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CAPÍTULO 2 (PG 41-60) Epidemiologia Descritiva: Distribuição das Doenças no Espaço e no Tempo Vertente fundamental da epidemiologia: distribuição das doenças no espaço e no tempo! 1. Quem adoece? 2. Onde a doença ocorre? 3. Quando a doença ocorre? A importância está no planejamento em saúde (através da definição de áreas de risco) e na clínica (por meio da análise do tempo de sobrevida de pacientes). CONCEITOS INICIAIS Surto, epidemia, pandemia e endemia: entenda qual é a diferença entre eles... Surto: acontece quando há o aumento repentino do número de casos de uma doença em uma região específica. Para ser considerado surto, o aumento de casos deve ser maior do que o esperado pelas autoridades. Em algumas cidades (como Itajai-SC) a dengue é tratada como surto (e não como epidemia), pois acontece em regiões específicas (um bairro, por exemplo). Ex: Poliomielite no Brasil atualmente. Epidemia: a epidemia se caracteriza quando um surto acontece em diversas regiões. Uma epidemia a nível municipal acontece quando diversos bairros apresentam uma doença, a epidemia a nível estadual acontece quando diversas cidades têm casos e a epidemia nacional acontece quando há casos em diversas regiões do país. Uma doença é considerada uma epidemia quando há número de casos acima do esperado em diversas localidades. Exemplo: no dia 24/02/2015 varias cidades decretaram epidemia de dengue. Mas você sabe por que a dengue é uma epidemia e não um surto? A resposta está na ocorrência de casos nas cinco regiões do Brasil. Se a dengue tivesse atingido, mesmo em grande número, apenas regiões isoladas, seria considerada um surto. Ex: Ebola na África em 2014 e 2018; Sífilis e Sarampo no Brasil em 2018. Epidemias históricas: Peste negra, Cólera, Gripe Espanhola. Pandemia: em uma escala de gravidade, a pandemia é o pior dos cenários. Ela acontece quando uma epidemia se espalha por diversas regiões do planeta. A pandemia é a classificação dada para doenças infecciosas e transmissíveis que se espalham por um ou mais continentes, ou por todo o mundo. Assim, a pandemia pode ser considerada como uma epidemia que atingiu todo o planeta e representa o cenário de maior gravidade. Em 2009, a gripe A (ou gripe suína) passou de epidemia para pandemia quando a OMS começou a registrar casos nos seis continentes do mundo. A aids, apesar de estar diminuindo no mundo, também é considerada uma pandemia. A gripe suína foi a primeira pandemia do século 21, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Ao longo da história, a malária, a cólera, a tuberculose e a Aids circulam na forma de epidemias ou pandemias. Endemia: a endemia não está relacionada a uma questão quantitativa. Uma doença é classificada como endêmica (típica) de uma região quando acontece com muita frequência no local. Popularmente, se fala que a doença é “típica” daquele local. Uma característica das endemias é manterem-se concentradas em uma região e não se espalharem para outros locais. As doenças endêmicas podem ser sazonais. A febre amarela e a malária, por exemplo, são consideradas doenças endêmicas da região Norte do Brasil. Doenças endêmicas na história: Doença de Chagas, Esquistossomose, Tuberculose. 2.1 Doenças Infecciosas e Não-Infecciosas Atualmente muito se conhece sobre as doenças infecciosas e não-infecciosas no âmbito científico, tanto em termos de suas histórias naturais, quanto de questões relativas à prevenção e controle. Infecção é o termo utilizado para se referir ao processo pelo qual um agente biológico penetra, desenvolve-se ou multiplica-se no organismo de outro ser vivo. O processo pode ser inaparente ou evoluir com manifestação clínica. Neste último caso, tratando-se especificamente de “doença infecciosa”. Mas existe também a possibilidade de desenvolvimento de doenças as quais não há a presença de um microrganismo ou parasita invasor do organismo humano. Para esta parcela de doenças foram geradas designações como “não- infecciosas”, “não transmissíveis”, “crônico-degenerativas”, “crônicas não- transmissíveis”, ou simplesmente “crônicas” (PEREIRA, 2013). 2.1.1 Doenças Infecciosas As doenças infecciosas são denominadas como tal quando são encontrados processos biológicos subjacentes à infecção pelos agentes infecciosos. A causa necessária para uma doença infecciosa ocorrer é o seu “agente biológico específico”. Tal agente pode pertencer a classes bacterianas, virais, fúngicas, parasitárias, entre outras. Qualquer que seja a espécie invasora, algumas características do agente são relevantes para a manifestação ou não do processo infeccioso no organismo do hospedeiro, como, por exemplo, os poderes de infectividade, patogenicidade, virulência, antigenicidade e mutagenicidade dos agentes infecciosos, assim como suas vulnerabilidades a antibióticos e demais substâncias. Podemos salientar também que alguns destes agentes são persistentemente patogênicos, enquanto outros o são ocasionalmente, como é o caso das bactérias existentes no intestino, constituintes da flora normal daquela parte do organismo, mas que podem causar doenças geniturinárias quando invadem esse sistema. No entanto, o agente nem sempre é “suficiente” para produzir a doença. Outros fatores, que são as “causas contribuintes”, têm de estar presentes, como é o caso da influência do meio ambiente no momento da contaminação, assim como da interferência de caracteres biológicos do próprio hospedeiro que podem o predispor à doença infecciosa. Quanto a esse aspecto, o hospedeiro pode apresentar características de refratariedade ou susceptibilidade ao micro- organismo, as quais irão depender de componentes relativos a um estado nutricional adequado ou desajustado; a qual classe social o indivíduo está inserido; presença ou não de estresse; idade e sexo. Características do ambiente físico e biológico são, muitas vezes, fatores fundamentais no circuito da transmissão. Para exemplificar, podemos citar o caso da cólera, que se alastra rapidamente em ambientes sem condições adequadas de saneamento básico. Outro caso é o das transmissões infecciosas dependentes de insetos vetores, no qual podemos evidenciar um aumento da distribuição de doenças como malária, leishmaniose e “doença de Chagas” nas imediações de florestas, ao contrário do que ocorre em regiões de cerrado. Porém, o incremento do turismo e do intercâmbio de pessoas e, ou, produtos animais e vegetais tende a facilitar a transmissão de tais enfermidades nas cidades (BRASIL, 2010). Além disso, o próprio desenvolvimento do sistema de saúde gera condições favoráveis ao aparecimento de infecções. A prática da hospitalização traz o risco da infecção hospitalar, problema ainda não resolvido com as técnicas de prevenção atualmente empregadas. O uso extensivo e inadequado de antibióticos facilita a eclosão de infecções por germes a eles resistentes. A crescente utilização de técnicas invasivas de diagnóstico e de tratamento, que alteram profundamente o meio interno, tem como efeito indesejável facilitar o aparecimento de infecções oportunistas, pois servem de porta de entrada ou diminuem a resistência do paciente a diversos micro-organismos (CREMESP, 2010). As reações do organismo do hospedeiro aos agentes microbianos podem ser de diferente intensidade. Quando ocorre a simples localização dos agentes na pele e mucosas, onde se reproduzem, sem produzir infecção ou doença, chamamos esse processo de colonização. Pois falamos em infecção apenas quando há reação do organismo, detectável por testes especiais, porém sem presença de sintomas. Já, quando estes sintomas aparecem, damos a designação de doença. 1 Infectividade: capacidade de se instalar no hospedeiro e nele multiplicar-se. 2 Patogenicidade: capacidade de produzir doença. 3 Virulência: capacidade de produzir manifestaçõesgraves 4 Antigenicidade: capacidade de produzir anticorpos. 5 Mutagenicidade: capacidade de alterar características genéticas. 6 Vulnerabilidades: caráter ou qualidade de vulnerável, podendo ser atacado facilmente. 7 Refratariedade: resistência da espécie a uma doença. 8 Infeções oportunistas: Que são causadas por ou que causam infecção devido ao enfraquecimento do sistema imunitário. Período de incubação É o intervalo compreendido entre a exposição ao agente infeccioso e o aparecimento de sinais e sintomas, ou seja, entre o momento do contágio e o início das manifestações (SARTWELL, 1966). A duração deste período pode ir de algumas horas (nas intoxicações alimentares) a anos. Nem sempre o período de incubação é fixo, como é caso da tuberculose, cuja incubação pode varias de poucas semanas a muitos anos (BRASIL, 2010). No caso das infecções inaparentes ou sem sintomatologia, a determinação do período de incubação fica prejudicada. Período de transmissibilidade Em muitas doenças infecciosas a eliminação dos agentes pelo organismo infectado inicia-se antes do aparecimento das manifestações clínicas, de modo que em qualquer eventualidade (com ou sem sintomas) pode haver eliminação de micro-organismos pelo hospedeiro. Justamente por isso, a ausência de exteriorizações clínica facilita a circulação dos germes e a propagação de epidemias (conceito este que será abordado posteriormente nesta unidade). A duração do período de transmissão varia de doença para doença, mas, para muitas, como o sarampo e a rubéola, há uma diminuição progressiva da eliminação de micro-organismos com o início da fase clínica (BRASIL, 2010). Em doenças crônicas, a transmissibilidade pode durar longo tempo, e até estender-se por toda a vida do paciente, em ausência de tratamento eficaz. De qualquer maneira, o isolamento dos pacientes no período de transmissibilidade é recomendado (PEREIRA, 2013). Curso agudo e crônico da infecção O tempo de evolução usado como critério para distinguir casos “agudos” de “crônicos” é fixado por decisões arbitrárias, aplicáveis a cada doença infecciosa, em função de objetivos específicos, tais como o de definir o tempo em que o médico deve ter uma atitude expectante ou, ao contrário, de intervenção. Por exemplo: a diarreia será crônica após umas poucas semanas de duração, enquanto a hepatite infecciosa exige um tempo maior, medido em meses, após o qual ela passa a ser considerada crônica. Outras terminologias podem também ser empregadas, com significado nem sempre evidente ou comum a todos os profissionais de saúde, como a designação de doença “subaguda” e a classificação de casos em “leves”, “moderados” ou “graves”. Embora esses termos sejam muito utilizados, frequentemente é difícil precisar os seus limites. Para tanto, faz-se necessária a definição de critérios objetivos, de modo a possibilitar a verificação da real intensidade das manifestações das doenças. 2.1.2 Doenças Não-Infecciosas O grupo de afecções incluídas na categoria “não-infecciosas” é muito variado, e a terminologia utilizada para designá-lo presta-se à confusão, em situação semelhante à descrita para as doenças infecciosas. As doenças não-infecciosas, especialmente nos adultos, são muito comuns. A passagem do tempo faz com que as pessoas adquiram afecções que, de uma maneira ou outra, são controladas, embora sem se livrar totalmente de muitas, como é o caso de deficiências visuais e auditivas, arteriosclerose, hipertensão arterial, glaucoma, diabetes mellitus, cirrose hepática, rinite alérgica, bronquite, asma, artroses, osteoporose, dermatoses, neurose, úlceras, cólon irritável, hemorroidas e cálculo renal. Como a prevalência desse grupo de condições aumenta progressivamente com a idade e há um número cada vez maior de adultos que alcança a meia-idade e idades avançadas, as doenças tendem a predominar amplamente no quadro nosológico. 9 Quadro nosológico: conjunto de doenças prevalentes e/ou incidentes em uma determinada comunidade. As últimas décadas trouxeram avanços no conhecimento sobre a etiologia das doenças não-infecciosas, embora muito ainda precisa ser esclarecido. Tais doenças resultam de um processo multifatorial, em geral gradativo e cumulativo, que é explicado por uma inter-relação complexa entre os fatores hereditários e não-hereditários (PEREIRA, 2013): AGENTES As doenças não-infecciosas se exteriorizam e progridem com sintomatologia permanente, ou fases assintomáticas entremeadas de exacerbações clínicas. Período de latência Semelhantemente às doenças infecciosas, onde há um período de incubação, nas doenças crônico-degenerativas se aceita a existência de um “período de latência” ou “pré-clínico”, de idêntico significado. Com vistas a possibilitar melhores oportunidades de controle e com a finalidade de atuar em fase de comprometimento ainda relativamente reduzido do organismo, procura-se identificar sinais que auxiliem o diagnóstico das pessoas afetadas ainda neste estágio “pré-clínico”. É o caso da busca de lesões pré-cancerosas, através da colpocitologia. Mas o início insidioso da doença no organismo humano e o longo período de latência que precede as manifestações clínicas fazem com que a fase patogênica seja de difícil delimitação. A identificação de uma doença crônica, em grande número de casos, ocorre por ocasião de exacerbação aguda. É o que acontece no infarto agudo do miocárdio ou em episódios de cólicas renais, cujas exteriorizações clínicas representam uma ou mais fases agudas de um processo crônico subjacente. Fatores prognósticos O curso da doença pode ser previsto a partir de um melhor conhecimento dos fatores prognósticos. Assim, um coma prevê um mau prognóstico para o acidente vascular cerebral, ao passo que a manutenção da consciência indica melhores possibilidades de recuperação. Muitas pesquisas em que se usa a epidemiologia em ambiente clínico são realizadas para, justamente, completar o conhecimento sobre a evolução das doenças, através da identificação de fatores presentes no momento do diagnóstico, que possam ser preditivos do curso da doença. Nas revistas especializadas estão aparecendo estudos de prognóstico, com frequência cada vez maior, tanto os que incluem somente doentes vistos e instituições, como aqueles de maior abrangência, realizados em base populacional e territorial. Nessas investigações estão incluídos não apenas os casos graves, mas também os benignos, ocorridos em uma dada comunidade e que, em grande número, jamais procuram tratamento especializado. 2.2 Distribuição das Doenças no Espaço O melhor entendimento da distribuição dos agravos à saúde e de seus fatores determinantes passa, necessariamente, por considerações concernentes à localização geográfica destes eventos. Porém, o conceito de espaço deve incorporar não apenas as características geográficas, naturais e sociais de um lugar, mas também “a vida que os preenche e os anima, ou seja, a sociedade em movimento” (MEDRONHO et al, 2009); assim, o espaço não se reduz apenas a questões relativas ao ambiente físico, mas também a processos sociais. O impacto desses processos, que influenciam e são influenciados pela ação do homem, varia em momentos históricos distintos. A constatação de que as doenças variam de região para região não é recente: nos textos de Hipócrates (século V a.C.) e nos relatos de viajantes da Idade Média é possível encontrar descrições das doenças mais encontradas na época, assim como as mais graves ou as de exteriorização mais evidente (DOLL, 1984). Assim, há muito tempo se sabe que o estudo da distribuição espacial das doenças pode oferecer importantes pistas para a sua etiologia, embora nem sempre seja possível estabelecer nexos causais diretamente através deste tipo de investigação. Umdos trabalhos pioneiros nesta área de distribuição espacial das doenças foi desenvolvido por John Snow (1813-1858). Seu interesse foi despertado após a introdução clínica do éter na prática da anestesiologia. Seus trabalhos levaram a diversas contribuições para o desenvolvimento desta especialidade com a introdução de diversos anestésicos em seu livro On the Inhalation of Ether (1847). Snow defendeu o uso da analgesia realizando assim o primeiro parto de uma rainha inglesa com técnicas anestésicas. Ao mesmo tempo em que acumulava sucessos na prática de sua especialidade, Snow começou a investigar diversas epidemias de cólera que atingiram Londres. A teoria vigente em sua época era a de que as doenças eram transmitidas pelo ar. Sua fama, entretanto, foi iniciada quando conseguiu demonstrar que a cólera seria uma doença de transmissão hídrica. O principal objetivo do estudo das variações geográficas das doenças é a formulação de hipóteses etiológicas através da análise conjunta das variações nos fatores ambientais. Geralmente, não é possível testar hipóteses sobre a causa das doenças nesses estudos, porque a exposição a um determinado fator e o desfecho não são mensurados no mesmo indivíduo. No âmbito da distribuição espacial das doenças infecciosas, especificamente, a epidemiologia descritiva entende o espaço como um conjunto de determinantes, geralmente de natureza biológica ou natural, como clima, vegetação, latitude e topografia (da SILVA, 1997). Não há dúvidas de que o clima sempre foi o determinante a receber maior atenção, tendo seu interesse renovado graças ao progressivo aquecimento global (BURGOS et al., 1994). Em época mais recente, a poluição ambiental e outros fatores físicos, como quantidade de radiação ultravioleta ou intensidade de campo eletromagnético, vêm atraindo a atenção, principalmente à medida que os epidemiologistas se voltam cada vez mais para as neoplasias. O espaço pode ser didaticamente dividido em três grandes categorias: O determinante maior do processo de organização do espaço é a necessidade econômica, que vai reorganizar o espaço conforme as necessidades das atividades que devem se desenrolar, seja a agricultura, a exploração mineral, o transporte de mercadorias, a produção de energia, a fabricação de produtos ou a construção de cidades. A epidemiologia se preocupa com o processo de ocorrência e distribuição das doenças nas coletividades, portanto o eixo de análise é a coletividade e seu comportamento. Se desviarmos ligeiramente nosso olhar e passarmos a analisar não mais a coletividade em si, mas o processo de interação desta com a natureza e a maneira como o meio é transformado, organizado para sustentar a atividade econômica, ganharemos uma perspectiva histórica da doença. A análise do processo de organização do espaço, por ser este um processo contínuo, permite uma visão dinâmica do processo saúde-doença. A análise do processo de organização do espaço é um recurso teórico em epidemiologia, não é de maneira alguma uma panaceia metodológica e tampouco substitui outras abordagens. 10 Panaceia: Mecanismos ou práticas que, hipoteticamente, são capazes de solucionar os problemas e/ou dificuldades Sua aplicação é mais produtiva na investigação das doenças infecciosas, o que não significa que não tenha outras aplicações, apenas tem sido mais utilizada neste campo (da SILVA, 1997). O recorte da totalidade feito do ponto de vista do epidemiologista colocará a doença em primeiro plano e buscará o sistema de relações que permite a ocorrência desta doença, não na interação humana como ponto de partida, mas na interação sociedade-natureza e nos modelos de interação humana dela decorrentes. Dentro da perspectiva oferecida pela geografia, inverte-se o processo usual de análise em epidemiologia: ao invés de partir da doença e analisar como esta se insere no contexto, parte-se da totalidade, analisando como esta criou as condições de ocorrência da doença. Com isso, o processo de urbanização, altamente acentuado no século XX, permitiu a ocorrência de mudanças complexas na sociedade, com efeitos benéficos e adversos sobre a saúde das pessoas e da comunidade (SUSSER, 1987). Além do mais, seu impacto não é o mesmo nos diversos segmentos sociais, atenuando, gerando ou realçando diferenças no seio da população. A rápida transformação verificada no terceiro mundo após a II Guerra Mundial, principalmente nas colônias em emancipação, foi reconhecida pelos epidemiologistas, que buscaram modelos teóricos para lidar com estas transformações. Foi um momento de surgimento, ou ressurgimento, da geografia médica, disciplina científica que data do século passado, mas que nunca se estabeleceu firmemente como distinta da epidemiologia. Vários autores, principalmente europeus e norte-americanos, recorreram à geografia para compreender o novo contexto epidemiológico internacional. Quando se discutem doenças determinadas e geradas pela sociedade, como muitas das doenças do trabalho ou determinadas doenças mentais, é compreensível que se relegue para um plano secundário a análise do espaço. Mas quando se busca a compreensão da epidemiologia de doenças muito ligadas ao meio, como a maioria das doenças infecciosas, particularmente as transmitidas por vetor, ou alguns cânceres determinados por exposição a substâncias existentes no meio, o espaço deve necessariamente entrar como categoria de análise, se não se quiser ofuscar processos importantes (da SILVA, 1997). A migração rural-urbana está muito ligada ao desenvolvimento, tanto do campo como da cidade. A modernização rural tende a diminuir a quantidade de emprego, enquanto a da cidade aumenta a sua esfera. Observa-se que o migrante e toda a sua família têm, em média, melhores rendimentos de trabalho, no local de destino, quando comparados com o que ocorrias se ainda estivessem em seu local de origem. Assim, os migrantes passam a viver nas proximidades de serviços de saúde e de outras facilidades urbanas, o que, em conjunto, tende a ser benéfico para a saúde. Em contrapartida, há toda uma complexa problemática de desinserção territorial e ruptura social que pode causar reflexos negativos sobre a saúde. Outros fatores deletérios para a saúde são as mudanças de hábitos pessoais (dieta, por exemplo), que acompanham a migração, assim como a exposição a um diferente meio ambiente ou local de trabalho (PEREIRA, 2013). A análise espacial das doenças e demais eventos de saúde também pode ser um importante instrumento de gestão na saúde. Na epidemiologia, é utilizada para identificar padrões espaciais de morbidade ou mortalidade e os fatores associados a esses padrões, descrever processos de difusão de doenças e gerar conhecimento sobre etiologia de doenças, visando sua predição e controle. Segundo Gatrell & Bailey (1996), os métodos para análise espacial podem ser divididos em três grupos, segundo seu propósito principal: Deve-se notar que os procedimentos utilizados para executar a análise espacial não se resumem simplesmente ao mapeamento dos eventos. Além disso, a despeito do aspecto aparentemente “estático” de um mapa, ele reflete sintaticamente complexos processos sociais, históricos, geográficos e ambientais. Muitas doenças, e em especial as zoonoses, têm habitats naturais em ecossistemas bem definidos nos quais patógenos, vetores e hospedeiros naturais formam associações, ou biocenoses, em que o patógeno circula. A paisagem é, assim, um fator epidemiológico, pois suas características são as do ecossistema local. A ocupação pelo homem de tais focos naturais leva à ocorrência de casos de doença no local. A doença passa a ter como que uma personalidade própria e se incorpora no contexto ecológico, sendo vista como parte integrante do ecossistema. 2.3 Distribuição das Doenças no TempoA organização adequada dos dados, em forma de série temporal, fornece um diagnóstico dinâmico da ocorrência de um evento na população, informando a evolução dos riscos a que as pessoas estão ou estiveram sujeitas. Semelhante conhecimento serve para previsões de diversos tipos, para a formulação de hipóteses causais e para o planejamento e avaliação das ações, como indicado na tabela 2.1. A análise de um conjunto de observações sequenciais ao longo do tempo pode conter flutuações aleatórias. Por isso, é importante tentar detectar, além das possíveis variações aleatórias, os quatro tipos principais de aspectos relacionados à evolução temporal das doenças: • Tendência geral, secular ou histórica: tendência do evento em longo prazo; • Variações cíclicas não-sazonais: flutuações cíclicas que se repetem com certa regularidade. Por exemplo, o aumento da incidência do sarampo em uma região a cada três ou quatro anos. • Variações sazonais: oscilações também periódicas e regulares conhecidas pelas denominações “sazonal” ou “estacional”. Por exemplo, o aumento da incidência de pneumonia nas épocas frias do ano. • Variações irregulares: também ditas “acidentais”, são descritas pelas epidemias, que se diagnosticadas precocemente podem ter suas evoluções alteradas. Tendência geral (secular ou histórica) O estudo da tendência geral se refere à análise das mudanças na frequência de uma doença (incidência, mortalidade, etc.) por um longo período de tempo, geralmente décadas (MEDRONHO et al., 2009). Não existe um critério rígido para a definição do tempo mínimo de observação necessário para detectar alterações na evolução de uma doença. O estudo de uma série histórica é feito com o propósito de detectar e interpretar a evolução da incidência do evento. Entretanto, o conhecimento que poderia ser adquirido, por esta análise, apresenta dificuldades pelo surgimento de numerosas outras mudanças significativas, tais como: critérios diagnósticos, terminologia, forma de classificação dos eventos, formas de atenção à saúde, taxa de letalidade e características da população relativas a estruturas de idade e padrão de migrações. Essas modificações mesclam-se e se refletem nas variações de incidência da doença, influenciando poderosamente as estatísticas (PEREIRA, 2013). Eis algumas situações que podem ocorrer na interpretação da tendência histórica: O objetivo geral da análise de uma série temporal consiste em estabelecer, de posse dos dados, se as frequências realmente variam com o tempo e, em caso positivo, as características desta variação. De qualquer forma, a tendência geral deve referir-se a um período mínimo de tempo, de forma a possibilitar a percepção da tendência do fenômeno: se estacionária, ascendente ou descendente. Na maioria das situações, a duração da série histórica é determinada pela disponibilidade dos dados, e não pelo pesquisador. Variações cíclicas não-sazonais Essa denominação caracteriza as oscilações periódicas de frequências. A colocação da frequência anual de certos eventos, em gráfico, permite detectar flutuações de frequências, nas quais um determinado ano sobressai, com maior número de casos, entre um ou vários anos de frequências mais baixas e muito semelhantes. Esta periodicidade independe de a tendência ser ascendente ou descendente e aparece mesmo quando não se configura qualquer tendência. A elevação cíclica do número de casos está relacionada à presença de suscetíveis, ao lado do efeito de outros fatores que facilitam ou dificultam a transmissão de doença. Os mecanismos de intervenção, à disposição da sociedade, podem fazer com que as frequências sejam atenuadas e o padrão de periodicidade alterado. Por exemplo, a vacinação de toda a população infantil, contra o sarampo, ou das pessoas em risco de febre amarela, tende a mascarar as variações cíclicas destas doenças ou mesmo fazê-las desaparecer (PEREIRA, 2013). A importância de estudar esse tipo de variação, bem como o de caráter sazonal, reside em que as oscilações tendem a se repetir periodicamente. Se o ritmo é conhecido, pode-se prever a sua ocorrência, o que se presta à adoção de medidas preventivas, em tempo hábil. Este conhecimento também é útil em avaliação de programas, para não tomar como fracasso ou êxitos as elevações e decréscimos periódicos de incidência dos eventos. Variações cíclicas sazonais A denominação é usada para designar oscilações periódicas de frequências, cujos ciclos configuram ritmo sazonal. O padrão de ocorrência do dano à saúde pode estar relacionado a múltiplos fatores, tais como as condições meteorológicas e outras condições ambientais, as celebrações sociais que as acompanham, de cunho econômico, cultural, religioso ou de outra natureza, e os hábitos da população. A sazonalidade destes eventos pode explicar a sazonalidade dos agravos à saúde. A variação sazonal da temperatura, por exemplo, se caracteriza por temperatura alta no verão, e baixa, no inverno. Essas oscilações de temperatura estão associadas à maior incidência de diarreias, no verão, e de infecções transmitidas por vias respiratórias no inverno. Um padrão de sazonalidade é também encontrado na maioria das doenças infecciosas, mas ele não é específico deste grupo de agravos à saúde. Os acidentes de trabalhos ocorridos em épocas de colheitas agrícolas são também considerados eventos sazonais. Além disso, nas comunidades rurais pobres, o peso das pessoas, particularmente das crianças, mostra estreita relação com as estações do ano. Variações irregulares São alterações na frequência de agravos à saúde, devidas a acontecimentos não-previsíveis, ou pelo menos, não-enquadrados nas categorias anteriormente apresentadas. Exemplos extremos destes acontecimentos são as catástrofes naturais (terremotos) ou artificiais (guerras, revoluções). As epidemias por contaminação da água de abastecimento e os surtos de toxinfecções alimentares constituem situações relativas à variação irregular. O cerne do seu estudo, na área da saúde, é a investigação de epidemias. “Epidemia” é a concentração de casos de uma mesma doença em determinado local e época, claramente em excesso ao que seria teoricamente esperado (BRASIL, 2009). Uma epidemia é, na realidade, uma etapa na evolução da doença na coletividade. Existe uma fase de “normalidade” em que as frequências são endêmicas (o número de casos esperados é conhecido) ou não há casos de doenças e, outra, de “anormalidade”, caracterizada por alta incidência do evento, significativamente bem acima do que a do período anterior. Quando a doença é relativamente constante, em uma área, ela é dita “endêmica”, não importando se a frequência é baixa ou alta. Por vezes, neste último caso, usa-se a denominação “hiperendêmica”. Uma epidemia de grandes proporções, envolvendo extensas áreas e um número elevado de pessoas, é dita “pandemia”; o termo aplica-se, geralmente, a uma doença que passa de um continente para o outro, como a pandemia de gripe de 1918. A ocorrência de um número de casos de doenças, além do esperado, associada ou não a algum evento ambiental de grandes proporções, caracteriza a variação do tipo irregular e aponta para a necessidade de investigar as suas mais prováveis causas. Quando a doença só aparece sob a forma de surtos, como no exemplo das intoxicações alimentares, os conglomerados de casos, com este diagnóstico, são então devidamente investigados. Tipos de epidemia O aumento do número de casos decorre da ação de um fator específico, de um episódio inusitado, ou, o que é mais comum, de uma combinação de fatores e situações, de modo que os casos referentes à epidemia misturam-se às frequências endêmicas da doença. Nas epidemias de doenças transmissíveis, é conveniente dispor do número de casos em tabelas e em figuras,sob a forma de gráfico e mapa, de modo a representar a distribuição temporal e espacial do fenômeno. A visualização do tipo de curva em gráfico fornece pistas para a elucidação das causas do episódio, quer sejam os casos representados por quadrículos, quer por pontos, barras, ou outra forma de expressão (PEREIRA, 2013).