Prévia do material em texto
RESUMO AULA 1 BASES DA CULTURA OCIDENTAL Está disponível o arquivo da AD1 na aba AVALIAÇÕES. Conteúdo da AD1: aulas 01 a 06. Prazo final para envio: dia 18/08, às 23:55. Não será possível enviar a AD1 após o prazo! AULA 1 - CULTURAS CLÁSSICA E MEDIEVAL O QUE É O OCIDENTE? Ocidente, portanto, é o lugar no qual o Sol morre, pondo fim à luz do dia. Do ponto de vista geográfico, é sinônimo de oeste, que é onde o Sol se põe. O QUE É ORIENTE? Oriente, então, é o lugar no qual o Sol nasce SITUAÇÃO GEOGRÁFICA Para nós, brasileiros, geograficamente, a Europa e a África seriam orientais, pois é daquela parte do globo que o Sol nasce para nós. As noções de ocidente e oriente estão, em sua origem, ligadas ao nascer e ao pôr do sol e, por conseguinte, à divisão do dia e da noite. E são, do ponto de vista geográfico, bastante variáveis, conforme o ponto de referência que tomemos. PARA ALÉM DA SITUAÇÃO GEOGRÁFICA “Ocidente” significa, nesse caso, uma série de conceitos e valores. A cultura ocidental, da qual fazemos parte, é a resultante de conceitos e valores clássicos (greco-romanos) e medievais (judaico-cristãos). UMA PRIMEIRA INTERPRETAÇÃO Nós seríamos tão ocidentais quanto os norte-americanos, os canadenses e os europeus, pois partilhamos da mesma encruzilhada histórico-cultural grega/romana/judaica/cristã. UMA SEGUNDA INTERPRETAÇÃO O nível e o padrão de desenvolvimento, sendo “ocidente” tomado como um sinônimo de “primeiro mundo”, com uma alta taxa de desenvolvimento tecnológico, onde o Japão seria um dos países mais ocidentais, um tanto complexo de se entender. UMA TERCEIRA INTERPRETAÇÃO Philippe Nemo aponta cinco elementos cruciais como estruturadores do Ocidente e de sua cultura: 1. A invenção, pelos gregos, da Cidade, da liberdade sob a lei, da ciência e da escola. 2. A invenção, por Roma, do direito, da propriedade privada, da noção de “pessoa” e do humanismo. 3. A revolução ética e escatológica da Bíblia: a caridade prevalece sobre a justiça, e o tempo linear, o tempo da História, é posto sob tensão escatológica. 4. A “Revolução Papal”, do século XI ao XIII, que preferiu utilizar a razão sob duas configurações – ciência grega e direito romano – para inscrever a ética e a escatologia bíblicas na História, realizando assim a primeira síntese verdadeira entre “Atenas”, “Roma” e “Jerusalém”. 5. A promoção da democracia liberal consumada pelo que se convencionou designar as grandes revoluções democráticas (Holanda, Inglaterra, Estados Unidos, França e, depois, sob diferentes formas, todos os outros países da Europa Ocidental). Portanto, de acordo com este autor, diremos que, ainda por algum tempo, a América Latina vai manter-se próxima do Ocidente, sem estar integrada nele (Cuba, ameríndios, terem sido criados por países europeus não passaram pelas cinco fases descritas anteriormente), pois a América Latina vivenciou apenas os quatro primeiros. O autor incorre em profundas contradições. A primeira delas é colocar todos os países latino-americanos no mesmo patamar, ignorando diferenças históricas profundas. Outro contrassenso desta interpretação é o socialismo, o marxismo e o comunismo são produtos europeus, cujas raízes remontam à revolução “democrática” francesa. Exemplo que contraria a ideia de “evolução”: Na Holanda os idosos têm medo da eutanásia e estão se refugiando para a cidade (alemã) de Bocholt, para abrigos especialmente preparados para eles. Apesar disso, a Holanda pode pertencer ao Ocidente. Mais um contrassenso são as revoluções democráticas representando não um elemento de construção do Ocidente, mas antes iniciando um processo de dissolução e de implosão da cultura ocidental, como elemento de formação do Ocidente, deixando esta questão longe de ser pacífica. Os limites da “cultura ocidental” giram em torno de dos dois eixos de que falamos: (1) o legado clássico (Grécia e Roma) e (2) o legado judaico-cristão, que correspondem aos quatro primeiros acontecimentos mencionados por Nemo. As quatro culturas que deram origem às matrizes não eram tão independentes, ou seja, A cultura romana é bastante influenciada pela grega e, por sua vez, em um momento posterior, leva sua influência para a cultura grega. Virgílio, em sua Eneida, faz remontar as origens do Império Romano à guerra de Troia e a um de seus heróis, Eneias. E é fato que a Península Itálica foi colonizada pelos gregos, sendo essa região conhecida, desde a Antiguidade, como Magna Grécia. As culturas judaica e grega também se relacionam. Basta lembrar que uma parte dos judeus se servia do grego, em determinado momento, como língua, e que o Antigo Testamento foi traduzido, por volta do século III d.C., para o grego, na versão que é conhecida pelo nome latino de Septuaginta, isto é, “Setenta”, pois seus tradutores teriam sido em número de setenta e dois. O cristianismo, por fim, surge em uma encruzilhada. Ele nasce do seio da cultura judaica, em uma Palestina dominada pelos romanos e com influências gregas. Um retrato disso é uma passagem do Novo Testamento que relata um curioso fato da crucifixão de Jesus. “Jesus de Nazaré, rei dos judeus” a inscrição era redigida em hebraico, em latim e em grego. A inscrição é trilíngue – hebraico, latim e grego – o que mostra bem a interseção desses povos e culturas já desde a Antiguidade. POR QUE ESTUDAR ESTAS CULTURAS? Fazem parte de nosso quotidiano. Estão aqui e agora. Mas como nós as desconhecemos, temos essa falsa impressão. Desconhecemos nossa própria cultura. A ESCOLA tem origem na Grécia, visando ensinar as crianças a ler, escrever e calcular. É dos gregos que, pelo viés latino, nos vem a instituição escolar. A universidade tem seu germe na Antiguidade, em instituições como a Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles. Entretanto, o modelo de universidade como conhecemos hoje surge na Idade Média, produto das escolas catedralícias. É em fins do século XII e início do XIII que a universidade faz sua aparição. Ela é produto do gênio e da cultura medievais, da Idade Média que a falsa propaganda iluminista rotulou de Idade das Trevas. A universidade é uma instituição medieval e as universidades desse período eram, em mais de um aspecto, superiores às nossas. A universidade medieval – a original – é mais humana do que as nossas, pois em seu centro estavam as pessoas, onde quer que elas se reunissem para ensinar e aprender. É o elemento humano que importa As quatro faculdades que estruturam a universidade no século XIII são Teologia, Filosofia, Medicina e Direito. O Direito Romano, perpetuado e aperfeiçoado na Idade Média: “Justiça é a vontade constante e perpétua de dar a cada um o seu direito.” Os romanos reconheciam também a existência de um direito natural, de uma lei natural, algo frequentemente negado hoje, com consequências catastróficas. A lei natural está na base, por exemplo, do direito universal à vida. Nossa cultura ocidental, em muitos aspectos, vem sendo deteriorada. O termo “hospital” está ligado a “hóspede”, remetendo-nos a um costume fundamental entre os gregos. O cristianismo torna essa obrigação universal e voltada para os mais necessitados e marginalizados. É no período cristão (já pelo menos desde o século IV) que surgem os hospitais, casas de acolhida para os doentes, e durante toda Idade Média eles são fundados e administrados pela Igreja Católica. É na Grécia que surge a literatura ocidental, que, originalmente, é uma arte oral, desenvolvida com técnicas bem especiais e tendo na memória seu repositório. A escrita alfabética, a qual, ao fim de uns cinco séculos, terá causado uma profunda mudança na cultura ocidental e em sua cosmovisão, abrindo os caminhos para o surgimento e desenvolvimento da filosofia e das ciências. Nosso alfabeto não é senão uma simples adaptação do alfabeto grego. A literatura oral desenvolve-se, primeiro, em torno de temas épicos e vai paulatinamente se transformando com o advento e a expansão da escrita, fazendo com que surjam novos tipos de expressão literária.Os vários gêneros literários modernos estavam praticamente todos – bem desenvolvidos ou em forma embrionária – nas literaturas grega e latina: épica, lírica, poesia didática, tragédia, comédia, romance e mesmo ficção científica (isso mesmo!). Os estudos de gramática, que já eram cultivados por gregos e latinos se aperfeiçoaram durante a Idade Média (mencionemos, a título de exemplo, os modistas), vemos que nosso curso de Letras é totalmente tributário da cultura clássica e medieval. PERÍODO DE TEMPO Quanto ao período de tempo, você pode mencionar, como ponto de partida, o século XV a. C., quando vivem os micênicos, que são os primeiros gregos, ou o século VIII a. C., quando se estruturam os poemas homéricos (Ilíada e Odisseia). O ponto final situa-se no século XV, com o início da Idade Moderna. O PERIGO DO ANACRONISMO “Erro de cronologia que geralmente consiste em atribuir a uma época ou a um personagem ideias e sentimentos que são de outra época, ou em representar, nas obras de arte, costumes e objetos de uma época a que não pertencem. Um bom exemplo seria a escravidão. Na Grécia e em Roma, ela era um fato comum, reconhecido, inclusive, por lei. Se tentássemos, com base nisso, diminuir o valor dessas sociedades e enxergar a escravidão como algo negativo nela, isso seria um caso de anacronismo. Devemos evitar absolutamente comparações que usem o nosso tempo como padrão, ou seja, julgar esses períodos com a nossa visão. Talvez seja produtivo o inverso: julgar nosso tempo a partir daquelas culturas. Um exemplo interessante é a educação musical. Os gregos já a praticavam e ela era um elemento essencial da formação e da cultura das crianças e dos adolescentes. Hoje, quantos são os que aprendem música na escola? Para não corrermos o risco de sermos injustos com civilizações que, em situações muito adversas, produziram maravilhas. RESUMO A noção de Ocidente e de cultura ocidental é bastante complexa e variável. O termo “ocidente”, etimologicamente, significa o lugar ou o momento em que o Sol se põe, o pôr do sol ou o poente. O conceito de “oriente”, ao contrário, designa o lugar ou o momento em que o Sol nasce, o nascer do Sol ou o nascente. “Ocidente” seria, então, sinônimo de “oeste”; “oriente”, sinônimo de “leste”. Geograficamente, ocidente e oriente variariam, de acordo com o ponto de referência que se toma, pois o Japão é “oriental” em relação à Europa, mas esta seria “oriental” em relação a nós. E culturalmente? O que seria o Ocidente? A questão não é menos complexa e não há uma resposta simples. Assim, há aqueles que defendem que o Ocidente seria composto por Estados Unidos, Canadá e a Europa do Oeste. Os latino-americanos não faríamos parte dele, não seríamos ocidentais. Isso pode nos surpreender, mas é uma visão que existe, é uma teoria que circula e que mostra o quão complicada é a definição de Ocidente. Em nosso curso, estudaremos as bases da cultura ocidental. E que cultura seria essa? Ela é fruto de dois grandes eixos: (1) a cultura clássica (Grécia e Roma) e (2) a cultura judaico-cristã. Nossa cultura ocidental origina-se de sucessivas encruzilhadas e amalgamações dessas quatro culturas e civilizações: Grécia, Roma, judaísmo e cristianismo. Essas civilizações se expandem – cada qual a seu tempo – em um período que cobre a Antiguidade e o Medievo, cerca de 30 séculos (do século XV a.C., com os micênicos, que eram os protogregos, até o início da Idade Moderna, no século XV d.C., com as grandes navegações e a descoberta do Novo Mundo). O espaço ocupado por essas civilizações, juntas, ocupa boa parte da Europa, o norte da África e a Ásia Menor. Mas por que estudar culturas tão longe de nós no tempo e no espaço? Porque elas, afinal, não estão longe de nós, estão aqui e agora, fazem parte de nós. Talvez não saibamos o quanto elas nos influenciaram e por isso mesmo é que devemos estudá-las, para descobrir o quanto somos delas dependentes e devedores. Conhecê-las significa conhecer-nos melhor. Conhecê-las significa poder enxergar nossa própria cultura com outros olhos, vê-la de um modo mais profundo e positivo. É também a ocasião de descobrir valores, conceitos e instituições que se perderam e que podem ter um papel construtivo em nossa cultura. Resgatar elementos fundamentais que, de algum modo, perdemos. Tal tarefa nos obriga a ter um cuidado especial: evitar o anacronismo. Este pode-se definir como “atribuir a uma época ou a um personagem ideias e sentimentos que são de outra época”. Em nosso caso específico, seria projetar sobre a Antiguidade e a Idade Média uma visão baseada na época atual, nos dias de hoje, ou seja, julgar o passado de acordo com os nossos valores e a nossa mentalidade, esquecendo-nos de que essas civilizações se desenvolveram em circunstâncias históricas e culturais bem diferentes das nossas. O anacronismo tem, como resultado, criar uma visão negativa sobre algo que, efetivamente, pode ser bastante positivo, se visto no contexto correto (atenção: com isso não se quer dizer que não tenha havido nada de negativo nessas culturas; devemos compreendê-las em sua especificidade espaço-temporal, como frutos de um conjunto de circunstâncias que são diversas das que temos hoje).