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“HOMEM DE MATAR E MORRER”: VISÕES DA MASCULINIDADENA OBRA “GRANDE SERTÃO: VEREDAS”, DE GUIMARÃES ROSA Luis Fernando Masiero1(Universidade Estadual do Paraná) Resumo: Este artigo busca abordar as construções da masculinidade em “Grande Sertão: Veredas”, principal obra de João Guimarães Rosa. O intuito é apontar, a partir da literatura, comportamentos machistas apresentados pela população sertaneja não apenas no contexto em que o livro foi escrito, mas também em demonstrar que tais atitudes socioculturais derivam de uma longa tradição histórica que, por sua vez, permanece vigente na atualidade. Palavras-chave: Guimarães Rosa; Literatura; Masculinidade; Machismo; I. INTRODUÇÃO O Brasil é um país machista. Esta é uma constatação fácil de se fazer e não muito original. Entretanto, de tempos para cá, as pessoas tem dificuldade de assimilar semelhante argumento ou tendem a relacioná-lo com acontecimentos e épocas recentes, taxando-o como um fenômeno contemporâneo. Este artigo, por sua vez, buscará desconstruir este ponto de vista. Para tanto, recorrer-se-á a um estudo de caso para demonstrar, de modo inequívoco, que comportamentos tipicamente machistas fazem parte de uma longa tradição histórica que permeia o Brasil, em toda sua extensão, até os presentes dias. 1 Acadêmico do Curso de História da Unespar, Campus de União da Vitória. Neste sentido, um estudo de caso sobre a principal obra de João Guimarães Rosa, a saber, “Grande Sertão: Veredas”, será levada a cabo. O livro, aqui utilizado como fonte histórica, é rico em passagens claras e contundentes, que não deixam dúvidas sobre as tendências patriarcais da cultura brasileira, tanto na apologia à masculinidade, como nos modos de opressão e subjugação da mulher. Entretanto, antes de problematizar o tema, será necessário referenciar teoricamente esta pesquisa, pois se o comportamento machista é dotado de historicidade, devemos buscar suas raízes por estas terras, ainda que de forma breve e com fins meramente introdutórios. De início, é preciso ter em conta que o Brasil, desde a época colonial e até os dias de hoje, é um país agrícola, e não somente do ponto de vista econômico. Nossa formação muito dependeu, estrutural e culturalmente, dos grandes latifúndios rurais, dos engenhos às grandes plantações de café. Dentro das fazendas, o grupo familiar dispunha de poderes virtualmente imperiais. Contudo, era a figura masculina do senhor de engenho (ou do fazendeiro) que exercia o mando com uma autonomia quase despótica. A autoridade do proprietário, por sua vez, não sofria qualquer repreensão. Mesmo que estas famílias migrassem para a cidade, os costumes patriarcais e autoritários embarcavam junto. Neste sentido, pode-se dizer que a “mentalidade da Casa Grande”, em todas as direções, invadiu e se impregnou no ambiente urbano (DE HOLANDA, 2014, p. 93- 97). Entretanto, se a figura masculina do proprietário rural prevaleceu no campo e nas cidades, pode-se dizer que o mesmo fenômeno ocorreu na conquista e ocupação do sertão do país, embora de modo diverso. Seja pelos bandeirantes mais ao sul, ou pelos vaqueiros ao norte, fato é que estes “conquistadores” desfrutaram de uma forma especial de sociabilidade. Quer pela vida dentro das matas (na busca por índios ou ouro), ou pela criação de gado nos imensos vazios da caatinga e do cerrado, estes homens produziram redes de relações sociais particulares, mas sempre bivalentes: O fazendeiro e o sertanejo, o estancieiro e o peão, o coronel e o capanga (FAORO, 2012, P. 182). São estas relações que formam o grosso da herança cultural do “conquistador”. Para os objetivos desta pesquisa, é fundamental que estes dois pontos, acima descritos, fiquem claros, pois é neste cenário, e com estas relações, que devemos interpretar a obra de Guimarães Rosa. Ao escrever sobre jagunços (ou “capangas”), o livro de Rosa expõe, voluntariamente ou não, todo um conjunto de práticas e comportamentos típicos destes homens do sertão. No meio de tantos costumes, há os que propriamente podem ser classificados como machistas. Para identificá-los, todavia, faz- se necessário o uso de uma metodologia teórica adequada, que será descrita na sequência. II. OBJETIVOS “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, é um livro denso, cheio de narrativas épicas e dotado de muitos detalhes e informações acerca da vida cotidiana dos sertões mineiro e baiano. Para analisar um texto tão rico, é necessária uma metodologia que dê conta de abordar, de modo eficiente, tamanha pluralidade de dados, para que esta consiga extrair da obra um recorte próprio ao tema estudado. O objetivo do artigo é claro: Expor e identificar comportamentos que remetam ou ao machismo em si, ou às construções e exaltações da masculinidade. Para tanto, optou-se pela utilização da teoria sociológica do “papel social”. Esta, por sua vez, procura identificar os padrões ou normas de comportamento que se esperam daquele indivíduo “que ocupa determinada posição na estrutura social” (BURKE, 2012, p.79). Esta abordagem se aplica, de um modo bem evidente, nas relações de gênero, pois as diferenças entre homens e mulheres não são naturais, e sim culturais. O que define o lugar e a função do outro na sociedade não é, antes de tudo, um determinismo biológico inflexível, mas sim as “expectativas que provêm dos pares” (BURKE, 2012, p.79). Ou seja, o papel desempenhado por uma mulher é definido não por sua vontade própria, mas pelo que o resto da sociedade deseja ou espera que ela cumpra. Este artigo, portanto, analisará o “papel social” sustentado pelos homens no contexto em que os insere Guimarães Rosa. O leitor logo perceberá que, para exercer a masculinidade no sertão, são necessários dois “requisitos” fundamentais: a “virilidade” e a violência contra a mulher. III. RESULTADOS João Guimarães Rosa é um autor singular. Isso fica evidente em todas as suas obras. O leitor de primeira viagem, que dele se aproxima, logo percebe que seu estilo é único. O próprio autor disse, certa vez, que se esforçava em esquecer, na hora de escrever, qualquer tipo de norma, escolas literárias ou conceitos, afinal, em “panela de pobre, tudo é tempero” (2015, p. 21). Não é de se estranhar, portanto, que é este pobre, ou melhor, ele e seu mundo, que são os alvos preferenciais de todas as obras do autor. Ao discorrer sobre o sertão e sua gente, Rosa traz ao papel não apenas aventuras, histórias e tragédias, mas também posturas, costumes e tradições próprias daquelas pessoas. Na introdução deste artigo, foi feita uma breve menção à conquista e ocupação do sertão, quer por bandeirantes paulistas ou por fazendeiros e seus vaqueiros. Vimos que a herança cultural desse processo histórico remete à relações autoritárias e bivalentes em um mundo essencialmente rural, tanto nas estruturas como nos hábitos que predominam nestes espaços. O sertão, em toda sua extensão, é um lugar violento. E é justamente nele que Guimarães Rosa ambienta “Grande Sertão: Veredas”, sua obra de maior sucesso, escrita em 1956. Nela, o autor discorre sobre um personagem característico do Brasil daquela época, a saber, o jagunço. Ao olharmos um pouco melhor para esta figura, logo entendemos porque o sertão era um lugar hostil. A violência que imperava neste cenário devia muito às visões de masculinidade que então circulavam. Neste sentido, o texto de Guimarães Rosa nos oferece muitas passagens que atestam a favor deste ponto de vista. Mas, antes de tudo, é preciso perguntar: O que é o jagunço? A resposta vem de Riobaldo, o “herói” do livro. Para ele, “jagunço é homem já meio desistido por si” (2006, p. 51). Essa “desistência” é compreendida com mais competência se lhe atribuirmos o sentido de alguém “largado”. Todavia, as raízes dessa postura “desleixada” podem ser melhor interpretadas se levarmos em conta as duras realidades do sertão. A principal delas, talvez, atesta simultaneamente para oestilo de vida característico do jagunço (e dos demais sertanejos), bem como o machismo “naturalizado” que o acompanha. Riobaldo não conheceu o pai, mas está longe de ser a exceção: “Orfão de conhecença e de papéis legais, é o que a gente vê mais, nestes sertões” (2006, p. 41). A explicação para tal fenômeno vem logo em seguida: “Homem viaja, arrancha, passa: muda de lugar e de mulher, algum filho é o perdurado” (2006, p. 42) De fato, a vida quase nômade do jagunço parece “livrá-lo” das responsabilidades como pai, ao mesmo tempo que lhe dá uma liberdade muito grande para agir em prol de suas vontades, sem arcar, contudo, com as consequências. Entretanto, a abdicação do papel paterno pelo homem do sertão se dá menos por condições históricas determinadas, e mais por hábitos machistas secularizados, tradicionalmente presentes na cultura sertaneja (e brasileira) como um todo. Um trecho de outra obra de Guimarães Rosa, disponível em forma de canção, parece corroborar com este ponto de vista: “Quando eu morrer, quem é que fica com os meus filhos? / Eunão... eu não! Eu não... Eu não! / Quando eu morrer, quem é quefica com a minha mulher? / É eu! É eu! É eu! É eu! É eu!” (2015, p.109) Entretanto, a rejeição da paternidade, apesar de tudo, parece estar vinculada, em alguma medida e de acordo com os indícios ofertados por Guimarães Rosa, com o próprio estilo de vida do sertanejo, representado aqui, de modo mais específico, pela figura do jagunço. Nela, o comportamento machista está enraizado nos costumes mais banais do cotidiano. Riobaldo concorda. Para o jagunço, “a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar, e o fim final” (2006, p. 56). Não há de ter outras preocupações. O mais revelador, todavia, aparece na sequência. Este estilo de vida “largado” não é exclusividade dos capangas militarizados que giram pelo sertão: “E todo o mundo não presume assim? Fazendeiro, também?” (2006, p. 56). As indagações retóricas de Riobaldo são indicativos de que essa postura “assentada” é compartilhada por “todos, ainda que esse “todos” se refira, preferencialmente, à parcela masculina da população que lá reside. Vale ressaltar, todavia, que este estilo de vida do jagunço, cuja manifestação deixa transparecer, de maneira evidente, traços machistas, deve muito às visões de masculinidade recorrentes no sertão. Pode parecer estranho dissociar machismo de masculinidade, ainda mais pelo fato de os encontrarmos, quase sempre, associados de maneira intrínseca. Entretanto, talvez seja interessante identificar as condutas e comportamentos que tendem a ser classificados, ainda que pelo senso comum e nesse contexto específico, como essencialmente masculinos, para que se possa, posteriormente, observar como estas mesmas ações corroboram para a permanência do machismo no sertão de Rosa. Em primeiro lugar, há a valorização da valentia ou, no mínimo, de certa indiferença para com as tragédias: “Jagunço não se escabrêia com perda nem derrota – quase que tudo pra ele é igual” (2006, p. 56). De fato, capanga que se preze, que necessita da prática da violência para sobreviver, não pode se deixar abalar, pelo menos em teoria, com o sofrimento cotidiano. O problema é quando se relaciona a valentia e a coragem como atributos naturalmente masculinos. É o que faz o “herói” da obra, quando exalta a si mesmo: “Eu Riobaldo, jagunço, homem de matar e morrer com a minha valentia” (2006, p. 202). Não satisfeito, logo em sequência, volta a enfatizar, através da palavra “homem”, sua masculinidade, relacionando-a desta vez com a indiferença para com as mazelas mundanas: “Riobaldo, homem, eu, sem pai, sem mãe, sem apêgo nenhum, sem pertencências” (2006, p. 202). Note o leitor que, se os atributos acima elencados fossem exclusivamente masculinos, a outra personagem de destaque no livro, Maria Deodorina Marins, mulher disfarçada de homem, não poderia ter exercido tamanho protagonismo na pele de Diadorim, fiel companheiro de Riobaldo e excelente jagunço. Além de valente e indiferente, o bom capanga, macho e seguro de si, não pode apresentar nenhum tipo de sentimento afetivo, pelo menos em relação aos outros homens, nem sequer em amizades. Para Riobaldo, “jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas” (2006, p. 28). Neste cenário, parece que qualquer manifestação de afeto, ainda que desinteressado e espontâneo para com outros homens, seja tomado como sinônimo de fraqueza, ou um traço afeminado, incompatível com o a visão estereotipada da masculinidade sertaneja. Para estes comportamentos mais delicados, Riobaldo não hesita em nomeá-los com um termo bem sugestivo: “Agançagem” (2006, p. 146) Enquanto tomava Maria Deodorina ainda por homem, na figura de Reinaldo ou Diadorim, Riobaldo estava impossibilitado de demonstrar qualquer forma de afeto pelo amigo, ainda que o sentisse intensamente e, por vezes, se deixasse levar: “então notei que estava contente demais de lavar meu corpo porque o Reinaldo mandasse, e era um prazer fofo e perturbado” (2006, p. 146). Uma sensação dessas, a um jagunço valente e “sem amizades estreitas”, era intolerável. Daí a necessidade de, logo na sequência, reafirmar a própria masculinidade, ainda que pela via do discurso: “Homem muito homem que fui, e homem por mulheres! Nunca tive inclinação pra aos vícios desencontrados” (2006, p. 146) Uma vez que a valentia, a coragem, a indiferença e a aversão a sentimentos e ações “delicadas” são tomados como atributos essencialmente masculinos e que, portanto, formam um conjunto que define a masculinidade do sertanejo, é dada a hora de explorar, neste momento, a outra face que complementa o comportamento “padrão” do jagunço: A violência ou subjugação da mulher. Esta pesquisa chega à defesa deste argumento por identificar, apenas nas trezentas páginas inicias do livro de Guimarães Rosa, uma quantidade substancial de passagens ou acontecimentos que remetam, de maneira inequívoca e inquestionável, a casos de violência física ou psicológica contra a mulher. Um estudo completo da obra deve ser feito, posteriormente, para abarcar todas as situações de abusos, sexuais ou não, presentes no livro. Como o espaço desse artigo é curto, serão analisados, agora, apenas os casos mais expressivos da primeira metade da obra. A vida de jagunço, tal como exposta em “Grande Sertão: Veredas”, não é das mais fáceis. Os capangas militarizados vagam pelo sertão, não há residência fixa, as tropas carregam comida, roupas e tudo o que é necessário para uma vida ao ar livre. O conforto é mínimo. Das matas às fazendas, e de lá para as estradas. A companhia disponível é predominantemente masculina. Dias se passam sem ver mulheres. Nada que justifique, todavia, as brutalidades cometidas por estes jagunços quando as encontram. Mas estas eram violências premeditadas. Um dos companheiros de Riobaldo, certa vez, enfatizou: “Saindo por aí [...], qualquer uma que seja, não me escapole!” (2006, p. 172). Outra passagem, logo em seguida, deixa claro a visão da mulher como um objeto a ser utilizado para saciar as vontades dos homens: “Aqueles homens, quando estavam precisando, eles tinham aca, almiscravam. Achavam, manejavam” (2006, p. 172). Em todas estas passagens, o que chama a atenção é a naturalidade de quem conta, como se a violência sexual contra a mulher fosse algo posto, normal, na ordem do dia, um costume qualquer do cotidiano. Foi neste tom que Riobaldo falou da primeira mulher de quem abusou: “Tanto gritava, que xingava, tanto me mordia, e as unhas tinha” (2006, p. 172- 173). E prossegue, falando da reação da vítima: “Daí, abriu os olhos, aceitou minha ação, arfou seus prazeres, constituído milagre” (2006, p. 173). Tão grave quanto o ato em si, por sua vez, é a associação que o agressor faz com a “passividade” da vítima. O fato de a mulher “aceitar a ação” de Riobaldo não é nunca uma estratégia, da moça, para evitar danos ou agressõesmaiores, mas sim, aos olhos do agressor, um ato “milagroso”, que remete à “fidelidade”, como atesta a conclusão que Riobaldo toma de sua ação: “Pudesse, levava essa moça comigo, fiel” (2006, p. 173) Na sequência, Riobaldo fala da segunda mulher de quem abusou, e o tom discursivo e “naturalizado” é o mesmo. Aqui, todavia, impressionou ao jagunço, ainda que de modo inconsciente, a estratégia utilizada pela vítima para suportar a agressão: “Mas, depois, [...] foi uma outra, a moreninha miúda, e essa se sujeitou fria estendida, para mim ficou de pedras e terra” (2006, p. 173). O próprio Riobaldo admitiu, com certo desdém, o quanto a experiência foi traumática para a vítima: “a mocinha me aguentava era num rezar, tempos além” (2006, p. 173). Riobaldo, todavia, era só um dos jagunços. Todos os demais compartilhavam, em maior ou menor medida, dos mesmos hábitos e posturas violentas para com as mulheres. Em uma curta passagem, o “herói” da obra fala de uma ocasião em particular: “Uma rapariga, das de luxo, que passou de viagem, e serviu aos companheiros quase todos [...]” (2006, p. 192). O trecho em que a frase está localizada não dá mais detalhes sobre o ocorrido. Entretanto, ainda que a mulher fosse prostituta, “servir aos companheiros quase todos” significa passar pelas mãos de, ao menos, cerca de sessenta indivíduos, de acordo com as descrições do tamanho das tropas que faz Guimarães Rosa. Somente os homens sob o comando de Titão Passos, por exemplo, somavam trinta jagunços (2006, p. 201). O número dá a entender as reais dimensões do abuso. Conforme se avança na obra, percebe-se que a violência contra a mulher no sertão é um problema cultural de condições históricas. O abuso sexual é socialmente aceito ou, no mínimo, tolerado pelos sertanejos. É essa junção de costumes rurais e autoritarismo que forma, grosso modo, a “mentalidade” brasileira (DE HOLANDA, 2014, p. 103). Esta mentalidade nasce no sertão, no ambiente rural, e quanto mais nos aproximamos de suas figuras típicas (o coronel, o capanga, o vaqueiro, o fazendeiro), melhor percebemos que essa herança, além de autoritária, é machista. Vede o que diz Vove, um dos companheiros de Riobaldo, sobre as duas filhas de um vendeiro: “Ei, que quando vier o tempo, que de guerra se tiver licença, [...] ah, eu vou lá, pego uma das duas, de mocinha faço ela virar mulher” (2006, p. 294). A violência contra a mulher, na maioria dos casos, é sempre premeditada, e não casual. Nas paragens do imenso sertão, fartos da companhia masculina, os jagunços de Guimarães Rosa passavam boa parte do tempo pensando ou falando de mulheres. Entretanto, toda vez que assim agiam, apenas as lembranças que remetiam ao sexo eram evocadas. As mulheres, neste sentido, eram meros objetos subjugados às vontades dos homens, como deixa claro Riobaldo: “Cada um queria delas, no que só pensava. As mocinhas próprias de se provar [...]” (2006, p. 233). Mas isso está longe de ser o pior. Havia jagunço que enxergava a mulher apenas no estreito sentido de sua biologia, como é o caso de Dute, que diz: “Daqui a seis léguas, é a baixada do Brejinho – lá tem logradouro, tem fêmeas...” (2006, p. 235). Para completar a série, Riobaldo retoma a palavra, dessa vez para escancarar a visão da mulher como objeto: “Renego não, o que me é de doces usos: Graças a Deus toda a vida tive estima a toda meretriz, mulheres que são as mais nossas irmãs, a gente precisa melhor delas, dessas belas bondades” (2006, p. 236). Ou seja, só se “prova” ou se “usa” um objeto, seja ele uma camisa, uma bota ou, para estes jagunços do sertão, uma “fêmea”. Diante do que aqui foi exposto, não é difícil perceber as razões para se considerar o sertão como um lugar violento, principalmente para as mulheres, tanto que Maria Deodorina, quando ainda respondia por Diadorim, não escondia: “Mulher é gente tão infeliz...” (2006, p. 172). Entretanto, de todos os trechos que aqui foram abordados e expostos, nenhum deles é tão significativo quanto o que se segue. Esta passagem, por sua vez, é um reflexo não só do machismo presente no interior do Brasil, nestes sertões enormes e longínquos, mas também é fiel ao que ocorre, com toda sua brutalidade, nos ambientes urbanos, em qualquer estado, cidade ou bairro deste país. Quem a enuncia é justamente Riobaldo, o contraditório “herói” da obra de Rosa: “Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos!” (2006, p. 11-12). IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS Durante este breve artigo, procurou-se abordar as principais manifestações de machismo presentes na maior obra de Guimarães Rosa, bem como as visões e construções da masculinidade expostas em seu texto. Sendo um dos mais importantes livros da literatura brasileira, “Grande Sertão: Veredas” traz apontamentos interessantes sobre o ambiente sertanejo e sua população. Através dela, foi possível notar que boa parte da violência que caracteriza o sertão, tanto na época de Rosa como na atualidade, é derivada dos típicos traços autoritários e patriarcais que persistem no país desde seus tempos de colônia. Por ser um artigo breve e limitado, novas pesquisas devem ser feitas para a obtenção de melhores resultados sobre o tema que aqui foi proposto. V. REFERÊNCIAS BURKE, Peter. História e Teoria Social. São Paulo: Editora Unesp, 2012. DE HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 2014. FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder: Formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Globo, 2012. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.