumprimento imperfeito. 
 
Eventualmente, a boa-fé pode ser presumida, bastando a prova da aparência 
(Teoria da Aparência) da legitimação para receber, em relação ao credor 
putativo, nos moldes do Artigo 309 do CC. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 38 
Intérprete jurídico 
Importante destacar que se presume a boa-fé, tanto objetiva quanto subjetiva, 
nos contratos consumeristas (Artigo 47 do CDC) e nos contratos de adesão 
(Artigo 423 do CC). 
 
A complementaridade entre as duas normas deve ser materializada pelo 
intérprete jurídico, em respeito à técnica denominada diálogo das fontes, em 
que se busca a harmonização entre as diversas fontes normativas que 
compõem o ordenamento jurídico nacional. 
 
De acordo com o Enunciado nº 27 da I Jornada de Direito Civil do 
CJF/STJ: “na interpretação da cláusula geral da boa-fé objetiva, deve-se levar 
em conta o sistema do CC e as conexões sistemáticas com outros estatutos 
normativos e fatores metajurídicos”. 
 
Contratos de adesão 
A conduta de lealdade deverá ser observada, principalmente, nos contratos de 
adesão. 
 
Em breve conceituação, contrato de adesão é aquele em que uma parte, o 
estipulante, impõe o conteúdo negocial, restando à outra parte, o aderente, 
duas opções: aceitar ou não o conteúdo desse negócio (Artigos 423 e 424, CC e 
54, CDC). 
 
A consequência jurídica imposta pelo desrespeito à boa-fé objetiva em tais 
contratos é a nulidade das cláusulas abusivas; dentre elas encontra-se o pacto 
comissório real. Pelo Artigo 1.428, CC: “É nula a cláusula que autoriza o credor 
pignoratício, anticrético ou hipotecário a ficar com o objeto da garantia, se a 
dívida não for paga no vencimento”. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 39 
Renúncia antecipada 
Não é possível a renúncia antecipada de direitos em contratos de adesão, nos 
moldes do art. 424 do Código Civil. 
 
Atualmente, grande parte dos contratos de financiamento é de adesão, 
contratos nos quais há, normalmente, constituição de direito real de garantia, 
como é o caso da hipoteca. 
 
Porém, a lei civil estabelece uma limitação ao credor, que não pode pactuar a 
tomada da coisa, diante do inadimplemento obrigacional no vencimento. Para 
tanto, à luz da boa-fé objetiva, necessitará de ação judicial, ou para cobrar a 
dívida, oupara tomar o bem. 
 
Direito de sequela 
Hipoteca 
De outra sorte, a hipoteca firmada entre a construtora e o agente financeiro 
vem prejudicando o comprador do imóvel (consumidor), que acaba perdendo 
seu bem. 
 
Direto 
Tal perda decorre do direito de sequela inerente ao direito real de garantia 
estabelecido. 
 
Boa-fé Objetiva 
Porém, a Súmula nº 308 do STJ materializa a boa-fé objetiva, ao estabelecer: 
“A hipoteca firmada entre a construtora e o agente financeiro, anterior ou 
posterior à celebração da promessa de compra e venda, não tem eficácia 
perante os adquirentes do imóvel”. 
 
Súmula 
Segundo Tartuce: 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 40 
“(...) O consumidor, diante do direito de sequela advindo da hipoteca não 
deverá perder o bem. A referida súmula tende justamente a proteger o último, 
restringindo os efeitos da hipoteca às partes contratantes. Isso diante da boa-
fé objetiva, uma vez que aquele que adquiriu o bem pagou pontualmente as 
suas parcelas à incorporadora, ignorando toda a sistemática jurídica que rege a 
incorporação imobiliária.”. 
 
Função social do contrato 
(1) 
 
 
Há doutrina que entende 
ser o caso de aplicar a 
função social do 
contrato, em sua eficácia 
interna, à situação em 
exame. 
(2) 
 
A utilização da função 
social decorre da 
necessidade de proteção 
do hipossuficiente da 
relação, no caso o 
consumidor, por se 
tratar da parte mais 
vulnerável no contrato. 
(3) 
Além do mais, a função 
social se deflagraria, 
pois o negócio jurídico 
havido entre a 
construtora e o agente 
financeiro coíbe a 
dinâmica natural dos 
pactos, ao prejudicar a 
coletividade na obtenção 
dos bens da vida. 
 
Conduta leal 
Tornou-se comum afirmar que a boa-fé objetiva, conceituada como sendo 
exigência de conduta leal dos contratantes, está relacionada com os deveres 
anexos, que são inerentes a qualquer negócio jurídico, não havendo a 
necessidade de previsão no contrato, por se tratar de preceito de ordem 
pública. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 41 
 
 
Atenção 
 A inobservância desses deveres gera a violação positiva do 
contrato com responsabilização daquele que desrespeita a boa-
fé objetiva, independentemente de culpa, pois cometeu abuso 
de direito, conforme determina o Enunciado nº 24 da I 
Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “a violação dos deveres 
anexos constitui espécie de inadimplemento, independentemente 
de culpa”. Há o seu reconhecimento em todas as fases do 
negócio jurídico (interpretação contratual, fase pré-contratual, 
fase contratual e fase pós-contratual), se tornando uma nova 
modalidade de inadimplemento contratual. 
 
Intenção 
Como visto, diante da ausência de boa-fé objetiva, basta que o contratante 
lesado prove a existência da violação, mas não a intenção em prejudicar do 
outro contratante (como ocorre na má-fé); nos termos do Enunciado nº 363 
da IV Jornada de Direito Civil do CJF/STJ, “Os princípios da probidade e 
da confiança são de ordem pública, estando a parte lesada somente obrigada a 
demonstrar a existência da violação”. 
 
Violação positiva do contrato 
Exemplo da aplicação da violação positiva do contrato e das outras formas de 
inadimplemento possíveis no ordenamento brasileiro: João (comprador) 
celebrou contrato de compra e venda com Antônio (vendedor) de um bem 
imóvel. 
 
Acompanhe esse exemplo, e aprenda! 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 42 
Aplicação da violação positiva 
Se Antônio deixar de entregar o imóvel a João, estará absolutamente 
inadimplente. Com isso, João poderá ingressar com ação de obrigação de fazer, 
a fim de exigir que Antônio lhe entregue o imóvel ou arque com perdas e 
danos, nos moldes do Artigo 475 do CC, já que o contrato de compra e venda é 
classificado como contrato consensual, começando, pois, a produzir efeitos 
jurídicos a partir de sua assinatura. 
 
Se Antônio deveria entregar o imóvel no dia 10 do mês, mas somente o entrega 
no dia 20 do mesmo mês, o vendedor encontra-se relativamente inadimplente, 
cabendo a cobrança dos juros moratórios determinados contratualmente, ou, 
na ausência de convenção, deveria ser observada a taxa estabelecida pelo 
Artigo 406, CC c/c Artigo 161, § 1º do CTN. 
 
Se Antônio entregou o imóvel a João e esse entregou o valor do pagamento, 
para o direito civil clássico o contrato restaria extinto pelo cumprimento 
obrigacional. 
 
Porém, se Antônio, ao vender o imóvel, sabia que em poucos meses seria 
construído à frente da porta do prédio em questão um viaduto com aptidão de 
acarretar desvalorização considerável no bem, o vendedor faltou com a boa-fé 
objetiva, pois tem o dever de informar tal situação, em respeito à conduta de 
lealdade imposta aos contratantes. 
 
Dessa forma, o comprador poderá pleitear na justiça uma reparação civil pelos 
prejuízos daí advindos, em decorrência do cometimento do abuso de direito 
(Artigo 187 do CC), que deflagra a mencionada violação positiva do 
contrato. 
 
De outra sorte, caso João tenha contratado com Antônio a compra do bem 
mediante coação, tal negócio jurídico encontra-se eivado com um vício, 
podendo o juiz declarar sua anulabilidade (Artigo 171 do CC). Nesse caso, 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 43 
houve a celebração do contrato sem o respeito à livre manifestação de vontade, 
o que constitui um dos requisitos para sua validade, já que ocorreu a má-fé. 
 
Deveres anexos 
Juízos de valor 
Como foi afirmado, não existe um rol preciso de deveres anexos, pois se vive 
num sistema aberto que permite a aferição de sua ocorrência ou inocorrência 
em determinado caso concreto. 
 
Dessa forma, constitui tarefa do magistrado a observação da efetivação da 
cláusula geral da boa-fé objetiva, à luz do direito civil-constitucional. 
 
O exercício do bom senso acaba traçando um escopo jurídico à amplitude do 
princípio, também para não fomentar decisões calcadas em juízos de valor 
eminentemente subjetivo. 
 
Contorno jurídico 
Daí, na tentativa de lhe determinar contorno jurídico, Tartuce elenca alguns 
deveres anexos que correspondem ao mínimo exigindo em relação à conduta 
dos contratantes, e Gonçalves ajuda a exemplificá-los: 
 
Cuidado em relação à outra parte contratual (não fazer do negócio jurídico um 
jogo de ganhos e perdas); 
 
Respeito e probidade (não se locupletar em virtude das fragilidades pessoais do 
outro contratante, como, por exemplo, celebrar contrato desproporcional com 
pessoa idosa que, apesar de ser plenamente capaz, encontra-se mais 
vulnerável); 
 
Respeito e probidade (não se locupletar em virtude das fragilidades pessoais do 
outro contratante, como, por exemplo, celebrar contrato desproporcional com 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 44 
pessoa idosa que, apesar de ser plenamente capaz, encontra-se mais 
vulnerável); 
 
Informação ou esclarecimento (informação sobre o uso do bem alienado, 
capacitações e limites); 
 
Confiança (possibilidade de efetuar e respeitar acordos realizados no bojo do 
contrato); 
 
Lealdade (não exigir cumprimento de contrato com insuportável perda de 
equivalência das prestações); 
 
Cooperação ou colaboração (prática de atos necessários à realização plena dos 
fins visados pela outra parte); 
 
Proteção (evitar situações de perigo); 
 
Conservação (no caso de coisa recebida para experiência). 
 
Funções da boa-fé objetiva 
Constituem funções da boa-fé objetiva: interpretação (Artigo 113 do CC); 
controle (Artigo 187do CC) e integração (Artigo 422 do CC). 
 
Em relação à função de interpretação, a boa-fé objetiva constitui 
instrumento para o aplicador do direito, que deverá observar sua ocorrência ou 
inocorrência nos casos submetidos à sua análise. Constatada sua inobservância, 
surge a função de controle. 
 
A função de controle da boa-fé objetiva aparece diante de sua ausência, a 
fim de conter o abuso de direito. Nos moldes do Artigo 187, CC: “Também 
comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 45 
manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-
fé ou pelos bons costumes”. 
 
Assim, exigir cumprimento de contrato com insuportável perda de equivalência 
das prestações constitui abuso de direito, pois ao credor é possível prever uma 
cláusula penal (multa), mas não de forma que essa acarrete um prejuízo 
demasiado ao devedor. Dessa forma, cláusulas abusivas deverão ser afastadas 
em detrimento da autonomia da vontade. 
 
A função de integração permite constatar a presença da boa-fé objetiva em 
todas as fases contratuais, inclusive nas fases pré e pós-contratuais. É 
entendida como uma orientação para o magistrado, de acordo com o 
Enunciado nº 25 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “O Artigo 422 
do Código Civil não inviabiliza a aplicação pelo julgador do princípio da boa-fé 
nas fases pré-contratual e pós-contratual”, bem como para os contratantes, 
como determina o Enunciado nº 170 da III Jornada de Direito Civil do 
CJF/STJ: “A boa-fé objetiva deve ser observada pelas partes na fase de 
negociações preliminares e após a execução do contrato, quando tal exigência 
decorrer da natureza do contrato”. 
 
Boa-fé objetiva x boa-fé subjetiva 
Conclui-se, portanto, que, enquanto a boa-fé objetiva é considerada uma regra 
de conduta na visão do homem-médio, a boa-fé subjetiva relaciona-se com a 
intenção do contratante, sua construção psicológica ou íntima convicção acerca 
do negócio jurídico. 
 
Diante da boa-fé objetiva, examinam-se todas as circunstâncias do caso 
concreto e a partir daí indaga-se se o homem médio se comportaria do mesmo 
modo que os contratantes, sendo, pois, um arquétipo ou standart, porém não 
universal, e, dessa forma, não dispensa uma análise circunstancial. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 46 
Tal imprecisão configura-se importante no sistema jurídico civil-constitucional 
brasileiro, uma vez que o intérprete deve ter liberdade em definir a sua 
dimensão e âmbito de aplicação em casa situação fática. 
 
Jurisprudencialização do direito 
Constitui fenômeno recente a jurisprudencialização do direito. Pelo referido 
fenômeno, a aplicação dos institutos jurídicos pelos tribunais passa a ser leitura 
imprescindível ao operador do direito, que pauta as fundamentações de suas 
peças processuais no cotidiano forense. 
 
Além disso, como mencionado anteriormente, a boa-fé objetiva materializa-se 
nos casos concretos submetidos à apreciação judicial, logo, há de se perguntar: 
qual é o contorno jurídico que o Poder Judiciário tem agregado ao referido 
princípio civil-constitucional? 
 
Jurisprudência 
Como dito anteriormente, a boa-fé é elemento constitutivo da fattispecie 
liberatória, que pode ser presumida pelo devedor, bastando a prova da 
aparência de que dado credor é legítimo para receber o denominado credor 
putativo. 
 
Convém transcrever a jurisprudência do STJ, que ilustra a presente afirmação: 
 
“DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. OBRIGAÇÃO DE FAZER. PEDIDO DE 
OUTORGA DE ESCRITURA DEFINITIVA DE COMPRA E VENDA. DEFERIMENTO 
DE OUTORGA DE ESCRITURA DE CESSÃO DE DIREITOS HEREDITÁRIOS. 
JULGAMENTO EXTRA PETITA. NÃO OCORRÊNCIA. BEM TRANSACIONADO 
OBJETO DE INVENTÁRIO. PAGAMENTO AO CREDOR PUTATIVO. EFICÁCIA. 
SUCUMBÊNCIA RECÍPROCA. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. 2 - Considera-
se eficaz o pagamento realizado àquele que se apresenta com aparência 
consistente de ser mandatário do credor se as circunstâncias do caso assim 
indicarem. A atuação da corretora e do recorrente indicaram à recorrida, 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 47 
compradora do bem, que aquela tinha legitimidade para as tratativas e 
fechamento do negócio de compra e venda.” 
 
Transmissão das obrigações 
O dever de lealdade, inerente à boa-fé objetiva, deve ser observado diante da 
transmissão das obrigações. Constitui uma das espécies de transferência 
das obrigações no ordenamento jurídico pátrio, a cessão de crédito. 
 
A cessão é a regra no sistema jurídico brasileiro, diante da impessoalidade do 
vínculo, devendo a cláusula proibitiva acompanhar o contrato originário, nos 
moldes do Artigo 286 do CC. 
 
Com isso, não se exige o consentimento do devedor, mas tal fato não pode ser 
utilizado para prejudicá-lo, que deverá ser notificado da cessão realizada, 
conforme Artigo 290 do CC. Institui o diploma cível, ainda que o pagamento 
realizado pelo devedor de boa-fé ao cedente, sem ter sido notificado 
da transferência, seja considerado válido, como dispõe o seu Artigo 292, 
não configurando, dessa maneira, pagamento indevido. 
 
Em outros sistemas de direito (Artigo 403, BGB e Artigo 1.689, Código Civil 
francês) a aceitação expressa do devedor é requerida. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 48 
 
 
Atenção 
 Quanto ao posicionamento do STJ, relevante observar a decisão 
a seguir, que corrobora o disposto nos Artigos 290 e 292 do CC: 
“CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE 
INEXISTÊNCIA DE RELAÇÃO JURÍDICA CUMULADA COM 
COMPENSAÇÃO POR DANOS MORAIS. CESSÃO DE CRÉDITO. 
SUBSTITUIÇÃO DE PARTES. AUSÊNCIA DE NOTIFICAÇÃO. - A 
cessão de crédito não vale em relação ao devedor, senão 
quando a ele notificada. Precedentes desta Turma. - Agravo no 
recurso especial não provido. (AgRg no REsp 1.171.617/PR, Rel. 
Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 
22/2/2011, DJe 28/2/2011)“ 
 
Tribunais estaduais 
Em outro sentido, segundo os tribunais estaduais, é dever do cessionário a 
comprovação da ocorrência da cessão, a existência do débito e a notificação do 
cedido, constituindo violação da boa-fé objetiva a inscrição do nome do 
devedor no cadastro de inadimplentes sem as referidas comprovações, 
ensejando pleito indenizatório pelos danos morais sofridos. 
 
AGRAVO LEGAL. UTILIZAÇÃO FRAUDULENTA DE DADOS. CESSÃO DE 
CRÉDITO. INSCRIÇÃO CADASTRO RESTRITIVO. DANO MORAL. 1- É dever do 
cessionário a comprovação da origem, existência e regularidade do débito, bem 
como a notificação da parte devedora acerca da cessão de crédito. 2- E não 
comprovada a origem do débito, bem como a notificação da parte devedora 
acerca da cessão, forçoso o reconhecimento da inexigibilidade do débito. 3- 
Neste aspecto, a inscrição do nome do consumidor em cadastros restritivos de 
crédito decorrente de débito relativo a cartão de crédito não contratado, macula 
a segurança necessária à realização dos negócios, caracteriza o defeito do 
serviço e enseja o dever de indenizar os prejuízos daí advindos. 4- Desta forma, 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 49 
a indenização por dano moral deve representar compensação razoável pelo 
constrangimento experimentado, cuja intensidade, aliada a outras 
circunstâncias peculiares de cada conflito de interesses, deve ser considerada 
para fixação do seu valor, não podendo, todavia, traduzir-se em enriquecimento 
indevido (0045656-89.2011.8.19.0001 - APELACAO DES. MILTON FERNANDES 
DE SOUZA - Julgamento: 17/01/2012 - QUINTA CAMARA CIVEL). 
 
Dever de lealdade 
O dever de lealdade deve ser observado em todasas fases contratuais. 
 
Diante do adimplemento obrigacional é fundamental observá-lo, 
principalmente, quando houver divergência entre credor e devedor, quanto ao 
valor devido. 
 
Para tanto, o devedor se comportará dentro dos ditames estabelecidos pela 
boa-fé objetiva, no momento em que ajuizar ação de consignação em 
pagamento (quando existir contestação parcial do débito em questão), ação de 
repetição de indébito (quando ocorrer pagamento indevido) ou ação de 
obrigação de fazer (quando existir contestação integral do débito e o nome do 
sujeito encontrar-se no cadastro de inadimplentes). 
 
Nesse sentido, importante observar o entendimento do STJ apresentado 
adiante. 
 
Segunda seção do STJ 
Conforme orientação da Segunda Seção do STJ, a inclusão do nome de 
devedores em cadastro de proteção ao crédito, somente fica impedida se 
implementadas, concomitantemente, às seguintes condições: 
 
 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 50 
Ajuizamento 
O ajuizamento de ação, pelo devedor, contestando a existência parcial ou 
integral do débito; 
 
Demonstração 
Efetiva demonstração de que a contestação da cobrança indevida se funda na 
aparência do bom direito e em jurisprudência consolidada do STF ou do STJ; 
 
Contestação 
Que, sendo a contestação apenas parte do débito, deposite o valor referente à 
parte tida por incontroversa, ou preste caução idônea, ao prudente arbítrio do 
magistrado. 
 
Informativos do STJ 
Consignação em pagamento 
Diante do ajuizamento de ação de consignação em pagamento, 
caracaterizará boa-fé objetiva do devedor o depósito da quantia que entender 
devida, sob pena, inclusive, de improcedência de seu pedido. Além disso, 
consta dos atuais informativos do STJ que não basta o recolhimento dos valores 
vincendos, mas também dos valores vencidos anteriores ao ajuizamento da 
ação: 
 
“DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. NECESSIDADE DE DEPÓSITO DOS 
VALORES VENCIDOS E INCONTROVERSOS EM AÇÃO DE CONSIGNAÇÃO EM 
PAGAMENTO. Em ação de consignação em pagamento, ainda que cumulada 
com revisional de contrato, é inadequado o depósito tão somente das 
prestações que forem vencendo no decorrer do processo, sem o recolhimento 
do montante incontroverso e vencido.“ 
 
Conduta de lealdade 
A conduta de lealdade também deverá ser observada na fase pré-
contratual (fase em que ocorrem os debates prévios visando à formação do 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 51 
contrato definitivo), segundo a jurisprudência do STJ. Porém, cumpre informar 
divergência doutrinária a respeito. 
 
Já que não está previsto no Código Civil, duas correntes surgem quanto à 
responsabilização pelo descumprimento obrigacional do pré-contratante. A 
majoritária, capitaneada por Maria Helena Diniz, defende não haver 
responsabilidade civil contratual, uma vez que as partes não se vincularam por 
meio de contrato. 
 
Para a corrente minoritária, capitaneada por Tartuce, apesar de não ocorrer 
vinculação entre as partes, há responsabilidade civil contratual em função dos 
Enunciados nºs 25 e 170 das Jornadas de Direito Civil, que reconhecem a 
aplicação da boa-fé em todas as fases do contrato. 
 
Assim, quem desrespeita a boa-fé objetiva comete abuso de direito, gerando a 
obrigação de indenizar. A fim de ilustrar o posicionamento do STJ, cabe 
transcrever parte da decisão mencionada. 
 
O ministro Villas Bôas Cueva, relator do recurso, considerou que a afirmação 
pela BMW de sua intenção em contratar, adiantando os documentos exigidos 
para a formalização do contrato definitivo, trocando correspondências, 
informando a aprovação da adesão aliada ao depósito prévio, deu origem à 
responsabilidade pré-negocial. Segundo a doutrina e precedentes do STJ, 
incorre em responsabilidade pré-negocial a parte que cria na outra a convicção 
razoável de que o contrato será assinado, mas rompe as negociações, ferindo 
legítimos direitos de quem agiu com boa-fé. No Brasil, o Código Civil de 2002 
prevê que os contratantes são obrigados a guardar, na conclusão do contrato e 
em sua execução, os princípios da probidade e da boa-fé. No caso, o relator 
entendeu que a responsabilidade pré-contratual discutida não decorre do fato 
de a tratativa ter sido rompida e o contrato não ter sido concluído, mas, sim, de 
uma das partes ter causado à outra, além da expectativa de que o contrato 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 52 
seria concluído (conduta de lealdade, inerente à boa-fé objetiva), efetivo 
prejuízo material. 
 
Contratos 
A conduta de lealdade deverá ser observada, principalmente, nos contratos 
de adesão. Segundo jurisprudência do STJ (Precedentes citados: AgRg no Ag 
866.542-SC, Terceira Turma, DJe 11/12/2012; REsp 633.793-SC, Terceira 
Turma, DJ 27/6/2005; e AgRg no REsp 997.956-SC, Quarta Turma, DJe 
02/8/2012. REsp 1.300.418-SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 
13/11/2013), em contrato de promessa de compra e venda de imóvel 
submetido ao CDC, é abusiva a cláusula contratual que determine, no 
caso de resolução, a restituição dos valores devidos somente ao 
término da obra ou de forma parcelada, independentemente de qual das 
partes tenha dado causa ao fim do negócio. 
 
Ordenamento jurídico nacional 
De fato, não há, no ordenamento jurídico nacional, dispositivo que imponha a 
devolução imediata do que é devido pelo promitente vendedor de imóvel, 
porém o CDC optou pelo sistema aberto, ao estabelecer um rol meramente 
exemplificativo acerca das cláusulas consideradas abusivas, até porque 
impossível seria ao legislador prever todas as práticas realizadas pelas 
empresas/fornecedores em desrespeito ao consumidor. 
 
Nesse contexto, o STJ vem entendendo serem abusivas situações fático-
jurídicas submetidas a sua apreciação, por ofensa ao Artigo 51, II e IV, do CDC. 
A fim de materializar o dever de lealdade nos contratos de promessa de compra 
e venda, passa a constituir prática abusiva a restituição dos valores de forma 
prejudicial ao consumidor. 
 
Como se não bastasse, o promitente vendedor poderá revender o imóvel a 
terceiros, auferirindo vantagem com os valores retidos, além da própria 
valorização do imóvel. Importante destacar que o Tribunal Superior 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 53 
reconheceu, ainda, a abusividade da mencionada cláusula no âmbito do direito 
comum, com fundamentação no Artigo 122 do CC. Revela-se evidente 
potestatividade na presente hipótese, o que é considerado abusivo, tanto pelo 
Artigo 51, IX, do CDC, quanto pelo Artigo 122 do CC. 
 
Desfazimento da pactuação 
A questão relativa à culpa pelo desfazimento da pactuação resolve-se no 
quantum indenizatório a ser ressarcido ao promitente-comprador, não pela 
forma ou prazo de devolução. A presente fundamentação encontra-se disposta 
no Artigo 543-C do CPC: 
 
“Em contratos submetidos ao Código de Defesa do Consumidor, é abusiva a 
cláusula contratual que determina a restituição dos valores devidos somente ao 
término da obra ou de forma parcelada, na hipótese de resolução de contrato 
de promessa de compra e venda de imóvel, por culpa de quaisquer 
contratantes. Em tais avenças, deve ocorrer a imediata restituição das parcelas 
pagas pelo promitente comprador – integralmente, em caso de culpa exclusiva 
do promitente vendedor/construtor, ou parcialmente, caso tenha sido o 
comprador quem deu causa ao desfazimento”. 
 
Vício redibitório 
É possível constatar a exigência dos deveres de lealdade e de informação, 
diante do instituto do vício redibitório. Em breve conceituação, segundo 
Maria Helena Diniz: 
 
“Vícios redibitóriossão defeitos ocultos existentes na coisa alienada, objeto de 
contrato comutativo ou doação onerosa, não comum às congêneres, que a 
tornam imprópria ao uso a que se destina ou lhe diminuem sensivelmente o 
valor, de tal modo que o negócio não se realizaria se esses defeitos fossem 
conhecidos, dando ao adquirente ação para redibir o contrato ou para obter 
abatimento no preço.“. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 54 
Diploma civil 
O diploma civil visa atribuir responsabilização do alienante pelos defeitos 
ocultos existentes na coisa, antes da tradição. Com isso, materializa a boa-fé 
objetiva nas relações contratuais. 
 
O dever de esclarecimento resta claro no disposto do Artigo 443 do CC. Assim, 
para o adquirente pleitear a indenização por perdas e danos, deve-se 
comprovar a ausência de boa-fé do alienante, ou seja, que esse último tinha 
conhecimento do defeito. Se o alienante estiver de boa-fé, somente será 
obrigado a restituir o valor recebido mais as despesas do contrato 
 
Informativo 506 do STJ 
De acordo com o Informativo 506 do STJ, nos contratos de consumo 
subsiste a responsabilidade do fornecedor pelos vícios da coisa presentes antes 
da tradição, mesmo que terminado o prazo de garantia convencional. 
 
Com isso, o STJ fundamenta sua decisão na boa-fé objetiva, determinando que 
o produto, ao apresentar vício fora do período de garantia contratual, não 
prejudica o consumidor, que poderá reclamar pelo vício e exigir a 
responsabilidade do fornecedor. 
 
Nesse caso, o vício oculto decorre do processo de fabricação do bem, e não do 
desgaste natural desse, fazendo com que a responsabilidade do fornecedor 
persista e o prazo para o consumidor reclamar comece a partir da constatação 
do defeito, independentemente de ter vencido o prazo da garantia 
convencionada pelas partes. Colaciona-se a ementa do informativo. 
 
Garantia contratual 
Segundo o informativo 506 do STJ: “DIREITO DO CONSUMIDOR. VÍCIO 
OCULTO. DEFEITO MANIFESTADO APÓS O TÉRMINO DA GARANTIA 
CONTRATUAL. OBSERVÂNCIA DA VIDA ÚTIL DO PRODUTO. O fornecedor 
responde por vício oculto de produto durável decorrente da própria fabricação e 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 55 
não do desgaste natural gerado pela fruição ordinária, desde que haja 
reclamação dentro do prazo decadencial de noventa dias após evidenciado o 
defeito (Artigo 26 do CDC), ainda que o vício se manifeste somente após o 
término do prazo de garantia contratual, devendo ser observado como limite 
temporal para o surgimento do defeito o critério de vida útil do bem”. 
 
Dever anexo de lealdade 
Ainda no que concerne aos efeitos dos contratos, é possível constatar a 
exigência legal do dever anexo de lealdade, diante da evicção. Pelo Artigo 
447 do CC, evicção é a perda da coisa diante de uma decisão judicial ou de um 
ato administrativo que a atribui a terceiro. 
 
Há uma garantia legal quanto à evicção nos contratos bilaterais, onerosos e 
comutativos, subsistindo tal garantia ainda que a venda tenha sido realizada 
por meio de hasta pública. 
 
Importante mencionar que, no caso de haver cláusula expressa de exclusão da 
garantia (cláusula de irresponsabilidade pela evicção), o alienante somente 
ficará isento de toda e qualquer responsabilidade caso o evicto tenha 
conhecimento do risco da evicção (Artigo 449 do CC), o que mais uma vez 
demonstra a exigência da boa-fé objetiva na conduta dos contratantes. 
 
Ascendente e descendente 
No contrato de doação entre ascendente e descendente exige-se o respeito ao 
dever de lealdade, não permitindo o ordenamento jurídico a utilização do 
mencionado instituto jurídico, a fim de se obrar fraudes ou simulações. Nesse 
sentido, faz-se importante transcrever a jurisprudência. 
 
APELAÇÃO CÍVEL. REGISTRO DE IMÓVEIS. AÇÃO ANULATÓRIA DE ESCRITURA 
PÚBLICA C/C CANCELAMENTO DE REGISTRO IMOBILIÁRIO. COMPRA E VENDA 
DE BENS REALIZADA ENTRE ASCENDENTE E DESCENDENTE. SIMULAÇÃO. 
OCORRÊNCIA. DOAÇÃO. ONEROSIDADE DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 56 
REALIZADOS NÃO DEMONSTRADA. INEFICÁCIA DOS NEGÓCIOS EM RELAÇÃO 
AO HERDEIRO PRETERIDO QUE DEIXOU DE RECEBER SEU QUINHÃO PORQUE 
NÃO LEVADOS OS BENS DOADOS À COLAÇÃO NO INVENTÁRIO. SENTENÇA 
MANTIDA. HONORÁRIOS. MAJORAÇÃO. POSSIBILIDADE. SENTENÇA 
REFORMADA NO PONTO. I. A simulação relativa, ocorrente no caso dos autos, 
se dá quando se realiza aparentemente um negócio jurídico, querendo e 
levando-se a efeito outro diferente. Em outras palavras, caracteriza-se quando 
os contratantes concluem um negócio que é verdadeiro - doação -, mas o 
ocultam sob uma forma jurídica diversa - compra e venda. No caso concreto, o 
falecido, sua esposa e filhos comuns preteriram o autor - filho concebido fora 
do casamento - realizando diversas doações sob a aparência de compra e 
venda, com o objetivo de subtrair o direito do autor à herança de seu falecido 
pai. As doações ocultas prejudicaram o herdeiro preterido, porque não levadas 
à colação no processo de inventário, acarretando o desequilíbrio dos quinhões 
das heranças, razão pela qual foram declaradas ineficazes, em relação ao autor, 
as doações e cessões gratuitas realizadas pelo de cujus em favor dos réus. 
Apelos dos réus desprovidos. À UNANIMIDADE, NEGARAM PROVIMENTO AOS 
APELOS DOS RÉUS E DERAM PROVIMENTO AO APELO DO AUTOR. (Apelação 
Cível Nº 70038684460, Décima Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, 
Relator: Liege Puricelli Pires, Julgado em 15/12/2011) 
 
Conclusão 
O contorno jurídico que o Poder Judiciário tem agregado ao princípio civil-
constitucional da boa-fé objetiva é de verdadeira limitação à autonomia privada. 
Assim sendo, já não há mais espaço no ordenamento jurídico brasileiro para 
condutas eminentemente patrimonialistas, destituídas de lealdade, probidade, 
respeito, esclarecimento e cooperação pelos contratantes, sendo a ausência de 
tais deveres a base para a responsabilização civil, por meio da aplicação da 
teoria da violação positiva do contrato. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 57 
Atividade proposta 
Entendimento jurisprudencial (ministro Luís Felipe Salomão): “Os denominados 
deveres anexos, instrumentais, secundários ou acessórios revelam-se como 
uma das faces de atuação ou operatividade do princípio da boa-fé objetiva, 
sendo nítido que a recorrente faltou com aqueles deveres, notadamente os: de 
lealdade; de não agravar, sem razoabilidade, a situação do parceiro contratual; 
e os de esclarecimento; informação e consideração para com os legítimos 
interesses do parceiro contratual”. 
 
Qual é a consequência jurídica pelo descumprimento dos deveres jurídicos 
exigidos na jurisprudência colacionada? 
 
Chave de resposta: Acarreta indenização por perdas e danos, uma vez 
violado positivamente o contrato. 
 
Referências 
GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. 11ª ed. São Paulo: 
Saraiva, 2014. 
TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. 3ª ed. São Paulo: Método, 2013. 
 
Exercícios de fixação 
Questão 1 
É possível afirmar que, ao se desrespeitar os deveres anexos que compõem a 
boa-fé objetiva, o contratante comete abuso de direito, gerando, 
consequentemente, sua obrigação em indenizar perdas e danos do outro 
contratante. Diante da presente afirmação, a doutrina mais atualizada tem 
incorporado uma nova espécie de inadimplemento obrigacional ao sistema 
jurídico brasileiro, denominada de: 
a) Inadimplemento absoluto 
b) Inadimplemento relativo 
c) Violação positiva do contrato 
d) Mora solvendi 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 58 
 
Questão 2 
A Súmulanº 308 do STJ (“A hipoteca firmada entre a construtora e o agente 
financeiro, anterior ou posterior à celebração da promessa de compra e venda, 
não tem eficácia perante os adquirentes do imóvel”), além de materializar o 
princípio da boa-fé objetiva, corporifica a eficácia interna do princípio da função 
social do contrato. Qual dos seguintes conteúdos pode ser atribuída à 
mencionada eficácia, no referido caso concreto? 
a) Vedação do enriquecimento sem causa 
b) Imprevisibilidade contratual 
c) Conservação do negócio jurídico 
d) Proteção do hipossuficiente da relação contratual 
 
Questão 3 
É nula a cláusula que autoriza o credor pignoratício, anticrético ou hipotecário a 
ficar com o objeto da garantia, se a dívida não for paga no vencimento. Tal 
regra expressa: 
a) Pacto comissório contratual 
b) Pacto comissório real 
c) Cláusula abusiva nos moldes do CDC 
d) Cláusula solve et repete 
 
Questão 4 
Segundo Carlos Roberto Gonçalves, a conduta em não exigir cumprimento de 
contrato com insuportável perda de equivalência das prestações constitui o 
seguinte dever anexo: 
a) Lealdade 
b) Probidade 
c) Informação 
d) Cooperação 
 
Questão 5 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 59 
Diante do direito real de garantia constituído por meio da hipoteca, terá o 
credor direito de buscar o bem com quem quer que esteja. Tal instituto jurídico 
constitui o direito: 
a) De adjudicação compulsória 
b) De retenção 
c) De resilição unilateral do contrato 
d) De sequela 
 
Questão 6 
Quanto ao disciplinamento da evicção pela lei e pela doutrina, marque a 
alternativa incorreta: 
a) Não pode o adquirente demandar pela evicção, se sabia que a coisa era 
alheia ou litigiosa, porém podem as partes, por cláusula expressa, 
reforçar, diminuir ou excluir a responsabilidade pela evicção. 
b) Para poder exercitar o direito que da evicção lhe resulta, o adquirente 
notificará do litígio o alienante imediato, ou qualquer dos anteriores, 
quando e como lhe determinarem as leis do processo, que preveem a 
denunciação da lide, nos moldes do Artigo 70, I, do Código de Processo 
Civil. 
c) Nos contratos onerosos, o alienante responde pela evicção, subsistindo 
tal garantia ainda que a aquisição se tenha realizado em hasta pública. 
d) Se parcial, mas considerável, for a evicção, deverá o evicto receber a 
restituição da parte do preço correspondente ao desfalque sofrido. 
 
Questão 7 
Quanto ao disciplinamento do vício redibitório pela lei e pela doutrina, analise 
as alternativas abaixo e, depois, marque a alternativa incorreta: 
a) Se o alienante conhecia o vício ou defeito da coisa, agindo, pois, de má-
fé, restituirá o que recebeu com perdas e danos; se o não conhecia, 
agindo, pois, de boa-fé, tão somente restituirá o valor recebido mais as 
despesas do contrato. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 60 
b) No que diz respeito à decadência do direito de pleitear reparação em 
virtude do vício, o adquirente terá os prazos do caput do Artigo 445 para 
obter redibição ou abatimento de preço, desde que os vícios se revelem 
nos prazos estabelecidos no parágrafo primeiro, fluindo, entretanto, a 
partir do conhecimento do defeito. 
c) Em vez de rejeitar a coisa, redibindo o contrato, pode o adquirente 
reclamar abatimento no preço. No primeiro caso, caberá ação quanti 
minoris; no segundo, ação redibitória. 
d) Em relação ao vício redibitório, a responsabilidade do alienante subsiste 
ainda que a coisa pereça em poder do alienatário, se perecer por vício 
oculto, já existente ao tempo da tradição. 
 
Questão 8 
Conforme orientação da Segunda Seção do STJ, a inclusão do nome de 
devedores em cadastro de proteção ao crédito somente fica impedida se 
implementadas, concomitantemente, algumas condições. Assinale, dentre as 
alternativas abaixo, aquela que não precisa ser aplicada à espécie: 
a) Ajuizamento de ação, pelo devedor, contestando a existência parcial ou 
integral do débito. 
b) Efetiva demonstração pelo devedor de que a contestação da cobrança 
indevida se funda na boa-fé objetiva e em jurisprudência consolidada do 
STF ou do STJ. 
c) Sendo a contestação apenas de parte do débito, deposite o devedor o 
valor referente à parte tida por incontroversa, ou preste caução idônea, 
ao prudente arbítrio do magistrado. 
d) O devedor deverá requerer em sede liminar a retirada de seu nome do 
cadastro de inadimplentes. 
 
Questão 9 
(TJAC - 2012 - CESPE – JUIZ) No que concerne a evicção, assinale a opção 
correta de acordo com o Código Civil. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 61 
a) A responsabilidade decorrente da evicção deriva da lei e prescinde, 
portanto, de expressa previsão contratual; todavia, tal responsabilidade 
restringe-se à ação petitória, não sendo possível se a causa versar sobre 
posse. 
b) Responde o alienante pela garantia decorrente da evicção, caso o 
comprador sofra a perda do bem por desapropriação do poder público, 
cujo decreto expropriatório seja expedido e publicado posteriormente à 
realização do negócio. 
c) Dá-se a evicção quando o adquirente perde, total ou parcialmente, a 
coisa por sentença fundada em motivo jurídico anterior e o alienante tem 
o dever de assistir o adquirente, em sua defesa, ante ações de terceiros, 
sendo, entretanto, tal obrigação jurídica incabível caso o alienante tenha 
atuado de boa-fé. 
d) De acordo com o instituto da evicção, o alienante deve responder pelos 
riscos da perda da coisa para o evicto, por força de decisão judicial em 
que fique reconhecido que aquele não era o legítimo titular do direito 
que convencionou transmitir ao evictor. 
e) Sendo a evicção uma garantia legal, podem as partes, em reforço ao já 
previsto em lei, estipular a devolução do preço em dobro, ou mesmo 
minimizar essa garantia, pactuando uma devolução apenas parcial. 
 
Questão 10 
Em relação à cessão de crédito, assinale a alternativa incorreta: 
a) O credor pode ceder o seu crédito, se a isso não se opuser a natureza da 
obrigação, a lei, ou a convenção com o devedor; a cláusula proibitiva da 
cessão não poderá ser oposta ao cessionário de boa-fé, se não constar 
do instrumento da obrigação. 
b) A cessão do crédito não tem eficácia em relação ao devedor, senão 
quando a esse notificada. 
c) Fica desobrigado o devedor que, antes de ter conhecimento da cessão, 
paga ao credor primitivo. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 62 
d) O devedor que, notificado, nada opõe à cessão que o credor faz a 
terceiros dos seus direitos, não pode opor ao cessionário a 
compensação, que antes da cessão teria podido opor ao cedente. 
 
Aula 2 
Exercícios de fixação 
Questão 1 - C 
Justificativa: A violação dos deveres anexos gera a violação positiva do contrato 
com responsabilização daquele que desrespeita a boa-fé objetiva, 
independentemente de culpa, pois cometeu abuso de direito, conforme 
determina o Enunciado nº 24 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “a 
violação dos deveres anexos constitui espécie de inadimplemento, 
independentemente de culpa”. 
 
Questão 2 - D 
Justificativa: Há doutrina que entenda ser o caso de aplicar a função social do 
contrato, em sua eficácia interna, à situação em exame. A utilização da função 
social decorre da necessidade de proteção do hipossuficiente da relação, no 
caso o consumidor, por se tratar da parte mais vulnerável no contrato. 
 
Questão 3 - B 
Justificativa: Pacto comissório real, conforme Artigo 1.428 do CC. 
 
Questão 4 - A 
Justificativa: O dever de lealdade pode ser exemplificado como a conduta em 
não exigir cumprimento de contrato cominsuportável perda de equivalência das 
prestações (GONÇALVES, 2014, p. 60). 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 63 
Questão 5 - D 
Justificativa: A hipoteca firmada entre a construtora e o agente financeiro, tem 
prejudicado o comprador do imóvel (consumidor), que acaba perdendo seu 
bem. Tal perda decorre do direito de sequela, inerente ao direito real de 
garantia estabelecido. Exemplo extraído do texto de aplicação da Súmula nº 
308 do STJ. 
 
Questão 6 - D 
Justificativa: Conforme Artigo 455 do CC: “Se parcial, mas considerável, for a 
evicção, poderá o evicto optar entre a rescisão do contrato e a restituição da 
parte do preço correspondente ao desfalque sofrido. Se não for considerável, 
caberá somente direito a indenização”. 
 
Questão 7 - C 
Justificativa: Tratam-se das ações edilícias; em vez de rejeitar a coisa, redibindo 
o contrato, pode o adquirente reclamar abatimento no preço. No segundo caso, 
caberá ação quanti minoris; no primeiro, ação redibitória. 
 
Questão 8 - D 
Justificativa: Conforme orientação da Segunda Seção do STJ, a inclusão do 
nome de devedores em cadastro de proteção ao crédito, somente fica impedida 
se implementadas, concomitantemente, as seguintes condições: 1) o 
ajuizamento de ação, pelo devedor, contestando a existência parcial ou integral 
do débito; 2) efetiva demonstração de que a contestação da cobrança indevida 
se funda na aparência do bom direito e em jurisprudência consolidada do STF 
ou do STJ; e 3) que, sendo a contestação apenas parte do débito, deposite o 
valor referente à parte tida por incontroversa, ou preste caução idônea, ao 
prudente arbítrio do magistrado. 
 
Questão 9 - E 
Justificativa: Conforme Artigo 448, podem as partes, por cláusula expressa, 
reforçar, diminuir ou excluir a responsabilidade pela evicção. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 64 
 
Questão 10 - D 
Justificativa: Conforme Artigo 377 do CC: “O devedor que, notificado, nada 
opõe à cessão que o credor faz a terceiros dos seus direitos, não pode opor ao 
cessionário a compensação, que antes da cessão teria podido opor ao cedente”. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 65 
Introdução 
É possível afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o 
maior negócio jurídico, e, desta forma, a apreensão de sua base principiológica 
torna-se um verdadeiro diferencial aos operadores do direito. 
 
Nesse contexto, insere-se o princípio da função social do contrato a partir da 
personificação dos anseios constitucionais às relações privadas. Com isso, o 
contrato deverá ser visualizado, interpretado e estruturado de acordo com o 
contexto da sociedade, vedando o enriquecimento sem causa e declarando nula 
a cláusula contratual, que desrespeita os princípios da Constituição Federal. 
 
Diante da jurisprudencialização do ordenamento jurídico, as decisões judiciais 
ganham importância fundamental para apreensão dos institutos de direito. 
Diante dessa premissa, convém analisar a ocorrência ou inocorrência da função 
social nos casos concretos submetidos à apreciação judicial, cabendo a 
pergunta: qual é o contorno jurídico que o Poder Judiciário vem agregando ao 
referido princípio civil-constitucional? 
 
Objetivo: 
1. Analisar os elementos constitutivos do princípio da função social do contrato: 
conceito, regulamentação, requisitos para aplicação, eficácia interna e eficácia 
externa; 
2. Analisar a aplicação jurisprudencial do princípio da função social do contrato 
e perceber sua ocorrência nas obrigações e nos contratos em geral. 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 66 
Conteúdo 
Função social do contrato 
Possível afirmar que a função social do contrato é um princípio contratual de 
ordem pública, pelo qual o contrato deverá ser visualizado, interpretado e 
estruturado de acordo com o contexto da sociedade, cabendo a pergunta: qual 
é o contexto da atual sociedade brasileira? 
 
Direito civil-constitucional 
De acordo com o exposto anteriormente, tal contexto é baseado no direito civil-
constitucional, uma vez que os princípios constitucionais devem ser aplicados às 
relações de natureza privada, diante da necessidade de concretização ética 
da experiência jurídica. Na busca pela presente materialização, o princípio 
da função social do contrato, a fim de afastar o enriquecimento sem 
causa, determina o respeito à igualdade, justiça contratual (equilíbrio da 
relação), equidade e razoabilidade. 
 
Eficácia interna e externa 
Eficácia 
A eficácia interna constitui uma 
orientação para os próprios 
contratantes. 
A eficácia externa constitui uma 
orientação para os contratantes em 
relação à sociedade e para a 
sociedade em relação aos 
contratantes. 
A eficácia externa da função 
social determina que o contrato gere 
efeitos perante terceiros, o que pode 
ser percebido diante da tutela externa 
do crédito e da função socioambiental 
do contrato. 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 67 
Mitigação da força obrigatória do contrato: Como visto anteriormente, o pacta 
sunt servanda resta diminuído no atual cenário jurídico, uma vez que a 
autonomia da vontade encontra-se limitada. 
 
É possível identificar como exemplo do presente fenômeno o disposto no Artigo 
618 do CC: “Nos contratos de empreitada de edifícios ou outras construções 
consideráveis, o empreiteiro de materiais e execução responderá, durante o 
prazo irredutível de cinco anos, pela solidez e segurança do trabalho, assim em 
razão dos materiais, como do solo”. A mencionada regra visa, claramente, 
conter a autonomia privada, ao estabelecer que a responsabilidade do 
empreiteiro de obras consideráveis, desde que participe com a entrega da mão 
de obra e de materiais, será de cinco anos. Não cabe às partes convencionarem 
prazo inferior, pois, se o fizerem, tal cláusula será considerada como “não 
escrita”. 
 
Outro exemplo a ser citado é o chamado pacto corvina, nos moldes do Artigo 
426 do CC: “Não pode ser objeto de contrato a herança de pessoa viva”. O 
ordenamento civilista determina, como objeto ilícito, a pactuação da herança de 
pessoa viva, o que, mais uma vez, representa limitação à autonomia privada. 
Dessa forma, receber a herança de um indivíduo, após a sua morte, constitui 
ato legítimo, desde que herdeiro. O que a lei veda é a convenção do patrimônio 
hereditário por contrato, determinando sua nulidade, por configurar hipótese de 
nulidade virtual, conforme Artigo 166, VII, do CC: “É nulo o negócio jurídico 
quando: a lei taxativamente o declarar nulo, ou proibir-lhe a prática, sem 
cominar sanção”. 
 
Proteção da parte mais vulnerável: Determina o Artigo 580 do CC: “Os tutores, 
curadores e em geral todos os administradores de bens alheios não poderão 
dar em comodato, sem autorização especial, os bens confiados à sua guarda”. 
A norma visa proteger o tutelado, parte mais vulnerável da relação, uma vez 
que o comodato constitui empréstimo gratuito de bens infungíveis. No mesmo 
sentido, o Artigo 497 do CC estabelece que o tutor não poderá comprar os 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 68 
bens, que estejam sob sua tutela, o que caracteriza uma norma de conteúdo 
ético, a fim de evitar que o tutor se utilize de seus privilégios para obter 
vantagens patrimoniais. 
 
Vedação da onerosidade excessiva: A teoria da imprevisão, nos moldes do 
Artigo 478 do CC, é instituto utilizado para se evitar a onerosidade excessiva, 
em decorrência de fatos imprevisíveis e extraordinários, que acarretam 
verdadeira desproporção negocial, principalmente em contratosde execução 
continuada, como no caso de contrato de financiamento imobiliário. Como 
aludido nas aulas anteriores, no campo intervencionista consubstanciado no 
dirigismo contratual, situa-se a teoria da imprevisão. Dessa forma, atingindo o 
plano de desequilíbrio contratual pela ocorrência de fato imprevisível e/ou 
extraordinário, o direito deverá ser acionado e a obrigatoriedade contratual 
deixada de lado. O relatado desequilíbrio possibilita a revisão ou extinção do 
contrato, em respeito ao ordenamento jurídico, que não mais tolera a 
desproporção negocial, em que um se enriquece de forma desarrazoada em 
detrimento do empobrecimento de outrem. 
 
Importante lembrar que na resolução por onerosidade excessiva nos contratos 
de execução continuada (obrigação de trato sucessivo), o efeito jurídico será ex 
nunc, uma vez que não haverá a restituição das prestações já efetivadas, pois a 
extinção não terá efeito relativamente ao passado. Tal fenômeno jurídico 
ocorre, diante do enriquecimento sem causa, quando a causa jurídica, apta a 
desencadear o enriquecimento, deixa de existir, nos moldes do Artigo 885 do 
CC: “A restituição é devida, não só quando não tenha havido causa que 
justifique o enriquecimento, mas também se esta deixou de existir”. Já diante 
da resolução por inexecução voluntária em um contrato de execução única, o 
efeito será ex tunc, pois se declaram extintas todas as consequências jurídicas, 
desde o início do contrato. 
 
Proteção da dignidade humana: À luz da personalização e constitucionalização 
do direito civil, pode-se afirmar que a real função do contrato não é a 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 69 
segurança jurídica, mas, sim, atender aos interesses da pessoa humana e de 
seu patrimônio mínimo. A impenhorabilidade do bem de família, de acordo com 
a Lei nº 8.009/90, constitui um bom exemplo de respeito à dignidade da pessoa 
humana nas relações privadas. Salvo as exceções do Artigo 3º da citada lei, o 
único bem de família do devedor fica blindado em relação ao pagamento de 
suas dívidas. Diante do princípio da harmonização, o legislador ponderou 
interesses de igual grandeza, quais sejam, a dignidade e o direito de crédito, 
esvaziando o segundo em detrimento do primeiro. 
 
Nulidade de cláusulas abusivas: Pela aplicação da função social do contrato no 
plano concreto, haverá a declaração de nulidade das cláusulas consideradas 
abusivas. Em sentido contrário ao direito civil-constitucional, o STJ vem 
entendendo que o julgador não pode conhecer, de ofício, a abusividade de 
cláusulas em contratos bancários, conforme Súmula nº 381: “Nos contratos 
bancários, é vedado ao julgador conhecer, de ofício, da abusividade das 
cláusulas”. Porém, a Súmula 297 do STJ determina: “O Código de Defesa do 
Consumidor é aplicável às instituições financeiras”. Assim, no mesmo tribunal, 
apresentam-se decisões antagônicas, já que não se possibilita ao julgador 
conhecer de ofício da abusividade de cláusulas em contratos com instituições 
financeiras, mas seus clientes gozam, em tese, do conjunto protetivo 
disciplinado pelo CDC. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 70 
 
 
Atenção 
 O Enunciado 21 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ 
determina: “A função social do contrato, prevista no Artigo 421 
do novo Código Civil, constitui cláusula geral a impor a revisão 
do princípio da relatividade dos efeitos do contrato em relação a 
terceiros, implicando a tutela externa do crédito”. Assim, a 
proteção externa do crédito constitui orientação para que a 
sociedade respeite a convenção estabelecida pelos contratantes. 
É exemplo do presente instituto o Artigo 608 do CC, que assim 
dispõe: “Aquele que aliciar pessoas obrigadas em contrato 
escrito a prestar serviço a outrem pagará a este a importância 
que ao prestador de serviço, pelo ajuste desfeito, houvesse de 
caber durante dois anos”. Dessa forma, no contrato de prestação 
de serviços, que pressupõe a realização de serviços 
especializados sem subordinação, a sociedade não pode 
interferir no pacto, sob pena de o aliciador indenizar o tomador 
de serviços pelo prejuízo suportado, de maneira objetiva. 
 
Função socioambiental do contrato 
Por função socioambiental do contrato, entende-se que os contratantes 
são responsáveis pelo meio ambiente, como todo e qualquer cidadão, não 
podendo desrespeitá-lo, mesmo que as demais obrigações contratuais estejam 
sendo satisfeitas. 
 
Exemplificando: 
No caso da locação de um terreno que esteja sendo utilizado para armazenar 
material tóxico ao meio ambiente, mesmo que o locatário arque com todas as 
suas obrigações locatícias, poderá o locador extinguir o presente contrato, 
cobrando, inclusive, a cláusula penal determinada contratualmente. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 71 
Por fim, importante mencionar as palavras de Assis. Para o autor, o contrato 
cumprirá sua função social... 
 
“... respeitando sua função econômica, que é a de promover a circulação de 
riquezas, ou a manutenção das trocas econômicas, na qual o elemento ganho 
ou lucro jamais poderá ser desprezado, tolhido ou ignorado, tratando-se de 
uma economia de mercado”. 
 
Institutos jurídicos 
Constitui fenômeno recente a jurisprudencialização do direito. 
 
Pelo referido fenômeno, a aplicação dos institutos jurídicos pelos tribunais 
passa a ser leitura imprescindível ao operador do direito, que pauta as 
fundamentações de suas peças processuais no cotidiano forense. 
 
Além disso, a função social do contrato materializa-se nos casos concretos 
submetidos à apreciação judicial; logo, há de se perguntar: qual é o contorno 
jurídico que o Poder Judiciário vem agregando ao referido princípio civil-
constitucional? 
 
Código Civil brasileiro 
O Código Civil Brasileiro encontra-se repleto de exemplos em que a função 
social do contrato resta evidenciada, sendo o instituto da exceção de 
contrato não cumprido um deles. 
 
Pelo Artigo 476 do CC: “Nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes, 
antes de cumprida a sua obrigação, pode exigir o implemento da do outro”. 
Assim, de acordo com a máxima de que “ninguém pode se valer da sua própria 
torpeza”, o contrato, via de regra, não deve conter cláusula que possibilite a um 
dos contratantes exigir o cumprimento da obrigação do outro diante do 
inadimplemento da sua própria obrigação. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 72 
DIREITO CIVIL. RESCISÃO CONTRATUAL. DISSÍDIO NÃO DEMONSTRADO. 
EXCEÇÃO DO CONTRATO NÃO CUMPRIDO. SÚMULAS Nº 5 E Nº 7/STJ. NÃO 
INCIDÊNCIA. DESCUMPRIMENTO PARCIAL E MÍNIMO DA AVENÇA. 
DESPROPORCIONALIDADE. MANUTENÇÃO DO CONTRATO. PRECEDENTES. 3. 
"- A exceção de contrato não cumprido somente pode ser oposta quando a lei 
ou o próprio contrato não determinar a quem cabe primeiro cumprir a 
obrigação. (...) A recusa da parte em cumprir sua obrigação deve guardar 
proporcionalidade com a inadimplência do outro, não havendo de se cogitar da 
arguição da exceção de contrato não cumprido quando o descumprimento é 
parcial e mínimo" (REsp 981.750/MG, Rel. Ministra Nancy Andrighi, DJe 
23/4/2010). 4. Diante do contexto de desproporcionalidade que a presente 
hipótese evidencia, verifica-se que o acórdão, ao afastar a exceção do contrato 
não cumprido, acabou por violar princípios norteadores da relação contratual, 
quais sejam, o da proporcionalidade, da boa fé e da função social do contrato, 
porque, por uma importância desproporcional ao valor do bem, garantiu aos 
recorridos um benefício muito maior do que o contratado, haja vista que, o 
atraso na quitação do IPTU, no montante declinado, nunca representariamotivo suficiente ao pedido de rescisão contratual, seja pelo fato de que o 
imóvel já havia sido entregue, seja pelo fato de que o valor das prestações já 
quitadas supera em muito o montante atribuído ao Fisco e que, facilmente, 
poderia ter sido abatido do valor devido (Recurso Especial 1220251/MA, 
RECURSO ESPECIAL 2010/0186950-3, Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva). 
 
Cláusula solve et repete 
Em alguns contratos, existe a pactuação da denominada cláusula solve et 
repete. 
 
Pela referida cláusula, um dos contratantes poderá exigir o cumprimento da 
obrigação do outro, mesmo diante do inadimplemento da sua própria 
obrigação. Nos contratos com empresas de energia elétrica, tal prática é 
comum; assim, caso o consumidor seja cobrado a mais do que realmente deve 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 73 
pelo contrato, este deverá pagar a conta, sob pena de ser cortada sua energia 
elétrica. 
 
Os tribunais brasileiros, de forma majoritária, vêm entendendo pela 
legitimidade da referida cláusula nesses contratos, por configurar prestação de 
serviços essenciais. Diferente ocorre em contratos de consumo, que, em sua 
maioria, são de adesão, sendo a cláusula solve et repete considerada abusiva, 
por desrespeitar a função social do contrato e o instituto da exceção de 
contrato não cumprido. 
 
Sistema jurídico 
O princípio da função social do contrato adquire importância ao sistema 
jurídico, pois constitui fundamento para conter o enriquecimento sem causa. 
 
Nas obrigações de dar coisa certa (Artigo 237 do CC), antes da tradição, a 
coisa pertence ao devedor (res perit domino). Dessa forma, se o devedor 
melhorar ou acrescer a coisa, poderá exigir do credor aumento no preço. Caso 
o credor não deseje arcar com o aumento, poderá o devedor resolver a 
obrigação, mas não será possível exigir o pagamento das perdas e danos. 
 
A razão da norma deita origens na manutenção do sinalagma obrigacional e na 
vedação do enriquecimento sem causa, o que não impede uma análise fática 
das situações concretas, uma vez que o devedor poderá agir de má-fé. 
 
Enriquecimento sem causa 
Nas obrigações de restituir coisa certa (Artigo 242 do CC), também é 
possível perceber a vedação ao enriquecimento sem causa em relação ao 
possuidor de boa-fé (Artigo 1.219 do CC), que fará jus à indenização pelas 
benfeitorias úteis e necessárias. Corroborando o que foi dito, cabe a transcrição 
da jurisprudência. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 74 
AÇÃO DE COBRANÇA. CONTRATO DE VENDA DE PONTO COMERCIAL. 
INADIMPLÊNCIA. BENFEITORIAS NECESSÁRIAS. RETOMADA DE BENS 
IMOBILIZADOS. POSSIBILIDADE. CLÁUSULA CONTRATUAL EXPRESSA. 
PRINCÍPIOS DA AUTONOMIA DA VONTADE E DA FORÇA OBRIGATÓRIA DO 
CONTRATO. As partes firmaram um contrato de venda de ponto comercial, 
inadimplido em parte pela co-ré. 
 
Cabível a compensação do valor gasto com benfeitorias necessárias 
com o débito em discussão, de acordo com o disposto nos Artigos 242 
e 1.219 do Novo Código Civil. 
 
Em atenção aos princípios da autonomia da vontade e da força obrigatória do 
contrato, considera-se plenamente válida a cláusula contratual que dispôs 
acerca da retomada, pelos vendedores, dos bens imobilizados em caso de 
inadimplência da compradora. APELAÇÃO PROVIDA. (Apelação Cível 
70026656843, Décima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Túlio 
de Oliveira Martins, Julgado em 29/10/2009). 
 
Contrato de comodato 
No contrato de comodato, que também pressupõe uma obrigação de 
restituir coisa certa, há divergência quanto à indenização pelo comodatário 
acerca das benfeitorias úteis e necessárias. O Artigo 584 do CC assim dispõe: 
 
“O comodatário não poderá jamais recobrar do comodante as despesas feitas 
com o uso e gozo da coisa emprestada”. 
 
Com isso, diante da interpretação literal do mencionado artigo, jamais deverão 
ser ressarcidas pelo comodante as despesas ordinárias em relação à coisa 
(IPTU, luz, água, gás). 
 
Porém, há dúvida quanto ao ressarcimento das despesas extraordinárias, 
incluindo nestas as benfeitorias. De acordo com o Tribunal de Justiça do Rio de 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 75 
Janeiro, de forma majoritária, e Caio Mário, as benfeitorias estão englobadas no 
conceito de despesas, não ensejando indenização ou retenção, uma vez que o 
comodato constitui-se como empréstimo gratuito. 
 
Já para o Tribunal de Justiça de São Paulo, de forma majoritária, e Flávio 
Tartuce, as benfeitorias não estão englobadas no conceito de despesas, 
ensejando indenização e retenção nos moldes do Artigo 1.219 do CC, que trata 
da indenização das benfeitorias pelo possuidor de boa-fé, a fim de evitar o 
enriquecimento sem causa. 
 
Cumpre informar que a segunda corrente está mais afinada com o direito civil-
constitucional, materializando a função social do contrato, nada impedindo, de 
outra sorte, a renúncia à referida indenização contratualmente pelas partes em 
decorrência da própria essência gratuita do comodato. 
 
Obrigações indivisíveis 
Nas obrigações indivisíveis, pelo Artigo 263 do CC, diante da perda da coisa 
por apenas um dos devedores, apresentam-se duas correntes quanto à 
responsabilização pelas perdas e danos: 
 
Flávio Tartuce e Gustavo Tepedino 
Para Flávio Tartuce e Gustavo Tepedino, só o culpado responde pelo 
equivalente, mais perdas e danos, pois o “equivalente” insere-se no conceito de 
danos emergentes. Porém, a melhor resposta seria a de que todos os 
devedores da coisa são credores do pagamento, e o cancelamento do negócio 
por culpa de um dos devedores prejudicaria os demais. 
 
Álvaro Villaça 
Para Álvaro Villaça, o culpado responde pelas perdas e danos, mas, pelo 
equivalente, todos respondem. Com isso, tenta evitar o enriquecimento sem 
causa. O mesmo entendimento é observado em relação à obrigação solidária 
passiva (Artigo 279 do CC), em que apenas o culpado é responsável pelas 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 76 
perdas e danos. Nesse sentido, o Enunciado 540 da VI Jornada de Direito 
Civil do CJF/STJ: “Havendo perecimento do objeto da prestação indivisível 
por culpa de apenas um dos devedores, todos respondem, de maneira divisível, 
pelo equivalente, e só o culpado, pelas perdas e danos”. 
 
Cessão de crédito 
Na cessão de crédito, espécie de transmissão das obrigações, de acordo com o 
Artigo 295 do CC, existe a responsabilidade do cedente pela existência da 
dívida nas cessões à título oneroso ou nas cessões à título gratuito se tiver 
procedido de má-fé, a fim de evitar o enriquecimento sem causa. 
 
Dessa forma, mesmo havendo cláusula contratual em sentido contrário, o 
cedente fica responsável ao cessionário pela existência da dívida ao tempo da 
cessão, responsabilidade esta que não se confunde com a solvência do dívida 
pelo cedido, que, via de regra, o cedente não assume. 
 
Pelo Artigo 296 do CC, a cessão é considerada pro soluto, ou seja, o cedente 
não responde pelo pagamento da dívida diante do inadimplemento do cedido, 
podendo haver convenção em sentido contrário, momento em que a cessão 
será pro solvendo. 
 
Pagamento indevido 
Nos atos unilaterais de vontade, também é possível perceber a vedação ao 
enriquecimento sem causa diante do pagamento indevido. 
 
Segundo o Artigo 876 do CC: “Todo aquele que recebeu o que lhe não era 
devido fica obrigado a restituir; obrigação que incumbe àquele que recebe 
dívida condicional antes de cumprida a condição”. 
 
Importante informar que não cabe repetição em dobro do valor pago. Será 
cabível na ação de repetição de indébito (actio in rem verso) o pleito do valorpago atualizado, acrescido de juros, custas, honorários advocatícios e despesas 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 77 
processuais. Se presente a má-fé, também será cabível o pagamento das 
perdas e danos. 
 
Somente haverá pagamento em dobro no pagamento indevido, nos moldes do 
Artigo 940 do CC, que assim dispõe: “Aquele que demandar por dívida já paga, 
no todo ou em parte, sem ressalvar as quantias recebidas ou pedir mais do que 
for devido, ficará obrigado a pagar ao devedor, no primeiro caso, o dobro do 
que houver cobrado e, no segundo, o equivalente do que dele exigir, salvo se 
houver prescrição”. 
 
Bem como no direito do consumidor, conforme parágrafo único do Artigo 42 do 
CDC: “Na cobrança de débitos, o consumidor inadimplente não será exposto a 
ridículo, nem será submetido a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça. 
 
Parágrafo único. O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito 
à repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em 
excesso, acrescido de correção monetária e juros legais, salvo hipótese de 
engano justificável”. 
 
 
Atenção 
 Ainda dentro dos atos unilaterais de vontade, cabível 
mencionar a opção do legislador civil em constituir um instituto 
jurídico próprio para coibir o enriquecimento sem causa, nos 
moldes do Artigo 884: “Aquele que, sem justa causa, se 
enriquecer à custa de outrem, será obrigado a restituir o 
indevidamente auferido, feita a atualização dos valores 
monetários”. 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 78 
Tribunais brasileiros 
Segundo os tribunais brasileiros, constituem requisitos para a sua aplicação: 
 
• Enriquecimento do accipiens; 
 
• Empobrecimento do solvens; 
 
• Relação de causalidade entre enriquecimento e empobrecimento; 
 
• Inexistência de causa jurídica prevista por convenção entre as partes ou pela 
lei, pois, no enriquecimento sem causa, falta uma causa jurídica para o 
enriquecimento, enquanto o enriquecimento ilícito encontra-se fundado em um 
ato ilícito; 
 
• Inexistência de ação específica, pois, caso a lei forneça ao lesado outros 
meios para a satisfação do prejuízo, não caberá a restituição por 
enriquecimento sem causa, nos moldes do Artigo 886 do CC. Porém, pelo 
Enunciado 36 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “O Artigo 886 do novo 
Código Civil não exclui o direito à restituição do que foi objeto de 
enriquecimento sem causa nos casos em que os meios alternativos conferidos 
ao lesado encontram obstáculos de fato”. 
 
Tipos de contratos 
A função social tem aplicação prática diante dos contratos comutativos, nos 
quais existem vantagens e sacrifícios para ambas as partes, como, por 
exemplo, no contrato de compra e venda, onde o enriquecimento sem causa 
gera revisão, em decorrência do desrespeito à proporcionalidade. 
 
Diferente ocorre nos contratos aleatórios, nos quais existe o fator risco, pois 
uma das partes não sabe com exatidão sua prestação no momento da 
celebração do contrato, como, por exemplo, no contrato de seguro (pela 
natureza) e contrato de compra e venda de colheita futura (por determinação 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 79 
das partes). Nestes contratos, não se permite a revisão em decorrência da 
imprevisibilidade ou pela simples onerosidade excessiva. 
 
Na evicção, um dos efeitos dos contratos, também é possível visualizar a 
necessidade de vedação do enriquecimento sem causa. O Artigo 455 do CC 
dispõe: “Se parcial, mas considerável, for a evicção, poderá o evicto optar entre 
a rescisão do contrato e a restituição da parte do preço correspondente ao 
desfalque sofrido. Se não for considerável, caberá somente direito à 
indenização”. 
 
Pela jurisprudência, considera-se evicção parcial considerável aquela que 
supera a metade do valor do bem; entretanto, deve-se levar em conta o fator 
essencialidade da parte perdida em relação às finalidades sociais e econômicas 
do contrato, a partir da função social do contrato. Diante disso, mesmo que a 
parte perca menos do que a metade da coisa em decorrência da evicção, 
poderá alegar evicção parcial considerável se provar que o contrato violou sua 
finalidade. 
 
Denunciação da lide 
De outra sorte, para responsabilizar o alienante, o evicto deve, quando for 
instaurado o processo judicial, chamar o alienante ao processo. Utiliza-se a 
denunciação da lide, nos moldes do Artigo 70, I, do CPC, sendo medida 
processual supostamente obrigatória. Porém, o STJ tem entendido que a 
denunciação da lide não é obrigatória, podendo o evicto se valer de outro 
instrumento processual para rever aquilo que despendeu, a fim de evitar o 
enriquecimento sem causa. No mesmo sentido, o Enunciado 434 da V 
Jornada de Direito Civil do CJF/STJ, que assim determina: “A ausência de 
denunciação da lide ao alienante, na evicção, não impede o exercício de 
pretensão reparatória por meio de via autônoma”. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 80 
Dação em pagamento 
A dação em pagamento pode ser conceituada como uma forma de 
pagamento indireto em que há um acordo privado de vontades entre os 
sujeitos da relação obrigacional, pactuando-se a substituição do objeto 
obrigacional por outro, móvel ou imóvel, havendo necessidade de 
consentimento expresso do credor; pelo fato de isto ser um negócio jurídico 
bilateral (Artigo 356 do CC), diante da evicção, a obrigação primitiva é 
restabelecida, ressalvado direito de terceiro de boa-fé (Artigo 359 do CC), o 
que, mais uma vez, evidencia a necessidade legislativa em conter o 
enriquecimento sem causa. 
 
Teoria do adimplemento substancial 
Decorre, também, do princípio da função social do contrato a teoria do 
adimplemento substancial. Dessa forma, quando a obrigação tiver sido 
quase toda cumprida, não caberá a extinção do contrato, mas apenas outros 
efeitos jurídicos, visando sempre à manutenção da avença em respeito ao 
princípio da conservação do negócio jurídico. 
 
O requisito principal para a utilização da mencionada teoria é de que o 
cumprimento seja relevante. 
 
ARRENDAMENTO MERCANTIL. REINTEGRAÇÃO DE POSSE. ADIMPLEMENTO 
SUBSTANCIAL. Trata-se de REsp oriundo de ação de reintegração de posse 
ajuizada pela ora recorrente em desfavor do recorrido por inadimplemento de 
contrato de arrendamento mercantil (leasing) para a aquisição de 135 carretas. 
A Turma reiterou, entre outras questões, que, diante do substancial 
adimplemento do contrato, qual seja, foram pagas 30 das 36 prestações da 
avença, mostra-se desproporcional a pretendida reintegração de posse e 
contraria princípios basilares do Direito Civil, como a função social do contrato e 
a boa-fé objetiva. Ressaltou-se que a teoria do substancial adimplemento visa 
impedir o uso desequilibrado do direito de resolução por parte do credor, 
preterindo desfazimentos desnecessários em prol da preservação da avença, 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 81 
com vistas à realização dos aludidos princípios. Assim, tendo ocorrido um 
adimplemento parcial da dívida muito próximo do resultado final, daí a 
expressão “adimplemento substancial”, limita-se o direito do credor, pois a 
resolução direta do contrato mostrar-se-ia um exagero, uma demasia. Dessa 
forma, fica preservado o direito de crédito, limitando-se apenas a forma como 
pode ser exigido pelo credor, que não pode escolher diretamente o modo mais 
gravoso para o devedor, que é a resolução do contrato. Dessarte, diante do 
substancial adimplemento da avença, o credor poderá valer-se de meios menos 
gravosos e proporcionalmente mais adequados à persecução do crédito 
remanescente, masnão a extinção do contrato. Precedentes citados: REsp 
272.739-MG, DJ 2/4/2001; REsp 1.051.270-RS, DJe 5/9/2011, e AgRg no Ag 
607.406-RS, DJ 29/11/2004. REsp 1.200.105-AM, Rel. Min. Paulo de Tarso 
Sanseverino, julgado em 19/6/2012. 
 
Conclusão 
Logo, o STJ aplica a teoria do adimplemento substancial, que tem como 
fundamento o princípio da função social do contrato para impedir que, diante 
de um inadimplemento mínimo do devedor (seis parcelas em um contexto de 
36), possa o credor extinguir o contrato por intermédio da resolução, sendo a 
presente medida entendida como desproporcional e abusiva. Assim, o credor 
terá a possibilidade de se valer de meios menos gravosos para buscar seu 
crédito, como, por exemplo, uma ação de cobrança, mas não de reintegração 
de posse. 
 
Atividade proposta 
A ausência normativa não poderia configurar um óbice à aplicação da teoria do 
adimplemento substancial, mesmo diante da leitura do Enunciado a seguir 
transcrito, por ferir o princípio da autonomia da vontade? 
 
Enunciado 361 da IV Jornada de Direito Civil: “O adimplemento substancial 
decorre dos princípios gerais contratuais, de modo a fazer preponderar a 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 82 
função social do contrato e o princípio da boa-fé objetiva, balizando a aplicação 
do Artigo 475”. 
 
Chave de resposta: Segundo o STJ, “(...) tendo ocorrido um adimplemento 
parcial da dívida muito próximo do resultado final, daí a expressão 
“adimplemento substancial”, limita-se o direito do credor, pois a resolução 
direta do contrato mostrar-se-ia um exagero, uma demasia. Dessa forma, fica 
preservado o direito de crédito, limitando-se apenas a forma como pode ser 
exigido pelo credor, que não pode escolher diretamente o modo mais 
gravoso para o devedor, que é a resolução do contrato”. 
 
Referências 
ASSIS, Araken. Comentários ao Código Civil brasileiro. v. V. Coord. 
Arruda Alvim e Thereza Alvim. Rio de Janeiro: Forense, 2007. p. 85-86. 
 
Exercícios de fixação 
Questão 1 
(OAB/Exame Unificado – 2010) 
No que diz respeito à extinção dos contratos, assinale a opção correta: 
a) Na resolução por onerosidade excessiva, não é necessária a existência de 
vantagem da outra parte, bastando que a prestação de uma das partes 
se torne excessivamente onerosa. 
b) A resolução por inexecução voluntária do contrato produz efeitos ex tunc 
se o contrato for de execução continuada. 
c) Ainda que a inexecução do contrato seja involuntária, a resolução 
ensejará o pagamento das perdas e danos para a parte prejudicada. 
d) A eficácia da resilição unilateral de determinado contrato independe de 
pronunciamento judicial e produz efeitos ex nunc. 
 
Questão 2 
(OAB/Exame Unificado – 2008) 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 83 
De acordo com o Código Civil, a onerosidade excessiva decorre de evento 
extraordinário e imprevisível, que dificulta extremamente o adimplemento do 
contrato. Nesse contexto, a onerosidade excessiva dá ensejo à: 
a) Resolução do contrato por inexecução voluntária. 
b) Resolução do contrato por inexecução involuntária. 
c) Resolução do contrato por onerosidade excessiva. 
d) Resilição do contrato por onerosidade excessiva. 
 
Questão 3 
Não constitui uma exceção à impenhorabilidade do bem de família, de acordo 
com a Lei nº 8.009/90: 
a) Obrigação decorrente de fiança concedida em contrato de locação. 
b) Cobrança de impostos, predial ou territorial, taxas e contribuições 
devidas em função do imóvel familiar. 
c) Pelo titular do crédito decorrente do financiamento destinado à 
construção ou à aquisição do imóvel, no limite dos créditos e acréscimos 
constituídos em função do respectivo contrato. 
d) Obrigação decorrente de mútuo feneratício. 
 
Questão 4 
Dentre as assertivas abaixo, marque aquela em que se materializa a tutela 
externa do crédito. 
a) No contrato de prestação de serviços, aquele que aliciar pessoas, 
obrigadas em contrato escrito, a prestar serviço a outrem, pagará a este 
a importância que ao prestador de serviço, pelo ajuste desfeito, 
houvesse de caber durante dois anos. 
b) No contrato de compra e venda, sob pena de nulidade, não podem ser 
comprados pelos tutores, ainda que em hasta pública, os bens confiados 
à sua guarda ou administração. 
c) No contrato de comodato, os tutores não poderão emprestar 
gratuitamente, sem autorização especial, os bens confiados à sua 
guarda. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 84 
d) Nos contratos de empreitada de edifícios ou outras construções 
consideráveis, o empreiteiro de materiais e execução responderá, 
durante o prazo irredutível de cinco anos, pela solidez e segurança do 
trabalho, assim em razão dos materiais, como do solo. 
 
Questão 5 
O Enunciado 21 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ determina: “A função 
social do contrato, prevista no Artigo 421 do novo Código Civil, constitui 
cláusula geral a impor a revisão do princípio da relatividade dos efeitos do 
contrato em relação a terceiros, implicando a tutela externa do crédito”. 
Aponte, dentre as assertivas abaixo, o nome do instituto jurídico evidenciado no 
enunciado transcrito: 
a) Eficácia interna da função social do contrato. 
b) Eficácia externa da função social do contrato. 
c) Pacta sunt servanda. 
d) Princípio da conservação do negócio jurídico. 
 
Questão 6 
(Exame da OAB) 
De acordo com o que dispõe o Código Civil a respeito dos contratos, assinale a 
opção correta. 
a) A onerosidade excessiva, oriunda de acontecimento extraordinário e 
imprevisível, ainda que dificulte extremamente o adimplemento da 
obrigação de uma das partes em contrato de execução continuada, não 
enseja a revisão contratual, visto que as partes ficam vinculadas ao que 
foi originariamente pactuado. 
b) Considere que um indivíduo ofereça ao seu credor, com o consenso 
deste, um terreno em substituição à dívida no valor de R$ 30 mil, a título 
de dação em pagamento. Nessa situação, se o credor for evicto do 
terreno recebido, será restabelecida a obrigação primitiva com o 
devedor, ficando sem efeito a quitação dada, ressalvados os direitos de 
terceiros. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 85 
c) O evicto pode demandar pela evicção por meio de ação contra o 
transmitente, mesmo sabendo que a coisa adquirida era alheia ou 
litigiosa. 
d) A resilição bilateral não se submete à forma exigida para o contrato. 
 
Questão 7 
(FGV -2011) 
Nos contratos, os indivíduos devem observar os princípios da probidade e boa-
fé. A liberdade contratual será exercida nos limites da função social do contrato. 
Nesse contexto, assinale a alternativa correta, de acordo com o Código Civil: 
a) As partes não podem, em qualquer hipótese, reforçar, diminuir ou excluir 
a responsabilidade pela evicção. 
b) As cláusulas resolutivas, expressas ou tácitas, operam-se de pleno 
direito. 
c) Nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes poderá exigir, antes 
de cumprida sua obrigação, o implemento da do outro. 
d) Admite-se que a herança de pessoa viva possa ser objeto de contrato. 
e) Nos contratos de adesão, são nulas de pleno direito as cláusulas 
ambíguas ou contraditórias. 
 
Questão 8 
(OAB/Exame Unificado – 2008) 
A exceção de contrato não cumprido poderá ser arguida nos: 
a) Contratos sinalagmáticos 
b) Contratos de mútuo 
c) Negócios jurídicos unilaterais 
d) Contratos de comodato 
 
Questão 9 
Nos moldes do Artigo 884: “Aquele que, sem justa causa, se enriquecer à custa 
de outrem, será obrigado a restituir o indevidamente auferido, feita a 
atualização dos valores monetários”. Segundo os tribunaisbrasileiros, não 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 86 
constitui requisito para a sua aplicação do instituto do enriquecimento sem 
causa: 
a) Enriquecimento do credor 
b) Empobrecimento do devedor 
c) Ilicitude do enriquecimento 
d) Relação de causalidade entre enriquecimento e empobrecimento 
 
Questão 10 
Qual teoria visa impedir o uso desequilibrado do direito de resolução por parte 
do credor, preterindo desfazimentos desnecessários em prol da preservação da 
avença, com vistas à realização dos princípios da boa-fé objetiva, da função 
social do contrato e da conservação do negócio jurídico? 
a) Teoria da Imprevisão 
b) Teoria do Adimplemento Substancial 
c) Teoria do Inadimplemento Antecipado 
d) Teoria do Cumprimento Defeituoso 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 87 
Aula 3 
Exercícios de fixação 
Questão 1 - D 
Justificativa: A resilição unilateral do contrato encontra-se no Artigo 473 do CC: 
“A resilição unilateral, nos casos em que a lei expressa ou implicitamente o 
permita, opera mediante denúncia notificada à outra parte”. Tal forma de 
extinção ocorre através de denuncia notificada a outra parte e seu efeito 
jurídico é ex nunc. 
 
Questão 2 - C 
Justificativa: Conforme Artigo 478 do CC: “Nos contratos de execução 
continuada ou diferida, se a prestação de uma das partes se tornar 
excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, em virtude de 
acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, poderá o devedor pedir a 
resolução do contrato. Os efeitos da sentença que a decretar retroagirão à data 
da citação”. 
 
Questão 3 - D 
Justificativa: Conforme Artigo 3º da Lei nº 8.009/90, a única hipótese não 
contemplada relaciona-se ao mútuo oneroso. 
 
Questão 4 - A 
Justificativa: Conforme Artigo 608 do CC. 
 
Questão 5 - B 
Justificativa: A eficácia externa da função social determina que o contrato gere 
efeitos perante terceiros, o que pode ser percebido diante da tutela externa do 
crédito e da função socioambiental do contrato. 
 
Questão 6 - B 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 88 
Justificativa: De acordo com o Artigo 359 do CC: “Se o credor for evicto da 
coisa recebida em pagamento, restabelecer-se-á a obrigação primitiva, ficando 
sem efeito a quitação dada, ressalvados os direitos de terceiros”. 
 
Questão 7 - C 
Justificativa: Conforme Artigo 476 do CC: “Nos contratos bilaterais, nenhum dos 
contratantes, antes de cumprida a sua obrigação, pode exigir o implemento da 
do outro”. 
 
Questão 8 - A 
Justificativa: Sinalagmático é sinônimo de bilateral. 
 
Questão 9 - C 
Justificativa: Inexistência de causa jurídica prevista por convenção entre as 
partes ou pela lei, pois, no enriquecimento sem causa, falta uma causa jurídica 
para o enriquecimento, enquanto o enriquecimento ilícito encontra-se fundado 
em um ato ilícito. 
 
Questão 10 - C 
Justificativa: Segundo o STJ, a teoria do substancial adimplemento visa 
impedir o uso desequilibrado do direito de resolução por parte do credor, 
preterindo desfazimentos desnecessários em prol da preservação da avença, 
com vistas à realização dos aludidos princípios. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 89 
Introdução 
É possível afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o 
maior negócio jurídico, e, desta forma, a apreensão de sua base principiológica 
torna-se um verdadeiro diferencial aos operadores do direito. 
 
Nesse contexto, insere-se o princípio da boa-fé objetiva a partir da 
personificação dos anseios constitucionais às relações privadas. 
 
Com isso, a exigência de conduta pautada na lealdade dos contratantes tornou-
se imprescindível e sua violação passou a constituir abuso de direito. 
 
Como resultado da função de integração da boa-fé objetiva, surgem conceitos 
parcelares, que concretizam a propugnada conduta de lealdade a ser seguida 
pelos contratantes. 
 
Assim, a doutrina e a jurisprudência delinearam institutos jurídicos a fim de 
materializar a cláusula geral contida no Artigo 422 do Código Civil brasileiro; 
dentre eles, destacam-se: o venire contra factum proprium, o duty to mitigate 
the loss, a supressio, a surrectio e o tu quoque. 
 
Esse é o tema que você verá durante esta aula. 
 
Bons estudos! 
 
Objetivo: 
1. Analisar o contorno jurídico do venire contra factum proprium e do duty to 
mitigate the loss tanto na perspectiva doutrinária quanto jurisprudencial; 
2. Analisar o contorno jurídico da supressio, da surrectio e do tu quoque tanto 
na perspectiva doutrinária quanto jurisprudencial. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 90 
Conteúdo 
Contextualização 
Como visto anteriormente, à luz do fenômeno da constitucionalização do direito 
civil a fim de se materializar a boa-fé objetiva, a doutrina estruturou suas três 
funções: 
 
Função de interpretação 
(Artigo 113 do CC). Constituindo instrumento para o aplicador do direito. 
 
Função de controle 
(Artigo 187 do CC). Visando evitar o abuso de direito. 
 
Função de integração 
(Artigo 422 do CC). 
 
A função de integração, além de determinar o respeito à boa-fé objetiva em 
todas as fases contratuais, tem a aptidão de originar alguns institutos 
jurídicos a fim de objetivar sua presença em dadas situações concretas. 
Dentre eles, podem ser citados: 
 
Nesse contexto, analisemos primeiramente o venire contra factum 
proprium e o duty to mitigate the loss. Avance e confira! 
 
Abuso de direito – Conceito 
Para compreender o instituto venire contra factum proprium, é necessário 
entender o que é abuso de direito. Acompanhe. 
 
Convém transcrever o teor do Enunciado 539 da VI Jornada de Direito 
Civil do CJF/STJ: 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 91 
“O abuso de direito é uma categoria jurídica autônoma em relação à 
responsabilidade civil. Por isso, o exercício abusivo de posições jurídicas desafia 
controle independentemente de dano”. 
 
A inobservância da boa-fé objetiva gera a violação positiva do contrato com 
responsabilização civil do contratante, independentemente de culpa, pois 
cometeu abuso de direito, disposto no Artigo 187 do CC: “Também comete 
ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os 
limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons 
costumes”. 
 
É possível identificar como justificativa do mencionado enunciado a vinculação 
do abuso de direito a responsabilidade civil, consequência de uma opção 
legislativa equívoca, que o define no capítulo relativo ao ato ilícito (Artigo 187 
do CC) e o refere, especificamente, na obrigação de indenizar (Artigo 927 do 
CC), o que tem subtraído algumas potencialidades da referida categoria jurídica 
e comprometido a sua principal função de controle da boa-fé objetiva. 
 
 
Atenção 
 Cumpre dizer que não resta dúvida sobre a possibilidade de a 
responsabilidade civil surgir por danos decorrentes do exercício 
abusivo de uma posição jurídica. Por outro lado, é possível que 
qualquer abuso possa gerar dano, merecendo ser coibido com 
respostas jurisdicionais eficazes. 
 
Abuso de direito – Controle preventivo e repressivo 
Decorre da boa-fé objetiva o entendimento de que o abuso de direito deva ser 
utilizado para o controle preventivo e repressivo. 
 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 92 
Controle preventivo 
Em demandas inibitórias, buscando a abstenção de condutas antes mesmo de 
elas ocorrerem irregularmente, não para reparar, mas para prevenir a 
ocorrência do dano.Controle repressivo 
Para fazer cessar um ato ou para impor um agir. Dentro do controle repressivo, 
inserem-se os institutos do venire contra factum proprium, do duty to mitigate 
the loss, da supressio, da surrectio e do tu quoque. 
 
Agora que você entendeu o que é abuso de direito, vamos em frente para a 
análise do instituto venire contra factum proprium. 
 
Venire contra factum proprium – Conceito 
De acordo com o venire contra factum proprium, uma pessoa não pode 
exercer um direito próprio contrariando uma conduta anterior, constituindo, 
pois, a proibição de comportamento contraditório. 
 
Determina o Enunciado 362 da IV Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: 
“A vedação do comportamento contraditório (venire contra factum proprium) 
funda-se na proteção da confiança, tal como se extrai dos Artigos 187 e 422 do 
Código Civil”. 
 
Vejamos a seguir o que diz a jurisprudência. 
 
Venire contra factum proprium – Jurisprudência 
A jurisprudência pátria vem materializando o mencionado instituto, a 
fim de traçar o contorno jurídico da boa-fé objetiva para que seu conteúdo não 
fique ao alvedrio do julgador. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 93 
Assim, visa coibir o comportamento contraditório dos contratantes, por 
configurar um dos deveres anexos inerente à conduta de lealdade esperada 
pelo homem-médio. 
 
Da função de integração parte-se para a função de controle, pois tal 
comportamento caracteriza abuso de direito, sendo passível, pois, de reparação 
civil. 
 
Avance a tela e acompanhe algumas situações nas quais são evidenciadas o 
comportamento contraditório. 
 
Obrigação de dar coisa incerta 
A obrigação de dar coisa incerta (Artigo 243 do CC) é concebida como a 
obrigação de dar coisa indeterminada, sendo somente indicada pelo gênero e 
pela quantidade, restando uma indicação de sua qualidade posteriormente. 
 
A concentração é o ato pelo qual a parte, designada pela lei ou pelo contrato, 
realiza a escolha, constituindo um ato jurídico unilateral, transformando a 
obrigação indeterminada em obrigação determinada. 
 
Ao pactuar tal modalidade obrigacional, o credor sabe, de antemão, que 
receberá do devedor coisa cuja qualidade somente será determinada em ato 
posterior, que poderá corresponder ao da entrega. 
 
Normalmente, a escolha caberá ao devedor se não houver disposição contratual 
em sentido contrário (Artigo 244 do CC). A jurisprudência evidencia a hipótese 
de comportamento contraditório em obrigação de dar coisa incerta. 
 
DES. CELIA MELIGA PESSOA - Julgamento: 28/02/2012 - DECIMA OITAVA 
CÂMARA CÌVEL AGRAVO DE INSTRUMENTO. DIREITO CIVIL E PROCESSUAL 
CIVIL. FUNDAMENTAÇÃO DA SENTENÇA NÃO REITERADA NO RESPECTIVO 
DISPOSITIVO. CONTRATO DE CONSÓRCIO. NATUREZA DA OBRIGAÇÃO: DAR 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 94 
COISA INCERTA. Assertiva contida em fundamentação de sentença, mas não 
reiterada no respectivo dispositivo. Carência de força normativa. Interpretação 
do dispositivo. Contrato de consórcio cujo objetivo é o autofinanciamento de 
bem indicado como referência para fins de rateio entre os consorciados. 
Obrigação da administradora, que possui natureza de dar coisa incerta, uma 
vez que o bem somente é individualizado ao final do contrato, por lance ou por 
sorteio, ocasião em que pode inclusive ser complementada pelo consorciado 
para aquisição de outro bem, desde que da mesma espécie. Documentos de fls. 
159/163, que deixam claro que o ora agravante já tinha conhecimento quando 
da contemplação no consórcio, de que o modelo antigo do caminhão havia sido 
descontinuado e de que receberia o novo modelo L-1620/51. Adimplemento da 
obrigação pelo réu. Claro intuito de enriquecimento sem causa do recorrente ao 
pleitear o recebimento do valor do caminhão em pecúnia. Decisão que se 
mantém, por seus próprios fundamentos. Recurso manifestamente 
improcedente, que está em confronto com jurisprudência do STJ e desta Corte. 
Art. 557, caput, do CPC. NEGATIVA DE SEGUIMENTO. 
 
Constitui hipótese de comportamento contraditório o fato de o credor exigir o 
cumprimento de obrigação em pecúnia, pois pactuou obrigação de dar coisa 
incerta, cuja escolha cabia ao devedor. 
Visa-se, com isso, impedir a conduta desleal do contratante, o enriquecimento 
sem causa, além de preservar o sinal gama contratual por meio da 
materialização do princípio da conservação do negócio jurídico. 
 
A seguir, veja outra situação de comportamento contraditório: a não declaração 
de nulidade de contrato de compra e venda. 
 
Não declaração de nulidade de contrato de compra e venda 
Outro caso emblemático de aplicação da proibição do comportamento 
contraditório diz respeito à não declaração de nulidade de contrato de 
compra e venda, sob a égide do Código Civil de 1916 pela ausência de 
outorga uxória. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 95 
De acordo com Flávio Tartuce, no presente contrato de compra e venda, o 
marido celebrou o mencionado negócio sem a anuência de sua esposa, o que, 
na vigência do CC de 1916, era motivo de nulidade absoluta do contrato. 
 
Porém, a mulher informou em uma ação que concordou tacitamente com a 
venda, suprindo, desta forma, o requisito imposto por lei. Ocorre que, 
dezessete anos depois da celebração do pacto, esta pretendeu a declaração de 
sua nulidade, sob o argumento de que a outorga constituía parte da substância 
do ato. 
 
O STJ, ao julgar a demanda, fundamentou a convalidação do negócio jurídico 
com base na vedação do comportamento contraditório, inerente ao instituto do 
venire contra factum proprium. 
 
Promessa de compra e venda 
PROMESSA DE COMPRA E VENDA. CONSENTIMENTO DA MULHER. ATOS 
POSTERIORES. "VENIRE CONTRA FACTUM PROPRIUM". BOA-FÉ. 2. A 
MULHER QUE DEIXA DE ASSINAR O CONTRATO DE PROMESSA DE COMPRA E 
VENDA JUNTAMENTE COM O MARIDO, MAS DEPOIS DISSO, EM JUIZO, 
EXPRESSAMENTE ADMITE A EXISTÊNCIA E VALIDADE DO CONTRATO, 
FUNDAMENTO PARA A DENUNCIAÇÃO DE OUTRA LIDE, E NADA IMPUGNA 
CONTRA A EXECUÇÃO DO CONTRATO DURANTE MAIS DE 17 ANOS, TEMPO 
EM QUE OS PROMISSÁRIOS COMPRADORES EXERCERAM PACIFICAMENTE A 
POSSE SOBRE O IMÓVEL, NÃO PODE DEPOIS SE OPOR AO PEDIDO DE 
FORNECIMENTO DE ESCRITURA DEFINITIVA. DOUTRINA DOS ATOS 
PRÓPRIOS (STJ, 4ª Turma, REsp 95.539-SP, REsp 1.996/0030416-5, Rel. Min. 
Ruy Rosado de Aguiar, 03.09.1996). 
 
Vamos em frente! Avance e acompanhe o último caso de venire contra factum 
proprium: a promessa de doação. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 96 
Promessa de doação 
Ainda constituindo exemplo de venire contra factum proprium, determina o 
Enunciado 549 da VI Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: 
 
“A promessa de doação no âmbito da transação constitui obrigação positiva e 
perde o caráter de liberalidade previsto no Artigo 538 do Código Civil”. 
 
Dispõe o Artigo 538 do CC: 
 
“Considera-se doação o contrato em que uma pessoa, por liberalidade, 
transfere do seu patrimônio bens ou vantagens para o de outra”. 
 
Na jurisprudência, é comum a identificação de que, nos casos em que a 
promessa de doação é realizada no âmbito de uma transação relacionada a 
pacto de dissolução de sociedade conjugal, inexiste a possibilidade de 
retratação do doador (precedentes do STJ: REsp n. 742.048/RS, relator Ministro 
Sidnei Beneti, Terceira Turma, julgado em 14/4/2009, DJe de 24/4/2009; REsp 
n. 853.133/SC, relator Ministro Humberto Gomes de Barros, relator para o 
acórdão Ministro Ari Pargendler, Terceira Turma, julgado em 6/5/2008, DJe de 
20/11/2008). 
 
Promessa de doação 
CIVIL. PROMESSA DE DOAÇÃO VINCULADA À PARTILHA. ATO DE 
LIBERALIDADENÃO CONFIGURADO. EXIGIBILIDADE DA OBRIGAÇÃO. 
LEGITIMIDADE ATIVA. A promessa de doação feita aos filhos por seus 
genitores como condição para a obtenção de acordo quanto à partilha de bens 
havida com a separação ou divórcio não é ato de mera liberalidade e, por isso, 
pode ser exigida, inclusive pelos filhos, beneficiários desse ato. Precedentes. 
Recurso Especial provido (REsp 742048/RS, RECURSO ESPECIAL 
2005/0060590-8, RELATOR SIDNEI BENETI). 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 97 
Finalizamos a análise da instituição venire contra factum proprium. Avance 
a tela para entendermos a instituição duty to mitigate the loss. 
 
 
Atenção 
 Importante esclarecer que a promessa expressa vontade dos 
contratantes e, no âmbito da autonomia, não é sustentável 
restringir tal possibilidade somente aos negócios bilaterais 
comutativos e onerosos, sendo legítima a exigência em se 
cumprir uma liberalidade que, após a chancela estatal, deixa de 
apresentar tal caráter. 
 
Duty to mitigate the loss 
O que é duty to mitigate the loss? 
 
Veja alguns posicionamentos com relação a esse instituto jurídico. 
 
Enunciado 169 da III Jornada de Direito Civil do CJF/STJ 
“O princípio da boa-fé objetiva deve levar o credor a evitar o agravamento do 
próprio prejuízo”, ou seja, deve-se evitar o agravamento do prejuízo do 
devedor por inércia do credor. 
 
Informativo 439 do STJ 
Ilustra o posicionamento da Corte acerca da aplicação prática do duty to 
mitigate the loss, traçando o seu contorno jurídico. 
 
Trata-se de REsp em que se discute se o promitente vendedor pode ser 
penalizado pelo retardamento no ajuizamento de ação de reintegração de posse 
combinada com pedido de indenização, sob o fundamento de que a demora da 
retomada do bem deu-se por culpa do credor, em razão de ele não ter 
observado o princípio da boa-fé objetiva. Na hipótese dos autos, o promitente 
comprador deixou de efetuar o pagamento das prestações do contrato de 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 98 
compra e venda em 1994, abandonando, posteriormente, o imóvel em 9/2001. 
Contudo, o credor só realizou a defesa de seu patrimônio em 17/10/2002, data 
do ajuizamento da ação de reintegração de posse combinada com pedido de 
indenização, situação que evidencia o descaso com o prejuízo sofrido. O 
tribunal a quo assentou que, não obstante o direito do promitente vendedor à 
indenização pelo tempo em que o imóvel ficou em estado de não fruição 
(período compreendido entre a data do início do inadimplemento das 
prestações contratuais até o cumprimento da medida de reintegração de 
posse), a extensão da indenização deve ser mitigada (na razão de um ano de 
ressarcimento), em face da inobservância do princípio da boa-fé objetiva, tendo 
em vista o ajuizamento tardio da demanda competente. A Turma entendeu não 
haver qualquer ilegalidade a ser reparada, visto que a recorrente descuidou-se 
de seu dever de mitigar o prejuízo sofrido, pois o fato de deixar o devedor na 
posse do imóvel por quase sete anos, sem que ele cumprisse seu dever 
contratual (pagamento das prestações relativas ao contrato de compra e 
venda), evidencia a ausência de zelo com seu patrimônio e o agravamento 
significativo das perdas, uma vez que a realização mais célere dos atos de 
defesa possessória diminuiria a extensão do dano. Ademais, não prospera o 
argumento da recorrente de que a demanda foi proposta dentro do prazo 
prescricional, porque o não exercício do direito de modo ágil fere o preceito 
ético de não impor perdas desnecessárias nas relações contratuais. Portanto, a 
conduta da ora recorrente, inegavelmente, violou o princípio da boa-fé objetiva, 
circunstância que caracteriza inadimplemento contratual a justificar a 
penalidade imposta pela Corte originária. REsp 758.518-PR, Rel. Min. Vasco 
Della Giustina (Desembargador convocado do TJ-RS), julgado em 17/6/2010. 
 
A função de integração da boa-fé objetiva 
A função de integração da boa-fé objetiva, como visto anteriormente, dá 
origem a determinados institutos jurídicos. 
 
Importante lembrar que a boa-fé objetiva tem como finalidade determinar a 
lealdade da conduta dos contratantes no exercício de suas prestações, sob 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 99 
pena de cometerem abuso de direito (Artigo 187 do CC), o que acarreta 
responsabilidade civil, constituindo uma verdadeira cláusula geral, já que 
materializa um preceito de ordem pública. 
 
Segundo a jurisprudência do STJ, o referido princípio tem a função de limitar o 
exercício dos direitos subjetivos. 
 
A essa função, aplica-se a teoria do adimplemento substancial das 
obrigações, também relacionada à função social do contrato, e a teoria dos 
atos próprios como meio de rever a amplitude e o alcance dos deveres 
contratuais, daí derivando o instituto da supressio. 
 
Supressio 
O que é supressio? 
 
Indica a possibilidade de considerar suprimida determinada obrigação 
contratual na hipótese em que o não exercício do direito correspondente, pelo 
credor, gerar ao devedor a legítima expectativa de que este não exercício se 
prorrogará no tempo. 
 
Dessa maneira, haverá redução do conteúdo obrigacional pela inércia 
qualificada de uma das partes em exercer direito ou faculdade ao longo da 
execução do contrato, criando para a outra a sensação válida e plausível — a 
ser apurada casuisticamente — de ter havido a renúncia àquela prerrogativa. 
 
De acordo com o Informativo 478 do STJ, é possível visualizar a aplicação 
do instituto da supressio em determinado caso concreto. 
 
O recorrente firmou com a recorrida o contrato de prestação de serviços 
jurídicos com a previsão de correção monetária anual. Sucede que, durante os 
seis anos de validade do contrato, o recorrente não buscou reajustar os valores, 
o que só foi perseguido mediante ação de cobrança após a rescisão contratual. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 100 
Contudo, emerge dos autos não se tratar de simples renúncia ao direito à 
correção monetária (que tem natureza disponível), pois, ao final, o recorrente, 
movido por algo além da liberalidade, visou à própria manutenção do contrato. 
Dessarte, o princípio da boa-fé objetiva torna inviável a pretensão de exigir 
retroativamente a correção monetária dos valores que era regularmente 
dispensada, pleito que, se acolhido, frustraria uma expectativa legítima 
construída e mantida ao longo de toda a relação processual, daí se reconhecer 
presente o instituto da supressio (REsp 1.202.514-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, 
julgado em 21/6/2011). 
 
Conclui-se, portanto, que a supressio significa a supressão, por meio da 
renúncia tácita, de um direito ou de uma posição jurídica, pelo o seu não 
exercício com o decorrer do tempo. 
 
Da mesma sorte que o credor perde um direito pela inércia, surge, em favor do 
devedor, um direito que não existia juridicamente até então, que decorre da 
efetividade social, o que se denomina surrectio. 
 
Supressio e surrectio 
Colaciona-se a seguinte jurisprudência do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, 
que materializa o instituto da surrectio: 
 
DIREITO CIVIL – LOCAÇÃO RESIDENCIAL – Situação jurídica continuada ao 
arrepio do contrato. Aluguel. Cláusula de preço. Fenômeno da surrectio a 
garantir seja mantido a ajuste tacitamente convencionado. A situação criada ao 
arrepio de cláusula contratual livremente convencionada pela qual a locadora 
aceita, por certo lapso de tempo, aluguel a preço inferior àquele expressamente 
ajustado, cria, à luz do Direito Civil moderno, novo direito subjetivo, a 
estabilizar a situação de fato já consolidada, emprestígio ao princípio da boa-fé 
contratual (TJMG – 16ª Câm. Cível; ACi nº 1.0024.03.163299-5/001-Belo 
Horizonte-MG; Rel. Des. Mauro Soares de Freitas; j. 7/3/2007). 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 101 
Supressio e surrectio – Código civil 
O Código Civil atual, consubstanciado no direito civil constitucional, também 
contempla os institutos jurídicos mencionados, no disposto do Artigo 330: 
 
“O pagamento reiteradamente feito em outro local faz presumir renúncia do 
credor relativamente ao previsto no contrato”. 
 
Tal regra aplica-se à teoria do pagamento direito, existindo a possibilidade 
de modificação do local de pagamento ajustado contratualmente pelas partes 
em decorrência da renúncia tácita do credor. 
 
Há um exemplo legal disposto no Código Civil que impede a arguição da 
supressio. Trata-se do parágrafo único do Artigo 275 do CC: 
 
“O credor tem direito a exigir e receber de um ou de alguns dos devedores, 
parcial ou totalmente, a dívida comum; se o pagamento tiver sido parcial, todos 
os demais devedores continuam obrigados solidariamente pelo resto. Parágrafo 
único. Não importará renúncia da solidariedade a propositura de ação pelo 
credor contra um ou alguns dos devedores”. 
 
O Artigo 275 do CC instrumentaliza a opção de demanda nas obrigações 
solidárias passivas, ou seja, a possibilidade do credor demandar quem ele 
desejar. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 102 
 
Atenção 
 Importante mencionar que tal regra cede diante da possibilidade 
de o devedor demandado chamar os demais codevedores para 
integrarem o processo por meio do instituto jurídico processual 
denominado chamamento ao processo, conforme Artigo 77, 
III, do CPC: 
“É admissível o chamamento ao processo: III. De todos os 
devedores solidários, quando o credor exigir de um ou de alguns 
deles, parcial ou totalmente, a dívida comum”. 
 
A título de curiosidade, caso ocorra pagamento parcial da dívida, todos os 
devedores restantes, após se descontar a parte de quem pagou, continuam 
responsáveis pela dívida inteira, inclusive aquele que realizou o pagamento 
parcial, de acordo com o Enunciado 348 do CJF/STJ da IV Jornada de 
Direito Civil. 
 
O dispositivo do parágrafo único do Artigo 475 do CC afasta a supressio, ou 
seja, a perda de um direito ou de uma posição jurídica pelo seu não exercício 
no tempo. A mens legis da regra decorre do fato de que o direito material 
permite ao credor escolher com quem vai demandar (opção de demanda), mas 
isso não poderia constituir um óbice ao pleito creditório em relação aos demais 
codevedores solidários, diante de uma incapacidade financeira daquele que foi 
acionado. 
 
Tu quoque 
Pelo tu quoque, pretende-se evitar que uma pessoa que viole uma norma possa 
exercer direito desta mesma norma ou possa recorrer em defesa de normas 
que ela mesma violou. Assim, obsta que se faça com outrem o que não se quer 
seja feito consigo mesmo. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 103 
Ainda dentro dos contratos de locação, não se configura possível pactuar a 
resilição bilateral e, depois, exigir a cláusula penal imposta pela inexecução 
voluntária do contrato. Mais uma vez, tenta-se conter a ausência da boa-fé 
objetiva, uma vez que um vício de forma não é argumento plausível a fim de se 
impedir o distrato. 
 
DIREITO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. PACTUAÇÃO, POR ACORDO DE 
VONTADES, DE DISTRATO. RECALCITRÂNCIA DA DEVEDORA EM ASSINAR O 
INSTRUMENTO CONTRATUAL. ARGUIÇAO DE VÍCIO DE FORMA PELA PARTE 
QUE DEU CAUSA AO VÍCIO. IMPOSSIBILIDADE. AUFERIMENTO DE VANTAGEM 
IGNORANDO A EXTINÇÃO DO CONTRATO. DESCABIMENTO. 1. É incontroverso 
que o imóvel não estava na posse da locatária e as partes pactuaram distrato, 
tendo sido redigido o instrumento, todavia a ré locadora se recusou a assiná-lo, 
não podendo suscitar depois a inobservância ao paralelismo das formas para a 
extinção contratual. É que os institutos ligados à boa-fé objetiva, notadamente 
a proibição do venire contra factum proprium, a supressio, a surrectio e o tu 
quoque, repelem atos que atentem contra a boa-fé óbjetiva. 2. Destarte, não 
pode a locadora alegar nulidade da avença (distrato), buscando manter o 
contrato rompido, e ainda obstar a devolução dos valores desembolsados pela 
locatária, ao argumento de que a lei exige forma para conferir validade à 
avença. 3. Recurso especial não provido (REsp 1040606 / ES 
RECURSO ESPECIAL 2008/0056046-1). 
 
Atividade proposta 
Analisando a jurisprudência a seguir, resta clara a tendência do julgador em 
evidenciar a ocorrência do duty to mitigate the loss. 
 
Pergunta-se: é possível identificar a violação de outros institutos 
inerentes à boa-fé objetiva? 
 
A Turma entendeu não haver qualquer ilegalidade a ser reparada, visto que a 
recorrente descuidou-se de seu dever de mitigar o prejuízo sofrido, pois o fato 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 104 
de deixar o devedor na posse do imóvel por quase sete anos, sem que ele 
cumprisse seu dever contratual (pagamento das prestações relativas ao 
contrato de compra e venda), evidencia a ausência de zelo com seu patrimônio 
e o agravamento significativo das perdas, uma vez que a realização mais célere 
dos atos de defesa possessória diminuiria a extensão do dano. 
 
Chave de resposta: Sim. O dever de lealdade foi violado, o que evidencia a 
perda de um direito por parte do credor (supressio) e a aquisição de um direito 
por parte do devedor (surrectio). 
 
Referências 
TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. 3. ed. São Paulo: Método, 2013. 
 
Exercícios de fixação 
Questão 1 
(TJ/PE 2013 – FCC – Juiz Substituto) 
O abuso de direito acarreta: 
a) Consequências jurídicas apenas se decorrente de coação, ou de negócio 
fraudulento ou simulado. 
b) Somente a ineficácia dos atos praticados e considerados abusivos pelo 
juiz. 
c) Indenização apenas em hipóteses previstas expressamente em lei. 
d) Apenas a ineficácia dos atos praticados e considerados abusivos pela 
parte prejudicada, independentemente de decisão judicial. 
e) Indenização a favor daquele que sofrer prejuízo em razão dele. 
 
Questão 2 
(TJPE - FCC – 2011 – JUIZ) 
“Indo-se mais adiante, aventa-se a ideia de que entre o credor e o devedor é 
necessária a colaboração, um ajudando o outro na execução do contrato. A 
tanto, evidentemente, não se pode chegar, dada a contraposição de interesses, 
mas é certo que a conduta, tanto de um como de outro, subordina-se a regras 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 105 
que visam a impedir dificulte uma parte a ação da outra.” (Contratos, p. 43, 
26ª edição, Forense, 2008, Coordenador: Edvaldo Brito, Atualizadores: Antonio 
Junqueira de Azevedo e Francisco Paulo de Crescenzo Marino). Pode-se 
identificar o texto acima com o seguinte princípio aplicável ao contrato: 
a) Da intangibilidade 
b) Do consensualismo 
c) Da força obrigatória 
d) Da boa-fé 
e) Da relatividade das obrigações pactuadas 
 
Questão 3 
(TRT – 4ª Região – 2012 – FCC – Juiz do Trabalho Substituto) 
De acordo com o Código Civil: 
a) Por expressa disposição, a configuração do abuso do direito demanda a 
comprovação de culpa. 
b) A regra geral é a da responsabilidade objetiva, sendo excepcional a 
responsabilidade subjetiva. 
c) O incapaz nunca responde pelos prejuízos que causar. 
d) A ofensa à boa-fé objetiva, quando implicar danos, dá azo à obrigação 
de indenizar. 
 
Questão 4 
Assinale a alternativa incorreta acerca do abuso de direito: 
a) O Código Civil adota fórmula expressa para definir abuso de direito, 
colocando-o na categoriade ato ilícito. 
b) Ocorrerá quando o titular de um direito, ao exercê-lo, exceder os limites 
manifestamente impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé 
ou pelos bons costumes. 
c) O ato praticado deverá ser considerado contrário ao direito. 
d) Acarreta responsabilidade do agente pelos danos causados. 
e) Os atos praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um 
direito reconhecido devem ser considerados na presente categoria. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 106 
 
Questão 5 
(Pref. Teresina/PI – 2010 – FCC – Procurador Municipal) 
Para o legislador civil, o abuso do direito é um ato: 
a) Lícito, embora ilegal na aparência. 
b) Ilícito objetivo, caracterizado pelo desvio de sua finalidade social ou 
econômica ou contrário à boa-fé e aos bons costumes. 
c) Ilícito, necessitado da prova de má-fé do agente para sua caracterização. 
d) Ilícito abstratamente, mas que não implica dever indenizatório moral. 
e) Lícito, embora possa gerar a nulidade de cláusulas contratuais em 
relações consumeristas. 
 
Questão 6 
Em relação à violação dos deveres anexos do contrato, marque a opção 
incorreta: 
a) Surrectio é o surgimento de um direito diante de práticas, usos e 
costumes. 
b) No venire contra factum proprium, uma pessoa não pode exercer um 
direito próprio contrariando um comportamento anterior, ou seja, é a 
proibição de um determinado comportamento contraditório. 
c) O duty to mitigate the loss reforça o princípio da boa-fé objetiva e o da 
liberdade contratual; assim, o credor não tem nenhuma responsabilidade 
em evitar o agravamento do prejuízo suportado pelo devedor. 
d) Supressio é a perda de um direito pelo não exercício no tempo. 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 107 
Questão 7 
“Não importará renúncia da solidariedade a propositura de ação pelo credor 
contra um ou alguns dos devedores”. É possível afirmar que tal regra não 
configura um exemplo de: 
a) Supressio 
b) Venire contra factum proprium 
c) Tu quoque 
d) Duty to mitigate the loss 
 
Questão 8 
“O pagamento reiteradamente feito em outro local faz presumir renúncia do 
credor relativamente ao previsto no contrato”. É possível afirmar que tal regra 
representa um exemplo de: 
a) Supressio e surrectio 
b) Venire contra factum proprium 
c) Tu quoque 
d) Duty to mitigate the loss 
 
Questão 9 
Em relação às obrigações solidárias e aos institutos que compõem a boa-fé 
objetiva, analise as assertivas abaixo e, depois, marque a alternativa incorreta: 
a) A renúncia à solidariedade diferencia-se da remissão, em que o devedor 
fica inteiramente liberado do vínculo obrigacional, inclusive no que tange 
ao rateio da quota do eventual codevedor insolvente, nos termos do 
Artigo 284 do CC. 
b) O credor tem direito a exigir e receber de um ou de alguns dos 
devedores, parcial ou totalmente, a dívida comum, não importando 
renúncia da solidariedade a propositura de ação pelo credor contra um 
ou alguns dos devedores, o que impede a incidência da supressio. 
c) Caso ocorra pagamento parcial da dívida, todos os devedores restantes, 
após se descontar a parte de quem pagou, continuam responsáveis pela 
dívida inteira, excluindo-se aquele que realizou o pagamento parcial. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 108 
d) Todos os devedores respondem pelos juros da mora, ainda que a ação 
tenha sido proposta somente contra um; mas o culpado responde aos 
outros pela obrigação acrescida. 
 
Questão 10 
É possível afirmar que o tu quoque: 
a) Pretende evitar que uma pessoa que viole uma norma possa exercer 
direito desta mesma norma ou possa recorrer em defesa de normas que 
ela mesma violou. 
b) Significa a supressão por meio da renúncia tácita, de um direito ou de 
uma posição jurídica, pelo seu não exercício com o decorrer do tempo. 
c) Faz surgir em favor do devedor um direito que não existia juridicamente 
até então. 
d) Busca coibir o comportamento contraditório. 
 
Ato ilícito (Artigo 186 do CC): Aquele que, por ação ou omissão voluntária, 
negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que 
exclusivamente moral, comete ato ilícito. 
 
Aula 4 
Exercícios de fixação 
Questão 1 - E 
Justificativa: A jurisprudência pátria vem materializando o mencionado instituto, 
a fim de traçar o contorno jurídico da boa-fé objetiva para que seu conteúdo 
não fique ao alvedrio do julgador. Assim, visa coibir o comportamento 
contraditório dos contratantes, por configurar um dos deveres anexos inerente 
à conduta de lealdade esperada pelo homem-médio. Da função de integração, 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 109 
parte-se para a função de controle, pois tal comportamento caracteriza abuso 
de direito, sendo passível de reparação civil. 
 
Questão 2 - D 
Justificativa: A boa-fé objetiva determina que os contratantes estão obrigados a 
cumprir suas prestações de forma leal e proba, sob pena de cometerem abuso 
de direito (Artigo 187 do CC), o que acarreta responsabilidade civil, constituindo 
uma verdadeira cláusula geral, já que materializa um preceito de ordem 
pública. 
 
Questão 3 - D 
Justificativa: A inobservância dos deveres anexos gera a violação positiva do 
contrato com responsabilização daquele que desrespeita a boa-fé objetiva, 
pois cometeu abuso de direito, tendo a obrigação de indenizar os prejuízos 
causados. 
 
Questão 4 - E 
Justificativa: Conforme Artigo 188: “Não constituem atos ilícitos: I – os 
praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito 
reconhecido”. 
 
Questão 5 - B 
Justificativa: Conforme Artigo 187 do CC: “Também comete ato ilícito o titular 
de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos 
pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes”. 
 
Questão 6 - C 
Justificativa: Pelo duty to mitigate the loss, de acordo com o Enunciado 169 da 
III Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “O princípio da boa-fé objetiva deve 
levar o credor a evitar o agravamento do próprio prejuízo”, ou seja, deve-se 
evitar o agravamento do prejuízo do devedor por inércia do credor. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 110 
Questão 7 - A 
Justificativa: A supressio significa a supressão por meio da renúncia tácita, de 
um direito ou de uma posição jurídica, pelo seu não exercício com o decorrer 
do tempo. 
 
Questão 8 - A 
Justificativa: O Código Civil atual, consubstanciado no direito civil constitucional, 
também contempla os institutos da supressio e da surrectio, no disposto do 
Artigo 330. 
 
Questão 9 - C 
Justificativa: Caso ocorra pagamento parcial da dívida, todos os devedores 
restantes, após se descontar a parte de quem pagou, continuam responsáveis 
pela dívida inteira, inclusive aquele que realizou o pagamento parcial, de acordo 
com o Enunciado 348 do CJF/STJ da IV Jornada de Direito Civil. 
 
Questão 10 - A 
Justificativa: Pelo tu quoque, pretende-se evitar que uma pessoa que viole uma 
norma possa exercer direito desta mesma norma ou possa recorrer em defesa 
de normas que ela mesma violou. Assim, obsta que se faça com outrem o que 
não se quer seja feito consigo mesmo. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 111 
Introdução 
Vamos iniciar a nossa quinta aula! 
 
É possível afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o 
maior negócio jurídico, e, desta forma, a apreensão de sua formação torna-se 
um verdadeiro diferencial aos operadores do direito. 
 
Nesse contexto, abordaremos sobre o contrato considerado como negócio 
jurídicobilateral ou plurilateral que visa à criação, modificação ou extinção de 
direitos e deveres com conteúdo patrimonial, estruturando-se a partir da 
manifestação de vontade. Com a declaração objetiva, que pode ser expressa ou 
tácita, o contrato passa a produzir efeitos jurídicos. 
 
Destacam-se em sua constituição: a fase de negociações preliminares, a fase 
de proposta, a fase de contrato preliminar, a fase de contrato definitivo e a 
formação dos contratos pela via eletrônica. 
 
Objetivo: 
1. Analisar a formação dos contratos em geral a partir das fases: de negociação 
preliminar, de proposta, de contrato preliminar e de contrato definitivo; 
2. Analisar a formação dos contratos pela via eletrônica. 
Conteúdo 
Conceito de contrato 
O contrato é considerado como negócio jurídico bilateral ou plurilateral 
que visa à criação, modificação ou extinção de direitos e deveres com 
conteúdo patrimonial, estruturando-se a partir da manifestação de vontade. 
Com a declaração objetiva, que pode ser expressa ou tácita, o contrato passa a 
produzir efeitos jurídicos. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 112 
Porém, o Código Civil brasileiro não conceituou contrato, diferente do Código 
Civil italiano, que assim o fez em seu Artigo 1.321, tarefa então assumida pela 
doutrina. 
 
Importante destacar que, por negócio jurídico, entende-se que o contrato é 
considerado um ato jurígeno, ou seja, de interesse para direito e, assim, 
passível de regulamentação. Tal regulamentação é dividida no Código Civil em 
teoria geral dos contratos (Artigos 421 a 480) e contratos em espécie (Artigos 
481 a 853). 
 
Características do contrato 
Atualmente, contrato comporta marcas distintas de seu correspondente 
tradicional, à luz da personalização e constitucionalização do direito civil; sendo 
assim, são suas características: 
 
O contratante deve preocupar-se com a realidade social na qual está 
inserido; com isto, o conceito clássico de contrato diferencia-se, 
substancialmente, do conceito moderno, que leva em consideração o 
atendimento dos interesses básicos da coletividade, de acordo com o 
princípio da função social do contrato. 
 
O contrato constitui a fonte principal do direito das obrigações. 
 
O contrato encontra-se amparado por valores constitucionais, com 
destaque para a dignidade da pessoa humana, a isonomia e a solidariedade. 
 
Pelo contrato,circulação de riquezas busca-se a circulação de riquezas, 
evitando a insegurança jurídica, tornando clara a manifestação de vontade e 
os efeitos desejados, além de proteger terceiros. 
 
Fases da formação contratual 
Você sabe quais são as fases da formação contratual? 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 113 
 
 Fase de negociações preliminares 
 Fase de proposta 
 Fase de contrato preliminar 
 Fase de contrato definitivo 
 Formação dos contratos pela via eletrônica 
 
Fase de negociações preliminares ou de puntuação 
Na fase de puntuação, ocorrem as negociações preliminares, ou seja, os 
debates prévios visando à formação do contrato definitivo, não estando 
disciplinada no Código Civil brasileiro. 
 
O inadimplemento obrigacional é uma das preocupações do legislador, que 
estrutura um arsenal normativo a fim de responsabilizar àquele que descumpre 
com sua prestação por culpa. 
 
A fase de negociações preliminares ou de puntuação não se encontra 
regulamentada no ordenamento civil nacional; assim, duas correntes 
apresentam-se quanto à responsabilização pelo seu descumprimento. 
 
Corrente majoritária na doutrina 
A corrente majoritária na doutrina, capitaneada por Maria Helena Diniz, 
defende que não há responsabilidade patrimonial em decorrência do 
descumprimento das negociações preliminares, sob o argumento de que ainda 
não existe contrato, não vinculando, desta forma, os sujeitos. 
 
Corrente minoritária na doutrina 
A corrente minoritária na doutrina, mas majoritária na jurisprudência, 
conduzida por Flávio Tartuce, sustenta que, apesar de não haver vinculação 
entre as partes, há responsabilidade civil contratual em função dos 
Enunciados 25 e 170 das Jornadas de Direito Civil do CJF/STJ, que reconhecem 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 114 
a aplicação da boa-fé em todas as fases do contrato. Assim, quem desrespeita 
a boa-fé objetiva comete abuso de direito, o que gera a obrigação de indenizar. 
 
Fase de proposta, policitação ou oblação 
Na fase de proposta, policitação ou oblação (Artigos 427 a 435 do CC), ocorre 
uma declaração unilateral de vontade receptícia, ou seja, só produz efeitos ao 
ser recebida pela outra parte. Diferente da fase de negociações preliminares, a 
fase de proposta foi disciplinada pelo legislador civil, que determina que a 
proposta vincula o proponente, gerando responsabilidade, conforme Artigo 
427 do CC. 
 
Importante mencionar que a proposta no âmbito do direito do consumidor 
também vincula o proponente (Artigo 30 do CDC: “Toda informação ou 
publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de 
comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, 
obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato 
que vier a ser celebrado”). Dentro do direito civil, porém, a propugnada 
vinculação cede diante da autonomia privada, até porque o proponente não 
exerce, nesta esfera, atividade empresarial, o que acaba por esvaziar a norma. 
 
Vamos exemplificar? 
Imagine que “A” deseja vender seu automóvel pelo preço de cinquenta mil 
reais, anunciando-o em jornal de grande circulação. Caso “B” se interesse pelo 
bem, “A” não é obrigado a vendê-lo para ele, pois a negociação decorre do 
acordo de vontades. 
 
Diferente ocorre no âmbito consumerista. Se a concessionária “X” anuncia a 
venda de automóveis pelo preço de cinquenta mil reais, o consumidor 
interessado poderá reivindicar a celebração do contrato, enquanto durar a 
oferta e os automóveis no estoque. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 115 
Em continuidade à fase de proposta, avance e entenda a proposta entre 
ausentes e presentes. 
 
Proposta entre ausentes e presentes 
O Artigo 428 do CC elenca as hipóteses em que a proposta deixa de ser 
obrigatória, diferenciando a proposta entre ausentes e presentes. 
 
Presentes 
Entre presentes, a proposta pode ou não estipular prazo para aceitação. 
 
Sem prazo 
A aceitação deverá ser imediata. 
 
Com prazo 
Deverá ser pronunciada no prazo concedido, sob pena de reputar-se não aceita, 
ressalvados os casos de aceitação tácita (Artigo 432 do CC). 
 
Ausentes 
Entre ausentes, é necessário realizar a análise sobre o prazo. 
 
Teoria da recepção 
O Artigo 434, caput, do CC elege a teoria da expedição como a regra no direito 
brasileiro. Com isso, a proposta vinculará o proponente no momento em que a 
aceitação for expedida. 
Teoria da expedição 
Caso o proponente determine na proposta que esta somente começará a 
produzir efeitos jurídicos a partir de sua recepção, a teoria será da recepção, 
nos moldes do inciso II do Artigo 434 do CC, constituindo, pois, a exceção. 
 
Fase de contrato preliminar 
A fase de contrato preliminar (Artigos 462 a 466 do CC) foi regulamentada pelo 
Código Civil de 2002, não sendo obrigatória, constituindo seu exemplo mais 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 116 
comum a promessa de compra e venda, pois, pelo Artigo 462 do CC, o contrato 
preliminar, exceto quanto à forma, terá os mesmos elementos do contrato 
definitivo. 
 
Importante destacar que tal fase também gera efeitos jurídicos,vinculando as 
partes quanto à obrigação de celebrar o contrato definitivo, podendo assumir 
duas modalidades: 
 
Compromisso unilateral de contrato 
Quando as duas partes assinam o instrumento, apenas uma delas assume o 
compromisso de celebrar o contrato definitivo, nos moldes do Artigo 466 do CC. 
 
Compromisso bilateral de contrato 
Quando as duas partes assinam o instrumento, ambas assumem o 
compromisso de celebrar o contrato definitivo, nos moldes do Artigo 463 do 
CC. 
 
O que ocorre após a conclusão do contrato preliminar? 
Segundo dispõe o Artigo 463 do CC, concluído o contrato preliminar, desde 
que dele não conste cláusula de arrependimento, qualquer das partes terá o 
direito de exigir a celebração do definitivo, assinando prazo à outra para que o 
efetive. Pelo parágrafo único do mesmo artigo, o contrato preliminar deverá 
ser levado ao registro competente. 
 
De acordo com o Enunciado 30 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: 
 
“A disposição do parágrafo único do Artigo 463 do novo Código Civil deve ser 
interpretada como fator de eficácia perante terceiros”. 
 
Assim, limita-se a abrangência do dispositivo à relação com terceiros de boa-fé, 
não constituindo a ausência de registro um óbice à adjudicação compulsória do 
bem... 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 117 
 
... como determina a Súmula nº 239 do STJ: 
 
“O direito à adjudicação compulsória não se condiciona ao registro do 
compromisso de compra e venda no cartório de imóveis”. 
 
Importante registrar que o Artigo 1.417 do CC possui disposição em sentido 
diverso: “Mediante promessa de compra e venda, em que se não pactuou 
arrependimento, celebrada por instrumento público ou particular, e registrada 
no Cartório de Registro de Imóveis, adquire o promitente comprador direito real 
à aquisição do imóvel”. 
 
Fase de contrato definitivo 
 
É a fase em que ocorre o aperfeiçoamento contratual por meio do encontro de 
vontades, gerando responsabilidade civil contratual, conforme Artigos 389 e 
391 do CC. 
 
Importante estabelecer a diferença entre responsabilidade contratual e 
responsabilidade extracontratual. Acompanhe a seguir. 
 
Não cumprindo o sujeito passivo a prestação, passa a responder pelo valor 
correspondente ao objeto obrigacional, acrescido das demais perdas e danos, 
mais juros compensatórios, cláusula penal (se houver), atualização monetária, 
custas e honorários de advogado. Essa é a regra do Artigo 389 do CC, que 
trata da responsabilidade civil contratual. 
 
Vale dizer que dentro da concepção civil-constitucional, tratando-se de 
responsabilidade civil contratual, deve-se entender que a expressão “perdas e 
danos” inclui os danos materiais (danos emergentes e lucros cessantes, nos 
termos dos Artigos 402 a 404 do CC), bem como danos morais (Artigo 5º, 
V e X, da CF). 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 118 
 
Não se deve confundir com a responsabilidade extracontratual ou 
aquiliana, cuja fundamentação encontra-se nos Artigos 186 e 927 do CC. 
 
Contextualização sobre a formação do contrato pela via 
eletrônica 
 
Neste tópico, será evidenciada a formação do contrato pela via eletrônica 
diante da atual sociedade, que vem pactuando suas negociações por meio da 
internet. 
 
O legislador brasileiro não cuidou de forma específica de sua regulamentação, 
nem no Código Civil, nem no Código de Defesa do Consumidor. 
 
Tal fato não obsta a aplicação dos diplomas mencionados de acordo com a 
situação fático-jurídica, cabendo ao Poder Judiciário o preenchimento das 
lacunas ante as peculiaridades do contrato eletrônico. 
 
Convém citar a existência da Medida Provisória nº 2.200/2001, que trata 
da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira, disciplinando a 
integridade, autenticidade e validade dos documentos públicos. 
 
Vamos em frente! Avance e entenda a aplicação do código do consumidor 
aos contratos eletrônicos. 
 
Aplicação do Código de Defesa do Consumidor aos contratos 
eletrônicos 
O CDC deverá ser aplicado para disciplinar o contrato eletrônico, respeitando: 
 
• A declaração de nulidade de cláusulas abusivas (Artigo 51 do CDC); 
• A proteção do consumidor em juízo; 
• A inversão do ônus da prova; 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 119 
• O ajuizamento da ação no foro de domicílio do consumidor; 
• A vinculação da proponente em relação à oferta feita ao público; 
• O direito de arrependimento; 
• A responsabilidade do fornecedor; 
• Os prazos prescricionais etc. 
 
Diante de um contrato eletrônico internacional, não se deverá aplicar o 
Código de Defesa do Consumidor, pois a lei a ser aplicada deverá ser aquela do 
domicílio do proponente, de acordo com o Artigo 9º, §2º, da Lei de 
Introdução às Normas do Direito Brasileiro: 
 
“Para qualificar e reger as obrigações, aplicar-se-á a lei do país em que se 
constituírem. §2º A obrigação resultante do contrato reputa-se constituída no 
lugar em que residir o proponente”. 
 
Nesse contexto, é importante transcrever as palavras de Gonçalves: 
 
“Assim, malgrado o Código de Defesa do Consumidor brasileiro (Artigo 51, I), 
por exemplo, considere abusiva e não admita a validade de cláusula que 
reduza, por qualquer modo, os direitos do consumidor (cláusula de não 
indenizar), o internauta brasileiro pode ter dado sua adesão a uma proposta de 
empresa ou comerciante estrangeiro domiciliado em país cuja legislação admita 
tal espécie de cláusula, especialmente quando informada com clareza aos 
consumidores. E, nesse caso, não terá o aderente como evitar a limitação de 
seu direito”. 
 
Em relação ao ajuizamento de uma possível ação, deve-se aplicar o CDC à 
espécie, tendo o consumidor brasileiro o direito de demandar quaisquer ações 
fundadas na responsabilidade do fornecedor perante o foro de seu próprio 
domicílio, mas deverá o julgador aplicar o direito material alienígena. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 120 
Formação do contrato pela via eletrônica 
A formação do contrato pela via eletrônica pode ocorrer por meio de proposta, 
que, tal como acontece na esfera cível, pode surgir entre presentes ou 
ausentes. Depende, para tanto, aferir se operou de forma instantânea ou não. 
 
Proposta será entre presentes 
Se for instantânea, ou seja, quando o intervalo entre a oferta e a aceitação 
puder ser desconsiderado (ex.: chat, Messenger etc.). 
 
Proposta será entre ausentes 
Quando existir um prazo considerável entre a oferta e a aceitação (ex.: e-mail). 
 
Diante de uma proposta entre ausentes, surge uma nova dúvida: 
 
Aplica-se a teoria da expedição, nos moldes do Artigo 434 do CC, ou a 
teoria da recepção? 
 
O Enunciado 173 da III Jornada de Direito Civil do CJF/STJ assim determina: 
“A formação dos contratos realizados entre pessoas ausentes por meio 
eletrônico completa-se com a recepção da aceitação pelo proponente”. 
Dessa forma, prevalece a teoria da recepção na formação dos contratos 
eletrônicos. 
 
A visão jurisprudencial acerca dos contratos eletrônicos 
Doutrina 
Segundo a melhor doutrina, não existe responsabilidade do estabelecimento 
eletrônico onde é feito o anúncio, pois exerce a função somente de veículo, 
sendo que as cautelas devem ser tomadas pelo anunciante e fornecedor de 
produtos e serviços como o único responsável pelas informações veiculadas. 
 
Jurisprudência 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 121 
A jurisprudência diverge em relação à responsabilidade do estabelecimento 
eletrônico. Quando atua como intermediário da transação, o STJ vem 
entendendo que não sepode delegar a responsabilidade exclusivamente ao 
consumidor, bem como deve ser considerada abusiva a cláusula que exonera o 
estabelecimento eletrônico de toda e qualquer responsabilidade, pois decorre 
do risco de sua atividade empresarial. 
 
A Turma julgou procedente recurso do consumidor que assinara contrato de 
gestão de pagamento com a empresa Mercado Livre. No acordo, ficou 
formalmente estipulado que a empresa intermediadora se comprometeria a 
notificar a recepção dos valores ao comprador e ao vendedor do produto dentro 
do prazo referido na página do site Mercado Pago. A empresa enviaria 
mensagens eletrônicas comunicando a venda ou a compra de itens levados ao 
leilão eletrônico. Sabedor disso, um terceiro demonstrou interesse em adquirir o 
produto posto à venda e, pouco após, fazendo-se passar pela empresa 
intermediadora, utilizou seu correio eletrônico para enviar e-mail ao vendedor 
no qual informou falsamente que o valor referente à compra do bem já se 
encontrava à disposição e que o bem já poderia ser enviado ao comprador. 
Apesar de o consumidor não ter seguido rigorosamente o procedimento 
sugerido no site quanto à confirmação do depósito, mediante verificação na 
conta respectiva constante em página do site antes de enviar o produto, agiu 
de boa-fé, certo de que o pagamento já estaria de posse do serviço de 
intermediação do negócio e de que lhe seria disponibilizado assim que o 
comprador acusasse o recebimento do produto vendido. Destarte, tal exigência 
de confirmação da veracidade do e-mail, recebido em nome do site, não 
constava do contrato de adesão. Em seu voto, a Min. Relatora ressaltou que o 
objetivo da contratação do serviço de intermediação é exatamente proporcionar 
segurança ao comprador e ao vendedor quanto ao recebimento da prestação 
estipulada. Sob essa perspectiva, o descumprimento pelo consumidor da 
aludida providência, a qual sequer consta do contrato de adesão, não é 
suficiente para eximir o recorrido da responsabilidade pela segurança do 
sistema por ele implementado, sob pena de transferência ilegal de um ônus 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 122 
próprio da atividade empresarial por ele explorada. Trata-se, portanto, de 
estipulação de cláusula exoneratória ou atenuante de responsabilidade, 
terminantemente vedada pelo Código de Defesa do Consumidor. Não se 
justifica, pois, que procedimentos fundamentais à segurança de sistema de 
mediação eletrônica de pagamentos explorados por empresa comercial sejam 
atribuídos à responsabilidade exclusiva do usuário do serviço. E, 
complementando o voto, a Min. Relatora arrematou que a ausência de 
mecanismo de autenticação digital de mensagens consentâneo com as 
exigências das modernas atividades empresariais que se desenvolvem no 
ambiente virtual configura grave falha de segurança que não deve ser imputada 
ou suportada pelo consumidor, mas pela empresa que assume o risco da 
atividade econômica. REsp 1.107.024-DF, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, 
julgado em 1º/12/2011. 
 
Quando atua como mero hospedeiro de mensagens, o STJ vem entendendo 
não haver sua responsabilidade em relação ao conteúdo ofensivo feito por 
parte dos usuários. De outra sorte, seu dever é retirar a mensagem para não 
agravar o dano do ofendido. 
 
CIVIL E CONSUMIDOR. INTERNET. RELAÇÃO DE CONSUMO. INCIDÊNCIA DO 
CDC. PROVEDOR DE CONTEÚDO. FISCALIZAÇÃO PRÉVIA DO CONTEÚDO 
POSTADO NO SITE PELOS USUÁRIOS. DESNECESSIDADE. MENSAGEM DE 
CUNHO OFENSIVO. DANO MORAL. RISCO INERENTE AO NEGÓCIO. 
INEXISTÊNCIA. CIÊNCIA DA EXISTÊNCIA DE CONTEÚDO ILÍCITO. RETIRADA 
DO AR EM 24 HORAS. DEVER. SUBMISSÃO DO LITÍGIO DIRETAMENTE AO 
PODER JUDICIÁRIO. CONSEQUÊNCIAS. DISPOSITIVOS LEGAIS ANALISADOS: 
ARTS. 14 DO CDC E 927 DO CC/02. 2. Recurso especial em que se discute os 
limites da responsabilidade de provedor de rede social de relacionamento via 
Internet pelo conteúdo das informações veiculadas no respectivo site. 3. A 
exploração comercial da internet sujeita as relações de consumo daí advindas à 
Lei nº 8.078/90. 4. A fiscalização prévia, pelo provedor de conteúdo, do teor 
das informações postadas na web por cada usuário não é atividade intrínseca 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 123 
ao serviço prestado, de modo que não se pode reputar defeituoso, nos termos 
do art. 14 do CDC, o site que não examina e filtra os dados e imagens nele 
inseridos. 5. O dano moral decorrente de mensagens com conteúdo ofensivo 
inseridas no site pelo usuário não constitui risco inerente à atividade dos 
provedores de conteúdo, de modo que não se lhes aplica a responsabilidade 
objetiva prevista no art. 927, parágrafo único, do CC/02. 6. Ao ser comunicado 
de que determinada postagem possui conteúdo potencialmente ilícito ou 
ofensivo, "deve o provedor removê-la preventivamente no prazo de 24 horas, 
até que tenha tempo hábil para apreciar a veracidade das alegações do 
denunciante, de modo a que, confirmando-as, exclua definitivamente o vídeo 
ou, tendo-as por infundadas, restabeleça o seu livre acesso, sob pena de 
responder solidariamente com o autor direto do dano em virtude da omissão 
praticada. 7. Embora o provedor esteja obrigado a remover conteúdo 
potencialmente ofensivo assim que tomar conhecimento do fato (mesmo que 
por via extrajudicial), ao optar por submeter a controvérsia diretamente ao 
Poder Judiciário, a parte induz a judicialização do litígio, sujeitando-o, a partir 
daí, ao que for deliberado pela autoridade competente. A partir do momento 
em que o conflito se torna judicial, deve a parte agir de acordo com as 
determinações que estiverem vigentes no processo, ainda que, posteriormente, 
haja decisão em sentido contrário, implicando a adoção de comportamento 
diverso. Do contrário, surgiria para as partes uma situação de absoluta 
insegurança jurídica, uma incerteza sobre como se conduzir na pendência de 
trânsito em julgado na ação. 8. Recurso especial provido. 
 
Atividade proposta 
Segundo dispõe o Artigo 463 do CC, concluído o contrato preliminar, desde que 
dele não conste cláusula de arrependimento, qualquer das partes terá o direito 
de exigir a celebração do definitivo, assinando prazo à outra para que o efetive. 
Pelo parágrafo único do mesmo artigo, o contrato preliminar deverá ser levado 
ao registro competente. De acordo com o Enunciado 30 da I Jornada de Direito 
Civil do CJF/STJ: “A disposição do parágrafo único do Artigo 463 do novo 
Código Civil deve ser interpretada como fator de eficácia perante terceiros”. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 124 
Assim, limita-se a abrangência do dispositivo à relação com terceiros de boa-fé, 
não constituindo a ausência de registro um óbice à adjudicação compulsória do 
bem, como determina a Súmula nº 239 do STJ: “O direito à adjudicação 
compulsória não se condiciona ao registro do compromisso de compra e venda 
no cartório de imóveis”. 
 
Importante registrar que o Artigo 1.417 do CC possui conteúdo em sentido 
diverso: “Mediante promessa de compra e venda, em que se não pactuou 
arrependimento, celebrada por instrumento público ou particular, e registrada 
no Cartório de Registro de Imóveis, adquire o promitente comprador direito real 
à aquisição do imóvel”. 
 
Com base no texto, foi possível perceber que o promitente-comprador possui o 
direito de adjudicar o bem, independentemente de registro da promessa de 
compra e venda. Pergunta-se: se o bem estiver com um terceiro de boa-fé, o 
direito de adjudicar prevalece, mesmo sem registro da promessa de compra e 
venda? 
 
Chave de resposta: Não. Pelo Artigo 1.418 do CC, que explicita que “o 
promitente comprador, titular de direito real,pode exigir do promitente 
vendedor, ou de terceiros, a quem os direitos deste forem cedidos, a outorga 
da escritura definitiva de compra e venda, conforme o disposto no instrumento 
preliminar; e, se houver recusa, requerer ao juiz a adjudicação do imóvel”, e 
pelo Enunciado 30 da I Jornada de Direito Civil. 
Referências 
GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. 11. ed. São Paulo: 
Saraiva, 2014. p. 86. 
 
Exercícios de fixação 
Questão 1 
(OAB) 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 125 
Durante dez anos, empregados de uma fabricante de extrato de tomate 
distribuíram, gratuitamente, sementes de tomate entre agricultores de uma 
certa região. A cada ano, os empregados da fabricante procuravam os 
agricultores, na época da colheita, para adquirir a safra produzida. No ano de 
2009, a fabricante distribuiu as sementes, como sempre fazia, mas não 
retornou para adquirir a safra. Procurada pelos agricultores, a fabricante 
recusou-se a efetuar a compra. O tribunal competente entendeu que havia 
responsabilidade pré-contratual da fabricante. A responsabilidade pré-contratual 
é aquela que: 
a) Deriva da violação à boa-fé objetiva na fase das negociações 
preliminares à formação do contrato. 
b) Deriva da ruptura de um pré-contrato, também chamado contrato 
preliminar. 
c) Surgiu, como instituto jurídico, em momento histórico anterior à 
responsabilidade contratual. 
d) Segue o destino da responsabilidade contratual, como o acessório segue 
o principal. 
 
Questão 2 
Quanto à formação dos contratos, analise as assertivas abaixo e, depois, 
marque a alternativa incorreta: 
a) A oferta ao público equivale à proposta quando encerra os requisitos 
essenciais ao contrato, salvo se o contrário resultar das circunstâncias ou 
dos usos. 
b) A aceitação da proposta fora do prazo, com adições, restrições ou 
modificações, importará nova proposta. 
c) A regra geral é de que os contratos entre ausentes tornem-se perfeitos 
desde que a aceitação seja expedida. 
d) Concluído o contrato preliminar, qualquer das partes terá o direito de 
exigir a celebração do definitivo, assinando prazo à outra para que o 
efetive. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 126 
Questão 3 
(FGV – 2012 – PC-MA – Delegado de Polícia) 
A respeito da formação dos contratos, assinale a afirmativa incorreta. 
a) Considera-se celebrado o contrato no lugar em que foi proposto. 
b) A proposta deixa de ser obrigatória se, feita sem prazo à pessoa 
presente, não foi imediatamente aceita. 
c) Será considerada nova proposta a aceitação fora do prazo, com adições, 
restrições ou modificações. 
d) A proposta de contrato obriga o proponente se o contrário não resultar 
dos termos dela, da natureza do negócio, ou das circunstâncias do caso. 
e) Continua sendo obrigatória a proposta mesmo se, antes dela, ou 
simultaneamente, chegar ao conhecimento da outra parte a retratação 
do proponente. 
 
Questão 4 
(TJ-PR – 2012 – TJ-PR – Assessor Jurídico) 
Relativamente à disciplina dos contratos no Código Civil, assinale a alternativa 
correta. 
a) A proposta deixa de ser obrigatória se, antes dela, ou simultaneamente, 
chegar ao conhecimento da outra parte a retratação do proponente. 
b) Os princípios de probidade e boa-fé têm vez apenas na conclusão do 
contrato. 
c) Os contratos de adesão são previstos apenas pelo Código de Defesa do 
Consumidor. 
d) Os contratos entre ausentes tornam-se perfeitos desde que a aceitação 
seja expedida, ainda que o proponente tenha se comprometido a esperar 
resposta. 
 
Questão 5 
(EJEF – 2008 – TJ-MG – Juiz) 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 127 
Quanto à formação dos contratos, no sistema do Código de Defesa do 
Consumidor, a oferta vincula o fornecedor ou ofertante. No entanto, deixa de 
ser obrigatória a proposta nas seguintes hipóteses, EXCETO: 
a) Se feita sem prazo à pessoa presente, não foi imediatamente aceita. 
b) Se feita sem prazo à pessoa ausente, tiver decorrido tempo suficiente 
para chegar a resposta ao conhecimento do proponente. 
c) Se feita à pessoa ausente, tiver sido expedida a resposta dentro do prazo 
dado. 
d) Se, antes dela, ou simultaneamente, chegar ao conhecimento da outra 
parte a retratação do proponente. 
 
Questão 6 
Diante da formação do contrato pela via eletrônica, caso a negociação tenha 
acontecido entre ausentes, segundo a doutrina, prevalecerá em relação ao 
recebimento da aceitação pelo proponente: 
a) A teoria da expedição 
b) A teoria da recepção 
c) A teoria declaratória 
d) A teoria da inércia 
 
Questão 7 
(CESPE – 2013 – TRE-MS – Analista Judiciário – Área Administrativa) 
Assinale a opção correta acerca dos contratos e da responsabilidade civil. 
a) Conforme a teoria da cognição, o contrato entre ausentes será 
considerado formado mesmo que a resposta do destinatário da proposta 
não chegue ao conhecimento do proponente. 
b) Diante de cláusulas ambíguas ou contraditórias em um contrato de 
adesão, a interpretação deve favorecer aquele que assinou primeiro, pois 
teve um tempo menor para ler e compreender o contrato. 
c) Os atos praticados na etapa pré-contratual não são capazes de gerar 
responsabilidade civil, que é típica daqueles atos praticados na vigência 
do contrato. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 128 
d) Na hipótese de envio de uma proposta por e-mail, como policitante não 
se encontra na presença do oblato, a proposta feita será considerada 
entre ausentes. 
 
Questão 8 
(CESPE – 2008 – STF – Analista Judiciário – Área Judiciária) 
Feita a proposta entre presentes, a aceitação deve dar-se dentro do prazo 
estabelecido e, não havendo prazo, deve ser imediata, visto que, do contrário, 
a proposta deixa de ser obrigatória. Nesse sentido, a aceitação por parte do 
destinatário da proposta formaliza o contrato, uma vez que se atinge a 
convergência de vontades, elemento essencial aos contratos. Certo ou errado? 
a) Certo 
b) Errado 
 
Questão 9 
O contrato eletrônico internacional, pactuado no Brasil, é regido por qual 
norma? 
a) Código de Defesa do Consumidor 
b) Norma do país do proponente 
c) Norma que foi definida contratualmente 
d) Norma de Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira 
 
Questão 10 
A proposta de contrato obriga o proponente, se o contrário não resultar dos 
termos dela, da natureza do negócio, ou das circunstâncias do caso, exceto: se 
feita sem prazo à pessoa presente, não foi imediatamente aceita; se feita sem 
prazo à pessoa ausente, tiver decorrido tempo suficiente para chegar a 
resposta ao conhecimento do proponente; se feita à pessoa ausente, não tiver 
sido expedida a resposta dentro do prazo dado; se, antes dela, ou 
simultaneamente, chegar ao conhecimento da outra parte a retratação do 
proponente. Na hipótese da aceitação, chegar tarde ao conhecimento do 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 129 
proponente por circunstância imprevista, este comunicá-lo-á imediatamente ao 
aceitante, sob pena de responder por perdas e danos. Certo ou errado? 
a) Certo 
b) Errado 
 
Validade dos documentos públicos: A certeza jurídica da autenticidade da 
assinatura digital tem levado a jurisprudência a equiparar tal assinatura àquela 
que foi realizada por escrito pelo contratante. 
 
Aula 5 
Exercícios de fixação 
Questão 1 - A 
Justificativa: A corrente minoritária na doutrina, mas majoritária na 
jurisprudência, conduzida por Flávio Tartuce, sustenta que, apesar de não 
haver vinculação entre as partes, há responsabilidade civil contratual na fase de 
negociações preliminares em função dos Enunciados25 e 170 das Jornadas de 
Direito Civil do CJF/STJ, que reconhecem a aplicação da boa-fé em todas as 
fases do contrato. 
 
Questão 2 - D 
Justificativa: Conforme Artigo 463 do CC. 
 
Questão 3 - E 
Justificativa: Conforme Artigo 428, IV, do CC. 
 
Questão 4 - A 
Justificativa: Conforme Artigo 428, IV, do CC. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 130 
Questão 5 - C 
Justificativa: Conforme Artigo 428, III, do CC. 
 
Questão 6 - B 
Justificativa: O Enunciado 173 da III Jornada de Direito Civil do CJF/STJ assim 
determina: “A formação dos contratos realizados entre pessoas ausentes por 
meio eletrônico completa-se com a recepção da aceitação pelo proponente”. 
 
Questão 7 - D 
Justificativa: A proposta será entre ausentes quando existir um prazo 
considerável entre a oferta e a aceitação (ex.: e-mail). 
 
Questão 8 - A 
Justificativa: Conforme Artigos 428 e 434, caput, do CC. 
 
Questão 9 - B 
Justificativa: De acordo com o Artigo 9º, §2º, da Lei de Introdução às Normas 
do Direito Brasileiro: “Para qualificar e reger as obrigações, aplicar-se-á a lei do 
país em que se constituírem. §2º A obrigação resultante do contrato reputa-se 
constituída no lugar em que residir o proponente”. 
 
Questão 10 - A 
Justificativa: Conforme Artigos 427, 428 e 430, do CC. 
Para os exercícios de autocorreção, não podemos ter questões discursivas. Por 
favor, reformular. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 131 
Introdução 
É possível afirmar que, na sociedade atual, o contrato se corporifica como o 
maior negócio jurídico; desta forma, a análise das premissas para sua revisão 
judicial torna-se um verdadeiro diferencial aos operadores do direito. 
 
O Direito Civil contemporâneo vem incorporando o fenômeno de 
constitucionalização aos seus institutos, o que acaba por modificar os critérios 
de interpretação e aplicação do negócio jurídico. 
 
Para tanto, a materialização dos princípios constitucionais às relações privadas, 
antes submissas ao império da autonomia privada sem limites e do seu 
correlato pacta sunt servanda, tornou-se uma realidade a partir do respeito aos 
valores da isonomia, da dignidade da pessoa humana, da solidariedade, dentre 
outros, pelos tribunais brasileiros. 
 
A revisão judicial dos contratos é o mecanismo que vem concretizando o 
mencionado fenômeno em decorrência da possibilidade de intromissão estatal 
nas relações privadas. Aqui, a teoria da imprevisão adquire importância vital, 
delegando ao Judiciário a prerrogativa de rever ou extinguir um acordo diante 
da onerosidade excessiva. 
 
Esse é o tema que veremos nesta aula. 
Bons estudos! 
 
Objetivo: 
1. Analisar o arcabouço conceitual da revisão judicial dos contratos; 
2. Analisar a influência do direito civil-constitucional à revisão judicial dos 
contratos a partir da análise jurisprudencial. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 132 
Conteúdo 
Revisão judicial dos contratos 
A revisão judicial dos contratos é tema de importância fundamental em 
decorrência de sua aplicabilidade prática. 
 
Para que o Poder Judiciário possa realizá-la, existe a necessidade de amparar-
se em determinadas premissas para que sua função social não se transforme 
em condutas injustas. 
 
Diante da possibilidade de inadimplemento obrigacional, a extinção 
contratual deve ser a última medida, preferindo-se, sempre, a revisão. 
 
Tal conclusão acaba por respeitar a conservação do negócio jurídico, a 
função social do contrato em sua eficácia interna e a própria 
autonomia privada, pois, presume-se que os contratantes, ao celebrarem 
dada pactuação, desejaram a produção de efeitos jurídicos. 
 
O tema desdobra-se em: 
 
Revisão judicial, quando há um conflito de interpretação de cláusulas entre os 
contratantes. 
 
Revisão judicial, diante da abusividade de cláusulas contratuais. 
 
Revisão judicial, quando ocorre fato imprevisível que modifique 
substancialmente o conjunto contratual. 
 
Avance a tela e confira cada um desses tópicos. 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 133 
Quando há um conflito de interpretação de cláusulas 
O que fazer? 
Instaurado o conflito acerca da interpretação do contrato, paralisam-se os 
efeitos do referido negócio jurídico e, consequentemente, a sua execução, 
cabendo ao Poder Judiciário dirimir a controvérsia, declarando, com força 
vinculativa para as partes, o sentido da palavra, frase ou cláusula controversa. 
 
O que deve prevalecer? 
Quando determinada cláusula se mostra obscura e passível de dúvida, alegando 
um dos contratantes que não representa com fidelidade a vontade manifestada 
na celebração do acordo, e tal alegação resta provada, deve prevalecer a 
declaração em detrimento da literalidade do texto, pois, nos termos do Artigo 
112 do CC: 
 
“Nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas 
consubstanciada do que ao sentido literal da linguagem”. 
 
Que princípio considerar? 
 
Pelo princípio da conservação do negócio jurídico, entende-se que, se 
uma cláusula contratual permitir duas interpretações diferentes, prevalecerá a 
que possa produzir algum efeito, pois não se deve presumir que os 
contratantes tenham celebrado um contrato carecedor de qualquer 
utilidade. Esse princípio informa a denominada conversão substancial do 
negócio jurídico. 
 
Exemplo 
Se as partes celebraram um contrato de compra e venda de imóvel sem 
atenção às formalidades exigidas por lei, pode-se considerar o negócio como 
uma promessa de compra e venda, que não exige forma solene, a fim de se 
aproveitar a vontade das partes, conforme Artigo 170 do CC: 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 134 
“Se, porém, o negócio jurídico nulo contiver os requisitos de outro, subsistirá 
este quando o fim a que visavam as partes permitir supor que o teriam querido, 
se houvessem previsto a nulidade”. 
 
Importante destacar que a intenção das partes é mais importante do que a 
formalidade, pois o Artigo 170 do CC deve prevalecer, de acordo com o Artigo 
166, IV, do CC: “É nulo o negócio jurídico quando. IV. Não revestir a forma 
prescrita em lei”. 
 
Ainda em relação à conservação do contrato, importante transcrever o 
Enunciado 22 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: 
 
“A função social do contrato, prevista no Artigo 421 do novo Código Civil, 
constitui cláusula geral que reforça o princípio de conservação do contrato, 
assegurando trocas úteis e justas”. 
 
Conclui-se, portanto, pela necessidade do julgador em preservar a pactuação 
estabelecida pelas partes, a fim de se materializar, por via indireta, a própria 
função social do contrato. 
 
Diante da abusividade de cláusulas contratuais 
O que o juiz pode fazer diante da abusividade de cláusulas contratuais 
considerando a função social do contrato? 
 
Segundo a melhor doutrina, ao se referir à função social do contrato, sendo 
esta formada por normas de ordem pública, o juiz pode aplicar as cláusulas 
gerais em qualquer ação judicial, independentemente de pedido da parte 
ou do interessado, pois deve agir de ofício. 
 
O que o juiz pode fazer diante da abusividade de cláusulas contratuais 
considerando a função social do contrato? 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 135 
Com isso, ainda que, por exemplo, o autor da ação de revisão contratual 
não haja pedido na inicial algo relativo à determinada cláusula geral, o juiz 
pode, de ofício, modificar cláusula de percentual de juros, caso entenda 
que deve assim agir para adequar o contrato à sua função social e igualitária.Dessa forma, autorizado pela cláusula geral expressamente prevista na lei, o 
juiz poderá ajustar o contrato e dar-lhe a sua própria noção de equilíbrio, sem 
ser tachado de arbitrário ou ativista. 
 
 
Atenção 
 Importante destacar que, apesar de, majoritariamente, não ser 
cabível a revisão de contrato de execução imediata, existe 
jurisprudência do STJ em sentido diverso, conforme se extrai da 
Súmula 286: 
 
“A renegociação de contrato bancário ou a confissão da dívida 
não impede a possibilidade de discussão sobre eventuais 
ilegalidades dos contratos anteriores”. 
 
Logo, permite-se a revisão judicial de contratos extintos em 
decorrência da abusividade. 
 
Quando ocorre fato imprevisível 
Lembra-se da teoria da improvisão? 
 
Ela já foi conceituada em aulas anteriores. Quando ocorre um fato imprevisível 
e/ou extraordinário, que acarreta uma desproporção negocial, a possibilidade 
de revisão judicial do contrato decorre da aplicação dos princípios 
constitucionais às relações privadas. Atualmente, tal teoria encontra-se disposta 
nos Artigos 317 e 478 do Código Civil: 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 136 
Artigo 317 
“Quando, por motivos imprevisíveis, sobrevier desproporção manifesta entre 
o valor da prestação devida e o do momento de sua execução, poderá o juiz 
corrigi-lo, a pedido da parte, de modo que assegure, quanto possível, o valor 
real da prestação". 
 
Artigo 478 
Nos contratos de execução continuada ou diferida, se a prestação de uma das 
partes se tornar excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, 
em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, poderá o devedor 
pedir a resolução do contrato”. 
 
Fato imprevisível – aplicação pelo judiciário 
Qual o parâmetro para a aplicação da teoria da imprevisão pelo judiciário? 
 
Primeiramente, o contrato originário deve ser cumprido enquanto as 
condições externas vigentes no momento da execução não forem 
modificadas, em respeito à conservação do negócio jurídico. 
 
Assim, a teoria da imprevisão somente será acionada diante de um fato 
superveniente imprevisível, que acarrete uma onerosidade excessiva. 
 
Acompanhe a aplicação da teoria da imprevisão, segundo Maria Helena 
Diniz: 
 
“O órgão judicante deverá, para lhe dar ganho de causa, apurar rigorosamente 
a ocorrência dos seguintes requisitos: a) vigência de um contrato comutativo de 
execução continuada; b) alteração radical das condições econômicas no 
momento da execução do contrato, em confronto com as do benefício 
exagerado para o outro; c) onerosidade excessiva para um dos contraentes e 
benefício exagerado para o outro; d) imprevisibilidade e extraordinariedade 
daquela modificação, pois é necessário que as partes, quando celebraram o 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 137 
contrato, não possam ter previsto esse evento anormal, isto é, que está fora do 
curso habitual das coisas, pois não se poderá admitir a cláusula rebus sic 
stantibus se o risco for normal ao contrato”. 
 
Avance e veja mais detalhes sobre a onerosidade excessiva e a 
necessidade do fato ser imprevisível. 
 
Onerosidade excessiva 
Como reconhecer a onerosidade excessiva? 
 
Para que a onerosidade excessiva seja reconhecida, não há a necessidade da 
prova de que um dos contratantes auferiu vantagens, bastando prova do 
prejuízo e do desequilíbrio do negócio, conforme determina o Enunciado 365 
da IV Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: 
 
“A extrema vantagem do Artigo 478 deve ser interpretada como elemento 
acidental da alteração das circunstâncias, que comporta a incidência da 
resolução ou revisão do negócio por onerosidade excessiva, 
independentemente de sua demonstração plena”. 
 
Necessidade de o fato ser imprevisível 
Em relação à necessidade de o fato ser imprevisível, Flávio Tartuce tece forte 
crítica ao comportamento dos tribunais brasileiros: 
 
Apesar do conhecimento pacífico e da aceitação da revisão contratual por fato 
superveniente, infelizmente, poucos casos vêm sendo enquadrados como 
imprevisíveis por nossos Tribunais, realidade que se esperava mudar com o 
advento do Código Civil de 2002. Isso porque a jurisprudência nacional 
sempre considerou o fato imprevisto tendo como parâmetro o 
mercado, o meio que envolve o contrato, não a parte contratante. A 
partir dessa análise, em termos econômicos, na sociedade pós-moderna 
globalizada, nada é imprevisto, tudo se tornou previsível. Não seriam 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 138 
imprevisíveis a escala inflacionária, o aumento do dólar ou o desemprego, não 
sendo possível a revisão contratual motivada por tais ocorrências. 
 
Qual a melhor solução para a aferição do fato imprevisível? 
 
Encontra-se disposta no Enunciado 175 da III Jornada de Direito Civil do 
CJF/STJ: 
“A menção à imprevisibilidade e à extraordinariedade, insertas no Artigo 478 do 
Código Civil, deve ser interpretada não somente em relação ao fato que gere o 
desequilíbrio, mas também em relação às consequênciasque ele produz”. 
 
Assim, a fim de se afastar maiores riscos ao meio social, deve-se conceber 
como motivo imprevisível o fato superveniente e alheio à vontade dos 
sujeitos. Diante da desproporção negocial, poderá ocorrer a revisão ou a 
extinção do contrato, dependendo do caso em análise. 
 
Vejamos a seguir a revisão judicial dos contratos a partir da análise 
jurisprudencial. 
 
Análise jurisprudencial 
Em relação à necessidade de o fato ser imprevisível, Flávio Tartuce tece forte 
crítica ao comportamento dos tribunais brasileiros: 
 
Não há dúvidas de que a nova hermenêutica, pautada na aplicação dos 
princípios constitucionais às relações privadas, influencia a revisão judicial 
dos contratos. 
 
Atualmente, o Poder Judiciário possui uma ingerência muito maior nas 
negociações travadas pelos particulares, ajustando o contrato aos ditames 
determinados pelo Estado Democrático de Direito. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 139 
Dessa maneira, o presente tópico visa compilar algumas decisões, que 
materializam a mencionada premissa diante da revisão judicial dos negócios 
jurídicos. 
 
Avance a tela e confira! 
 
Inadimplemento obrigacional e inexecução voluntária do negócio 
jurídico 
Inadimplemento obrigacional 
 
Importante esclarecer que o inadimplemento obrigacional não pode 
configurar um óbice à revisão judicial do contrato, pois, muitas vezes, a mora 
decorre da incapacidade econômica do devedor diante de fato imprevisível. 
 
Assim, a ausência de inadimplemento não constitui um dos requisitos para a 
aplicação da teoria da imprevisão. 
 
Inexecução voluntária do negócio jurídico 
 
Porém, em outros casos, ocorrerá a inexecução voluntária do negócio 
jurídico por meio da conduta culposa do agente, o que acarretará a 
intromissão estatal no sentido de proporcionar uma compensação financeira ao 
contratante, que teve frustrada a sua vontade negocial. 
 
Execução forçada nas obrigações de dar coisa certa 
Na execução forçada nas obrigações de dar coisa certa, quando o 
devedor recebia o preço e se recusava a entregar a coisa, o credor não podia 
expropriá-la de seu patrimônio, resolvendo-se o litígio em perdas e danos 
(Artigo 389 do CC). 
 
Assim, a obrigação não acarretaria direito real (sobre a coisa), mas apenas 
direito pessoal (sobre a conduta). 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 140 
 
Excepcionalmente, admitia-se efeito real caso a coisa continuasse na posse do 
devedor, como, por exemplo: 
 
“A” combinou de vender a “B” uma obra dearte; “B” pagou,... 
 
...mas, depois, “A” recebeu uma oferta melhor e terminou vendendo a coisa a 
“C”. 
 
“B” não podia reivindicá-la de “C”,... 
 
...mas caso estivesse ainda com “A”, poderia fazê-lo por meio do Poder 
Judiciário. 
 
Assim, para o direito obrigacional, o Artigo 389 do CC constitui a regra (perdas 
e danos), e o Artigo 475 do CC constitui a exceção (execução forçada do 
contrato). 
 
Ainda hoje, a obrigação não gera direito real; o que o gera é a tradição para as 
coisas móveis (Artigo 1.226 ao 1.267 do CC) e o registro para as coisas imóveis 
(Artigo 1245 do CC). 
 
Pelos Artigos 237 e 492 do CC, eventual perda da coisa trará prejuízo para o 
dono, a depender do momento da tradição, não do pagamento da obrigação, 
confirmando a regra res perit domino (a coisa perece para o dono). 
 
Por sua vez, o registro é a inscrição da propriedade imobiliária no Cartório de 
Imóveis, de modo que o dono do imóvel não é quem mora nele, quem pagou o 
preço ou quem tem as chaves. O dono da coisa imóvel é aquele cujo nome está 
registrado no Cartório de Imóveis (Artigo 1.245, §1º, do CC). 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 141 
Pagamento de astreintes 
Atualmente, nas obrigações de fazer, não fazer e entregar coisa, admite-se a 
execução forçada, sob pena do pagamento de astreintes, com base nos Artigos 
461, §5º, e 461-A do CPC. 
 
Quando a coisa não for entregue, o que ocorre? 
 
Quando a coisa não for entregue, caberá busca e apreensão (se móvel) ou 
imissão na posse (se imóvel), com base no §2º do Artigo 461-A do CPC. 
 
É possível a fixação de astreintes nas obrigações pecuniárias? 
 
A fixação de astreintes não é possível nas obrigações pecuniárias (obrigação de 
dar dinheiro), por falta de previsão legal, como é possível constatar na 
jurisprudência. Veja abaixo. 
 
Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. BRASIL TELECOM. EXECUÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE 
FAZER. MULTA ARBITRADA PARA O CASO DE DESCUMPRIMENTO DA 
DETERMINAÇÃO JUDICIAL. Em se tratando de obrigação de pagar 
quantia determinada, não se admite a imposição de astreintes. Não 
aplicação da regra contida no Artigo 461 do CPC. Afastamento da multa 
cominada. Penalidade acerca da qual sequer a apelada foi intimada 
pessoalmente. Condenação decorrente da indenização referente à dobra 
acionária já satisfeita, inclusive em duplicidade. Multa do Artigo 475-J, do CPC. 
Incidência que resulta prejudicada em face da reconhecida ausência de título. 
APELO DESPROVIDO. (Apelação Cível Nº 70030943369, Vigésima Câmara 
Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: José Aquino Flores de Camargo, 
Julgado em 21/10/2009). 
 
E quando do inadimplemento da obrigação de dar coisa incerta? 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 142 
Também não é possível a fixação de astreintes quando do inadimplemento da 
obrigação de dar coisa incerta, de acordo com o §1º do Artigo 461-A do CPC. 
Assim, a obrigação de dar coisa incerta ao ser individualizada transforma-se em 
obrigação de dar coisa certa, havendo, a partir deste momento, interesse 
jurídico para a fixação da referida multa diária. 
 
Enunciado 160 da III Jornada de Direito Civil do CJF/STJ 
 
Pelo Enunciado 160 da III Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “A obrigação de 
creditar dinheiro em conta vinculada de FGTS é obrigação de dar, obrigação 
pecuniária, não afetando a natureza da obrigação a circunstância de a 
disponibilidade do dinheiro depender da ocorrência de uma das hipóteses 
previstas no Artigo 20 da Lei nº 8036/90”. A justificativa do enunciado decorre: 
a) o que se pretende é a coisa e não o ato; e, b) possibilidade de incidência de 
juros legais, que somente são cabíveis na obrigação de dar dinheiro ou nela 
convertida. Porém, para o STJ, tal obrigação é considerada como obrigação de 
fazer do empregador, e o seu inadimplemento gera o pagamento de astreintes, 
além da possibilidade de deferimento de tutela liminar (Artigo 461, §3º, do 
CPC). 
 
Quanto ao valor atingindo pela multa diária e a possibilidade de sua redução 
pelo STJ, cabe a transcrição do Informativo 495 do Tribunal. 
 
MULTA DO ART. 461, § 4º, DO CPC. OBRIGAÇÃO DE FAZER. DESCASO DO 
DEVEDOR. VALOR TOTAL ATINGIDO. A discussão diz respeito ao valor atingido 
pela astreinte e busca definir se a multa cominatória fixada para o caso de 
descumprimento da obrigação de fazer seria exagerada a ponto de autorizar 
sua redução nesta Corte. In casu sub examen, o condomínio recorrido ajuizou 
reintegração na posse em que o recorrente proprietário de unidade autônoma 
construiu irregularmente um deque em área comum do edifício – a qual fora 
cedida sob a condição de que não fosse realizada qualquer obra. O pedido foi 
julgado procedente, e o recorrente foi condenado à devolução da área, livre de 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 143 
qualquer construção, no prazo de noventa dias, sob pena da incidência de 
multa diária no valor de R$ 1 mil. O tribunal a quo manteve a sentença 
proferida e o valor atingido pela multa por descumprimento de decisão judicial 
(R$ 383 mil). O recorrente sustenta que deve ser reconhecido o cumprimento 
parcial da obrigação, sendo possível a revisão do valor da astreinte quando 
atingido valor excessivo, de forma que deve ser reduzido aos limites da 
obrigação principal, qual seja, R$ 5 mil. A Min. Relatora observou que a multa 
cominatória, prevista no art. 461 do CPC, representa um dos instrumentos de 
que o direito processual civil pode valer-se na busca por uma maior efetividade 
do cumprimento das decisões judiciais. A multa diária por descumprimento de 
decisão judicial foi inicialmente fixada em patamar adequado à sua finalidade 
coercitiva e não poderia ser considerada exorbitante ou capaz de resultar no 
enriquecimento sem causa da parte adversa. Ademais, o prazo estabelecido 
para o desfazimento das obras se mostrava bastante razoável. Entretanto, o 
recorrente, mesmo instado a desfazer as obras sob pena de multa diária fixada 
na sentença, furtou-se de fazê-lo e, em momento algum, suscitou a existência 
de impedimentos excepcionais ao cumprimento da obrigação. Assim, sendo a 
falta de atenção do recorrente o único obstáculo ao cumprimento da 
determinação judicial justifica-se a manutenção do valor atingido pelas 
astreintes. REsp 1.229.335-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 
17/4/2012. 
 
Pagamento das perdas e danos 
Como visto anteriormente, o descumprimento culposo do contrato acarretará 
no pagamento das perdas e danos. 
 
Quanto à revisão do quantum indenizatório pelo STJ em decorrência 
dessa situação, convém transcrever a jurisprudência. 
 
ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. CORTE NO FORNECIMENTO DE ÁGUA 
E ESGOTO. INDENIZAÇÃO. DANOS MORAIS. IMPOSSIBILIDADE DE REVISÃO. 
VALOR RAZOÁVEL. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 7/STJ. 1. Não assiste razão à 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 144 
recorrente no que diz respeito à alegada inexistência de danos morais, tendo 
em vista que foi com base nas provas e nos fatos constantes dos autos que o 
Tribunal de origem reconheceu que a conduta da recorrente gerou danos que 
devem ser reparados. Assim, para alterar a conclusão do Tribunal a quo, como 
requer a recorrente, seria imprescindível adentrar a seara dos fatos, o que 
esbarra na Súmula 7/STJ: "A pretensão de simples reexame de prova não 
enseja recurso especial". 2. Em relação ao valor fixado a título de danos morais, 
a revisão do valor fixado a título de danos morais também encontra óbice na 
Súmula 07/STJ, uma vez que fora estipulado em razão das peculiaridades do 
caso concreto, a exemplo, da capacidade econômica do ofensor e do ofendido,a extensão do dano, o caráter pedagógico da indenização. 3. Não é demais 
lembrar que a revisão do valor a ser indenizado somente é possível quando 
exorbitante ou irrisória a importância arbitrada, em violação dos princípios da 
razoabilidade e da proporcionalidade, o que não se observa in casu, uma vez 
que o montante de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) não é excessivo. 4. Agravo 
regimental não provido (AgRg no AREsp 146159/SP AGRAVO REGIMENTAL NO 
AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL 2012/0031256-0 Rel. Ministro Mauro 
Marques). 
 
Cláusula penal 
Pelo Informativo 484, o STJ vem entendendo ser possível a cobrança da 
cláusula penal em decorrência do inadimplemento culposo do vendedor, que 
não entregou tempestivamente o bem. 
 
Aqui, mais uma vez, fica clara a revisão judicial do contrato à luz do direito civil-
constitucional a partir da materialização do princípio da isonomia às relações 
privadas, mesmo em sentido contrário àquilo que foi ajustado pelos 
contratantes originariamente. 
 
Colaciona-se a transcrição do mencionado informativo. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 145 
In casu, trata-se de contrato de compra e venda de imóvel, no qual o 
promitente-comprador (recorrente) obrigou-se a pagar o preço e o promitente-
vendedor a entregar o apartamento no tempo aprazado. Porém, o promitente-
vendedor não entregou o bem no tempo determinado, o que levou o 
promitente-comprador (recorrente) a postular o pagamento da cláusula penal 
inserida no contrato de compra e venda, ainda que ela tenha sido redigida 
especificamente para o caso do seu inadimplemento. Assim, cinge-se a questão 
em definir se a cláusula penal dirigida apenas ao promitente-comprador pode 
ser imposta ao promitente-vendedor ante o seu inadimplemento contratual. Na 
hipótese, verificou-se cuidar de um contrato bilateral, em que cada um dos 
contratantes é simultânea e reciprocamente credor e devedor do outro, 
oneroso, pois traz vantagens para os contratantes, comutativo, ante a 
equivalência de prestações. Com esses e outros fundamentos, a Turma deu 
provimento ao recurso para declarar que a cláusula penal contida nos contratos 
bilaterais, onerosos e comutativos deve aplicar-se para ambos os contratantes 
indistintamente, ainda que redigida apenas em favor de uma das partes. 
Todavia, é cediço que ela não pode ultrapassar o conteúdo econômico da 
obrigação principal, cabendo ao magistrado, quando ela se tornar exorbitante, 
adequar o quantum debeatur. REsp 1.119.740-RJ, Rel. Min. Massami Uyeda, 
julgado em 27/9/2011. 
 
É cediço que a cláusula penal não pode ultrapassar o conteúdo econômico da 
obrigação principal, cabendo ao magistrado, quando ela se tornar exorbitante, 
adequar o quantum debeatur, o que constitui, mais uma vez, a possibilidade de 
revisão judicial dos negócios jurídicos (“Artigo 413 do CC: A penalidade deve 
ser reduzida equitativamente pelo juiz se a obrigação principal tiver sido 
cumprida em parte, ou se o montante da penalidade for manifestamente 
excessivo, tendo-se em vista a natureza e a finalidade do negócio”). 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 146 
Cláusula penal – Comodato 
Pelo Informativo 484, o STJ vem entendendo ser possível a cobrança da 
cláusula penal em decorrência do inadimplemento culposo do vendedor, que 
não entregou tempestivamente o bem. 
 
No comodato, conforme Artigo 582 do CC, também cabe o pagamento de 
cláusula penal (aluguel) fixada pelo comodante caso o comodatário não 
entregue a coisa em momento oportuno, além da possibilidade de ajuizamento 
de ação de reintegração de posse. 
 
A jurisprudência evidencia a possibilidade da fixação de valor mais elevado por 
configurar uma penalidade ao devedor da coisa. 
 
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE. COMODATO. 
ESBULHO. FIXAÇÃO DE ALUGUEL. O réu ser condenado ao pagamento de 
indenização em razão do esbulho, mediante o pagamento a título de aluguel 
mensal desde a configuração do esbulho até a efetiva desocupação. Em relação 
ao pedido de fixação do aluguel em nível compatível ao valor de mercado, 
cumpre ressaltar que não foram produzidas provas efetivas e contundentes no 
sentido de ilustrar o real valor de mercado para o imóvel em questão. O aluguel 
possui conotação de pena e pode ser aleatoriamente arbitrado pelo comodante. 
O arbitramento do aluguel pelo comodante não possui apenas caráter 
indenizatório, mas também punitivo pela demora na entrega da coisa, o que 
possibilita a cobrança em patamar mais elevado do que o usualmente cobrado 
pela locação do imóvel. Neste sentido, aplica-se ao presente caso o art. 582, do 
Código Civil. Recurso desprovido. 
 
A seguir, você acompanha a revisão judicial de contratos em casos de contrato 
de doação. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 147 
O referido aluguel fixado pelo comodante, geralmente quando da notificação 
para entrega do bem que está emprestado, tem caráter de penalidade, não 
sendo o caso de se falar em conversão do comodato em locação. 
 
Importante mencionar a possibilidade de interferência estatal no valor da 
cláusula penal, como determina o Enunciado 180 da III Jornada de 
Direito Civil do CJF/STJ: “A regra do parágrafo único do Artigo 575 do novo 
CC, que autoriza a limitação pelo juiz do aluguel-pena arbitrado pelo locador, 
aplica-se também ao aluguel arbitrado pelo comodante, autorizado pelo Artigo 
582, 2ª parte, do novo CC”. 
 
Contrato de doação 
Contrato de doação entre ascendente para descendente 
 
Diante da simulação no contrato de doação entre ascendente para descendente 
(Artigo 544 do CC), caberá, também, a revisão judicial do contrato. Como se 
sabe, a simulação acarreta a nulidade do negócio jurídico (Artigo 167 do CC), 
devendo o julgador declarar a retroatividade dos efeitos jurídicos ao momento 
de sua pactuação. 
 
Apesar de constituir um caso clássico de vício do negócio jurídico, há a 
necessidade de manifestação do Poder Judiciário para a referida declaração. 
Cabível transcrever a jurisprudência do Tribunal de Justiça do Rio Grande do 
Sul. 
 
APELAÇÃO CÍVEL. REGISTRO DE IMÓVEIS. AÇÃO ANULATÓRIA DE ESCRITURA 
PÚBLICA C/C CANCELAMENTO DE REGISTRO IMOBILIÁRIO. COMPRA E VENDA 
DE BENS REALIZADA ENTRE ASCENDENTE E DESCENDENTE. SIMULAÇÃO. 
OCORRÊNCIA. DOAÇÃO. ONEROSIDADE DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS 
REALIZADOS NÃO DEMONSTRADA. INEFICÁCIA DOS NEGÓCIOS EM RELAÇÃO 
AO HERDEIRO PRETERIDO QUE DEIXOU DE RECEBER SEU QUINHÃO PORQUE 
NÃO LEVADOS OS BENS DOADOS À COLAÇÃO NO INVENTÁRIO. SENTENÇA 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 148 
MANTIDA. HONORÁRIOS. MAJORAÇÃO. POSSIBILIDADE. SENTENÇA 
REFORMADA NO PONTO. I. A simulação relativa, ocorrente no caso dos autos, 
se dá quando se realiza aparentemente um negócio jurídico, querendo e 
levando-se a efeito outro diferente. Em outras palavras, caracteriza-se quando 
os contratantes concluem um negócio que é verdadeiro – doação –, mas o 
ocultam sob uma forma jurídica diversa – compra e venda. No caso concreto, o 
falecido, sua esposa e filhos comuns preteriram o autor – filho concebido fora 
do casamento – realizando diversas doações sob a aparência de compra e 
venda, com o objetivo de subtrair o direito do autor à herança de seu falecido 
pai. As doações ocultas prejudicaram o herdeiro preterido, porque não levadas 
à colação no processo de inventário, acarretando o desequilíbrio dos quinhões 
das heranças, razão pela qual foram declaradas ineficazes, em relação ao autor, 
as doações e cessões gratuitas realizadas pelo de cujus em favor dos réus. 
Apelos dos réus desprovidos. À UNANIMIDADE, NEGARAM PROVIMENTO AOS 
APELOS DOS RÉUS E DERAM PROVIMENTOAO APELO DO AUTOR. (Apelação 
Cível Nº 70038684460, Décima Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, 
Relator: Liege Puricelli Pires, Julgado em 15/12/2011). 
 
Coação no contrato de doação 
Diante da coação no contrato de doação, caberá, também, a revisão judicial do 
contrato. Apesar de constituir um caso clássico de vício do negócio jurídico, há 
a necessidade de manifestação do Poder Judiciário para a declaração de sua 
anulabilidade. 
 
Cabível transcrever a jurisprudência do Tribunal de Justiça do Rio Grande do 
Sul. 
 
RESPONSABILIDADE CIVIL. DOAÇÃO. COAÇÃO MORAL EXERCIDA POR 
DISCURSO RELIGIOSO. AMEAÇA DE MAL INJUSTO. PROMESSA DE GRAÇAS 
DIVINAS. CONDIÇÃO PSIQUIÁTRICA PRÉ-EXISTENTE. COOPTAÇAO DA 
VONTADE. DANO MORAL CONFIGURADO. INDENIZAÇÃO ARBITRADA. 1. 
ANÁLISE DO ARTIGO 152 DO CÓDIGO CIVIL. CRITÉRIOS PARA AVALIAR A 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 149 
COAÇÃO. A prova dos autos revelou que a autora estava passando por grandes 
dificuldades em sua vida afetiva (separação litigiosa), profissional (divisão da 
empresa que construiu junto com seu ex-marido), e psicológica (foi internada 
por surto maníaco, e diagnosticada com transtorno afetivo bipolar). Por conta 
disso, foi buscar orientação religiosa e espiritual junto à Igreja Universal do 
Reino de Deus. Apegou-se à vivência religiosa com fervor, comparecia 
diariamente aos cultos e participava de forma ativa da vida da Igreja. Ou seja, 
à vista dos critérios valorativos da coação, nos termos do art. 152 do Código 
Civil, ficou claramente demonstrada sua vulnerabilidade psicológica e 
emocional, criando um contexto de fragilidade que favoreceu a cooptação da 
vontade pelo discurso religioso. 2. ANÁLISE DOS ARTIGOS 151 E 153 DO 
CÓDIGO CIVIL. PROVA DA COAÇÃO MORAL. Segundo consta da prova 
testemunhal e digital, a autora sofreu coação moral da Igreja que, mediante 
atuação de seus prepostos, desafiava os fiéis a fazerem doações, fazia 
promessa de graças divinas, e ameaçava-lhes de sofrer mal injusto caso não o 
fizessem. No caso dos autos, o ato ilícito praticado pela Igreja materializou-se 
no abuso de direito de obter doações, mediante coação moral. Assim agindo, 
violou os direitos da dignidade da autora e lhe casou danos morais. 
Compensação arbitrada em R$20.000,00 (vinte mil reais), à vista das 
circunstâncias do caso concreto. 3. MULTA POR LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ 
AFASTADA. 4. REDEFINIDA A SUCUMBÊNCIA. RECURSO DA AUTORA 
CONHECIDO EM PARTE, E NESSA PARTE, PROVIDO PARCIALMENTE. 
PREJUDICADO O RECURSO DA RÉ. UNÂNIME. (Apelação Cível Nº 
70039957287, Nona Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Iris 
Helena Medeiros Nogueira, Julgado em 26/01/2011). 
 
Concluímos nossa aula. Avance e faça uma atividade. 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 150 
Atividade proposta 
Vamos fazer uma atividade relacionada aos temas estudados nesta aula. 
 
É possível ao Judiciário rever a parte comutativa existente em contratos 
aleatórios, como no caso de contrato de plano de saúde, diante da onerosidade 
excessiva? 
 
Chave proposta: Os tribunais brasileiros têm entendido pela revisão de 
contratos de plano de saúde, diante da onerosidade excessiva (TJSP, Agravo de 
Instrumento 366.368-4/3, Órgão Julgador: 7ª Câmara de Direito Privado, Rel. 
Juiz Souza Lima, Origem: Comarca de São Bernardo do Campo, j. 16.02.2005). 
 
Referências 
GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. 11. ed. São Paulo: 
Saraiva, 2014. p. 28. 
DINIZ, Maria Helena. Código Civil comentado. 11. ed. São Paulo: Malheiros, 
2006. p. 164. 
TARTUCE, Flávio. Direito Civil. 6. ed. São Paulo: Método, 2011. p. 194. 
 
Exercícios de fixação 
Questão 1 
Se as partes celebraram um pretenso contrato de compra e venda de imóvel 
sem atenção às formalidades exigidas por lei, pode-se considerar o negócio 
como uma promessa de compra e venda, que não exige forma solene, para se 
aproveitar a vontade das partes. Tal possibilidade é assegurada pelo seguinte 
instituto: 
a) Conversão substancial do negócio jurídico 
b) Pacta sunt servanda 
c) Supressio 
d) Diálogo das fontes 
 
Questão 2 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 151 
Em relação ao instituto da conversão substancial do contrato, assinale a 
alternativa incorreta: 
a) O instituto da conversão traduz o princípio da conservação dos atos 
negociais e acarreta nova qualificação do negócio jurídico, desde que 
não haja vedação legal. 
b) Para que ocorra a conversão de um negócio jurídico nulo em outro de 
natureza diversa, faz-se necessário que o negócio reputado nulo 
contenha os requisitos do outro negócio. 
c) Para que ocorra a conversão de um negócio jurídico nulo em outro de 
natureza diversa, faz-se necessário que a vontade manifestada pelas 
partes faça supor que, se estas tivessem ciência da nulidade do negócio 
realizado, mesmo assim, teriam querido celebrar o negócio convertido. 
d) Pelo princípio da conservação do negócio jurídico, entende-se que, se 
uma cláusula contratual permitir duas interpretações diferentes, não 
prevalecerá a que possa produzir algum efeito, pois prevalecerá a 
declaração literal manifestada no contrato. 
 
Questão 3 
De acordo com a teoria da onerosidade excessiva, também conhecida como 
teoria da imprevisão, assinale a alternativa incorreta: 
a) É possível a revisão contratual, desde que, em virtude de acontecimentos 
extraordinários, supervenientes e imprevisíveis, fique configurado o 
desequilíbrio entre as partes contratantes, com extrema vantagem para 
uma das partes e onerosidade excessiva para a outra. 
b) Para que seja possível requerer a revisão contratual com base na 
onerosidade excessiva, o contrato deve ser de execução continuada ou 
diferida. 
c) Para que seja possível requerer a revisão contratual com base na 
onerosidade excessiva, o contrato deve ser bilateral, oneroso e 
comutativo. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 152 
d) Acerca da revisão contratual por onerosidade excessiva, é suficiente que 
o acontecimento tenha se manifestado apenas na esfera individual da 
parte. 
 
Questão 4 
(MPGO – 2012 – PROMOTOR) 
Analisando os itens abaixo, pode-se afirmar que: 
I – A validade da declaração de vontade, em regra, não depende de forma 
especial, mas, se o negócio jurídico for celebrado com a cláusula de não valer 
sem instrumento público, este se torna substância do ato. 
II – Ao termo inicial e final, aplicam-se, no que couber, as disposições relativas 
à condição suspensiva e à resolutiva; logo, se for estipulado como termo final 
de um negócio jurídico no dia 31/02/2013, tal estipulação será havida por 
inexistente. 
III – O abuso de direito enseja reparação pelo regime da responsabilidade 
objetiva, sendo desnecessária a demonstração da conduta do agente (dolo ou 
culpa), de sorte que são requisitos necessários para que haja o dever de 
indenizar: o ato, o dano, e o nexo de causalidade entre o ato e o dano. 
a) Todos são corretos 
b) Apenas o I e o II são corretos 
c) Apenas o II e o III são corretos 
d) Todos são incorretos 
 
Questão 5 
São requisitos para aplicação da Teoria da Imprevisão, exceto: 
a) O contrato deve ser de execução continuada ou diferida. 
b) Quando a prestação de uma das partes se tornar excessivamente 
onerosa, com extrema vantagem para a outra. 
c) Os acontecimentos devem ser extraordinários e imprevisíveis. 
d) O devedor poderá pedir a resolução ou a revisão do contrato. 
e) A resolução não poderá ser evitada, oferecendo-se o réu a modificar 
equitativamente as condições do contrato. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 153Questão 6 
(Magistratura – TJRJ) 
Vanessa firmou compromisso de compra e venda de imóvel para uma 
Construtora com a finalidade de incorporação de um edifício no local e, em 
contraprestação, receberia 10 unidades dessa nova construção. A Construtora 
demoliu o imóvel ali existente, porém, nunca construiu outro imóvel, cujas 
unidades, com exclusão das destinadas à Vanessa, foram prometidas a 
terceiros, por meio de contrato de compromisso de compra e venda. Em razão 
disso, Vanessa pleiteou em juízo a rescisão do pacto com a Construtora, o 
cancelamento do registro do contrato firmado, para que passe a ser a titular do 
domínio, além de ressarcimento de danos. Em razão desses fatos, assinale a 
alternativa correta: 
a) A compra e venda gera direitos obrigacionais entre as partes, de modo 
que o pedido de cancelamento de registro do contrato não pode ser 
provido, ainda mais quando há terceiros de boa-fé. 
b) Vanessa tem direito real sobre o imóvel; assim, tem direito à 
integralidade do pedido, restando aos terceiros adquirentes das unidades 
o pedido de ressarcimento perante a construtora. 
c) Somente poderá ser atendido o pedido de ressarcimento de danos em 
valor equivalente às unidades prometidas, que poderá ser convertido em 
obrigação de fazer, com a determinação de construção do edifício. 
d) Vanessa terá direito a ser ressarcida do valor equivalente ao imóvel que 
foi demolido, além do relativo às unidades prometidas, assim como 
indenização pelo dano moral suportado. 
 
Questão 7 
Atualmente, nas obrigações de fazer, não fazer e entregar coisa, admite-se a 
execução forçada, sob pena do pagamento de: 
a) Cláusula penal 
b) Arras 
c) Astreintes 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 154 
d) Cláusula convencional 
 
Questão 8 
A cláusula penal, como bem a conceitua Limogi França, é um pacto acessório, 
cuja finalidade é garantir, em benefício do credor, por meio do estabelecimento 
de uma pena, o fiel e exato cumprimento da obrigação principal. Isso posto, 
analise as afirmativas abaixo: 
1 – Em sendo resolvida a obrigação, sem culpa do devedor, igualmente se 
resolve a cláusula penal. 
2 – A cláusula penal pode referir-se apenas à inexecução completa da 
obrigação. 
3 – A cláusula penal pode referir-se apenas à inexecução de alguma cláusula 
especial. 
4 – A nulidade da obrigação principal implica na nulidade da cláusula penal. 
5 – O cumprimento parcial da obrigação não comporta redução proporcional da 
cláusula penal. 
a) Estão corretas as 5 afirmativas 
b) Estão corretas 4 afirmativas 
c) Estão corretas 3 afirmativas 
d) Estão corretas 2 afirmativas 
 
Questão 9 
O Enunciado 180 da III Jornada de Direito Civil determina a possibilidade, pelo 
juiz, da redução do valor da(o): 
a) Cláusula penal estabelecida em contratos de locação de bens móveis. 
b) Aluguel-pena em contratos de comodato, diante da não entrega do bem 
tempestivamente. 
c) Multa estabelecida em contratos consumeristas. 
d) Cláusula penal estabelecida em contratos de compra e venda de imóveis. 
 
Questão 10 
(TJDFT – 2011 – JUIZ) 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 155 
Disciplina a lei civil que “mediante promessa de compra e venda, em que se 
não pactuou arrependimento, celebrada por instrumento público ou particular, 
e registrada no Cartório de Registro de Imóveis, adquire o promitente 
comprador direito real à aquisição do imóvel”. De acordo com referida previsão 
legal, considere as proposições abaixo e assinale a incorreta: 
a) O direito real à aquisição do imóvel, no caso de promessa de compra e 
venda, sem cláusula de arrependimento, somente se adquire com o 
registro. 
b) O promitente comprador, titular de direito real, pode exigir do 
promitente vendedor, ou de terceiros, a quem os direitos deste forem 
cedidos, a outorga da escritura definitiva de compra e venda, conforme o 
disposto no instrumento preliminar; e, se houver recusa, requerer ao juiz 
a adjudicação do imóvel. 
c) O direito à adjudicação compulsória, quando exercido em face do 
promitente vendedor, não se condiciona ao registro da promessa de 
compra e venda no cartório do registro imobiliário. 
d) O promitente comprador, munido de promessa de compra e venda, 
ainda que não registrada no cartório de imóveis, tem a faculdade de 
reivindicar de terceiro o imóvel prometido à venda. 
 
Astreintes: Multa processual aplicada para o fim de fazer cumprir 
decisão judicial de obrigação de fazer ou de não fazer 
(geralmente diária). 
 
Aula 6 
Exercícios de fixação 
Questão 1 - A 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 156 
Justificativa: Pelo princípio da conservação do negócio jurídico, entende-se que, 
se uma cláusula contratual permitir duas interpretações diferentes, prevalecerá 
a que possa produzir algum efeito, pois não se deve presumir que os 
contratantes tenham celebrado um contrato carecedor de qualquer 
utilidade. Esse princípio informa a denominada conversão substancial do 
negócio jurídico. Assim, por exemplo, se as partes celebraram um contrato de 
compra e venda de imóvel sem atenção às formalidades exigidas por lei, pode-
se considerar o negócio como uma promessa de compra e venda, que não 
exige forma solene, a fim de se aproveitar a vontade das partes, conforme 
Artigo 170 do CC. 
 
Questão 2 - D 
Justificativa: Pelo princípio da conservação do negócio jurídico, entende-se que, 
se uma cláusula contratual permitir duas interpretações diferentes, prevalecerá 
a que possa produzir algum efeito, pois não se deve presumir que os 
contratantes tenham celebrado um contrato carecedor de qualquer 
utilidade. Esse princípio informa a denominada conversão substancial do 
negócio jurídico. Assim, por exemplo, se as partes celebraram um contrato de 
compra e venda de imóvel sem atenção às formalidades exigidas por lei, pode-
se considerar o negócio como uma promessa de compra e venda, que não 
exige forma solene, a fim de se aproveitar a vontade das partes, conforme 
Artigo 170 do CC. 
 
Questão 3 - D 
Justificativa: Apesar do conhecimento pacífico e da aceitação da revisão 
contratual por fato superveniente, infelizmente, poucos casos vêm sendo 
enquadrados como imprevisíveis por nossos Tribunais, realidade que se 
esperava mudar com o advento do Código Civil de 2002. Isso porque a 
jurisprudência nacional sempre considerou o fato imprevisto tendo 
como parâmetro o mercado, o meio que envolve o contrato, não a 
parte contratante. A partir dessa análise, em termos econômicos, na 
sociedade pós-moderna globalizada, nada é imprevisto, tudo se tornou 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 157 
previsível. Não seriam imprevisíveis a escala inflacionária, o aumento do dólar 
ou o desemprego, não sendo possível a revisão contratual motivada por tais 
ocorrências (Flávio Tartuce). 
 
Questão 4 - A 
Justificativa: Conforme Artigos 107, 109, 135 e 187 do CC. 
 
Questão 5 - E 
Justificativa: Conforme Artigo 479 do CC. 
 
Questão 6 - A 
Justificativa: Diante da execução forçada nas obrigações de dar coisa certa, 
quando o devedor recebia o preço e se recusava a entregar a coisa, o credor 
não podia expropriá-la de seu patrimônio, resolvendo-se o litígio em perdas e 
danos (Artigo 389 do CC). Assim, a obrigação não acarreta direito real (sobre a 
coisa), mas apenas direito obrigacional (sobre a conduta). 
 
Questão 7 - C 
Justificativa: Atualmente, nas obrigações de fazer, não fazer e entregar coisa, 
admite-se a execução forçada, sob pena do pagamento de astreintes, com base 
nos Artigos 461, parágrafo 5º, e 461-A do CPC. 
 
Questão 8 - B 
Justificativa: As assertivas1, 2, 3 e 4 estão corretas, conforme Artigo 410 do 
CC. 
 
Questão 9 - B 
Justificativa: Enunciado 180 da III Jornada de Direito Civil do CJF/STJ: “A regra 
do parágrafo único do Artigo 575 do novo CC, que autoriza a limitação pelo juiz 
do aluguel-pena arbitrado pelo locador, aplica-se também ao aluguel arbitrado 
pelo comodante, autorizado pelo Artigo 582, 2ª parte, do novo CC”. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 158 
Questão 10 - D 
Justificativa: Conforme Súmula 239 do STJ. 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 159 
Introdução 
Como exposto em linhas anteriores, os direitos patrimoniais vem cedendo em 
detrimento dos direitos de personalidade, fazendo com que o negócio jurídico 
não possa comprometer o patrimônio mínimo do ser humano. 
 
Dessa forma, a mitigação da autonomia privada como efeito da aplicação da 
função social do contrato e da boa-fé objetiva tornou-se a regra, não podendo 
o contrato invadir determinadas áreas da esfera íntima humana. 
 
Esse é o assunto que você estudará durante esta aula. 
 
Bons estudos! 
 
Objetivo: 
1. Analisar a tutela das relações existenciais nos contratos, a fim de se 
preservar o patrimônio mínimo dos contratantes; 
2. Analisar a tutela das relações existenciais no direito obrigacional. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 160 
Conteúdo 
Conceito de contrato 
Como exposto em linhas anteriores, os direitos patrimoniais vem cedendo em 
detrimento dos direitos de personalidade, fazendo com que o negócio jurídico 
não possa comprometer o patrimônio mínimo do ser humano. 
 
Nesse contexto, os direitos fundamentais sociais, dispostos 
constitucionalmente, possuem eficácia imediata perante as relações entre 
particulares. 
 
A jurisprudência tem se ocupado em traçar o contorno jurídico da mencionada 
aplicação, estruturando uma alteração valorativa na autonomia privada 
contratual. 
 
Na jurisprudência brasileira, o direito à saúde e o direito à moradia 
constituem parâmetros valorativos para interpretação e aplicação das normas 
de direito privado. 
 
O direito à saúde é utilizado pelos tribunais brasileiros como parâmetro 
interpretativo que determina a abusividade de cláusulas contratuais. 
 
Pelo direito fundamental à habitação, é possível conferir validade aos 
contratos de gaveta pactuados no Sistema Financeiro da Habitação. 
 
Avance e acompanhe exemplos em que o direito à moradia é utilizado. 
 
Direito à moradia 
Algumas decisões determinam a eficácia imediata de um dado direito 
fundamental social perante particulares. Constitui exemplo a impenhorabilidade 
do bem de família do fiador em contrato de locação. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 161 
De acordo com Flávio Tartuce, apesar de o STF entender pela penhorabilidade 
do bem de família do fiador, existe posição minoritária que enxerga tal regra 
como inconstitucional, por violar a isonomia (Artigo 5º, caput, CRFB) e a 
proteção da dignidade humana (Artigo 1º, III, CRFB). 
 
TJRJ - DES. MARIO ASSIS GONCALVES - Julgamento: 09/05/2012 - TERCEIRA 
CAMARA CIVEL. Embargos à execução. Fiador. Bem de família. Penhorabilidade. 
Constitucionalidade reconhecida pelo STF. O inciso VII do artigo 3º, da Lei 
8.009/90 afasta a impenhorabilidade do bem de família na hipótese de 
execução de obrigação decorrente de fiança concedida em contrato de locação. 
Assim, o imóvel apontado pelo exequente, ainda que seja o único, pode ser 
objeto da execução. A constitucionalidade do referido dispositivo legal foi 
declarada pelo Supremo Tribunal Federal em julgamento de Recurso 
Extraordinário no qual se reconheceu a existência de repercussão geral. A 
matéria é, inclusive, objeto do verbete sumular nº. 63 deste Tribunal. Desta 
forma, legítima a penhora realizada sobre o bem de propriedade da fiadora. Por 
fim cumpre destacar que a fiança é uma obrigação de garantia. Nesse tipo de 
obrigação, aquilo a que se obriga o fiador é pagar a obrigação se o devedor 
não o fizer. A fiança é outra relação jurídica da qual o devedor não faz parte e 
que se estabelece entre o credor e o fiador, são duas relações jurídicas 
distintas. Há uma relação jurídica principal que se estabelece entre credor e o 
devedor e há outra relação jurídica acessória que se estabelece entre o credor e 
o fiador. Da principal o fiador não é parte, assim como da acessória é o devedor 
que não é parte. Desta forma, quitado o débito pelo fiador este se sub-roga nos 
direitos do locador, podendo executar a dívida em virtude do direito de 
regresso. Recurso ao qual se dá provimento. 
 
Para Flávio Tartuce, constituem fundamentos da mencionada corrente: 
 
Primeiro, porque o devedor principal (locatário) não pode ter o seu bem de 
família penhorado, enquanto o fiador (em regra devedor subsidiário – Artigo 
827, CC) pode suportar a constrição. A lesão à isonomia reside no fato de a 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 162 
fiança ser um contrato acessório, que não pode trazer mais obrigações do que 
o contrato principal (locação). Em reforço, haveria desrespeito à proteção 
constitucional da moradia (Artigo 6º da CF/1988), uma das exteriorizações do 
princípio de proteção da dignidade da pessoa humana (Artigo 1º, III, do Texto 
Maior). 
 
Vejamos mais alguns exemplos de utilização do direito fundamental à moradia 
em relações contratuais. 
 
Em trabalho doutrinário que escrevi ‘Dos Direitos Sociais na Constituição do 
Brasil’, texto básico de palestra que proferi na Universidade de Carlos III, em 
Madri, Espanha, no Congresso Internacional de Direito do Trabalho, sob o 
patrocínio da Universidade Carlos III e da ANAMATRA, em 10.03.2003, registrei 
que o direito à moradia, estabelecido no art. 6.º, CF, é um direito fundamental 
de 2ª geração – direito social que veio a ser reconhecido pela EC 26, de 2000. 
 
O bem de família – a moradia do homem e sua família – justifica a existência 
de sua impenhorabilidade: Lei 8.009/90, art. 1º. Essa impenhorabilidade 
decorre de constituir a moradia um direito fundamental. 
 
Posto isso, veja-se a contradição: a Lei 8.009, de 1990, excepcionando o bem 
de família do fiador, sujeitou o seu imóvel residencial, imóvel residencial próprio 
do casal, ou da entidade familiar, à penhora. Não há dúvida que ressalva 
trazida pela Lei 8.009, de 1990, inciso VII do art. 3º feriu de morte o princípio 
isonômico, tratando desigualmente situações iguais, esquecendo-se do velho 
brocardo latino: ubi eadem ratio, ibi eadem legis dispositio, ou em vernáculo: 
onde existe a mesma razão fundamental, prevalece a mesma regra de Direito. 
Isto quer dizer que, tendo em vista o princípio isonômico, o citado dispositivo 
inciso VII do art. 3.º, acrescentado pela Lei 8.245/91, não foi recebido pela EC 
26, de 2000 (STF, RE 352940/SP, rel. Min. Carlos Velloso, j. 25.04.2005). 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 163 
IMPENHORABILIDADE. BEM DE FAMÍLIA. BOA-FÉ. Três famílias de baixa renda 
viviam juntas em uma pequena casa de madeira construída em terreno de sua 
propriedade. Sucede que aceitaram permutá-lo por dois apartamentos a serem 
edificados por uma empresa construtora, que deu em garantia do negócio 
(formalizado em cartório) o imóvel em que morava a família do proprietário da 
firma, sabidamente protegido pela Lei n. 8.099/1990. Desalojados, esperaram 
em vão pela construção e, por onze anos, pelejaram em juízo, até que, às 
vésperas da praça, houve a alegação de o imóvel dado em garantia ser bem de 
família. Isso posto, a Turma não conheceu do especial, ao acompanhar o 
entendimento do Min. Relator de que, nessapeculiar hipótese, a 
impenhorabilidade do bem de família há que ser tratada com temperamentos, 
cedendo frente ao princípio da boa-fé. O Min. Relator anotou, também, não se 
cuidar aqui do hipossuficiente que, impensadamente, dá seu bem impenhorável 
em garantia de negócio (hipótese albergada pela jurisprudência), mas sim de 
parte que tinha consciência do que estava fazendo. O Min. Carlos Alberto 
Menezes Direito, por sua vez, aduziu, em apertada suma, que, diante desse 
específico cenário, é possível entrever a renúncia à impenhorabilidade, 
renegada pelos Tribunais, mas incidente ao caso pela peculiaridade da 
hipótese, e ao final, está-se, justamente, a proteger o bem de família daqueles 
que foram lesados. Resp 554.622/RS, Rel. Min. Ari Pargendler, julgado em 
17/11/2005. 
 
SISTEMA FINANCEIRO HABITACIONAL E PROCESSUAL CIVIL. EXECUÇÃO 
EXTRAJUDICIAL. SITUAÇÃO. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. IMÓVEL 
HIPOTECADO. LITÍGIO ACERCA DO DÉBITO. DIREITO À MORADIA. 
PROTEÇÃO. DIGNIDADE HUMANA. INTERESSE PREVALENTE. A pendência de 
litígio acerca do débito de mútuo hipotecário torna controvertida a liquidez da 
dívida e a mora, conferindo verossimilhança ao alegado direito à sustação da 
execução extrajudicial, para proteção da moradia, indispensável à 
operacionalização da garantia constitucional à dignidade da vida humana, que 
se sobrepõe a direitos meramente patrimoniais. (RIO GRANDE DO SUL. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 164 
Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Agravo de Instumento nº 
70003299401, rel. Des. Mara Larsen Chechi, j. 28.11.2001). 
 
Direito à saúde 
Segundo Rosalice Fidalgo Pinheiro, é pertinente concordar com a incidência 
direta dos direitos fundamentais sociais nas relações privadas, o que tem o 
condão de delegar aos particulares a prestação de serviços básicos que 
incumbem ao Estado, como, por exemplo, a saúde e a educação. 
Não obstante a oposição de parcela da doutrina à eficácia direta daqueles 
direitos em sua dimensão prestacional, essa oposição não vem sendo aceita 
pela jurisprudência. 
 
Com isso, o direito fundamental à saúde impõe às operadoras de plano de 
saúde dar cobertura contratual aos gastos médico-hospitalares realizados por 
seus usuários, como se conclui da jurisprudência. 
 
Plano de saúde – direito fundamental à saúde 
 
O particular que presta uma atividade econômica correlacionada com serviços 
médicos e de saúde possui os mesmos deveres do Estado, ou seja, prestar 
assistência média integral aos consumidores dos seus serviços, entendimento 
esse que não se sustenta somente no texto constitucional ou no Código de 
Defesa do Consumidor – CDC (Lei nº 8.078/90), mas, principalmente, na lei de 
mercado (“quanto maior o lucro, maior também é o risco”) (MINAS GERAIS. 
Tribunal de Alçada de Minas Gerais. Ap. Cív. nº 264.003-9, rel. Juíza Maria Elza, 
j. 10.02.99. In: JURISPRUDÊNCIA BRASILEIRA. Cível e comércio. Planos de 
Saúde, 193. Curitiba: Juruá, 2002, p. 117.) 
 
Entra em jogo o direito fundamental à proteção do consumidor, 
constitucionalmente garantido, delineando a imediata incidência dos direitos 
fundamentais sociais, em sua dimensão prestacional, entre particulares. Veja 
uma decisão judicial relacionada a esse assunto. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 165 
 
Plano de saúde – direito do consumidor 
 
“DIREITO CIVIL E DO CONSUMIDOR. PLANO DE SAÚDE. LIMITAÇÃO 
TEMPORAL DE INTERNAÇÃO. CLÁUSULA ABUSIVA. CÓDIGO DE 
DEFESA DO CONSUMIDOR, Artigo 51, IV. UNIFORMIZAÇÃO 
INTERPRETATIVA. PREQUESTIONAMENTO IMPLÍCITO. RECURSO 
CONHECIDO E PROVIDO. É abusiva, nos termos da lei (CDC, Artigo 51, IV), 
a cláusula prevista em contrato de seguro-saúde que limita o tempo de 
internação do segurado. Tem-se por abusiva a cláusula, no caso, notadamente 
em face da impossibilidade de previsão do tempo de cura, da irrazoabilidade da 
suspensão do tratamento indispensável, da vedação de restringir-se em 
contrato direitos fundamentais e da regra de sobredireito, contida no Artigo 5º 
da Lei de Introdução ao Código Civil, segundo a qual, na aplicação da lei, o juiz 
deve atender aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum 
(BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº 251.024/SP. Ministro 
Relator Sálvio de Figueiredo Teixeira. Julgado em 27 de setembro de 2000).” 
 
Direito fundamental - entrega de diploma 
Outro exemplo de imediata incidência dos direitos fundamentais sociais, em sua 
dimensão prestacional, entre particulares, constitui a obrigação de entregar o 
diploma pelas prestadoras de serviços educacionais, mesmo que o aluno esteja 
inadimplente. 
 
Tutela jurisdicional 
O inadimplemento das obrigações relacionadas aos direitos de 
personalidade são passíveis de tutela jurisdicional, cabendo o 
ressarcimento civil, ante o seu descumprimento. 
Assim, no intuito de materializar compromissos constitucionais, a jurisprudência 
possui papel destacado, seja no reconhecimento, como na tutela desses 
direitos. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 166 
Qual é a dívida do inadimplente? 
Importante lembrar que o ressarcimento faz com que o devedor da prestação 
passe a responder pelo valor correspondente ao objeto obrigacional, acrescido 
das demais perdas e danos, mais juros compensatórios, cláusula penal (se 
houver), atualização monetária, custas e honorários de advogado. Essa é a 
regra do Artigo 389 do CC, que trata da responsabilidade civil contratual. 
 
O que são perdas e danos? 
Vale dizer que dentro da concepção civil-constitucional, tratando-se de 
responsabilidade civil contratual, deve-se entender que a expressão “perdas e 
danos” inclui os danos materiais (danos emergentes e lucros cessantes, nos 
termos dos Artigos 402 a 404 do CC), bem como danos morais (Artigo 5º, V e 
X, da CF). 
 
O que será reparado? 
Somente serão reparados os prejuízos diretos e imediatos, decorrentes do 
inadimplemento, mesmo diante de conduta dolosa do devedor (Artigo 403 do 
CC). 
 
Apesar de os tribunais ainda não reconhecerem de forma unânime a existência 
de cláusula geral de proteção da personalidade humana implícita 
constitucionalmente e também não haver teoria acerca dos direitos de 
personalidade no Brasil, alguns direitos especiais de personalidade vêm sendo 
efetivados de forma satisfatória. 
 
Abandono afetivo 
Tem-se como exemplo de reconhecimento do direito da personalidade 
relacionado ao direito obrigacional considerar o desrespeito ao afeto nas 
relações familiares acarretar dano efetivo à pessoa humana. 
 
Um pai que não dedica afeto ao seu filho, mesmo cumprindo compromissos de 
assistência material, omite-se, ao menos, no plano de moral (para aqueles que 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 167 
entendem que o afeto não constitui verdadeiro valor constitucional), passível de 
reparação de caráter patrimonial. 
 
A partir dessa premissa, subsistem lacunas no ordenamento jurídico quanto a 
esse aspecto. 
 
Decorre daí a dimensão da tarefa da jurisprudência. 
 
Atualmente, percebe-se a mudança conceitual do ato ilícito para o dano 
injusto; assim, o dano será considerado injusto quando afetar aspecto 
essencial da dignidade humana, mesmo não sendo antijurídico. 
 
Caso a vítima, ponderados os interesses, permanecer não ressarcida, cumpre 
aplicar o conceito de dano injusto, em respeito ao princípio basilar da 
responsabilidade civil moderna, ou seja, a vítima deverá ser ressarcida. 
 
No Recurso Especial no 1.159.242 de São Paulo, julgado em 24 de abril 
de 2012, o Superior Tribunal de Justiça, na relatoria da ministra Nancy 
Andrighi, entendeuque o abandono afetivo é passível de reparação, 
caracterizando verdadeiro dano moralin re ipsa à vítima. 
 
Assim, o dano moral quando se afigura inequívoco, decorrente do próprio fato, 
in re ipsa, sendo de todo presumíveis a frustração e a angústia suportadas pelo 
ofendido. 
 
Relativamente à verba a ser fixada, é de se dizer que o valor deve se mostrar 
razoável e proporcional ao dano sofrido pela vítima, levando-se em conta o 
caráter punitivo-pedagógico da condenação sem permitir que a ela gere 
enriquecimento indevido. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 168 
Abandono afetivo - STJ 
Em síntese, o STJ reconheceu que o valor afeto é fundamental na 
relação entre pais e filhos e o abandono afetivo, decorrente da 
omissão paterna ao dever de cuidar, constitui elemento suficiente 
para caracterizar dano moral compensável. 
 
Segundo o tribunal, não há restrições no ordenamento jurídico pátrio à 
aplicação de regras relativas à responsabilidade civil e ao consequente dever de 
indenizar no direito de família, eis que o dever de cuidado encontra respaldo na 
unidade constitucional brasileira. 
 
É importante destacar que, tanto pela concepção, quanto mediante a adoção, 
os pais assumem obrigações jurídicas que ultrapassam o básico em relação aos 
filhos, pois o indivíduo necessita de outros elementos imateriais, oriundos do 
valor afeto. 
 
Andrighy ressaltou que não há como se discutir o amar, que é uma faculdade, 
mas sim a imposição biológica e constitucional de cuidar, que é dever jurídico, 
corolário da liberdade das pessoas em gerar ou adotar filhos. 
 
DANOS MORAIS. ABANDONO AFETIVO. DEVER DE CUIDADO. O abandono afetivo 
decorrente da omissão do genitor no dever de cuidar da prole constitui 
elemento suficiente para caracterizar dano moral compensável. Isso porque o 
non facere que atinge um bem juridicamente tutelado, no caso, o necessário 
dever de cuidado (dever de criação, educação e companhia), importa em 
vulneração da imposição legal, gerando a possibilidade de pleitear 
compensação por danos morais por abandono afetivo. Consignou-se que não há 
restrições legais à aplicação das regras relativas à responsabilidade civil e ao 
consequente dever de indenizar no Direito de Família e que o cuidado como 
valor jurídico objetivo está incorporado no ordenamento pátrio não com essa 
expressão, mas com locuções e termos que manifestam suas diversas 
concepções, como se vê no art. 227 da CF. O descumprimento comprovado da 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 169 
imposição legal de cuidar da prole acarreta o reconhecimento da ocorrência de 
ilicitude civil sob a forma de omissão. É que, tanto pela concepção quanto pela 
adoção, os pais assumem obrigações jurídicas em relação à sua prole que 
ultrapassam aquelas chamadas necessarium vitae. É consabido que, além do 
básico para a sua manutenção (alimento, abrigo e saúde), o ser humano 
precisa de outros elementos imateriais, igualmente necessários para a formação 
adequada (educação, lazer, regras de conduta etc.). O cuidado, vislumbrado 
em suas diversas manifestações psicológicas, é um fator indispensável à criação 
e à formação de um adulto que tenha integridade física e psicológica, capaz de 
conviver em sociedade, respeitando seus limites, buscando seus direitos, 
exercendo plenamente sua cidadania. A Min. Relatora salientou que, na 
hipótese, não se discute o amar – que é uma faculdade – mas sim a imposição 
biológica e constitucional de cuidar, que é dever jurídico, corolário da liberdade 
das pessoas de gerar ou adotar filhos. Ressaltou que os sentimentos de mágoa 
e tristeza causados pela negligência paterna e o tratamento como filha de 
segunda classe, que a recorrida levará ad perpetuam, é perfeitamente 
apreensível e exsurgem das omissões do pai (recorrente) no exercício de seu 
dever de cuidado em relação à filha e também de suas ações que privilegiaram 
parte de sua prole em detrimento dela, caracterizando o dano in re ipsa e 
traduzindo-se, assim, em causa eficiente à compensação. Com essas e outras 
considerações, a Turma, ao prosseguir o julgamento, por maioria, deu parcial 
provimento ao recurso apenas para reduzir o valor da compensação por danos 
morais de R$ 415 mil para R$ 200 mil, corrigido desde a data do julgamento 
realizado pelo tribunal de origem. Resp 1.159.242-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, 
julgado em 24/4/2012. 
 
Atividade proposta 
Vamos fazer uma atividade relacionada ao tema estudado? Leia com atenção! 
De acordo com Rodrigo da Cunha Pereira, a condenação por abandono afetivo 
se justifica da seguinte maneira: “Não se trata, aqui, de uma imposição jurídica 
de amar, mas de um imperativo judicial de criação da possibilidade da 
construção do afeto, em um relacionamento em que o amor e a afetividade lhe 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 170 
seriam inerentes. Essa edificação torna-se apenas possível na convivência, na 
proximidade, no ato de educar, nos quais é estruturada e instalada a referência 
paterna. Em função da expressa negativa deste pai de proporcionar ao filho a 
possibilidade da construção mútua da afetividade, violando, por esta razão, 
seus direitos de personalidade, é que foi imputado ao pai o pagamento da 
indenização por dano moral”. Concorde ou discorde. 
 
Chave de resposta: Há de se concordar, pois não há como se discutir o amar, 
que é uma faculdade, mas sim a imposição biológica e constitucional de cuidar, 
que é dever jurídico, corolário da liberdade das pessoas em gerar ou adotar 
filhos. 
 
Referências 
PINHEIRO, Rosalice Fidalgo. O “mínimo existencial” no contrato: desenhando a 
autonomia contratual em face dos direitos fundamentais sociais. In: CONSELHO 
NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO. Anais... Salvador. 
TARTUCE, Flávio. A penhora do Bem de Família do fiador de locação. 
Abordagem atualizada. Revista IOB de Direito Civil e Processual Civil, n. 
40, abr. 2006. p. 11-15. 
 
Exercícios de fixação 
Questão 1 
O devedor principal (locatário) não pode ter o seu bem de família penhorado, 
enquanto o fiador (em regra devedor subsidiário – Artigo 827 do CC) pode 
suportar a constrição, podendo seu bem de família ser penhorado. Assinale a 
alternativa incorreta acerca do presente entendimento: 
a) A Lei nº 8.009/90 permite a penhora do único bem de família do fiador 
em contratos de locação, conforme Artigo 3º, VII. 
b) O Artigo 3º, VII da Lei nº 8.009/90 foi declarado constitucional 
incidentalmente pelo STF. 
c) Caso o fiador arque com o pagamento da dívida, não terá o direito de se 
sub-rogar nos direitos do credor. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 171 
d) O fiador poderá renunciar ao benefício de ordem nos contratos de 
locação. 
 
Questão 2 
De acordo com a corrente minoritária, a penhorabilidade do bem de família do 
fiador viola a isonomia, a proteção constitucional à moradia e a dignidade da 
pessoa humana. Assinale a alternativa incorreta acerca do presente 
entendimento: 
a) A lesão à isonomia reside no fato de a fiança ser um contrato acessório, 
que não pode trazer mais obrigações do que o contrato principal 
(locação). 
b) Ocorre desrespeito à proteção constitucional da moradia (Artigo 6º da 
CF/1988). 
c) Ocorre desrespeito à proteção constitucional da moradia (Artigo 6º da 
CF/1988), uma das exteriorizações do princípio de proteção da dignidade 
da pessoa humana (Artigo 1º, III, do Texto Maior). 
d) Ocorre desrespeito à proteção constitucional da moradia (Artigo 6º da 
CF/1988), que não configura uma das exteriorizações do princípio de 
proteção da dignidade da pessoa humana (Artigo 1º, III, do TextoMaior). 
 
Questão 3 
Segundo Rosalice Fidalgo Pinheiro, é pertinente concordar com a incidência 
direta dos direitos fundamentais sociais nas relações privadas, o que tem o 
condão de delegar aos particulares a prestação de serviços básicos que 
incumbem ao Estado, como, por exemplo, a saúde e a educação. Tal 
entendimento materializa o seguinte instituto jurídico: 
a) Eficácia horizontal dos direitos fundamentais 
b) Eficácia vertical dos direitos fundamentais 
c) Diálogo das fontes 
d) Pacta sunt servanda 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 172 
Questão 4 
É possível a paralisação da execução de débito contraído junto ao Sistema 
Financeiro da Habitação fundamentada no direito à moradia, em contraposição 
ao direito de crédito. Assinale a alternativa incorreta acerca do presente 
entendimento: 
a) A pendência de litígio acerca do débito de mútuo hipotecário torna 
controvertida a liquidez da dívida e a mora. 
b) A referida pendência de litígio confere verossimilhança ao direito à 
sustação da execução extrajudicial. 
c) A presente tutela visa proteger a moradia, indispensável à 
operacionalização da garantia constitucional à dignidade da vida 
humana, que se sobrepõe a direitos meramente patrimoniais. 
d) A presente tutela visa proteger a moradia, indispensável à 
operacionalização da garantia constitucional à dignidade da vida 
humana, que ainda não se sobrepõe totalmente aos direitos meramente 
patrimoniais. 
 
Questão 5 
O particular que presta uma atividade econômica correlacionada com serviços 
médicos e de saúde não possui os mesmos deveres do Estado, segundo a 
jurisprudência majoritária. Assinale a alternativa incorreta acerca do presente 
entendimento: 
a) O particular que presta uma atividade econômica correlacionada com 
serviços médicos e de saúde possui os mesmos deveres do Estado, ou 
seja, prestar assistência médica integral aos consumidores dos seus 
serviços. 
b) Tal entendimento não se sustenta somente no texto constitucional, mas, 
principalmente, na lei de mercado (“quanto maior o lucro, maior também 
é o risco)”. 
c) Tal entendimento se sustenta somente no texto constitucional. 
d) Tal entendimento se sustenta no Código de Defesa do Consumidor – 
CDC (Lei nº 8.078/90). 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 173 
 
Questão 6 
(IADES - 2014 - UFBA - Advogado) Considerando os conceitos de adimplemento 
e inadimplemento de uma obrigação, assinale a alternativa correta: 
a) Nas obrigações provenientes de ato ilícito, reputa-se o devedor em mora, 
desde a citação do réu da ação de ressarcimento. 
b) No tocante à cláusula penal, é correto afirmar que, quando estipulada 
conjuntamente com a obrigação, ou em ato posterior, só pode referir-se 
à execução completa dessa obrigação. 
c) O direito do credor a perdas e danos pela imperfeição, no cumprimento 
da obrigação, exclui os juros legais não estipulados no contrato. 
d) O devedor pode responder pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou 
força maior, desde que, expressamente, tenha por eles se 
responsabilizado. 
e) Incorre na cláusula penal, se provados dolo e prejuízo, qualquer devedor 
que deixe de cumprir a obrigação ou se constitua em mora. 
 
Questão 7 
(Concurso para Juiz de Direito Substituto do Estado de Minas Gerais/2007) Uma 
vez não cumprida a obrigação e constituído em mora o devedor, esse responde 
por perdas e danos. As perdas e danos devidos ao credor abrangem lucros 
cessantes: 
a) À expectativa de lucro do credor 
b) Ao prejuízo do credor potencialmente estimável 
c) Ao prejuízo por efeito direto e imediato da inexecução da obrigação 
d) A qualquer dano eventualmente aferível a partir da mora do devedor 
 
Questão 8 
Analise a jurisprudência abaixo e aponte a modalidade de dano moral acolhida: 
“AGRAVO REGIMENTAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. DANOS MORAIS. INCLUSÃO 
INDEVIDA NA SERASA. PROVA DO DANO. DESNECESSIDADE. QUANTUM 
INDENIZATÓRIO. RAZOABILIDADE. SÚMULA Nº 7/STJ. I - Nas ações de 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 174 
indenização em decorrência da inscrição indevida nos órgãos de 
proteção ao crédito, o dano moral se considera comprovado pela 
simples demonstração de que houve o apontamento. II - É possível a 
intervenção desta Corte para reduzir ou aumentar o valor indenizatório por 
dano moral apenas nos casos em que o quantum arbitrado pelo Acórdão 
recorrido se mostrar irrisório ou exorbitante, situação que não se faz presente 
no caso concreto. Agravo improvido. (Superior Tribunal de Justiça STJ; AgRg-
Ag 1.101.393; Proc. 2008/0219329-7; MG; Terceira Turma; Rel. Min. Sidnei 
Beneti; Julg. 17/12/2009; DJE 10/02/2010)”. 
a) Dano moral simples 
b) Dano moral que deve ser comprovado judicialmente 
c) Dano moral não presumido 
d) Dano moral in re ipsa 
 
Questão 9 
O STJ, diante da responsabilidade pelo abandono afetivo, ressaltou que não há 
como se discutir o amar, que é uma faculdade, mas sim a imposição biológica e 
constitucional de cuidar, que é dever jurídico. Assinale a alternativa incorreta 
acerca do entendimento colacionado: 
a) Tal entendimento materializa a dignidade da pessoa humana nas 
relações privadas. 
b) Tanto pela concepção, quanto mediante a adoção, os pais assumem 
obrigações jurídicas que ultrapassam o básico em relação aos filhos. 
c) O indivíduo necessita de outros elementos imateriais, oriundos do valor 
afeto. 
d) O presente entendimento é dever jurídico, não corolário da liberdade das 
pessoas em gerar ou adotar filhos. 
 
Questão 10 
A expressão “perdas e danos” inclui: 
a) Os danos emergentes e os danos morais 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 175 
b) Os danos materiais, compostos pelos lucros cessantes e pelos danos 
emergentes, além dos danos morais 
c) Os lucros cessantes e os danos emergentes 
d) Os danos morais apenas 
 
Aula 7 
Exercícios de fixação 
Questão 1 - C 
Justificativa: Conforme Artigo 831 do CC. 
 
Questão 2 - D 
Justificativa: A lesão à isonomia reside no fato de a fiança ser um contrato 
acessório, que não pode trazer mais obrigações do que o contrato principal 
(locação). Em reforço, haveria desrespeito à proteção constitucional da moradia 
(Artigo 6º da CF/1988), uma das exteriorizações do princípio de proteção da 
dignidade da pessoa humana (Artigo 1º, III, do Texto Maior). 
 
Questão 3 - A 
Justificativa: Segundo Rosalice Fidalgo Pinheiro, é pertinente concordar com a 
incidência direta dos direitos fundamentais sociais nas relações privadas, o que 
tem o condão de delegar aos particulares a prestação de serviços básicos, que 
incumbem ao Estado, como, por exemplo, a saúde e a educação. Não obstante 
a oposição de parcela da doutrina à eficácia direta daqueles direitos em sua 
dimensão prestacional, essa oposição não vem sendo aceita pela 
jurisprudência. 
 
Questão 4 - D 
Justificativa: “SISTEMA FINANCEIRO HABITACIONAL E PROCESSUAL CIVIL. 
EXECUÇÃO EXTRAJUDICIAL. SITUAÇÃO. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. IMÓVEL 
HIPOTECADO. LITÍGIO ACERCA DO DÉBITO. DIREITO À MORADIA. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 176 
PROTEÇÃO. DIGNIDADE HUMANA. INTERESSE PREVALENTE. A pendência de 
litígio acerca do débito de mútuo hipotecário torna controvertida a liquidez da 
dívida e a mora, conferindo verossimilhança ao alegado direito à sustação da 
execução extrajudicial, para proteção da moradia, indispensável à 
operacionalização da garantia constitucional à dignidade da vida humana, que 
se sobrepõe a direitos meramente patrimoniais. (RIO GRANDE DO SUL. 
Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Agravo de Instumento nº 
70003299401, rel. Des. Mara LarsenChechi, j. 28.11.2001)”. 
 
Questão 5 - C 
Justificativa: O particular que presta uma atividade econômica correlacionada 
com serviços médicos e de saúde possui os mesmos deveres do Estado, ou 
seja, prestar assistência médica integral aos consumidores de seus serviços, 
entendimento esse que não se sustenta somente no texto constitucional ou no 
Código de Defesa do Consumidor – CDC (Lei nº 8.078/90), mas, 
principalmente, na lei de mercado (“quanto maior o lucro, maior também é o 
risco”) (MINAS GERAIS. Tribunal de Alçada de Minas Gerais. Ap. Cív. nº 
264.003-9, rel. Juíza Maria Elza, j. 10.02.99. In: JURISPRUDÊNCIA BRASILEIRA. 
Cível e comércio. Planos de Saúde, 193. Curitiba: Juruá, 2002, p. 117). 
 
Questão 6 - D 
Justificativa: Conforme Artigo 393 do CC. 
 
Questão 7 - C 
Justificativa: A resposta se encontra no Artigo 403 do CC, que assim dispõe: 
“Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, as perdas e danos só 
incluem os prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e 
imediato, sem prejuízo do disposto na lei processual”. 
 
Questão 8 - D 
Justificativa: O dano moral in re ipsa é o dano moral presumido. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 177 
Questão 9 - D 
Justificativa: É importante destacar que, tanto pela concepção, quanto 
mediante a adoção, os pais assumem obrigações jurídicas que ultrapassam o 
básico em relação aos filhos, pois o indivíduo necessita de outros elementos 
imateriais, oriundos do valor afeto. Andrighy ressaltou que não há como se 
discutir o amar, que é uma faculdade, mas sim a imposição biológica e 
constitucional de cuidar, que é dever jurídico, corolário da liberdade das 
pessoas em gerar ou adotar filhos. 
 
Questão 10 - B 
Justificativa: A expressão “perdas e danos” inclui os danos materiais (danos 
emergentes e lucros cessantes, nos termos dos Artigos 402 a 404 do CC), bem 
como danos morais (Artigo 5º, V e X, da CF). 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 178 
Introdução 
Contrato de consumo é aquele em que alguém, um profissional, fornece um 
produto ou presta um serviço a um destinatário final, denominado consumidor, 
mediante remuneração direta ou vantagens indiretas. 
 
O Código de Defesa do Consumidor é um dos diplomas que mais representa a 
constitucionalização do direito civil, como decorrência da proteção do 
hipossuficiente da relação de consumo. Assim, convém analisar o contrato de 
adesão consumerista, bem como a possibilidade de revisão judicial desses 
contratos, a partir da declaração de nulidade das cláusulas tidas como abusivas. 
Esse é o tema que veremos em nossa última aula. 
Bons estudos! 
 
Objetivo: 
1. Analisar o contrato de adesão consumerista; 
2. Analisar a revisão judicial dos contratos de consumo, em decorrência da 
abusividade de suas cláusulas. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 179 
Conteúdo 
Conceito e classificação do contrato 
A partir do conhecimento apropriado em todas as aulas, é possível estabelecer 
um conceito para o contrato. 
 
Assim, para a melhor doutrina, o contrato está situado na esfera dos direitos 
pessoais, constituindo negócio jurídico bilateral e fonte principal do direito 
obrigacional pelo qual as partes procuram regular direitos patrimoniais com 
objetivos especificados pela vontade e pela composição de seus interesses. 
 
Diante da classificação dos contratos, de maneira elementar, é possível 
estabelecer diferença entre o contrato de adesão, o contrato paritário e o 
contrato de consumo. 
 
Contrato de adesão: é entendido como aquele em que uma parte, o 
estipulante, impõe o conteúdo negocial, restando à outra parte, o aderente, 
duas opções: aceitar ou não o conteúdo desse negócio (Artigos 423 e 424 do 
CC e 54 do CDC). 
 
Contrato paritário: decorre da livre manifestação de vontade de todos os 
contratantes, que participam da confecção de suas cláusulas. 
 
Importante observar que o contrato de consumo não se confunde com o 
contrato de adesão, apesar de que na maioria das negociações consumeristas o 
pacto assuma a forma de aderência do consumidor ao conjunto imposto pelo 
fornecedor. 
 
Contrato de consumo: tecnicamente, é aquele em que alguém, um 
profissional, fornece um produto ou presta um serviço a um destinatário final, 
denominado consumidor, mediante remuneração direta ou vantagens indiretas. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 180 
De acordo com o STJ, será de adesão o contrato de consumo, quando não 
houver ingerência do consumidor na pactuação de suas cláusulas: 
 
“Contrato de adesão é aquele cujo conteúdo não pode ser substancialmente 
modificado pelo consumidor (Artigo 54 do CDC), em cujo rol se inclui o contrato 
de compra e venda de apartamento, salvo se, v.g., comprovada ou a 
modificação da planta padrão ou a redução significativa do preço ou o 
respectivo parcelamento em condições não oferecidas aos demais adquirentes 
de unidades no empreendimento (STJ, Resp. 59870, DJU 07.02.2000, p. 149, 
Rel. Min. Ari Pargendler, j. 16.11.1998, 3ª T.).” 
 
Contrato de adesão 
Vamos tratar da regra do contrato de adesão na esfera do direito do 
consumidor, assim, convém a transcrição do Artigo 54 do CDC: 
 
“Contrato de adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas 
pela autoridade competente ou estabelecidas unilateralmente pelo 
fornecedor de produtos ou serviços, sem que o consumidor possa 
discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo. 
 
§ 1º A inserção de cláusula no formulário não desfigura a natureza de adesão 
do contrato. 
 
§ 2º Nos contratos de adesão admite-se cláusula resolutória, desde que a 
alternativa, cabendo a escolha ao consumidor, ressalvando-se o disposto no § 
2º do artigo anterior. 
 
§ 3º Os contratos de adesão escritos serão redigidos em termos claros e com 
caracteres ostensivos e legíveis, cujo tamanho da fonte não será inferior ao 
corpo doze, de modo a facilitar sua compreensão pelo consumidor. (Redação 
dada pela nº 11.785, de 2008). 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 181 
§ 4º As cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor deverão 
ser redigidas com destaque, permitindo sua imediata e fácil compreensão.” 
 
Analisando o parágrafo 1º do mencionado artigo, é possível a inserção de 
cláusula no contrato de adesão pelo consumidor, mesmo que 
posteriormente, o que não desnatura a sua classificação. 
 
Artigo 54 do CDC – parágrafo 2º 
Vamos entender o segundo parágrafo? Relembre o que ele define: 
 
“§ 2° Nos contratos de adesão admite-se cláusula resolutória, desde que a 
alternativa, cabendo a escolha ao consumidor, ressalvando-se o disposto no § 
2° do artigo anterior.” 
 
Analisando o parágrafo 2º do mencionado artigo, é possível a inserção de 
cláusula resolutória, desde que haja a concordância do consumidor. Dessa 
forma, se o consumidor optar pela extinção do contrato, deverá ele receber de 
volta os valores pagos, atualizados monetariamente e descontadas as 
vantagens auferidas com a fruição do bem, como determina o parágrafo 2º 
do Artigo 53 do CDC. 
 
Parágrafo 2º do Artigo 53 do CDC: 
“Nos contratos de compra e venda de móveis ou imóveis mediante pagamento 
em prestações, bem como nas alienações fiduciárias em garantia, consideram-
se nulas de pleno direito as cláusulas que estabeleçam a perda total das 
prestações pagas em benefício do credor que, em razão do inadimplemento, 
pleitear a resolução do contrato e a retomada do produto alienado. § 2º Nos 
contratos do sistema de consórcio de produtos duráveis, a compensação ou a 
restituição das parcelasquitadas, na forma deste artigo, terá descontada, além 
da vantagem econômica auferida com a fruição, os prejuízos que o desistente 
ou inadimplente causar ao grupo.” 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 182 
Se houver cláusula dispondo no sentido da perda de todas as prestações pelo 
consumidor, essa deverá ser declarada nula de pleno direito. 
 
É importante a transcrição do Informativo nº 282 do STJ, que ilustra a 
necessidade de consentimento do consumidor, diante da pactuação de 
cláusula resolutiva, sob pena dessa ser considerada nula. A autora, à época 
com mais de oitenta anos de idade, interpôs ação declaratória de nulidade de 
cláusula de plano de saúde que estipulava a rescisão unilateral por ambas as 
partes. Leia o informativo. 
 
Informativo nº 282 do STJ 
“CONTRATO. PLANO. SAÚDE. RESCISÃO UNILATERAL. REEXAME. CLÁUSULA. A 
autora, à época com mais de oitenta anos de idade, interpôs ação declaratória 
de nulidade de cláusula de plano de saúde que estipulava a rescisão unilateral 
por ambas as partes, desde que não houvesse mais interesse na avença. Assim, 
a ora recorrente ré rescindiu unilateralmente o contrato após pretender o 
aumento de mensalidade, o qual recusou a recorrida autora alegando a falta de 
condições para suportar os encargos financeiros. O Tribunal a quo entendeu 
que, conforme Artigo 54 do CDC, nos contratos de adesão, só se 
admite cláusula resolutória desde que alternativa e, ao consumidor, 
cabe a escolha, ressalvada a hipótese do § 2º do Artigo 53, que não se aplica 
ao presente caso. Logo, a Turma não conheceu do recurso, pois, para chegar a 
outro entendimento, teria que revolver as provas e examinar o contrato, o que 
é vedado pelas Súmulas ns. 5 e 7 deste Superior Tribunal. Resp 242.084-SP, 
Rel. Min. Aldir Passarinho Junior, julgado em 25/4/2006.” 
 
Artigo 54 do CDC – parágrafo 3º 
Analisaremos o terceiro parágrafo. 
 
“§ 3o Os contratos de adesão escritos serão redigidos em termos claros e com 
caracteres ostensivos e legíveis, cujo tamanho da fonte não será inferior ao 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 183 
corpo doze, de modo a facilitar sua compreensão pelo consumidor. (Redação 
dada pela nº 11.785, de 2008).“ 
 
Analisando o parágrafo 3º do mencionado artigo, torna-se necessário que a 
redação do contrato de adesão consumerista seja legível e clara. 
 
O legislador estabeleceu a observância do tamanho da fonte 12 nesses 
contratos, a fim de impedir que o fornecedor formule contratos com letras 
minúsculas ou ilegíveis, o que dificultava o conhecimento das obrigações por 
parte dos consumidores. 
 
 
Atenção 
 É importante transcrever as palavras de Leonardo Garcia, quanto 
ao diálogo normativo existente entre o Código Civil e o Código 
de Defesa do Consumidor: 
 
“A mesma ideia se encontra no Novo Código Civil, em seu artigo 
423, o qual estipulou que nos contratos de adesão, quando 
houver cláusulas ambíguas ou contraditórias, dever-se-á adotar 
a interpretação mais favorável ao aderente.”. 
 
Percebe-se que a aplicação do Código Civil é mais restrita, pois 
somente valem para as referidas cláusulas, enquanto o CDC se 
aplica em todos os contratos que envolvem os consumidores, 
sejam eles de adesão ou individualmente negociados, pouco 
importando se as cláusulas são ambíguas ou contraditórias, 
inclusive aquelas decorrentes de publicidade, pré-contratos e 
informe, em consonância aos princípios da vinculação e da 
informação deficiente. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 184 
Artigo 54 do CDC – parágrafo 4º 
Analisemos o quarto e último parágrafo. 
 
“§ 4° As cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor deverão 
ser redigidas com destaque, permitindo sua imediata e fácil compreensão.” 
 
Analisando o parágrafo 4º do mencionado artigo, vê-se que é possível limitar 
direitos dos consumidores, desde que a cláusula limitadora esteja em destaque 
e não constitua uma limitação considerada abusiva. 
 
Além disso, não basta o destaque da cláusula limitativa, mas também se exige 
a sua clareza semântica, uma vez ser o consumidor considerado 
hipossuficiente. Havendo divergência interpretativa da cláusula, é cabível 
aplicar a disposição do Artigo 47 do CDC: “As cláusulas contratuais serão 
interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor”. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 185 
 
 
Atenção 
 É importante transcrever as palavras de Leonardo Garcia, quanto 
ao diálogo normativo existente entre o Código Civil e o Código 
de Defesa do Consumidor: 
 
“A mesma ideia se encontra no Novo Código Civil, em seu artigo 
423, o qual estipulou que nos contratos de adesão, quando 
houver cláusulas ambíguas ou contraditórias, dever-se-á adotar 
a interpretação mais favorável ao aderente”. 
 
Percebe-se que a aplicação do Código Civil é mais restrita, pois 
somente valem para as referidas cláusulas, enquanto o CDC se 
aplica em todos os contratos que envolvem os consumidores, 
sejam eles de adesão ou individualmente negociados, pouco 
importando se as cláusulas são ambíguas ou contraditórias, 
inclusive aquelas decorrentes de publicidade, pré-contratos e 
informe, em consonância aos princípios da vinculação e da 
informação deficiente. 
 
O STJ possui entendimento de que a cláusula de exclusão de tratamento de 
AIDS é nula, por ser abusiva – ademais, sequer foi atendido o requisito do 
Artigo 54, parágrafo 4º do CDC, de ser redigida com destaque, de modo a 
permitir ao segurado a sua devida compreensão: 
 
“CIVIL E PROCESSUAL. RECURSO ESPECIAL. CONTRATO. PLANO DE SAÚDE. 
AIDS. EXCLUSÃO DE COBERTURA. CLÁUSULA POTESTATIVA. PRECEDENTES. 
PROVIMENTO. I. É abusiva a cláusula contratual inserta em plano de 
assistência à saúde que afasta a cobertura de tratamento da síndrome 
de imunodeficiência adquirida (AIDS/SIDA). II. As limitações às 
empresas de prestação de serviços de planos e seguros privados de saúde em 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 186 
benefício do consumidor advindas com a Lei 9.656/98 se aplicam, em princípio, 
aos fatos ocorridos a partir de sua vigência, embora o contrato tenha sido 
celebrado anteriormente, porquanto cuida-se de ajuste de trato sucessivo. 
Precedente. III. Recurso especial provido”. 
 
 
Atenção 
 O Código de Defesa do Consumidor permite a limitação de 
direitos consumeristas, desde que a cláusula esteja em destaque 
e não seja considerada abusiva. É também possível limitar a 
indenização do consumidor, nos moldes do Artigo 51, I, do CDC, 
desde que o consumidor seja pessoa jurídica e haja uma 
situação que justifique, pois nessa negociação resta diminuída a 
característica de hipossuficiência de uma das partes. 
 
De outra sorte, não é possível, em hipótese nenhuma, exonerar, 
limitar ou atenuar a responsabilidade objetiva do fornecedor de 
produtos e serviços, conforme Artigos 25 e 51, I, do CDC 
(GARCIA). 
 
Artigo 51 do CDC 
Vamos analisar a revisão judicial dos contratos de consumo, em decorrência da 
abusividade de suas cláusulas. 
 
De acordo com o Artigo 51 do CDC, tais cláusulas são consideradas abusivas, 
por desafiarem revisão judicial por meio da declaração de sua nulidade. 
 
São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao 
fornecimento de produtos e serviços que: I - impossibilitem, exonerem ou 
atenuem a responsabilidade do fornecedor por vícios de qualquer natureza dos 
produtos e serviços ou impliquem renúncia ou disposição de direitos. Nas 
relações de consumo entre o fornecedor e o consumidor pessoa jurídica, a 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DEOBRIGAÇÕES E CONTRATOS 187 
indenização poderá ser limitada, em situações justificáveis; II - subtraiam ao 
consumidor a opção de reembolso da quantia já paga, nos casos previstos 
neste código; III - transfiram responsabilidades a terceiros; IV - estabeleçam 
obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em 
desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade; 
V - (Vetado); VI - estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do 
consumidor; VII - determinem a utilização compulsória de arbitragem; VIII - 
imponham representante para concluir ou realizar outro negócio jurídico pelo 
consumidor; IX - deixem ao fornecedor a opção de concluir ou não o contrato, 
embora obrigando o consumidor; X - permitam ao fornecedor, direta ou 
indiretamente, variação do preço de maneira unilateral; XI - autorizem o 
fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente, sem que igual direito seja 
conferido ao consumidor; XII - obriguem o consumidor a ressarcir os custos de 
cobrança de sua obrigação, sem que igual direito lhe seja conferido contra o 
fornecedor; XIII - autorizem o fornecedor a modificar unilateralmente o 
conteúdo ou a qualidade do contrato, após sua celebração; XIV - infrinjam ou 
possibilitem a violação de normas ambientais; XV - estejam em desacordo com 
o sistema de proteção ao consumidor; XVI - possibilitem a renúncia do direito 
de indenização por benfeitorias necessárias. § 1º Presume-se exagerada, entre 
outros casos, a vantagem que: I - ofende os princípios fundamentais do 
sistema jurídico a que pertence; II - restringe direitos ou obrigações 
fundamentais inerentes à natureza do contrato, de tal modo a ameaçar seu 
objeto ou equilíbrio contratual; III - se mostra excessivamente onerosa para o 
consumidor, considerando-se a natureza e conteúdo do contrato, o interesse 
das partes e outras circunstâncias peculiares ao caso. § 2° A nulidade de uma 
cláusula contratual abusiva não invalida o contrato, exceto quando de sua 
ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer ônus excessivo a 
qualquer das partes. § 3° (Vetado). § 4° É facultado a qualquer consumidor ou 
entidade que o represente requerer ao Ministério Público que ajuíze a 
competente ação para ser declarada a nulidade de cláusula contratual que 
contrarie o disposto neste código ou de qualquer forma não assegure o justo 
equilíbrio entre direitos e obrigações das partes. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 188 
Segundo Garcia, constituem características para aplicação do referido artigo: 
 
Trata-se de rol meramente exemplificativo, podendo haver outras situações que 
configurem abusividade contratual, mas que não foram dispostas pelo 
legislador consumerista. 
 
A declaração de nulidade deverá ocorrer, diante da abusividade da cláusula, 
mesmo que o consumidor, parte hipossuficiente, tenha concordado 
contratualmente com ela. 
 
A sentença que declara a nulidade é constitutiva negativa, operando efeito ex 
tunc, retroagindo à data da celebração do acordo. 
 
Já que o Artigo 51 do CDC não estabelece lapso temporal para a arguição 
judicial da abusividade, entende-se por sua imprescritibilidade. 
 
A declaração de nulidade de cláusulas abusivas poderá ocorrer em contratos de 
adesão (regra) ou em contratos paritários (exceção). 
 
De acordo com o STJ, não há possibilidade de o juiz decretar de ofício a 
abusividade de cláusulas contratuais, mesmo que o próprio Tribunal Superior já 
tenha declarado sua abusividade em outras demandas, devendo a parte 
interessada argui-la em sede judicial. 
 
Tal fato acontece também em contratos bancários, de acordo com a Súmula nº 
381 do mesmo tribunal: “Nos contratos bancários, é vedado ao julgador 
conhecer, de ofício, da abusividade de cláusulas”. 
 
Não é possível, em hipótese nenhuma, exonerar, limitar ou atenuar a 
responsabilidade objetiva do fornecedor de produtos e serviços. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 189 
Sob tal entendimento, a cláusula deverá ser considerada como abusiva, como 
decorre do entendimento consubstanciado pela Súmula nº 130 do STJ: 
 
“A empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano ou furto de 
veículos em seu estacionamento”. 
 
Onerosidade excessiva 
Como já visto na aula 1, no que diz respeito à relação de consumo, segundo 
o STJ, configura hipótese de violação do Artigo 51, II e IV, do CDC, as 
cláusulas contratuais que estabeleçam obrigações consideradas iníquas, 
abusivas, que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam 
incompatíveis com a boa-fé ou a equidade. 
 
Nesse contexto, cabe ressaltar o disposto no Artigo 51, § 1º, III, do CDC, 
que presume ser exagerada a vantagem que “se mostra excessivamente 
onerosa para o consumidor”. 
 
Como resultado, devem ser tais cláusulas declaradas nulas de pleno 
direito, por meio da revisão judicial, que no direito do consumidor 
ocorre pela simples onerosidade excessiva, não havendo necessidade 
de um fato superveniente e imprevisível (Artigo 6º, V, CDC). 
 
De acordo com Nelson Nery Jr. e Rosa Maria de Andrade Nery: 
 
“Para que o consumidor tenha direito à revisão do contrato, basta que haja 
onerosidade excessiva para ele, em decorrência de fato superveniente. Não há 
necessidade de que esse fatos sejam extraordinários nem que sejam 
imprevisíveis. As soluções da teoria da imprevisão, com o perfil que a ela é 
dado pelo Código Civil italiano (Artigo 1.467) e pelo Código Civil brasileiro 
(Artigo 478), não são suficientes para as soluções reclamadas nas relações de 
consumo. Pela teoria da imprevisão, somente os fatos extraordinários e 
imprevisíveis pelas partes por ocasião da formação do contrato é que 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 190 
autorizam, não sua revisão, mas sua resolução. A norma consumerista não 
exige nem extraordinariedade, nem imprevisibilidade dos fatos supervenientes 
para conferir, ao consumidor, o direito de revisão efetiva do contrato, não sua 
resolução.” 
 
Descumprimento de cláusula contratual – plano de saúde 
A jurisprudência do STJ entende que o mero descumprimento de cláusula 
contratual, em princípio, não gera dano moral indenizável, mas é 
possível a condenação de dano moral quando há recusa infundada de cobertura 
de plano de saúde. 
 
O CDC estabelece normas de ordem pública e interesse social e, em seu Artigo 
4º, consagra os princípios da boa-fé objetiva e da equidade e coíbe o abuso de 
direito. 
 
 
Atenção 
 As cláusulas restritivas do direito do consumidor devem ser 
interpretadas da forma menos gravosa a ele, ou seja, mais 
benéficas, visto não ser razoável que o segurado de plano de 
saúde seja desamparado quando mais precise de tratamento 
médico e hospitalar. 
 
Abuso do direito – renovação de contrato 
Pelo Enunciado nº 543 da VI Jornada de Direito Civil do CJF/STJ 
: 
“Constitui abuso do direito a modificação acentuada das condições do seguro 
de vida e de saúde pela seguradora quando da renovação do contrato”. 
 
Justifica-se, o presente entendimento, uma vez que os contratos de seguro de 
vida e de saúde normalmente são pactuados por longo período de tempo. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 191 
Nesses casos, verificam-se relações complexas em que, muitas vezes, os 
consumidores se tornam clientes cativos de determinado fornecedor. 
 
Como devem ser vistas tais situações? 
 
Tais situações não podem ser vistas de maneira isolada, mas de modo 
contextualizado com a nova sistemática contratual e com os novos paradigmas 
principiológicos. 
 
Por que ocorrem? 
 
Tal ocorrência se dá em virtudedo fenômeno de massificação das relações 
interpessoais, com especial importância nas relações de consumo. Parte-se da 
premissa de que a relação contratual deve responder a eventuais mudanças de 
seu substrato fático ao longo do período contratual. É uma aplicação do 
princípio da boa-fé objetiva, que prevê padrão de comportamento leal entre as 
partes, como visto nas outras aulas, em detrimento da autonomia privada. 
 
O que é exercido de maneira abusiva? 
 
A contratação, em geral, ocorre quando o segurado é ainda jovem. A renovação 
anual pode ocorrer por anos, às vezes décadas. Se, em determinado ano, de 
forma abrupta e inesperada, a seguradora condicionar a renovação a uma 
repactuação excessivamente onerosa para o segurado, há desrespeito ao dever 
anexo de cooperação, inerente à boa-fé objetiva. 
 
Dessa forma, o direito de renovar ou não o contrato é exercido de maneira 
abusiva, em consonância com o disposto nos Artigos 187 do Código Civil e 51 
do Código de Defesa do Consumidor. 
 
Qual é o entendimento do STJ? 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 192 
Não se trata de impedimento ou bloqueio a reajustes, mas de definir um 
padrão justo de reequilíbrio em que os reajustes devam ocorrer de maneira 
suave e gradual. Aliás, esse é o entendimento do STJ (STJ, AgRg nos Edcl no 
Ag n. 1.140.960/RS, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, 
julgamento em 23/8/11; Resp n. 1.073.595/MG, relatora Ministra Nancy 
Andrighi, Segunda Seção, julgamento em 23/3/11). 
 
Atividade proposta 
CIVIL E PROCESSUAL. RECURSO ESPECIAL. CONTRATO. PLANO DE SAÚDE. 
AIDS. EXCLUSÃO DE COBERTURA. CLÁUSULA POTESTATIVA. PRECEDENTES. 
PROVIMENTO. I. É abusiva a cláusula contratual inserta em plano de 
assistência à saúde que afasta a cobertura de tratamento da síndrome de 
imunodeficiência adquirida (AIDS/SIDA).” 
 
Analisando essa jurisprudência, é possível constatar a opção do STJ em 
proteger o hipossuficiente da relação consumerista, por meio da aplicação das 
normas do CDC, bem como da materialização dos princípios da boa-fé objetiva 
e da função social dos contratos. 
Pergunta-se: o mesmo entendimento pode ser utilizado para outras doenças, 
como o câncer, por exemplo? 
 
Chave de resposta: Sim, em decorrência da aplicação do princípio 
constitucional da isonomia, mesmo em sentido contrário à autonomia privada. 
 
Referências 
GARCIA, Leonardo de Medeiros. Direito do Consumidor – Código 
Comentado e Jurisprudência. 7ª ed., rev., ampl. e atual. Niterói: Impetus, 
2011. 
NERY JR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código Civil anotado. 2ª 
ed. São Paulo, 2004. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 193 
Exercícios de fixação 
Questão 1 
(PROMOTOR – GO – 09) Analise o julgado de cunho consumerista a seguir e 
marque a alternativa correta: “Civil. Seguro de assistência médico-hospitalar. 
Plano de assistência integral (cobertura total), assim nominado no contrato. As 
expressões ‘assistência integral’ e ‘cobertura total’ são expressões que têm 
significado unívoco na compreensão comum, e não podem ser referidas num 
contrato de seguro, esvaziadas do seu conteúdo próprio, sem que isso afronte 
o princípio da boa-fé nos negócios.” (STJ, Resp. 264.562, Rel. Min. Ari 
Pargender, j. 12/06/01, p. DJ 13/08/01). 
a) O julgado está fundado na violação ao princípio da vulnerabilidade do 
consumidor. 
b) O julgado está fundado na violação ao princípio da informação deficiente. 
c) O julgado está fundado na violação ao princípio da segurança. 
d) Apoia-se o julgado na inobservância do princípio da reparação integral. 
 
Questão 2 
Para o direito do consumidor, contrato pelo qual as cláusulas tenham sido 
aprovadas pela autoridade competente ou estabelecidas unilateralmente pelo 
fornecedor de produtos ou serviços sem que o consumidor possa discutir ou 
modificar substancialmente seu conteúdo é classificado como: 
a) Contrato paritário 
b) Contrato sinalagmático 
c) Contrato aleatório 
d) Contrato de adesão 
 
Questão 3 
Todas as assertivas a seguir evidenciam regras pertinentes à interpretação do 
contrato de adesão consumerista, salvo: 
a) Os contratos de adesão escritos serão redigidos em termos claros e com 
caracteres ostensivos e legíveis cujo tamanho da fonte não será inferior 
ao corpo doze, de modo a facilitar sua compreensão pelo consumidor. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 194 
b) As cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor deverão 
ser redigidas com destaque, permitindo sua imediata e fácil 
compreensão. 
c) Nos contratos de adesão admite-se cláusula resolutória, desde que 
alternativa, cabendo a escolha ao credor da obrigação pecuniária. 
d) A inserção de cláusula no formulário não desfigura a natureza de adesão 
do contrato. 
 
Questão 4 
(TJPB – 2011 – CESPE – JUIZ) De acordo com o previsto no CDC, constitui 
direito básico do consumidor: 
a) A modificação de cláusulas contratuais que estabeleçam prestações 
excessivamente onerosas e que acarretem extrema vantagem para uma 
das partes, no caso de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis. 
b) A garantia de responsabilidade solidária no que se refere a ofensas 
cometidas por mais de um autor, caso em que todos os envolvidos 
deverão responder pela reparação dos danos previstos nas normas de 
consumo, de acordo com sua culpabilidade. 
c) A adequada, eficaz e contínua prestação dos serviços públicos em geral. 
d) A facilitação da defesa dos seus direitos de consumidor, inclusive com a 
inversão do ônus da prova a seu favor, no âmbito civil, quando o juiz 
julgar procedente a alegação ou quando o consumidor for considerado 
necessitado, de acordo com as regras ordinárias de experiência. 
e) O acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à prevenção 
ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou 
difusos, assegurada proteção jurídica, administrativa e técnica aos 
necessitados. 
 
Questão 5 
(TJGO – FCC – 2012 – JUIZ) Marque a alternativa correta quanto ao Código de 
Defesa do Consumidor: 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 195 
a) Estabelece normas de defesa e de proteção dos consumidores e 
fornecedores de produtos e serviços, de ordem pública e de interesse 
social. 
b) Estabelece normas de defesa e de proteção do consumidor, de ordem 
pública e de interesse social, regulamentando normas constitucionais a 
respeito. 
c) Prevê normas de interesse geral, dispositivas e de regulamentação 
constitucional. 
d) Prevê normas de defesa e de proteção ao consumidor, dispositivas e de 
interesse individual, sem vinculação constitucional. 
e) Estabelece normas de interesse coletivo geral, de ordem pública e 
interesse social, sem vinculação com normas constitucionais. 
 
Questão 6 
(FCC – 2011 – DPE-RS – Defensor Público) Quanto ao equilíbrio dos contratos 
de consumo, pode-se afirmar que: 
a) Uma cláusula contratual considerada abusiva em um contrato de 
consumo necessariamente o será também em um contrato civil, desde 
que redigida em termos idênticos. 
b) A cláusula abusiva será nula quando afetar o equilíbrio das prestações do 
contrato, porém pode ser convalidada quando se trate de vício de 
informação, desde que haja concordância das partes com a redução do 
proveito do fornecedor. 
c) A revisão dos contratos de consumo pode se dar em face da alteração de 
circunstâncias, com a finalidade de proteção do consumidor, não se 
exigindo que tal situação seja necessariamente desconhecida das partes. 
d) Cláusula abusiva celebrada em contrato individual de consumo não pode 
ter sua nulidade pronunciadaem ação coletiva sem a anuência do 
consumidor que é parte da contratação. 
e) Não se reconhece a existência de cláusula surpresa se o consumidor leu, 
no momento da contratação, os termos do instrumento contratual. 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 196 
Questão 7 
(MPGO – 2012 – MPGO – PROMOTOR) Assinale a afirmativa correta. 
a) Segundo entendimento do STJ, a inversão do ônus da prova é regra de 
instrução, devendo a decisão judicial que a determina ser proferida 
preferencialmente na fase do saneamento do processo. 
b) A garantia legal de adequação do produto ou serviço depende de termo 
expresso, no qual se explicitará o alcance da responsabilidade do 
fornecedor. 
c) Verificando no processo a existência de uma cláusula abusiva inserta em 
um contrato bancário, o juiz deverá declarar a nulidade da cláusula, quer 
a requerimento do interessado, do Ministério Público, ou mesmo ex 
officio, por ser tratar de matéria de ordem pública. 
d) O Ministério Público, mediante inquérito civil, pode efetuar o controle 
administrativo abstrato e preventivo das cláusulas contratuais, cuja 
decisão terá caráter geral. 
 
Questão 8 
Pelo Artigo 51 do CDC, são nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas 
contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços, salvo: 
a) Permitam ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do preço de 
maneira unilateral. 
b) Estabeleçam inversão do ônus da prova em favor do consumidor. 
c) Impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor 
por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços. 
d) Impliquem renúncia ou disposição de direitos pelo consumidor. 
 
Questão 9 
(TJMS – 2012 – PUC-PR – JUIZ) Acerca do direito de proteção ao consumidor, 
assinale a opção CORRETA. 
a) Na execução dos contratos de consumo, o juiz pode adotar toda e 
qualquer medida para que seja obtido o efeito concreto pretendido pelas 
partes, em caso de não cumprimento da oferta ou do contrato pelo 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 197 
fornecedor, salvo quando expressamente constar no contrato cláusula 
que disponha de maneira diversa. 
b) Segundo o princípio da vinculação da oferta, toda informação ou 
publicidade sobre preços e condições de produtos ou serviços, como a 
marca do produto e as condições de pagamento, veiculada por qualquer 
forma ou meio de comunicação, obriga o fornecedor que a fizer veicular 
ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado. 
c) Nos contratos regidos pelo Código de Defesa do Consumidor, as 
cláusulas contratuais desproporcionais, abusivas ou ilegais podem ser 
objeto de revisão, desde que o contrato seja de adesão e cause lesão a 
direitos individuais ou coletivos. 
d) Em todo contrato de consumo consta, implicitamente, a cláusula de 
arrependimento, segundo a qual o consumidor pode arrepender-se do 
negócio e, dentro do prazo de reflexão, independentemente de qualquer 
justificativa, rescindir unilateralmente o acordo celebrado. 
e) O consumidor não tem direito à garantia legal. 
 
Questão 10 
(TJMS – 2012 – PUC-PR – JUIZ) Em um contrato de consumo, é considerada 
abusiva a cláusula que: 
a) Estabelece a remessa do nome do consumidor inadimplente para bancos 
de dados ou cadastros de consumidores. 
b) Impossibilite a violação de norma ambiental. 
c) Estabelece a inversão do ônus da prova em desfavor do fornecedor. 
d) Transfere responsabilidades a terceiros. 
e) Não permite ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do preço 
de maneira unilateral. 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 198 
Aula 8 
Exercícios de fixação 
Questão 1 - B 
Justificativa: Conforme os princípios que orientam o CDC. 
 
Questão 2 
Justificativa: Conforme Artigo 54 do CDC. 
 
Questão 3 - C 
Justificativa: Conforme Artigo 54, parágrafo 2º, do CDC. 
 
Questão 4 - E 
Justificativa: Conforme Artigo 6º do CDC. 
 
Questão 5 - B 
Justificativa: Conforme Artigo 1° do CDC: “O presente código estabelece 
normas de proteção e defesa do consumidor, de ordem pública e interesse 
social, nos termos dos Artigos 5°, inciso XXXII, 170, inciso V, da Constituição 
Federal e Artigo 48 de suas Disposições Transitórias”. 
 
Questão 6 - C 
Justificativa: Não há necessidade, no direito do consumidor, que haja fato 
imprevisível e superveniente (Artigo 6º, V, CDC). 
 
Questão 7 - A 
Justificativa: Conforme entendimento majoritário do STJ, a inversão do ônus da 
prova configura regra de instrução. 
 
Questão 8 - B 
Justificativa: Conforme Artigo 51, VI, do CDC. 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 199 
 
Questão 9 - B 
Justificativa: Conforme Artigo 30 do CDC: “Toda informação ou publicidade, 
suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação 
com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o 
fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a 
ser celebrado”. 
 
Questão 10 - D 
Justificativa: Conforme Artigo 51 do CDC. 
 
 
 
 TÓPICOS ESPECIAIS DE OBRIGAÇÕES E CONTRATOS 200 
Thiago Serrano é Mestre em Direito pela Universidade Estácio de Sá na linha 
de pesquisa Direitos Fundamentais e Novos Direitos. Professor de Graduação e 
Pós-Graduação em Direito Civil e Prática Jurídica da Universidade Estácio de Sá. 
Professor convidado de Graduação em Direito Civil da Universidade Federal 
Fluminense. Graduado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. 
Especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela Escola de 
Magistratura da Justiça do Trabalho do Estado do Rio de Janeiro. Advogado e 
consultor jurídico especialista em direito de família e direito homoafetivo. 
Examinador da Fundação Getúlio Vargas para o Exame da Ordem dos 
Advogados do Brasil. 
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4260267230068806.

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