Prévia do material em texto
<p>ENEM</p><p>Realismo</p><p>L0126 - (Enem)</p><p>Mal secreto</p><p>Se a cólera que espuma, a dor que mora</p><p>N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,</p><p>Tudo o que punge, tudo o que devora</p><p>O coração, no rosto se estampasse;</p><p>Se se pudesse, o espírito que chora,</p><p>Ver através da máscara da face,</p><p>Quanta gente, talvez, que inveja agora</p><p>Nos causa, então piedade nos causasse!</p><p>Quanta gente que ri, talvez, consigo</p><p>Guarda um atroz, recôndito inimigo,</p><p>Como invisível chaga cancerosa!</p><p>Quanta gente que ri, talvez existe,</p><p>Cuja ventura única consiste</p><p>Em parecer aos outros venturosa!</p><p>(CORREIA, R. In: PATRIOTA, M. Para compreender</p><p>Raimundo Correia. Brasília: Alhambra, 1995.)</p><p>Coerente com a proposta parnasiana de cuidado formal e</p><p>racionalidade na condução temá�ca, o soneto de</p><p>Raimundo Correia reflete sobre a forma como as</p><p>emoções do indivíduo são julgadas em sociedade. Na</p><p>concepção do eu lírico, esse julgamento revela que</p><p>a) a necessidade de ser socialmente aceito leva o</p><p>indivíduo a agir de forma dissimulada.</p><p>b) o sofrimento ín�mo torna-se mais ameno quando</p><p>compar�lhado por um grupo social.</p><p>c) a capacidade de perdoar e aceitar as diferenças</p><p>neutraliza o sen�mento de inveja.</p><p>d) o ins�nto de solidariedade conduz o indivíduo a</p><p>apiedar-se do próximo.</p><p>e) a transfiguração da angús�a em alegria é um ar��cio</p><p>nocivo ao convívio social.</p><p>L0120 - (Enem)</p><p>Talvez pareça excessivo o escrúpulo do Cotrim, a quem</p><p>não souber que ele possuía um caráter ferozmente</p><p>honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos</p><p>que se seguiram ao inventário de meu pai. Reconheço</p><p>que era um modelo. Arguiam-no de avareza, e cuido que</p><p>�nham razão; mas a avareza é apenas a exageração de</p><p>uma virtude, e as virtudes devem ser como os</p><p>orçamentos: melhor é o saldo que o déficit. Como era</p><p>muito seco de maneiras, �nha inimigos que chegavam a</p><p>acusá-lo de bárbaro. O único fato alegado neste</p><p>par�cular era o de mandar com frequência escravos ao</p><p>calabouço, donde eles desciam a escorrer sangue; mas,</p><p>além de que ele só mandava os perversos e os fujões,</p><p>ocorre que, tendo longamente contrabandeado em</p><p>escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco</p><p>mais duro que esse gênero de negócio requeria, e não se</p><p>pode honestamente atribuir à índole original de um</p><p>homem o que é puro efeito de relações sociais. A prova</p><p>de que o Cotrim �nha sen�mentos pios encontrava-se no</p><p>seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando</p><p>morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutável, acho</p><p>eu, e não única. Era tesoureiro de uma confraria, e irmão</p><p>de várias irmandades, e até irmão remido de uma destas,</p><p>o que não se coaduna muito com a reputação da avareza;</p><p>verdade é que o bene�cio não caíra no chão: a</p><p>irmandade (de que ele fora juiz) mandara-lhe �rar o</p><p>retrato a óleo.</p><p>ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de</p><p>Janeiro: Nova Aguilar, 1992.</p><p>Obra que inaugura o Realismo na literatura</p><p>brasileira, Memórias póstumas de Brás Cubas condensa</p><p>uma expressividade que caracterizaria o es�lo</p><p>machadiano: a ironia. Descrevendo a moral de seu</p><p>cunhado, Cotrim, o narrador-personagem Brás Cubas</p><p>refina a percepção irônica ao</p><p>1@professorferretto @prof_ferretto</p><p>a) acusar o cunhado de ser avarento para confessar-se</p><p>injus�çado na divisão da herança paterna.</p><p>b) atribuir a “efeito de relações sociais” a naturalidade,</p><p>com que Cotrim prendia e torturava os escravos.</p><p>c) considerar os “sen�mentos pios” demonstrados pelo</p><p>personagem quando da perda da filha Sara.</p><p>d) menosprezar Cotrim por ser tesoureiro de uma</p><p>confraria e membro remido de várias irmandades.</p><p>e) insinuar que o cunhado era um homem vaidoso e</p><p>egocêntrico, contemplado com um retrato a óleo.</p><p>L0347 - (Enem PPL)</p><p>Conseguindo, porém, escapar à vigilância dos</p><p>interessados, e depois de cur�r uma noite, a mais escura</p><p>de sua vida, numa espécie de jaula com grades de ferro,</p><p>Amaro, que só temia regressar à “fazenda”, voltar ao seio</p><p>da escravidão, estremeceu diante de um rio muito largo e</p><p>muito calmo, onde havia barcos vogando em todos os</p><p>sen�dos, à vela, outros deitando fumaça, e lá cima,</p><p>beirando a água, um morro alto, em ponta, varando as</p><p>nuvens, como ele nunca �nha visto...</p><p>[...] todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe uma</p><p>sensação tão forte de liberdade e vida, que até lhe vinha</p><p>vontade de chorar, mas chorar francamente,</p><p>abertamente, na presença dos outros, como se es�vesse</p><p>enlouquecendo... Aquele magnífico cenário gravara-se-</p><p>lhe na re�na para toda a existência; nunca mais o havia</p><p>de esquecer, oh! Nunca mais! Ele, o escravo, “o negro</p><p>fugido”, sen�a-se verdadeiramente homem, igual aos</p><p>outros homens, feliz de o ser, grande como a natureza,</p><p>em toda a pujança viril da sua mocidade, e �nha pena,</p><p>muita pena dos que ficavam na “fazenda” trabalhando,</p><p>sem ganhar dinheiro, desde a madrugadinha té... sabe</p><p>Deus!</p><p>CAMINHA, A. Bom Crioulo. São Paulo: Mar�n Claret,</p><p>2008.</p><p>A situação descrita no fragmento aproxima-o dos</p><p>padrões esté�cos do Naturalismo em função da</p><p>a) fragilidade emocional atribuída ao indivíduo oprimido.</p><p>b) influência da paisagem sobre a capacidade de</p><p>resiliência.</p><p>c) impossibilidade de superação dos traumas da</p><p>escravidão.</p><p>d) correlação de causalidade entre força �sica e origem</p><p>étnica.</p><p>e) condição moral do indivíduo vinculada aos papéis de</p><p>gênero.</p><p>L0350 - (Enem PPL)</p><p>Duas castas de considerações fez de si para consigo o</p><p>cauto Conselheiro. Primeiramente foi saltar-lhe ao nariz a</p><p>evidência de que ministro não visita empregado público,</p><p>ainda que in extremis, mesmo a uma braça, ou duas,</p><p>acima do chapéu do amanuense mais bisonho. Também</p><p>não visita escritor enfermo por ser escritor, e por estar</p><p>enfermo. Seriam trabalhos, ambos, a que não se daria</p><p>um ministro, nem sempre ocupado das cousas, altas ou</p><p>baixas, do Estado.</p><p>O tempo ministerial não se vai perdulariamente, não</p><p>se faz em farinhas. Os �tulares esquivam-se até a</p><p>suspirar, que os suspiros implicam o desperdício de</p><p>minutos se o suspiro é de minutos, além de permi�rem</p><p>ilações perigosas sobre a estabilidade do ministro,</p><p>quando não do próprio gabinete.</p><p>A segunda ponderação remeteu-o à certeza de que</p><p>terminantemente chegavam ao cabo seus dias; e de que</p><p>as esperanças eram aéreas, atado agora à cama até que o</p><p>encerrassem na urna, como um voto eleitoral frio.</p><p>MARANHÃO, Haroldo. Memorial do fim: a morte de</p><p>Machado de Assis. São Paulo: Marco Zero, 1991.</p><p>O texto relata o momento em que, no leito de morte,</p><p>Machado de Assis recebe a visita do Barão do Rio Branco,</p><p>ministro de Estado. Criando a cena, o narrador obtém</p><p>expressividade ao</p><p>a) representar com fidelidade os fatos históricos.</p><p>b) caracterizar a situação com profundidade dramá�ca.</p><p>c) explorar a sensibilidade dos personagens envolvidos.</p><p>d) assumir a perspec�va irônica e o es�lo narra�vo do</p><p>personagem.</p><p>e) recorrer a metáforas su�s e comparações de sen�do</p><p>filosófico.</p><p>L0353 - (Enem PPL)</p><p>A caolha</p><p>A caolha era uma mulher magra, alta, macilenta, peito</p><p>fundo, busto arqueado, braços compridos, delgados,</p><p>largos nos cotovelos, grossos nos pulsos; mãos grandes,</p><p>ossudas, estragadas pelo reuma�smo e pelo trabalho;</p><p>unhas grossas, chatas e cinzentas, cabelo crespo, de uma</p><p>cor indecisa entre o branco sujo e o louro grisalho, desse</p><p>cabelo cujo contato parece dever ser áspero e</p><p>espinhento; boca descaída, numa expressão de desprezo,</p><p>pescoço longo, engelhado, como o pescoço dos urubus;</p><p>dentes falhos e cariados. O seu aspecto infundia terror às</p><p>crianças e repulsão aos adultos; não tanto pela sua altura</p><p>e extraordinária magreza, mas porque a desgraçada �nha</p><p>um defeito horrível: haviam-lhe extraído o olho</p><p>esquerdo; a pálpebra descera mirrada, deixando,</p><p>contudo, junto ao lacrimal, uma �stula con�nuamente</p><p>porejante. Era essa pinta amarela sobre o fundo</p><p>2@professorferretto @prof_ferretto</p><p>denegrido da olheira, era essa des�lação incessante de</p><p>pus que a tomava repulsiva aos olhos de toda a gente.</p><p>ALMEIDA, J. L. In: COSTA, F. M. (org.). Os melhores contos</p><p>brasileiros de todos os tempos. Rio de Janeiro: Nova</p><p>Fronteira, 2009.</p><p>Que procedimento composicional o narrador u�liza para</p><p>caracterizar a aparência da personagem?</p><p>a) A descrição marcada</p><p>por adje�vações deprecia�vas.</p><p>b) A alternância dos tempos e modos verbais da</p><p>narra�va.</p><p>c) A adoção de um ponto de vista centrado no medo das</p><p>crianças.</p><p>d) A obje�vidade da correlação entre imperfeições �sicas</p><p>e morais.</p><p>e) A especificação da deformidade responsável pela</p><p>feição assustadora.</p><p>L0355 - (Enem PPL)</p><p>O Bom-Crioulo</p><p>Com efeito, Bom-Crioulo não era somente um homem</p><p>robusto, uma dessas organizações privilegiadas que</p><p>trazem no corpo a sobranceira resistência do bronze e</p><p>que esmagam com o peso dos músculos. [...]</p><p>A chibata não lhe fazia mossa; �nha costas de ferro</p><p>para resis�r como um hércules ao pulso do guardião</p><p>Agos�nho. Já nem se lembrava do número das vezes que</p><p>apanhara de chibata... [...]</p><p>Entretanto, já iam cinquenta chibatadas! Ninguém lhe</p><p>ouvira um gemido, nem percebera uma contorção, um</p><p>gesto qualquer de dor. Viam-se unicamente naquele</p><p>costão negro as marcas do junco, umas sobre as outras,</p><p>entrecruzando-se como uma grande teia de aranha, roxas</p><p>e latejantes, cortando a pele em todos os sen�dos. [...]</p><p>Marinheiros e oficiais, num silêncio concentrado,</p><p>alongavam o olhar, cheios de interesse, a cada golpe.</p><p>– Cento e cinquenta!</p><p>Só então houve quem visse um ponto vermelho, uma</p><p>gota rubra deslizar no espinhaço negro do marinheiro e</p><p>logo este ponto vermelho se transformar numa fita de</p><p>sangue.</p><p>CAMINHA, A. O Bom-Crioulo. São Paulo: Mar�n CIaret,</p><p>2006.</p><p>A prosa naturalista incorpora concepções geradas pelo</p><p>cien�ficismo e pelo determinismo. No fragmento, a cena</p><p>de tortura a Bom-Crioulo reproduz essas concepções,</p><p>expressas pela,</p><p>a) exaltação da resistência inata para legi�mar a</p><p>exploração de uma etnia.</p><p>b) defesa do estoicismo individual como forma de</p><p>superação das adversidades.</p><p>c) concepção do ser humano como uma espécie</p><p>predadora e afeita à morbidez.</p><p>d) observação detalhada do corpo para a iden�ficação de</p><p>caracterís�cas de raça.</p><p>e) apologia à superioridade dos organismos saudáveis</p><p>para a sobrevivência da espécie.</p><p>L0364 - (Enem PPL)</p><p>– Não digo que seja uma mulher perdida, mas</p><p>recebeu uma educação muito livre, saracoteia sozinha</p><p>por toda a cidade e não tem podido, por conseguinte,</p><p>escapar à implacável maledicência dos fluminenses.</p><p>Demais, está habituada ao luxo, ao luxo da rua, que é o</p><p>mais caro; em casa arranjam-se ela e a �a sabe Deus</p><p>como. Não é mulher com quem a gente se case. Depois,</p><p>lembra-te que apenas começas e não tens ainda onde</p><p>cair morto. Enfim, és um homem: faze o que bem te</p><p>parecer.</p><p>Essas palavras, proferidas com uma franqueza por</p><p>tantos mo�vos autorizada, calaram no ânimo do</p><p>bacharel. In�mamente ele es�mava que o velho amigo</p><p>de seu pai o dissuadisse de requestar a moça, não pelas</p><p>consequências morais do casamento, mas pela obrigação,</p><p>que este lhe impunha, de sa�sfazer uma dívida de vinte</p><p>contos de réis, quando, apesar de todos os seus esforços,</p><p>não conseguira até então pôr de parte nem o terço</p><p>daquela quan�a.</p><p>AZEVEDO, A. A dívida. Disponível em:</p><p>www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 20 ago. 2017.</p><p>O texto, publicado no fim do século XIX, traz à tona</p><p>representações sociais da sociedade brasileira da época.</p><p>Em consonância com a esté�ca realista, traços da visão</p><p>crí�ca do narrador manifestam-se na</p><p>a) caracterização pejora�va do comportamento da</p><p>mulher solteira.</p><p>b) concepção irônica acerca dos valores morais inerentes</p><p>à vida conjugal.</p><p>c) contraposição entre a idealização do amor e as</p><p>imposições do trabalho.</p><p>d) expressão caricatural do casamento pelo viés do</p><p>sen�mentalismo burguês.</p><p>e) sobreposição da preocupação financeira em relação</p><p>ao sen�mento amoroso.</p><p>L0368 - (Enem PPL)</p><p>A</p><p>3@professorferretto @prof_ferretto</p><p>Esbraseia o Ocidente na agonia</p><p>O sol... Aves em bandos destacados,</p><p>Por céus de ouro e púrpura raiados,</p><p>Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...</p><p>Delineiam-se além da serrania</p><p>Os vér�ces de chamas aureolados,</p><p>E em tudo, em torno, esbatem derramados</p><p>Uns tons suaves de melancolia.</p><p>Um mundo de vapores no ar flutua...</p><p>Como uma informe nódoa avulta e cresce</p><p>A sombra à proporção que a luz recua.</p><p>A natureza apá�ca esmaece...</p><p>Pouco a pouco, entre as árvores, a lua</p><p>Surge trêmula, trêmula... Anoitece.</p><p>CORRÊA, R. Disponível em: www.brasiliana.usp.br. Acesso</p><p>em: 13 ago. 2017.</p><p>Composição de formato fixo, o soneto tornou-se um</p><p>modelo par�cularmente ajustado à poesia parnasiana.</p><p>No poema de Raimundo Corrêa, remete(m) a essa</p><p>esté�ca</p><p>a) as metáforas inspiradas na visão da natureza.</p><p>b) a ausência de emo�vidade pelo eu lírico.</p><p>c) a retórica ornamental desvinculada da realidade.</p><p>d) o uso da descrição como meio de expressividade.</p><p>e) o vínculo a temas comuns à An�guidade Clássica.</p><p>L0382 - (Enem PPL)</p><p>Quanto às mulheres de vida alegre, detestava-as;</p><p>�nha gasto muito dinheiro, precisava casar, mas casar</p><p>com uma menina ingênua e pobre, porque é nas classes</p><p>pobres que se encontra mais vergonha e menos</p><p>bandalheira. Ora, Maria do Carmo parecia-lhe uma</p><p>criatura simples, sem essa tendência fatal das mulheres</p><p>modernas para o adultério, uma menina que até chorava</p><p>na aula simplesmente por não ter respondido a uma</p><p>pergunta do professor! Uma rapariga assim era um caso</p><p>esporádico, uma verdadeira exceção no meio de uma</p><p>sociedade roída por quanto vício há no mundo. Ia</p><p>concluir o curso, e, quando voltasse ao Ceará, pensaria</p><p>seriamente no caso. A Maria do Carmo estava mesmo a</p><p>calhar: pobrezinha, mas inocente...</p><p>CAMINHA, A. A normalista. Disponível em:</p><p>www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 16 maio 2016.</p><p>Alinhado às concepções do Naturalismo, o fragmento do</p><p>romance de Adolfo Caminha, de 1893, iden�fica e</p><p>destaca nos personagens um(a)</p><p>a) compleição moral condicionada ao poder aquisi�vo.</p><p>b) temperamento inconstante incompa�vel com a vida</p><p>conjugal.</p><p>c) formação intelectual escassa relacionada a desvios de</p><p>conduta.</p><p>d) laço de dependência ao projeto de reeducação de</p><p>inspiração posi�vista.</p><p>e) sujeição a modelos representados por estra�ficações</p><p>sociais e de gênero.</p><p>L0390 - (Enem PPL)</p><p>Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus</p><p>livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna.</p><p>O que não admira, nem provavelmente consternará, é se</p><p>este outro livro não �ver os cem leitores de Stendhal,</p><p>nem cinquenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez?</p><p>Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na</p><p>qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne,</p><p>ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe me� algumas</p><p>rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado.</p><p>Escrevia-a com a pena da galhofa e a �nta da melancolia,</p><p>e não é di�cil antever o que poderá sair desse conúbio.</p><p>Acresce que a gente grave achará no livro umas</p><p>aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola</p><p>não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado</p><p>da es�ma dos graves e do amor dos frívolos, que são as</p><p>duas colunas máximas da opinião.</p><p>ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Disponível</p><p>em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 8 ago. 2015.</p><p>No fragmento transcrito da dedicatória “Ao leitor”,</p><p>em Memórias póstumas de Brás Cubas, o autor serve-se</p><p>da figura do narrador-defunto para</p><p>a) desqualificar o gênero romance, forma literária à qual</p><p>Machado de Assis pouco se dedicou.</p><p>b) ressaltar a inverossimilhança dos fatos narrados,</p><p>confrontados com a realidade da burguesia carioca do</p><p>século XIX.</p><p>c) cri�car a sociedade burguesa brasileira da época,</p><p>valendo-se do uso da terceira pessoa e do ponto de</p><p>vista distanciado.</p><p>d) sobrepor a “�nta da melancolia” ao aspecto</p><p>humorís�co, de modo a valorizar o tom sóbrio e a</p><p>temá�ca realista �picos do romance burguês</p><p>brasileiro.</p><p>e) fazer intromissões na narra�va, introduzindo pausas</p><p>no relato durante as quais estabelece com o leitor um</p><p>diálogo de tom sarcás�co e provoca�vo.</p><p>L0394 - (Enem PPL)</p><p>O voluntário</p><p>4@professorferretto @prof_ferretto</p><p>Quem não sabe o efeito produzido à beira do rio pela</p><p>no�cia da declaração da guerra entre o Brasil e o</p><p>Paraguai? Nas classes mais favorecidas da fortuna, nas</p><p>cidades principalmente, o entusiasmo foi grande e</p><p>duradouro. Mas entre o povo miúdo o medo do</p><p>recrutamento para voluntário da Pátria foi</p><p>tão intenso</p><p>que muitos tapuios se meteram pelas matas e pelas</p><p>cabeceiras dos rios, e ali viveram como animais bravios</p><p>sujeitos a toda a espécie de privações. [...] Coisa terrível</p><p>que era então o recrutamento! Esse meio violento de</p><p>preencher os quadros do exército era ao tempo da guerra</p><p>posto em prá�ca com barbaridade e �rania, indignas</p><p>dum povo que pretende foros de civilizado. Suplícios</p><p>tremendos eram infligidos aos que, fugindo a uma</p><p>obrigação não compreendida, ousavam preferir a paz do</p><p>trabalho e o sossego do lar à ventura de se deixarem</p><p>cortar em postas na defesa das estâncias rio-grandenses</p><p>e das aldeolas de Mato Grosso.</p><p>SOUZA, I. Contos amazônicos. Jundiaí: Cadernos do</p><p>Mundo Inteiro, 2018 (fragmento).</p><p>Para descrever o modo como indígenas e ribeirinhos</p><p>eram recrutados para lutarem como “voluntários da</p><p>Pátria”, o texto de Inglês de Souza</p><p>a) enfa�za a capacidade de resiliência dos tapuios.</p><p>b) põe em evidência a brutalidade do alistamento</p><p>compulsório.</p><p>c) rela�viza a prevalência da disputa bélica sobre a</p><p>natureza pacífica.</p><p>d) cri�ca a incompreensão da população acerca das</p><p>mo�vações do conflito.</p><p>L0443 - (Enem PPL)</p><p>O mulato</p><p>Ana Rosa cresceu; aprendera de cor a gramá�ca do</p><p>Sotero dos Reis; lera alguma coisa; sabia rudimentos de</p><p>francês e tocava modinhas sen�mentais ao violão e ao</p><p>piano. Não era estúpida; �nha a intuição perfeita da</p><p>virtude, um modo bonito, e por vezes lamentara não ser</p><p>mais instruída. Conhecia muitos trabalhos de agulha;</p><p>bordava como poucas, e dispunha de uma gargantazinha</p><p>de contralto que fazia gosto de ouvir.</p><p>Uma só palavra boiava à super�cie dos seus</p><p>pensamentos: “Mulato”. E crescia, crescia,</p><p>transformando-se em tenebrosa nuvem, que escondia</p><p>todo o seu passado. Ideia parasita, que estrangulava</p><p>todas as outras ideias.</p><p>– Mulato!</p><p>Esta só palavra explicava-lhe agora todos os</p><p>mesquinhos escrúpulos, que a sociedade do Maranhão</p><p>usara para com ele. Explicava tudo: a frieza de certas</p><p>famílias a quem visitara; as re�cências dos que lhe</p><p>falavam de seus antepassados; a reserva e a cautela dos</p><p>que, em sua presença, discu�am questões de raça e de</p><p>sangue.</p><p>AZEVEDO, A. O Mulato. São Paulo: Á�ca, 1996</p><p>(fragmento).</p><p>O texto de Aluísio Azevedo é representa�vo do</p><p>Naturalismo, vigente no final do século XIX. Nesse</p><p>fragmento, o narrador expressa fidelidade ao discurso</p><p>naturalista, pois</p><p>a) relaciona a posição social a padrões de</p><p>comportamento e à condição de raça.</p><p>b) apresenta os homens e as mulheres melhores do que</p><p>eram no século XIX.</p><p>c) mostra a pouca cultura feminina e a distribuição de</p><p>saberes entre homens e mulheres.</p><p>d) ilustra os diferentes modos que um indivíduo �nha de</p><p>ascender socialmente.</p><p>e) cri�ca a educação oferecida às mulheres e os maus-</p><p>tratos dispensados aos negros.</p><p>L0403 - (Enem PPL)</p><p>– Recusei a mão de minha filha, porque o senhor é...</p><p>filho de uma escrava.</p><p>– Eu?</p><p>– O senhor é um homem de cor!... Infelizmente esta é</p><p>a verdade... Raimundo tornou-se lívido. Manoel</p><p>prosseguiu, no fim de um silêncio:</p><p>– Já vê o amigo que não é por mim que lhe recusei</p><p>Ana Rosa, mas é por tudo! A família de minha mulher</p><p>sempre foi muito escrupulosa a esse respeito, e como ela</p><p>é toda a sociedade do Maranhão! Concordo que seja</p><p>uma asneira; concordo que seja um prejuízo tolo! O</p><p>senhor porém não imagina o que é por cá a prevenção</p><p>contra os mulatos!... Nunca me perdoariam um tal</p><p>casamento; além do que, para realizá-lo, teria que</p><p>quebrar a promessa que fiz a minha sogra, de não dar a</p><p>neta senão a um branco de lei, português ou</p><p>descendente direto de portugueses.</p><p>AZEVEDO, A. O mulato. São Paulo: Escala, 2008.</p><p>Influenciada pelo ideário cien�ficista do Naturalismo, a</p><p>obra destaca o modo como o mulato era visto pela</p><p>sociedade de fins do século XIX. Nesse trecho, Manoel</p><p>traduz uma concepção em que a</p><p>a) miscigenação racial desqualificava o indivíduo.</p><p>b) condição econômica anulada os conflitos raciais.</p><p>c) discriminação racial era condenada pela sociedade.</p><p>d) escravidão negava o direito da negra à maternidade.</p><p>e) união entre mes�ços era um risco à hegemonia dos</p><p>brancos.</p><p>5@professorferretto @prof_ferretto</p>