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BAIXA IDADE MÉDIA BAIXA IDADE MÉDIA A Baixa Idade Média é o período da história Medieval que vai do século XI ao XV. Corresponde a fase em que as principais características da Idade Média, principalmente o feudalismo, estavam em transição. Ou seja, é uma época em que o sistema feudal estava entrando em crise. Muitas mudanças econômicas, religiosas, políticas e culturais ocorrem nesta fase. O século XIII representou uma época de avanços tecnológicos na área agrícola. O desenvolvimento do arado de ferro com rodas, do moinho hidráulico e a utilização da atrelagem dos animais (bois e cavalos) pelo peito representaram uma evolução agrícola importante, trazendo um aumento significativo na produção dos gêneros agrícolas. ALIMENTAÇÃO MEDIEVAL Os hábitos alimentares medievais ainda se encontram imersos em grande obscuridade. Sabemos que na alta Idade Média a alimentação era rústica e sem luxo, somente com o desenvolvimento do comércio e o surgimento das cidades é que a gastronomia renasce. Escavações osteológicas na Europa comprovam que a maior parte da carne consumida era de boi e não porco como muito se pensava. Expedições arqueológicas em sítios na bacia do Loire, nos permitem supor que a carne, pela primeira vez, passa a ser consumida a partir de cortes (desossada) e também a existência de um sistema de reserva. A ALIMENTAÇÃO MEDIEVAL O transporte lento e as ineficientes técnicas de preservação dos alimentos impediam o comércio de longa distância de muitos itens. Na maioria dos casos, somente os ricos, especialmente a nobreza, podiam adquirir ingredientes importados, tais como especiarias. Devido a esses fatores, a cozinha dos nobres era mais propensa à influência estrangeira do que a de pessoas mais pobres. A ALIMENTAÇÃO MEDIEVAL A mudança mais significativa da plena e baixa idade média, se deve ao crescimento da população: De 12 para 35,5 milhões na Europa Ocidental; De 9 para 13 na Europa Oriental. O crescimento da população reestrutura a organização familiar, feudal e agrária; A gestão senhorial da terra adota formas mais dinâmicas e lucrativas, uma vez que temos o processo de cunhagem de moedas em franca expansão. A ALIMENTAÇÃO MEDIEVAL Surgem as figuras dos rendeiros em substituição às relações de servidão: Os camponeses arrendavam as terras dos senhores em troco de um valor fixo e parte das principais colheitas. Nesse contexto, os rendeiros passam a produzir para além da sua subsistência: As porções extras são entregues aos donos das terras e, cada vez mais, vendidas nos pequenos comércios locais O crescimento da produção agrícola está assim, diretamente relacionado ao desenvolvimento das cidades, ao surgimento de mercadores profissionais, a cunhagem de moedas, a criação e melhorias de estradas, ao crescimento dos burgos... Campo e cidade deixam de ser entidades concorrentes e se transformam em centros econômicos complementares. A ALIMENTAÇÃO MEDIEVAL Diferentemente do que acontecia na alta idade média, nesse momento a alimentação camponesa sofre uma reestruturação; O crescimento do comércio, da moeda, do excedente, estabelece novos parâmetros para a alimentação camponesa; Paralelamente, as regras impostas pela nobreza referente à limitação da caça, retiram, em grande parte, a carne da mesa do homem camponês. LE LIVRE DE CHASSE (GASTON PHÉBUS – 1387/89) A ALIMENTAÇÃO CAMPONESA MEDIEVAL De forma geral, os camponeses se alimentavam dos recursos de suas terras; Trigo, gado miúdo, aves, embutidos, peixes salgados, leguminosas, hortaliças e legumes. O pão também está no centro do alimento camponês: O pão Ros de trigo durázio produz um pão escuro e extremamente duro; Assim como as michas(cevada aveia, centeio, espelta) e seus pães; As famílias destinam os cereais nobres ao mercado; Paralelamente as sopas, os guisados e ensopados eram as principais receitas, sempre acompanhadas de pão A carne está presente em pequenas porções (200g). O porco (toucinho) A ovelha (lã e leite) A vaca (arado) A ALIMENTAÇÃO NOBRE MEDIEVAL Por meio de registros contábeis, nos foi possível conhecer os hábitos alimentares da nobreza medieval; Os registros feitos pelos administradores do séquito da rainha Petronila (Catalunha- Aragão) entre 1157 e 1158 são referências nítidas do comportamento alimentar da corte; pão, vinho (branco suave), carnes finas (frango capão e ganso), carneiros, porco, cordeiro, queijos, peixes, ovos, mel. Água pura não era recomendada, uma vez que causava desarranjos intestinais e dificulta a digestão. A carne era cozida em água com especiarias, ervas e outros condimentos. Além de ser submetida a processos de cozimentos sucessivos (cozidas antes de serem submetidas na frigideira ou na grelha). A ALIMENTAÇÃO NOBRE MEDIEVAL É também comum a fritura das carnes e dos legumes com toucinho; Na mesa nobre, nos dias comuns são usados baixelas de estanho, cobre, cerâmica e madeira; Nos dias de banquete, são utilizados baixelas de ouro e prata; A mesa ainda se configura como uma importante fermenta de distinção e simbologia; A alimentação é um símbolo de poder, vigor e potência sexual. A COZINHA MEDIEVAL Na idade média, temos o surgimento de alguns importantes utensílios para o processo de confecção da alimentos: Frigideiras, Caçarolas, Caldeirões, Fogões, Colheres, Quadras; Conchas Escudela Apesar de já existirem colheres e facas, as mãos eram o principal talher utilizado. ESCUDELA Alcobertas - Portugal O GARFO Em meados do século XI o garfo chegou à Europa através da filha do imperador Constantino VIII de Constantinopla, que trouxe um exemplar em ouro com dois dentes que usava para espetar a comida. Naquela época esse exemplar foi muito contestado pela Igreja pois assemelhava- se à forquilha, utensílio usado pelo Diabo nas representações clássicas. A Igreja defendia também a teoria que os alimentos, sendo dádiva Divina, deveriam ser comidos com as mãos, a forma mais natural e humana. A posterior morte da princesa que não abdicava do talher, veio reforçar estas crenças alimentadas pelo clero, que tiveram o efeito de que durante longo tempo este utensílio fosse proibido. Começou lentamente a reaparecer no séc. XV popularizando-se na Itália. No século XVI, Catarina de Médici levou-o até França mas a aceitação foi difícil pois os franceses não viam nele grande utilidade chegando mesmo a afirmar que o metal deturpava o sabor dos alimentos. O GARFO Sendo inicialmente partilhado por várias pessoas, Henrique III de Inglaterra tornou-o mais popular criando o garfo individual dando assim a possibilidade (muito mais higiénica) de cada pessoa usar apenas o seu. A partir do séc. XVII o garfo tornou-se cada vez mais difundido na Europa sendo usado em quase todos os lares. Tornou-se mesmo um símbolo de luxo e posição começando até a ser apreciado pelos próprios padres. Neste século a situação inverteu-se e era agora considerado indecoroso comer com as mãos. Em finais do séc. XVII surgiu o modelo com mais um dente, tendo o atual aspecto de quatro dentes sido criado no começo do séc. XIX. Esta última versão foi amplamente impulsionada por Fernando de Bourbon que detestava ver os longos fios de esparguete escorregar nos garfos de três dentes. PETISCO DE HISTÓRIA Na época em que ainda se comia à mão, o número de dedos que pegavam na comida identificava a classe social. Os mais nobres usavam apenas três dedos, enquanto a plebe usava a mão completa. AS ESPECIARIAS Desde a Antiguidade as especiarias já entram na composição dos pratos; Na idademédias, as especiarias mais difundidas eram: Cravo, Noz-moscada, Macis (é a membrana que envolve o caroço da noz. Ele é prensado, seco e vendido separadamente da noz moscada. Sua cor varia do alaranjado ao avermelhado. Seu rendimento é quase 10 vezes menor que o da noz, por isso é muito mais caro e no Brasil é muito difícil de ser encontrado.) Galanga Pimenta malagueta Gengibre AS ESPECIARIAS Na idade média, as especiarias seguem um padrão oscilatório de movimentação: Ex: pimenta do reino e o gengibre, pimentão, pimenta malagueta na França (Chiquart – Duque de Sabóia) Além de contribuírem para a confecção de receitas, as especiarias também eram símbolos de riqueza e poder; Quanto mais rara, mas denotava as conexões sociais e econômicas. A MANTEIGA Trazida juntamente com as invasões bárbaras, a manteiga foi difundida, muito embora tenha encontrado inicialmente resistências; Os gauleses consumiam uma sopa espessa feita com cereais, alho poró, manteiga, leite, queijo; Hoje essa é ainda uma tradicional receita do País de Gales, chama de Cawl. À MESA NA IDADE MÉDIA: O DOCE E O ÁCIDO As cozinhas medievais giram em torno de três sabores fundamentais: O forte (especiarias) O doce (açúcar) O ácido. Na França, o sabor predominante era o ácido, representado pelo uso de vinagre, verjus e especiarias. No final do séc. XV o açúcar inicia seu processo de destaque (agridoce); O amargo geralmente era compensado pelo açúcar (nozes); VERJUS (SUCO DA UVA VERDE) O VERJUS: É um ácido extraído do suco de uvas brancas não amadurecidas. Ele pode ser substituído o suco de limão ou vinagre em saladas e na preparação de pratos de carne ou peixe e em molhos. Muito comumente utilizado para “deglacear” as preparações. Deglacear - do francês “Déglacer” a deglaçage (deglacear) é a ação de acrescentar um meio líquido (água, vinho, sucos, fundos e afins) em uma panela ou assadeira com a finalidade de desprender e reidratar parte dos sucos, líquidos e gorduras proveniente dos alimentos assados ou salteados e assim acrescentar mais sabor ao líquido resultante, que poderá entrar na preparação do alimento em questão. É a ação oposta do “glacer” (formação do glace). VERJUS (SUCO DA UVA VERDE) O verjus também foi muito utilizado na cozinha Síria, onde era chamado de Husroum (مرصح. ) VERJUS (SUCO DA UVA VERDE) O resgate do verjus A chef australiana Maggie Beer, em 1984, após a perda (da colheita) de uma grande quantidade de Riesling, passou a produzir o verjus para comercialização. Ela não apenas resgatou essa receita medieval, como foi a primeira pessoa a produzir comercialmente o verjus. Em termos mais específicos, Maggie defende que o verjus, diferentemente do limão, do vinagre e outros acidulantes, possui uma acidez muito mais delicada e que, ao invés de mascarar o sabor dos alimentos, fornece um toque delicado de acidez e realça as receitas. RECEITAS COM VERJUS Aïoli de maçã. Descascar, grelhar e imediatamente mergulhar as maçãs no Verjus. Passar as gemas (2) em um processador de alimentos com o alho (1 dente) , maçã verde (1) ralada e o Verjus (2 CS) . Adicione o azeite extra virgem (3\4 de xíc.) em gotas e , em seguida, em uma fina corrente mais rapidamente, até emulsificar . Em seguida, adicionar o óleo de semente de uva (3\4 de xíc.) da mesma maneira, até que esteja completamente emulsionado. Tempere (sal pimenta do reino). RECEITAS COM VERJUS Cenouras (baby) em Verjus Cozinhe as cenouras em água salobra. Retire-as ainda al dente e descasque-as. Toste uma porção de pinoli (mas não deixe escurecer), reserve. Em uma frigideira, derreta a manteiga e adicione as cenouras até ficarem levemente bronzeadas. Adicione o verjus e deixe até formar uma espécie de xarope. Adicione os pinolis, um pouco de salsinha fresca e sirva com pedaços de queijo de cabra. VERJUS O RESTAURANTE Endereço: 52, rue de Richelieu 75001 Paris. CHEFS: BRADEN PERKINS E LAURA ADRIAN VERJUS (SUCO DA UVA VERDE) PREPARO Lavar as bagas; Triturar no liquidificador e depois peneirar o suco através de musselina; Adicionar 1 colher de chá de sal para um litro. Usar imediatamente o suco (oxidação). O AÇÚCAR Segundo os mais antigos relatos, o açúcar foi primitivamente relatado quando o general Niarchos, subordinado do imperador macedônico Alexandre, o Grande, foi encarregado de realizar a conquista da Índia Oriental. Ao chegar à região, percebeu que os nativos realizavam o consumo regular de um suco de cana fermentado capaz de produzir um tipo de “mel” que não exigia o uso de abelhas. Foi então que os ocidentais noticiaram a descoberta daquilo que eles chamavam de “sal indiano”. Nesse primeiro instante, o açúcar era comercializado em pequenas quantidades, tendo um valor muito elevado nos mercados gregos e romanos. Somente em meados do século VII foi que o açúcar foi tomando características mais próximas do produto que hoje consumimos. Por volta de 650, os exércitos árabes conquistaram a Pérsia, região em que existiam avançados estudos referentes ao desenvolvimento de técnicas que facilitariam o transporte do açúcar através do seu refinamento. O AÇÚCAR Ao dominarem esse espaço, os árabes tiveram o interesse de plantar mudas de cana em outras regiões em que o cultivo também pudesse prosperar. Na Baixa Idade Média, o desenvolvimento das Cruzadas abriu portas para que os cristãos viessem a conhecer um pouco melhor o produto já consumido pelos árabes muçulmanos. No próprio Velho Mundo, a presença dos árabes na Península Ibérica permitiu que, já no século XII, os espanhóis de Andaluzia também conhecessem o doce produto. Quando adotado pelos ocidentais, o açúcar era raramente utilizado como tempero, tendo maior uso para a conservação de frutas e a fabricação de remédios contra a Peste Negra. O raro emprego era em boa parte justificado pelo valor elevado que o açúcar tinha no mercado da época. Um relato britânico do século XIV dizia que a libra do açúcar era vendida pelo valor de dois xelins. Em valores atuais, isso significa dizer que um quilo de açúcar era vendido a aproximadamente cem dólares. O SAL Sem o sal, não seria possível estocar uma série de alimentos em um mundo sem geladeiras. Altas concentrações salinas inibem a proliferação de microorganismos na comida, conservando-a em boas condições de consumo por um tempo bem maior. Por esse motivo, o sal passou a ser indispensável em qualquer sociedade que pretendesse ter uma reserva de mantimentos. E, por isso, ele passou a ter valor de moeda. Os chineses foram os primeiros a encarar a produção de sal como um negócio de grandes proporções. Desde o século XIX a.C., eles obtinham cristais de sal fervendo água do mar em vasilhas de barro. Essa técnica se espalharia pelo mundo ocidental e, um milênio depois, no Império Romano, ainda seria a mais disseminada. Quando o mar estava longe, o jeito era cavoucar a terra em busca do sal. Foi o que fizeram os celtas, os inventores da mineração de sal-gema. Segundo os registros arqueológicos, procuravam o sal sob o solo já em 1300 a.C. O SAL O sal logo virou alvo da cobiça dos governantes, que passaram a tributar o comércio e a produção e a arrecadar grandes somas de dinheiro. Em várias civilizações, a extração de sal era monopólio estatal. De tão essencial, o direito ao sal chegou a ser garantido pelo Estado. Os romanos, apesar de não manterem monopólio sobre o sal, subsidiavam seu preço para garantir que os plebeus tivessem acesso a ele. “Sal para todos” era um lema romano. Foi nessa época que surgiu a palavra “salada”, pois havia o costume de salgar os vegetais para amenizar o amargor de alguns deles. A ausência do saleironuma mesa romana era um sinal de inimizade. Da mesma forma que deveria estar disponível para o cidadão comum, o sal era imprescindível para os legionários que conquistavam e mantinham o gigantesco império. Tanto que os soldados chegavam a ser pagos em sal, de onde vêm as palavras “salário”, “soldo” (pagamento em sal) e “soldado” (aquele que recebeu o pagamento em sal). O SAL O sal, que Platão chamava de “uma graça especial dos deuses”, figura com frequência nos rituais religiosos desde a antiguidade. Para os judeus, ele simboliza a eterna aliança de Deus com o povo de Israel. Na sexta à noite, os seguidores do Judaísmo molham o pão do sabá em sal. Na liturgia católica, o sal do batismo é associado à longevidade e à vida eterna. Há indícios históricos de que esse ritual tenha raízes anteriores ao surgimento do Cristianismo. Em algumas regiões da Europa, já era hábito colocar sal na língua dos recém-nascidos com a intenção de purificar e proteger os bebês. Mas a importância do sal para os católicos extrapolou o âmbito ritual – o produto passou também a significar lucro. Na Idade Média, monastérios eram localizados ao lado de minas de sal. Sob a direção da Igreja, esse negócio espalhou-se pela Europa, sobretudo nos Alpes, na Baviera e na Áustria. Muitas cidades surgiram próximas de campos de extração salina – Roma é um exemplo. Já Veneza, que era um Estado independente e não produzia sal, deve boa parte da sua beleza aos lucros com a intermediação do comércio do produto. Outro centro urbano que prosperou graças ao negócio salineiro foi Salzburgo – em português, cidade do sal –, na Áustria. Nos arredores da cidade, há enormes jazidas de sal-gema que já eram exploradas pelos celtas na Idade do Ferro. E bem longe dali, na China, foi o dinheiro do sal que possibilitou ao governo construir a grande muralha.