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Biotecnologia APRESENTAÇÃO Embora a Biotecnologia seja considerada um tema atual, ela é utilizada há milênios, e vem evoluindo juntamente com a humanidade. Hoje, a Biotecnologia é considerada uma das ferramentas mais importantes para a sociedade, envolvendo várias áreas do conhecimento. Contudo, a engenharia genética tem sido uma das áreas que trouxeram maiores avanços para a biotecnologia, devido principalmente à manipulação de genes. Os processos biotecnológicos têm trazido vários benefícios para a sociedade, tais como a produção de alimentos, biofármacos, vacinas, antibióticos, medicamentos em geral, tratamentos terapêuticos, biopesticidas, biofertilizantes, entre outros. E até mesmo os processos biotecnológicos mais antigos como a fermentação, o papel dos microrganismos no tratamento de lixo e esgoto têm ganhado maior atenção. Esta disciplina tem como foco a assimilação dos principais conceitos e processos biotecnológicos. Como um roteiro a ser seguido, começaremos com uma Introdução à Biotecnologia, detalhando no andamento das explicações o impacto da Biotecnologia no meio ambiente, na indústria e na produção de alimentos, como também, na sociedade genética. APRESENTAÇÃO DO PROFESSOR Marlene Silva de Almeida Pereira é graduada em Ciências Biológicas e mestre em Ecologia. Iniciou na área ambiental como estagiária da Secretaria de Estado do Meio Ambiente de Mato Grosso, no setor de Recursos Pesqueiros, e posteriormente estagiou no Grupo de Investigação de Otólitos no Centro de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto, em Portugal. De volta a Mato Grosso trabalhou como Assessora em Educação Ambiental e foi membro do Conselho Estadual de Meio Ambiente e do Fórum de Mudanças Climáticas, ambos representando a Secretaria Estadual de Educação. Atualmente desenvolve pesquisas no Laboratório de Ictiologia da Universidade Federal de Sergipe. EMENTA: Conceitos; Produtos de origem biotecnológica; Processos Biotecnológicos: O impacto da Biotecnologia no meio ambiente, na indústria e na produção de alimentos; Biotecnologia e agricultura; Os novos alimentos; Biotecnologia e saúde; Bioética; Impacto da biotecnologia na sociedade; Impacto da biotecnologia na sociedade genética; Introdução à biotecnologia moderna. OBJETIVO: O objetivo desta disciplina é introduzir o conhecimento específico sobre o tema em questão, apresentando seus contextos históricos, processos biotecnológicos existentes e suas aplicações, além de trabalhar assuntos relacionados ao meio ambiente, a biossegurança e a bioética. HABILIDADES E ATITUDES ESPERADAS: Estudar processos biotecnológicos. Estudar a poluição e a contaminação do ar, da água e do solo por microrganismos. Saber reconhecer produtos de origem biotecnológica. Saber as diversas aplicações da biotecnologia. PÚBLICO-ALVO: Esta disciplina é destinada tanto para as pessoas que desejam se tornar profissionais da área ambiental, como para pessoas que apenas querem ampliar seus conhecimentos sobre “Biotecnologia”, sua origem, o funcionamento e aplicações no mercado. SUMÁRIO 1 - Introdução à Biotecnologia ................................................................................................... 2 1.1 – Conceitos ....................................................................................................................... 2 1.2 - Processos Históricos: da Biotecnologia Clássica para a Biotecnologia Moderna .......... 2 1.3 - Produtos e Serviços ........................................................................................................ 4 1.4 - Exercício Proposto .......................................................................................................... 5 2 – Microbiologia ....................................................................................................................... 7 2.1 - Marcos Históricos ........................................................................................................... 7 2.2 - Diversidade de Microrganimos ...................................................................................... 8 2.2.1 - Eubactérias ............................................................................................................... 8 2.2.2 – Arqueas ................................................................................................................... 9 2.2.3 - Protozoários ............................................................................................................. 9 2.2.4 - Algas ...................................................................................................................... 10 2.2.5 - Fungos .................................................................................................................... 11 2.2.6 - Vírus ....................................................................................................................... 11 2.3 - Exercício Proposto ........................................................................................................ 12 3 - Processos Fermentativos ..................................................................................................... 14 3.1 - Microrganismos Industriais .......................................................................................... 14 3.3 - Aspectos Bioquímicos .................................................................................................. 15 3.4 - Tipos de Processo Fermentativo de Acordo com o Metabolismo Realizado pelo Microrganismo ...................................................................................................................... 16 3.5 - Exercício Proposto ........................................................................................................ 18 4 - Genética ............................................................................................................................... 20 4.1 - Ácido Nucleico ............................................................................................................. 20 4.2 - O Fluxo da Informação Genética.................................................................................. 22 4.3 - Evolução Genética ........................................................................................................ 22 4.4 - Vantagens da Genética na Biotecnologia ..................................................................... 23 4.4.1 - Cultura de Tecidos Vegetais .................................................................................. 23 4.4.2 – Clonagem .............................................................................................................. 24 4.4.3 – Transgênicos ......................................................................................................... 24 4.4.4 - Células-Tronco ....................................................................................................... 24 4.5 - Exercício Proposto ........................................................................................................ 25 5 - Biotecnologia Industrial ...................................................................................................... 27 5.1 - Indústria Química e Biotecnologia ............................................................................... 27 5.2 - Exercício Proposto ........................................................................................................30 6 - Biotecnologia na Agricultura .............................................................................................. 32 6.1 – Modificação das Propriedades Agronômicas .............................................................. 32 6.2 - Microrganismos Endófitos no Controle de Doenças e Pragas em Plantas ................... 33 6.3 - Diagnóstico Molecular de Doenças em Plantas: Detecção de Fitopatógenos .............. 34 6.4 - Exercício Proposto ........................................................................................................ 36 7 - Biotecnologia na Pecuária ................................................................................................... 38 7.1 - Nutrição dos Animais ................................................................................................... 38 7.2 - O Controle da Reprodução ........................................................................................... 40 7.3 – Aquicultura .................................................................................................................. 42 7.4 - Exercício Proposto ........................................................................................................ 43 8 - Biotecnologia de Alimentos ................................................................................................ 45 8.1 – Pão ............................................................................................................................... 45 8.2 - O Vinho ........................................................................................................................ 45 8.3 - A Cerveja ...................................................................................................................... 46 8.4 – Laticínios ..................................................................................................................... 46 8.5 – Aditivos ........................................................................................................................ 47 8.6 - Novos Alimentos .......................................................................................................... 48 8.7 - Sucesso de um Processo Biotecnológico ...................................................................... 48 8.8 - Exercício Proposto ........................................................................................................ 49 9 - Biotecnologia Aplicada na Saúde ....................................................................................... 51 9.1 – Vacinas ......................................................................................................................... 51 9.2 - DNA Recombinante ..................................................................................................... 52 9.3 – Biofármacos ................................................................................................................. 53 9.4 - Terapia Gênica .............................................................................................................. 53 9.5 - Terapia Celular ............................................................................................................. 53 9.6 - Exercício Proposto ........................................................................................................ 54 10 - Biotecnologia e o Meio Ambiente .................................................................................... 56 10.1 - Tecnologia Enzimática ............................................................................................... 56 10.2 - Plásticos X Embalagens Biodegradáveis .................................................................... 56 10.3 - Indústria de Papel e Celulose ..................................................................................... 57 10.4 - Fertilizantes X Biofertilizantes ................................................................................... 57 10.5 - Controle Biológico ..................................................................................................... 59 10.6 - Biotecnologia Tradicional .......................................................................................... 59 10.7 - Riscos Ambientais ...................................................................................................... 60 10.8 - Exercício Proposto ...................................................................................................... 62 11 – Biossegurança ................................................................................................................... 64 11.1 - O Ambiente Laboratorial ............................................................................................ 65 11.1.1 - Organização das Atividades ................................................................................. 65 11.1.2 - Organização do Ambiente Laboratorial ............................................................... 65 11.1.3 - Emergência Laboratorial ...................................................................................... 65 11.2 - Prevenção de Incêndios em Áreas Críticas................................................................. 66 11.3 - Equipamentos de Proteção Individual (EPI) .............................................................. 67 11.4 - Equipamentos de Proteção Coletiva (EPC) ................................................................ 67 11.5 - Exercício Proposto ...................................................................................................... 69 12 – Bioética ............................................................................................................................. 71 12.1 - Princípio da Não Maleficência ................................................................................... 71 12.2 - O Princípio da Beneficência ....................................................................................... 71 12.3 - Princípio de Respeito à Autonomia ............................................................................ 72 12.4 - Princípio de Justiça ..................................................................................................... 72 12.5 – Atualidade .................................................................................................................. 73 12.6 - Exercício Proposto ...................................................................................................... 74 Bibliografia ............................................................................................................................... 75 Respostas dos Exercícios Propostos ......................................................................................... 78 1 Capítulo 1 Introdução à Biotecnologia 2 1 - INTRODUÇÃO À BIOTECNOLOGIA 1.1 – CONCEITOS A palavra Biotecnologia tem origem grega e é formada pela junção de duas palavras: Bio = vida + tecnologia = aplicação do conhecimento A definição de Biotecnologia foi proposta pela primeira vez pelo engenheiro agrícola húngaro Karl Ereky em 1919, como: “a ciência e os métodos que permitem a obtenção de produtos a partir de matéria-prima, mediante a intervenção de organismos vivos”. Essa definição se deu a partir de um grande experimento realizado em 1914, com a criação de suínos, que visava substituir as práticas tradicionais por uma indústria agrícola baseada no conhecimento científico. Entretanto, foi somente em 1992, na Convenção sobre Diversidade Biológica realizada pela Organização dasNações Unidas, ratificada por 168 países e aceita pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é que este termo se tornou amplamente conhecido, sendo definido como “qualquer aplicação tecnológica que utilize sistemas biológicos, organismos vivos, ou seus derivados, para criar ou modificar produtos ou processos para utilização específica”. A Biotecnologia envolve disciplinas de biologia, química e engenharia. Sendo assim, podemos dizer que toda atividade que aplique conhecimentos de fisiologia, bioquímica, engenharia bioquímica e genética molecular é considerada um processo biotecnológico. 1.2 - PROCESSOS HISTÓRICOS: DA BIOTECNOLOGIA CLÁSSICA PARA A BIOTECNOLOGIA MODERNA Ainda que o termo Biotecnologia tenha sido utilizado a partir do século XX, o conhecimento em si, remonta milênios. Desde a antiguidade, sumérios, babilônios (≈6.000 a.C.) e, posteriormente os egípcios (≈2.000 a.C.) utilizavam a atividade microbiana pelo processo de fermentação na preparação e conservação de bebidas e alimentos como vinho, vinagre, cerveja, pão e queijo. 3 A transformação do alimento, a domesticação de animais, o cultivo de vegetais ou até mesmo o ato de aproveitar das propriedades curativas de algumas plantas, se desenvolveram através do conhecimento empírico, ou seja, um conhecimento baseado apenas na experiência, sem caráter científico. Isso é o que chamamos de biotecnologia clássica ou tradicional. Outro uso interessante da biotecnologia tradicional foi realizado pelos chineses, há aproximadamente 100 anos depois de Cristo, utilizaram o pó de crisântemo como inseticida. Entretanto, foi somente em 1680 é que foram feitas as primeiras observações microscópicas de levedura, parte integrante no processo de produção de bebidas fermentadas. Essa descoberta foi feita pelo pesquisador Antonie Van Leeuwenhoek, que identificou a levedura como ser vivo. Em 1865, Gregor Mendel descobre a hereditariedade e se torna o pai da genética. Essa é uma das descobertas que mais contribuíram para a evolução do conhecimento e para a biotecnologia voltada à agricultura. Embora a levedura já tenha sido detectada como ser vivo. Foi através do cientista francês Louis Pasteur, em 1876, é que se descobriu que a causa da fermentação era microrganismos, derrubando assim a teoria da abiogênese. Essas descobertas o tornaram um dos principais fundadores da microbiologia. Em 1897, Eduard Buchner trouxe outra contribuição para a ciência de microrganismos com a descoberta que o processo de fermentação podia se dar na ausência de células vivas, triturando células de levedura e obtendo CO2 e etanol quando adicionasse glicose, frutose ou maltose. Essa experiência demostrou que a fermentação alcóolica se deve pela ação de enzimas e não simples ação fisiológica das células de levedura. A biotecnologia moderna começou desabrochar a partir da descoberta da penicilina por Alexander Fleming por volta de 1929, sobretudo em 1938 quando Florey e Chain conseguem transformá-la em antibiótico. Se por um lado, a descoberta do antibiótico favoreceu a biotecnologia através do estudo de biorreatores, por outro lado, outras indústrias como agroalimentares (fermentações) e indústrias farmacêuticas também evoluíram bastante. Dessa forma podemos dizer que as evoluções ocorreram nos diferentes setores industriais. Posteriormente, em 1944, Oswald Avery consegue provar que os genes e cromossomos são constituídos de DNA, e é este o responsável pela hereditariedade. Em 1953, Watson e Crick 4 edificaram a biologia molecular, quando revelaram a estrutura do DNA, demonstrando assim toda a complexidade do ser vivo. Mas foi em 1973, através de experimentos realizados por Stanley Cohen e Herbert Boyer, que conseguiram transferir um gene de sapo a uma bactéria, é que se deu o grande marco que divide a biotecnologia clássica da biotecnologia moderna. Aqui começou a manipulação genética. O DNA recombinante, isto é, uma sequência de DNA artificial que resulta da combinação de diferentes sequências de DNA que normalmente não ocorrem juntas, é uma técnica que envolve a criação sintética de organismos vivos com características não encontradas na natureza. Esta técnica surgiu a partir da engenharia genética e permite, por exemplo, o enxerto de genes humanos que determinam a produção de insulina em um microrganismo. Isso irá levar a uma produção industrializada da insulina humana, o que irá substituir a insulina bovina ou suína empregadas no tratamento de diabéticos. Em um contexto geral, a biotecnologia moderna engloba áreas de aplicações biológicas em saúde e biomedicina, na agricultura e na produção de insumos industriais, com uma intensa orientação multidisciplinar e experimental. Dentre as disciplinas que constituem as bases da biotecnologia estão: microbiologia, biologia molecular, bioquímica e engenharia bioquímica. 1.3 - PRODUTOS E SERVIÇOS Os produtos e serviços de origem biotecnológica possuem aplicações em diversos setores. Observe a tabela abaixo: Setor Produtos e serviços Agricultura Adubo composto, silagem, biofertilizantes, plantas transgênicas, etc. Alimentício Pão, queijo, iogurte, alimentos em conserva, cerveja, vinho, etc. Energético Biogás, bioetanol e outros combustíveis provindos de biomassa. Químico Vitaminas, butanol, acetona, polissacarídeos, acetona, enzimas, etc. Ambiental Biorremediação, tratamento de efluentes, etc. Pecuarista Animais transgênicos, embriões, vacinas, medicamento de uso veterinário. 5 Saúde Vacinas, hormônios, antibióticos, medicamentos, terapias gênica, etc. FICA A DICA A biotecnologia não se restringe apenas aos países desenvolvidos, estando inserida também em países em desenvolvimento, que em função de suas riquezas naturais podem ocupar lugar de destaque. Entretanto, para que haja um bom desenvolvimento da biotecnologia é preciso que existam prioridades econômicas e políticas claras, além de contar com instituições competentes que formem pesquisadores críticos e técnicos habilitados. Como exemplos temos a China e a Índia, que contam com uma indústria biotecnológica avançada e diversificada. A América Latina também não fica para trás, com empresas com biotecnologia avançada em vários setores como meio ambiente e indústria, agropecuária, saúde animal e humana. RECORDANDO A biotecnologia vem sendo utilizada desde a antiguidade, mesmo sem o conhecimento prévio do termo em si. A transição da biotecnologia clássica para a biotecnologia moderna foi gradual e teve como grande marco o uso da informação genética em animais e plantas. Como vimos, são vários os produtos e serviços oriundos da biotecnologia. Dessa forma, se torna inquestionável que a biotecnologia é uma das ferramentas de grande importância para beneficiar diferentes setores da sociedade. 1.4 - EXERCÍCIO PROPOSTO 1) Existem vários produtos e serviços de origem biotecnológica que possuem aplicações no setor alimentício. Cite os produtos que tiveram origem neste setor desde a antiguidade. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 6 Capítulo 2 Microbiologia 7 2 – MICROBIOLOGIA A microbiologia é o ramo da biologia que estuda os microrganismos. Microrganismos sãoorganismos microscópicos que vivem como células independentes ou como agregados celulares: bactérias, arqueas, protozoários, algas e fungos e vírus. Foi através de Antonie Van Leeuwenhoek (1632-1723), com o uso de um microscópio, que o mundo soube da existência desses microrganismos. 2.1 - MARCOS HISTÓRICOS Foi no século XIX que ocorreram grandes progressos na microbiologia, como a descoberta da função dos microrganismos nas transformações da matéria orgânica, o fim da teoria da abiogênese e a descoberta da função dos microrganismos na origem gênese das doenças. A partir de estudos sobre a fermentação foi possível verificar que a mesma é realizada por microrganismos (leveduras ou bactérias) que se multiplicam. Microrganismos diferentes correspondem a fermentações diferentes. Essas descobertas possibilitaram progressos na reparação de certos produtos (vinho, cerveja) e na prevenção de suas alterações. Importantes trabalhos realizados por Louis Pasteur rendem muitos serviços às destilarias, cervejarias e fábricas de vinagre. Pasteur deixou patente a presença de microrganismos na atmosfera, dando origem a prática da antissepsia cirúrgica e a assepsia nos prognósticos operatórios. Entretanto, a revolução da medicina se deu com a descoberta do papel dos microrganismos na origem das doenças, através de trabalhos realizados por Robert Koch (1843-1910) sobre a moléstia epidêmica do carbúnculo. Antes do fim do século XIX, Koch e sua escola identificaram os agentes das principais moléstias infecciosas. E então, a descoberta de Pasteur sobre a vacinação por germes atenuados, aplicada em grande escala na moléstia do carbúnculo, marcou o começo da prevenção das moléstias infecciosas. Com relação ao meio ambiente, os trabalhos de Sirgei Winogradsky (1856-1953) e Martinus Beijerinch (1851-1931) tiveram grande importância. Eles apresentaram o papel indispensável das bactérias na natureza, mostrando que inúmeros microrganismos participam fundamentalmente nos grandes ciclos biológicos naturais do carbono, do nitrogênio, do enxofre. Revelaram com isso que a reposição em circulação dos elementos químicos, bloqueados nos dejetos orgânicos e nos cadáveres vegetais ou animais, sob formas minerais 8 simples, assimiláveis pelas plantas, é indispensável à continuidade da vida sobre a terra. Dessa forma, a agricultura pode se beneficiar dos conhecimentos adquiridos em microbiologia. 2.2 - DIVERSIDADE DE MICRORGANIMOS Os modos de vida e as estruturas dos microrganismos são variados. Alguns são procariontes, como as bactérias; outros eucariontes, como os protozoários, as algas e os fungos. Alguns crescem na presença de oxigênio, os aeróbios; outros na ausência, os anaeróbios. Uns possuem formas livres, colonizando todos os ambientes terrestres. Mas há os que crescem à custa de outros seres vivos, onde encontram abrigo e alimento, que são os parasitas. 2.2.1 - EUBACTÉRIAS As eubactérias ou bactérias são organismos unicelulares procarióticos. Possuem um DNA cromossômico, e podem apresentar moléculas circulares extras de DNA denominadas plasmídeos. Multiplicam-se por bipartição, produzindo milhões de células em poucas horas, mas somente se as condições como umidade, acidez e temperatura forem favoráveis. Algumas espécies de bactérias também se reproduzem sexuadamente, o que possibilita a recombinação do material genético. Para as bactérias considera-se reprodução sexuada qualquer processo de transferência de fragmentos de DNA de uma célula para outra. Depois da transferência do DNA da bactéria doadora, esta se recombina com o da receptora, produzindo cromossomos com novas misturas de genes. Esses cromossomos recombinados serão transmitidos às células-filhas quando a bactéria se dividir. A coloração de Gram é uma técnica laboratorial que permite diferenciar as bactérias pela estrutura da parede celular. Elas podem ser Gram-positivas, cuja parede celular é mais simples, como, por exemplo, as bactérias com os gêneros Clostridium, Bacillus, Mycobacterium e os actinomicetes, como Streptomyces, produtora de antibióticos como a estreptomicina; ou Gram-negativas, onde encontramos os micoplasmas, Escherichia coli, uma colonizadora do trato digestivo de muitos organismos, Salmonella, um agente de muitas intoxicações alimentares, as cianobactérias fotossintéticas, os espiroquetas (Treponema pallidum e Borrelia burgdorferi, causadoras da sífilis e da doença de Lyme, respectivamente) e as clamídias (responsáveis por tracoma e uretrites). 9 Estima-se que as bactérias sejam responsáveis por aproximadamente metade das doenças humanas, sendo as Gram-negativas mais difíceis de tratar que as Gram-positivas devido a uma camada adicional na parede celular que as protege e dificulta a entrada de antibióticos. Vale ressaltar que nem todas as bactérias são patogênicas. Como falamos anteriormente, muitas delas participam na ciclagem de nutrientes, possibilitam o tratamento de resíduos e de águas servidas e, também, na eliminação de compostos recalcitrantes (biorremediação) e a extração de minérios (biolixívia), sendo fundamentais na manutenção da vida. Além disso, a fixação de nitrogênio e a produção de toxinas pesticidas ainda contribuem para melhorar as práticas agrícolas. Outro fator está nas propriedades metabólicas de algumas bactérias, que são utilizadas na produção de alimentos (laticínios, vinagre, picles e azeitonas), na indústria química (vitaminas, aminoácidos, acetona, butanol e plásticos biodegradáveis), e na indústria farmacêutica (vacinas, toxinas e antibióticos). 2.2.2 – ARQUEAS A principal diferença entre as arqueobactérias (arqueas) e as eubactérias está na estrutura da parede celular, além de alguns aspectos metabólicos relacionados com a síntese de proteínas que as aproximam dos eucariontes. Algumas vivem em habitats inóspitos, como as solfataras dos vulcões ou gêiseres, a temperaturas superiores a 60-80 o C (Costa Rica). Outras vivem em lagos com alta concentração de sal, como o Grande Lago Salgado (Estados Unidos) ou o Mar Morto (Israel). Alguns gêneros de arqueas possuem vias metabólicas peculiares que as tornam dependentes de enxofre ou produtoras de metano, e devido a estas propriedades são utilizadas em processos industriais que exijam condições ambientais extremas. 2.2.3 - PROTOZOÁRIOS São protistas unicelulares e eucarióticos. Podem ocorrer como células isoladas ou em colônias. Estão divididos em quatro grupos: ciliados, amebas (ou sarcodina), flagelados (ou mastigóforos) e esporozoários (protozoários parasitas). Em sua maioria, são desprovidos de clorofila, apesar de alguns apresentarem algas simbiontes, como é o caso de Paramecium bursaria. Uns possuem vidas livres em ambientes marinhos, de água doce, ou simplesmente muito úmidos. Outros são parasitas de outras espécies, causando doenças como Giárdia, 10 Amoeba, Trichomonas, Plasmodium, Toxoplasma, Leischmania, etc. Eles podem se locomover por meio de pseudópodos, flagelos ou cílios. É através da locomoção que identificamos os grupos de protozoários. Sua reprodução pode ser assexuada ou sexuada. No ponto de vista médico, são de extrema importância, pois sua caracterização molecular pode dar origem a testes diagnósticos e vacinas. 2.2.4 - ALGAS São organismos eucariontes fotossintetizantes, unicelulares ou pluricelulares. Apresentam variadas formas e podem se reproduz assexuada ou sexuadamente. As algas são abundantes tanto em águas doces quanto em águas salgadas. São encontradas na zona eufótica (com incidência de luz) dos corpos de água, já que necessitam da luz solar para realizar a fotossíntese. As algas sãoclassificadas de acordo com a sua estrutura e pigmentos. Por produzirem oxigênio (O2) e carboidratos, a partir de dióxido de carbono (CO2), são muito importantes na cadeia alimentar aquática. Dentro da microbiologia, As algas consideradas unicelulares são chamadas de microalgas. As microalgas perfazem aproximadamente cinquenta espécies de microrganismos fotossintéticos, tanto eucariontes (diatomáceas, dinoflagelados, euglenoides e outras algas verdes) como procariontes (cianobactérias, antigamente algas azuis esverdeadas). A proliferação de microalgas como florações na natureza (marés vermelhas) ou em reservatórios geralmente é por causa da eutrofização das águas, causando a morte de outros organismos, se tornando mais perigosa quando acompanhada pela liberação de toxinas. Contudo, em alguns sistemas de tratamento de efluentes as microalgas são incorporadas nos tanques no intuído de remover nutrientes inorgânicos e adicionar oxigênio. Além disso, as algas também são muito utilizadas como indicadores de poluição. Há ainda outros fatores positivos como: a utilização de algumas algas na alimentação animal como ração para a avicultura e a aquicultura; que determinadas substâncias que elas sintetizam são incluídas na alimentação humana como complementos nutricionais e substitutos proteicos, como aminoácidos, ácidos graxos e vitaminas (B12, β-caroteno ou provitamina A); e ainda a sua utilização na formulação de cosméticos e na indústria farmacêutica. 11 2.2.5 - FUNGOS Os fungos são organismos eucarióticos, unicelulares ou pluricelulares, que possuem uma parede celular formada por quitina. São heterótrofos e podem se reproduzir sexuada ou assexuadamente. A maioria dos fungos são saprófitos, ou seja, se alimentam da matéria orgânica de vegetais e animais mortos. Podem ser parasitas, vivendo à custa de outro ser vivo prejudicando-o ou matando-o; ou mutualistas, ou seja, estar associados a outros seres onde ambos se beneficiam. A este grupo pertencem organismos de dimensões consideráveis, como os cogumelos, mas também muitas formas microscópicas, como bolores e leveduras. Alguns fungos trazem prejuízos para a agricultura, que são pragas como a ferrugem do café, o esporão do centeio e a vassoura-de-bruxa afetam gravemente a agricultura. Agora iremos falar de alguns fungos de importância econômica: o levedo de cerveja (levedura) Saccharomyces cerevisiae, utilizado tradicionalmente na preparação de alimentos e de bebidas, na produção de etanol, vitaminas e outros metabólitos. Mediante técnicas de engenharia genética, esta levedura produz uma vacina contra a hepatite B. Vale ressaltar aqui que nem todas as leveduras são benéficas. Um exemplo está na Candida albicans, que é um microrganismo oportunista da flora normal humana que, em certas condições, pode proliferar de maneira anormal, tornando-se patogênica. Outro fungo de grande importância econômica é o Penicillium, utilizado na indústria farmacêutica, para a produção de penicilina, e outras na indústria de alimentos, para a maturação de queijos como o Roquefort, o Gorgonzola e o Camembert. 2.2.6 - VÍRUS Os vírus são seres muito pequenos e de estrutura simples, formados basicamente por uma cápsula proteica envolvendo o material genético, um ácido nucleico, que pode ser o DNA, o RNA ou ambos. Estão entre o limite do “vivo” e o “não vivo”. São parasitas obrigatórios, podendo parasitar bactérias, vegetais ou animais. Quando o vírus infecta uma célula viva, passa a utilizá-la para sua própria reprodução. Os vírus são causadores de várias doenças humanas como o HIV, poliovírus, o coronavírus responsável pela SAR (Síndrome Aguda Respiratória), etc. As células animais normais, quando infectadas por determinados vírus, se transformam em células cancerosas. 12 Entretanto, vírus que infectam insetos podem ser utilizados no controle de pragas. Um exemplo disso é o Baculovírus, que atua contra a lagarta da soja e evita a aplicação de 1,2 milhão de litros de inseticidas por ano nas lavouras brasileiras. FICA A DICA A identificação e classificação correta de microrganismos são fundamentais tanto para o aspecto clínico, como na fitopatologia, biotecnologia e estudos ambientais. Existem vários métodos usados na discriminação de géneros, espécies e estirpes de microrganismos, podendo ser divididos em métodos fenotípicos e genotípicos. Os métodos fenotípicos baseiam-se em fenômenos bioquímicos, fisiológicos e biológicos, enquanto os métodos genotípicos detectam polimorfismos ao nível dos ácidos nucleicos, ou variação alélica ao nível de enzimas. A tipagem de microrganismos é a capacidade de identificar os microrganismos ao nível de espécie, e de discriminar entre indivíduos da mesma espécie, atualmente grandes avanços têm sido alcançados por uma série de novos métodos que fazem uso da variação encontrada no DNA destes microrganismos. RECORDANDO A microbiologia é a ciência que estuda os microrganismos. Microrganismos são organismos vistos apenas com o uso de microscópio, que vivem como células independentes ou como agregados celulares. São eles: bactérias, arqueas, protozoários, algas e fungos e vírus. A microbiologia teve alguns marcos importantes, como a descoberta dos microrganismos por Leeuwenhoek; a descoberta de Pasteur sobre a fermentação ser um processo realizado por microrganismos; e ainda a descoberta do papel dos microrganismos na origem das doenças, através do trabalho de Koch. 2.3 - EXERCÍCIO PROPOSTO 1) Quais são os grupos aos quais os microrganismos pertencem? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 13 Capítulo 3 Processos Fermentativos 14 3 - PROCESSOS FERMENTATIVOS Desde o início das civilizações, o homem vem utilizando as fermentações para a produção de bens de consumo, mesmo sem ter consciência disso. Depois veio a produção de vinhos e cervejas em grande escala, sendo então o primeiro processo fermentativo desenvolvido para a indústria. O trabalho de Louis Pasteur, na segunda metade do século XIX, demonstrou que os processos fermentativos se devem à ação de microrganismos. A partir daí houve um rápido crescimento do conhecimento sobre fermentações, sendo então conduzidas e estudadas de forma científica. Já no século XX, numerosos processos fermentativos industriais foram introduzidos ou até mesmo aperfeiçoados, aproveitando a potencialidade de matérias-primas renováveis para a aquisição de produtos químicos, combustíveis, alimentos, bioinseticidas, biofertilizantes, fármacos, enzimas, entre outros. Em meio a essas matérias-primas, os resíduos agrícolas e agroindustriais apresentaram um papel fundamental, com vários processos fermentativos sendo realizados com base em materiais como, o caldo e melaço de cana-de-açúcar, farelos de soja, trigo, milho, aveia e arroz, resíduos celulósicos e da indústria de papel. 3.1 - MICRORGANISMOS INDUSTRIAIS Os microrganismos mais utilizados na aplicação industrial em processos fermentativos são as bactérias, os bolores ou fungos filamentosos e as leveduras ou fungos unicelulares. Contudo, para a efetivação de um processo fermentativo é fundamental que sejam respeitadas as características do agente fermentativo. Para cada grupo, gênero, espécie e linhagem há um tipo de meio de cultura,tanto em termos de crescimento quanto de formação de produtos. Geralmente, esses meios contêm fontes de carbono (carboidratos, aminoácidos, proteínas), de nitrogênio (sais de amônio, nitratos, ureia, aminoácidos), de enxofre (sulfatos, aminoácidos sulfurados), de fósforo (fosfatos), de elementos metálicos (sódio, potássio, cálcio, magnésio, manganês, ferro, zinco, cobre, cobalto) e de vitaminas. As condições ambientais adequadas são de suma importância para os resultados do processo fermentativo. Dentre as condições ambientais mais importantes podem ser citadas: 15 Temperatura: dependendo da sua temperatura ideal de crescimento, os microrganismos podem ser classificados em psicrófilos (temperatura ideal até 25 o C), mesófilos (temperatura ideal entre 25 o C e 40 o C) e termófilos (temperatura ideal acima de 40 o C). Oxigênio: os microrganismos podem ser classificados como aeróbios (dependem da presença do oxigênio), anaeróbios estritos (exigem a completa ausência de oxigênio), anaeróbios facultativos (desenvolvem-se bem em aerobiose e em anaerobiose), microaerófilos (necessitam de quantidades mínimas de oxigênio) e aerotolerantes (suportam a presença de oxigênio, embora se desenvolvam melhor em anaerobiose). pH: em geral, as bactérias preferem ambientes com pH entre 6 a 8, e as leveduras se desenvolvem bem com o pH entre 4 e 6, enquanto que os fungos filamentosos admitem uma ampla faixa que vai de 3 a 8. Outros parâmetros como o crescimento microbiano e a formação de produtos podem ser fortemente influenciados pela presença de substâncias no meio. Substâncias tóxicas para as células, presentes no meio de cultura, podem reduzir a atividade microbiana ou mesmo a morte dos microrganismos. Os componentes dos meios de cultura, por exemplo, em altas concentrações, podem ter uma ação tóxica sobre os microrganismos. Quando essa ação é produzida pelo substrato energético, em geral, a fonte de carbono, o fenômeno é chamado de inibição pelo substrato. Entretanto, os produtos de fermentação também podem inibir a atividade microbiana, ocorrendo, no caso, inibição pelo produto. Os microrganismos devem apresentar algumas características para serem utilizados na obtenção de produtos de interesse industrial, como: facilidade de manutenção e reprodução; bom crescimento em meios compatíveis com o valor do produto; capacidade de formação de produto com concentração, rendimento e produtividade elevados; não ser patogênico e ter estabilidade genética. 3.3 - ASPECTOS BIOQUÍMICOS O que é metabolismo? 16 O metabolismo pode ser entendido como o conjunto de reações químicas que ocorrem dentro da célula, podendo ser dividido em dois grupos: Catabolismo ou desassimilação: tem como finalidade a produção de energia, ocorrendo a degradação de substâncias mais complexas para formar outras mais simples. Anabolismo ou assimilação: utiliza a energia produzida no catabolismo para a biossíntese de moléculas mais complexas responsáveis pela reprodução e demais atividades da célula. De uma maneira geral, os microrganismos são capazes de adquirir energia para se o seu desenvolvimento e manutenção a partir de diferentes fontes, como carboidratos, proteínas e, em alguns casos, substâncias inorgânicas. Como vimos anteriormente, nas vias catabólicas, a degradação de compostos orgânicos em moléculas menores libera energia. Parte desta energia será acumulada sob a forma de ATP (trifosfato de adenosina), e a parte restante será dissipado em forma de calor. Dessa forma, a fermentação, por um aspecto bioquímico, é um processo de degradação do substrato, efetuado pela célula microbiana, a fim de produzir energia (ATP), que ocorre na ausência de oxigênio. Esse tipo de via bioquímica é característica de microrganismos anaeróbicos ou anaeróbios facultativos. Como exemplos desse tipo de processo temos a produção de acetona e butanol pela bactéria anaeróbia Clostridium acetobutylicum e a produção de etanol pela levedura anaeróbia facultativa Saccharomyces cerevisiae. Entretanto, no aspecto industrial, a definição de fermentação é caracterizada como qualquer transformação intermediada por um microrganismo através de uma sequência de reações bioquímicas. Sendo assim, as transformações envolvendo respiração microbiana, biossíntese, fotossíntese e respiração com substratos inorgânicos também são considerados processos fermentativos. Abaixo estão apresentados alguns exemplos de processos fermentativos de acordo com o metabolismo de cada microrganismo. 3.4 - TIPOS DE PROCESSO FERMENTATIVO DE ACORDO COM O METABOLISMO REALIZADO PELO MICRORGANISMO Tipos de metabolismo Descrição Exemplos Fermentação Produção de energia por reações de oxirredução Acetona, butano, etanol, ácido láctico, 2,3-butanodiol. 17 envolvendo substâncias orgânicas. Respiração Maximização da produção de energia, via respiração, favorecendo crescimento celular. Biomassa proteica de fungos, fermento de panificação. Biossíntese Produtos finais do anabolismo. Vitaminas, antibióticos, enzimas e outras proteínas, polissacarídeos e aminoácidos. Fotossíntese Conversão de energia luminosa em energia química. Biomassa proteica de algas unicelulares. Respiração com redutores inorgânicos Produção de energia química com doadores inorgânicos de elétrons. Biogás, lixiviação microbiológica de minérios. Vale ressaltar que atualmente as fermentações encontram novas aplicações em diversas áreas como: na produção de alimentos e aditivos, na produção de produtos químicos e medicamentos e também no tratamento ambiental. FICA A DICA Considerando os processos em que um produto do metabolismo microbiano é o composto de interesse, podemos classificar esses metabolismos em dois tipos: primário e secundário. O metabolismo primário está associado ao crescimento dos microrganismos e a transformação de nutrientes em biomassa, sendo os principais exemplos o etanol, o ácido láctico ou os aminoácidos. Já os metabólitos secundários permitem a sobrevivência em ambientes extremamente competitivos que contam com nutrientes escassos, embora não sejam necessários ao metabolismo microbiano. Alguns exemplos de metabolismos secundários são os antibióticos, os alcaloides, os pigmentos, algumas enzimas e toxinas. RECORDANDO Os processos fermentativos vêm sendo utilizado pelo homem desde os primórdios da civilização. Mas foi a partir do trabalho realizado por Pasteur, na segunda metade do século 18 XIX é que a fermentação se tornou amplamente conhecida. A partir disso, foi possível sua utilização na produção industrial para a obtenção de vários produtos como: produtos químicos, combustíveis, alimentos, bioinseticidas, biofertilizantes, fármacos, enzimas, entre outros. Os tipos de processos fermentativos irão depender do tipo de metabolismo produzido por cada microrganismo. 3.5 - EXERCÍCIO PROPOSTO 1) O que é metabolismo? Quais os grupos existentes? Explique-os. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 19 Capítulo 4 Genética 20 4 - GENÉTICA 4.1 - ÁCIDO NUCLEICO Ácidos nucleicos são macromoléculasformadas por nucleotídeos. Cada nucleotídeo é formado por um açúcar do grupo das pentoses (ribose ou desoxirribose), uma molécula de ácido fosfórico e uma base nitrogenada. Existem dois tipos de ácido nucleico: o ácido desoxirribonucleico (DNA) e o ácido ribonucleico (RNA). O ácido desoxirribonucleico (DNA) carrega em sua estrutura as informações genéticas necessárias para o desenvolvimento e funcionamento de um organismo, incluindo suas características bioquímicas, fisiológicas, anatômicas e comportamentais É formado por nucleotídeos compostos de um fosfato, uma pentose (desoxirribose) e uma base nitrogenada, que podem ser adenina, timina, guanina ou citosina. Em 1953, Watson e Crick formularam um modelo de estrutura tridimensional do DNA, se tornando um marco para a biologia molecular. Esse modelo é apresentado por duas cadeias de nucleotídeos que aparentam uma escada de corda torcida, chamado de dupla hélice. Nessa escada, o ácido fosfórico e o açúcar são as partes verticais (corrimãos) e as bases nitrogenadas são os degraus. As cadeias são antiparalelas, com uma correndo na direção 5’ – 3’ a outra na direção 3’ – 5’. Ambas as cadeias estão unidas por pontes de hidrogênio entre as bases, sendo que as ligações ocorrem sempre entre adenina e timina (2 pontes) e entre citosina e guanina (3 pontes). O processo de autoduplicação (replicação) do DNA permite que cada célula receba uma cópia do material genético, contendo as informações necessárias para a formação e funcionamento do indivíduo. Primeiramente, uma enzima chamada helicase promove a abertura da fita de DNA, transformando-as em duas fitas. Então, cada uma destas fitas irá servir de molde para a construção de uma nova fita de DNA, que irá conservar uma parte do DNA antigo. 21 Entretanto, para o funcionamento de uma célula são necessários dois tipos de moléculas: os ácidos nucleicos e as proteínas. É aí que entra o RNA. O RNA está envolvido no processo de fabricação de proteína. Ele é formado por nucleotídeos compostos de um fosfato, uma pentose (ribose) e uma base nitrogenada, que podem ser uracila, adenina, guanina ou citosina. Os principais tipos de RNA são: RNA ribossômico (RNAr): o RNA ribossômico participa na produção de ribossomos, que por sua vez produzem proteínas. RNA transportador (RNAt): este RNA transporta os aminoácidos até os ribossomos para a produção das proteínas. RNA mensageiro (RNAm): O RNA mensageiro possui as informações para a síntese do RNA. Ele possui as trincas de bases nitrogenadas que definem os aminoácidos. Vou explicar de uma forma bem superficial e simples. O processo de formação de uma molécula de RNA a partir de uma molécula de DNA é chamado de transcrição. As proteínas são sintetizadas por comandos do RNA, e este processo é chamado de tradução, ou seja, consiste na transformação da mensagem contida no RNAm na sequência de aminoácidos que constituem a proteína. O RNA não possui a base nitrogenada timina, em seu lugar está presente a uracila, isto é, quando ocorre a produção do RNA e encontra-se a adenina na fita de DNA, transcreve-se uracila. http://www.sobiologia.com.br/ 22 4.2 - O FLUXO DA INFORMAÇÃO GENÉTICA 4.3 - EVOLUÇÃO GENÉTICA Com a descoberta da estrutura do DNA foi possível sugerir o reconhecimento específico do material genético. Após a desnaturação do DNA pelo calor, no início dos anos 1960, foi comprovado que o resfriamento sucessivo permitia a recuperação das moléculas de dupla hélice. Outra descoberta foi que quando moléculas híbridas são formadas utilizando DNA de diferentes organismos, o grau de reassociação da dupla hélice irá depender diretamente do grau de proximidade entre os organismos dos quais foi extraído o DNA. A formação de cadeias híbridas ocorre entre fitas simples de ácidos nucleicos (DNA:RNA, RNA:RNA e DNA:DNA), desde que suas sequências nucleotídicas sejam complementares. Essa metodologia, denominada hibridização de ácidos nucleicos, foi muito utilizada para auxiliar na taxonomia de bactérias e de outros microrganismos. Ainda em 1960, Kornberg isolou e caracterizou a DNA polimerase, enzima essencial nos processos de duplicação de DNA dos organismos. A partir desse isolamento foi possível desenvolver a síntese in vitro de cadeias de DNA marcadas com radioisótopos, muito utilizadas nas chamadas de sondas em reações de hibridização de ácidos nucleicos. Posteriormente, foram desenvolvidas as metodologias de marcação não radioativas. Malajovich, 2012 23 Outro progresso na ciência veio com a técnica do DNA recombinante, que consiste numa sequência de DNA artificial, resultante da combinação de diferentes sequências de DNA. A evolução dessa técnica trouxe várias técnicas de hibridização para a detecção de sequências de DNA e RNA. Vou destacar aqui a técnica chamada de Southern blot, descrita em 1975 por Edwin Mellor Southern, sendo muito empregada até hoje. Essa técnica possibilita avaliar variações específicas de genomas de diferentes organismos e tem sido utilizada para diagnosticar doenças genéticas. Os avanços nos estudos da química orgânica permitiram a síntese química de oligonucleotídeos, o que possibilitou a difusão do uso de sondas em ensaios de hibridização. Nos dias de hoje, a síntese de oligonucleotídeos de DNA e RNA se desenvolve em máquinas automatizadas (sintetizadores) capazes de construir, em questão de minutos, moléculas com dezenas de pares de bases. Em poucos anos, o sequenciamento de DNA e a síntese de oligonucleotídeos começaram a ser realizados de forma rotineira nos laboratórios de pesquisa, e sistemas in vitro funcionavam com alta eficiência para síntese de DNA. Esses ingredientes básicos permitiram a idealização da reação em cadeia de polimerase (Polymerase Chain Reaction - PCR). A PCR é uma técnica revolucionária que possibilita a ampliação in vitro de ácidos nucleicos, permitindo assim obter milhões de cópias de DNA em poucas horas. A chegada da PCR acelerou os estudos de genomas de vários organismos, pois facilitou a clonagem e o sequenciamento de DNA. 4.4 - VANTAGENS DA GENÉTICA NA BIOTECNOLOGIA 4.4.1 - CULTURA DE TECIDOS VEGETAIS Fundamenta-se na capacidade de uma planta em dar origem a uma nova planta a partir de qualquer parte dela, por meio da ativação e da repressão de genes. Isto se chama totipotência celular. Esta técnica é utilizada para obter plantas livres de doenças; aumentar a quantidade de plantas; conseguir híbridos que não podem ser obtidos através da polinização natural; fundir células de origens diferentes; preservar banco de germoplasma; obter plantas haploides, ou seja, com metade do número de cromossomos da espécie; obter variantes somaclonais, isto é, plantas que sofrem mutações espontâneas; entre outras finalidades. 24 4.4.2 – CLONAGEM Consiste em um método de reprodução assexuada, que tem como resultado cópias geneticamente idênticas de um mesmo indivíduo, seja microrganismo, vegetal ou animal. 4.4.3 – TRANSGÊNICOS Os transgênicos são os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), ou seja, organismos que tiveram genes de outro ser vivo inseridos em seu código genético. Esses genes inseridos contêm as características desejadas para o organismo que os recebeu. 4.4.4 - CÉLULAS-TRONCO As células-tronco são células primitivas, produzidas durante o desenvolvimento do organismo e que dão origem a outros tipos de células, pois possuem capacidade de autorreplicação, ou seja, são capazes de gerar uma cópia idêntica de si mesma e de se diferenciarem em vários tecidos. Elas se apresentam em diversos tipos,entretanto, os cientistas trabalham basicamente com as células-tronco totipotentes. Esse tipo de célula-tronco são células embrionárias, podendo originar diversos tipos de células. São bastante utilizadas no tratamento de doenças como o câncer, mal de Alzheimer, osteoporose, problemas do coração e cegueira. FICA A DICA Não são apenas os países desenvolvidos que possuem progressos na engenharia genética. Diversos países da América Latina (Argentina, Brasil, Chile e México) possuem projetos com parceria entre instituições públicas e privadas, beneficiados por acordos internacionais com países desenvolvidos (Estados Unidos, França, Alemanha) ou por redes de cooperação inter- regionais (Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai). O Brasil, pioneiro na ciência genômica, apresenta resultados positivos em várias áreas como: saúde humana, saúde animal, pecuária, agricultura e indústria. RECORDANDO Ácidos nucleicos são macromoléculas formadas por nucleotídeos. Cada nucleotídeo é formado por um açúcar do grupo das pentoses (ribose ou desoxirribose), uma molécula de 25 ácido fosfórico e uma base nitrogenada. Existem dois tipos de ácido nucleico: o ácido desoxirribonucleico (DNA) que é o responsável pelas informações genéticas necessárias para o desenvolvimento e funcionamento de um organismo; e o ácido ribonucleico (RNA), responsável pela fabricação de proteínas. A evolução da genética trouxe muitas vantagens para a biotecnologia, como a cultura de tecidos, clonagem, transgênicos, células-tronco, entre outros. 4.5 - EXERCÍCIO PROPOSTO 1) Como são formados o DNA e o RNA? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 26 Capítulo 5 Biotecnologia Industrial 27 5 - BIOTECNOLOGIA INDUSTRIAL O primeiro processo fermentativo industrial a se desenvolver em condições assépticas ficou conhecido como processo Weizmann, sendo considerado um marco histórico na biotecnologia industrial. No século XIX, a borracha natural se tornou muito procurada devido ao crescimento da indústria automotora por sua elasticidade e resistência. Dessa forma, tanto pela dificuldade de encontrar o produto, como também pelo aumento do seu preço, sentiu-se a necessidade de se fabricar uma borracha sintética. Por um lado, a Alemanha tentava sintetizar a borracha a partir de um derivado do petróleo (butadieno), por outro, a Inglaterra explorava as possibilidades através da sintetização de moléculas por meio da fermentação. Foi assim que na Universidade de Manchester, em 1914, que o químico russo Chaim Weizmann desenvolveu um processo fermentativo no qual a bactéria Clostridium acetobutilycum produzia butanol (um precursor do butadieno) e acetona. A partir daí, e com o início da Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra desviou sua atenção para a fabricação de explosivos e, principalmente de uma pólvora à base de nitrocelulose, cuja preparação utiliza-se acetona como solvente. E foi assim, através da produção de acetona por via química, que a Inglaterra iniciou sua exploração na biotecnologia. 5.1 - INDÚSTRIA QUÍMICA E BIOTECNOLOGIA A indústria química é caracterizada por fabricar substâncias para atender outras indústrias. Algumas empresas sintetizam os derivados petroquímicos básicos (etileno, propileno, butadieno), outras, os transformam EM petroquímicos finais: polietileno (PE), polipropileno (PP), policloreto de vinil (PVC), poliésteres e óxido de etileno. Ainda há um terceiro grupo que converterá esses materiais em objetos de consumo para o nosso dia a dia, como filmes, recipientes, objetos diversos, etc. Já a Biotecnologia Industrial se ocupa da experimentação e do desenvolvimento de processos biotecnológicos apropriados ou com potencial de agir economicamente em escala industrial, transformando a biomassa, que além de ser um recurso renovável, com menor custo competitivo, possui menor impacto ambiental. As condições necessárias para isso se encontram na obtenção de numerosas moléculas de interesse industrial a partir de milho, de óleos vegetais ou de madeira. 28 A Biotecnologia Industrial tem base na microbiologia, nas fermentações e na biocatálise, recebendo o impacto da biotecnologia moderna (genômica, engenharia metabólica, engenharia genética), que traz novas perspectivas para o melhoramento de linhagens microbianas e de variedades vegetais. A utilização de transgênicos permite o melhoramento de processos produtivos, além de novos produtos, mas é preciso ter em conta a segurança nesses processos, já que as características metabólicas de linhagens industriais estão alteradas a ponto de crescerem em condições artificiais muito rigorosas, o que as torna incapazes de sobreviver fora do laboratório ou, ainda, competir com os microrganismos do ambiente. Os produtos obtidos pela biotecnologia podem ser: Material celular (geralmente denominado biomassa). Produtos de baixo peso molecular (como o etanol e os ácidos orgânicos). Metabólitos de alto peso molecular (como as gomas, polímeros). Metabólitos complexos (por exemplo, vitaminas e antibióticos). Peptídeos biologicamente ativos e proteínas. Determinados processos biotecnológicos originam substâncias em pequenas quantidades (volume baixo), mas que serão vendidas a um alto preço. Geralmente são metabólitos secundários cuja produção demanda grandes investimentos, tecnologia avançada e mão de obra altamente qualificada. Entram nesta categoria, denominada química fina, os produtos farmacêuticos e agrícolas, alguns aditivos alimentares, os aminoácidos, as vitaminas e as enzimas. Entretanto, alguns processos tecnológicos se aplicam a substâncias fabricadas em grandes quantidades (volume alto), que demandam investimentos menores e operações mais simples. Entre estes produtos, de valor intermediário, estão os metabólitos primários, tais como alguns solventes, ácidos orgânicos e polímeros. Há ainda o caso de substâncias produzidas em grandes quantidades e com baixo valor, como os biocombustíveis líquidos (etanol, biodiesel) ou gasosos (biogás). 29 A tabela abaixo mostra alguns produtos provenientes de processos biológicos de acordo com seus segmentos industriais. Segmento industrial Atividades Industriais Químico Granel Solventes, ácidos orgânicos. Especialidades Enzimas, polímeros, proteínas. Farmacêutico Antibiótico, esteroides, imunobiológicos. Alimentos Aminoácidos, vitaminas, aditivos, amidos modificados, bebidas, fermentos biológicos, xaropes de glicose e frutose, vinagre. Energia Etanol, metano, biogás, biomassa. Agricultura Rações, pesticidas, inoculantes. A maioria dos produtos e bens consumidos pelo homem é advinda de processos industriais que envolvem reações químicas. Contudo, muitas dessas reações, que são catalisadas por catalisadores químicos podem ser substituídos por enzimas. As enzimas são moléculas capazes de acelerar os processos químicos, trazendo grandes vantagens frente aos catalisadores químicos, principalmente por serem ecologicamente mais viáveis. Um exemplo disso é a utilização de enzimas produzidas por bactérias geneticamente modificadas no sabão em pó, que tem como função degradar a gordura dos tecidos e resistir aos processos de lavagem.Graças aos avanços tecnológicos, cada dia mais presenciamos processos industriais utilizando enzimas como catalisadores, dentre as quais se destacam enzimas na área de alimentos, saúde humana e animal e bens como papel e indústria têxtil. FICA A DICA Um exemplo do progresso da Biotecnologia Industrial está na conquista por cientistas americanos em modificar geneticamente bichos-da-seda para fazê-los produzir teia de aranha, um material conhecido por sua resistência e elasticidade excepcionais. Esta técnica abre caminhos para a produção industrial desta fibra, até agora restrita a laboratórios e em quantidades muito pequenas. Estas fibras são muito úteis nas aplicações biomédicas, como fios de sutura mais finos ou fibras para substituir ou reparar tendões e ligamentos rompidos. Além disso, podem ser utilizadas na fabricação de tecidos mais leves e resistentes. A reportagem inteira encontra-se no site abaixo: 30 http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/807735-cientistas-criam-bicho-da-seda-transgenico- que-produz-teia-de-aranha.shtml. RECORDANDO A Biotecnologia Industrial se ocupa da experimentação e do desenvolvimento de processos biotecnológicos apropriados ou com potencial de agir economicamente em escala industrial e traz grandes avanços frente à indústria química. É uma grande promessa para a resolução de desafios globais, pois oferece novas estratégias para o atendimento da demanda mundial por alimentos, nutrição animal, combustível, materiais de consumos em geral, de uma forma mais barata e menos impactante para o ambiente. 5.2 - EXERCÍCIO PROPOSTO 1) Quais as maiores vantagens de se substituir a Indústria Química por uma Indústria Biotecnológica? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 31 Capítulo 6 Biotecnologia na Agricultura 32 6 - BIOTECNOLOGIA NA AGRICULTURA Ao longo dos anos, a biotecnologia vem se desenvolvendo e com ela alternativas para aumentar a produtividade de plantas e animais e torná-los mais resistentes a fatores ambientais. Após a descoberta da hereditariedade por Gregor Mendel em 1865, novas e grandes descobertas como a heterose, a mutagênese, a genética quantitativa, avanços na fisiologia e bioquímica, a cultura de tecidos, a bioinformática e os avanços na genética e biologia molecular tiveram influência direta e muito positiva no melhoramento de plantas. Inúmeras tecnologias baseadas na manipulação do DNA foram surgindo através da engenharia genética. Essas tecnologias rompem a barreira de cruzamentos entre diferentes espécies estabelecidas pela compatibilidade sexual. A partir da engenharia genética é possível transferir, para plantas, genes isolados de plantas de outras espécies ou mesmo de microrganismos e animais, aumentando o conjunto gênico disponível para cada programa de melhoramento. Essas plantas apresentam caracteres, inseridos como transgenes, que visam modificar suas propriedades agronômicas e/ou melhorar suas qualidades nutricionais, industriais ou ambientais. Entretanto, há uma grande preocupação da sociedade: Será que essas plantas não podem se tornarem pragas após serem introduzidas em um ambiente novo? Isso já ocorreu com a introdução de algumas plantas ornamentais: a lantana prolifera descontroladamente na Austrália; o kudzu, procedente do Japão, se espalha no sul dos Estados Unidos; e o rododendro, originário da península ibérica, se multiplica na Inglaterra. Com o objetivo de reduzir esse risco, a FAO (Food and Agriculture Organization) estabeleceu uma série de diretrizes, cumpridas em 130 países, que se aplicam também a insetos, bactérias e fungos. E até agora, nenhum dos cultivos biotecnológicos disponíveis no mercado se mostrou persistente ou invasor nos testes prévios a sua comercialização ou no monitoramento posterior. 6.1 - MODIFICAÇÃO DAS PROPRIEDADES AGRONÔMICAS No comércio de transgênicos, os principais cultivos são a soja, a canola, o milho e o algodão, sendo a tolerância a herbicidas, a resistência a insetos, a resistência a vírus, o amadurecimento 33 tardio, o conteúdo e a qualidade do óleo, a tolerância à seca e à salinidade as propriedades agronômicas mais transformadas. A tecnologia proporciona também um aumento da produtividade dos cultivos, o que é necessário, pois significa um aumento da produção de alimentos. 6.2 - MICRORGANISMOS ENDÓFITOS NO CONTROLE DE DOENÇAS E PRAGAS EM PLANTAS O combate contra os insetos na agricultura ou como vetores de doenças, em sua maioria é realizado por produtos químicos. Acontece que o uso desses inseticidas vem causando danos tanto ao homem quanto ao meio ambiente, atingindo inimigos naturais, contaminando alimentos, solo, água e favorecendo a rápida seleção de insetos resistentes. Uma alternativa ao controle químico é o controle biológico. O controle biológico consiste no controle de pragas por meio de inimigos naturais como bactérias, fungos, vírus e outros organismos, que são os organismos que mantêm os níveis de população dessas pragas em equilíbrio. Se formos ver, o mercado mundial de biopesticidas não chega a representar 5% do mercado de pesticidas. Contudo, a utilização de produtos biológicos vem crescendo anualmente dez vezes mais quando comparado aos produtos químicos. A preocupação com a saúde das populações e com o meio ambiente fez com que houvesse a necessidade de se reduzir o consumo de agroquímicos, e isso tem aumentado o interesse por estratégias de controle biológico de pragas e de doenças de inúmeras espécies cultivadas. Esse controle pode ser feito alterando as condições ambientais que possibilitam o aparecimento da praga ou doença, ou utilizando microrganismos com propriedades antagônicas aos patógenos. O controle biológico começou a ser utilizado no Brasil com o fungo entomopatogênico Metarhizium anisopliae e com o vírus Baculovirus, que combatem as cigarrinhas da cana e das pastagens e no controle da Anticarsia gematalis na soja, respectivamente. O fungo Trichoderma tem sido utilizado com sucesso na cultura do cacau, em restos de ramos doentes, para o controle do fungo Crinipellis perniciosa, agente causal da vassoura-de-bruxa. No mínimo 15 gêneros de bactérias são capazes de controlar doenças fúngicas ou bacterianas em culturas. Sendo os gêneros Bacillus e Pseudomonas os que apresentam maior potencial no controle de doenças. Produtos à base de Bacillus thuringiensis representam mais de 80% dos biopesticidas e são usados especialmente em países como os Estados Unidos, onde sua 34 comercialização chega a superar a dos inseticidas químicos. Essa espécie de bactéria é marcada pela produção de uma inclusão proteica, que lhe confere a sua característica entomopatológica. Essa proteína é chamada de proteínas cry é formada por polipeptídeos denominados δ-endotoxinas. A liberação de grandes quantidades de produtos à base de B. thuringiensis trouxe um maior conhecimento sobre sua distribuição e verdadeiro papel na natureza, o que permitiu racionalizar melhor sua utilização. Esse conhecimento trouxe ainda contribuições para o desenvolvimento de métodos mais eficientes de isolamento de novas linhagens, contendo novos genes cry, ou outros fatores de virulência ainda não conhecidos, mas fundamentais para o desenvolvimento denovos produtos biotecnológicos utilizados em programas de controle de pragas. Um exemplo disso é o que acontece com a transferência do gene codificador da toxina do Bacillus thuringiensis às plantas, que passam a produzi-la diretamente. Existem diversas versões do gene Cry, codificando toxinas muito específicas, efetivas em diferentes ordens de insetos. Algumas variedades diferem pela posição do transgene, o que caracteriza diferentes ocorrências e permite a comercialização com nomes diferentes. Embora a biotecnologia tenha se desenvolvido rapidamente nos últimos anos, as principais aplicações na agricultura foram identificadas há muito tempo e têm contribuído enormemente para o aumento na produção e qualidade do produto. 6.3 - DIAGNÓSTICO MOLECULAR DE DOENÇAS EM PLANTAS: DETECÇÃO DE FITOPATÓGENOS Uma das etapas decisivas no sistema de controle e proteção da agricultura é a detecção precoce do diagnóstico de doença em plantas. Medidas preventivas e de controle pode se tornar mais eficiente quando aplicadas em estágios precoces do desenvolvimento da doença. Várias doenças são transmitidas por sementes ou por outros tecidos como tubérculos e explantes (fragmento retirado da planta para posterior cultura), e a única maneira de controlar a liberação de material sadio. Nesse sentido, programas de cerificação de material têm cultivado material em campo e feito testes para detectar a presença de patógenos. Devido aos avanços da Biologia Molecular, a detecção precoce dos patógenos tem alcançado enormes progressos, apresentando com rapidez e especificidade, instrumentos para confirmação precisa do agente causal. Métodos baseados principalmente no uso de DNA têm superado o uso das técnicas imunológicas ou sorológicas. Dentre os métodos baseados no uso 35 do DNA, um dos mais utilizados é o PCR. O PCR é um método de amplificação do DNA (criação de múltiplas cópias) sem o uso de organismos vivos. O PCR utiliza primers, que são iniciadores da reação de polimerização de DNA, ou seja, são segmentos de ácidos nucleicos com uma sequência complementar do DNA, necessários para o início da replicação do DNA. O uso de primers específicos em reações de PCR, sem dúvida, é a alternativa que oferece maior facilidade, rapidez e sensibilidade para ser empregado em pequena ou grande escala. O desenho de vários primers para os diferentes tipos de fitopatógenos já se encontra disponível em revistas especializadas, e a síntese desses primers pode ser efetuada através de empresas comerciais. FICA A DICA O Brasil conta com aproximadamente 8 mil pesquisadores em cerca de 2 mil centros de pesquisa públicos e privados na área de biotecnologia. Segundo estudos realizados em 2011, estima-se que existam por volta de 230 empresas relacionadas à biotecnologia, e cerca de 40% delas estão ligadas à agropecuária (saúde animal, meio ambiente, agricultura e bioenergia). Embora a biotecnologia aplicada à agropecuária no país seja recente, ela segue tendência mundial de ser valorizada como tecnologia de ponta, de acordo com o Ministério da Agricultura. Para quem tiver interesse de ver essa notícia na íntegra, acesse o site: http://www.aviculturaindustrial.com.br/noticia/biotecnologia-na-agricultura-tendencias-e- desafios/20131021091913_M_235. RECORDANDO Como vimos anteriormente, a biotecnologia no campo da Agricultura é utilizada a milhares de anos, mesmo que inconscientemente. Os avanços devido à descoberta da hereditariedade e depois as tecnologias baseadas na manipulação do DNA possibilitaram não só o melhoramento de plantas, como também uma produção em larga escala. As plantas transgênicas mais comercializadas são a soja, a canola o milho e o algodão e as propriedades agronômicas mais transformadas são a tolerância a herbicidas, a resistência a insetos, a resistência a vírus, o amadurecimento tardio, o conteúdo e a qualidade do óleo, a tolerância à seca e à salinidade. Outro grande avanço está na substituição de produtos químicos por 36 produtos biológicos por alguns agricultores. Embora esta mudança ainda seja pequena, já é uma esperança de um mundo mais saudável. 6.4 - EXERCÍCIO PROPOSTO 1) Como a engenharia genética pode influenciar no melhoramento de plantas? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 37 Capítulo 7 Biotecnologia na Pecuária 38 7 - BIOTECNOLOGIA NA PECUÁRIA A criação de animais para a alimentação se limita a um pequeno número de espécies: bovinos, ovinos, caprinos, suínos, coelhos, aves, peixes, crustáceos e mariscos. A cultura extensiva de gado tradicional (bovino, ovino, caprino) de grandes estabelecimentos agrícolas é praticada em pradarias e pastagens, enquanto os menores estabelecimentos investem em culturas intensivas de altos rendimentos (gado leiteiro, aves, suínos e peixes), que degradam ainda mais o ambiente. A biotecnologia voltada para a pecuária se insere principalmente na alimentação e na conservação da saúde dos animais, assim como no controle da reprodução e a aceleração da seleção genética. 7.1 - NUTRIÇÃO DOS ANIMAIS A criação e engorda de gado de corte nas pastagens é uma alternativa para países com grandes extensões territoriais como a Argentina, a Austrália, o Brasil, ou a Nova Zelândia. O alimento básico do gado é o capim, mas este cresce de forma desigual nas quatro estações do ano. Contudo, nos períodos em que há a falta de capim, a dieta destes animais precisa ser suplementada com feno (forragem dessecada), silagem (forragem e grãos fermentados), grãos, concentrados e/ou resíduos agroindustriais. A agricultura também tem sido uma opção para quem vive da terra, e à medida que a agricultura invade as áreas de pastagem, a pecuária acaba por recorrer aos regimes de semiconfinamento ou confinamento, tendo como objetivo o aumento da produtividade (gado leiteiro, aves e suínos). Parte dos cultivos de cereais (milho) e de leguminosas (tortas de soja, algodão, colza e girassol) é utilizada como ração para suprir as necessidades proteicas e energéticas dos animais, sendo necessários de 3 a 10 kg de grãos para obter 1 kg de carne. Sendo o valor nutricional dos grãos variável, acrescentam-se nas rações alguns complementos nutritivos. Diversos produtos industrializados fornecem a quantidade de necessária aos animais, em função da espécie, da idade etc. Em 1865, o cientista alemão Liebig inventou um método industrial que transformava os restos dos animais em extrato de carne, vendido como suplemento para a alimentação humana, e 39 farinha de carne, utilizada para fortificar as rações animais. Então, antes mesmo da Segunda Guerra Mundial, as rações dos ruminantes (bovinos, ovinos, caprinos) dos países desenvolvidos já incluíam de 2 a 5% de farinha de carne. Como os Estados Unidos sofreram uma grande quebra da safra de soja, por conta de condições climáticas, confiscaram todo grão disponível para garantir suas necessidades internas. Com a falta de grãos, a única alternativa encontrada pelos europeus para suprir a fonte proteica das rações de seus animais foi a farinha de carne. Contudo, na tentativa de diminuir ao máximo os custos das rações, deixou-se de extrair a gordura com solvente e ainda modificaram ascondições de esterilização. A inclusão de restos de animais doentes, inicialmente ovelhas com scrapie, uma doença esporádica conhecida no Reino Unido desde 1732, pode ter contaminado as vacas e provocado o surto da doença da vaca louca, que afeta o homem, causando-lhe danos neurológicos graves. Por esse motivo, em 1988, a farinha de carne foi proibida na alimentação do gado. Boa parte dos rebanhos no Reino Unido e de outros países da Europa teve que ser sacrificada. Isso levantou questões sobre a composição das rações animais, mostrando a necessidade de aumentar a quantidade e a qualidade dos suprimentos de grãos e de plantas forrageiras. Outros produtos foram utilizados como suplemento proteico, como o leite desnatado em pó e a farinha de pescado, que atualmente está sendo abandonada devido ao aumento do preço resultante da pesca excessiva. Uma fonte alternativa de proteínas que tem trazido resultados positivos é a biomassa microbiana seca. Denominada SCP (do inglês, Single Cell Protein), a proteína unicelular pode ser obtida de diversas fontes. As leveduras como Saccharomyces cerevisiae constituem um subproduto nas destilarias de álcool; outras como Candida utilis ou Torula se multiplicam sobre os efluentes da indústria de papel ou das queijarias. A adição de enzimas (proteases, celulases, amilases, etc.) nas rações, tende a aumentar a digestibilidade das mesmas e o acréscimo de antibióticos visa protegê-las da ação bacteriana. As rações representam até 70% dos custos da criação de animais, sendo um dos gargalos da produção agrícola. A biotecnologia ainda traz o uso de plantas geneticamente modificadas para a alimentação dos animais. Todavia, devido a preocupações da sociedade no que diz respeito aos transgênicos, alguns estudos foram minunciosamente realizados, e até o momento não foram evidenciados 40 sinais de toxicidade da soja, da ervilha, do lupino, do algodão e da batata em ratos, nem da colza em coelhos. As características das carcaças, dos tecidos e das carnes não mudaram em animais que receberam alimentos transgênicos. Muito pelo contrário, muitos estudos em instituições de pesquisa e universidades mostraram que, tanto em relação à composição química como à digestibilidade e ao valor nutritivo, as plantas biotecnológicas disponíveis são substancialmente equivalentes as não transgênicas. Agora, no que diz respeito à manipulação dos genes para crescimento de certos animais, alguns problemas têm sido mencionados. O frango, por exemplo, tem crescido quatro ou cinco vezes mais rápido que seus antepassados. Entretanto, alguns efeitos deletérios apareceram, como o aumento do teor de gorduras, a fertilidade baixa e a presença de anormalidades esqueléticas. Algumas galinhas selecionadas para pôr ovos desenvolveram osteoporose, ao desviar o cálcio do esqueleto para a construção da casca dos ovos. E no caso dos perus, que desenvolveram tal tamanho que sequer conseguem acasalar sem riscos, sendo necessário proceder à inseminação artificial. 7.2 - O CONTROLE DA REPRODUÇÃO Com o aumento da exigência mundial para produção de alimentos seguros de forma sustentável a pecuária tem sido obrigada a sofrer adaptações, buscando o aumento da eficiência reprodutiva e produtiva dos animais em áreas cada vez menores. Dessa forma, as biotécnicas de reprodução animal têm dado sua contribuição na produção de animais com genótipos superiores e com eficiência produtiva destacada. Nesse sentido entra a tecnologia voltada ao controle da reprodução dos animais, que permite a expansão rápida dos estoques e reduz os custos de transporte de animais. O processo começa com a seleção dos pais (reprodutores e matrizes), escolhidos pelas suas características genéticas relativas à produtividade e à saúde. Analise a figura abaixo: 41 A inseminação artificial é praticada desde meados do século XX, no gado bovino, ovino, caprino, suíno e em aves (perus, frangos). Apesar dos grandes avanços, essa metodologia já é realizada no Brasil. Sendo que a maior aplicação de criopreservação de sêmen bovino está na possibilidade de utilização e disseminação de material genético de touros superiores por meio da inseminação artificial, melhorando assim o desempenho do rebanho de corte e de leite, trazendo dessa forma um lucro maior ao pecuarista. Contudo, devido ao custo, esta técnica tem sido mais utilizada com o gado de leite, que tem um preço por cabeça mais alto que o gado de corte. Dessa forma é possível acrescentar à prévia sexagem do sêmen, ou seja, a escolha dos espermatozoides que poderão originar fêmeas. Uma vaca produz normalmente uma cria por ano. Entretanto, quando é tratada com hormônios que induzem uma superovulação e inseminada artificialmente, essa vaca poderá gerar simultaneamente cinco embriões, que serão colhidos mediante a lavagem do útero e transferidos a uma vaca receptora. A criopreservação de embriões tem contribuído com o processo de seleção genética, além de reduzir os custos dos programas de cruzamentos. Isso porque os embriões podem permanecer disponíveis até que as fêmeas receptoras estejam naturalmente prontas, o que evita custos com a sincronização hormonal do cio. A criopreservação garante que 25 a 50% dos embriões congelados possam originar animais vivos. Todos esses avanços na criopreservação de espermatozoides e embriões têm facilitado Malajovich, 2012 42 o processo de propagação de animais superiores, facilitando o intercâmbio de material genético para dentro e fora do país. Há ainda outra variante, que consiste na extração dos ovócitos das vacas superovuladas, ou dos ovários de animais sacrificados, procedendo a uma fecundação artificial antes de reimplantar os embriões nas vacas receptoras. O número de embriões também pode ser aumentado por bipartição, por micromanipulação do blastócito com 64 a 128 células. A aplicação de testes genéticos nos pais e nos embriões, antes de ser reimplantados, permite uma seleção apurada da descendência. 7.3 – AQUICULTURA A aquicultura tem sido uma alternativa na produção de alimentos porque, em função da pesca desmedida, os estoques de peixes nos mares e oceanos têm diminuído drasticamente. Os países que mais praticam a aquicultura são: a Noruega, o Chile, o Canadá, os Estados Unidos, o Reino Unido, a Nova Zelândia e os países asiáticos. É preciso conhecer bem a espécie e a região antes de decidir o que criar. Alguns peixes não exigem nenhuma complementação da ração, como as carpas e tilápias. Já o camarão e o salmão são criados com rações que incluem farinha de peixe, tornando mais alto o custo da criação. Com relação à região, um fator a ser levado em consideração é o clima. Alguns países possuem invernos rigorosos, outros, climas mais amenos. Vou citar aqui a diferença da criação de salmão no Canadá e no Chile. O Canadá possui uma dificuldade maior por ser uma região muito fria, onde suas águas por vezes congelam, já no Chile, o salmão pode ser criado o ano inteiro. Dessa forma, pra não perder sua produção, os produtores canadenses se interessaram por um salmão mais resistente ao frio e de crescimento rápido. Dentro deste contexto, a empresa AquaBounty transferiu para o salmão do Atlântico um cassete de expressão, denominado AquAdvantageTM, com dois genes codificadores de uma proteína anticongelamento e um hormônio de crescimento do salmão do Pacífico. O peixe cresce rapidamente em condições comerciais, consumindo 250% mais comida e alcançando o tamanho equivalente ao de um salmão convencional em menos tempo (18 meses em vez de 24 ou 30). Como medida de segurança, o Protocolo de Cartagena, traz que peixes transgênicos devem sercriados exclusivamente em contenção. Por isso, a exploração comercial de salmões 43 transgênicos não poderá ser feita como até agora, em jaulas marinhas; eles terão que crescer confinados em fazendas dentro do território, de maneira a diminuir os riscos de escapamento. FICA A DICA O Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança é um tratado sobre biossegurança assinado durante a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) em Cartagena, Colômbia. Aprovado em 29 de janeiro de 2000 e em vigor desde setembro de 2003, o texto disciplina questões envolvendo o estudo, a manipulação e o transporte de organismos geneticamente modificados (OGM) entre os países membros do acordo. Atualmente, 188 países fazem parte do Protocolo. O Brasil ratificou sua adesão em novembro de 2003. RECORDANDO A biotecnologia na pecuária tem sido aplicada principalmente na alimentação, na conservação da saúde dos animais, assim como no controle da reprodução e a aceleração da seleção genética. No que diz respeito à nutrição dos animais, o investimento é voltado à fabricação de ração e suplementos necessários para uma alimentação equilibrada do animal. Quanto à questão do controle reprodutivo, vale ressaltar que o aumento da exigência mundial para produção de alimentos seguros de forma sustentável fez com que a pecuária buscasse o aumento da eficiência reprodutiva e produtiva dos animais através de tecnologias que permitissem uma expansão rápida dos estoques, assim como uma redução dos custos no transporte de animais. 7.4 - EXERCÍCIO PROPOSTO 1) Explique quais as problemáticas causadas na manipulação dos genes para o crescimento de algumas espécies de aves comercializadas. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 44 Capítulo 8 Biotecnologia de Alimentos 45 8 - BIOTECNOLOGIA DE ALIMENTOS Não tem como falar de Biotecnologia de Alimentos sem falar sobre fermentação. A tecnologia da fermentação está intimamente relacionada com os processos biológicos em escala industrial. Antes mesmo de saber sobre a existência dos microrganismos, a microbiologia já estava associada à alimentação, pois na antiguidade já se produzia o pão, vinho, cerveja, leite fermentado, queijos e outros. Contudo, o conhecimento adquirido sobre os microrganismos e as enzimas ao longo dos anos possibilitou o desenvolvimento da indústria de alimentos, que soube se apropriar de todas as ciências relacionadas (microbiologia, bioquímica, engenharia química e a engenharia de alimentos). 8.1 – PÃO A panificação surgiu há aproximadamente 7000 e 5000 a.C. em diferentes lugares. Os primeiros pães pareciam bolachas planas de cereais moídos e água, e eram cozidos sobre pedras quentes. Com o passar do tempo, descobriram que deixar a massa repousar um pouco, melhora sua textura e digestibilidade. Atualmente, com os estudos microbiológicos, pode-se verificar a coexistência de bactérias lácticas e leveduras na preparação do pão, sendo as enzimas presentes no grão as responsáveis por esta transformação. As enzimas catalisam a transformação do amido em açúcares que são transformados em ácido láctico, pelas bactérias, e em etanol pelas leveduras. A liberação de CO2 formam as bolhas, que conferem porosidade e leveza à massa. Ainda que alguns padeiros conservem a prática da fermentação natural, esses processos estão sendo substituídos pela tecnologia da panificação industrial. 8.2 - O VINHO O vinho é uma bebida que surgiu a milhares de anos no norte da África e na Europa, derivada da fermentação alcoólica da uva. Esse processo ocorre da seguinte maneira: durante o amadurecimento da uva, algumas espécies microbianas se sucedem, primeiro transformando os açúcares em etanol e, depois, o etanol em ácido acético. Mas como o destino natural da uva é o vinagre, a arte da vinificação veio apresentar um considerável ganho tecnológico. A uva é composta por água (86%), açúcares fermentescíveis (12%) e moléculas diversas (2%). O sumo da uva é retirado, espremendo ou prensando a polpa, sendo frequente o agregado de enzimas de maceração (pectinases, celulases e hemicelulases) para melhorar o rendimento. O 46 agente biológico da fermentação alcoólica é a levedura Saccharomyces cerevisiae, que se encontra na pele da uva. Contudo, a levedura natural da uva só é necessária se a produção for artesanal, pois a indústria vinícola possui amplas linhagens selecionadas que favorecem o processo fermentativo. A indústria moderna já tem substituído as leveduras nativas por leveduras selecionadas. Inclusive, duas linhagens de leveduras geneticamente modificadas fizeram sua entrada na indústria de vinhos dos Estados Unidos e Canadá a pouco tempo. Uma delas é a levedura ML01, que realiza ambas as fermentações (alcoólica e malolática), evitando a produção de histaminas, e a outra é a levedura ECM01 que degrada a ureia, impedindo a formação de uma substância carcinogênica. Entretanto, alguns produtores ainda preferem as nativas, pois consideram que as leveduras selecionadas massificam a qualidade do vinho, preferindo a originalidade do produto. Além disso, bancos de leveduras nativas facilitam a preservação da biodiversidade. 8.3 - A CERVEJA A cerveja é uma bebida fermentada que existe a anteriormente a era Cristã e representa uma opção saudável na falta de água ou no caso desta estar contaminada. Todos os povos da antiguidade elaboraram alguma cerveja a partir dos elementos de seu entorno, sejam estes grãos, frutas, raízes, caules ou folhas. Os habitantes das margens dos rios Tigre e Eufrates (Mesopotâmia), por volta de 4000 a.C., preparavam umas 20 variedades de cerveja a partir de um procedimento bem simples. Desmanchavam o pão de cevada em um recipiente com água açucarada e após a fermentação, a bebida era filtrada e passada a outro recipiente. A partir do século VII, esses procedimentos melhoraram, pois os frades começaram a introduzir diferentes tipos de ervas, uma prática que no século XI culminou com a adição de lúpulo. Com a descoberta da técnica de fermentação baixa, no século XIV, se deu à bebida uma maior estabilidade. E a partir dos trabalhos de Pasteur e o progresso da Microbiologia no século XIX, foi possível o desenvolvimento de uma poderosa indústria, cuja produção mundial supera os 1.000 milhões de hectolitros por ano. 8.4 – LATICÍNIOS A produção de laticínios deu-se início por volta de 3000 a.C. no Oriente Médio, quando o homem comprovou que o leite azedo mudava de sabor e consistência. O soro podia ser 47 consumido fresco, e a adição de sal ao coágulo o conservava por mais tempo. Em 2.000 a.C., a utilização de estômagos de cabras e de ovelhas como recipientes para o leite fez com que os queijos se tornassem mais sólidos. Posteriormente, os romanos introduziram extratos de plantas como o figo para coagular o leite. O que ocorre nesses fenômenos é simples. As bactérias que se encontram normalmente na mama dos animais contaminam o leite, proliferando e formando ácido láctico. Nesse meio ácido, as proteínas precipitam, separando- se do soro. A coagulação também ocorre em presença das enzimas renina e pepsina da mucosa estomacal e da ficina do figo (enzima proteolítica obtida do látex de figos imaturos). A produção mundial atual de leite fermentado(iogurte, coalhada, quefir etc.) é de aproximadamente três milhões de toneladas por ano enquanto a de queijos chega a 15 milhões de toneladas por ano. A biotecnologia trouxe um melhoramento das bactérias lácticas, fazendo com que as linhagens se tornem mais estáveis e resistentes aos vírus bacteriófagos, além de produzir bacteriocinas, que são substâncias com atividade antimicrobiana. Trouxe ainda linhagens capazes de liberar mais rapidamente suas enzimas, acelerando o processo de formação de aromas. Agora, com a possibilidade de mapeamento do genoma, acredita-se em uma intensificação das pesquisas nessa área. 8.5 – ADITIVOS Muitas vezes a adição de algumas substâncias aos alimentos se fazem necessárias para alcançar alguns objetivos, como por exemplo, a conservação por mais tempo de antibióticos, do ácido acético, do ácido láctico, do etanol; para complementar seu valor nutritivo, no caso de vitaminas e aminoácidos; ou ainda mudar a consistência, como nas gomas e enzimas. Alguns aditivos são usados para melhorar a cor e o flavor (sabor, aroma e textura) dos alimentos. Os aditivos mais utilizados na indústria de alimentos são os ácidos cítrico e láctico, alguns corantes naturais (β-caroteno, riboflavina), flavorizantes (monoglutamato de sódio, extrato de levedura, aromas), gomas espessantes (xantana, gelana, dextrana), antioxidantes (β-caroteno), vitaminas (B2, B12, Biotina), enzimas e antibióticos. 48 8.6 - NOVOS ALIMENTOS Na classificação de novos alimentos se encontram os alimentos de origem transgênica (soja, milho) assim como substâncias produzidas por microrganismos geneticamente modificados (enzimas, aditivos etc.). Os primeiros produtos geneticamente modificados comercializados internacionalmente foram o milho, a soja, o algodão e a canola, dos quais tiveram acrescentados em sua genética características como a tolerância a herbicidas e/ou a resistência a insetos e infecções virais. A aceitação dessas plantas pelos produtores agrícolas se deu pelo fato de permitirem uma maior produtividade, a custos menores. 8.7 - SUCESSO DE UM PROCESSO BIOTECNOLÓGICO Para o sucesso de um processo biotecnológico é necessária a combinação de quatro pontos importantes: O microrganismo que será utilizado no processo. Qual o meio de cultura necessário para este microrganismo. Como será realizada a condução do processo. A obtenção do produto. FICA A DICA Um exemplo de aplicação de enzimas na produção de alimentos está na fabricação de óleos de citros ou azeite de oliva. Estes podem ser extraídos mais facilmente, e com maior rendimento, quando se utiliza enzimas pectinases em substituição aos solventes. A utilização da amostra enzimática com atividade de pectinase resulta em uma melhor qualidade organoléptica dos óleos, pois a extração de polifenóis, o-fenóis e de outras substancias de sabores aromáticos contribuem para a estabilidade oxidante do óleo. 49 RECORDANDO A Biotecnologia de Alimentos está intimamente ligada à tecnologia da fermentação, que por sua vez, está relacionada com os processos biológicos em escala industrial. Anteriormente a era Cristã, mesmo sem o prévio conhecimento, o homem já utilizava a fermentação na fabricação de alimentos. Entretanto, o conhecimento acerca dos microrganismos possibilitou ao homem o desenvolvimento da indústria. Dessa forma, muitos alimentos que antes eram fabricados de forma artesanal, hoje são fabricados por indústrias, proporcionando aos produtores uma maior renda com menores custos. 8.8 - EXERCÍCIO PROPOSTO 1) Quais são as ciências ligadas à indústria de alimentos? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 50 Capítulo 9 Biotecnologia Aplicada na Saúde 51 9 - BIOTECNOLOGIA APLICADA NA SAÚDE Tanto o cultivo de plantas como a domesticação de animais aumentou a disponibilidade de alimentos e, como consequência, houve um aumento populacional e a sua sedentarização. Essas condições propiciaram o acesso dos micróbios dos animais domesticados ao homem, originando doenças como a varíola, o sarampo e a gripe. Geralmente, quando relacionados à saúde, os microrganismos são associados a aspectos negativos. Realmente, muitos microrganismos causam doenças e infecções graves, mas por outro lado, muitos deles produzem substâncias capazes de contribuir com a saúde humana, sendo utilizados em medicamentos disponíveis nas farmácias. Fungos e bactérias são microrganismos de suma importância para biotecnologia, pois a produzem uma ampla variedade de metabólitos secundários que podem ser utilizados em diversas aplicações. Desde o início da era das penicilinas, a produção de medicamentos produzidos em escala industrial a partir de microrganismos vem aumentando. O lado positivo dos microrganismos vem sendo cada vez mais explorado por indústrias farmacêuticas, se tornando um clássico exemplo de biotecnologia. Vale ressaltar aqui que a indústria farmacêutica não se restringe apenas ao desenvolvimento e à produção de fármacos e medicamentos, ela também abrange outros segmentos como o desenvolvimento e a produção de vacinas e reagentes para diagnóstico, assim como novas formas terapêuticas, como a terapia celular e a terapia gênica. A biotecnologia teve grande papel na redução de gastos ao proporcionar a realização de vários testes com apenas uma amostra de sangue. Além disso, permitiu o desenvolvimento de testes rápidos, de fácil utilização e leitura, substituindo com vantagens alguns testes convencionais. Um exemplo disso é o teste de gravidez de farmácia. Atualmente existem muitos testes portáteis, permitindo que o médico os realize no local da consulta e assim, consiga decidir de forma mais rápida o tipo de tratamento necessário ao paciente sem ter que esperar resultados de laboratório. 9.1 – VACINAS No campo da prevenção, temos as vacinas, que visam à produção de imunidade a doenças pelo estímulo à produção de anticorpos específicos. Nos animais, a vacinação tem um 52 resultado duplamente eficiente, porque além de protegê-los da doença, quebra o elo de transmissão ao homem. As primeiras vacinas tiveram origem de vírus ou bactérias inativos (mortos) ou enfraquecidos. Já as vacinas de segunda geração utilizam a tecnologia do DNA recombinante. Estas vacinas estão voltadas para a prevenção das mesmas doenças que as vacinas convencionais, entretanto, são mais seguras e menos passíveis de contaminação no processo produtivo, representando um grande salto na ciência. Agora a vacina que vem despertando maior interesse da indústria farmacêutica são as vacinas de terceira geração. Estas são conhecidas como vacinas gênicas ou vacinas de DNA. Da mesma forma que as vacinas recombinantes, os genes para o antígeno de interesse são localizados e clonados. Contudo, nesse caso, o DNA é injetado diretamente no músculo da pessoa ou animal a ser vacinado, com uma espécie de pistola de ar comprimido que espalha o DNA nas células musculares. Quando o organismo absorve o DNA com o código do antígeno de interesse, as células musculares passam a expressá-lo, o que irá desencadear a resposta imunológica. Algumas vantagens técnicas e logísticas têm sido atribuídasàs vacinas de DNA, além da vantagem econômica, que apresenta custos reduzidos quando se trata de produção em larga escala. Além disso, controle de qualidade dessas vacinas é mais simples e não precisam ser mantidas em ambiente refrigerado. No entanto, essas vacinas também podem trazer desvantagens, associadas principalmente à possibilidade de efeitos negativos de uma injeção do DNA no genoma hospedeiro. A biotecnologia ainda traz o desenvolvimento das vacinas terapêuticas, que visam a controlar doenças já existentes. O objetivo dessas vacinas é acionar o sistema imunológico para que seja capaz de combater e eliminar o patógeno causador da doença. Para vacinas contra o câncer, por exemplo, a ideia é que elas estimulem o sistema imunológico a detectar e atacar as células cancerígenas sem afetar as outras. Outra vacina que está sendo desenvolvida é contra o HIV, no intuito de reparar ou preservar a resposta imune anti-HIV. 9.2 - DNA RECOMBINANTE A tecnologia do DNA recombinante abriu caminhos tanto para as possibilidades terapêuticas, como para o entendimento das causas de doenças. A utilização desta técnica possibilita 53 sintetizar enzimas e receptores causadores ou envolvidos em processos de doenças, o que facilita o estudo dos possíveis alvos para o desenvolvimento de medicamentos. E é por estes motivos que é muitas vezes citado como a pedra fundamental da biotecnologia moderna. O uso de células-tronco, por suas potenciais aplicações, também tem sido de grande interesse científico para fins terapêuticos. 9.3 – BIOFÁRMACOS Os biofármacos são fármacos produzidos por via biotecnológica, que fazem referência principalmente a proteínas obtidas pela tecnologia de DNA recombinante ou a anticorpos monoclonais. Ao contrário dos farmoquímicos, obtidos por meio da combinação de substâncias químicas, os biofármacos geralmente envolvem o cultivo de células ou micro- organismos e sua modificação para a produção de substâncias em condições controladas. 9.4 - TERAPIA GÊNICA A terapia gênica, terapia genética ou geneterapia é a introdução de genes nas células e tecidos de um indivíduo com o intuito de reparar problemas causados por genes ausentes ou defeituosos. Essa ideia se tornou possível devido aos desenvolvimentos da tecnologia do DNA recombinante, através da introdução de genes humanos em bactérias para a produção de proteínas humanas, como a insulina. 9.5 - TERAPIA CELULAR Consiste no em tratamento de pacientes com transplante de células ou tecidos para recuperação de tecidos danificados por traumas ou doenças. Essa técnica se tornou possível devido ao desenvolvimento das tecnologias de clonagem e do conhecimento sobre as células- tronco. FICA A DICA Um importante desafio para o setor farmacêutico está no balanço entre os novos medicamentos e tratamentos para os pacientes e seu custo. Já para os governantes, o desafio está em prover uma saúde preventiva e de qualidade, pois a diminuição de doenças e sequelas 54 de invalidez ou morte prematura dará às pessoas a possibilidade de melhorar suas condições de vida. Da mesma forma, a melhora das condições econômicas de uma população irá refletir diretamente na saúde da população. RECORDANDO Os microrganismos geralmente estão associados a aspectos negativos quando se trata de saúde. Sabemos que muitos microrganismos são causadores de doenças e infecções graves, mas por outro lado, muitos deles produzem substâncias capazes de contribuir com a saúde humana, sendo utilizados em medicamentos disponíveis nas farmácias. O lado positivo dos microrganismos vem sendo cada vez mais explorado por indústrias farmacêuticas, se tornando um clássico exemplo de biotecnologia. Alguns exemplos de biotecnologia aplicada à saúde são: vacinas, DNA recombinante, biofármacos, terapia gênica e terapia celular. 9.6 - EXERCÍCIO PROPOSTO 1) Como funciona a vacina de DNA? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 55 Capítulo 10 Biotecnologia e o Meio Ambiente 56 10 - BIOTECNOLOGIA E O MEIO AMBIENTE A importância da ciência e tecnologia na elaboração de políticas de desenvolvimento econômico e social é uma realidade de quase todos os países do mundo. Mas a questão é: quais países realmente assumem essa realidade? Afinal, qual a contribuição das biotecnologias para o desenvolvimento sustentável? Em relação à economia, a biotecnologia tem um importante papel na diminuição dos custos, não só da matéria-prima como também da produção industrial, com processos e produtos novos e/ou de maior valor agregado. Na área social, a conservação ou a criação de empregos no desenvolvimento de novas plataformas tecnológica. E na área ambiental, a biotecnologia age na prevenção, remediação e monitoramento da contaminação no meio ambiente. Entretanto, alguns fatores biotecnológicos ainda trazem grandes inquietações à humanidade. No decorrer deste capítulo mostrarei as vantagens e preocupações decorrentes deste avanço tecnológico. A passos lentos a sociedade começa a perceber é preferível não contaminar a ter que desenvolver métodos para remediar o que foi feito. Nesse contexto surgiram várias tecnologias limpas para substituir as mais poluentes, o que tem auxiliado também na redução do volume de resíduos domésticos, agrícolas e industriais. 10.1 - TECNOLOGIA ENZIMÁTICA Uma das alternativas para diminuir a poluição é a tecnologia enzimática, que comporta a substituição de alguns processos e produtos industriais químicos por outros menos agressivos ao meio ambiente. Diferentemente dos catalisadores químicos, as enzimas são específicas, não tóxicas e biodegradáveis. Além se serem agentes biológicos, tornando os processos produtivos mais limpos, contribuem a um menor consumo energético. A tecnologia enzimática tem sido aplicada em vários setores, como nas indústrias de alimentos, rações, detergentes, têxteis, papel e celulose, couros etc. 10.2 - PLÁSTICOS X EMBALAGENS BIODEGRADÁVEIS Outra solução no combate a poluição é a substituição de do plástico convencional por embalagens biodegradáveis. Os plásticos representam uma grande parte do lixo dos países 57 industrializados, sendo a maior parte proveniente das embalagens convencionais da indústria de alimentos. Além de demorar muito tempo no ambiente para ser decomposto (aproximadamente 100 anos), é feito de matéria-prima não renovável (petróleo). Já as embalagens biodegradáveis são de origem bacteriana ou vegetal, decompostas em poucos meses. Outra vantagem está nas embalagens bioplásticas de alimentos se degradarem juntamente com os restos de comida, dispensando as etapas de triagem e limpeza. 10.3 - INDÚSTRIA DE PAPEL E CELULOSE O Brasil possui cerca de 1,5 milhão de hectares de florestas plantadas, basicamente, com eucaliptos (60%) e pinos (30%) que servem que subsídios para indústria de papel e celulose. Um destaque da biotecnologia está no sequenciamento do genoma do eucalipto, proporcionando um melhoramento na qualidade da madeira, pois aumenta a proporção celulose/lignina em árvores de rápido crescimento. O amido é utilizado na fabricação do papel para atribuir rigidez à massa e melhorar o acabamento. Este polissacarídeo é composto por cadeias de amilose e de amilopectina,sendo estas últimas as que apresentam interesse industrial. Nesse contexto, o Brasil aproveita o amido de mandioca porque contém menos amilose que o de milho ou de batata. Já os europeus podem contar com a batata geneticamente modificada Amflora (BASF Plant Science), aprovada pela Comissão Europeia, que produz amido de alta qualidade, com 100% de amilopectina, tornando desnecessário eliminar a amilose. Vale ressaltar que o uso desta batata é estritamente para a indústria de tecidos e papel, sendo separada da batata destinada ao consumo humano ou animal. 10.4 - FERTILIZANTES X BIOFERTILIZANTES A substituição de alguns produtos utilizados na agricultura, como os fertilizantes e praguicidas, também tem estado em destaque no campo da biotecnologia. O nitrogênio é um nutriente essencial para os cultivos vegetais porque faz parte da composição das proteínas e dos ácidos nucleicos. Na atmosfera ele é encontrado como N2 e no solo como nitrato, resultante da decomposição da matéria orgânica ou dos fertilizantes agrícolas. Outro nutriente importante para as plantas é o fósforo. Ele se origina das rochas do 58 solo e da decomposição dos seres vivos. Em regiões tropicais, onde encontramos solos ácidos, a maior parte dos fosfatos (95-99%) forma compostos minerais ou orgânicos insolúveis que não são acessíveis diretamente às plantas. Por isso, o fósforo se torna um nutriente limitante para o crescimento das plantas. Mesmo sendo importante para as plantas, o excesso desses produtos trazem consequências negativas para o ambiente. Isso ocorre porque as plantas não conseguem absorver todo nitrogênio (N) e fósforo (P), sendo uma parte arrastada pelas chuvas até os rios e as reservas de água. Esses nutrientes em excesso estimulam a proliferação de algas, consumindo o oxigênio dos cursos de água e produzindo toxinas que vão afetar o gado e os peixes. Como os fertilizantes agrícolas são derivados do petróleo, que contém esses nutrientes, a intensa aplicação desses produtos torna-se motivo de preocupação, pois acaba por ser prejudicial ao meio ambiente. Nesse contexto é que entra os biofertilizantes. Alguns microrganismos livres (Azotobacter, Azospirillum), ou simbiontes (Rhizobium ou Bradirhizobium) que vivem nos nódulos das raízes das leguminosas (soja, feijão), conseguem fixar o nitrogênio atmosférico em uma forma utilizável pelas plantas. Inoculando as sementes com rizóbios, por exemplo, diminuir-se-á a quantidade de nitrogênio a ser acrescentada no solo. Essa é uma prática muito simples, facilitada pela produção industrial de microrganismos selecionados para aplicação antes do plantio. A inoculação é feita misturando o produto com as sementes umedecidas em tambores ou betoneiras, antes do plantio. No Brasil, várias empresas nacionais e internacionais atuam na produção de inoculantes para leguminosas: BioAgro, Bio Soja, Microquímica, Nitral Urbana, Turfal, Stoller, Total Biotecnologia, Rizobacter, etc. Outro tipo de fertilizante biológico são os micorrizos. Micorrizos são associações simbióticas entre fungos e raízes vegetais, onde os primeiros absorvem os nutrientes minerais e a água do solo, transferindo-os para a planta hospedeira. A inoculação dos solos ou micorrização é uma tecnologia agrícola associada ao reflorestamento de pinos e eucaliptos, eliminando ou diminuindo a necessidade de se acrescentar fósforo. Muitas espécies de fungos micorrízicos são comestíveis e vários gêneros são comercializados a nível mundial: Tuber, Tricholoma, Boletu, Cantharellus, Morchella, Lactarius e Suillus. 59 Além dos fertilizantes agrícolas, a criação intensiva de animais causa o excesso de fósforo no ambiente. Porcos e as aves não conseguem metabolizar o fitato, um derivado presente nas rações, mas a complementação destas com uma enzima chamada fitase reduz em mais de 30% a quantidade de fósforo excretado, diminuindo assim a contaminação dos lençóis de água. 10.5 - CONTROLE BIOLÓGICO Como falamos anteriormente no capítulo dois, os microrganismos desempenham um papel fundamental no funcionamento dos ecossistemas, pois participam efetivamente da ciclagem de nutrientes. Visando à preservação das plantações, a produção de alimentos, e a proteção do meio ambiente, o controle biológico entra como uma alternativa para a substituição dos praguicidas químicos. A bactéria do solo Bacillus thuringiensis ou Bt tem sido utilizada como pesticida agrícola há mais de trinta anos, sem nunca ter apresentado danos às pessoas, à vida silvestre ou à maioria dos insetos benéficos, sendo considerada um dos melhores exemplos dessa tecnologia. 10.6 - BIOTECNOLOGIA TRADICIONAL Não podemos deixar de citar aqui os dois maiores exemplos de prestação de serviços da natureza, que são de extrema importância para o meio ambiente, a degradação do lixo (resíduos sólidos) e o tratamento de esgoto (resíduos líquidos). Todos os compostos naturais podem ser biodegradados, desde que dispostos em condições adequadas. As populações microbianas mistas do ambiente degradam as substâncias orgânicas através de numerosas reações, sem que sejam necessários cuidados assépticos ou culturas puras. Em condições aeróbias, os produtos finais da mineralização da matéria orgânica são dióxido de carbono (CO2) e água; em condições anaeróbias, forma-se biogás. O tratamento dos resíduos sólidos urbanos (RSU) em usinas de compostagem é um procedimento alternativo à incineração e ao depósito em lixões e aterros sanitários. Contudo, a separação prévia dos componentes é necessária para a reciclagem de alguns materiais (metais, vidro, etc.). A biodegradação aeróbia ou mineralização dos restos orgânicos os 60 transforma em um composto chamado de húmus, que é utilizado no melhoramento de solos, em atividades de reflorestamento, para aterrar terrenos, combater erosões etc. No tratamento das águas do esgoto participam várias populações naturais. Os microrganismos aeróbios (bactérias e protozoários ciliados) mineralizam parte da matéria orgânica do efluente; e as bactérias anaeróbicas procedem à biodigestão dos lodos, permitindo a obtenção de biogás e a remoção de alguns nutrientes (N e P principalmente) que poderiam criar desequilíbrios ecológicos. 10.7 - RISCOS AMBIENTAIS Mesmo com todos os benefícios mostrados acima, existe uma preocupação nas sociedades avançadas acerca da necessidade de considerar a conservação e preservação do meio ambiente como uma prioridade política. É neste contexto é que surge a preocupação dos ecologistas e ambientalistas no que diz respeito à aplicação da biotecnologia, que parece centralizar-se nos desenvolvimentos relacionados com a engenharia genética. O principal motivo de preocupação é a comercialização de uma grande variedade de organismos modificados geneticamente, pois isso pode levar a uma liberalização de tais organismos no meio externo, podendo acarretar em prejuízos ao meio ambiente. Os riscos ambientais possíveis da introdução das plantas transgênicas incluem: fluxo gênico para as espécies selvagens, que dependendo da vantagem seletiva oferecida pelo transgene, poderia levar ao aumento da população de ervas daninhas; efeitos colaterais indesejáveis em organismos não alvo, sejam em microrganismos ou os insetos inimigos naturais presentes nas culturas, afetando a biodiversidade; o aumento das chances de extinção de populações de espécies vegetais selvagens causada pela depressão genética devido à introdução de novos genes no ecossistema. Esses riscos não são exclusivos das culturas transgênicas, sendo também empregados aos sistemas convencionais de agricultura, seja pelo emprego de novasculturas ou pelo controle de pragas, doenças e ervas daninhas com o uso de químicos. 61 FICA A DICA Você sabe quanto tempo leva cada tipo de lixo para se decompor? Dê uma olhadinha na estimativa da tabela abaixo: Lixo Tempo Papel 3 a 6 meses Fralda biodegradável 1 ano Isopor 8 anos Lata de aço 10 anos Nylon 30 anos Copos plásticos 50 anos Embalagens longa vida 100 anos Plásticos em geral 100 anos Tampa de garrafa 150 anos Fralda descartável 450 anos Pneu 600 anos Vidro Indeterminado RECORDANDO A biotecnologia tem trazido grandes contribuições para o meio ambiente, atuando, sobretudo, na prevenção, remediação e monitoramento da contaminação no meio ambiente. As principais vantagens biotecnológicas estão na tecnologia enzimática, embalagens biodegradáveis, biofertilizantes, controle biológico, tratamento de lixo e esgoto. Entretanto, alguns fatores biotecnológicos ainda trazem grandes inquietações à humanidade, como por exemplo, os possíveis riscos da introdução de plantas transgênicas. 62 10.8 - EXERCÍCIO PROPOSTO 1) Fale sobre as contribuições da biotecnologia no desenvolvimento sustentável. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 63 Capítulo 11 Biossegurança 64 11 – BIOSSEGURANÇA A definição de biossegurança, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, abrange os princípios, técnicas e práticas necessárias para evitar a exposição acidental a patógenos e toxinas assim como sua liberação acidental. Lidar com biossegurança não é uma tarefa fácil, pois são várias as atividades que expõem profissionais aos mais diversos riscos (químicos, físicos e/ou biológicos). Dentro dessa área, os microrganismos são classificados segundo o risco que podem causar aos profissionais que trabalham com eles e à coletividade. Os critérios são: a patogenicidade para o homem, a virulência, o modo de transmissão, a endemicidade e a existência ou não de uma terapêutica eficaz. Dessa forma, foram divididos em quatro grupos: Grupo 1: Baixo risco individual e coletivo. Microrganismos que nunca foram descritos como agentes causadores de doenças para o homem e que não constituem risco para o meio ambiente. Exemplos: Bacillus cereus, Bacillus subtilis, Escherichia coli (algumas linhagens), Lactobacillus sp. Grupo 2: Risco individual moderado, risco coletivo limitado. Microrganismos que podem causar doenças no homem, com pouca probabilidade de alto risco para os profissionais do laboratório. Exemplos: Salmonella, Toxoplasma, Schistosoma mansoni, Streptococcus sp, vírus da rubéola, vírus do sarampo e vírus da hepatite B. Grupo 3: Risco individual elevado, risco coletivo baixo. Microrganismos que podem causar doenças graves aos profissionais do laboratório. Exemplos: Mycobacterium tuberculosis, Bacillus anthracis e vírus da imunodeficiência humana (HIV). Grupo 4: Sério risco para os profissionais do laboratório e para a coletividade. Microrganismos que causam doenças graves para o homem. Exemplos: vírus Ebola, vírus Lassa e vírus Marburg. Além do conceito de biossegurança, há outro conceito que serve como um complemento para o primeiro, que é a biosseguridade. Mas afinal, o que é biosseguridade? É o conjunto de medidas de proteção de uma instituição e dos trabalhadores necessárias para evitar a perda, o roubo, o uso incorreto ou a liberação intencional de patógenos e toxinas (bioterrorismo). 65 Agora vou colocar para vocês algumas dicas importantes de segurança em laboratório: 11.1 - O AMBIENTE LABORATORIAL Primeiramente, o laboratório precisa ser bem projetado, contemplando todas as necessidades e oferecendo condições ideais para o desenvolvimento de atividades que atendam aos requisitos de segurança. O local deve oferecer um conforto ambiental, ou seja, sem ruídos e vibrações e nada excessivo de calor. A iluminação tem que ser compatível ao trabalho realizado e, além disso, a atmosfera precisa ser livre de odores e contaminantes que possam, de uma forma ou de outra, afetar a saúde do profissional e/ou comprometer as próprias instalações. 11.1.1 - ORGANIZAÇÃO DAS ATIVIDADES Em cima das bancadas devem estar somente os materiais que fizerem parte do trabalho, ou seja, nada de bolsa, celular, carteira etc., principalmente quando se usa substâncias químicas. A incompatibilidade de determinadas substâncias com alguns materiais, em determinadas condições, podem provocar graves acidentes. Antes de começarem as atividades, é preciso certificar-se que tudo está disponível e em seus devidos lugares, assim como estabelecer o melhor período para a execução do trabalho. 11.1.2 - ORGANIZAÇÃO DO AMBIENTE LABORATORIAL Algumas medidas precisam ser tomadas para que o ambiente de trabalho seja saudável aos profissionais, de forma a eliminar qualquer fonte de risco para o trabalhador e para o meio ambiente. Contudo, organizar um laboratório mão é uma tarefa das mais fáceis, pois requer aptidão, muito trabalho, conhecimento técnico, além do poder de decisão. Uma sugestão é preparação de um check list que identifique toda e qualquer irregularidade nas dependências do laboratório, assim como nas atividades desenvolvidas. É extremamente importante que todas as falhas ou possíveis falhas sejam anotadas, para que se possa buscar medidas preventivas ou corretivas necessárias. 11.1.3 - EMERGÊNCIA LABORATORIAL Todos os laboratórios devem possuir procedimentos que permitam evitar incidentes envolvendo produtos perigosos ou que possam dar origem a grandes acidentes. Explosões, 66 incêndios, contaminação e intoxicação podem fazer parte da lista das muitas situações graves que podem acontecer quando não são tomadas medidas preventivas. Dessa forma, qualquer derramamento de substância que ocorrer dentro do laboratório deverá ser administrado imediatamente, a fim de evitar perda de tempo e o controle da situação. 11.2 - PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS EM ÁREAS CRÍTICAS Qualquer laboratório precisa ter planos de prevenção de incêndio, principalmente aqueles que utilizam materiais inflamáveis e/ou de fácil combustão. A tabela abaixo traz o extintor incêndio adequado para cada tipo de material. Extintor Material Extintor de água Fogo em papel Madeira Extintor de dióxido de carbono Líquidos Inflamáveis Equipamento elétrico Extintor de pó químico seco Líquidos Inflamáveis Gases Metais alcalinos Equipamento elétrico Extintor de espuma Líquidos Inflamáveis Extintor BCF (Brumoclorofluormetano) Líquidos Inflamáveis Equipamento elétrico Notas importantes: 1. Somente pessoas habilitadas devem utilizar extintores de incêndio. Um extintor de dióxido de carbono, quando indevidamente operado, pode ter o jato de gás dispersado em materiais em combustão. 67 2. Após a utilização do extintor BCF, o ambiente deve ser bastante ventilado. 11.3 - EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL (EPI) Os equipamentos de proteção individual devem estar sempre disponíveis e em quantidade suficiente para todos os funcionários do laboratório. É obrigação da empresa fornecer todos os equipamentosnecessários à proteção dos funcionários. Ex.: luva, sapato fechado, jaleco, avental, óculos, protetor facial, protetor auditivo, protetor respiratório, entre outros. Além disso, todos os funcionários devem ser treinados para usá-los corretamente. O uso dos EPIs é obrigatório. O funcionário que não fizer uso do mesmo deverá arcar com as punições estabelecidas por lei, inclusive com a possibilidade de demissão do emprego. 11.4 - EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO COLETIVA (EPC) A Cabine de Segurança Biológica (CBS) é o principal equipamento de contenção física para agentes infecciosos. Elas servem para proteger o profissional, na manipulação de materiais biológicos altamente infectantes, substâncias tóxicas e cultura de células. Algumas cabines também protegem o material trabalhado de contaminação. Existem três tipos de cabines de segurança biológica: Classe I: é uma cabine que o fluxo de ar ocorre de fora para dentro, pela abertura frontal, sem recirculação do ar. O ar da cabine passa por um filtro High Efficiency Particulate Air (HEPA) antes de ser liberado para o interior do laboratório. Essas cabines protegem o operador, mas não evita a contaminação do material. http://biosafety-level.wikispaces.com 68 Classe II: é uma cabine com abertura frontal na qual uma parte do ar é recirculado. Esse tipo de cabine protege o operador, o material a ser manipulado e o meio ambiente. Classe III: é uma cabine hermeticamente fechada, impermeável a gases, e todo o trabalho é realizado com luvas de borracha que estão presas à câmara. O ar que entra passa por um filtro HEPA e o ar que sai pelo exaustor passa por dois filtros HEPA dispostos sequencialmente. Todos os equipamentos necessários (centrífuga, incubadora, etc.) devem estar dentro da cabine. Oferece total segurança ao operador, ao material e ao ambiente. http://biosafety-level.wikispaces.com http://biosafety-level.wikispaces.com 69 FICA A DICA No Brasil, a lei que temos sobre biossegurança estabelece normas de segurança e fiscalização para atividades que envolvem apenas OGMs e seus derivados, que é a Lei nº 11.105/2005. O acesso a esta lei encontra-se no site: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004- 2006/2005/lei/l11105.htm. RECORDANDO De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a biossegurança abrange os princípios, técnicas e práticas necessárias para evitar a exposição acidental a patógenos e toxinas assim como sua liberação acidental. Dentro dessa área, os microrganismos são classificados segundo o risco que podem causar aos profissionais que trabalham com eles e à coletividade, e estão divididos em quatro grupos: Grupo 1, Grupo 2, Grupo 3, e Grupo 4. Os critérios utilizados são: a patogenicidade para o homem, a virulência, o modo de transmissão, a endemicidade e a existência ou não de uma terapêutica eficaz. Para evitar acidentes em laboratório, é necessário tomar algumas providências, como por exemplo, organizar o ambiente de trabalho e o uso adequado de equipamentos de proteção individual e coletiva. 11.5 - EXERCÍCIO PROPOSTO 1) O que quer dizer EPI? Cite alguns exemplos. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 70 Capítulo 12 Bioética 71 12 – BIOÉTICA Em 1927, Paul Max Fritz Jahr utilizou pela primeira vez a palavra bioética, como sendo o reconhecimento de obrigações éticas com todos os seres vivos, não apenas com o ser humano. Mas foi em 1978, no Relatório Belmont que os princípios da Bioética foram propostos com o intuito de orientar as pesquisas com seres humanos. E em 1979, os norte-americanos Tom L. Beauchamp e James F. Childress publicam um livro chamado “Principles of Biomedical Ethics”, onde expuseram uma teoria que se fundamentava em quatro princípios básicos - não maleficência, beneficência, respeito à autonomia e justiça. Esta teoria se tornou fundamental para o desenvolvimento da bioética, definindo os valores envolvidos nas relações dos profissionais da saúde e seus pacientes. Posteriormente, no final da década de 1980, Potter destacou que a bioética possuía um caráter interdisciplinar (biologia, ecologia, medicina e valores humanos), denominando-a de global. O seu objetivo era restabelecer o foco original da bioética, incluindo nas discussões e reflexões das questões da medicina e da saúde, assuntos ligados aos desafios ambientais. 12.1 - PRINCÍPIO DA NÃO MALEFICÊNCIA De acordo com este princípio, o profissional de saúde tem o dever de não causar mal e/ou danos a seu paciente. Este princípio é importante, pois muitas vezes o risco de causar danos é inseparável de uma ação ou procedimento que está moralmente indicado. Na medicina isto é um fato comum, pois quase toda intervenção diagnóstica ou terapêutica envolve certo risco de dano. Por exemplo, em uma simples retirada de sangue para realizar um teste diagnóstico tem um risco de causar hemorragia no local puncionado. Do ponto de vista ético, este dano pode ser justificado se o benefício esperado com o resultado do exame for superior ao risco de hemorragia. Neste contexto, a intenção do procedimento era beneficiar o paciente e não causar-lhe o sangramento. 12.2 - O PRINCÍPIO DA BENEFICÊNCIA A beneficência tem sido associada à excelência profissional desde os tempos da medicina grega, e está expressa no Juramento de Hipócrates: “Usarei o tratamento para ajudar os 72 doentes, de acordo com minha habilidade e julgamento e nunca o utilizarei para prejudicá- los”. Beneficência quer dizer fazer o bem, isto significa que temos a obrigação moral de agir para o benefício do outro. Este conceito quando aplicado na área da saúde significa fazer o que é melhor para o paciente, não só do ponto de vista técnico, como também do ponto de vista ético. O profissional tem o dever de usar todos os conhecimentos e habilidades a serviço do paciente, considerando, na tomada de decisão, a minimização dos riscos e a maximização dos benefícios do procedimento a realizar. O princípio da Beneficência obriga o profissional de saúde a ir além da Não Maleficência (não causar danos intencionalmente), exige que ele contribua para o bem-estar dos pacientes, promovendo ações como prevenir e remover o mal ou dano que, neste caso, é a doença e a incapacidade; e fazer o bem para sua saúde física, mental e emocional. 12.3 - PRINCÍPIO DE RESPEITO À AUTONOMIA Autonomia é a capacidade de uma pessoa se governar por si mesma. Para que ela possa exercer esta autodeterminação são necessárias duas condições fundamentais: a capacidade para agir intencionalmente, o que pressupõe compreensão, razão e deliberação para decidir coerentemente entre as alternativas que lhe são apresentadas; e liberdade, no sentido de estar livre de qualquer influência controladora para esta tomada de posição. Já o respeito à Autonomia é ter consciência deste direito da pessoa de possuir um projeto de vida próprio, de ter seus pontos de vista e opiniões, de fazer escolhas e de agir segundo seus valores e convicções. Este princípio alega o dever do profissional de saúde em dar ao paciente a mais completa informação possível do seu caso, fazendo com que ele realmente entenda o problema de modo que tenha condições de tomar suas próprias decisões.12.4 - PRINCÍPIO DE JUSTIÇA Este princípio refere-se à igualdade de tratamento e distribuição justa das verbas do Estado para a saúde, pesquisa etc. Geralmente outro está elencado ao conceito de justiça: o conceito 73 de equidade. O conceito de equidade é representado por dar a cada pessoa o que lhe é devido segundo suas necessidades, ou seja, traz a ideia de que as pessoas são diferentes, e por isso, suas necessidades também. De acordo com o princípio da justiça, é preciso respeitar com imparcialidade o direito de cada um. 12.5 – ATUALIDADE Em Outubro de 2005, a Conferência Geral da UNESCO adotou a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos. Pela primeira vez na história da bioética, os Estados-membros se comprometeram a respeitar e aplicar os princípios fundamentais da bioética, que estão condensados num único texto. Ao tratar sobre as questões éticas levantadas pela medicina, ciências da vida e tecnologias associadas na sua aplicação aos seres humanos, a Declaração incorpora os princípios que norteiam o respeito pela dignidade humana, pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. FICA A DICA Para entender mais acerca da Bioética, recomento a leitura na íntegra na Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos que se encontra no site abaixo: http://unesdoc.unesco.org/images/0014/001461/146180por.pdf RECORDANDO O termo Bioética foi usado pela primeira vez em 1927 por Paul Max Fritz Jahr, como sendo o reconhecimento de obrigações éticas com todos os seres vivos, não apenas com o ser humano. Contudo, foi somente em 1978, no Relatório Belmont, que os princípios da Bioética foram propostos, com o intuito de orientar as pesquisas com seres humanos. Em 1979, os norte-americanos Tom L. Beauchamp e James F. Childress trouxeram uma grande contribuição com a teoria que se fundamentava em quatro princípios básicos da bioética - Não maleficência, Beneficência, Respeito à autonomia e Justiça. No final da década de 1980, Potter adicionou a ideia de bioética seu caráter interdisciplinar. Hoje, o documento que rege a 74 Bioética no mundo é a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, adotada pela Conferência Geral da UNESCO em 2005. 12.6 - EXERCÍCIO PROPOSTO 1) Qual a contribuição para a Bioética que os norte-americanos Tom L. Beauchamp e James F. Childress trouxeram em 1979? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 75 BIBLIOGRAFIA Ácidos nucleicos. Disponível em: http://www.infoescola.com/bioquimica/acidos-nucleicos/ Acesso em 11/12/2013. Ácidos nucleicos. http://www.sobiologia.com.br/conteudos/quimica_vida/quimica14.php. Acesso em 11/12/2013. ANDRADE, G; NOGUEIRA, M. A. Bioindicadores de para uma análise de risco ambiental. In: Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento. Ed. 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SERAFINI, L. A.; BARROS, N. M.; AZEVEDO, P.R.G. Biotecnologia: avanços na agricultura e na agroindústria. 2002. Editora: Educs. 77 VASQUEZ, S. F. Possíveis impactos da biotecnologia no meio ambiente, especialmente na população humana. Revista Biociências UNITAU, 2008. 14(1): 69-75. 78 RESPOSTAS DOS EXERCÍCIOS PROPOSTOS CAPÍTULO 1 1) Existem vários produtos e serviços de origem biotecnológica que possuem aplicações no setor alimentício. Cite quais os produtos que tiveram origem neste setor desde a antiguidade. R: Pão, queijo, vinho e cerveja. CAPÍTULO 2 1) Quais são os grupos aos quais os microrganismos pertencem? R: Bactérias, arqueas, protozoários, algas e fungos e vírus. CAPÍTULO 3 1) O que é metabolismo? Quais os grupos existentes? Explique-os. R: O metabolismo pode ser entendido como o conjunto de reações químicas que ocorrem dentro da célula, podendo ser dividido em dois grupos: Catabolismo ou desassimilação: tem como finalidade a produção de energia, ocorrendo a degradação de substâncias mais complexas para formar outras mais simples. Anabolismo ou assimilação: utiliza a energia produzida no catabolismo para a biossíntese de moléculas mais complexas responsáveis pela reprodução e demais atividades da célula. CAPÍTULO 4 1) Como são formados o DNA e o RNA? R: O DNA é formadopor nucleotídeos compostos de um fosfato, uma pentose (desoxirribose) e uma base nitrogenada, que podem ser adenina, timina, guanina ou citosina. E o RNA é formado por nucleotídeos compostos de um fosfato, uma pentose (ribose) e uma base nitrogenada, que podem ser adenina, uracila, guanina ou citosina. 79 CAPÍTULO 5 1) Quais as maiores vantagens de se substituir a Indústria Química por uma Indústria Biotecnológica? R: A utilização de recursos renováveis, menor custo competitivo e menores impactos ambientais. CAPÍTULO 6 1) Como a engenharia genética pode influenciar no melhoramento de plantas? R: Transferindo para plantas, genes isolados de plantas de outras espécies ou mesmo de microrganismos e animais, aumentando o conjunto gênico disponível para cada programa de melhoramento. CAPÍTULO 7 1) Explique quais as problemáticas causadas na manipulação dos genes para o crescimento de algumas espécies de aves comercializadas. R: O frango tem crescido quatro ou cinco vezes mais rápido que seus antepassados. E com isso alguns efeitos deletérios apareceram, como o aumento do teor de gorduras, a fertilidade baixa e a presença de anormalidades esqueléticas. Algumas galinhas selecionadas para pôr ovos desenvolveram osteoporose, ao desviar o cálcio do esqueleto para a construção da casca dos ovos. E no caso dos perus, que desenvolveram tal tamanho que sequer conseguem acasalar sem riscos, sendo necessário proceder à inseminação artificial. CAPÍTULO 8 1) Quais são as ciências ligadas à indústria de alimentos? R: Microbiologia, bioquímica, engenharia química e a engenharia de alimentos. CAPÍTULO 9 1) Como funciona a vacina de DNA? 80 R: O DNA é injetado diretamente no músculo da pessoa ou animal a ser vacinado, com uma espécie de pistola de ar comprimido que espalha o DNA nas células musculares. Quando o organismo absorve o DNA com o código do antígeno de interesse, as células musculares passam a expressá-lo, o que irá desencadear a resposta imunológica. CAPÍTULO 10 1) Fale sobre as contribuições da biotecnologia no desenvolvimento sustentável. R: Na economia, a diminuição dos custos, não só da matéria-prima como também da produção industrial, com processos e produtos novos e/ou de maior valor agregado. Na área social, a conservação ou a criação de empregos no desenvolvimento de novas plataformas tecnológica. E na área ambiental, na prevenção, remediação e monitoramento da contaminação no meio ambiente. CAPÍTULO 11 1) O que quer dizer EPI? Cite alguns exemplos. R: Equipamentos de Proteção Individual. Ex.: luva, sapato fechado, jaleco, avental, óculos, protetor facial, protetor auditivo, protetor respiratório, entre outros. CAPÍTULO 12 1) Qual a contribuição para a Bioética que os norte-americanos Tom L. Beauchamp e James F. Childress trouxeram em 1979? R: Publicaram um livro chamado “Principles of Biomedical Ethics”, onde expuseram uma teoria que se fundamentava em quatro princípios básicos - Não Maleficência, Beneficência, Respeito à Autonomia e Justiça. Esta teoria se tornou fundamental para o desenvolvimento da bioética, pois definiu os valores envolvidos nas relações dos profissionais da saúde e seus pacientes.