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2017
6ª Edição
CAPÍTULO V
FATOS JURÍDICOS
1. FATOS JURÍDICOS
A teoria dos fatos jurídicos é a mais importante para o estudo de todo o Direito Civil, quiçá
de todos os ramos do Direito. Com efeito, é através da ocorrência de fatos juridicamente relevan-
tes que o Direito se realiza, transforma-se ou se extingue.
Mas nem todos os fatos da vida humana são tidos como juridicamente relevantes. Fatos
ocorrem que não importam para o Direito, porque não são capazes de inÀuenciar em nada a es-
fera jurídica das pessoas ou das coisas. Um simples acontecimento do cotidiano, sem nenhuma
modi¿cação relevante, não será quali¿cado como fato jurídico.
Serão jurídicos, portanto, todos os fatos que possam trazer consequências para o mundo ju-
rídico, quer seja criando, modi¿cando, extinguindo, resguardando ou transmitindo direitos. 2s fatos
da vida que não sirvam a esses efeitos não são classi¿cados como jurídicos �o acordar diariamente, o
escovar os dentes, uma brisa calma etc.), a não ser que, ainda indiretamente, possam ser considerados
causadores de efeitos como a criação, a modi¿cação, a transmissão, a garantia e a extinção de direitos.
Para melhor enquadramento dessa matéria entre os tópicos já vistos, relembremos as três
categorias distintas de fenômenos estudados na Teoria Geral do Direito Civil:
Sujeitos de direito Objetos de direito Relações jurídicas
são todas as pessoas capazes de ad-
quirir direitos. Aqui tratamos de pes-
soas capazes ou incapazes, porque
estas podem adquirir direitos, mas,
para exercê-los, devem ser represen-
tadas ou assistidas, conforme o caso;
fala-se também, nesse ponto, de pes-
soas naturais ou jurídicas, porque to-
das são capazes de adquirir direitos
ou de transmiti-los a outrem;
são todos os bens suscetíveis de
apropriação e que podem ser ob-
jeto de interesse pelos sujeitos de
direito. Sua divisão e classificação já
foi elucidada nos tópicos anteriores;
a relação jurídica é o vínculo capaz
de unir dois ou mais sujeitos de di-
reito ou esses sujeitos com um ou
mais objetos de direito. Para que
surja a relação jurídica entre sujeitos
ou entre sujeito e objeto, é necessá-
ria a ocorrência de um fato jurídico.
A relevância do estudo dos fatos jurídicos, portanto, surge nesse ponto. Sem a ocorrência de
um fato capaz de criar, modi¿car, resguardar, transferir ou extinguir um direito, não haverá rela-
ção jurídica a ser disciplinada pela norma legal. Toda a existência do direito, portanto, depende
da ocorrência dos fatos juridicamente relevantes.
Ainda que o fato seja caracterizado por um agir contrário ao direito �ato ilícito), será quali¿-
cado como IDWR�MXUtGLFR porque do dano também surge um direito, qual seja, o de ressarcimento
em favor do prejudicado e em detrimento do ofensor.
Mesmo em outros ramos do Direito, a categoria do fato jurídico estará sempre presente. No
Direito Administrativo, por exemplo, os atos administrativos, tais como concebidos pela teoria
administrativista, nada mais são do que atos jurídicos especi¿camente praticados pela Adminis-
MANUAL DE DIREITO CIVIL – Sebastião de Assis Neto, Marcelo de Jesus e Maria Izabel de Melo312
tração P~blica. No Direito Processual, os atos processuais são atos jurídicos capazes de inÀuen-
ciar na UHODomR�MXUtGLFD�SURFHVVXDO. Até no Direito Penal, a prática do ato delituoso se con¿gura
como fato jurídico, porque vincula o criminoso a uma relação jurídica com o Estado, o qual passa
a ser titular do chamado jus puniendi (direito de punir) em seu desfavor.
A parte geral do Código Civil de 2002 adotou nova nomenclatura para os fatos jurídicos. A
legislação de 1916 utilizava, de forma genérica, a designação DWRV�MXUtGLFRV para todos os atos
que visassem criar, conservar, modi¿car, transmitir ou extinguir direitos, fossem eles negociais
ou não.
Muito embora a teoria dos negócios jurídicos já fosse conhecida no início do Século XX,
máxime em face do Código alemão, nosso antigo Estatuto não trouxe em suas de¿niç}es a dife-
renciação entre ato jurídico stricto sensu e o negócio jurídico.
2. EFEITOS DOS FATOS JURÍDICOS – A AUTONOMIA DA VONTA-
DE E A MITIGAÇÃO DO VOLUNTARISMO JURÍDICO
Como vimos, os fatos jurídicos se constituem na mais importante categoria do direito en-
quanto dinâmica de regulação da sociedade. Se o nascimento, por exemplo, é um fato jurídico,
podemos concluir sem di¿culdade que, sem os fatos, sequer se haveria de falar em sujeitos de
direito (pessoas naturais ou jurídicas), pois as pessoas naturais não nasceriam e as jurídicas não
seriam criadas pelas naturais.
Assim também os direitos: sem fatos jurídicos, não se criam direito objetivo (por (costumes
ou processo legislativo) nem subjetivo (por contratos ou atos ilícitos, dentre outros).
Igualmente se pode falar dos bens jurídicos, pois, sem os fatos jurídicos, não se falaria em
objeto de direito, já que não teríamos agentes para comporem as relações jurídicas em torno dos
bens.
Para o nascimento dos atos jurídicos (que são, como veremos, os fatos que derivam da ação
humana), é necessário que concorram certos elementos de existência, como o agente, a vontade,
a forma e o objeto. O segundo desses elementos citados (a vontade) tem sido alvo de numerosos
debates doutrinários, principalmente do ponto de vista do objetivo primordial dos atos e negócios
jurídicos, que é a geração de seus efeitos. Podemos classi¿car os efeitos dos fatos jurídicos em:
a) efeitos aquisitivos: os fatos, atos e negócios jurídicos assim se quali¿cam por gerarem
criação, aquisição, modi¿cação, transmissão, conservação e extinção de direitos. O efeito
aquisitivo é aquele pelo qual, através do fato, decorre em seguida o acréscimo de um bem
ou direito ao patrimônio do agente, como na tradição, na transcrição do título aquisitivo no
registro de imóveis, na reunião dos requisitos para a usucapião, na abertura da sucessão etc.
Diz-se, para efeitos didáticos, que a aquisição de direitos pode ser:
a1) originária ou derivada: originária é a aquisição de bens ou direitos sem relação jurídica
com algum eventual titular anterior. Assim, na caça e pesca, por exemplo, adquirem-se bens
sem relação jurídica com titular anterior. Por aquisição originária podemos falar, também,
em FULDomR de direitos, já que, determinados casos, como no do exemplo citado, existiam
os objetos (bens), mas sobre eles não existiam direitos, que foram criados a partir do fato
jurídico; a aquisição derivada, por sua vez, decorre de relação jurídica com o titular anterior;
Cap. V • FATOS JURÍDICOS 313
a2) gratuita ou onerosa: gratuita é a aquisição de direito sem necessidade de sacrifício da con-
tra-parte para fazer jus à sua atribuição; onerosa, aquela em que se exige sacrifício corres-
pondente por quem adquire o direito;
a3) a título universal ou singular: aquisição a título universal é aquela em que o adquirente re-
cebe um patrimônio, seja na integralidade ou uma cota-parte dele, como no caso da sucessão
causa mortis, por exemplo; singular é a aquisição de certos e determinados bens ou direitos;
a4) simples ou complexa: a aquisição simples é a que depende de um ~nico fato e a complexa
é a que demanda vários fatos, sejam eles sucessivos ou simultâneos;
a5) imediata, eventual ou a termo: imediata é a aquisição de direitos que decorre imediatamen-
te do fato para a qual se destina; a termo é a aquisição em que o agente passa a ser titular do
direito de forma imediata, no entanto só pode exercê-lo após o advento de um termo ou data
pre¿xada pelos agentes; por ¿m, a aquisição eventual se dá quando os agentes condicionam
a aquisição do bem ou direito a um evento futuro e incerto (condição).
E�� HIHLWRV�PRGL¿FDWLYRV: os fatos jurídicos não servem apenas para criar e determinar a aquisi-
ção de direitos, mas também para que esses sejam modi¿cados. Assim, por exemplo, em um
determinado contrato, podemas partes alterar o seu conte~do através de um ato substitutivo,
como na transação e na dação em pagamento, por exemplo. Essa modi¿cação pode ser sub-
jetiva, se forem substituídos os sujeitos de direito componentes da relação jurídica (partes)
ou objetiva, caso sejam substituídos o objeto ou a qualidade da prestação.
c) efeitos translativos: os efeitos translativos são aqueles que derivam da potencialidade que
tem o fato jurídico de transmitir bens ou direitos de uma pessoa para outra. A tradição, por
exemplo, guarda o efeito de transmitir a propriedade do alienante para o adquirente.
d) efeitos conservativos: esses são os efeitos pelos quais a prática de determinados atos visa
resguardar o bem ou direito da ação deletéria do tempo ou de terceiros. Assim, por exem-
plo, são atos de conservação: (d1) os atos de defesa dos direitos, através do ajuizamento de
ações (de conhecimento e de execução), não só para evitar a prescrição e a decadência mas
para efetivar a tutela do interesse; (d2) as ações e medidas cautelares para que se garanta o
resultado prático efetivo do processo de conhecimento ou execução; (d3) atos de garantia
do direito, como as cláusulas acessórias que estabelecem as garantias reais ou pessoais da
satisfação do crédito, de que são exemplo a hipoteca, o penhor, as multas moratória e com-
pensatória, as arras, a ¿ança, o aval etc; (d4) atos de autodefesa, que podem ser visualizados
nas exceções admitidas pela lei à proibição do exercício arbitrário das próprias razões, como
no desforço imediato para defesa da posse e na autorização legal para que o credor de obri-
gação de não fazer desfaça o ato praticado pelo devedor, em caso de urgência (CC, art. 251,
parágrafo ~nico), evitando, assim, o perecimento do objeto ou do próprio direito.
e) efeitos extintivos: estes são o ¿m da relação jurídica. Determinados fatos têm por ¿nalidade
extinguir o direito ou a obrigação do agente, como a transferência da propriedade (em que
se extingue o domínio do transferente), o abandono, o pagamento (que extingue o direito do
credor), a condição resolutiva, a prescrição, a decadência, o perecimento do objeto e qual-
quer outro fato que acarrete o falecimento do direito.
Elucidados os efeitos dos fatos jurídicos, podemos observar, de pronto, que alguns deles
(nem todos, é bom alertar desde logo) exigem, em maior ou menor extensão, o concurso da von-
tade.
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Veja-se que, na vontade reside um dos pontos de maior destaque do direito no mundo mo-
derno. Vale lembrar, ainda que de forma bastante sintética, que somente a partir da Revolução
Francesa é que a história do mundo ocidental passou a conceber a liberdade e a vontade como
predicados de todos os cidadãos, sem exceção.
A vontade, no entanto, levada às ~ltimas consequências nas primeiras legislações liberais,
de que é exemplo máximo o Código Civil francês de 1804 (Código de Napoleão), pode encami-
nhar o ordenamento jurídico a uma realidade de distorções e falhas na missão máxima do direito,
que é a da paci¿cação da sociedade.
Com efeito, muito se discutiu, inclusive, se a vontade era, de fato, elemento verdadeiramente
criador de efeitos jurídicos, já que, de qualquer forma, a vontade não seria capaz de agregar a
nenhum fato o efeito jurídico se este não fosse previsto ou não proibido pela lei.
Caio Mário da Silva Pereira proclama, com acerto, a fragilidade dessa discussão, já que,
por outro lado, a lei, também, sem o concurso da vontade, não seria elemento su¿ciente para a
geração de efeitos, máxime no estado democrático de direitos, em que, embora se conviva com o
mandamento constitucional da legalidade (CF, art. 5º, II), segundo o qual ninguém será obrigado
a fazer deixar de fazer nada senão em virtude de lei, tem-se, por outro lado, como fundamento da
Rep~blica (CF, art. 1º, IV), o postulado da livre iniciativa.
Como se vê, o voluntarismo jurídico é mola propulsora do direito da qual não se pode
afastar, e cuja presença, nos estados democráticos, é inegável.
Daí se fala, portanto, em autonomia da vontade, pela qual é a vontade do agente que de-
termina a sua prerrogativa de vincular-se ou não a um direito ou dever; fala-se também em auto-
nomia privada, pela qual, além de o cidadão escolher livremente se se obriga ou não, poderá ele
determinar o conte~do da obrigação.
É a vontade, portanto (embora esquecida como elemento essencial do negócio jurídico no
art. 104 do Código Civil), o motor do chamado FRPpUFLR�MXUtGLFR, é a condição sine qua non para
que o cidadão saia da ampla e irrestrita liberdade para se vincular a uma obrigação, perdendo,
com isso, parcela dessa natureza livre, pois a partir daí, assumirá o compromisso de cumprir bem
e ¿elmente aquilo a que contratou.
Esse preceito, na verdade, já está presente desde o Direito Romano, quando se formulou a
máxima pacta sunt servanda, pela qual o indivíduo, uma vez obrigado, deve dar cumprimento
à sua obrigação. Repetindo, no entanto, o que já se disse, se levada às ~ltimas consequências,
sem um sistema de freios e contrapesos, a autonomia da vontade pode desaguar em um sistema
jurídico recheado de falhas e injustiças.
Basta imaginar a situação imediatamente decorrente da chamada 5HYROXomR�,QGXVWULDO, em
que se noticia que na R~ssia czarista (ou pré-bolchevista) a liberdade de contratar acarretava
verdadeiros absurdos, como a contratação de operários para jornadas de trabalho desumanas, de
doze, quatorze ou até mesmo dezesseis ou dezoito horas diárias, já que, sem um sistema de freios
e contrapesos, o trabalhador ¿cava à mercê daqueles que disponibilizavam as ofertas de trabalho,
sob pena de, sem emprego, não obter condições de subsistência.
Por isso, as legislações modernas contêm vários instrumentos de mitigação da autonomia
da vontade e da autonomia privada, de forma que, embora a vontade continue a ser (em regra)
elemento primordial para a prática dos atos jurídicos (sobretudo dos negócios jurídicos), existem
limites legais e sociais para a sua manifestação ou declaração na vida prática, como a boa-fé ob-
jetiva, a função social do contrato, a proteção dos hipossu¿cientes (consumidores, inquilinos etc)
e outros tantos exemplos que servem para refrear a ambição do ser humano em conseguir lucro
desmedido à custa, muitas vezes, da dignidade do próximo.
Cap. V • FATOS JURÍDICOS 315
Pode-se dizer, portanto, que o voluntarismo jurídico, ainda hoje uma regra, encontra-se mi-
tigado, de forma que as partes podem livremente contratar e determinar o conte~do do negócio,
no entanto, devem respeito aos limites impostos, em ~ltima análise, pelo princípio da dignidade
da pessoa humana (CF, art. 1º, III), que orienta, fundamentalmente, institutos como a boa-fé, a
função social (da propriedade e do contrato), a proteção dos hipossu¿cientes, e, porque não dizer,
a própria isonomia material, consubstanciada na máxima “tratar igualmente aos iguais e desi�
gualmente aos desiguais na medida das suas desigualdades”.
Feitos esses esclarecimentos – absolutamente necessários – podemos averiguar as diversas
espécies de fatos jurídicos.
3. ESPÉCIES DE FATOS JURÍDICOS
O novo Código passou a utilizar, em seu Título I do Livro III da Parte Geral, especialmente
no art. 104, a expressão QHJyFLR�MXUtGLFR�
Para entender as diferenças existentes entre o QHJyFLR�MXUtGLFR e o ato jurídico stricto sensu,
devemos relembrar as diversas categorias de IDWRV�MXUtGLFRV�
3.1. Fatos jurídicos naturais ou em sentido estrito
São fatos jurídicos em sentido estrito ou naturais aqueles capazes de gerar efeitos jurídicos
como criar, modi¿car, resguardar, transferir ou extinguir direitos sem o concurso da ação humana.
Fatos como a morte natural de uma pessoa, uma tempestade que arrasa uma plantação empe-
nhada, o ataque de um animal selvagem, o estourode um rebanho vendido e ainda não entregue, por
exemplo, são capazes de criar ou alterar direitos, inÀuenciando diretamente em relações jurídicas
estabelecidas, entretanto, não demandam a necessidade de atividade humana para que ocorram.
É importante conhecer a noção de fato jurídico natural e sua diferenciação para os atos jurí-
dicos, porque, a depender da situação, estaremos diante de hipótese de caso fortuito ou de força
maior, que excluem a responsabilidade civil pelo ato danoso.
3.2. Atos jurídicos
O ato jurídico, por sua vez, é o IDWR�MXUtGLFR�ODWR�VHQVX que, para ocorrer, depende da ação
humana para gerar os efeitos de criar, extinguir, conservar, transmitir ou modi¿car direitos.
Diferentemente do fato jurídico natural, que ocorre sem a interferência da ação humana, o
ato jurídico lato sensu demanda a ação voluntária do homem para se materializar.
Importante elucidar, neste ponto, que ações não humanas (de animais ou de seres inanimados
encontrados na natureza), em regra, não serão considerados atos jurídicos, a não ser que derivem
de ato humano anterior, que a ele se liga por nexo de causalidade e sem o qual não teria ocorrido.
Como exemplos podemos citar: o ataque de um cão bravio será mero fato jurídico natural
quando derive de atitude espontânea do animal, mas será ato jurídico quando decorrer de ordem
de seu dono. A distinção é importante porque, de qualquer forma, o dono ou detentor do animal
responde pelos prejuízos que ele causar (art. 936), no entanto, em se tratando de ato jurídico,
tem-se caso não de responsabilidade pelo fato da coisa (ato do animal), mas sim de ato ilícito
direto causado pela pessoa, o que pode agravar a sua situação no momento da ¿xação do dano,
sobretudo do dano moral. O mesmo se diga do exemplo do estouro de uma represa, por força
natural (fato jurídico natural) e de seu transbordamento por ato humano (ato jurídico).
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O ato jurídico lato sensu, por sua vez, comporta classi¿cações. Dentre elas, a que mais
importa para o direito é a sua partição em atos jurídicos não negociais e atos jurídicos negociais.
3.2.1. Atos jurídicos stricto sensu ou não negociais
São atos que, embora decorrentes da ação e da vontade humanas, não são cometidos, preci-
puamente, com a ¿nalidade de realizar o efeito previsto na norma para o respectivo ato. Equivale
a dizer que a pessoa tem a vontade dirigida somente à prática do ato, mas não ao seu efeito,
que decorre, automaticamente, dos ditames da lei. Não exige a lei, na prática de atos jurídicos
stricto sensu, a GHFODUDomR�GH�YRQWDGH para a geração de seus efeitos.
Podemos exempli¿car os atos jurídicos stricto sensu em vários atos da vida comum, como:
aceitação de herança, ¿xação e transferência de domicílio, recebimento de citação, ocupação, acha-
do de tesouro, especi¿cação, pagamento indevido, reconhecimento de ¿lho fora do casamento etc.
Para aceitar uma herança, por exemplo, basta a vontade de querer praticar esse ato, entretan-
to, uma vez aceita a herança, os efeitos jurídicos dela decorrentes (assunção dos ônus deixados
pelo falecido) independem da vontade declarada pelo herdeiro, no momento da aceitação.
O mesmo ocorre, por exemplo, com o reconhecimento de ¿lho fora do casamento: não
existe margem de negociação para a ocorrência dos efeitos jurídicos do ato. Uma vez assumida
a paternidade, decorrem, automaticamente, todos os efeitos previstos pela lei, como a obrigação
alimentar, o direito à legítima etc.
Os atos jurídicos stricto sensu estão previstos no novo Código Civil, sob a rubrica de atos
MXUtGLFRV�OtFLWRV, no art. 185, que prevê, in verbis, que DRV�DWRV�MXUtGLFRV�OtFLWRV��TXH�QmR�VHMDP�
QHJyFLRV�MXUtGLFRV��DSOLFDP�VH��QR�TXH�FRXEHU��DV�GLVSRVLo}HV�GR�7tWXOR�DQWHULRU�
Observe-se, portanto, que, ao disciplinar que os atos jurídicos não negociais submeter-se-ão
às regras dos negócios jurídicos no que couber, o legislador impõe importante norma de integra-
ção, pois admite que, para certos efeitos jurídicos, não é possível aplicar-se determinadas normas
destinadas exclusivamente aos negócios.
Isto se deve justamente ao fato de que, nos atos jurídicos não negociais, a vontade é dirigida
somente à sua prática, surgindo os efeitos independentemente do querer do agente. Assim, por
exemplo, é incompatível com a natureza dos atos não negociais a imposição de elementos de
e¿cácia, como no caso dos termos e condições.
Figure-se, então, a aceitação ou ren~ncia da herança: não pode o herdeiro dizer que aceita
ou renuncia à herança em parte, ou somente a partir de determinado dia. Veja-se, a respeito, o
conte~do do art. 1.808, caput do Código Civil: ³1mR�VH�SRGH�DFHLWDU�RX�UHQXQFLDU�D�KHUDQoD�HP�
SDUWH��VRE�FRQGLomR�RX�D�WHUPR´�
Imagine-se, também, o caso do reconhecimento de ¿lho: não pode o pai, que o reconhece,
impor a e¿cácia do ato a um termo inicial (ex: Nestor passa a ser meu ¿lho – de Castor – a partir
do dia 15 de maio) ou condição (ex: Reconheço Nestor como meu ¿lho somente se eu não tiver
mais ¿lhos), pois tal disposição ofende frontalmente a natureza jurídica do ato. A respeito, são
claros os termos dos arts. 1.610 e 1.613 do Código Civil:
Art. 1.610 Art. 1.613
“O reconhecimento não pode ser revogado, nem mes-
mo quando feito em testamento”.
“São ineficazes a condição e o termo apostos ao ato de
reconhecimento do filho”.
Cap. V • FATOS JURÍDICOS 317
3.2.1.1. Atos-fatos jurídicos
Parcela considerável da doutrina indica a categoria dos DWRV�IDWRV�MXUtGLFRV como espécies
autônomas de fatos jurídicos. Em verdade, é tão tênue a sua distinção com os atos jurídicos stricto
sensu que preferimos abordá-los como sub-espécies destes.
Como pudemos observar, no ato jurídico não negocial, o agente o realiza sempre pela ação
humana e em decorrência de sua vontade, entretanto, os efeitos jurídicos daí decorrentes não
dependem dessa vontade, já que derivam diretamente da lei. Já no ato-fato jurídico, temos ato ju-
rídico no sentido de que a sua ocorrência depende de ação humana, no entanto, não é necessária
a vontade para a sua prática ou esse elemento volitivo é irrelevante.
Dessa forma, se um indivíduo absolutamente incapaz, por exemplo, praticar sozinho algum
ato-fato jurídico, este será, em regra, válido, e produzirá todos os efeitos que deveria produzir.
Classi¿cam-se os atos-fatos jurídicos em:
a) atos reais, pelos quais se adquirem bens pela ação de agente incapaz. O exemplo típico é o
da compra de doce pela criança, no qual não se nega a criação de efeitos como a translação
da propriedade decorrente da tradição subsequente, no entanto, se desconsidera a vontade do
agente, já que, no caso, essa vontade não é reconhecida pelo direito.
Alguns dos exemplos utilizados anteriormente como atos jurídicos stricto sensu também
poderiam ¿gurar nesta categoria. Assim, se um menor de 10 anos pesca um peixe (res nullius) em
um rio, torna-se dono do peixe (efeito jurídico produzido pelo ato); da mesma forma se encon-
tra um tesouro. Pessoa enferma, sem o necessário discernimento para a prática dos atos da vida
civil, já interditada, que se encontra internada em instituição própria para seus cuidados, vem a
utilizar tela, tinta e pincéis e pinta um quadro (especi¿cação), ao menos em tese se tornará dona
do quadro.
b) atos indenizativos, categoria na qual o agente pratica ato lícito, mas, mesmo assim, sofre
o efeito de se ver obrigado a indenizar terceiro ofendido, como se observa do estado de
necessidade (art. 929) e, por que não dizer, da responsabilidade objetiva própria ou pura, na
qual o cidadão, ainda que não pratique ato ilícito, é obrigado a indenizar. Veja-se o caso do
poluidor: ainda que a sua atividade econômica seja lícita e autorizada pelo poder p~blico,
¿cará responsável pela indenização dos danos causados ao meioambiente pela poluição (Lei
6.938�81, art. 14, 1º);
F�� DWRV� FDGXFL¿FDQWHV, que são aqueles em que, independentemente da vontade do agente,
opera-se efeito extintivo de direito, como na prescrição e decadência (no âmbito material)
e na preclusão (no âmbito processual). Também aqui podemos identi¿car fatos como o da
perda da preferência na compra e venda, se o titular do direito de preempção não pagar o
mesmo preço oferecido por terceiro (CC, art. 515).
Além dos exemplos acima citados, como a ocupação (apropriação de coisa sem dono) e a
pintura de um quadro por pessoa demente (operando a especi¿cação em seu favor), costuma-se
citar também o do desforço incontinenti para a defesa da posse: em todos esses casos, o ato é
humano e produz efeitos jurídicos, no entanto, não dependem da vontade para serem praticados,
muito embora esta possa estar presente no caso concreto.
Como se vê, tratam-se de casos que, de fato, traduzem a hipótese de atos jurídicos lícitos
(CC, art. 185, acima referido), no entanto, podem ser vistos como subespécies dos atos jurídicos
stricto sensu.
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Resumindo, os atos jurídicos stricto sensu são aqueles em que se exige ação humana e
vontade, no entanto, os efeitos jurídicos da sua prática não derivam da vontade, mas da lei; os
atos-fatos jurídicos, por sua vez, são subespécies de atos jurídicos em sentido estrito na qual a
vontade pode estar presente, mas não é exigida ou é irrelevante.
Por isso, repisamos nossa posição de que se trata, aqui, de subespécie de ato jurídico stricto
sensu. Em contrário senso, citamos as posições de Stolze e Gagliano e Farias e Rosenvald. Ve-
nosa, por sua vez, relega a categoria a segundo plano, enquanto Orlando Gomes e Caio Mário da
Silva Pereira não a abordam.
3.2.2. Atos jurídicos negociais ou negócios jurídicos
Negócio jurídico, portanto, é o ato cuja prática e efeitos são derivados da vontade humana.
Quer dizer que, para que determinada pessoa possa alienar uma coisa, por exemplo, ela deve ter
a vontade livre e consciente não só de praticar a venda, mas, também, de gerar os seus efeitos, ou
seja, a transmissão da propriedade.
Nos negócios, então, os efeitos jurídicos do ato dependem da vontade declarada do agente
(declaração de vontade). Ainda que vários desses efeitos estejam previstos na própria lei, eles não
decorrerão caso não exista declaração de vontade nesse sentido. Além disso, a manifestação da
vontade humana alcança a produção de efeitos, modulando-os, a vontade não ¿ca adstrita – como
no caso dos atos jurídicos stricto sensu – à simples escolha quanto a prática do ato ou não.
Caio Mário da Silva Pereira resumiu com brilhantismo a diferenciação básica entre ato jurí-
dico negocial (negócio jurídico) e não negocial (ato jurídico stricto sensu). Veja-se:
Observa-se, então, que se distinguem o ‘negócio jurídico’ e o ‘ato jurídico’. Aquele é a declaração
de vontade em que o agente persegue o efeito jurídico (5HFKWVJHVFKlIW), no ato jurídico stricto sensu
ocorre manifestação volitiva também, mas os efeitos jurídicos são gerados independentemente de se-
rem perseguidos diretamente pelo agente. Sobre essa distinção, lembram-se Santoro-Passarelli, Serpa
Lopes, Sílvio Rodrigues, Vicente Ráo, Torquato Castro, Soriano Neto, Paulo Barbosa de Campos Fi-
lho, Alberto Muniz da Rocha Barros, Fábio de Mattia. Todos eles são fatos humanos voluntários. Os
‘negócios jurídicos’ são, portanto, declarações de vontade destinadas à produção de efeitos jurídicos
queridos pelo agente; os ‘atos jurídicos stricto sensu’ são manifestações de vontade obedientes à lei,
porém geradoras de efeitos que nascem da própria lei. Dentre os atos lícitos estão os atos que não são
negócios jurídicos, bem como os negócios jurídicos. Todos, porém, compreendidos na categoria mais
ampla de ‘atos lícitos’, que se distinguem na sua etiologia e nos seus efeitos, dos ‘atos ilícitos’. (2005,
p. 475-476)
Em suma, em ambas as categorias (atos não negociais e negociais), existe vontade do agente.
Entretanto, podemos dizer que, no negócio jurídico, o agente exerce sua vontade no sentido de
praticar o ato e produzir o efeito, na maneira, intensidade e forma que deseja; no ato jurídico
stricto sensu, o agente exerce a vontade apenas no sentido de praticar o ato, pois, independente-
mente de sua vontade, os efeitos serão atingidos.
Tome-se um exemplo simples do alcance da vontade na prática dos negócios jurídicos com
o contrato de compra e venda, a manifestação de vontade de¿ne se haverá a compra e venda a
vista ou a prazo, com ou sem reserva de domínio, com alguma cláusula especial (retrovenda,
preferência, etc.), alterando a garantia contra a evicção (que pode ser reforçada, diminuída ou
excluída – art. 448 CC), com garantia por defeitos do objeto (afeta o prazo para reclamar vícios
redibitórios – art. 446 CC), com objetos cujo risco de virem a existir uma das partes tome para si
(contratos aleatórios – emptio spei e emptio rei speratae, arts. 458 e 459 CC), com a ¿xação do
preço em razão de índices futuros, etc.
Cap. V • FATOS JURÍDICOS 319
São exemplos típicos de negócios jurídicos, portanto, os contratos, o casamento, o testa-
mento, en¿m, todos aqueles atos em que a vontade do agente se volta tanto para a prática do ato
quanto para os seus efeitos, que são gerados e dirigidos diretamente pelo elemento volitivo.
4. CLASSIFICAÇÕES DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS
Existem in~meras classi¿cações para os negócios jurídicos. Com efeito, os negócios podem
se subdividir por diversos fatores, desde as partes, o objeto e até por seus efeitos. As mais rele-
vantes são as seguintes:
4.1. Pelo número de partes
a) Unilateral: é o negócio cuja prática e efeitos derivam da declaração de vontade de uma só
das partes, sem necessidade da aceitação ou do concurso da vontade da outra. Pode ser:
a1) receptício: é o negócio unilateral cujos efeitos, embora não dependam da vontade de outra
parte, dependem, pelo menos, de que ela seja noti¿cada. Exemplos práticos podem ser vi-
sualizados na den~ncia de contratos e na cessão de crédito (art. 290). A den~ncia é ato pelo
qual se permite que uma das partes rompa um contrato sem necessidade de concordância
da outra, que deve, no entanto, ser cienti¿cada da ruptura; na cessão de crédito, o credor de
uma dívida cede seu crédito a outrem, sem necessidade de concordância do devedor, que tem
direito, todavia, de ser noti¿cado;
a2) não receptício: é o negócio unilateral cujos efeitos dependem somente da prática do ato,
sem necessidade de noti¿cação à outra parte, como o testamento e a emissão de títulos
de crédito, por exemplo. No testamento, a validade de suas disposições não depende de
anuência nem ciência por ninguém que não seja o próprio testador; já na emissão de títulos
de crédito, como a nota promissória, por exemplo, o emitente cria a obrigação pelo simples
preenchimento da cártula, sem necessidade de concordância ou conhecimento por outrem;
de igual natureza é a promessa de recompensa, já que a criação da obrigação para a promi-
tente depende apenas da publicação do an~ncio da sua promessa (CC, art. 854);
b) bilateral: é o negócio cuja celebração e efeitos dependem do concurso da vontade de pelo
menos dois agentes, que atuam em polos distintos, cada um com suas obrigações próprias. O
contrato é o negócio jurídico bilateral, por excelência. O casamento também pode ser usado
como referência. Deve-se entender que os efeitos do negócio jurídico bilateral são desejados
por ambas as partes e, com ele, cria-se uma relação jurídica obrigacional, de forma que cada
parte deve cumprir com a prestação a que se obrigou. Aqui não se deve confundir com a
classi¿cação dos contratos em unilaterais e bilaterais. Todo contrato é negócio jurídico bila-
teral, pois depende da declaração devontade de ambas as partes, ainda que de uma delas seja
tácita. O contrato unilateral, no entanto, cria obrigação apenas para uma das partes, como
nos casos do depósito, do comodato, etc. O contrato bilateral cria obrigações para ambas as
partes, como na compra e venda, na locação, etc.;
c) plurilateral: é o negócio em que não se encontram dois polos distintos, mas sim um conjun-
to de pessoas que atuam com o mesmo interesse, como na sociedade.
MANUAL DE DIREITO CIVIL – Sebastião de Assis Neto, Marcelo de Jesus e Maria Izabel de Melo320
4.2. Pela tipicidade
a) típicos: Os negócios típicos são ¿guras negociais ou contratuais previstas expressamente
pela lei, de que são exemplos a compra e venda, a permuta, a locação, o empréstimo, o se-
guro, a corretagem, o mandato etc.;
b) atípicos: Estes são ¿guras negociais cujos conte~dos e efeitos não têm previsão legal, en-
tretanto, em função do princípio da autonomia da vontade, devem ser aceitos, desde que
preencham os elementos de existência e os requisitos de validade previstos pelo art. 104 do
Código Civil.
Aqui se deve observar que os negócios jurídicos que criam efeitos meramente obrigacionais
(pessoais) é que podem ser livremente criados pelas partes, independentemente de previsão legal.
A observação é relevante pois, quanto aos direitos reais, somente a lei pode criar novas modali-
dades de relação jurídica entre sujeitos e objetos de direito. A isto se dá o nome de SULQFtSLR�GD�
tipicidade dos direitos reais.
4.3. Pelos efeitos
a) translativos: visam à transmissão de um direito. No sistema brasileiro, inspirado no ale-
mão, e diverso do francês, o contrato, simplesmente, não transmite a propriedade, que, em
verdade, somente se transfere pela WUDGLomR, em caso de bens móveis, ou pela transcrição no
Registro de Imóveis, em caso de imóveis. É o que atestam os textos dos arts. 1.245 e 1.267
do Código Civil, YHUELV��³$UW���������7UDQVIHUH�VH�HQWUH�YLYRV�D�SURSULHGDGH�PHGLDQWH�R�UH�
JLVWUR�GR�WtWXOR�WUDQVODWLYR�QR�5HJLVWUR�GH�,PyYHLV��$UW���������$�SURSULHGDGH�GDV�FRLVDV�QmR�
VH�WUDQVIHUH�SHORV�QHJyFLRV�MXUtGLFRV�DQWHV�GD�WUDGLomR´�
E�� PRGL¿FDWLYRV: São negócios que visam a modi¿car o conte~do de uma relação jurídica já
existente, como a novação ou a transação, por exemplo. Pode ocorrer que o conte~do origi-
nal do negócio tenha se tornado indesejado ou penoso para as partes. Sendo assim, podem
elas, através de novo negócio, chamado de modi¿cativo, alterar o conte~do que primitiva-
mente contrataram. Sobre o tema, o Código Civil de 2002 inovou, no campo do direito de
família, ao possibilitar a modi¿cação do regime de bens durante a constância do casamento,
em seu art. 1.639, cuja transcrição se segue:
Art. 1.639. É lícito aos nubentes, antes de celebrado o casamento, estipular, quanto aos seus bens, o que
lhes aprouver. § 1º. O regime de bens entre os cônjuges começa a vigorar desde a data do casamento.
§ 2º. É admissível alteração do regime de bens, mediante autorização judicial em pedido motivado de
ambos os cônjuges, apurada a procedência das razões invocadas e ressalvados os direitos de terceiros.
c) extintivos: têm por ¿m a extinção de um direito ou de uma relação jurídica, como o distra-
to, o pagamento, etc. Com efeito, para extinguir uma relação jurídica negocial, necessária
é a prática de negócio que visa esse efeito extintivo. Fatos ou atos não negociais, como a
prescrição e a decadência, também extinguem o direito, mas não se enquadram, como se vê,
como QHJyFLRV�MXUtGLFRV��Além do pagamento ou cumprimento da prestação (forma ordiná-
ria de extinção das obrigações), os negócios extintivos podem ser:
c1) resolutivos: quando são determinados por causas posteriores à contratação, como a inadim-
plência ou descumprimento contratual. A respeito, reza o art. 475 que “a parte lesada pelo
LQDGLPSOHPHQWR�SRGH�SHGLU�D�UHVROXomR�GR�FRQWUDWR��VH�QmR�SUHIHULU�H[LJLU�OKH�R�FXPSULPHQ�
WR��FDEHQGR��HP�TXDOTXHU�GRV�FDVRV��LQGHQL]DomR�SRU�SHUGDV�H�GDQRV´.
Cap. V • FATOS JURÍDICOS 321
c2) resilitivos: quando decorrem da simples vontade das partes de cancelar os efeitos do ne-
gócio, de que são exemplos o distrato e as resilições unilaterais, como o arrependimento, a
den~ncia, a revogação e a ren~ncia;
c3) rescisórios: a rescisão não é propriamente um negócio, mas um DWR� MXUtGLFR que ex-
tingue um negócio jurídico por causas contemporâneas à celebração do contrato, como
ocorre com as causas de nulidade e anulabilidade e nos vícios redibitórios. Registre-se,
aqui, importante controvérsia doutrinária acerca do signi¿cado da palavra rescisão, pre-
ferindo grande parte da doutrina conceituá-la como a hipótese de extinção dos contratos
advinda de atitude contrária, por uma das partes, às cláusulas contratuais, demandando,
então, para o seu desfazimento, o concurso da atividade judicial. Conquanto, a nosso
ver, não seja a tese mais cientí¿ca, é a que tem prevalecido. Sobre o tema, colhe-se da
jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, por exemplo, que, para a reintegração de
posse, em favor do promitente vendedor, de imóvel sujeito a compromisso de compra
e venda, por inadimplemento do promissário comprador, é necessária a prévia UHVFLVmR�
judicial do contrato. Veja-se:
CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO AO ARTIGO 535 DO CPC.
NÃO-OCORRÊNCIA. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE AJUIZADA EM VIRTUDE DE
INADIMPLEMENTO DE CONTRATO DE COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA. IMPOSSI-
BILIDADE DE DEFERIMENTO DE ANTECIPAÇÃO DE TUTELA SEM QUE TENHA HAVIDO
MANIFESTAÇÃO JUDICIAL ACERCA DA RESOLUÇÃO DO CONTRATO, AINDA QUE ESTE
CONTE COM CLÁUSULA RESOLUTÓRIA EXPRESSA. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA.
1. Não há violação ao artigo 535 do CPC quando a Corte de origem aprecia a questão de maneira
fundamentada, apenas não adotando a tese do recorrente. 2. É imprescindível a prévia manifestação
judicial na hipótese de rescisão de compromisso de compra e venda de imóvel para que seja consumada
a resolução do contrato, ainda que existente cláusula resolutória expressa, diante da necessidade de
observância do princípio da boa-fé objetiva a nortear os contratos. 3. Por conseguinte, não há falar-se
em antecipação de tutela reintegratória de posse antes de resolvido o contrato de compromisso de
compra e venda, pois somente após a resolução é que poderá haver posse injusta e será avaliado o
alegado esbulho possessório. 4. Recurso provido em parte, para afastar a antecipação de tutela. (REsp
620.787�SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 28�04�2009,
DJe 27�04�2009, REPDJe 11�05�2009, REPDJe 15�06�2009)
d) obrigacionais: sua ¿nalidade é criar, entre as partes, obrigações de dar, fazer ou deixar de
fazer alguma coisa. Orlando Gomes (op. cit., p. 388) esclarece que
o negócio translativo do direito de propriedade é frequentemente precedido de negócio obriga-
cional, como, por exemplo, o contrato de compra e venda. Todas as obrigações de dar têm de ser
cumpridas por meio de ato de disposição da coisa objeto da prestação, se deve ser transmitida ao
credor.
Importante repetir, portanto, que, no sistema brasileiro o contrato, somente, não trans�
mite a propriedade, o que ocorre apenas pela WUDGLomR ou pela transcrição no Registro de
Imóveis.
Muito embora não haja translação da propriedade com o mero contrato, o compromisso de
compra e venda, no ordenamento atual, cria, ao promitente comprador, um direito que se cha-
ma de GLUHLWR�UHDO�GH�DTXLVLomR. Ainda que o art. 1.417 do Código Civil condicione o direito ao
registro em cartório, assiste ao comprador o direito à adjudicação compulsória (art. 1.418) e a
embargos de terceiro em caso de penhora do imóvel. O registro em cartório somente se exige para
a ¿nalidade de se poder conferir ao referido direito a oponibilidade erga omnes (contra todos). É
o que se dessume das S~mulas 84 e 219 do STJ, verbis:
MANUAL DE DIREITOCIVIL – Sebastião de Assis Neto, Marcelo de Jesus e Maria Izabel de Melo322
Súmula 84 Súmula 239
“É admissível a oposição de embargos de terceiro fun-
dados em alegação de posse advinda do compromisso
de compra e venda de imóvel, ainda que desprovido de
registro”.
“O direito à adjudicação compulsória não se condiciona
ao registro do compromisso de compra e venda no car-
tório de imóveis”.
Não só a compra e venda é negócio obrigacional. A maioria dos negócios jurídicos é de
conte~do obrigacional, pois ocorre a criação de obrigações para uma ou ambas as partes, como
na locação, no seguro, no empréstimo etc.
e) de garantia: são os negócios que têm por ¿nalidade resguardar o cumprimento de um outro
negócio contra os riscos da insolvência de uma das partes. Dependem, portanto, da vincu-
lação do patrimônio de uma das partes ao adimplemento de sua prestação. São os casos do
penhor, da hipoteca e da anticrese. O Código Civil de 2002 trouxe a ¿gura da propriedade
¿duciária (arts. 1.361 a 1.368), instituto já conhecido antes em virtude das leis 4.728�65 e
9.514�97. Não se trata, no entanto, de negócio puramente de garantia, pois, por essa mo-
dalidade de negócio, cria-se verdadeira propriedade em favor do credor, propriedade esta,
entretanto, resol~vel, pois deixa de existir quando do adimplemento total da dívida.
Observa-se, portanto, nessa classi¿cação, o conceito de negócio jurídico: negócio capaz
de criar (negócios obrigacionais), modi¿car (modi¿cativos), resguardar (de garantia), transferir
(translativos) ou extinguir (extintivos) direitos.
f) processuais: A doutrina processual há muito se debateu a respeito da verdadeira con-
ceituação de atos processuais: se são somente aqueles praticados dentro do processo ou todos
aqueles que, de alguma forma, produzem efeitos no processo. Ficamos com a ~ltima de¿nição, a
nosso ver mais precisa e abrangente. Daí devemos admitir que, sempre que a vontade tiver força
su¿ciente não só para a prática, mas também para a geração dos efeitos do ato, que inÀuencia no
processo, termos negócio jurídico processual.
O Código de Processo Civil de 2015 contém uma plêiade de exemplos de atos ou negócios
processuais, dividindo-se entre típicos (com denominação expressa) e atípicos (sem denominação
expressa). Dentre eles, podemos mencionar:
- Negócios processuais típicos: Cláusula de eleição de foro (CPC-2015, art. 63); distribui-
ção convencional do ônus da prova (CPC-2015, art. 373, 3º); ¿xação de calendário processual
para a prática dos atos processuais (CPC-2015, art. 191); a suspensão convencional do processo
(CPC-2015, art. 313, II); e a delimitação consensual das questões de fato sobre as quais recairá a
atividade probatória e de direito relevantes para a decisão do mérito na fase de saneamento (CPC-
2015, art. 357, §2º).
Em todos esses casos, temos situações em que a vontade das partes se dirige à prática do ato,
mas também gera os seus próprios efeitos, estabelecendo cláusula de eleição de foro, distribuindo
o ônus probatório, ¿xando datas para a realização de atos processuais etc.
- Negócio processual atípico: O CPC-2015 aduz importante novidade no mundo jurídico
processual, ao estabelecer, em seu art. 190, que “versando o processo sobre direitos que admi�
WDP�DXWRFRPSRVLomR��p�OtFLWR�jV�SDUWHV�SOHQDPHQWH�FDSD]HV�HVWLSXODU�PXGDQoDV�QR�SURFHGLPHQWR�
SDUD�DMXVWi�OR�jV�HVSHFL¿FLGDGHV�GD�FDXVD�H�FRQYHQFLRQDU�VREUH�RV�VHXV�{QXV��SRGHUHV��IDFXOGD�
des e deveres processuais, antes ou durante o processo”.
Cap. V • FATOS JURÍDICOS 323
Trata-se de cláusula geral de negociação processual, uma vez que permite às partes estipula-
rem mudanças no procedimento para adaptá-lo às suas especi¿cidades, inclusive no que tange a
prazos peremptórios e encargos cogentes, como ônus de impugnação sob pena de con¿ssão ¿cta
e outros.
Evidentemente que a negociação em apreço não pode impor ônus processuais abusivos às
partes, sob pena de ilicitude do pacto, tanto é que o parágrafo ~nico do art. 190 dispõe que “de
RItFLR�RX�D� UHTXHULPHQWR��R� MXL]� FRQWURODUi�D�YDOLGDGH�GDV�FRQYHQo}HV�SUHYLVWDV�QHVWH�DUWLJR��
UHFXVDQGR�OKHV�DSOLFDomR�VRPHQWH�QRV�FDVRV�GH�QXOLGDGH�RX�GH�LQVHUomR�DEXVLYD�HP�FRQWUDWR�GH�
DGHVmR�RX�HP�TXH�DOJXPD�SDUWH�VH�HQFRQWUH�HP�PDQLIHVWD�VLWXDomR�GH�YXOQHUDELOLGDGH´��
Cabe ao juiz, portanto, exercer o controle da sua validade (CC, art. 166). O pacto também
não pode ferir direito fundamental. Nesse sentido, entende a doutrina, por exemplo, que não se
pode ³GLVSRU�HP�QHJyFLR�MXUtGLFR�SURFHVVXDO�TXH�XPD�GHFLVmR�SRGHUi�VHU�QmR�IXQGDPHQWDGD��
RX�TXH�QmR�YLJRUD�R�GHYHU�GH�FXPSULU�DV�GHFLV}HV�MXGLFLDLV��$GPLWL�OR�VHULD�DOJR�FRPSDUiYHO�j�
DGPLVVmR�GR�REMHWR�LOtFLWR�QD�FHOHEUDomR�GR�QHJyFLR�MXUtGLFR�SURFHVVXDO�´��WAMBIER, CON-
CEIÇÃO, RIBEIRO e MELLO. 2015, ps. 356-357).
Por outro lado, quando tivermos ato jurídico em que a vontade se volta apenas à prática,
cujos efeitos decorrem da lei, fala-se em ato processual em sentido estrito, como no recebimento
de citação, no oferecimento de resposta, na ren~ncia expressa da parte ao prazo estabelecido ex-
clusivamente em seu favor (CPC-2015, art. 225) e outros.
4.4. Pelo tempo em que devam produzir efeitos
Quanto ao tempo em que devam produzir efeitos, os negócios podem ser inter vivos, quando
se destinam a produzir e¿cácia imediatamente ou durante a vida das partes, ou causa mortis,
quando se destinam a produzir efeitos após a morte de quem pratica o ato, como no testamento ou
nas disposições de ~ltima vontade em geral, de que são exemplos o reconhecimento de ¿lho ou a
instituição de patrimônio para fundação.
4.5. Pela causa do negócio
Os negócios jurídicos podem também se classi¿car pela causa da sua celebração. Com efei-
to, o motivo comum que leva os agentes à declaração de vontade pode ser de diversas naturezas,
daí porque podemos falar em:
a) negócios de troca, quando uma das partes dá uma coisa com valor econômico a ¿m de rece-
ber outra ou até sem interesse em receber nada. São exemplos a compra e venda, a permuta,
a doação etc.
b) negócios associativos, quando ambas as partes têm interesses comuns, sem que uma queira
adquirir algum bem ou outro elemento do patrimônio da outra. Exemplo típico é o contrato
de sociedade, mas, nesse sentido, o casamento e a parceria rural podem ser tomados, tam-
bém, como exemplos, pois, apesar de não serem plurilaterais, não existe criação de interes-
ses particulares de cada parte;
c) negócios para prevenção de riscos: são entabulados com a ¿nalidade de garantir a integri-
dade de pessoas, coisas ou até de relações jurídicas. Seu exemplo típico é o seguro. O seguro
pode ter por objeto cobrir a subsistência de pessoas dependentes do segurado, como no seguro
de vida, ou o próprio segurado, como no caso dos planos de sa~de, mas pode visar à garantia
de recebimento de indenização em caso de perda ou deterioração de uma coisa, como no caso
MANUAL DE DIREITO CIVIL – Sebastião de Assis Neto, Marcelo de Jesus e Maria Izabel de Melo324
de seguro automotivo ou de imóveis. Existem seguros, no entanto, que buscam prevenir riscos
contra acontecimentos que possam inÀuenciar relações jurídicas, como no caso de seguros
contratados com empresas de crédito contra o desemprego de mutuários, por exemplo;
d) negócios de crédito: são aqueles em que uma das partes outorga a outra um valor econômi-
co com o objetivo de auferir vantagem a partir daí, como é o caso do m~tuo feneratício, no
qual o mutuante empresta ao mutuário certa quantia, que deverá ser restituída com acrésci-
mo de juros;
e) negócios de atividade, quando a prestação de uma das partes consiste em fazer alguma coi�
sa em favor da outra, como no contrato de trabalho, na SUHVWDomR�GH�VHUYLoRV na empreitada,
PDQGDWR��DJrQFLD�H�GLVWULEXLomR��FRUUHWDJHP��FRPLVVmR e no transporte.
4.6. Pela causa da atribuição patrimonial
Forte em Orlando Gomes (op.cit., p. 333-430), podemos falar também que os negócios jurí-
dicos se diferenciam pela atribuição patrimonial que cada agente pretende, podendo ser:
a) onerosos: serão onerosos os negócios quando ambas as partes têm a intenção de auferir
proveito econômico com o negócio, como na compra e venda: o alienante aufere o proveito
decorrente do recebimento do preço, todavia, exige-se-lhe o sacrifício correspondente à van-
tagem atribuída ao adquirente, que é a aquisição da propriedade da coisa;
b) gratuitos: diz-se gratuito o contrato quando não existe, de uma das partes, essa intenção
econômica, como no caso da doação pura: enquanto o donatário aufere proveito econômico
com a aquisição da coisa, o doador não exige dele nenhum sacrifício para isso. Veri¿ca-se,
ainda, na doutrina, ao lado do contrato gratuito, o contrato desinteressado. Seria gratuito ou
bené¿co aquele em que, além da gratuidade, há redução do patrimônio de quem comete a li-
beralidade, como na doação. Já no contrato desinteressado não existe a redução no patrimô-
nio, como, por exemplo, no comodato, em que a coisa emprestada voltará para o comodante
ao ¿nal do contrato.
c) neutros: são neutros os negócios em que não se destina uma atribuição patrimonial especí¿-
ca, de tal forma a reduzir o patrimônio (negócios gratuitos) ou estabelecer troca de patrimô-
nios (onerosos). São atos, portanto, que não se enquadram em nenhuma das hipóteses acima,
como a instituição voluntária do bem de família ou a imposição de ônus de inalienabilidade,
incomunicabilidade ou impenhorabilidade sobre bens. Nesses exemplos, não se vislumbra
a instituição de causa patrimonial, seja para onerar os agentes ou estabelecer percepção gra-
tuita de vantagens.
d) bifrontes: consideram-se bifrontes certos negócios que podem ser contratados tanto a título
oneroso quanto gratuito. Bom exemplo é o contrato de m~tuo, que é o empréstimo de coi-
sas fungíveis. Pode se dar de forma gratuita, hipótese em que o mutuário deverá devolver
coisa do mesmo gênero, qualidade e quantidade. Mas também pode ser contratado de forma
onerosa ou econômica (m~tuo feneratício), hipótese em que, segundo o art. 591 do Código
Civil, presumem-se devidos os juros.
4.7. Pela forma
Pode-se classi¿car o negócio jurídico, também, pela forma, sendo: negócios escritos ou
YHUEDLV��QHJyFLRV�WiFLWRV�RX�H[SUHVVRV��QHJyFLRV�VROHQHV��IRUPDLV��RX�QmR�VROHQHV��LQIRUPDLV���H�
negócios reais ou consensuais.
Cap. V • FATOS JURÍDICOS 325
Nesse particular, remetemos o leitor às classi¿cações da própria forma como elemento de
existência do negócio jurídico, tema a ser tratado mais à frente.
�����2XWUDV�FODVVL¿FDo}HV
Os negócios jurídicos podem ser classi¿cados, ainda:
a) segundo a relação de interdependência: aqui, os negócios podem ser principais ou aces-
sórios. Principal é o negócio que existe sobre si mesmo, como a compra e venda, por exem-
plo; acessório é aquele que depende da existência do principal, como os negócios de garantia
(¿ança para a locação, hipoteca para a compra e venda, penhor para o empréstimo etc);
E�� VHJXQGR� D� ÀH[LELOLGDGH� GD� SUHVWDomR: nesse ponto os negócios podem ser impessoais,
quando a ¿gura do devedor pode ser substituída, já que a prestação pode ser desempenhada
livremente por qualquer pessoa, como se vê no exemplo do pintor de paredes; ou persona-
líssimo, hipótese em que a prestação só pode ser desempenhada pelo próprio devedor, como
no caso de um famoso pintor contratado para pintar uma obra de arte.
c) segundo a causa: No sistema jurídico brasileiro, em que o contrato não gera translação de
propriedade (que só se transmite com a tradição ou transcrição), os contratos obrigacionais,
que são aqueles que geram a obrigação de transferir a propriedade, são conhecidos como
negócios causais, porque geram a causa da transferência; já o negócio formal ou real que, de
fato, transfere a propriedade (ou algum outro direito real), como a tradição ou o registro do
título (transcrição) é denominado de negócio abstrato.
d) segundo o início da geração dos efeitos: diz-se também que os negócios podem produzir
efeitos ex nunc, ou seja, a partir da sua celebração, como no caso da compra e venda, por
exemplo, hipótese em que são chamados de negócios constitutivos; por outro lado, alguns
negócios têm a característica de retroagir seus efeitos a um momento anterior, conferindo
efeitos ex tunc, quando então são chamados de negócios declarativos. Alguns exemplos de
negócios declarativos: 1. Partilha de bens, porque seus efeitos retroagem à data da morte
do autor da herança, dado que, segundo o princípio da saisine, a propriedade se transfere a
partir da abertura da sucessão; 2. Rati¿cação de poderes para o terceiro sem mandato que
adquire a posse em nome do possuidor (CC, art. 1.205, II): nesse caso, é importante que haja
a retroação dos efeitos, para que o adquirente da posse obtenha contagem de prazos (para
ações possessórias e para usucapião) desde o momento em que o terceiro sem mandato ob-
teve a coisa; 3. Aquisição a posteriori à tradição a non domino: aqui, segundo o art. 1.268, §
1º do Código Civil, se o adquirente recebe a coisa por negócio e tradição realizados em seu
favor por quem não era dono, por regra legal (art. 1.268, caput), não adquire a propriedade.
Porém, se esse adquirente estiver de boa-fé e o alienante adquirir depois a propriedade, esse
negócio (aquisição posterior da propriedade pelo alienante) faz com que a transferência ao
adquirente de boa-fé seja considerada desde o momento em que lhe foi feita a tradição.
5. INTERPRETAÇÃO DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS
A parte geral do Código Civil adota três importantes regras para a interpretação dos negócios
jurídicos. São elas:
a) Princípio da prevalência da intenção dos agentes: Nas declarações de vontade se atenderá
mais à intenção nelas consubstanciada do que ao sentido literal da linguagem (art. 112). Isto
quer dizer que, quando as circunstâncias reais do negócio jurídico divergirem do conte~do
escrito do contrato, dever-se-á respeitar mais a intenção consubstanciada na declaração de
vontade do que o sentido literal da linguagem.
MANUAL DE DIREITO CIVIL – Sebastião de Assis Neto, Marcelo de Jesus e Maria Izabel de Melo326
Figure-se, por exemplo, que duas pessoas celebrem contrato de locação de uma residência,
com a real intenção de que o locatário utilize o imóvel para nele residir, o que ele o faz efetivamen-
te. Todavia, inseriram no instrumento do negócio que se tratava de ORFDomR�FRPHUFLDO� Depois de
algum tempo, o locador, buscando se prevalecer das normas da locação comercial, mais favoráveis
ao proprietário do que aquelas destinadas à locação residencial (Lei 8.245�1991), intenta rescindir o
contrato consoante as normas destinadas aos locadores de imóvel não residencial.
Nesse caso, a interpretação do negócio consoante a intenção das partes deve prevalecer
sobre o sentido literal da linguagem, em ordem a se fazer aplicarem as regras atinentes à locação
residencial, conforme se pode observar da jurisprudência:
Imóvel locado e utilizado para ¿ns residenciais. Irrelevância de cláusula contratual conferindo ¿nali-
dade comercial à locação. Intenção deliberada de fraudar a lei demonstrada. Irrelevante a existência de
cláusula contratual conferindo ¿nalidade comercial à locação se o real intento das partes sempre foi de
dar destinação residencial ao imóvel e assim se procedeu. A intenção dos contratantes prevalece sobre
o sentido literal do texto, conforme preceitua o CC�1916, 85 >CC 112@, mormente restando demonstra-
do que o objetivo deste era, deliberadamente, fraudar a lei em cuja vigência se deu a contratação (2º
TACivSP – RT 686�136, apud NERY JR., 3a ed., p. 231.)
Outro caso importante, que decorre da jurisprudência, é o da interpretação da vontade real
dos agentes para considerar que, mesmo diante da ausência de declaração devontade expressa,
seja considerada a intenção de celebrar o negócio, como no julgado a seguir, em que o tribunal
paulista reconheceu que, no caso da aplicação de valores em investimentos de risco, sem anuên-
cia expressa do cliente, considerar a conduta do correntista que, embora não consultado previa-
mente quanto à aplicação, silenciou-se enquanto a operação lhe era vantajosa, vindo a reclamar
somente quando se veri¿cou o prejuízo. Veja-se:
Aplicação no mercado ¿nanceiro de ações não autorizada por correntistas que experimentaram perda
com o desvio de seus ativos que estavam no Ita~-FIC, investimento de renda ¿xa, ‘para o fundo de
ações Ita~ Carteira Livre – Correntistas que querem indenização porque não autorizaram o investi-
mento e não ¿caram cientes do seu elevado grau de risco, como determinavam as normas da CVM
– Ação julgada parcialmente procedente – Condenação do banco ao pagamento de danos materiais
(RS 42.697,60) desviados indevidamente do fundo de renda ¿xa para o de ações – Dano moral não
pronunciado – Correntistas inconformados porque, os revezes sofridos com a malsinada aplicação lhe
atingiram o mais fundo de suas almas – Inconformismo do banco porque os correntistas sabiam dos
riscos da troca dos ativos do fundo de renda ¿xa para o de ações – Acolhimento do recurso do banco
– Não acolhimento do recurso dos correntistas – Aplicador-varão advogado – Ainda que ao tempo da
transferência do numerário de um fundo para o outro vigorasse a Instrução Normativa CVM 177�92,
que exigia a ciência do cotista sobre o alto índice de risco da aplicação em fundo de ações, o certo
é que o aplicador-varão não pode desconhecer que ele consentiu a transferência enquanto os ganhos
estavam polpudos – Quem cala consente quando tem o dever de se pronunciar – Não estivessem felizes
com a transferência, deveriam ter ordenado o retorno do capital para o fundo de renda ¿xa – Silêncio
só quebrado quando o fundo de ações experimentou perdas sensíveis (9 meses após a transferência) –
Silêncio absoluto com a transferência que importa aquiescência – Art. 85, do CC�16 que se confronta
com o art. 112, do CC�02 – A melhor forma de se aferir a vontade contratual das partes é observar o
comportamento delas – Inviabilidade do aplicador-varão desconhecer que permitiu – a execução de um
contrato aleatório equiparado a uma emptio spei – Recurso do banco provido para, julgar improcedente
a ação, invertidos os ônus da sucumbência. (TJSP. Julgado referido na decisão monocrática proferida
no Ag 1312778. Relator(a) Ministra NANCY ANDRIGHI. Data da Publicação: 03�09�2010)
b) Princípio da boa-fé: Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os
usos do lugar de sua celebração (art. 113). Fala-se, aqui, em primeiro plano, da ERD�Ip obje�
tiva, cláusula geral de interpretação para todos os negócios, ou seja, regra de procedimento
segundo a qual as partes contratantes devem se isentar de intenções maliciosas em detrimen-
to da outra.
Cap. V • FATOS JURÍDICOS 327
Mas não se pode deixar de compreender que o art. 113, embora seja norma de interpretação,
dá vazão ao irrestrito reconhecimento, também, da ERD�Ip�VXEMHWLYD, como norma geral de e¿-
cácia vertical sobre as demais regras contidas no próprio sistema, devendo prevalecer, portanto,
a boa-fé subjetiva de terceiro quando em confronto com normas que acarretem a invalidade de
negócios por ele entabulados.
Bom exemplo disso é a opção que o STJ tem feito pela proteção do terceiro adquirente de
boa-fé de unidade autônoma de edifício de apartamentos em detrimento de garantia real oferecida
pela construtora, antes ou depois do compromisso com o adquirente (S~mula 308), à instituição
¿nanceira que lhe concedera empréstimo para ¿nanciar a obra. Veja-se, a título de exemplo, o
seguinte julgado:
DIREITO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. SFH. CONTRATO DE FINANCIAMENTO. UNIDADE
DE APARTAMENTOS. HIPOTECA CONSTITUÍDA SOBRE IMÓVEL JÁ PROMETIDO À VENDA
E QUITADO. INVALIDADE. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ. CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR.
OFENSA. CARACTERIZAÇÃO. ENCOL. NEGLIGÊNCIA DA INSTITUIÇÃO FINANCEIRA. I – É
nula a cláusula que prevê a instituição de ônus real sobre o imóvel, sem o consentimento do promitente-
-comprador, por ofensa ao princípio da boa-fé objetiva, previsto no Código de Defesa do Consumidor. II
– Não prevalece diante do terceiro adquirente de boa-fé a hipoteca constituída pela incorporadora
MXQWR�DR�DJHQWH�¿QDQFHLUR��HP�JDUDQWLD�GH�HPSUpVWLPR�UHJLGR�SHOR�6LVWHPD�)LQDQFHLUR�GD�+DEL-
tação. Destarte, o adquirente da unidade habitacional responde, tão– somente, pelo pagamento
do seu débito. III – Consoante já decidiu esta Corte: ³é negligente a instituição ¿nanceira que não ob-
serva a situação do empreendimento ao conceder ¿nanciamento hipotecário para edi¿car um prédio de
apartamentos´. Da mesma forma, ³ao celebrar o contrato de ¿nanciamento, facilmente poderia o banco
inteirar-se das condições dos imóveis, necessariamente destinados à venda, já oferecidos ao p~blico e, no
caso, com preço total ou parcialmente pago pelos terceiros adquirentes de boa-fé”. (Precedentes: REsp
n 239.968�DF, DJ de 04.02.2002 e REsp n 287.774�DF, DJ de 02.04.2001 e EDResp. nº 415.667�SP,
de 21.06.04). Recurso especial não conhecido. (REsp 617.045�GO, Rel. Ministro CASTRO FILHO,
TERCEIRA TURMA, julgado em 28�10�2004, DJ 17�12�2004, p. 539)
Importante ressaltar, por ¿m, que voltaremos ao tema da boa-fé na oportunidade da análise
das obrigações e dos contratos.
F�� ,QWHUSUHWDomR�UHVWULWLYD�GRV�QHJyFLRV�EHQp¿FRV: Já desde o Direito Romano se dizia: “Lei
Q����GH�8OSLDQR��TXL�H[�OLEHUDOLWDWH�FRQYHQLXQWXU��LQ�LG��TXRG�IDFHUH�SRVVXQW��FRQGHPQDQ�
GRV��DTXHOHV�TXH�VmR�GHPDQGDGRV�HP�YLUWXGH�GH�OLEHUDOLGDGH�Vy�VHUmR�FRQGHQDGRV�DR�TXH�
FRUUHVSRQGD�jV�VXDV�SRVVLELOLGDGHV´��
Isto se dá porque as liberalidades implicam, geralmente, em redução permanente ou tem-
porária do patrimônio de seus autores. Assim, não se pode interpretar de maneira extensiva o
conte~do da intenção de bene¿ciar, sob pena de injusto empobrecimento daquele que fez o bem
ao terceiro.
Por isso, reza o art. 114 do Código Civil que, nos negócios jurídicos bené¿cos (¿ança, doa-
ção, comodato etc) e na ren~ncia, a interpretação deve ser restritiva (art. 114). Essa norma impor-
ta em relevantes reÀexos na parte especial do Código Civil, a exemplo dos seguintes dispositivos:
Art. 552. O doador não é obrigado a pagar juros moratórios, nem é sujeito às conseqüências da evicção
ou do vício redibitório. Nas doações para casamento com certa e determinada pessoa, o doador ¿cará
sujeito à evicção, salvo convenção em contrário. […] Art. 584. O comodatário não poderá jamais re-
cobrar do comodante as despesas feitas com o uso e gozo da coisa emprestada. […] Art. 819. A ¿ança
dar-se-á por escrito, e não admite interpretação extensiva.
MANUAL DE DIREITO CIVIL – Sebastião de Assis Neto, Marcelo de Jesus e Maria Izabel de Melo328
6. REPRESENTAÇÃO
6.1. Noções introdutórias
O Código Civil de 2002 disciplina, na parte geral, as regras da representação.
Diferentemente do antigo código, que tratava da representação apenas na parte especial, nos
tópicos respectivos, o atual legislador entendeu necessária a sua regulamentação geral, porque os
diversos casos de representação existentes na parte especial se espalham por diversas matérias,
como no Direito de Família (pais, tutores, curadores), nas obrigações (mandato, agência etc.) e
nas sucessões (inventariança), por exemplo. Por isso, exige-se uma sistematização geral do tema
para aplicação supletiva às normas especiais.
A representação pode ser legal ou voluntária (art. 115). É legal quando decorre da lei; volun-
tária quando decorre da vontade das partes.
6.2. Limites ao exercício da representação e a teoria da aparência
O exercício da manifestação de vontade, pelo representante, deve se limitar aos poderes a
ele conferidos(pela lei ou pelo negócio de representação), segundo o art. 116, sob pena de anula-
bilidade, conferida pelo art. 119. Esta anulabilidade, no entanto, ¿ca subordinada à circunstância
de que o H[FHVVR�GH�UHSUHVHQWDomR deve ser do conhecimento do outro contratante, ou que, pelo
menos, este deva ter conhecimento deste excesso. Essa proteção da boa-fé do terceiro contratante
advém da adoção da teoria da aparência.
A ação para anular o negócio concluído pelo representante em conÀito de interesses com o
representado está sujeita ao prazo decadencial de 180 dias (CC, art. 119, par. ~nico), a contar da
conclusão do negócio ou, em se tratando de representado incapaz, da cessação da incapacidade.
Adotada a WHRULD�GD�DSDUrQFLD��o resguardo da boa-fé do terceiro faz com que o negócio
possa ser exigível em desfavor do representado.
O reconhecimento da teoria da aparência no direito brasileiro tem resultado em consequên-
cias como, por exemplo, a validade da citação da pessoa jurídica, mesmo que feita na pessoa
de funcionário sem poderes para tanto, o qual, no entanto, recebe o ato citatório sem mencionar
qualquer ressalva a esse respeito. Trata-se de entendimento já consolidado no STJ, como se vê
adiante:
PROCESSUAL CIVIL. VIOLAÇÃO DO Art. 535 DO CPC INOCORRENTE. AÇÃO DE INDENI-
ZAÇÃO. ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA GRATUITA. ENTIDADE FILANTRÓPICA. PRESUNÇÃO
DE HIPOSSUFICIÊNCIA ECONÐMICA. INEXISTÊNCIA. AUSÊNCIA DE NULIDADE DE CI-
TAÇÃO. TEORIA DA APARÊNCIA. APLICAÇÃO. […] 4. ³Aplicação do entendimento prevalente
da Corte Especial no sentido de adotar-se a Teoria da Aparência, reputando-se válida a citação da
pessoa jurídica quando esta é recebida por quem se apresenta como representante legal da empresa
e recebe a citação sem ressalva quanto à inexistência de poderes de representação em juízo” (AgR-
gEREsp 205.275�PR, Relatora Min. Eliana Calmon, DJ 28.10.02). 5. Recurso especial não provido.
(REsp 1195605�RJ, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 02�09�2010,
DJe 22�09�2010)
Na mesma trilha de entendimento, o Superior Tribunal de Justiça tem aplicado a teoria da
aparência para se autorizar a responsabilização da pessoa jurídica por atos de gerentes que, mes-
mo sem poderes expressos, contratam com terceiros em circunstâncias tais que não era razoável
exigir-se deles (terceiros) o conhecimento sobre a inexistência de poderes para a pactuação. Ve-
ja-se:
Cap. V • FATOS JURÍDICOS 329
DIREITO EMPRESARIAL. NEGÓCIO JURÍDICO CELEBRADO POR GERENTE DE SOCIEDA-
DE ANÐNIMA. AUSÊNCIA DE PODERES. ATO CONEXO COM A ESPECIALIZAÇÃO ESTA-
TUTÁRIA DA EMPRESA. LIMITAÇÃO ESTATUTÁRIA. MATÉRIA, EM PRINCÍPIO, INTERNA
CORPORIS. TERCEIRO DE BOA-FÉ. TEORIA DA APARÊNCIA. APLICABILIDADE. 1. No caso
em exame, debatem as partes em torno de aditivo que apenas estabeleceu nova forma de reajuste do
contrato original – em relação ao qual não se discute a validade –, circunstância a revelar que o negócio
jurídico levado a efeito pelo então Gerente de Suprimentos, que é acessório, possui a mesma natureza
do principal – prestação de serviços -, o qual, a toda evidência, poderia ser celebrado pela sociedade re-
corrente por se tratar de ato que se conforma com seu objeto social. 2. Na verdade, se a pessoa jurídica
é constituída em razão de uma ¿nalidade especí¿ca (objeto social), em princípio, os atos consentâneos
a essa ¿nalidade, não sendo estranho ao seu objeto, praticados em nome e por conta da sociedade, por
seus representantes legais, devem ser a ela imputados. 3. As limitações estatutárias ao exercício de
atos por parte da Diretoria da Sociedade Anônima, em princípio, são, de fato, matéria interna corporis,
inoponíveis a terceiros de boa-fé que com a sociedade venham a contratar. 4. Por outro lado, a ade-
quada representação da pessoa jurídica e a boa-fé do terceiro contratante devem ser somadas ao fato
de ter ou não a sociedade praticado o ato nos limites do seu objeto social, por intermédio de pessoa
que ostentava ao menos aparência de poder. 5. A moldura fática delineada pelo acórdão não indica a
ocorrência de qualquer ato de ma-fé por parte da autora, ora recorrida, além de deixar estampado o fato
de que o subscritor do negócio jurídico ora impugnado – Gerente de Suprimento – assinou o apontado
³aditivo contratual” na sede da empresa e no exercício ordinário de suas atribuições, as quais, aliás,
faziam ostentar a nítida aparência a terceiros de que era, deveras, representante da empresa. 6. Com
efeito, não obstante o fato de o subscritor do negócio jurídico não possuir poderes estatutários para
tanto, a circunstância de este comportar-se, no exercício de suas atribuições – e somente porque assim
o permitiu a companhia -, como legítimo representante da sociedade atrai a responsabilidade da pessoa
jurídica por negócios celebrados pelo seu representante putativo com terceiros de boa-fé. Aplicação
da teoria da aparência. 7. Recurso especial improvido. (REsp 887277. Rel. Ministro LUIS FELIPE
SALOMÃO. QUARTA TURMA. Informativo�STJ nº 0454).
No mesmo sentido:
Direito comercial. Recurso especial. Ação de embargos do devedor à execução. Acórdão. Omissão.
Inexistência. Título de crédito (nota promissória) emitido em nome da pessoa jurídica. Administrador.
Excesso de mandato caracterizado. Oposição a terceiro de boa-fé. Impossibilidade. Ausência de ex-
cesso de mandato. Ðnus da prova. Prequestionamento. – […] – O excesso de mandato praticado pelo
administrador da pessoa jurídica poderá ser oposto ao terceiro bene¿ciário apenas se ¿car afastada
a boa-fé deste, o que ocorre quando: (i) a limitação de poderes dos administradores estiver inscrita
no registro próprio, (ii) o terceiro conhecia do excesso de mandato, e (iii) a operação realizada for
evidentemente estranha ao objeto social da pessoa jurídica. – Veri¿cada a boa-fé do terceiro, restará
à pessoa jurídica exigir a reparação pelos danos sofridos em ação regressiva a ser proposta contra o
administrador que agiu em excesso de mandato. – É inadmissível o recurso especial na parte em que
não restou prequestionado o direito tido por violado. – Recurso especial a que não se conhece. (REsp
448.471�MG, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 20�03�2003, DJ
14�04�2003, p. 221)
Contudo, o art. 118 impõe ao representante que excede seus poderes, sem o conhecimento
do terceiro, a responsabilidade pelos atos que excederem os termos da representação. Isso não
implica, como vimos, em desoneração do representado para com os terceiros de boa-fé, por apli-
cação da teoria da aparência. A responsabilidade do representante decorre, portanto, do direito de
regresso que se confere ao representado.
6.3. Negócio consigo mesmo
Diz o art. 117 do Código Civil que salvo se o permitir a lei ou o representado, é anulável o
QHJyFLR�MXUtGLFR�TXH�R�UHSUHVHQWDQWH��QR�VHX�LQWHUHVVH�RX�SRU�FRQWD�GH�RXWUHP��FHOHEUDU�FRQVLJR�
mesmo.
MANUAL DE DIREITO CIVIL – Sebastião de Assis Neto, Marcelo de Jesus e Maria Izabel de Melo330
Consagra-se, assim, a regra de que, não existindo autorização legal ou convencional (forne-
cida pelo representado), não pode o representante utilizar seus poderes para celebrar negócio em
que o destinatário da declaração de vontade do representado seja o próprio representante.
Tome-se como exemplo o do representante de uma empresa que trans¿ra para seu nome os
bens de propriedade da sociedade, em detrimento da pessoa jurídica e de seus sócios. Nos termos
do art. 117, tal negócio é anulável.
Também podemos veri¿car a aplicação da norma no caso em que um procurador com
poderes de alienação de uma coisa de propriedade do mandante (mas sem os poderes previstos
no art. 685 do CC – conferir abaixo), outorga substabelecimento a outrem, vindo a praticar o
negócio de aquisição da coisa com o substabelecido, em clara distorção do regramento acima
referido.
Registre-se ainda o exemplo da nulidade da FOiXVXOD�PDQGDWR,talhada pela jurisprudência
do STJ. Trata-se de expediente utilizado, geralmente, por instituições ¿nanceiras para garantir o
pagamento de empréstimos a juros por parte do mutuário: no momento da assinatura do contrato
de m~tuo, o mutuário dá poderes ao mutuante para que este emita, em seu próprio favor, título de
crédito representativo do valor atualizado da dívida, o que foi repelido, com justiça, pela S~mula
60 do STJ, que reza que ³p�QXOD�D�REULJDomR�FDPELDO�DVVXPLGD�SRU�SURFXUDGRU�GR�PXWXiULR��
vinculado ao mutuante, no exclusivo interesse deste”.
Observe-se que a outorga desses poderes abusivos em favor de instituições ¿nanceiras, na
prática, dá-se muito comumente, também, através da exigência, pelo credor, de emissão, pelo
devedor, no momento da assinatura do contrato de empréstimo, de títulos de crédito (geralmente
notas promissórias) em branco em favor do credor, para posterior preenchimento ao alvedrio
deste, o que também foi sabiamente repugnado pelo Superior Tribunal de Justiça, como se pode
ver da seguinte ementa:
PROCESSO CIVIL – AGRAVO DE INSTRUMENTO – NEGATIVA DE PROVIMENTO – AGRA-
VO REGIMENTAL – CONTRATO BANCÁRIO – NOTA PROMISSÓRIA – EMISSÃO EM BRAN-
CO – VIOLAÇÃO AO Art. 51, IV, CDC – SÒMULA 60�STJ – LETRA DE CÆMBIO – SAQUE
– NULIDADE – DESPROVIMENTO. 1 – No que diz respeito à validade da nota promissória emitida
em branco, a orientação desta Corte é no sentido de que a cláusula contratual que permite a emissão
da nota promissória em favor do banco�embargado, caracteriza-se como abusiva, porque violadora do
princípio da boa-fé, consagrado no art. 51, inciso IV do Código de Defesa do Consumidor. Precedente
(REsp 511.450�RS). 2 – Igualmente, é nula a cláusula contratual em que o devedor autoriza o credor
a sacar, para cobrança, título de crédito representativo de qualquer quantia em atraso. Isto porque tal
cláusula não se coaduna com o contrato de mandato, que pressupõe a inexistência de conÀitos entre
mandante e mandatário. Precedentes (REsp 504.036�RS e AgRg Ag 562.705�RS). 3 – Agravo regimen-
tal desprovido. (AgRg no Ag 511.675�DF, Rel. Ministro JORGE SCARTEZZINI, QUARTA TURMA,
julgado em 23�08�2005, DJ 17�10�2005, p. 297)
Mais sobre a cláusula-mandato poderá ser lido no capítulo próprio a respeito do contrato de
mandato (item 1.3.2 do Capítulo X da Parte V).
Ainda sobre o tema do negócio consigo mesmo, devemos lembrar que existia discussão, no
regime jurídico anterior, sobre a validade do uso da procuração (instrumento do mandato) para
compra e venda de imóveis, hipótese em que o mandante dava ao mandatário poderes para alienar
a coisa para quem quisesse, inclusive para si mesmo, pois o antigo Código, embora previsse o
mandato em causa própria, proibia expressamente essa hipótese. Veja-se:
Cap. V • FATOS JURÍDICOS 331
CC, 1916, Art. 1.317, I Art. 1.133
É irrevogável o mandato: I – quando se tiver convencio-
nado que o mandante não possa revogá-lo, ou for em
causa própria a procuração dada.
Não podem ser comprados, ainda em hasta pública: […]
II – pelos mandatários, os bens, de cuja administração
ou alienação estejam encarregados.
Em que pese a antiga vedação legal, ainda mesmo na vigência do CC-1916 se arraigou a
praxe de, em lugar da lavratura de escritura p~blica de compra e venda, os agentes do negócio
em torno da propriedade de bens imóveis emitirem procuração, em favor do adquirente, para que
este trans¿ra para si ou para terceiros o bem objeto do mandato. A prática se tornou tão comum
que passou a se considerar inconveniente, do ponto de vista da SROtWLFD�MXGLFLiULD, invalidar esses
pactos, já que isso, não raro, dava margem a especulações e prevalência de má-fé por parte de
alienantes mal-intencionados.
Por isso, o Supremo Tribunal Federal editou a Súmula nº 165, segundo a qual: ³$�YHQGD�
UHDOL]DGD�GLUHWDPHQWH�SHOR�PDQGDQWH�DR�PDQGDWiULR�QmR�p�DWLQJLGD�SHOD�QXOLGDGH�GR�DUW���������
,,��GR�&yGLJR�&LYLO´.
O art. 685 do atual Código extingue qualquer polêmica em torno do assunto, ao dispor que
³FRQIHULGR�R�PDQGDWR�FRP�D�FOiXVXOD�³HP�FDXVD�SUySULD´��D�VXD�UHYRJDomR�QmR�WHUi�H¿FiFLD��
QHP�VH�H[WLQJXLUi�SHOD�PRUWH�GH�TXDOTXHU�GDV�SDUWHV��¿FDQGR�R�PDQGDWiULR�GLVSHQVDGR�GH�SUHV�
tar contas, e podendo transferir para si os bens móveis ou imóveis objeto do mandato, obedeci�
das as formalidades legais”.
Trata-se, portanto, de expressa autorização legal para a prática do chamado negócio consigo
mesmo.
7. QUADRO SINÓTICO
CAPÍTULO V – FATOS JURÍDICOS
Fatos Jurídicos
É através da ocorrência de fatos juridicamente relevantes que o Direito se reali-
za, transforma-se ou se extingue. Mas nem todos os fatos da vida humana são
tidos como juridicamente relevantes. Serão jurídicos, portanto, todos os fatos
que possam trazer consequências para o mundo jurídico, quer seja criando, mo-
dificando, extinguindo, resguardando ou transmitindo direitos.
1
Efeitos dos Fatos
Jurídicos
– efeitos aquisitivos: são aqueles pelos quais, através do fato, decorre em se-
guida o acréscimo de um bem ou direito ao patrimônio do agente, como na
tradição, na transcrição do título aquisitivo no registro de imóveis, na reunião
dos requisitos para a usucapião, na abertura da sucessão etc.
– efeitos modificativos: os fatos jurídicos podem modificar os direitos já adqui-
ridos, por exemplo, em um determinado contrato, podem as partes alterar o
seu conteúdo através de um ato substitutivo, como na transação e na dação
em pagamento;
– efeitos translativos: os efeitos translativos são aqueles que derivam da po-
tencialidade que tem o fato jurídico de transmitir bens ou direitos de uma
pessoa para outra. A tradição, por exemplo;
– efeitos conservativos: esses são os efeitos pelos quais a prática de determina-
dos atos visa resguardar o bem ou direito da ação deletéria do tempo ou de
terceiros;
– efeitos extintivos: extinguem o direito ou a obrigação do agente, como o
abandono, o pagamento (que extingue o direito do credor), a condição reso-
lutiva, a prescrição, a decadência, o perecimento do objeto e qualquer outro
fato que acarrete o falecimento do direito;
2
MANUAL DE DIREITO CIVIL – Sebastião de Assis Neto, Marcelo de Jesus e Maria Izabel de Melo332
CAPÍTULO V – FATOS JURÍDICOS
Espécies de Fatos Jurídicos
Fatos jurídicos
naturais ou em
sentido estrito
São aqueles capazes de gerar efeitos jurídicos como criar, modificar, resguardar,
transferir ou extinguir direitos sem o concurso da ação humana, como uma tem-
pestade ou a morte natural de alguém
3.1
Atos jurídicos
Demandam a ação voluntária do homem para se materializar. O ato jurídico lato
sensu, por sua vez, comporta classificações. Dentre elas, a que mais importa para o
direito é a sua partição em atos jurídicos não negociais e atos jurídicos negociais.
3.2
Atos jurídicos
stricto sensu ou
não negociais
São atos que decorrem da vontade humana, contudo, a vontade é dirigida so-
mente à prática do ato, mas não ao seu efeito, que decorre, automaticamente,
dos ditames da lei.
3.2.1
Atos-fatos
jurídicos
A sua ocorrência depende de ação humana, no entanto, não é necessária a von-
tade para a sua prática ou esse elemento volitivo é irrelevante. Dessa forma, se
um indivíduo absolutamente incapaz, por exemplo, praticar sozinho algum ato-
-fato jurídico, este será, em regra, válido, e produzirá todos os efeitos que deveria
produzir. A ocupação (art. 1.263 CC) e o achado de tesouro (art. 1.264 CC) seriam
exemplos.
3.2.1.1
Atos jurídicos
negociais ou
negócios jurídicos
É o ato cuja prática e efeitos são derivados da vontade humana. Nos negócios
os efeitos jurídicos do ato dependem da vontade declarada do agente, a mani-
festação da vontade humana alcança a produção de efeitos, modulando-os, a
vontade não fica adstrita – como no caso dos atos jurídicos stricto sensu – à sim-
ples escolha quanto a práticado ato ou não. Os contratos são exemplos típicos
de negócios jurídicos.
3.2.2
Classificações dos negócios jurídicos
Pelo número de
partes
– Unilateral: derivam da declaração de vontade de uma só das partes, sem ne-
cessidade da aceitação ou do concurso da vontade da outra. Pode ser:
� receptício: depende, pelo menos, de que a outra parte seja notifi cada;
� não receptício: sem necessidade de notificação à outra parte;
– bilateral: dependem do concurso da vontade de pelo menos dois agentes;
– plurilateral: é o negócio em que não se encontram dois polos distintos, mas
sim um conjunto de pessoas que atuam com o mesmo interesse, como na
sociedade.
4.1
Pela
tipicidade
– típicos: são figuras previstas expressamente pela lei;
– atípicos: não têm previsão legal, entretanto, em função do princípio da auto-
nomia da vontade, devem ser aceitos, desde que preencham os requisitos de
existência e os elementos de validade previstos pelo art. 104 do Código Civil.
4.2
Pelos
efeitos
– translativos: visam à transmissão de um direito;
– modificativos: visam modificar o conteúdo de uma relação jurídica já existen-
te, como a novação ou a transação, por exemplo;
– extintivos: têm por fim a extinção de um direito ou de uma relação jurídica,
como o distrato, o pagamento, etc;
– obrigacionais: sua finalidade é criar, entre as partes, obrigações de dar, fazer
ou deixar de fazer alguma coisa;
– de garantia: têm por finalidade resguardar o cumprimento de um outro ne-
gócio contra os riscos da insolvência de uma das partes. São os casos do pe-
nhor, da hipoteca e da anticrese;
4.3
Pelo tempo
em que devam
produzir efeitos
– inter vivos, quando se destinam a produzir eficácia imediatamente ou duran-
te a vida das partes;
– causa mortis, quando se destinam a produzir efeitos após a morte de quem
pratica o ato, como no testamento.
4.4
Cap. V • FATOS JURÍDICOS 333
CAPÍTULO V – FATOS JURÍDICOS
Pela causa do
negócio
– negócios de troca, quando uma das partes dá uma coisa com valor econômi-
co a fim de receber outra ou até sem interesse em receber nada;
4.5
Pela causa do
negócio
– negócios associativos, quando ambas as partes têm interesses comuns, sem
que uma queira adquirir algum bem ou outro elemento do patrimônio da
outra. Exemplo típico é o contrato de sociedade;
– negócios para prevenção de riscos: entabulados para garantir a integridade de
pessoas, coisas ou até de relações jurídicas. Exemplo típico é o seguro;
– negócios de crédito: uma das partes outorga a outra um valor econômico com
o objetivo de auferir vantagem a partir daí, como é o caso do mútuo fenera-
tício;
– negócios de atividade, quando a prestação de uma das partes consiste em
fazer alguma coisa em favor da outra, como no contrato de trabalho, na pres-
tação de serviços.
4.5
Pela causa
da atribuição
patrimonial
– onerosos: ambas as partes têm a intenção de auferir proveito econômico com
o negócio, como na compra e venda;
– gratuitos: quando não existe, de uma das partes, intenção econômica, como
no caso da doação pura;
– neutros: não se destina uma atribuição patrimonial específica, de tal forma a
reduzir o patrimônio (negócios gratuitos) ou estabelecer troca de
patrimônios (onerosos). São atos, portanto, que não se enquadram em ne-
nhuma das hipóteses acima, como a instituição voluntária do bem de família
ou a imposição de ônus de inalienabilidade, incomunicabilidade ou impe-
nhorabilidade sobre bens;
– bifrontes: podem ser contratados tanto a título oneroso quanto gratuito.
Bom exemplo é o contrato de mútuo.
4.6
Interpretação dos negócios jurídicos
A parte geral do Código Civil adota três importantes regras para a interpretação dos negócios jurídi-
cos. São elas:
– Princípio da prevalência da intenção dos agentes: Nas declarações de vontade se atenderá mais à
intenção nelas consubstanciada do que ao sentido literal da linguagem (art. 112);
– Princípio da boa-fé: Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos do
lugar de sua celebração (art. 113);
– Interpretação restritiva dos negócios benéficos. Reza o art. 114 do Código Civil que, nos negócios
jurídicos benéficos (fiança, doação, comodato etc) e na renúncia, a interpretação deve ser restritiva.
5
Representação
O Código Civil de 2002 disciplina, na parte geral, regulamentação geral das regras da representação, a
qual se espalha por diversas matérias, como no Direito de Família (pais, tutores, curadores), nas Obri-
gações (mandato, agência etc.) e nas Sucessões (inventariança), por exemplo.
6
Limites ao
exercício da
representação
e a teoria da
aparência
O exercício da representação deve se limitar aos poderes conferidos ao repre-
sentante (pela lei ou pelo negócio de representação), segundo o art. 116, sob
pena de anulabilidade, conferida pelo art. 119, desde que o excesso de represen-
tação seja conhecido do outro contratante. Essa proteção da boa-fé do terceiro
contratante advém da adoção da teoria da aparência.
6.2
Negócio consigo
mesmo
Diz o art. 117 do Código Civil que salvo se o permitir a lei ou o representado, é
anulável o negócio jurídico que o representante, no seu interesse ou por conta de ou-
trem, celebrar consigo mesmo. Portanto, não existindo autorização legal ou con-
vencional (fornecida pelo representado), não pode o representante utilizar seus
poderes para celebrar negócio em que o destinatário da declaração de vontade
do representado seja o próprio representante.
6.3
MANUAL DE DIREITO CIVIL – Sebastião de Assis Neto, Marcelo de Jesus e Maria Izabel de Melo334
8. SÚMULAS E ENUNCIADOS
8.1. Enunciados das Jornadas do CJF
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9. QUESTÕES
1. (Imprensa.Of/SP/Advogado/2010) Sobre os fatos
jurídicos, é correto afirmar que
(A) nas declarações de vontade se atenderá mais o sen-
tido literal da linguagem do que a intenção nelas
consubstanciada.
(B) o silêncio importará em anuência quando as cir-
cunstâncias ou os usos assim autorizarem, e sempre
que a declaração de vontade expressa não for ne-
cessária.
(C) é nulo o negócio jurídico concluído pelo represen-
tante em conflito de interesses com o representado,
se tal fato era ou deveria ser de conhecimento de
quem com ele tratou.
(D) o protesto cambial e qualquer ato judicial que cons-
tituam o devedor em mora são causas de suspensão
de prescrição.
(E) são atos ilícitos aqueles que importem na deteriora-
ção ou destruição da coisa alheia ou a lesão à pes-
soa, a fim de remover o perigo iminente.
2. (Sefin/São José do Rio Preto/Auditor/2008) Leia
os itens. Está correto, apenas, o contido em:
I. Em regra, a validade da declaração de vontade de-
pende de forma especial, a não ser quando a lei ex-
pressamente a dispensar.
II. Para subsistir a manifestação de vontade do autor
que haja feito reserva mental de não querer o que
manifestou, é necessário que o destinatário tenha
conhecimento dela.
III. Quando não for necessária a declaração de vontade
expressa, as circunstâncias ou os usos podem auto-
rizar presumir que o silêncio tenha significado de
anuência.
IV. Nas declarações de vontade, mais importante que o
sentido literal da linguagem, é a intenção nelas con-
substanciada.
V. Os negócios jurídicos benéficos e a renúncia inter-
pretam-se extensivamente.
(A) I e III.
(B) I e IV.
(C) III e IV.
(D) II, III e IV.
(E) I, IV e V.
3. (PGM/Natal/Procurador/2008)Paulo, proprietário
de um imóvel, constituiu Henrique como seu procu-
rador para a venda do bem. Henrique, por falta de
tempo disponível para tratar com os interessados
em comprar o imóvel em questão, substabeleceu
seus poderes para Mônica, que passou a negociar
esse imóvel. Passado um mês, Henrique foi bene-
ficiado por uma herança e procurou Mônica para
adquirir o imóvel de Paulo. Considerando a situa-
ção hipotética apresentada acima e as disposições
do Código Civil acerca do assunto, é correto afirmar
que a venda do imóvel a Henrique
(A) seria nula de pleno direito, por tratar-se de negócio
jurídico celebrado consigo mesmo.
(B) seria plenamente válida, porque, diante do silêncio
de Paulo, presume-se que este tenha permitido o
autocontrato por Henrique.
(C) poderia ser anulada por Paulo, por tratar-se de ne-
gócio jurídico celebrado por Henrique consigo mes-
mo, por intermédio de substabelecimento.
(D) seria perfeitamente válida, porque os poderes de
representação constituídos a Henrique foram subs-
tabelecidos a Mônica.
4. (TJ/PA/Analista/2009) No que tange aos negócios
jurídicos pode-se afirmar que
(A) os negócios neutros podem ser enquadrados entre
os onerosos ou os gratuitos.
(B) nos negócios jurídicos onerosos nem sempre am-
bos os contratantes auferem vantagens.
(C) não há nenhum negócio que não possa ser incluído
na categoria dos onerosos ou dos gratuitos.
(D) nos negócios jurídicos gratuitos só uma das partes
aufere vantagens ou benefícios.
(E) os negócios celebrados inter vivos não se destinam
obrigatoriamente a produzir efeitos desde logo, ain-
da que estando vivas as partes.
5. (TRE/AL/Analista/2010) O negócio jurídico con-
cluído pelo representante em conflito de interesses
Cap. V • FATOS JURÍDICOS 335
com o representado, quando tal fato devia ser do
conhecimento de quem o contratou, é
(A) nulo, sendo de 180 dias, a contar da conclusão do
negócio ou da cessação da incapacidade, o prazo
decadencial para pleitear-se a anulação.
(B) anulável, sendo de 180 dias, a contar da conclusão
do negócio ou da cessação da incapacidade, o prazo
decadencial para pleitear-se a anulação.
(C) anulável, sendo de um ano, a contar da conclusão
do negócio ou da cessação da incapacidade, o prazo
decadencial para pleitear-se a anulação.
(D) nulo, sendo de um ano, a contar da conclusão do
negócio ou da cessação da incapacidade, o prazo
decadencial para pleitear-se a anulação.
(E) anulável, sendo de dois anos, a contar do conheci-
mento da nulidade, o prazo decadencial para plei-
tear-se a anulação.
6. (MPE-SC – Promotor de Justiça – SC/2013) Nas de-
clarações de vontade nunca se atenderá à intenção
nelas consubstanciadas pelo agente, mas sim, uni-
camente, ao sentido literal da linguagem .
7. (FCC – Analista Judiciário – Área Judiciária – TRT
9/2013) Em relação à interpretação do negócio jurí-
dico, é correto afirmar que
(A) quaisquer negócios jurídicos onerosos interpretam-
-se estritamente.
(B) na vontade declarada atender-se-á mais à intenção
das partes do que à literalidade da linguagem.
(C) a renúncia interpreta-se ampliativamente.
(D) o silêncio da parte importa sempre anuência ao que
foi requerido pela outra parte.
(E) como regra geral, não subsiste a manifestação da
vontade se o seu autor houver feito a reserva mental
de não querer o que manifestou.
8. (FMP – Defensor Público - PA/2015) Assinale a al-
ternativa CORRETA.
(A) Considera-se ato-fato jurídico o ato cuja existência
a lei submete à vontade do sujeito da relação, sem
permitir, no entanto, que ele disponha sobre as con-
seqüências de seu proceder.
(B) O negócio jurídico está submetido, no plano da
existência, ao completamente do suporte fático, por
condições e termos.
(C) A capacidade de direito do agente é elemento com-
plementar do suporte fático de um negócio jurídico.
(D) A tradição é ato real, o qual é considerado ato ne-
gociai na classificação doutrinária dos atos e fatos
jurídicos.
(E) Os negócios jurídicos e os atos jurídicos stricto sen-
su diferenciam-se pela possibilidade de disposição
de vontade no plano da eficácia, presente nos pri-
meiros, ausente nos segundos.
10. GABARITO
Questão Resposta Comentário Onde encontro no livro?
1 B CC, art. 111 Parte II, Capítulo VI, item 2.2.3
2 C CC, arts. 111 e 112
Parte II, Capítulo VI, item 2.2.3 e
Capítulo V, item 5
3 C CC, art. 117 Parte II, Capítulo V, item 6.3
4 D
É gratuito o negócio quando uma das partes não au-
fere vantagem
Parte II, Capítulo V, item 4.6
5 B CC, art. 119, parágrafo único Parte II, Capítulo V, item 6.3
6 ERRADO CC, art. 112 Parte II, Capítulo V, item 5
7 B CC, art. 112 Parte II, Capítulo V, item 5
8 E
A alternativa correta aponta a diferença estabeleci-
da entre os negócios jurídicos e os atos jurídicos em
sentido estrito, que é justamente a possibilidade de
modulação dos efeitos produzidos, no caso dos pri-
meiros.
Parte II, Capítulo V, itens 3.2.1 e
3.2.2