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Prática de Texto:
leitura e redação
3ª edição – revista e ampliada
Luiz Roberto Dias de Melo e Celso Leopoldo Pagnan
Melo & Pagnan
2
LLLLuuuuiiiizzzz RRRRoooobbbbeeeerrrrttttoooo
Mestre em Literatura Brasilei
Professor da Escola Superior de
CCCCeeeellllssssoooo LLLLeeeeoooopppp
Mestre em Literatura Brasilei
Doutor em Literaturas de Língua Portu
Professor da Unopar – U
A! Ed
(11) 3
oooo DDDDiiiiaaaassss ddddeeee MMMMeeeelllloooo
ra pela Universidade de São Paulo
e Propaganda e Marketing - São Paulo
ppppoooollllddddoooo PPPPaaaaggggnnnnaaaannnn
ra pela Universidade de São Paulo
uguesa pela Universidade Estadual Paulista
Universidade Norte do Paraná
ditora
(11) 3565-0142
2
Prática de texto: leitura e redação
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Melo & Pagnan
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4
Capítulo 1
Caracterização de texto
O objeto de trabalho deste livro é o texto (do latim textum: tecido),
considerado uma unidade básica de organização e transmissão de idéias,
conceitos e informações de modo geral. Em sentido amplo, uma escultura, um
quadro, um símbolo, um sinal de trânsito, uma foto, um filme, uma novela de
televisão também são formas textuais. Tal como o texto escrito, todos esses
objetos geram um todo de sentido, propriedade a partir da qual iniciaremos nossa
reflexão sobre nosso objeto de estudo.
Para tanto, será necessário definir algumas características do objeto – o
texto –, salientando as implicações de cada uma delas, a fim de se aprofundar a
análise e delimitar o ponto de partida que orientará nossa abordagem nos
próximos capítulos.
Observe ao lado
exemplo de texto verbal
e não-verbal, do
cartunista Angeli, pois
mescla palavra e
imagem.
a) A primeira
dessas características é,
como referimos, a do texto como um todo gerador de sentido, uma totalidade.
Um fragmento, uma parte (frase, palavra) não possuem autonomia, não podem
ser tomados isoladamente, na medida em que cada parte liga-se ao todo. Fora do
contexto (o texto como um todo), uma determinada parte poderá ter seu sentido
original alterado, impedindo a depreensão do que de fato se desejou transmitir –
o real significado do texto como expressão do autor. Há ainda uma propriedade
Prática de texto: leitura e redação
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básica na organização dos textos, que é a coesão; além dessa, há outra,
identificada com os mecanismos de constituição de sentidos, que é a coerência,
ambas estudadas no capítulo 14;
b) Por mais neutro que pretenda ser – como as instruções para uso de
determinado equipamento ou uma notícia de jornal –, um texto sempre revela a
perspectiva1 (a visão de mundo) que o autor constrói da realidade. Vale dizer
que os textos são dotados de certo grau de intencionalidade, fenômeno mais
notável em textos argumentativos, (conforme estudaremos no capítulo 9). Um
exemplo típico disso pode ser verificado na edição de 15 de maio de 2000, do
Jornal de Londrina, em que se lê na primeira página a seguinte chamada: "Os
poucos torcedores que foram ontem à tarde ao Estádio do Café deveriam receber
um prêmio. Além de assistirem a um péssimo jogo e verem o Tubarão perder
para o Paraná por 1 a 0, /../ ainda tiveram de aturar a arbitragem insuportável do
juiz e seus asseclas". Observe o efeito de trechos como: deveriam receber um
prêmio ou assistirem a um péssimo jogo e, por fim, de forma mais contundente a
arbitragem insuportável do juiz e seus asseclas. As palavras aí não são neutras,
revestem-se de um caráter judicatório, avaliativo, expressando um ponto de
vista, talvez o do torcedor ou do comentarista de futebol;
c) A visão de mundo que está na base do discurso de um autor pode ser
chamada de ideologia2, o processo de produção de significados, signos e valores
da vida social. O texto traz consigo, de modo mais ou menos evidente, valores
identificados com certa cultura e formação histórica e social na medida em que o
autor é um ator social que comunga com esses valores;
d) Pelo fato de ser um produto de uma época e de um lugar específicos,
há no texto as marcas desse tempo e espaço. Por isso, nenhum texto é um objeto
inteiramente autônomo, há sempre um diálogo estabelecido com outros textos e
com o contexto. O texto, ainda que implicitamente, incorpora diferentes
perspectivas a respeito de uma mesma questão3. O que se tem é uma inter-
1
Em que medida essa afirmação vale para um texto literário, um filme, uma escultura, um
quadro, um projeto arquitetônico? De modo simplificado, poderíamos responder que essas
formas textuais estão contagiadas de historicidade, possuem um caráter histórico, não como um
simples reflexo da realidade, mas como objetos construídos na História e, portanto, como
produtos pensados pelo homem em determinado tempo, de acordo com certas necessidades, de
natureza econômica, psicológica, existencial, religiosa, entre outras.
2
O conceito clássico de ideologia, como má consciência, será desenvolvido no capítulo 4.
3
Algumas teorias do discurso, apoiadas nos estudos de J. Derrida e M. Foucault, abordam
inclusive como a perspectiva do próprio leitor é capaz de dar novo sentido ao texto. A esse
respeito ver: Maria José R. Faria Coracini (org.). O jogo discursivo na aula de leitura. Campinas
: Pontes, 1995, especialmente pp. 13-20.
Melo & Pagnan
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relação entre textos que tratam do mesmo assunto, ou de assuntos semelhantes,
com, eventualmente, abordagens diferentes. A esse respeito, Eni Orlandi afirma
o seguinte: "o sentido está sempre no viés. Ou seja, para se compreender um
discurso é importante se perguntar: o que ele não está querendo dizer ao dizer
isto? Ou: o que ele não está falando, quando está falando disso?"4 Por exemplo,
quando se defende a prática do aborto, não se reconhece a existência da vida, em
sentido mais pleno, no útero, bem como o poder do Estado em regular o direito
ao corpo.
Vejamos essas características no poema abaixo:
Provérbio revisto
Newton de Lucca
A voz do povo
é a voz de Deus...
Que povo?
Que Deus?
O que beijou Stálin?
O que delirou com Hitler?
Ou o que soltou Barrabás?
(Será que Deus já não teria se
enforcado em suas próprias cordas vocais?)
� Totalidade
Se lêssemos apenas os dois primeiros versos do poema, travaríamos
contato tão-somente com o provérbio, portanto a revisão proposta pelo título não
se completaria. Somente por esse motivo já devemos considerar o texto em sua
totalidade. O mesmo aconteceria se isolássemos os dois últimos versos do
restante do poema. Qual a interpretação que poderia ser-lhes dada? Poderíamos,
por exemplo, entender que o autor estivesse decretando a morte de Deus e,
consequentemente, propondo uma visão ateísta do mundo, o que não é o caso. O
4
A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. 2ª ed., Campinas : Pontes, 1987, p.
275.
Prática de texto: leitura e redação
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ponto, portanto,é determinar a organização do poema, para daí depreender o
sentido produzido.
� Diálogo com outros textos e com o contexto
Ao provérbio, sucedem-se seis questões. Para que essas indagações sejam
resolvidas, é preciso determinar com quais textos este poema dialoga.
Inicialmente, há o desejo, expresso no título, de revisão do provérbio
apresentado nos dois primeiros versos. Esse provérbio afirma a supremacia dos
desígnios do povo, visto que há uma identi- dade entre este e Deus. No entanto,
a esse falso axioma (que se revela
dogmático), o eu-lírico5 opõe uma
série de situações factuais, verificá-
veis na História, as quais, em
princípio, contestariam a pretensa
confirmação divina. Melhor
explicando, além de estabelecer uma
reflexão sobre o provérbio, o poema
traz para seu interior um fato bíblico
(o povo teria pedido a libertação de
Barrabás no lugar de Jesus Cristo, o
que, pela lógica do provérbio, teria
tido o aval de Deus), além de dois
fatos da História contemporânea (a
glorificação de Hitler e de Stálin,
líderes alemão e soviético,
respectivamente, que tiveram apoio popular e que foram responsáveis pela morte
de milhões de pessoas, os quais, mais uma vez, portanto, pela lógica do
provérbio, teriam tido o aval divino).
É nesse sentido que se estabelece um diálogo com outros textos (Bíblia e
provérbio) e com contextos específicos (a Europa nas décadas de 30 e 40).
Porém, se o leitor desconhece quem foram Hitler, Stálin ou Barrabás, a leitura
do poema como um objeto de revisão de determinado conteúdo histórico não se
complementa. É necessário, pois, conhecer o referente (o contexto) que
fundamenta o enunciado.
5
O eu-lírico é a voz de um poema, como o narrador o é em um romance ou conto, com a
diferença que, no poema, não se narra, necessariamente, uma história.
Axioma: verdade consensual,
baseada em uma lógica comprovável.
Ex.: “a educação deve ser a base de
uma sociedade forte”, ou “dois corpos
não podem ocupar o mesmo espaço no
mesmo momento”.
Dogma: verdade que se
pretende absoluta, não-relativa,
incontestável, pois. Muito comum na
argumentação religiosa: “Deus é o
criador de todo o Universo e dos seres
que nele vivem”. É possível também
encontrar dogmas na política, na
economia e mesmo na ciência.
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� Perspectiva e ideologia
Da leitura atenta do poema, pode-se chegar ainda à perspectiva do autor
e qual o sistema de idéias que norteia a construção de seu texto. Ora, ao propor
uma série de perguntas, o autor pretende revelar ou a incoerência de Deus ou a
não-validade da visão de mundo que o provérbio encerra. Assim, tem-se a
perspectiva de alguém contrário às pretensas verdades absolutas que nos são
colocadas, seja via provérbios, seja através de outros enunciados moralistas.
Exercícios
1) Leia o texto abaixo e responda às questões a seguir:
Uma reflexão de final de ano
Roberto Shinyashiki
Todo natal é a mesma coisa. Parece que uma poção mágica nos inebria e
nos induz a um comportamento fraterno e reflexivo. Ficamos mais sensíveis às
coisas que realmente importam. Mas o ideal mesmo seria manter essa sensibilidade
durante todo o ano. Para a grande maioria dos mortais, o arrependimento e a
frustração são os grandes vilões que perturbam a paz que deveria anteceder nossos
momentos finais.
Pude comprovar isso quando eu era médico recém-formado. Na época, tive
a oportunidade de trabalhar num hospital de pacientes terminais. Trata-se de um
lugar onde é comum você acompanhar várias mortes por dia. Eu sempre dava um
jeito de estar junto aos pacientes em seus últimos minutos. Acompanhei muitos
deles no momento de sua passagem, e a grande maioria vivia a morte com muita
frustração e arrependimento.
Alguns diziam: “Doutor, sempre me sacrifiquei e agora que ia começar a
viver, estou morrendo. Não é justo...”
A maioria das pessoas morre frustrada por não haver aproveitado sua vida.
Elas passaram o tempo todo lutando pelas coisas erradas e se esqueceram de
cultivar a felicidade no seu dia-a-dia. Não entenderam a importância dos pequenos
momentos. Do almoço com a esposa, dos 15 minutos de brincadeira com o filho,
das amizades construídas ao longo da vida... jamais vi alguém arrependido por não
ter sido mais duro, por não ter se vingado, por não ter sido egoísta. Todos se
arrependiam por não ter amado mais, por não ter aproveitado a vida. A família, o
Prática de texto: leitura e redação
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amor, os sonhos e os amigos são, no fundo, o que realmente importam. Quando os
pacientes enxergavam isso, já era tarde demais. Nessa hora, as pessoas se
arrependiam porque descobriam que as coisas profundas, extremamente
significativas de sua vida, eram formadas de palavras simples e não de termos como
dólar, real, pressão, inflação, recessão...
O mesmo podemos dizer da felicidade. As palavras que a acompanham são
simples. Simples como amigos, filhos, família e companheirismo. Infelicidade,
portanto, nada mais é do que adiar a felicidade para depois. É não prestar atenção
nas pequenas coisas. Grande parte das pessoas deixa a felicidade sempre para
depois. É como dizer: “Serei feliz quando terminar a faculdade. Serei feliz quando
me casar. Serei feliz quando me aposentar”. Isso está errado! É preciso ser feliz
hoje. Já. Conheço uma história que ilustra isso tudo muito bem.
“Um sujeito estava caindo em um barranco e se agarrou às raízes de uma
árvore. Em cima do barranco havia um urso imenso querendo devorá-lo. Embaixo,
prontas para engoli-lo, estavam seis onças tremendamente famintas. As onças
embaixo querendo comê-lo, e o urso em cima querendo devorá-lo também. Em
determinado momento, ele olhou para o lado esquerdo e viu um morango
vermelho, lindo, com aquelas escamas douradas refletindo ao sol. Num esforço
supremo, apoiou seu corpo, sustentado apenas pela mão direita, e, com a esquerda,
pegou o morango.
Quando pôde olhá-lo melhor ficou inebriado com sua beleza. Então, levou
o morango à boca e se deliciou com o sabor doce e suculento. Foi um prazer
supremo colher aquele morango.”
Deu para entender?
Talvez você pergunte:
– Mas e o urso?
Dane-se o urso e coma o morango!
– E as onças?
Azar das onças, coma o morango!
Às vezes, você está em sua casa no final de semana com seus filhos e
amigos comendo um churrasco. Percebendo seu mau humor, sua esposa lhe diz:
– Meu bem, relaxe e aproveite o domingo!
E você, chateado, responde: “Como posso curtir o domingo se amanhã vai
ter um monte de ursos querendo me pegar na empresa?”
Mais do que nunca você tem que aprender a ter prazer em enfrentar os
ursos e aprimorar-se contra as onças, porque são eles, de fato, que farão parte do
seu dia-a-dia. Mas não deixe de comer os morangos, porque sem felicidade nossa
passagem pelo planeta Terra não vai ter a mínima graça.
Revista Você S.A., dez. 1998
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a) Identifique e reescreva com as suas palavras a idéia-chave do texto.
b) O autor para desenvolver a idéia-chave baseia-se em uma concepção que
poderia ser classificada como lugar-comum, como um clichê. Qual é esse lugar-
comum, essa idéia desgastada pelo uso rotineiro, presente no 5º parágrafo?
c) De que ponto de vista Roberto está escrevendo? Essa perspectiva possibilita-
lhe tratar do assunto com autoridade? Explique.
d) Nesse sentido, o lugar-comum toma ares de validade universal, ou não?
Explique.
2) Leia o texto abaixo:
A mensagem publicitária
A mensagem publicitária é o braço direito da tecnologia moderna. É a
mensagem de renovação, progresso, abundância, lazer e juventude, que cerca as
inovações propiciadaspelo aparato tecnológico.
Ao contrário do panorama caótico do mundo apresentado nos noticiários
dos jornais, a mensagem publicitária cria e exibe um mundo perfeito e ideal,
verdadeira ilha da deusa Calipso, que acolheu Ulisses em Odisséia – sem guerras,
fome, deterioração ou subdesenvolvimento. Tudo são luzes, calor e encanto, numa
beleza perfeita e não-perecível.
Essa mensagem, contudo, não se limita ao mundo dos sonhos. Ela concilia o
princípio do prazer com o da realidade, quando, normativa, indica o que deve ser
usado ou comprado, destacando a linguagem da marca, o ícone do objeto.
Embora nem todas as mensagens surtam o efeito desejado, a onipresença da
publicidade comercial na sociedade de consumo cria um ambiente cultural próprio,
um novo sistema de valores, co-gerador do ‘espírito do tempo’. (...) De mãos dadas
com a taumaturgia publicitária, a sociedade da era industrial produz e desfruta dos
objetos que fabrica, mas sobretudo sugere atmosferas, embeleza ambientes e
artificializa a natureza – que vende de água mineral a sopinhas enlatadas.
Possuir objetos passa a ser sinônimo de alcançar a felicidade: os artefatos e
produtos proporcionam a salvação do homem, representam bem-estar e êxito. Sem
a auréola que a publicidade lhes confere, seriam apenas bens de consumo, mas
mitificados, personalizados, adquirem atributos da condição humana.
Nelly de Carvalho. Publicidade: a linguagem da sedução. São Paulo: Ed. Ática, 1996.
Prática de texto: leitura e redação
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a) O que a autora quis dizer com a seguinte afirmação: "a mensagem publicitária
é o braço direito da tecnologia moderna"?
b) Determine em qual trecho do texto fica clara a relação deste texto com um
outro texto ou contexto.
c) Qual o papel da publicidade, segundo Nelly, na sociedade industrial?
3) (Ita) Assinale a opção em que a manchete de jornal está mais em acordo com
os cânones da "objetividade jornalística":
a) O mestre do samba volta em grande forma (O Estado de S. Paulo,
17/07/1999.)
b) O pior do sertão na festa dos 500 anos (O Estado de S. Paulo, 17/07/1999.)
c) Proteína direciona células no cérebro (Folha de S. Paulo, 24/07/1999.)
d) A farra dos juros saiu mais cara que a da casa própria (Folha de S. Paulo,
13/06/1999.)
e) Dono de telas "falsas" diz existir "armação". (O Estado de S. Paulo,
21/07/1999.)
4) Observe a foto abaixo, de Murilo Clareto, do jornal O Estado de S. Paulo,
feita em 8 de outubro de 1996. Nela vemos a silhueta de Celso Pitta, ex-afilhado
político de Paulo Maluf, no segundo plano.
a) Podemos considerar a foto como um texto? Explique.
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b) Que significados podem ser atribuídos a essa foto, considerando os
acontecimentos políticos que envolveram as duas perso
c) O "realismo ingênuo" tende a considerar uma foto jornalística como uma
reprodução fiel do real, um retrato
abaixo não incorporaria as "marcas" do seu autor, isto é, ela seria um texto
neutro, não deixando transparecer uma intenção do fotógrafo. Explique.
5) Leia o texto abaixo:
Cinema: revelação e engano
Há quem tome o cinema como lugar de revelação, de acesso a uma verdade por
outros meios inatingível. Há quem assuma tal poder r
acesso à verdade, engano que não resulta de acidente mas de uma estratégia. Discuto esta
questão especificando determinadas condições de leitura das imagens; ao mesmo tempo,
faço uma recapitulação histórica, pois o binômio
referido a dois momentos da reflexão sobre cinema: o da promessa maior, aurora do
século, e o do desencanto, anos 70/80.
b) Que significados podem ser atribuídos a essa foto, considerando os
acontecimentos políticos que envolveram as duas personalidades?
c) O "realismo ingênuo" tende a considerar uma foto jornalística como uma
reprodução fiel do real, um retrato preciso dos fatos. Se assim fosse, a foto
abaixo não incorporaria as "marcas" do seu autor, isto é, ela seria um texto
ixando transparecer uma intenção do fotógrafo. Explique.
Cinema: revelação e engano
Ismail Xavier
Há quem tome o cinema como lugar de revelação, de acesso a uma verdade por
outros meios inatingível. Há quem assuma tal poder revelatório como uma simulação de
acesso à verdade, engano que não resulta de acidente mas de uma estratégia. Discuto esta
questão especificando determinadas condições de leitura das imagens; ao mesmo tempo,
faço uma recapitulação histórica, pois o binômio revelação/engano se projeta no tempo,
referido a dois momentos da reflexão sobre cinema: o da promessa maior, aurora do
12
Prática de texto: leitura e redação
13
Comento, de início, uma situação extraída do documentário Point of Order (1963),
de Emílio de Antonio, filme que focaliza os processos e as seções de tribunal no período
do macarthismo6 nos Estados Unidos. Trata-se de uma remontagem da documentação
colhida ao vivo nos interrogatórios. Em determinado momento, uma testemunha da
acusação é inquirida pelo advogado de defesa de um militar acusado de atividades
antiamericanas. Esse advogado mostra uma foto à testemunha. Nesta foto se vê, numa
tomada relativamente próxima, duas figuras: o réu e, a seu lado, alguém já comprometido,
já indexado na caça às bruxas. A imagem, ao mostrar os dois conversando em tom de certa
intimidade, é assumida pela promotoria como peça importante da acusação. O advogado
pergunta à testemunha se considera a foto verdadeira. A resposta é “sim”. O advogado,
então, mostra uma foto maior onde aparece, numa reunião ampla, um grupo de pessoas –
dentre elas algumas insuspeitas – que traz num dos seus cantos a dupla anteriormente vista
na foto menor. Entendemos sem demora que a primeira imagem é um recorte da segunda,
ou seja, é parte de um contexto maior, com muita gente envolvida, uma situação pública
que não denota qualquer cumplicidade maior entre o réu e seu interlocutor. O curioso no
fato é que, ao ser reiterada a pergunta – “você continua achando esta foto [menor]
verdadeira?” – a resposta é de novo “sim”. Chegamos aqui ao dado significativo. A
resposta nos surpreende mas ilustra muito bem uma certa noção de verdade, noção muito
mais presente no senso comum de uma sociedade como a nossa do que talvez gostaríamos.
A testemunha trazia a convicção de que a verdade estava em cada pedacinho da foto, como
também da realidade. Aquele canto da imagem, aquele fragmento extraído da situação
maior, foi obtido sem que se adulterasse cada ponto da foto, sem maquiagem, sem
alteração das relações que lhe são internas. Logo, ele “contém” a verdade. É uma imagem
“captada”: as duas figuras estiveram efetivamente juntas diante da câmera (não importa aí o
contexto). O recorte, definidor da moldura, não incomodou a testemunha para quem a
verdade é soma, está em cada parte.
Em nossa cultura, o processo fotográfico tem grande poder sobre as convicções
deste tipo de observador assim embalado pela evidência empírica trazida pela imagem. Mais
até do que a acuidade da reprodução (eixo da semelhança), a imagem fotográfica (e
cinematográfica) ganha autenticidade porque corresponde a um registro automático: ela se
imprime na emulsão sensível por um processo objetivo sustentado na causalidade
fotoquímica. Como resultado do encontro entre o olhar do sistema de lentes (a objetiva da
câmera) e o “acontecimento”, fica depositada uma imagem deste que funciona como um
documento. Quando se esquece a função do recorte, prevalecendo a fé na evidência da
imagem isolada, temos um sujeito totalmente cativo ao processo de simulação por mais
simples que ele pareça. Caso típico é o desta testemunha de McCarthy a consagrar o
engodo de uma promotoria.
In: NOVAES, Adauto et al., O olhar. São Paulo :
Companhia das Letras, 1988, pp. 368-3676
Segundo o dicionário Aurélio: “atitude política radicalmente infensa ao comunismo, e que se
desenvolveu nos EUA com a campanha desencadeada pelo Senador Joseph Raymond
MacCarthy [1909-1957]”. Nota dos autores.
Melo & Pagnan
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a) Que relações podemos estabelecer entre o “recorte” da imagem fotográfica,
mencionado por Ismail Xavier, e as considerações, desenvolvidas neste
capítulo, em torno do princípio de não-autonomia das partes de um texto?
b) Segundo o texto, como se deu a “consagração” do engodo praticado pelo
promotor?
c) O depoimento da testemunha segue uma lógica cuja natureza identifica-se
com certo modo de percepção e julgamento muito arraigados na nossa
sociedade. Explique.
Proposta de Redação
"Desde seu surgimento e ao longo de sua trajetória, até os nossos dias, a
fotografia tem sido aceita e utilizada como prova definitiva, 'testemunho da
verdade' do fato ou dos fatos. Graças a sua natureza fisioquímica — e hoje
eletrônica — de registrar aspectos (selecionados) do real, tal como estes de fato
se parecem, a fotografia ganhou elevado status de credibilidade. Se, por um
lado, ela tem valor incontestável por proporcionar continuamente a todos, em
todo o mundo, fragmentos visuais que informam das múltiplas atividades do
homem e de sua ação sobre os outros homens e sobre a Natureza, por outro lado,
ela sempre se prestou e sempre se prestará aos mais diferentes e interesseiros
usos dirigidos.
As diferentes ideologias, onde quer que atuem, sempre tiveram na
imagem fotográfica um poderoso instrumento para a veiculação das idéias e da
conseqüente formação e manipulação da opinião pública, particularmente, a
partir do momento em que os avanços tecnológicos da indústria gráfica
possibilitaram a multiplicação massiva de imagens através dos meios de
informação e divulgação.
E tal manipulação tem sido possível justamente em função da
mencionada credibilidade que as imagens têm junto à massa, para quem, seus
conteúdos são aceitos e assimilados como a expressão da verdade. Comprova
Prática de texto: leitura e redação
15
isso a larga utilização da fotografia para a veiculação da propaganda política, de
preconceitos raciais e religiosos, entre outros usos dirigidos."
Trecho de “Estética, memória e ideologia fotográfica” In:
KOSSOY, B. Realidades e ficções na trama fotográfica. São Paulo :
Ateliê, 1999
Considerando-se algumas informações que você obteve a propósito da
natureza de um texto e as reflexões de Kossoy em torno do texto fotográfico,
faça uma redação sobre a questão da intencionalidade (de um autor) no texto
escrito.
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Capítulo 2
Repertório e escrita
Neste capítulo, abordaremos alguns aspectos ligados à produção de texto,
como o uso do vocabulário, sem que haja ainda uma preocupação sistemática
com os gêneros redacionais.
A palavra repertório tem a seguinte etimologia: é uma "matéria
metodicamente disposta"; uma "coleção", um "conjunto"; um "inventário" ou
"compilação". Você já ouviu essa palavra ser relacionada ao universo da música,
quando se diz que certo cantor ou compositor possui (ou não) bom repertório.
Ao se emitir tal opinião, adota-se um juízo de valor de acordo com
determinado critério de qualidade. No caso de um cantor, ainda que se reconheça
o valor intrínseco do repertório, pode-se dizer que este, por uma série de razões,
não se ajusta bem ao intérprete: exigências técnicas de voz não correspondidas
pelo artista; baixa capacidade dramática do cantor; inadequação à personalidade
do profissional etc.
Essas considerações valem em parte para a discussão que nos interessa
em torno da noção de repertório. Há uma relação íntima entre o cantor e seu
repertório, o seu "conjunto de canções", na medida em que este, guardadas certas
diferenças de personalidade dos artistas, é produto de uma intensa disposição
para o experimento, para o ensaio, para a repetição, cujo resultado concorre
também para configurar a identidade do intérprete no mundo do espetáculo.
A noção de inventário de experiências, que constitui uma prática de vida,
é útil para compreendermos o sentido mais extenso da palavra. O repertório,
nessa última acepção, é resultado do esforço de auto-conhecimento do indivíduo,
de uma determinação em saber-se de si e saber sobre o mundo, de uma
capacidade a um só tempo de reflexão, de projeção e conservação de uma
matéria que se impõe como decisiva e confirmadora de uma existência.
Nossa experiência na família e na sociedade, nossa educação escolar,
nossas leituras, nosso trabalho, nossa memória e imaginação, a matéria
efetivamente vivida ou ludicamente inventada. Tudo isso se articula como um
conjunto de informações organizadas em nossa consciência que servirá de
substância para o ato da escrita, sendo ela mesma produto e elemento
transformador do conjunto.
Ao contrário do cantor eventualmente mal-adaptado ao repertório
musical, a constelação de elementos acima indicada nunca está em desarmonia
conosco, pois que somos o próprio repertório.
Prática de texto: leitura e redação
17
Podemos pensar o modo de convívio entre as partes integrantes do
repertório individual como uma rede, um sistema de relações na forma de
linguagem, capaz de assimilar e gerar conhecimento.
No âmbito de um livro como este, destinado a um público específico e
comprometido com um enfoque prático do fenômeno da escrita, temos que
afastar a pretensão de introduzir o leitor no campo do método científico
propriamente dito, inclusive porque este não pode ser limitado ao ato da escrita.
No entanto, torna-se viável uma aproximação dos princípios do método das
ciências humanas – o compreensivo-interpretativo – como referência para o
trabalho crítico de leitura e de produção de textos.
Segundo a filósofa Marilena Chaui, as "ciências humanas têm métodos
de compreensão e de interpretação do sentido das ações, das práticas, dos
comportamentos, das instituições sociais e políticas, dos sentimentos, dos
desejos, das transformações históricas, pois o homem, objeto dessas ciências, é
um ser histórico-cultural que produz as instituições e o sentido delas"7. Perceber,
compreender e julgar, etapas fundamentadoras da prática de leitura e redação,
são os três movimentos do trabalho intelectual para o qual você foi e será
solicitado, em sintonia com um princípio geral do método das ciências humanas.
Interpretar significa "traduzir, ajuizar da intenção, do sentido" do objeto
de estudo; a palavra indica também um movimento em direção ao interior
(interpretação) do objeto, descobrindo-lhe as especificidades, compreendendo a
sua natureza e oferecendo uma explicação, atributo determinante do
conhecimento.
A percepção, a compreensão e o julgamento comparecem em escala
diferenciada no contexto dos gêneros redacionais. Além disso são categorias
relacionadas ao indivíduo que não dispensam a intuição, um processo de
contemplação do objeto de estudo por meio do qual se alcança uma verdade
diferente daquela atingida pela razão ou pelo conhecimento discursivo e
analítico. O que seria da literatura se não fosse a intuição? Grandes escritores
traçam os perfis psicológicos das personagens, pressentem sua fala, seu modo
de agir, amparados pela intuição.
"A memória é um diário que todos andamos carregando" – escreveu
Oscar Wilde, escritor inglês do século XIX. Evocando a imagem do diário,
Wilde vale-se de uma metáfora que nos remete a uma forma especial de registro
da memória. A escrita de imediato determina um critério seletivo à exposição
dos fatos ocorridos no dia; o diário retéma lembrança do que se julga
significativo, não acolhendo toda a experiência de um dia de vida.
7
Convite à filosofia. 3ª ed., São Paulo : Ática, p. 159
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A memória certamente extrapola os limites do diário porque ela é capaz,
entre tantas outras possibilidades, de reter sensações, como os cheiros e aromas
que não se deixam facilmente apreender pela via analítica, pela descrição de sua
"anatomia".
Esse nosso acervo pessoal, que é a memória, possibilita-nos a evocação
de significados afetivos, de gestos, atitudes e situações vitais para o nosso ser, ao
mesmo tempo que se dissolve em grande parte na ação do tempo. Tempo e
memória são inseparáveis, pois nesta preservamos o passado e extraímos dele,
na forma de experiência, o sentido que ordena o presente, o qual, por sua vez,
poderá conferir novos sentidos ao passado. A memória é identidade e impulso
que nos lança no futuro como seres únicos, donos de uma história pessoal que
determina nossas convicções e participa das escolhas e das exigências ao nosso
discernimento.
Possivelmente a memória guarda ainda a virtualidade não só de nos
transportar ao passado, por via da evocação, mas também a de nos "transformar"
no presente, embora por poucos instantes, naquilo que fomos um dia... Marcel
Proust, autor de Em busca do tempo perdido, romance dividido em sete volumes,
deixa entrever essa propriedade da memória, ao longo de várias páginas, das
quais destacamos esta passagem de À sombra das raparigas em flor, o segundo
volume da obra:
... a maior parte de nossa memória está fora de nós, numa viração de chuva,
num cheiro de quarto fechado ou no cheiro duma primeira labareda, em toda parte
onde encontramos de nós mesmos o que a nossa inteligência desdenhara, por não
lhe achar utilidade, a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando todas
as nossas lágrimas parecem estancadas, ainda sabe fazer-nos chorar. Fora de nós?
Em nós, para melhor dizer, mas oculta a nossos próprios olhares, num
esquecimento mais ou menos prolongado.
(Tradução de Mário Quintana)
A propósito da integração das partes do repertório na forma de uma rede
geradora de sentido, leia a crônica abaixo, na qual Zuenir Ventura faz referência
a uma série de dados da atualidade. É preciso que o leitor faça uma conexão
eficiente entre os fatos apresentados pelo autor para assimilar o sentido integral
do texto.
Prática de texto: leitura e redação
19
Em vez das células, as cédulas
Nesses tempos de clonagem, recomenda-se assistir ao documentário
Arquitetura da destruição, de Peter Cohen. A fantástica história de Dolly, a
ovelha, parece saída do filme, que conta a ventura demente do nazismo, com
seus sonhos de beleza e suas fantasias genéticas, seus experimentos de eugenia e
purificação da raça.
Os cientistas são engraçados: bons para inventar e péssimos para prever.
Primeiro, descobrem; depois se assustam com o risco da descoberta e aí então
passam a gritar "cuidado, perigo". Fizeram isso com quase todos os inventos,
inclusive com a fissão nuclear, espantando-se quando "o átomo para a paz"
tornou-se uma mortífera arma de guerra. E estão fazendo o mesmo agora.
(...) Desde muito tempo se discute o quanto a ciência, ao procurar o bem,
pode provocar involuntariamente o mal. O que a Arquitetura da destruição
mostra é como a arte e a estética são capazes de fazer o mesmo, isto é, como a
beleza pode servir à morte, à crueldade e à destruição.
Hitler julgava-se "o maior ator da Europa" e acreditava ser alguma coisa
como um "tirano-artista" nietzschiano ou um "ditador de gênio" wagneriano.
Para ele, "a vida era arte," e o mundo, uma grandiosa ópera da qual era diretor e
protagonista.
O documentário mostra como os rituais coletivos, os grandes espetáculos de
massa, as tochas acesas (...) tudo isso constituía um culto estético - ainda que
redundante (...) E o pior - todo esse aparato era posto a serviço da perversa
utopia de Hitler: a manipulação genética, a possibilidade de purificação racial e
de eliminação das imperfeições, principalmente as físicas. Não importava que os
mais ilustres exemplares nazistas, eles próprios, desmoralizassem o que
pregavam em termos de eugenia.
O que importava é que as pessoas queriam acreditar na insensatez apesar dos
insensatos, como ainda há quem continue acreditando. No Brasil, felizmente,
Dolly provoca mais piada do que ameaça. Já se atribui isso ao fato de que a
nossa arquitetura da destruição é a corrupção. Somos craques mesmo é em
clonagem financeira. O que seriam nossos laranjas e fantasmas senão clones e
replicantes virtuais? Aqui, em vez de células, estamos interessados é em
manipular cédulas.
Zuenir Ventura, Jornal do Brasil, 1997
Reproduzimos o texto abaixo do site da Rede Escola, mantido pelo
Estado do Rio de Janeiro. Note como os autores enfatizam o caráter intertextual
e a inserção histórica da crônica acima, na relação com o repertório do leitor.
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“Tendo como ponto de partida a alusão ao documentário Arquitetura da
Destruição, o texto mantém sua unidade de sentido na relação que estabelece com
outros textos, com dados da História.
Nesta crônica, duas propriedades do texto são facilmente perceptíveis: a
intertextualidade e a inserção histórica.
O texto se constrói à medida que retoma fatos já conhecidos. Nesse sentido,
quanto mais amplo for o repertório do leitor, o seu acervo de conhecimentos,
maior será a sua competência para perceber como os textos 'dialogam uns com os
outros' por meio de referências, alusões e citações.
Para perceber as intenções do autor desta crônica, ou seja, a sua
intencionalidade, é preciso que o leitor tenha conhecimento de fatos atuais, como
as referências ao documentário recém lançado no circuito cinematográfico [fita
disponível em vídeo], à ovelha clonada Dolly, aos 'laranjas' e 'fantasmas' – termos
que dizem respeito aos envolvidos em transações econômicas duvidosas. É preciso
que conheça também o que foi o nazismo, a figura de Hitler e sua obsessão pela
raça pura, e ainda tenha conhecimento da existência do filósofo Nietzsche e do
compositor Wagner.
O vocabulário utilizado aponta para campos semânticos [ou lexicais] relacionados à
clonagem, à raça pura, aos binômios arte/beleza - arte/destruição, corrupção.
clonagem
experimentos
avanços genéticos
ovelhas
cientistas
inventos
células
clones
replicantes
manipulação genética
descoberta
raça pura
aventura demente do nazismo
fantasias genéticas
experimentos de eugenia
utopia perversa
manipulação genética
imperfeições físicas
eugenia
arte/beleza - arte/destruição
estética, sonhos de beleza
crueldade
tirano artista
ditador de gênio
nietzschiano
wagneriano
Prática de texto: leitura e redação
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grandiosa ópera
diretor, protagonista
espetáculos de massa
tochas acesas
corrupção
laranjas
clonagem financeira
cédulas
fantasmas
Esses campos semânticos se entrecruzam, porque englobam referências
múltiplas dentro do texto”.
Exercícios
1. Escreva um pequeno texto sobre os seus primeiros dias de estudante. Tente
descrever as sensações vividas naquele tempo, as primeiras impressões do prédio
da Escola, da sua sala de aula, dos seus colegas e professor; procure trazer à
memória os aromas que envolviam aquele ambiente e os sons que pouco a pouco
tornaram-se familiares.
2. Imagine que uma folha do seu caderno é uma página do seu diário. Reflita
sobre o que você fez no dia anterior (ou anteriores) a este e registre algo que
julgue importante para ser relido no futuro. (Não se prenda necessariamentea
fatos; se for o caso, privilegie uma reflexão sobre um sentimento, uma amizade,
um gesto...)
3. Qual ou quais são os assuntos que você gostaria de discutir em sala de aula
mas que nunca teve oportunidade de fazê-lo? Explique o motivo de sua escolha.
4. João Guimarães Rosa, autor de grandes clássicos da literatura brasileira, entre
os quais sua obra-prima – Grande sertão: veredas –, possuía uma biblioteca que
reunia títulos sobre os mais variados assuntos; um desses títulos era o do
pensador francês Antoine D. Sertillanges, em cujos Devoirs (Deveres) Rosa
sublinhou o seguinte trecho: “O ser que recebemos ao nascer não é definitivo; é
embrionário, plástico”. O leitor de Grande sertão encontra o aforisma do escritor
francês ficcionalizado em uma das muitas reflexões de Riobaldo, protagonista do
romance:
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“Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não
estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre
mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior”. (pp. 20-21)
A transcriação operada por Guimarães Rosa em relação ao texto-matriz de
Sertillanges é um exemplo de incorporação de uma leitura ao repertório de um
dos nossos maiores escritores. Releia os dois textos e faça uma tradução criativa
do mesmo conteúdo.
5. Leia o texto abaixo e depois responda.
“Com gemas para financiá-lo, nosso herói desafiou valentemente todos os
ricos desdenhosos que tentaram dissuadi-lo de seu plano. 'Os olhos enganam' disse
ele, 'um ovo e não uma mesa tipificam corretamente esse planeta inexplorado'.
Então as três irmãs fortes e resolutas saíram à procura de provas, abrindo caminho,
às vezes através de imensidões tranqüilas, mas amiúde através de picos e vales
turbulentos. Os dias se tornaram semanas, enquanto os indecisos espalhavam
rumores apavorantes a respeito da beira. Finalmente, sem saber de onde, criaturas
aladas e bem vindas apareceram anunciando um sucesso prodigioso."
In: KLEIMAN, Ângela. Texto e leitor: aspectos cognitivos
da leitura. Campinas : Pontes, 1989.
O texto é bastante difícil à primeira vista. Pensamos mesmo tratar-se de um
texto mal escrito, sem coerência. No entanto, a partir de uma releitura atenta será
possível depreender elementos que, juntos, configuram um campo semântico
coerente, pleno de sentido, na medida em que todos os elementos se interligam
entre si. Para chegar a tal conclusão, será preciso que você possua determinado
repertório, isto é, que você seja capaz de articular os sintagmas do texto
preenchendo-os de sentido; esta operação, por sua vez, fica na dependência de
você possuir certas informações. É um exercício de cognição, de “cultura geral”
e de perspicácia.
a) Depois que você for capaz de decifrar o “enigma”, dê um título adequado ao texto, um título
que de imediato esclareça o leitor sobre a matéria que irá ler.
b) Explique o sentido de dois sintagmas (palavras, expressões, frases), conforme o contexto
depreendido por você.
Prática de texto: leitura e redação
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6. O texto narrativo abaixo é alegórico, isto é, ele se constrói pelo
entrelaçamento de metáforas que remetem o leitor a assuntos da atualidade.
Reescreva no seu caderno os trechos que se referem metaforicamente a esses
assuntos e em seguida interprete o sentido de cada trecho sempre considerando
seu caráter relacionado ao cotidiano.
Frei Beto
Revista Bundas, jul. 1999
Era uma vez um reino de bobos. Exceto um, é claro – o rei! O rei era o único
inteligente, culto, poliglota e, além de tudo, bonito. Um dia, para alegria dos reinóis,
ordenou Sua Majestade cunhar a moeda real. Decretou que ela seria tão forte
quanto as moedas dos mais poderosos reinos. Os bobos acreditaram que, com tal
moeda em mãos, teriam pela frente um futuro de prosperidade e fartura.
A moeda era forte, mas os salários, fracos. Os nobres, em cujas mãos se
acumulavam moedas reais, viram suas fortunas multiplicarem-se como coelhos do
reino. Os servos, obsequiados com míseros trocados, eram tragados pela miséria
que lhes assomava à porta.
O rei, contudo, julgando-se bondoso, quis poupar a capacidade produtiva de
seus súditos. Num reino com tantas praias, rios, lagos e belezas naturais, não seria
bom alvitre importar os produtos necessários? Assim, alegou o soberano, os reinóis
só teriam o trabalho de consumir, jamais produzir.
Logo, o reino passou a importar caravelas e caravelas de produtos. Inclusive
moedas mais fortes de outros reinos, para encher suas burras. Como os súditos
eram bobos, o rei considerou medida de somenos penhorar o reino ao Fundo
Majestático de Investimentos, uma instituição que administrava riquezas das cortes
poderosas e jamais permitia que um reino pobre viesse a ter melhor sorte.
Os bobos aplaudiram quando o rei decidiu entregar as fontes de riquezas do
reino aos grandes impérios. Tudo iria funcionar melhor, prometia o rei, e a corte
ficaria mais rica. Os bobos acreditaram, as fontes de riquezas foram repassadas aos
estrangeiros e o tesouro real engordou.
Porém, a aura de fortaleza da moeda real se desfez quando o poder dos magos
do reino entrou em crise e, em poucos meses, o tesouro real perdeu tanto de sua
fortuna que se tornou possível enxergar o seu piso. E os problemas com os serviços
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estrangeiros implantados no reino começaram a se tornar crônicos. Basta dizer que
as comunicações entre os súditos ficaram prejudicadas pelos mensageiros que
quebravam as pernas, cavalos que deslizavam na lama, corneteiros que encontravam
seus instrumentos entupidos.
O rei viu-se obrigado a devolver aos credores do reino o dinheiro pago pelas
fontes de riquezas. De modo que os credores ficaram com o dinheiro e as fontes.
Mas os arautos do reino explicaram à plebe que se tratava de uma borrasca
passageira. A crise mundial, a tempestade no país vizinho respingava no reino, mas
logo se recuperaria a riqueza perdida. Os bobos acreditaram.
A rainha, do alto da sacada do palácio, jurou que os pobres não seriam
atingidos pela crise. Claro, os pobres do reino não possuíam saúde e instrução,
moradia e terra, e vagavam maltrapilhos por estradas e encruzilhadas. A rainha
tinha razão. Os pobres nada tinham a perder, exceto o fio de vida que lhes restava.
Mas isso, na opinião dos conselheiros do rei, não seria uma perda, seria um
consolo.
O segredo do rei era governar para a corte e com o corte. Para beneficiar a
corte, ele cortava o pouco que quedava a seus súditos: cortaram-se anos dos velhos,
obrigados a morrer aos 65 anos; estipêndios dos mestres, forçando-os a ensinar o
que não podiam aprender; infância das crianças, condenando-as ao trabalho
precoce; fomentos de agricultores, para que suas lavouras não viessem ameaçar os
belos campos reservados à caça e aos jogos da nobreza.
Certo dia, os bobos surpreenderam ministros do rei fazendo uso da carruagem
real para levar suas famílias a passeios. Por um momento, os bobos acreditaram que
estavam começando a deixar de ser bobos. Mas os arautos do rei esclareceram que
os cocheiros deveriam cumprir umas tantas horas anuais de viagens pelas estradas
do reino.
Os bobos contentaram-se com a explicação, assim como já se haviam
conformado quando lhes foi dito que as riquezas sonegadas do tesouro real para
beneficiar certos nobres eram perfeitamente legais. Como eram bobos, não
questionaram. Assim como engoliram a seco quando o rei nomeou um carrasco
para comandar a guarda do reino.
E assim, o rei e a rainha viveram felizes para sempre, cercados de homenagens
da nobreza rica, bela e sadia. Quanto aos súditos... Bem, isso é outra história.
7. O texto a seguir é um representante da poesia de caráterparticipativo (de crítica social).
CartIlha
a MATIlha
contra a Ilha
Prática de texto: leitura e redação
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Ilha recUSA?
Ilha reclUSA
USA e abUSA
América LATina
AméRICA ladina
LATe a MATilha
Ilha trIlha
CartIlha
José Paulo Paes. Invenções. 1967. In: Um por todos:
poesia reunida. São Paulo : Brasiliense, 1986, p. 96
a) O poema registra momentos de transformação social e histórica. Indique-os.
b) No texto há uma série de jogos formais explorando as possibilidades fônicas e
visuais dos vocábulos. No primeiro verso (linha), o grafema (símbolo gráfico)
"MAT" realça qual sentido em relação à "Ilha"?
c) Explique o jogo formal do quinto verso do texto.
d) Explique o significado dos dois últimos versos.
e) O vocábulo cartiIlha assume um sentido positivo ou negativo no interior do
processo histórico? Explique.
Proposta de redação
Tudo o que eu preciso saber aprendi no jardim da infância
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A maior parte do que realmente preciso para saber como viver, o que fazer,
como ser, eu aprendi no Jardim da Infância.
A sabedoria não estava no topo da montanha do conhecimento, que é a
faculdade, mas sim, no alto do monte de areia do Jardim da Infância.
Essas são algumas das coisas que eu aprendi: dividir tudo; brincar dentro
das regras; não machucar ninguém; colocar as coisas de volta no lugar de onde
foram tiradas; arrumar a própria bagunça; nunca pegar o que não é meu; pedir
desculpas sempre que machucar alguém; lavar as mãos antes das refeições; dar
descarga; leite com bolachas fazem bem para nossa saúde.
Tirar uma soneca todos os dias.
Quando sair na rua olhar os carros, dar as mãos e ficar junto. Estar atento
às maravilhas. Lembra daquela sementinha de feijão no potinho de Danone? As
raízes crescem para baixo e as folhas para cima e ninguém sabe com certeza como
ou por que, mas todos nós somos exatamente como ela.
Peixinhos dourados, hamsters e ratinhos brancos, e até a pequena semente
de feijão no potinho de Danone – todos morrem – assim como nós.
E lembre do primeiro livro de leitura que você leu e das primeiras palavras
que você aprendeu. As maiores de todas: mamãe e papai.
Tudo o que você precisa saber está lá em algum lugar. Regras sobre a vida, o
amor, saneamento básico, ecologia, política, igualdade e fraternidade. Pegue
qualquer um desses temas e extrapole para sofisticadas palavras de linguagem adulta
e então aplique em sua vida familiar, no trabalho, no governo ou no mundo e tudo
continua firme e verdadeiro.
Pense como o mundo seria melhor se nós – o mundo inteiro – tomássemos
leite com bolachas às três da tarde, todas as tardes, e, depois, deitássemos com
nossos travesseiros no sofá da sala para uma soneca.
Ou então, se todos os governos tivessem como política básica sempre colocar as coisas de
volta no lugar de onde foram tiradas e também arrumassem suas próprias bagunças.
E continua verdade, não importa sua idade: quando sair para o mundo, dê
as mãos, fique junto.
Traduzido e adaptado do texto original do Pastor Robert Fulghum
Unitarian Church/Edmonds, Washington
a) Certamente você já ouviu que determinados textos possuem uma natureza
“poética”, como geralmente o são todos aqueles compostos em versos, a que
damos o nome de “poema”. Você diria que o texto de Robert Fulghum é
poético? Justifique.
Prática de texto: leitura e redação
27
b) Inspirado no texto acima, escreva outro sobre o processo de amadurecimento
do indivíduo. Destaque os saberes aprendidos na infância que você julga
decisivos para a formação da sensibilidade, para o fortalecimento da
capacidade ou do desejo de aprender.
Capítulo 3
Desenvolvimento do Vocabulário
Pensamento e linguagem são indissociáveis. Dizer, como no passado, que
a linguagem é um revestimento do pensamento, seria reduzi-la a meio ou a
utensílio por meio do qual se exprimem as idéias, o "conteúdo" do pensamento.
Essa posição já foi há muito superada pela Lingüística – a ciência que
estuda a linguagem –, quando defendeu a noção, hoje dominante, do caráter
material desse fenômeno. Segundo esse conceito, a linguagem é um sistema de
sons articulados, ao mesmo tempo que uma rede de marcas escritas (uma escrita)
ou ainda um sistema de gestos, os quais produzem e expressam o pensamento.
Não há, portanto, pensamento sem linguagem e linguagem sem pensamento.
Diante dessa realidade, qual a importância da aquisição de vocabulário? Há relações diretas
entre extensão do vocabulário e conhecimento da língua?
Sem muito exagero, pode-se dizer que o vocabulário coloca-se ao lado dos elementos
identificadores do indivíduo (impressão digital, DNA, arcada dentária), com a diferença,
óbvia, de que ele é produto de circunstâncias externas, de variada natureza, e dependente, em
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grande parte, do livre arbítrio para ser assimilado. Transformações de natureza sócio-
econômica contribuem de forma decisiva para o crescimento do acervo lexical da língua,
envolvendo necessariamente um número expressivo de "usuários” das novas palavras.
Surgimento de novas profissões e campos do conhecimento, ao lado de novas acepções,
incorporadas por determinados vocábulos, estão na base dessas mudanças.
O vocabulário individual é uma marca registrada, um traço de diferença
no interior de um sistema lingüístico gerado por uma espécie de contrato entre os
componentes de certo grupo social.
Engana-se, contudo, quem levantar a hipótese de que um vocabulário
rico implica necessariamente maior conhecimento do mecanismo da língua, pois
o domínio das relações lógicas e das estruturas textuais depende de uma série de
operações que superam em muito a capacidade de reter o significado das
palavras.
De igual modo continuaria equivocado quem defendesse a idéia de que
falar e escrever bem relacionam-se tão somente ao conhecimento de normas
gramaticais, as quais, uma vez assimiladas, dotariam o indivíduo de "soluções"
lingüísticas previsíveis em maior ou menor grau. Tal raciocínio colocaria no
nível do conhecimento gramatical o que não é legado dele, exclusivamente, já
que a escrita se relaciona a uma atitude mental irredutível ao normativismo, por
estar alicerçada pela capacidade criadora e transformadora.
Do ponto de vista estrito da aquisição de vocabulário, a melhor lição será aquela que
enfatizar o papel da experiência e realçar a função das circunstâncias geradas pelo cotidiano, nas
quais haja necessidade do uso de um vocabulário mais rico ou especializado. O chamado
vocabulário ativo – aquele incorporado e posteriormente empregado – encontra maiores
possibilidades de se efetivar na prática do dia-a-dia, seja na conversa com as pessoas, seja no
exercício do trabalho, situações estas com um contexto bem definido.
No entanto, como recurso à ampliação do vocabulário, propomos a seguir exercícios que
correspondem, pelo menos em parte, às condições favorecedoras para tal fim. Trata-se, é bom
frisar, de manobras com certo grau de artifício, que poderão, além disso, ter esse caráter
acentuado, caso você se dê por satisfeito e não siga em frente com muita dedicação; os
exercícios deste capítulo tentam apenas reforçar a necessidade do aprimoramento do
vocabulário. O resto é com você.
Prática de texto: leitura e redação
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Exercícios
1) Leia o texto abaixo:
A estranha (e eficiente) linguagem dos namorados
Carlos Drummond de Andrade
— Oi, meu berilo!
— Oi, meu anjo barroco!
— Minha tanajura! Minha orquestra de câmara!
— Que bom você me chamarassim, meu pessegueiro-da-flórida!
— Você gosta, minha calhandra?
— Adoro, meu teleférico iluminado!
— Eu também gosto muito de ser tudo isso que você me chama!
— De verdade, meu jaguaretê de paina?
— Juro, meu cavalinho de asas!
— Então diz mais, diz mais!
— Meu oitavo, décimo, décimo quinto pecado capital, minha janela sobre a
Acrópole, meu verso de Rilke, minha malvasiara, meu minueto de
Versailles...
— Mais, agapanto meu, tempestade minha!
— Minha follia com variazoni, de Corelli, meu isto-e-aquilo enguirlandado,
meu eu anterior a mim, meus diálogos com Platão e Plotino ao
entardecer, minha úlcera maravilhosa!
— Ai que lindo, liiiiindo, meu colar de cavalheiro inglês num retrato de
Ticiano! Meu fundo-do-mar, você me põe louca, louca de amar as
pedras, de patinar nas nuvens!
— E eu então, minha górgone, minha gárgula de Notre-Dame, e eu, minha
sintaxe de Deus?
— Você fala como falam os balões de junho de Portinari, as jóias da coroa
do reino de Samarcanda, você, meu imperativo categórico, você, minha
espada maçônica, você me mata!
— E você também me trucida, me degola, me devolve ao estado de música,
meu tambor de mina!
— Todos os incentivos oficiais reunidos e multiplicados não valem a tua
alquimia, meu ministro do fogo!
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— Tuas paisagens, teu subsolo infernal, teus labirintos são superiores em
felicidade a qualquer declaração dos direitos do homem!
— A primeira vez que eu vi você naquele bar do crepúsculo eu senti que as
pirâmides e as cataratas não valiam a tua unha do dedo mindinho!
— Porque você é o Banco das Estrelas, e pode comprar todas as coisas do
mundo, inclusive as águas e os animais, para restituí-los à vida em
liberdade!
— Como posso ouvir outras palavras senão as tuas, meu almanaque do
céu? Minha ciência do insabível? Meu terremoto, meu objeto voador
identificado?
— Não nascemos um para o outro, nascemos um no outro, e estamos
nessa desde antes do começo dos séculos, meu nenúfar!
— E estaremos mesmo depois que os séculos se evaporarem, ó meu
desenho rupestre, meu formigão atômico!
— Mandala, raio laser, sextina! Tudo meu, é claro!
— Pomba-gira!
— Clepsidra!
— Sequóia minha minha minha!
Diálogo aparentemente louco, mas que dois namorados de imaginação
mantêm todos os dias, com estas ou outras palavras igualmente mágicas. Não
inventei nada. Apenas colecionei expansões ouvidas aqui e ali, e que me
pareceram espontâneas, isto é, ninguém deve ter preparado antes o que iria dizer,
de tal modo as palavras saíam entrecortadas de risos, interrompidas por afagos,
brotando da situação. O amor é incentivo e anula os postulados da lógica. Ele
tem sua lógica própria, tão válida quanto a outra. E os amantes se entendem sob
os signos do absurdo – não tão absurdo assim, como parece aos não-amorosos.
Já ouvi no interior de Minas alguém chamar seu amor de “meu bicho-do-pé” e
receber em troca o mais cálido beijo de agradecimento.
Esta coletânea de frases de amor está aqui como introdução ao projeto não-
comercial de comemorações do Dia dos Namorados. Não para que elas sejam
repetidas mecanicamente. Todo namorado que se preze deve inventar as
besteiras líricas e deliciosas que a gente não diz para qualquer pessoa, só para
uma, e só em momentos de pura delícia. Funcionam? E como!
Prática de texto: leitura e redação
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Boca de luar. São Paulo : Círculo do Livro, 1984, pp. 24-26
a) Escreva uma carta para a pessoa amada usando qualificativos inesperados,
como no texto de Drummond. Para que a carta possa se prolongar, descreva um
passeio que vocês dois farão no próximo fim de semana. Não se prenda à
experiência cotidiana – evoque lugares exóticos, com paisagens deslumbrantes,
que lhe ofereçam a oportunidade de utilizar adjetivos nunca ou pouco ouvidos
no seu dia-a-dia.
2) "Última clareza – No necrológio de um homem de negócios lia-se: 'A
largueza de sua consciência rivaliza com a bondade de seu coração'. O
deslize cometido pelos enlutados parentes e amigos na linguagem solene que se
reserva para tais ocasiões, a involuntária admissão de que o bondoso falecido era
inescrupuloso, remete o cortejo fúnebre pelo caminho mais curto ao país da
verdade".
Theodor W. Adorno. Minima moralia: reflexões a partir da vida danificada. 2ª ed.
São Paulo : Ática, 1993, p. 18
a) Explique o “deslize” (a falha no uso da língua) cometido no texto acima.
b) Reescreva a frase de modo a corrigir a incongruência a que se refere Adorno.
3) No exercício abaixo você deve se utilizar de palavras das várias classes
gramaticais (verbos, adjetivos etc.) para preencher os espaços em branco.
Brinquedos incendiados
Uma noite houve um incêndio num bazar. E no fogo _______ desapareceram
___________ os seus brinquedos. Nós, crianças, conhecíamos aqueles brinquedos
consumidos, de tanto mirá-los nos _____________ — uns, pendentes de longos
barbantes; outros, apenas __________ em suas _________. Ah! maravilhosas bonecas
_________, de chapéus de ________! pianos ________ sons cheiravam a _________ e
___________ ! __________ lanudos, de _________ no pescoço! piões ___________ ! —
e uns bondes com algumas letras escritas ao _________, coisa que muito nos
____________ — filhotes que éramos, então, de Mr. Jordain, fazendo a nossa
__________ concreta antes do tempo.
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Às vezes, num aniversário, ou pelo Natal, conseguíamos receber __________
presente algum bonequinho de ____________, modestos cavalinhos de lata,
_____________ de gude, barquinhos sem _____________ de navegação... — pois
aquelas ____________ bonecas de seda e ____________, aqueles batalhões completos de
______________ de chumbo, aquelas casas de __________ com ____________ e
___________, isso não chegávamos a ___________, sequer, para onde iria. -
______________ os brinquedos sem esperança ___________ inveja, sabendo que jamais
_______________ às nossas mãos, possuindo-os ______________ em sonho, como se
_____________ isso, apenas, tivessem sido feitos.
Assim, o bando que ___________, de casa para a __________ e da escola para
____________, parava longo tempo a _______________ aqueles brinquedos e lia
____________ nítidos preços, com seus _____________ e zeros, sem muita
____________ de valor porque nós, ___________, de bolsos vazios, como namorados
____________, éramos só ______________ e amor. Bastava-nos levar _____________
memória aquelas imagens, e ___________ cravados nelas, como ___________ nossos
olhos.
Ora, uma ____________, correu a notícia de __________ o bazar se incendiara.
____________ foi uma espécie de ___________ fantástica. O fogo ia _____________
alto, o céu ficava ______________ rubro, voavam chispas e ______________ pelo bairro
todo. As _____________ queriam ver o incêndio ___________ perto, não se
contentavam ___________ portas e janelas, fugiam ______________ a rua, onde
brilhavam ____________ entre jorros d’água. A ___________ não interessavam nada
peças de pano, cetins, __________, cobertores, _____________ os adultos lamentavam.
Sofriam ___________ cavalinhos e bonecas, os _____________ e os palhaços, fechados,
_____________ em suas grandes caixas. ____________ que jamais teriam possuído,
______________ apenas da infância, amor ____________.
O incêndio, porém, levou ___________. O bazar ficou sendo um
______________ galpão de cinzas.
Felizmente, ______________ tinha morrido — diziam em ______________ .
Como não tinha morrido _______________ ? — pensavam as crianças. Tinha
______________ um mundo, e , dentro ________________, os olhos amorosos da
crianças, ali deixados.
E começamos _____________ pressentir que viriam outros _______________ .
Em outras idades. De outros ____________. Até que um dia também_________________ sem socorro, nós brinquedos que somos, talvez de anjos
________________ .
Cecília Meireles. Escolha o seu sonho. 8ª ed., Rio de Janeiro : Record, s.d.
Clichês
Prática de texto: leitura e redação
33
Você com certeza já deve ter ouvido algum artista na televisão, diante de uma platéia,
agradecer o aplauso "desse auditório maravilhoso" ou algum folião considerar o carnaval
uma "festa maravilhosa" ou ainda ter escutado de um visitante, ao se despedir, um sorridente
"desculpe por alguma coisa". Seqüências vocabulares como essas são repetidas
automaticamente e, ao que parece, muitas vezes com a cerimônia de quem imagina ter
acabado de contribuir para o enriquecimento do vernáculo.
São idéias prontas que estão sempre à mão na falta de outra melhor e
mais expressiva. Os clichês (ou chavões) acabam qualificando ou especificando
muito mal aquilo a que se referem, pois, ao retomarem pela enésima vez a
mesma idéia, a sua carga informacional não desperta no ouvinte ou no leitor
qualquer surpresa, antes pelo contrário, pode chocar pela sua trivialidade.
Os clichês são idéias cristalizadas, não necessariamente ideológicas, lugares-comuns
que denunciam a estreiteza do repertório de quem os usa. A banalidade, do ponto de vista
lingüístico, dos dois primeiros exemplos acima, acaba revelando um pouco do senso estético do
falante, que não se deu conta do enorme número de vezes em que aquelas expressões são
repetidas.
O terceiro exemplo acusa uma atitude ingênua, algo como um sentimento de culpa sem
origem determinada, redundando num formalismo ridículo e absolutamente dispensável.
Existem clichês para todas as situações, mas sem dúvida os que merecem
maior censura são aqueles incorporados pela escrita. Clichês relacionados ao
universo familiar, ao amor, à paisagem, são algumas das categorias de
ocorrência do fenômeno, conforme os exemplos abaixo, coletados pela
professora Maria Thereza Fraga Rocco, no exame da FUVEST de 1978:
� Familiar
"Estava triste pois minha querida mãezinha ainda nem havia me parabenizado.
Acalmei-me quando ela disse:
– Filhinha, você é meu tesouro; quero tudo, tudo de bom a você".
Melo & Pagnan
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� Amoroso
"Você meu amor só podia ter nascido no dia da Primavera. Você é uma flor".
� Paisagístico
"É mais um dia que começa. Os passarinhos voam e cantam para homenagear os primeiros
raios de sol".
� Existencial
"A incerteza do amanhã me invade e penetra no mais recôndito do meu ser".
É necessário, porém, contrabalançar o peso das restrições dirigidas aos clichês, lembrando
que o processo de aprendizagem e refinamento da escrita se dá, em parte, pela adoção de
séries vocabulares que se instalaram na cultura como modelos dignos de serem repetidos. A
uma pessoa que não tenha o hábito da leitura, pode parecer que uma série vocabular como
"imenso mar azul" ou "a lua cor de prata navegava no céu" represente uma contribuição
original ao acervo literário da língua portuguesa.
Um juízo desses, em tais circunstâncias, é natural. E isto porque em
algum lugar do passado essas imagens foram de fato originais, provocaram,
talvez, nos seus primeiros leitores, uma emoção estética invulgar e até se fizeram
motivo de um riso satisfeito, graças ao feitio de voluntária redundância das
frases: ora, todo mar é imenso e freqüentemente azul e a lua só poderia, claro,
estar no céu. São imagens que guardam alguma semelhança com outra muito
conhecida do nosso cancioneiro; n’ “Aquarela do Brasil”, de Ari Barroso, ouve-
se num dos versos: “esse coqueiro que dá coco..." Como se vê, as imagens
anteriores são apenas um pouco mais discretas na tautologia...
O poder de sedução conservado por alguns clichês ao longo dos tempos não encontra uma
explicação plenamente satisfatória. A renúncia total ao estereótipo é impossível, já que esta
se confunde com a ilusão da originalidade absoluta, o que implicaria, por sua vez, a criação
Prática de texto: leitura e redação
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de uma nova língua. Diante disso, será preciso saber conviver com o lugar-comum até o
ponto em que ele não ocupe espaço demais no nosso pensamento, nos nossos textos e na
nossa vida.
Exercícios
1) As séries vocabulares a seguir são lugares-comuns do discurso pretensamente literário ou
jornalístico. Reescreva os textos fazendo cortes e substituições que os valorizem estilisticamente.
a) Tinha nos olhos o brilho irradiante das estrelas.
b) Conservava na lembrança a mais grata recordação dos inesquecíveis
momentos de felicidade, passados naquela boa e acolhedora terra, entre
velhos amigos da infância.
c) Ficaram-lhe na lembrança as marcas indeléveis daquele passado risonho e
feliz da mocidade, que não voltam mais.
d) Montou o fogoso ginete e saiu galopando a toda brida pela estrada afora,
deixando atrás de si uma densa nuvem de pó.
e) A brisa matutina acariciava-lhe os cabelos e beijava-lhe a face delicada.
f) Ouvia-se, dali, o bramido ensurdecedor das ondas revoltosas, batendo
furiosamente contra os impassíveis rochedos.
g) Permaneceu ali, por muito tempo, engolfado em profundos pensamentos.
h) Um silvo longo e agudo ecoou na amplidão. O trem vencia a distância,
devorando sofregamente os quilômetros. A locomotiva, qual fabuloso
dragão, resfolegava, vomitando fagulhas e rolos de fumaça pelas enormes
ventas abertas.
i) Declinando mansamente, o sol foi estendendo o seu manto de púrpura sobre
os montes.
j) O flagelo da seca está dizimando toda aquela região do nordeste brasileiro.
k) Essa inversão de valores é o sinal dos tempos; nota-se em todos os setores da
atividade humana.
l) Aproveitando os domingos e feriados, o paulistano procura fugir do bulício
trepidante desta cidade, que se transformou numa desumana megalópole, em
face do seu progresso vertiginoso.
m) Nessa reunião de cúpula, foram ventilados magnos problemas que o País tem
que enfrentar na atual conjuntura.
Melo & Pagnan
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n) O Prefeito vai envidar todos os esforços no sentido de solucionar os
angustiantes problemas básicos de infra-estrutura dos bairros periféricos da
Capital.
o) Com a voz embargada pela emoção, o ilustre homenageado agradeceu,
comovido, a expressiva homenagem que lhe fora tributada.
2) O Manual de Redação e Estilo do jornal “O Estado de S. Paulo” relaciona
uma série de lugares-comuns que devem ser evitados “a todo custo” no
noticiário. Procure substituir alguns dos clichês abaixo por expressões menos
desgastadas.
Abrir com chave de ouro; acertar os ponteiros; a duras penas; dar a volta
por cima; agradar a gregos e troianos; alto e bom som; ao apagar das luzes;
aparar as arestas; a sete chaves; atingir em cheio; a toque de caixa; banco dos
réus; bater em retirada; cair como uma bomba; chegar a um denominador
comum; chover no molhado; colocar um ponto final; coroado de êxito; deitar
raízes; deixar a desejar; depois de um longo e tenebroso inverno; desbaratada a
quadrilha; dirimir dúvidas; divisor de águas; do Oiapoque ao Chuí; faca de dois
gumes; inserido no contexto; lugar ao sol; pôr as cartas na mesa; reta final;
trocar farpas.
3) Escreva uma frase com cada uma das expressões que você utilizou para
substituir os clichês.
4) O poema abaixo, de José Paulo Paes, é uma crítica à automatização, entendida como um
processo de condicionamento de nossa percepção, de estereotipação contínua em relação ao
mundo que nos cerca. Explique como ocorre essa crítica. Segundo o poeta, há algum setor da
vida social, capaz de resistir ao condicionamento?
PAVLOVIANA
a sineta a revoltaa saliva a doutrina
a comida o partido
a sineta a doutrina
a saliva o partido
Prática de texto: leitura e redação
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a saliva o partido
a saliva o partido
a saliva o partido
a saliva o partido
o mistério a emoção
o rito a idéia
a igreja a palavra
o rito a idéia
a igreja a palavra
a igreja a palavra
a igreja a palavra
a igreja a palavra
a igreja A PALAVRA
Capítulo 4
Conceito de Ideologia
A linguagem é um sistema de signos ou sinais, um conjunto de elementos
verbais e não-verbais que serve como meio de comunicação entre as pessoas na
forma de idéias, sentimentos e valores. Por ter importância decisiva na relação
entre os indivíduos, a linguagem apresenta-se como campo permanente de
incursão da ideologia, conceito que passaremos a estudar desde seu
estabelecimento como teoria no decorrer do século XIX.
Antes, porém, relacionamos a seguir alguns dos significados mais
comuns associados à ideologia, conforme Terry Eagleton8, um teórico inglês:
8
Ideologia: uma introdução. Rio de Janeiro : Unesp/Boitempo, 1997, p. 15.
Melo & Pagnan
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a) o processo de produção de significados, signos e valores da vida
social;
b) um corpo de idéias característico de um determinado grupo ou classe
social;
c) idéias que ajudam a legitimar um poder político dominante;
d) idéias falsas que ajudam a legitimar um poder político dominante;
e) comunicação sistematicamente distorcida;
f) formas de pensamento motivadas por interesses sociais;
g) ilusão socialmente necessária;
h) a conjuntura de discurso e poder.
A palavra ideologia é usada pela primeira vez por Destutt de Tracy
(1754-1836) num livro publicado em 1801 – Elements d’Ideologie (Elementos
de Ideologia). Compreendida como ciência das idéias, a ideologia seria uma
disciplina filosófica criada para servir de substrato para todas as outras ciências,
o verdadeiro método para o conhecimento do homem.
Como a ideologia pretendia ser uma espécie de radiografia do
conhecimento, ao tempo da Revolução Francesa (1789-1799), nada mais natural
que seus teóricos se colocassem em posições supostamente avançadas, ora
apoiando Napoleão Bonaparte no golpe de 18 Brumário (9 de novembro de
1799)9, quando então acreditavam que ele daria prosseguimento aos ideais da
revolução burguesa, ora fazendo oposição ao líder por constatarem depois que
Napoleão tornara-se um restaurador do Antigo Regime. À crítica ao
autoritarismo bonapartista, segue-se a reação de Napoleão que tachava os
ideólogos de “falastrões”, acusando-os de destruírem todas as ilusões, sendo que
era justamente a era das ilusões, segundo ele, para os indivíduos como para os
povos, a era da felicidade. Em 1812, após ser derrotado pelo exército russo,
Napoleão ataca os ideólogos em um de seus mais célebres discursos:
É à doutrina dos ideólogos – a essa metafísica difusa que artificialmente
busca encontrar as causas primárias e sobre esse alicerce erigir a legislação dos
povos, em vez de adaptar as leis do conhecimento do coração humano e das
lições da história – que se deve atribuir todos os infortúnios que se abateram
sobre nossa amada França.
A ideologia, como lembra Eagleton, tem “raízes profundas no sonho
iluminista de um mundo totalmente transparente à razão, livre do preconceito, da
9
À época da Revolução Francesa (1789-1799), houve mudanças na maneira de marcar as datas,
de nomear os meses, por isto 18 Brumário equivale a 9 de novembro.
Prática de texto: leitura e redação
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superstição e do obscurantismo do Ancien Régime10”. Ser um “ideólogo”
significava ser um "crítico da 'ideologia', no sentido aqui dos sistemas de crença
dogmáticos e irracionais da sociedade tradicional". (p. 66)
Tal projeto era visivelmente ambicioso e não imune a contradições, pois se de um lado, como
porta-vozes da burguesia revolucionária da Europa do século XVIII, os ideólogos
acreditavam poder reconstruir a sociedade de alto a baixo sob bases racionais, sonhando
“com um futuro no qual se teria em apreço a dignidade de homens e mulheres, como
criaturas capazes de sobreviver sem ópio nem ilusão” (quer dizer, sem crenças), de outro lado
não eram capazes de perceber que tal causa encerrava em si mesma uma debilidade que se
tornou depois flagrante. É que ao julgarem que a consciência humana poderia ser
transformada, na direção da felicidade humana, por um projeto pedagógico sistemático, não
se perguntaram quais seriam os determinantes desse projeto. Como destaca Eagleton:
Se toda consciência é materialmente condicionada [é histórica e,
portanto, relacionada ao modo como o homem age sobre a natureza criando o
trabalho], isso não deveria aplicar-se também às noções aparentemente livres e
desinteressadas que iluminariam as massas em seu caminho para fora da
autocracia, rumo à liberdade? Se tudo deve ser submetido à luz translúcida da
razão não se deveria incluir aí a própria razão? (p. 66).
Em outros termos, como o fez o filósofo alemão Karl Marx, quem
educaria os educadores? Karl Marx e outro alemão, Friedrich Engels, estudaram
a ideologia no livro A ideologia alemã (publicado entre 1845-1846, mas cuja
versão integral só pôde vir à luz em 1932), obra que não se restringe ao estudo
do fenômeno naquele país, transformando-se num dos mais sólidos referenciais
sobre o assunto e inaugurando uma tradição de pensamento crítico que se
mantém viva e atuante ainda hoje. No livro, os teóricos alemães revisam a obra
de Destutt de Tracy, apontando para uma ordem de problemas não considerada
pelo autor de Elementos de Ideologia.
10
O Ancien Régime (Antigo Regime) é o termo pelo qual ficou conhecido o sistema de governo
baseado em um rei, em um monarca. A Revolução Francesa pretendeu derrubar esse tipo de
regime governamental para implantar outro baseado na razão do indivíduo.
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Para Marx, a ideologia resulta da divisão social do trabalho em dois
grandes campos: trabalho manual e trabalho intelectual ou, dito de outra forma,
entre trabalhadores e pensadores.
No processo histórico, o trabalho intelectual é identificado à classe
dominante de uma época; no contexto da Revolução Francesa, a classe em
ascensão – a burguesia – exerce o domínio sobre as demais classes (pequenos
comerciantes, pequenos artesãos, servos e aprendizes) que continuam
compartilhando com ela os ideais revolucionários de liberdade e igualdade.
Mas como essas idéias podem continuar vigorando se na prática não
existe igualdade entre os homens e a liberdade é reduzida a uma abstração, a um
sentimento flutuante, sem história e incapaz de transformar a sociedade?
A resposta deve evocar de novo a separação dos trabalhos que impõe
uma aparente autonomia do trabalho intelectual diante do trabalho manual. Vista
dessa forma, a autonomia, aparente, produz como resultado a autonomia dos
intelectuais – dos que produzem as idéias – e porconseguinte destas em relação
aos seus produtores. Como as idéias parecem nesse momento não se originar
especificamente de um grupo social, instalam-se na sociedade como senso
comum (como idéias universais, válidas em todo lugar e sempre), escondendo as
diferenças existentes entre as classes. Nesse sentido, a ideologia é um discurso
que deforma a realidade, mas que não é percebida como tal, ganhando livre
trânsito e levando os dominados a aceitar, como naturais, os valores da classe
dominante.
Para entender em que sentido as palavras “explorador” e “explorado”
comparecem nesse âmbito é preciso localizá-las no centro de uma sociedade
dividida entre proprietários dos meios de produção (e dos produtos do trabalho)
e de não-proprietários que vendem a sua força de trabalho. Esta relação
necessariamente tensa é “regulada” por um mecanismo, por um código operado
no interior das instituições (Estado, Igreja, Escola etc.), que dissimula, oculta, o
significado violento das divisões sociais, cujo objetivo é a dominação.
A ideologia não é, portanto, apenas uma representação imaginária do
real a serviço da classe dominante, nem se limita, tampouco, a ser uma inversão
imaginária do processo histórico na medida em que as idéias viessem a ocupar o
lugar dos agentes históricos reais, como por exemplo as instituições. A ideologia
– que não pode ser tomada como sinônimo de “mentira” ou de “falsidade”, no
sentido corrente das palavras – é o processo pelo qual os agentes sociais
representam para si mesmos o aparecer social, econômico e político de tal modo
que essa “aparência”, impondo-se como a forma imediata e abstrata de
manifestação do processo histórico, produz o ocultamento ou a dissimulação do
real. Assim, tenderíamos a buscar “explicações” mais ou menos exteriores, mais
ou menos artificiais para fenômenos que, na realidade, possuem um lugar e uma
Prática de texto: leitura e redação
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natureza histórica bem definidos. A pobreza, por esse prisma, poderia ser
explicada por uma resistência ou inaptidão ao trabalho ou ainda por uma
incapacidade (nata?) de adaptação dos indivíduos a um mercado
ultracompetitivo sob o signo da globalização.
A ideologia como uma mitologia social, não pode ser superada por uma
ideologia não-falsa ou real, já que havendo ideologia estaríamos sempre no
âmbito da dominação de uma classe social por outra. O que deve ser feita é a
crítica da ideologia, a instauração de um contradiscurso, como diz a filósofa
Marilena Chaui, em busca de um saber real, expressão necessária da verdade. Ou
seja, para se chegar à verdade das coisas, é preciso desmascarar a ideologia
dominante através da crítica, através de análise, do exame das idéias e do seu
lugar nas relações sociais. Por exemplo, para se derrubar a ideologia do
machismo, é preciso criticá-la através de um discurso contrário ao machismo,
um discurso que prega a igualdade entre os sexos, um contradiscurso, pois.
Destaque-se, portanto, que, segundo essa visão, a ideologia seria sempre
um fenômeno “negativo” que deve a todo custo ser repudiado – um fenômeno
que não pode ser confundido como um corpo de idéias característico de uma
determinada classe social, independentemente de qual seja. A seu modo, a
ideologia é uma linguagem, um discurso, ou como parece ser mais adequado
dizer, este último é que se torna suporte da ideologia; os discursos podem
cristalizar a ideologia, uma visão de mundo parcial, como um valor absoluto e
universal (na forma de um provérbio, por exemplo), válido para todas as
pessoas.
Como o compromisso daquele que escreve deve ser idealmente com o
conhecimento (a literatura, às vezes, tomada como um exercício
“descompromissado”, é também uma forma de conhecimento), numa operação
crítica de apreensão do mundo, julgamos necessário, a título de exemplo e
reflexão, enfocar nas linhas seguintes o fenômeno da ideologia em diversas
situações. Por representarem uma visão de mundo comprometida com certos
interesses de classe, os temas dos tópicos abaixo dispõem-se como uma
“conjuntura de discurso e poder” cuja marca dos “produtores” a análise tenta
elucidar. Os discursos e seu respectivos comentários poderão servir para debate
na sala de aula ou como referência para a crítica de outros discursos.
Análises da presença da ideologia
• Na publicidade
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O discurso da propaganda tem dois objetivos gerais que definem sua
natureza: convencer e persuadir o público-alvo ao consumo. Deixando de lado a
propaganda política, vale a pena refletir sobre a propaganda comercial. A
persuasão na propaganda relaciona-se geralmente a uma atmosfera onírica (de
sonho) que envolve a idéia ou o objeto que ela valoriza. Visto desse modo, esse
processo de persuasão identifica-se com uma força irracional, cuja manifestação
tenta mentalizar o olhar crítico do público. A adesão não-crítica à mensagem
veiculada pela propaganda mantém um nexo, em maior ou menor grau,
dependendo de cada caso, com o fenômeno da alienação – a ação pela qual (ou
estado no qual) um indivíduo, um grupo, uma instituição ou uma sociedade se
tornam alheios, estranhos, enfim, alienados aos resultados ou aos produtos de
sua própria atividade (e à atividade ela mesma), e/ou à natureza na qual vivem
e/ou a outros seres humanos.
Roberto Menna Barreto, autor de Análise transacional da propaganda11,
faz um julgamento radical do objeto de suas reflexões:
Propaganda, qualquer que seja, é de fato “uma técnica de controle social”,
sempre que posta em prática pelo status quo dominante. Tal técnica realiza-se pela
“venda”, lato sensu, segundo a terminologia profissional: “vendendo” um Plano
Qüinqüenal, metas de trabalho, místicas racistas, ou uma pasta dentifrícia, a
Propaganda é uma técnica para “conseguir a adesão” política, social e
psicológica: ao Estado, ao Líder, ao Partido, à Empresa, a um Regime de Vida. A
sua, amigo!
A sua adesão, no mundo ocidental consumista [o texto é anterior ao colapso
do comunismo] não é dirigida a esforços de produção, nem a delírios racistas,
mas à pasta dentifrícia. As duas pessoas mais envolvidas no fenômeno – eu e
você, o publicitário e o consumidor – tornaram-se inconscientes do fenômeno
em que interatuam. Reconhecemos que o que estamos fazendo – vendendo e
comprando – tem significado econômico (o aumento de produção, o giro de
capital); reconhecemos também significações psicológicas (as motivações, as
satisfações internas atendidas); reconhecemos, tangencialmente, que tem
significados sociais (as classes a que se destinam os anúncios). Mas, como num
passe de mágica, obliteramos totalmente o significado político do que estamos
fazendo. Não é um absurdo?
Numa sociedade onde foram abertos grandes fossos entre as classes
sociais, ao mesmo tempo que, toda ela, foi submetida à ideologia publicitária
do consumo, surge um processo político dinâmico: a insatisfação dos
11
São Paulo : Summus, 1981, pp. 37-39.
Prática de texto: leitura e redação
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destituídos recrudesce, para horror dos beneficiários desse consumo. Se,
acaso, essa insatisfação não dispõe de canais efetivos para se expressar, nem
base de atuação para contestar em profundidade o sistema, com vista à sua
mudança – não importam as razões dessa impossibilidade – quer dizer, se o
sistema, de um modo ou de outro, liqüida com a verdadeira oposição política
da insatisfação resultante, se aliena num fenômeno a que os brasileiros já
devem estar acostumados: a criminalidade.
/.../
A propaganda comercial açula a reivindicação política e, quando esta é
esmagada, açula a criminalidade.
/.../
Não estou dizendo que a propaganda comercial seja responsável de per si
por quadro tão nefasto /.../ Estou dizendo, issosim, é ser ela um fermento
atuante, poderoso, nesse quadro de compressão social. A propaganda é
conservadora enquanto atinge camadas potencialmente beneficiárias do
sistema; induz ao conformismo e ao conservadorismo; mas é revolucionária,
ou instigadora da patologia social, quando chega, como uma demonstração
acintosa do luxo e abundância, ao grosso da população despossuída, e sem
horizonte político e econômico.
Talvez não seja errado dizer que esse processo de incitamento ao
consumo tenha sido reforçado nos últimos anos devido à oferta propiciada pela
globalização. Com efeito, o acesso a certos bens de consumo, apenas por uma
exígua parte da sociedade, parece tomar dimensões que dão novas nuances ao
exibicionismo. Basta atentar para o desfile de carros importados e roupas de
griffe a cargo de “personalidades” em alta exposição na mídia e com forte
influência sobre determinados segmentos da sociedade.
O psicólogo Jurandir Freire, em entrevista à revista Época, contou que
ouviu uma conversa entre duas mendigas no Aterro do Flamengo, no Rio de
Janeiro, que classificou de “grotesca” e ao mesmo tempo “emblemática”. Uma
delas queixava-se a outra de que o bronzeador que estava usando era muito
vermelho e por isso estragava sua pele; a amiga disse: “quem manda comprar
produto barato?”; a primeira retrucou: “Mas este é bom, não é uma coisa
vagabunda”. Freire enfatiza que as duas mulheres não eram loucas, mas
demonstravam que para pertencer ao atual mundo precisavam possuir aquele
“signo de cuidado corporal”. O relato de Freire ilustra, de forma quase
melancólica, o exagero dado às questões privadas e seus efeitos, entre eles o da
preocupação constante em aumentar o nível de riqueza de modo a que cada um
possa consumir sempre mais e mais.
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• No uso das palavras
Toda uma geração cresceu ouvindo que os EUA invadiram o Vietnã (ou
interferiram em algum país da América Latina) para “salvar a liberdade”
ameaçada pela ofensiva comunista. Reportagens da época do conflito no Vietnã
demonstravam, no entanto, que os soldados americanos repetiam esse slogan
sem ter a exata noção de quem era o inimigo a combater, em que medida o
comunismo implicava o fim da liberdade e, finalmente, qual liberdade se
defendia: a dos vietnamitas, oprimidos pelos guerrilheiros vietcongs, a dos
americanos ou a do mundo ocidental (leia-se capitalismo) que, por extensão do
avanço do comunismo, segundo se julgava, corria perigo. Essas questões,
contudo, não davam conta do próprio conceito de liberdade, tão obsessivamente
resguardada e ao mesmo tempo tão sujeita a distorções que, afinal, reduziam-na
a uma mercadoria para uso da propaganda ideológica.
Palavras como “liberdade”, “conservador”, “reacionário”, “liberal”,
“nacionalista”, “livre-empresa” e tantas outras possuem um campo semântico
(de sentidos) muito amplo, dando margem a várias interpretações sob o efeito
das ideologias. Hoje em dia tornou-se comum defender o neoliberalismo com
seu vocabulário peculiar: globalização, abertura de mercado, privatização,
especialização...
Porém, em determinados meios, quando alguém é tachado de
“neoliberal” pode significar que essa pessoa esteja servilmente atendendo aos
interesses do que no passado recente se denominava “imperialismo”, o poder
político econômico exercido em escala mundial pelos países centrais (sobretudo
pelos Estados Unidos).
Resistir à abertura, muitas vezes indiscriminada, de mercado é atitude
comum aos “nacionalistas” que, além desse rótulo, são classificados como
“conservadores” pela ala dos liberais (grupo que de igual forma recebe a mesma
pecha dos oponentes). Em decorrência do excesso de sentidos absorvido por
essas palavras, deve-se procurar usá-las com o máximo rigor, já que, conforme o
contexto, correm o risco de designar muitas coisas e nada a um só tempo. Neste
caso, a polissemia (vários significados) não se reveste de um valor positivo,
como se observa na literatura, em que o fenômeno passa a ser condição, entre
outras, do efeito estético obtido pelas palavras usadas num romance, por
exemplo. Rigorosamente, pois, não teríamos apenas o fenômeno da polissemia,
mas também o da "polarização" – a tendência acusada por certas palavras em
apresentar sentidos de natureza oposta, cujo uso se conforma a contextos de
ocasião, como os referidos acima.
Prática de texto: leitura e redação
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• Na pesquisa científica
Faz parte da natureza da Ciência querer-se neutra, comprometida com o progresso,
chegando a ser confundida com este, sem prejuízo para o fato de que a própria noção de
progresso já é em si ideológica. Esse desejo de neutralidade, ou melhor, essa pretensão, é em
si mesma ideológica, pois oculta toda a dimensão das condições em que a Ciência foi gerada
e os fins a que ela se volta. A figura do cientista, detentora de um saber altamente
especializado, é abstraída, sendo seu lugar ocupado pelo discurso científico em forma de
pesquisa.
Como o trabalho científico é patrocinado pelo Estado ou financiado por empresas, nem
num caso nem noutro a sociedade participa ou sequer chega a tomar conhecimento das
políticas e interesses que o determinam.
Um exemplo é o das pesquisas “científicas” promovidas por empresas. No livro O fundo
falso das pesquisas, a autora, Cynthia Crossen, discute o papel daquelas pesquisas tão
esdrúxulas quanto alarmantes anunciadas periodicamente pelas empresas comerciais.
Cynthia, editora do Wall Street Journal, conta o caso das fraldas descartáveis, alvo de
uma entidade ecológica, que afirmava ser o produto prejudicial ao meio ambiente. A
denúncia provocou uma queda sensível de vendas do produto no mesmo período – 1988 a
1990 – em que a compra de fraldas de pano quase duplicou.
A reação dos fabricantes veio em seguida: encomendaram uma pesquisa que
demonstrou que o consumo de água e energia para lavar as fraldas de pano e de óleo diesel,
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usado pelos navios para o transporte dos tecidos, representava uma ação tão prejudicial ao
meio ambiente quanto os danos causados pelas fraldas descartáveis.
• No discurso competente
Em 1977, a filósofa Marilena Chaui participou da reunião anual da
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC – onde, no simpósio
“Ideologia e linguagem”, apresentou o texto intitulado “O discurso
competente”12, aqui parafraseado (sobre “paráfrase”, ver o capítulo 7 – “Gêneros
de Síntese”). Nele, Chaui tenta demonstrar que no capitalismo contemporâneo a
dominação e a exploração se fazem sobrepondo à divisão de classes uma
segunda divisão social que é aquela entre os que sabem, e por isso dirigem, e os
que não sabem, e, conseqüentemente, executam.
Tal divisão, entre dirigentes e executantes, cristaliza-se, por sua vez,
como uma divisão entre “competentes” e “incompetentes” numa sociedade
alicerçada sobre o princípio da Organização e da Burocracia. Esta última é um
processo que impõe ao trabalho, independentemente do nível – direção, gerência
e execução de um modo geral –, uma dinâmica tal que tudo em sua órbita
(salários, cargos, regime de promoções, divisão de responsabilidades,
estabilidade geral no emprego etc.) gira conforme um princípio de status sócio-
econômico. Os efeitos desse processo não se limitam ao “ambiente” da empresa,
já que podemos observá-los em outros setores da sociedade civil, como nas
burocracias escolares, hospitalares, de saúde pública, partidárias, entre outras.
Como essas burocracias envolvem toda a sociedade civil, é por este motivo,
portanto, que podemos dizer que o próprio Estado, como organismo político e
administrativo com um governo e um espaço territorial próprios, também se
sujeita ao processo de burocratização.
O processo de burocratização,como vimos, opera no interior da
Organização, ou seja, dentro das instituições (sendo o Estado a maior delas) que
passam a ser o lugar mesmo de uma racionalidade imanente, aquela inseparável
do objeto. Para se compreender a natureza da racionalidade a que nos referimos
é preciso vê-la numa perspectiva histórica. Assim, quando a burguesia passa a
ser a classe dominante, ela constrói um tipo de conhecimento que não depende
12
Reunido em CHAUI, Marilena. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas.
São Paulo, Cortez, 1982. As referências ao ensaio têm como base o texto da 7ª edição, publicada
em 1997, pp. 3-13.
Prática de texto: leitura e redação
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mais da imagem de um Deus como poder uno e transcendente, pois esta
condição é incorporada pelo Estado, que agora exerce o poder sobre uma
sociedade baseada na divisão de classes. No entanto, e eis uma das
peculiaridades dessa transformação, não ocorre concomitantemente a passagem
de uma política teológica a uma política racional ateológica ou atéia, “mas
apenas uma transferência das qualidades que eram atribuídas à Divina
Providência à imagem moderna da racionalidade. A nova ratio [razão] é
teológica na medida em que conserva tanto em política quanto em ideologia dois
traços fundamentais do poder teológico: de um lado, a admissão da
transcendência do poder face àquilo sobre o que este se exerce (Deus face ao
mundo criado, o Estado face à sociedade, a objetividade das idéias face àquilo
que é conhecido); por outro lado, a admissão de que somente um poder separado
e externo tem força para unificar aquilo sobre o que se exerce – Deus unifica o
mundo criado, o Estado unifica a sociedade, a objetividade unifica o mundo
inteligível [o mundo “visível”, tal como se oferece a nós]” (p. 6)
O Estado sob o olho racional da Organização e da Burocracia incorpora e
consome as novas idéias que, por assim dizer, não o põem em perigo. Desse
modo, o saber, visto como um trabalho de elevação à dimensão do conceito uma
situação de “não-saber” (p. ex.: Galileu Galilei, a partir das descobertas de
Copérnico, coloca em xeque os pressupostos sobre o lugar da Terra no mapa
celeste) é aceitável e passível de incorporação quando “já foram acionados
dispositivos econômicos [transformações no processo de produção], sociais [a
legitimação de uma nova classe social no poder] e políticos [o modo de interação
da classe dominante com o poder] que permitam acolher o saber novo não
porque seja inovador, nem porque seja verdadeiro, mas porque perdeu a força
instituinte [de revolução], já se transformou de saber sobre a natureza em
conhecimentos físicos, já foi neutralizado, e pode servir para justificar a suposta
neutralidade racional de uma certa forma de dominação”. (p. 6)
É nesse contexto que surge o discurso competente, o discurso instituído,
o discurso da Organização, burocratizado e, como tal, hierarquizado; nele a
linguagem sofre uma restrição, resumida por Chaui nos seguintes termos: “não é
qualquer um que pode dizer a qualquer outro qualquer coisa em qualquer lugar e
em qualquer circunstância. O discurso competente confunde-se, pois, com a
linguagem institucionalmente permitida ou autorizada, isto é, com um discurso
no qual os interlocutores já foram previamente reconhecidos como tendo o
direito de falar e ouvir, no qual as circunstâncias já foram predeterminadas para
que seja permitido falar e ouvir [na hora “certa”, poderíamos dizer] e, enfim, no
qual o conteúdo e a forma já foram autorizados segundo os cânones [os modelos,
os limites] da esfera de sua própria competência”. (p. 7)
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Como não devemos perder de mira os conceitos de Burocratização e
Organização, afinal os processos que instituem o discurso competente como
código, devemos atentar para o que Chaui chama de “determinações” tanto de
uma quanto de outra: hierarquia; status dos cargos, de tal modo que parece que o
cargo possui uma autonomia em relação ao indivíduo que o ocupa, daí serem
atribuídas ao primeiro, e não ao segundo, qualidades determinadas; identificação
entre os membros de uma burocracia com a função que exercem e o cargo que
ocupam, fato realçado por um cerimonial que, por sua vez, fixa os papéis de
superiores e subalternos; uma direção que não se coloca acima da burocracia ou
da organização, “mas também faz parte dela sob a forma de administração, isto
é, a dominação tende a permanecer oculta e dissimulada graças à crença em uma
ratio administrativa ou administradora tal que dirigentes e dirigidos pareçam ser
comandados apenas pelos imperativos racionais do movimento interno à
Organização”. (p. 9) É por isso que somos levados a crer que ninguém exerce o
poder, o poder existe por ele mesmo, como uma lei que convive em harmonia
com a racionalidade do mundo organizado ou, se preferirmos, com a
competência dos cargos e funções que, por acaso, estão ocupados por homens
determinados, e daí a continuidade do poder como neutralidade.
No contexto acima, distinguem-se três registros de discurso competente:
o discurso competente do administrador-burocrata, o discurso competente do
administrado-burocrata e o discurso competente e genérico de executantes do
nível mais inferior da escala hierárquica, homens reduzidos à condição de
“objetos sócio-econômicos e sócio-políticos, na medida em que aquilo que são,
aquilo que dizem ou fazem, não depende de sua iniciativa como sujeitos, mas do
conhecimento que a Organização julga possuir a respeito deles”. (p. 10)
Esse contigente anônimo, pode-se concluir, é indispensável para a
manutenção do poder. Pensemos de passagem no período das eleições para os
diversos cargos do legislativo. É um momento no qual candidatos incorporam
aos seus discursos de campanha significados que atendem de forma determinada
às expectativas da “massa”. Assim, há o candidato que se revestirá, por exemplo,
com os símbolos do homem-da-lei e imprimirá à sua campanha os significados
próprios desse status: segurança, defesa da pena de morte, instituição da prisão
perpétua, intensificação da repressão policial etc. Um outro, apresentar-se-á
como a encarnação idealizada do “grande administrador” e como tal se louvará
de sua competência como empreendedor e assim por diante. O discurso de
campanha, nestes termos, não deve ser confundido com propaganda, no sentido
comum de uma ação voltada para a criação e divulgação de uma marca. Se o
“homem-da-lei” e o “grande administrador” se apossam de tais discursos é
porque ambos têm consciência da sua posição em relação ao discurso que
adotam, do “cargo” que ocupam diante da comunidade e da própria natureza do
Prática de texto: leitura e redação
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discurso como uma competência de quem se instalou no “cargo”. É claro que
poderíamos argumentar que se ocorre o consumo desses “fatos” é porque eles
correspondem a certas necessidades e esperanças dos indivíduos, além deles
acreditarem na seriedade e na autoridade de seus candidatos como homens
públicos. No entanto, há de se pensar sobretudo no conceito genérico e
altamente abstrato de “segurança” e de “administração” no âmbito das
comunidades em que se reduziu o debate em torno desses temas à reivindicação
do fortalecimento do aparelho policial, em relação ao primeiro, e à aposta nos
“tocadores de obras”, em relação ao segundo. O especialista em administração e
o especialista em segurança nos ensinam como agir diante das urnas. (Entre
parênteses, perguntaríamos, no entanto, a quem beneficiam as iniciativas nas
duas áreas? A toda comunidade? A partir de que perspectiva as diferentes
classes sociais se colocam diante da questão? Diga-se de passagem que
“segurança” para a classe dominante confunde-se com o sentimento de proteção
contra parte da classe dominada...)Como parece ter ficado claro, o discurso competente não dependerá de
idéias e de valores fortemente sedimentados na tradição humanista e assimilados
pelo pensamento burguês na sua forma clássica. Na raiz, o discurso burguês é
legislador, ético e pedagógico e isto implica dizer que previa um centro
irradiador o qual se punha acima dos indivíduos. As idéias então possuíam
transcendência e eram capazes de gerar critérios para distinguir a natureza das
coisas: o certo e o errado; a civilização e a barbárie; o necessário e o eventual; o
bem e o mal; o verdadeiro e o falso; o normal e o patológico: “punha ordem no
mundo e ensinava”. (p. 10) Digamos que em decorrência desse mundo ordenado
as instituições como Pátria, Família, Empresa, Escola, Estado erigiam-se como
valores de fato e de direito, daí porque o discurso burguês nomeava os
detentores legítimos da autoridade: o pai, o professor, o patrão, o governante, e,
conseqüentemente, deixava explícita a figura dos subordinados e a legitimidade
da subordinação. Em uma palavra, havia referenciais seguros porque a
autoridade era encarnada, simplificando, pela “pessoa” investida de poder pelas
instituições.
Graças à razão “administrativa” e “administradora”, característica da
Organização e da Burocratização, a ideologia deixou de ser um discurso
legislador, ético e pedagógico fundado na transcendência das idéias e dos
valores, para converter-se em discurso anônimo e impessoal, ocultando, assim,
o lugar de onde é pronunciado. Não que tenha deixado de ser legislador, ético e
pedagógico, mas agora o é tendo como referencial a suposta realidade dos fatos
racionais e a suposta eficácia dos meios de ação, como veremos de modo mais
concreto a seguir. Ganhou nova cara: não é identificado mais como um saber
instituinte, transformador, mas como discurso neutro da cientificidade ou do
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conhecimento instituído, cuja função é dissimular a existência real da
dominação.
“O que é o discurso competente enquanto discurso do conhecimento?
Sabemos que é o discurso do especialista, proferido de um ponto determinado da
hierarquia organizacional. Sabemos também que haverá tantos discursos
competentes quantos lugares hierárquicos autorizados a falar e a transmitir
ordens aos degraus inferiores e aos demais pontos da hierarquia que lhe forem
paritários” (p. 11)
O fundamental em tudo isso, como se destacou, é que o discurso
competente, para se realizar como discurso do conhecimento, depende da
afirmação implícita (tácita) e a aceitação implícita da incompetência dos homens
como sujeitos sociais e políticos. Para que esse discurso seja proferido e mantido
é preciso que não haja sujeitos, mas apenas homens reduzidos à condição de
objetos sociais. No entanto, no momento em que esse rebaixamento se efetiva, o
discurso competente entra em cena para ocultar a verdade desse poder de
submissão sobre os indivíduos.
E como o discurso competente gera essa “nova” dissimulação?
Simulando devolver aos objetos sócio-econômicos e sócio-políticos a qualidade
de sujeito que lhes foi roubada. Essa tentativa se realiza através da competência
privatizada, que é o modo pelo qual o indivíduo interage com o mundo pela
mediação de uma variedade extensa de discursos segundos e derivados. Note-se
que essa relação ocorre no plano da individualidade, portanto naquilo que diz
respeito à pessoa privada, o que asseguraria uma autoridade ilusória aos
indivíduos.
“Que discursos segundos ou derivados são estes? São aqueles que
ensinarão a cada um como relacionar-se com o mundo e com os demais
homens. Como escreve Lefort [“Maintenant”, Libre, Paris, Payot, nº 1, 1977], o
homem passa a relacionar-se com seu trabalho pela mediação do discurso da
tecnologia, a relacionar-se com a alimentação pela mediação do discurso
dietético, a relacionar-se com a criança pela mediação do discurso pedagógico e
pediátrico, com o lactente, por meio do discurso da puericultura, com a natureza,
pela mediação do discurso ecológico, com os demais seres humanos através de
mil pequenos modelos científicos nos quais a dimensão propriamente humana da
experiência desapareceu. Em seu lugar surgem milhares de artifícios mediadores
e promotores de conhecimento que constrangem cada um e todos a se
submeterem à linguagem do especialista que detém os segredos da realidade
vivida e que, indulgentemente, permite ao não-especialista a ilusão de participar
do saber. Esse discurso competente não exige uma submissão qualquer, mas algo
profundo e sinistro: exige a interiorização de suas regras, pois aquele que não as
Prática de texto: leitura e redação
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interiorizar corre o risco de ver-se a si mesmo como incompetente, anormal, a-
social, como detrito e lixo”. (pp. 12-13)
A revalidação dos indivíduos prometida pelo discurso competente é um
logro, pois apenas transfere para o âmbito do individual o discurso do
conhecimento cujas regras já estão dadas pelo mundo da burocracia e da
organização. Não bastasse a mediação nos termos acima expostos, há ainda uma
outra categoria de logro, por assim dizer: o caráter contraditório de pesquisas
ditas científicas, o dirigismo das estatísticas quando não fundamentam com
exatidão a natureza do objeto investigado e não contextualizam a pesquisa como
um todo. Por último, chamamos atenção para o caráter ideológico, nos termos
tratados neste tópico, do “argumento de autoridade”, categoria entre as
estratégias de argumentação que iremos abordar no capítulo 9 –
“Argumentação”.
• Na cultura de massa
A ideologia da classe dominante, como já se frisou, é repetida pelo senso
comum como verdade universal. Os bens culturais da humanidade, e as artes de
um modo geral, podem servilmente prestarem-se ao papel de divulgadores da
ideologia, mesmo tendo autonomia em relação à indústria como meio de
reprodução.
No caso da música popular, dependente da indústria fonográfica para a
disseminação nos meios de comunicação de massa, as imposições do mercado
são múltiplas e complexas, o que exige muita habilidade das gravadoras ao
interpretar o “gosto” do público, fenômeno de constante mudança. Em
conseqüência desse padrão tão elástico que é o gosto do público, o conceito de
música popular parece ter admitido outras faixas de expressão, tal é o caso do
“popularesco”, produções geralmente maliciosas, de sucesso imediato, e não
isentas, muitas vezes, da degradação de certas ideologias.
Segura o tchan
Pau que nasce torto nunca se endireita,
Menina que se requebra, mãe pega na cabeça (bis)
Domingo ela não vai, vai, vai
Domingo ela não vai não, vai, vai, vai
Então segura o tchan
Amarra o tchan,
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Segura o tchan, tchan, tchan, tchan, tchan
Tudo o que é perfeito a gente pega pelo braço
Joga lá no meio, mete em cima, mete embaixo
E depois de nove meses você vê o resultado.
A canção se abre com um provérbio13 que propaga a idéia do mal
congênito: o indivíduo nasce com determinado desvio (de atitude, de
personalidade), daí ser “torto”, e por conseqüência dessa condição permanecerá
assim para sempre.
Por associação, a menina do segundo verso é uma das que, por nascerem
tortas, persistem no requebro, motivo de reação da mãe que, por sua vez, a
proíbe de sair de casa no domingo. A proibição também gera uma reação, mas
dessa vez por parte do eu, que se utiliza de dois verbos no imperativo – segura
(tu), amarra (tu) – dirigidos ao ouvinte e/ou leitor14. É possível dizer, contudo,
que o eu também se faz alvo da própria exortação, como se verá mais adiante.
O sentido implícito, mas nada enigmático da palavra “tchan” (que hoje é
mais um sinônimo de bunda, fato que não ocorria ao tempo do lançamento da
música) é logo maliciosamente adivinhado quando se ouve/se lê a primeira parte
da música.“Segurar” e “amarrar” são verbos que, associados ao “tchan”, dão
bem a medida da intensidade do desejo do eu, eventualmente compartilhado por
outros, que deve ser contido à força, daí o emprego dos verbos.
A segunda parte da música funciona como um relato do que se faz com
“tudo o que é perfeito”, tal é o caso da menina e o seu requebrar. As imagens
dessa parte são de um mau gosto perverso, pois num ato de cinismo
surpreendente o eu revela o desejo de pegar a menina pelo braço, jogar lá no
meio e meter em cima e embaixo, em tudo semelhante a uma relação sexual
forçada.
Bem compreendidas, essas imagens conservam-se no campo da
virtualidade e do desejo, em relação à menina, já que a mãe desta a mantém sob
vigilância. Mas ao mesmo tempo as imagens são dotadas de um sentido
generalizador (age-se assim com tudo o que é perfeito) que parece fazer parte da
experiência vivida do eu, na companhia, quem sabe, de um grupo (“a gente
pega...”); em outras palavras: ele(s) já teria(m) praticado a violência antes? Ou
se gaba(m) de poder um dia praticá-la? Caso se trate de um grupo, vale a pena
perguntar quem o compõe. “Nós”, os homens, como os intérpretes da canção?
13Observe como o diálogo entre os textos (letra da música e provérbio) é positivo.
14
Será possível ainda e leitura segundo a qual o apelo é dirigido à menina ou à mãe desta? mas
nesse caso a expressão "tchan", no sentido desenvolvido a seguir, apareceria um tanto deslocado
ou mesmo de modo incoerente no contexto.
Prática de texto: leitura e redação
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Não bastasse a violência da relação sexual forçada, a menina terá que
enfrentar ainda a gravidez, como lembrança de um ato que se arroga possuir
caráter exemplar e punitivo. Afinal, ela nasceu torta, requebra-se afrontando
princípios preservados pela mãe, além disso é perfeita (uma alusão, talvez, à
virgindade resguardada), sendo assim parece ser natural segurá-la pelo braço e
agir: “joga (o tchan?) lá no meio”, proseia-se o pretenso violador.
O que é profundamente grosseiro e imoral apresenta-se ao mesmo tempo
na pele de um discurso moralista (mulher não pode se requebrar) e dotado de
uma lógica retrógrada: “pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto”,
raciocina-se enfadonhamente, de acordo com esse ditado secular.
Numa sociedade patriarcal (centrada na imagem do Pai como autoridade)
e machista por definição, conteúdos como os analisados são disfarçados por uma
roupagem lúdica, encarnada pelo ritmo da música e pela coreografia do grupo, e
chegam às paradas de sucesso sem nenhuma restrição, o que parece ser até
coerente, considerando-se tudo isso. As aparências enganam ou nos deixamos
enganar por elas?
Exercícios
1. O texto que segue foi escrito por Oswald de Andrade, autor modernista,
participante da Semana de Arte Moderna (1922):
Discurso análogo ao apagamento da luz durante o
fox-trot pelo Dr. Mandarim Pedroso
1. Minhas meninas, meus rapazes!
2. Este clube é um lar!
3. Nele, o espírito hospitaleiro é uma prerrogativa ao lado do catecismo moral
da juventude! E é devido a isso que o Recreio Pingue-pongue se tornou célere a
mais progressiva artéria de nossa vida social, com floridas ramificações pela política
e pela literatura! Nele esplendei vós, ó inefáveis portadoras das graças venusinas, ao
lado dos jovens pegureiros da Pátria!
4. Sob esta blusa de modesto obreiro, não me posso deslembrar que
acontecimentos diários acumulam deslumbradoras certezas para vós.
5. Quero referir-me particularmente a um fato acontecido ontem à noite
durante as danças e merecedor dos maiores elogios da diretoria.
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6. Porque aqui, meus senhores e senhoras, revelando uma cultura pouco
vulgar, em juventudes desta idade, as sócias e sócios não cogitam tão-somente dos
adornos que eletrizam os do respectivo sexo oposto. Não! Praticam os desportos!
Seguindo a lição da Grécia, realizam o eterno anexim Mens sana in corpore sano. Aqui
não se lêem romances de baixa palude literária nem versos futuristas! Só se lê Rui
Barbosa. Não! Aqui, formam-se dignos filhos e filhas do grande ser que Bilac
chamou na sua frase cinzelada e lapidar ‘Astuta e forte, a grande mãe das raças,
Eva!’
7. Ontem, quando sócias e sócios se entregavam às dulçorosas e inocentes
graças dos voluteios de uma valsa lânguida, uma traiçoeira panne veio inundar de
treva o recinto de fulgurantes ouropéis. Morreu nos lábios de todos o sorriso da
bem-aventurança! As moças nessa idade cor-de-rosa dos sonhos e dos anseios
ficaram melancólicas e assustadas, procurando como se as perseguisse uma miopia
indizível um braço sólido que as arrimasse. Em vão! Nenhum!
8. Perfilados como heróis, os seus pares permaneceram como que fulminados
por raios da cólera divina! (Risos contidos de moças e moços.)
9. Quando se restabeleceu a corrente pérfida da Light, estavam todos a
sessenta centímetros mais ou menos de distância, em atitude calma e respeitabunda.
Vê-los era como ver viajores extáticos que se dessedentam na esperança e na fé dos
castos beijos da brisa.
10. Isto é digno de Plutarco! O feminismo contemporâneo esbarrondar-se-ia na
sua verbosidade grácil ante o rochedo deste fato. Res non verba!
11. Visto isso, só tenho a inserir na ata do Recreio Pingue-pongue um
verdadeiro e auspicioso hino congratulatório aos moços que, como verdadeiros São
Luíses, se mantiveram em hora tão perigosa na postura que os levará mais tarde
como maridos aos fulgurantes páramos da ventura conjugal!
12. Bendita terra que possui tais efebos! Pátria, latejo em ti! (Sorrisos e palmas.)
Memórias Sentimentais de João Miramar. 3ª ed., Rio de Janeiro : Ed.
Globo, 1990, pp. 104-105
Você deve ter tido dificuldade com o sentido de várias palavras que o
obrigaram a consultar o dicionário. O uso ostensivo de preciosismos lexicais,
expressões latinas, maneirismos sintáticos e analogias pretensamente requintadas
possui a função de impressionar o público, em consonância com um estilo e uma
ideologia (a do bem falar, próprio dos bacharéis, dos letrados) reinantes nos fins
do século XIX e início do século XX.
O texto de Oswald de Andrade é uma paródia ao Parnasianismo, escola
literária com grande influência naquele período, cujo maior representante, Olavo
Bilac, é citado, assim como um dos seus versos (“Pátria, latejo em ti!”).
A paródia, como fenômeno discursivo, degrada e ridiculariza o discurso
parodiado, não o ratifica, entra em tensão com ele, negando-o. Essa negação é
Prática de texto: leitura e redação
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melhor compreendida pelo contexto (o livro considerado como um todo), mas
pode ser bem observada nos efeitos retóricos (e involuntariamente cômicos)
apontados, que dissimulam o vazio do conteúdo, motivo da crítica, aliás, que se
faz ao próprio Parnasianismo.
� Questões sobre o texto
a) Quais elementos do texto comprovam o vazio do conteúdo?
b) No terceiro parágrafo, há uma imagem que faz referência a um
elemento do repertório árcade (séc. XVIII). Qual é?
c) O Dr. Mandarim Pedroso é um dos intelectuais de província adeptos
da verve oratória dominante na época. Ele dispara uma crítica ao Modernismo.
Encontre-a.
d) Reescreva o nono parágrafo, privilegiando as palavras do seu próprio
vocabulário.
2. Para a resolução deste exercício, faz-se necessária a leitura dos três textos
abaixo. Inicialmente, trecho do livro Linguagem e Ideologia (Ática, 1988), de
José Luiz Fiorin:
I. Um discurso pode aceitar, implícita ou explicitamente, outro discurso, pode
rejeitá-lo, pode repeti-lo num tom irônico ou reverente. Por isso é que o discurso é
o espaço da reprodução, do conflito ou da heterogeneidade. As relações
interdiscursivas podem, assim, ser contratuaisou polêmicas.
Dois discursos que consideram o brasileiro um homem cordial, pacífico, que cultua a
conciliação, mantêm entre si uma relação contratual. Um tipo de discurso segundo o qual o
homem deve conformar-se com sua situação na Terra para ganhar o reino de Deus está em
relação polêmica com outro para o qual o reino de Deus deve começar a ser construído aqui
na Terra pela implantação da justiça e que todos os homens devem lutar para que isso se
efetive. (p. 45)
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II. Agora leia trechos da entrevista com o sociólogo americano Herbert
Gans, professor da Universidade de Columbia em New York:
A - Pobreza não é uma escolha do indivíduo nem uma condenação divina. É
resultado de forças sociais. (p. 7)
B - A derrota política dos pobres é tão grande que eles próprios se acabam
convencendo de que são um peso a comunidade e não merecem que os
mais favorecidos se sacrifiquem por eles. Nos Estados Unidos, muitos
acham que perderam o emprego porque não se esforçam o suficiente. (p. 8)
C - Os pobres aparecem nos meios de comunicação, na literatura e até nos
trabalhos acadêmicos estigmatizados como preguiçosos, arredios às novas
tecnologias e até como criminosos. A imoralidade se tornou atributo de
classe. Ninguém pode ser apenas simples e honradamente pobre. (p. 10) -
(Veja, 17 jan. 96)
III. Leia, por fim, a letra da música Haiti, de Caetano Veloso:
Quando você for convidado pra subir no adro
da Fundação Casa de Jorge Amado
pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
dando porrada na nuca de malandros pretos
de ladrões mulatos e outros quase brancos
tratados como pretos
só pra mostrar aos outros quase pretos
(e são quase todos pretos)
e aos quase brancos pobres como pretos
como é que pretos pobres e mulatos
e quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
e não importa se olhos do mundo inteiro
possam estar por um momento voltados para o largo
onde os escravos eram castigados
e hoje um batuque um batuque
com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
em dia de parada
e a grandeza épica de um povo em formação
nos atrai, nos deslumbra e estimula
não importa nada: nem o traço do sobrado
Prática de texto: leitura e redação
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nem a lente do Fantástico, nem o disco de Paul Simon
ninguém, ninguém é cidadão
se você for ver a festa do Pelô, e se você não for
pense no Haiti, reze pelo Haiti
o Haiti é aqui – o Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer qualquer
plano de educação que pareça fácil
que pareça fácil e rápido
e vá representar uma ameaça de democratização
do ensino de primeiro grau
e se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
e o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
e nenhum no marginal
e se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual,
notar um homem mijando na esquina da rua sobre um
saco brilhante de lixo do Leblon
e quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
e pobres são como podres e todos sabem como se tratam os
pretos
e quando você for dar uma volta no Caribe
e quando for trepar sem camisinha
e apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
pense no Haiti, reze pelo Haiti
o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui
(Tropicália 2. Polygram, 1993)
� Questões sobre os três textos
a) Do ponto de vista discursivo, os textos de Herbert Gans e Caetano Veloso
mantêm entre si relações "contratuais" ou "polêmicas"? Justifique sua resposta
com elementos dos dois textos.
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b) Considere o trecho B- da entrevista de Herbert Gans e explique o efeito,
explícito nessa passagem, da ideologia dominante sobre os pobres.
c) No texto de Caetano Veloso, o autor registra que "Ninguém, ninguém é
cidadão". De quem é essa concepção e qual é o seu alvo? Qual é o sentimento
do eu-lírico diante de tal constatação?
3. O texto abaixo pertence à Ópera do Malandro, de Chico Buarque de
Hollanda, obra baseada na Ópera dos Mendigos, de John Gay (1728), e na
Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weil (1928). "Geni e o
Zepelim" inspira-se na novela "Bola de Sebo", de Guy de Maupassant (1850-
1893) da qual toma emprestados vários elementos narrativos.
As personagens que dão nome às duas obras possuem personalidades
bastante diferentes. Geni é o apelido de Genival, empregado de um
contrabandista do Rio de Janeiro da década de 40, que acaba delatando o patrão.
O nome Geni se deve ao fato dele às vezes se vestir de mulher.
Bola de Sebo é uma prostituta ingênua que viaja em uma carruagem
junto com representantes da sociedade francesa: um casal de negociantes, um
casal de industriais, um casal de nobres, religiosas e um ex-revolucionário.
A diligência, em passagem pela cidade de Rouen, é impedida de seguir
viagem pelo comandante das tropas prussianas que ocupam o lugar. Depois, o
oficial impõe uma condição para a liberação da diligência: passar uma noite com
Bola de Sebo. O desfecho da novela de Maupassant também serviu de referência
para o texto de Chico Buarque. Leia-o e responda as duas questões propostas.
Geni e o Zepelim
De tudo que é nego torto/ Do mangue e do cais do porto/ Ela já foi
namorada/ O seu corpo é dos errantes/ Dos cegos, dos retirantes/ É de quem não
tem mais nada/ Dá-se assim desde menina/ Na garagem, na cantina/ Atrás do
tanque, no mato/ É a rainha dos detentos/Das loucas, dos lazarentos/ Dos
moleques do internato/ E também vai amiúde/ Co’os velhinhos sem saúde/ E as
viúvas sem porvir/ Ela é um poço de bondade/ E é por isso que a cidade/Vive
sempre a repetir/Joga pedra na Geni/ Joga bosta na Geni/ Ela é feita pra apanhar/
Ela é boa de cuspir/Ela dá para qualquer um/ Maldita Geni/
Prática de texto: leitura e redação
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Um dia surgiu, brilhante/ Entre as nuvens, flutuante/ Um enorme zepelim/
Pairou sobre os edifícios/ Abriu dois mil orifícios/ Com dois mil canhões assim/ A
cidade apavorada/ Se quedou paralisada/Pronta pra virar geléia/ Mas do zepelim
gigante/ Desceu o seu comandante/ Dizendo – Mudei de idéia/ – Quando vi nesta
cidade/ – Tanto horror e iniqüidade/– Resolvi tudo explodir/– Mas posso evitar o
drama/ – Se aquela formosa dama/ – Esta noite me servir/
Essa dama era Geni/ Mas não pode ser Geni/ Ela é feita pra apanhar/ Ela
é boa de cuspir/ Ela dá qualquer um/Maldita Geni/
Mas de fato, logo ela/ Tão coitada e tão singela/ Cativara o forasteiro/ O
guerreiro tão vistoso/ Tão temido e poderoso/ Era dela, prisioneiro/ Acontece que
a donzela/ – e isso era segredo dela/ Também tinha seus caprichos/ E a deitar com
homem tão nobre/ Tão cheirando a brilho e a cobre/ Preferia amar com os
bichos/ Ao ouvir tal heresia/ A cidade em romaria/ Foi beijar a sua mão/ O
prefeito de joelhos/ O bispo de olhos vermelhos/ E o banqueiro com um milhão/
Vai com ele, vai, Geni/ Vai com ele, vai, Geni/ Você pode nos salvar/
Você vai nos redimir/ Você dá pra qualquer um/ Bendita Geni/
Foram tantos os pedidos/ Tão sincero, tão sentidos/ Que ela dominou seu
asco/ Nessa noite lancinante/ Entregou-se a tal amante/ Como quem dá-se ao
carrasco/ Ele fez tanta sujeira/ Lambuzou-se a noite inteira/ Até ficar saciado/ E
nem bem amanhecia/ Partiu numa nuvem fria/ Com seu zepelim prateado/ Num
suspiro aliviado/ Ela se virou de lado/ E tentou até sorrir/ Mas logo raiou o dia/ E
a cidade em cantoria/ Não deixou ela dormir/
Joga pedra na Geni/ Joga bosta na Geni/ Ela é feita pra apanhar/ Ela é boa
de cuspir/ Ela dá pra qualquer um/ Maldita Genia) Reflita sobre a relação que a sociedade mantém com a prostituta e faça uma
analogia com a música de Chico Buarque, destacando as partes que justificam
sua argumentação.
b) A ação do texto de Maupassant desenvolve-se na França pós-revolucionária e
o de Chico Buarque, como assinalamos, na década de 1940. Concedendo valor
de testemunho da realidade social aos textos, existe alguma diferença entre os
dois períodos da História, neles retratados, e os dias atuais, no que diz respeito à
relação da sociedade com o fenômeno da prostituição? Justifique.
4) (Fuvest - modificada) Leia o texto abaixo:
Cidadezinha qualquer
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Carlos Drummond de Andrade
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
a) Que aspectos da realidade nacional estão representados nas duas primeiras
estrofes?
b) Que valores estão implícitos no ponto de vista adotado pelo poeta no último
verso do poema?
c) A mesma oração repete-se nos versos 4, 5 e 6, mudando apenas o sujeito.
Exponha, com base no próprio poema, a intenção contida tanto na mudança
quanto na repetição.
d) Ainda nesses versos, a oração mantém a mesma ordem da construção,
invertendo-a no 7º verso. Explique a conseqüência da inversão no cenário que se
oferece da cidadezinha.
5) “Ele é o homem, eu sou apenas uma mulher.”
Nesses versos, reforça-se a oposição entre os termos homem e mulher.
a) Identifique os recursos lingüísticos utilizados para provocar esse reforço.
b) Explique por que esses recursos causam tal efeito.
c) Pode-se dizer que esse discurso cristaliza alguma ideologia? Qual?
Prática de texto: leitura e redação
61
6) Como é que o senhor pode sentir qualquer prazer em atirar sobre esses pobres
animais que estão pastando com tanta inocência, que estão ali na floresta sem
nenhuma defesa e que ignoram o que os espera, Herr Kersten? Na verdade, é puro
assassinato... A natureza é muito bela e os animais têm todo o direito de viver. É
este modo de ver que eu tanto admiro em nossos ancestrais... Esse respeito pelos
animais existe em todos os povos indo-germânicos. Outro dia eu soube, com o
maior interesse, que ainda hoje os monges budistas não saem para passear na
floresta sem um sininho de aviso aos pequenos animais em que poderiam pisar sem
ver, para que saiam de seu caminho para não lhes fazerem mal. E pensar que entre
nós ninguém hesita em pisar nas lesmas e que esmagamos os vermes!
apud Hans Magnus Enzensberger, "Reflexões diante de uma
vitrine", Revista USP (9), 1991, p. 15
O texto acima reproduz trecho de conversa que Adolph Hitler mantém com
seu massagista, Feliz Kersten, a quem censura o hábito da caça. No contexto
histórico dominado pela ideologia do nazismo na Alemanha, esse diálogo ganha
um significado inesperado. Explique.
Proposta de redação
(ESPM - modificada) Redija um texto em que você possa discutir as
implicações ideológicas e éticas sobre o papel da propaganda, considerando o
que vem expresso no parágrafo a seguir:
O produto da propaganda não se limita apenas à marca, à mercadoria ou ao
serviço que ela anuncia. É sempre muito mais que isso: há valores,
conceitos, idéias e comportamentos envolvidos em qualquer peça
publicitária. Será possível, portanto, imaginar que os responsáveis pela
criação dos anúncios deixem de considerar os limites da ética, em suas
atividades? Não faltam exemplos de como a propaganda pode influir,
positiva ou negativamente, no comportamento das pessoas.
Melo & Pagnan
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Capítulo 5
Discurso
Normalmente, quando usamos o termo discurso, tendemos a considerar
como tal, apenas aquelas longas explanações de um político em um comício, ou
as de um orador em uma assembléia, reunião, homenagem ou em qualquer outra
situação de caráter coletivo, em que uma pessoa expressa uma opinião para certo
número de pessoas.
Prática de texto: leitura e redação
63
Na verdade, discurso é algo mais comum do que se imagina. Discurso é
todo enunciado pelo qual nos expressamos no dia-a-dia, seja para falarmos de
uma partida de futebol ou do último capítulo de uma novela, seja quando
organizamos nossas idéias num texto escrito, como no caso deste livro. Em
outras palavras, uma oração, uma frase configuram um discurso, bem como os
parágrafos, a fim de que se produza o texto. Isto não significa que texto e
discurso sejam exatamente sinônimos, mas apenas que o texto é construído pelo
discurso.
Observe, na peça ao lado, da
agência DPZ, a proeminência
de um discurso segundo o
qual toda pessoa deve
preocupar-se com a boa
aparência física,
independentemente da idade.
O discurso se
manifesta na voz de um
enunciador, no ponto de
vista que ele assume para
manifestar sua visão de mundo.
Nesse sentido, um discurso pode expressar os valores de um moralista, de
um ateu, de um indivíduo ligado à direita política, ou à esquerda, e assim por
diante. No entanto, essa visão que temos das coisas, da política, da religião, do
relacionamento amoroso etc., não é construída totalmente de modo individual.
Ou seja, ao expressarmos uma opinião, estamos, na verdade, expressando
concepções constituídas no âmbito de um discurso comum15.
Por exemplo, quando um indivíduo se diz favorável à pena de morte, ao
aborto, ao homossexualismo, ao sexo livre, ele pode, em verdade, estar
expressando não seu ponto de vista particular, e sim se utilizando de um discurso
corrente e dominante em dado momento da história dos homens. O mesmo
ocorre se for contrário às práticas enumeradas.
Assim, se um indivíduo quer, não apenas repetir um discurso dominante,
mas expressar sua opinião de modo seguro e convincente, é preciso que faça
15
Para uma reflexão mais ampla em torno da relação discurso e valores, ver o capítulo anterior,
"Conceito de ideologia".
Melo & Pagnan
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64
uma reflexão sobre o mundo que o cerca, sobre os textos que lê, sobre as
informações que ouve, e assim por diante.
Leia-se, a exemplo, um texto escrito pelo ex-ministro – do Governo
Militar – e ex-senador Roberto Campos, em que expressa seu ponto de vista em
relação ao julgamento do ex-presidente do Chile, Augusto Pinochet16.
A lógica do absurdo
O pedido de extradição do general Pinochet feito à justiça inglesa pelo juiz Baltasar Garzón
só faz sentido dentro da lógica do absurdo. Se o bom juiz, que se autonomeou defensor “global”
dos direitos humanos, fosse apostólico ao invés de exibicionista, priorizaria melhor seus alvos. No
atletismo da violência, no desprezo pela vida humana e na sofisticação das torturas, Fidel Castro,
beneficiário da longa experiência soviética, revelou maior determinação e melhor tecnologia do que
Pinochet. Matou mais gente, aprisionou mais gente, torturou e exilou mais gente do que o ditador
chileno. Baltasar Garzón parece desinteressado nessa contabilidade do terror.
Pinochet foi ditador durante 17 anos, e Fidel o é há 40 anos. Aquele aceitou deixar o poder
após plebiscito democrático, ao qual já se sucederam duas eleições presidenciais democráticas. Esse
rodízio de lideranças pareceria obsceno a Fidel. Atribuem-se à repressão chilena entre 3.000 e 4.000
mortos e desaparecidos. Fidel fuzilou 17 mil e não se sabe quantos pereceram nas prisões ou
devoradospelos tubarões do Caribe, como náufragos “balseros”. Cerca de 30 mil dissidentes
chilenos deixaram o país em protesto contra Pinochet. Dois milhões de cubanos (20% da
população) fugiram do paraíso de Fidel. O Chile é hoje a mais estável economia da América Latina,
e Cuba, o maior desastre econômico da região. Pinochet impediu que o Chile caísse vítima de um
experimento comunista, com seus conhecidos componentes: campos de concentração, ditadura do
partido e degradação econômica. (Note-se que o pioneiro na introdução de gulags foi Che Guevara,
que criou o “Campo de trabalho coletivo” na península de Guanaha). O que Fidel fez foi
interromper a evolução de Cuba de um regime mercantil-patrimonialista para um regime capitalista,
que no correr do tempo levaria a uma abertura política.
Se tivesse imparcialidade judicatória na defesa dos direitos humanos, o
ilustre juiz, simultaneamente com a extradição de Pinochet, promoveria a
extradição de Fidel. Este, aliás, estava geograficamente mais próximo das cortes
espanholas, pois participava de uma reunião em Portugal de chefes de Estado
ibero-americanos (cerimônia que Vargas Llosa chama de “palhaçada anual”). A
lógica implícita na sentença espanhola unilateral é que matar comunistas é crime
hediondo, que a comunidade internacional deve punir, mas fuzilar burgueses e
liberais é simples purificação ideológica.
Jornal Gazeta do Povo, 01 nov. 1998.
16
Como se sabe, o líder chileno conseguiu escapar desse julgamento na Espanha, mas, ao que
parece, sofrerá um processo no próprio Chile. Em agosto de 2000, o ex-presidente e senador
vitalício perdeu a imunidade parlamentar, abrindo uma possibilidade de ser julgado pela
acusação dos crimes cometidos durante o período em que governou o Chile (1973-1990).
Prática de texto: leitura e redação
65
Análise
O texto, escrito em 3ª pessoa, cria uma ilusão de objetividade, de
distanciamento em relação aos fatos tratados, o que sugere a idéia de verdade em
si mesma. Porém, uma análise de alguns elementos do texto permitirá ao leitor
depreender a perspectiva e a intromissão do autor no texto.
Note-se, no segundo parágrafo em especial, como se dá a exposição dos
fatos. Quando fala de Pinochet, o texto é sempre vago: “Atribuem-se...” (quem
atribui?), “Cerca de 30 mil...”; no entanto, ao falar de Fidel Castro, as afirmações
são categóricas: “Fidel fuzilou – e não mandou fuzilar! – 17 mil...”, “Dois
milhões de cubanos (20% da população) fugiram...”. Nesse sentido, a acusação
de que o juiz Baltasar Garzón não demonstraria imparcialidade ao julgar um e
não outro corre o risco de perder-se no próprio discurso de um intelectual que
participou, como ministro, de outro governo ditatorial, o dos militares no
período de 1964 a 1985; surpreendentemente Campos até parece desconhecer o
bloqueio econômico17 imposto à ilha caribenha pela maior potência do planeta,
os Estados Unidos, já que não faz qualquer referência a ele, ou ainda o fato de
Pinochet ocupar uma cadeira vitalícia no senado chileno, permanecendo,
portanto, como um dos homens fortes do país.
Fica bastante clara a tentativa de se criar uma verdade inquestionável
através de um discurso aparentemente objetivo sobre o assunto.
Atente-se, porém, que a “perspectiva” de um autor não deve ser
confundida com “parcialidade”, com “paixão partidária”, pois esta pode implicar
o alinhamento sem critério a uma determinada facção, com prejuízo da
argumentação e do compromisso com a verdade.
Assim, para defender a idéia de que Fidel Castro, mais que Augusto
Pinochet, deveria ser julgado pelos crimes cometidos à frente do governo
cubano, Campos constrói um discurso utilizando-se de argumentos que
demonstram parcialidade diante dos fatos apresentados. O discurso construído é
17
Note-se que o texto de Campos é datado de novembro de 1998, época em que as relações com
os Estados Unidos continuavam tensas, em decorrência do bloqueio econômico. A Revolução
Cubana, ocorrida no final da década de 1950, pôs fim ao domínio norte-americano na ilha. Em
1962, inicia-se o embargo econômico contra a ilha, o qual, no entanto, pouco a pouco vem sendo
suspenso como resultado de iniciativas do Congresso americano, que aprovou, em junho de
2000, uma lei autorizando a venda de alimentos e de remédios para Cuba. Outros países, a
exemplo do Canadá, Espanha e França, voltaram a negociar com a ilha caribenha, e outros, como
Itália, México e o próprio Canadá, investem conjuntamente mais de US$ 1,5 bilhão de dólares
por ano.
Melo & Pagnan
66
66
ideologicamente conservador, a ponto de concluir que uma ditadura de direita
(posto que defenderia a liberdade!, como sugere Campos) é melhor que uma
ditadura de esquerda.
No texto a seguir, o autor, o Prof. Antonio Candido, analisa o papel
histórico do socialismo em Cuba, destacando as profundas transformações de
natureza social e econômica que fizeram do país, segundo ele, uma sociedade
mais fraterna e justa. Observe que o autor reconhece os vários entraves políticos
e os resultados negativos para a vida do país (“governante imutável, hegemonia
de um partido único...”), conferindo ao texto maior força argumentativa,
identificada a um raciocínio dialético18; com isso Candido não se mostra
indiferente a fatos concretos, embora seu objetivo não seja discutir a existência
ou não de “métodos democráticos em Cuba” mas demonstrar o êxito do
programa socialista. (O texto de Antonio Candido é datado de 1991, quando
Cuba mantinha ainda estreita relação econômica com a então União Soviética,
que investiu cerca de US$ 6 bilhões por ano na ilha; de lá para cá a situação de
Cuba agravou-se ainda mais, sobretudo se considerarmos, como se referiu, a
continuidade do bloqueio econômico promovido pelos Estados Unidos).
Cuba e o socialismo
Um triste espetáculo é a alegria feroz com que os políticos e cidadãos que se dizem
democratas, os jornais, o rádio, a TV descrevem as dificuldades de Cuba, na alvoraçada
esperança de uma derrocada do seu regime. Parece que lhes dá prazer noticiar e comentar
que falta alimento e roupa, as máquinas agrícolas estão sendo puxadas por animais, a
bicicleta substitui o automóvel. Com certeza esperam que o regime odiado acabe na fome,
na miséria e na desgraça coletiva, a fim de pagar os sustos que deu.
Um dos pressupostos desta atitude é que o socialismo não funciona. Provavelmente, para
esses críticos eufóricos o que funciona é a “democracia” brasileira, que só pode ser
mencionada entre aspas, pois tem não apenas mantido, mas cultivado e agravado a miséria
de um povo que, cinco séculos depois do Descobrimento, não sabe ler, vive doente, sofre
todas as privações, e portanto, serve de boa massa para os demagogos elegerem quanto
aventureiro consiga vender a sua deteriorada mercadoria política. Isso, quando as classes
dominantes não resolvem salvar a pátria por meio do singular instrumento “democrático”
que são os golpes mais ou menos militares.
Mas o fato é que (repita-se pela enésima vez) o regime cubano conseguiu o que nenhum
outro tinha conseguido na América Latina: tirar o povo da sujeição torpe e dar-lhe o
sentimento da própria dignidade, graças à aquisição dos requisitos indispensáveis – saúde,
alimentação, relativa equivalência de oportunidades, afastamento mínimo possível entre os
salários mais altos e os mais baixos. Note-se que isso não é uma vaga esperança; é uma
18
Raciocínio construído pela “interpenetração de contrários”, uma forma de captar a totalidade
do real, visando uma síntese.
Prática de texto: leitura e redação
67
realidade. E mesmo que o regime cubano dureapenas o tempo de uma geração, ele terá
mostrado que o socialismo é possível nesta parte do mundo, permitindo uma vida de teor
humano em contraste com a iniqüidade mantida pelas oligarquias.
Não há dúvida de que existem em Cuba muitos erros e violências, como os há infelizmente
em toda a parte, mesmo nos momentos em que predominam as boas tendências de
humanização do homem. Em Cuba é negativo haver coisas como governante imutável,
hegemonia de um partido único, pouca liberdade de opinião, imprensa sem vida,
dissidentes podados quando ultrapassam os apertados limites estabelecidos. Os cubanos
sabem disso e com certeza já teriam adotado medidas de desafogo e correção se não
vivessem praticamente em estado de guerra, numa espécie de acampamento sitiado, com
uma guarnição norte-americana plantada na ponta ocidental da ilha e todo o poderio militar
dos Estados Unidos a cento e tantos quilômetros, mais ou menos como daqui a
Guaratinguetá.
No entanto, embora seja importante discutir se há ou não métodos democráticos em Cuba,
creio que neste momento é ainda mais importante perguntar se o regime cubano propiciou
ou não um modo de vida que pode ser considerado socialista. A resposta é afirmativa,
porque ele realizou nesta parte do mundo o que os regimes oligárquicos conservadores
nunca fizeram, e na verdade nunca quiseram efetivamente fazer. E realizou mediante a
tentativa de um novo tipo de Estado, que se relaciona de maneira diferente com a
sociedade, demonstrando a possibilidade de superar o capitalismo predatório a que estamos
acostumados.
Para esse fim, é certo que teve de trocar de dependência, pois no mundo contemporâneo,
cada vez mais interligado, quase não há lugar para os pequenos países, obrigados a integrar-
se em sistemas mais amplos. Antes, Cuba pertencia à esfera dos Estados Unidos. Depois da
revolução de 1959 pôde não apenas sobreviver, mas cumprir o seu programa nacional,
ligando-se à União Soviética. Qual a diferença, admitindo que se trate de duas dependências
configuradas? A diferença é que no primeiro caso ela vivia, como os demais países latino-
americanos, tutelada pelo capital devastador de uma grande potência que mantinha as
estruturas oligárquicas de espoliação, inclusive a mais importante, a mais rendosa e decisiva:
o abismo entre rico e pobre, que faz do rico um súdito da grande potência e do pobre um
servo espoliado. A passagem para a esfera soviética permitiu as conquistas humanizadoras
que todos conhecem e reconhecem. Enquanto os Estados Unidos apóiam e cevam os
Batistas, os Somozas, os Estradas Cabreras, a União Soviética facilitou a atividade
construtora e transformadora de um grande e generoso líder popular, cuja estatura Alceu
Amoroso Lima equiparou à de Bolívar.
O projeto nacional de Cuba fez que a sua ligação com a União Soviética não fosse, como
foi noutros países, uma subordinação, mas de fato uma cooperação. Tal projeto se baseia
na tradição das guerras da Independência, a partir das quais formaram-se um conceito e
uma prática de povo armado, que mais tarde renasceram na guerrilha revolucionária e
asseguraram uma espécie de democracia de acampamento, da qual emergiu o tipo singular
de relação do povo com os líderes.
Por tudo isso, ela pôde efetuar uma síntese original e realizar nesta América encharcada de
iniqüidade uma vida mais justa e mais igualitária, que representa algo insuportável para a
prepotência imperialista. Por isso, Cuba desperta em todos os conservadores um ódio
Melo & Pagnan
68
68
quase irracional, que agora se traduz na alegria selvagem que ficou assinalada no começo
desse artigo. (...)
Recortes. São Paulo : Companhia das Letras, 1993, pp. 162-164
A citação do discurso alheio
Os discursos são construídos a partir de uma perspectiva subjetiva –
mesmo quando desenvolvidos em 3ª pessoa, o que sugeriria a idéia de
objetividade. Em outros termos, ainda que à primeira vista um discurso possa
"aparecer" muito mais do que o autor que o proferiu, não podemos nunca
desconsiderar a presença deste. Afinal, a autonomia do texto, em relação a seu
autor, é relativa, pois se é verdade que o texto conserva marcas do tempo e
espaço em que "aparece" como produção intelectual artística, pragmática etc.,
tanto mais evidente será o fato de que as aludidas "marcas" se efetivam a partir
da experiência do autor como indivíduo de certa sociedade e de um determinado
tempo. É ele quem filtra os dados da realidade e os transpõe para o interior do
texto, já como uma leitura particular do mundo.
A construção do texto, conforme temos procurado demonstrar, não é um
ato isolado, um ato eminentemente individualizado. Fazemos, com freqüência,
alusões a opiniões de outras pessoas, de outros estudiosos (ou personagens,
instituições etc.) que estão em acordo ou em desacordo com nossas idéias. A
citação de outros discursos em um texto pode ser textual ou contextual:
a) Textual: quando um autor incorpora em seu texto um trecho de um outro
livro, de um artigo, transcrevendo-o literalmente. Neste caso, deverá usar
aspas para demarcar o que lhe pertence e o que pertence ao outro;
b) Contextual: quando um autor incorpora em seu texto trechos de um outro
livro, de um artigo, transcrevendo-os de forma resumida ou fazendo deles
uma paráfrase.
Essa prática é muito usual em trabalhos acadêmicos, como a monografia
e a dissertação, em que pode funcionar como argumento de autoridade ou como
prova testemunhal para aquilo que se afirma. Não se deve, porém, abusar dessa
prática para que o trabalho não redunde em uma mera coletânea de citações. A
título de exemplo, leia o parágrafo a seguir e observe como a professora Ana
Maria Macedo Valença, em discussão acerca das relações amorosas, se utiliza da
fala de um outro estudioso, o poeta Octávio Paz, para comprovar o que afirma:
Prática de texto: leitura e redação
69
No final do século, as sociedades parecem já não conceder ao amor e à paixão o
lugar de destaque outrora ocupado por esses sentimentos. Octávio Paz fala clara e
lucidamente sobre esse "paulatino crepúsculo da imagem do amor nas sociedades",
esclarecendo sobre o poder do dinheiro, que vem corroendo a liberdade de amar.
Permite-se que a liberdade erótica seja confiscada pelos poderes do capital, do
mercado e da publicidade. O corpo vem sofrendo a dessacralização e vem sendo
utilizado a serviço da propaganda. Sobre tudo isso, é contundente o discurso de
Octávio Paz: "A sociedade capitalista democrática aplicou as leis impessoais do mercado e a
técnica da produção em massa na vida erótica. Assim a degradou, embora como negócio tenha sido
grande sucesso." A conseqüência apontada em A dupla chama - Amor e Erotismo é a
de que o amor, que foi suporte moral e espiritual das sociedades durante milênios,
está ferido de morte. De um lado, a promiscuidade traz uma pseudo-liberdade
erótica que, subvertendo o afeto, transforma-o em passatempo. De outro, o poder
do dinheiro, o apego ao patrimônio e ao desejo de preservá-lo. Nesse contexto, o
amor é impossível, não há espaço para ele. Da lucidez do pensamento de Octávio
Paz podemos deduzir que a dupla chama (amor e erotismo) em seu sentido mais
puro e essencial, ligada à profundidade do prazer íntegro, espiritual e pleno, vem
sendo paulatinamente abafada.
Ana Maria Macedo Valença. "O amor: da posse à perda". Revista de Literatura.
Essas citações, textual e contextual, podem ser caracterizadas de modo
mais específico. No primeiro caso, tem-se o discurso direto; no segundo, o
discurso indireto. Além desses dois, há ainda o discurso indireto livre.
Vejamos cada um deles em detalhe, com o objetivo de facilitar não só a
compreensão de textos em geral, mas também o de auxiliar-nos na composição
de resumos, de resenhas e de paráfrases, gêneros com que iremos trabalhar
adiante.� Discurso direto
Uma noite, o velho José Paulino tossia. [Maria Alice] levantou-se e foi como
uma filha dedicada dar uma dose de calmante ao velho. Conversou com ele
uma porção de tempo, repetindo duas, três vezes, para que ele ouvisse, a
mesma coisa. De manhã, me procurou para falar da saúde dele:
– Escrevi para Antonio me mandar um ótimo remédio que ele tem em casa. O coronel
não dormiu nada a noite de ontem.
Agradeci o interesse. Viera ali para descansar e estava fazendo de
enfermeira.
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– Que nada. Não tenho mais coisa nenhuma. Os médicos me faziam doente e o pior é
que o meu marido acredita.
José Lins do Rego. Bangüê.
Há, no texto acima, um narrador, alguém que conta a história. No caso,
trata-se de Carlos, personagem protagonista de Bangüê. Além do discurso do
narrador do romance, há também o discurso de Maria Alice, outra personagem.
Este discurso chega ao leitor diretamente, sem a mediação do narrador. O
máximo que faz é introduzi-lo através de um verbo dicendi, ou de elocução,
como falar:
De manhã, me procurou para falar da saúde dele:
Há diversos verbos dicendi, dentre os quais destaquemos os seguintes:
♦ afirmar, negar, confirmar, falar, lembrar, retrucar, responder, avaliar,
contradizer, justificar, dizer etc.
Esse tipo de verbo, ainda que não imprescindível, é utilizado com muita
freqüência para introduzir o discurso direto. Outras marcas caracterizam este
tipo de discurso:
♦ uso de travessão ou de aspas;
♦ uso de dois pontos, após o verbo de dizer.
Em outras palavras, além do discurso do narrador – "Uma noite, o velho
José Paulino tossia." – há o discurso da personagem (Maria Alice) – "O coronel
não dormiu nada a noite de ontem" –, colocado de modo direto pelo narrador.
Com o uso do discurso direto, cria-se uma ilusão da verdade, uma ilusão
de situação "real", pois tem-se a impressão de que se transcreveu literalmente o
que o outro disse. Com essa "função", é largamente usado pela mídia impressa –
jornais e revistas – para criar uma ilusão de que se preservou na íntegra a fala, o
discurso, do entrevistado. No caso propriamente dito da entrevista, não há a
mediação de um narrador, posto tratar-se de um diálogo.
O Estado de S. Paulo: O que é globalização?
Amartya Sen: É um processo muito antigo, de milhares de anos. A globalização hoje
é a continuação de movimentos internacionais de pessoas, idéias e bens, e toda a
história da civilização humana tem sido uma história de idéias, bens e seres
Prática de texto: leitura e redação
71
humanos movendo-se de um lugar para o outro. Até recentemente, metade do
mundo estava sob a influência da Europa e se você olhar mais para trás, para antes
da Revolução Industrial, você vai ver a influência na Europa da tecnologia chinesa,
da matemática hindu e árabe.
Estado: Mas a globalização, no mundo de hoje, é boa ou ruim?
Sen: Eu acho que a globalização ajudou muito a elevar o padrão de vida no passado
e também no presente. E considerar a globalização evitável é outro erro, porque
trata-se de um processo inexorável. A natureza da tecnologia, da ciência moderna e
as vantagens que existem nas trocas tornam absolutamente inexorável o fato de
que vai haver globalização econômica. Por outro lado, a crença de que os
mercados e a globalização econômica vão resolver todos os problemas do mundo
também é um erro, um erro muito grande.
Estado: Por quê?
Sen: Porque o mercado opera em um mundo de muitas instituições. Ele precisa da
democracia, precisa de uma estrutura legal justa, precisa de oportunidades sociais
eqüitativas em educação, saúde, etc. A economia de mercado e a globalização, por
si sós, não resolvem o problema da pobreza.
Para isso, é preciso ação política e social. O Brasil, por exemplo, é uma economia
capitalista bem-sucedida, mas onde a pobreza sobrevive em níveis que chamam a
atenção. A atitude certa é evitar a fobia do mercado, mas evitar também a mania do
mercado.
Entrevista concedida pelo economista indiano Amartya Sen, prêmio Nobel de
Economia de 1998, ao jornal O Estado de S. Paulo, julho 2000
� Discurso indireto
Leia o texto a seguir:
Uma senhora de nossa igreja conversava com a neta de 4 anos sobre o que
ela gostaria de ser quando crescesse. A menina respondeu que queria ser
bailarina. Em seguida, perguntou à avó o que sua irmã Juliana havia
decidido ser. A avó, conhecendo a vontade da outra neta, respondeu que ela
queria ser missionária. A netinha de 4 anos quis saber então da avó o que
era ser missionária. A boa senhora disse que era alguém que falava de Jesus
para outras pessoas. A menina parou por um instante e depois, em tom de
repreensão, disse que falar de Jesus era feio, pois era fazer fofoca.
Seleções Reader’s digest - texto modificado
Melo & Pagnan
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Veja que neste caso temos também um narrador e duas personagens: avó e
neta. Tanto uma quanto outra falam no texto, porém essa fala, esse discurso, não
chega até nós, leitores, diretamente; é um discurso revelado pelo narrador, por
isso chamamo-lo de indireto. O discurso é construído por avó e neta, mas
revelado, transcrito, pelo narrador.
Em outras palavras, no discurso indireto, a fala da pessoa ou personagem
é filtrada pelo discurso do narrador:
A avó, conhecendo a vontade da outra neta, respondeu que ela queria ser
missionária. A netinha de 4 anos quis saber então da avó o que era ser
missionária.
Do mesmo modo que no discurso direto, no indireto temos algumas
marcas que o especificam, como:
♦ ser também introduzido por um verbo de dizer; o travessão, porém, é
substituído pelas conjunções que ou se; além disto, deve-se atentar para as
mudanças com relação ao uso dos advérbios, dos pronomes, do tempo dos
verbos.
O uso do discurso indireto também é bastante comum em reportagens,
em notícias jornalísticas e em textos científicos. Por meio dele tenta-se “produzir
efeito de verdade objetiva; o jornal, com a aparência de afastamento, evita arcar
com a responsabilidade do que é dito, já que transmite sempre a opinião do
outro, o saber das fontes”19.
A diferença, porém, em relação ao discurso direto, é que no indireto
preserva-se apenas o conteúdo e não a integridade do que se diz.
Mais até que o jornalismo, do qual foi paradigma e referência, uma espécie
de velho sábio da tribo, quem perde com a morte de Barbosa Lima
Sobrinho é o país. Ele o deixa em plena crise, uma das mais graves vividas
por uma testemunha de 103 anos, que atravessou dois séculos e, por pouco,
por menos de seis meses, não entrava no terceiro.
(...)
Para ele, porém, a desesperança, o desencanto e o pessimismo atuais não tinham como
motivo apenas essa conjuntura de corrupção e impunidade. A causa fundamental teria
19Cf. Diana Luz Pessoa de Barros. Teoria Semiótica do Texto. 3ª ed., São Paulo : Ática, 1997, p.
56.
Prática de texto: leitura e redação
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sido o processo que começou com o golpe de 64. A desnacionalização da economia, a
política de alienação patrimonial, a invasão de empresas estrangeiras, tudo isso, segundo
ele, seria uma maneira de tentar provar que “o brasileiro é incapaz de gerenciar e
produzir”.
O doutor Barbosa era assim, tinha uma idéia fixa, uma obsessão: o país, seu
povo, sua potencial grandeza e a soberania que julgava perdida. Seu discurso
soava anacrônico a certos ouvidos neoliberais. Mas, na verdade, ele
reatualizou o tema do nacionalismo. Era nacionalista sem ser xenófobo;
gostava do Brasil sem deixar de admirar os Estados Unidos e o Japão, cujos
avanços e conquistas ele queria para o próprio país.
Zuenir Ventura. Época, 24 jul. 2000
No trechoem itálico, o autor do texto procura apenas revelar qual a
opinião do jornalista Barbosa Lima Sobrinho, isentando-se da declaração.
Além de verbos de elocução (dicendi), é muito comum que os discursos
direto e indireto sejam introduzidos por expressões como:
• Segundo ele...
• De acordo com...
• Para fulano...
• Conforme sicrano...
� Discurso indireto livre
Os dois casos anteriores são facilmente localizados em textos
acadêmicos, revistas, jornais, além de, é claro, em narrativas ficcionais, como
romances, contos ou novelas; o discurso indireto livre, porém, é mais comum em
obras literárias, uma vez que os discursos da personagem e do narrador,
propositalmente, se confundem; as marcas (a pontuação, os verbos dicendi, as
conjunções que e se) não ficam mais tão explícitas, e narrador e personagem têm
seus discursos misturados.
Deu um passo para a catingueira. Se ele gritasse "Desafasta", que faria a
polícia? Não se afastaria, ficaria colado ao pé de pau. Uma lazeira, a gente
podia xingar a mãe dele. Mas então... Fabiano estirava o beiço e rosnava.
Melo & Pagnan
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Aquela coisa arriada e achacada metia as pessoas na cadeia, dava-lhes surra.
Não entendia. Se fosse uma criatura de saúde e muque , estava certo. Enfim
apanhar do governo não é desfeita, e Fabiano até sentiria orgulho ao
recordar-se da aventura. Mas aquilo... Soltou uns grunhidos. Por que motivo
o governo aproveitava gente assim?
Graciliano Ramos. Vidas Secas. p. 110
Observe como é difícil separar qual o discurso do narrador e qual o
discurso da personagem. Há trechos ("Fabiano estirava o beiço e rosnava”;
“Não entendia” entre outros) que inequivocamente pertencem ao discurso do
narrador. No entanto, um trecho como “Se fosse uma criatura de saúde e muque,
estava certo” cria um campo de ambigüidade discursiva, já que a frase poderia
ser tanto da personagem quanto do narrador.
Essa é uma técnica literária para se chegar ao pensamento íntimo das
personagens, mais comum, portanto, no discurso ficcional.
Como transformar o discurso direto em indireto
Leia o trecho a seguir:
Não lhe erram os pressentimentos. Mal o pilhou portas aquém, o coronel
trancou o escritório, fechou a carranca e disse:
– A família Triburtino de Mendonça é a mais honrada nesta terra, e eu, seu
chefe natural, não permitirei nunca que contra ela se cometa o menor
deslize.
Parou. Abriu uma gaveta. Tirou de dentro o bilhetinho cor-de-rosa, desdobrou-o.
– É sua esta peça de flagrante delito?
O escrevente, a tremer, balbuciou medrosa confirmação.
Monteiro Lobato. O colocador de pronomes.
Prática de texto: leitura e redação
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Para efetuar a transformação de um discurso para outro, é necessário
observar:
♦ Verbos: no discurso indireto, o verbo sempre assume um tempo pretérito em
relação ao tempo do verbo no discurso direto. É o que ocorre, por exemplo,
em: A família Triburtino de Mendonça é a mais honrada. Na transposição, o
verbo, que está no presente, fica no pretérito imperfeito: A família Triburtino
de Mendonça era a mais honrada. Outras alterações possíveis:
� Pretérito perfeito / pretérito mais-que-perfeito
� Futuro do presente / futuro do pretérito
� Imperativo / pretérito imperfeito do subjuntivo
♦ Pronomes: Deve-se atentar para o fato de que, se no discurso direto, a
pessoa que fala é a primeira (eu, nós), no indireto, a pessoa tem de ser
alterada para a terceira (ele, eles): eu, seu chefe natural, não permitirei
ele, seu chefe natural, não permitiria.
♦ Pontuação: Na transformação de um discurso para outro, é preciso observar
a pontuação. No direto, os pontos – de exclamação, de interrogação etc. –
são usados de modo explícito: É sua esta peça de flagrante delito? No indireto,
por sua vez, devemos suprimir o ponto pelo verbo que indica sua presença:
Perguntou se era dele aquela peça de flagrante delito.
O trecho acima ficaria assim com o uso do discurso indireto:
Não lhe erram os pressentimentos. Mal o pilhou portas aquém, o coronel
trancou o escritório, fechou a carranca e disse a [Aldrovando Cantagallo]
que a família Triburtino de Mendonça era a mais honrada daquela terra, e
que ele, chefe natural, não permitiria nunca que contra ela se cometesse o
menor deslize.
Parou. Abriu uma gaveta. Tirou de dentro o bilhetinho cor-de-rosa,
desdobrou-o. Perguntou em seguida se aquela peça de flagrante delito era
dele.
O escrevente, a tremer, balbuciou medrosa confirmação.
Veja que se modifica apenas o discurso da personagem; o do narrador
permanece inalterado. Além disso, como no discurso indireto predomina a 3ª
pessoa, devemos observar essa característica para fazer corretamente a
transformação.
Melo & Pagnan
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� Outro exemplo
O escrevente ressuscitou. Abriu os olhos e a boca num pasmo. Depois,
tornando a si, comoveu-se e, com lágrimas nos olhos, disse, gaguejante:
– Beijo-lhe as mãos, coronel! Nunca imaginei tanta generosidade em peito
humano! Agora vejo com que injustiça o julgam aí fora!...
Monteiro Lobato. O colocador de pronomes.
Eis como fica o texto transformado:
O escrevente ressuscitou. Abriu os olhos e a boca num pasmo. Depois,
tornando a si, comoveu-se e, com lágrimas nos olhos, disse, gaguejante, ao
coronel, que lhe beijava as mãos e que nunca imaginara tanta
generosidade em peito humano. Completou exclamando que via então
com que injustiça o julgavam lá fora...
Antes de se efetuar qualquer transformação, é preciso sempre ter em
mente que não podemos alterar o significado original do texto. Por isto, ainda
que seja uma regra a mudança do tempo verbal, não poderemos aceitá-la quando
implicar alteração do sentido.
– O Senhor [Georges Dumézil] emprega o termo ideologia. Esse termo designa muitas
vezes representações falsas; mas não é nesse sentido que o senhor o emprega.
– De fato, além dos mitos, quis demarcar idéias-mestras que chamei de ideologias. Não
emprego esse termo no sentido filosófico; para mim, trata-se de uma palavra geral, como
representação. Não faço julgamentos de valor. Quando estudo a mitologia indo-européia,
esforço-me por restituir as representações.
Civilizações: entrevistas do Le Monde. S. Paulo : Ática, 1989, p. 90
O entrevistado utiliza o verbo empregar no presente do indicativo. Neste
caso, não podemos alterar o tempo do verbo, mas apenas a pessoa – de 1ª para
3ª. Assim, a frase ficaria do seguinte modo, adotando-se o discurso indireto:
Questionado qual o sentido do termo ideologia empregado por ele,
Dumézil respondeu que não emprega esse termo no sentido filosófico;
para ele, trata-se de uma palavra geral, como representação. Disse ainda que
Prática de texto: leitura e redação
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não faz julgamentos de valor. Quando estuda a mitologia indo-européia,
esforça-se por restituir as representações.
Exercícios
1) (PUC) Leia o período:
Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai à porta do Ateneu.
Considerando a possibilidade de várias organizações sintáticas para os
períodos compostos, assinale a alternativa em que não há alteração de sentido
em relação ao período acima indicado:
a) Meu pai disse-me, à porta do Ateneu, que lá eu encontraria o mundo.
b) À porta do Ateneu, meu pai disse-me que lá eu teria de encontrar o mundo.
c) Disse-me meu pai, à porta do Ateneu, que somente lá eu encontraria o
mundo.
d) Quando chegamos à porta do Ateneu, meu pai disse-me que lá eu precisaria
descobrir o mundo.
e) Ao chegarmos à porta do Ateneu, meu pai orientou-me para que lá eu
encontrasse o mundo.
2) (Fuvest) Tentei ri, para mostrar que não tinha nada. Nem por isso permitiuadiar a confidência, pegou em mim, levou-me ao quarto dela, acendeu vela, e
ordenou-me que lhe dissesse tudo. Então eu perguntei-lhe, para principiar,
quando é que ia para o seminário.
– Agora só para o ano, depois das férias.
Machado de Assis. Dom Casmurro.
Neste excerto, que narra um fato ocorrido entre Bentinho e sua mãe,
observa-se o emprego do discurso direto e do discurso indireto.
a) Transcreva os trechos em que é empregado o discurso indireto.
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b) Transponha esses trechos para o discurso direto, efetuando as necessárias
adaptações.
3) Leia trechos da entrevista do presidente Fernando Henrique concedida a
Márcia Carmo Caram, do Jornal do Brasil. Adapte e incorpore a fala do
entrevistado, no texto abaixo, à fala da entrevistadora, utilizando-se do discurso
indireto.
– Presidente, no primeiro mandato, o senhor fez críticas ao FMI.
– Continuo fazendo as críticas, por exemplo ao indiscriminado livre fluxo de
capitais e é isto que está em jogo. Fiz restrições ao receituário recessivo, mas o
Fundo mudou neste aspecto.
– Mas o que realmente mudou daquela época para agora quando o Brasil teve de recorrer ao
FMI?
– Nós só passamos a ter um programa específico com o Fundo em novembro do
ano passado. Mas todas, todas as vezes que houve reunião do G-7, eu mandei cartas
para eles, sobre essas questões, com sugestões.
– Sugerindo o quê?
– As cartas que eu mandei aos presidentes, sugerindo, por exemplo, que o Fundo
precisaria dispor de um mecanismo de pronta atuação. Porque se você for primeiro
discutir é muito lento. Isso foi feito. Há a questão da transparência e várias idéias
que foram sendo absorvidas. Não só minhas, mas também dos franceses, dos
ingleses e dos alemães. Quer dizer, houve uma mudança, mas não de substância.
– O senhor acha que o FMI deveria acabar?
– Não, não. É uma questão complicada. Eu acho que o Fundo tem que se adaptar
mais depressa aos tempos de hoje, no sentido de dispor de mais recursos para atuar
com mais rapidez, se for necessário.
– O senhor reconhece que o desemprego é um problema sério?
– Eu não estou negando. Eu estou dizendo que existe desemprego, e isso é terrível.
Mas, o desemprego, que é verdadeiro, virou uma bandeira política.
4) Leia o texto “Vestibular para sair da faculdade”, escrito por Gérson
Camarotti, para a revista Veja, 06 de novembro de 1996.
Todos os anos, 2 milhões de brasileiros prestam um exame vestibular para entrar na
universidade. Agora terão de realizar outro vestibular para sair dela. Chamado oficialmente de
Exame Nacional de Curso, mas conhecido mesmo como “provão”, o novo teste criado pelo
Ministério da Educação não pretende avaliar o estudante. Ele foi inventado para julgar a qualidade
do curso que os universitários recém-formados fizeram e, com isso, separar as boas faculdades das
Prática de texto: leitura e redação
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ruins e péssimas. O Provão é obrigatório. O formando pode até tirar zero, sem nenhum problema,
já que seu desempenho individual não está em discussão. O que não pode é deixar de participar, sob
pena de ficar sem diploma.
A soma das notas dos alunos de cada faculdade irá formar uma média, a
da faculdade. Pelas médias, o MEC poderá perceber se a estudantada desse ou
daquele curso conseguiu acertar a totalidade, metade ou um terço da prova, por
exemplo. O objetivo do MEC não é identificar as ilhas de excelência, mas
anunciar ao país quais são os cursos que não reúnem as condições mínimas para
formar profissionais dignos desse nome. A meta do Provão é tão-somente
desmascarar as arapucas. “Só assim os pais, os alunos e a sociedade de um modo
geral poderão cobrar um melhor desempenho das faculdades”, afirma o ministro
da Educação, Paulo Renato de Souza. Os cursos que obtiverem uma avaliação
favorável serão beneficiados na hora de receber verbas oficiais.
Principal iniciativa do governo na área do ensino superior, o Provão fez sua
estréia debaixo de uma saraivada de protestos. As críticas podem ser classificadas
em dois grupos. As entidades estudantis alegam que o exame acabará por prejudicar
os próprios alunos das faculdades picaretas, que não têm culpa por receber um
arremedo de ensino. “Uma nota baixa no Provão irá manchar a vida profissional do
formando”, afirma o presidente da UNE, Orlando Silva. O alegado prejuízo para o
aluno da má escola é uma coisa muitíssimo remota. Lembra o MEC que está
garantido o sigilo na divulgação do desempenho individual dos estudantes. Nada
impede, é claro, que, na hora, de procurar emprego, a nota do Provão venha a ser
pedida por uma ou outra empresa mais exigente. A multinacional Johnson &
Johnson, por exemplo, já informou que pretende incluir a avaliação do MEC como
“mais um elemento no processo de seleção de um candidato”.
Professores e reitores questionam a utilidade da prova, que consideram um indicador muito
pobre para avaliar uma instituição complexa como a universidade, na medida em que “não se pode
comparar uma universidade com uma fábrica de parafusos”, segundo o reitor da Universidade de
Santa Maria, Odilon Marcuzzo.
Para os defensores do Provão, tudo isso é desculpa de quem teme os efeitos
de uma avaliação negativa. “Não querer essa prova é agir como um time de futebol
que se recusa a jogar porque tem medo de perder”, fulmina o economista Cláudio
de Moura. O cientista político Wanderley Guilherme diz que o teste é bom, pois
obrigará a universidade a cuidar mais de sua eficiência.
a) O texto reúne diferentes pontos de vista (vozes) sobre uma mesma questão. Destaque quais
são esses pontos de vista.
Melo & Pagnan
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b) Demonstre de que forma esses pontos de vista estão transcritos: por meio do discurso direto
ou do discurso indireto.
c) Localize todos os verbos de dizer (dicendi), presentes no texto.
d) Explique a presença desses diferentes pontos de vista.
5) Observe a peça publicitária abaixo:
Agência DPZ
a) A imagem da peça faz alusão à logomarca do próprio cigarro e ao símbolo
que indica proibição de algo. O modo que a imagem foi trabalhada deixa
implícito um discurso. Qual discurso é esse?
b) Ao mesmo tempo que há a afirmação de um discurso, há a negação de outro.
Qual discurso essa peça publicitária nega?
Propostas de Redação
1) Releia o texto de Antonio Candido,
argumentos nele apresentados escreva uma carta
do Povo, que publicou o artigo de Roberto Campos, na qual você deve contestar
a argumentação deste articulista, utilizando
citações feitas ao texto de Candido.
2) Observe o quadro de Vincent Van Gogh. Podemos vê
objeto de decoração. Mas se nos limitarmos a essa forma, reificada, de visão,
tendemos a não apreender a tela como um objeto simbólico. Neste sentido, será
que o par de botas representa apenas ele próprio, ou pode tr
a outros significados? Redija um texto em que você exponha seu ponto de vista
sobre a pergunta; antes, porém, leia o texto abaixo, do filósofo alemão
Heidegger, e retire dele trechos, incorporando
utilizando-se do discurso direto.
Um par de botas, de Vincent Van Gogh
As Botas de Aldeã, de Van Gogh
Heidegger
A camponesa usa as botas na terra lavrada. Só aqui são o que são. São de
modo tanto mais autêntico quanto menos a camponesa pensa nelas enquanto
trabalha, e menos as olha ou inclusive as sente. Ela está nelas e anda com elas. É
assim como as botas realmente servem. (...) Por outro lado, enquanto nos
limitarmos a nos representar em geral um par de botas ou a contemplar no quadro
botas que estão aí vazias e sem uso, não faremos nunca a experiência do que é a
utensilidade de algo útil. Do quadro de Van Gogh não podemos inferir sequer o
Prática de texto: leitura e redação
1) Releia o texto de AntonioCandido, Cuba e o socialismo, e a partir de alguns
argumentos nele apresentados escreva uma carta para a redação do jornal Gazeta
, que publicou o artigo de Roberto Campos, na qual você deve contestar
a argumentação deste articulista, utilizando-se do discurso indireto para as
Van Gogh. Podemos vê-lo apenas como um
objeto de decoração. Mas se nos limitarmos a essa forma, reificada, de visão,
tendemos a não apreender a tela como um objeto simbólico. Neste sentido, será
que o par de botas representa apenas ele próprio, ou pode transcender em direção
a outros significados? Redija um texto em que você exponha seu ponto de vista
sobre a pergunta; antes, porém, leia o texto abaixo, do filósofo alemão
Heidegger, e retire dele trechos, incorporando-os ao seu próprio texto,
, de Vincent Van Gogh
As Botas de Aldeã, de Van Gogh
Heidegger
A camponesa usa as botas na terra lavrada. Só aqui são o que são. São de
modo tanto mais autêntico quanto menos a camponesa pensa nelas enquanto
ha, e menos as olha ou inclusive as sente. Ela está nelas e anda com elas. É
assim como as botas realmente servem. (...) Por outro lado, enquanto nos
limitarmos a nos representar em geral um par de botas ou a contemplar no quadro
e sem uso, não faremos nunca a experiência do que é a
utensilidade de algo útil. Do quadro de Van Gogh não podemos inferir sequer o
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lugar em que estão as botas. Em torno deste par de botas de camponesa não há
nada nem ninguém a quem pudessem pertencer, apenas um espaço indeterminado.
Nem sequer estão grudados nelas pedaços de barro do campo ou do caminho que
pudessem indicar o uso que se faz delas. Um par de botas de camponesa. e nada
mais. E no entanto...
No escuro vazio do interior gasto da bota fica plasmada a fadiga dos passos
laboriosos. No rude peso da bota fica retida a tenacidade da lenta marcha pelos
monótonos e dilatados sulcos do campo pelo qual corre um vento áspero. No
couro está depositada a umidade e a sagração do solo. Sob a sola se desliza a solidão
do caminho ao cair da tarde. Na bota vibra a chamada silenciosa da terra, seu calado
oferecer o grão que amadurece e sua misteriosa inatividade no árido ermo do
campo invernal. Este útil está perpassado pela inquietação latente, pela segurança
do pão, a calada alegria pela superação renovada da penúria, a angustiada espera do
parto e o tremor diante da ameaça da morte. Este útil pertence à terra e está
resguardado no mundo da camponesa. Esta pertença resguardada confere ao útil
sua identidade e substantividade.
Descobriu-se a utensilidade do utensílio. Mas, como? Não mediante a
descrição e explicação de um sapato realmente presente: nem mediante a descrição
do processo de confecção de sapatos; nem graças à observação do uso concreto
que for feito aqui ou ali de um sapato; mas pondo-nos simplesmente diante do
quadro de Van Gogh. Este falou. Na proximidade da obra estivemos subitamente
num lugar distinto daquele em que costumamos estar. O que acontece aqui? O que
é que está operante na obra? O quadro de Van Gogh é a manifestação do que é um
útil, o par de botas de camponesa, é na verdade. Este ente revela seu ser. Os gregos
chamaram a desocultação de um ente de aletheia. Nós dizemos verdade, e damos
pouco alcance a esta palavra. (...) Na obra-de-arte foi posta em ação a verdade do
ente. ‘Pôr’ significa aqui instalar. Um ente, um par de botas de camponesa, se instala
na obra na luz de seu ser. O ser do ente se manifesta de maneira estável.
Conseqüentemente, a essência da arte seria esta: ser posta em ação a
verdade do ente. Mas até agora a arte tinha a ver com o belo e a beleza, e não com a
verdade. As artes que configuram tais obras são chamadas belas-artes, de modo
diferente das artes artesanais, que produzem utensílios. Nas belas-artes a arte não é
bela, mas é chamada assim porque faz surgir o belo. A verdade, porém, pertence à
lógica. Mas a beleza fica reservada à estética. Ou será, talvez, que com a frase de que
a arte é ser a verdade posta em ação se revitaliza a opinião felizmente superada de
que a arte é uma imitação e cópia do real? A reprodução das realidades concretas
requer a adequação ao real, o ajuste ao mesmo; adaequatio, diz a Idade Média;
homoiosis, diz Aristóteles. A adequação ao real é vista há tempo como a essência da
verdade. Mas julgamos então que o quadro de Van Gogh reproduz pictoricamente
um par de botas de camponesa e é uma obra porque consegue fazer isso? Pensamos
que o quadro faz uma cópia do real e a transforma num produto de tipo artístico?
De modo algum.
Heidegger, M. Holzwege
Capítulo 6
Depreensão do tema
Observe a imagem abaixo:
Agência F/Nazca
O que se verifica nela? Um homem sobre uma empilhadeira; ao lado, o
nome de uma revista, Você, sobre o qual aparece a fras
degraus na empresa. De três em três". Isto é observável por qualquer indivíduo.
No entanto, o que de fato está sendo expresso por esse conjunto, imagem e
frase? A resposta a essa pergunta possibilita ao observador a depreensão do
significado, ou significados, da peça publicitária. Em outros termos, quando
apreendemos o significado de um texto, estamos depreendendo o
subjacente a ele. No caso, o que se tem é uma tematização do sucesso, da
ascensão profissional, a ser obtida graças à
no assunto.
Esse tema está figurativizado, concretizado na peça através da imagem
do homem e da empilhadeira e da frase, escrita com palavras de caráter concreto,
como degraus, empresa e o número três.
Prática de texto: leitura e redação
que o quadro faz uma cópia do real e a transforma num produto de tipo artístico?
Holzwege, p. 21-22 apud López Quintás, A. Estética, p. 52-53
Agência F/Nazca
O que se verifica nela? Um homem sobre uma empilhadeira; ao lado, o
, sobre o qual aparece a frase imperativa: "Suba
degraus na empresa. De três em três". Isto é observável por qualquer indivíduo.
No entanto, o que de fato está sendo expresso por esse conjunto, imagem e
frase? A resposta a essa pergunta possibilita ao observador a depreensão do
icado, ou significados, da peça publicitária. Em outros termos, quando
apreendemos o significado de um texto, estamos depreendendo o tema
subjacente a ele. No caso, o que se tem é uma tematização do sucesso, da
ascensão profissional, a ser obtida graças à leitura de uma revista especializada
Esse tema está figurativizado, concretizado na peça através da imagem
do homem e da empilhadeira e da frase, escrita com palavras de caráter concreto,
como degraus, empresa e o número três.
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Melo & Pagnan
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Quando falamos em palavras de caráter concreto, devemos recorrer à
divisão gramatical que classifica os substantivos em concretos e abstratos.
Termos como deus, bruxa ou anjo independente de existirem ou não na
realidade, são concretos, são figuras criadas pelo discurso. Por outro lado,
liberdade, fé e religiosidade são conceitos e, por isto mesmo, abstrações, temas.
Freqüentemente, ouvimos alguém dizer: “Qual o tema do livro que você
leu?” ou: “Qual o tema da redação no vestibular?” “Como posso compreender
esse tema?” e assim por diante.
Esse termo, amplamente utilizado, pode ser pensado, didaticamente
falando, sob dois aspectos:
a) delimitação de um assunto;
b) modo de construção do sentido de um texto, de construção de um discurso.
Quando estamos diante de um assunto muito amplo e necessitamos
redigir um texto, devemos, antes, delimitar esse assunto, selecionar algumas
questões relativas a ele para que a abordagem seja mais precisa, mais objetiva.
Se tivéssemos à mão o assunto: “política”, poderíamos abordá-lo sob diferentes
pontos: “a necessidade da reforma política brasileira”, “todo ato humano é um
ato político”, “o partidarismopolítico brasileiro” etc. Cada um desses diferentes
pontos se constituiria na delimitação temática do assunto.
Em relação ao segundo aspecto, é preciso saber que todo texto tem um
“núcleo informativo fundamental ou elemento em torno do qual se estrutura a
mensagem”20. Esse núcleo é o tema ou o elemento abstrato do texto. Há textos
que são eminentemente temáticos, como os filosóficos, os de caráter conceitual
– que procuram construir definições para termos como liberdade, ideologia,
amor etc. –, entre outros; e há aqueles construídos com base em elementos
concretos, isto é, em que predominam palavras que expressam concretude,
como: mesa, remédio, casa, fazenda etc. Neste caso, temos os textos figurativos.
Tanto um quanto outro são modos de se construir o sentido de um texto. A peça
publicitária acima é um texto eminentemente figurativo.
Ao lermos um texto figurativo, não devemos, para bem compreendê-lo,
ficar no nível elementar, no nível das imagens inicialmente construídas – senão,
o que pensaríamos de um homem de terno sendo levantado por uma
empilhadeira? Temos que buscar sob essas imagens, sob essas figuras, um
20Elisa Guimarães. A articulação do texto. 5ª ed., São Paulo : Ática, 1997, p. 17.
Prática de texto: leitura e redação
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significado mais abstrato – sua estrutura abstrata subjacente –, para chegarmos
ao tema principal. Assim, um provérbio como “cada macaco no seu galho” é
melhor assimilado quando o significado é abstraído, quando se percebe o tema
subjacente a ele. No caso, trata-se da idéia segundo a qual cada ser deve limitar-
se a desempenhar as funções que lhe são atribuídas.
O mesmo se dá quando lemos textos em que predomina a abstração. Se
não conseguimos construir um percurso figurativo para o tema abordado, a
compreensão da nossa leitura fica comprometida. Não quer dizer, no entanto,
que um texto desse tipo seja redigido sem qualquer uso figurativo, mas sim que a
figuração é esporádica.
As atitudes e os dilemas básicos do ethos moderno afetaram não só a
conduta dos indivíduos como também as concepções do mundo e as estruturas da
sociedade. Ainda mais: foi o poder da razão que constituiu a própria conduta
humana moderna. Porque o homem ‘iluminado’ encontra sua substancialidade
diante do tribunal único da razão.
Àngel Castineira. A experiência de Deus na pós-modernidade.
Há, no trecho, poucos termos figurativos, concretos, como “homem” e
“tribunal”, o que requer do leitor um maior esforço intelectual para apreender o
sentido geral do trecho, que trata da modernidade sob a ótica iluminista.
Em outras palavras, quando fazemos a depreensão de um tema em um
texto figurativo, estamos na verdade efetuando um raciocínio, que vai do
abstrato ao concreto; ou quando figurativizamos um texto temático, estamos
partindo do concreto em direção ao abstrato21.
21
Trata-se aqui dos raciocínios dedutivo e indutivo, desenvolvidos no capítulo 8 – dissertação.
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Análises
História de uma gata
Luiz Henriquez, Sérgio Bardotti e Chico Buarque
Me alimentaram/ me acariciaram/ me aliciaram/ me acostumaram./ O meu
mundo era o apartamento./ Detefon, almofada e trato/ todo dia filé-mignon/ ou
mesmo um bom filé... de gato/ me diziam, todo momento:/ Fique em casa, não
tome vento./ Mas é duro ficar na sua/ quando à luz da lua/ tantos gatos pela rua/
toda a noite vão cantando assim:/ Nós, gatos, já nascemos pobres/ porém, já
nascemos livres/ Senhor, senhora, senhorio./ Felino, não reconhecerás./ De
manhã eu voltei pra casa/ fui barrada na portaria,/ sem filé e sem almofada/ por
causa da cantoria./ Mas agora o meu dia-a-dia/ é no meio da gataria/ pela rua
virando lata/ eu sou mais eu, mais gata/ numa louca serenata/ que de noite sai
cantando assim:/ Nós, gatos, já nascemos pobres/ porém, já nascemos livres/
Senhor, senhora, senhorio./ Felino, não reconhecerás.
Temos aí um texto em que predominam figuras, palavras de caráter
concreto: gata, filé, almofada, por isto facilmente compreendida até por crianças,
a quem, a bem da verdade é dirigida a canção.
No entanto, se nos limitarmos a essas figuras, ficaremos em um nível
muito elementar de compreensão (alguém poderia até afirmar que a história não
faz sentido, afinal gatos não falam tampouco pensam). Por isto, precisamos
isolar algumas situações que nos permitam depreender o tema, fazer uma
condensação semântica, uma condensação do significado (da idéia central) do
texto. Observe como os autores trabalham duas possibilidades de vida, marcada
pela conjunção adversativa mas. A partir dessa conjunção, verifica-se uma
oposição fundamental:
casa x rua
Na casa há alimento fácil, carinho, conforto; mas há também uma
condição: obediência ao senhor, ao dono da casa.
Na rua, o alimento não é tão fácil de conseguir, há o frio, a falta de
conforto; contudo não existe a necessidade de obediência a ninguém:
Senhor, senhora, senhorio./ Felino, não reconhecerás.
Prática de texto: leitura e redação
87
Casa e rua são, pois, duas figuras fundamentais para que depreendamos o
tema. No caso, o mais aceitável, seguindo a lógica das outras figuras, é
relacionar aquelas ao tema: prisão/opressão x liberdade.
Vejamos agora fragmentos do poema Eterno, de Carlos Drummond de
Andrade, em que há predominância de palavras que expressam abstração, e que
portanto pode ser classificado como temático.
E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.
(...)
– O que é eterno, Yayá Lindinha?
– Ingrato! é o amor que te tenho.
Eternalidade eternite eternaltivamente
eternuávamos
eternissíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.
Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe dêem o nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e
[nenhuma força o resgata.
(...)
é tudo que passou, porque passou
e tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
[passageiras as obras.
O poema procura conceituar o que seja o eterno, uma abstração, opondo-
o ao que é efêmero, outra abstração. Se o leitor desconhece o significado dessas
duas palavras, a compreensão do poema será mais difícil. Por outro lado, se ele
souber o significado de cada uma, mas não conseguir visualizar nenhuma das
definições dadas pelo poeta, a compreensão também será insatisfatória. Em
Melo & Pagnan
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outros termos, como predomina a tematização, o percurso figurativo é
esporádico – há poucas palavras concretas, como flor, menino recém-nascido.
Mas são esses poucos termos que podem facilitar a apreensão do sentido do
texto.
Portanto, para que o “núcleo informativo fundamental” seja apreendido, é
preciso que o leitor observe a correlação das figuras entre si, o percurso
figurativo de um texto. Caso o texto seja predominantemente temático, o leitor
precisará conhecer o significado das palavras para poder relacioná-las e
visualizar uma imagem possível. Além disso, deverá destacar outros subtemas
presentes no texto em questão, para observar que aspecto os une, e é justamente
esse aspecto comum o tema subjacente a eles. Só assim ele poderá condensar
adequadamente um texto, ou recriá-lo sob diversas formas: paráfrases, paródias,
resenhas, comentários etc.
Exercícios
1) Leia o texto abaixo:
Criação do nome: a marca
Nelly de Carvalho
A imposição do nome próprio(marca), fazendo do consumidor um aliado,
é a grande tarefa da mensagem publicitária. Ao divulgar o objeto e sua marca,
contribui para o conhecimento dos objetos do cotidiano.
A marca torna-se um instrumento de categorização do real, um seletor – à
sua maneira, ela categoriza o mundo. Além disso, constrói a passagem do realismo
da matéria (nome comum) ao simbolismo (nome próprio), uma vez que o
vocabulário que designa originalmente uma marca torna-se, para o público, o nome
do próprio objeto. Em geral, isso ocorre a partir do sucesso da marca lançada
primeiro no mercado. O exemplo mais clássico é Gilette, sinônimo de lâmina de
barbear (gilete). Bic e Kodak também alcançaram esse nível sinonímico.
Conceito básico de publicidade, a marca resume, com muita propriedade, as
ilimitadas possibilidades de uma linguagem de consumo. Todos os produtos, exceto
a maioria dos alimentícios perecíveis, apresentam-se ao consumidor com um nome
próprio.
A primeira função da marca é particularizar o produto; a segunda é
mobilizar conotações afetivas. Numa economia de concorrência, poucos produtos
conservam uma superioridade técnica. Para que venda bem e desperte ligações
Prática de texto: leitura e redação
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afetivas suficientes para garantir fidelidade à marca, é preciso individualizar o
produto, dotando-o de associações e imagens, atribuindo-lhe significações em
diversos níveis. Um nome próprio – Phillips, Chanel, Nestlé – é capaz de resumir
uma grande diversidade de objetos e uma gama variada de significações. Esse léxico
de base que povoa outdoors e anúncios é assintático: as marcas que se sucedem, se
justapõem, se substituem umas às outras, sem articulação, sem transição – léxico
errático, vivendo uma repetição incansável, pesada de significações.
É a marca que faz a mediação do discurso publicitário, sobretudo o
antropomórfico, que estabelece uma analogia entre a marca e a pessoa. Conferir
ao objeto um nome próprio, em lugar de um nome comum, é permitir ao objeto
uma extraordinária promoção por meio da aquisição de identidade.
Publicidade: a linguagem da sedução. São Paulo : Ática, pp. 38 e 39
a) Pode-se dizer que estamos diante de um texto temático ou figurativo?
Explique.
b) Há, em cada parágrafo, algumas palavras ou expressões chaves para a
construção do sentido do texto. Destaque-as.
c) Considerando o texto, qual a relação entre a marca de um produto e os objetos
do cotidiano?
d) O que se pretende dizer com “particularizar o produto”?
e) E com “mobilizar conotações afetivas”?
f) Há, no texto, algumas marcas de empresas e produtos que servem de exemplo
para exposição do autor. Que outras marcas você conhece que poderiam fazer
parte dessa lista?
2) Leia o poema abaixo e responda a seguir:
A noite dissolve os homens
Melo & Pagnan
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Carlos Drummond de Andrade
A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas,
nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo
e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda,
sem esperança... Os suspiros
acusam a presença negra
que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho
na noite. A noite é imortal,
completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens,
diz que é inútil sofrer.
a noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio.
Os suicidas tinham razão.
Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva
[noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus
[dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram
mas que avançam na escuridão como um sinal verde e
[peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se
[enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
Prática de texto: leitura e redação
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uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.
a) Esse poema é construído em torno de três figuras fundamentais. Identifique-
as.
b) Para a correta compreensão do poema, é necessário que se esclareça o sentido
de cada uma dessas figuras. No caso, especifique o que elas podem sugerir.
c) Conforme vimos em outro capítulo deste livro, um texto mantém diálogo com
outros textos e com um contexto específico. Qual o contexto subjacente ao
poema?
d) Qual a relação possível entre o contexto e as três figuras principais?
e) Essa relação pode nos sugerir o tema, a tematização do texto. Para você, qual
o tema central desse poema?
3) A prova de redação da Fuvest propôs ao estudante que redigisse uma
dissertação a partir da leitura dos excertos abaixo. Pode-se dizer que os excertos
C, D e E funcionam como figurativização para o A e o B? Explique.
a) (...) padecer a convicção de que, na estreiteza das relações da vida, a alma
alheia comprime-nos, penetra-nos, suprime a nossa, e existe dentro de nós,
como uma consciência imposta, um demônio usurpador que se assenhoreia
do governo dos nossos servos, da direção do nosso querer; que é esse
estranho espírito, esse espírito, e que de fora, a nossa alma, mísera exilada,
contempla inerte a tirania violenta dessa alma, outrem que manda nos seus
Melo & Pagnan
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domínios, que rege as intenções, as resoluções e os atos muito
diferentemente do que fizera ela própria. (Raul Pompéia)
b) O filósofo e psicólogo William James chamou a atenção para o grau em que
nossa identidade é formada por outras pessoas: são os outros que nos
permitem desenvolver um sentimento de identidade, e as pessoas com as
quais nos sentimos mais à vontade são aquelas que nos "devolvem" uma
imagem adequada de nós mesmos. (Alain de Botton)
c) Os outros têm uma espécie de cachorro farejador, dentro de cada um, eles
mesmos não sabem. Isso feito um cachorro, que eles têm dentro deles, é que
fareja, todo o tempo, se a gente por dentro da gente está mole, está sujo ou
está ruim, ou errado... As pessoas, mesmas, não sabem. Mas, então, elas
ficam assim com uma precisão de judiar com a gente. (Guimarães Rosa)
d) (...) o inferno são os Outros. (Jean-Paul Sartre)
e)
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em sua próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de com-viver. (Carlos Drummond de Andrade)
4) Faça a delimitação do tema dos seguintes assuntos:
a) questão agrária
b) internet
c) trabalho
d) economia
e) mulher
f) racismo
g) futebol
h) religião
i) publicidade
Prática de texto: leitura e redação
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Propostas de redação
1) Escolha um dos assuntos do exercício quatro e, a partir da delimitação que
você próprio fez, redija um texto dissertativo.
2) Leia o parágrafo abaixo.
A arte é um espelho da cultura nacional; fazendo arte, o indivíduo projeta
na sua obra sua personalidade e, através da personalidade, a cultura de seu
povo. (vestibular - UEL)
Como se pode notar, trata-se de um parágrafo de caráter temático, pois
nele predomina a abstração, a conceituação de um termo, no caso, a arte.
a) Traduza esse conceitoem termos mais concretos, ou seja, levante alguns
tópicos figurativos, como exemplos, argumentos etc.
b) Desenvolva uma redação tomando por base o tema proposto e os tópicos
figurativos desenvolvidos por você.
Capítulo 7
Gêneros de síntese
Há diferentes gêneros de síntese. Dentre os quais, o mais comum é o
resumo. Inscrevem-se nesse gênero ainda o relatório, a ata de uma reunião, a
paráfrase, a resenha. Neste capítulo, além do resumo abordaremos os dois
últimos.
Resumo
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Resumir um texto é fazer uma síntese dele. Por isto, a principal
característica de um resumo é ser fiel ao texto original. Em outros termos, deve-
se obedecer ao pensamento, às idéias do autor, sem análise ou crítica. Ao se
resumir um texto, deve-se reescrevê-lo e não copiá-lo, evitando-se assim que o
resumo se transforme em mera transcrição de algumas frases. Além disso, um
bom resumo deve ser breve e claro para o leitor. Ser breve significa dizer muito
em poucas palavras, explicitando ao leitor a principal idéia do texto de modo
claro e objetivo. Ou seja, deve-se a todo curso evitar a ambigüidade, o duplo
sentido.
O resumo se presta a alguns objetivos específicos, dentre os quais o de
apresentar os pontos mais importantes de um trabalho acadêmico, publicado em
anais ou revistas científicas, possibilitando a um estudante saber do que se trata
para decidir se irá ler ou não o texto em sua integridade.
O presente trabalho tem como objetivo levantar dados para demonstrar
como a cidade de São Paulo está representada em alguns poemas de Mário
de Andrade, em especial: Paisagem nº 1, Paisagem nº 3, Paisagem nº 4 e
Paisagem nº 5. Este último pertence ao livro Clã do Jaboti e os primeiros ao
Paulicéia Desvairada. Não pretendo fazer um levantamento exaustivo desses
dados, mas tão-somente chamar a atenção para alguns aspectos próprios a
essa representação, isto para tentar demonstrar como e se a expressão
individual transcenderia a própria individualidade em favor do universal.
(Celso L. Pagnan. "As Paisagens de Mário de Andrade: representações da Paulicéia".)
Normalmente, revistas e congressos acadêmicos determinam quais itens
devem figurar no resumo. Em geral, são os seguintes: objetivos do trabalho,
metodologia empregada, resultados e conclusão.
A Norma NBR 6028, da ABNT, classifica os resumos em indicativo,
informativo e crítico. O primeiro não dispensa a leitura do texto original, caso
exatamente daqueles que introduzem um trabalho acadêmico, ou os utilizados
em catálogos de editoras, que objetivam mostrar ao leitor do que trata o livro; o
segundo, quando bem feito, pode dispensar a leitura em seus aspectos mais
gerais; o terceiro, resumo-crítico, é também conhecido como resenha, tratada de
modo mais aprofundado ainda neste capítulo.
� Resumo indicativo
Adilson Citelli. Linguagem e Persuasão. S. Paulo : Ática, 80 páginas.
Com o objetivo de sugerir linhas de reflexão, o autor alia à exposição teórica uma série de
exemplos de textos extraídos da publicidade, do jornalismo, da religião e dos livros
Prática de texto: leitura e redação
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didáticos, abrindo ao leitor um contato eficaz com diferentes modalidades de discursos
persuasivos.
Leiamos o texto abaixo. Em seguida, uma demonstração de como pode
ser feito um resumo informativo.
O Poder da intuição
Mauro Silveira
1. Dois anos. Esse foi o prazo dado pela consultoria internacional
PricewaterhouseCoopers para que o executivo Marcos Nascimento deixasse a condição de
funcionário e se tornasse um dos sócios da empresa. Era uma grande notícia para esse
jovem profissional que, com 32 anos de idade, já ocupava na organização o cargo de diretor
corporativo de recursos humanos para toda a América Latina. Ser um dos sócios
representava não só maior prestígio e um salário melhor, mas principalmente a certeza de
que seu futuro profissional estava no caminho certo. A partir daí, afinal, Nascimento seria
um dos donos do negócio. Quem abriria mão de uma perspectiva como essa? Resposta:
ele. No final do mês de maio deste ano, Marcos Nascimento deixou a
PricewaterhouseCoopers rumo à Amtec.net, uma desconhecida e-builder de origem
argentina que está chegando agora ao país e cujo sócio mais velho tem 29 anos. "Aceitei
porque tive a intuição de que era o melhor a fazer", diz ele. "Sempre fui assediado por
headhunters, mas quando recebi essa proposta uma voz interior me disse: essa é a sua
grande chance. Vai dar certo."
2. Ouvir um profissional bem-sucedido como Marcos Nascimento dizer que mudou
o rumo de sua carreira baseado em algo tão abstrato, ou frágil, quanto a intuição pode
surpreender. Se estivéssemos na década de 80, por exemplo, sua fé no instinto soaria quase
como uma irresponsabilidade. Executivo com "E" maiúsculo tinha de ter os pés no chão e
ser 100% racional. Suas ações e decisões deveriam ser sempre conseqüência de um
raciocínio lógico. Esperava-se dele, o tempo todo, que colocasse a matemática antes da
filosofia. Pois isso mudou. Marginalizada durante décadas pelas empresas, a intuição agora
passou a ser valorizada. Mais que isso, tornou-se um diferencial competitivo tanto para as
organizações quanto para os profissionais que querem se destacar no meio da multidão. "A
maior vantagem da intuição é que ela oferece alternativas não óbvias para a solução dos
problemas", diz a psicóloga e consultora de empresas Bene Catanante, da Com Ciência,
Comunicação e Desenvolvimento Pessoal.
3. O resgate da intuição como uma importante ferramenta para a tomada de decisões
não é fruto do acaso. O principal responsável por esse fenômeno é o senso de urgência que
existe atualmente dentro das organizações. Tudo é para ontem. Quem planeja lançar um
novo produto, criar um site ou mudar uma determinada estratégia freqüentemente não tem
tempo para maiores reflexões, análises, estudos ou pesquisas. A decisão tem de ser tomada
rapidamente – antes que a concorrência pense na mesma coisa e saia na frente. Fazer algo
depressa, assim, muitas vezes é mais importante do que fazer algo perfeito. Sem ter todas
as respostas que desejamos em mãos, temos de decidir. E é justamente nesse momento
Melo & Pagnan
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crucial que a intuição mostra seus méritos – e que os profissionais capazes de intuir
corretamente o que deve ser feito se valorizam. "Estamos falando de uma capacidade de
perceber dinâmicas que não são claramente visíveis, mas que apontam para o futuro",
afirma o sociólogo Alberto Moraes Barros Neto, professor do curso de MBA da Fundação
Dom Cabral e um dos sócios da Adigo Consultores.
4. Falar sobre intuição é sempre mais fácil do que entender exatamente o que ela
significa. O problema começa pela própria definição do verbo "intuir". Pergunte a dez
pessoas que se dizem intuitivas como elas definiriam essa característica e provavelmente
você obterá dez respostas diferentes. De maneira geral, no entanto, pode-se dizer que
intuição é uma espécie de percepção súbita de que algo é assim, ou deve ser feito de
determinada forma, ou vai gerar tais efeitos – em suma, um impulso que nos aconselha a
agir desta ou daquela maneira e que não se fundamenta em pressupostos rigorosamente
lógicos. (Embora a intuição também não tenha, é óbvio, de ir contra a lógica.) Não se trata,
naturalmente, de algo ligado ao "sobrenatural", de uma concessão à fantasia ou de uma
atitude meramente caprichosa. Na verdade, a intuição anda de mãos dadas com a razão.
Sim, ela pode dispensar informações precisas, fatos claramente definidos, estatísticas,
pesquisas, precedentes. Mas não dispensa, nunca, o ato de pensar. O caso do executivo
Marcos Nascimento, que trocou a gigante Pricewaterhouse- Coopers pela pequena
Amtec.Net, mostra bem isso. É claro que, ao receber a proposta,ele fez uma avaliação
realista das vantagens e dos riscos envolvidos. Analisou o potencial de crescimento da nova
empresa e do segmento de mercado em que ela atua. Informou-se sobre a filosofia do
grupo, as oportunidades de evolução na carreira que ela estava oferecendo e a política de
remuneração que adota. Com todas essas realidades em mente – e uma escolha difícil pela
frente –, Nascimento abriu espaço para sua intuição fluir, fazendo o que sentia associar-se
ao que pensava. E foi aí que ele escutou aquela voz interior lhe dizendo: vá em frente!
"Troquei uma empresa de dezenas de bilhões de dólares por outra de dezenas de milhões,
mas tenho a convicção de que fiz a melhor escolha", afirma.
5. A intuição se vale também de nossas experiências passadas para nos indicar qual o
melhor caminho a seguir. Se você viveu uma determinada experiência anteriormente e,
anos depois, se deparar com uma situação semelhante, seu "banco de dados" interior
possivelmente acusará a coincidência. "As pessoas são intuitivas porque desenvolvem a
habilidade de compreender os seus próprios sentimentos e de acessar esse banco de dados
de forma rápida", afirma Iaci Rios, professora de educação corporativa do curso de
psicologia social das organizações do Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo. (...)
6. A 3M é uma das empresas que mais buscam profissionais intuitivos no mercado. E
existe uma boa razão para isso – a conhecida norma interna da organização, que estabelece
que 30% do faturamento anual do grupo venha obrigatoriamente de produtos lançados nos
últimos quatro anos. Produzir esse volume de novidades requer muita criatividade – e
intuição. "Nós sempre valorizamos a política do fazer a diferença e do poder errar", diz
Waldir Bevilácqua Júnior, gerente de unidade de negócios e mercados de reparação
automotiva. Para dar asas à imaginação dos funcionários do departamento técnico, há
alguns anos a empresa decidiu implantar um sistema que permite que cada um deles use
15% do seu tempo de trabalho da forma que bem entender. Eles podem visitar empresas,
trabalhar em projetos que nada têm a ver com suas funções, conversar com profissionais de
Prática de texto: leitura e redação
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áreas diversas dentro e fora da organização e viajar para qualquer lugar que considerem
necessário.
Você S.A. jul. 2000
Antes de se efetuar o resumo, é necessário ler e reler com atenção o
texto, destacando trechos importantes e buscando no dicionário o significado de
palavras desconhecidas. Feito isto, deve-se responder a uma primeira pergunta:
qual o assunto do texto? Depois: de que modo ele pode ser segmentado,
dividido: por assunto ou parágrafos? É preciso estar atento também para o que é
de fato importante e o que é apenas circunstancial. Por fim, redige-se o resumo.
Respondendo à primeira pergunta, o artigo de Mauro Silveira trata da
intuição como importante mecanismo para se tomar uma decisão, para se atingir
determinado objetivo. Embora relativamente longo – 2 páginas, o texto é
redigido em apenas seis parágrafos, por isto pode-se adotar esse critério de
segmentação:
a) Parágrafo 1: exemplo de atitude intuitiva
b) Parágrafo 2: ascensão da intuição em detrimento da atitude totalmente
racional
c) Parágrafo 3: senso de urgência da vida moderna é a causa principal dessa
ascensão
d) Parágrafo 4: definições sobre o ato intuitivo
e) Parágrafo 5: relação entre repertório do indivíduo e sua capacidade intuitiva
f) Parágrafo 6: uso e necessidade da intuição em empresas
Mauro Silveira, em seu texto "O poder da intuição", aborda a intuição como
importante meio para se tomar determinada decisão. Para ilustrar o caso, parte
de um exemplo concreto do que seria uma atitude intuitiva, mostrando como um
executivo de uma grande empresa trocou a possibilidade de tornar-se sócio dessa
mesma empresa para ajudar a conquista do mercado em uma outra empresa que
acabava de se instalar no Brasil.
Na seqüência, estabelece um paralelo com a década de 80, quando uma
atitude desse tipo seria vista como irresponsabilidade, ao passo que iniciando um
novo século, ser intuitivo é justamente o que conta, pois, muitas vezes, devido às
rápidas mudanças que se processam no mercado, é preciso arriscar, é preciso
intuir que a estratégia empregada será vitoriosa.
Mauro tem o cuidado, no entanto, de mostrar que intuição não é agir sem
pensar, e sim agir com maior rapidez, descartando as avaliações mais
Melo & Pagnan
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aprofundadas, as análises mais verticalizadas. Para que uma atitude intuitiva
atinja o objetivo esperado, o indivíduo deve fazer uso de conhecimentos prévios
envolvendo a questão. Em outros termos, deve recorrer ao repertório de
experiências que acumulou ao longo de sua vida.
Em conclusão, o articulista volta a exemplificar o ato destacando o
procedimento da 3M cuja norma "estabelece que 30% do faturamento anual do
grupo venha obrigatoriamente de produtos lançados nos últimos quatro anos",
daí a constante recorrência a atitudes intuitivas.
Exercícios
1) Faça um resumo informativo do texto abaixo:
A captação da realidade
Nelson Werneck Sodré
Pela natureza mesma de seu ofício, o escritor é o homem que vive atento ao
espetáculo da vida. Faz-se, assim, a mais preciosa testemunha desse espetáculo.
Opera no duplo sentido da palavra testemunha, na dupla função que isso
representa: aquele que assiste, mas também que depõe sobre o que assiste. "O
escritor, diz ainda Gorki, não é simples testemunha dos acontecimentos; ele deve
aprender a captar, na torrente da vida, o que constitui a sua essência, o que é
precioso para os contemporâneos. É necessário estudar a vida das gentes e não
deixar deslizar por elas um olhar de passagem, de observador contemplativo".
Acrescenta: "É necessário aprender a ler, a estudar as gentes como se lêem e
estudam os livros, é necessário compreender que estudar as gentes é mais difícil do
que estudar os livros escritos sobre as gentes."
Para captar o essencial, entretanto, é indispensável que o observador seja
capaz de generalizar, isto é, de não apenas ter a compreensão da identidade dos
objetos e dos fenômenos mas também, e principalmente, a compreensão do que
lhes define a essência. A imagem sensível se transforma, por obra do pensamento
abstrato, em imagem conceitual. Se o conhecimento consiste em passar do
particular ao universal, e sem generalização não há conhecimento científico, a
captação da realidade só é possível quando à prática, que fornece o conhecimento
direto e imediato, junta-se o aparelhamento teórico, que permite desprezar os
aspectos secundários, essenciais, causais, genéricos e comuns.
Assim, da mesma forma que não interessa à ciência o mero arrolamento,
não interessa à arte a acumulação dos detalhes. A abstração que, em ciência, leva à
formulação da lei, isto é, do que não abarca todos os nexos e relações mas aqueles
Prática de texto: leitura e redação
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que definem a essência, a determinação qualitativa do fenômeno, leva, em arte, à
tipificação, isto é, à representação da realidade não pela reprodução direta, mas pela
fixação do que, nela, é profundo e característico. Estas observações mostram a
importância que a cultura assume para o exercício do ofício artístico e,
particularmente, do ofício de escritor. Ver bem, pois, não é ver tudo, mas ver o
essencial. Para separar, na multiplicidade dos aspectos com que a realidade se
apresenta aos sentidos, aqueles que revelam o essencial, é necessário muito
conhecer em extensão e saber generalizar.
A natureza não é, entretanto, o espetáculo de que se ocupa o escritor senão
como moldura física. O espetáculo por excelência que merece a atenção do escritor
é a sociedade. A sua observação a respeito da natureza pode ser deficiente e induzi-
lo a erros; pode,representando-a, incorrer em falhas; pode mesmo substituir as
imagens por palavras. Tudo isso lhe será relevado se souber transpor para a
literatura aquilo que a sua observação colher na sociedade. No fim de contas, o
homem está interessado no homem; ele é a medida de todas as coisas, e a própria
natureza só apresenta interesse quando o homem está presente nela.
In: Ofício de escritor. Rio de Janeiro : Civilização
Brasileira, 1965
Paráfrase
Uma das dificuldades que se apresenta à pessoa que precisa ou quer
redigir textos é o de não saber o que escrever. As idéias multiplicam-se na
mente, mas não se consegue fazer uma edição delas, isto é, não se consegue
fazer uma seleção que tornará o texto coerente. Por isso, propomos que o
indivíduo sempre tenha um outro texto como “musa inspiradora”, tenha um
modelo que ele possa ou parafrasear ou criticar, analisar (trata-se do diálogo
entre textos – a intertextualidade, abordada no capítulo 1).
E o que significa fazer paráfrase? Fazemos paráfrase quando
transformamos um texto em um outro, ou seja, quando tomamos as informações
contidas em um texto e escrevemos essas mesmas informações com nossas
próprias palavras22. Assim, resolvemos o problema da falta de idéias, além de
termos um modelo para estruturar nosso texto, até que tenhamos um
conhecimento mais aprofundado sobre determinadas questões e uma redação
mais segura.
22Claro que, quando se faz isso, deve-se tomar cuidado de citar a fonte, para que o caso não seja
interpretado como pura cópia, como plágio de idéias.
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A paráfrase é bastante comum no mundo acadêmico. Estamos sempre
parafraseando autores famosos, estudiosos que já desenvolveram pesquisas que
estamos apenas iniciando. Neste sentido, pode-se fazer aqui uma citação de
Décio Pignatari: “Informações de primeiro grau são informações complexas a
que poucos têm acesso; para que cheguem a um número maior de pessoas, é
preciso diluí-las, trocá-las em miúdo, embora com alguma perda. [A paráfrase] é
uma forma de tradução, é uma forma de degrau para a informação superior.”
Quando fazemos paráfrase estamos transformando um texto complexo num
texto acessível para um número maior de pessoas.
� Vejamos alguns exemplos
Paisagem nº 1
Mário de Andrade
Minha Londres das neblinas finas...
Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas.
Há neves de perfumes no ar.
Faz frio, muito frio...
E a ironia das pernas das costureirinhas
Parecidas como bailarinas...
O vento é como uma navalha
Nas mãos dum espanhol. Arlequinal...
Há duas horas queimou Sol.
Daqui a duas horas queima Sol.
(...)
� Observe como o crítico João Luis Lafetá parafraseia esses versos de Mário
de Andrade:
“No verão da Paulicéia (São Paulo) a neblina e o vento frio se alternam com
o sol”.
� O filósofo alemão Theodor Adorno abordou a arte do seguinte modo:
“A obra de arte comunica-se com o empirismo que recusa, dele tirando
porém seu conteúdo”.
Essa abordagem pode ser parafraseada assim: “a obra de arte não
Prática de texto: leitura e redação
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pretende imitar inteiramente a vida real, mas se origina nela”.
� Às vezes, a paráfrase também ajuda na compreensão de discursos
pretensamente complexos. Vejamos a paráfrase que faz o jornalista Élio
Gáspari após transcrever um trecho de um texto do professor Délcio Barros
Silva, da Universidade Federal de Santa Maria:
"O texto, segundo uma nova abordagem vinculada às práticas sociais, deve
ser considerado como recurso à construção do sentido sócio-interacionalmente,
como diz Moita Lopes, por intersubjetividades, por todos os participantes do
discurso. Evidentemente, como princípio construtivista, essa abordagem do ensino
da leitura deve apoiar-se no pressuposto de que o determinante na aprendizagem é
o já existente, ou seja, o conhecimento prévio do aluno."
Paráfrase: "Lendo, o aluno aprende coisas que não sabia".
Este tipo de paráfrase é o das idéias, ou seja, tomamos as idéias contidas
em um enunciado e as reescrevemos; há ainda, porém, a paráfrase de estrutura,
que é aquela em que observamos apenas o modo de construção de um texto, e
não tanto o que ela contém como informação. Assim, a estrutura da famosa frase
de Karl Marx, "A religião é o ópio do povo", pode ser aproveitada em diferentes
contextos:
� O futebol é o ópio do povo.
� As novelas são o ópio do povo brasileiro.
A paráfrase é, então, uma espécie de resumo de um texto anterior; é a
construção de um outro texto, de um discurso que toma por base a estrutura e/ou
o conteúdo de um texto original. No entanto, é preciso dizer que a característica
principal do resumo é ser uma síntese de um texto; ao passo que a paráfrase é a
reprodução das idéias ou da estrutura de um texto primeiro. Em outros termos,
um resumo tem de ser necessariamente menor que o texto original, ao passo que
a paráfrase pode mesmo ser mais extensa que o texto que lhe serviu de modelo.
Ainda que não sejam exatamente a mesma coisa, quando nos utilizamos
do discurso indireto fazemos paráfrase, na medida em que tomamos as
informações referidas por outra pessoa e as reescrevemos com nossas próprias
palavras.
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Exercícios
1) (PUC - modificada) Leia o fragmento abaixo:
Nos últimos anos, as esquerdas latino-americanas dividiram-se em dois
grupos. Numa ponta, os que se mantiveram presos à disputa pelo controle do
Estado, enfrentando as chamadas forças de direita.
Na outra, os grupos que entenderam a verdadeira natureza do Estado, e passaram a lutar
pelo primado da cidadania, pela redução do aparato estatal e pela montagem de estruturas
apartidárias e não estatais, que permitissem ao cidadão subordinar o Estado aos interesses difusos da
Nação.
À medida que se avança nesses princípios, os conceitos de globalização passam a ser vistos
dentro de uma nova ótica.
Não mais a visão conspiratória do capital esmagando os pobres, mas do
capital servindo de alavanca para extirpar o velho das empresas e do Estado. É a
globalização significando não apenas o livre trânsito de mercadorias, capital e
tecnologia, mas de conceitos éticos universais.
Luis Nassif. Ética da globalização.
a) Qual a idéia defendida pelo autor?
b) Quando o autor se refere a Estado, faz alusão a quê?
c) Segundo o texto, é correto afirmar que as esquerdas latino-americanas:
(a) estão unidas somente na luta pela cidadania e pela redução da importância do
Estado.
(b) estão unidas somente na luta contra as forças da direita.
(c) estão divididas quanto aos conceitos teóricos da globalização.
(d) sempre estiveram divididas em dois grupos: um, contra a direita e outro,
aliado a setores de direita.
(e) estão divididas quanto à visão dos problemas administrativos do Estado.
d) Faça uma paráfrase do texto.
Prática de texto: leitura e redação
103
2) Faça a paráfrase do texto que segue:
Glória precária (como todas)
Millôr Fernandes
Tem um (mais um) sujeito aí no Paquistão dentro de uma câmara de vidro
(marketing puro, pode-se jejuar em qualquer lugar, comer é que não) ou tinha,
quando soubemos, há duas ou três semanas. Não queremos diminuir o esforço do
antiatleta, mas avisamos desde logo - sabendo que ele não vai ouvir (no Paquistão, e
dentro de uma câmara de vidro) que já vimos homens jejuarem alguns dias, algumas
semanas, alguns meses. Por todos, heroísmo, rebeldia, ideologia, ou nenhum,
motivo - eu quero jejuar e pronto.
Olha, por mais que o atual jejuador jejue, logo aparecerá outro que jejue mais
do que ele. Parece que jejuar não é tão difícilassim, e dispensamo-nos a ironia de
lembrar o interior do nordeste brasileiro, onde pessoas têm jejuado por gerações -
sem ninguém olhando e sem press-release.
Enquanto isso, num deserto americano - terra de malucos - um homem vive no
alto de um poste (num tabuleiro) há mais de um ano. Belo feito também, mas
também aviso, inutilmente: daqui a pouco já aparecerá haverá alguém capaz de
viver mais tempo em poste mais alto. E, desafio por desafio, há os desafios
eruditos. Renoe Feoder (deve ser húngaro), no interior da França, apregoa que já
toca piano há 185 horas, o que, segundo ele, é feito imbatível. Um rival abandonou
a disputa o ano passado, quando já tocava há 170 horas (possivelmente o Bolero, de
Ravel). Parou por cãibras. Mais vai voltar à carga - Renoe Feoder não perde por
esperar.
Estamos, parece, na era da resistência máxima, do enduro ultra-humano, da
demonstração heróica de um esforço a mais, de um passo a mais, de um hausto
impossível. Mas não adianta. Nada mais nos espanta, nada mais nos comove. A não
ser, quem sabe?, que apareça alguém capaz de jejuar tocando piano no alto de um
poste. Para todo o sempre.
O Estado de S. Paulo, 25 jul. 1999
Resenha
Melo & Pagnan
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Vimos como a paráfrase pode auxiliar-nos na tarefa de redigir.
Avancemos agora em direção à análise de textos, e não apenas à simples
reprodução. Vamos desenvolver a redação analítica. Para isso, a resenha pode
ser bem interessante.
A resenha é um tipo de texto que tem por objetivo principal a análise de
outros textos: um livro, uma peça publicitária, uma peça de teatro, um filme e
mesmo, para extrapolar um pouco esse campo de definição, um fato econômico
ou político. Em outras palavras, a resenha é um resumo crítico ou um resumo
analítico de outro texto.
Normalmente, encontramos resenhas publicadas em revistas semanais,
como a Veja, a Istoé, em jornais, em especial nos cadernos de cultura, como a
Ilustrada, da Folha de S. Paulo, ou o Caderno 2, do Estado de S. Paulo. Além
disso, resenhas são publicadas em periódicos, como os boletins acadêmicos ou
em revistas especializadas em cultura, como a Cult. Há dois tipos básicos de
resenha:
� descritiva: que procura determinar como foi produzido o texto, sem grandes
apreciações críticas e maiores comentários. Este é o tipo de resenha
apropriado para quando não se conhece a fundo o assunto tratado no texto a
ser resenhado, a ser analisado, ou quando oferece alguma dificuldade a mais;
� crítica: que visa a uma análise mais aprofundada do objeto textual em
questão; nesse tipo, o resenhista deve dominar o assunto tratado no texto
para que possa avaliá-lo com propriedade e oferecer uma análise
especializada ao leitor. Embora exija mais do resenhista, sugerimos que o
estudante experimente escrever a resenha crítica, posto que é um modo
eficaz de desenvolver não só a redação, mas também a capacidade de leitura
e síntese.
No texto a seguir, temos um exemplo de resenha descritiva. Nela, o autor
afirma a dificuldade em se analisar o filme em questão, por isto, num primeiro
momento, faz menos uma crítica que uma descrição do objeto a ser resenhado.
Garçons jogam restos de comida no lixo. Fim de noite. Dois mendigos aparecem.
Não conseguimos ver bem os seus rostos, que se inclinam sobre as latas e logo refocilam
nos detritos. Esta é uma das primeiras cenas do filme Cronicamente inviável, de Sérgio
Bianchi. O espectador se sente incomodado, claro, e se pergunta se o filme todo seguirá
Prática de texto: leitura e redação
105
esse tom de denúncia explícita. Mas aí vem a primeira surpresa: uma voz em "off" começa
a criticar a cena. Diz algo como: "Não, isso está muito explícito, vamos refazer". Assistimos
então a uma variante do acontecimento – não tão nojenta, mas talvez ainda mais chocante.
O que era puro incômodo físico para o espectador se torna, assim, fonte de um
desconforto intelectual: que diabo acontece neste filme, que nega, desfaz e refaz o que
acabava de ser apresentado? É esse jogo que torna Cronicamente inviável uma obra tão
interessante. "Interessante" é um adjetivo tímido. O filme é excelente, mas excelente de um
jeito que os filmes não costumam ser. Já assisti duas vezes a Cronicamente inviável e ainda me
sinto inseguro para analisá-lo. Melhor dizer o que o filme não é. Vemos uma série de
horrores do cotidiano brasileiro – assaltos, miséria, devastação do meio ambiente, violência
policial – em curtos quadros que entrelaçam vários personagens. Mas o que se denuncia
não é exatamente uma "situação social". Falar em "situação social" pressupõe que ela possa
ser mudada. Cronicamente inviável a partir do próprio título, não parece ter essa esperança. A
denúncia do filme é sobretudo moral. A dondoca atropela um menor de rua. Sai do carro e
nem se preocupa em ver se o menino está vivo ou morto: organiza apenas um discurso
para dizer que não teve culpa de nada. A cena se repete, com outra dondoca, mais adiante
no filme. E quase todos os personagens, na verdade, estão às voltas com o mesmo
problema: o de livrar-se de qualquer responsabilidade pelos horrores que acontecem no
país. Crítica à burguesia? Novamente, o filme de Sérgio Bianchi puxa o tapete do
espectador. Pois as "classes populares" não inspiram nenhum discurso otimista. O policial,
a gerente que teve infância pobre, o líder sem-terra parecem detestar, tanto quanto os ricos,
a classe de que se originam. Só parece haver solidariedade na opressão. Comentando várias
cenas, temos a personagem de um antropólogo que viaja pelo Brasil – de Salvador a
Rondônia, dali a São Paulo e a Porto Alegre. Suas frases são de uma total incorreção
política. Vendo o Carnaval da Bahia, ele considera que naquele Estado inventaram a mais
perfeita forma de dominação: a felicidade. Diz algo como: "Deixem o pessoal na miséria,
toquem uma música e logo está todo mundo dançando". Esses pensamentos "lapidares"
surgem a todo momento no filme, oscilando entre o acinte, a constatação, o manifesto
político e o xingamento. São tantas as frases desse tipo que terminamos sem saber direito o
que pensar. De certo modo, a violência das frases que aparecem em Cronicamente inviável
segue o mesmo padrão das imagens: o filme desorienta o espectador porque não se
consegue nunca saber se o que se diz, o que se mostra, é para ser entendido ao pé da letra
ou como ironia. Se fosse ironia, cada barbaridade pronunciada estaria a esconder um outro
ponto de vista, o "certo", o das convicções do autor. Mas é como se o filme mostrasse
todos os pontos de vista como "errados", sem que o "certo" seja ao menos sugerido. O
título de Cronicamente inviável já sugere essa ambigüidade: tem um ar de ser irônico, mas
desconfiamos que é isso mesmo o que o autor pensa do Brasil. Vem daí uma estrutura de
documentário, uma frieza, talvez, no registro isolado de cenas e mais cenas aberrantes. Ao
mesmo tempo, o filme não é um documentário, não é um puro "registro". É como se tudo
ali fosse real, "demasiado real": tão verdadeiro a ponto de ser irreconhecível. Irreconhecível
não é o termo, tampouco. Reconhecemos muito bem o absurdo do país no que vemos na
tela. Mas aí está a armadilha mais sutil deste filme: propondo-se como uma espécie de
caricatura, tende a suscitar a reação de que, afinal, o diretor está exagerando, as coisas não
são bem assim etc. Dizer isso, entretanto, seria reproduzir exatamente o jogo da má
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consciência que o filme denuncia o tempo todo. Cada personagem engana os outros e
engana a si mesmo; o diretor engana o espectador o tempo todo, mas parece dizer que, se
propusesse qualquer "luz no fim do túnel", estaria fazendo mais uma enganação. Ninguém
se salva, nem mesmo o filme... O que o torna brilhante. Do mesmo modo, oenredo é
marcado por assaltos, desastres, ferimentos, contusões: os golpes e contragolpes (na
narrativa e no corpo dos personagens) se sucedem. O que equivaleria a dizer, bem
brasileiramente, que entre mortos e feridos salvam-se todos. Esta parece ser, para Sérgio
Bianchi, a maior tragédia – e o que torna o país, ao mesmo tempo, um objeto de sarcasmo
e compunção.
Marcelo Coelho. Folha de S. Paulo, 10 maio 2000.
Nesse outro exemplo, a seguir, temos uma resenha crítica, pois o autor,
além de resumir os principais tópicos do livro, procurou avaliá-lo.
Quinhentos anos é muito ou pouco para uma nação? São os anos da adolescência
ou maturidade? Depende dos rumos de cada uma. Nas nossas comemorações, os tutores
acharam que eram os da puberdade e deram aos afetos verbas para os divertimentos. Mas a
sociedade achava que já era adulta e não gostou da programação. Deu no que deu. Que
oportunidade se perdeu da nação se encontrar e as lideranças discutirem os nossos
problemas históricos! Mas era o velho Brasil cordial. E é o Brasil o tema do livro, Uma
Introdução ao Brasil: um banquete no trópico, publicado pelo Senac e organizado por
Lourenço Dantas Mota, que foge à programação tutelar, apesar do subtítulo. O restritivo
de lugar causa arrepio, normalmente vem prometendo paraísos, mas oculta um outro
sentido, o de amenizar um tipo de dominação que se aprofunda e se universaliza. E fica
difícil associá-lo ao diálogo de Platão, um banquete comemorativo entre cidadãos, na casa
do trágico Agatão, em Atenas, cidade que gestou a idéia de igualdade e isonomia, onde
discutem o amor, o caminho para o homem para se superar. O tema do Brasil, uma
sociedade com traços monstruosos, num banquete, poderia ser indigesto. Porém, quanto
ao restante, o livro realiza bem o que se propôs: fazer uma apresentação de algumas das
reflexões mais densas da nossa formação social. Dantas Mota organizou o livro com
diferentes estudiosos falando de uma obra dos autores escolhidos. Cada um pôde se
concentrar e, a seu modo, expor o livro, seguindo, porém, um roteiro comum: uma
pequena apresentação do autor, o resumo dos capítulos e maiores ou menores
contextualização e avaliação crítica da obra, dependendo do comentador. Com isso,
garantiu-se um mínimo de unidade, preservando-se a singularidade do apresentador. O
desejável seria fazer aqui uma apreciação de cada uma das leituras, mas não é possível, no
espaço apertado da resenha; sobra falar da concepção geral da obra. Quanto à seleção dos
livros, no geral, acertou: ela compreende os mais conhecidos e que estariam em qualquer
brasiliana. Mas, como toda escolha, essa também está sujeita a reparos, não é possível
contentar a todo mundo. A antologia procurou selecionar as melhores sínteses sobre o
país, ou as obras que, pela densidade da reflexão, tratando de um aspecto, acabaram
falando do todo. Assim, o Brasil pareceu à maior parte deles como um desafio ao conceito
e à comparação com os modelos civilizatórios conhecidos: uma fronteira onde se
misturavam os extremos de civilização e barbárie. A leitura das interpretações na ordem
Prática de texto: leitura e redação
107
cronológica tem a virtude de nos revelar um lento processo de desanuviamento, compondo
elas próprias uma história, com ganhos de compreensão e sentido. Um que fica claro é o da
inversão: como tudo o que de início aparecia como ameaça e barbárie, índios selvagens,
negros escravos e massas miseráveis mamelucas, era filho da civilização – a dita destruição
criadora não é uma invenção nova. Os movimentos colonizadores, trazendo nas mãos a
cruz e a espada, foram fontes de violência e destruição, ecológica e humana. Assim, o
Trópico só foi um paraíso muito relativo, lugar mais livre e sem pecado, em que se pôde
tudo, mas para o capital, onde ele se despiu dos freios civilizatórios que foi obrigado a
morder nos países de origem. O que remete a outra inversão, incubada nas interpretações,
mas um pouco tolhida pela seleção: como só poderia ter saído do mundo do trabalho, e
não do das elites, uma verdadeira civilização, caso as forças geradas no seu seio tivessem se
estruturado melhor para policiar a cidade; dada essa debilidade, a sua história é a de
avanços e recuos, sofrendo sempre as ressurgências truculentas das forças ilustradas, e
quanto mais ilustradas, mais de costas para ele, exacerbando-se na sua capacidade
destrutiva. Para esse melhor delineamento da construção do artifício Brasil - pois não é
obra da natureza nem do acaso, antes, da força das coisas, do capital, sem que as elites se
interessassem em resistir e impor-lhe um projeto mais humano -, talvez fossem necessárias
algumas complementações e inserções nessa biblioteca que, se nomeada por um índio, um
negro ou um pobre, poderia ser chamada de "A Arquitetura da Destruição". A reunião dos
escritos ilustrados de José Bonifácio, Projetos para o Brasil, poderia ser complementada pela
percepção aguda, por vezes exaltada, de João Francisco Lisboa, no "Jornal de Timon"; as
agruras do empresário Irineu Evangelista de Sousa, expostas na sua Autobiografia, deveriam
ser compostas com as agruras de Thomaz Davatz, Memórias de um Colono no Brasil (1850),
para o ponto de vista do trabalho ter o mesmo peso que as do visconde; e A Ilusão
Americana, do moço rico monarquista Eduardo Prado, ganharia substância se acompanhado
do livro do médico sergipano Manoel Bonfim, A América Latina: Males de Origem. Outros
livros dariam mais abrangência à biblioteca. As populações indígenas ganhariam com O
Processo Civilizatório, de Darcy Ribeiro; as de origem africana, com o grande estudo de Roger
Bastide, As Religiões Africanas no Brasil; os interessados na história do modo perverso de
estruturação do trabalho no Brasil, com o livro de Emília Viotti da Costa, Da Senzala à
Colônia; e a sociedade brasileira enxergaria melhor as fontes do seu caráter violento,
sistêmico e não-ocasional, com o livro de Maria Sylvia de Carvalho Franco, Homens Livres
na Ordem Escravocrata. Ficam como sugestões, que não visam senão à complementação,
afirmando determinado sentido, também uma escolha, desse material introdutório ao
Brasil. A meu ver, o que melhor o resume, é uma citação de Florestan Fernandes, feita por
Gabriel Cohn, na sua leitura exemplar, pelo que condensou sem perder a riqueza, de A
Revolução Burguesa no Brasil: "Seria preciso lembrar que no cosmos senhorial só pode existir
um tipo de individualismo, que nasce da exacerbação da vontade do senhor e se impõe de
cima para baixo?". Comemoremos a eterna adolescência.
Luiz Roncari. Folha de S. Paulo, 10 jun. 2000
Como deve ser redigida uma resenha? Como ela é estruturada? Vejamos:
� apresentação do texto a ser resenhado: título da obra, autor, idéia ou assunto
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central do texto;
� resumo: é importante resumir os principais aspectos do texto sem que se
entre em detalhes desnecessários;
� análise: neste ponto, deve-se ter em mente como o texto foi escrito (qual a
linguagem empregada, qual o estilo do autor etc.), qual a relevância do
assunto e o tratamento dado a ele, ou seja, qual a importância das idéias, dos
argumentos desenvolvidos pelo autor;
� comentário final: em que o resenhista pode, com base na análise, opinar
sobre o texto, tecer algumas considerações finais, recomendar ou não a
leitura etc.
Esta divisão tem um caráter eminentemente didático, o que significa que
uma resenha não precisa ser necessariamente escrita seguindo a ordem proposta;
resumo e análise podem, por exemplo, misturar-se. O importante é o resenhista
demonstrar capacidade de leitura e de redação; em outros termos, o estudioso,
para redigir uma boa resenha, precisa perceber, compreender e, se possível,
julgar de modo satisfatório os aspectos presentes em um texto.23
Para auxiliar naredação de uma resenha, pode-se responder ao seguinte
roteiro de questões:
a) Qual o assunto principal do texto?
b) Qual a perspectiva, o ponto de vista de que partiu o autor para desenvolver o
texto?
c) Como o autor desenvolveu o raciocínio? Com exemplos concretos? Com um
pensamento mais abstrato?
d) Qual a relevância, a importância, do assunto tratado?
e) O texto tem coerência?
f) O texto foi escrito com um estilo específico, individual ou se trata de um
estilo comum ao tipo de texto?
g) Qual o nível de linguagem empregado pelo autor? Erudito? Popular?
Coloquial?
h) Há outros assuntos paralelos ao assunto central?
i) A quem se destina o texto em questão?
j) O texto estabelece uma relação direta com outros textos? Como se dá isso?
23
Rever o capítulo 2, Repertório e escrita.
Prática de texto: leitura e redação
109
k) O autor cumpre os objetivos anunciados?
l) O método analítico empregado é eficiente?
m) O autor se identifica com alguma ideologia?
n) Qual a principal conclusão a que chegou o autor?
Claro que esse roteiro é passível de alterações, e nem há a necessidade de
segui-lo à risca. De qualquer modo, recomendamos tentar responder a cada uma
das questões antes de redigir a resenha.
Destaquemos os elementos estruturais na resenha abaixo:
Crítico literário consagrado por dois livros magníficos sobre a obra de Machado de
Assis - Ao vencedor as batatas (1977) e Um mestre na periferia do capitalismo (1990) -, Roberto
Schwarz reúne em Seqüências brasileiras os ensaios, resenhas, orelhas, intervenções em
seminários e depoimentos à imprensa produzidos ao longo dos anos 90. (apresentação)
A variedade da procedência dos textos e a diversidade de seus temas à primeira
vista podem sugerir que falta organicidade à obra. Nada mais enganoso. Schwarz se dedica
aos textos breves com o mesmo rigor de seus trabalhos mais alentados. Mesmo nas
resenhas curtas ou nas orelhas, superficiais por natureza, saltam aos olhos a originalidade
do pensamento e a clareza das idéias do autor, que nunca se encastela na irrelevância dos
jargões acadêmicos e da erudição inútil. É assim, por exemplo, que suas análises dos
romances Estorvo, de Chico Buarque, e Cidade de Deus, de Paulo Lins, ou das Poesias reunidas,
de Francisco Alvim, não apenas contextualizam e lançam luzes inesperadas sobre três livros
importantes da nossa produção contemporânea. Elas também convidam à leitura, tarefa
que nem todo crítico é capaz. (análise)
Na primeira parte de Seqüências brasileiras, que traz quatro ensaios sobre Antonio
Candido e, mais particularmente, sobre sua Formação da literatura brasileira, o tom
inevitavelmente exegético de alguns momentos é amplamente compensado pela argúcia
com que se decifra o pensamento de um autor que já ganhou aura de mito e, por conta
disso, é hoje mais admirado do que lido. Schwarz mostra como a trajetória de Candido, que
imprimiu um novo estilo e um novo método ao raciocínio crítico nacional, se articula com
as transformações da realidade brasileira nos últimos 50 anos, incluindo uma atuação
importante de resistência durante a ditadura. Mostra, também, como a reflexão estética de
Candido está intimamente associada a uma crítica severa da iniqüidade das nossas relações
sociais - diferentemente do que acontece com muitos críticos famosos, que simplesmente
transplantam para cá as idéias e conceitos da moda na universidade americana ou européia.
Em "Altos e baixos da atualidade de Brecht" combina a admiração pelo
dramaturgo com as necessárias reservas de alguém bem informado sobre os males do
stalinismo no passado e os males do império da mídia no presente. Num livro sem pontos
fracos, Schwarz consegue brilhar mais do que o normal quando volta à análise de Machado
de Assis, inquestionavelmente o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Quanto mais
se escreve sobre Machado, mais se percebe como sua obra é inesgotável. Em Contribuição
de John Gledson, por exemplo, o autor dialoga com outro machadiano importantíssimo,
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destacando, entre outros feitos de Gledson, a valorização da novela Casa Velha, tida
erroneamente como obra menor, e a releitura de Memorial de Aires, tido erroneamente como
o romance da reconciliação de Machado com a vida. (resumo e análise)
Na entrevista sobre Um mestre na periferia do capitalismo, Schwarz atualiza a reflexão
do seu já clássico ensaio "As idéias fora do lugar", ao explicar como os romances de
Machado refletiram as circunstâncias peculiares do liberalismo no Brasil do Segundo
Reinado, uma sociedade escravocrata e clientelista que, paradoxalmente, lutava para
ingressar na modernidade copiando o modelo europeu. Só é pena que o Brasil de hoje,
igualmente paradoxal e iníquo, não tenha um Machado de Assis para lhe revelar as mazelas.
(comentário final)
Luciano Trigo. Revista Istoé, set. 1999
Diga-se que tal divisão dos elementos estruturais de uma resenha atém-
se, didaticamente, ao que predomina nos parágrafos.
Exercícios
1) Determine na resenha abaixo os elementos estruturais desse gênero, que
predominam em cada parágrafo.
Alimento para a criatividade
Giancarlo Tomelin
Vivemos numa era de turbulências, ocasionadas pelas constantes
transformações pelas quais passamos e que, não raras vezes, não entendemos.
Apenas tentamos, de forma inconsciente, driblar os problemas. Fato é que nossa
sociedade está caminhando para o pós-capitalismo, que já é realidade nos países
desenvolvidos. O capitalismo e o Estado-Nação estão dando lugar à sociedade do
conhecimento.
O conhecimento deixou de ser aplicável, deixou sua forma bruta – o ser
passando para uma forma mais aprimorada, o fazer –, transformando-se assim em
um verdadeiro recurso de utilidade. Hoje o conhecimento não é mais um bem
privado e sim um bem público, sendo a pedra fundamental de nossa sociedade.
Passamos da Revolução Industrial para a Revolução Produtiva. Vivemos
uma Revolução Gerencial focalizada no conhecimento, que está sendo aplicado ao
próprio conhecimento obtendo resultados sinérgicos e até inesperados das nossas
próprias ações. O professor Peter Drucker, no seu livro Sociedade Pós-capitalista,
explica estas mudanças. A obra é certamente um brilhante exame do passado,
presente e futuro do planeta.
Prática de texto: leitura e redação
111
Seria prematuro chamarmos nossa sociedade de “sociedade do
conhecimento”? Por enquanto temos apenas uma “economia de conhecimento”,
afirmaria o professor Drucker. Porém a sociedade do conhecimento, uma
verdadeira revolução pós-capitalista, necessita do conhecimento de processos e das
pessoas, que efetivamente precisam aprender a aprender. As matérias podem ser
consideradas menos importantes que a capacidade do estudante convicto de
continuar aprendendo e entendendo que todos os processos são condições para
viver com mais segurança.
Com um tema já explorado por diversos autores, inclusive por Domenico
de Masi, este livro do professor Peter Drucker, de fácil leitura e entendimento, deve
ser lido e compreendido, para que as surpresas passem a ser definitivamente
caracterizadas como conseqüências.
Revista Empreendedor, nov. 2000.
2) Faça um resenha do texto abaixo:
A força secreta do objeto livro
Roberto Pompeu de Toledo
Há um problema com o livro. Tem-se previsto a sua desgraça com a
insistência de um Jeremias diante dos pecados de Jerusalém. Depois da máquina de
escrever, do telex e dos pesados arquivos de aço, ele estaria na lista dos condenados
à morte pelo rolo compressor do computador e da internet. Em artigos recentes na
imprensa, dois eminentes escritores, o americano John Updike e o peruano Mario
Vargas Llosa, saíram em defesa, o primeirodo livro propriamente dito, o segundo
deste secular subproduto da indústria do livro que é a livraria. Se o livro precisa de
defensores desse calibre, é sinal de que pode estar mesmo em perigo.
Updike alinha uma série de vantagens do livro sobre o texto obtido via
computador. Seus argumentos vão da bela figura que os livros fazem como objetos
de decoração, capazes de "aquecer e iluminar a sala", até o lastro que a posse de
uma boa quantidade de livros confere à vida de uma pessoa, forçando-a a pensar
duas vezes antes de se entregar à tentação de mudar de casa, ou segurando os casais
quando, ao impulso de se separar, se contrapõe a dolorosa imposição de dividir a
biblioteca. De permeio alinha virtudes mais óbvias, como o fato de, na cama, o
livro ser melhor companhia do que "um laptop zumbindo", e a forma admirável
"que se encaixa na mão humana num aconchego sedutor". Vargas Llosa, ao
defender as antigas livrarias, dirigidas por livreiros amantes dos livros, contra as
cadeias impessoais e as vendas pela internet, também, indiretamente, defende o
objeto livro. Ele lamenta o fato de em Londres, onde está morando, terem
desaparecido as pequenas livrarias da área de Charing Cross, com seus livreiros que
pareciam personagens de Dickens. "Com eles, era possível conversar e passar horas
Melo & Pagnan
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escarvando os livros, nessa atmosfera cálida, inconfundível, de poeira intemporal e
de religiosidade laica que têm – ou tinham – as livrarias pequenas", escreve. Mas,
pensando bem...
Estaria o livro mesmo em crise? Considere-se o que se deu nos Estados
Unidos, dias atrás. Centenas de milhares de pessoas, nas lojas, atrás de determinado
objeto. Outras tantas encomendando-o, tomando-o emprestado, dando-o ou
ganhando-o de presente. E que objeto era esse? Um livro – Harry Potter and the
Goblet of Fire (Harry Potter e o Cálice de Fogo), da inglesa J.K. Rowling, quarto
volume de uma série infanto-juvenil que virou fenômeno. É duvidoso que Updike
ou Vargas Llosa se comovessem com o caso. O lançamento de Goblet of Fire, com a
tiragem avassaladora de 5,3 milhões de cópias, foi precedido de aparato tão
característico dos dias que correm quanto a internet. Propaganda maciça, até em
luminosos na Times Square, de Nova York. E, como acontece com o Beaujolais
Nouveau, um dia preciso, amplamente apregoado, para a chegada aos pontos-de-
venda: 8 de julho. Algumas livrarias abriram à zero hora desse dia, para que os
consumidores se apressassem a regalar-se. E não faltou gente para comprar, e não
faltou fila.
Também não faltou bobeira, diga-se. Pessoas que ficam acordadas até meia-
noite, para fazer uma compra, e arrastam consigo os filhos de pijama são seres
contaminados pelo mesmo vírus que as empurra a fazer muitas outras coisas
porque todo mundo está fazendo, ou pelo menos a publicidade dá a entender que
todo mundo está fazendo. Resta que as crianças que compraram o livro, de 700
páginas, e foram fotografadas acariciando o volume como a um bicho de pelúcia,
guardarão dele a mesma lembrança que o menino Marcel Proust guardou dos livros
que ganhava da avó. Será um objeto sagrado de sua infância. Não é por ora
concebível que o texto gerado num computador, inconsistente como o ar, que não
se acaricia, nem se deixa integrar à decoração do quarto, venha a exercer tal papel.
O livro tem uma característica que o torna osso duro de roer para a sanha
da internet: o fato de ser mistificado a ponto de virar objeto sagrado. E mistificado
tanto pelos que usufruem dele quanto pelos que não usufruem. Para Updike e
Vargas Llosa, ele é sagrado porque sem ele a vida não valeria a pena. O sentimento
é parecido ao do ator Vittorio Gassman, quando, do palco, contemplando a platéia,
pensava: "Como eles podem viver do lado de lá?" Quem vive entre os livros pensa
dos outros, igualmente: "Como eles podem viver sem eles?" Mas aqueles que não
os cultivam também os reverenciam. Neles identificam a sabedoria, tão alta que não
a alcançam, tão desejável que gostariam que os filhos partilhassem dela como eles
próprios não foram capazes.
Como se sabe, há muitos livros ruins – a maioria –, e, como veículo de
circulação de conhecimento e possível distribuidor de sabedoria, o computador
pode ser tão eficaz quanto. A maior razão do respeito pelo livro talvez seja outra.
Prática de texto: leitura e redação
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Silencioso, imune à exigência da velocidade, ao contrário da totalidade das
invenções modernas, e tão despregado do frenesi do on-line quanto um cientista
louco do blazer da moda, ele se apresenta como lastro num outro sentido, que não
o de Updike: o que liga uma pessoa a si mesma.
Revista Veja, 26 jul. 2000.
3) Escolha um livro, uma peça de teatro, um filme ou uma música e redija uma
resenha.
4) Observe a foto abaixo, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, e dela faça
uma resenha. Atente para os aspectos mais importantes da imagem, como os
personagens e o espaço em que estão inseridos.
Obs.: Na bandeira, está escrito: "Brasil capião", ou seja, "Brasil, campeão".
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Capítulo 8Capítulo 8Capítulo 8Capítulo 8
DissertaçãoDissertaçãoDissertaçãoDissertação
Entre os gêneros redacionais, a dissertação é aquele que mantém um vínculo profundo
com a argumentação, não havendo sentido fazer distinção entre uma e outra, já que o texto
dissertativo não se limita à simples constatação dos fatos, dos fenômenos, mas se esforça para
obter a adesão do leitor. Por isso podemos dizer que o texto dissertativo é um discurso da
transformação, no qual se tenta convencer o leitor sobre algo. A voz que se expressa em um
texto dissertativo assume uma atitude crítica diante do mundo, fazendo da polêmica, do
julgamento, do posicionamento, da reflexão e da análise, sua razão de ser. Quem disserta deve
estar disposto a opinar, a defender seu ponto de vista. O exercício crítico revela-se também um
ato de inconformidade, cujo fundamento é a negação das coisas inapelavelmente estabelecidas.
A dissertação, mais do que a narração e a descrição, depende da
capacidade de abstração de quem escreve, já que o universo do texto dissertativo
é o das idéias, dos conceitos. O raciocínio não se limita a um percurso figurativo,
isto é, não se alicerça apenas em figuras para construir o texto, uma vez que na
dissertação o pensamento trabalha com generalizações, com idéias abstratas,
com temas. Se num texto dissertativo (como o editorial de um jornal) faz-se
referência ao prédio da Câmara dos Deputados (termo concreto), isso não torna o
texto menos conceitual se o objetivo for, entre outras possibilidades, o de
analisar o teor das leis (termos abstratos) que ali se aprovam, pois nesse caso até
o edifício do legislativo poderia ganhar, na argumentação, um significado
simbólico que o retratasse, por exemplo, como uma Casa de Ilusões ou fizesse
dele melhor juízo usando outra metáfora.
Observe como no texto abaixo o autor, ao refletir sobre a
comercialização e o consumo de cigarros, não se limita a constatar que o fumo é
prejudicial à saúde. Ele analisa uma série de fatores relacionados ao assunto,
destacando diferentes discursos ..........
Prática de texto: leitura e redação
115
É Proibido Proibir
Adriano Silva - Revista Exame (junho 2000)
Há um par de semanas, o Código Nacional de Auto-regulamentação Publicitária (Conar)
anunciou regras mais rígidas para a criação e veiculação de anúncios de cigarro. Quase ao
mesmo tempo, saía de cartaz no país o filme O Informante, com Al Pacino e Russell Crowe,
um petardo na indústria do tabaco, retratada, com base numa história real, como um
cardume de tubarões que sonegam informações emanipulam quimicamente seus produtos
de modo a viciar os consumidores. Dias mais tarde, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro
extinguiu uma ação civil que instava a Souza Cruz e a Philip Morris a pagar 1 bilhão de
reais como indenização por danos morais e materiais sofridos por fumantes, ex-fumantes,
fumantes passivos e familiares. Os fatos, e a sua notável sincronicidade, mostram
como, cada vez mais, a discussão em torno da venda, da promoção e do uso de
cigarros divide opiniões, exalta ânimos e erige barricadas no Brasil e no mundo.
É difícil encarar essa questão com olhos desapaixonados, sem assumir a posição
tabagista nem a antifumo. Para fazê-lo, é interessante começar a análise reconhecendo dois
direitos fundamentais do consumidor - que é quem realmente importa nessa história toda -
em sua relação com o cigarro.
O primeiro é o direito de ser informado corretamente sobre propriedades e efeitos
do produto que está comprando. O segundo é o direito de comprar o que bem entender,
assumindo individualmente os riscos decorrentes do seu ato. (Desde, é claro, que esses
riscos incorram apenas sobre ele e não sobre terceiros.) Uma exceção é a venda de
armamentos, cujo uso implica necessariamente o prejuízo de terceiros.
Os dois direitos, dos quais o governo deveria ser um guardião implacável, são
complementares: a liberdade de escolha do consumidor só tem condições de ser exercida
de fato, e só faz sentido, se as informações de que ele dispõe para tomar a decisão forem
completas e verdadeiras. Ou seja: se o indivíduo, numa sociedade democrática e liberal, tem
- e deve ter - o direito de fazer o que quiser com o seu bolso, com o seu corpo e, no limite,
com a sua própria vida, é preciso que ele esteja de olhos bem abertos, absolutamente
cônscio de todas as variáveis que envolvem suas decisões. Nesse nível de liberdade e de
responsabilidade individuais, qualquer tentativa de ludibriá-lo ou de enuviar a sua clareza de
escolha é uma ofensa gravíssima aos seus direitos de cidadão.
É por isso que silêncios e mentiras por parte da indústria do tabaco são
inaceitáveis. E, mais do que inaceitáveis, criminosos. Mas aqui, uma distinção. Uma coisa é
afirmar que nicotina não vicia ou sugerir que o cigarro não faz mal à saúde ou, ainda, omitir
a presença de certas substâncias tóxicas e aditivas. Seja no discurso oficial, técnico, da
empresa; seja na publicidade dos seus produtos. Outra coisa é a indústria do tabaco
promover as suas marcas com afirmações que não contenham inverdades nem sugestões
capciosas. Na medida em que os anúncios de cigarro buscarem apenas dar visibilidade às
marcas, e não contiverem promessas enganosas - como a sugestão de que fumar melhora o
desempenho nos esportes, o que é um franco absurdo -, não há, ou não deveria haver,
nenhum problema com eles.
Melo & Pagnan
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116
A discussão em torno da propaganda de cigarros, na verdade, pressupõe uma
outra: a do real poder das mensagens publicitárias sobre os consumidores. É inegável o
poder das campanhas de tornar uma marca conhecida. Daí a se considerar que um spot de
rádio "ardiloso" determinará a compra de uma marca pelo ouvinte "incauto" vai uma
grande distância. De um lado, a decisão de compra por parte de um consumidor envolve
vários fatores - a publicidade é só um deles. De outro, os consumidores não são bobos - ao
contrário do que acreditam os adeptos do dirigismo, que defendem um Estado grande e
um governo com ampla intervenção na vida da sociedade exatamente porque imaginam
que os indivíduos - eu e você - são presas inocentes, plenamente influenciáveis, carentes de
um tutor iluminado que lhes guie e proteja.
Para admitir que os consumidores exerçam o seu direito de escolha, e para lhes
cobrar responsabilidade pelas opções que realizam, é preciso, antes de mais nada, crer na
sua capacidade de análise, raciocínio e discernimento. Acreditar na sua condição de adultos
mentalmente capazes - ao menos o suficiente para entender que advertências como "Fumar
provoca infarto do coração", "Fumar causa câncer de pulmão" e "Nicotina é droga e causa
dependência", impressas nos maços e nos anúncios de cigarros, significam que cigarro não
é bom e que o seu consumo implica graves riscos.
Se considerarmos que adolescentes, ou menores de idade, ainda não têm suficiente
autonomia e responsabilidade para exercer sua liberdade, é bem possível que eles não
devessem ter acesso à compra de cigarros.
O ponto é que cigarro é ruim. Faz mal à saúde. Fim de conversa. Só que o direito
do indivíduo à compra e ao uso de cigarro não passa pela negação dessa obviedade. Passa,
ao contrário, pelo seu direito inquestionável, e indelegável, de realizar escolhas para si,
mesmo quando opta por coisas ruins como o cigarro. Só o indivíduo tem o direito de
escolher o que fazer e o que não fazer consigo mesmo, com a sua saúde, com o seu
organismo - é de foro íntimo toda decisão individual cujas conseqüências não agridam
terceiros. Afinal, o direito de uma pessoa à autodeterminação é maior do que todos os
julgamentos morais que a sociedade possa fazer a esse respeito. A sociedade, ou o Estado -
sua versão institucionalizada -, pode até julgar moralmente a relação de compra e venda de
um produto maléfico entre um indivíduo e uma empresa. Mas não deveria poder julgá-la
legalmente. Pela simples razão de que não tem, ou não deveria ter, jurisdição na seara
privada das escolhas que o indivíduo faz para si mesmo. Levando ao extremo: do ponto de
vista liberal, o direito absoluto à vida não é maior do que o direito do indivíduo de fazer o
que quiser com a própria existência, mesmo que seja acabar com ela devagar, no ritmo de
dois maços de cigarro por dia.
Obviamente, ao considerar que os indivíduos são suficientemente inteligentes para
saber onde estão se metendo ao decidir fumar - e partindo do pressuposto de que tenham
tido acesso à verdade integral sobre o que estão consumindo, coisa que, pela situação
exposta no filme O Informante, parece não ter acontecido nas últimas décadas -, é
inadmissível que venham, anos depois, alegar que não sabiam de nada, que desconheciam
as possibilidades perversas embutidas em cada bituca vencida. De novo: exercer a liberdade
de escolha implica o indivíduo assumir as conseqüências das opções que faz.
Um argumento freqüentemente usado pelos antitabagistas em sua cruzada pela
redução do espaço do cigarro na sociedade são os altos custos dos tratamentos das doenças
Prática de texto: leitura e redação
117
causadas pelo cigarro. O argumento usado pelo governo americano contra a indústria do
tabaco nos Estados Unidos parte do princípio de que não é justo que o dinheiro dos
impostos dos contribuintes, inclusive de uma provável maioria de não-fumantes, custeie os
gastos médicos de fumantes cancerosos. Essa linha de raciocínio é questionável por dois
flancos, o econômico e o filosófico.
Do ponto de vista econômico, é preciso levar em consideração que os fumantes,
ao comprar cigarros, pagam impostos extras em relação aos não-fumantes. (No Brasil, a
carga tributária do cigarro é de 87%.) Essa arrecadação específica poderia gerar recursos
específicos para o tratamento de doenças decorrentes do hábito de fumar. Outro
argumento utilizado pelos tabagistas é que, como sua expectativa de vida é mais curta, eles
onerariam por menos tempo os cofres públicos no fim da vida, comparativamente aos não-
fumantes, que viveriam mais sob os auspícios da Previdência. Isso geraria uma espécie de
compensação em relação ao que gastariam a mais no sistema público de saúde com seus
pulmões podres.
Do ponto de vista filosófico, o raciocínio de alocações perfeitas e equânimes do
dinheiro público, além de inexeqüível, parece tortuoso. Afinal, ao não querer que o
dinheiro de seus impostos seja gasto com fumantes carcomidos, o não-fumanteestá
admitindo que o morador do bairro de Pinheiros, em São Paulo, por exemplo, exija que a
sua cota de dinheiro público não seja gasta em Santo Amaro, outro bairro da capital
paulista. Uma maluquice. O erário é coletivo por definição e deve, sob esse ponto de vista,
alocar seus recursos de acordo com as necessidades da comunidade que participa dele, a
partir de uma definição de prioridades, sem discriminações de nenhuma ordem.
Um meio-termo entre uma e outra posição seria o sistema de saúde cobrar
contribuições diferenciadas de fumantes e não-fumantes. Os fumantes pagariam mais,
porque seu perfil envolve mais riscos. Alguém aí deve estar se perguntando se o mesmo
raciocínio valeria para diabéticos, cardíacos, chagásicos etc. A resposta é: não. Portar uma
doença ou um quadro clínico de risco não passa pela escolha do indivíduo. Fumar, e
contrair doenças decorrentes do cigarro, passa. E seria, portanto, justo que ele assumisse
responsabilidades proporcionais à escolha que fez.
Outra questão importante imbricada nessa disputa entre fumantes e antitabagistas
é a que envolve os chamados fumantes passivos. O raciocínio é simples: se restringir o
direito de uma pessoa de fumar é um gesto autoritário e antiliberal, também o é um
fumante impingir a um não-fumante a fumaça do seu cigarro. O risco assumido por quem
fuma deve ser individual. Se a sociedade não tem o direito de tomar decisões pessoais pelo
indivíduo, muito menos o tem um outro indivíduo. A fronteira do uso do cigarro na
sociedade deve ser precisamente o direito que o não-fumante tem de viver longe da fumaça
cancerígena de quem fuma.
Tendo discutido a questão basicamente na ponta da demanda - a dos
consumidores -, resta analisar a situação na ponta da oferta - a das empresas. O argumento
antitabagista é que a indústria do tabaco é a única que causa mal intencionalmente a seus
consumidores, constituindo uma ameaça à saúde pública. Por isso mereceria ser punida. O
que é preciso perceber é que a demanda gera a oferta - não é a oferta que gera a demanda.
Ou seja, são os fumantes que determinam a existência das empresas de cigarro, e não o
contrário. Sempre existiram e sempre existirão fumantes (o cigarro ainda nem existia e já
Melo & Pagnan
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havia os "fumantes" que o inventaram), à revelia das nossas ilusões de uma sociedade ideal
ou de um ser humano perfeito. Assim como sempre haverá suicidas, maníaco-depressivos
etc.
Assegurado que a oferta de cigarros (ou de qualquer outro produto) venha
acompanhada da verdade nua e crua sobre suas propriedades e seus efeitos, e deixado claro
ao indivíduo que seu inquestionável direito à autodeterminação virá sempre acompanhado
de uma igualmente inquestionável responsabilidade individual pelas opções que faz, não
parece haver mais nada, dentro de um cenário democrático e liberal, que a sociedade, o
Estado, Deus, você ou eu possamos ou devamos fazer.
Estrutura do texto dissertativoEstrutura do texto dissertativoEstrutura do texto dissertativoEstrutura do texto dissertativo
O texto dissertativo organiza-se em três etapas, cada uma das quais com
funções bem específicas que, em conjunto, oferecem ao leitor uma visão de
totalidade:
Introdução: é a parte em que se apresenta a idéia-núcleo a qual deverá ser
desenvolvida progressivamente no decorrer do texto. A idéia-núcleo é o ponto
de partida do raciocínio e sofrerá redimensionamentos conforme se agreguem
novos temas ao texto. A elaboração dessa etapa inicial exige boa capacidade de
síntese, pois a clareza alcançada na exposição da idéia-núcleo constitui uma das
formas de obtermos a adesão do leitor ao texto; não que o leitor de imediato
concorde com nosso primeiro argumento – a idéia-núcleo – mas se oferecermos
a ele um contato direto com a matéria que encaminhará nossa argumentação, o
texto ganhará maior objetividade e rigor. (Essas são exigências indispensáveis ao
texto jornalístico e científico).
A exposição da idéia-núcleo deve preferencialmente ocupar um ou dois
períodos curtos a que chamamos de tópico frasal. Este pode ser redigido na
forma de declaração, interrogação, negação, comparação entre outras.
...............
Desenvolvimento: a articulação de novos argumentos ocorre nesta etapa de
elaboração do texto. No desenvolvimento, as informações sobre a matéria
anunciada na introdução são analisadas, debatidas em confronto com
informações integrantes, ou não, do universo a que pertence o tema. É evidente
que a variedade de conexões entre os argumentos depende da riqueza do
repertório de quem escreve e da possibilidade de constituir-se com eles uma rede
Prática de texto: leitura e redação
119
de sentidos; a quantidade de informações por si só não assegura a qualidade da
argumentação, já que esta, como uma operação lógica, decorre do domínio sobre
o material lingüístico (estruturação da frase, pontuação, uso de conectivos etc.)
e da adequação dos argumentos ao contexto, antecedida do exame da veracidade
de cada um deles. O compromisso com a verdade, portanto, deve ser um
princípio que devemos ter presente.
...........................
Acompanhando o raciocínio desenvolvido até aqui, percebe-se que o
texto, como é próprio da dissertação, não se organiza internamente numa
progressão cronológica, isto é, não se estrutura segundo uma ordenação
temporal, relacionada com o correr dos acontecimentos, mas de acordo com um
encadeamento lógico de causas e efeitos, entre outras possibilidades.
Conclusão: esta parte, que é também chamada de desfecho, sintetiza o que há
de mais relevante no conteúdo desenvolvido; o objetivo dessa retomada de
conteúdos é registrar as considerações finais do autor sobre o tema. Não é raro,
no entanto, que determinados textos deixem de apresentar uma “conclusão”.
Nesse caso, o autor pode optar em compartilhar suas dúvidas com o leitor na
forma de perguntas, por exemplo, ou simplesmente deixar certas questões em
aberto.
.....................
Organização do raciocínio lógicoOrganização do raciocínio lógicoOrganização do raciocínio lógicoOrganização do raciocínio lógico
O texto dissertativo é um trabalho de fundamentação, demonstração e
exemplificação. Um debate de idéias que segue um método de raciocínio
inspirado em modelos constituídos pela tradição ocidental.
A etimologia da palavra “método” é a seguinte : meta + odos; meta =
através de; odos = caminho. Portanto, o caminho através do qual se chega a uma
conclusão.
Há dois métodos fundamentais de raciocínio:
• indução
• dedução.
A indução é o método apoiado na observação dos casos particulares para se
chegar ao geral, às generalizações. Observe o seguinte exemplo:
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...............................................................................
A indução é um raciocínio muito utilizado no pensamento científico, pois
o cientista parte da observação de um determinado número de fatos particulares
para inferir, para extrair generalizações. Encontramos casos de raciocínio
indutivo no cotidiano quando, por exemplo, afirmamos que a televisão não
apresenta nenhum programa de qualidade. Pode ter ocorrido, no entanto, que a
programação de um determinado dia tenha nos desagradado e,
conseqüentemente, inferimos que todos os programas são ruins.
Há diferentes maneiras de averiguar a validade do raciocínio por
indução:
a) O número de fatos: quanto maior o número de fatos que tenha
propiciado a generalização, maior a possibilidade de sua adequação;
b) A extensão dos exemplos apresentados; até onde eles se mostram
típicos? O fato de existirem centenas de políticos corruptos não nos
habilita a concluir que todos se corrompem. (Enunciados como o do
exemplo freqüentemente incorporampreconceitos que devem ser
evitados a todo custo);
c) A ausência de fatos negativos: na coleta de casos particulares para
sustentar a indução, um número pequeno de fatos positivos pode
servir de base; contudo, um único fato negativo prejudica a
conclusão:
• Cláudio ganha o equivalente a US$ 5 mil por mês e é publicitário;
• Júlio ganha o equivalente a US$ 6 mil por mês e é jornalista;
• Carlos ganha o equivalente a US$ 4 mil por mês e é relações
públicas;
• Reinaldo ganha o equivalente a US$ 1 mil por mês e é planejador
de turismo;
• Conclusão: os profissionais da área de Comunicação Social
possuem altos salários.
A conclusão é evidentemente falaciosa, pois o salário de Reinaldo não
pode ser qualificado como “alto” entre os demais.
Prática de texto: leitura e redação
121
A dedução é o método de raciocínio que parte do geral para o particular,
do abstrato para o concreto, ou seja, é um raciocínio cujo movimento é oposto ao
da indução. Leia o exemplo abaixo:
Comerciais exibidos na televisão recorrem a estereótipos para criar a sensação de
desejo no inconsciente do telespectador. A linguagem da propaganda, em qualquer meio de
comunicação, é sempre a da sedução, a do convencimento. (GERAL)
Na TV, seu discurso ganha um reforço considerável: a força das imagens em
movimento. Assim, fica muito difícil resistir aos seus apelos: o sanduíche cujos ingredientes
quase saltam da tela com sua promessa de sabor, o último lançamento automobilístico –
que nenhum motorista inteligente pode deixar de comprar – deslizando em uma rodovia
perfeita como um tapete, a roupa de grife moldando o corpo esguio de jovens modelos.
A publicidade funciona assim nas revistas, nos jornais, no rádio e nos outdoors,
mas suas armas parecem mais poderosas na televisão. Se é verdade, como dizem os críticos,
que a propaganda tenta criar necessidades que não temos, os comerciais de TV são os que
mais perto chegam de nos fazer levantar imediatamente do sofá para realizar algum desejo
de consumo – e às vezes conseguem, quando o objeto em questão pode ser encontrado na
cozinha.
Aprender a “ler” as peças publicitárias veiculadas pela TV tem a mesma
importância, na formação de um telespectador crítico, que saber analisar os noticiários e as
telenovelas. A parte mais óbvia desse trabalho de conscientização refere-se, claro, à
identificação das estratégias usadas para criar o apelo ao consumo.
Entre as armas da publicidade para seduzir o telespectador destacam-se a nudez, a
inocência infantil e a plasticidade quase irreal das imagens. Independente do apelo ao
consumo, os comerciais exibidos pela televisão também se prestam a análises mais amplas
de conteúdo.
(PARTICULAR)
Ao difundir modelos de comportamento, os comerciais exercem tanta influência
sobre os telespectadores quanto os personagens de novelas. E, ao reforçar estereótipos
associados a raças e classes sociais, por exemplo, contribuem decisivamente para que
imagens distorcidas da sociedade continuem a ser propagadas.
(CONCLUSÃO GERAL)
(Publicidade: a força das imagens a serviço do consumo. Folha de S. Paulo.)
A dedução trabalha com hipóteses num tipo de raciocínio que se
assemelha àquele usado na matemática, o qual pode ser esquematizado assim:
elaboração da hipótese; relação dos fatos pertinentes e suficientes; confirmação
ou não da hipótese; caso não se confirme, parte-se para a reelaboração; caso se
confirme, parte-se para a conclusão.
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O silogismo é um raciocínio que incorpora essas operações, exigindo o
exame cuidadoso das idéias em jogo. Constitui-se de três proposições: a
premissa maior, a premissa menor e a conclusão:
PM Todo país desenvolvido aplica muito dinheiro em educação.
pm A França é um país desenvolvido.
Conclusão Logo, a França aplica muito dinheiro em educação.
No caso específico do texto acima, o raciocínio funciona da seguinte
forma:
PM Todo comercial exibido na televisão recorre a estereótipos para
criar a sensação de desejo no inconsciente do telespectador.
pm Este é um comercial exibido na televisão.
Conclusão Logo, recorre a esteriótipos.
A validade do silogismo depende em grande parte da premissa maior, da
generalização. Ou seja, se partimos de uma afirmação falaciosa, chegaremos a
uma conclusão igualmente falaciosa. Por isto, embora o silogismo seja um meio
poderoso de se construir um bom raciocínio, pode-se utilizá-lo para se
construírem preconceitos contra pessoas de determinada raça, religião ou sexo,
ou mesmo como forma de se difundirem conceitos ideológicos em torno dessas
três categorias.
Exemplos: "Toda mulher deve ocupar-se apenas de serviços domésticos."
"Todo brasileiro é malandro". "Os arianos são superiores às outras raças".
Na organização do raciocínio, temos que ainda levar em conta outros
dois conjuntos de relações:
Relações causais – divididas em três categorias, estabelecem a forma de
relação entre os fenômenos:
a) da causa para o efeito:
Aponta o efeito, considerando uma causa conhecida. Ex.:
A fuga de capital especulativo é uma reação do mercado aos
desajustes da economia brasileira.
Prática de texto: leitura e redação
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b) Do efeito para a causa:
Sendo conhecido o efeito, procura-se determinar a causa. Ex.:
O Brasil corre o risco de sofrer novo ataque de capital especulativo. Isto
acontece porque hoje a economia é globalizada. (Note-se que a causa apontada
é uma hipótese que deve ser comprovada)
c) de efeito para efeito:
Infere uma segunda conseqüência de um efeito conhecido, tendo
ambos uma mesma causa. Ex.:
A desorganização da Previdência gera um sentimento de revolta,
considerando-se os dois sistemas previdenciários, porque trata com
diferença os cidadãos. (causa: a natureza controversa das leis
brasileiras)
ExercíExercíExercíExercícios cios cios cios
1.
Telejornais: uma versão dos fatos, não a verdade absoluta
A TV pode levar o mundo até a casa do telespectador, permitindo que ele assista, ao
vivo, a eventos históricos como guerras e viagens espaciais. Acompanhados por milhões de
pessoas, os noticiários são capazes de mobilizar toda a sociedade em torno de movimentos
políticos, como a campanha pelas eleições diretas. Mas também dão espaço exagerado a
fatos irrelevantes, alguns deles ligados a figuras da própria televisão, como o nascimento da
filha de uma apresentadora. Mortes de personalidades, por sua vez, fazem com que a
cobertura abandone a frieza jornalística para investir na emoção.
Afinal, o telejornalismo também precisa contribuir para a conquista de audiência.
Quando assistimos a um telejornal, temos a sensação de que vemos um retrato do que
ocorreu de mais importante naquele dia em nossa cidade, no país e no mundo. Trata-se de
uma ilusão: até o mais amplo dos noticiários transmite um volume restrito de informações
– irrisório se comparado, por exemplo, ao número de notícias publicadas por um jornal
diário ou por uma revista semanal. Embora esse processo de seleção seja uma constante do
jornalismo, na TV ele aparece de forma mais acentuada, em virtude do tempo escasso.
A força das imagens também leva muitas pessoas a acreditar que assistem à verdade
absoluta sobre cada fato. Outra ilusão: as reportagens – mesmo as mais extensas – dão
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conta apenas de uma versão, entre inúmeras versões possíveis, da mesma notícia. Compare
reportagens sobre um fato transmitidas por diferentes telejornais, e perceba como as
imagens e o texto narrado variam. Alguns apresentadores também fazem comentários
sobre as notícias, reforçando um ângulo de análise; outros limitam-sea ler os textos, sem
emitir opiniões.
É fundamental lembrar também que o noticiário pode ser vítima de restrições políticas.
Durante a Guerra do Golfo, por exemplo, as informações sobre o conflito transmitidas
para o Ocidente eram filtradas pelo governo dos EUA. O único repórter a furar o cerco foi
Peter Arnett, da rede CNN, que transmitia ao vivo de Bagdá, capital do Iraque. Mais tarde,
porém, soube-se que nem mesmo Arnett era “independente”: ele havia firmado um acordo
com o presidente iraquiano Saddam Hussein, que “tolerava” o trabalho do repórter.
Além disso, os interesses dos proprietários das redes de TV podem influenciar o
conteúdo do noticiário, favorecendo, por exemplo, um candidato em época de eleições, ou
um ponto de vista sobre certo assunto. Cada telejornal oferece ao telespectador apenas um
“mundo possível”.
(Revista Nova Escola, fevereiro de 1999)
Considere o texto acima e responda:
a) Embora se reconheça, no primeiro parágrafo, o poder mobilizador da
televisão em determinados momentos, apontam-se duas circuns-tâncias que
contrariam a relevância desse papel. Quais são?
b) No início do segundo parágrafo, afirma-se que o telejornal também
contribui para a conquista de audiência. Esta afirmação pôde ser feita
considerando-se o significado das circunstâncias referidas na questão
anterior. Explique.
c) Qual o significado, no texto, da expressão “força das imagens”? Qual a
relação que se pode fazer entre a “força das imagens” e a evidência de que o
telejornal apresenta uma única versão dos fatos?
d) Na sua opinião, considerado o problema da “versão” no telejornalismo,
como ele se relaciona ao processo de favorecimento de um político?
e) Segundo o seu ponto de vista, o problema da versão afeta a imprensa escrita?
Como você sabe, a objetividade é um princípio dos mais importantes no
jornalismo. Na sua reflexão sobre a pergunta, leve em conta o tópico a
seguir, extraído do Manual de redação e estilo do jornal O Estado de S.
Paulo: “Faça textos imparciais e objetivos. Não exponha opiniões, mas
fatos, para que o leitor tire deles as próprias conclusões. Em nenhuma
Prática de texto: leitura e redação
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hipótese se admitem frases como: Demonstrando mais uma vez seu caráter
volúvel, o deputado Antônio de Almeida mudou novamente de partido. Seja
direto: O deputado Antônio de Almeida deixou ontem o PMT e entrou para o
PXN. É a terceira vez em um ano que muda de partido. O caráter volúvel do
deputado ficará claro pela simples menção do que ocorreu”.
f) O texto pode ser considerado dissertativo? Explique. Ele se estrutura
conforme as três etapas estudadas neste capítulo? Explique.
2. A partir dos tópicos frasais abaixo, crie parágrafos que sejam compatíveis
com o que for enunciado em cada tópico.
a) A Escola que temos foi concebida para um mundo sem televisão.
b) A televisão, diferentemente do cinema, vive pela imediatez cotidiana e
familiar das imagens.
c) O Turismo, na última década, ascendeu à posição do setor mais promissor da
economia.
d) A leitura de jornais diariamente influi no aguçamento do senso crítico do
indivíduo.
e) Os homens dividem-se em duas categorias.
f) Quando o Brasil assumirá a sua tão propalada quanto ironizada condição de
potência no concerto das nações?
3. .....................
Propostas de redação
Escreva dissertações a partir dos temas sugeridos pelos textos abaixo:
a) “Quem ama não se apega apenas aos 'erros' da amada , não apenas aos
caprichos e às fraquezas de uma mulher; rugas no rosto e sardas, vestidos
surrados e um andar desajeitado o prendem de maneira mais durável e
inexorável do que qualquer beleza /.../. E por quê? Se é correta a teoria
segundo a qual os sentimentos não estão localizados na cabeça, que sentimos
uma janela, uma nuvem, uma árvore não no cérebro, mas antes naquele lugar
onde vemos – estamos também nós, ao contemplarmos a mulher amada, fora
de nós mesmos /.../. Ofuscado pelo esplendor da mulher, o sentimento voa
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como um bando de pássaros. E assim como os pássaros procuram abrigo nos
esconderijos frondosos da árvore, também se recolhem os sentimentos, seguros
em seus esconderijos, nas rugas, nos movimentos desajeitados e nas máculas
singelas do corpo amado. Ninguém, ao passar, adivinharia que, justamente ali,
naquilo que é defeituoso, censurável, aninham-se os dardos velozes da
adoração”. (Walter Benjamin)
b) “O leitor assíduo e dedicado vai tomando posse da herança humana que se
transmite através do livro. Quem muito lê vai reunindo em si mais lembranças e
conhecimentos do que se tivesse mil anos de idade. Vai se universalizando no
tempo, e também no espaço. Todo o animal que vem ao mundo é o primeiro e
o único animal, na medida em que traz gravado no seu instinto tudo que pode
ser. O homem não. Cada nova pessoa a surgir no mundo precisa voltar-se para
a tradição, para os seus antepassados, precisa recuperar para si mesma tudo o
que de bom, verdadeiro e belo os seres humanos já conquistaram”. (Gabriel
Perissé. Ler, pensar, escrever. São Paulo : Arte & Ciência, 1996, p. 28 )
c) “Ao que tudo indica, ao longo da nossa infância nós perdemos a capacidade de
nos admirarmos com as coisas do mundo. Mas com isto perdemos uma coisa
essencial – algo de que os filósofos querem nos lembrar. Pois em algum lugar
dentro de nós, alguma coisa nos diz que a vida é um grande enigma. E já
experimentamos isto, muito antes de aprendermos a pensar”. (Jostein Gaarder,
O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. São Paulo : Cia. das Letras, 1995,
p. 30)
d) “A liberdade sem o estudo está sempre em perigo, o estudo sem liberdade é
sempre vão”. (John Fitzgerald Kennedy, por ocasião do aniversário de uma
Universidade)
e) “Não se deve tachar a televisão de anticultura: cada povo tem o programa que
merece”. (Júlio Camargo. A arte de sofismar.)
f) “O tempo é um rio formado pelo eventos, uma torrente impetuosa. Mal se
avista uma coisa, já foi arrebatada, e outra se lhe segue, que será carregada por
sua vez”. (Marco Aurélio. Meditações.)
Prática de texto: leitura e redação
127
Capítulo 9
Argumentação
No capítulo anterior, vimos como o texto
dissertativo está intimamente relacionado à construção
de argumentos, sem que no entanto tivéssemos
orientado nosso estudo para o exame da natureza da
argumentação.
Todos somos capazes de deduzir o sentido da palavra que dá
nome a este capítulo, quando ouvimos alguém dizer, por exemplo, que temeu
ficar “sem argumentos” diante de determinada situação ou que apresentou bons
argumentos ao chefe para justificar o pedido de aumento de salário. Quando
assistimos na televisão à entrevista de uma autoridade do governo a propósito de
novo aumento de combustíveis ou da criação de mais um imposto, ficamos à
espera de argumentos suficientemente fortes que nos sensibilizem sobre a
adequação de tais medidas; se a companhia telefônica comete uma série de
falhas durante a reforma da rede, esperamos que a justificativa, se possível,
sustente-se sobre argumentos tão sólidos quanto o capital investido em
propaganda para explicar a inevitabilidade do transtorno...
Nessas ocasiões, de uma maneira ou de outra, associamos o verbo
“argumentar” ao ato de convencer, de persuadir. Além disso, somos capazes de
julgar a qualidade dos argumentos, levando em conta diferentes fatores como as
relações do argumento com o contexto, o sistema de valores éticos, políticos ou
morais que o determina, o encadeamento lógico entre os enunciados da
argumentação etc.
Segundo Perelman:
O objetivo de toda argumentação /.../ éprovocar ou aumentar a adesão dos espíritos às
teses que se apresentam ao seu assentimento: uma argumentação eficaz é a que
consegue aumentar essa intensidade de adesão, de forma que se desencadeie nos
Melo & Pagnan
128
128
ouvintes [ou nos leitores] a ação pretendida (ação positiva ou abstenção) ou, pelo
menos, crie neles uma disposição para a ação, que se manifestará no momento
oportuno.
Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca. Tratado da argumentação:
a nova retórica. São Paulo : Martins Fontes, 1999, p. 50
Para esse estudioso, há uma distinção entre o ato de convencer e o ato de
persuadir porque o primeiro identifica-se unicamente à razão, alicerçando-se
num raciocínio lógico representado por provas objetivas, enquanto que o
segundo dirige-se à vontade, ao sentimento do interlocutor (ou interlocutores),
por meio de argumentos plausíveis ou verossímeis. O ato de convencer seria
capaz de atingir um “auditório universal” devido ao seu caráter demonstrativo e
atemporal, e, nesse caso, as conclusões decorreriam naturalmente das premissas
(v. capítulo 8), como é próprio do raciocínio matemático; já o ato de persuadir
tem como alvo um “auditório particular” e caracteriza-se por seu caráter
ideológico (no sentido amplo e específico do termo, de acordo com os conceitos
expostos no capítulo 4), subjetivo e temporal. Convencer conduz a certezas;
persuadir suscita inferências que podem levar o auditório (o leitor, o
interlocutor, o ouvinte), ou parte dele, à adesão aos argumentos apresentados.
Prática de texto: leitura e redação
129
O discurso publicitário é persuasivo por definição, pois quase sempre
apela mais à subjetividade do que ao julgamento “frio” do público; a adesão do
público-alvo ao argumento do texto publicitário é resultado de um conjunto de
elementos que não depende apenas da qualidade inerente de um produto. A
mensagem publicitária freqüentemente lança mão de jogos verbais comuns à
linguagem literária, cujo efeito estético pode obter a simpatia do público,
aumentando as oportunidades de venda do produto. Além disso, a imagem
aparece como um componente que intensifica (ou às vezes garante) o impacto de
um anúncio, como na peça abaixo em que somos levados a crer que um produto
industrializado, no caso um sorvete, pode equiparar-se, no sabor e na aparência,
à própria fruta:
Argumento é tudo aquilo que ressalta, faz brilhar, faz cintilar uma idéia.
Isto porque a “etimologia da palavra argumento vem do latim, argumentum,
Melo & Pagnan
130
130
vocábulo formado com o tema argu-, que está também presente nos termos
arguto, argúcia, argênteo, argentum e significa ‘fazer brilhar’, ‘fazer
cintilar’”.24
Como temos salientado, os textos dissertativos são aqueles que
demonstram nitidamente um pendor argumentativo, embora os textos descritivos
e narrativos possam também fazer da argumentação sua razão de ser, tal é o caso
das parábolas, das fábulas e dos apólogos.
O texto faz um jogo de palavras entre o verbo “prever” e um fundo de previdência. Observe o
uso expressivo do verbo “torrar” e o apelo feito ao leitor para que invista o dinheiro poupado
(implicitamente já um ato de “previdência”) no Fundo Prever.
24
Cf. José Luís Fiorin. Revista Gragoatá. UFRJ, n° 2, p. 19, 1° sem. 1997.
Estratégias argumentativas
Há diferentes formas de provocar a adesão de nosso interlocutor ou
leitor, com o objetivo de defender nosso ponto de vista:
� Declarações baseadas em provas concretas
opinião ou declaração que pretenda estabelecer a verdade, ela somente
validade se devidamente demonstrada; é preciso apoiá
fatos, apresentar provas; à acusação de irregularidades na gestão de verbas
numa prefeitura, feita por um jornal, deve seguir a apresentação de provas
(documentos, depoimentos, gravações comprometedoras etc); as estatísticas
são um recurso de todo recomendado para provar determinadas declarações
como, por exemplo, a relação entre os índices de mortalidade infantil no
Nordeste e a permanência de um quadro econômico desfavorável na
Prática de texto: leitura e redação
Estratégias argumentativas
ferentes formas de provocar a adesão de nosso interlocutor ou
leitor, com o objetivo de defender nosso ponto de vista:
Declarações baseadas em provas concretas: quando se expressa uma
opinião ou declaração que pretenda estabelecer a verdade, ela somente terá
validade se devidamente demonstrada; é preciso apoiá-la na evidência dos
fatos, apresentar provas; à acusação de irregularidades na gestão de verbas
numa prefeitura, feita por um jornal, deve seguir a apresentação de provas
ravações comprometedoras etc); as estatísticas
são um recurso de todo recomendado para provar determinadas declarações
como, por exemplo, a relação entre os índices de mortalidade infantil no
Nordeste e a permanência de um quadro econômico desfavorável na região;
No exemplo ao lado, o autor da peça
publicitária se vale de um argumento
baseado no dado concreto, no dado
estatístico para poder vender um
131
Melo & Pagnan
132
132
determinado medicamento. Ou seja, nesse caso, obtém-se a adesão do leitor, ou
mais especificamente do consumidor, por meio da informação atemorizante
veicu- lada pela estatística. Note a reversão, com forte carga persuasiva, do
sentido da palavra "praga", que se desloca do campo de crença, da magia, para
o da ciência.
� alternância entre declarações com que o interlocutor ou leitor tenha maior
ou menor familiaridade, com graus distintos de exigência de comprovação:
há premissas em relação às quais nos desobrigamos a provar, como é o caso
de enunciados como esse: “No Brasil, a distribuição de renda não ocorre de
forma a poupar muita gente da mais extrema miséria”. A alternância entre
assuntos com diferentes graus de argumentação cria uma sensação de
“mistura” entre os pontos polêmicos da exposição e outros de fácil aceitação,
diminuindo perante o leitor/interlocutor o impacto dos primeiros e o risco
dele contestá-los;
� repetição e acumulação de detalhes: a insistência sobre um tema
sistematicamente retomado por intermédio da mesma idéia ou por idéias
contraditórias torna-o mais familiar ao ouvinte/leitor, aumentando a
probabilidade de aceitação da tese defendida. No exemplo abaixo, o autor,
Peter Drucker, para sustentar sua tese (em itálico), lança mão de vários
detalhes sobre a questão abordada:
Prática de texto: leitura e redação
133
O impacto verdadeiramente revolucionário da Revolução da Informação está apenas começando a ser sentido. Mas não
é a informação que vai gerar tal impacto. Nem a inteligência artificial. Nem o efeito dos computadores
sobre processos decisórios, determinação de políticas ou criação de estratégias. É algo que praticamente
ninguém previa, que nem mesmo era comentado 10 ou 15 anos atrás: o comércio eletrônico – ou seja, a emergência
explosiva da Internet como importante (e, talvez com o tempo, o mais importante) canal mundial de
distribuição de bens, serviços e, surpreendentemente, empregos na área administrativa e gerencial. É
ela que está provocando transformações profundas na economia, nos mercados e nas estruturas de
indústrias inteiras; nos produtos, serviços e em seus fluxos; na segmentação, nos valores e no
comportamento dos consumidores; nos mercados de trabalho e de emprego. Mas talvez seja ainda
maior o impacto exercido sobre a sociedade, a política e, sobretudo, sobre a visão que temos do
mundo e de nós mesmos. (...)
Peter Drucker. "O futuro já chegou". Exame, 22 mar. 2000� evocação do concreto, pela narração de fatos ou descrição de lugares,
pessoas ou coisas: considerando que o recurso à abstração e a noções
genéricas dificultam o uso da imaginação por parte do ouvinte/leitor, tornam-
se muitas vezes necessárias tanto a narração quanto a descrição remetendo o
texto a algo concreto, que exemplifique aquilo que se está afirmando.
Observe como o professor Nicolau Sevcenko, para provar a primazia do
fator eficiência nas universidades, recorre a elementos históricos concretos,
que seriam as causas principais de tal prioridade.
Diante da obsolescência e esfarelamento do mundo soviético, acentuado pelo
apoio maciço aos rebeldes afegãos, da hegemonia incontestável da língua e cultura anglo-
americana, das redes de informação e comunicação unificando o planeta e da cristalização
de um estilo de vida centrado na publicidade, nos apelos hedonistas e na euforia do
consumo, ninguém poderia negar a preponderância do modelo saxônico. A queda do Muro
de Berlim só confirmou o que todos àquela altura já pressentiam. Foi quando se declarou o
Melo & Pagnan
134
134
"fim da história" e surgiu a idéia de batizar este como o "século americano". Mas havia
muito mais em curso do que apenas o delírio de Reagan e Thatcher de encarnarem o Adão
e a Eva de um novo mundo em versão "wasp". De fato, uma nova era estava surgindo.
Tomando como base o ano de 1975, quando os circuitos integrados alcançaram o pico de
12 mil componentes, a revolução da microeletrônica assumiu uma aceleração explosiva.
Segundo a lei de Moore, a tendência era que esse número duplicasse a cada 18 meses. Ou
seja, atingido um limiar máximo de densidade para um circuito integrado, esse equipamento
era então utilizado para produzir circuitos mais densos ainda, numa cadeia de
transformações cumulativas alimentando umas às outras. Segundo outra lei clássica da
engenharia, cada decuplicação da capacidade de um sistema constitui uma mudança
qualitativa de impacto revolucionário. O que significa que desde 75 passamos por algo
como dez revoluções tecnológicas sucessivas no espaço de duas décadas e meia. Uma
escala de mudança jamais vista na história da humanidade! Foi esse contexto fortuito que
proporcionou os meios para que Reagan-Thatcher consolidassem a agenda conservadora,
retraindo a ação do Estado em favor das grandes corporações e do livre fluxo de capitais,
abalando os sindicatos, disseminando desemprego, rebaixando a massa salarial e
concentrando a renda. Foi a grande epidemia das privatizações, das reengenharias e das
flexibilizações. Apoiada na dramática mudança tecnológica, essa onda foi tão poderosa que
acabou forçando a mudança do discurso das oposições. (...) Mas o veneno da maçã
proibida já se infiltrara nas veias dos novos líderes. A idéia não era mais garantir um bom
emprego para todos conforme a tradição socialista, mas disseminar o espírito da
concorrência agressiva por meio de uma nova agenda educacional, de modo que, num
mercado cada vez mais concentrado, os mais aguerridos, os mais individualistas e os mais
experientes prevalecessem, em detrimento dos desfavorecidos em todos os quadrantes do
planeta. E aqui se insere o conceito ampliado do destino manifesto, traduzido num novo
dogma chamado eficiência. Nas universidades, o que prevalece é o modelo da administração eficiente,
capaz de gerar seus próprios recursos estabelecendo nexos cada vez mais profundos com o mercado e com a
corrida tecnológica. A eficácia de desempenho é medida em termos de sucessos estatísticos, de capitais,
produtividade e visibilidade, todos conversíveis em valores de marketing para atrair novas parcerias, dotações
e investimentos.
Folha de S. Paulo, 6 jun. 2000
Por ocuparem um lugar privilegiado na argumentação, os níveis de
abstração merecem toda a atenção de quem deseja construir argumentos
eficientes. Há uma atitude lingüística que orienta esse princípio, cujo modo de
colocá-lo em prática pode ser assim resumido:
Prática de texto: leitura e redação
135
� A escolha das palavras não pode ser “neutra”: em atenção ao ouvinte/leitor,
a escolha das palavras deve ser revestida de todo cuidado; as palavras devem
“empolgar”, criar uma rede de associações coletivas e individuais de forte
apelo, cujo impacto pode ser decisivo no processo de
persuasão/convencimento. Assim, um livro de auto-ajuda lançará mão de
palavras como otimismo, força, determinação, progresso, autonomia, fé,
esperança, amizade, afeto, prazer... configurando um campo semântico
“orgânico”, mais ou menos fechado, todavia muito envolvente;
� Opção pela modalidade afirmativa x negativa: ao se fazer uma afirmação,
destaca-se uma característica contra todas as outras possíveis; já no caso de
uma negação, manifesta-se uma reação contra uma afirmação real (ou
virtual) de outrem – nesse caso, a negação pode funcionar como uma contra-
argumentação;
� Interrogação: é um recurso muito eficiente, que conduz o raciocínio na
direção desejada, expressando um julgamento, ao mesmo tempo que pode
servir para ironizar uma possível contra-argumentação. “O papel da
interrogação no procedimento judiciário é um dos pontos sobre os quais os
antigos, notadamente Quintiliano, enunciaram muitas observações práticas
que continuam atuais. O uso da interrogação visa às vezes a uma confissão
sobre um fato real desconhecido de quem questiona, mas cuja existência,
assim como a de suas condições, se presume. ‘Que o senhor fez naquele dia
em tal lugar?’ já implica que o interpelado se achava em certo momento no
lugar indicado; se ele responde, mostra seu acordo a esse respeito”. (Perelman
& Olbrechts-Tyteca, op. cit., p. 180)
� A indeterminação nominal e pronominal: pode revestir os enunciados de um
caráter mais objetivo, concedendo maior credibilidade aos argumentos; o
emprego da indeterminação ou da terceira pessoa indefinida geralmente
“relativiza” a responsabilidade do sujeito, criando uma distância entre o que
é dito (ou escrito) e aquele que fala
Melo & Pagnan
136
136
(ou escreve). A propósito dessa estratégia, ver o texto de Roberto Campos –
“A lógica do absurdo” – no capítulo 5;
� A subordinação: mecanismo de organização do período que demonstra maior
eficácia na construção de argumentos, pois faz com que o leitor veja
determinadas relações e limita as interpretações que ele poderia fazer. A
coordenação, por sua vez, segundo Perelman, “permite mais liberdade, não
parece querer impor nenhum ponto de vista /.../ é descritiva, contemplativa,
imparcial” (op. cit.)
Como destacamos acima, a necessidade de comprovação para um grande
número de argumentos está na base da possibilidade de adesão a estes por parte
do leitor ou ouvinte. Há, no entanto, enunciados que dispensam comprovação:
1. declarações que expressam uma verdade universalmente
aceita;
2. declarações que são evidentes por si mesmas:
u As declarações universalmente aceitas, como por exemplo, “Não se constrói
um país moderno sem que todos tenham acesso à educação” ou “A defesa
da cidadania é a missão mais importante do Estado”, são aquelas que com
mais freqüência, segundo Perelman, usam-se para um “auditório universal”
(a toda humanidade) e se opõem àquelas dirigidas somente a um “auditório
particular”. É bem verdade, no entanto, que frases desse tipo, ao serem
repetidas ad nauseam, perdem em força argumentativa, pois se transformam
em clichê, em lugar-comum, tais como: “A criança é o futuro da nação”.
Ainda que verdadeira, é cansativa e pode causar no leitor uma repulsa à
Prática de texto: leitura e redação
137
idéia nela contida. É preciso tomar cuidado também em não confundir
axioma com frases preconceituosas contra pessoas de religião ou cor
diferente da nossa; ou ainda frasescomo: “toda mulher dirige mal”.
3. declarações que têm o apoio de autoridade intelectual:
u Observe o seguinte trecho:
A formação de telespectadores conscientes, capazes de ler a televisão através
do prisma da ética e da cidadania, torna-se uma prioridade da qual a Escola não
pode abrir mão. "Uma Escola que não ensina como assistir à televisão é uma
Escola que não educa", afirma o pedagogo espanhol Joan Ferrés. Autor de
livros como Televisão subliminar e Vídeo e educação, ele observa que a
tendência no meio escolar é a de adotar atitudes unilaterais diante do
fenômeno da televisão. (Revista Nova Escola.)
No trecho acima, faz-se uma afirmação categórica sobre o papel da
escola frente à televisão, e para se ratificar essa afirmação incorporou-se ao
texto a opinião de um especialista no assunto, autor de diversos livros. Essa
opinião funciona como argumento, como uma iluminação que concede maior
credibilidade ao texto. A esse tipo de argumento, baseado no discurso de
especialistas, damos o nome de argumento de autoridade ou testemunho
autorizado, muito comum em teses e textos acadêmicos em geral.
4. declarações que fogem ao domínio puramente racional:
Melo & Pagnan
138
138
u Declarações de natureza sentimental, estética ou religiosa não se limitam ao
campo puramente intelectual. Não devemos confundir, no entanto, a
discussão sobre o valor estético de um quadro (quando um dos
interlocutores, amparado em teorias estéticas, história da arte, no julgamento
do domínio técnico do pintor etc., afirma ser a obra uma das mais
“representativas de certa corrente”) com a simples expressão do “gosto” de
alguém. Neste último caso pode-se simplesmente ouvir dessa pessoa que o
quadro é “horrível”, fato que a dispensa de provar por quê.
Podemos finalmente esquematizar as observações expostas nas páginas
anteriores e acrescentar a elas novas informações, a partir da possibilidade de
não-adesão aos argumentos apresentados:
Quanto mais genérica e
universal for a proprie-dade
de um argumento,
mais a propriedade poderá ser
contestada pelo leitor/interlo-
cutor, pois não será impossí-
vel que este tenha tanta infor-
mação do assunto quanto o
emissor.
Nesse caso, o emissor se
obriga a “reagir” e
lançar mão de diversos
recursos argumen-
tativos: exemplos,
narrações etc.
Prática de texto: leitura e redação
139
Quanto mais
específica e
particular a
tese,
menor a probabilidade de
desacordo por parte do
leitor/interlocutor,
menor a
necessidade de
comprovação.
Melo & Pagnan
140
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Argumentos pragmáticos
O argumento pragmático é aquele que permite considerar um ato ou um
acontecimento de acordo com suas conseqüências favoráveis ou desfavoráveis.
Para certos teóricos, esta categoria de argumentos tem papel tão relevante na
argumentação que pretenderam elevá-la à condição de esquema único da lógica
dos juízos de valor. Como se efetivam os argumentos pragmáticos? Para se
observar um acontecimento é preciso reportar-se aos seus efeitos; o filósofo
inglês Locke critica o poder espiritual (baseado na natureza divina) dos Príncipes
utilizando-se de argumentos pragmáticos:
Prática de texto: leitura e redação
141
Jamais se poderá estabelecer ou salvaguardar nem a paz, nem a segurança, nem sequer
a simples amizade entre homens, enquanto prevalecer a opinião de que o poder é
fundamentado sobre a Graça e de que a religião deve ser propagada pela força das
armas25. [grifo nosso]
No caso de pretendermos dar uma boa razão para o Brasil implementar a
reforma fiscal ou a reforma do sistema carcerário ou ainda criar uma sólida
política de lazer nas grandes cidades será necessário relacionar os benefícios de
tais iniciativas e as conseqüências desastrosas que a indiferença a elas poderá
gerar. É praticamente impossível argumentar a favor (ou contra) de reformas e
de mudanças de um modo geral, sem se referir aos efeitos de tais medidas.
“Um uso característico do argumento pragmático consiste em propor o
sucesso como critério de objetividade, de validade; para muitas filosofias e
religiões, a felicidade se apresenta como a última justificação de suas teorias”26.
Assim, em decorrência da eleição do sucesso (a felicidade, por exemplo) como
critério de validação de determinada teoria ou sistema filosófico, o fracasso
passa a ser a evidência do caráter não-autêntico de uma existência.
É preciso, porém, alertar para o fato de que nunca, em toda a história da
humanidade, o conceito de sucesso tenha se mostrado tão decisivo, mas ao
25
apud Perelman, op. cit., p. 303
26
idem, op. cit., p. 305
Melo & Pagnan
142
142
mesmo tempo tão sujeito à contaminação de certas ideologias, quanto hoje em
dia. Programas religiosos na televisão colhem o depoimento de fiéis que dão
conta dos benefícios, geralmente materiais, alcançados em decorrência de sua
nova profissão de fé. Por outro lado, revistas especializadas na vida de gente rica
e famosa demonstram o inegável sucesso de seus caros entrevistados, flagrando-
os em suas casas luxuosas, em seus iates etc. No primeiro exemplo, o
depoimento do fiel permanece no campo da adesão (do telespectador) e não
expressa necessariamente a verdade, já que o argumento pragmático dispensa a
comprovação; para o telespectador, a relação entre causa e efeito pode ser vista
como algo natural e desfrutável, na hipótese de sua conversão ao templo. No
segundo exemplo, a eloqüência das imagens do luxo e da riqueza impõe-se como
prova concreta do sucesso (ou pelo menos de uma visão do fenômeno),
elevando-se, portanto, à condição de verdade. Vale sempre, contudo, e com o
devido cuidado para evitar as armadilhas da falsa moral, da pretensão de se
impor uma moral calcada em valores considerados verdadeiros a priori, refletir
sobre o sentido de “sucesso” e tirar conclusões.
Erros de argumentação
Prática de texto: leitura e redação
143
Uma falácia é um erro de raciocínio que debilita a argumentação,
tornando-a sem fundamento. Há um número extenso de falácias, porém nos
restringimos a abordar apenas dois tipos entre os mais freqüentes.
� falácia de relevância: “Privatizar as estradas de rodagem foi a melhor coisa
que o governo poderia ter feito, pois assim fez com que as empresas
concessionárias gerassem empregos”. Nesse erro de argumentação, o
proponente apresenta evidências que não são apropriadas para avaliar as
conclusões propostas. Afirma-se que uma conclusão deve ser aceita como
válida em decorrência de certas premissas, explicitamente mencionadas (no
caso, a premissa correta de que as empresas geraram um determinado
número de empregos), as quais não levam à conclusão (que a privatização
das estradas foi uma medida acertada do governo);
� falácia da petição de princípio: Há a suposição de que o interlocutor já
aderiu a uma tese que o orador pretende seja admitida. Esse tipo de falácia
pressupõe, diretamente na premissa, idéias apresentadas como conclusões no
mesmo argumento, conforme o exemplo oferecido por David W. Carraher:
“Nossa equipe é a mais destacada do torneio porque tem os melhores jogadores e o
melhor treinador. Sabemos que possui os melhores jogadores e o melhor treinador; por
Melo & Pagnan
144
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conseguinte, é óbvio, vai ganhar o título. E ganhará o título, pois merece conquistá-lo. É
claro,merece ganhar o título porque é, de há muito, a melhor equipe do torneio”27.
Quem desenvolve um raciocínio como o acima, acaba forçando
conclusões (no caso, a de que certo time merece ganhar por ser o melhor), que se
mostram muito artificiais, porque não comprometidas com o exame da premissa;
afinal, perguntaríamos, por que a equipe é a melhor?
Conhecimento científico x Senso comum
Em seu livro, Convite à filosofia, Marilena Chaui esquematiza as
diferenças entre conhecimento científico e senso comum. Como a eficiência da
argumentação depende em grande parte do afastamento do senso comum,
daqueles saberes cotidianos calcados em conclusões apriorísticas, divorciadas da
investigação e dependentes, pois, da experiência imediatista, julgamos
interessante reproduzir tópicos das duas categorias de procedimentos
27
apud Senso crítico: do dia-a-dia às ciências humanas. 4ª ed. São Paulo : Pioneira, 1997, p. 31
Prática de texto: leitura e redação
145
apresentados pela estudiosa. O pensamento científico, de acordo com Marilena,
“desconfia da veracidade de nossas certezas, de nossa adesão imediata às coisas,
da ausência de crítica e da falta de curiosidade. Por isso, ali onde vemos coisas,
fatos e acontecimentos, a atitude científica vê problemas e obstáculos,
aparências que precisam ser explicadas e, em certos casos, afastadas. Sob quase
todos os aspectos, podemos dizer que o conhecimento científico opõe-se ponto
por ponto às características do senso comum”28. [grifos da autora]
Conhecimento científico
• é objetivo, isto é, procura as estruturas universais e necessárias das coisas investigadas;
• é quantitativo, isto é, busca medidas, padrões, critérios de comparação e de avaliação para coisas
que parecem ser diferentes. Assim, por exemplo, as diferenças de um mesmo padrão ou critério
de medida, o comprimento das ondas luminosas; as diferenças de intensidade de sons, pelo
comprimento das ondas sonoras etc.
• é homogêneo, isto é, busca as leis gerais de funcionamento dos fenômenos, que são as mesmas
para fatos que nos parecem diferentes. Por exemplo, a lei universal da gravitação demonstra
que a queda de uma pedra e a flutuação de uma pluma obedecem à mesma lei de atração e
repulsão no interior do campo gravitacional; /.../ sonhar com água e com uma escada é ter o
mesmo tipo de sonho, qual seja, a realização dos desejos sexuais reprimidos etc.;
• é generalizador, pois reúne individualidades, percebidas como diferentes, sob as mesmas leis, os
mesmos padrões ou critérios de medida, mostrando que possuem a mesma estrutura. Assim,
por exemplo, a química mostra que a enorme variedade de corpos se reduz a um número
limitado de corpos simples que se combinam de maneiras variadas, de modo que o número de
elementos é infinitamente menor do que a variedade empírica dos compostos;
• são diferenciadores, pois não reúnem nem generalizam por semelhanças aparentes, mas
distinguem os que parecem iguais, desde que obedeçam a estruturas diferentes;
• só estabelecem relações causais depois de investigar a natureza ou estrutura do fato estudado e
suas relações com outros semelhantes ou diferentes. Assim, por exemplo, um corpo não cai
28
op. cit., p. 249
Melo & Pagnan
146
146
porque é pesado, mas o peso de um corpo depende do campo da gravitação onde se encontra
– é por isso que, nas naves espaciais, onde a gravidade é igual a zero, todos os corpos flutuam,
independentemente do peso ou do tamanho; um corpo tem uma certa cor não porque é
colorido, mas porque, dependendo de sua composição química e física, reflete a luz de uma
determinada maneira etc.;
• surpreende-se com a regularidade, a constância, a freqüência, a repetição e a diferença das coisas
e procura mostrar que o maravilhoso, o extraordinário ou o “milagroso” é um caso particular
do que é regular, normal, freqüente. Um eclipse, um terremoto, um furacão, embora
excepcionais, obedecem às leis da física. Procura, assim, apresentar explicações racionais, claras,
simples e verdadeiras para os fatos, opondo-se ao espetacular, ao mágico e ao fantástico;
• distingue-se da magia. A magia admite uma participação ou simpatia secreta entre coisas
diferentes, que agem umas sobre outras por meio de qualidades ocultas e considera o
psiquismo humano uma força capaz de ligar-se a psiquismos superiores (planetários, astrais,
angélicos, demoníacos) para provocar efeitos inesperados nas coisas e nas pessoas. A atitude
científica, ao contrário, opera um desencantamento ou desenfeitiçamento do mundo,
mostrando que nele não agem forças secretas, mas causas e relações racionais que podem ser
reconhecidas e que tais conhecimentos podem ser transmitidos a todos.
Senso comum
• são subjetivos, isto é, exprimem sentimentos e opiniões individuais e de grupos, variando de
uma pessoa para outra, ou de um grupo para outro, dependendo das condições em que
vivemos. Assim, por exemplo, se eu for artista, verei a beleza da árvore; se eu for marceneira, a
qualidade da madeira; se estiver passeando sob o sol, a sombra para descansar; se for bóia-fria,
os frutos que devo colher para ganhar o meu dia;
• são qualitativos, isto é, as coisas são julgadas por nós como grandes ou pequenas, doces ou
azedas, pesadas ou leves, novas ou velhas, belas ou feias, quentes ou frias, úteis ou inúteis,
desejáveis ou indesejáveis, coloridas ou sem cor, sem sabor, odor, próximas ou distantes etc.;
• são heterogêneos, isto é, referem-se a fatos que julgamos diferentes, porque os percebemos
como diversos entre si. Por exemplo, um corpo que cai e uma pena que flutua no ar são
acontecimentos diferentes; sonhar com água é diferente de sonhar com uma escada etc.;
• mas também são generalizadores, pois tendem a reunir numa só opinião ou numa só idéia
coisas e fatos julgados semelhantes: falamos dos animais, das plantas, dos seres humanos, dos
astros, dos gatos, das mulheres, das crianças, das esculturas, das pinturas, das bebidas, dos
remédios etc.;
• em decorrência das generalizações, tendem a estabelecer relações de causa e efeito entre as
coisas ou entre os fatos: “onde há fumaça, há fogo”; “quem tudo quer, tudo perde”; “dize-me
com quem andas e te direi quem és”; a posição dos astros determina o destino das pessoas;
mulher menstruada não deve tomar banho frio; ingerir sal quando se tem tontura é bom para a
pressão; mulher assanhada quer ser estuprada; menino de rua é delinqüente etc.;
• não se surpreendem e nem se admiram com a regularidade, constância, repetição e diferença das
coisas, mas, ao contrário, a imaginação e o espanto se dirigem para o que é imaginado como
Prática de texto: leitura e redação
147
único, extraordinário, maravilhoso ou miraculoso. Justamente por isso, em nossa sociedade, a
propaganda e a moda estão sempre inventando o “extraordinário”, o “nunca visto”;
• pelo mesmo motivo e não por compreenderem o que seja investigação científica, tendem a
identificá-la com a magia, considerando que ambas lidam com o misterioso, o oculto, o
incompreensível. Essa imagem da ciência como magia aparece, por exemplo, no cinema,
quando os filmes mostram os laboratórios científicos repletos de objetos incompreensíveis,
com luzes que acendem e apagam, tubos de onde saem fumaças coloridas, exatamente como
são mostradas as cavernas ocultas dos magos. Essa mesma identificação entre ciência e magia
aparece num programa da televisão brasileira, o Fantástico, que, como o nome indica, mostra aos
telespectadores resultados científicos como se fossem espantosa obra de magia, assim como
exibem magos ocultistas como se fossem cientistas;
• costumamprojetar nas coisas ou no mundo sentimentos de angústia e de medo diante do
desconhecido. Assim, durante a Idade Média, as pessoas viam o demônio em toda a parte e,
hoje, enxergam discos voadores no espaço; por serem subjetivos, generalizadores, expressões
de sentimentos de medo e angústia, e de incompreensão quanto ao trabalho científico, nossas
certezas cotidianas e o senso comum de nossa sociedade ou de nosso grupo social cristalizam-se
em preconceitos com os quais passamos a interpretar toda a realidade que nos cerca e todos os
acontecimentos29.
Exercícios
1) Façamos uma análise dos argumentos utilizados no texto a seguir:
A nova (des)ordem
Josias de Souza
Em tempos de globalização de mercados, os países desenvolvidos passam
por um processo perverso: o crescimento de uma riqueza é acompanhado por uma
diminuição no nível do emprego. Atribui-se o encolhimento do mercado de
trabalho à escalada dos padrões de qualidade e produtividade das empresas.
29
apud Convite à filosofia, pp. 248-250
Melo & Pagnan
148
148
A revolução tecnológica é um processo sem volta. A cada inovação, levas de
trabalhadores vão sendo privadas do relacionamento diário com o relógio de ponto.
Estudo feito por Carlos Alberto dos Santos e Edgar Luiz, do Ipea, registra
algo de que já se suspeitava: a modernização do modelo produtivo, fenômeno
recente entre nós, assusta também o trabalhador brasileiro.
A exemplo do que ocorre no chamado Primeiro Mundo, a maior vítima do
avanço tecnológico e gerencial é a mão-de-obra menos qualificada. O novo
mercado tende a desprezar o funcionário formado à moda antiga, adestrado para
executar tarefas específicas.
Na economia emergente são valorizados trabalhadores de formação
educacional mais densa, pessoas com maior capacidade de raciocínio. “De maneira
crescente é exigido menor grau de habilidades manipulativas e maior grau de
abstração no desempenho do trabalho produtivo”, diz o estudo do Ipea. “Torna-se
importante o desenvolvimento da capacidade de adquirir e processar
intelectualmente novas informações, de superar hábitos tradicionais, de gerenciar-
se” a si próprio.
No contexto desse novo modelo, o grau de instrução do trabalhador passa a
ser sua principal ferramenta. Os números disponíveis no Brasil a esse respeito são
desoladores. Conforme pesquisa feita pelo IBGE em 1990, cerca de 33 milhões de
trabalhadores (53% do mercado de trabalho) tinham no máximo cinco anos de
estudo.
A experiência mundial, ainda de acordo com o trabalho do Ipea, indica que
são necessários pelo menos oito anos para que uma pessoa esteja em condições de
receber treinamentos específicos.
O maior desafio do Brasil é, portanto, educar sua gente. Destruído como
está, o conserto do modelo educacional do país é tarefa para duas décadas. Até lá, o
número de desempregados tende a aumentar.
Folha de S. Paulo, 20 out. 1995.
a) Especifique a idéia principal do texto, ou seja, a tese.
b) Para defender essa idéia o autor se vale de variados argumentos. Localize três
argumentos e dê o nome de cada um dos argumentos que você localizou,
conforme a tipologia estudada neste capítulo.
c) No livro, O texto argumentativo, Adilson Citelli afirma o seguinte: "a visão
que temos das coisas, dos homens, do mundo é, ela também, constituída a partir
de algo que passaremos a chamar formação discursiva. Noutras palavras, não se
Prática de texto: leitura e redação
149
trata de pensar o ponto de vista como alguma coisa absolutamente individual".
Essa afirmação se aplica ao texto lido? Explique.
d) O que é um argumento de autoridade? Josias de Souza se vale desse tipo de
argumento em seu texto?
e) Você concorda com a idéia do autor e com os argumentos por ele utilizados?
Comente sua resposta.
2) A seguir, trechos do texto de Rafael Greca, quando ministro, para a Folha de
S. Paulo de 21 jul. 1999.
Brasil, teu nome é música
Traço marcante da cultura brasileira é, sem dúvida, a música. Com 8
milhões de km2 de área, a maior insolação do planeta e a maior variedade de
pássaros sobre a Terra, o Brasil vibra de energia musical. Contribuem para isso as
tradições culturais de 206 povos indígenas ainda preservados no nosso território, as
Melo & Pagnan
150
150
etnias africanas (transplantadas para cá no doloroso processo de escravidão, mas
hoje perfeitamente integradas à nossa sociedade) e a variedade cultural das 174
imigrações européias, asiáticas e americanas que sucederam aos portugueses.
"Índias Ocidentais", sonho dourado dos navegadores dos séculos 16 e 17,
empório colonial disputado pelas tropas de Portugal, Espanha, Holanda e França,
eldorado gerador da arte barroca mais linda do mundo, o Brasil – sonhador,
emboaba, quilombo, inconfidente, independente, Império, República – foi
acumulando harmonias. Logo, contar a nossa história em música é ótima idéia.
Foi por isso que, tendo recebido visita cordial de Chitãozinho, meu
conterrâneo do Paraná, no gabinete em Brasília, em fevereiro passado, pedi-lhe uma
música para os 500 anos do Brasil. Pedi outras para diversos maestros e
compositores. Todos são bem-vindos.
Alguém fez confusão ao chamar a música do Chitãozinho de "hino dos 500
anos". Veio adorável polêmica. Desnecessária. Sua extraordinária criação cultural
certamente colocará a bela canção sertaneja entre as mais cantadas neste e no
próximo ano.
/.../
Na reportagem veiculada pelo programa Fantástico, da Rede Globo, em 11
de julho (1999), Tom Zé, Alceu Valença e Gabriel, o Pensador, opinaram sobre a
Prática de texto: leitura e redação
151
questão. Tom Zé amaldiçoou a canção porque ela começa evocando uma arena de
rodeio; ele se recordou do partido que apoiava o regime militar e tinha essa sigla.
Acho que Chitão, pela sua juventude, nem se lembrou disso. Seus parceiros
tampouco.
Parece-me que o veio preciso – e precioso – está aí: provocamos a reflexão
e a criatividade nacionais para os anos 500 do Brasil, ano 2000 da civilização dita
cristã.
Prática de texto: leitura e redação
7
a) Segundo o ministro Rafael Greca, o Brasil é um país musical, fato
que tenta provar aludindo a uma série de elementos. Relacione em
tópicos esses elementos. Para que um país seja musical, é
imprescindível que ele reúna esses elementos? Justifique.
b) Em seu texto, o ministro afirma que convidou vários artistas para
compor uma música em homenagem ao evento, embora não cite o
nome de nenhum desses artistas. Esse fato enfraquece a
argumentação do ministro, já que tenta esclarecer que não desejava
fazer da composição da dupla sertaneja o “hino” dos 500 Anos?
Justifique.
3) Leia o texto abaixo e responda:
Oxalá não venha nunca à sublime cabeça de Deus a idéia de viajar
um dia a estas paragens para certificar-se de que as pessoas que por aqui mal
vivem, e pior vão morrendo, estão a cumprir de modo satisfatório o castigo
que por ele foi aplicado, no começo do mundo, ao nosso primeiro pai e à
nossa primeira mãe, os quais, pela simples e honesta curiosidade de
quererem saber a razão por que tinham sido feitos, foram sentenciados ela,
a parir com esforço e dor, ele, a ganhar o pão da família com o suor do seu
rosto, tendo como destino final a mesma terra donde, por um capricho
divino, haviam sido tirados, pó que foi pó, e pó tornará a ser. Dos dois
criminosos, digamo-lo já, quem veio a suportar a carga pior foi ela e as que
depois dela vieram, pois tendo que sofrer e suar tanto para parir, conforme
havia sido determinado pela simples misericordiosa vontade de Deus,
tiveram também de suare sofrer trabalhando ao lado dos seus homens,
tiveram também de esforçar-se o mesmo ou mais do que eles, que a vida,
durante muitos milênios, não estava para a senhora ficar em casa, de perna
estendida, qual rainha das abelhas, sem outra obrigação que a de desovar de
tempos a tempos, não fosse ficar o mundo deserto e depois não ter Deus
em quem mandar.
Melo & Pagnan
8
Se, porém, o dito Deus, não fazendo caso de recomendações e
conselhos, persistisse no propósito de vir até aqui, sem dúvida acabaria por
reconhecer como, afinal, é tão pouca coisa ser-se um Deus, quando, apesar
dos famosos atributos de omnisciência e omnipotência, mil vezes exaltados
em todas as línguas e dialetos, foram cometidos, no projecto da criação da
humanidade, tantos e tão grosseiros erros de previsão, como foi aquele, a
todas as luzes imperdoável, de apetrechar as pessoas com glândulas
sudoríparas, para depois lhes recusar o trabalho que as faria funcionar – as
glândulas e as pessoas. Ao pé disto, cabe perguntar se não teria merecido
mais prêmio que castigo a puríssima inocência que levou a nossa primeira
mãe e o nosso primeiro pai a provarem do fruto da árvore do conhecimento
do bem e do mal. A verdade, digam, o que disserem autoridades, tanto as
teológicas como as outras, civis e militares, é que, propriamente falando,
não o chegaram a comer, só o morderem, por isso estamos nós como
estamos, sabendo tanto do mal, e do bem tão pouco.
Envergonhar-se e arrepender-se dos erros cometidos é o que se
espera de qualquer pessoa bem nascida e de sólida formação moral, e Deus,
tendo indiscutivelmente nascido de si mesmo, está claro que nasceu do
melhor que havia no seu tempo. Por estas razões, as de origem e as
adquiridas, após ter visto e percebido o que aqui se passa, não teve mais
remédio que clamar, mea culpa, mea maxima culpa, e reconhecer a excessiva
dimensão dos enganos em que tinha caído.
É certo que, a seu crédito, e para que isto não seja só um contínuo
dizer mal do Criador, subsiste o facto irrespondível de que, quando Deus se
decidiu a expulsar do paraíso terreal, por desobediência, o nosso primeiro
pai e a nossa primeira mãe, eles, apesar da imprudente falta, iriam ter ao seu
dispor a terra toda, para nela suarem e trabalharem à vontade. Contudo, e
por desgraça, um outro erro nas previsões divinas não demoraria a
manifestar-se, e esse muito mais grave do que tudo quanto até aí havia
acontecido.
Foi o caso que estando já a terra assaz povoada de filhos, filhos de
filhos e filhos de netos da nossa primeira mãe e do nosso primeiro pai, uns
quantos desses, esquecidos de que sendo a morte de todos, a vida também o
deveria ser, puseram-se a traçar uns riscos no chão, a espetar umas estacas, a
levantar uns muros de pedra, depois do que anunciaram que, a partir desse
momento, estava proibida (palavra nossa) a entrada nos terrenos que assim
ficavam delimitados, sob pena de um castigo, que segundo os tempos e os
costumes, poderia vir a ser de morte, ou de prisão, ou de multa, ou
novamente de morte. Sem que até hoje se tivesse sabido porquê, e não falta
quem afirme que disto não poderão ser atiradas as responsabilidades para as
Prática de texto: leitura e redação
9
costas de Deus, aqueles nossos antigos parentes que por ali andavam, tendo
presenciado a espoliação e escutado o inaudito aviso, não só não
protestaram contra o abuso com que fora tornado particular o que até então
havia sido de todos, como acreditaram que era essa a irrefragável ordem
natural das coisas de que se tinha começado a falar por aquelas alturas.
Diziam eles que se o cordeiro veio ao mundo para ser comido pelo lobo,
conforme se podia concluir da simples verificação dos factos da vida
pastoril, então é porque a natureza quer que haja senhores, que estes
mandem e aqueles obedeçam, e que tudo quanto assim não for será
chamado subversão.
Posto diante de todos estes homens reunidos, de todas estas
mulheres, de todas estas crianças (sede fecundos, multiplicativos e enchei a
terra, assim lhes fora mandado), cujo suor não nascia do trabalho que não
tinham, mas da agonia insuportável de não o ter, Deus arrependeu-se dos
males que havia feito e permitido, a um ponto tal que, num arrebato de
contrição, quis mudar o seu nome para um outro mais humano. Falando à
multidão, anunciou: "A partir de hoje chamar-me-eis Justiça". E a multidão
respondeu: "Justiça, já nós a temos, e não nos atende". Disse Deus: "Sendo
assim, tomarei o nome de Direito". E a multidão tornou a responder-lhe:
"Direito, já nós o temos, e não nos conhece". E Deus: "Nesse caso, ficarei
com o nome de Caridade, que é um nome bonito". Disse a multidão: "Não
necessitamos caridade, o que queremos é uma justiça que se cumpra e um
direito que nos respeite". Então, Deus compreendeu que nunca tivera,
verdadeiramente, no mundo que julgara ser seu, o lugar de majestade que
havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que também ele tinha
sido vítima de enganos, como aqueles de que se estavam queixando as
mulheres, os homens e as crianças, e, humilhado, retirou-se para a
eternidade. A penúltima imagem que ainda viu foi a de espingardas
apontadas à multidão, o penúltimo som que ainda ouviu foi o dos disparos,
mas na última imagem já havia corpos caídos sangrando, e o último som
estava cheio de gritos e lágrimas.
Trecho inicial de prefácio do escritor português José Saramago para o
livro Terra, do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, publicação da Companhia
das Letras; apud Caderno especial da Folha de S. Paulo, 6 abr. 1997
a) O prefácio de Saramago é um texto narrativo de base dissertativa.
Podemos dividi-lo em duas partes: na primeira, o narrador revela o
desejo de que Deus não venha à Terra; na segunda, apontam-se as
conseqüências, para o próprio Deus, de sua inadvertida visita a essas
paragens. Aponte algumas das conseqüências de tal gesto.
Melo & Pagnan
10
b) Quais são as provas concretas, segundo o narrador, dos erros divinos.
c) Não bastassem os enganos de Deus, alguns homens, por vez,
acabaram por desfazer todas as previsões divinas. A que o narrador se
refere? Diante dos fatos, qual foi a reação de Deus?
d) A analogia entre certo fenômeno observável na natureza e o trabalho
justifica a perpetuação do tipo de poder aludido na narrativa.
Comente esse processo considerando os conceitos sobre discurso,
argumentação e outros elementos pertinentes ao estudo do texto.
4) (PUC/RS) Observe a peça publicitária abaixo e responda as questões
a seguir:
Assim como as pessoas torcem por sua seleção, elas preferem
viajar com a companhia aérea de seu país. Nada mais natural: é a mesma
língua, a mesma cultura e o mesmo jeito que fazem elas se sentirem em
casa, ainda que a milhares de quilômetros de distância.
Para os brasileiros, os motivos para escolher a Varig são maiores.
A Varig é a companhia aérea que mais voa no Brasil e, do Brasil, para o
mundo. É a que tem o mais completo programa de milhagem, o Smiles.
Tem estrutura e Know-how como as melhores companhias aéreas
internacionais. É um atendimento caloroso que, convenhamos, nenhuma
outra no mundo tem.
Na sua próxima viagem, não torça para o time dos outros: escolha
a Varig. Não é só uma questão de patriotismo, mas de conveniência
também.
Marcio, aqui vai uma imagem. Vou enviar para você depois.
Prática de texto: leitura e redação
11
Melo & Pagnan
12
4.1) A peça publicitária da Varig tem como público-alvo:
a) brasileiros que se encontram a milhares de quilômetros do país.
b) todos os brasileiros, indiscriminadamente.
c) brasileiros que preferem viajar para o exterior.
d) brasileiros que costumam viajarpela Varig.
e) brasileiros que estão em vias de fazer uma viagem.
4.2) Para obter maior efeito persuasivo, o publicitário mescla argumentos
racionais com apelos que mobilizam a emoção do leitor. Analisando essa
estratégia, marque V (verdadeiro) ou F (falso) para cada uma das
afirmativas abaixo.
( ) O questionamento "E você, brasileiro?", em destaque na chamada,
apela para o sentimento de admiração que os brasileiros em geral nutrem
em relação aos países do Primeiro Mundo.
( ) No primeiro parágrafo ("Assim como... de distância."), predominam
argumentos racionais como o de "se sentir em casa" mesmo a milhares de
quilômetros do país.
( ) No segundo parágrafo ("Para os brasileiros... no mundo tem.") são
apresentadas fortes razões para que passageiros prefiram a Varig, e
alguns dos argumentos expostos poderiam ser comprovados com dados
numéricos.
( ) No slogan, ao pé da página, a palavra "nossa" reforça o apelo que a
mensagem faz ao sentimento de nacionalidade do brasileiro.
4.3) Neste texto, algumas relações frasais não são explicitadas pelo uso
de articuladores. Caso o publicitário resolvesse utilizá-los, mantendo os
sentidos do texto, as expressões mais adequadas para anteceder "Para os
brasileiros..." (segundo parágrafo) e "Na sua próxima viagem..." (terceiro
parágrafo) seriam, respectivamente, _________ e __________ .
a) Portanto – Porém
b) Porque – Assim
Prática de texto: leitura e redação
13
c) Entretanto – Portanto
d) Por isso – Além disso
e) Uma vez que – De modo que
4.4) Considerando as comparações presentes no texto, não é correto
concluir que o autor
a) equipara a preferência por voar numa companhia nacional com outros
marcos da cultura de um povo.
b) destaca a superioridade da Varig sobre todas as companhias aéreas
em relação à quantidade de vôos no mundo todo.
c) sugere que os brasileiros, além do patriotismo, têm outros motivos
mais fortes para preferir a Varig.
d) iguala os serviços da Varig ao que existe de melhor no mundo neste
setor.
e) afirma que a Varig supera todas as demais companhias aéreas na
acolhida aos passageiros.
Propostas de Redação
� Leia o texto abaixo:
Schopenhauer
Gabriel Perissé
Melo & Pagnan
14
A razão pode dar golpes sujos. Esta foi a percepção de Arthur Schopenhauer
(1788-1860), que escreveu um pequeno tratado sobre a patifaria intelectual, denunciando o
uso, ou o abuso que as pessoas, e sobretudo as que falam bem, fazem da inteligência e das
palavras. São 38 estratagemas que compõem a Dialética Erística, publicada entre nós pela
editora carioca Topbooks com o sugestivo título Como vencer um debate sem precisar ter
razão.
Embora incompleto, pois Schopenhauer ainda pretendia enriquecê-lo com mais
páginas antes da publicação, o tratado está suficientemente inteligível e é certeiro: em vez
de procurar a verdade, o adversário quer destruir o adversário. A arte de discutir
transforma-se na luta sem escrúpulos para confundir, lançando mão de todo tipo de
sofismas e desvios. Uma coisa é querer persuadir alguém de nossas convicções. Outra, bem
diferente, é querer que o adversário, no meio da polêmica, perca a capacidade de responder
e, por fim, se cale para sempre.
Um dos 38 estratagemas para confundir e calar o outro é aquele que pretende
provocar a raiva no interlocutor. Se eu conseguir deixar o meu adversário zangado por
algum motivo, devo aproveitar para deixá-lo mais zangado ainda. Digamos que ele seja
espírita e eu digo que os espíritas precisam reencarnar dez vezes para conseguir entender
um argumento. Se ele ficar irritado, devo continuar a irritá-lo, dizendo, por exemplo, que
um espírita que recebe mensagens do além não pode receber os direitos autorais do que
escreveu... ou psicografou, pois suas idéias são emprestadas etc. Se eu conseguir que o meu
interlocutor se irrite, conseguirei evitar que pense e fale com clareza.
Outro estratagema é alegar, ironicamente, que não entendemos o que o outro diz.
A coisa pode soar assim: "Olha, meu amigo, a sua argumentação é tão profunda e eu sou
Prática de texto: leitura e redação
15
tão limitado que não consigo entender o seu pensamento." Dessa forma, estou insinuando
que o outro é que é confuso, limitado e incapaz de explicar o que pensa.
Outro recurso, em sentido inverso ao anterior, é dizer coisas incompreensíveis
com ar de profundidade para que o outro se sinta humilhado e, fingindo que compreende,
acabe por aceitar tudo o que dissermos. Então, se eu digo: "O paradigma da interação
integra o jogo de inúmeras forças concêntricas que, sem privilegiar o efeito, anulam de
certo modo a causa. Trata-se, na verdade, de sistemas autogênicos não-ordinários e não-
cumulativos que, sem dúvida, exigem uma nova percepção do fenômeno, você concorda?"
– poucas pessoas terão coragem de contradizer-me.
Outra possibilidade, bastante difundida nos meios acadêmicos e jornalísticos, é
utilizar os chamados "rótulos detestáveis". Em vez de argumentar intelectualmente,
procurando o que há de verdade e mentira no discurso alheio, eu posso simplesmente
rotular o meu adversário, tirando-lhe o direito de falar: os esquerdistas, ou direitistas, ou
arrogantes, ou dogmáticos, ou ateus, ou qualquer outro adjetivo-rótulo pressupõe que o
rotulado está proibido, numa sociedade tão democrática como a nossa, de defender suas
odiosas idéias. E geralmente o rotulado começa a querer explicar-se e definir-se, dizendo
que é ateu por isso e por aquilo mas que nem por isso é um mau sujeito, ou que não é
dogmático embora acredite em dogmas por essas e por outras etc. etc., o que apenas
reforça o rótulo e desvia a atenção do que realmente interessava.
Um dos sofismas preferidos pela mentalidade brasileira é tentar destruir o
adversário afirmando que tudo o que ele disse está muito certo... na teoria, mas que na
prática não dá nada certo. Desse modo, desautorizo tudo o que o outro disse porque
pressuponho, baseado na observação da vida cotidiana, que, no final, tudo acaba mesmo
Melo & Pagnan
16
em pizza, piada e carnaval. O que não deixa de ser, também, uma interessante teoria sobre
nós mesmos...
Ainda outra possibilidade é, no decorrer da discussão, fazer uma porção de
perguntas, um verdadeiro tiroteio que impeça o outro de pensar e responder: "Quanto à
linguagem complexa das ciências e sua tradução para linguagem do leigo, eu pergunto: será
que o mesmo vale para a microfísica? Para a biologia, por exemplo, será que pode não falar
em síntese dos ácidos, mas usar algo mais leigo? Por que o filósofo é sempre acusado de
usar uma linguagem estranha ao leigo? Mas a linguagem do leigo é mais simples? A
condenação conferida pelo juiz a um réu é efetivada por qual ação? Não é o fato de ele
dizer "condenado"? Mas qual ação ele realizou aí? Ele disse algo e, após, bateu com um
martelo na mesa. Mas em que momento ele condenou? Ao dizer? Ao bater com o martelo?
Ou em ambos? E isto é uma convenção ou não? Pode um juiz dizer "você está frito" e com
isto querer dizer "condenado"? E se em vez de bater com o martelo ele batesse palmas?"
As perguntas podem ser infinitas, e infinitamente irrespondíveis.
Depois de ler esse pequeno tratado de Schopenhauer, poderemos talvez perder a
ingenuidade de acreditar em tudo, em quase tudo, do que nos dizem os grandes oradores,
os grandes palestrantes, os grandes debatedores. Mas já estava na hora.
Esfera – Revista de Cultura On-line, jun. 2000
Crie um diálogo cujo tema (ver sugestões abaixo) possa gerar uma
polêmica entre os interlocutores. Um dos interlocutores, para confundir o
Prática de texto: leitura e redação17
outro, deverá lançar mão de algumas estratégias do tratado de
Schopenhauer, destacadas por Gabriel Perissé na resenha acima. Para
que o seu texto ganhe maior verossimilhança, insira as personagens em
uma situação específica, descreva o cenário, atribua-lhes profissões etc.
Se julgar interessante, em determinado momento da polêmica, introduza
uma terceira personagem com um ponto de vista diferente das outras.
Você deverá conduzir o diálogo de maneira que o interlocutor “mal
intencionado” vença a querela. Depois, procure comparar os argumentos
desta última personagem com as estratégias de argumentação
relacionadas neste capítulo e exponha suas conclusões.
TEMAS
a) Pena de morte;
b) Censura na Internet;
c) Censura na TV;
d) Imposto sobre movimentações bancárias (IPMF);
e) Orientação sexual na Escola;
f) Casamento entre pessoas do mesmo sexo;
g) Privatização das telecomunicações;
Melo & Pagnan
18
h) Programas religiosos na TV;
i) Clonagem;
j) Alimentos geneticamente modificados;
k) Movimento dos Sem-Terra.
Prática de texto: leitura e redação
19
Capítulo 10
Organização da narrativa
No universo dos tipos de textos, a narrativa tem como objetivo principal relatar
acontecimentos diversos. Estudemos, pois, como se organiza uma narrativa. Para isso
vamos analisar o texto abaixo:
O homem nu
Fernando Sabino
Ao acordar, disse para a mulher:
– Escuta, minha filha, hoje é dia de pagar a prestação da televisão,
vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não
trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
– Explique isso ao homem – ponderou a mulher.
– Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir
rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica
quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém.
Deixa ele bater até cansar – amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para
tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava,
resolveu fazer café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para
apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para
um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o
embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda
era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém,
tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada
pelo vento.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la,
ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da
água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na
certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos
dedos:
– Maria! Abre aí, Maria. Sou eu – chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Melo & Pagnan
20
Enquanto isso, ouviu lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu
o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da
televisão.
Não era. Refugiado no lanço de escada entre os andares, esperou
que o elevador passasse, e voltou para a porta do seu apartamento, sempre a
segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
– Maria, por favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos,
regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo
uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet
grotesco e mal-ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem
onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de
abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, encetando a subida
de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da
testa com o embrulho do pão. Mas eis que a porta interna do elevador se
fecha e ele começa a descer.
– Ah, isso é que não! – fez o homem nu, sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com
ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu,
desorientado, que estava sendo levado a viver um verdadeiro pesadelo de
Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado
Regime do Terror!
– Isso é que não – repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os
andares, obrigando-a a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a
momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão
do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais
nada: "Emergência: parar." Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com
cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia
em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
– Maria! Abre esta porta! –gritava, desta vez esmurrando a porta, já
sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si. Voltou-se,
acuado, apoiando o traseiro no batente, e tentando inutilmente cobrir-se
com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
– Bom dia, minha senhora – disse ele, confuso. Imagine que eu...
A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
– Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:
– Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
Prática de texto: leitura e redação
21
– É um tarado!
– Olha, que horror!
– Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que
era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se
lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora,
bateram na porta.
– Deve ser a polícia – disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão.
In: O homem nu. Rio de Janeiro : Ed. do Autor, 1960.
Uma narrativa se caracteriza, entre outros aspectos, por uma
sucessão de acontecimentos, uma sucessão de estados e de
transformações. Assim, em O homem nu, o que se observa é uma
personagem, o marido de Maria, que, por estar sem dinheiro para pagar o
conserto de um televisor, vive uma situação bastante inusitada.
Logo no início da história, o que parecia ser uma decisão simples
e sem maiores conseqüências, aos poucos se torna um problema que irá
envolver boa parte dos moradores do prédio onde vive o homem nu.
Nessa narrativa, temos o seguinte esquema inicial:
� O homem traça uma meta, quer realizar um objetivo;
� Objetivo: não pagar, naquele momento, o conserto de um televisor.
O estado inicial, tanto de uma quanto de outra personagem, é
alterado para a realização de um objetivo. No caso, está-se contando a
história da perspectiva do marido de Maria, o homem nu. Não sabemos
qual o objetivo de Maria, podemos apenas imaginar.
Ao tentar modificar uma seqüência de ações – o televisor quebra,
o homem leva-o para consertar, o técnico devolve o televisor e recebe o
pagamento –, o marido de Maria cria uma expectativa: espera poder não
pagar pelo conserto em determinado dia, e sim adiá-lo. Porém, essa
expectativa não se cumpre, pois há uma série de acontecimentos
originada por uma situação inusitada, criando-se um novo problema:
estar nu em um espaço comum dos moradores de um prédio. O marido de
Maria tenta então solucionar o problema criado, resolver a situação
conflitante. Mas a todo instante, essa situação se agrava, até o desfecho
cômico, por assim dizer.
Continuando nosso esquema, elepode ser representado assim:
Melo & Pagnan
22
� O homem (personagem protagonista) traça um objetivo: não pagar
uma conta.
� criação de uma expectativa: a de que tudo vai ocorrer conforme o
plano traçado.
� problematização: fica preso, nu, em espaço público, o que gera um
novo objetivo: retornar ao apartamento antes que alguém o veja.
� conflito: como resolver a situação?
� tentativa de resolução do conflito: chama por Maria, esconde-se nas
escadas e no elevador.
� resolução ou não: após muita confusão, o homem finalmente
consegue resolver um problema, cumprindo o segundo objetivo
criado na história.
� desfecho: o objetivo inicial não se cumpre conforme a expectativa
criada.
Esse esquema, simplificado, quer demonstrar como, de um modo
geral, são organizadas as narrativas – sobretudo as de caráter ficcional –,
histórias em que se verificam buscas, frustrações e satisfações. Há outros
tipos de narrativas em que também se relata a transformação de um
estado, mas não há neles todo o percurso exemplificado com base no
texto de Fernando Sabino: da mudança de um estado inicial até a
tentativa de resolução de um conflito, criado justamente por aquela
mudança30. Leia o excerto a seguir e observe como, nele, há o relato dos
acontecimentos em torno do impasse dos vestibulares alternativos:
O impasse criado em torno da homologação de um parecer do
Conselho Nacional de Educação sobre os ‘vestibulares alternativos’ abriu
uma brecha para que as universidades e faculdades utilizem formas de
seleção consideradas não democráticas pelo órgão.
O parecer foi aprovado em 2 de dezembro, mas até o final da
semana passada não havia sido homologado pelo ministro da Educação,
Paulo Renato Souza, e por isso não tem valor legal. (...)
Folha de S. Paulo, 25 jan. 1999
Além de reportagens como essa, da Folha de S. Paulo, atas,
relatórios administrativos, científicos ou de outra espécie, crônicas
30
A classificação proposta, de qualquer modo, é uma variação dos elementos
tradicionalmente aceitos nos estudos da narrativa, como: princípio, clímax e desfecho.
Prática de texto: leitura e redação
23
policiais e esportivas, também são redigidos com uma finalidade
narrativa, posto que, nesses tipos de texto, narram-se os principais
acontecimentos de uma dada situação.
Exemplo de relatório científico (trecho)
Este trabalho versou sobre a leitura e análise que fez Silvio Romero da obra de
Machado de Assis, cujo aspecto central passa pela questão da nacionalidade. Até
que ponto, para este crítico, Machado seria um escritor nacional? Ou por outra,
considerando um processo evolutivo, qual a posição de Machado de Assis na
literatura brasileira? Essas são algumas das questões postas no estudo de Silvio,
que, para provar o descompasso de Machado nesse processo, o contrapõe a Tobias
Barreto, legítimo representante da nova poesia, da nova literatura.
O trabalho apresentado teve justamente como objetivo analisar os principais
aspectos da leitura que Silvio Romero fez da obra de Machado de Assis,
contrapondo-a às leituras que da obra do romancista fizeram José Veríssimo e
Araripe Jr., outros dois importantes críticos do século XIX e início do XX.
Outros aspectos caracterizam uma narrativa:
a) normalmente, quando narramos algo, o objeto da narração está
distante do momento da enunciação da história. Melhor explicando, o
mais comum é narrar uma história ocorrida em momento anterior àquele
da enunciação. Portanto, uma narração é construída com verbos,
preferencialmente, no pretérito (perfeito, imperfeito e mais-que-perfeito).
Isto não significa, porém, que outros tempos verbais não possam integrar
o percurso narrativo de um dado texto:
b) Se relermos O homem nu, veremos que a maior parte das
palavras indica algo concreto: dinheiro, pijama, pão, elevador etc. O que
permite ao leitor a visualização daquilo que se está lendo; portanto, uma
narrativa é um exemplo de texto figurativo, em que predominam
palavras de caráter concreto.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la,
ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído
da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir.
Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com
o nó dos dedos:
Melo & Pagnan
24
c) Ao se criar um texto narrativo, deve-se ter em mente seis
questões a serem respondidas:
♦ o quê? - trata-se do assunto, do episódio central, também conhecido
como enredo; no caso a tentativa de um homem não quitar uma
dívida.
♦ por quê? - explicam-se as causas do ocorrido; podemos entender aqui
tanto o motivo que levou o homem a não querer pagar a conta do
conserto, como o porquê ele teria ficado nu.
♦ quando? - é preciso especificar o tempo, a época do ocorrido; isto não
significa necessariamente a data específica, e sim qual a seqüência das
ações. No caso, o que se sabe é que a história se passa pela manhã:
"Ao acordar,..."
♦ onde? - o lugar ou os lugares em que se passa a história, ou ainda o
espaço; no caso, em um apartamento localizado em uma cidade
qualquer.
♦ quem? - os personagens envolvidos; o homem, sua esposa, Maria,
alguns moradores do prédio e o cobrador da televisão.
♦ como? - aqui, pode-se entender de dois modos: de que modo ocorreu a
história, de que modo enredaram-se as situações; ou ainda, como a
história é/foi contada. Uma história pode ser contada basicamente de
dois modos: em 1ª pessoa (Eu...) ou em 3ª pessoa (Ele...). O que irá
definir o uso de uma ou de outra pessoa será a própria história. Se uma
narrativa for capaz de trazer à tona os pensamentos e ações de todas as
personagens, ela deverá ser narrada em 3ª pessoa para não atentar
contra a coerência interna; se, por outro lado, procurar narrar fatos de
apenas um ponto de vista, o melhor é adotar-se a narrativa em 1ª
pessoa. Gérard Genette prefere outra classificação para além da
gramática: homodiegético, narrador que participa da história sem
ocupar papel central; autodiegético, narrador que ocupa papel central
na narrativa, como nas autobiografias; e heterodiegético, caso do
narrador que não participa da história.
1ª pessoa: (homodiegético)
Prática de texto: leitura e redação
25
Mas um movimento animou-me, primeiro estímulo sério da vaidade:
distanciava-me da comunhão da família, como um homem! ia por
minha conta empenhar a luta dos merecimentos; e a confiança nas
próprias forças sobrava. Quando me disseram que estava a escolha
feita da casa de educação que me devia receber, a notícia veio achar-
me em armas para a conquista audaciosa do desconhecido.
Raul Pompéia. O Ateneu.
3ª pessoa: (heterodiegético)
Seriam onze horas da manhã.
O Campos, segundo o costume, acabava de descer do almoço e
dispunha-se a prosseguir no trabalho interrompido antes. Entrou no
seu escritório e foi sentar-se à secretária. Ia fazer a correspondência
para o Norte. Mal, porém, dava começo a uma nova carta, quando
foi interrompido por um rapaz, que da porta do escritório lhe
perguntou se podia falar com o Sr. Luís Batista de Campos.
– Tenha a bondade de entrar, disse este.
O rapaz tinha seus vinte anos, tipo do Norte, franzino, amorenado.
– Que deseja o senhor?, perguntou o Campos.
O moço avançou dois passos, com ar muito acanhado; o chapéu de
pêlo seguro por ambas as mãos.
– Desejo entregar esta carta, disse, atrapalhando-se com o chapéu
ao tentar tirar da algibeira um grosso maço de papéis. Cheguei
hoje do Maranhão, acrescentou o provinciano, sacando as cartas
finalmente.
– Ora... o senhor é o Amâncio!
Aluísio Azevedo. Casa de Pensão.Em O homem nu, por exemplo, tem-se uma história narrada em 3ª
pessoa:
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para
tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto
esperava, resolveu fazer café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de
serviço para apanhar o pão.
Melo & Pagnan
26
É preciso considerar, no entanto, que nem sempre uma narrativa,
ainda que ficcional, segue rigorosamente o esquema estudado. Na crônica
abaixo, do próprio Fernando Sabino, os verbos estão no presente do
indicativo – e não no pretérito. Além disso, não se tem uma história com
uma problematização a ser resolvida, não há uma grande expectativa em
torno de um acontecimento – exceto a do próprio narrador, que busca
subsídios para escrever a próxima crônica e fica à espera de algo para
narrar. Esse algo está no cotidiano de um botequim, por exemplo, que
pode num instante fornecer ao narrador o inesperado, o mistério,
transformando o prosaico no sublime. É o que ocorre nessa história. Uma
família humilde vai a um botequim para comemorar o aniversário da
filha. A cena, que passa despercebida aos demais presentes, é captada e
"congelada" pelo olhar do narrador, como que a separando de todo o
resto, do mundo, para eternizá-la. A narrativa de Sabino faz o leitor se
esquecer, momentaneamente, da vida "a troco do sonho [...] que nos
transporta ao mundo da imaginação. Para voltarmos mais maduros à
vida."31 Os verbos no presente acabam cumprindo justamente a função de
perpetuar a cena, uma vez que, os verbos no passado dariam idéia de algo
distante, de que isso tudo já não existe mais. O uso daquele tempo verbal
não constitui, pois, um rompimento com as "regras" da narrativa, mas
atende a uma estratégia de construção textual.
A última crônica
Fernando Sabino
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um
café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A
perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito
mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada
um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso
conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida.
Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer
num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num
incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do
essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo o meu café,
enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o
31
Antonio Candido. "A vida ao rés-do-chão". Prefácio de Para gostar de ler: crônicas /
Carlos Drummond de Andrade et al. S. Paulo : Ática, 1980, p. 12.
Prática de texto: leitura e redação
27
meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um
último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma
crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas
mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na
contenção de gestos e palavras, deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus
três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à
mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao
redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da
família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a
fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou
do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um
pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa,
como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem
e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se
da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um
bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de coca-cola e
o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer?
Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa a um discreto
ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer
coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda
também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de
mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia
do bolo. E enquanto ela serve a coca-cola , o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a
um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força,
apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando
num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você ..."
Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o
bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com
ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe caiu ao colo.
O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do
sucesso da celebração. De súbito, dá comigo a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele
se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar
e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse
sorriso.
A companheira de viagem. 2ª ed., Rio de Janeiro : Sabiá, 1972, pp. 179-182
Melo & Pagnan
28
Exercícios
1) Leia o texto abaixo e responda a seguir:
Desenredo
Guimarães Rosa
Do narrador a seus ouvintes:
– Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro da
cerveja. Tinha o para não ser célebre. Com elas quem pode, porém? Foi
Adão dormir, e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília ou Irlívia, a que,
nesta observação, a Jó Joaquim apareceu.
Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. Aliás, casada.
Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jó Joaquim pegou o amor.
Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e
vento. Mas muito tendo tudo de ser secreto, claro, coberto de sete capas.
Porque o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as
aldeias são a alheia vigilância. Então ao rigor geral os dois se sujeitaram,
conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é
mundo. Todo abismo é navegável a barquinho de papel.
Não se via quando e como se viam. Jó Joaquim, além disso,
existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto.
Dependiam eles de enorme milagre. O inebriado engano.
Até que – deu-se o desmastreio. O trágico não vem a conta-gotas.
Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Sem mais cá nem
mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o. Diz-se, também, que de
leve a ferira, leviano modo.
Jó Joaquim derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o
decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o
inefável e o infando. Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de
seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser
pseudopersonagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.
Ela – longe – sempre ou ao máximo mais formosa, já sarada e sã.
Ele exercitava-se a agüentar-se, nas defeituosas emoções.Enquanto ora, as coisas amaduravam. Todo fim é impossível?
Azarado fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado ou
de tifo. O tempo é engenhoso.
Prática de texto: leitura e redação
29
Soube-o logo Jó Joaquim, em seu fransciscanato, dolorido mas já
medicado. Vai, pois, com a amada se encontrou – ela sutil como uma colher
de chá, grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não
fechar de ouvidos. Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz
escândalo popular, por que forma fosse.
Mas.
Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e
parafraseiam-se. Deu-se a entrada dos demônios.
Desta vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído
e traidora. De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão.
Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e homem. E
viajou fugida a mulher, a desconhecido destino.
Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim
sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste, pois que tão calado.
Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no
frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela
dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a
endireitar-se.
Mais.
No decorrer e comenos, Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo,
jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulisses,
que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade – idéia inata.
Entregou-se a remir, redimir a mulher, à conta inteira. Incrível? É de notar que o ar vem do
ar. De sofrer e amar, a gente não se desafaz. Ele queria apenas os arquétipos, platonizava.
Ela era um aroma.
Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois. Disse-se e dizia isso Jó Joaquim.
Reportava a lenda a embustes, falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, obrigava-
se por tudo. Trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raro, o que fora tão claro como
água suja. Demonstrando-o, amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica,
desde que Aristóteles a fundou. O que não era tão fácil como refritar almôndegas. Sem
malícia, com paciência, sem insistência, principalmente.
O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas,
acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos. Jó
Joaquim, genial, operava o passado – plástico e contraditório rascunho.
Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?
Celebrava-a, ufanático, tendo-a por justa e averiguada, com
convicção manifesta. Haja o absoluto amar – e qualquer causa se irrefuta.
Pois, produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das
reticências, o tempo secou o assunto. Total o transato desmanchava-se, a
anterior evidência e seu nevoeiro. O real e o válido, na árvore, é a reta
que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos.
Melo & Pagnan
30
Mesmo a mulher, até, por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se
achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio
sem culpa. Voltou, com dengos e fotos de bandeira ao vento.
Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria
retomaram-se, e conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil
vida.
E pôs-se a fábula em ata.
João Guimarães Rosa. Tutaméia: terceiras estórias. Rio de
Janeiro : José Olympio, 1979
a) Essa narrativa é composta de três episódios, isto é, em três momentos,
Jó Joaquim cria uma expectativa. Procure determinar em cada um desses
episódios a expectativa criada.
b) Localize os demais elementos da narrativa presentes no conto.
c) Explique por que o conto recebe o título desenredo.
d) Procure explicar a simbologia presente no nome das personagens. Em
outras palavras, por que a mulher é nomeada de quatro formas diferentes:
Livíria, Rivília, Irlívia e, no final, Vilíria? E quanto a Jó Joaquim, cuja
origem do nome se encontra na Bíblia?
2) Analise o percurso narrativo do
personagem Misael, ou seja, diga qual era seu
objetivo ao tirar Maria Elvira da prostituição, e
como se dá a problematização da história até ao
desfecho.
Tragédia brasileira
Manuel Bandeira
Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade.
Conheceu Maria Elvira na Lapa, – prostituída, com sífilis, dermite
nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no
Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um
namorado.
Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma
facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de
casa.
Os amantes moraram no Estácio, Rocha,
Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí,
Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos,
Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, pri
de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá
decúbito dorsal, vestida de organdi azul.
3) Observe os quadrinhos de Calvin e Haroldo, de Bill Watterson. Pode
se dizer que se trata de uma narrativa? Expl
Propostas de redação
1) Leia os parágrafos abaixo:
Às sete horas o despertador tocou. Samuel saltou da cama, correu
para o banheiro, fez a barba e lavou
Estava na cozinha, preparando sanduíches, quando a m
bocejando:
– Vais sair de novo, Samuel?
Fez que sim com a cabeça.
– Todos os domingos tu sais cedo
azedume na voz.
Prática de texto: leitura e redação
31
Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma
facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de
Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General
Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí,
Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos,
Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e
a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em
decúbito dorsal, vestida de organdi azul.
3) Observe os quadrinhos de Calvin e Haroldo, de Bill Watterson. Pode-
se dizer que se trata de uma narrativa? Explique.
Propostas de redação
Às sete horas o despertador tocou. Samuel saltou da cama, correu
para o banheiro, fez a barba e lavou-se. Vestiu-se rapidamente e sem ruído.
Estava na cozinha, preparando sanduíches, quando a mulher apareceu,
Vais sair de novo, Samuel?
Fez que sim com a cabeça.
Todos os domingos tu sais cedo – observou a mulher com
Melo & Pagnan
32
Trata-se do início de um conto de Moacyr Scliar, escritor gaúcho.
Procure dar uma seqüência coerente a esse conto.
2) (Unicamp) Ser ou não ser, eis a questão. Se correr o bicho pega, se
ficar o bicho corre. Situações-limite são uma constante, tendo sido
retomadas tanto pela literatura como pela sabedoria popular.
Pensando nisso, escreva uma narrativa em primeira pessoa, na
qual o narrador não seja o protagonista da ação. Considere os aspectos
abaixo, que constituirão um roteiro para sua narrativa, a qual pode
corresponder a diferentes situações, como um drama familiar, uma
questão de ordem psicológica, uma aventura etc.:
• uma situação problemática, de cuja solução depende algo muito
importante;
• uma tentativa de solução do problema, pela escolha de um dos
caminhos possíveis, todos arriscados: ultrapassar ou não ultrapassar
uma fronteira;
• uma soluçãopara o problema, mesmo que origine uma nova situação
problemática.
3) Observe como o quadro abaixo
Proença Sigaud (1899-1979) – apresenta características próprias de uma
narrativa: movimento, sucessão de estados,
a imagem sugere, crie uma narrativa.
Prática de texto: leitura e redação
33
3) Observe como o quadro abaixo – Acidente de trabalho, tela de Eugênio
apresenta características próprias de uma
narrativa: movimento, sucessão de estados, personagens. A partir do que
a imagem sugere, crie uma narrativa.
Melo & Pagnan
34
Capítulo 11
Descrição
Descrever consiste em enumerar características físicas (ou
psicológicas) de determinado ambiente, de uma pessoa ou de um objeto
qualquer, como uma casa, um automóvel, um telefone etc., assinalando
traços que o singularizam. É também meio de salientar sentimentos:
pode-se, por exemplo, descrever o que uma pessoa ou uma personagem
sente diante de uma situação cômica ou trágica.
Encontramos a descrição em diferentes tipos de textos, como os
publicitários, os jornalísticos, os literários. Está igualmente presente, por
exemplo, em manuais ou nas embalagens de produtos industrializados.
Além disso, em textos
dissertativos, a descrição
pode funcionar como
estratégia argumentativa, na
medida em que, ao
descrever-se um objeto ou
um conceito, tem-se como
objetivo caracterizá-lo para
convencer o leitor sobre a
validade. Observe, no exemplo abaixo, como a concretização das funções
do "consumidor" acumula detalhes (ver capítulo 9) sobre esse conceito,
tentando suscitar a reflexão em torno de sua relevância no marketing e
sua decorrente assimilação pelo profissional da área.
O Consumidor
É nele que, tendo em vista a decisão de satisfazer necessidades,
tanto o Iniciador, o Influenciador, o Decisor, quanto o Comprador
efetivamente pensam ao definir uma compra. Portanto, visto o objetivo de
influenciar a tomada de decisão no processo de compra, pense nele você
também, e antes deles, para estruturar uma abordagem adequada e eficiente.
Note, entretanto, que geralmente Iniciador, Influenciador, Decisor,
Comprador e Consumidor são a mesma pessoa no processo de compra,
apenas que em estágios diferentes de ação. Veja que o Consumidor é o seu
próprio agente iniciador no processo de compra, no momento em que está
identificando e definindo uma sua necessidade decorrente de falta a ser
Sua formulação exclusiva, com
combinações de enzimas e oxigênio
ativo, elimina completamente a sujeira e
a gordura das louças. Sun Tablets vem na
medida certa para lavar toda a louça da
máquina e dissolve sem deixar resíduos.
(texto impresso na embalagem de Sun Tablets,
detergente para máquinas de lavar louça.)
Prática de texto: leitura e redação
35
suprida, e tem a iniciativa de estar atento a produtos capazes de satisfazê-las. O
Consumidor é também seu próprio agente influenciador, na medida em que consulta
seus gostos, preferências e valores pessoais para decidir-se dentre mais de
um produto e identificar aquele que o satisfará. É ele mesmo o seu agente decisor,
na medida em que consulta suas reservas e disponibilidades, ou a sua
capacidade de tomar a crédito, avaliando para si a relação entre o preço a
pagar e o valor que atribui à satisfação daquela necessidade.
Finalmente, o Consumidor é seu próprio agente comprador quando realiza a
compra em seu próprio nome, adquirindo para si mesmo a posse ou o
direito de uso do produto destinado à satisfação de uma ou mais de suas
necessidades.
Revista de Marketing. (grifo nosso)
Leiamos, agora, um excerto literário, em que predomina a
descrição, importante para a construção da narrativa, conforme procura
deixar claro o próprio narrador.
De um dos cabeços da Serra dos Órgãos desliza um fio de água que
se dirige para o norte, e engrossado com os mananciais que recebe no seu
curso de dez léguas, torna-se rio caudal.
É o Paquequer: saltando de cascata em cascata, enroscando-se como
uma serpente, vai depois se espreguiçar na várzea e embeber no Paraíba,
que rola majestosamente em seu vasto leito.
Dir-se-ia que, vassalo e tributário desse rei das águas, o pequeno rio,
altivo e sobranceiro contra os rochedos, curva-se humildemente aos pés do
suserano. Perde então a beleza selvática; suas ondas são calmas e serenas
como as de um lago, e não se revoltam contra os barcos e as canoas que
resvalam sobre elas: escravo submisso, sofre o látego do senhor.
Não é neste lugar que ele deve ser visto; sim três ou quatro léguas
acima de sua foz, onde é livre ainda, como o filho indômito desta pátria da
liberdade.
Aí, o Paquequer lança-se rápido sobre o seu leito, e atravessa as
florestas como o tapir, espumando, deixando o pêlo esparso pelas pontas
do rochedo, e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De
repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recua um
momento para concentrar as suas forças, e precipita-se de um só arremesso,
como o tigre sobre a presa.
Depois, fatigado do esforço supremo, se estende sobre a terra, e
adormece numa linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como
em um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes.
Melo & Pagnan
36
A vegetação nessas paragens ostentava outrora todo o seu luxo e
vigor; florestas virgens se estendiam ao longo das margens do rio, que corria
no meio das arcarias de verdura e dos capitéis formados pelos leques das
palmeiras.
Tudo era grande e pomposo no cenário que a natureza, sublime
artista, tinha decorado para os dramas majestosos dos elementos, em que o
homem e apenas um simples comparsa.
No ano da graça de 1604, o lagar que acabamos de descrever estava
deserto e inculto; a cidade do Rio de Janeiro tinha-se fundado havia menos
de meio século, e a civilização não tivera tempo de penetrar o interior.
Entretanto, via-se à margem direita do rio uma casa larga e espaçosa,
construída sobre uma eminência, e protegida de todos os lados por uma
muralha de rocha cortada a pique.
A esplanada, sobre que estava assentado o edifício, formava um
semi-círculo irregular que teria quando muito cinqüenta braças quadradas;
do lado do norte havia uma espécie de escada de lajedo feita metade pela
natureza e metade pela arte.
Descendo dois ou três dos largos degraus de pedra da escada,
encontrava-se uma ponte de madeira solidamente construída sobre uma
fenda larga e profunda que se abria na rocha. Continuando a descer,
chegava-se à beira do rio, que se curvava em seio gracioso, sombreado pelas
grandes gameleiras e angelins que cresciam ao longo das margens.
Aí, ainda a indústria do homem tinha aproveitado habilmente a
natureza para criar meios de segurança e defesa.
De um e outro lado da escada seguiam dois renques de árvores, que,
alargando gradualmente, iam fechar como dois braços o seio do rio; entre o
tronco dessas árvores, uma alta cerca de espinheiros tornava aquele
pequeno vale impenetrável.
A casa era edificada com a arquitetura simples e grosseira, que ainda
apresentam as nossas primitivas habitações; tinha cinco janelas de frente,
baixas, largas, quase quadradas.
Do lado direito estava a porta principal do edifício, que dava sobre
um pátio cercado por uma estacada, coberta de melões agrestes. Do lado
esquerdo estendia-se até à borda da esplanada uma asa do edifício, que abria
duas janelas sobre o desfiladeiro da rocha.
No ângulo que esta asa fazia com o resto da casa, havia uma coisa
que chamaremos jardim, e de fato era uma imitação graciosa de toda a
natureza rica, vigorosa e esplêndida, que a vista abraçava do alto do
rochedo.
Prática de texto: leitura e redação
37
Flores agrestes das nossas matas,pequenas árvores copadas, um
estendal de relvas, um fio de água, fingindo um rio e formando uma
pequena cascata, tudo isto a mão do homem tinha criado no pequeno
espaço com uma arte e graça admirável.
À primeira vista, olhando esse rochedo da altura de duas braças,
donde se precipitava um arroio da largura de um copo de água, e o monte
de grama, que tinha quando muito o tamanho de um divã, parecia que a
natureza se havia feito menina e se esmerara criar por capricho uma
miniatura.
O fundo da casa, inteiramente separado do resto da habitação por
uma cerca, era tomado por dois grandes armazéns ou senzalas, que serviam
de morada a aventureiros e acostados.
Finalmente, na extrema do pequeno jardim, à beira do precipício,
via-se uma cabana de sapé, cujos esteios eram duas palmeiras que haviam
nascido entre as fendas das pedras. As abas do teto desciam até o chão; um
ligeiro sulco privava as águas da chuva de entrar nesta habitação selvagem.
Agora que temos descrito o aspecto da localidade, onde se deve
passar a maior parte dos acontecimentos desta história, podemos abrir a
pesada porta de jacarandá, que serve de entrada, e penetrar no interior do
edifício. /.../
José de Alencar. O Guarani. 17ª ed., S. Paulo : Ática, 1992, p. 15-17
O texto que acabamos de ler é um exemplo típico de descrição
(ainda que entrecortado por trechos narrativos).
Podemos, através de uma leitura atenta, vislumbrar como a
descrição foi desenvolvida, o que nos será útil para a caracterização mais
exata do que seja um texto descritivo.
O narrador faz, inicialmente, um esboço do ambiente natural, indo
de um plano genérico a algo mais particular, tendo como centro o rio
Paquequer; em seguida, descreve o ambiente social, fornecendo uma
idéia da localização da residência onde se desenvolverá a maior parte da
história; feito isto, salienta traços definidores da construção e daquilo que
ela representa como espaço humano; há como que uma simbiose
envolvendo os dois espaços. O narrador, assim, ambienta a história que
irá contar, caracterizando todos os aspectos que julga importantes para
dar início e seqüência à narrativa.
Com isto, podemos destacar algumas características do texto
descritivo:
Melo & Pagnan
38
a) texto figurativo: há um largo uso de palavras de caráter concreto e
específico, como barcos, canoas, rios, rochedos, rocha etc.
b) verbos de estado/de ligação: como a descrição não pressupõe o
movimento, o fazer transformador, próprio da narrativa, os verbos
utilizados são os que indicam estado, os verbos de ligação,
propriedades e atitudes: A casa era edificada com a arquitetura simples
e grosseira; Do lado direito estava a porta principal do edifício.
c) tempo verbal: exatamente por não haver o movimento, os tempos
verbais mais comuns da descrição são o presente do indicativo e o
pretérito imperfeito do indicativo, embora outros tempos verbais
possam ser empregados: Não é neste lugar que ele deve ser visto; sim
três ou quatro léguas acima de sua foz, onde é livre ainda, como o filho
indômito desta pátria da liberdade; A esplanada, sobre que estava
assentado o edifício, formava um semicírculo irregular.
d) adjetivação/ traço individualizante do objeto: como se sabe, o
adjetivo é usado em uma oração para modificar o substantivo. Em
uma descrição, além dessa função, os adjetivos podem individualizar
um objeto, ou seja, detalhar um ser, uma casa para que sejam
diferenciados dos outros seres, das demais casas. Isto porque uma
descrição genérica contribui muito pouco para caracterizar um objeto.
Dizer que “a casa é bela”, ou que “a casa é grande”, não
individualiza, não concede singularidade ao objeto descrito: via-se à
margem direita do rio uma casa larga e espaçosa, construída sobre
uma eminência, e protegida de todos os lados por uma muralha de
rocha cortada a pique.
e) comparações: é um recurso amplamente utilizado nas descrições,
muitas vezes por faltar um adjetivo mais preciso, que transmita a
exatidão do que se deseja: Não é neste lugar que ele deve ser visto; sim
três ou quatro léguas acima de sua foz, onde é livre ainda, como o filho
indômito desta pátria da liberdade.
Embora a descrição pormenorizada de um ambiente ou de uma
personagem possa parecer um pouco enfadonha, com freqüência ela
atende a exigências internas do texto, como ocorre nas narrativas do
próprio José de Alencar ou de um Érico Veríssimo e, portanto, não pode
ser simplesmente expurgada. Em O Guarani, por exemplo a descrição
Prática de texto: leitura e redação
39
inicial corrobora a caracterização do universo simbólico do enredo, que
estabelece uma relação simbiótica entre o mundo "civilizado", o mundo
europeu, e o mundo natural, representados, respectivamente, pela família
de Dom Antonio de Mariz e pelo índio Peri. Além disso, mesmo que se
sustente como gênero, a descrição inclina-se a ganhar em funcionalidade
quando empregada em uma narrativa ou em uma dissertação.
� Vejamos o texto abaixo
Ali naquela casa de muitas janelas de bandeiras coloridas vivia
Rosalina. Casa de gente de casta, segundo eles antigamente. Ainda conserva
a imponência e o porte senhorial, o ar solarengo que o tempo de todo não
comeu. As cores das janelas e da porta estão lavadas de velhas, o reboco
caído em alguns trechos como grandes placas de ferida mostra mesmo as
pedras e os tijolos e as taipas de sua carne e ossos, feitos para durar toda a
vida; vidros quebrados nas vidraças, resultado do ataque da meninada nos
dias de reinação, quando vinham provocar Rosalina (não de propósito e
ruindade, mas sem-que-fazer de menino), escondida detrás das cortinas e
reposteiros; nos peitoris das sacadas de ferro rendilhado formando flores
estilizadas, setas, volutas, esses e gregas, faltam muitas das pinhas de cristal
facetado cor-de-vinho, que arrematavam nas cantoneiras a leveza daqueles
balcões.
Autran Dourado. Ópera dos Mortos. 11ª ed., Rio de Janeiro : Francisco Alves, 1990, p. 1
Observe como a voz que descreve a casa está do lado de fora e
relativamente distante dela (“Ali naquela...”). Inicialmente, faz uma
observação genérica (“casa de muitas janelas”), para, em seguida, dar
detalhes das janelas, da porta, das paredes, dos vidros e das sacadas. Isso
tudo para singularizar, individualizar o objeto. A casa é, em dado
momento, caracterizada com elementos próprios do ser humano: carne e
ossos. Com isso, o modo de construção desse texto descritivo personifica
a casa, outorgando-lhe status de personagem central, posto que será
importante para se compreender melhor a própria história das pessoas
que nela habitaram. A descrição cumpre, neste texto, portanto, um papel
necessário para a organicidade da narrativa, que irá tratar da vida dos
habitantes do sobrado: a família Honório Cota.
Quando fazemos uma descrição, tendemos a manifestar nossas
impressões pessoais de tal forma que revelamos, mais ou menos,
simpatia ou antipatia pelo objeto descrito. Observe, por exemplo, como o
Melo & Pagnan
40
eu-lírico do poema de Manuel Bandeira, ao descrever "Teresa", revela
seu estado emotivo.
A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo
nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
À desconstrução da mulher amada corresponde a incompreensão
desse objeto nas duas primeiras vezes em que o poeta o vê; apenas na
terceira vez a imagem surrealista (primeira estrofe) e fragmentada
(segunda estrofe) é afastada pela visãodo sublime.
Descrição técnica
Há outros textos que apresentam uma descrição pormenorizada de
um objeto: as monografias científicas descrevem o método utilizado; há
nas resenhas, a descrição de elementos importantes para melhor analisar
írico do poema de Manuel Bandeira, ao descrever "Teresa", revela
Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
to mais velhos que o resto do corpo
(os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
trução da mulher amada corresponde a incompreensão
desse objeto nas duas primeiras vezes em que o poeta o vê; apenas na
terceira vez a imagem surrealista (primeira estrofe) e fragmentada
(segunda estrofe) é afastada pela visão do sublime.
Veja como, na foto de
Mônica Zarattini, do jornal O
Estado de S. Paulo, a cidade
é captada de modo subjetivo,
de modo a revelar a
perspectiva individual da
fotógrafa.
Descrição técnica
Há outros textos que apresentam uma descrição pormenorizada de
onografias científicas descrevem o método utilizado; há
nas resenhas, a descrição de elementos importantes para melhor analisar
Prática de texto: leitura e redação
41
uma obra; nos manuais de instruções, é muito comum o detalhamento das
características do produto.
É impossível falar de conforto sem incluir o espaço interno. Seus
interiores são amplos, acomodando tranqüilamente passageiros e
bagagens. O Passat e o Passat Variant possuem direção hidráulica e ar
condicionado de elevada capacidade, proporcionando a climatização
perfeita do ambiente. Porta-malas: o compartimento de bagagens
possui capacidade de 465 litros, que pode ser ampliada para até 1500
litros, com o encosto do banco traseiro rebaixado. Tanque: o tanque
de combustível é confeccionado em plástico reciclável e posicionado
entre as rodas traseiras, para evitar a deformação em caso de colisão.
Uma das finalidades da descrição técnica é, justamente, esclarecer
sobre o funcionamento e a estrutura do objeto e, ao mesmo tempo,
convencer o usuário sobre a necessidade de se acatarem as
especificidades do manual, garantindo o melhor uso do produto.
O anel hidrocompensador está localizado abaixo da tampa,
fixado na borda do cesto. Especialmente projetado, o anel
hidrocompensador funciona como uma contrapeso durante a
centrifugação, quando a carga de roupa está mal colocada ou
desbalanceada dentro do cesto, evitando a trepidação ou
deslocamento da Lavadora. (Lavadora Brastemp)
Os manuais de instruções devem considerar que serão lidos
também por pessoas com pouco ou nenhum conhecimento técnico sobre
o produto, por isto a descrição se obriga a ser ao mesmo tempo técnica e
acessível, precisa e de fácil compreensão32.
Além dos manuais de instruções, são muito comuns as
correspondências comerciais em que se descreve um serviço:
32
É bem verdade que isso nem sempre acontece, devido ao uso de um vocabulário
especializado, como em bulas de remédio.
Melo & Pagnan
42
No clube Águas Claras você e sua família encontrarão um lago com
praia artificial, um supertobogã aquático, dois campos de futebol
suíço, bosques com churrasqueiras, área para camping, som
ambiente, lanchonete com salão de jogos de mesa, playground,
amplo estacionamento, além de um moderno parque aquático que
está em fase de acabamento.
Exercícios
1) (ESPM - modificado) O texto abaixo é a reprodução do início do conto
“Bertram”, a primeira das narrativas de Noite na Taverna, de Álvares de
Azevedo:
Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão por
aquele céu morno, o fresco das águas se exalava como uma suspiro do
leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de... As luzes
se apagavam uma por uma nos palácios, as ruas se faziam ermas, e a lua
de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma sombra de mulher
apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. A face
daquela mulher era como de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela,
como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.
a) Pode-se dizer que esse texto é predominante descritivo? Por quê?
b) Localize uma comparação e procure explicar a imagem suscitada por
ela.
c) Qual a importância da comparação para a descrição?
d) Acrescentando-se um fato a esse texto, em que tipo de composição se transforma?
Por quê?
2) Leia o texto abaixo e responda a seguir:
Prática de texto: leitura e redação
43
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo
exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o
contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura
corretíssima das organizações atléticas.
É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a
fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso,
aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida,
num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé,
quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a
cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um
dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido,
não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de
que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha
estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira
conversa com um amigo, cai logo – cai é o termo – de cócoras, atravessando largo tempo
numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos
grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula
e adorável.
É o homem permanentemente fatigado.
Reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na
palavra remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência
langorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude.
Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude.
Euclides da Cunha. Os sertões.
a) Que características presentes neste texto possibilitam dizer que se trata
de um texto descritivo?
b) Que idéia central pode ser vislumbrada no texto?
c) Pode-se dizer que há no texto características próprias da dissertação?
Explique.
d) Faça um levantamento dos adjetivos presentes. Procure no dicionário o
significado daqueles que você não conhece.
Melo & Pagnan
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3) Leia um fragmento do texto A cartografia da desigualdade, publicado
na revista Carta Capital, em agosto de 1998, por Adriana Wilner, e
responda às questões a seguir:
O mapa-múndi redesenhado na proporção da riqueza de cada país é
uma obra desconcertante, certamente constrangedora para os cartógrafos,
acostumados a ver fronteiras do mundo demarcadas por montanhas, vales,
rios e mares. O mapa do capital também define linhas bem distintas
daquelas traçadas nos discursos de globalização. O que se observa é que a
viagem cada vez veloz de recursos tem como destino o bolso de poucos.
Para ser mais exato, de 358 bilionários, com uma riqueza que supera
a renda conjunta dos países onde vivem 45% da população mundial,
conforme o The Human Development Report das Nações Unidas
publicado no jornal londrino