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N.Cham. 370.1 D519c 2.ed.
Autor: Dewey, John .
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F I C H A C A T A L O G R Á F I C A
( P r e p a r a d a pelo C e n t r o de Catalogação-na-Fonte,
C â m a r a Brasileira do Livro, S P )
D 5 1 3 e
2 . e d .
75-1149
Dcwey, J o h n , 1859-1952.
Experiência e educação; t r a d u ç ã o de Anísio
Teixeira.
2. ed. São Paulo, E d . Nacional, 1976.
p. (Atualidade.s pedagógicas. v. 1 3 1 )
1 . E d u c a ç ã o 2 . Experiência I . T í t u l o . l l .
Série.
CDD-370
· 1 5 3 . 1 5 2 4
lndice p a r a c a t á l o g o sistemático:
1 . Educação 370
2 . Experiência : Psicologia da aprendizagem 153.1524
t FAED / 8/ BLt OTF:CA
EXPERIÊNCIA E E D U C A Ç Ã O
Í l
•
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F I C H A C A T A L O G R Á F I C A
( P r e p a r a d a pelo C e n t r o de Catalogação-na-Fonte,
C â m a r a Brasileira do Livro, S P )
D 5 1 3 e
2 . e d .
75-1149
Dcwey, J o h n , 1859-1952.
Experiência e educação; t r a d u ç ã o de Anísio
Teixeira.
2. ed. São Paulo, E d . Nacional, 1976.
p. (Atualidade.s pedagógicas. v. 1 3 1 )
1 . E d u c a ç ã o 2 . Experiência I . T í t u l o . l l .
Série.
CDD-370
· 1 5 3 . 1 5 2 4
lndice p a r a c a t á l o g o sistemático:
1 . Educação 370
2 . Experiência : Psicologia da aprendizagem 153.1524
t FAED / 8/ BLt OTF:CA
EXPERIÊNCIA E E D U C A Ç Ã O
Í l
•
• t
•
ATUALIDADES PEDAGóGICAS
Volume 131
•
Direção de
1. 8. DAMASCO PENNA
A relação dos livros de
"ATUALIDADES PEDAGóGICAS"
está no fim deste volume.
•
FAED/BrBUOTEC'A
JOHN DEWEY
1\
EXPERIENCIA
e
-EDUCAÇAO
Tradução de
ANÍSIO TEIXEIRA
segunda edição
COMPANHIA EDITORA NACIONAL
SÃO ~AULO
•
ATUALIDADES PEDAGóGICAS
Volume 131
•
Direção de
1. 8. DAMASCO PENNA
A relação dos livros de
"ATUALIDADES PEDAGóGICAS"
está no fim deste volume.
•
FAED/BrBUOTEC'A
JOHN DEWEY
1\
EXPERIENCIA
e
-EDUCAÇAO
Tradução de
ANÍSIO TEIXEIRA
segunda edição
COMPANHIA EDITORA NACIONAL
SÃO ~AULO
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:f D o o r i g i n a l e m l í n g u a inglesa . . . i E x p e r i e n c e a n d E d u c a t i o n "" ! ' ( ) p u b l i c a d o p o r i THE MACMILLAN COMPANY ~ N o v a Y o r k
'
(15.a edição, 1 9 5 2 ) j i o p y r i g h t €_::jY KAPPA DELTA PI ca Q
de J O H N D E W E Y
NESTAS "ATUALIOADES PEDAGÓGICAS":
Vol. 2 - C o m o p e n s a m o s , n o v a t r a d u ç ã o e notas de
H a y d é e C a m a r g o C a m p o s .
V o l . 21 - D e m o c r a c i a e e d u c a ç ã o , t r a d u ç ã o d e G o d o f r e d o
R a n g e l e A n í s i o T e i x e i r a .
Vol. 7 6 - V i d a e e d u c a ç ã o , t r a d u ç ã o e e s t u d o p r e l i m i n a r
d e Anísio T e i x e i r a .
Vol. 131 - E x p e r i ê n c i a e e d u c a ç ã o , t r a d u ç ã o d e A n ís io
T e i x e i r a .
NA COLEÇÃO "CULTURA, SOCIEDADE, EDUCAÇÃO":
V o l . 11 - L i b e r a l i s m o , l i b e r d a d e e cu l t u r a , t r a d u ç ã o e
a p r e s e n t a ç ã o d e Anísio T e i x e i r a .
NA "BIBLIOTECA UNIVERSITÁRIA":
Vol. 1 d a s é r i e 1.a [ F i l o s o fia] - R e c o n s t r u ç ã o e m f i l o s o f i a ,
n o v a t r a d u ç ã o de A n t ó n i o P i n t o d e C a r v a l h o ,
revista p o r A n í s i o T e i x e i r a .
D i r e i t o s para a lingua p o r l l l g u e s a a d q u i r i d o s pela
C O M P A N H I A E D I T O R A N A C I O N A L
R u a d o s Gusmões 639, 01212 São P a u l o , SP
~~;: de ... f~~~ ;:<~serva a• p r o p r i e d a d e desta t r a d ; ã o" ' • M • ~ • _
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S U M A R I O
J o h n D e w e y e A n i s i o T e i x e i r a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . I X
N o t a d o D i r e t o r da S ér i e K a p p a D e l t a P i . . . . . . . . . . . . X I
P r e f á c i o . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XV
I - E d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l v e r s u s e d u c a ç ã o " n o v a "
o u " p r o g r e s s i v a " . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
I I - Necessidade de uma t e o r i a d e e x p e r i ê n c i a . . . . 1 3
I I I - Critérios de experiência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 3
I V - A u t o r i d a d e e c o n t r o l e social . . . . . . . . . . . . . . . . 4 5
V - A n a t u r e z a d e l i b e r d a d e . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 9
V I - Que é propósito? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65
V I I - A o r g a n i z a ç ã o progressiva das m a t é r i a s d e estudo 7 3
V I I I - E x p e r i ê n c i a - qs meios e m e t a d a educação . 9 5
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(15.a edição, 1 9 5 2 ) j i o p y r i g h t €_::jY KAPPA DELTA PI ca Q
de J O H N D E W E Y
NESTAS "ATUALIOADES PEDAGÓGICAS":
Vol. 2 - C o m o p e n s a m o s , n o v a t r a d u ç ã o e notas de
H a y d é e C a m a r g o C a m p o s .
V o l . 21 - D e m o c r a c i a e e d u c a ç ã o , t r a d u ç ã o d e G o d o f r e d o
R a n g e l e A n í s i o T e i x e i r a .
Vol. 7 6 - V i d a e e d u c a ç ã o , t r a d u ç ã o e e s t u d o p r e l i m i n a r
d e Anísio T e i x e i r a .
Vol. 131 - E x p e r i ê n c i a e e d u c a ç ã o , t r a d u ç ã o d e A n ís io
T e i x e i r a .
NA COLEÇÃO "CULTURA, SOCIEDADE, EDUCAÇÃO":
V o l . 11 - L i b e r a l i s m o , l i b e r d a d e e cu l t u r a , t r a d u ç ã o e
a p r e s e n t a ç ã o d e Anísio T e i x e i r a .
NA "BIBLIOTECA UNIVERSITÁRIA":
Vol. 1 d a s é r i e 1.a [ F i l o s o fia] - R e c o n s t r u ç ã o e m f i l o s o f i a ,
n o v a t r a d u ç ã o de A n t ó n i o P i n t o d e C a r v a l h o ,
revista p o r A n í s i o T e i x e i r a .
D i r e i t o s para a lingua p o r l l l g u e s a a d q u i r i d o s pela
C O M P A N H I A E D I T O R A N A C I O N A L
R u a d o s Gusmões 639, 01212 São P a u l o , SP
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S U M A R I O
J o h n D e w e y e A n i s i o T e i x e i r a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . I X
N o t a d o D i r e t o r da S ér i e K a p p a D e l t a P i . . . . . . . . . . . . X I
P r e f á c i o . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XV
I - E d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l v e r s u s e d u c a ç ã o " n o v a "
o u " p r o g r e s s i v a " . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . 3
I I - Necessidade de uma t e o r i a d e e x p e r i ê n c i a . . . . 1 3
I I I - Critérios de experiência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 3
I V - A u t o r i d a d e e c o n t r o l e social . . . . . . . . . . . . . . . . 4 5
V - A n a t u r e z a d e l i b e r d a d e . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 9
V I - Que é propósito? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65
V I I - A o r g a n i z a ç ã o progressiva das m a t é r i a s d e estudo 7 3
V I I I - E x p e r i ê n c i a - qs meios e m e t a d a educação . 9 5
JOHN DEWEY e ANlSIO TEIXEIRA
Entre nós, ninguém terá conhecido melhor o pensamento
de John Dewey do que Anísio Teixeira, esclarecido admirador
do mestre norte-americano, cujos trabalhos versou, com sua
lúcida inteligência, durante anos de aturado estudo. Do muito
que Anísio Teixeira excelentemente escreveu sobre Dewey e suas
idéias, transcrevem-se, a seguir, as breves linhas que caracteri-
zam este "Experiência e educação".
Este pequeno livro é um grande livro. Experiência e educação
oferece aos educadores e mestres - e também ao mundo de cultura
geral, pois todos hoje têm interesse e preocupação por educar e en-
sinar - uma filosofia positiva de educação. Numa análise penetrante
das escolas tradicionais e das escolas "progressivas" ou "novas", Dewey
aponta lucidamente os defeitos de umas e outras. O volume não é,
entretanto, de modo algum, obra de controvérsia. Mais uma vez, o
filósofo, considerando os problemas de educação do nosso tempo, in-
terpreta e formula o sentido de uma filosofia de experiência e as
implicações do método científico em educação, dando-nos, à maneira
de Claude Bernard, para a medicina, as bases para uma ciência expe-
rimental de educação. Descre.ve e ilustra, concretamente, o que é
uma situação de aprendizagem, em que se efetiva, pela experiência, a
aquisição do saber, o sentido e a significação de liberdade, de disci·
plina, de autoridade e controle, de atividades e da organização das
matérias de estudo e ensino são expostos no livro dentro do contexto
de experiência educativa, como processo cujos princípios dominantes
são continuidade e intêrpretação.
JOHN DEWEY e ANlSIO TEIXEIRA
Entre nós, ninguém terá conhecido melhor o pensamento
de John Dewey do que Anísio Teixeira, esclarecido admirador
do mestre norte-americano, cujos trabalhos versou, com sua
lúcida inteligência, durante anos de aturado estudo. Do muito
que Anísio Teixeira excelentemente escreveu sobre Dewey e suas
idéias, transcrevem-se, a seguir, as breves linhas que caracteri-
zam este "Experiência e educação".
Este pequeno livro é um grande livro. Experiência e educação
oferece aos educadores e mestres - e também ao mundo de cultura
geral, pois todos hoje têm interesse e preocupação por educar e en-
sinar - uma filosofia positiva de educação. Numa análise penetrante
das escolas tradicionais e das escolas "progressivas" ou "novas", Dewey
aponta lucidamente os defeitos de umas e outras. O volume não é,
entretanto, de modo algum, obra de controvérsia. Mais uma vez, o
filósofo, considerando os problemas de educação do nosso tempo, in-
terpreta e formula o sentido de uma filosofia de experiência e as
implicações do método científico em educação, dando-nos, à maneira
de Claude Bernard, para a medicina, as bases para uma ciência expe-
rimental de educação. Descre.ve e ilustra, concretamente, o que é
uma situação de aprendizagem, em que se efetiva, pela experiência, a
aquisição do saber, o sentido e a significação de liberdade, de disci·
plina, de autoridade e controle, de atividades e da organização das
matérias de estudo e ensino são expostos no livro dentro do contexto
de experiência educativa, como processo cujos princípios dominantes
são continuidade e intêrpretação.
Experiência e educação n ã o p r o c l a m a nem defende n e nh u m
" i s m o " . N ã o sugere n e n h u m compromisso. A f a s t a - s e c l a r a m e n t e de
q u a l q u e r a r r a n j o ou c o m p o s i ç ã o e c l é t i c a . ~ e d u c a ç ã o em si m esma,
q u e é a q u i definida e c r i t i c a m e n t e i n t e r p r e t a d a . E d u c a d o r e s profissio-
nais e leigos j u n t o s e n c o n t r a r ã o nestas páginas respostas de finidas à
m a i o r p a r t e de suas questões, res~tas que c o n s t i t u e m p a r t e i n t e g r a n t e
de u m a filosofia de e d u c a ç ã o q u e t o r n a possível o e s f o r ç o u n i d o e
c o n j u n t o dos líderes p a r a a e d u c a ç ã o ·em nosso t e m p o . T r a z este li-
v r i n h o u m a nova l u z q u e dissolverá a neblina e as névoas q u e hoje
e n v o l v e m filosofia e t e o r i a de e d u c a ç ã o .
..
N O T A DO DIRETOR D A SÉRIE
KAPPA D E L T A PI
Experiência e educação c o m p l e t a a p r i m e i r a d é c a d a d a
S é r i e de C o n f e r ê n c i a s K a p p a D e l t a Pi. É assim o p r e s e n t e
volume, e m p a r t e , u m a p u b l i c a ç ã o d e a n i v e r s á r i o em h o n r a
d o D r . J o h n D e w e y , seu p r i m e i r o e d é c i m o c o n f e r e n c is t a .
E m b o ra b r e v e , c o m p a r a d a c o m o u t r a s o b r a s d o a u t o r , E x p e -
riência e educação é c o n t r i b u i ç ã o fundamen~al à filosofia
da e d u c a ç ã o . S u r g i n d o em m e i o a g e n e r a l i z a d a c o n f u s ã o , q u e
l a m e v t a v e l m e n t e d i s p e r s o u as f o r ç a s d a e d u c a ç ã o nos E s t a d o s
U n i d o s e exaltou lemas de escolas e f é s em c o n f l i t o , este pe:-
q u e n o v o l u m e o f e r e c e r o t e i r o claro e s e g u r o p a r a uma f ! e n t J
c o m u m em educação. Desde q u e o s professores da edu~aç~o
" n o v a " a p l i c a r a m c o n f e s s a d a m e n t e os e n s i n a m e n t os de D ew e y /
d a n d o ênfase à experiência, e x p e r i m e n t a ç ã o , a p r e n d i z a g e m m o -
t i v a d a , l i b e r d a d e e a o u t r o s c o n h e c i d o s c o n c e i t o s d e " e d u c a ç ã o
p r o g r e s s i v a " , é b o m q u e se saiba como o p r ó p r i o D e w e y r e a g e
às c o r r e n t e s p r á t i c a s em educação. N o interesse d e uma c o m -
p r e e n s ã o c l a r a e de u n i ã o de esforços, o Conselho E x e c u t i v o
d e K a p p a D e lta P i p e d i u ao P r o f e s s o r D e w e y p a r a d e b a t e r
algumas das c o n t r o v e r t i d a s questões q u e h o j e d i v i d e m a e d u -
c a ç ã o n o r t e - a m e r i c a n a em dois campos e, p o r t a n t o , a e n f r a q u e -
c e m n u m m o m e n t o em que t o d a a s u a f o r ç a é necessária p a r a
g u i a r a n a ç ã o p e r p l e x a p o r e n t r e os r e v e s e s da m u d a n ç a s o c i a l .
Experiência e educação n ã o p r o c l a m a nem defende n e nh u m
" i s m o " . N ã o sugere n e n h u m compromisso. A f a s t a - s e c l a r a m e n t e de
q u a l q u e r a r r a n j o ou c o m p o s i ç ã o e c l é t i c a . ~ e d u c a ç ã o em si m esma,
q u e é a q u i definida e c r i t i c a m e n t e i n t e r p r e t a d a . E d u c a d o r e s profissio-
nais e leigos j u n t o s e n c o n t r a r ã o nestas páginas respostas de finidas à
m a i o r p a r t e de suas questões, res~tas que c o n s t i t u e m p a r t e i n t e g r a n t e
de u m a filosofia de e d u c a ç ã o q u e t o r n a possível o e s f o r ç o u n i d o e
c o n j u n t o dos líderes p a r a a e d u c a ç ã o ·em nosso t e m p o . T r az este li-
v r i n h o u m a nova l u z q u e dissolverá a neblina e as névoas q u e hoje
e n v o l v e m filosofia e t e o r i a de e d u c a ç ã o .
..
N O T A DO DIRETOR D A SÉRIE
KAPPA D E L T A PI
Experiência e educação c o m p l e t a a p r i m e i r a d é c a d a d a
S é r i e de C o n f e r ê n c i a s K a p p a D e l t a Pi. É assim o p r e s e n t e
volume, e m p a r t e , u m a p u b l i c a ç ã o d e a n i v e r s á r i o em h o n r a
d o D r . J o h n D e w e y , seu p r i m e i r o e d é c i m o c o n f e r e n c is t a .
E m b o ra b r e v e , c o m p a r a d a c o m o u t r a s o b r a s d o a u t o r , E x p e -
riência e educação é c o n t r i b u i ç ã o fundamen~al à filosofia
da e d u c a ç ã o . S u r g i n d o em m e i o a g e n e r a l i z a d a c o n f u s ã o , q u e
l a m e v t a v e l m e n t e d i s p e r s o u as f o r ç a s d a e d u c a ç ã o nos E s t a d o s
U n i d o s e exaltou lemas de escolas e f é s em c o n f l i t o , este pe:-
q u e n o v o l u m e o f e r e c e r o t e i r o claro e s e g u r o p a r a uma f ! e n t J
c o m u m em educação. Desde q u e o s professores da edu~aç~o
" n o v a " a p l i c a r a m c o n f e s s a d a m e n t e os e n s i n a m e n t os de D ew e y /
d a n d o ênfase à experiência, e x p e r i m e n t a ç ã o , a p r e n d i z a g e m m o -
t i v a d a , l i b e r d a d e e a o u t r o s c o n h e c i d o s c o n c e i t o s d e " e d u c a ç ã o
p r o g r e s s i v a " , é b o m q u e se saiba como o p r ó p r i o D e w e y r e a g e
às c o r r e n t e s p r á t i c a s em educação. N o interesse d e uma c o m -
p r e e n s ã o c l a r a e de u n i ã o de esforços, o Conselho E x e c u t i v o
d e K a p p a D e lta P i p e d i u ao P r o f e s s o r D e w e y p a r a d e b a t e r
algumas das c o n t r o v e r t i d a s questões q u e h o j e d i v i d e m a e d u -
c a ç ã o n o r t e - a m e r i c a n a em dois campos e, p o r t a n t o , a e n f r a q u e -
c e m n u m m o m e n t o em que t o d a a s u a f o r ç a é necessária p a r a
g u i a r a n a ç ã o p e r p l e x a p o r e n t r e os r e v e s e s da m u d a n ç a s o c i a l .
X I I E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
E x p e r i ê n c i a e educação é uma l ú c i d a análise t a n t o d a
e d u c a ç ã o " t r a d i c i o n a l " q u a n t o da " p r o g r e s s i v a " . Descrevem-se
os d e f e i t o s f u n d a m e n t a i s de u m a e o u t r a . ~uanto a escola
t r a d i9 onal apoiou-se p a r a o seu p r o g r a m a nas m a t é r i a s ou na
h e r a n ç a c u l t u r a l , a escola " n o v a ' ' e x a l t o u o i m p u l s o e o i n t e -
resse do aluno e os p r o b l e m a s c o r r e n t e s de u m a sociedade em
m u d a n ç a . N e m u m a n e m o u t r a d~a~uas séries de valores b a s t a
p o r si mesma . é ! ; :bas são essenciais. A_ y e r d a d e i r a experiência
e d u c a t i v a envolve, a c i m a d e t u d o , c o n t i n u i d a d e e i n t e r a ç ã o
e n t r e q u e m a p r e n d e e o q u e é a p r e n d i d o . O c~rrfculo t r a d i -
c i o n a l i m p o r t o u , sem d ú v i d a , em r í g i d a a r r e g i m e n t a ç ã o e e m
t i p o d e disciplina q u e i g n o r a v a as capacidades e interesses da
n a t u r e z a i n f a n t i l . H o j e , e n t r e t a n t o , a r e a ç ã o a e s t e t i p o d e
escola leva, muitas vezes, ao o u t r o e x t r e m o : i m p r e c i s ã o d o
c u r r í c u l o , i n d i v i d u a l i s m o excessivo e t i p o d e e s p o n t a n e i d a d e
que é u m e n g a n a d o r í n d i c e de l i b e r d a d e . Dllli::..ey insiste e m
que n e m a velha, nem a n o v a e d u c a ç ã o é a d e q u a d a . Cada
uma delas deseduca, pois não a p l i c a o s p r i n c í p i o s · de u m a
v e r d a d e i r a filosofia d e experiência. Muitas das páginas d o
p resente v olume e s c l a r e c e m o s i g n i f i c a d o d e experi~ncia e
su a r e l a ç ã o c o m e d u c a ç ã o .
R e j e i t a n d o os lemas q u e m a r c_am e p r o l o n g a m a cisão
e n t r e os e d u c a d o res, D~ey_interpreta e d u c a ç ã o c o m o o
m é t o d o c i e n t í f i c o p o r meio do g u a l o h o m e m estuda o
m u n d o e a d q u i r e CUJ.!lulativamente c o n h e c i m e n t o de signi-
ficados e valores, não ~entretanto, estes r e s u l t a d o s da
- - - - - - - - - - -
ciê ncia mais do q u e dados p a r a s e c o n d u z i r u m a v i d a i n t e -
l i g e n t e e de c o n t i n u a d o e s t u d o c r í t i c o. A t e n d ê n c i a da busca
c i e n t í f i c a é p a r a a c o n q u i s t a d e u m c o r p o d e c o n h e c i m e n t o s
q u e , d e v i d a m e n t e c o m p r e e n d i d o s , se fazem meios p a r a a d i -
reção d e novas buscas e pesquisas. D a í não d e v e r o e d u c a -
d o r - c i e n t i s t a l i m i t a r - s e à in~estigação dos p r o b l e m a s à m e d i d a
q u e são d e s c o b e r t o s , mas p r o c e d e r ao e s t u d o d a n a t u r e z a dos
N O T A DO D I R E T O R DA S É R I E X I I I
problemas, d a é p o c a e m q u e s u r g i r a m , e de suas c o n d i ç õ e s ,
i m p o r t â n c i a e significação. P a r a este fim, p o d e p r e c i s a r d e
fazer, s o b e s t a nova l u z, a revisão dos r e f e r i d o s c o n h e c i m e n t o s
acumulados. C o n s e q ü e n t e m e n t e , a e d u c a ç ã o deve e m p r e g a r a
o r g a n i z a ç ã o p r o g r e s s i v a da m a t é r i a em e s t u d o p a r a q u e a c o m -
preensão dessa m a t é r i a , vista em p e r s p e c t i v a , possa i l u m i n a r
o s i g n i f i c a d o e a i m p o r t â n c i a dos p r o b l e m a s que ela resolve.
O e s t u d o c i e n t í f i c o g u i a e a p r o f u n d a a e x p e r i ê n c i a , mas essa
experiência s o m e n t e será e d u c a t i v a n a m e d i d a em q u e se
apóia s o b r e a c o n t i n u i d a d e d o c o n h e c i m e n t o r e l e v a n t e e n a
medida em que t a l c o n h e c i m e n t o m o d i f i c a o u " m o d u l a " a
p e r s p e c t i v a , a a t i t u d e e a habilitação d o a p r e n d i z o u a l u n o . /
A v e r d a d e i r a s i t u a ç ã o d e a p r e n d i z a g e m tem, assim, dimensões
l o n g i t u d i n a i s e transversais. É simultaneamen:te h i s t ó r i c a e
social. É o r d e n a d a e dinâmica.
Páginas i l u m i n a n t es a d i a n t e a g u a r d a m os m u i t o s e d u c a d o - I ?
r e s e professores q u e estão a buscar, ansiosos, o r i e n t a ç ã o e m
q u e possam c o n f i a r , em nossos c o n t u r b a d o s t e m p o s . E x p e -
riência e educação traz-lhes o s f u n d a m e n t o s f i r m e s s o b r e o s
q u a i s p o d e r ã o , u n i d o s , p r o m o v e r u m sistema d e e d u c a ç ã o q u e
r e s p e i t e todas as f o n t e s d e experiência, p o r q u e s e apóia n u m a
filosofia p ositiva e n ã o n e g a t i v a d e experiência e de e d u c a ç ã o .
G u i a d o s p o r esta filosofia p ositiva, os e d u c a d o r e s e s q u e c e r ã o I >
os lemas opostos d e sua c o n t r o v é r s i a , e u n i d o s m a r c h a r ã o e m
p r o l d e u m amanhã m e l h o r .
A L F R E D L . H A L L - Q u F . s r
E d i t o r da Série Kappa Delta P i
X I I E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
E x p e r i ê n c i a e educação é uma l ú c i d a análise t a n t o d a
e d u ca ç ã o " t r a d i c i o n a l " q u a n t o da " p r o g r e s s i v a " . Descrevem-se
os d e f e i t o s f u n d a m e n t a i s de u m a e o u t r a . ~uanto a escola
t r a d i9 onal apoiou-se p a r a o seu p r o g r a m a nas m a t é r i a s ou na
h e r a n ç a c u l t u r a l , a escola " n o v a ' ' e x a l t o u o i m p u l s o e o i n t e -
resse do aluno e os p r o b l e m a s c o r r e n t e s de u m a sociedade em
m u d a n ç a . N e m u m a n e m o u t r a d~a~uas séries de valores b a s t a
p o r si mesma . é ! ; :bas são essenciais. A_ y e r d a d e i r a experiência
e d u c a t i v a envolve, a c i m a d e t u d o , c o n t i n u i d a d e e i n t e r a ç ã o
e n t r e q u e m a p r e n d e e o q u e é a p r e n d i d o . O c~rrfculo t r a d i -
c i o n a l i m p o r t o u , sem d ú v i d a , em r í g i d a a r r e g i m e n t a ç ã o e e m
t i p o d e disciplina q u e i g n o r a v a as capacidades e interesses da
n a t u r e z a i n f a n t i l . H o j e , e n t r e t a n t o , a r e a ç ã o a e s t e t i p o d e
escola leva, muitas vezes, ao o u t r o e x t r e m o : i m p r e c i s ã o d o
c u r r í c u l o , i n d i v i d u a l i s m o excessivo e t i p o d e e s p o n t a n e i d a d e
que é u m e n g a n a d o r í n d i c e de l i b e r d a d e . Dllli::..ey insiste e m
que n e m a velha, nem a n o v a e d u c a ç ã o é a d e q u a d a . Cada
uma delas deseduca, pois não a p l i c a o s p r i n c í p i o s · de u m a
v e r d a d e i r a filosofia d e experiência. Muitas das páginas d o
p resente v olume e s c l a r e c e m o s i g n i f i c a d o d e experi~ncia e
su a r e l a ç ã o c o m e d u c a ç ã o .
R e j e i t a n d o os lemas q u e m a r c_am e p r o l o n g a m a cisão
e n t r e os e d u c a d o res, D~ey_interpreta e d u c a ç ã o c o m o o
m é t o d o c i e n t í f i c o p o r meio do g u a l o h o m e m estuda o
m u n d o e a d q u i r e CUJ.!lulativamente c o n h e c i m e n t o de signi-
ficados e valores, não ~entretanto, estes r e s u l t a d o s da
- - - - - - - - - - -
ciê ncia mais do q u e dados p a r a s e c o n d u z i r u m a v i d a i n t e -
l i g e n t e e de c o n t i n u a d o e s t u d o c r í t i c o. A t e n d ê n c i a da busca
c i e n t í f i c a é p a r a a c o n q u i s t a d e u m c o r p o d e c o n h e c i m e n t o s
q u e , d e v i d a m e n t e c o m p r e e n d i d o s , se fazem meios p a r a a d i -
reção d e novas buscas e pesquisas. D a í não d e v e r o e d u c a -
d o r - c i e n t i s t a l i m i t a r - s e à in~estigação dos p r o b l e m a s à m e d i d a
q u e são d e s c o b e r t o s , mas p r o c e d e r ao e s t u d o d a n a t u r e z a dos
N O T A DO D I R E T O R DA S É R I E X I I I
problemas, d a é p o c a e m q u e s u r g i r a m , e de suas c o n d i ç õ e s ,
i m p o r t â n c i a e significação. P a r a este fim, p o d e p r e c i s a r d e
fazer, s o b e s t a nova l u z, a revisão dos r e f e r i d o s c o n h e c i m e n t o s
acumulados. C o n s e q ü e n t e m e n t e , a e d u c a ç ã o deve e m p r e g a r a
o r g a n i z a ç ã o p r o g r e s s i v a da m a t é r i a em e s t u d o p a r a q u e a c o m -
preensão dessa m a t é r i a , vista em p e r s p e c t i v a , possa i l u m i n a r
o s i g n i f i c a d o e a i m p o r t â n c i a dos p r o b l e m a s que ela resolve.
O e s t u d o c i e n t í f i c o g u i a e a p r o f u n d a a e x p e r i ê n c i a , mas essa
experiência s o m e n t e será e d u c a t i v a n a m e d i d a em q u e se
apóia s o b r e a c o n t i n u i d a d e d o c o n h e c i m e n t o r e l e v a n t e e n a
medida em que t a l c o n h e c i m e n t o m o d i f i c a o u " m o d u l a " a
p e r s p e c t i v a , a a t i t u d e e a habilitação d o a p r e n d i z o u a l u n o . /
A v e r d a d e i r a s i t u a ç ã o d e a p r e n d i z a g e m tem, assim, dimensões
l o n g i t u d i n a i s e transversais. É simultaneamen:te h i s t ó r i c a e
social. É o r d e n a d a e dinâmica.
Páginas i l u m i n a n t es a d i a n t e a g u a r d a m os m u i t o s e d u c a d o - I ?
r e s e professores q u e estão a buscar, ansiosos, o r i e n t a ç ã o e m
q u e possam c o n f i a r , em nossos c o n t u r b a d o s t e m p o s . E x p e -
riência e educação traz-lhes o s f u n d a m e n t o s f i r m e s s o b r e o s
q u a i s p o d e r ã o , u n i d o s , p r o m o v e r u m sistema d e e d u c a ç ã o q u e
r e s p e i t e todas as f o n t e s d e experiência, p o r q u e s e apóia n u m a
filosofia p ositiva e n ã o n e g a t i v a d e experiência e de e d u c a ç ã o .
G u i a d o s p o r esta filosofia p ositiva, os e d u c a d o r e s e s q u e c e r ã o I >
os lemas opostos d e sua c o n t r o v é r s i a , e u n i d o s m a r c h a r ã o e m
p r o l d e u m amanhã m e l h o r .
A L F R E D L . H A L L - Q u F . s r
E d i t o r da Série Kappa Delta P i
P R E F A C I O
T o d o s os movimentos sociais e n v o l v e m c o n f l i t o s
q u e se r e f l e t e m e m controvérsias intelectuais. N ã o
seria n a t u r a l q u e interesse social d a i m p o r t â n c i a da
educação n ã o se fizesse t a m b é m a r e n a de lutas, t a n t o
n a p r á t i c a q u a n t o n a t e o r i a . N o q u e c o n c e r n e à t e o r i a ,
e n t r e t a n t o , pelo menos à t e o r i a q u e é t a r e f a da f i l o -
s o f i a de educação f o n n u l a r , os c o n f l i t o s p r á t i c o s e as
c o n t r o v é r s i a s q u e eles suscitam apenas l e v a n t a m u m
p r o b l e m a . O p r o b l e m a é o de i n v e s t i g a r e d e s c o b r i r
as causas dos c o n f l i t o s existentes e, à luz dessas causas,
elaborar-se teoria i n t e l i g e n t e de educação pela qual, sem
t o m a r p a r t i d o p o r u m ou o u t r o lado, se i n d i q u e plano
de operações que, p a r t i n d o de n í v e l mais p r o f u n d o e
mais compreensivo que o das práticas e idéias dos g r u -
pos e m luta, resolva a c o n t r o v é r s i a e c o n c i l i e os o p o -
n e n t e s .
E s t a f o n n a de se c o n c e b e r a t a r e f a da filosofia da
educação n ã o significa que lhe cabe o b t e r u m a c o r d o
e n t r e as escolas o p o n e n t e s de pensamento e f o n n u l a r
P R E F A C I O
T o d o s os movimentos sociais e n v o l v e m c o n f l i t o s
q u e se r e f l e t e m e m controvérsias intelectuais. N ã o
seria n a t u r a l q u e interesse social d a i m p o r t â n c i a da
educação n ã o se fizesse t a m b é m a r e n a de lutas, t a n t o
n a p r á t i c a q u a n t o n a t e o r i a . N o q u e c o n c e r n e à t e o r i a ,
e n t r e t a n t o , pelo menos à t e o r i a q u e é t a r e f a da f i l o -
s o f i a de educação f o n n u l a r , os c o n f l i t o s p r á t i c o s e as
c o n t r o v é r s i a s q u e eles suscitam apenas l e v a n t a m u m
p r o b l e m a . O p r o b l e m a é o de i n v e s t i g a r e d e s c o b r i r
as causas dos c o n f l i t o s existentes e, à luz dessas causas,
elaborar-se teoria i n t e l i g e n t e de educação pela qual, sem
t o m a r p a r t i d o p o r u m ou o u t r o lado, se i n d i q u e plano
de operações que, p a r t i n d o de n í v e l mais p r o f u n d o e
mais compreensivo que o das práticas e idéias dos g r u -
pos e m luta, resolva a c o n t r o vé r s i a e c o n c i l i e os o p o -
n e n t e s .
E s t a f o n n a de se c o n c e b e r a t a r e f a da filosofia da
educação n ã o significa que lhe cabe o b t e r u m a c o r d o
e n t r e as escolas o p o n e n t e s de pensamento e f o n n u l a r
XVI EXPERIÊNCIA E EDUCAÇÃO
uma via media, nem também elaborar uma combinação
eclética de pontos apanhados aqui e ali entre as duas
escolas. Significa a necessidade de se introduzir nova
ordem de conceitos que conduza a novos modos de
prática. Por isto é que é tão difícil desenvolver-se
nova filosofia de educação, desde que isso importe em
abandonar a tradição e o costume. Por esta razão tam-
bém é que é muito mais difícil organizar e gerir escolas
baseadas em nova ordem de conceitos do que as que
seguem os velhos caminhos batidos pelo tempo. Daí,
todos os movimentos na direção de uma nova ordem
de idéias e das atividades delas decorrentes, mais cedo
ou mais tarde, retornarem às idéias e práticas do pas-
sado, que ressurgem como mais simples e mais funda-
ment-ais, do que é exemplo agora ( 193 8) a tentativa
em educação de reviver os princípios da antiga Grécia
e da Idade Média.
Nesse contexto é que sugiro, ao fim deste peque-
no volume, que todos os que olham para frente em 1
busca de um novo movimento em educação, adaptado
à necessidade presente de uma nova ordem social, pen-
sem em termos de educação e não de qualquer "ismo",
mesmo que seja "progressivismo". Isto porque, a des-
peito dele próprio, todo . movimento, cujo pensamento
- d d I u· " e açao se con uzem em termos e qua quer 1smo ,
vê-se de tal modo arrastado a reagir contra outros
"ismos", que acaba se sentindo por eles controlado. Os
seus princípios, com efeito, de tal modo se formulam
em reação contra eles, que perdem de vista o exame
I
PREFACIO xvn
construtivo e amplo das necessidades, problemas e pos-
sibilidades atuais. Se algum valor tem o ensaio, ora
apresentado neste pequeno volume, será o desta tenta-
tiva de chamar a atenção para as questões mais amplas
e profundas de educação e sugerir o quadro de refe-
rência em que podem adequadamente ser examinadas.
)OHN DEWEY
XVI EXPERIÊNCIA E EDUCAÇÃO
uma via media, nem também elaborar uma combinação
eclética de pontos apanhados aqui e ali entre as duas
escolas. Significa a necessidade de se introduzir nova
ordem de conceitos que conduza a novos modos de
prática. Por isto é que é tão difícil desenvolver-se
nova filosofia de educação, desde que isso importe em
abandonar a tradição e o costume. Por esta razão tam-
bém é que é muito mais difícil organizar e gerir escolas
baseadas em nova ordem de conceitos do que as que
seguem os velhos caminhos batidos pelo tempo. Daí,
todos os movimentos na direção de uma nova ordem
de idéias e das atividades delas decorrentes, mais cedo
ou mais tarde, retornarem às idéias e práticas do pas-
sado, que ressurgem como mais simples e mais funda-
ment-ais, do que é exemplo agora ( 193 8) a tentativa
em educação de reviver os princípios da antiga Grécia
e da Idade Média.
Nesse contexto é que sugiro, ao fim deste peque-
no volume, que todos os que olham para frente em 1
busca de um novo movimento em educação, adaptado
à necessidade presente de uma nova ordem social, pen-
sem em termos de educação e não de qualquer "ismo",
mesmo que seja "progressivismo". Isto porque, a des-
peito dele próprio, todo . movimento, cujo pensamento
- d d I u· " e açao se con uzem em termos e qua quer 1smo ,
vê-se de tal modo arrastado a reagir contra outros
"ismos", que acaba se sentindo por eles controlado. Os
seus princípios, com efeito, de tal modo se formulam
em reação contra eles, que perdem de vista o exame
I
PREFACIO xvn
construtivo e amplo das necessidades, problemas e pos-
sibilidades atuais. Se algum valor tem o ensaio, ora
apresentado neste pequeno volume, será o desta tenta-
tiva de chamar a atenção para as questões mais amplas
e profundas de educação e sugerir o quadro de refe-
rência em que podem adequadamente ser examinadas.
)OHN DEWEY
A -EXPERIENCIA E EDUCAÇAO
. .
A -EXPERIENCIA E EDUCAÇAO
. .
. .
I
E D U C A Ç Ã O T R A D I C I O N A L
versus
EDUCAÇÃO " N O V A " o u " P R O G R E S S I V A "
,J.P . r )
. , •. ~-J rp ).
} j . [ i " . h IJ
\ I Y
O homem gosta de pensar em t e r m o s de oposições
extremadas, de pólos opostos. Costuma f o r m u l a r suas
crenças em termos de " u m o u o u t r o " , " i s t o o u aquilo",
e n t r e os quais não r e c o n h e c e possibilidades i n t e r m e d i á -
rias. Q u a n d o f o r ç a d o a r e c o n h e c e r que não se p o d e
a g i r com base nessas posições extremas, inclina-se a
s u s t e n t a r que está c e n o em t e o r i a mas n a p r á t i c a as c i r -
c u n s t.âncias compelem ao a c o r d o . A filosofia de e d u -
cação não faz exceção a essa regra. A história de t e o r ia \
de educação está marcada pela oposição e n t r e a idéia
de que educação é desenvolvimento d e d e n t r o para f o r a
e a d e que é formação de f o r a par.a d e n t r o ; a de que '1
se baseia nos dotes naturais e a de q u e é u m processo J
de v e n c e r as inclinações naturais e substituí-las p o r h á -
b i t o s adquiridos sob pressão e x t e r n a . .
N o presente, a opostçao, no que diz r e s p e i t o aos
aspectos p r á t i c o s da escola, t e n d e a t o m a r a f o n n a d o
c o n t r a s t e e n t r e a educação t r a d i c i o n a l e a educação
. .
I
E D U C A Ç Ã O T R A D I C I O N A L
versus
EDUCAÇÃO " N O V A " o u " P R O G R E S S I V A "
,J.P . r )
. , •. ~-J rp ).
} j . [ i " . h IJ
\ I Y
O homem gosta de pensar em t e r m o s de oposições
extremadas, de pólos opostos. Costuma f o r m u l a r suas
crenças em termos de " u m o u o u t r o " , " i s t o o u aquilo",
e n t r e os quais não r e c o n h e c e possibilidades i n t e r m e d i á -
rias. Q u a n d o f o r ç a d o a r e c o n h e c e r que não se p o d e
a g i r com base nessas posições extremas, inclina-se a
s u s t e n t a r que está c e n o em t e o r i a mas n a p r á t i c a as c i r -
c u n s t.âncias compelem ao a c o r d o . A filosofia de e d u -
cação não faz exceção a essa regra. A história de t e o r ia \
de educação está marcada pela oposição e n t r e a idéia
de que educação é desenvolvimento d e d e n t r o para f o r a
e a d e que é formação de f o r a par.a d e n t r o ; a de que '1
se baseia nos dotes naturais e a de q u e é u m processo J
de v e n c e r as inclinações naturais e substituí-las p o r h á -
b i t o s adquiridos sob pressão e x t e r n a . .
N o presente, a opostçao, no que diz r e s p e i t o aos
aspectos p r á t i c o s da escola, t e n d e a t o m a r a f o n n a d o
c o n t r a s t e e n t r e a educação t r a d i c i o n a l e a educação
4 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
p r o g r e s s i v a . Se b u s c a r m o s f o r m u l a r , d e m o d o g e r a l ,
s e m as qualificações necessárias p a r a p e r f e i t a e x a t i d ã o ,
as idéias f u n d a m e n t a is d a p r i m e ira, p o d e r e m o s assim
r e s u mi-las:
1
A m a t é r i a o u c o n t e ú d o d a e d u c a ç ã o c o n s i s t e d e
c o r p o s de i n f o r m a ç ã o e de h a b i l i d a d e s q u e se e l a b o r a -
r a m n o passado; a p r i n c i p a l t a r e f a da escola é, p o r t a n -
t o , t r a n s m i t i - los à n o v a g e r a ç ã o . N o passado, t a m b é m
p a d r õ e s e r e g ras de c o n d u t a se e s t a b e l e c e r a m ; l o g o ,
z. e d uc a ç ã o m o r a l c o n s i s t e e m a d q u i r i r h á b i t o s d e ação
e m c o n f o r mi d a d e c o m tais r e g r a s e p a d r õ e s . F i n a l -
m e n t e , o p l a n o ge r a l de o r g a n i z a ç ã o d a escola ( p o r
isto q u e r o s i g n i f i c a r as relações dos a l u n o s u n s c o m
os o u t r o s e c o m os p r o f e s s o r e s ) f a z d a escola u m a
3 i n s t i t u i ç ã o r a d i c a l m e n t e d i f e r e n t e das o u t r a s i n s t i t u i ç õ e s
sociais . I m a g i n e m o s a sala d e aula c o m u m , seus h o r á -
rios, esquemas de classificação, d e exames e p r o m o ç ã o ,
d e r e g r a s d e o r d em e disciplina e, c r e i o , l o g o v e r e m o s
o q u e d e s e j o e x p r i m i r c o m o " p l a n o d e o r g a n i z a ç ã o " .
Se c o n t r a s t a r m o s a c e n a da escola c o m o q u e se passa
n a família, p o r exemplo, p e r c e b e r e m o s o q u e p r o c u r e i
s i g n i f i c a r ao d i z e r q u e a escola fez-se u m a espécie d e
i n s t i t u i ç ã o r a d i c a l m e n t e d i f e r e n t e d e q u a l q u e r o u t r a
f o r m a de o r g a n i z a ç ã o social.
O s ~característicos q u e acabamos de m e n ciona r
fixam os f i n s , os m é t o d o s d a i n s t r u ç ã o e a d i s c i p l i n a
e s c o l a r . O p r i n c i p a l -p r o p ó s i t o o u . o b j e t i v o é p rep a r a r
o j o v e m p a r a as suas f u t u r a s r e s p o n s a b i l i d a d e s e p a r a
I
E D U C A Ç Ã O T R A D I C I O N A L 5
o su c esso n a v i d a , p o r m e i o d a aqulSl ção d e c o r p o s
o r g a n i z a d o s d e i n f o r m a ç ã o e de f o r m a s existentes de
habilitação, qu e c o n s t i t u e m o m a t e r i a l de i n s t r u ç ã o .
D e s d e q u e as m a t é r i a s d e e s t u d o , t a n t o q u a n t o os p a -
d r õ e s de c o n d u t a a p r o p r i a d a , nos v ê m do passad o, a
a ti t u d e dos alunos, d e m o d o geral, d e v e s e r d e d o c i l i -
d a d e , r e c e p t i v i d a d e e o b e d i ê n c i a . L i v r o s , esp e c i a l m e n t e
manuais escolares, são os p r i n c i p a i s r e p r ese n t a n t e s do
c o n h e c i m e n t o e s a b e d o r i a d o pa ssa do e os p rofessores
são os ó rgãos, p o r meio dos quai s, os alunos e n t r a m em
r e l a ç ã o c o m esse m a t e r i a l . O s mestres são os a g e n t e s
d e c o m u n i c a ç ã o do c o n h e c i m e n t o e das h a b i li tações e
de imposição das n o r m a s de c o n d u t a .
N ã o f i z este b r e v e s u m á r i o c o m o p r o p ósito de
c ri t i c a r a filo sofia d a esco la t r a d i c i o n a l . O s u r t o do
q u e se c h a m a de e d u c a ç ã o n o v a e escola p r o g r ess iva é
ele p r ó p r i o o r e s u l t a d o d o d e s c o n t e n t a m e n t o c o m a
e d ucaçã o t r a d i c i o n a l . N a r e a l i d a d e é i m p l i c i t a m e n t e a
s u a c r í t i c a . Se t o r n a r m o s e x p l í c i t a t a l c r í t i c a , t er e m o s
algo c o m o se segue:
O es q u e m a t r a d i c i o n a l é, em essência, e s q u e m a d e
i m p o s i ç ã o d e c i m a p a r a baixo e d e f o r a p a r a d e n t r o .
I m p õ e p a d r õ e s , m a t é r i a s de e s t u d o e m é t o d o s d e a d u l -
t o s s o b r e os q u e estão a i n d a c r e s c e n d o l e n t a m e n t e p a r a
a m a t u r i d a d e . A d i s t â n c i a e n t r e o q u e se i m p õe e os
q u e s o f r e m a i m p o s i ç ã o é t ã o g r a n d e , q u e as m a t é r i a s
exigidas, os m é t o d o s de a p r e n d e r e d e c o m p o r t a m e n t o
são algo d e e s t r a n h o p a r a a c a p a c i d a d e do j o v e m e m
4 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
p r o g r e s s i v a . Se b u s c a r m o s f o r m u l a r , d e m o d o g e r a l ,
s e m as qualificações necessárias p a r a p e r f e i t a e x a t i d ã o ,
as idéias f u n d a m e n t a is d a p r i m e ira, p o d e r e m o s assim
r e s u mi-las:
1
A m a t é r i a o u c o n t e ú d o d a e d u c a ç ã o c o n s i s t e d e
c o r p o s de i n f o r m a ç ã o e de h a b i l i d a d e s q u e se e l a b o r a -
r a m n o passado; a p r i n c i p a l t a r e f a da escola é, p o r t a n -
t o , t r a n s m i t i - los à n o v a g e r a ç ã o . N o passado, t a m b é m
p a d r õ e s e r e g ras de c o n d u t a se e s t a b e l e c e r a m ; l o g o ,
z. e d u c a ç ã o m o r a l c o n s i s t e e m a d q u i r i r h á b i t o s d e ação
e m c o n f o r mi d a d e c o m tais r e g r a s e p a d r õ e s . F i n a l -
m e n t e , o p l a n o ge r a l de o r g a n i z a ç ã o d a escola ( p o r
isto q u e r o s i g n i f i c a r as relações dos a l u n o s u n s c o m
os o u t r o s e c o m os p r o f e s s o r e s ) f a z d a escola u m a
3 i n s t i t u i ç ã o r a d i c a l m e n t e d i f e r e n t e das o u t r a s i n s t i t u i ç õ e s
sociais . I m a g i n e m o s a sala d e aula c o m u m , seus h o r á -
rios, esquemas de classificação, d e exames e p r o m o ç ã o ,
d e r e g r a s d e o r d em e disciplina e, c r e i o , l o g o v e r e m o s
o q u e d e s e j o e x p r i m i r c o m o " p l a n o d e o r g a n i z a ç ã o " .
Se c o n t r a s t a r m o s a c e n a da escola c o m o q u e se passa
n a família, p o r exemplo, p e r c e b e r e m o s o q u e p r o c u r e i
s i g n i f i c a r ao d i z e r q u e a escola fez-se u m a espécie d e
i n s t i t u i ç ã o r a d i c a l m e n t e d i f e r e n t e d e q u a l q u e r o u t r a
f o r m a de o r g a n i z a ç ã o social.
O s ~característicos q u e acabamos de m e n ciona r
fixam os f i n s , os m é t o d o s d a i n s t r u ç ã o e a d i s c i p l i n a
e s c o l a r . O p r i n c i p a l -p r o p ó s i t o o u . o b j e t i v o é p rep a r a r
o j o v e m p a r a as suas f u t u r a s r e s p o n s a b i l i d a d e s e p a r a
I
E D U C A Ç Ã O T R A D I C I O N A L 5
o su c esso n a v i d a , p o r m e i o d a aqulSl ção d e c o r p o s
o r g a n i z a d o s d e i n f o r m a ç ã o e de f o r m a s existentes de
habilitação, qu e c o n s t i t u e m o m a t e r i a l de i n s t r u ç ã o .
D e s d e q u e as m a t é r i a s d e e s t u d o , t a n t o q u a n t o os p a -
d r õ e s de c o n d u t a a p r o p r i a d a , nos v ê m do passad o, a
a ti t u d e dos alunos, d e m o d o geral, d e v e s e r d e d o c i l i -
d a d e , r e c e p t i v i d a d e e o b e d i ê n c i a . L i v r o s , esp e c i a l m e n t e
manuais escolares, são os p r i n c i p a i s r e p r ese n t a n t e s do
c o n h e c i m e n t o e s a b e d o r i a d o pa ssa do e os p rofessores
são os ó rgãos, p o r meio dos quai s, os alunos e n t r a m em
r e l a ç ã o c o m esse m a t e r i a l . O s mestres são os a g e n t e s
d e c o m u n i c a ç ã o do c o n h e c i m e n t o e das h a b i li tações e
de imposição das n o r m a s de c o n d u t a .
N ã o f i z este b r e v e s u m á r i o c o m o p r o p ósito de
c ri t i c a r a filo sofia d a esco la t r a d i c i o n a l . O s u r t o do
q u e se c h a m a de e d u c a ç ã o n o v a e escola p r o g r ess iva é
ele p r ó p r i o o r e s u l t a d o d o d e s c o n t e n t a m e n t o c o m a
e d ucaçã o t r a d i c i o n a l . N a r e a l i d a d e é i m p l i c i t a me n t e a
s u a c r í t i c a . Se t o r n a r m o s e x p l í c i t a t a l c r í t i c a , t er e m o s
algo c o m o se segue:
O es q u e m a t r a d i c i o n a l é, em essência, e s q u e m a d e
i m p o s i ç ã o d e c i m a p a r a baixo e d e f o r a p a r a d e n t r o .
I m p õ e p a d r õ e s , m a t é r i a s de e s t u d o e m é t o d o s d e a d u l -
t o s s o b r e os q u e estão a i n d a c r e s c e n d o l e n t a m e n t e p a r a
a m a t u r i d a d e . A d i s t â n c i a e n t r e o q u e se i m p õe e os
q u e s o f r e m a i m p o s i ç ã o é t ã o g r a n d e , q u e as m a t é r i a s
exigidas, os m é t o d o s de a p r e n d e r e d e c o m p o r t a m e n t o
são algo d e e s t r a n h o p a r a a c a p a c i d a d e do j o v e m e m
6 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
sua i d a d e. E s t ã o além do alcance da expe r iê n c i a q u e
e n t ã o p ossu i. P o r c o n s e g u i n t e , há q u e i m p ô - l os. E
ist o é o que se dá, mesm o q u a n d o b o n s professores f a -
çam us o de artifíci()s p a r a m a s c a r a r a imposição e deste
m o d o d i m i n u i r - l h e os aspec tos obvia m e n te b r u t a i s .
· M esmo nesses casos, o abismo e n t r e o s a b e r ama-
d u r e c i d o e acabado d o adu l t o e a ex p e r i ê n cia e c a p a -
c i d a d e do j o v e m é t ã o amplo, qu e a p r óp r i a situação
c r i a d a imp ed e qu al q u e r p ar t i cipação mais ativa dos
a l u n o s n o d e s e n v o l v i m e n t o do q ue é e n sinado . A eles
cabe lid a r e a p re n d e r , c o m. 2 a missão dos seiscentos ·
f o i a _ de l u t a r e m o q e r . / A p r e n d e r s i g n i f i c a a d qui r i r
o q u e já estainco~pq_rado aç~ l i v r.os_ .e .. J m e n t e d~ , I ~~~~9§j Consi d e r a - s e ainda o que s e e~sina c o m o
esse n c i a l m en t e e s t á t i c o . E nsi n a -se um p r o d u t o acabado,
sem m a i o r a t e n ç ã o q u a n t o aos modos e meios p o r q u e
o r i g i n a ri a m e n t e assim se fez, n em ta mb ém qu an t o às
m u d a n ç a s q u e s e g u r a m e n t e i r á s o f r er n o f u t u r o . T r a -
t a -s e d e p r o d u t o c u l t u r a l d e soci e dades que s u p u n h a m
o f u t u r o em t u d o semel h a n t e ao passado e q u e passa
a se r usado c o m o o alim e n t o e d u c a t i v o d e u m a s o c i e -
: -I dade, em que a r e g ra e não a exceção é m~dar.
S e buscarmos f o r m u l a r a f i l o so f i a d e e d u c a ç ã o
i m p l í c i t a nas p r á t i c a s d a educação mais n o v a , podemos,
c r e i o , de sc o b r i r c e n o s p r i n c í p i o s c o m u n s p o r e n t r e
a v a r i e d a d e d e escolas p rogressiv as o r a existentes . A
f imposição d e cima p a r a báixo, opõe-se a exp r e ssã o e 1 c u l t iv o d á i n d i v i d u a l i d a d e ; à disciplin a e x t e r n a , opõe-se
E D U C A Ç Ã O T R A D I C I O N A L 7
a atividade livre; a a p r e n d e r p o r li vr os e professores,
a p r e n d e r p o r e x p e r i ên cia; à aquisição p o r e x e r c í c i o e
t r e i n o d e habilidades e t é cnicas isolad as, a s u a aquisi-
ç ã o c o m o meios p a r a a t ingi r f in s q ue r e s p o n d e m a
a p elos d i r e t o s e v itais do aluno; à p re p a r a ç ão p ara u m
f u t u r o mais o u menos r e m o t o opõe-se ap r o v e i t a r-se
ao máximo das o p o n u n i d a d e s do p r e sen t e ; a fins e
c o n h e c i m e n t o s est á t i c o s opõe-se a t o m a d a ,9e c o n t a c t o
c o m u m m u n d o em m u d a n ça .
T o d o s os p r i n c í p i o s são, p o r ém , em si mesm.os,
abstrações. F aze m-se c o n c r e t o s s o m e n t e nas CO_!}§e-
q ü ê n c i as q u e r e s u l t a m d e su a ap licaç ão. Exatament~
p o r q u e os p r i n c ípios acima i n d i c a d o s são d e tamanh~(
a l c a n c e e tão f u n d a m e q t a i s , é que t u d o dep en de d a
i n t er p retação que lhes f o r da da ao p ô - l o s e m prátic~
\. n a escola e n o l a r . J E neste p o n t o é q ue t e m a b s o l u t a
p e n i n ê n c i a a nossa r e fe r ê n c ia ante r i o r às filosofias do
" i s to .. o u- aq u i l o " . A filosofia g e r a l d e ed u c aç ã o n o v a
p o d e s e r b o a e c e n a , mas a d i f e r e n ç a e m p r i n c í p i o s
a b s t r a t o s n ã o é q u e i r á d e c i d i r o m o d o p o r que as
v a n t a gens m o rais e i n t el e c t u a is neles c on t i d a s se i r ã o
c o n c r e t i z a r n a p r á t i c a . H á s e m p r e o p e r i g o em u m
n o v o m o v i m e n t o d e q ue, ·a o r e j e i t ar os fins e m ét o -
d o s d a situação q u e visa s u p l a n t a r , desenvolva seus
p r i n c í p i o s n e g a t iv a m e n t e e n ã o de m a n e i r a p o sitiv a e construti~~ S u c e d e e n t ã o q u e, n a r e a l i d a d e, se t o m a
c o m o c h a v e p a r a a p rá t ica o que é r eje i t a d o em v e z
d e d esco b r i - l a n o des envolv im e n t o c o n s t r u t i v o de sua
p r ó p r i a filosofia .
. r- A:J I J.: ' I J • n \_, j
. \ \ ,
6 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
sua i d a d e. E s t ã o além do alcance da expe r iê n c i a q u e
e n t ã o p ossu i. P o r c o n s e g u i n t e , há q u e i m p ô - l os. E
ist o é o que se dá, mesm o q u a n d o b o n s professores f a -
çam us o de artifíci()s p a r a m a s c a r a r a imposição e deste
m o d o d i m i n u i r - l h e os aspec tos obvia m e n te b r u t a i s .
· M esmo nesses casos, o abismo e n t r e o s a b e r ama-
d u r e c i d o e acabado d o adu l t o e a ex p e r i ê n cia e c a p a -
c i d a d e do j o v e m é t ã o amplo, qu e a p r óp r i a situação
c r i a d a imp ed e qu al q u e r p ar t i cipação mais ativa dos
a l u n o s n o d e s e n v o l v i m e n t o do q ue é e n sinado . A eles
cabe lid a r e a p re n d e r , c o m. 2 a missão dos seiscentos ·
f o i a _ de l u t a r e m o q e r . / A p r e n d e r s i g n i f i c a a d qui r i r
o q u e já estainco~pq_rado aç~ l i v r.os_ .e .. J m e n t e d~ , I ~~~~9§j Consi d e r a - s e ainda o que s e e~sina c o m o
esse n c i a l m en t e e s t á t i c o . E nsi n a -se um p r o d u t o acabado,
sem m a i o r a t e n ç ã o q u a n t o aos modos e meios p o r q u e
o r i g i n a ri a m e n t e assim se fez, n em ta mb ém qu an t o às
m u d a n ç a s q u e s e g u r a m e n t e i r á s o f r er n o f u t u r o . T r a -
t a -s e d e p r o d u t o c u l t u r a l d e soci e dades que s u p u n h a m
o f u t u r o em t u d o semel h a n t e ao passado e q u e passa
a se r usado c o m o o alim e n t o e d u c a t i v o d e u m a s o c i e -
: -I dade, em que a r e g ra e não a exceção é m~dar.
S e buscarmos f o r m u l a r a f i l o so f i a d e e d u c a ç ã o
i m p l í c i t a nas p r á t i c a s d a educação mais n o v a , podemos,
c r e i o , de sc o b r i r c e n o s p r i n c í p i o s c o m u n s p o r e n t r e
a v a r i e d a d e d e escolas p rogressiv as o r a existentes . A
f imposição d e cima p a r a báixo, opõe-se a exp r e ssã o e 1 c u l t iv o d á i n d i v i d u a l i d a d e ; à disciplin a e x t e r n a , opõe-se
E D U C A Ç Ã O T R A D I C I O N A L 7
a atividade livre; a a p r e n d e r p o r li vr os e professores,
a p r e n d e r p o r e x p e r i ên cia; à aquisição p o r e x e r c í c i o e
t r e i n o d e habilidades e t é cnicas isolad as, a s u a aquisi-
ç ã o c o m o meios p a r a a t ingi r f in s q ue r e s p o n d e m a
a p elos d i r e t o s e v itaisdo aluno; à p re p a r a ç ão p ara u m
f u t u r o mais o u menos r e m o t o opõe-se ap r o v e i t a r-se
ao máximo das o p o n u n i d a d e s do p r e sen t e ; a fins e
c o n h e c i m e n t o s est á t i c o s opõe-se a t o m a d a ,9e c o n t a c t o
c o m u m m u n d o em m u d a n ça .
T o d o s os p r i n c í p i o s são, p o r ém , em si mesm.os,
abstrações. F aze m-se c o n c r e t o s s o m e n t e nas CO_!}§e-
q ü ê n c i as q u e r e s u l t a m d e su a ap licaç ão. Exatament~
p o r q u e os p r i n c ípios acima i n d i c a d o s são d e tamanh~(
a l c a n c e e tão f u n d a m e q t a i s , é que t u d o dep en de d a
i n t er p retação que lhes f o r da da ao p ô - l o s e m prátic~
\. n a escola e n o l a r . J E neste p o n t o é q ue t e m a b s o l u t a
p e n i n ê n c i a a nossa r e fe r ê n c ia ante r i o r às filosofias do
" i s to .. o u- aq u i l o " . A filosofia g e r a l d e ed u c aç ã o n o v a
p o d e s e r b o a e c e n a , mas a d i f e r e n ç a e m p r i n c í p i o s
a b s t r a t o s n ã o é q u e i r á d e c i d i r o m o d o p o r que as
v a n t a gens m o rais e i n t el e c t u a is neles c on t i d a s se i r ã o
c o n c r e t i z a r n a p r á t i c a . H á s e m p r e o p e r i g o em u m
n o v o m o v i m e n t o d e q ue, ·a o r e j e i t ar os fins e m ét o -
d o s d a situação q u e visa s u p l a n t a r , desenvolva seus
p r i n c í p i o s n e g a t iv a m e n t e e n ã o de m a n e i r a p o sitiv a e construti~~ S u c e d e e n t ã o q u e, n a r e a l i d a d e, se t o m a
c o m o c h a v e p a r a a p rá t ica o que é r eje i t a d o em v e z
d e d esco b r i - l a n o des envolv im e n t o c o n s t r u t i v o de sua
p r ó p r i a filosofia .
. r- A:J I J.: ' I J • n \_, j
. \ \ ,
8 E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
C o n s i d e r o q u e a i d é i a f u n d a m e n t a l da f i l o s o f i a
de e d u c a ç ã o mais n o v a e q u e lhe d á u n i d a d e é a de
h a v e r r e l a ç ã o í n t i m a e necessária e n t r e os p r o c essos d e
nossa e x p e r i ê n c i a r e a l e a e d u c a ç ã o . Se isto é v e r d a d e ,
e n t ã o o d e s e n v o l v i m e n t o p o s i t i v o e c o n s t r u t i vo de sua
p r ó p r i a i d é i a básica d e p e n d e d e se t e r u m a i d é i a c o r -
r e t a de e x p e r i ê n c i a . T o m e - s e , p o r e x e m p l o , a q u e s t ã o
d a o r g a n i z a ç ã o da m a t é r i a d e e s t u d o - q u e i r e m o s
d i s c u t i r em d e t a l h e mais a d i a n t e . O p r o b l e m a p a r a a
e d u c a ç ã o p r o g r e s s i v a é o de se s a b e r q u a l é o l u g a r e
a s i g n i f i c a ç ã o de " m a t é r i a " e de " o r g a n i z a ç ã o ' : dentro
d a e x p e r i ê n c ia. C o m o f u n c i o n a a " m a t é r i a " ? E x i s t e
algo i n e r e n t e à e x p e r i ê n c i a q u e t e n d e p a r a a o r g a n i z a -
. ção p r o g r e s s i v a d o seu c o n t e ú d o ? Q u e s u c e d e q u a n d o
a m a t é r i a da e x p e r i ê n c i a n ã o é p r o g r e s s i v a m e n t e o r g a -
n i z a d a ? U m a f i l o s o f i a q u e p r o c e d e n a base de suas
r e j e i ç õ e s , de simples o p o s i ç ã o , i g n o r a r á estas questões.
C o m o a e d u c a ç ã o t r a d i c i o n á l se bas eava n u m a o r g a -
n i z a ç ã o já f e i t a e a c a b a d a , s u p o r á q u e se r á s u f i c i e n t e
r e j e i t a r o p r i n c í p i o d e o r g a n i z a ç ã o ín t o t m n , em v e z d e
l u t a r p o r d e s c o b r i r q u a l o s e n t i d o d e o r g a n i z a ç ã o e
c o m o se p o d e r á c o n s e g u i - l a n a base d e e x p e r i ê n c i a .
P o d e m o s p e r c o r r e r t o d o s o s p o n t o s d e d i f e re n ç a e n t r e
a v e l h a e a n o v a e d u c a ç ã o e c h e g a r ,a c o n c l u s õ e s seme-
l h a n t e s . u à n d o se r e j e i t a o c o n t r o l e e x t e r n o , o p r o -
1b l e m a é c o m o a c h a r os f a t o r e s de c o n t r o l e i n e r e n t e s
1
ao p r o c e s s o d e e x p e r i ê n c i a . Q u a n d o se r e f u g a a a u t o -
r i d a d e e x t e r n a , n ã o se• s e g u e q u e t o d a a u t o r i d a d e deva
s e r r e j e i t a d a , mas a n t e s q u e se d e v e b u s c a r f o n t e mais
EDUCAÇÃO T R A D I C I O N A L
fACUl Pnlll OE EQUC4C .i 0
B I B L I O T E C A ;
9
e f e t i v a de a u t o r i d a d e . P o r q u e a e d u c a ç ã o velha i m p u -
n h a ao j o v e m o s a b er , os m é t o d o s e as r e g r a s de c o n -
d u t a da pessoa m a d u r a , n ã o se s e g u e , a n ã o s e r n a
base d a f i l o s o f i a d o s e x t r e mos de " i s t o - o u - a q u i l o " , q u e
o s a b e r d a pessoa m a d u r a n ã o t e n h a v a l o r d e d i r e ç ã o
p a r a a e x p e r i ê n c i a d o i m a t u r o . P e l o c o n t r á r i o , b a-
s e a n d o - s e a e d u c a ç ã o n a e x p e ri ê n c i a pessoal, p o d e i s t o
s i g n i f i c a r c o n t a c t o s mais n u m e r o s o s e mais í n t i m o s
e n t r e o i m a t u r o e a pessoa a m a d u r e c i d a d o q u e jamais
h o u v e n a escola t r a d i c i o n a l e, assim, c o n s e q ü e n t e m e n t e ,
mais e n ã o m e n o s d i r e ç ã o e o r i e n t a ç ã o p o r o u t r e m .
O p r o b l e m a , pois, é: c o m o tais c o n t a c t o s p o d e m s e r
e s t a b e l e c i d o s sem violação d o 12fincípio de a p r e n d i z a -
_gem p o r meio de e x p e r i ê n c i a pess.oal. A solução d e s t e
p r o b l e m a r e q u er u m a filosofia b e m e l a b o r a d a dos ! ia - ,á_rP'-
~res sociais q u e o p e r a m n a c o n s t i t u i ç ã o de e x p e r i ê n c i a .
~dividual. J
O q u e desejamos s u b lin h a r c o m estas o b s e r v a ç õ e s
é q u e os p r i n c í p i o s gerais da n o v a e d u c a ç ã o , p o r si
mesmos, n ã o r e s o l v e m n e n h u m dos p r o b l e m a s p r á t i c o s
e c o n c r e t o s de c o n d u ç ã o e d i r e ç ã o das escolas p r o -
gressivas. P e l o c o n t r á r i o , l e v a n t a m n o v o s p r o b l e m a s ,
q u e t e r ã o d e s e r r e s o l v i d o s n a base d e u m a n o v a f i -
l o s o f i a d e e x p e r i ê n c i a . O s p r o b l e m a s n ã o são s e q u e r
r e c o n h e c i d os ( q u e d i z e r d e r e s o l v i d o s ? ) q u a n d o se
s u p õ e q u e basta r e j e i t a r as idéias e .as p r á t i c a s da e d u -
c a ç ã o velha e p a r t i r p a r a a posição n o o u t r o e x t r e m o .
E s t o u c e r t o de q u e se r e c o n h e c e o q u e desejo e x p r i m i r
q u a n d o d i g o q u e m u i t a s das escolas novas t e n d e m : a
8 E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
C o n s i d e r o q u e a i d é i a f u n d a m e n t a l da f i l o s o f i a
de e d u c a ç ã o mais n o v a e q u e lhe d á u n i d a d e é a de
h a v e r r e l a ç ã o í n t i m a e necessária e n t r e os p r o c essos d e
nossa e x p e r i ê n c i a r e a l e a e d u c a ç ã o . Se isto é v e r d a d e ,
e n t ã o o d e s e n v o l v i m e n t o p o s i t i v o e c o n s t r u t i vo de sua
p r ó p r i a i d é i a básica d e p e n d e d e se t e r u m a i d é i a c o r -
r e t a de e x p e r i ê n c i a . T o m e - s e , p o r e x e m p l o , a q u e s t ã o
d a o r g a n i z a ç ã o da m a t é r i a d e e s t u d o - q u e i r e m o s
d i s c u t i r em d e t a l h e mais a d i a n t e . O p r o b l em a p a r a a
e d u c a ç ã o p r o g r e s s i v a é o de se s a b e r q u a l é o l u g a r e
a s i g n i f i c a ç ã o de " m a t é r i a " e de " o r g a n i z a ç ã o ' : dentro
d a e x p e r i ê n c ia. C o m o f u n c i o n a a " m a t é r i a " ? E x i s t e
algo i n e r e n t e à e x p e r i ê n c i a q u e t e n d e p a r a a o r g a n i z a -
. ção p r o g r e s s i v a d o seu c o n t e ú d o ? Q u e s u c e d e q u a n d o
a m a t é r i a da e x p e r i ê n c i a n ã o é p r o g r e s s i v a m e n t e o r g a -
n i z a d a ? U m a f i l o s o f i a q u e p r o c e d e n a base de suas
r e j e i ç õ e s , de simples o p o s i ç ã o , i g n o r a r á estas questões.
C o m o a e d u c a ç ã o t r a d i c i o n á l se bas eava n u m a o r g a -
n i z a ç ã o já f e i t a e a c a b a d a , s u p o r á q u e se r á s u f i c i e n t e
r e j e i t a r o p r i n c í p i o d e o r g a n i z a ç ã o ín t o t m n , em v e z d e
l u t a r p o r d e s c o b r i r q u a l o s e n t i d o d e o r g a n i z a ç ã o e
c o m o se p o d e r á c o n s e g u i - l a n a base d e e x p e r i ê n c i a .
P o d e m o s p e r c o r r e r t o d o s o s p o n t o s d e d i f e re n ç a e n t r e
a v e l h a e a n o v a e d u c a ç ã o e c h e g a r ,a c o n c l u s õ e s seme-
l h a n t e s . u à n d o se r e j e i t a o c o n t r o l e e x t e r n o , o p r o -
1b l e m a é c o m o a c h a r os f a t o r e s de c o n t r o l e i n e r e n t e s
1
ao p r o c e s s o d e e x p e r i ê n c i a . Q u a n d o se r e f u g a a a u t o -
r i d a d e e x t e r n a , n ã o se• s e g u e q u e t o d a a u t o r i d a d e deva
s e r r e j e i t a d a , mas a n t e s q u e se d e v e b u s c a r f o n t e mais
EDUCAÇÃO T R A D I C I O N A L
fACUl Pnlll OE EQUC4C .i 0
B I B L I O T E C A ;
9
e f e t i v a de a u t o r i d a d e . P o r q u e a e d u c a ç ã o velha i m p u -
n h a ao j o v e m o s a b er , os m é t o d o s e as r e g r a s de c o n -
d u t a da pessoa m a d u r a , n ã o se s e g u e , a n ã o s e r n a
base d a f i l o s o f i a d o s e x t r e mos de " i s t o - o u - a q u i l o " , q u e
o s a b e r d a pessoa m a d u r a n ã o t e n h a v a l o r d e d i r e ç ã o
p a r a a e x p e r i ê n c i a d o i m a t u r o . P e l o c o n t r á r i o , b a-
s e a n d o - s e a e d u c a ç ã o n a e x p e ri ê n c i a pessoal, p o d e i s t o
s i g n i f i c a r c o n t a c t o s mais n u m e r o s o s e mais í n t i m o s
e n t r e o i m a t u r o e a pessoa a m a d u r e c i d a d o q u e jamais
h o u v e n a escola t r a d i c i o n a l e, assim, c o n s e q ü e n t e m e n t e ,
mais e n ã o m e n o s d i r e ç ã o e o r i e n t a ç ã o p o r o u t r e m .
O p r o b l e m a , pois, é: c o m o tais c o n t a c t o s p o d e m s e r
e s t a b e l e c i d o s sem violação d o 12fincípio de a p r e n d i z a -
_gem p o r meio de e x p e r i ê n c i a pess.oal. A solução d e s t e
p r o b l e m a r e q u er u m a filosofia b e m e l a b o r a d a dos ! ia - ,á_rP'-
~res sociais q u e o p e r a m n a c o n s t i t u i ç ã o de e x p e r i ê n c i a .
~dividual. J
O q u e desejamos s u b lin h a r c o m estas o b s e r v a ç õ e s
é q u e os p r i n c í p i o s gerais da n o v a e d u c a ç ã o , p o r si
mesmos, n ã o r e s o l v e m n e n h u m dos p r o b l e m a s p r á t i c o s
e c o n c r e t o s de c o n d u ç ã o e d i r e ç ã o das escolas p r o -
gressivas. P e l o c o n t r á r i o , l e v a n t a m n o v o s p r o b l e m a s ,
q u e t e r ã o d e s e r r e s o l v i d o s n a base d e u m a n o v a f i -
l o s o f i a d e e x p e r i ê n c i a . O s p r o b l e m a s n ã o são s e q u e r
r e c o n h e c i d os ( q u e d i z e r d e r e s o l v i d o s ? ) q u a n d o se
s u p õ e q u e basta r e j e i t a r as idéias e .as p r á t i c a s da e d u -
c a ç ã o velha e p a r t i r p a r a a posição n o o u t r o e x t r e m o .
E s t o u c e r t o de q u e se r e c o n h e c e o q u e desejo e x p r i m i r
q u a n d o d i g o q u e m u i t a s das escolas novas t e n d e m : a
10 A • EXPERIENCIA E EDUCAÇAO
dar pouca ou mesmo nenhuma importância à orga-.
nização da matéria de estudo; a proceder como se
qualquer forma de direção e orientação pelo adulto
constituísse invasão à área da liberdade individual; a
considerar que a idéia de que a educação deve inte-
ressar-se pelo presente e futuro significasse que o co-
nhecimento do passado tenha pouco ou nenhum papel
na educação. Sem desejar exagerar tais tendências, ser-
vem elas, pelo menos, para ilustrar o ponto que vimos
acentuando de poder a nova teoria e prática de edu-
cação buscar afirmar-se de forma negativa, ou seja,
reagindo contra o que é corrente em educação, em vez
de esforçar-se de modo positivo e construtivo em de-
senvolver os propósitos, métodos e matéria de estudo
na base de uma teoria de experiência e de suas poten-
cialidades educativas.
[Ni~ será demais lembrar que uma filosofia de
/êaucação que professe basear-se na idéia de liberdade
lpode tornar-se dogmática como nunca tenha chegado
i~~r .,!l-~-d~c~~2...__,tradicional, contra a qual, entretanto,
está a reagir. Toda teoria, como qualquer regra de
prática, faz-se dogmática se não se baseia, sempre, no
exame crítico de seus próprios princípios fundamen-
tais. Digamos que a educação nova deve dar ênfase
à liberdade do aluno. Muito bem. Temos então um
problema: que significa liberdade e quais as condições
pelas quais poderá a escola ser capaz de efetivá-la?
Digamos que o hi_bito~ de imposição externa, tão co-
mum na escola tradicional, mais impedia dÕ que pro-
l . r .r ,,0wJ~ J. ~1{::,1 r, ll/)iJ~ · ("../~ v' J ~
J
EDUCAÇÃO TRADICIONAL 11
movia o desenvolvimento moral e intelectual do jovem.
Novamente, está certo. Mas o reconhecimento desta
falha da escola levanta um problema. Qual será exa-
tamente o papel do professor e dos livros no desen-
volvimento educativo do imaturo ? Admita-se que a
educação tradicional empregasse como matéria de es-
tudo fatos e idéias tão ligados ao passado que pouco
poderiam contribuir para ajudar a compreender os
problemas do presente e do futuro. Muito bem. Mas
isto nos põe ante o problema de descobrir a relação
que realmente existe dentro da experiência entre as
realizações do passado e os problemas do presente. A
solução estará na descoberta de como a familiarização
com o passado poderá traduzir-se em poderosa instru-
mentalidade para melhor lidar efetivamente com o fu-
turo. Rejeitando o conhecimento do passado como o
fim de educação, iremos apenas dar-lhe maior impor-
tância como meio de educação. Quando assim pro-
cedemos, l~çamos um problema novo no contexto
educacional~ Como poderá o jovem conhecer e fami-
""''liaii.Zar-sé"'êom o passado de modo tal que este conhe-
cimento se constitua poderoso fator de sua apreciação
e sentimento do presente vivo e palpitante ?
10 A • EXPERIENCIA E EDUCAÇAO
dar pouca ou mesmo nenhuma importância à orga-.
nização da matéria de estudo; a proceder como se
qualquer forma de direção e orientação pelo adulto
constituísse invasão à área da liberdade individual; a
considerar que a idéia de que a educação deve inte-
ressar-se pelo presente e futuro significasse que o co-
nhecimento do passado tenha pouco ou nenhum papel
na educação. Sem desejar exagerar tais tendências, ser-
vem elas, pelo menos, para ilustrar o ponto que vimos
acentuando de poder a nova teoria e prática de edu-
cação buscar afirmar-se de forma negativa, ou seja,
reagindocontra o que é corrente em educação, em vez
de esforçar-se de modo positivo e construtivo em de-
senvolver os propósitos, métodos e matéria de estudo
na base de uma teoria de experiência e de suas poten-
cialidades educativas.
[Ni~ será demais lembrar que uma filosofia de
/êaucação que professe basear-se na idéia de liberdade
lpode tornar-se dogmática como nunca tenha chegado
i~~r .,!l-~-d~c~~2...__,tradicional, contra a qual, entretanto,
está a reagir. Toda teoria, como qualquer regra de
prática, faz-se dogmática se não se baseia, sempre, no
exame crítico de seus próprios princípios fundamen-
tais. Digamos que a educação nova deve dar ênfase
à liberdade do aluno. Muito bem. Temos então um
problema: que significa liberdade e quais as condições
pelas quais poderá a escola ser capaz de efetivá-la?
Digamos que o hi_bito~ de imposição externa, tão co-
mum na escola tradicional, mais impedia dÕ que pro-
l . r .r ,,0wJ~ J. ~1{::,1 r, ll/)iJ~ · ("../~ v' J ~
J
EDUCAÇÃO TRADICIONAL 11
movia o desenvolvimento moral e intelectual do jovem.
Novamente, está certo. Mas o reconhecimento desta
falha da escola levanta um problema. Qual será exa-
tamente o papel do professor e dos livros no desen-
volvimento educativo do imaturo ? Admita-se que a
educação tradicional empregasse como matéria de es-
tudo fatos e idéias tão ligados ao passado que pouco
poderiam contribuir para ajudar a compreender os
problemas do presente e do futuro. Muito bem. Mas
isto nos põe ante o problema de descobrir a relação
que realmente existe dentro da experiência entre as
realizações do passado e os problemas do presente. A
solução estará na descoberta de como a familiarização
com o passado poderá traduzir-se em poderosa instru-
mentalidade para melhor lidar efetivamente com o fu-
turo. Rejeitando o conhecimento do passado como o
fim de educação, iremos apenas dar-lhe maior impor-
tância como meio de educação. Quando assim pro-
cedemos, l~çamos um problema novo no contexto
educacional~ Como poderá o jovem conhecer e fami-
""''liaii.Zar-sé"'êom o passado de modo tal que este conhe-
cimento se constitua poderoso fator de sua apreciação
e sentimento do presente vivo e palpitante ?
..
I I
NECESSIDADE D E U M A T E O R I A
D E E X P E R I : t N C I A
E m s u m a , o p o n t o q u e d e s e j o a c e n t u a r é q u e
a r e j e i ç ã o d a f i l o s o f i a e p r á t i c a d a e s c o l a t r a d i c i o n a l
l e v a n t a , p a r a os q u e a c r e d i t a m e m u m n o v o t i p o d e
e d u c a ç ã o , u m n o v o t i p o de d i f í c i l p r o b l e m a e d u c a c i o n a l .
E n q u a n t o n ã o r e c o n h e c e r m o s este f a t o , a t u a r e m o s d e
m a n e i r a c e g a e c o n f u s a . L f : indi~ensável compreeE.:-
d e r , e de m a n e i r a c a b a l , q u e n ã o é a b a n d o n a n d o o
~o-que resolvemQs_qu.a!.qJJçx_problema.l N a s p á g i n a s
q u e se s e g u e m p r o c u r a m o s assim i n d i c a r a l g u n s d o s
p r i n c i p a i s p r o b l e m a s q u e c o n f r o n t a m a n o v a e d u c a ç ã o ,
e s u g e r i r as l i n h a s f u n d a m e n t a i s ao l o n g o das quais se
d e v e b u s c a r - l h e s a s o l u ç ã o . E m m e i o a t o d a s as i n c e r -
tezas, a d m i t o h a v e r c o n s e n s o g e r a l p e r m a n e n t e q u a n t o
a p r e s s u p o s t o f u n d a m e n t a l , o u seja, d e que h á c o n e x ã o
o r g â n i c a e n t r e . e d u c a ç ã Q... e e x p e r i ê n c i a pessoal, e s t a n d o , 1
p o r t a n t o , a n o v a f i l o s o f i a d e e d u c a ç ã o c o m p r o m e t i d a I
c o m a l g u m a e s p é c i e d e f i l o s o f i a e m p í r i c a e e x p e r i m e n -, \
t a l . Mas, e x p e ri ê n c i a e e x p e r i m e n t o não são t e r m o s
q u e se e x p l i c a m p o r si mesmos. P e l o c o n t r á r i o , o q u e
..
I I
NECESSIDADE D E U M A T E O R I A
D E E X P E R I : t N C I A
E m s u m a , o p o n t o q u e d e s e j o a c e n t u a r é q u e
a r e j e i ç ã o d a f i l o s o f i a e p r á t i c a d a e s c o l a t r a d i c i o n a l
l e v a n t a , p a r a os q u e a c r e d i t a m e m u m n o v o t i p o d e
e d u c a ç ã o , u m n o v o t i p o de d i f í c i l p r o b l e m a e d u c a c i o n a l .
E n q u a n t o n ã o r e c o n h e c e r m o s este f a t o , a t u a r e m o s d e
m a n e i r a c e g a e c o n f u s a . L f : indi~ensável compreeE.:-
d e r , e de m a n e i r a c a b a l , q u e n ã o é a b a n d o n a n d o o
~o-que resolvemQs_qu.a!.qJJçx_problema.l N a s p á g i n a s
q u e se s e g u e m p r o c u r a m o s assim i n d i c a r a l g u n s d o s
p r i n c i p a i s p r o b l e m a s q u e c o n f r o n t a m a n o v a e d u c a ç ã o ,
e s u g e r i r as l i n h a s f u n d a m e n t a i s ao l o n g o das quais se
d e v e b u s c a r - l h e s a s o l u ç ã o . E m m e i o a t o d a s as i n c e r -
tezas, a d m i t o h a v e r c o n s e n s o g e r a l p e r m a n e n t e q u a n t o
a p r e s s u p o s t o f u n d a m e n t a l , o u seja, d e que h á c o n e x ã o
o r g â n i c a e n t r e . e d u c a ç ã Q... e e x p e r i ê n c i a pessoal, e s t a n d o , 1
p o r t a n t o , a n o v a f i l o s o f i a d e e d u c a ç ã o c o m p r o m e t i d a I
c o m a l g u m a e s p é c i e d e f i l o s o f i a e m p í r i c a e e x p e r i m e n -, \
t a l . Mas, e x p e ri ê n c i a e e x p e r i m e n t o não são t e r m o s
q u e se e x p l i c a m p o r si mesmos. P e l o c o n t r á r i o , o q u e
14 E X PE R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
si g n i f i c a m é p a r t e do p r o b l e m a a s e r explorado. 1'fão
p o d e m o s s a b e r o s e n t i d o d e e m p i r i c ismo sem c o m -
p r e e n d e r o q u e é experiência.
A c r e n ç a de g u e t o d a educação gen~ se c o n -
s u m a através d e e x p e r i ê n c i a não q u e r d i z e r g u e t o d a s
e x p e r i ê n cias são g e n_!!Ínas e igualment~ ; ducativas . .Ex-
p e r i ê n c i a ~cação___!!ão são t e r m o s q u e se equivalem.
A l g u m a s experiências são deseducativas. lJL.des.e.dJJ~-*
va t o d a experiência q u e p r o d u z a o e~ d_e_ p a r a r o u
d e s t o r c e r o q e s c i m e n t o p a r a novas e x p e r i ê n c i a s p o s -
t e r i o r e s . ~ma ex p e r i ê ncia p o d e s e r t a l q u e p r o d u z a
dureza, insensibilidade, i n c a p a c i d ade de r e s p o n d e r aos
apelos d a vida , r e s t r i n g i n d o , p o r t a n t o , a possibilidade d e
f u t u r a s experiências mais ricas. \ O u t r a p o d e r á a u m e n -
t a r a d e s t r e z a em al uma a t i v i d a d e a u t o m á t i c a , mas
- -d~ m o do ue h a b i t u e a pessoa a c e r t o s tJE os
p e r o t i n a,_ f e c a~ d o - l h e o _caJEinho _ p a r a e! p e r i ê n c i a s
novas_._ A ' S i j i i i ê n c ia p o d e s e r imediat a m en t e a g r a d á -
v e l e, e n t r e t a n t o , c o n c o r r e r p a r a a~itudes descuidadas e
preguiçosas, de ste m o d o a t u a n d o s o b re a qualidade das
f u t u r a s experiências, p o d e n d o i m p e d i r a pessoa d e t i r a r
delas t u d o que t ê m p a r a d a r . P o r o u t r o lado, as
e x p e r i ê n c i a s p o d e m s e r t ã o desconexas e desligadas umas
d as o u t r a s que, e m b o r a agradáveis e mesmo e x c i t a n t e s
e m si mesmas, n ã o se a r t i c u l a m c u m u l a t i v a m e n t e . A
e n e r g i a se dispersae a pessoa se f a z u m dissipado. C a d a
e x p e r i ê n c i a p o d e s e r v í v i d a , i n t e n s a e " i n t e r e s s a n t e " , mas
sua desconexão v i r a g e r a r hábitos dispersivos, des i n t e -
g r a d o s , c e n t r í f u g o s . A c o n s e q ü ê n c i a d e tais~ é
T E O R I A D E E X P E R I Ê N C I A 15
i n c a p a c i d a d e n o f u t u r o de c o n t r o l a r as experiências,
q u e passam a s e r r e c e b i d a s c o m o f o n t e s de p r a z e r , des-
c o n t e n t a m e n t o , o u r e v o l t a . É evi d e n t e que, em tais
c i r c u n s t â n c i a s , seria ocioso falar d e d o m í n i o de si mesmo.
A e ducação t r a d i c i o n a l o f e r e c e u m a p l e t o r a d e
experiências do s t i p o s que indicamos. tJ, um g r a n d e
e r r o suP-or,~acitamen~, que_a_sala d e classe t r a -~1 n ã o s e j a l u g a r e~ _s~e _os_.~lunos te.tili_~m exp_:-
riências. •E'"ntfêtanto, aomite-se taCitamente IstO, q u a n d o
se p o e o p l a n o d e a p r e n d e r p o r e x p e r i ê n c i a e m .opos~ção
r a d i c a l ao d a escola t r a d i c i o n a l . A v e r d a d e i r a l m h a
d e a t a q u e é a de q u e as e x p e r i ê n c i a s , t a n t o dos alunos
q u a n t o dos mestres, são, e m g r a n d e p a r t e , d e t i p o
e r r a d o . Q u a n t o s e s t u d a n t e s , p o r exemplo, se t o r n a m \
insensíveis às idéias e q u a n t o s p e r d e m o ~mpeto p o r
a p r e n d e r , devido a o m o d o p o r q u e ex p e r i m e n t a m o
a t o d e a p r e n d e r ? Q u a n t o s a d q u i r e m habilidades p o r
meio d e exercícios d e a u t o m a tismo e assim limitam a
c a p a c i d a d e d e j u l g a r e a g i r i n t e l i g e n t e m e n t e em s i t u a -
ções novas ? Q u a n t o s acabam p o r associar o processo
d e a p rendizagem c o m algo d e en f a d o n h o e tedioso ?
\ Quan.J_o s achara~o_aJbeio às ~itua~
_ções de v i d a f o r a d a escola, que n e n h u m a ca acidade
d e c o n t r a e_~u e r a esenY.o e.r._p a r a o c o m a n d o d a
...Yid.ãl:lQ u a n t o s p a r a semp r e p er d e r a m o gosto pelos
l i v r o s , associando-os a s u p r e m o e n f a d o c f i c a n d o " c o n -
d i c i o n a d o s " p a r a apenas l e r e m s u m á r i a e ocasional-
m e n t e ?
14 E X PE R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
si g n i f i c a m é p a r t e do p r o b l e m a a s e r explorado. 1'fão
p o d e m o s s a b e r o s e n t i d o d e e m p i r i c ismo sem c o m -
p r e e n d e r o q u e é experiência.
A c r e n ç a de g u e t o d a educação gen~ se c o n -
s u m a através d e e x p e r i ê n c i a não q u e r d i z e r g u e t o d a s
e x p e r i ê n cias são g e n_!!Ínas e igualment~ ; ducativas . .Ex-
p e r i ê n c i a ~cação___!!ão são t e r m o s q u e se equivalem.
A l g u m a s experiências são deseducativas. lJL.des.e.dJJ~-*
va t o d a experiência q u e p r o d u z a o e~ d_e_ p a r a r o u
d e s t o r c e r o q e s c i m e n t o p a r a novas e x p e r i ê n c i a s p o s -
t e r i o r e s . ~ma ex p e r i ê ncia p o d e s e r t a l q u e p r o d u z a
dureza, insensibilidade, i n c a p a c i d ade de r e s p o n d e r aos
apelos d a vida , r e s t r i n g i n d o , p o r t a n t o , a possibilidade d e
f u t u r a s experiências mais ricas. \ O u t r a p o d e r á a u m e n -
t a r a d e s t r e z a em al uma a t i v i d a d e a u t o m á t i c a , mas
- -d~ m o do ue h a b i t u e a pessoa a c e r t o s tJE os
p e r o t i n a,_ f e c a~ d o - l h e o _caJEinho _ p a r a e! p e r i ê n c i a s
novas_._ A ' S i j i i i ê n c ia p o d e s e r imediat a m en t e a g r a d á -
v e l e, e n t r e t a n t o , c o n c o r r e r p a r a a~itudes descuidadas e
preguiçosas, de ste m o d o a t u a n d o s o b re a qualidade das
f u t u r a s experiências, p o d e n d o i m p e d i r a pessoa d e t i r a r
delas t u d o que t ê m p a r a d a r . P o r o u t r o lado, as
e x p e r i ê n c i a s p o d e m s e r t ã o desconexas e desligadas umas
d as o u t r a s que, e m b o r a agradáveis e mesmo e x c i t a n t e s
e m si mesmas, n ã o se a r t i c u l a m c u m u l a t i v a m e n t e . A
e n e r g i a se dispersa e a pessoa se f a z u m dissipado. C a d a
e x p e r i ê n c i a p o d e s e r v í v i d a , i n t e n s a e " i n t e r e s s a n t e " , mas
sua desconexão v i r a g e r a r hábitos dispersivos, des i n t e -
g r a d o s , c e n t r í f u g o s . A c o n s e q ü ê n c i a d e tais~ é
T E O R I A D E E X P E R I Ê N C I A 15
i n c a p a c i d a d e n o f u t u r o de c o n t r o l a r as experiências,
q u e passam a s e r r e c e b i d a s c o m o f o n t e s de p r a z e r , des-
c o n t e n t a m e n t o , o u r e v o l t a . É evi d e n t e que, em tais
c i r c u n s t â n c i a s , seria ocioso falar d e d o m í n i o de si mesmo.
A e ducação t r a d i c i o n a l o f e r e c e u m a p l e t o r a d e
experiências do s t i p o s que indicamos. tJ, um g r a n d e
e r r o suP-or,~acitamen~, que_a_sala d e classe t r a -~1 n ã o s e j a l u g a r e~ _s~e _os_.~lunos te.tili_~m exp_:-
riências. •E'"ntfêtanto, aomite-se taCitamente IstO, q u a n d o
se p o e o p l a n o d e a p r e n d e r p o r e x p e r i ê n c i a e m .opos~ção
r a d i c a l ao d a escola t r a d i c i o n a l . A v e r d a d e i r a l m h a
d e a t a q u e é a de q u e as e x p e r i ê n c i a s , t a n t o dos alunos
q u a n t o dos mestres, são, e m g r a n d e p a r t e , d e t i p o
e r r a d o . Q u a n t o s e s t u d a n t e s , p o r exemplo, se t o r n a m \
insensíveis às idéias e q u a n t o s p e r d e m o ~mpeto p o r
a p r e n d e r , devido a o m o d o p o r q u e ex p e r i m e n t a m o
a t o d e a p r e n d e r ? Q u a n t o s a d q u i r e m habilidades p o r
meio d e exercícios d e a u t o m a tismo e assim limitam a
c a p a c i d a d e d e j u l g a r e a g i r i n t e l i g e n t e m e n t e em s i t u a -
ções novas ? Q u a n t o s acabam p o r associar o processo
d e a p rendizagem c o m algo d e en f a d o n h o e tedioso ?
\ Quan.J_o s achara~o_aJbeio às ~itua~
_ções de v i d a f o r a d a escola, que n e n h u m a ca acidade
d e c o n t r a e_~u e r a esenY.o e.r._p a r a o c o m a n d o d a
...Yid.ãl:lQ u a n t o s p a r a semp r e p er d e r a m o gosto pelos
l i v r o s , associando-os a s u p r e m o e n f a d o c f i c a n d o " c o n -
d i c i o n a d o s " p a r a apenas l e r e m s u m á r i a e ocasional-
m e n t e ?
1 6 E X P E R I ÊN C I A E EDUCAÇÃO
F a ç o tais perg~ntas, n ã o p a r a q u a l q uer c o n d e n a -
ç ã o g l o b a l d a e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l , mas c o m p r o p ó s i t o
m u i t o diverso. N a r e a l i d a d e , des ejo ap enas d a r ênfase
ao f a t o , p r i m e i r o , de q u e os jovens n a esc ola t r a d i c i o n a l
t ê m e passam p o r e x p e r i ê n c ias e, seg u n d o , que ~ o p r o -
b le ma n ã o é a f a l t a de e x p e r i ê n c i a s mas o c a r á t e r des~
exper i ê n c ias j h a b i t u a l m e n t e más e defeituosas, d e f e i -
t u osas s o b r e t u d o d o p o n t o d e vista d e s u a c o n exão c o m
f u t u r a s e x p e r i ê n c i a s . O a s p e c t o p o s i t i v o d e s t e p o n t o
a i n d a é mais i m p o r t a n t e em r elaçã o à ' e d u c a ç ã o p r o g r e s -
siva . N ã o b a s t a i n s i s t i r n a necessidade d e ex p e r i ê ncia,
n e m mesmo em ativi d ade do t i p o de e x p er i ê n c i a . T u d o
d e p e n d e ·da~~Etriencia p o r q ue se passa.
\
A q u a l i d a d e de q u a l q u e r expe r i ê n cia t e m dois aspectos:
o imedi ato de s e r ag r a d áve l o u d e s a g r a d á ve l e o m e d i a t o
de s u a i n f l u ê n c i a s o b r e ex p e r i ê n c i a s p o s t e r i o r e s . O p r i -
m e i r o é ó b v i o e f á c i l de j u l g a r . Mas , em r e l a ç ã o a o
e f ei t o d e u m a e x p e r i ê n c i a , a s i t u a ç ã o c o n s t i t u i u m p r o -
bl em a p a r a o e d u c a d o r . S u a t a r efa é a d e di sp o r as
cousas p a r a q u e as e x p e r i ê n c i a s , c o n q u a n t o n ã o r e p u g -
n e m ao estuçlame c a n t e s m o b i l i z em seus esforços, n ã o
s e j a m ape n as i m e d i a t a m e n t e a g r a d á veis mas o e n r i q u e -
ç a m e, s o b r e t u do, o a r m e m p a r a n ovas e x p e r i ê n c i a s f u -
t u r a s . Ass im c o m o h o m em n e n h u m vive o u m o r r e p a r a
si m e s m o , assim n e n h u m a exper i ê n c i a v i v e o u m o r r e
p a r a si mesma. I n d e p en d e n t em e n t e d e q u a l q u e r desejo
o u i n t e n t o , t o d a e x p er i ê n c i a v i v e e se p ro l o n g a em ex p e -
r i ê n c i a s que se s u c e d e m . D aí c o nst i t u i r -se o p r o b l e m a
c e n t r a l de e d u c a ç ã o alice r ç ada em e x p e r i ê n c i a a sele-
T E O R I A D E E X P E R I Ê N C I A 1 7
ç ã o das e x p e r i ê n c i a s p r e s e n t e s , q u e d e v e m s e r do t i p o
das q u e irão i n f l u i r f r u t í f e r a e c r i a d o r a m e n t e nas e x p e -
r i ê n cias s u b s e q ü e n t e s .
A d i a n t e , analisarei e m d e t a l h e o p r i n c í p i o d a c o n -
t i n u i d a d e de expe r i ê n c i a , o u d o q u e se p od e r i a c h a m a r
" c o n t i n u u m e x p e r i e n c i a l " . D ese j o a q u i sim p l es m e n t e I o
. I •
r e n o var a ênfase n a i m p o r t â n c i a d e s t e p n n c r p r o p a r a
a f i l o s o f i a d e e x p e r i ê n c i a e d u c a t i v a . U m a filo so fia d e
e d u c ação, corno q u a l q u e r o u t r a t e o r i a , t e m d e se r f o r -
m u l a d a e m palavras e s í m b o l o s. M a s o p r o b l e m a r e al
é mais do q ue v er b a l: t r at a - se de u m p l a n o p a r a se
c o n d u z i r a e d u c a ç ã o . E u m p l a n o ; c o mo q u a l q u e r p l a -
n o , d i z r es p e i t o a o q u e d e v e s e r f e i t o e. ao c o m o d e v e
s e r fe i t o . Q u a nt o mais d e f i n i t i v a e s m c e r a m e n t e se
s u s t e n t a q u e e d u c aç ã o é d e s e n v o l v i m e n t o d e n t r o , p o r
.e p a r a ex p e r i ê n c i a, t a n t o mais importam~ se faz.~ n.e-
cessidade d e c l a r a c o n c e p ç ã o do q u e seja expenenc1a.
A n ã o s e r q u e se c o n c e b a e x p er i ê n c ia co m ta l c l a r e -
za, q u e dos r es p e c t i v o s c o n c e i t o s res~l.te u m p l a n o q u e
n os g u i e nas decisões s o b re as m a t e n a s de est~do, os
m é t o d o s d e i n s t r u ç ã o e disciplina, so b r e o e q m p a m e n -
t o m a t e r i a l e sob r e a o r g a n i z a ç ã o s o ci a l da esc ola - a
i d é i a estará i n t e i r a m e n t e n o a r . E s t a r á r e d u z i d a a u m j o g o de p a l av ras, q u e p o d e m ser c a p azes d e d e s p e r t a r
e m o ç ã o , mas p o d e r á s e r s u b s t i t u í do p o r qua l qu e r o u t r o ,
a n ã o ser q u e i n d i q u e u m a s é r i e d e o p er a ç õ es a .s~rem
i n i c iadas e e x e c u t a d a s . P o r q u e a e d u c a ç ã o trad1c10nal
é q u e s t ã o d e r o t i n a em q u e os p l a n o s e p r o g r a m a s n o s
1 6 E X P E R I ÊN C I A E EDUCAÇÃO
F a ç o tais perg~ntas, n ã o p a r a q u a l q uer c o n d e n a -
ç ã o g l o b a l d a e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l , mas c o m p r o p ó s i t o
m u i t o diverso. N a r e a l i d a d e , des ejo ap enas d a r ênfase
ao f a t o , p r i m e i r o , de q u e os jovens n a esc ola t r a d i c i o n a l
t ê m e passam p o r e x p e r i ê n c ias e, seg u n d o , que ~ o p r o -
b le ma n ã o é a f a l t a de e x p e r i ê n c i a s mas o c a r á t e r des~
exper i ê n c ias j h a b i t u a l m e n t e más e defeituosas, d e f e i -
t u osas s o b r e t u d o d o p o n t o d e vista d e s u a c o n exão c o m
f u t u r a s e x p e r i ê n c i a s . O a s p e c t o p o s i t i v o d e s t e p o n t o
a i n d a é mais i m p o r t a n t e em r elaçã o à ' e d u c a ç ã o p r o g r e s -
siva . N ã o b a s t a i n s i s t i r n a necessidade d e ex p e r i ê ncia,
n e m mesmo em ativi d ade do t i p o de e x p e r i ê n c i a . T u d o
d e p e n d e ·da~~Etriencia p o r q ue se passa.
\
A q u a l i d a d e de q u a l q u e r expe r i ê n cia t e m dois aspectos:
o imedi ato de s e r ag r a d áve l o u d e s a g r a d á ve l e o m e d i a t o
de s u a i n f l u ê n c i a s o b r e ex p e r i ê n c i a s p o s t e r i o r e s . O p r i -
m e i r o é ó b v i o e f á c i l de j u l g a r . Mas , em r e l a ç ã o a o
e f ei t o d e u m a e x p e r i ê n c i a , a s i t u a ç ã o c o n s t i t u i u m p r o -
bl em a p a r a o e d u c a d o r . S u a t a r efa é a d e di sp o r as
cousas p a r a q u e as e x p e r i ê n c i a s , c o n q u a n t o n ã o r e p u g -
n e m ao estuçlame c a n t e s m o b i l i z em seus esforços, n ã o
s e j a m ape n as i m e d i a t a m e n t e a g r a d á veis mas o e n r i q u e -
ç a m e, s o b r e t u do, o a r m e m p a r a n ovas e x p e r i ê n c i a s f u -
t u r a s . Ass im c o m o h o m em n e n h u m vive o u m o r r e p a r a
si m e s m o , assim n e n h u m a exper i ê n c i a v i v e o u m o r r e
p a r a si mesma. I n d e p en d e n t em e n t e d e q u a l q u e r desejo
o u i n t e n t o , t o d a e x p er i ê n c i a v i v e e se p ro l o n g a em ex p e -
r i ê n c i a s que se s u c e d e m . D aí c o nst i t u i r -se o p r o b l e m a
c e n t r a l de e d u c a ç ã o alice r ç ada em e x p e r i ê n c i a a sele-
T E O R I A D E E X P E R I Ê N C I A 1 7
ç ã o das e x p e r i ê n c i a s p r e s e n t e s , q u e d e v e m s e r do t i p o
das q u e irão i n f l u i r f r u t í f e r a e c r i a d o r a m e n t e nas e x p e -
r i ê n cias s u b s e q ü e n t e s .
A d i a n t e , analisarei e m d e t a l h e o p r i n c í p i o d a c o n -
t i n u i d a d e de expe r i ê n c i a , o u d o q u e se p od e r i a c h a m a r
" c o n t i n u u m e x p e r i e n c i a l " . D ese j o a q u i sim p l es m e n t e I o
. I •
r e n o var a ênfase n a i m p o r t â n c i a d e s t e p n n c r p r o p a r a
a f i l o s o f i a d e e x p e r i ê n c i a e d u c a t i v a . U m a filo so fia d e
e d u c ação, corno q u a l q u e r o u t r a t e o r i a , t e m d e se r f o r -
m u l a d a e m palavras e s í m b o l o s. M a s o p r o b l e m a r e al
é mais do q ue v er b a l: t r at a - se de u m p l a n o p a r a se
c o n d u z i r a e d u c a ç ã o . E u m p l a n o ; c o mo q u a l q u e r p l a -
n o , d i z r es p e i t o a o q u e d e v e s e r f e i t o e. ao c o m o d e v e
s e r f e i t o . Q u a nt o mais d e f i n i t i v a e s m c e r a m e n t e se
s u s t e n t a q u e e d u c aç ã o é d e s e n v o l v i m e n t o d e n t r o , p o r
.e p a r a ex p e r i ê n c i a, t a n t o mais importam~ se faz.~ n.e-
cessidade d e c l a r a c o n c e p ç ã o do q u e seja expenenc1a.A n ã o s e r q u e se c o n c e b a e x p er i ê n c ia co m ta l c l a r e -
za, q u e dos r es p e c t i v o s c o n c e i t o s res~l.te u m p l a n o q u e
n os g u i e nas decisões s o b re as m a t e n a s de est~do, os
m é t o d o s d e i n s t r u ç ã o e disciplina, so b r e o e q m p a m e n -
t o m a t e r i a l e sob r e a o r g a n i z a ç ã o s o ci a l da esc ola - a
i d é i a estará i n t e i r a m e n t e n o a r . E s t a r á r e d u z i d a a u m j o g o de p a l av ras, q u e p o d e m ser c a p azes d e d e s p e r t a r
e m o ç ã o , mas p o d e r á s e r s u b s t i t u í do p o r qua l qu e r o u t r o ,
a n ã o ser q u e i n d i q u e u m a s é r i e d e o p er a ç õ es a .s~rem
i n i c iadas e e x e c u t a d a s . P o r q u e a e d u c a ç ã o trad1c10nal
é q u e s t ã o d e r o t i n a em q u e os p l a n o s e p r o g r a m a s n o s
18 A ~ -E X P E R I E N C I A E EDUCAÇAO
~êm d~ passad~, n ã o ~e segu~ q u e a e d u c a ç ã o p r o g r e s -
Siva seJa q u e s t a o de I m p r o v i s a ç ã o s e m p l a n o .
! ! j ~ esco l a tra~icional p o d i a e x i s ti r s e m n e n h u m a fi-
l o s o f i a de e d u c a ç a o c o e r e n t e m e n t e d e s e n v o l v i d a . N e s s a
l i n h a , t u d o q u e r e q u e r i a s e r i a m a~strações v e r b a i s tais
c o m o c u l t u r a , d i s c i p l i n a , nossa g r a n d e h e r a n ç a c u lt u r a l ,
e t c . , d e c o r r e n d o s u a d i r e ç ã o r e a l d o c o s t u m e e das
r o t i n a s est~belecidas . J á a e s c o l a p r o g r e s s i v a , n ã o p o -
d e n d o apo i a r -se n a s t r a d i ç õ e s e s t a b e l e c i d a s n e m n o s
h á b i t o s i n s t i t u c i o n a i s , t e r á q u e se d e i x a r c o n d u z i r mais
o u m e n o s ao acaso o u d i r i g i r - s e p o r i d é i a s q u e , se a r t i -
, c u l a d a s e co~rentes, f o r m a m u m a f i l o s o f i a d e e d u c a ç ã o .
A r e v o l t a c o n t r a a espéc.ie de o r g a n i z a ç ã o c a r a c t e r í s t i c a
d a ,es.cola tradi~ional r e p r e s e n t a a e x i g ê n c i a d e o u t r a
~speci~ de o r g a n i z a ç ã o baseada e m idéias. J u lgo q u e n ã o
e p r e c i s o n e n h u m c o n h e c i m e n t o g r a n d e d a h i s t ó r i a da
e d u c a ç ã o p a r a se c o m p r o v a r q u e s o m e n t e r e f o r m a d o r e s
e i n o v a d o r e s e d u c a c i o n a i s s e n t i r a m a n e c e s s i d a d e de
u m a f i l o s o f i a de e d u c a ç ã o . O s q u e a d e r i r a m ao s i s t e m a
e s t a b e l e c i d o jamais t i v e r a m n e c essi d a d e a n ã o s e r d e
a l g u m a s belas p a l a v r a s p a r a j u s t i f i c a r as p r á t i c a s exis-
t e n t e s . T o d o o t r a b a l h o r e al e r a f e i t o d e a c o r d o c o m
h á b i t o s t ã o fixos a p o n t o de se t e r e m i n s t i t u c i o n a l iz a d o .
C a b e à e d u c a ç ã o p r o g r e s s i v a t o m a r a- l i ção d o s i n o v ã-
do~es e r e f o r m a d o r e s e b u s c a r , s o b u r g ê n c i a m a i o r e
m : u o r ?ress~o d o q u e q u a l q u e r dos r e n o v a d o r e s a n t i g o s ,
\
u m a f i l o s o f i a de e d u c a ç ã o f u n d a d a n u m a f i l o s o f i a de
e x p e r i ê n c i a . -
rA cm onm m t~ucacãn
B I B L I O T E C A
T E O R I A D E E X P E R I Ê N C I A 19
O b ser v e i a c i d e n t a l m e n t e q u e a f i l o s o f i a e m q u e s -
t ã o , parafr~eando o d i t o d e L i n c o l n a r e s p e i t o de d e -
m o c r a c i a , é u m a f i lo s o f i a d e , p o r e p a r a e x p e r i ê n c i a .
N e n h u m a das p a l a v r a s , de, por o u para, d e s i g n a a l g o
evi d e n t e p o r si m e s m o . C a d a u m a d e l as é desa fio p a r a
se . desc o b r i r e p ô r e m o p e r a ç ã o p r i n c í p i o d e o r d e m e
o r g a n i z a ç ã o , q u e d e c o r rer á de se c o m p r e e n d e r o q u e
s i g ni f i c a e x p e r i ê n c i a e d u c a t i v a .
: t , p o r t a n t o , m u i t o mais d i f í c i l r e s o l v e r s o b r e as
e s p é c i e s de m a t e r i a i s , de m é t o d os e de r e l a ç õ e s sociais
a p r o p r i a d o s à n o v a e d u c a ç ã o d o q u e é o caso c o m a
e s c o l a t r a d i c i o n a l . J u l g o q u e p r o v ê m d esse f a t o m u i t a s
das d i f i c u l d a d e s e x p e r i m e n t a da s n a conduçã,o .das e s c o -
las p rogress ivas e m u i t a s das c r ít i c a s q u e se e r g u e m
c o n t r a e las . A s d i f i c u l d a d e s se a g r a v a m e as c r í t i c a s
a u m e n t a m , q u a n d o s e s u p õ e que a n o v a e d u c a ç ã o é d e
c e r t o m o d o mais f á c i l d o q u e a t r a d i c i o n al. E s-t a c r e n ç a
é, mais o u menos, c o r r e n t e . T a l v e z c o n st i t u a n o v a i l u s -
t r a ç ã o d a f i l o s o f i a d o s dois e x t r e m o s , ist o - o u , n a s -
c e n d o d a s u p o s i ç ã o d e q u e t u d o q u e se e x i g e p a r a a
e d u c a ç ã o n o v a seja não f a z e r o q u e se f a z n a esco la
t r a d i c i o n a l . A d m i t o , c o m a l e g r i a , q u e a n o v a e d u c a ç ã o
é mais simples d o q~e a t r a d i c i o n a l . E s t á e m h a r m o n i a
c o m os p r i n c í p i o s d o c r e s c i m e n t o , é algo n a t u r a l , e n -
q u a n t o n a o r g a n i z a ç ã o t r a d i c i o n a l h á m u i t o d e a r t i f i c i a l
n a seleção e a r r a n j o das m a t é r i a s , e t o d a a r t i f i c i a l i d a d e
le v a a c o m p l e x i d a d e s desnecessárias. M a s s i m p l es e f á c i l
n ã o são t e r m o s i d ê n t i c o s . D e s c o b r i r o q u e é r e a l m e n t e
simples e a g i r n a base da descob er t a é t a r e f a excessiva-
18 A ~ -E X P E R I E N C I A E EDUCAÇAO
~êm d~ passad~, n ã o ~e segu~ q u e a e d u c a ç ã o p r o g r e s -
Siva seJa q u e s t a o de I m p r o v i s a ç ã o s e m p l a n o .
! ! j ~ esco l a tra~icional p o d i a e x i s ti r s e m n e n h u m a fi-
l o s o f i a de e d u c a ç a o c o e r e n t e m e n t e d e s e n v o l v i d a . N e s s a
l i n h a , t u d o q u e r e q u e r i a s e r i a m a~strações v e r b a i s tais
c o m o c u l t u r a , d i s c i p l i n a , nossa g r a n d e h e r a n ç a c u lt u r a l ,
e t c . , d e c o r r e n d o s u a d i r e ç ã o r e a l d o c o s t u m e e das
r o t i n a s est~belecidas . J á a e s c o l a p r o g r e s s i v a , n ã o p o -
d e n d o apo i a r -se n a s t r a d i ç õ e s e s t a b e l e c i d a s n e m n o s
h á b i t o s i n s t i t u c i o n a i s , t e r á q u e se d e i x a r c o n d u z i r mais
o u m e n o s ao acaso o u d i r i g i r - s e p o r i d é i a s q u e , se a r t i -
, c u l a d a s e co~rentes, f o r m a m u m a f i l o s o f i a d e e d u c a ç ã o .
A r e v o l t a c o n t r a a espéc.ie de o r g a n i z a ç ã o c a r a c t e r í s t i c a
d a ,es.cola tradi~ional r e p r e s e n t a a e x i g ê n c i a d e o u t r a
~speci~ de o r g a n i z a ç ã o baseada e m idéias. J u lgo q u e n ã o
e p r e c i s o n e n h u m c o n h e c i m e n t o g r a n d e d a h i s t ó r i a da
e d u c a ç ã o p a r a se c o m p r o v a r q u e s o m e n t e r e f o r m a d o r e s
e i n o v a d o r e s e d u c a c i o n a i s s e n t i r a m a n e c e s s i d a d e deu m a f i l o s o f i a de e d u c a ç ã o . O s q u e a d e r i r a m ao s i s t e m a
e s t a b e l e c i d o jamais t i v e r a m n e c essi d a d e a n ã o s e r d e
a l g u m a s belas p a l a v r a s p a r a j u s t i f i c a r as p r á t i c a s exis-
t e n t e s . T o d o o t r a b a l h o r e al e r a f e i t o d e a c o r d o c o m
h á b i t o s t ã o fixos a p o n t o de se t e r e m i n s t i t u c i o n a l iz a d o .
C a b e à e d u c a ç ã o p r o g r e s s i v a t o m a r a- l i ção d o s i n o v ã-
do~es e r e f o r m a d o r e s e b u s c a r , s o b u r g ê n c i a m a i o r e
m : u o r ?ress~o d o q u e q u a l q u e r dos r e n o v a d o r e s a n t i g o s ,
\
u m a f i l o s o f i a de e d u c a ç ã o f u n d a d a n u m a f i l o s o f i a de
e x p e r i ê n c i a . -
rA cm onm m t~ucacãn
B I B L I O T E C A
T E O R I A D E E X P E R I Ê N C I A 19
O b ser v e i a c i d e n t a l m e n t e q u e a f i l o s o f i a e m q u e s -
t ã o , parafr~eando o d i t o d e L i n c o l n a r e s p e i t o de d e -
m o c r a c i a , é u m a f i lo s o f i a d e , p o r e p a r a e x p e r i ê n c i a .
N e n h u m a das p a l a v r a s , de, por o u para, d e s i g n a a l g o
evi d e n t e p o r si m e s m o . C a d a u m a d e l as é desa fio p a r a
se . desc o b r i r e p ô r e m o p e r a ç ã o p r i n c í p i o d e o r d e m e
o r g a n i z a ç ã o , q u e d e c o r rer á de se c o m p r e e n d e r o q u e
s i g ni f i c a e x p e r i ê n c i a e d u c a t i v a .
: t , p o r t a n t o , m u i t o mais d i f í c i l r e s o l v e r s o b r e as
e s p é c i e s de m a t e r i a i s , de m é t o d os e de r e l a ç õ e s sociais
a p r o p r i a d o s à n o v a e d u c a ç ã o d o q u e é o caso c o m a
e s c o l a t r a d i c i o n a l . J u l g o q u e p r o v ê m d esse f a t o m u i t a s
das d i f i c u l d a d e s e x p e r i m e n t a da s n a conduçã,o .das e s c o -
las p rogress ivas e m u i t a s das c r ít i c a s q u e se e r g u e m
c o n t r a e las . A s d i f i c u l d a d e s se a g r a v a m e as c r í t i c a s
a u m e n t a m , q u a n d o s e s u p õ e que a n o v a e d u c a ç ã o é d e
c e r t o m o d o mais f á c i l d o q u e a t r a d i c i o n al. E s-t a c r e n ç a
é, mais o u menos, c o r r e n t e . T a l v e z c o n st i t u a n o v a i l u s -
t r a ç ã o d a f i l o s o f i a d o s dois e x t r e m o s , ist o - o u , n a s -
c e n d o d a s u p o s i ç ã o d e q u e t u d o q u e se e x i g e p a r a a
e d u c a ç ã o n o v a seja não f a z e r o q u e se f a z n a esco la
t r a d i c i o n a l . A d m i t o , c o m a l e g r i a , q u e a n o v a e d u c a ç ã o
é mais simples d o q~e a t r a d i c i o n a l . E s t á e m h a r m o n i a
c o m os p r i n c í p i o s d o c r e s c i m e n t o , é algo n a t u r a l , e n -
q u a n t o n a o r g a n i z a ç ã o t r a d i c i o n a l h á m u i t o d e a r t i f i c i a l
n a seleção e a r r a n j o das m a t é r i a s , e t o d a a r t i f i c i a l i d a d e
le v a a c o m p l e x i d a d e s desnecessárias. M a s s i m p l es e f á c i l
n ã o são t e r m o s i d ê n t i c o s . D e s c o b r i r o q u e é r e a l m e n t e
simples e a g i r n a base da descob er t a é t a r e f a excessiva-
20 A • E X P E R I E N C I A E EDUCAÇAO
m e n t e d i f í c i l . Q u a n d o o a r t i f i c i a l e c o m p l e x o se a c h e
i n s t i t u c i o n a l m e n t e estabelecido e e n r a i z a d o no c o s t u m e
e n a r o t i n a , é mais f á c i l s e g u i r - l h e os c a m i n h o s v e l h o s
e b a t i d o s do q u e , d e p o i s d e t o m a r um n o v o p o n t o d e
vista, a c h a r o q u e está nesse n o v o p o n t o de vista e n v o l -
v i d o e c r i a r u m a n o v a p r á t i c a . O v e l h o sistema a s t r o -
n ô m i c o d e P t o l o m e u e r a mais c o m p l i c a d o c o m os seus
c i c l o s e epiciclos d o q u e o s i s t e m a de C o p é r n i c o . Mas
e n q u a n t o não se e s t a b e l e c e u c o n c r e t a m e n t e a o r g a n i z a -
ç ã o dos f e n ô m e n o s a s t r o n ô m i c o s baseada n o n o v o s i s t e -
ma, o c u r s o mais f á c i l e r a o d e se u i r a l i n h a d e m e n o r
r e s i s t ê n c i a o f e r e c i d o p e l o velho á b i t i n t e l e c t u a l . V o l -
t a m o s , assim, à i d é i a d e q u e u m teoria c o e r e n t e d e
e x p e r i ê n c i a , c a p a z d e d a r d i r e ç ã o p o s i t i v a à seleção e
o r g a n i z a ç ã o de m é t o d o s e materiais a p r o p r i a d o s à e d u -
c a ç ã o , é exigida p e l a t e n t a t i v a d e d a r n o v a d i r e ç ã o
ao t r a b a l h o das escolas. O processo é l e n t o e á r d u o .
É u m a questão de c r e s c i m e n t o e h á m u i t o s o b s t á c u l o s
q u e t e n d e m a i m p e d i r o c r e s c i m e n t o e a d e f l e t i - l o p a r a
â n g u l o s e r r a d o s .
Mais a d i a n t e t e n h o a l g o a d i z e r a r e s p e i t o d e o r -
ganização. A q u i t u d o q u e precisamos a c e n t u a r é q u e
d e v e m o s e s c a p a r à t e n d ê n c i a d e p e n s a r e m o r g a n i z a ç ã o
n o s t e r m o s d a espécie de o r g a n i z a ç ã o , seja de c o n t e ú d o
( o u m a t é r i a s ) , o u de m é t o d o s e r e l a ç õ e s sociais, q u e
m a r c a m a e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l . J u l g o q u e m u i t o d a c o r -
r e n t e oposição à i d é i a d e o r g a n i z a ç ã o deve-se ao f a t o de
s e r t ã o d i f í c i l f u g i r do ' q u a d r o de e s t u d o s d a v e l h a esco-
la . Assim q u e falamos em " o r g a n i z a ç ã o " , a imaginação
T E O R I A D E E X P E R I Ê N C I A 21
voa, p o r assim d i z e r a u t o m a t i c a m e n t e , p a r a a espéc~e
d e o r g a n i z a ç ã o q u e nos é f a m i l i a r n a educação. t r a d i -
c i o n a l e, c o m o n o s r e v o l t a m o s c o n t r a e la, f u g t m o s a
q u a l q u e r idéia de o r g a n i z a ç ã o . P o r o u t r o l : d o , os e d u -
c a d o r e s r e a c i o n á r i o s , q u e n o m o m e n t o estao g a n h a n d o
f o r ç a , u t i l i z a m - s e d a ausência de a d e q u a d a o r g a n i z a ç ã o
m o r a l e i n t e l e c t u a l n o n o v o t i p o d e escolas c o m o p r o v a
não apenas da necessidade de organizaç~o, o. ~ue r e c o -
n h e c e m o s , mas d e o r g a n i z a ç ã o q u e se t d e n t t f l q u e c o m
a q u e se i n s t i t u i u a n t e s do s u r t o d a c i ê n c i a e x p e r i m e n -
tal. _ ' A f a l t a de u m c o n c e i t o de o r g a n i z a ç ã o de base
em p í r i c a e e x p e r i m e n t a l d á aos r e a c i o n á r i o s u m a v i -
t ó r i a fácil. O f a t o , p o r é m , das i ê n'Ci as efllP-Ínca§..;b f e -
r e c e r e m . h o j e o m e l h o r t i p o de o r g a n i z a ç ã o i n t e l e c t u a l
q u e se p o d e e n c o n t r a r e m q u a l q u e r campo~ m o s t r a
q u e não h á razão p a r a q u e n ó s , q u e nos c o n s t d e ramos
. d " f l h - " ( " h empiricistas, t e n h a m o s e s e r os r a c a oes pus -
- o v e r s " ) em m a t é r i a p e o r d e m e o r g a n i z a ç ã o .
( ' •
20 A • E X P E R I E N C I A E EDUCAÇAO
m e n t e d i f í c i l . Q u a n d o o a r t i f i c i a l e c o m p l e x o se a c h e
i n s t i t u ci o n a l m e n t e estabelecido e e n r a i z a d o no c o s t u m e
e n a r o t i n a , é mais f á c i l s e g u i r - l h e os c a m i n h o s v e l h o s
e b a t i d o s do q u e , d e p o i s d e t o m a r um n o v o p o n t o d e
vista, a c h a r o q u e está nesse n o v o p o n t o de vista e n v o l -
v i d o e c r i a r u m a n o v a p r á t i c a . O v e l h o sistema a s t r o -
n ô m i c o d e P t o l o m e u e r a mais c o m p l i c a d o c o m os seus
c i c l o s e epiciclos d o q u e o s i s t e m a de C o p é r n i c o . Mas
e n q u a n t o não se e s t a b e l e c e u c o n c r e t a m e n t e a o r g a n i z a -
ç ã o dos f e n ô m e n o s a s t r o n ô m i c o s baseada n o n o v o s i s t e -
ma, o c u r s o mais f á c i l e r a o d e se u i r a l i n h a d e m e n o r
r e s i s t ê n c i a o f e r e c i d o p e l o velho á b i t i n t e l e c t u a l . V o l -
t a m o s , assim, à i d é i a d e q u e u m teoria c o e r e n t e d e
e x p e r i ê n c i a , c a p a z d e d a r d i r e ç ã o p o s i t i v a à seleção e
o r g a n i z a ç ã o de m é t o d o s e materiais a p r o p r i a d o s à e d u -
c a ç ã o , é exigida p e l a t e n t a t i v a d e d a r n o v a d i r e ç ã o
ao t r a b a l h o das escolas. O processo é l e n t o e á r d u o .
É u m a questão de c r e s c i m e n t o e h á m u i t o s o b s t á c u l o s
q u e t e n d e m a i m p e d i r o c r e s c i m e n t o e a d e f l e t i - l o p a r a
â n g u l o s e r r a d o s .
Mais a d i a n t e t e n h o a l g o a d i z e r a r e s p e i t o d e o r -
ganização. A q u i t u d o q u e precisamos a c e n t u a r é q u e
d e v e m o s e s c a p a r à t e n d ê n c i a d e p e n s a r e m o r g a n i z a ç ã o
n o s t e r m o s d a espécie de o r g a n i z a ç ã o , seja de c o n t e ú d o
( o u m a t é r i a s ) , o u de m é t o d o s e r e l a ç õ e s sociais, q u e
m a r c a m a e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l . J u l g o q u e m u i t o d a c o r -
r e n t e oposição à i d é i a d e o r g a n i z a ç ã o deve-se ao f a t o de
s e r t ã o d i f í c i l f u g i r do ' q u a d r o de e s t u d o s d a v e l h a esco-
la . Assim q u e falamos em " o r g a n i z a ç ã o " , a imaginação
T E O R I A D E E X P E R I Ê N C I A 21
voa, p o r assim d i z e r a u t o m a t i c a m e n t e , p a r a a espéc~e
d e o r g a n i z a ç ã o q u e nos é f a m i l i a r n a educação. t r a d i -
c i o n a l e, c o m o n o s r e v o l t a m o s c o n t r a e la, f u g t m o s a
q u a l q u e r idéia de o r g a n i z a ç ã o . P o r o u t r o l : d o , os e d u -
c a d o r e s r e a c i o n á r i o s , q u e n o m o m e n t o estao g a n h a n d o
f o r ç a , u t i l i z a m - s e d a ausência de a d e q u a d a o r g a n i z a ç ã o
m o r a l e i n t e l e c t u a l n o n o v o t i p o d e escolas c o m o p r o v a
não apenas da necessidade de organizaç~o, o. ~ue r e c o -
n h e c e m o s , mas d e o r g a n i z a ç ã o q u e se t d e n t t f l q u e c o m
a q u e se i n s t i t u i u a n t e s do s u r t o d a c i ê n c i a e x p e r i m e n -
tal. _ ' A f a l t a de u m c o n c e i t o de o r g a n i z a ç ã o de base
em p í r i c a e e x p e r i m e n t a l d á aos r e a c i o n á r i o s u m a v i -
t ó r i a fácil. O f a t o , p o r é m , das i ê n'Ci as efllP-Ínca§..;b f e -
r e c e r e m . h o j e o m e l h o r t i p o de o r g a n i z a ç ã o i n t e l e c t u a l
q u e se p o d e e n c o n t r a r e m q u a l q u e r campo~ m o s t r a
q u e não h á razão p a r a q u e n ó s , q u e nos c o n s t d e ramos
. d " f l h - " ( " h empiricistas, t e n h a m o s e s e r os r a c a oes pus -
- o v e r s " ) em m a t é r i a p e o r d e m e o r g a n i z a ç ã o .
( ' •
I I I
\
C R I T É R I O S D E E X P E R f f i N C I A
Se p r o c e d e o q u e diss emos a r e s p e i t o d a n e c e s -
sidade de uma t e o r i a de e x p e r i ê n c i a , para se p o d e r
c o n d u z i r i n t e l i g e n t e m e n t e a e d u c a ç ã o na base de e x p e -
r i ê n c i a , c a b e a g o r a , c o m o s e g u n d o passo d e nossa dis-
cussão, a p r e s e n t a r os p r i n c í p i os mais i m p o r t a n t e s p a r a
se f o r m u l a r essa t e o r i a . N ã o pedirei, p o r t a n t o , de scu l -
pas se m e d e t e n h o a q u i em um p o u c o de análise f i l o -
s ó fi ca, que de o u t r o m o d o seria d e s p r o p o s i t a d a no t i p o
de t r a b a l h o que é este ensaio. Posso, e n t r e t a n t o , a t é
c e r t o p o n t o , t r a n q ü i l i z a r o l e i t o r , e x p l i c a n d o que t a l
análise não i r á além do necessário p a r a se e s t a b e l e c e r e m
os c r i t é r i o s a s e r aplicados na discussão d e n u m e r o s o s
p r o b l e m as c o n c r et o s e, p a r a m u i t o s dos l e i t o r e s , mais
mteressantes.
J á m e n c i o n a m o s o q u e c h a m e i a c a t e g o r i a d e
c o n t i n u i d a d e , ou o c o n t i n u u m e x p e r i e n cial. E s t e
p r i n c í p i o, c o m o observei, aplica-se s e m p r e que t i v e r m o s
d e d i s c r i m i n a r e n t r e experiências d e v a l o r e d u c a t i v o e
experiências sem t a l valor. Seria s u p é r f l u o , talvez, d i z e r
q u e a discriminação não é apenas necessária para c r i t i -
c a r o tipo d e e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l , mas, t a m b é m , p a r a
I I I
\
C R I T É R I O S D E E X P E R f f i N C I A
Se p r o c e d e o q u e diss emos a r e s p e i t o d a n e c e s -
sidade de uma t e o r i a de e x p e r i ê n c i a , para se p o d e r
c o n d u z i r i n t e l i g e n t e m e n t e a e d u c a ç ã o na base de e x p e -
r i ê n c i a , c a b e a g o r a , c o m o s e g u n d o passo d e nossa dis-
cussão, a p r e s e n t a r os p r i n c í p i os mais i m p o r t a n t e s p a r a
se f o r m u l a r essa t e o r i a . N ã o pedirei, p o r t a n t o , de scu l -
pas se m e d e t e n h o a q u i em um p o u c o de análise f i l o -
s ó fi ca, que de o u t r o m o d o seria d e s p r o p o s i t a d a no t i p o
de t r a b a l h o que é este ensaio. Posso, e n t r e t a n t o , a t é
c e r t o p o n t o , t r a n q ü i l i z a r o l e i t o r , e x p l i c a n d o que t a l
análise não i r á além do necessário p a r a se e s t a b e l e c e r e m
os c r i t é r i o s a s e r aplicados na discussão d e n u m e r o s o s
p r o b l e m as c o n c r et o s e, p a r a m u i t o s dos l e i t o r e s , mais
mteressantes.
J á m e n c i o n a m o s o q u e c h a m e i a c a t e g o r i a d e
c o n t i n u i d a d e , ou o c o n t i n u u m e x p e r i e n cial. E s t e
p r i n c í p i o, c o m o observei, aplica-se s e m p r e que t i v e r m o s
d e d i s c r i m i n a r e n t r e experiências d e v a l o r e d u c a t i v o e
experiências sem t a l valor. Seria s u p é r f l u o , talvez, d i z e r
q u e a discriminação não é apenas necessária para c r i t i -
c a r o tipo d e e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l , mas, t a m b é m , p a r a
2 4 E X P E R IÊ NC I A E EDUCAÇÃO
se imc1ar o u co n d u z i r o u t r o t i p o de e d u c a ç ã o . D e
q u a l q u e r m o d o , c o n t u d o , devemos esclar e c e r u m p o u c o
ma is a necessidade d o p r i n c í p i o.
C r e i o q u e se p o d e a d m i t i r , c o m s e g u r a n ç a , q u e
u m a das r azões q u e r e c o m e n da r a m o m o v i m e n t o p r o -
g r e s sivo foi o de p a r e c e r mais de a c o r d o c o m o i d e a l
d e m o c r á t i c o de nosso p o v o do q u e os m é t o d o s da esco la
t r a d i c i o n a l , q u e t ê m m u i t o de a u t o c r á t i c o . T a m b é m
c o n t r i b u i u p a r a a s u a r e c e p ç ã o f a v o r á v e l o f a t o de ser e m
mais h u m a n o s os seus m é t o d o s em c o m p a ra ç ã o c o m
as s e v e rid ades e d u r e z a s t ã o f r e q ü e n t e s dos m é t o d o s
t r a d i c i o n a is.
A q u e s t ã o q u e desejaria l eva n t a r r e f e r e - s e a p o r q u e
p r e f er i mos m é t o d o s d e m o c r á t i c os e h u m a n o s aos m é -
t o d o s a u t o c r á t i c o s . A o d i z e r porque, q u e r e m o s s i g n i-
f i c a r a razão d a p r e f e r ê n c i a e n ã o a p e n a s as causas q u e
nos l e v a m a esta p r e f e r ê n c i a . U m a causa p o d e se r a d e
q u e n o s e n s i n a r a m n ã o s ó n a escola, c o m o n a i m p r e n s a ,
n o p ú l p i t o , n a t r i b u n a , nas leis e nas assembléias l egis -
l ativas q u e a d e m o c r a c i a é a m e l h o r d e t o d a s as nossas
i n s t i t u içõ es soc i ais. Assimilamos assim a i d é i a de nosso
p r ó p r i o meio e a fizemos, pelo~§ p a r t e de nossa
e s t r u t u r a m e n t a l e m o r a l . Mas causas s e m e l h a n t e s l e v a -
r a m o u t r a s pessoas em a m b i e n t e d i f e r e n t e a p r e f e r ê n c i a s
~ m u i t o diversa s - a p r e f e r i r , p o r e x e m p l o , o fascismo.
· f A causa d e nossa p r e f e r ê n c i a n ã o é a m e s m a cousa q u e \ :t. razão p o r q u e a devíamos escolhe r .
I N ã o en t ra r e i em cletalhes, n e s t e p o n t o , mas f a r e i uma siniples p e r g u n t a . S e r i a p oss ível a c h a r - s e q u a l q u e r
I " ' C R I T E R I O S D E E X PE R I E N CIA 25
r a z ã o q u e n ã o f o sse , e m ú l t i m a análise, r e d u z i r - se à
c r e n ç a de q u e o a r r a n j o social de m o c r á t i c o p r o m o v e
m e l h o r q u a l i d a d e d e e x p e r i ê nc i a h w n a n a , - e x p e r i ê n c i a s
mais l a r g a m e n t e acessíveis e mais c a p azes d e s a t i s f a z e r
a m p l o s anseios h u m a n o s d o q u e as f o r m a s n ã o - d e m o -
c r á t i c a s e a n t i d e m o c r áticas de v t d a s o c i a l ? O p r i n c í p i o
de r e s p e i t o à l i b e r d a d e i n d i v i d u a l e a d e c ê n c i a- e a m a b i -
l i d a d e das r e l a ç ões h u manas n ã o r e s u l t a a f i n a l da c o n -
v ic ç ã o d e q u e tai s c o u s a s d e co r r e m d e q u a l i d a d e m a i s l
a l t a d e exp e r i ê n c i a p o r p a r t e de n ú m e r o m a i o r d e
p e ssoas, q u a l i d a d e q u e f a l t a aos m é t o d o s de ~ep~essã_?,
c o e r ç ã o , o u f o r ç a ? A r a zão de n ossa p r e f e r e n c 1 a n a o
é a d e a c r e d i t a r m o s q u e a c o n s u l t a m ú t u a e as c o n -
v i c ç õ e s a l c a n ç a d as p e l a persuasão t o r n a m possível , e m
l a r ga esca la, m e l h o r q u a l i d a d e de e x p e r i ê n c i a d o q u e
a q u e se p o d e o b te r p o r q u a l q u e r o u t r o m é t o d o ?
Se a r e s p o s t a a tais q u e s t õ es é a f i r m a t i v a ( p essoa l -
m e n t e , não v e j o c o m o de o u t r o m o d o p o d e m o s j u s t i f i -
c a r a nossa p re f e r ê n c i a p or d e m o c r a c i a · e h um a n i d a d e
nas relações s o c i a i s ) , a r a z ã o ú l t i m a d a a c e i t a ç ã o d o
m o v i m e n t o p r o g r essivo , d e v i d o aos seus f u n d a m e n t o s
h u m a n os e d e m o c rá t i c o s , está n o f a t o d e se h a v e r f e i t o
u m a d i s c r i m i n a ç ã o e n t r e va l o r es i n e r e n t e s a d i f é r e n t e s
espécies d e e x p e r i ê n c i a . V o l t a m o s , ass im , ao p r i n c í p i o
d a c o n t i n u i d ade d a ex p e r i ên c a c o m o c r i t é r i o d e dis-
c r i m i n a ç ã o . ~
N o f u n d o , este p r i n c í p i o é o m e s m o do~o,)~
q u a n d o i n t e r p r e t a m o s o t e r m o b i o l o g i c a m e n t e . O c a -
r a c t e r í s t i c o b ásico d~é o de q u e t o d a e x p e r i ê n -
2 4 E X P E R IÊ NC I A E EDUCAÇÃO
se imc1ar o u co n d u z i r o u t r o t i p o de e d u c a ç ã o . D e
q u a l q u e r m o d o , c o n t u d o , devemos esclar e c e r u m p o u c o
ma is a necessidade d o p r i n c í p i o.
C r e i o q u e se p o d e a d m i t i r , c o m s e g u r a n ç a , q u e
u m a das r azões q u e r e c o m e n d a r a m o m o v i m e n t o p r o -
g r e s sivo foi o de p a r e c e r mais de a c o r d o c o m o i d e a l
d e m o c r á t i c o de nosso p o v o do q u e os m é t o d o s da esco la
t r a d i c i o n a l , q u e t ê m m u i t o de a u t o c r á t i c o . T a m b é m
c o n t r i b u i u p a r a a s u a r e c e p ç ã o f a v o r á v e l o f a t o de ser e m
mais h u m a n o s os seus m é t o d o s em c o m p a ra ç ã o c o m
as s e v e rid ades e d u r e z a s t ã o f r e q ü e n t e s dos m é t o d o s
t r a d i c i o n a is.
A q u e s t ã o q u e desejaria l eva n t a r r e f e r e - s e a p o r q u e
p r e f er i mos m é t o d o s d e m o c r á t i c os e h u m a n o s aos m é -
t o d o s a u t o c r á t i c o s . A o d i z e r porque, q u e r e m o s s i g n i-
f i c a r a razão d a p r e f e r ê n c i a e n ã o a p e n a s as causas q u e
nos l e v a m a esta p r e f e r ê n c i a . U m a causa p o d e se r a d e
q u e n o s e n s i n a r a m n ã o s ó n a escola, c o m o n a i m p r e n s a ,
n o p ú l p i t o , n a t r i b u n a , nas leis e nas assembléias l egis -
l ativas q u e a d e m o c r a c i a é a m e l h o r d e t o d a s as nossas
i n s t i t u içõ es soc i ais. Assimilamos assim a i d é i a de nosso
p r ó p r i o meio e a fizemos, pelo~§ p a r t e de nossa
e s t r u t u r a m e n t a l e m o r a l . Mas causas s e m e l h a n t e s l e v a -
r a m o u t r a s pessoas em a m b i e n t e d i f e r e n t e a p r e f e r ê n c i a s
~ m u i t o diversa s - a p r e f e r i r , p o r e x e m p l o , o fascismo.
· f A causa d e nossa p r e f e r ê n c i a n ã o é a m e s m a cousa q u e \ :t. razão p o r q u e a devíamos escolhe r .
I N ã o en t ra r e i em cletalhes, n e s t e p o n t o , mas f a r e i uma siniples p e r g u n t a . S e r i a p oss ível a c h a r - s e q u a l q u e r
I " ' C R I T E R I O S D E E X PE R I E N CIA 25
r a z ã o q u e n ã o f o sse , e m ú l t i m a análise, r e d u z i r - se à
c r e n ç a de q u e o a r r a n j o social de m o c r á t i c o p r o m o v e
m e l h o r q u a l i d a d e d e e x p e r i ê nc i a h w n a n a , - e x p e r i ê n c i a s
mais l a r g a m e n t e acessíveis e mais c a p azes d e s a t i s f a z e r
a m p l o s anseios h u m a n o s d o q u e as f o r m a s n ã o - d e m o -
c r á t i c a s e a n t i d e m o c r áticas de v t d a s o c i a l ? O p r i n c í p i o
de r e s p e i t o à l i b e r d a d e i n d i v i d u a l e a d e c ê n c i a- e a m a b i -
l i d a d e das r e l a ç ões h u manas n ã o r e s u l t a a f i n a l da c o n -
v ic ç ã o d e q u e tai s c o u s a s d e co r r e m d e q u a l i d a d e m a i s l
a l t a d e exp e r i ê n c i a p o r p a r t e de n ú m e r o m a i o r d e
p e ssoas, q u a l i d a d e q u e f a l t a aos m é t o d o s de ~ep~essã_?,
c o e r ç ã o , o u f o r ç a ? A r a zão de n ossa p r ef e r e n c 1 a n a o
é a d e a c r e d i t a r m o s q u e a c o n s u l t a m ú t u a e as c o n -
v i c ç õ e s a l c a n ç a d as p e l a persuasão t o r n a m possível , e m
l a r ga esca la, m e l h o r q u a l i d a d e de e x p e r i ê n c i a d o q u e
a q u e se p o d e o b te r p o r q u a l q u e r o u t r o m é t o d o ?
Se a r e s p o s t a a tais q u e s t õ es é a f i r m a t i v a ( p essoa l -
m e n t e , não v e j o c o m o de o u t r o m o d o p o d e m o s j u s t i f i -
c a r a nossa p re f e r ê n c i a p or d e m o c r a c i a · e h um a n i d a d e
nas relações s o c i a i s ) , a r a z ã o ú l t i m a d a a c e i t a ç ã o d o
m o v i m e n t o p r o g r essivo , d e v i d o aos seus f u n d a m e n t o s
h u m a n os e d e m o c rá t i c o s , está n o f a t o d e se h a v e r f e i t o
u m a d i s c r i m i n a ç ã o e n t r e va l o r es i n e r e n t e s a d i f é r e n t e s
espécies d e e x p e r i ê n c i a . V o l t a m o s , ass im , ao p r i n c í p i o
d a c o n t i n u i d ade d a ex p e r i ên c a c o m o c r i t é r i o d e dis-
c r i m i n a ç ã o . ~
N o f u n d o , este p r i n c í p i o é o m e s m o do~o,)~
q u a n d o i n t e r p r e t a m o s o t e r m o b i o l o g i c a m e n t e . O c a -
r a c t e r í s t i c o b ásico d~é o de q u e t o d a e x p e r i ê n -
26 A -E X P E R I E N C I A E E D U CAÇAO
cia m o d i f i c a qu e m a faz e p o r e la passa e a m o d i f i c a ç ã o
afeta, q u e r o queiramos ou não, a qualidad e das expe-
r i ê n c i a s subseqüentes, pois é o u t r a , d e a l g u m mo d o, a
pessoa q u e v ai .E!_Ssar p o r essas novas experiências. O
' p r i n c í p i o de ~ assim entendido~is amplo d o
que nosso c o n c e i t o o r d i n á r i o de o ~ c o m o que
designamos modos mais ou menos fixos d e f a z e r al~
ma co usa, e m b o r a i n c l u a t a m b é m este t i p o de ' á b i t o)
c o m o u m caso especia l. A c o n c e p ç ã o a m p l a en volve
a f o r m a ç ã o d e a t i t u des t a n t o e m o cionais , q u a n t o i n t e -
lectuais; envolve t o d a nossa sensi bilidade e m o dos de
r ecebe r e r e s p o n d e r a t o d as as c o n dições q u e d e f r o n -
1 tamos na vida. Desse p o n t o de vista, o p r i n c í p i o de
I
c o n t i n u i d a d e de expe r i ê n c i a sign i fica q u e t o d a e q u a l -
q u e r e x p e r i ê n c i a t oma algo das· exp e r i ê n c ias passadas
e m o d i f i c a de a l g u m m o d o as ex periências s ubse q ü e n -
tes. C o m o diz o. po eta:
" t o d a expe ri ê n c ia é u m a r c o p o r o n d e
e n t r e l u z esse m u n d o nã o viajado, c u j a m a r g e m s e p e r d e
s e m p r e e s e m p r e e n q u a n t o a n d o e c a m i n h o " .
A t é ago r a, e n t r e t a n t o , n ão t e n h o base p a r a discri-
m i n a r e n t r e as e x p e r iências. O p r i n c í p io é d e ap licação
universal. H á em c a d a caso alguma espécie d~.- c o n t i n u i-
dade. É ao observarmos as d i f e r en t e s f o r m a s p o r q u e
a c o n t i n u i d a d e se processa, que achamos f u n d a m e n t o
p a r a a discrimi nação e n t r e as ex p eriências. P o sso ilus-
t r a r o q u e desejo d i z e r c o m a objeção q u e se t e m f ei t o
c o n tr a idéia q ue o u t r o r a expus, o u sej a, q u e o p r o -
I A
C R I T E R I O S D E E X P E R I E N C I A 27
cesso e d u c a t i v o é i d ê n t ico a c r e s c i m e n t o , c o m p r e e n -
d i d o c o m o o g e r ú n d i o crescendo.
Crescimen t o, o u crescen d o, n o se n t i d o d e d esen v ol -
v e n d o , não apenas física m as i n t e l e c t u a l e m o r a l m e n t e ,
é u m exem p l o d o p r i n c í p i o de c o n t i n u i d a d e . A obj e ç ã o
feita foi a de q u e c r e s c i m e n t o p o d e t o m a r muitas d i r e -
ções diferentes: u m h o m e m q u e comece u m a c a r r e i r a
de r oubo pode c r e s c e r e m t a l direção e, pela p r át ic a,
t o r n a r - s e ex ímio l a d r ã o . A r g ü i a-se, e n t ã o , q u e não b as t a
c r e s c i m e n t o : é necessário e s p e c i f i c a r a direção d o c r es-
c i m e n t o , o fim p a r a que ele t e n d e. A n t e s , e n t r e t a n t o ,
d e d e c i d i r s o b r e a p r o c e d ê n c i a da obj eção, analisemos
o caso um p o u c o ma.1s.
N ã o h á d ú v i d a que u m h o m e m p o d e c r e s c e r
e m e f iciência, c o m o l adrão, c o m o gangster, o u c o m o
p o l í t ic o c o r r u p t o . D o p o n t o d e v i s t a de e d u c a ção,
e n t r e t a n t o , e de e d u cação c o m o c r e s c i m e n t o , a q u estão
é saber-se se c r e s c i m e n t o nessa direção p r o m o v e
ou r e t a r d a o c r e s c i m e n t o geral. C r i a o c r e s c i m e n t o d o
t i p o r e f e r i d o c o n d i ç õ e s p a r a s u b s e q üe n te c r escimento o u
f e c h a ele as p o r t a s p a r a as ocasiões, e s t í mulos e o p o r t u -
n i d ad es p a r a c o n s ta n t e c r e s c i m e n t o e m outras dire ções ?
Q u a l o e f e i t o de c r e s c i m e n t o em d i r e ç ã o especial s o b r e
as a t i t u d e s e~ os quais, e s o m e n t e eles, a b r e m
os caminhos p a r a o d e s e n v o l v i m e n t o e m o u t r a s l i nhas ?
D eixo ao l e i t o r a resposta a estas questões, a f i r m a n d o
apenas que o c r e s c i m e n t o em d i r e ç ã o d e t e r m i n a d a
qu a n d o , e somente qua ndo, c o n d u z a c r e s c i m e n t o c o n -
t í n u o , satisfaz à d~finição de e d u c a ç ã o c o m o c r e s c i -
26 A -E X P E R I E N C I A E E D U CAÇAO
cia m o d i f i c a qu e m a faz e p o r e la passa e a m o d i f i c a ç ã o
afeta, q u e r o queiramos ou não, a qualidad e das expe-
r i ê n c i a s subseqüentes, pois é o u t r a , d e a l g u m mo d o, a
pessoa q u e v ai .E!_Ssar p o r essas novas experiências. O
' p r i n c í p i o de ~ assim entendido~is amplo d o
que nosso c o n c e i t o o r d i n á r i o de o ~ c o m o que
designamos modos mais ou menos fixos d e f a z e r al~
ma co usa, e m b o r a i n c l u a t a m b é m este t i p o de ' á b i t o)
c o m o u m caso especia l. A c o n c e p ç ã o a m p l a en volve
a f o r m a ç ã o d e a t i t u des t a n t o e m o cionais , q u a n t o i n t e -
lectuais; envolve t o d a nossa sensi bilidade e m o dos de
r ecebe r e r e s p o n d e r a t o d as as c o n dições q u e d e f r o n -
1 tamos na vida. Desse p o n t o de vista, o p r i n c í p i o de
I
c o n t i n u i d a d e de expe r i ê n c i a sign i fica q u e t o d a e q u a l -
q u e r e x p e r i ê n c i a t oma algo das· exp e r i ê n c ias passadas
e m o d i f i c a de a l g u m m o d o as ex periências s ubse q ü e n -
tes. C o m o diz o. po eta:
" t o d a expe ri ê n c ia é u m a r c o p o r o n d e
e n t r e l u z esse m u n d o nã o viajado, c u j a m a r g e m s e p e r d e
s e m p r e e s e m p r e e n q u a n t o a n d o e c a m i n h o " .
A t é ago r a, e n t r e t a n t o , n ão t e n h o base p a r a discri-
m i n a r e n t r e as e x p e r iências. O p r i n c í p io é d e ap licação
universal. H á em c a d a caso alguma espécie d~.- c o n t i n u i-
dade. É ao observarmos as d i f e r en t e s f o r m a s p o r q u e
a c o n t i n u i d a d e se processa, que achamos f u n d a m e n t o
p a r a a discrimi nação e n t r e as ex p eriências. P o sso ilus-
t r a r o q u e desejo d i z e r c o m a objeção q u e se t e m f ei t o
c o n tr a idéia q ue o u t r o r a expus, o u sej a, q u e o pr o -
I A
C R I T E R I O S D E E X P E R I E N C I A 27
cesso e d u c a t i v o é i d ê n t ico a c r e s c i m e n t o , c o m p r e e n -
d i d o c o m o o g e r ú n d i o crescendo.
Crescimen t o, o u crescen d o, n o se n t i d o d e d esen v ol -
v e n d o , não apenas física m as i n t e l e c t u a l e m o r a l m e n t e ,
é u m exem p l o d o p r i n c í p i o de c o n t i n u i d a d e . A obj e ç ã o
feita foi a de q u e c r e s c i m e n t o p o d e t o m a r muitas d i r e -
ções diferentes: u m h o m e m q u e comece u m a c a r r e i r a
de r oubo pode c r e s c e r e m t a l direção e, pela p r át ic a,
t o r n a r - s e ex ímio l a d r ã o . A r g ü i a-se, e n t ã o , q u e não b as t a
c r e s c i m e n t o : é necessário e s p e c i f i c a r a direção d o c r es-
c i m e n t o , o fim p a r a que ele t e n d e. A n t e s , e n t r e t a n t o ,
d e d e c i d i r s o b r e a p r o c e d ê n c i a da obj eção, analisemos
o caso um p o u c o ma.1s.
N ã o h á d ú v i d a que u m h o m e m p o d e c r e s c e r
e m e f iciência, c o m o l adrão, c o m o gangster, o u c o m o
p o l í t ic o c o r r u p t o . D o p o n t o d e v i s t a de e d u c a ção,
e n t r e t a n t o , e de e d u cação c o m o c r e s c i m e n t o , a q u estão
é saber-se se c r e s c i m e n t o nessa direção p r o m o v e
ou r e t a r d a o c r e s c i m e n t o geral. C r i a o c r e s c i m e n t o d o
t i p o r e f e r i d o c o n d i ç õ e s p a r a s u b s e q üe n te c r escimento o u
f e c h a ele as p o r t a s p a r a as ocasiões, e s t í mulos e o p o r t u -
n i d ad es p a r a c o n s ta n t e c r e s c i m e n t o e m outras dire ções ?
Q u a l o e f e i t o de c r e s c i m e n t o em d i r e ç ã o especial s o b r e
as a t i t u d e s e~ os quais, e s o m e n t e eles, a b r e m
os caminhos p a r a o d e s e n v o l v i m e n t o e m o u t r a s l i nhas ?
D eixo ao l e i t o r a resposta a estas questões, a f i r m a n d o
apenas que o c r e s c i m e n t o em d i r e ç ã o d e t e r m i n a d a
qu a n d o , e somente qua ndo, c o n d u z a c r e s c i m e n t o c o n -
t í n u o , satisfaz à d~finição de e d u c a ç ã o c o m o c r e s c i -
28 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
m e n t o , pois o c o n c e i t o deve t e r aplicação universal e
n ã o l i n ú t a d a e especial.
V o l t o a g o r a à q u e s t ã o da c o n t i n u i d a d e c o m o c r i -
t é r i o p e l o qual dis c ri m i n a r· e n t r e exp e r i ê ncias e d u c a t i -
vas e deseducativas. C o m o vimos, h á c e r t a espécie de
c o n t i n u i d a d e e m c a d a c aso, u m a vez q u e c a d a expe-
r i ê n c i a a f e t a p a r a p i o r o u m e l h o r as a t itudes q u e irão
c o n t r i b u i r p a r a a qualidade das experiências s u b s e q ü e n -
tes, d et e r m i n a n d o p r e f e r ê n c i a s e aversões e t o r n a n d o já
mais fácil, já mais d i f í c i l a g i r neste ou naquele s e n t ido .
I A l é m disto, cada expe r i ê n cia a t u a em c e r t o g r a u so-b r e as condições objetivas em q u e d e c o r r e r ã o novas experiências. P o r exem p l o , uma c r i a n ç a q u e a p r en d e
a f a l a r t e m nova s facilidades e novos desej os . Mas,
t a m b é m , se alar gam as condições p a r a aprendizagens
sub s e q ü entes . A o a p re n d e r a ler, u m n o v o meio i g u a l -
m e n t e se abre p a r a as suas o p o r t u n i d a d e s . Se alguém
se decid e a ser mestre, advogado, m é d i c o , o u c o r r e t o r ,
q u a n d o p õ e em e x e c u ç ã o seu p ropósito limita, neces-
sariamente, deste m o d o , o ambiente e m q u e i r á a t u a r
n o f u t u r o . Faz- se ma is sensível e r ece p t í v e l a certas
c o n d i ç õ e s e r e l a t i v a m e n t e i m u n e a o u t r a s c i r c u n s t â n -
cias d o meio que l h e seriam estimuladoras, f o sse o u t r a
a sua esco lha.
Mas, e n q u a n t o o p r i n c í p i o de c o n t i n u i d a d e atua,
de a l g u m m o d o , e m c a d a caso, a qualidade da ex p e r i ê n -
cia p r es e n t e i n f l u e ncia 0 modo p o r que o p r i n c í p i o se
aplica. Falamos · de e s t r a g a r a . c n a n ç a , n o caso de
.tt
I .
f ACUL ~uni Of [ 9UCACâ O
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C R I T É R I O S D E E X P E R I Ê N C I A 29 \
excesso de m i m o . O e f e i t o d o excesso de c o m p l a c ê n c i a
fa z-se c o n t í n u o , c r i a n d o uma a t i t u d e , q u e o p e r a c o m o
u m mecanismo a u t o m á t i c o p a r a e x i g i r de pessoas e
cousas a satisfação, n o f u t u r o , de seus desejos e c a p r i -
chos. F á - l a b u s c a r s e m p r e a espécie de situação q u e a
h a b i l i t e a f a z e r o q u e se n t e q u e gostaria de faz er _ n o
m o m e n t o . T o r n a - a adversa a si t u a ç õ e s - e r elati v a -
m e n t e incapaz - e m q u e se i m p õ e e s f o r ç o e p e r s e v e -
r a n ç a em v e n c e r os obstáculos. N ã o h á parad~xo I ~o
f a t o, q u e c u m p r e r e c o n h e c e r , de p o de r o p r m c i p t o
da c o n t i n u i d a d e da e x p e r i ê n c i a o p e r a r de m o d o a
imobiliz a r a pessoa n u m baixo n í v e l de desenvo~vimen
t o , d e s o r t e a l i m i t a r sua c a p a c i d a d e de c r e s c i m e n t o .
P o r o u t r o la d o se. u m a e x p e r i ê n c i a d e s p e r t a c u r i o -
' I sidade, f o r t a l e c e a i n i c i a t i v a e suscit a d ese jos e p r o p o -
sitos s u f i c i e nt e m e n t e intensos p a r a c o n d u z i r u m a pessoa
aonde f o r preciso n o f u t u r o , a c o n t i n u i d a d e f u n c i o n a
de m o d o b em d i v e rso . Cada ~xperiência é un1a f o r ç a
em marcha. S e u v a l o r não p o d e se r julgado se não n a
base de p a r a q u é e p a r a o n d e se m o v e el a. A- m a i o r . \
m a t u r i d a d e de exp e r iência do adul~o, como edu~~do~, ,,. I J
o coloca e m posição de pod e r avaliar cada ~xpenencia
d o j o v e m de m o d o q u e nã o pode f a z ê - l o q u e m t e ? h a
menos experiên.cia . S u a t a r e f a é, pois, v e r em q u e dlr~-
ção m a r c h a a experiência. A i m p o r t â n c i a de se r ma1s
ama d u recido desapareceria, se, em v e z d.e u s a r a_ : u a
m a i o r pen e t ração p a r a a j u d a r a ? r g a n i z a r as condiço~
de experi ê n c i a do im a t u r o , recuasse dis t o s o b q u a l q u e r
p r e t e x t o . A b s t e r - s e de l e v a r e m c o n t a a f o r ç a de m o -
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28 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
m e n t o , pois o c o n c e i t o deve t e r aplicação universal e
n ã o l i n ú t a d a e especial.
V o l t o a g o r a à q u e s t ã o da c o n t i n u i d a d e c o m o c r i -
t é r i o p e l o qual dis c ri m i n a r· e n t r e exp e r i ê ncias e d u c a t i -
vas e deseducativas. C o m o vimos, h á c e r t a espécie de
c o n t i n u i d a d e e m c a d a c aso, u m a vez q u e c a d a expe-
r i ê n c i a a f e t a p a r a p i o r o u m e l h o r as a t itudes q u e irão
c o n t r i b u i r p a r a a qualidade das experiências s u b s e q ü e n -
tes, d et e r m i n a n d o p r e f e r ê n c i a s e aversões e t o r n a n d o já
mais fácil, já mais d i f í c i l a g i r neste ou naquele s e n t ido .
I A l é m disto, cada expe r i ê n cia a t u a em c e r t o g r a u so-b r e as condições objetivas em q u e d e c o r r e r ã o novas experiências. P o r exem p l o , uma c r i a n ç a q u e a p r en d e
a f a l a r t e m nova s facilidadese novos desej os . Mas,
t a m b é m , se alar gam as condições p a r a aprendizagens
sub s e q ü entes . A o a p re n d e r a ler, u m n o v o meio i g u a l -
m e n t e se abre p a r a as suas o p o r t u n i d a d e s . Se alguém
se decid e a ser mestre, advogado, m é d i c o , o u c o r r e t o r ,
q u a n d o p õ e em e x e c u ç ã o seu p ropósito limita, neces-
sariamente, deste m o d o , o ambiente e m q u e i r á a t u a r
n o f u t u r o . Faz- se ma is sensível e r ece p t í v e l a certas
c o n d i ç õ e s e r e l a t i v a m e n t e i m u n e a o u t r a s c i r c u n s t â n -
cias d o meio que l h e seriam estimuladoras, f o sse o u t r a
a sua esco lha.
Mas, e n q u a n t o o p r i n c í p i o de c o n t i n u i d a d e atua,
de a l g u m m o d o , e m c a d a caso, a qualidade da ex p e r i ê n -
cia p r es e n t e i n f l u e ncia 0 modo p o r que o p r i n c í p i o se
aplica. Falamos · de e s t r a g a r a . c n a n ç a , n o caso de
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f ACUL ~uni Of [ 9UCACâ O
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excesso de m i m o . O e f e i t o d o excesso de c o m p l a c ê n c i a
fa z-se c o n t í n u o , c r i a n d o uma a t i t u d e , q u e o p e r a c o m o
u m mecanismo a u t o m á t i c o p a r a e x i g i r de pessoas e
cousas a satisfação, n o f u t u r o , de seus desejos e c a p r i -
chos. F á - l a b u s c a r s e m p r e a espécie de situação q u e a
h a b i l i t e a f a z e r o q u e se n t e q u e gostaria de faz er _ n o
m o m e n t o . T o r n a - a adversa a si t u a ç õ e s - e r elati v a -
m e n t e incapaz - e m q u e se i m p õ e e s f o r ç o e p e r s e v e -
r a n ç a em v e n c e r os obstáculos. N ã o h á parad~xo I ~o
f a t o, q u e c u m p r e r e c o n h e c e r , de p o de r o p r m c i p t o
da c o n t i n u i d a d e da e x p e r i ê n c i a o p e r a r de m o d o a
imobiliz a r a pessoa n u m baixo n í v e l de desenvo~vimen
t o , d e s o r t e a l i m i t a r sua c a p a c i d a d e de c r e s c i m e n t o .
P o r o u t r o la d o se. u m a e x p e r i ê n c i a d e s p e r t a c u r i o -
' I sidade, f o r t a l e c e a i n i c i a t i v a e suscit a d ese jos e p r o p o -
sitos s u f i c i e nt e m e n t e intensos p a r a c o n d u z i r u m a pessoa
aonde f o r preciso n o f u t u r o , a c o n t i n u i d a d e f u n c i o n a
de m o d o b em d i v e rso . Cada ~xperiência é un1a f o r ç a
em marcha. S e u v a l o r não p o d e se r julgado se não n a
base de p a r a q u é e p a r a o n d e se m o v e el a. A- m a i o r . \
m a t u r i d a d e de exp e r iência do adul~o, como edu~~do~, ,,. I J
o coloca e m posição de pod e r avaliar cada ~xpenencia
d o j o v e m de m o d o q u e nã o pode f a z ê - l o q u e m t e ? h a
menos experiên.cia . S u a t a r e f a é, pois, v e r em q u e dlr~-
ção m a r c h a a experiência. A i m p o r t â n c i a de se r ma1s
ama d u recido desapareceria, se, em v e z d.e u s a r a_ : u a
m a i o r pen e t ração p a r a a j u d a r a ? r g a n i z a r as condiço~
de experi ê n c i a do im a t u r o , recuasse dis t o s o b q u a l q u e r
p r e t e x t o . A b s t e r - s e de l e v a r e m c o n t a a f o r ç a de m o -
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30 E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
v i m e n t o d e u m a e x p e r i ê n c i a , d e m o d o a p o d e r julgá-la
e dirigi-la, d e n t r o do .sentido d e s u a m a r c h a , é s e r des-
Ji
l eal ao p r ó p r i o p r i n c í p i o d e e x p e r i ê n c i a . A d eslea ldade
manifesta-se d e dois modos . O e d u c a d o r desconhece,
A p r i m e i r o , a p r ó p r i a c o m p r e e n s ã o que deve t e r a d q u i r i -
do de s u a p r ó p r i a passada e x p e r i ê n c i a . D e p o i s é i n f i e l
t a m b é m ao f a t o d e q u e t o d a e x p e r i ê n c i a h u m a n a é,
t e m ú l t i m a análise, s o c i a l , isto é, e n v o l v e c o n t a c t o e
c o m u n i c a ç ã o . A pessoa a m a d u r e c i d a , p a r a p ô r o p r o -
b l e m a em t e r m o s morais, n ã o t e m o d i r e i t o d e r e c u s a r
ao jovem, em dadas ocasiões, a c a p a c i d a d e de sim p a t i a
e c o m p r e e n s ã o que sua p r ó p r i a e x p e r i ê n c i a lhe t e n h a
dado.
E n t r e t a n t o , l o g o q u e se dizem estas cousas, s u r g e
a t e n d ê n c i a a r e a g i r p a r a o o u t r o e x t r e m o e c o n s i d e r a r
isto u m a f o r m a d i s f a r ç a d a d e imposição de f o r a p a r a
d e n t r o . Devemos, p o r t a n t o , e s c l a r e c e r o m o d o p o r
q u e o a d u l t o p o d e e x e r c e r a s a b e d o r i a que sua p r ó p r i a
e x p e r i ê n c i a mais a m p l a l h e dá, s e m c o m isto i m p o r u m
c o n t r o l e e x t e r n o . P o r o u t r o lado, é sua missão e s t a r
a l e r t a d o para v e r q u e a t i t u d e s e tendências~s)
se estão f o r m a n d o . N e s t e s e n t i d o , deve, c o m o e d u c a -
d o r , s e r capaz d e j u l g a r quais a t i t u d e s são c o n d u c e n t e s
ao c r e s c i m e n t o c o n t í n u o e quais l h e são p r e j u d i c i a i s .
D e v e , além disto, p o s s u i r aquela c a p a c i d a d e d e s i m p a -
t i a e c o m p r e e n s ã o pelas pessoas c o m o pessoas, q u e o
h a b i l i t e a t e r u m a i d é i a do q u e vai p e l a m e n t e dos q u e
estão a p r e n d e n d o . E m r e o u t r a s cousas, é a necessidade '
de tais qualidades e m pais e mestres que t o r n a u m
C R I T É R I O S D E E X P E R I Ê N C I A \ 31
sistema de e d u c a ç ã o baseado e m e x p e r i ê n c i a d e v i d a algo
d e mais d i f í c i l d e se c o n d u z i r ~om ê x i t o do q u e o dos
ve l hos p a d r õ e s d a e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l .
Mas, há u m o u t r o aspecto da questão . A e x p e r i ê n -
cia não se processa apenas d e n t r o da pessoa. Passa-se
aí p o r c e r t o , pois i n f l u i na f o r m a ç ã o d e atitudes, d e
desejos e de p r o p ó s i t o s . Mas esta não é t o d a a h i s t ó -
ria. T o d a g e n u í n a e x p e r i ê n c i a t e m u m l a d o ativo, que
m u d a de algum m o d o as c o n d i ç õ e s o b j e t i v a s e m q u e
as experiências se p~sc:;am. A di_ferença entr~civ~lização
e e s t a d o selvagem, p~ra t o m a r u m ex ... e g t p l o em _g r a n d e
escala, d e c o r r e do g r a u em_~e pr~ias experiências
m u d a r a m as '~_gQiçiie objet!YasJ cm q u e se passam as
experiências s u b s e q ü e n t e s . A e x i s t ê n c i a de estradas,
meios d e r á p i d o m o v i m e n t o e t r a n s p o r t e , f e r r a m e n t a s ,
máquinas, casas, e q u i p a m e n t o , l u z e f o r ç a. elétricas, são
ilustrações. D e s t r u í d a s as c o n d i ç õ e s e x t e r n a s d a p r e -
s e n t e e x p e r i ê n c i a civilizada, cairemos, p o r a l g u m t e m -
p o p e l o menos, nas c o n d i ç õ e s p r i m i t i v a s .
E m uma palavra, vivemos do n a s c i m e n t o a t é a
m o r t e e m um m u n d o d e pessoas e cousas que, e m larga
medida, é o que é d e v i d o ao que se fez e ao q u e nos f o i
t r a n s m i t i d o d e a t i v i d a d e s humanas a n t e r i o r e s . Q u a n d o
se i g n o r a este faro, t r a t a - s e a e x p e r i ê n c i a como a l go q u e
o c o r r e exclusivamente d e n t r o do c o r p o e d a m e n t e
das pessoas. D i s p e n s á v e l r e p e t i r que a e x p e r i ê n c i a n ã o
s u c e d e n o v á c u o. H á fontes f o r a do i n d i v í d u o q u e a
fazem s u r g i r . E essas nascentes a a l i m e n t a m c o n s t a n -
t e m e n t e , N i n g u é m d i s c u t i r á q u e uma c r i a n ç a de favela
30 E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
v i m e n t o d e u m a e x p e r i ê n c i a , d e m o d o a p o d e r julgá-la
e dirigi-la, d e n t r o do .sentido d e s u a m a r c h a , é s e r des-
Ji
l eal ao p r ó p r i o p r i n c í p i o d e e x p e r i ê n c i a . A d eslea ldade
manifesta-se d e dois modos . O e d u c a d o r desconhece,
A p r i m e i r o , a p r ó p r i a c o m p r e e n s ã o que deve t e r a d q u i r i -
do de s u a p r ó p r i a passada e x p e r i ê n c i a . D e p o i s é i n f i e l
t a m b é m ao f a t o d e q u e t o d a e x p e r i ê n c i a h u m a n a é,
t e m ú l t i m a análise, s o c i a l , isto é, e n v o l v e c o n t a c t o e
c o m u n i c a ç ã o . A pessoa a m a d u r e c i d a , p a r a p ô r o p r o -
b l e m a em t e r m o s morais, n ã o t e m o d i r e i t o d e r e c u s a r
ao jovem, em dadas ocasiões, a c a p a c i d a d e de sim p a t i a
e c o m p r e e n s ã o que sua p r ó p r i a e x p e r i ê n c i a lhe t e n h a
dado.
E n t r e t a n t o , l o g o q u e se dizem estas cousas, s u r g e
a t e n d ê n c i a a r e a g i r p a r a o o u t r o e x t r e m o e c o n s i d e r a r
isto u m a f o r m a d i s f a r ç a d a d e imposição de f o r a p a r a
d e n t r o . Devemos, p o r t a n t o , e s c l a r e c e r o m o d o p o r
q u e o a d u l t o p o d e e x e r c e r a s a b e d o r i a que sua p r ó p r i a
e x p e r i ê n c i a mais a m p l a l h e dá, s e m c o m isto i m p o r u m
c o n t r o l e e x t e r n o . P o r o u t r o lado, é sua missão e s t a r
a l e r t a d o para v e r q u e a t i t u d e s e tendências~s)
se estão f o r m a n d o . N e s t e s e n t i d o , deve, c o m o e d u c a -
d o r , s e r capaz d e j u l g a r quais a t i t u d e s são c o n d u c e n t e s
ao c r e s c i m e n t o c o n t í n u o e quais l h e são p r e j u d i c i a i s .
D e v e , além disto, p o s s u i r aquela c a p a c i d a d e d e s i m p a -
t i a e c o m p r e e n s ã o pelas pessoas c o m o pessoas, q u e o
h a b i l i t e a t e r u m a i d é i a do q u e vai p e l a m e n t e dos q u e
estão a p r e n d e n d o . E m r e o u t r a s cousas, é a necessidade '
de tais qualidades e m pais e mestres que t o r n a u m
C R I T É R I O S D E E X P E R I Ê N C I A \ 31
sistema de e d u c a ç ã o baseado e m e x p e r i ê n c i a d e v i d a algo
d e mais d i f í c i l d e se c o n d u z i r ~om ê x i t o do q u e o dos
ve l hos p a d r õ e s d a e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l .
Mas, há u m o u t r o aspecto da questão . A e x p e r i ê n -
cia não se processa apenas d e n t r o da pessoa. Passa-se
aí p o r c e r t o , pois i n f l u i na f o r m a ç ã o d e atitudes, d e
desejos e de p r o p ó s i t o s . Mas esta não é t o d a a h i s t ó -
ria. T o d a g e n u í n a e x p e r i ê n c i a t e m u m l a d o ativo, que
m u d a de algum m o d o as c o n d i ç õ e s o b j e t i v a s e m q u e
as experiências se p~sc:;am. A di_ferença entr~civ~lização
e e s t a d o selvagem, p~ra t o m a r u m ex ... e g t p l o em _g r a n d e
escala, d e c o r r e do g r a u em_~e pr~ias experiências
m u d a r a m as '~_gQiçiie objet!YasJ cm q u e se passam as
experiências s u b s e q ü e n t e s . A e x i s t ê n c i a de estradas,
meios d e r á p i d o m o v i m e n t o e t r a n s p o r t e , f e r r a m e n t a s ,
máquinas, casas, e q u i p a m e n t o , l u z e f o r ç a. elétricas, são
ilustrações. D e s t r u í d a s as c o n d i ç õ e s e x t e r n a s d a p r e -
s e n t e e x p e r i ê n c i a civilizada, cairemos, p o r a l g u m t e m -
p o p e l o menos, nas c o n d i ç õ e s p r i m i t i v a s .
E m uma palavra, vivemos do n a s c i m e n t o a t é a
m o r t e e m um m u n d o d e pessoas e cousas que, e m larga
medida, é o que é d e v i d o ao que se fez e ao q u e nos f o i
t r a n s m i t i d o d e a t i v i d a d e s humanas a n t e r i o r e s . Q u a n d o
se i g n o r a este faro, t r a t a - s e a e x p e r i ê n c i a como a l go q u e
o c o r r e exclusivamente d e n t r o do c o r p o e d a m e n t e
das pessoas. D i s p e n s á v e l r e p e t i r que a e x p e r i ê n c i a n ã o
s u c e d e n o v á c u o . H á fontes f o r a do i n d i v í d u o q u e a
fazem s u r g i r . E essas nascentes a a l i m e n t a m c o n s t a n -
t e m e n t e , N i n g u é m d i s c u t i r á q u e uma c r i a n ç a de favela
32 .E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
t e m exp er i ê n c i a d i f e r e n t e d a de u m a c r i a n ç a de u m
l a r c u l t iv ado d e classe m é d i a , q u e o m e n i n o d o c a m p o
t e m ex p er i ê n c i a d i v e r s a d a d o m e n i n o da c i d a d e , e o
das p r a i a s d i fe r e n t e d a d o s e r t ã o . G e r a l m e n t e t u d o isso
é demasiado ó b v io p a r a m e r e c e r r e g i s t r o . Mas, q u a n d o
se r e c o n h e c e s u a i m p o r t â n c i a e m e d u c a ç ã o , t e m o s o
s e g u n d o m o d o e m q u e o e d u c a d o r p o d e d i r i g i r a e x p e -
r i ê n c i a d o j o v e m , s e m e x e r c e r i m p o s i ç ã o . A r e s p o n s a -
b i l i d a d e p r i m á r i a d o e d u c a d o r n ã o é a p e n a s a d e e s t a r
a t e n t o ao p r i n c í p i o g e r a l de q u e as c o n d i ç õ e s d o m e i o
m o d e l a m a e x p e r i ê n c i a p r e s e n t e d o a l u n o , mas t a m b é m
a de r e c o n h e c e r nas s i t u a ç õ e s c o n c r e t a s q u e c i r c u n s -
t â n c i a s a m b i e n t e s c o n d u z e m a e x p e r i ê n c i a s q u e l e v a m
a c r e sc i m e n t o . A c i m a d e t u d o , d e v e sab e r c o m o u t i -
l i z a r as c o n d i ç õ e s físicas e sociais d o a m b i e n t e p a r a
d e la s e x t r a i r t u d o q u e possa c o n t r i b u i r p a r a u m c o r p o
de e x p e r i ê n c i a s s a u d á v e i s e válidas.
A e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l n ã o t i n h a q u e e n c a r a r t a l
p r o b l e m a ; p o d i a s i s t e m a t i c a m e n t e i g n o r a r essa r e s p o n -
sa b i l i d a d e . O á m b i e n t e e s c o l a r de c a r te iras, q u a d r o -
- n e g r o e u m p e q u e n o p á t i o d e v i a b a s t a r . N ã o se e x i g i a
q u e o p r o f e s s o r se familiarizasse i n t i m a m e n t e c o m as
c o n d i ç õ e s físicas, h i s t ó r i c a s , e c o n ô m i c a s , o c u p a c i o n a i s
e t c . d a c o m u n i d a d e l o c a l , p a r a p o d e r u t i l i z á - l a s c o m o
r e c u r s o s e d u c a t i v o s . U m sistema de e d u c a ç ã o b a s e a d o
n a c o n e x ã o n e c e s s á r i a de e d u c a ç ã o c o m e x p e r i ê n c i a
d e v e , p e l o c o n t r á r i o , " p a r a s e r f i e l aos s e u s · p r i n c í p i o s ,
t e r c o n s t a n t e m e n t e e m v~sta tais e l e m e n t o s . E s t a é o u t r a
C R I T É R I O S DE E X P E R I Ê N C IA \ 33
r a z ã o pel a q u a l a e d u c a ç ã o p r o g r e s s i v a s e r á s e m p r e mais
d i f í c i l d e se c o n d u z i r d o q u e o siste m a t r a d i c i o n a l .
É p oss ív e l ar m a r esquemas de e d u c a ç ã o q u e si s t e -
m a t ic am en t e s u b o r d i n e m as c o n d i ç õ e s o b j e t i v a s àquelasq u e se en c o n tr e m !10 i n d i v í d u o a se r e d u c a d o . I s t o é
o q u e se d á, q ua n d o o l u g a r e a f u n ç ão d o p rofesso r ,
dos li v ros, d o s a p a r e l h os e e q ui p ame n t os , de t u d o q ue
r e p r e s e n t a os p ro d u t o s da exp er i ê n c ia a m a d u re c ida d os
a d u l t o s , são sis t e m a t i c a m e n t e su b o r d in a d os às i n c l i n a -
ções i m e d i a t a s e às ve l eida d es de s e n t i m en to d o j o v e m .
T o d a t e o r i a , q u e ass u m e não se p o d e r d a r importânci~
aos f a t o r es obj e tiv os sem im p o r c o n t r ole. extern~ e
1
s e m l i m i t a r a lib er da d e i n di v i d u a l , b ase1a -s e a f t n a l
n a n o ç ão de q ue ex p e r i ê n c i a s o m e n t e é ve r d a d e ir a -
m e n t e ex p er iê n cia, q u a n d o as c o n d i ções o b j e t i v a s se
a c h a m s u b or di n adas a o q u e o c o r r e d e n t r o dos i n d i v í =._.,
d u a s q u e pa ssam p e l a e x p e r i ê n c i a .
N ã o q u e r o d i z e r q u e se s u p o n h a q u e as c o n d içõe s
o b je t ivas dev a m d e s a p a r e c er . A t é a í n ã o se vai. R e c o -
n he c e-se q ue el as p a r t i c i p a m da e x p e r i ê n c i a . F a z - se
e s t a c o n c essão ao f a t o i n e l u t á vel de q u e v i v e mos e m
u m m u n d o d e pessoas e cousas. Mas p e n s o q u e a o bse r -
v a ç ão d o q u e se p a ss a c m c e r t a s famílias c c e r t a s esc o las
r e v e l a q u e a lg u n s p ais e a lg uns p r o f e s s o r e s p ro c e de m
de a c o r d o c o m essa i d é ia d e su bordinar as c o n d i ç õ.e s
c l ; jetiyas às - c o n d i ç ões i n t e r n as . N e s t e c aso, n ã o s o m e n -
te se a d m i t e q u e estas ú lti mas são p r i m árias, o q u e ,
e m c e r t o s e n t i d o , são, m as, t a m b é m , q u e cxa ra r n e n t e
32 .E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
t e m exp er i ê n c i a d i f e r e n t e d a de u m a c r i a n ç a de u m
l a r c u l t iv ado d e classe m é d i a , q u e o m e n i n o d o c a m p o
t e m ex p er i ê n c i a d i v e r s a d a d o m e n i n o da c i d a d e , e o
das p r a i a s d i fe r e n t e d a d o s e r t ã o . G e r a l m e n t e t u d o isso
é demasiado ó b v io p a r a m e r e c e r r e g i s t r o . Mas, q u a n d o
se r e c o n h e c e s u a i m p o r t â n c i a e m e d u c a ç ã o , t e m o s o
s e g u n d o m o d o e m q u e o e d u c a d o r p o d e d i r i g i r a e x p e -
r i ê n c i a d o j o v e m , s e m e x e r c e r i m p o s i ç ã o . A r e s p o n s a -
b i l i d a d e p r i m á r i a d o e d u c a d o r n ã o é a p e n a s a d e e s t a r
a t e n t o ao p r i n c í p i o g e r a l de q u e as c o n d i ç õ e s d o m e i o
m o d e l a m a e x p e r i ê n c i a p r e s e n t e d o a l u n o , mas t a m b é m
a de r e c o n h e c e r nas s i t u a ç õ e s c o n c r e t a s q u e c i r c u n s -
t â n c i a s a m b i e n t e s c o n d u z e m a e x p e r i ê n c i a s q u e l e v a m
a c r e sc i m e n t o . A c i m a d e t u d o , d e v e sab e r c o m o u t i -
l i z a r as c o n d i ç õ e s físicas e sociais d o a m b i e n t e p a r a
d e la s e x t r a i r t u d o q u e possa c o n t r i b u i r p a r a u m c o r p o
de e x p e r i ê n c i a s s a u d á v e i s e válidas.
A e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l n ã o t i n h a q u e e n c a r a r t a l
p r o b l e m a ; p o d i a s i s t e m a t i c a m e n t e i g n o r a r essa r e s p o n -
sa b i l i d a d e . O á m b i e n t e e s c o l a r de c a r te iras, q u a d r o -
- n e g r o e u m p e q u e n o p á t i o d e v i a b a s t a r . N ã o se e x i g i a
q u e o p r o f e s s o r se familiarizasse i n t i m a m e n t e c o m as
c o n d i ç õ e s físicas, h i s t ó r i c a s , e c o n ô m i c a s , o c u p a c i o n a i s
e t c . d a c o m u n i d a d e l o c a l , p a r a p o d e r u t i l i z á - l a s c o m o
r e c u r s o s e d u c a t i v o s . U m sistema de e d u c a ç ã o b a s e a d o
n a c o n e x ã o n e c e s s á r i a de e d u c a ç ã o c o m e x p e r i ê n c i a
d e v e , p e l o c o n t r á r i o , " p a r a s e r f i e l aos s e u s · p r i n c í p i o s ,
t e r c o n s t a n t e m e n t e e m v~sta tais e l e m e n t o s . E s t a é o u t r a
C R I T É R I O S DE E X P E R I Ê N C IA \ 33
r a z ã o pel a q u a l a e d u c a ç ã o p r o g r e s s i v a s e r á s e m p r e mais
d i f í c i l d e se c o n d u z i r d o q u e o siste m a t r a d i c i o n a l .
É p oss ív e l ar m a r esquemas de e d u c a ç ã o q u e si s t e -
m a t ic am en t e s u b o r d i n e m as c o n d i ç õ e s o b j e t i v a s àquelas
q u e se en c o n tr e m !10 i n d i v í d u o a se r e d u c a d o . I s t o é
o q u e se d á, q ua n d o o l u g a r e a f u n ç ão d o p rofesso r ,
dos li v ros, d o s a p a r e l h os e e q ui p ame n t os , de t u d o q ue
r e p r e s e n t a os p ro d u t o s da exp er i ê n c ia a m a d u re c ida d os
a d u l t o s , são sis t e m a t i c a m e n t e su b o r d in a d os às i n c l i n a -
ções i m e d i a t a s e às ve l eida d es de s e n t i m en to d o j o v e m .
T o d a t e o r i a , q u e ass u m e não se p o d e r d a r importânci~
aos f a t o r es obj e tiv os sem im p o r c o n t r ole. extern~ e
1
s e m l i m i t a r a lib er da d e i n di v i d u a l , b ase1a -s e a f t n a l
n a n o ç ão de q ue ex p e r i ê n c i a s o m e n t e é ve r d a d e ir a -
m e n t e ex p er iê n cia, q u a n d o as c o n d i ções o b j e t i v a s se
a c h a m s u b or di n adas a o q u e o c o r r e d e n t r o dos i n d i v í =._.,
d u a s q u e pa ssam p e l a e x p e r i ê n c i a .
N ã o q u e r o d i z e r q u e se s u p o n h a q u e as c o n d içõe s
o b je t ivas dev a m d e s a p a r e c er . A t é a í n ã o se vai. R e c o -
n he c e-se q ue el as p a r t i c i p a m da e x p e r i ê n c i a . F a z - se
e s t a c o n c essão ao f a t o i n e l u t á vel de q u e v i v e mos e m
u m m u n d o d e pessoas e cousas. Mas p e n s o q u e a o bse r -
v a ç ão d o q u e se p a ss a c m c e r t a s famílias c c e r t a s esc o las
r e v e l a q u e a lg u n s p ais e a lg uns p r o f e s s o r e s p ro c e de m
de a c o r d o c o m essa i d é ia d e su bordinar as c o n d i ç õ.e s
c l ; jetiyas às - c o n d i ç ões i n t e r n as . N e s t e c aso, n ã o s o m e n -
te se a d m i t e q u e estas ú lti mas são p r i m árias, o q u e ,
e m c e r t o s e n t i d o , são, m as, t a m b é m , q u e cxa ra r n e n t e
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E X P E R I E N C I A E EDUCAÇAO
c o m o se a p r e s e n t a m t e m p o r a r i a m e n t e n o i n d i v í d u o de-
t e r m i n a m e fi xam t o d o processo e d u c a t ivo.
Se j a - m e p e r m i ti d o i l u s t ra r este p o n t o c o m o caso
d o b e b ê . As necessi~ades d a c r i a n ç a , d e a l i m e n t o ,
desca ns o e ativí dad e, são c e r t a m e n t e p r i m á r i as e d ec i -
siva s e m c e r t o r e s p ei t o . A c~iança t e m d e s e r a l i m e n -
t a d a , t em de t e r c o n d i ç õ e s adequa das p a r a d o r m i r , etc.
M as, i s to não s i g n i f i c a q u e o b e b ê d e v a ser a l i m e n t a d o
t o do m o m e n t o qu e e s t i v e r abo r r e c i d o o u i n d i s p o s t o,
de m o d o a n ão se p o d e r t e r p r o g r a m a d e h o r a s r e g u -
l a res p a ra ali men t a ção , s o n o , etc. A mãe t e m em c o n t a
as necessidad es do b eb ê , masn ã o d e m o d o a dispensar
a s_ua. p r ó p r i a r e s p o n s a b i l i d a d e e m r e g u l a r as c o n d i ç õ e s
obJetivas em q u e as necessidades são atendidas. E se
f o r mãe esc l a r e c i d a a e s te r e s p e i t o b u s c a r á , n o sab e r do
p assado c o m os p e d i a t r a s e em sua p r ó p r i a experiência,
l u z p a ra se o r i e n t a r q u a n to às . e x p er i ê n c ias mais c o n -
d u c e n tes ao dcsenv olvim e n t 9 n o r m a l do b e b ê . E m vez
d as c o n d i ç õ e s o bj ctivas es t a r e m s u b o r d i n a d a s às i m e -
d i a t as c ó n d i ç õ e s i n t e r n a s da c r i a n ç a , são elas d e f i n i d a -
m e n t e o r d e n a d a s d e m o d o a que a espécie p a r t i c u l a r
de interação c o m os estados imediatos i n te r n o s se p r o -
cesse n o r m a l m e n t e .
~palavra " i n t e r a ç ã o " , q ue aca b amos d e usar, e x pr i -
me o seg u n d o p r i n c í p i o f u n d a m e n t a l p a r a i n t e r p r e t a r
uma e x p e r i ên c ia em su a f u n ç ã o e sua f o r ça e d u c a t i v a .
O p r i n c í p i o a t r i b u i d i r e i t o s ig uais a a m b o s os f a t o r e s
d a e x p e r iência: c o n d i ç õ e s o b j e t i v a s e c o n d i ç õ e s m t e r -
-- .. i
C RI TÉ R IOS D E E X P E R I Ê N C I A 35
nas. Q u a l q u e r ex p e r iê n c i a n o r m al é u m j o g o e n t r e os (
dois g r u p o s d e c o n d ições. T o m a d a s e m c o n j u n t o , o u
em sua i n t e r a ç ã o , c o n s t i t u e m o qu e se c h a m a u m a_
situação. O e r r o d a e d u c açã o t r a d i c i o n a l n ã o estava n a
ê n f ase q u e dava às c o n d i ç õ e s e x t ernas , q ue e n t r a m n o
c o n t r o l e d a e x pe r i ên c i a , mas n a quas e n e n h u m a a t e n - 1
ç ã o aos f a t o r e s i n t e r n o s que t a m b é m dec~dem qu~to " '
à esp éc ie de e x p e r i ê n c i a q u e se t e m . V w lava assun ,
p o r u m lado, o p r i n c í p i o de i n t e r a ç ã o . T a l violação
n ã o é, c o n t u d o , m o t i v o p a r a q u e a n o v a e d u c a ç ã o o :
vio le p e l o o ut ro l a d o - a nã~ s e r na .~ase d a . filosofia .
dos extremos, d o isto ou aquzlo, q u e Ja mencwnamo~·-
A i l us t ração q u e a p r e s e n t a m o s q ua n to à necessidade
de r e g u l a r as c o n d i ç õ e s o b j e t i v a s d o d ese n vo l vimen t o
d a c r i a n ç a m o s t ra, p r i m e i r o , q ue os pais t ê m r e s p o n -
sab i l i d a d e em di sp o r as c o n d i ç õ es em q u e a e x p e r i ê n c i a
i n f a n t i l d e a l i m e n t o , son o , e tc . se p r o c e ssa , e, s e g u n d o ,
que ess a r es p o n sab i l i d a d e se c u m p r e u t i l i z a n d o - s e a
exp e r i ê n c i a f u n d a d a d o p assa d o, r e p r e s e n t a d a , digamos,
p e l o c o n selho do p e d i a t r a e d e o u t r o s est udio sos d o
c r e s c i m e n t o f í sic o n o r m a l . L i m i t a , p or acaso, a l i b e r -
d a d e d a m ãe u t i l i z a r -se do c o r p o d e c o n h e c i m e n t os exis-
t e n t e p a ra r e g u l a r as c o n di ções o b j e t i v a s d e so n o e
a l i m e n t a ç ã o ? O u o al a r g a m e n t o d e s ua i n t e l i g ê ncia à
l u z d os c o n s e l h o s ci e n t íf i c os a u m e n t a a sua lib e rd a d e ?
E v i d e nt e m en t e , se as r e g r a s e c o nselhos m é d i c o s se f i -
zessem a l g o d e s a g r a d o , a s e r e m s e g u ido s i n f l e x iv e l -
m e n t e c o m o dogmas, e n t ã o , i s t o r e s t r i n g i r i a t a n t o a
l i b e r d a d e d a m ãe q u a n t o a d a c r i a n ç a . Mas t a l r e s t r i -
3 4 1 \
-
E X P E R I E N C I A E EDUCAÇAO
c o m o se a p r e s e n t a m t e m p o r a r i a m e n t e n o i n d i v í d u o de-
t e r m i n a m e fi xam t o d o processo e d u c a t ivo.
Se j a - m e p e r m i ti d o i l u s t ra r este p o n t o c o m o caso
d o b e b ê . As necessi~ades d a c r i a n ç a , d e a l i m e n t o ,
desca ns o e ativí dad e, são c e r t a m e n t e p r i m á r i as e d ec i -
siva s e m c e r t o r e s p ei t o . A c~iança t e m d e s e r a l i m e n -
t a d a , t em de t e r c o n d i ç õ e s adequa das p a r a d o r m i r , etc.
M as, i s to não s i g n i f i c a q u e o b e b ê d e v a ser a l i m e n t a d o
t o do m o m e n t o qu e e s t i v e r abo r r e c i d o o u i n d i s p o s t o,
de m o d o a n ão se p o d e r t e r p r o g r a m a d e h o r a s r e g u -
l a res p a ra ali men t a ção , s o n o , etc. A mãe t e m em c o n t a
as necessidad es do b eb ê , mas n ã o d e m o d o a dispensar
a s_ua. p r ó p r i a r e s p o n s a b i l i d a d e e m r e g u l a r as c o n d i ç õ e s
obJetivas em q u e as necessidades são atendidas. E se
f o r mãe esc l a r e c i d a a e s te r e s p e i t o b u s c a r á , n o sab e r do
p assado c o m os p e d i a t r a s e em sua p r ó p r i a experiência,
l u z p a ra se o r i e n t a r q u a n to às . e x p er i ê n c ias mais c o n -
d u c e n tes ao dcsenv olvim e n t 9 n o r m a l do b e b ê . E m vez
d as c o n d i ç õ e s o bj ctivas es t a r e m s u b o r d i n a d a s às i m e -
d i a t as c ó n d i ç õ e s i n t e r n a s da c r i a n ç a , são elas d e f i n i d a -
m e n t e o r d e n a d a s d e m o d o a que a espécie p a r t i c u l a r
de interação c o m os estados imediatos i n te r n o s se p r o -
cesse n o r m a l m e n t e .
~palavra " i n t e r a ç ã o " , q ue aca b amos d e usar, e x pr i -
me o seg u n d o p r i n c í p i o f u n d a m e n t a l p a r a i n t e r p r e t a r
uma e x p e r i ên c ia em su a f u n ç ã o e sua f o r ça e d u c a t i v a .
O p r i n c í p i o a t r i b u i d i r e i t o s ig uais a a m b o s os f a t o r e s
d a e x p e r iência: c o n d i ç õ e s o b j e t i v a s e c o n d i ç õ e s m t e r -
-- .. i
C RI TÉ R IOS D E E X P E R I Ê N C I A 35
nas. Q u a l q u e r ex p e r iê n c i a n o r m al é u m j o g o e n t r e os (
dois g r u p o s d e c o n d ições. T o m a d a s e m c o n j u n t o , o u
em sua i n t e r a ç ã o , c o n s t i t u e m o qu e se c h a m a u m a_
situação. O e r r o d a e d u c açã o t r a d i c i o n a l n ã o estava n a
ê n f ase q u e dava às c o n d i ç õ e s e x t ernas , q ue e n t r a m n o
c o n t r o l e d a e x pe r i ên c i a , mas n a quas e n e n h u m a a t e n - 1
ç ã o aos f a t o r e s i n t e r n o s que t a m b é m dec~dem qu~to " '
à esp éc ie de e x p e r i ê n c i a q u e se t e m . V w lava assun ,
p o r u m lado, o p r i n c í p i o de i n t e r a ç ã o . T a l violação
n ã o é, c o n t u d o , m o t i v o p a r a q u e a n o v a e d u c a ç ã o o :
vio le p e l o o ut ro l a d o - a nã~ s e r na .~ase d a . filosofia .
dos extremos, d o isto ou aquzlo, q u e Ja mencwnamo~·-
A i l us t ração q u e a p r e s e n t a m o s q ua n to à necessidade
de r e g u l a r as c o n d i ç õ e s o b j e t i v a s d o d ese n vo l vimen t o
d a c r i a n ç a m o s t ra, p r i m e i r o , q ue os pais t ê m r e s p o n -
sab i l i d a d e em di sp o r as c o n d i ç õ es em q u e a e x p e r i ê n c i a
i n f a n t i l d e a l i m e n t o , son o , e tc . se p r o c e ssa , e, s e g u n d o ,
que ess a r es p o n sab i l i d a d e se c u m p r e u t i l i z a n d o - s e a
exp e r i ê n c i a f u n d a d a d o p assa d o, r ep r e s e n t a d a , digamos,
p e l o c o n selho do p e d i a t r a e d e o u t r o s est udio sos d o
c r e s c i m e n t o f í sic o n o r m a l . L i m i t a , p or acaso, a l i b e r -
d a d e d a m ãe u t i l i z a r -se do c o r p o d e c o n h e c i m e n t os exis-
t e n t e p a ra r e g u l a r as c o n di ções o b j e t i v a s d e so n o e
a l i m e n t a ç ã o ? O u o al a r g a m e n t o d e s ua i n t e l i g ê ncia à
l u z d os c o n s e l h o s ci e n t íf i c os a u m e n t a a sua lib e rd a d e ?
E v i d e nt e m en t e , se as r e g r a s e c o nselhos m é d i c o s se f i -
zessem a l g o d e s a g r a d o , a s e r e m s e g u ido s i n f l e x iv e l -
m e n t e c o m o dogmas, e n t ã o , i s t o r e s t r i n g i r i a t a n t o a
l i b e r d a d e d a m ãe q u a n t o a d a c r i a n ç a . Mas t a l r e s t r i -
• i
36 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
ç à o se n a t a m b é m u m a l i m i t a ç ã o à i n te li g ê nc i a a s e r
e x e r c i d a n o j u l g a m e n t o pessoal.
. E~ .q u e r c: p ei t o a o r d e n a ç ã o das c o n d i ç õ e s o b j e -
t~v~s l~uta a , l i b e r d a d e d o . b e b ê ? P o r c e r t o alg uma
limrtaçao se d a c m seus mov1mcnr os ~ i n c l i n a ç õ e s í m e -
di~tos, se é p o s t o n o b e rço, q u a n d o dese j a c o n t i n u a r
b n n c a n d o , se n ã o r ec e b e o a l i m e n t o n o m o m en t o e m
q u e o q u e r , se n ã o é t o m a d o ao c o l o e m i m a d o q u a n d o
c h o r a p o r a t e n ç ã o . M a s r e s t r i ç ã o t a m b é m o c o r r e q u a n -
d o . 3 mãe. o u a bab.í o p e g a para e v i t a r q u e caia. T e r e i
mm~ a d i?:er s o b r e l i b e r d a d e . A q u i , b a s t a r á p e r g u n t a r
: e . l i b e r d a d e deve s e r c o n c e b i d a e j u l g a d a na b ase d e
mc1dentcs r e l a t i v a m e n t e m o m e n t â n e o s , o u se o seu r e a l
s i g n i f i c a d o está n a c o n t i n u i d a de da e x p e r i ê n ci a e m d e -
s e n v o lv i m e n t o .
~J A a~irU:~ção de q u e os i n d i v í d u o s v i v e m e m u m
m u n d o srgnrfrca, c o n c r e t a men t e , q u e v i v e m e m u m a
s~r~e d e si.tu ações . E q u a n d o se di z q u e vive m e m uma
se n e d e Situ ações , o s e n t i d o d a p a l a v r a e m é d i f e ren t e
d o s e u s e n t i d o q u a n d o di zemos q u e o d i n h e i r o está e m
u m c o f r e o~ . a t i n t a e m u m a lata. S i g n i f i c a , r e p e t i -
mos, q u e h a m t e r a ç ã o e n t r e o i n d i v í d u o c o b j e t o s e
o u t r a s pessoas. O s c o n c e i t o s de situação e d e intera-
ção são i n s e p a r á v e i s u m do o u tr o . < U m a e x p e r i ê n c i a é
o q u e é, p o r q u e u m a t r a n s a ç ã o e s t i o c o r r e n d o e n t r e
u m indivídu~ ~ o q u e , ao t e m p o , é o s e u meio, p o d e n -
d o e s t e cons1st1r d e pessoas c o m q u e m e s t e j a c o n v e r -
s a n d o s o b r e c e r t o t ó p i é o o u a c o n t e c i m e n t o , o a s s u n t o
da c o n v e r s a t a m b ém cc o n s t i r u i n d o p a r t e d a s i t u a ç ã o ; o u
I A
C R I TE R I O S D E E X P E R I E N C I A 37
o s b r i n q u e d o s c o m q u e e s t i v er b r i n c a n d o ; . o u o l i v r o
q u e e s t i v e r l e n d o ( p e l o q u a l suas c o n d i ç õ e s a m b i e n t e s ,
ao t e m p o , p o d e m s e r a I n g l a t e r r a , o u a G r é c i a a n tiga,
o u u m a r e g i ã o i m a g i n á r i a ) ; o u os m a t e r i a i s d e u m a
ex p e r i ê n c i a q u e e s t i v e r f a z e n d o . O m e i o o u o a m b i e n -
te, em o u t r a s pal avras, é f o r m a d o pelas c o n d i ç õ e s , q u a i s -
q u er q u e sejam, e m í n t e r a ç ã o c o m as necessidades,
desejos, p r o p ó s i t o s e a p t i d õ e s pessoais d e c r i a r a expe-
r i ê n c i a e m c u r s o . M e s m o q u a n d o a pessoa i m a g i n a
castelos no a r , es t á e m i n t e r a ç ã o c o m os o b j e t o s q u e
s u a f a n t a s i a c o n s t r ó i .
O s dois p r i n c í p i o s d e c o n t i n u i d a d e e i n t e r a ç ã o {f
não se s e p a r a m u m do o u t r o . E l e s se i n t e r c e p t a m 1
1
e se u nem. São, p o r assim d i z e r , os asp e c tos longitu- ~
dinais e t r a n s v e r s a i s da e x p e r i ê n c i a . D i f e re n t e s s i t u a ç õ e s
s u c e d e m umas às o u t r a s . Mas, d e v i d o ao p r i n c í p i o
de c o n t i n u i d a d e , algo é l e v a d o de u m a p a r a a o u t r a .
A o passar o i n d i v í d u o de u m a s i t u a ç ã o p a r a o u t r a ,
s e u m u n d o , s e u meio o u a m b i e n t e se e x p a n d e o u se
c o n t r a i . D e p a r a - s e v i ve n d o n ã o e m o u t r o m u n d o mas
e m u m a p a r t e o u a s p e c t o d i f e r e n t e d e u m e mesmo
m u n d o . O q u e a p r e n d e u c o m o c o n h e c i m e n t o o u h a b i -
l i t a ç ã o e m u m a s i t u a ç ã o t o r n a - s e i n s t r u m e n t o p a r a
c o m p r e e n d e r e l i d a r e f e t i v a m e n t e c o m a s i t u a ç ã o q u e
se s e g u e . O p r o c e s s o c o n t i n u a e n q u a n t o vida e a p r e n -
d i z a g e m c o n t i n u e m . A u n i d a d e s u b s t a n c i a l d o p r o -
cesso d e c o r r e d o f a t o r i n d i v i d u a l , e l e m e n t o i n t e g r a n -
t e d a e x p e r i ê n c i a . Q u a n d o esse f a t o r se r o m p e , o
c u r s o da e x p e ri ência c o m t a l r u p t u r a e n t r a em d e s o r d e m .
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36 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
ç à o se n a t a m b é m u m a l i m i t a ç ã o à i n te li g ê nc i a a s e r
e x e r c i d a n o j u l g a m e n t o pessoal.
. E~ .q u e r c: p ei t o a o r d e n a ç ã o das c o n d i ç õ e s o b j e -
t~v~s l~uta a , l i b e r d a d e d o . b e b ê ? P o r c e r t o alg uma
limrtaçao se d a c m seus mov1mcnr os ~ i n c l i n a ç õ e s í m e -
di~tos, se é p o s t o n o b e rço, q u a n d o dese j a c o n t i n u a r
b n n c a n d o , se n ã o r ec e b e o a l i m e n t o n o m o m en t o e m
q u e o q u e r , se n ã o é t o m a d o ao c o l o e m i m a d o q u a n d o
c h o r a p o r a t e n ç ã o . M a s r e s t r i ç ã o t a m b é m o c o r r e q u a n -
d o . 3 mãe. o u a bab.í o p e g a para e v i t a r q u e caia. T e r e i
mm~ a d i?:er s o b r e l i b e r d a d e . A q u i , b a s t a r á p e r g u n t a r
: e . l i b e r d a d e deve s e r c o n c e b i d a e j u l g a d a na b ase d e
mc1dentcs r e l a t i v a m e n t e m o m e n t â n e o s , o u se o seu r e a l
s i g n i f i c a d o está n a c o n t i n u i d a de da e x p e r i ê n ci a e m d e -
s e n v o lv i m e n t o .
~J A a~irU:~ção de q u e os i n d i v í d u o s v i v e m e m u m
m u n d o srgnrfrca, c o n c r e t a men t e , q u e v i v e m e m u m a
s~r~e d e si.tu ações . E q u a n d o se di z q u e vive m e m uma
se n e d e Situ ações , o s e n t i d o d a p a l a v r a e m é d i f e ren t e
d o s e u s e n t i d o q u a n d o di zemos q u e o d i n h e i r o está e m
u m c o f r e o~ . a t i n t a e m u m a lata. S i g n i f i c a , r e p e t i -
mos, q u e h a m t e r a ç ã o e n t r e o i n d i v í d u o c o b j e t o s e
o u t r a s pessoas. O s c o n c e i t o s desituação e d e intera-
ção são i n s e p a r á v e i s u m do o u tr o . < U m a e x p e r i ê n c i a é
o q u e é, p o r q u e u m a t r a n s a ç ã o e s t i o c o r r e n d o e n t r e
u m indivídu~ ~ o q u e , ao t e m p o , é o s e u meio, p o d e n -
d o e s t e cons1st1r d e pessoas c o m q u e m e s t e j a c o n v e r -
s a n d o s o b r e c e r t o t ó p i é o o u a c o n t e c i m e n t o , o a s s u n t o
da c o n v e r s a t a m b ém cc o n s t i r u i n d o p a r t e d a s i t u a ç ã o ; o u
I A
C R I TE R I O S D E E X P E R I E N C I A 37
o s b r i n q u e d o s c o m q u e e s t i v er b r i n c a n d o ; . o u o l i v r o
q u e e s t i v e r l e n d o ( p e l o q u a l suas c o n d i ç õ e s a m b i e n t e s ,
ao t e m p o , p o d e m s e r a I n g l a t e r r a , o u a G r é c i a a n tiga,
o u u m a r e g i ã o i m a g i n á r i a ) ; o u os m a t e r i a i s d e u m a
ex p e r i ê n c i a q u e e s t i v e r f a z e n d o . O m e i o o u o a m b i e n -
te, em o u t r a s pal avras, é f o r m a d o pelas c o n d i ç õ e s , q u a i s -
q u er q u e sejam, e m í n t e r a ç ã o c o m as necessidades,
desejos, p r o p ó s i t o s e a p t i d õ e s pessoais d e c r i a r a expe-
r i ê n c i a e m c u r s o . M e s m o q u a n d o a pessoa i m a g i n a
castelos no a r , es t á e m i n t e r a ç ã o c o m os o b j e t o s q u e
s u a f a n t a s i a c o n s t r ó i .
O s dois p r i n c í p i o s d e c o n t i n u i d a d e e i n t e r a ç ã o {f
não se s e p a r a m u m do o u t r o . E l e s se i n t e r c e p t a m 1
1
e se u nem. São, p o r assim d i z e r , os asp e c tos longitu- ~
dinais e t r a n s v e r s a i s da e x p e r i ê n c i a . D i f e re n t e s s i t u a ç õ e s
s u c e d e m umas às o u t r a s . Mas, d e v i d o ao p r i n c í p i o
de c o n t i n u i d a d e , algo é l e v a d o de u m a p a r a a o u t r a .
A o passar o i n d i v í d u o de u m a s i t u a ç ã o p a r a o u t r a ,
s e u m u n d o , s e u meio o u a m b i e n t e se e x p a n d e o u se
c o n t r a i . D e p a r a - s e v i ve n d o n ã o e m o u t r o m u n d o mas
e m u m a p a r t e o u a s p e c t o d i f e r e n t e d e u m e mesmo
m u n d o . O q u e a p r e n d e u c o m o c o n h e c i m e n t o o u h a b i -
l i t a ç ã o e m u m a s i t u a ç ã o t o r n a - s e i n s t r u m e n t o p a r a
c o m p r e e n d e r e l i d a r e f e t i v a m e n t e c o m a s i t u a ç ã o q u e
se s e g u e . O p r o c e s s o c o n t i n u a e n q u a n t o vida e a p r e n -
d i z a g e m c o n t i n u e m . A u n i d a d e s u b s t a n c i a l d o p r o -
cesso d e c o r r e d o f a t o r i n d i v i d u a l , e l e m e n t o i n t e g r a n -
t e d a e x p e r i ê n c i a . Q u a n d o esse f a t o r se r o m p e , o
c u r s o da e x p e ri ência c o m t a l r u p t u r a e n t r a em d e s o r d e m .
38 E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
E o m u n d o se divide. U m m u n d o dividido, u m
m u n d o cujas p a r t e s e aspectos não se justapõem, é
sinal e causa de uma personalidade dividida. Q u a n d o
a divisão atinge c e r t o p o n t o , chamamos a pessoa insa-
na. U m a personalidade c o m p l e t a m e n t e i n t e g r a d a , p o r
o u t r o lado, só existe q u a n d o as sucessivas experiências
se i n t e g r a m umas c o m as o u t r a s e p o d e ela e d i f i c a r o
seu m u n d o como u m universo de o b j e t o s em p e r f e i t o
relacionamento.
I C o n t i n u i d a d e e i n t e r a ç ã o , em a t i v a u n i ã o uma c o m a o u t r a , dão a m e d i d a da i m p o r t â n c i a e v a l o r educativos da experiência em causa . A preocupação
imediata e d i r e t a do e d u c a d o r é, e n t ã o , c o m a situação
em q u e a interação se processa. O i n d i v í d u o , q u e
e n t r a como u m dos fatores, é o q u e é a u m dado t e m p o .
O o u t r o f a t o r - as condições objetivas - é que, a t é
c e n o p o n t o , o f e r e c e possibilidade d e s e r r e g u l a d o
p e l o e d u c a d o r . C o m o j á esclarecemos, os t e r m o s " c o n -
dições o b j e t i v a s " c o m p r e e n d e m m u i t a cousa. A í se
i n c l u e m o q u e faz o e d u c a d o r e o m o d o como o faz,
n ã o s o m e n t e as palavras q u e fala, mas o t o m c o m que
as fala. I n c l u e m equipamentos, livros, aparelhos, b r i n -
q u e d o s e jogos. I n c l u e m os materiais c o m q u e o i n d i -
v í d u o e n t r a em i n t e r a ç ã o e, mais i m p o r t a n t e que t u d o ,
o a r r a n j o social global em q u e a pessoa e s t á envolvida.
\
Q u a n d o se a f i r m a q u e as condições objetivas são
as q u e estão d e n t r o d o p o d e r d o e d u c a d o r de o r d e -
n a r e regular, está ela -to q u e isto s u b e n t e n d e que lhe
cabe o d e v e r de d e t e r m i n a r o ambiente, que, e n t r a n d o
fACUlOA OI Of fYUCAC~O
B I B L I O T E C A
C R I T É R I O S D E E X P E R I Ê N C I A 3 9
e m i n t e r a ç ã o c o m as necessidade s e capacidades claque- \
les a q u e vai ensinar, i r á c r i a r a e x p e r i ê n c i a educativa
válida. O e r r o da educação t r a d i c i o n a l não estava n o
f a t o de que os e d u c a d o r e s tomavam a si a responsabi-
lidade de p r o v e r o meio. O e r r o es t a v a no fato de não
considerarem o o u t r o f a t o r na criação da experiência,
o u s e j a , as capacidades e os propósitos daqueles a q u e
iam ensinar . A d m i t i a - s e que determinadas c o n d i ç õ e s
e r a m i n t r i n secam e n t e desejáveis, à p a n e de sua capa-
c i d a d e de e v o é a r c e n a qualidade de resposta nos
indivíduos. E s t a f a l t a de adaptação m ú t u a t o r n a v a aci-
d e n t a l o processo de ensinar e a p r e n d e r . Aqueles p a r a
quem as condições oferecidas c o n v i n h a m , aprendiam.
Os outros se arranjavam como podiam. A responsabi-
lidade, p o r t a n t o , de selecionar as condições objetivas
i m p o r t a na responsabilidade d e c o m p r e e n d e r as neces-
sidades e capacidades dos indivíduos q u e estão a p r e n -
d e n d o em dado t e m p o . -N ã o é b a s t a n t e q u e c e r t o s
materiais e c e r t o s m é t o d o s se t e n h a m revelado bons e
eficientes c o m o u t r o s indivíduos em o u t r a s ocasiões. De~
ve h a v e r uma razão p a r a se a c r e d i t a r q u e eles sejam capa-
zes de p r o d u z i r experiência q u e t e n h a qualidade educa-
tiva com d e t e r m i n a d o i n d i v í d u o em d e t e r m i n a d o t e m p o .
N ã o é p o r q u e se n e g u e qualidade n u t r i t i v a ao
rosbife, q u e não alimentamos o b e b ê c o m ele. N ã o é
p o r q u a l q u e r p r e v e n ç ã o c o n t r a a t r i g o n o m e t r i a , q u e
não a ensinamos na escola primária. N ã o é a m a t é r i a
per se que é educativa, o u c o n d u c e n t e a c r e s c i m e n t o .
S o m e n t e em relação ao estádio de crescimento d o
38 E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
E o m u n d o se divide. U m m u n d o dividido, u m
m u n d o cujas p a r t e s e aspectos não se justapõem, é
sinal e causa de uma personalidade dividida. Q u a n d o
a divisão atinge c e r t o p o n t o , chamamos a pessoa insa-
na. U m a personalidade c o m p l e t a m e n t e i n t e g r a d a , p o r
o u t r o lado, só existe q u a n d o as sucessivas experiências
se i n t e g r a m umasc o m as o u t r a s e p o d e ela e d i f i c a r o
seu m u n d o como u m universo de o b j e t o s em p e r f e i t o
relacionamento.
I C o n t i n u i d a d e e i n t e r a ç ã o , em a t i v a u n i ã o uma c o m a o u t r a , dão a m e d i d a da i m p o r t â n c i a e v a l o r educativos da experiência em causa . A preocupação
imediata e d i r e t a do e d u c a d o r é, e n t ã o , c o m a situação
em q u e a interação se processa. O i n d i v í d u o , q u e
e n t r a como u m dos fatores, é o q u e é a u m dado t e m p o .
O o u t r o f a t o r - as condições objetivas - é que, a t é
c e n o p o n t o , o f e r e c e possibilidade d e s e r r e g u l a d o
p e l o e d u c a d o r . C o m o j á esclarecemos, os t e r m o s " c o n -
dições o b j e t i v a s " c o m p r e e n d e m m u i t a cousa. A í se
i n c l u e m o q u e faz o e d u c a d o r e o m o d o como o faz,
n ã o s o m e n t e as palavras q u e fala, mas o t o m c o m que
as fala. I n c l u e m equipamentos, livros, aparelhos, b r i n -
q u e d o s e jogos. I n c l u e m os materiais c o m q u e o i n d i -
v í d u o e n t r a em i n t e r a ç ã o e, mais i m p o r t a n t e que t u d o ,
o a r r a n j o social global em q u e a pessoa e s t á envolvida.
\
Q u a n d o se a f i r m a q u e as condições objetivas são
as q u e estão d e n t r o d o p o d e r d o e d u c a d o r de o r d e -
n a r e regular, está ela -to q u e isto s u b e n t e n d e que lhe
cabe o d e v e r de d e t e r m i n a r o ambiente, que, e n t r a n d o
fACUlOA OI Of fYUCAC~O
B I B L I O T E C A
C R I T É R I O S D E E X P E R I Ê N C I A 3 9
e m i n t e r a ç ã o c o m as necessidade s e capacidades claque- \
les a q u e vai ensinar, i r á c r i a r a e x p e r i ê n c i a educativa
válida. O e r r o da educação t r a d i c i o n a l não estava n o
f a t o de que os e d u c a d o r e s tomavam a si a responsabi-
lidade de p r o v e r o meio. O e r r o es t a v a no fato de não
considerarem o o u t r o f a t o r na criação da experiência,
o u s e j a , as capacidades e os propósitos daqueles a q u e
iam ensinar . A d m i t i a - s e que determinadas c o n d i ç õ e s
e r a m i n t r i n secam e n t e desejáveis, à p a n e de sua capa-
c i d a d e de e v o é a r c e n a qualidade de resposta nos
indivíduos. E s t a f a l t a de adaptação m ú t u a t o r n a v a aci-
d e n t a l o processo de ensinar e a p r e n d e r . Aqueles p a r a
quem as condições oferecidas c o n v i n h a m , aprendiam.
Os outros se arranjavam como podiam. A responsabi-
lidade, p o r t a n t o , de selecionar as condições objetivas
i m p o r t a na responsabilidade d e c o m p r e e n d e r as neces-
sidades e capacidades dos indivíduos q u e estão a p r e n -
d e n d o em dado t e m p o . -N ã o é b a s t a n t e q u e c e r t o s
materiais e c e r t o s m é t o d o s se t e n h a m revelado bons e
eficientes c o m o u t r o s indivíduos em o u t r a s ocasiões. De~
ve h a v e r uma razão p a r a se a c r e d i t a r q u e eles sejam capa-
zes de p r o d u z i r experiência q u e t e n h a qualidade educa-
tiva com d e t e r m i n a d o i n d i v í d u o em d e t e r m i n a d o t e m p o .
N ã o é p o r q u e se n e g u e qualidade n u t r i t i v a ao
rosbife, q u e não alimentamos o b e b ê c o m ele. N ã o é
p o r q u a l q u e r p r e v e n ç ã o c o n t r a a t r i g o n o m e t r i a , q u e
não a ensinamos na escola primária. N ã o é a m a t é r i a
per se que é educativa, o u c o n d u c e n t e a c r e s c i m e n t o .
S o m e n t e em relação ao estádio de crescimento d o
40 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
j o v e m , ·é q u e a m a t é r i a p o d e v i r a r e v e l a r - s e e d u c a t i v a ,
n ã o h a v e n d o n e n h u m a q u e p o r si m e s m a t e n h a v al o r
e d u c a t i v o i n t r í n s e c o . O f a t o d e não se l e v a r e m c o n t a
a a d a p t a ç ã o às necessidades e c a p a c i d a d e s dos i n d i v í d u o s
foi a f o n t e d a idéia d e q u e c e r t a s m a t é r i a s e c e r t o s
m é t o d o s são i n t r i n s e c a m e n t e c u l t u r a i s o u i n t r í n s e c a -
\
m e n t e b o n s p a r a d i s c i p l i n a m e n t a l . N ã o h á valor e d u -
c a t i v o e m a b s t r a t o . A i d é i a de q u e c e r t a s m a t é r i a s e
m é t o d o s , b e m c o m o o c o n h e c i m e n t o pessoal de c e r -
t o s f a t o s e v e r d a d e s , p o s s u e m t a l v a l o r p o r si e e m si
mesmos, é q u e l e v a a escola t r a d i c i o n a l a r e d u z i r as
m a t é r i a s de ens i n o , d e m o d o g e r a l , a u m a d i e t a d e
m a t é r i a s p r é - d i g e r i d a s . D e a c o r d o c o m essa idéia, e r a
b a s t a n t e r e g u l a r a q u a n t i d a d e e d i f i c u l d a d e das m a t é -
rias o f e r e c i d a s , e m u m e s q u e m a d e d o s a g e n s g r a d a t i -
vas, pelos meses e pelos anos. E v p e r a v a - s e q u e o a l u n o ,
p o r s e u l a d o , t o m a s s e as doses assim p r e s c r i t a s . Se o
a l u n o , e m vez de a c e i t a r o r e m é d i o , se fizesse vadio
f í s i c a o u m e n t a l m e n t e e, afinal, a d q u i r i s s e u m s e n t i -
m e n t o de revulsão c o n t r a a m a t é r i a , e r a ele t i d o c o m o
e m f a l t a. N ã o se e x a m i n a v a se a causa n ã o e s t a r i a n a
m a t é r i a o u n o m o d o p o r q u e e r a m i n i s t r a d a . O p r i n -
c í p i o de i n t e r a ç ã o t o r n a c l a r o q u e t a n t o a f a l t a d e
a d a p t a ç ã o da m a t é r i a às necessidades e c a p a c i d a d e s dos
i n d i v í d u o s, q u a n t o a f a l t a d o i n 9 i v í d u o e m se a d a p -
/
r:_r às mat~ri~ p o d e m i g u a l m e n t ( t o r n a r a e x p e r i ê n c i a
n a o - e d u c a n v a . )
P o r o u t r o l a d o , o - p r i n c í p i o d a c o n t i n u i d a d e , e m
s u a a p l i c a ç ã o à e d u c a ç ã o , i m p o r t a e m q u e o f u t u r o
CRITÉRIOS DE E X P E R I Ê N C I A 41
s e j a l e v a d o e m c o n t a em c a d a fase d o processo e d u - f
c a t i v o . E s s a i d é i a é f a c i l m e n t e m a l c o m p r e e n d i d a
e, n a e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l , s o f r e a p i o r d e f o r m a ç ã o .
A d m i t e - s e q u e , a d q u i r i n d o - s e c e r t a s h a b i l i t a ç õ e s e
a p r e n d e n d o c e r t a s m a t é r i a s , q u e s e r i a m mais t a r d e n e -
cessárias ( t a l v e z n a u n i v e r s i d a d e , o u n a v i d a a d u l t a ) ,
os a l u n o s e s t a r ã o n a t u r a l m e n t e s e n d o p r e p a r a d o s p a r a
as necessidades e c i r c u n s t â n c i a s do f u t u r o . Mas, a i d é i a
de " p r e p a r a ç ã o " é m u i t o t r a i ç o e i r a . E m c e r t o s e n t i d o ,
t o d a e x p e r i ê n c i a d e v e r i a c o n t r i b u i r p a r a o p r e p a r o da
pessoa em e x p e ri ê n c i a s p o s t e r i o r es d e q u a l i d a d e mais
a m p l a ou mais p r o f u n d a . I s t o é o p r ó p r i o s e n t i d o d e
c r e s c i m e n t o , c o n t i n u i d a d e , r e c o n s t r u ç ã o d a e x p e r i ê n -
cia. É u m e r r o , p o r é m , s u p o r q u e a simples a q u i s i ç ã o \
d e c e r t a q u a n t i d a d e d e a r i t m é t i c a , d e g e o g r a f i a o u d e
h i s t ó r i a , e t c. , e s t u d a d a s p o r q u e s e r i a m úteis e m a l g u m
t e m p o n o f u t u r o , t e n h a t a l e f e i t o . C o m o é i g u a l m e n t e
u m e r r o s u p o r - s e q u e a aquisição de c e r t a s h a b i l i d a d e s
e m l e i t u r a e d e s e n h o c o n s t i t u a a u t o m a t i c a m e n t e p r e -
p a r a ç ã o p a r a seu uso c e r t o e e f e t i v o s o b c o n d i ç õ e s
m u i t o d i f e r e n t e s d a q u e l a s e m q u e f o r a m a d q u i r i d a s .
Q u a s e t o d o s n ó s t i v e m o s ocasião de r e c o r d a r o s dias d e
e s c o l a e de p e r g u n t a r : q u e f o i f e i t o dos c o n h e c i m e n t o s
q u e d e v e r í a m o s t e r a c u m u l a d o n a q u e l e s dias e p o r q u e
t i v e m o s de m d o r e a p r e n d e r de f o r m a difereq.te, fossem
t é c n i c a s o u c o n h e c i m e n t o s , p a r a p o d e r m o s t e r nossa
c a p a c i d a d e a t u a l ? E f e l i z a q u e l e q u e não t e v e , p a r a
p o d e r p r o g r e d i r p r o f i s s i o n a l e i n t e l e c t u a l m e n t e , d e
d e s a p re n d e r o q u e veio a a p r e n d e r n a escola. T a i s ·
40 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
j o v e m , ·é q u e a m a t é r i a p o d e v i r a r e v e l a r - s e e d u c a t i v a ,
n ã o h a v e n d o n e n h u m a q u e p o r si m e s m a t e n h a v al o r
e d u c a t i v o i n t r í n s e c o . O f a t o d e não se l e v a r e m c o n t a
a a d a p t a ç ã o às necessidades e c a p a c i d a d e s dos i n d i v í d u o s
foi a f o n t e d a idéia d e q u e c e r t a s m a t é r i a s e c e r t o s
m é t o d o s são i n t r i n s e c a m e n t e c u l t u r a i s o u i n t r í n s e c a -
\
m e n t e b o n s p a r a d i s c i p l i n a m e n t a l . N ã o h á valor e d u -
c a t i v o e m a b s t r a t o . A i d é i a de q u e c e r t a s m a t é r i a s e
m é t o d o s , b e m c o m o o c o n h e c i m e n t o pessoal de c e r -
t o s f a t o s e v e r d a d e s , p o s s u e m t a l v a l o r p o r si e e m si
mesmos, é q u e l e v a a escola t r a d i c i o n a l a r e d u z i r as
m a t é r i a s de ens i n o , d e m o d o g e r a l , a u m a d i e t a d e
m a t é r i a s p r é - d i g e r i d a s . D e a c o r d o c o m essa idéia, e r a
b a s t a n t e r e g u l a r a q u a n t i d a d e e d i f i c u l d a d e das m a t é -
rias o f e r e c i d a s , e m u m e s q u e m a d e d o s a g e n s g r a d a t i -
vas, pelos meses e pelos anos. E v p e r a v a - s e q u e o a l u n o ,
p o r s e u l a d o , t o m a s s e as doses assim p r e s c r i t a s . Se o
a l u n o , e m vez de a c e i t a r o r e m é d i o , se fizesse vadio
f í s i c a o u m e n t a l m e n t e e, afinal, a d q u i r i s s e u m s e n t i -
m e n t o de revulsão c o n t r a a m a t é r i a , e r a ele t i d o c o m o
e m f a l t a. N ã o se e x a m i n a v a se a causa n ã o e s t a r i a n a
m a t é r i a o u n o m o d o p o r q u e e r a m i n i s t r a d a . O p r i n -
c í p i o de i n t e r a ç ã o t o r n a c l a r o q u e t a n t o a f a l t a d e
a d a p t a ç ã o da m a t é r i a às necessidades e c a p a c i d a d e s dos
i n d i v í d u o s, q u a n t o a f a l t a d o i n 9 i v í d u o e m se a d a p -
/
r:_r às mat~ri~ p o d e m i g u a l m e n t ( t o r n a r a e x p e r i ê n c i a
n a o - e d u c a n v a . )
P o r o u t r o l a d o , o - p r i n c í p i o d a c o n t i n u i d a d e , e m
s u a a p l i c a ç ã o à e d u c a ç ã o , i m p o r t a e m q u e o f u t u r o
CRITÉRIOS DE E X P E R I Ê N C I A 41
s e j a l e v a d o e m c o n t a em c a d a fase d o processo e d u - f
c a t i v o . E s s a i d é i a é f a c i l m e n t e m a l c o m p r e e n d i d a
e, n a e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l , s o f r e a p i o r d e f o r m a ç ã o .
A d m i t e - s e q u e , a d q u i r i n d o - s e c e r t a s h a b i l i t a ç õ e s e
a p r e n d e n d o c e r t a s m a t é r i a s , q u e s e r i a m mais t a r d e n e -
cessárias ( t a l v e z n a u n i v e r s i d a d e , o u n a v i d a a d u l t a ) ,
os a l u n o s e s t a r ã o n a t u r a l m e n t e s e n d o p r e p a r a d o s p a r a
as necessidades e c i r c u n s t â n c i a s do f u t u r o . Mas, a i d é i a
de " p r e p a r a ç ã o " é m u i t o t r a i ç o e i r a . E m c e r t o s e n t i d o ,
t o d a e x p e r i ê n c i a d e v e r i a c o n t r i b u i r p a r a o p r e p a r o da
pessoa em e x p e ri ê n c i a s p o s t e r i o r es d e q u a l i d a d e mais
a m p l a ou mais p r o f u n d a . I s t o é o p r ó p r i o s e n t i d o d e
c r e s c i m e n t o , c o n t i n u i d a d e , r e c o n s t r u ç ã o d a e x p e r i ê n -
cia. É u m e r r o , p o r é m , s u p o r q u e a simples a q u i s i ç ã o \
d e c e r t a q u a n t i d a d e d e a r i t m é t i c a , d e g e o g r a f i a o u d e
h i s t ó r i a , e t c . , e s t u d a d a s p o r q u e s e r i a m úteis e m a l g u m
t e m p o n o f u t u r o , t e n h a t a l e f e i t o . C o m o é i g u a l m e n t e
u m e r r o s u p o r - s e q u e a aquisição de c e r t a s h a b i l i d a d e s
e m l e i t u r a e d e s e n h o c o n s t i t u a a u t o m a t i c a m e n t e p r e -
p a r a ç ã o p a r a seu uso c e r t o e e f e t i v o s o b c o n d i ç õ e s
m u i t o d i f e r e n t e s d a q u e l a s e m q u e f o r a m a d q u i r i d a s .
Q u a s e t o d o s n ó s t i v e m o s ocasião de r e c o r d a r o s dias d e
e s c o l a e de p e r g u n t a r : q u e f o i f e i t o dos c o n h e c i m e n t o s
q u e d e v e r í a m o s t e r a c u m u l a d o n a q u e l e s dias e p o r q u e
t i v e m o s de m d o r e a p r e n d e r de f o r m a difereq.te, fossem
t é c n i c a s o u c o n h e c i m e n t o s , p a r a p o d e r m o s t e r nossa
c a p a c i d a d e a t u a l ? E f e l i z a q u e l e q u e não t e v e , p a r a
p o d e r p r o g r e d i r p r o f i s s i o n a l e i n t e l e c t u a l m e n t e , d e
d e s a p re n d e r o q u e veio a a p r e n d e r n a escola. T a i s ·
42 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
questões n ã o p o d e m s e r afastadas dizendo-se q u e as
m a t é r i a s n ã o f o r a m r e a l m e n t e a p r e n d i d a s . T a n t o o f o -
r a m , q u e p e r m i t i r a m , p e l o menos, passar nos exames.
O erro. é que a m a t é r i a em questão foi a p r e n d i d a de
m o d o 1solado, c o m o s e fosse p o s t a e m u m c o m p a r t i -
/
m e n t o f e c h a d o . Q u a n d o se p e r g u n t a o q u e f o i f e i t o
do q u e .se a p r e n d e u , _ a r e s p o s t a c e r t a é que está n o
c o m p a r t i m e n t o e m que f o i o r i g i n a r i a m e n t e e s c o n d i d o .
S e as mesmas c o n d i ç õ e s e m q u e f o i a d q u i r i d o v o l tas-
sem, r e a p a r e c e r i a n o v a m e n t e . O estado d e segregação
e m q u e foi a d q u i r i d o o f e z tão desconexo c o m o r e s -
t a n t e d a e x p e r i ê n c i a , q u e ele n ã o s e a p r e s e n t a d i a n t e
d~ c~ndições reais d a vida. A p r e n d i z a g e m desse t i p o ,
seJa l a qual f o r o g r a u em q u e t i v e r sido, ao t e m p o ,
e~ercitada, n ã o c o n s t i t u i , em face das leis d e e x p e ri ê n-
cia, p r e p a ração g e n u í n a .
Ne~ se ence~ra aí a falha q u a n t o ao que seja
p~e~araç~o. A ma10r t a l v e z de t o d a s as falácias p e d a -
gogicas e a d e q u e se a p r e n d e apenas a c o u s a p a r t i c u l a r
que se está e s t u d a n d o . As a p r e n d i z a g e n s colaterais,
c o m o as d e f o r m a ç ã o d e a t i t u d e s p e r m a n e n t e s de g o s -
t o s e d~sgostos p o d e m ser, muitas vezes, mais i m p o r -
t~nt;s. do que a liç ão d e o r t o g r a f i a ou de geografia, ou
h i s t o n a . Estas são as a t i t u d e s q u e i r ã o c o n t a r f u n d a -
m e n t a l m e n t e n o f u t u r o . A mais i m p o r t a n t e a t i t u d e a
ser f o r m a d a é a do desejo de c o n t i n u a r a a p r e n d e r .
Se o í m p e t o nessa d i r e ç ã o f o r q u e b r a d o e m v e z de
fortal:ci~o, a l g ? ,de mais do q u e simples f a l t a de p r e -
p a r a ç a o e que I r a o c o rr e r . O aluno se v e r á , n a r e a l i -
L
I ~
C R I T E R I O S DE E X P E R I E N C I A 43
dade, r o u b ado de sua cae,acidade i n a t a de a p r e n d e r , I
c a p a c i d a d e q u e o i r i a h a b i l i t a r a v e n c e r as c i r c u n s t ã U :
cias e vicissitudes n a t u r a i s d e su a vida. Q~antas vezes
não vemos pessoas, q u e mal t i v e r a m escola, se a f i r m a -
r e m s u p e r i o r m e n t e ? A f a l t a d e escola, longe d e p r e -
judicá-las, fez-se, talvez, a sua v a n t a g e m . R e t i v eram,
p e l o menos, o b o m senso i n a t o e a capacidade de
j u l g a m e n t o e e x e r c i t a n d o - o s e m reais c o n d i ç õ e s de
vida, a d q u i r i r a m o d o m p r e c i oso d a capacidade de l
a p r e n d e r pela e x p e r i ê n c i a . D e q u e s e r v i r á g a n h a r a
h a b i l i d a d e de l e r e escrever, c o n q u i s t a r c e r t a q u a n t i -
dade d e i n for m a ç ã o p r e s c r i t a de g e o g r a f i a e história,
se, n a l u t a , p e r d e - s e a p r ó p r i a alma, p e r d e - s e a c a p a c i -
dade d e a p r e c i a r a vida, de p e r c e b e r o valor r e l a t i v o
das cousas, p e r d e - s e o desejo d e a p l i c a r o que a p r e n d e u
e se, acima de t u d o , p e r d e - s e a c a p a c i d a d e de r e t i r a r de
suas f u t u r a s e x p e r i ê n c i a s a lição q u e se esconde em
t o d a s e l a s ?
Q u a l , e n t ã õ , o v e r d a d e i r o sen t i d o de p r e p a r a ç ã o
n o q u a d r o d a e d u c a ç ã o ? E m p r i m e i r o lugar, s i g n i f i c a
p o d e r a pessoa, v e l h a o u m o ç a , e x t r a i r d e s u a e x p e -
r i ê n c i a p r esen t e t u d o q u e n e l a h o u v e r p a r a si nes se m o -
m e n t o e m que a t e m . Q u a n d o a i d é i a de p r e p a r a ç ã o se
faz o o b j e t i v o d o m i n a n t e d a a t i v i d a d e , as potencialidades
d o p r e s e n t e são s a c r i f i c a d a s a u m i m a g i n á r i o e s u p o s t o
f u t u r o . E nessa medida, a r e a l o p o r t u n i d a d e de p r e - .
p a r a ç ã o p a r a o f u t u r o vem a se p e r d e r . O ideal d e l
u s a r o p r e s e n t e .simplesm~nte p a r a s e p r e p a r a r p a r a
o f u t u r o contradiZ-se a s1 mesmo. E s q u e c e , s u p r i m e
42 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
questões n ã o p o d e m s e r afastadas dizendo-se q u e as
m a t é r i a s n ã o f o r a m r e a l m e n t e a p r e n d i d a s . T a n t o o f o -
r a m , q u e p e r m i t i r a m , p e l o menos, passar nos exames.
O erro. é que a m a t é r i a em questão foi a p r e n d i d a de
m o d o 1solado, c o m o s e fosse p o s t a e m u m c o m p a r t i -
/
m e n t o f e c h a d o . Q u a n d o se p e r g u n t a o q u e f o i f e i t o
do q u e .se a p r e n d e u , _ a r e s p o s t a c e r t a é que está n o
c o m p a r t i m e n t o e m que f o i o r i g i n a r i a m e n t e e s c o n d i d o .
S e as mesmas c o n d i ç õ e s e m q u e f o i a d q u i r i d o v o l tas-
sem, r e a p a r e c e r i a n o v a m e n t e . O estado d e segregação
e m q u e foi a d q u i r i d o o f e z tão desconexo c o m o r e s -
t a n t e d a e x p e r i ê n c i a , q u e ele n ã o s e a p r e s e n t a d i a n t e
d~ c~ndições reais d a vida. A p r e n d i z a g e m desse t i p o ,
seJa l a qual f o r o g r a u em q u e t i v e r sido, ao t e m p o ,
e~ercitada, n ã o c o n s t i t u i , em face das leis d e e x p e r i ê n-
cia, p r e p a ração g e n u í n a .
Ne~ se ence~ra aí a falha q u a n t o ao que seja
p~e~araç~o. A ma10r t a l v e z de t o d a s as falácias p e d a -
gogicas e a d e q u e se a p r e n d e apenas a c o u s a p a r t i c u l a r
que se está e s t u d a n d o . As a p r e n d i z a g e n s colaterais,
c o m o as d e f o r m a ç ã o d e a t i t u d e s p e r m a n e n t e s de g o s -
t o s e d~sgostos p o d e m ser, muitas vezes, mais i m p o r -
t~nt;s. do que a liç ão d e o r t o g r a f i a ou de geografia, ou
h i s t o n a . Estas são as a t i t u d e s q u e i r ã o c o n t a r f u n d a -
m e n t a l m e n t e n o f u t u r o . A mais i m p o r t a n t e a t i t u d e a
ser f o r m a d a é a do desejo de c o n t i n u a r a a p r e n d e r .
Se o í m p e t o nessa d i r e ç ã o f o r q u e b r a d o e m v e z de
fortal:ci~o, a l g ? ,de mais do q u e simples f a l t a de p r e -
p a r a ç a o e que I r a o c o rr e r . O aluno se v e r á , n a r e a l i -
L
I ~
C R I T E R I O S DE E X P E R I E N C I A 43
dade, r o u b ado de sua cae,acidade i n a t a de a p r e n d e r , I
c a p a c i d a d e q u e o i r i a h a b i l i t a r a v e n c e r as c i r c u n s t ã U :
cias e vicissitudes n a t u r a i s d e su a vida. Q~antas vezes
não vemos pessoas, q u e mal t i v e r a m escola, se a f i r m a -
r e m s u p e r i o r m e n t e ? A f a l t a d e escola, longe d e p r e -
judicá-las, fez-se, talvez, a sua v a n t a g e m . R e t i v eram,
p e l o menos, o b o m senso i n a t o e a capacidade de
j u l g a m e n t o e e x e r c i t a n d o - o s e m reais c o n d i ç õ e s de
vida, a d q u i r i r a m o d o m p r e c i oso d a capacidade de l
a p r e n d e r pela e x p e r i ê n c i a . D e q u e s e r v i r á g a n h a r a
h a b i l i d a d e de l e r e escrever, c o n q u i s t a r c e r t a q u a n t i -
dade d e i n for m a ç ã o p r e s c r i t a de g e o g r a f i a e história,
se, n a l u t a , p e r d e - s e a p r ó p r i a alma, p e r d e - s e a c a p a c i -
dade d e a p r e c i a r a vida, de p e r c e b e r o valor r e l a t i v o
das cousas, p e r d e - s e o desejo d e a p l i c a r o que a p r e n d e u
e se, acima de t u d o , p e r d e - s e a c a p a c i d a d e de r e t i r a r de
suas f u t u r a s e x p e r i ê n c i a s a lição q u e se esconde em
t o d a s e l a s ?
Q u a l , e n t ã õ , o v e r d a d e i r o sen t i d o de p r e p a r a ç ã o
n o q u a d r o d a e d u c a ç ã o ? E m p r i m e i r o lugar, s i g n i f i c a
p o d e r a pessoa, v e l h a o u m o ç a , e x t r a i r d e s u a e x p e -
r i ê n c i a p r esen t e t u d o q u e n e l a h o u v e r p a r a si nes se m o -
m e n t o e m que a t e m . Q u a n d o a i d é i a de p r e p a r a ç ã o se
faz o o b j e t i v o d o m i n a n t e d a a t i v i d a d e , as potencialidades
d o p r e s e n te são s a c r i f i c a d a s a u m i m a g i n á r i o e s u p o s t o
f u t u r o . E nessa medida, a r e a l o p o r t u n i d a d e de p r e - .
p a r a ç ã o p a r a o f u t u r o vem a se p e r d e r . O ideal d e l
u s a r o p r e s e n t e .simplesm~nte p a r a s e p r e p a r a r p a r a
o f u t u r o contradiZ-se a s1 mesmo. E s q u e c e , s u p r i m e
4 4 E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
m e s m o, as p r ó p r i a s c o n d i ç õ e s p e l a s q uais u m a pessoa
se p rep a r a p a r a s e u f u t u r o . V i v e m o s s e m pr e n o
t e m p o e m q u e estamos e não e m u m o u t r o t e m p o ,
e s ó q u a n d o e x t r a í m o s e m c a d a ocasião, de ca da
p r e s e n t e e x p e r i ê n c i a , t o d o o seu s e n t i d o , é q u e nos
p r e p a n mos p a_r a f a z e r o mesmo n o f u t u r o . E s t a é a
ú n i c a p r e p aração q u e , ao l o n g o da v i d a , r e a l m e n t e c o n t a.
T u d o ist o s i g n i f i c a q u e se d e v e r o d e a r d o mais
d e s v e l a d o c u i d a d o as c o n d i ç õ e s q u e dão à e x p e r i ê n-
c i a p r e s e n t e o s e u s e n t i d o c o n s t r u t i v o . E m vez d e
j u l g a r -se q u e n ã o f a z m u i t a d i f e r e n ç a o q u e seja a
ex p e r i ê n c i a p r e s e n t e , c o n t a n t o q u e s e j a a g r a d á v e l , é
exa.tamente o c o n t r á r i o d o q u e se de ve p e n s a r. E s t e é
ma1s u m .p o n t o e m q u e é f á c i l pas sa r de u m e x t r e m o
a o u t r o . C q m o a e s c o l a t r a d i c i o n a l h a b i t u o u - s e a
s a c ri f i c a r o p re s e n t e a u m f u t u r o r e m o t o e, mais o u
m e n o s d e s c o n h e c i d o , a c r e d i t a - s e q u e o e d u c a d o r p o d e
e s q u e c e r a sua r e s p on s a b i l i d a d e q u a n t o à s i g n i f i c a ç ã o
p a r a o f u t u r o da s e x p e ri ên c i as p r e s e n t e s d o j o v e m .
M a s a r e l a ç ã o e n t r e o p r e s e n t e e o f u t u r o não é u m a
q u e s t ã o de u m o u o u t r o e x t r e m o . O p r e s e n t e a f e t a ·
s e m p r e, de q u a l q u e r m o d o , o f u t u r o . As pessoas c a p a -
zes de p e r c e b e r a c o n e x ã o n ã o são os j o v e n s mas os
q u e já a d q u i r i r a m m a t u r i d a d e . P o r c o n s e g u i n t e , s o b r e
eles r e c a i a r e s p o n s a b i l i d a d e p o r e s t a b e l e c e r as c o n -
d i ç õ es a d e q u a d a s ao t i p o d e e x p e r i ê n c i a s p r es e n te s
I c a p a z e s de t e r e f e i t o f a v o r á v el s o b r e o f u t u r o . E d u -c a ç ã o c o m o c r e s c i m e n t e o u c o n q u i s t a d a m a t u r i d a d e o;. d e v e s e r u m p r o c e s s o c o n t í n u o e s e m p r e p r e s e n t e .
L
I V
A U T O R I D A D E E C O N T R O L E S O C I A L
A t é aqUl a c e n t u e i q u e p l a n o s e p r o j e t o s e d u c a t i -
vos, f u n d a d o s c m e x p e r i ê n c i a s de vida, , s o m e n t e s e r ã o
viáveis se p u d er m os f o r m u l a r e ad ora r u m a t e o r i a
i n t c f i g e n t e o u , se me p er m i t e m , u m a f i l o s o f i a de ex p e -
r i ê n c i a .
D e o u t r o m o d o , a q u e l e s p l a n o s esta r ão à m e r c ê
de q u a l q u e r b r i s a i n te l e c t u a l q u e vie r a s o p r a r . P r o -
c u r e i i l u s t r a r a n e c e s s i d a d e de t a l t e o r i a , c h a m a n d o a
a t e n ç ã o p a r a dois p r i n c í p i o s f u n d a m e n t a is n a c o n s t i -
t u i ç ã o d o f e n ô m e n o expe r i ência: o de i n t er a ç ã o e o
d e c o n t i n u i d a d e . Se fui o b r i g a d o a me e s t e n d e r , t a l v e z
dema s i a d a m e n t e , n a exposição d e as p e c t o s abst r a t o s
dessa filosofia, d e v e - s e is t o a esta r c o n v e n c i do de q u e
as t e n t a t ivas p r á t i c a s de d e s e n v o l v e r es colas, baseadas n a
idéia de e d u c a ç ã o c o m o e x p e r i ê n c i a , s o m e n t e e s c a p a -
r ã o a c o n t r a d i ções . e co n f u s.ões, se f o r e m guiadas p o r
u m a ·c l a r a c o n c ei t u a ç ão d o que é e x p e r i ê n c i a e d e
c o m o se d i s t i n g u e a ex p e r i ê n c i a e d u c a t i v a d a e x p e r i ê n -
cia n ã o - e d u c a t i v a e, m es mo, d e s e d u c a t i v a . C h ego a g o r a ,
e m nossa discu ssão , ao exa me de p r o b l e m a s p r e s e n t e s
4 4 E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
m e s m o, as p r ó p r i a s c o n d i ç õ e s p e l a s q uais u m a pessoa
se p rep a r a p a r a s e u f u t u r o . V i v e m o s s e m pr e n o
t e m p o e m q u e estamos e não e m u m o u t r o t e m p o ,
e s ó q u a n d o e x t r a í m o s e m c a d a ocasião, de ca da
p r e s e n t e e x p e r i ê n c i a , t o d o o seu s e n t i d o , é q u e nos
p r e p a n mos p a_r a f a z e r o mesmo n o f u t u r o . E s t a é a
ú n i c a p r e p aração q u e , ao l o n g o da v i d a , r e a l m e n t e c o n t a.
T u d o ist o s i g n i f i c a q u e se d e v e r o d e a r d o mais
d e s v e l a d o c u i d a d o as c o n d i ç õ e s q u e dão à e x p e r i ê n-
c i a p r e s e n t e o s e u s e n t i d o c o n s t r u t i v o . E m vez d e
j u l g a r -se q u e n ã o f a z m u i t a d i f e r e n ç a o q u e seja a
ex p e r i ê n c i a p r e s e n t e , c o n t a n t o q u e s e j a a g r a d á v e l , é
exa.tamente o c o n t r á r i o d o q u e se de ve p e n s a r. E s t e é
ma1s u m .p o n t o e m q u e é f á c i l pas sa r de u m e x t r e m o
a o u t r o . C q m o a e s c o l a t r a d i c i o n a l h a b i t u o u - s e a
s a c ri f i c a r o p re s e n t e a u m f u t u r o r e m o t o e, mais o u
m e n o s d e s c o n h e c i d o , a c r e d i t a - s e q u e o e d u c a d o r p o d e
e s q u e c e r a sua r e s p on s a b i l i d a d e q u a n t o à s i g n i f i c a ç ã o
p a r a o f u t u r o da s e x p e ri ên c i as p r e s e n t e s d o j o v e m .
M a s a r e l a ç ã o e n t r e o p r e s e n t e e o f u t u r o não é u m a
q u e s t ã o de u m o u o u t r o e x t r e m o . O p r e s e n t e a f e t a ·
s e m p r e, de q u a l q u e r m o d o , o f u t u r o . As pessoas c a p a -
zes de p e r c e b e r a c o n e x ã o n ã o são os j o v e n s mas os
q u e já a d q u i r i r a m m a t u r i d a d e . P o r c o n s e g u i n t e , s o b r e
eles r e c a i a r e s p o n s a b i l i d a d e p o r e s t a b e l e c e r as c o n -
d i ç õ es a d e q u a d a s ao t i p o d e e x p e r i ê n c i a s p r es e n te s
I c a p a z e s de t e r e f e i t o f a v o r á v el s o b r e o f u t u r o . E d u -c a ç ã o c o m o c r e s c i m e n t e o u c o n q u i s t a d a m a t u r i d a d e o;. d e v e s e r u m p r o c e s s o c o n t í n u o e s e m p r e p r e s e n t e .
L
I V
A U T O R I D A D E E C O N T R O L E S O C I A L
A t é aqUl a c e n t u e i q u e p l a n o s e p r o j e t o s e d u c a t i -
vos, f u n d a d o s c m e x p e r i ê n c i a s de vida, , s o m e n t e s e r ã o
viáveis se p u d er m os f o r m u l a r e ad ora r u m a t e o r i a
i n t c f i g e n t e o u , se me p er m i t e m , u m a f i l o s o f i a de ex p e -
r i ê n c i a .
D e o u t r o m o d o , a q u e l e s p l a n o s esta r ão à m e r c ê
de q u al q u e r b r i s a i n te l e c t u a l q u e vie r a s o p r a r . P r o -
c u r e i i l u s t r a r a n e c e s s i d a d e de t a l t e o r i a , c h a m a n d o a
a t e n ç ã o p a r a dois p r i n c í p i o s f u n d a m e n t a is n a c o n s t i -
t u i ç ã o d o f e n ô m e n o expe r i ência: o de i n t er a ç ã o e o
d e c o n t i n u i d a d e . Se fui o b r i g a d o a me e s t e n d e r , t a l v e z
dema s i a d a m e n t e , n a exposição d e as p e c t o s abst r a t o s
dessa filosofia, d e v e - s e is t o a esta r c o n v e n c i do de q u e
as t e n t a t ivas p r á t i c a s de d e s e n v o l v e r es colas, baseadas n a
idéia de e d u c a ç ã o c o m o e x p e r i ê n c i a , s o m e n t e e s c a p a -
r ã o a c o n t r a d i ções . e co n f u s.ões, se f o r e m guiadas p o r
u m a ·c l a r a c o n c ei t u a ç ão d o que é e x p e r i ê n c i a e d e
c o m o se d i s t i n g u e a ex p e r i ê n c i a e d u c a t i v a d a e x p e r i ê n -
cia n ã o - e d u c a t i v a e, m es mo, d e s e d u c a t i v a . C h ego a g o r a ,
e m nossa discu ssão , ao exa me de p r o b l e m a s p r e s e n t e s
4 6 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
de e d u c a ç ã o , q u e espero nos p r o p o r c i o n e m a t é r i a e
t ó p i c o s b e m mais c o n c r e t o s do q u e os q u e n o s vieram
o c u p a n d o .
Os dois p r i n c í p i o s de c o n t i n u i d a d e e i n t e r a ç ã o ,
c o m o c r i t é r i o s de v a l o r p a r a j u l g a r a experiência, t ê m
t a l conexão e n t r e si, q u e não é fácil i n d i c a r qual p r o -
b l e m a de educação devemos examinar p r i m e i r o . A
p r ó p r i a divisão, sem d ú v i d a útil, em problemas de
matérias o u estudos e p r o b l e m a s de m é t o d o s de ensino
e de aprendizagem não o f e r e c e c r i t é r i o s e g u r o para a
escolha e o r g a n i z a ç ã o adequada de t ó p i c o s p a r a a
discussão. Somos, assim, f o r ç a d o s a u m a s e q ü ê n c i a u m
t a n t o a r b i t r á r i a de p o n t o s p a r a o nosso exame. Come-
çaremos, e n t r e t a n t o , c o m a velha questão de l i b e r d a d e
i n d i v i d u a l e c o n t r o l e social, de l i b e r d a d e e a u t o r i d a d e ,
e d a í passaremos às questões que b r o t a m n a t u r a l m e n t e
desse prol5le'ilm; p o r c e r t o , f u n d a m e n t a l .
N o exame de questões de educação é f r e q ü e n t e -
m e n t e p r o v e i t o s o i g n o r a r - s e t e m p o r a r i a m e n t e a escola
e v o l t a r o pensamento de i n í c i o p a r a o u t r a s situações
h.umanas mais gerais. N o nosso caso, pensemos n o
ctdadã~ c o m u m . C r e i o q u e n i n g u é m negará, c o m o
situação de fato, achar-se ele s u j e i t o a u m a b o a medida
de c o n t r o l e social, que, e m g r a n d e p a r t e , n ã o s e n t e
l i m i t a r a sua l i b e r d a d e pessoal. Mesmo o ~
t e ó r i c o , c u j a filosofia se f u n d a na idé ia de q u; -o c o n-:-'
t r o l e d o E s t a d o o u d o g o v e r n o é u m mal sem r e m é d i o ,
a c r e d i t a que, c o m a abolição ·d o E s t a d o , passarão a o p e -
r a r o u t r a s formas de c o n t r o l e social: na realidade sua
A U T O R I D A D E E C O N T R O L E S O C I A L 4 7
o p o s i ç ã ? à r e g u l a m e n t a ç ã o de g o v e r n o nasce, exata-
m e n t e , de sua c r e n ç a e m · modos o u t r o s mais normais
de c o n t r o l e .
Sem c o n s i d e r a r essa posição e x t i e m a , · tomemos
alguns exemplos de c o n t r o l e social q u e o p e r a m e m
nossa v i d a q u o t i d i a n a e vejamos o p r i n c í p i o q u e os
f u n d a m e n t a . Comecemos c o m os p r ó p r i o s jovens e
mesmo as crianças. T o d o s eles, n o r e c reio o u depois da
escola, organizam seus jogos, d o c h i c o t i n h o queimado
a t é o_Lutebol. O r a , jogos e n v o lvem r e g r a s e r e g r a s
o r d e n a m o seu ç o m p o r t a m e n t o . J o g o s não são átivi -
dades ao acaso, n e m u m a série de improvisações. Se~
regras, n ã o h á jogo. Se surgem disputas, há o juiz par~
q u e m se apelar, o u se discut e e alguma espécie de
a r b i t r a g e m leva à decisão, de o u t r o m o d o o j o g o acaba.
H á em tais si~uações p e r f e i t o s .aspectos de c o n - \1
t r o l e p a r a q u e deseJo c h a m a r a atenção. P r i m e i r o , . as V @
r e g r a s são p a r t e do j o g o , n ã o v ê m d e fora: i n t e g r a m
o j o g o ; m u d a n d o as regras, t e m o s"' j o go d i f e r e n t e . Se
o jogo p r o c e d e n o r m a l m e n t e , os jogadores n ã o sente~
e s t a r s u b m e t i d o s à imposição d e c o n t r o l e e x t e r n o . E m
s e g u n d o l u g a r , u m j o g a d o r p o d e , · l á n u m m o m e n t o , ((<)
a c h a r q u e a decisão n ã o foi j u s t a e a t é zangar-se. Sua
o b j e ç ã o não é, c o n t u d o , à r e g r a mas ao que j u l g a h a v e r
s i d o violação d a r e g r a , o u alguma ação parcial o u i n j u s -
ta. E m t e r c e i r o l u gar, há r e g r a s e, p o r t a n t o , a o r g a n i - Jf 3)
zação d o j o g o é a p r e c i a v e l m e n t e estandardizada. H á \ \ . : : /
m é t o d ? s r e c o n h e c i d o s de c o n t a g e m d o s p o n t o s , de s e -
leção dos lados, de posições a t o m a r , etc. Esses m é -
4 6 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
de e d u c a ç ã o , q u e espero nos p r o p o r c i o n e m a t é r i a e
t ó p i c o s b e m mais c o n c r e t o s do q u e os q u e n o s vieram
o c u p a n d o .
Os dois p r i n c í p i o s de c o n t i n u i d a d e e i n t e r a ç ã o ,
c o m o c r i t é r i o s de v a l o r p a r a j u l g a r a experiência, t ê m
t a l conexão e n t r e si, q u e não é fácil i n d i c a r qual p r o -
b l e m a de educação devemos examinar p r i m e i r o . A
p r ó p r i a divisão, sem d ú v i d a útil, em problemas de
matérias o u estudos e p r o b l e m a s de m é t o d o s de ensino
e de aprendizagem não o f e r e c e c r i t é r i o s e g u r o para a
escolha e o r g a n i z a ç ã o adequada de t ó p i c o s p a r a a
discussão. Somos, assim, f o r ç a d o s a u m a s e q ü ê n c i a u m
t a n t o a r b i t r á r i a de p o n t o s p a r a o nosso exame. Come-
çaremos, e n t r e t a n t o , c o m a velha questão de l i b e r d a d e
i n d i v i d u a l e c o n t r o l e social, de l i b e r d a d e e a u t o r i d a d e ,
e d a í passaremos às questões que b r o t a m n a t u r a l m e n t e
desse prol5le'ilm; p o r c e r t o , f u n d a m e n t a l .
N o exame de questões de educação é f r e q ü e n t e -
m e n t e p r o v e i t o s o i g n o r a r - s e t e m p o r a r i a m e n t e a escola
e v o l t a r o pensamento de i n í c i o p a r a o u t r a s situações
h.umanas mais gerais. N o nosso caso, pensemos n o
ctdadã~ c o m u m . C r e i o q u e n i n g u é m negará, c o m o
situação de fato, achar-se ele s u j e i t o a u m a b o a medida
de c o n t r o l e social, que, e m g r a n d e p a r t e , n ã o s e n t e
l i m i t a r a sua l i b e r d a d e pessoal. Mesmo o ~
t e ó r i c o , c u j a filosofia se f u n d a na idé ia de q u; -o c o n-:-'
t r o l e d o E s t a d o o u d o g o v e r n o é u m mal sem r e m é d i o ,
a c r e d i t a que, c o m a abolição ·d o E s t a d o , passarão a o p e -
r a r o u t ra s formas de c o n t r o l e social: na realidade sua
A U T O R I D A D E E C O N T R O L E S O C I A L 4 7
o p o s i ç ã ? à r e g u l a m e n t a ç ã o de g o v e r n o nasce, exata-
m e n t e , de sua c r e n ç a e m · modos o u t r o s mais normais
de c o n t r o l e .
Sem c o n s i d e r a r essa posição e x t i e m a , · tomemos
alguns exemplos de c o n t r o l e social q u e o p e r a m e m
nossa v i d a q u o t i d i a n a e vejamos o p r i n c í p i o q u e os
f u n d a m e n t a . Comecemos c o m os p r ó p r i o s jovens e
mesmo as crianças. T o d o s eles, n o r e c reio o u depois da
escola, organizam seus jogos, d o c h i c o t i n h o queimado
a t é o_Lutebol. O r a , jogos e n v o lvem r e g r a s e r e g r a s
o r d e n a m o seu ç o m p o r t a m e n t o . J o g o s não são átivi -
dades ao acaso, n e m u m a série de improvisações. Se~
regras, n ã o h á jogo. Se surgem disputas, há o juiz par~
q u e m se apelar, o u se discut e e alguma espécie de
a r b i t r a g e m leva à decisão, de o u t r o m o d o o j o g o acaba.
H á em tais si~uações p e r f e i t o s .aspectos de c o n - \1
t r o l e p a r a q u e deseJo c h a m a r a atenção. P r i m e i r o , . as V @
r e g r a s são p a r t e do j o g o , n ã o v ê m d e fora: i n t e g r a m
o j o g o ; m u d a n d o as regras, t e m o s"' j o go d i f e r e n t e . Se
o jogo p r o c e d e n o r m a l m e n t e , os jogadores n ã o sente~
e s t a r s u b m e t i d o s à imposição d e c o n t r o l e e x t e r n o . E m
s e g u n d o l u g a r , u m j o g a d o r p o d e , · l á n u m m o m e n t o , ((<)
a c h a r q u e a decisão n ã o foi j u s t a e a t é zangar-se. Sua
o b j e ç ã o não é, c o n t u d o , à r e g r a mas ao que j u l g a h a v e r
s i d o violação d a r e g r a , o u alguma ação parcial o u i n j u s -
ta. E m t e r c e i r o l u gar, há r e g r a s e, p o r t a n t o , a o r g a n i - Jf 3)
zação d o j o g o é a p r e c i a v e l m e n t e estandardizada. H á \ \ . : : /
m é t o d ? s r e c o n h e c i d o s de c o n t a g e m d o s p o n t o s , de s e -
leção dos lados, de posições a t o m a r , etc. Esses m é -
48 EXPERIÊNCIA E ~DUCAÇÃO
todos têm· a. sanção da tradição e do precedente. Os
jogadores já vira~, ·talvez, partidas profissionais e de-
sejam emular e competir com esses jogad_ores mais
velhos. O elemento convencional é dos mais fortes.
Geralmente, esses jovens só mudam as regras do jogo
quando os próprios adultos, que são seus modelos, já
fizeram essas mudanças. E tais mudanças geralmente
são feitas para tornar o jogo mais técnico ou difícil, ou
para interessar mais aos espectadores.
Daí, a conclusão geral a que teria de chegar: o
controle das ações individuais é efetuado pela situação
global em que os indivíduos se acham envolvidos e em
que participam e atuam como partes componentes e
~oopérativas. .Mesmo no jogo competitivo há partici-
1
pação, no sentido de partilharem ambas as partes e:.:pe-
riência cm comum. Se olharmos a situação pelo lado do
· indivíduo, nota-se que não se sente ele SUJeito à von-
tade de nenhum superior. Se disputas violentas podem
surgir e surgem, o fato, ordinariamente, se dá na base
de alegações de que o juiz ou alguma pessoa do outro
lado está sendo injusta; em outras palavras, na base
de que alguém está procurando impor a sua vontade
c;obre outrem.
Parecerá, talvez, excessivo tirar d~ste caso único
do jogo a ilustração para o princípio geral do contro-
le dos indivíduos . sem violação da liberdade. .Mas se
apreciarmos outros casos, veremos que se justifica a
generalização com este~ só exemplo. Os jogos são em
geral competitivos. No caso de atividades cooperati-
49
vas em que todos os membros do grupo participam,
como se pode exemplificar com a vida de uma família
bem ordenada, em que haja confiança mútua, o ponto
se torna até mais claro. Não é a vontade ou o desejo
de uma pesso~ que estabelece a ordem, mas o espírito
dominante em todo o grupo. O controle é social, mas
os indivíduos são partes do grupo e não eiementos
fora da comunidade.
' Não quero dizer com isto que não haja ocasiões
em que a autoridáde, digamos do. pai, não tenha que
intervir e exercer controle direto. Tais casos são, po-
rém, em primeiro lugar poucos, se comparados com
o número de ocasiões em que o controle se exerce
normalmente · pela situação em que as partes estão
envolvidas. .Mais importante ainda do que isto, é o
fato de a autoridade não se exercer, no caso de uma
família de vida ordenada ou de outro grupo comuni-
tário, pela manifestação de simples vontade pessoal; o
pai ou professor a exerce como representante e agente
dos interesSes do grupo como um todo. Na escola \
bem organizada, o controle do indivíduo repousa do-
. minantemente nas atividades em curso e nas situações
criadas para que elas transcorram normal e frutuosa-
mente. O professor reduz ao mínimo as ocasiões em
que tenha de exercer autoridade pessoal. Quando se
faz necessário ·falar e agir firmemente, fá-lo no inte-
resse do grupo e não como exibição de poder pessoal.
Aí está toda a diferença entre ação arbitrária e ação
justa e leal.
48 EXPERIÊNCIA E ~DUCAÇÃO
todos têm· a. sanção da tradição e do precedente. Os
jogadores já vira~, ·talvez, partidas profissionais e de-
sejam emular e competir com esses jogad_ores mais
velhos. O elemento convencional é dos mais fortes.
Geralmente, esses jovens só mudam as regras do jogo
quando os próprios adultos, que são seus modelos, já
fizeram essas mudanças. E tais mudanças geralmente
são feitas para tornar o jogo mais técnico ou difícil, ou
para interessar mais aos espectadores.
Daí, a conclusão geral a que teria de chegar: o
controle das ações individuais é efetuado pela situação
global em que os indivíduos se acham envolvidos e em
que participam e atuam como partes componentes e
~oopérativas. .Mesmo no jogo competitivo há partici-
1
pação, no sentido de partilharem ambas as partes e:.:pe-
riência cm comum. Se olharmos a situação pelo lado do
· indivíduo, nota-se que não se sente ele SUJeito à von-
tade de nenhum superior. Se disputas violentas podem
surgir e surgem, o fato, ordinariamente, se dá na base
de alegações de que o juiz ou alguma pessoa do outro
lado está sendo injusta; em outras palavras, na base
de que alguém está procurando impor a sua vontade
c;obre outrem.
Parecerá, talvez, excessivo tirar d~ste caso único
do jogo a ilustração para o princípio geral do contro-
le dos indivíduos . sem violação da liberdade. .Mas se
apreciarmos outros casos, veremos que se justifica a
generalização com este~ só exemplo. Os jogos são em
geral competitivos. No caso de atividades cooperati-
49
vas em que todos os membros do grupo participam,
como se pode exemplificar com a vida de uma família
bem ordenada, em que haja confiança mútua, o ponto
se torna até mais claro. Não é a vontade ou o desejo
de uma pesso~ que estabelece a ordem, mas o espírito
dominante em todo o grupo. O controle é social, mas
os indivíduos são partes do grupo e não eiementos
fora da comunidade.
' Não quero dizer com isto que não haja ocasiões
em que a autoridáde, digamos do. pai, não tenha que
intervir e exercer controle direto. Tais casos são, po-
rém, em primeiro lugar poucos, se comparados com
o número de ocasiões em que o controle se exerce
normalmente · pela situação em que as partes estão
envolvidas. .Mais importante ainda do que isto, é o
fato de a autoridade não se exercer, no caso de uma
família de vida ordenada ou de outro grupo comuni-
tário, pela manifestação de simplesvontade pessoal; o
pai ou professor a exerce como representante e agente
dos interesSes do grupo como um todo. Na escola \
bem organizada, o controle do indivíduo repousa do-
. minantemente nas atividades em curso e nas situações
criadas para que elas transcorram normal e frutuosa-
mente. O professor reduz ao mínimo as ocasiões em
que tenha de exercer autoridade pessoal. Quando se
faz necessário ·falar e agir firmemente, fá-lo no inte-
resse do grupo e não como exibição de poder pessoal.
Aí está toda a diferença entre ação arbitrária e ação
justa e leal.
5 0 E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
P a r a s e s e n t i r e s t a d i f e r e n ç a , n ã o é n e c e s s á r i o q u e
ela s e f a ç a e x p l í c i t a e m p a l a v r a s , s e j a p e l o p r o f e s s o r
o u p e l o a l u n o . É p e q u e n o o n ú m e r o d e c r i a n ç a s q u e
n ã o s e n t e m ( a i n d a q u e n ã o a p o s s a m a r t i c u l a r e r e d u -
z i - l a a u m p r i n c í p i o i n t e l e c t u a l ) a d i f e r e n ç a e n t r e a ç ã o
m o t i v a d a p o r e x p r e s s ã o d e p o d e r p e s s o a l e d e s e j o d e
d i t a r e i m p o r e a a ç ã o j u s t a , i s t o é , m o t i v a d a p e l o
i n t e r e s s e d e t o d o s . D i r ei m e s m o q u e , d e m o d o g e r a l ,
as c r i a n ç a s são m a i s s e n s í v e i s aos s i n a i s e s i n t o m a s d e s s a
d i f e r e n ç a d o q u e os a d u l t o s . A p r e n d e m a d i f e r e n ç a
b r i n c a n d o u m a s c o m as o u t r a s . O r d i n a r i a m e n t e s ã o
r e c e p t i v a s , d e m a s i a d o r e c e p t i v a s t a l v e z às s u g e s t õ e s d e
o u t r a c r i a n ç a e p r o n t a s p a r a d a r - l h e a f u n ç ã o d e l í d e r ,
se a s u a c o n d u t a a u m e n t a o v a l o r d a e x p e r i ê n c i a e m
q u e s e s e n t e m e n v o l v i d a s . M a s r e s s e n t e m a t e n t a t i v a
d e i m p o s i ç ã o . H a b i t u a l m e n t e , a b a n d o n a m a a t i v i d a d e
e s e l h e s p e r g u n t a m o s o m o t i v o , r e s p o n d e m q u e f u l a n o
é m u i t o " m a n d ã o " !
N ã o d e s e j o m e r e f e r i r à e s c o l a t r a d i c i o n a l d e
m o d o a t r a ç a r - l h e a c a r i c a t u r a e n ã o o r e t r a t o . M a s
j u l g o d e j u s t i ç a d i z e r q u e o f a t o d a a u t o r i d a d e p e s s o a l
d o p r o f e s s o r t e r n e l a p a p e l t ã o d e s p r o p o s i t a d o e o d e
s e r a o r d e m r e i n a n t e d e p u r a o b e d i ê n c i a à v o n t a d e d o
a d u l t o - f o r a m r e s u l t a d o s d e s i t u a ç ã o p o r assim
d i z e r imposta a o p r o f e s s o r . A e s c o l a n ã o c o n s t i t u í a
g r u p o o u c o m u n i d a d e m a n t i d a u n i d a p e l a p a r t i c i p a ç ã o
e m a t i v i d a d e s c o m u n s . F a l t a v a m , ·assim, as c o n d i ç õ e s
p r ó p r i a s p a r a s e o p e r a r . o c o n t r o l e n o r m a l . A a u s ê n c i a
dessas c o n d i ç õ e s e r a s u p r i d a - t i n h a , e m g r a n d e p a r t e ,
AUTORIDADE E C O N T R O L E SOCIAL 51
d e o s e r - p e l a i n t e r v e n ç ã o d i r e t a e c o n s t a n t e d o p r o -
f e s s o r , q u e , c o m o se d i z i a , " m a n t i n h a a o r d e m " . M a n -
t i n h a - a , p o r q u e a o r d e m e s t a v a s o b s u a g u a r d a , e m v e z
d e r e s u l t a r d o t r a b a l h o p a r t i l h a d o p o r t o d o s .
T e m os, p o r t a n t o , q u e c o n c l u i r q u e n a s c h a m a d a s
e s c o l a s n o v a s , a f o n t e p r i m á r i a d e c o n t r o l e s o c i a l e s t á
n a p r ó p r i a n a t u r e z a d o t r a b a l h o o r g a n i z a d o c o m o u m
c o m e t i m e n t o s o c i a l , e m q u e t o d o s o s i n d i v í d u o s t ê m
o p o r t u n i d a d e d e c o n t r i b u i r e p e l o q u a l t o d o s se s e n -
t e m r e s p o n s á v e i s . A m a i o r p a r t e d a s c r i a n ç a s s ã o n a t u -
. r a l m e n t e " s o c i á v e i s " . I s o l a m e n t o e s o l i d ã o a s a f l i g e m
a i n d a m a i s q u e a adulto~. U m a Yida c o m u n i t á r i a g e -
n u í n a t e m s u a b a s e n e s s a s o c i a b i l i d a d e . M a s a v i d a
c o m u n i t á r i a n ã o se o r g a n i z a p o r s i m e s m a , e s p o n t a n e a -
m e n t e . R e q u e r p e n s a m e n t o e e s p í r i t o d e p l a n e j a m e n t o .
O e d u c a d o r é r e s p o n s á v e l p e l o c o n h e c i m e n t o satisf~
t ó r i o d o s i n d i v í d u o s e d a s m a t é r i a s , <:onhecimeJ:!!:o q};le
i ; [ h a b i t u á - l o a e s c o l h e r as a t i v i d a d e s s u s c e t í v e i s d e
p r o d u z i r a o r g a n i z a ç ã o s o c i a l , e m q u e t o d o s os i n d i -
v í d u o s t e n h a m o p o r t u n i d a d e d e a l g o c o n t r i b u i r - e e m
q u e o p r i n c i p a l e l e m e n t o d e _c_gntrol~ e s t e j a n a s_ p r 6 -
p r i a s a t i v i d a d e s p o r t o d o s p a r t i l h a d a s .
N ã o s o u t ã o r o m â n t i c o a r e s p e i t o d a i n f â n c i a e
d a j u v e n t u d e p a r a s u p o r q u e c a d a a l u n o r e s p o n d e r á
a d e q u a d a m e n t e à s i t u a ç ã o , o u q u e a l g u m a c r i a n ç a n o r -
m a l m e n t e d e f o r t e s i m p u l s o s a s s i m r e s p o n d e r á s e m p r e
e e m t o d a s o c a s i õ e s . H a v e r á , p r o v a v e l m e n t e , a l g u n s
q u e j á c h e g a m à e s c o l a v í t i m a s d e c o n d i ç õ e s i n j u r i o s a s
f o r a d e l a , a s q u a i s o s f i z e r a m t ã o passivos e i n d e -
5 0 E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
P a r a s e s e n t i r e s t a d i f e r e n ç a , n ã o é n e c e s s á r i o q u e
ela s e f a ç a e x p l í c i t a e m p a l a v r a s , s e j a p e l o p r o f e s s o r
o u p e l o a l u n o . É p e q u e n o o n ú m e r o d e c r i a n ç a s q u e
n ã o s e n t e m ( a i n d a q u e n ã o a p o s s a m a r t i c u l a r e r e d u -
z i - l a a u m p r i n c í p i o i n t e l e c t u a l ) a d i f e r e n ç a e n t r e a ç ã o
m o t i v a d a p o r e x p r e s s ã o d e p o d e r p e s s o a l e d e s e j o d e
d i t a r e i m p o r e a a ç ã o j u s t a , i s t o é , m o t i v a d a p e l o
i n t e r e s s e d e t o d o s . D i r ei m e s m o q u e , d e m o d o g e r a l ,
as c r i a n ç a s são m a i s s e n s í v e i s aos s i n a i s e s i n t o m a s d e s s a
d i f e r e n ç a d o q u e os a d u l t o s . A p r e n d e m a d i f e r e n ç a
b r i n c a n d o u m a s c o m as o u t r a s . O r d i n a r i a m e n t e s ã o
r e c e p t i v a s , d e m a s i a d o r e c e p t i v a s t a l v e z às s u g e s t õ e s d e
o u t r a c r i a n ç a e p r o n t a s p a r a d a r - l h e a f u n ç ã o d e l í d e r ,
se a s u a c o n d u t a a u m e n t a o v a l o r d a e x p e r i ê n c i a e m
q u e s e s e n t e m e n v o l v i d a s . M a s r e s s e n t e m a t e n t a t i v a
d e i m p o s i ç ã o . H a b i t u a l m e n t e , a b a n d o n a m a a t i v i d a d e
e s e l h e s p e r g u n t a m o s o m o t i v o , r e s p o n d e m q u e f u l a n o
é m u i t o " m a n d ã o " !
N ã o d e s e j o m e r e f e r i r àe s c o l a t r a d i c i o n a l d e
m o d o a t r a ç a r - l h e a c a r i c a t u r a e n ã o o r e t r a t o . M a s
j u l g o d e j u s t i ç a d i z e r q u e o f a t o d a a u t o r i d a d e p e s s o a l
d o p r o f e s s o r t e r n e l a p a p e l t ã o d e s p r o p o s i t a d o e o d e
s e r a o r d e m r e i n a n t e d e p u r a o b e d i ê n c i a à v o n t a d e d o
a d u l t o - f o r a m r e s u l t a d o s d e s i t u a ç ã o p o r assim
d i z e r imposta a o p r o f e s s o r . A e s c o l a n ã o c o n s t i t u í a
g r u p o o u c o m u n i d a d e m a n t i d a u n i d a p e l a p a r t i c i p a ç ã o
e m a t i v i d a d e s c o m u n s . F a l t a v a m , ·assim, as c o n d i ç õ e s
p r ó p r i a s p a r a s e o p e r a r . o c o n t r o l e n o r m a l . A a u s ê n c i a
dessas c o n d i ç õ e s e r a s u p r i d a - t i n h a , e m g r a n d e p a r t e ,
AUTORIDADE E C O N T R O L E SOCIAL 51
d e o s e r - p e l a i n t e r v e n ç ã o d i r e t a e c o n s t a n t e d o p r o -
f e s s o r , q u e , c o m o se d i z i a , " m a n t i n h a a o r d e m " . M a n -
t i n h a - a , p o r q u e a o r d e m e s t a v a s o b s u a g u a r d a , e m v e z
d e r e s u l t a r d o t r a b a l h o p a r t i l h a d o p o r t o d o s .
T e m os, p o r t a n t o , q u e c o n c l u i r q u e n a s c h a m a d a s
e s c o l a s n o v a s , a f o n t e p r i m á r i a d e c o n t r o l e s o c i a l e s t á
n a p r ó p r i a n a t u r e z a d o t r a b a l h o o r g a n i z a d o c o m o u m
c o m e t i m e n t o s o c i a l , e m q u e t o d o s o s i n d i v í d u o s t ê m
o p o r t u n i d a d e d e c o n t r i b u i r e p e l o q u a l t o d o s se s e n -
t e m r e s p o n s á v e i s . A m a i o r p a r t e d a s c r i a n ç a s s ã o n a t u -
. r a l m e n t e " s o c i á v e i s " . I s o l a m e n t o e s o l i d ã o a s a f l i g e m
a i n d a m a i s q u e a adulto~. U m a Yida c o m u n i t á r i a g e -
n u í n a t e m s u a b a s e n e s s a s o c i a b i l i d a d e . M a s a v i d a
c o m u n i t á r i a n ã o se o r g a n i z a p o r s i m e s m a , e s p o n t a n e a -
m e n t e . R e q u e r p e n s a m e n t o e e s p í r i t o d e p l a n e j a m e n t o .
O e d u c a d o r é r e s p o n s á v e l p e l o c o n h e c i m e n t o satisf~
t ó r i o d o s i n d i v í d u o s e d a s m a t é r i a s , <:onhecimeJ:!!:o q};le
i ; [ h a b i t u á - l o a e s c o l h e r as a t i v i d a d e s s u s c e t í v e i s d e
p r o d u z i r a o r g a n i z a ç ã o s o c i a l , e m q u e t o d o s os i n d i -
v í d u o s t e n h a m o p o r t u n i d a d e d e a l g o c o n t r i b u i r - e e m
q u e o p r i n c i p a l e l e m e n t o d e _c_gntrol~ e s t e j a n a s_ p r 6 -
p r i a s a t i v i d a d e s p o r t o d o s p a r t i l h a d a s .
N ã o s o u t ã o r o m â n t i c o a r e s p e i t o d a i n f â n c i a e
d a j u v e n t u d e p a r a s u p o r q u e c a d a a l u n o r e s p o n d e r á
a d e q u a d a m e n t e à s i t u a ç ã o , o u q u e a l g u m a c r i a n ç a n o r -
m a l m e n t e d e f o r t e s i m p u l s o s a s s i m r e s p o n d e r á s e m p r e
e e m t o d a s o c a s i õ e s . H a v e r á , p r o v a v e l m e n t e , a l g u n s
q u e j á c h e g a m à e s c o l a v í t i m a s d e c o n d i ç õ e s i n j u r i o s a s
f o r a d e l a , a s q u a i s o s f i z e r a m t ã o passivos e i n d e -
52 E X P E R I Ê N C I A E E D U C AÇÃO
v i d a m e n t e dóceis, que se r e c u s a m a c o n t r i b u i r . O u -
t r o s haverá que, devido a ex p e r i ê n c i a s a n t e r i o r e s , são
brigões, i n d i s c i p l i n a d o s e, talvez, v e r d a d eiros r e b e l d e s .
T a i s casos não r e v o g a m o p r i n c í p i o g e r a l d e contr~le
social, mas t a m b é m é v e r d a d e q u e n e n h u m a r eg r a
social exiSte p a r a t r a t a r d e v i d a m e n t e t o d o s eles. O
p r o f e s s o r t e m de c o n s i d e r á - l o s i n d i v i d u a l m e n t e . C o n s t i-
t u e m u m g r u p o g e r a l , mas n e n h u m caso é e x a t a m e n t e
igual a o u t r o . O e d u c a d o r t e m de d e s c o b r i r , do me-
l h o r m o d o que lhe f o r possível, as causas individuais
das a t i t u d e s r e c a l c i t r a n t e s . O que n ã o p o d e fazer, se
o p r o c e s s o e d u c a t i v o d e ve p r o s s e g u i r , é l a n ç a r um
c o n t r a o u t r o p a r a ve r qual é mais f o r t e , nem t a m b é m
p e r m i t i r que o não p a r t i c i p a n t e e r e b e l d e se p o n h a
p e r m an e n t e m e n t e c o m o o b s t á c u l o às atividades e d u c a -
tivas dos demais. E m c e r t a s ocasiões a m e d i d a ú n i c a
possível talvez seja a exclusão, mas deve-se c o m p r e e n -
d e r que não é so l u ç ã o , pois p o d e f o r t a l e c e r as p r ó p r i a s
causas das a t i t u d e s anti-sociais indesejáveis, tais c o m o
desejo d e a t e n ç ão o u d e exibicionismo.
E x c e ç õ e s r a r a m e n t e c o m p r o v a m uma r e g r a , o u
dão uma -chave p a r a o que deva s e r a r e g r a . N ã o
darei, assim, m u i t a i m p o r t â n c i a a tais casos e x c e p c i o -
nais, e m b o r a seja v e r d a d e que, a t u a l m e n t e , as escolas ~
progressivas c o n t a m c o m uma c o t a m a i o r do q u e a
n o r m a l de tais casos. M u i t o s pais escolhem estas esco-
las p a r a seus filhos c o m o um ú l t i m o r e c u r s o . N ã o
c r e i o , p o r é m , q u e d e c o r r a deste f a t o a f r a q u e z a que,
ocasionalmente, p o d e h a v e r nas escolas progressivas em
A U T O R I D A D E E C O N T R O L E S O C I A L 53
r e l a ç ã o a a d e q u a d o c o n t r o l e social. É m u i t o mais p r o -
vável que i s t o o c o r r a devido n ã o se t e r c u i d a d o , c o m
a .precisa a n t e c i p a ç ã o , do a r r a n j o e q u a l i d a d e d e t r a b a -
l h o ( c o m o q u e s i g n i f i c o t o d a s as espécies de a t i v i d a d e
e m p r e e n d i d a s ) n e c e s s á r i o p a r a se cri~rem situaÇões t a i s
que, p o r si mesmas, t e n d a m a e x e r c e r c o n t r o l e s o b r e
o q u e este, a q u e l e e o o u t r o a l u n o fazem e C01'f!O o
fazem. M u i t o f r e q ü e n t e m e n t e nasce t a l f a l h a d a a u s ê n -
cia d e p l a n e j a m e n t o i n t e l i g e n t e e a n t e c i p a d o . A s causas
desta falta de p l a n e j a m e n t o são variadas. A q u e desejo
a p o n t a r , p o r s e r e s p e c i a l m e n t e i m p o r t a n t e , e s t á n a
i d é i a de q u e esse p l a n e j a m e n t o a n t e c i p a d o n ã o só é
desnecessário, c o m o a t é i n e r e n t ç m e n t e hostil à l e g í t i m a
l i b e r d a d e dos alunos.
O r a , p o r c e r t o , é p e f e i t a m e n t e possível q u e o p r o -
f e s s o r faça e s t e p l a n o p r e p a r a t ó r i o d e tal m o d o r í g i d o
e i n t e l e c t u a l m e n t e i n f l e x íve l q u e c o n s t i t u a i m p osição
do a d u l t o s o b r e o j o v e m e, ainda q u a n d o e x e c u t a d o
c o m t a t o e a p a r e n t e r e s p e i t o pela l i b e r d a d e i n d i v i d u a l ,
algo d e e x t e r n o e alheio ao a l u n o . Mas e s t a espécie
d e p l a n o n ã o d e c or r e i n e r e n t e m e n t e d o p r i n c í p i o q u e
estamos r e c o m e n d an d o . N ã o sei p a r a que t e m o p r o -
fessor m a i o r m a t u r i d a d e e m a i o r c o n h e c i m e n t o d o
m u n d o , das m a t é r i a s d e e s t u d o e dos i n d i v í d u o s , senão
p a r a p o d e r d i s p o r as c o n d i ç õ e s d e t r a b a l h o d e J?Odo
a que as atividades sejam c o n d uzidas como atividades
d e c o m u n i d ade e t e n h a m o r g a n i z a ç ã o s u f i c i e n t e p a r a
s u s c i t a r a q u e l e c o n t r o l e s o b r e os i m p u l s o s individuais;
q u e t o d o s p r o j e t a s d e ação c o m u n a l e x e r c e m n o r m a l -
52 E X P E R I Ê N C I A E E D U C AÇÃO
v i d a m e n t e dóceis, que se r e c u s a m a c o n t r i b u i r . O u -
t r o s haverá que, devido a ex p e r i ê n c i a s a n t e r i o r e s , são
brigões, i n d i s c i p l i n a d o s e, talvez, v e r d a d eiros r e b e l d e s .
T a i s casos não r e v o g a m o p r i n c í p i o g e r a l d e contr~le
social, mas t a m b é m é v e r d a d e q u e n e n h u m a r eg r a
social exiSte p a r a t r a t a r d e v i d a m e n t e t o d o s eles. O
p r o f e s s o r t e m de c o n s i d e r á - l o s i n d i v i d u a l m e n t e . C o n s t i-
t u e m u m g r u p o g e r a l , mas n e n h u m caso é e x a t a m e n t e
igual a o u t r o . O e d u c a d o r t e m de d e s c o b r i r , do me-
l h o r m o d o que lhe f o r possível, as causas individuais
das a t i t u d e s r e c a l c i t r a n t e s . O que n ã o p o d e fazer, se
o p r o c e s s o e d u c a t i v o d e ve p r o s s e g u i r , é l a n ç a r um
c o n t r a o u t r o p a r a ve r qual é mais f o r t e , nem t a m b é m
p e r m i t i r que o não p a r t i c i p a n t e e r e b e l d e se p o n h a
p e r m an e n t e m e n t e c o m o o b s t á c u l o às atividades e d u c a -
tivas dos demais. E m c e r t a s ocasiões a m e d i d a ú n i c a
possível talvez seja a exclusão, mas deve-se c o m p r e e n -
d e r que não é so l u ç ã o , pois p o d e f o r t a l e c e r as p r ó p r i a s
causas das a t i t u d e s anti-sociais indesejáveis, tais c o m o
desejo d e a t e n ç ão o u d e exibicionismo.
E x c e ç õ e s r a r a m e n t e c o m p r o v a m uma r e g r a , o u
dão uma -chave p a r a o que deva s e r a r e g r a . N ã o
darei, assim, m u i t a i m p o r t â n c i a a tais casos e x c e p c i o -
nais, e m b o r a seja v e r d a d e que, a t u a l m e n t e , as escolas ~
progressivas c o n t a m c o m uma c o t a m a i o r do q u e a
n o r m a l de tais casos. M u i t o s pais escolhem estas esco-
las p a r a seus filhos c o m o um ú l t i m o r e c u r s o . N ã o
c r e i o , p o r é m , q u e d e c o r r a deste f a t o a f r a q u e z a que,
ocasionalmente, p o d e h a v e r nas escolas progressivas em
A U T O R I D A D E E C O N T R O L E S O C I A L 53
r e l a ç ã o a a d e q u a d o c o n t r o l e social. É m u i t o mais p r o -
vável que i s t o o c o r r a devido n ã o se t e r c u i d a d o , c o m
a .precisa a n t e c i p a ç ã o , do a r r a n j o e q u a l i d a d e d e t r a b a -
l h o ( c o m o q u e s i g n i f i c o t o d a s as espécies de a t i v i d a d e
e m p r e e n d i d a s ) n e c e s s á r i o p a r a se cri~rem situaÇões t a i s
que, p o r si mesmas, t e n d a m a e x e r c e r c o n t r o l e s o b r e
o q u e este, a q u e l e e o o u t r o a l u n o fazem e C01'f!O o
fazem. M u i t o f r e q ü e n t e m e n t e nasce t a l f a l h a d a a u s ê n -
cia d e p l a n e j a m e n t o i n t e l i g e n t e e a n t e c i p a d o . A s causas
desta falta de p l a n e j a m e n t o são variadas. A q u e desejo
a p o n t a r , p o r s e r e s p e c i a l m e n t e i m p o r t a n t e , e s t á n a
i d é i a de q u e esse p l a n e j a m e n t o a n t e c i p a d o n ã o só é
desnecessário, c o m o a t é i n e r e n t ç m e n t e hostil à l e g í t i m a
l i b e r d a d e dos alunos.
O r a , p o r c e r t o , é p e f e i t a m e n t e possível q u e o p r o -
f e s s o r faça e s t e p l a n o p r e p a r a t ó r i o d e tal m o d o r í g i d o
e i n t e l e c t u a l m e n t e i n f l e x íve l q u e c o n s t i t u a i m p osição
do a d u l t o s o b r e o j o v e m e, ainda q u a n d o e x e c u t a d o
c o m t a t o e a p a r e n t e r e s p e i t o pela l i b e r d a d e i n d i v i d u a l ,
algo d e e x t e r n o e alheio ao a l u n o . Mas e s t a espécie
d e p l a n o n ã o d e c o r r e i n e r e n t e m e n t e d o p r i n c í p i o q u e
estamos r e c o m e n d an d o . N ã o sei p a r a que t e m o p r o -
fessor m a i o r m a t u r i d a d e e m a i o r c o n h e c i m e n t o d o
m u n d o , das m a t é r i a s d e e s t u d o e dos i n d i v í d u o s , senão
p a r a p o d e r d i s p o r as c o n d i ç õ e s d e t r a b a l h o d e J?Odo
a que as atividades sejam c o n d uzidas como atividades
d e c o m u n i d ade e t e n h a m o r g a n i z a ç ã o s u f i c i e n t e p a r a
s u s c i t a r a q u e l e c o n t r o l e s o b r e os i m p u l s o s individuais;
q u e t o d o s p r o j e t a s d e ação c o m u n a l e x e r c e m n o r m a l -
5 4 .. -E X P E R l E N C I A E EIJUCAÇAO
m e n t e , p e l o simples f a t o d e t o d o s se s en ti r e m neles
e n v o l v i d o s . P o r t e r e m s i d o , a t é agora, os p l a n o s· dessa
o r d e m d e t a l m o d o r o t i n e i r o s q u e p o u c a o p o r t u n i d a d e
deixam p a r a o l i v r e j o g o do p e n s a m e n t o i n d i v i d u a l o u
p a r a. a c o n t r i b u i ç ã o específica da e x p e r i ê n c i a pessoal,
n ã o se segue q u e t o d o p l a n e j a m e n t o deva s e r a b a n d o -
n a d o . P e l o c o n t r á r i o , c a b e ao e d u c a d o r o d e v e r de
i n s t i t u i r t i p o d e p l a n e j a m e n t o mais i n t e l i g e n t e e, c o n -
s e q ü e n t e m e n t e , m u i t o mais difícil. D e v e ele e s t u d a r
as capacidades e necessidades d o g r u p o q u e t i v e r de
e d u c a r e, ao m e s m o t e m p o , d i s p o r e o r d e n a r as c o n d i -
ções p a r a que a m a t é r i a o u c o n t e ú d o das experiências
s e j a t a l q u e s a t i s f a ç a aquelas necessidades e desenvolva
aquelas capacidades. O p l a n e j a m e n t o d e v e s e r s u f i -
c i e n t e m e n t e flexível p a r a p e n n i t i r o l i v r e e x e r c í c i o d a
e x p e r i ê n c i a i n d i v i d u a l e, a i n d a assim, s u f i c i e n t e m e n t e ·
f i r m e p~a d a r d i r e ç ã o a o c o n t í n u o d e s e n v o l v i m e n t o
d a c a p a c i d a d e dos alunos.
C a b e m a q u i algumas palavras s o b r e o m i n i s t é r i o
}i
e o f í c i o d o p r o f e s s o r . o_ p r i n c í p i o d e q u e o desenvol-
v i m e n t o d a e x p e r i ê n c i a se f a z p o r i n t e r a ç ã o do indiYí-
d u o c o m pessoas e cousas s i g n i f i c a q u e a e d u c a ç ã o é,
ess~ncialmente, um p r o c e s s o social. Esse c a r a c t e r í s t i c o
social se a f i r m a n a m e d i d a e m q u e os i n d i v í d u o s f o r -
m a m u m g r u p o c o m u n i t á r i o . S e r i a a b s u r d o exclu i r o
p r o f e s s o r de m e m b r o d o g r u p o . P e l o c o n t r á r i o , c o m o
m e m b r o mais a m a d u r e ci d o do g r u p o c a b e - l h e a r e s -
ponsabilidade especial d e c o n d u z i r as i n t e r a ç õ e s e i n t e r -
c q m u n i c a ç õ e s q u e c o n s t i t u e m a p r ó p r i a v i d a do g r u p o ,
A U T O R I D A D E E C O N T R O L E SOCIAL 55
c o m o c o m u n i d a d e . D e s t e m o d o , e x e r c er á ele s u a l i b e r -
d a d e i n d i v i d u a l . Se as c r i a n ç a s são i n d i v í d u o s c u j a
l i b e r d a d e deve s e r respeitada, corno i m a g i n a r o m e s t r e ,
a pessoa mais a m a d u r e c i d a do g r u p o , p r i v a d a dela ? A
t e n d ê n c i a p a r a e x c l u i r o p r o f e s s o r d e urna p a r t i c i p a ç ã o
p o s i t i v a de g u i a n a d i reção das atividades do g r u p o de
que é m e m b r o , é mais um exemplo d a reação de u m
e x t r e m o p a r a o u t r o . Q u a n d o os alunos c o n s t i t u e m
u m a classe, mais do que um g r u p o social, é q u e o p r o -
fessor a t u a v a necessariamente c o m o u m ~gente e x t e -
r i o r e n ã o corno o d i r e t o r dos processos d e t r o c a e m
q u e t o d o s p a r t i c i p a v a m . Q u a n d o a e d u c a ç ã o se f u n d a
n a e x p e r i ê n c i a e a e x p e r i ê n c i a e d u c a t i v a é c o n c e b i d a
c o m o um p r o c e s s o social, a s i t u a ç ã o m u d a r a d i c a l -
m e n t e . O p r o f e s s o r p e r d e a posição d e c h e f e o u d i t a -
d o r , acima e f o r a d o g r u p o , p a r a se f a z e r o l í d e r das
atividades d o g r u p o .
C o n c l u i r e m o s e s t e c a p í t u l o c o m algumas o b s e r v a - r
ções s o b r e boas maneiras n a vida escolar. A o analisar-
mos a d i r e ç ã o d e jogos .como exemplo d e c o n t r o l e s o -
cial n o r m a l , fizemos r e f e r ê n c i a à p r e s e n ç a de u m f a t o r
c o n v e n c i o n a l e s t a n d a r d i z a d o e m t o d o s eles. Q_ f a t o r
c o r r e s p o n d e n t e n a escola é o das maneir~, especia~
_glente boas maneiras, n o s e n t i d o d e m a n i f e s t a ç j o de
p o l i d e z e c o r t e s i a . Q u a n t o mais se s a b e a r e s p e i t o d e
c o s t u m e s em d i f e r e n t e s p a r t e s do m u n d o e e m d i f e r e n -
tes p e r í o d o s d e h i s t ó r i a , t a n t o mais v e r i f i c a m o s q u a n t o
as maneiras d i f e r e m d e l u g a r p a r a l u g a r e d e t e m p o
p a r a t e m p o . I s t o p r o v a corno é g r a n d e o f a t o r c o n -
5 4 .. -E X P E R l E N C I A E EIJUCAÇAO
m e n t e , p e l o simples f a t o d e t o d o s se s en ti r e m neles
e n v o l v i d o s . P o r t e r e m s i d o , a t é agora, os p l a n o s· dessa
o r d e m d e t a l m o d o r o t i n e i r o s q u e p o u c a o p o r t u n i d a d e
deixam p a r a o l i v r e j o g o do p e n s a m e n t o i n d i v i d u a l o u
p a r a. a c o n t r i b u i ç ã o específica da e x p e r i ê n c i a pessoal,
n ã o se segue q u e t o d o p l a n e j a m e n t o deva s e r a b a n d o -
n a d o . P e l o c o n t r á r i o , c a b e ao e d u c a d o r o d e v e r de
i n s t i t u i r t i p o d e p l a n e j a m e n t o mais i n t e l i g e n t e e, c o n -
s e q ü e n t e m e n t e , m u i t o mais difícil. D e v e ele e s t u d a r
as capacidades e necessidades d o g r u p o q u e t i v e r de
e d u c a r e, ao m e s m o t e m p o , d i s p o r e o r d e n a r as c o n d i -
ções p a r a que a m a t é r i a o u c o n t e ú d o das experiências
s e j a t a l q u e s a t i s f a ç a aquelas necessidades e desenvolva
aquelas capacidades. O p l a n e j a m e n t o d e v e s e r s u f i -
c i e n t e m e n t e flexível p a r a p e n n i t i r o l i v r e e x e r c í c i o d a
e x p e r i ê n c i a i n d i v i d u a l e, a i n d a assim, s u f i c i e n t e m e n t e ·
f i r m e p~a d a r d i r e ç ã o a o c o n t í n u o d e s e n v o l v i m e n t o
d a c a p a c i d a d e dos alunos.
C a b e m a q u i algumas palavras s o b r e o m i n i s t é r i o
}i
e o f í c i o d o p r o f e s s o r . o_ p r i n c í p i o d e q u e o desenvol-
v i m e n t o d a e x p e r i ê n c i a se f a z p o r i n t e r a ç ã o do indiYí-
d u o c o m pessoas e cousas s i g n i f i c a q u e a e d u c a ç ã o é,
ess~ncialmente, um p r o c e s s o social. Esse c a r a c t e r í s t i c o
social se a f i r m a n a m e d i d a e m q u e os i n d i v í d u o s f o r -
m a m u m g r u p o c o m u n i t á r i o . S e r i a a b s u r d o exclu i r o
p r o f e s s o r de m e m b r o d o g r u p o . P e l o c o n t r á r i o , c o m o
m e m b r o mais a m a d u r e c i d o do g r u p o c a b e - l h e a r e s -
ponsabilidade especial d e c o n d u z i r as i n t e r a ç õ e s e i n t e r -
c q m u n i c a ç õ e s q u e c o n s t i t u e m a p r ó p r i a v i d a do g r u p o ,
A U T O R I D A D E E C O N T R O L E SOCIAL 55
c o m o c o m u n i d a d e . D e s t e m o d o , e x e r c er á ele s u a l i b e r -
d a d e i n d i v i d u a l . Se as c r i a n ç a s são i n d i v í d u o s c u j a
l i b e r d a d e deve s e r respeitada, corno i m a g i n a r o m e s t r e ,
a pessoa mais a m a d u r e c i d a do g r u p o , p r i v a d a dela ? A
t e n d ê n c i a p a r a e x c l u i r o p r o f e s s o r d e urna p a r t i c i p a ç ã o
p o s i t i v a de g u i a n a d i reção das atividades do g r u p o de
que é m e m b r o , é mais um exemplo d a reação de u m
e x t r e m o p a r a o u t r o . Q u a n d o os alunos c o n s t i t u e m
u m a classe, mais do que um g r u p o social, é q u e o p r o -
fessor a t u a v a necessariamente c o m o u m ~gente e x t e -
r i o r e n ã o corno o d i r e t o r dos processos d e t r o c a e m
q u e t o d o s p a r t i c i p a v a m . Q u a n d o a e d u c a ç ã o se f u n d a
n a e x p e r i ê n c i a e a e x p e r i ê n c i a e d u c a t i v a é c o n c e b i d a
c o m o um p r o c e s s o social, a s i t u a ç ã o m u d a r a d i c a l -
m e n t e . O p r o f e s s o r p e r d e a posição d e c h e f e o u d i t a -
d o r , acima e f o r a d o g r u p o , p a r a se f a z e r o l í d e r das
atividades d o g r u p o .
C o n c l u i r e m o s e s t e c a p í t u l o c o m algumas o b s e r v a - r
ções s o b r e boas maneiras n a vida escolar. A o analisar-
mos a d i r e ç ã o d e jogos .como exemplo d e c o n t r o l e s o -
cial n o r m a l , fizemos r e f e r ê n c i a à p r e s e n ç a de u m f a t o r
c o n v e n c i o n a l e s t a n d a r d i z a d o e m t o d o s eles. Q_ f a t o r
c o r r e s p o n d e n t e n a escola é o das maneir~, especia~
_glente boas maneiras, n o s e n t i d o d e m a n i f e s t a ç j o de
p o l i d e z e c o r t e s i a . Q u a n t o mais se s a b e a r e s p e i t o d e
c o s t u m e s em d i f e r e n t e s p a r t e s do m u n d o e e m d i f e r e n -
tes p e r í o d o s d e h i s t ó r i a , t a n t o mais v e r i f i c a m o s q u a n t o
as maneiras d i f e r e m d e l u g a r p a r a l u g a r e d e t e m p o
p a r a t e m p o . I s t o p r o v a corno é g r a n d e o f a t o r c o n -
56 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O ,,
v e n c i o n a l em sua f o r m a ç ã o . N ã o há, p o rém, g r u p o
socia l que não t e n h a , de u m m o d o o u de o u t r o , seu
c ó d i g o de maneiras, c o m o , p o r exemplo, o de sa u da r
as pessoas. A f o r m a p a r t i c u l a r da c o n v e n ç ã o n a d a t em
de fixo e absoluto. Mas a existêncil)> de a l g u m a f o r m a
de c o n v e n ç ã o n ã o é, e m si mesma, u m a c o n v e n ç ã o .
É u m r e q u i s i t o u n i f o r m e de t o d a s as relações s o ciais.
C o n s t i t u i , n o m í n i m o , u m a espécie de óleo que p r e -
vine o u r e d u z as f r i c ç õ e s sociai~.
Sabemos, p o r c e r t o , q u e essas f o r m a s sociais p o -
dem t o r n a r - s e , c o m o dizemos, " m e r a s f o r m a l i d a d e s " .
Simples gestos e x t e r i o r e s , sem q u a l q u e r significação.
E v i t a r , ·p o r é m , formas ritualísticas de i n t e r c u r s o social
não deve i m p o r t a r em rejeição de t o d o e q u a l q u e r
e lem e n t o formal. A n t e s significa isto a necessidade
de desenvolver formas de i n t e r c u r s o que sejam a u t ê n -
ticas e apropriadas às relações sociais. O r a , nas escolas
progressivas, os visitantes muitas vezes se s e n t e m c h o -
cados a n t e a generalizada f a l t a de maneiras. U m me-
l h o r c o n h e c e d o r da situação sabe que, a t é c e r t o p o n t o ,
isto se deve ao a b s o r v e n t e interesse q u e está p r e n d e n d o
as crianças ao q u e estão fazendo. Concentrada-s, c o m o
se acham, n o q u e fazem, podem e s b a r r a r umas n a s
o u t r a s e nos p r ó p r i o s visitantes, sem u m a palavra ou
g e s t o de desculpa. P o d e - s e d i z e r q u e i s t o é m e l h o r
do q u e a exibição de u m a p e r f e i t a c o r r e ç ã o e x t e r i o r ,
a c o m p a n h a d a de p e r f e i t a fa~ta de interesse i n t e l e c t u a l
e e m o c i o n a l pe l o t r a b a l h o éscolar. O f a t o , c o n t u d o ,
r ep r e s e n t a u m a f a l h a na ·educação, a f a lha de não t e r
A U T O R I D A D E E C O N T R O L E S O C I A L 57
a p r e n d i d o ou não estar a a p r e n d e r u m a das mais i m -
p o r t a n t e s lições da vida, a da adaptação e acomodação
m ú t u a e n t r e as pessoas. A educação está sendo u n i l a -
t e r a l , pois se estão f o r m a n d o a t i t u d e s e ~ q u e
i m p e d i r ã o a p r e n d i z a g e n s f u t u r a s , q u e r e s u l t a m do f á -
cil e p r o n t o contactO e c o m u n i c a ç ã o c o m os o u t r o s .
56 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O ,,
v e n c i o n a l em sua f o r m a ç ã o . N ã o há, p o rém, g r u p o
socia l que não t e n h a , de u m m o d o o u de o u t r o , seu
c ó d i g o de maneiras, c o m o , p o r exemplo, o de sa u d a r
as pessoas. A f o r m a p a r t i c u l a r da c o n v e n ç ã o n a d a t em
de fixo e absoluto. Mas a existêncil)> de a l g u m a f o r m a
de c o n v e n ç ã o n ã o é, e m si mesma, u m a c o n v e n ç ã o .
É u m r e q u i s i t o u n i f o r m e de t o d a s as relações s o ciais.
C o n s t i t u i , n o m í n i m o , u m a espécie de óleo que p r e -
vine o u r e d u z as f r i c ç õ e s sociai~.
Sabemos, p o r c e r t o , q u e essas f o r m a s sociais p o -
dem t o r n a r - s e , c o m o dizemos, " m e r a s f o r m a l i d a d e s " .
Simples gestos e x t e r i o r e s , sem q u a l q u e r significação.
E v i t a r , ·p o r é m , formas ritualísticas de i n t e r c u r s o social
não deve i m p o r t a r em rejeição de t o d o e q u a l q u e r
e lem e n t o formal. A n t e s significa isto a necessidade
de desenvolver formas de i n t e r c u r s o que sejam a u t ê n -
ticas e apropriadas às relações sociais. O r a , nas escolas
progressivas, os visitantes muitas vezes se s e n t e m c h o -
cados a n t e a generalizada f a l t a de maneiras. U m me-
l h o r c o n h e c e d o r da situação sabe que, a t é c e r t o p o n t o ,
isto se deve ao a b s o r v e n t e interesse q u e está p r e n d e n d o
as crianças ao q u e estão fazendo. Concentrada-s, c o m o
se acham, n o q u e fazem, podem e s b a r r a r umas n a s
o u t r a s e nos p r ó p r i o s visitantes, sem u m a palavra ou
g e s t o de desculpa. P o d e - s e d i z e r q u e i s t o é m e l h o r
do q u e a exibição de u m a p e r f e i t a c o r r e ç ã o e x t e r i o r ,
a c o m p a n h a d a de p e r f e i t a fa~ta de interesse i n t e l e c t u a l
e e m o c i o n a l pe l o t r a b a l h o éscolar. O f a t o , c o n t u d o ,
r ep r e s e n t a u m a f a l h a na ·educação, a f a lha de não t e r
A U T O R I D A D E E C O N T R O L E S O C I A L 57
a p r e n d i d o ou não estar a a p r e n d e r u m a das mais i m -
p o r t a n t e s lições da vida, a da adaptação e acomodação
m ú t u a e n t r e as pessoas. A educação está sendo u n i l a -
t e r a l , pois se estão f o r m a n d o a t i t u d e s e ~ q u e
i m p e d i r ã o a p r e n d i z a g e n s f u t u r a s , q u e r e s u l t a m do f á -
cil e p r o n t o contactO e c o m u n i c a ç ã o c o m os o u t r o s .
..
f ACUl OAuf OE lSUCiiCÀU
BIBLIOTECA
v
A NATUREZA DE LIBERDADE
Sob o risco de ~tar a repetir o que já tantas vezes
disse, desejo apresentar algumas observações sobre o
outro lado do problema de autoridade e controle . so-
cial, 0 de liberdade. A Ú!lica liberdade de importânci~ I
~uradoura é a liberdáde de inteligência,_ isto é, Jiber-
Qade de observação e de julg~men~to com respeito a
propóSitos intrinsecamente v~lidos ·.e significativQs. · O
erro mais comum que se faz em relação à liberdade é o
de · identificá-la com liberdade de movimento, ou com
o lado físico e exterior da atividade. Este lado exterior
e físico da atividade não pode ser separado do seu lado
interno, da liberdade de pensar, desejar e decidir. A
limitação posta à atividade de movimento pelos arran-
jos rígidos da típica sala de aula tradicional, com as
suas fileiras de carteiras e a arregimentação militar dos
alunos, que só podiam se mover por certos sinais
estabelecidos, representava uma grande restrição à
liberdade intelectual e moraL Está claro que tudo isso
teria que ser afastado, para que se criassem as oportu-
nidades de crescimento das individualidades dentro do
..
f ACUl OAuf OE lSUCiiCÀU
BIBLIOTECA
v
A NATUREZA DE LIBERDADE
Sob o risco de ~tar a repetir o que já tantas vezes
disse, desejo apresentar algumas observações sobre o
outro lado do problema de autoridade e controle . so-
cial, 0 de liberdade. A Ú!lica liberdade de importânci~ I
~uradoura é a liberdáde de inteligência,_ isto é, Jiber-
Qade de observação e de julg~men~to com respeito a
propóSitos intrinsecamente v~lidos ·.e significativQs. · O
erro mais comum que se faz em relação à liberdade é o
de · identificá-la com liberdade de movimento, ou com
o lado físico e exterior da atividade. Este lado exterior
e físico da atividade não pode ser separado do seu lado
interno, da liberdade de pensar, desejar e decidir. A
limitação posta à atividade de movimento pelos arran-
jos rígidos da típica sala de aula tradicional, com as
suas fileiras de carteiras e a arregimentação militar dos
alunos, que só podiam se mover por certos sinais
estabelecidos, representava uma grande restrição à
liberdade intelectual e moraL Está claro que tudo isso
teria que ser afastado, para que se criassem as oportu-
nidades de crescimento das individualidades dentro do
'"
60 ,.
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E X P E R I E N C I A E E D U C A Ç A O
clima de lib e r dade , sem o q u a l n ã o há possibilidade de
c r e s c i m e n t o n o r m a l , g e n u í n o e c o n t i n u a d o .
N e m p o r isto , c o n t u d o , deix a de p ersist i r o f a t o
de qu e o g r a u m a i o r de l i b e r d a d e de m o v i m e n t o s
exteriores é u m meio e não u m fim. O p r o b l e m a de
educação n ã o se resolve q u a n d o se consegue este
aspecto de liberdade. T u d o passa, então, a d e p e n d e r
do uso q u e é f e i t o dessa liberdad e. A que fim s e r v e ?
Q u e conseqüências dela f l u e m ? Falemos antes, e n t r e -
t a n t o , das vantagens que advêm ou pod em a d v i r do
a u m e n t o de l i b e r d a d e física o u e x t e r i o r. E m p r i m e i r o
lugar, sem esta liberdade, é p r a t i c a m e n t e impossível ao
p r o f e s s o r c o n h e c e r as pe ssoas c o m que t e r á de t r a t a r .
Silêncio, imobilidade e o b e d i ê n c i a f o r ç a d o s i m p ed e m
o alun o de r e v e l a r sua real n a t u r e z a . C r i a m a u t o m a t i c a -
mente u m a u n i f o r m i d a d e artificial. Parecer se a n t e p õ e
a ser. H á u m p r ê m i o p a r a os que saibam p r es e r v ar
a aparência e x t e r i o r de atenção, d e c o r o e o b e d i ê n c i a .
T o dos os que estão familiarizados c o m escolas desse
t i p o sabt:m q u e , p o r t r á s dessa fachada, s e g u e m seu
curso, despercebidos, os pensamentos, imaginações, d e -
sejos e f u n i vas atividades. S o m e n t e q u a n d o a l g u m a t o
de i n d o c i l i d a d e o u rebeldia o c o r r e , é que o p r o f e s s o r
as descobre, p o r vezes , c o m s u r p r e s a . Basta c o n t r a s t a r
esta s i t u a ç ã o a l t a m e n t e a n i f i c i a l c o m a das r e l a ç õ e s
humanas em condições normais, f o r a da escola, c o m o
as de uma f a m í l i a b e m c o n d u z i d a , p a r a se v e r q u a n t o
é f a t a l aquela 's ituação p a r a o c o n h e c i m e n t o e a c o m -
preensão pelo p r o f e s s o r da c r i a n ç a o u do j o v e m que
A N A T U R E Z A D E L I B E R D A D E 61
ele, admite-se, estej a e d u c a n d o . Sabemos q u e , sem
essa compreensão da i n d i v i d u a l i d a de d o aluno, só p o r
a c i d e n t e c o n s e g u i r á o m e s t re q u e as matérias de e s t u -
d o e os m é t o d o s de i n s t r u ç ã o usados se i n t e g r e m n o
aluno de .m o d o a e f e t i v a m e n t e d i r i g i r - l h e o desenvol-
v i m e n t o da m e n t e e do c a r á t e r . H á u m v e r d a d e i r o
c í r c u l o vicioso. A u n i f o r m i d a d e m e c â n i c a d o ensino
e dos métodos c r i a u m a espécie de u n i f o r m e i m o b i l i -
dade, que, p o r sua vez, t e n d e a p e r p e t u a r a u n i f o m ú -
dade das preleções e lições, e n q u a n t o , p o r t r á s dessa
i m p o s t a u n i f o r m i d a d e , vagueiam p o r caminhos d e s q r-
denados e mais o u m e n o s p r o i b i d o s as t e n d ê n c i a s
individuais.
U m a s e g u n d a i m p o r t a n t e v a n t a g e m de m a i o r l i -
b e r d a-de e x t e r i or está em q u e l i b e r d a d e f a v o r e c e ~
condições d o v e r d a d e i r o processo de aprendizagelT!. Já
mostramos c o m o os m é t o d o s t r a d i c i o n a is prerpiavam
a passividade e o e s p í r i t o de p u r a aqui~cência. A
ênfase s o b r e " f i c a r q u i e t o " i m p o r t a e m t r e m e n d a exal-
t a ç ã o desses t r a ç o s . N a escola assim estandardizada,
a ú n i c a saída é a atividade i r r e g u l a r e, .muitas vezes~
desobediente. N ã o p o d e haver c o m p l e t a q u i e t u d e n u m
l a b o r a t ó r i o , o u n u m a o f i c i n a . O f a t o d e e r i g i r a escola
t r a d i c i o n a l o silêncio em u m a das suas primeiras v i r -
t u d e s c o m p r o v a o s e u c a r á t e r não-social. E x i s t e , p o r
c e r t o , o caso de i n t e n s a atividade i n t e l e c t u a l , e m q u e
a p r ó p r i a c o n c e n t r a ç ã o do i n d i v í d u o c o m p e l e à ausên-
cia de movimentos e a t i v i d a d e física. M a s a c a p a c i d a d !
p a r a isto v e m m u i t o mais t a r d e , depois de c o n t i n u a d o
'"
60 ,.
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clima de lib e r dade , sem o q u a l n ã o há possibilidade de
c r e s c i m e n t o n o r m a l , g e n u í n o e c o n t i n u a d o .
N e m p o r isto , c o n t u d o , deix a de p ersist i r o f a t o
de q u e o g r a u m a i o r de l i b e r d a d e de m o v i m e n t o s
exteriores é u m meio e não u m fim. O p r o b l e m a de
educação n ã o se resolve q u a n d o se consegue este
aspecto de liberdade. T u d o passa, então, a d e p e n d e r
do uso q u e é f e i t o dessa liberdad e. A que fim s e r v e ?
Q u e conseqüências dela f l u e m ? Falemos antes, e n t r e -
t a n t o , das vantagens que advêm ou pod em a d v i r do
a u m e n t o de l i b e r d a d e física o u e x t e r i o r. E m p r i m e i r o
lugar, sem esta liberdade, é p r a t i c a m e n t e impossível ao
p r o f e s s o r c o n h e c e r as pe ssoas c o m que t e r á de t r a t a r .
Silêncio, imobilidade e o b e d i ê n c i a f o r ç a d o s i m p ed e m
o alun o de r e v e l a r sua real n a t u r e z a . C r i a m a u t o m a t i c a -
mente u m a u n i f o r m i d a d e artificial. Parecer se a n t e p õ e
a ser. H á u m p r ê m i o p a r a os que saibam p r es e r v ar
a aparência e x t e r i o r de atenção, d e c o r o e o b e d i ê n c i a .
T o dos os que estão familiarizados c o m escolas desse
t i p o sabt:m q u e , p o r t r á s dessa fachada, s e g u e m seu
curso, despercebidos, os pensamentos, imaginações, d e -
sejos e f u n i vas atividades. S o m e n t e q u a n d o a l g u m a t o
de i n d o c i l i d a d e o u rebeldia o c o r r e , é que o p r o f e s s o r
as descobre, p o r vezes , c o m s u r p r e s a . Basta c o n t r a s t a r
esta s i t u a ç ã o a l t a m e n t e a n i f i c i a l c o m a das r e l a ç õ e s
humanas em condições normais, f o r a da escola, c o m o
as de uma f a m í l i a b e m c o n d u z i d a , p a r a se v e r q u a n t o
é f a t a l aquela 's ituação p a r a o c o n h e c i m e n t o e a c o m -
preensão pelo p r o f e s s o r da c r i a n ç a o u do j o v e m que
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ele, admite-se, estej a e d u c a n d o . Sabemos q u e , sem
essa compreensão da i n d i v i d u a l i d a de d o aluno, só p o r
a c i d e n t e c o n s e g u i r á o m e s t re q u e as matérias de e s t u -
d o e os m é t o d o s de i n s t r u ç ã o usados se i n t e g r e m n o
aluno de .m o d o a e f e t i v a m e n t e d i r i g i r - l h e o desenvol-
v i m e n t o da m e n t e e do c a r á t e r . H á u m v e r d a d e i r o
c í r c u l o vicioso. A u n i f o r m i d a d e m e c â n i c a d o ensino
e dos métodos c r i a u m a espécie de u n i f o r m e i m o b i l i -
dade, que, p o r sua vez, t e n d e a p e r p e t u a r a u n i f o m ú -
dade das preleções e lições, e n q u a n t o , p o r t r á s dessa
i m p o s t a u n i f o r m i d a d e , vagueiam p o r caminhos d e s q r-
denados e mais o u m e n o s p r o i b i d o s as t e n d ê n c i a s
individuais.
U m a s e g u n d a i m p o r t a n t e v a n t a g e m de m a i o r l i -
b e r d a-de e x t e r i or está em q u e l i b e r d a d e f a v o r e c e ~
condições d o v e r d a d e i r o processo de aprendizagelT!. Já
mostramos c o m o os m é t o d o s t r a d i c i o n a is prerpiavam
a passividade e o e s p í r i t o de p u r a aqui~cência. Aênfase s o b r e " f i c a r q u i e t o " i m p o r t a e m t r e m e n d a exal-
t a ç ã o desses t r a ç o s . N a escola assim estandardizada,
a ú n i c a saída é a atividade i r r e g u l a r e, .muitas vezes~
desobediente. N ã o p o d e haver c o m p l e t a q u i e t u d e n u m
l a b o r a t ó r i o , o u n u m a o f i c i n a . O f a t o d e e r i g i r a escola
t r a d i c i o n a l o silêncio em u m a das suas primeiras v i r -
t u d e s c o m p r o v a o s e u c a r á t e r não-social. E x i s t e , p o r
c e r t o , o caso de i n t e n s a atividade i n t e l e c t u a l , e m q u e
a p r ó p r i a c o n c e n t r a ç ã o do i n d i v í d u o c o m p e l e à ausên-
cia de movimentos e a t i v i d a d e física. M a s a c a p a c i d a d !
p a r a isto v e m m u i t o mais t a r d e , depois de c o n t i n u a d o
62 ~
-
E X P E R I E N C I A E E D U C A Ç A O
--.....___
á b i t o dessa a t i v i d a d e p o r u m l o n g o p e r í o d o . P2':a a
c r i a n ç a e o j o v e m deve, p o r isto mesmo, h a v e r p e r í o d o
d e q u i e t a reflexão. M a s p a r a q u e h a j a g e n u í n a r e -
flexão, é necessário q u e tais p e r í o d o s s e j a m b r e v e s ,
s u c e d a m a p e r í o d o s d e ação e sejam u t i l i z a d o s p a r a
o r g a n i z a r o que se a p r e n d e u nesses p e r í o d o s de a t i v i -
dade, em q u e as mãos e o u t.ras p a r t e s d o c o r p o , além
d o c é r e b r o , e s t i v e r a m e m e x e r c í c i o . A l i b e r d a d e d e
m o v i m e n t o é t a m b é m i m p o r t a n t e c o m o meio d e m a n -
t e r a saúde física e m e n t a l . T e m o s s e m p r e de a p r e n d e r
c o m os g r e g o s , q u e t ã o b e m v i r a m as relações e n t r e
c o r p o são e m e n t e sã. E m t o d o s os aspectos que m e n -
cionamos, a l i b e r d a d e d e áção é s e m p r e , c o n t u d o , u m
m e i o p a r a l i b e r d a d e d e j u l g a m e n t o e p a r a se p o d e r
p ô r em execução os p r o p ó s i t o s t o m a d o s . V a r i a de
i n d i v í d u o p a r a i n d i v í d u o a q u a n t i d a d e d e l i b e r d a d e
física neces~ária, t e n d e n d o n a t u r a l m e n t e a d e c r e s c e r
c o m a c r e s c e n t e m a t u r i d a d e . A s u a c o m p l e t a ausência
i m p e d e , c o n t u d o , m e s m o a pessoa m a d u r a d e t e r c o n -
t a c t o s indispensáveis a o e x e r c í c i o n o r m a l de s u a i n t e -
l i g ê n c i a . A qu a n t i d a d e e q u a l i d a d e desse t i p o de l i v r e
a t i v i d a d e p a r a o c r e s c i m e n t o n o r m a l é p r o b l e m a q u e
d e v e o c u p a r a r e f l e x ã o do e d u c a d o r , e m t o d a s as fases
d e d e s e n v o l v i m e n t o do e d u c a n d o .
N ã o há, e n t r e t a n t o , m a i o r e r r o d o q u e o d e c o n -
s i d e r á - l a um f i m e m si mesma. T e n d e , e n t ã o , a se
f a z e r uma f o r ç a d e s t r u t i v a das a t i v i d a d e s p a r t i c u l a r e s
e c o o p e r a t i v a s , q u e são a f o n t e n o r m a l de o r d e m .
A l é m disto, f a z d a l i b e r d a d e , q u e é a s p e c t o p o s i t i v o
A N A T U R E Z A DE L I B E R D A D E 63
d a v i d a h u m a n a , a l g o d e n e g a t i v o . A l i b e r d a d e de
r e s t r i ç ã o , que é o l a d o n e g a t i v o d e v e s e r v a l o r i z a d a
s o m e n t e c o m o m e i o p a r a a l i b e r d a d e q u e é p o d e r :
p o d e r d e f o r m u l a r p r o p ó s i t o s , de j u l g a r s a b i a m e n t e ,
d e p e s a r os desejos à l u z das c o n s e q ü ê n c i a s q u e a d v i r ã o
d e os a t e n d e r m o s ; p o d e r d e sel e c i o n a r e o r d e n a r os
meios p a r a l e v a r os fins e s c o l h i d o s a b o m t e r m o .
Impulsos e desejos n a t u r ais c o n s t i t u e m em q u a l -
q u e r caso o p o n t o d e p a r t i d a . M a s n ã o há c r e s c i m e n -
t o i n t e l e c t u a l s e m r e c o n s t r u ç ã o , s e m que, de a l g u m
m o d o , a f o r m a em que se m a n i f e s t a m d e i n í c i o esses
desejos e i m p u l s o s s e j a r e v i s t a e r e f e i t a . Essa r e v i s ã o ou
r e e l a b o r a ç ã o e n v o l v e i n i b i ç ã o d o i m p u l s o e m s e u aspec-
t o o r i g i n á r i o . A a l t e r n a t i v a da i n i b i ç ã o p o r i m p o s i ç ã o
e x t e r n a é a i n i b i ç ã o p o r m e i o d a r e f l e x ã o e do j u l g a -
m e n t o do p r ó p r i o i n d i v í d u o . A v e l h a frase " p a r e e
p e n s e " está c e n a p s i c o l q g i c a m e n t e . P e n s a r é, c o m
e f e i t o , p a r a r a p r i m e i r a m a n i f e s t a ç ã o d o i m p u l s o e
b,us~ar p ô - l a _em c o n e x ã o c o m o u t r a s t e n d ê n c i a s p o s -
SlVels d e açao, de m o d o a se f o r m a r plano mais
c o m p r e e n s i v o e c o e r e n t e de ação. A l g u m a s das o u t r a s
t e n d ê n c i a s d e ação l e v a m ao uso da vista, do o u v i d o ,
da mão p a r a e x a m i n a r as c o n d i ç õ e s objetivas; o u t r a s
r e s u l t a m em r e c o r d a r o que s u c e d e u a n t e s , n o passado,
c o m e x p e r i ê n c i a s similares . P e n s a r é, assim, a d i a r - s e
a ação i m e d i a t a , e n q u a n t o a r e f l e x ã o , pela o b s e r v a ç ã o
e p e l a __ m e m ó r i a , e f e t u a o d o m í n i o i n t e r n o do impulso.
A u r u a o d a o b s e r v a ç ã o e d a m e m ó r i a é o c o r a ç ão
da reflexão. T u d o isto e x p l i c a o s e n t i d o d a v e l h a
62 ~
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E X P E R I E N C I A E E D U C A Ç A O
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á b i t o dessa a t i v i d a d e p o r u m l o n g o p e r í o d o . P2':a a
c r i a n ç a e o j o v e m deve, p o r isto mesmo, h a v e r p e r í o d o
d e q u i e t a reflexão. M a s p a r a q u e h a j a g e n u í n a r e -
flexão, é necessário q u e tais p e r í o d o s s e j a m b r e v e s ,
s u c e d a m a p e r í o d o s d e ação e sejam u t i l i z a d o s p a r a
o r g a n i z a r o que se a p r e n d e u nesses p e r í o d o s de a t i v i -
dade, em q u e as mãos e o u t.ras p a r t e s d o c o r p o , além
d o c é r e b r o , e s t i v e r a m e m e x e r c í c i o . A l i b e r d a d e d e
m o v i m e n t o é t a m b é m i m p o r t a n t e c o m o meio d e m a n -
t e r a saúde física e m e n t a l . T e m o s s e m p r e de a p r e n d e r
c o m os g r e g o s , q u e t ã o b e m v i r a m as relações e n t r e
c o r p o são e m e n t e sã. E m t o d o s os aspectos que m e n -
cionamos, a l i b e r d a d e d e áção é s e m p r e , c o n t u d o , u m
m e i o p a r a l i b e r d a d e d e j u l g a m e n t o e p a r a se p o d e r
p ô r em execução os p r o p ó s i t o s t o m a d o s . V a r i a de
i n d i v í d u o p a r a i n d i v í d u o a q u a n t i d a d e d e l i b e r d a d e
física neces~ária, t e n d e n d o n a t u r a l m e n t e a d e c r e s c e r
c o m a c r e s c e n t e m a t u r i d a d e . A s u a c o m p l e t a ausência
i m p e d e , c o n t u d o , m e s m o a pessoa m a d u r a d e t e r c o n -
t a c t o s indispensáveis a o e x e r c í c i o n o r m a l de s u a i n t e -
l i g ê n c i a . A qu a n t i d a d e e q u a l i d a d e desse t i po de l i v r e
a t i v i d a d e p a r a o c r e s c i m e n t o n o r m a l é p r o b l e m a q u e
d e v e o c u p a r a r e f l e x ã o do e d u c a d o r , e m t o d a s as fases
d e d e s e n v o l v i m e n t o do e d u c a n d o .
N ã o há, e n t r e t a n t o , m a i o r e r r o d o q u e o d e c o n -
s i d e r á - l a um f i m e m si mesma. T e n d e , e n t ã o , a se
f a z e r uma f o r ç a d e s t r u t i v a das a t i v i d a d e s p a r t i c u l a r e s
e c o o p e r a t i v a s , q u e são a f o n t e n o r m a l de o r d e m .
A l é m disto, f a z d a l i b e r d a d e , q u e é a s p e c t o p o s i t i v o
A N A T U R E Z A DE L I B E R D A D E 63
d a v i d a h u m a n a , a l g o d e n e g a t i v o . A l i b e r d a d e de
r e s t r i ç ã o , que é o l a d o n e g a t i v o d e v e s e r v a l o r i z a d a
s o m e n t e c o m o m e i o p a r a a l i b e r d a d e q u e é p o d e r :
p o d e r d e f o r m u l a r p r o p ó s i t o s , de j u l g a r s a b i a m e n t e ,
d e p e s a r os desejos à l u z das c o n s e q ü ê n c i a s q u e a d v i r ã o
d e os a t e n d e r m o s ; p o d e r d e sel e c i o n a r e o r d e n a r os
meios p a r a l e v a r os fins e s c o l h i d o s a b o m t e r m o .
Impulsos e desejos n a t u r ais c o n s t i t u e m em q u a l -
q u e r caso o p o n t o d e p a r t i d a . M a s n ã o há c r e s c i m e n -
t o i n t e l e c t u a l s e m r e c o n s t r u ç ã o , s e m que, de a l g u m
m o d o , a f o r m a em que se m a n i f e s t a m d e i n í c i o esses
desejos e i m p u l s o s s e j a r e v i s t a e r e f e i t a . Essa r e v i s ã o ou
r e e l a b o r a ç ã o e n v o l v e i n i b i ç ã o d o i m p u l s o e m s e u aspec-
t o o r i g i n á r i o . A a l t e r n a t i v a da i n i b i ç ã o p o r i m p o s i ç ã o
e x t e r n a é a i n i b i ç ã o p o r m e i o d a r e f l e x ã o e do j u l g a -
m e n t o do p r ó p r i o i n d i v í d u o . A v e l h a frase " p a r e e
p e n s e " está c e n a p s i c o l q g i c a m e n t e . P e n s a r é, c o m
e f e i t o , p a r a r a p r i m e i r a m a n i f e s t a ç ã o d o i m p u l s o e
b,us~ar p ô - l a _em c o n e x ã o c o m o u t r a s t e n d ê n c i a s p o s -
SlVels d e açao, de m o d o a se f o r m a r plano mais
c o m p r e e n s i v o e c o e r e n t e de ação. A l g u m a s das o u t r a s
t e n d ê n c i a s d e ação l e v a m ao uso da vista, do o u v i d o ,
da mão p a r a e x a m i n a r as c o n d i ç õ e s objetivas; o u t r a s
r e s u l t a m em r e c o r d a r o que s u c e d e u a n t e s , n o passado,
c o m e x p e r i ê n c i a s similares . P e n s a r é, assim, a d i a r - s e
a ação i m e d i a t a , e n q u a n t o a r e f l e x ã o , pela o b s e r v a ç ã o
e p e l a __ m e m ó r i a , e f e t u a o d o m í n i o i n t e r n o do impulso.
A u r u a o d a o b s e r v a ç ã o e d a m e m ó r i a é o c o r a ç ão
da reflexão. T u d o isto e x p l i c a o s e n t i d o d a v e l h a
64 EXPERIÊNCIA E EDUCAÇÃO
expressão "autodomínio", domínio de si mesmo. O
fim ideal da educação é a formação da capacidade de
domínio de si mesmo. Mas a simples supressão do
contxole ou domínio externo não constitui garantia
para se formar a capacidade de "autodomínio". É
fácil pular da frigideira para o fogo. Por outras pala-
vras, é fácil escapar de uma forma de controle externo,
apenas para cair em outra e mais perigosa forma de
domínio @ erno. Os impulsos e desejos, que não são
postos em ordem pela inteligência, estão sob o coman-
do de circunstâncias acidentais. Pode ser antes uma
perda que um ganho, escapar alguém ao controle de
uma outra pessoa, apenas para ter a sua conduta dita-
da pelas imediatas veleidades e caprichos, isto é, à
mercê de impulsos, para cuja formação não contribuiu
o julgamento inteligente. A pessoa cujo comporta-
mento está assim governado - na realidade desgover-
nado - tem, quando múito, a ilusão de liberdade. Na
realidade, está dirigida por forças sobre as quais não
tem comando.
I
VI
QUE É PROPóSITO?
Estamos, portanto, cer_tos qt~ndo instintivamer~_te r(
identi ficamos liberdade com a cap_acid_?de de_ forma_r
propósit?_S e levá-los a._efeito. Tal liberdade, por
sua vez, é idêntica a autodomínio, pois a formação de
propósitos e a organização dos meios para executá-los
resumem o trabalho da inteligência. Platão definiu,
certa vez, o escravo como a pessoa que executa pro-
pósitos de outrem, e, como observamos no capítulo
anterior, uma pessoa é também escrava, quando domi-
nada pelos seus próprios cegos desejos. Não há. penso
eu, ponto mais certo na filosofia de educação pro-
gressiva do que sua ênfase na importância da partici-
pação do educando, na formação dos propósitos que
dirigem suas atividades7 no processo de aprendizagem;
do mesmo modo que não há defeito maior na educa-
ção tradicional do que sua falha em assegurar a coope-
ração ativa do aluno na elaboração dos propósitos
envolvidos no seu estudo. Mas propósitos e fins não
são têrmos evidentes e que se explicam por si mesmos.
Quanto mais se afirma sua importância em educação,
64 EXPERIÊNCIA E EDUCAÇÃO
expressão "autodomínio", domínio de si mesmo. O
fim ideal da educação é a formação da capacidade de
domínio de si mesmo. Mas a simples supressão do
contxole ou domínio externo não constitui garantia
para se formar a capacidade de "autodomínio". É
fácil pular da frigideira para o fogo. Por outras pala-
vras, é fácil escapar de uma forma de controle externo,
apenas para cair em outra e mais perigosa forma de
domínio @ erno. Os impulsos e desejos, que não são
postos em ordem pela inteligência, estão sob o coman-
do de circunstâncias acidentais. Pode ser antes uma
perda que um ganho, escapar alguém ao controle de
uma outra pessoa, apenas para ter a sua conduta dita-
da pelas imediatas veleidades e caprichos, isto é, à
mercê de impulsos, para cuja formação não contribuiu
o julgamento inteligente. A pessoa cujo comporta-
mento está assim governado - na realidade desgover-
nado - tem, quando múito, a ilusão de liberdade. Na
realidade, está dirigida por forças sobre as quais não
tem comando.
I
VI
QUE É PROPóSITO?
Estamos, portanto, cer_tos qt~ndo instintivamer~_te r(
identi ficamos liberdade com a cap_acid_?de de_ forma_r
propósit?_S e levá-los a._efeito. Tal liberdade, por
sua vez, é idêntica a autodomínio, pois a formação de
propósitos e a organização dos meios para executá-los
resumem o trabalho da inteligência. Platão definiu,
certa vez, o escravo como a pessoa que executa pro-
pósitos de outrem, e, como observamos no capítulo
anterior, uma pessoa é também escrava, quando domi-
nada pelos seus próprios cegos desejos. Não há. penso
eu, ponto mais certo na filosofia de educação pro-
gressiva do que sua ênfase na importância da partici-
pação do educando, na formação dos propósitos que
dirigem suas atividades7 no processo de aprendizagem;
do mesmo modo que não há defeito maior na educa-
ção tradicional do que sua falha em assegurar a coope-
ração ativa do aluno na elaboração dos propósitos
envolvidos no seu estudo. Mas propósitos e fins não
são têrmos evidentes e que se explicam por si mesmos.
Quanto mais se afirma sua importância em educação,
66 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç ÃO
t a n t o m a i s s e p r e c i s a c o m p r e e n d e r q u e é u m p r o p ó -
Sito, c o m o s u r g e e c o r n o f w 1 c i o n a n a e x p e r i ê n c i a .
Um p r o p ó s i t o g e n u í n o s e m p r e c o m e ç a p ó r u m
i m p u l s o . A d i f i c u l d a d e o u o b s t r u ç ã o à s u a e x e c u ç ã o
i m e d i a t a c o n v e n e - o e m u m d e s e j o . T o d a v i a , n e m i m -
p u l s o , n e m d e s e j o , s ã o , p o r s i m e s m o s , u m p r o p ó s i t o .
U m p r o p ó s i t o é u m f i m e m v i s t a , i s t o é , e n v o l v e
p r e v i s ã o das c o n s e q ü ê n c i a s q u e r e s u l t a m d e a ç ã o p o r
i m p u l s o . P r e v i s ã o das c o n s e q ü ê n c i a s e n v o l v e a o p e r a -
ç ã o d a i n t e l i g ê n c i a . R e q u e r , e m p r i m e i r o l u g a r , o b s e r -
v a ç ã o d a s c o n d i ç õ e s o b j e t i v a s e d a s c i r c u n s t â n c i a s .
C o m e f e i t o , i m p u l s o e d e s e j o p r o d u z e m c o n s e q ü ê n c i a s ,
q u e v ã o a l é m d e l e s p r ó p r i o s , d e v i d o à s u a i n t e r a ç ã o
o u c o o p e r a ç ã o c o m as c i r c u n s t â n c i a s a m b i e n t e s . O
s i m p l e s i m p u l s o d e a n d a r s ó s e e f e t i v a e m a t i v a c o n -
j u n ç ã o c o m o c h ã o e m q u e n o s a c h a m o s . S o b c o n -
d i ç õ e s o r d i n á r i a s , n ã o t e m o s d e d a r m a i o r a t e n ç ã o a o
s o l o . M a s e m c e r t as s i t u a ç õ e s d i f í c e i s , c o m o a e s c a l a d a
d e u m a m o n t a n h a , s e m c a m i n h o s p r ó p r i o s , h á q u e
o b s e r v a r e t e r m u i t o c u i d a d o . O e x e r c í c i o d a o b s e r -
v a ç ã o é , assim, u m a c o n d i ç ã o p a r a q u e o i m p u l s o possa
t r a n s f o r m a r - s e e m u m p r o p ó s i t o . C o m o n u m a p a s s a -
g e m d e e s t r a d a d e f e r r o , o u n u m c r u z a m e n t o d e u m
s i n a l , t e m o s q u e p a r a r , o l h a r e o u v i r .
M a s a s ó o b s e r v a ç ã o n ã o é b a s t a n t e . T e m o s d e
c o m p r e e n d e r a significação d o q n e v e m o s , o u v i m o s e
t o c a m o s . E s s a s i g n i f i c a - ç ã o c o n s i s t e n a s c o n s e q ü ê n c i a s ,
q u e r e s u l t a m d e n o s s a a ç ã o , e m f a c e e à l u z d o s s i n a i s
Q U E É P R O P Ó S I T O ? 67
q u e v e m o s , o u v i m o s , o u t o c a m o s . U m a c r i a n ç a v ê
o b r i l h o d e u m a c h a m a e s e s e n t e a t r a í d a ( i m p u l s o )
p a r a t o c á - l a . A s i g n i f i c a ç ã o d a c h a m a n ã o é, e n t ã o ,
o s e u b r i l h o mas s e u p o d e r d e q u e i m a r , c o m o c o n s e -
q ü ê n c i a d o a t o d e t o c á - l a . S ó p o d e m o s t e r c o n s c i ê n -
cia, c o n h e c e r as c o n s e q ü ê n c i a s d e v i d o a e x p e r i ê n c i a s
a n t e r i o r e s . E m c a s o s c o m u n s , d e v i d o a m u i t a s e x p e -
r i ê n c i a s a n t e r i o r e s , n ã o h á q u e p a r a r p a r a l e m b r a r
q u a i s f o r a m essas e x p e r i ê n c i a s . A c h a m a passa a s i g -
n i f i c a r l u z e c a l o r , s e m q u e t e n h a m o s d e p e n s a r e x p r e s -
s a m e n t e e m p r é v i a s expe~iências d e c a l o r e q u e i m a d u r a .
M a s , e m c o n d i ç õ e s n o v a s o u p o u c o h a b i t u a i s , n ã o p o -
d e m o s . d i z e r q u a i s as c o n s e q ü ê n c i a s o b s e r v a d a s , s e m
r e c o r d a r e m n o s s a m e n t e e x p e r i ê n c i a s p a s s a d a s e s e m
r e f l e t i r s o b r e elas e a n a l i s a r os a s p e c t o s e m q u e s ã o
s i m i l a r e s à e x p e r i ê n c i a e m c u r s o , a f i m d e p o d e r m o s
c h e g a r a u m j u í z o s o b r e o q u e e s p e r a r d a s i t u a ç ã o
p r e s e n t e .
A f o r m a ç ã o d e p r o p ó s i t o s é, p o n a n t o , o p e r a ç ã o
i n t e l e c t u a l b e m m a i s c o m p l e x a d o q u e p o d e r i a p a r e c e r .
E n v o l v e : 1) o b s e r v a ç ã o das c o n d i ç õ e s e c i r c u n s t â n c i a s
a m b i e n t e s ; 2 ) c o n h e c i m e n t o d o q u e a c o n t e c e u e m s i -
tua.ções s i m i l a r e s ·n o p a s s a d o , c o n h e c i m e n t o o b t i d o , e m
p a r t e_, p e l a l e m b r a n ç a e, e m p a r t e , p e l a i n f o r m a ç ã o , c o n -
selho~ aviso d e c u i d a d o d o s q u e t i v e r a m m a i o r e s e m a i s
a m p l a s e x p e r i ê n c i a s ; e 3 ) j u l g a m e n t o o u j u í z o , o u s e j a ,
a o p e r a ç ã o p e l a q u a l j u n t a m o s . o q u e o b s e r v a m o s e o
q u e r e c o r d a m o s e c o n c l u í m o s s o b r e o q u e s i g n i f i c a t o d a
a situaÇão, p a r a p o d e r m o s t o m a r ; e n t ã o , o p r o p ó s i t o d e
66 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç ÃO
t a n t o m a i s s e p r e c i s a c o m p r e e n d e r q u e é u m p r o p ó -
Sito, c o m o s u r g e e c o r n o f w 1 c i o n a n a e x p e r i ê n c i a .
U m p r o p ó s i t o g e n u í n o s e m p r e c o m e ç a p ó r u m
i m p u l s o . A d i f i c u l d a d e o u o b s t r u ç ã o à s u a e x e c u ç ã o
i m e d i a t a c o n v e n e - o e m u m d e s e j o . T o d a v i a , n e m i m -
p u l s o , n e m d e s e j o , s ã o , p o r s i m e s m o s , u m p r o p ó s i t o .
U m p r o p ó s i t o é u m f i m e m v i s t a , i s t o é , e n v o l v e
p r e v i s ã o das c o n s e q ü ê n c i a s q u e r e s u l t a m d e a ç ã o p o r
i m p u l s o . P r e v i s ã o das c o n s e q ü ê n c i a s e n v o l v e a o p e r a -
ç ã o d a i n t e l i g ê n c i a . R e q u e r , e m p r i m e i r o l u g a r , o b s e r -
v a ç ã o d a s c o n d i ç õ e s o b j e t i v a s e d a s c i r c u n s t â n c i a s .
C o m e f e i t o , i m p u l s o e d e s e j o p r o d u z e m c o n s e q ü ê n c i a s ,
q u e v ã o a l é m d e l e s p r ó p r i o s , d e v i d o à s u a i n t e r a ç ã o
o u c o o p e r a ç ã o c o m as c i r c u n s t â n c i a s a m b i e n t e s . O
s i m p l e s i m p u l s o d e a n d a r s ó s e e f e t i v a e m a t i v a c o n -
j u n ç ã o c o m o c h ã o e m q u e n o s a c h a m o s . S o b c o n -
d i ç õ e s o r d i n á r i a s , n ã o t e m o s d e d a r m a i o r a t e n ç ã o a o
s o l o . M a s e m c e r t as s i t u a ç õ e s d i f í c e i s , c o m o a e s c a l a d a
d e u m a m o n t a n h a , s e m c a m i n h o s p r ó p r i o s , h á q u e
o b s e r v a r e t e r m u i t o c u i d a d o . O e x e r c í c i o d a o b s e r -
v a ç ã o é , assim, u m a c o n d i ç ã o p a r a q u e o i m p u l s o possa
t r a n s f o r m a r - s e e m u m p r o p ó s i t o . C o m o n u m a p a s s a -
g e m d e e s t r a d a d e f e r r o , o u n u m c r u z a m e n t o d e u m
s i n a l , t e m o s q u e p a r a r , o l h a r e o u v i r .
M a s a s ó o b s e r v a ç ã o n ã o é b a s t a n t e . T e m o s d e
c o m p r e e n d e r a significação d o q n e v e m o s , o u v i m o s e
t o c a m o s . E s s a s i g n i f i c a - ç ã o c o n s i s t e n a s c o n s e q ü ê n c i a s ,
q u e r e s u l t a m d e n o s s a a ç ã o , e m f a c e e à l u z d o s s i n a i s
Q U E É P R O P Ó S I T O ? 67
q u e v e m o s , o u v i m o s , o u t o c a m o s . U m a c r i a n ç a v ê
o b r i l h o d e u m a c h a m a es e s e n t e a t r a í d a ( i m p u l s o )
p a r a t o c á - l a . A s i g n i f i c a ç ã o d a c h a m a n ã o é, e n t ã o ,
o s e u b r i l h o mas s e u p o d e r d e q u e i m a r , c o m o c o n s e -
q ü ê n c i a d o a t o d e t o c á - l a . S ó p o d e m o s t e r c o n s c i ê n -
cia, c o n h e c e r as c o n s e q ü ê n c i a s d e v i d o a e x p e r i ê n c i a s
a n t e r i o r e s . E m c a s o s c o m u n s , d e v i d o a m u i t a s e x p e -
r i ê n c i a s a n t e r i o r e s , n ã o h á q u e p a r a r p a r a l e m b r a r
q u a i s f o r a m essas e x p e r i ê n c i a s . A c h a m a passa a s i g -
n i f i c a r l u z e c a l o r , s e m q u e t e n h a m o s d e p e n s a r e x p r e s -
s a m e n t e e m p r é v i a s expe~iências d e c a l o r e q u e i m a d u r a .
M a s , e m c o n d i ç õ e s n o v a s o u p o u c o h a b i t u a i s , n ã o p o -
d e m o s . d i z e r q u a i s as c o n s e q ü ê n c i a s o b s e r v a d a s , s e m
r e c o r d a r e m n o s s a m e n t e e x p e r i ê n c i a s p a s s a d a s e s e m
r e f l e t i r s o b r e elas e a n a l i s a r os a s p e c t o s e m q u e s ã o
s i m i l a r e s à e x p e r i ê n c i a e m c u r s o , a f i m d e p o d e r m o s
c h e g a r a u m j u í z o s o b r e o q u e e s p e r a r d a s i t u a ç ã o
p r e s e n t e .
A f o r m a ç ã o d e p r o p ó s i t o s é, p o n a n t o , o p e r a ç ã o
i n t e l e c t u a l b e m m a i s c o m p l e x a d o q u e p o d e r i a p a r e c e r .
E n v o l v e : 1) o b s e r v a ç ã o das c o n d i ç õ e s e c i r c u n s t â n c i a s
a m b i e n t e s ; 2 ) c o n h e c i m e n t o d o q u e a c o n t e c e u e m s i -
tua.ções s i m i l a r e s ·n o p a s s a d o , c o n h e c i m e n t o o b t i d o , e m
p a r t e_, p e l a l e m b r a n ç a e, e m p a r t e , p e l a i n f o r m a ç ã o , c o n -
selho~ aviso d e c u i d a d o d o s q u e t i v e r a m m a i o r e s e m a i s
a m p l a s e x p e r i ê n c i a s ; e 3 ) j u l g a m e n t o o u j u í z o , o u s e j a ,
a o p e r a ç ã o p e l a q u a l j u n t a m o s . o q u e o b s e r v a m o s e o
q u e r e c o r d a m o s e c o n c l u í m o s s o b r e o q u e s i g n i f i c a t o d a
a situaÇão, p a r a p o d e r m o s t o m a r ; e n t ã o , o p r o p ó s i t o d e
' .
68 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
I ação. O p r o p ó s i t o d i f e r e d e u m i m p u l s o ou desejo o r i g i n a l p o r essa t r a n s l a ç ã o p a r a u m p l a n o e m é t o d o de ação, baseado n a previsão das c o n s e q ü ê n c i a s de a g i r nas c o n d i ç õ e s observadas d e um c e r t o m o d o . " S e d e -
sejos fossem cavalos, m e n d i g o s a n d a r i a m m o n t a d o s . "
U m desejo p o d e s e r i n t e n s o . P o d e ser t ã o f o r t e , q u e
se s o b r e p o n h a à avaliação das c o n s e q ü ê n c i a s q u e se
s e g u i r ã o a satisfazê-lo. T a i s o c o r r ê n c i a s não dão o
m o d e l o p a r a a e d u c a ç ã o . O p r o b l e m a c r u c i a l d a e d u -
cação é o de c o n s e g u i r o a d i a m e n t o da ação i m e d i a t a
e m f a c e d o desejo, a t é que a o b s e r v a ç ã o e o j u lg a m e n -
t o i n t e r v e n h a m e f a ç a m o seu t r a b a l h o . Salvo e n g a n o
meu, este p o n t o é da m a i o r r e l e v â n c i a p a r a as escolas
progressivas. ~nfase excessiva em a t i v i d a d e c o m o fim
e m si, e m v e z da mesma ênfase e m a t i v i d a d e i n t e l i -
g e n t e , t e n d e a l e v a r à i d e n t i f i c a ç ã o d e l i b e r d a d e c o m
e x e c u ç ã o i m e d i a t a de impulsos e desejos. E s t a i d e n t i f i -
cação se j u s t i f i c a , desde q u e se c o n f u n d a i m p u l s o c o m
p r o p ó s i t o, embora, c o m o acabamos d e dizer, n ã o h a j a
p r o p ó s i t o senão q u a n d o a ação é adiada a t é à previsão
das c o n s e q ü ê n c i á s de s e l e v a r a v a n t e o i m p u l s o - pr~
visão q u e não é possível sem o b s e r v a ç ã o , i n f o r m a ç ã o
e conclusão ajuizada. M e r a previsão, a i n d a q u a n d o
c o n s t i t u a p r e d i ç ã o exata, n ã o basta. I m p õ e - s e q u e a
a n t e c i p a ç ã o i n t e l e c t u a l , a idéia das c o n s e q ü ê n c i a s se
m i s t u r e c o m o desejo e o i m p u l s o p a r a a d q u i r i r f o r ç a
de m o v i m e n t o e d a r , e n t ã o , d i r e ç ã o ao q u e seria a t i v i -
dade cega, e n q u a n t o ó desejo d á às idéias í m p e t o e
p r o j e ç ã o . U m a idéia t o r n a - se e n t ã o , u m p l a n o d e e p a r a
,_
I .
fACUL DAOf Of f 9UCAC~O
B I B L I O T E C A
Q U E É P R O P Ó S I T O ? 69
a a t i v i d a d e q u e se vai c o n d u z i r . S u p o n h a - s e u m h o m e m
c o m desejo d e uma n o v a casa q u e , digamos, g o s t a-
r i a d e m a n d a r c o n s t r u i r . P r e c i s a t e r u m a i d é i a da casa
q u e deseja, i n c l u i n d o n ú m e r o e disposição dos c ô -
modos, e t c . T e m q u e t r a ç a r u m e s b o ç o de p l a n t a e
m a n d a r l e v a n t á - l a c o m as e s p e c i f i c a ç õ e s neces sárias.
T u d o isto ser i a uma diversão p a r a t e m p o vago, se n ã o
f i z e r o c á l c u l o dos r e c u r s o s d i s p o n í v e i s p a r a o p r o -
j e t o, e x a m i n a n d o os f u n d o s q u e t e m e o q u e p o d e c o n -
s e g u i r p o r e m p r é s t i m o . T e r á que p r o c u r a r os t e r r e n o s
existentes e e x a m i n a r p r e ç o , p r o x i m i d a d e d e s e u l o c a l
d e t r a b a l h o , v i z i n h a n ç a c o n v e n i e n t e , existência d e es-
cola p e r t o e assim p o r d i a n t e . T u d o isto, c a p a c i d a d e
de pagar, t a m a n h o e necessidades d a família, l o c a l i z a -
ção possível, e t c . , e t c ., são f a t o s o b j e t i v o s . N ã o são
p a r t e do desejo o r i g i n a l , mas t ê m d e s er examinados e
pesados p a r a q u e o desejo se possa c o n v e r t e r em u m
p r o p ó s i t o e o p r o p ó s i t o em u m p l a n o d e ação.
T o d o s t e m o s desejos , t o d os, p e l o menos, q u e n ã o
chegamos a s i t u a ç ã o t ã o p a t o l ó g i c a q u e nos t e n h a m o s
f e i t o c o m p l e t a m e n t e a p á t i cos. E os desejos s ã o as m o -
las ú l t i mas d e ação. O p r o f i s s i o n a l d e s e j a ê x i t o em sua
c a r r e i r a ; o a r t i s t a , r e a l i z a r sua o b r a ; u m pai, t e r casa
p a r a sua família, e d u c a r os filhos e assim p o r d i a n t e ,
i n d e f i n i d a m e n t e . A i n t e n s i d a d e d o desejo d á a m e d i d a
d o v i g o r c o m q u e se f a r ã o os esforços. Mas o s desejos
s e r ã o simples castelos n o a r , e n q u a n t o não se t r a d u -
z i r e m e m m e i o s p a r a a sua realização. A q u e s t ã o d e
c o m o e q u a n d o , o u seja qos meios~ t o m a e n t ã o o l u g a r
' .
68 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
I ação. O p r o p ó s i t o d i f e r e d e u m i m p u l s o ou desejo o r i g i n a l p o r essa t r a n s l a ç ã o p a r a u m p l a n o e m é t o d o de ação, baseado n a previsão das c o n s e q ü ê n c i a s de a g i r nas c o n d i ç õ e s observadas d e um c e r t o m o d o . " S e d e -
sejosfossem cavalos, m e n d i g o s a n d a r i a m m o n t a d o s . "
U m desejo p o d e s e r i n t e n s o . P o d e ser t ã o f o r t e , q u e
se s o b r e p o n h a à avaliação das c o n s e q ü ê n c i a s q u e se
s e g u i r ã o a satisfazê-lo. T a i s o c o r r ê n c i a s não dão o
m o d e l o p a r a a e d u c a ç ã o . O p r o b l e m a c r u c i a l d a e d u -
cação é o de c o n s e g u i r o a d i a m e n t o da ação i m e d i a t a
e m f a c e d o desejo, a t é que a o b s e r v a ç ã o e o j u lg a m e n -
t o i n t e r v e n h a m e f a ç a m o seu t r a b a l h o . Salvo e n g a n o
meu, este p o n t o é da m a i o r r e l e v â n c i a p a r a as escolas
progressivas. ~nfase excessiva em a t i v i d a d e c o m o fim
e m si, e m v e z da mesma ênfase e m a t i v i d a d e i n t e l i -
g e n t e , t e n d e a l e v a r à i d e n t i f i c a ç ã o d e l i b e r d a d e c o m
e x e c u ç ã o i m e d i a t a de impulsos e desejos. E s t a i d e n t i f i -
cação se j u s t i f i c a , desde q u e se c o n f u n d a i m p u l s o c o m
p r o p ó s i t o, embora, c o m o acabamos d e dizer, n ã o h a j a
p r o p ó s i t o senão q u a n d o a ação é adiada a t é à previsão
das c o n s e q ü ê n c i á s de s e l e v a r a v a n t e o i m p u l s o - pr~
visão q u e não é possível sem o b s e r v a ç ã o , i n f o r m a ç ã o
e conclusão ajuizada. M e r a previsão, a i n d a q u a n d o
c o n s t i t u a p r e d i ç ã o exata, n ã o basta. I m p õ e - s e q u e a
a n t e c i p a ç ã o i n t e l e c t u a l , a idéia das c o n s e q ü ê n c i a s se
m i s t u r e c o m o desejo e o i m p u l s o p a r a a d q u i r i r f o r ç a
de m o v i m e n t o e d a r , e n t ã o , d i r e ç ã o ao q u e seria a t i v i -
dade cega, e n q u a n t o ó desejo d á às idéias í m p e t o e
p r o j e ç ã o . U m a idéia t o r n a - se e n t ã o , u m p l a n o d e e p a r a
,_
I .
fACUL DAOf Of f 9UCAC~O
B I B L I O T E C A
Q U E É P R O P Ó S I T O ? 69
a a t i v i d a d e q u e se vai c o n d u z i r . S u p o n h a - s e u m h o m e m
c o m desejo d e uma n o v a casa q u e , digamos, g o s t a-
r i a d e m a n d a r c o n s t r u i r . P r e c i s a t e r u m a i d é i a da casa
q u e deseja, i n c l u i n d o n ú m e r o e disposição dos c ô -
modos, e t c . T e m q u e t r a ç a r u m e s b o ç o de p l a n t a e
m a n d a r l e v a n t á - l a c o m as e s p e c i f i c a ç õ e s neces sárias.
T u d o isto ser i a uma diversão p a r a t e m p o vago, se n ã o
f i z e r o c á l c u l o dos r e c u r s o s d i s p o n í v e i s p a r a o p r o -
j e t o, e x a m i n a n d o os f u n d o s q u e t e m e o q u e p o d e c o n -
s e g u i r p o r e m p r é s t i m o . T e r á que p r o c u r a r os t e r r e n o s
existentes e e x a m i n a r p r e ç o , p r o x i m i d a d e d e s e u l o c a l
d e t r a b a l h o , v i z i n h a n ç a c o n v e n i e n t e , existência d e es-
cola p e r t o e assim p o r d i a n t e . T u d o isto, c a p a c i d a d e
de pagar, t a m a n h o e necessidades d a família, l o c a l i z a -
ção possível, e t c . , e t c ., são f a t o s o b j e t i v o s . N ã o são
p a r t e do desejo o r i g i n a l , mas t ê m d e s er examinados e
pesados p a r a q u e o desejo se possa c o n v e r t e r em u m
p r o p ó s i t o e o p r o p ó s i t o em u m p l a n o d e ação.
T o d o s t e m o s desejos , t o d os, p e l o menos, q u e n ã o
chegamos a s i t u a ç ã o t ã o p a t o l ó g i c a q u e nos t e n h a m o s
f e i t o c o m p l e t a m e n t e a p á t i cos. E os desejos s ã o as m o -
las ú l t i mas d e ação. O p r o f i s s i o n a l d e s e j a ê x i t o em sua
c a r r e i r a ; o a r t i s t a , r e a l i z a r sua o b r a ; u m pai, t e r casa
p a r a sua família, e d u c a r os filhos e assim p o r d i a n t e ,
i n d e f i n i d a m e n t e . A i n t e n s i d a d e d o desejo d á a m e d i d a
d o v i g o r c o m q u e se f a r ã o os esforços. Mas o s desejos
s e r ã o simples castelos n o a r , e n q u a n t o não se t r a d u -
z i r e m e m m e i o s p a r a a sua realização. A q u e s t ã o d e
c o m o e q u a n d o , o u seja qos meios~ t o m a e n t ã o o l u g a r
I • I
.,
..
70 A -E X P E R I E N C I A E E D U C A ÇAO
de u m f i m n a s c i d o e p r o j e t a d o n a i m a g i n a ç ã o e, c o r n o
os m e i os são o b j e t i v o s , t ê m e l es d e set; e s t ud a d os e
c o m p r e e n d i d o s p a r a q u e se -v e n h a a c o n s t i t u i r v e r da -
d e i r o e g e n u í n o p r o p ó s i t o .
A e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l t e n d i a a i g n o r a r a i m p o r -
t â n c i a d o i m p u l s o e desejo pe ssoa l c o r n o dinâmicas
f o n t e s de ação. Mas n ã o será i s t o r azão p ara q u e a
e d u c a ç ã o p r o g r e s s i v a i d e n t i f i q u e i m p u l s o e d ese j o c o m
p r o p ó s i t o e, d e s t e m o d o , se d e s p r e o c u p e d a n ecess i-
dade d e o b s e r v a ç ã o c u i d a d o s a , de l a r g o c o r p o d e i n -
f o r m a ç õ e s , d e análises e j u l g a m e n t o s a d e q u a d o s , p a r a
q u e os e s t u d a n t e s possam p a r t i l h a r d a f o r m a ç ã o d o s
p r o p ó s i t o s q u e os i r ã o g u i a r e m suas a t i v i d a d es e esf o r -
ços. N u m e s q u e m a ~du_~alj_vo, a o c o r r ê n c i a d e u m
d esejo e i m p u l s o n ã o é o b j e t i v o f i n a l . :E: o p o r t u ni d ad e
e d e m a n d a p a r a a f o r m a ç ã o d e u m p l a n o e m é t o do d e
a ç ã o . E s s e p l a n o , r e p e t i m o s , s o m e n t e s e p o d e r á f a z e r
c o m o e s t u d o das c o n d i ç õ e s e c o m a o b t e n ç ã o de t o d a s
as i n f o r m ações r e l e v a n t e s .
O o f í c i o d o r o f e s s o r é v e l a r p o r q u e seja ap r o -
v e i t a d a a o p o r t u n i d a d e . D es de q u e a lib e r d a d e está
nas o p e r a ç õ e s de o b s e r v a ç ã o i n t e l i g e n t e , de b u s c a das
i n f o r mações e de j u l g a m e n t o l ú c i d o p a r a a f o r m a ç ã o
d o p r o p ó s i t o , a d i r e ç ã o d a d a p e l o p r o f esso r p a r a o
exe r c í c i o da i n t e l i g ê n c i a d o a l u n o é a u x í l i o à l i b e r d a d e
e n ã o r e s t r i ç ã o . V ernos, algumas vezes, o m e s t r e r e -
ceoso d e s e q u e r f a z e r ' s u g e s t õ e s aos m e m b r o s d e u m
g r u p o s o b r e o q u e d e v e m f a z e r . T e n h o s a b i d o d e casos
Q U E É P R O P Ó S I T O ? 71
e m q u e as c r i a n ç a s são r o d e a d a s d e o b j e t o s e m a t e r i a i s
e, e n t ã o , deixadas i n t e i r a m e n t e s o b r e si mesmas, c o m
o p r o f e s s o r t e m e r o s o de q u e mesmo sugestões s o b r e o
q u e se p o d e f a z e r c o m o m a t e r i a l s e j a m violação da
l i b e r d a d e . P o r q u e , e n t ã o , d a r - l h es o m a t e r i a l , se o
m e s m o p o d e c o n s t i t u i r , de u m m o d o o u o u t r o , f o n t e
de sugestão ? O i m p o r t a n t e , c o n t u d o , é o f a t o de q u e
a sugestão q u e i r á l e v a r os a l u n o s à ação v irá, e m q u a l -
q u e r caso, de alg u m a p a r t e . :t impossível c o m p r e e n -
d e r p o r q u e a s ug e s t ã o de a lg u é m c o m m a i o r e x p e r i ê n c ia
e mais l a r g a visão ( o m e s t r e ) não seja, pelo m e n o s ,
t ã o vál ida q ua n t o a s u g e s t ã o p r o v i n d a de f o n t e mais
o u m e n o s a c i d e n t a l .
É p ossível, s e m d ú v i d a , a b u s a r - s e d o o f í c i o e
f o r ç a r a a t i v i d a d e dos j o v e n s p o r c a m i n h o s q u e e x p r i -
m e m antes p r o p ó s i t o s do p r o f e s s o r q u e dos a l u n o s .
Mas o m e i o d e e v i t a r este p e r i g o n ã o é a c o m p l e t a
r e t i r a d a d o a d u l t o . O meio é, p r i m e i r o , e~o p r o. :
f e s s o r a p a r , p e l a o b se rvação e e s t u d o i n t e l i g e n t e , das
c a p acidades, necessidades e e x p e r i ê n c i a s passadas dos
q u e vão e s t u d a r , e, s e g u n d o , p e r m i t i r q u e a sugestão
f e i t a se d e s e n v o l v a e m p l a n o e projet~ p o r meio de
s u g e s t õ e s a d i c i o n a i s t r a z i d a s pelos m e m b r o s d o g r u p o
e p o r eles o r g a n i z a d a s em u m t o d o . O p l a n o s e r á ,
e n t ã o , r e s u l t a d o de u m e s f o r ç o de c o o p e r a ç ã o e n ã o
algo d e i m p o sto. A sugestão d o _p r o f e s s o r n ã o é u m
m o l d e p a r a f u n d i r u~ p r o d u t o , mas p o n t o d e p a r t i d a
p a r a s e r c o n t i n u a d o e se t r a n s f o r m a r e m p l a n o p e l a
c o n t r i b u i ç ã o q u e l h e t r a r ã o t o d o s q u e se · a c h a m e m -
I • I
.,
..
70 A -E X P E R I E N C I A E E D U C A ÇAO
de u m f i m n a s c i d o e p r o j e t a d o n a i m a g i n a ç ã o e, c o r n o
os m e i os são o b j e t i v o s , t ê m e l es d e set; e s t ud a d os e
c o m p r e e n d i d o s p a r a q u e se -v e n h a a c o n s t i t u i r v e r da -
d e i r o e g e n u í n o p r o p ó s i t o .
A e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l t e n d i a a i g n o r a r a i m p o r -
t â n c i a d o i m p u l s o e desejo pe ssoa l c o r n o dinâmicas
f o n t e s de ação. Mas n ã o será i s t o r azão p ara q u e a
e d u c a ç ã o p r o g r e s s i v a i d e n t i f i q u e i m p u l s o e d ese j o c o m
p r o p ó s i t o e, d e s t e m o d o , se d e s p r e o c u p e d a n ecess i-
dade d e o b s e r v a ç ã o c u i d a d o s a , de l a r g o c o r p o d e i n -
f o r m a ç õ e s , d e análises e j u l g a m e n t o s a d e q u a d o s , p a r a
q u e os e s t u d a n t e s possam p a r t i l h a r d a f o r m a ç ã o d o s
p r o p ó s i t o s q u e os i r ã o g u i a r e m suas a t i v i d a d es e esf o r -
ços. N u m e s q u e m a ~du_~alj_vo, a o c o r r ê n c i a d e u m
d esejo e i m p u l s o n ã o é o b j e t i v o f i n a l . :E: o p o r t u ni d ad e
e d e m a n d a p a r a a f o r m a ç ã o d e u m p l a n o e m é t o do d e
a ç ã o . E s s e p l a n o , r e p e t i m o s , s o m e n t e s e p o d e r á f a z e r
c o m o e s t u d o das c o n d i ç õ e s e c o m a o b t e n ç ã o de t o d a s
as i n f o r m ações r e l e v a n t e s .
O o f í c i o d o r o f e s s o r é v e l a r p o r q u e seja ap r o -
v e i t a d a a o p o r t u n i d a d e . D es de q u e a lib e r d a d e está
nas o p e r a ç õ e s de o b s e r v a ç ã o i n t e l i g e n t e , de b u s c a das
i n f o r mações e de j u l g a m e n t o l ú c i d o p a r a a f o r m a ç ã o
d o p r o p ó s i t o , a d i r e ç ã o d a d a p e l o p r o f esso r p a r a o
exe r c í c i o da i n t e l i g ê n c i a d o a l u n o é a u x í l i o à l i b e r d a d e
e n ã o r e s t r i ç ã o . V ernos, algumas vezes, o m e s t r e r e -
ceoso d e s e q u e r f a z e r ' s u g e s t õ e s aos m e m b r o s d e u m
g r u p o s o b r e o q u e d e v e m f a z e r . T e n h o s a b i d o d e casos
Q U E É P R O P Ó S I T O ? 71
e m q u e as c r i a n ç a s são r o d e a d a s d e o b j e t o s e m a t e r i a i s
e, e n t ã o , deixadas i n t e i r a m e n t e s o b r e si mesmas, c o m
o p r o f e s s o r t e m e r o s o de q u e mesmo sugestões s o b r e o
q u e se p o d e f a z e r c o m o m a t e r i a l s e j a m violação da
l i b e r d a d e . P o r q u e , e n t ã o , d a r - l h es o m a t e r i a l , se o
m e s m o p o d e c o n s t i t u i r , de u m m o d o o u o u t r o , f o n t e
de sugestão ? O i m p o r t a n t e , c o n t u d o , é o f a t o de q u e
a sugestão q u e i r á l e v a r os a l u n o s à ação v irá, e m q u a l -
q u e r caso, de alg u m a p a r t e . :t impossível c o m p r e e n -
d e r p o r q u e a s u g e s t ã o de a lg u é m c o m m a i o r e x p e r i ê n c ia
e mais l a r g a visão ( o m e s t r e ) não seja, pelo m e n o s ,
t ã o vál ida q ua n t o a s u g e s t ã o p r o v i n d a de f o n t e mais
o u m e n o s a c i d e n t a l .
É p ossível, s e m d ú v i d a , a b u s a r - s e d o o f í c i o e
f o r ç a r a a t i v i d a d e dos j o v e n s p o r c a m i n h o s q u e e x p r i -
m e m antes p r o p ó s i t o s do p r o f e s s o r q u e dos a l u n o s .
Mas o m e i o d e e v i t a r este p e r i g o n ã o é a c o m p l e t a
r e t i r a d a d o a d u l t o . O meio é, p r i m e i r o , e~o p r o. :
f e s s o r a p a r , p e l a o b se rvação e e s t u d o i n t e l i g e n t e , das
c a p acidades, necessidades e e x p e r i ê n c i a s passadas dos
q u e vão e s t u d a r , e, s e g u n d o , p e r m i t i r q u e a sugestão
f e i t a se d e s e n v o l v a e m p l a n o e projet~ p o r meio de
s u g e s t õ e s a d i c i o n a i s t r a z i d a s pelos m e m b r o s d o g r u p o
e p o r eles o r g a n i z a d a s em u m t o d o . O p l a n o s e r á ,
e n t ã o , r e s u l t a d o de u m e s f o r ç o de c o o p e r a ç ã o e n ã o
algo d e i m p o sto. A sugestão d o _p r o f e s s o r n ã o é u m
m o l d e p a r a f u n d i r u~ p r o d u t o , mas p o n t o d e p a r t i d a
p a r a s e r c o n t i n u a d o e se t r a n s f o r m a r e m p l a n o p e l a
c o n t r i b u i ç ã o q u e l h e t r a r ã o t o d o s q u e se · a c h a m e m -
o
72 A -EXPERIENCIA E EDUCAÇAO
penhados no processo de aprendizagem. O desenvol-
vimento se fará por meio de um dar e receber recí-
procos, o professor recebendo mas não tendo medo de
I dar também. O essencial é que o propósito cresça e torne forma por meio do processo de comunicação e inteligência social.
VII
A ORGANIZAÇÃO PROGRESSIVA
DAS MATÉRIAS DE ESTUDO
Já fizemos alusão, várias yezes, de passagem, às
condições objetivas envolvidas no ato de experiência e
à função que têm de promover ou deixar de promover
o enriquecimento individual para novas e sucessivas ex-
periências. Tais condições objetivas, sejam as de obser-
vação, de memória, de informação obtida de outrem, ·
ou as de imaginação, ficaram em nossa análise impli-
citamente identificadas com a matéria de estudo e a
aprendizagem, ou, usando termo mais geral, com a
essência do curso de estudo. Até agora, entretanto,
nada dissemos, explicitamente, sobre as matérias pro-
priamente ditas do currículo. Este será o terna do pre-
sente capítulo.
Urna consideração ressalta claramente sobre as
demais, quando concebemos a educação em termos
de experiência. Tudo que possamos chamar de estudo, ·
seja aritmética, história, geografia ou algumas das ciên-
cias naturais, há de derivar de materiaisque inicial-
mente se encontrem dentro da área de ' experiência da
vida comum. Neste aspecto, a educação nova con-
o
72 A -EXPERIENCIA E EDUCAÇAO
penhados no processo de aprendizagem. O desenvol-
vimento se fará por meio de um dar e receber recí-
procos, o professor recebendo mas não tendo medo de
I dar também. O essencial é que o propósito cresça e torne forma por meio do processo de comunicação e inteligência social.
VII
A ORGANIZAÇÃO PROGRESSIVA
DAS MATÉRIAS DE ESTUDO
Já fizemos alusão, várias yezes, de passagem, às
condições objetivas envolvidas no ato de experiência e
à função que têm de promover ou deixar de promover
o enriquecimento individual para novas e sucessivas ex-
periências. Tais condições objetivas, sejam as de obser-
vação, de memória, de informação obtida de outrem, ·
ou as de imaginação, ficaram em nossa análise impli-
citamente identificadas com a matéria de estudo e a
aprendizagem, ou, usando termo mais geral, com a
essência do curso de estudo. Até agora, entretanto,
nada dissemos, explicitamente, sobre as matérias pro-
priamente ditas do currículo. Este será o terna do pre-
sente capítulo.
Urna consideração ressalta claramente sobre as
demais, quando concebemos a educação em termos
de experiência. Tudo que possamos chamar de estudo, ·
seja aritmética, história, geografia ou algumas das ciên-
cias naturais, há de derivar de materiais que inicial-
mente se encontrem dentro da área de ' experiência da
vida comum. Neste aspecto, a educação nova con-
74 EXPERIÊNCIA E EDUCAÇÃO
trasta radicalmente com os procedimentos tradicionais,
que começam por fatos e verdarles que estão fora da
ordem de experiência dos que vão estudar, os quais,
portanto, têm o problema de descobrir modos e meios
de trazê-los para dentro de sua experiência. Foi, sem
dúvida, uma das principais causas do sucesso dos novos
métodos na educação elementar a observância do prin-
cípio contrário.
Mas achar o material para a aprendizagem dentro
. da experiência é, apenas, o primeiro passo. o· segundo
e os demais passos c·orrespondem ao desdobramento
progressivo do que já foi experimentado, ou seja, o
saber adquirido, de modo a apresentá-o sob forma mais
global, mais rica e também mais organizada, objetivan-
do-se uma aproximação gradual da forma concreta em
que a matéria se apresenta à pessoa habilitada e amadu-
recida. Que esta transformação é possível, sem aban-
donar a conexão orgânica de educação com expe-
riência, comprova-nos o fato de que tal mudança se
dá fora da escola e à parte da educação formal. A
criança, por exemplo, começa por um meio-ambiente
de coisas e pessoas, extremamente restrito em espaço
e tempo. Esse ambiente entra a se expandir movi~o
firmemente pela força inerente à própria experiência,
sem ajuda de qualquer instrução escolar e fom1al. A
medida que a criança aprende a pegar, engatinhar, ca-
minhar e falar, a matéria intrínseca de sua experiência
se amplia e aprofunda . .Entra em contacto com novos
objetos e novos acontecimentos, que requerem novas
A ORGANIZAÇÃO PROGRESSIVA 75
capacidades, as quais, assim exercitadas, refinam e alar-
gam o conteúdo das próprias experiências. O espaço
vital e o tempo vital estão em constante expansão. Q
meio, o mundo da experiência faz-se cada vez maior
e, por assim dizer, mais denso. O educador, ao receber
a criança, no fim desse período, tem de achar os meios
e modos de fazer consciente e deliberadamente o que
a "natureza" realiza nesses primeiros anos.
Dificilmente será necessário insistir sobre a primei-
ra das condições re~eridas. Co~titui princípi~ carde_al I
da mais recente teona de educaçao dever toda mstruçao
iniciar-se pela experiência que o aprendiz já possui:
essa experiência e as capacidades desenvolvidas, durante I
esse período anterior (à escola), fornecem o ponto de
partida de toda aprendizagem posterior. Mas já não
estou tão certo se a segunda condição - ou seja o
desenvolvimento ordenado das atividades escolares de
forma a obter, graças ao crescimento em experiência
do aluno, a expansão e organização da matéria em
estudo - recebe muita atenção. Entretanto, o prin-
cípio de continuidade de experiência educativa requer
que idêntica atenção e cuidado sejam dados à solu-
ção deste aspecto do problema educativo, que é, sem
dúvida, mais difícil que o primeiro. Os que lidam
com a criança pré-escolar, com a criança do jardim
de infância e com as crianças dos primeiros anos de
escola primária não têm grande dificuldade em deter-
minar a ordem da experiência passada ou em encontrar
atividades que se articulem vitalmente com essa expe-
74 EXPERIÊNCIA E EDUCAÇÃO
trasta radicalmente com os procedimentos tradicionais,
que começam por fatos e verdarles que estão fora da
ordem de experiência dos que vão estudar, os quais,
portanto, têm o problema de descobrir modos e meios
de trazê-los para dentro de sua experiência. Foi, sem
dúvida, uma das principais causas do sucesso dos novos
métodos na educação elementar a observância do prin-
cípio contrário.
Mas achar o material para a aprendizagem dentro
. da experiência é, apenas, o primeiro passo. o· segundo
e os demais passos c·orrespondem ao desdobramento
progressivo do que já foi experimentado, ou seja, o
saber adquirido, de modo a apresentá-o sob forma mais
global, mais rica e também mais organizada, objetivan-
do-se uma aproximação gradual da forma concreta em
que a matéria se apresenta à pessoa habilitada e amadu-
recida. Que esta transformação é possível, sem aban-
donar a conexão orgânica de educação com expe-
riência, comprova-nos o fato de que tal mudança se
dá fora da escola e à parte da educação formal. A
criança, por exemplo, começa por um meio-ambiente
de coisas e pessoas, extremamente restrito em espaço
e tempo. Esse ambiente entra a se expandir movi~o
firmemente pela força inerente à própria experiência,
sem ajuda de qualquer instrução escolar e fom1al. A
medida que a criança aprende a pegar, engatinhar, ca-
minhar e falar, a matéria intrínseca de sua experiência
se amplia e aprofunda . .Entra em contacto com novos
objetos e novos acontecimentos, que requerem novas
A ORGANIZAÇÃO PROGRESSIVA 75
capacidades, as quais, assim exercitadas, refinam e alar-
gam o conteúdo das próprias experiências. O espaço
vital e o tempo vital estão em constante expansão. Q
meio, o mundo da experiência faz-se cada vez maior
e, por assim dizer, mais denso. O educador, ao receber
a criança, no fim desse período, tem de achar os meios
e modos de fazer consciente e deliberadamente o que
a "natureza" realiza nesses primeiros anos.
Dificilmente será necessário insistir sobre a primei-
ra das condições re~eridas. Co~titui princípi~ carde_al I
da mais recente teona de educaçao dever toda mstruçao
iniciar-se pela experiência que o aprendiz já possui:
essa experiência e as capacidades desenvolvidas, durante I
esse período anterior (à escola), fornecem o ponto de
partida de toda aprendizagem posterior. Mas já não
estou tão certo se a segunda condição - ou seja o
desenvolvimento ordenado das atividades escolares de
forma a obter, graças ao crescimento em experiência
do aluno, a expansão e organização da matéria em
estudo - recebe muita atenção. Entretanto, o prin-
cípio de continuidade de experiência educativa requer
que idêntica atenção e cuidado sejam dados à solu-
ção deste aspecto do problema educativo, que é, sem
dúvida, mais difícil que o primeiro. Os que lidam
com a criança pré-escolar, com a criança do jardim
de infância e com as crianças dos primeiros anos de
escola primária não têm grande dificuldade em deter-
minar a ordem da experiência passada ou em encontrar
atividades que se articulemvitalmente com essa expe-
7 6 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
r i ê n c i a . J á c o m as c r i a n ç a s de mais i d a d e , a m b o s os
f a t o r e s d o p r o b l e m a o f e r e c e m c r e s c e n t e s d i f i c u l d a d e s
p a r a o e d u c a d o r . É mais d i f í c i l d e s c o b r i r a c o n t e x t u r a
d a e x p e r i ê n c i a passada d o i n d i v í d u o e a i n d a mais d i f í -
c i l a c h a r quais os c o n t e ú d o s - as m a t é r i a s - j á c o n t i -
dos nessa e x p e r i ê n c i a , suscetíveis d e se p r e s t a r e m p a r a
s e r u t i l i z a d o s n a d i r e ç ã o p a r a c a m p o s c a d a v e z mais
a m p l o s e mais o r g a n i z a d o s d e e x p e r i ê n c i a .
É u m e r r o s u p o r q u e o p r i n c í p i o d e c o n t i n u i d a d e
d e e x p e r i ê n c i a , n o s e n t i d o d e q u e a e x p e r i ê n c i a l e v a
s e m p r e a algo d i f e r e n t e d o e s t a d o a n t e r i o r , e s t e j a a d e -
q u a d a m e n t e a t e n d i d o s i m p l e s m e n t e p e l o f a t o de p r o -
porcion~rmos aos a l u n o s novas e x p e r i ê n c i a s , a i n d a m e s -
m o q u a n d o se c u i d e q u e , c o m elas, os a l u n o s g a n h e m
mais de.s t r e z a e f a c i l i d a d e em l i d a r c o m as cousas c o m
q u e j á estão f a m i l i a r i z a d o s . É t a m b_é m essencial q u e os
n o v o s o b j e t o s e a c o n t e c i m e n t o s e s t e j a m i n t e l e c t u a l -
m e n t e r e l a c i o n a d o s c o m os das e x p e r i ê n c i a s a n t e r i o r e s ,
s i g n i f i c a n d o isto q u e a l g u m a v a n ç o t e n h a o c o r r i d o q u a n -
t o à a r t i c u l a ç ã o c o n s c i e n t e de f a t o s e idéias. C a b e assim
ao e d u c a d o r , n o e x e r c í c i o de s u a f u n ç ã o , s e l e c i o n a r as ·
cousas q u e , d e n t r o d a ó r b i t a d a e x p e r i ê n c i a e x i s t e n t e ,
t e n h a m p o s s i b i l i d a d e d e s u s c i t a r n o v o s p r o b l e m a s , os
quais, e s t i m u l a n d o n o v o s m o d o s d e o b s e r v a ç ã o e j u l -
g a m e n t o , a m p l i a r ã o a á r e a p a r a e x p e r i ê n c i a s p o s t e r i o -
res. D e v e ele c o n s t a n t e m e n t e c o n s i d e r a r o q u e já f o i
c o n s e g u i d o n ã o c o m o u m a c o n q u i s t a fixa, mas c o m o
u m a g e n t e , u m i n s t r u m e n t o p a r a a b r i r n o v o s campos,
q u e , p o r sua v e z , s o l i c i t e m n o v a a p l i c a ç ã o d a c a p a c i -
A O R G A N I Z A Ç Ã O P R O G R E S S I V A 77
dade e x i s t e n t e d e o b s e r v a r e de u s a r i n t e l i g e n t e m e n t e
a m e m ó r i a . A s u a p r e o c u p a ç ã o c o n s t a n t e d e v e s e r a
dessa c o n e x ã o dos sucessivos estádios d e c r e s c i m e n t o .
9 e d u c a d o r , mais d o q u e os m~mbroLde_qu!l- \
q u e r o u t r a p r o f i s s ã o , t e m q u e olhar: p a r a o fu!Ufo, q u e
a l i m e n t a r u m a visão d e l o n g o a l c a n c e . O m é d i c o p o d e
c o n s i d e r a r s u a t a r e f a t e r m i n a d a c o m a r e s t a u r a ç ã o d a
s a ú d e d e s e u p a c i e n t e . Sem d ú v i d a , t e m a o b r i g a ç ã o
de i n f o r m á - l o c o m o v i v e r p a r a e v i t a r , n o f u t u r o , s e m e -
l h a n t e s p e r t u r b a ç õ e s d e s u a s a ú d e . Mas, a f i n a l , a v i d a
d o p a c i e n t e n ã o é n e g ó c i o seu, mas d o d o e n t e . E , o
q u e é mais i m p o r t a n t e d o p o n t o d e vista e m q u e
falamos, q u a n d o o m é d i c o se o c u p a c o m e s c l a r e c e r e
a c o n s e l h a r o c l i e n t e q u a n t o ao seu f u t u r o está a s s u m i n -
d o f u n ç õ e s d e e d u c a d o r . O a d v o g a d o t e m d e g a n h a r
a a ç ã o da p a r t e , o u l i v r á - l a d e a l g u m a c o m p l i c a ç ã o
legal em q u e t e n h a c a í d o . Se vai a l é m , faz-se t a m b é m
u m e d u c a d o r . P e l a p r ó p r i a n a t u r e z a d o seu m i n i s t é r i o ,
o e d u c a d o r está o b r i g a d o a v e r o seu t r a b a l h o p r e s e n t e
em t e r m o s d o q u e s i g n i f i c a o u deixa d e s i g n i f i c a r p a r a
n m f u t u r o , c u j o c o n t e ú d o e s t á ligado c o m o p r e s e n t e .
V e m o s , assim, d e n o v o , c o m o o p r o b l e m a d o e d u -
c a d o r n a e s c o l a p r o g r e s s i v a é mais d i f í c i l d o q u e o d o
p r o f e s s o r d a escola t r a d i c i o n a l . E s t e t e m , s e m d ú v i d a ,
q u e o l h a r p a r a a f r e n t e . Mas, a n ã o s e r q u e s u a p e r s o -
n a l i d a d e o u s e u e n t u s i a s m o o l e v e a l é m dos limites
p r e s c r i t o s p e l a e s c o l a t r a d i c i o n a l , p o d e c o n t e n t a r - s e e m
p e n s a r nos p r ó x i m o s exames o u n a p r o m o ç ã o p a r a o
p r ó x i m o a n o . P o d e e n c a r a r o f u t u r o em t e r m o s das
7 6 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
r i ê n c i a . J á c o m as c r i a n ç a s de mais i d a d e , a m b o s os
f a t o r e s d o p r o b l e m a o f e r e c e m c r e s c e n t e s d i f i c u l d a d e s
p a r a o e d u c a d o r . É mais d i f í c i l d e s c o b r i r a c o n t e x t u r a
d a e x p e r i ê n c i a passada d o i n d i v í d u o e a i n d a mais d i f í -
c i l a c h a r quais os c o n t e ú d o s - as m a t é r i a s - j á c o n t i -
dos nessa e x p e r i ê n c i a , suscetíveis d e se p r e s t a r e m p a r a
s e r u t i l i z a d o s n a d i r e ç ã o p a r a c a m p o s c a d a v e z mais
a m p l o s e mais o r g a n i z a d o s d e e x p e r i ê n c i a .
É u m e r r o s u p o r q u e o p r i n c í p i o d e c o n t i n u i d a d e
d e e x p e r i ê n c i a , n o s e n t i d o d e q u e a e x p e r i ê n c i a l e v a
s e m p r e a algo d i f e r e n t e d o e s t a d o a n t e r i o r , e s t e j a a d e -
q u a d a m e n t e a t e n d i d o s i m p l e s m e n t e p e l o f a t o de p r o -
porcion~rmos aos a l u n o s novas e x p e r i ê n c i a s , a i n d a m e s -
m o q u a n d o se c u i d e q u e , c o m elas, os a l u n o s g a n h e m
mais de.s t r e z a e f a c i l i d a d e em l i d a r c o m as cousas c o m
q u e j á estão f a m i l i a r i z a d o s . É t a m b_é m essencial q u e os
n o v o s o b j e t o s e a c o n t e c i m e n t o s e s t e j a m i n t e l e c t u a l -
m e n t e r e l a c i o n a d o s c o m os das e x p e r i ê n c i a s a n t e r i o r e s ,
s i g n i f i c a n d o isto q u e a l g u m a v a n ç o t e n h a o c o r r i d o q u a n -
t o à a r t i c u l a ç ã o c o n s c i e n t e de f a t o s e idéias. C a b e assim
ao e d u c a d o r , n o e x e r c í c i o de s u a f u n ç ã o , s e l e c i o n a r as ·
cousas q u e , d e n t r o d a ó r b i t a d a e x p e r i ê n c i a e x i s t e n t e ,
t e n h a m p o s s i b i l i d a d e d e s u s c i t a r n o v o s p r o b l e m a s , os
quais, e s t i m u l a n d o n o v o s m o d o s d e o b s e r v a ç ã o e j u l -
g a m e n t o , a m p l i a r ã o a á r e a p a r a e x p e r i ê n c i a s p o s t e r i o -
res. D e v e ele c o n s t a n t e m e n t e c o n s i d e r a r o q u e já f o i
c o n s e g u i d o n ã o c o m o u m a c o n q u i s t a fixa, mas c o m o
u m a g e n t e , u m i n s t r u m e n t o pa r a a b r i r n o v o s campos,
q u e , p o r sua v e z , s o l i c i t e m n o v a a p l i c a ç ã o d a c a p a c i -
A O R G A N I Z A Ç Ã O P R O G R E S S I V A 77
dade e x i s t e n t e d e o b s e r v a r e de u s a r i n t e l i g e n t e m e n t e
a m e m ó r i a . A s u a p r e o c u p a ç ã o c o n s t a n t e d e v e s e r a
dessa c o n e x ã o dos sucessivos estádios d e c r e s c i m e n t o .
9 e d u c a d o r , mais d o q u e os m~mbroLde_qu!l- \
q u e r o u t r a p r o f i s s ã o , t e m q u e olhar: p a r a o fu!Ufo, q u e
a l i m e n t a r u m a visão d e l o n g o a l c a n c e . O m é d i c o p o d e
c o n s i d e r a r s u a t a r e f a t e r m i n a d a c o m a r e s t a u r a ç ã o d a
s a ú d e d e s e u p a c i e n t e . Sem d ú v i d a , t e m a o b r i g a ç ã o
de i n f o r m á - l o c o m o v i v e r p a r a e v i t a r , n o f u t u r o , s e m e -
l h a n t e s p e r t u r b a ç õ e s d e s u a s a ú d e . Mas, a f i n a l , a v i d a
d o p a c i e n t e n ã o é n e g ó c i o seu, mas d o d o e n t e . E , o
q u e é mais i m p o r t a n t e d o p o n t o d e vista e m q u e
falamos, q u a n d o o m é d i c o se o c u p a c o m e s c l a r e c e r e
a c o n s e l h a r o c l i e n t e q u a n t o ao seu f u t u r o está a s s u m i n -
d o f u n ç õ e s d e e d u c a d o r . O a d v o g a d o t e m d e g a n h a r
a a ç ã o da p a r t e , o u l i v r á - l a d e a l g u m a c o m p l i c a ç ã o
legal em q u e t e n h a c a í d o . Se vai a l é m , faz-se t a m b é m
u m e d u c a d o r . P e l a p r ó p r i a n a t u r e z a d o seu m i n i s t é r i o ,
o e d u c a d o r está o b r i g a d o a v e r o seu t r a b a l h o p r e s e n t e
em t e r m o s d o q u e s i g n i f i c a o u deixa d e s i g n i f i c a r p a r a
n m f u t u r o , c u j o c o n t e ú d o e s t á ligado c o m o p r e s e n t e .
V e m o s , assim, d e n o v o , c o m o o p r o b l e m a d o e d u -
c a d o r n a e s c o l a p r o g r e s s i v a é mais d i f í c i l d o q u e o d o
p r o f e s s o r d a escola t r a d i c i o n a l . E s t e t e m , s e m d ú v i d a ,
q u e o l h a r p a r a a f r e n t e . Mas, a n ã o s e r q u e s u a p e r s o -
n a l i d a d e o u s e u e n t u s i a s m o o l e v e a l é m dos limites
p r e s c r i t o s p e l a e s c o l a t r a d i c i o n a l , p o d e c o n t e n t a r - s e e m
p e n s a r nos p r ó x i m o s exames o u n a p r o m o ç ã o p a r a o
p r ó x i m o a n o . P o d e e n c a r a r o f u t u r o em t e r m o s das
78 EXPERIÊNCIA E EDUCAÇÃO
exigências contidas dentro do sistema escolar tal como
está convencio~almente estábelecido. Ao mestre que
liga a educação à experiência atual incumbe tarefa, ao
mesmo tempo, mais séria e mais difícil. Cumpre-lhe
estar atento às potencialidades contidas na experiência
existente para guiar os estudantes a novos campos e
usar o conhecimento dessas potencialidades como seu
critério para selecionar e organizar as condições que
influenciem a presente experiência dos alunos.
Porque os estudos da escola tradicional consistiam
de matéria selecionada e organizada na base do que
julgaria o adulto ser útil ao jovem em algum tempo do
futuro, a matéria a ser aprendida era estabelecida
independente e fora da experiência de vida do aluno.
Relacionava-se assim com o passado; era a matéria
que se tinha revelado no passado útil e necessária aos
homens. Por uma reação para o extremo oposto, reação
. tão infeliz quanto, talvez, natural ante as circunstâncias,
a idéia, sem dúvida correta, de que a educação deve re-
tirar o material para o seu processo de experiência pre-
sente, cabendo-lhe capacitar o aprendiz a se haver com
os problemas do presente e do futuro, tem sido, fre-
qüentemente, convertida na idéia de que as escolas
progressivas podem, em larga extensão, ignorar o pas-
sado. Se o presente pudesse ser separado do passado,
tal conclusão seria válida. Mas as realizações do pas-
sado constituem o único meio a nosso alcance para
compreender o presenté. Assim como o indivíduo tem
de recorrer à sua própria memória do passado para
fACUlDAGE VE E9UCAC·.;
BIBLIOTECA
A ORGANIZAÇÃO PROGRESSIVA 79
compreender as condições em que individualmente se
encontra, assim as questões e problemas da presente
vida social estão em tão íntima e direta conexão com
o passado, que os estudantes não podem se preparar
para compreender nem os problemas e questões em si
mesmos, nem o melhor meio de lidar com eles, sem
mergulhar em suas raízes no passado. Em outras pa-
la_vras, o princípio certo de que os objetivos da apren-
diZagem estão no futuro e sua matéria imediata está
em experiência presente só estará sendo aplicado, na
medida em que a experiência presente seja, por dizê-lo,
repuxada para trás. E somente poderá expandir-se pelo
futuro se também alargar-se a ponto de üicluir o pas-
sado.
Se o espaço permitisse, a discussão dos problemas
políticos e econômicos que a geração presente terá de
enfrentar no futuro tornaria esta generalização definida
e concreta. A natureza de tais problemas não pode
ser compreendida se não soubermos como eles surai-l:l
ram. As instituições e costumes que existem presente-
mente e dão lugar às distorções e males do presente
não nasceram de um dia para outro. Têm, pelo con-
trário, uma longa história. As tentativas de tratá-los
na base, simplesmente, do que parece óbvio no pre-
sente, resultam fatalmente na adoção de medidas su-
perficiais que, no fim, tornam apenas os problemas
atuais mais agudos e mais difíceis de resolver. Políticas
formuladas simplesmente na base do conhecimento do
presente desligado do passado são, do ponto de vista
78 EXPERIÊNCIA E EDUCAÇÃO
exigências contidas dentro do sistema escolar tal como
está convencio~almente estábelecido. Ao mestre que
liga a educação à experiência atual incumbe tarefa, ao
mesmo tempo, mais séria e mais difícil. Cumpre-lhe
estar atento às potencialidades contidas na experiência
existente para guiar os estudantes a novos campos e
usar o conhecimento dessas potencialidades como seu
critério para selecionar e organizar as condições que
influenciem a presente experiência dos alunos.
Porque os estudos da escola tradicional consistiam
de matéria selecionada e organizada na base do que
julgaria o adulto ser útil ao jovem em algum tempo do
futuro, a matéria a ser aprendida era estabelecida
independente e fora da experiência de vida do aluno.
Relacionava-se assim com o passado; era a matéria
que se tinha revelado no passado útil e necessária aos
homens. Por uma reação para o extremo oposto, reação
. tão infeliz quanto, talvez, natural ante as circunstâncias,
a idéia, sem dúvida correta, de que a educação deve re-
tirar o material para o seu processo de experiência pre-
sente, cabendo-lhe capacitar o aprendiz a se haver com
os problemas do presente e do futuro, tem sido, fre-
qüentemente, convertida na idéia de que as escolas
progressivas podem, em larga extensão, ignorar o pas-
sado. Se o presente pudesse ser separado do passado,
tal conclusão seria válida. Mas as realizações do pas-
sado constituem o único meio a nosso alcance para
compreender o presenté. Assim como o indivíduo tem
de recorrer à sua própria memória do passado para
fACUlDAGE VE E9UCAC·.;
BIBLIOTECA
A ORGANIZAÇÃO PROGRESSIVA 79
compreender as condições em que individualmente se
encontra, assim as questões e problemas da presente
vida social estão em tão íntima e direta conexão com
o passado, que os estudantes não podem se prepararpara compreender nem os problemas e questões em si
mesmos, nem o melhor meio de lidar com eles, sem
mergulhar em suas raízes no passado. Em outras pa-
la_vras, o princípio certo de que os objetivos da apren-
diZagem estão no futuro e sua matéria imediata está
em experiência presente só estará sendo aplicado, na
medida em que a experiência presente seja, por dizê-lo,
repuxada para trás. E somente poderá expandir-se pelo
futuro se também alargar-se a ponto de üicluir o pas-
sado.
Se o espaço permitisse, a discussão dos problemas
políticos e econômicos que a geração presente terá de
enfrentar no futuro tornaria esta generalização definida
e concreta. A natureza de tais problemas não pode
ser compreendida se não soubermos como eles surai-l:l
ram. As instituições e costumes que existem presente-
mente e dão lugar às distorções e males do presente
não nasceram de um dia para outro. Têm, pelo con-
trário, uma longa história. As tentativas de tratá-los
na base, simplesmente, do que parece óbvio no pre-
sente, resultam fatalmente na adoção de medidas su-
perficiais que, no fim, tornam apenas os problemas
atuais mais agudos e mais difíceis de resolver. Políticas
formuladas simplesmente na base do conhecimento do
presente desligado do passado são, do ponto de vista
.·
80 E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
social, o mesmo que, do p o n t o de vista individual é
o c o m p o n a m e n t o pessoal descuidado e i r r e f l e t i d o . O
meio de escapar dos sistemas escolásticos q u e , f i z e r a m
d o passado u m f i m e m si mesmo é f a z e r do c o n h e c i -
m e n t o do passado u m meio de c o m p r e e n s ã o do p r e s e n -
te. E n q u a n t o este p r o b l e m a não f o r resolvido, persis-
t i r á o p r e s e n t e · c o n f l i t o de idéias e p r á t i c a s educativas.
D e u m lado, teremos os reacionários a c l a m a r q u e o
p r i n c i p a l , se n ã o o ú n i c o , o b j e t i v o da e d u c a ç ã o é a
transmissão da h e r a n ç a c u l t u r a l . D o o u t r o lado, t e r e -
mos os q u e s u s t e n t a m q u e devemos i g n o r a r o passado
c t r a t a r apenas do p r e s e n t e e do f u t u r o .
Considero t e r sido inevitável, nas c i r c u n s t â n c i a s
históricas do seu desenvolvimneto, o f a t o de haver-se
c o n s t i t u í d o a q u e s t ã o da seleção e organização i n t e -
l e c t u a l da m a t é r i a de estudo o p o n t o mais f r a c o , até
o p r e s e n t e , do m o v i m e n t o da escola progressiva. F o i
t:ão inevitável q u a n t o foi direita e c e n a a sua r u p t u r a
r a d i c a l c o m o ~ateria! isolado e estéril q u e c o n s t i -
t u í a o f u l c r o , o s u s t e n t á c u l o da e d u c a ç ã o velha. A l é m
disto, a s u b s t i t u i ç ã o das matérias pela e x p e r i ê n c i a i m -
p o r t a v a e m se t e r e m c o n t a c a m p o m u i t o mais a m p l o ,
c u j o c o n t e ú d o varia de l u g a r p a r a l u g a r e de t e m p o
p a r a t e m p o . U i n ú n i c o curso de e s t u d o p a r a todas as
escolas progressivas é c o u s a impossível; seria a b a n d o n a r
o . p r i n c í p i o f u n d a m e n t a l da conexão da e d u c a ç ã o c o m
experiências de vida. P o r o u t r o lado, as escolas p r o -
gressivas são novas . P o u c o mais t ê m q u e uma g e r a ç ã o
de desenvolvimento. A l g u m a i n c e r t e z a e falta de segu-
A ORGANIZAÇAO PROGRESSIVA 81
r a n ç a n a escolha e organização da m a t é r i a d : ~tudo
e r a , p o r t a n t o , cousa de esperar. N ã o c o n s m m ·base
p a r a c r í t i c a f u n d a m e n t a l .
Se, e n t r e t a n t o , o m o v i m e n t o de e d u c a ç ã o p r o g r e s -
siva deixar de r e c o n h e c e r q u e o . P-roblema de sele~
e organiz_ação da m a t é r i a -p a r a e s t u d o_ Lful! . .dam.e.Jltal,
d a r ª m o t i v o p a r a c r í t i c a l e g í t i m a . A improvtsaç~o q u e
se a p r o v e i t a de ocasiões especiais p a r a a a~rendiZagem
i m p e d e q u e o ensino seja m o r t o e estereottpad~. Mas
o material básico de estudo n ã o p o d e s e r c o l h t d o de ,
m a n e i r a a c i d e n t a l e desordenada. S e m p r e q u e haja
l i b e r d a d e i n t e l e c t u a l , s u r g i r ã o o p o n u n i d a d e s q u e n ã o
são n e m p o d e m s e r previstas e q u e deve~ . s : r utiliza-
das. Mas há manifesta d i f e r e n ç a e n t r e utthza-las p a r a
o desenvolvimento de uma linha c o n t Í n u a de atividade
e c o n f i a r q u e elas próprias f o r n e ç a m a m a t é r i a p~in
cipal da a p r e n d i z a g e m .
A não s e r q u e dada e x p e r i ê n c i a C<?nduza a campo
n ã o p r e v i a m e n t e c o n h e c i d o , não s u r g i r ã o problemas e
sem problemas n ã o h a v e r á estímulos p a r a P~?sa:. O
q u e distingue a e d u c a ç ã o baseada e m expen:~cta da
e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l ·é o f a t o de q u e as c~ndtç~~ e n -
c o n t r a d a s n a e x p e r i ê n c i a a t u a l do a l u n o sao .u n h z a d a s
c o m o f o n t e s de problemas. N a escola t r a d i c i o n a l , a
f o n t e dos problemas está f o r a da e x p e r i ê n c i a d o a l u n o .
D e q u a l q u e r m o d o , .c o n t u d o , o· c r e s c i m e n t o me~ t a l
d e p e n d e da p r e s e n ç a de d i f i c u l d a d e s .a serem v~nctdas
pelo e x e r c í c i o da inteligência. R e p t t a m o s mats u m a
vez. É da responsabilidade d o e d u c a d o r t e r s e m p r e
.·
80 E X P E R I Ê N C I A E EDUCAÇÃO
social, o mesmo que, do p o n t o de vista individual é
o c o m p o n a m e n t o pessoal descuidado e i r r e f l e t i d o . O
meio de escapar dos sistemas escolásticos q u e , f i z e r a m
d o passado u m f i m e m si mesmo é f a z e r do c o n h e c i -
m e n t o do passado u m meio de c o m p r e e n s ã o do p r e s e n -
te. E n q u a n t o este p r o b l e m a não f o r resolvido, persis-
t i r á o p r e s e n t e · c o n f l i t o de idéias e p r á t i c a s educativas.
D e u m lado, teremos os reacionários a c l a m a r q u e o
p r i n c i p a l , se n ã o o ú n i c o , o b j e t i v o da e d u c a ç ã o é a
transmissão da h e r a n ç a c u l t u r a l . D o o u t r o lado, t e r e -
mos os q u e s u s t e n t a m q u e devemos i g n o r a r o passado
c t r a t a r apenas do p r e s e n t e e do f u t u r o .
Considero t e r sido inevitável, nas c i r c u n s t â n c i a s
históricas do seu desenvolvimneto, o f a t o de haver-se
c o n s t i t u í d o a q u e s t ã o da seleção e organização i n t e -
l e c t u a l da m a t é r i a de estudo o p o n t o mais f r a c o , até
o p r e s e n t e , do m o v i m e n t o da escola progressiva. F o i
t:ão inevitável q u a n t o foi direita e c e n a a sua r u p t u r a
r a d i c a l c o m o ~ateria! isolado e estéril q u e c o n s t i -
t u í a o f u l c r o , o s u s t e n t á c u l o da e d u c a ç ã o velha. A l é m
disto, a s u b s t i t u i ç ã o das matérias pela e x p e r i ê n c i a i m -
p o r t a v a e m se t e r e m c o n t a c a m p o m u i t o mais a m p l o ,
c u j o c o n t e ú d o varia de l u g a r p a r a l u g a r e de t e m p o
p a r a t e m p o . U i n ú n i c o curso de e s t u d o p a r a todas as
escolas progressivas é c o u s a impossível; seria a b a n d o n a r
o . p r i n c í p i o f u n d a m e n t a l da conexão da e d u c a ç ã o c o m
experiências de vida. P o r o u t r o lado, as escolas p r o -
gressivas são novas . P o u c o mais t ê m q u e uma g e ra ç ã o
de desenvolvimento. A l g u m a i n c e r t e z a e falta de segu-
A ORGANIZAÇAO PROGRESSIVA 81
r a n ç a n a escolha e organização da m a t é r i a d : ~tudo
e r a , p o r t a n t o , cousa de esperar. N ã o c o n s m m ·base
p a r a c r í t i c a f u n d a m e n t a l .
Se, e n t r e t a n t o , o m o v i m e n t o de e d u c a ç ã o p r o g r e s -
siva deixar de r e c o n h e c e r q u e o . P-roblema de sele~
e organiz_ação da m a t é r i a -p a r a e s t u d o_ Lful! . .dam.e.Jltal,
d a r ª m o t i v o p a r a c r í t i c a l e g í t i m a . A improvtsaç~o q u e
se a p r o v e i t a de ocasiões especiais p a r a a a~rendiZagem
i m p e d e q u e o ensino seja m o r t o e estereottpad~. Mas
o material básico de estudo n ã o p o d e s e r c o l h t d o de ,
m a n e i r a a c i d e n t a l e desordenada. S e m p r e q u e haja
l i b e r d a d e i n t e l e c t u a l , s u r g i r ã o o p o n u n i d a d e s q u e n ã o
são n e m p o d e m s e r previstas e q u e deve~ . s : r utiliza-
das. Mas há manifesta d i f e r e n ç a e n t r e utthza-las p a r a
o desenvolvimento de uma linha c o n t Í n u a de atividade
e c o n f i a r q u e elas próprias f o r n e ç a m a m a t é r i a p~in
cipal da a p r e n d i z a g e m .
A não s e r q u e dada e x p e r i ê n c i a C<?nduza a campo
n ã o p r e v i a m e n t e c o n h e c i d o , não s u r g i r ã o problemas e
sem problemas n ã o h a v e r á estímulos p a r a P~?sa:. O
q u e distingue a e d u c a ç ã o baseada e m expen:~cta da
e d u c a ç ã o t r a d i c i o n a l ·é o f a t o de q u e as c~ndtç~~ e n -
c o n t r a d a s n a e x p e r i ê n c i a a t u a l do a l u n o sao .u n h z a d a s
c o m o f o n t e s de problemas. N a escola t r a d i c i o n a l , a
f o n t e dos problemas está f o r a da e x p e r i ê n c i a d o a l u n o .
D e q u a l q u e r m o d o , .c o n t u d o , o· c r e s c i m e n t o me~ t a l
d e p e n d e da p r e s e n ç a de d i f i c u l d a d e s .a serem v~nctdas
pelo e x e r c í c i o da inteligência. R e p t t a m o s mats u m a
vez. É da responsabilidade d o e d u c a d o r t e r s e m p r e
82 E X P E R I Ê N C I A E E DUCAÇÃO
A • r: l · · bl em VIsta estes \QQ.)S p o n t o s : p n m e t r o , q u e o p r o .e m a
s u r j a das c o n d i ç õ e s d a ex p e r i ê n c i a p r e s e n t e e e s t e j a d e n -
.(. t r o d a c a p a c i d a d e dos e s t u d a n t e s ; e, s e g u n d o , q u e s e j a
tal q u e d e s p e r t e n o a p r e n d i z uma b u s c a a t i v a p o r i n f o r -
m a ç ã o e p o r novas idéias . O s n ovos f a t o s e novas idéias,
assim o b t i d o s , se fazem c a m p o p a r a novas e x p e r i ê n c i a s ,
em ' q u e n o v os p r o b l e m a s v ê m a su r g i r . O p r o c e s s o é
u m a c o n t i n u a es p i r a l . A li gação i n a l t e r á v e l e n t r e o
p r e s e n t e e o pas sa d o n ã o c o n sti t u i p r i n c í p i o q u e esteja
\
r e s t r i t o ao e s t u d o d a h i s t ó r i a . T o r n e m o s as c i ê ncias
n a t u r a i s . A v i d a social c o n t e m p o r â n e a é o q u e é e m
l a r g a m e d i d a d e v i d o aos r esu lt a dos da aplicação da
c i ê n c i a física. A e x p e r i ê n c i a de cad a c r i a n ç a o u j o -
v e m , n o c a m p o o u n a c i d a d e , é o q u e é n a s u a a t u a l
r e a l i d a d e d e v i d o a e q u i p a m e n t o s e r vi d o p o r e l e t ri c i -
d a d e , c a l o r e processos q u í m i c o s . U m a c r i an ç a n ã o
t o m a u m a r efe iç ã o q u e n ã o e n v o lva e m s u a p rep a r a ç ã o
e ass imila ção p r i n d pios q u í m i cos e fisiológic os. N ã o
l ê p or l u z a r t i f i c ial, o u dá u m p asseio d e a u t o m ó v e l
o u t r e m , sem e n t r a r em c o n t a c t o c o m o p e r a ç õ e s e
p r o c e s s o s q u e a c i ê n c i a e n g e n d r o u .
É u m são p r i n c i p i o e d u c a t i v o q u e os e s t u d a n t e s
deve m s e r i n t r od uz idos ao e s t u d o da c i ê n c i a e i n i c i a -
dos em seus f a t o s e leis, p o r meio d o c o n h e c i m e n t c
de suas aplicações n a v i d a q u o t i d i a n a . A adesão a este
m é t o d o n ã o só c o n s t i t u i a via mais d i r e t a p a r a a c o m -
p r e e n s ã o d a p r ó p r i a c i ê n c i a , c o m o é t a m b é m o mais
seg u r o c a m i n h o p a r a ' a c o m p r e e n s ã o dos p r o b l e m a s
eco n ô m i c os e i n d u s t r i a i s da socie da de p r esente. C o m
A ORGAN I Z A Ç Ã O P R OGRESS IVA 83
e f e i to , tais p r o b lemas são p r o d u t o , e m l a r g a escala , d a
a p l i c a ç ã o da c i ê n c i a n a p r o d u ç ão e dist r i b u i ç ão d e
b e n s e s e r v i ç o s e os p rocessos d e p r o d u ç ã o e d i s t r i -
b u i ç ã o são o f a t o r m a is i m p o r t a n t e em d e t e r m i n a r as
a t u a is r e l a ç õ e s dos seres h u m a n o s e dos g r u p o s sociais
e n t r e si. É a b s u r d o, p o r t a n t o , a r g u m e n t a r q u e p r o -
cessos similares aos est u d a d o s em lab o r a t ó r i o s e i n s t i -
t u t o s de pesquisa n ã o sejam p a r t e das e x p e r i ê n c i a s da
v i d a q u o t i d i a n a dos jovens e, p o r t a n t o , n ã o c a e m n o
c a m p o de u m a e d u c a ç ã o baseada n a e x p e r i ê n c i a . É
ó b v i o q u e o i m a t u r o n ã o p o d e e s t u d a r f a t o s e p r i n -
c í p i o s c ien t í f i c o s d o m o d o p o r q u e os e s t u d a m os
especialistas a m a d u r e c i d o s . Mas is t o n ã o exi m e o e d u -
c a d o r da r e s p o n s a b i l i d a d e d e a p r o v e i t a r e x p e ri ê n c i a s
p r e s e n t e s d e m o d o t a l a l e v a r os e s t ud an tes, g r a d u a l -
m e n t e, pelo esclare c i m e n t o d e f a t o s e leis nelas c o n t i -
dos , à ex p e r i ê n c i a d e o r d e m c i e n t í f i c a . A o i n v é s d e
eximi-lo dessa r esponsa b i l i d a d e , o f a t o l eva n t a u m dos
seus maiores p r o b l e m a s .
P o r q u e , s e n d o a p r e s e n t e e x p e r i ê n c i a d o e s t u d a n t e ,
t a n t o em p a r t i c u l a r q u a n t o e m g e r a l , o q u e é, d e v i d o à
a p l i c a ç ã o d a c i ê n c i a aos p r o c essos d e p r o d u ç ã o e d is -
t r i b u i ç ã o de b e n s e s e r v i ç o s e, d e p ois, às r e l a ç õ es q u e
os h o m e n s m a n t ê m soc i a l m e n t e u n s c o m os o u t r os,
se r á i m p o s s í v e l u m a c o m p r e e n s ã o das f o r ç a s socia is
p resen t e s ( c o m p r e e n s ã o i n d i s p e n s á v el p a r a se p o d e r
c o m a n d á - l a s e d i r i g i - l a s ) à p a r t e d e u m a e d u c a ç ã o q u e
lev e os es t u d a n t e s ao c o n h e c i m e n t o dos p r ó p r i o s f a t os
e p r i n c ípios q u e , e m sua o r g a n i z a ç ã o final, c o n s t i t u e m
82 E X P E R I Ê N C I A E E DUCAÇÃO
A • r: l · · bl em VIsta estes \QQ.)S p o n t o s : p n m e t r o , q u e o p r o .e m a
s u r j a das c o n d i ç õ e s d a ex p e r i ê n c i a p r e s e n t e e e s t e j a d e n -
.(. t r o d a c a p a c i d a d e dos e s t u d a n t e s ; e, s e g u n d o , q u e s e j a
tal q u e d e s p e r t e n o a p r e n d i z uma b u s c a a t i v a p o r i n f o r -
m a ç ã o e p o r novas idéias . O s n ovos f a t o s e novas idéias,
assim o b t i d o s , se fazem c a m p o p a r a novas e x p e r i ê n c i a s ,
em ' q u e n o v os p r o b l e m a s v ê m a sur g i r . O p r o c e s s o é
u m a c o n t i n u a es p i r a l . A li gação i n a l t e r á v e l e n t r e o
p r e s e n t e e o pas sa d o n ã o c o n sti t u i p r i n c í p i o q u e esteja
\
r e s t r i t o ao e s t u d o d a h i s t ó r i a . T o r n e m o s as c i ê ncias
n a t u r a i s . A v i d a social c o n t e m p o r â n e a é o q u e é e m
l a r g a m e d i d a d e v i d o aos r esu lt a dos da aplicação da
c i ê n c i a física. A e x p e r i ê n c i a de cad a c r i a n ç a o u j o -
v e m , n o c a m p o o u n a c i d a d e , é o q u e é n a s u a a t u a l
r e a l i d a d e d e v i d o a e q u i p a m e n t o s e r vi d o p o r e l e t ri c i -
d a d e , c a l o r e processos q u í m i c o s . U m a c r i an ç a n ã o
t o m a u m a r efe iç ã o q u e n ã o e n v o lva e m s u a p rep a r a ç ã o
e ass imila ção p r i n d pios q u í m i cos e fisiológic os. N ã o
l ê p or l u z a r t i f i c ial, o u dá u m p asseio d e a u t o m ó v e l
o u t r e m , sem e n t r a r em c o n t a c t o c o m o p e r a ç õ e s e
p r o c e s s o s q u e a c i ê n c i a e n g e n d r o u .
É u m são p r i n c i p i o e d u c a t i v o q u e os e s t u d a n t e s
deve m s e r i n t r od uz idos ao e s t u d o da c i ê n c i a e i n i c i a -
dos em seus f a t o s e leis, p o r meio d o c o n h e c i m e n t c
de suas aplicações n a v i d a q u o t i d i a n a . A adesão a este
m é t o d o n ã o só c o n s t i t u i a via mais d i r e t a p a r a a c o m -
p r e e n s ã o d a p r ó p r i a c i ê n c i a , c o m o é t a m b é m o mais
seg u r o c a m i n h o p a r a ' a c o m p r e e n s ã o dos p r o b l e m a s
eco n ô m i c os e i n d u s t r i a i s da socie da de p r esente. C o m
A ORGAN I Z A Ç Ã O P R OGRESS IVA 83
e f e i to , tais p r o b lemas são p r o d u t o , e m l a r g a escala , d a
a p l i c a ç ã o da c i ê n c i a n a p r o d u ç ão e dist r i b u i ç ão d e
b e n s e s e r v i ç o s e os p rocessos d e p r o d u ç ã o e d i s t r i -
b u i ç ã o são o f a t o r m a is i m p o r t a n t e em d e t e r m i n a r as
a t u a is r e l a ç õ e s dos seres h u m a n o s e dos g r u p o s sociais
e n t r e si. É a b s u r d o, p o r t a n t o , a r g u m e n t a r q u e p r o -
cessos similares aos est u d a d o s em lab o r a t ó r i o s e i n s t i -
t u t o s de pesquisa n ã o sejam p a r t e das e x p e r i ê n c i a s da
v i d a q u o t i d i a n a dos jovens e, p o r t a n t o , n ã o c a e m n o
c a m p o de u m a e d u c a ç ã o baseada n a e x p e r i ê n c i a . É
ó b v i o q u e o i m a t u r o n ã o p o d e e s t u d a r f a t o s e p r i n -
c í p i o s c ien t í f i c o s d o m o d o p o r q u e os e s t u d a m os
especialistas a m a d u r e c i d o s . Mas is t o n ã o exi m e o e d u -
c a d o r da r e s p o n s a b i l i d a d e d e a p r o v e i t a r e x p e ri ê n c i a s
p r e s e n t e s d e m o d o t a l a l e v a r os e s t ud an tes, g r a d u a l -
m e n t e, pelo esclare c i m e n t o d e f a t o s e leis nelas c o n t i -
dos , à ex p e r i ê n c i a d e o r d e m c i e n t í f i c a . A o i n v é s d e
eximi-lo dessa r esponsa b i l i d a d e , o f a t o l eva n t a u m dos
seus maiores p r o b l e m a s .
P o r q u e , s e n d o a p r e s e n t e e x p e r i ê n c i a d o e s t u d a n t e ,
t a n t o em p a r t i c u l a r q u a n t o e m g e r a l , o q u e é, d e v i d o à
a p l i c a ç ã o d a c i ê n c i a aos p r o c essos d e p r o d u ç ã o e d is -
t r i b u i ç ã o de b e n s e s e r v i ç o s e, d e p ois, às r e l a ç õ es q u e
os h o m e n s m a n t ê m soc i a l m e n t e u n s c o m os o u t r os,
se r á i m p o s s í v e l u m a c o m p r e e n s ã o das f o r ç a s socia is
p resen t e s ( c o m p r e e n s ã o i n d i s p e n s á v el p a r a se p o d e r
c o m a n d á - l a s e d i r i g i - l a s ) à p a r t e d e u m a e d u c a ç ã o q u e
lev e os es t u d a n t e s ao c o n h e c i m e n t o dos p r ó p r i o s f a t os
e p r i n c ípios q u e , e m sua o r g a n i z a ç ã o final, c o n s t i t u e m
8 4 À -E X P E R I E N C I A E EDUCAÇAO
as ciências. N ã o se resume, e n t r e t a n t o , a i m p o r t â n c i a
de se f a m i l i a r i z a r o a l u n o c o m a m a t é r i a c i e n t í f i c a ao
f a t o de p o d e r m o s levá-lo deste m o d o à c o m p r e e n s ã o
do seu p r e s e n t e e dos problemas em que ele se d e b a t e .
O s m é t o d o s d a c i ê n c i a t a m b é m i n d i c a m o c a m i n h o
p a r a as medidas e as p o l í t i c a s que nos p o d e r ã o c o n -
d u z i r a uma m e l h o r o r d e m social. As aplicações da
ciência, que, em l a r g a p a r t e , p r o d u z i r a m as c o n d i ç õ e s
sociais a t u a l m e n t e existentes, não e s g o t a r a m os possí-
veis campos de sua aplicação. A t é agora, a c i ê n c i a
t e m sido aplicada d e m o d o , a t é c e r t o p o n t o , casual e
s o b a i n f l u ê n c i a d e o b j e t i v o s - tais c o m o a b u s c a d e
v a n t a g e n s e p o d e r p r i v a d o s - q u e são h e r a n ç a d e
i n s t i t u i ç õ e s d e u m a e r a p r é - c i e n t í f i c a .
O u v i m o s , t o d o s os dias e das mais diversas f o n t e s ,
a a f i r m a ç ã o d e q u e é impossível p o d e r e m os homens
d i r i g i r i n t e l i g e n t e m e n t e sua v i d a c o m u m . D i z e m - n o s
que, d e um l a d o , a c o m p l e x i d a d e das relações humanas
nacionais · e i n t e m a c i_onais e, de o u t r o lado, o f t o de
s e r e m os seres h u m a n o s c r i a t u r a s d e e m o ç ã o hábf t o
t o m a m impossíyel o p l a n e j a m e n t o social em l a r g a esca-
la e a direção i n t e l i g e n t e da . vida. M e r e c e r i a , talvez,
c e r t o c r é d i t o t a l opinião, se a l g u m e s f o r ç o sistemático
jamais tivesse sido f e i t o em q u a l q u e r é p o c a pàra se
c o n d u z i r a e d u c a ç ã o , desde o c o m e ç o nos p r i m e i r o s
.anos e depois a t r a v é s· d e t o d o s os anos d e e s t u d o , c o m o
e s p í r i t o e o p r o p ó s i t o - d e t o m a r o m é t o d o d e i n t e l i -
g ê n c i a , d e que ·a c i ê n c i a é o m o d e l o e exemplo , m o t i -
A O R G A N I Z A Ç Ã O PROGRESSIVA 85
v a ç ã o s u p r e m a d o p r o c e s s o e d u c a t i v o . N ã o h á n a d a
i n e r e n t e à n a t u r e z a ~' q u e 6 . . e.ç; d e se f a z e r
o m é t o d o i n t e l i g e n t e , ele p r o.' p r i o , a b i t u ; c o m o n ã o
há n a d a n a n a t u r e z a d a e m o ç ã o q u · p e ç a i n t e n s a
adesão e m o t i v a a esse mesmo m é t o d o .
T o r n a m o s o caso d a c i ê n c i a c o m o i l u s t r a ç ã o d e
c o m o se p o d e p r o c e d e r à escolha de m a t é r i a i n t e g r a n -
t e d a e x p e r i ê n c i a p r e s e n t e p a r a o seu e s t u d o e p r o -
gressiva o r g a n i z a ç ã o ; o r g a n i z a ç ã o q u e n ã o s e r á i m p o s t a
e alheia ao a l u n o , p o r q u e d e c o r r e d o c r e s c i m e n t o d e
sua p r ó p r i a e x p e r i ê n c i a . A u t i l i z a ç ã o d a " m a t é r i a "
c o n t i d a n a e x p e r i ê n c i a p r e s e n t e d e v i d a p a r a l e v a r ,
p e l o d e s e n v o l v i m e n t o d a mesma, o a p r e n d i z , o u a l u n o ,
· a t é a ciência, c o n s t i t u i , talvez, a m e l h o r i l u s t r a çã o q u e
s e p o d e a c h a r p a r a o p r i n c í p i o b á s i c o d e · u t i l i z a ç ã o
d a · e x p e r i ê n c i a e x i s t e n t e c o m o m e i o d e e n c a m i n h a r o
a p r e n d i z , o u e d u c a n d o , a u m m u n d o e m q u e as c o n -
dições físicas e humanas s e j a m mais ricas, mais r e f i n a -
das e mais o r g a n i z a d a s do que as e n c o n t r a d a s nas expe-
riências c o m que inicia ele p r ó p r i o seu c r e s c i m e n t o
e d u c a t i v o . O r e c e n t e t r a b a l h o de H o g b e n - Mate-
mática para milhões - m o s t r a c o m o a m a t e m á t i c a ,
t r a t a d a c o m o u m espelho d a civilização e i n s t r u m e n t o
f u n d a m e n t a l do progresso, p o d e c o n t r i b u i r p a r a o d e -
sejado o b j e t i v o t a n t o q~anto as c i ê n c i a s físicas. O
ideal, e m q u a l q u e r caso, é o d a Qrganização p r o g r e s s i -
va d o s a b e r . É c o m r e f e r ê n c i a a t a l o r g a n i z a ç ã o d o
s a b e r q u e mais f a c i l m e n t e p o d e m o s e n c o n t r a r os e f e i -
8 4 À -E X P E R I E N C I A E EDUCAÇAO
as ciências. N ã o se resume, e n t r e t a n t o , a i m p o r t â n c i a
de se f a m i l i a r i z a r o a l u n o c o m a m a t é r i a c i e n t í f i c a ao
f a t o de p o d e r m o s levá-lo deste m o d o à c o m p r e e n s ã o
do seu p r e s e n t e e dos problemas em que ele se d e b a t e .
O s m é t o d o s d a c i ê n c i a t a m b é m i n d i c a m o c a m i n h o
p a r a as medidas e as p o l í t i c a s que nos p o d e r ã o c o n -
d u z i r a uma m e l h o r o r d e m social. As aplicações da
ciência, que, em l a r g a p a r t e , p r o d u z i r a m as c o n d i ç õ e s
sociais a t u a l m e n t e existentes, não e s g o t a r a m os possí-
veis campos de sua aplicação. A t é agora, a c i ê n c i a
t e m sido aplicada d e m o d o , a t é c e r t o p o n t o , casual e
s o b a i n f l u ê n c i a d e o b j e t i v o s - tais c o m o a b u s c a d e
v a n t a g e n s e p o d e r p r i v a d o s - q u e são h e r a n ç a d e
i n s t i t u i ç õ e s d e u m a e r a p r é - c i e n t í f i c a .
O u v i m o s , t o d o s os dias e das mais diversas f o n t e s ,
a a f i r m a ç ã o d e q u e é impossível p o d e r e m os homens
d i r i g i r i n t e l i g e n t e m e n t e sua v i d a c o m u m . D i z e m - n o s
que, d e um l a d o , a c o m p l e x i d a d e das relações humanas
nacionais · e i n t e m a c i_onais e, de o u t r o lado, o f t o de
s e r e m os seres h u m a n o s c r i a t u r a s d e e m o ç ã o hábf t o
t o m a m impossíyel o p l a n e j a m e n t o social em l a r g a esca-
la e a direção i n t e l i g e n t e da . vida. M e r e c e r i a , talvez,
c e r t o c r é d i t o t a l opinião, se a l g u m e s f o r ç o sistemático
jamais tivesse sido f e i t o em q u a l q u e r é p o c a pàra se
c o n d u z i r a e d u c a ç ã o , desde o c o m e ç o nos p r i m e i r o s
.anos e depois a t r a v é s· d e t o d o s os anos d e e s t u d o , c o m o
e s p í r i t o e o p r o p ó s i t o - d e t o m a r o m é t o d o d e i n t e l i -
g ê n c i a , d e que ·a c i ê n c i a é o m o d e l o e exemplo , m o t i -
A O R G A N I Z A Ç Ã O PROGRESSIVA 85
v a ç ã o s u p r e m a d o p r o c e s s o e d u c a t i v o . N ã o h á n a d a
i n e r e n t e à n a t u r e z a ~' q u e 6 . . e.ç; d e se f a z e r
o m é t o d o i n t e l i g e n t e , ele p r o.' p r i o , a b i t u ; c o m o n ã o
há n a d a n a n a t u r e z a d a e m o ç ã o q u · p e ç a i n t e n s a
adesão e m o t i v a a esse mesmo m é t o d o .
T o r n a m o s o caso d a c i ê n c i a c o m o i l u s t r a ç ã o d e
c o m o se p o d e p r o c e d e r à escolha de m a t é r i a i n t e g r a n -
t e d a e x p e r i ê n c i a p r e s e n t e p a r a o seu e s t u d o e p r o -
gressiva o r g a n i z a ç ã o ; o r g a n i z a ç ã o q u e n ã o s e r á i m p o s t a
e alheia ao a l u n o , p o r q u e d e c o r r e d o c r e s c i m e n t o d e
sua p r ó p r i a e x p e r i ê n c i a . A u t i l i z a ç ã o d a " m a t é r i a "
c o n t i d a n a e x p e r i ê n c i a p r e s e n t e d e v i d a p a r a l e v a r ,
p e l o d e s e n v o l v i m e n t o d a mesma, o a p r e n d i z , o u a l u n o ,
· a t é a ciência, c o n s t i t u i , talvez, a m e l h o r i l u s t r a ç ã o q u e
s e p o d e a c h a r p a r a o p r i n c í p i o b á s i c o d e · u t i l i z a ç ã o
d a · e x p e r i ê n c i a e x i s t e n t e c o m o m e i o d e e n c a m i n h a r o
a p r e n d i z , o u e d u c a n d o , a u m m u n d o e m q u e as c o n -
dições físicas e humanas s e j a m mais ricas, mais r e f i n a -
das e mais o r g a n i z a d a s do que as e n c o n t r a d a s nas expe-
riências c o m que inicia ele p r ó p r i o seu c r e s c i m e n t o
e d u c a t i v o . O r e c e n t e t r a b a l h o de H o g b e n - Mate-
mática para milhões - m o s t r a c o m o a m a t e m á t i c a ,
t r a t a d a c o m o u m espelho d a civilização e i n s t r u m e n t o
f u n d a m e n t a l do progresso, p o d e c o n t r i b u i r p a r a o d e -
sejado o b j e t i v o t a n t o q~anto as c i ê n c i a s físicas. O
ideal, e m q u a l q u e r caso, é o d a Qrganização p r o g r e s s i -
va d o s a b e r . É c o m r e f e r ê n c i a a t a l o r g a n i z a ç ã o d o
s a b e r q u e mais f a c i l m e n t e p o d e m o s e n c o n t r a r os e f e i -
86 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
tos da f i l o s o f i a do " i s t o o u a q u i l o " . N a p r á t i c a , se
n ã o e m palavras, s u s t e n t a - s e o s e g u i n t e : d e s d e q u e a
e d u c a ç ão t r a d i c i o n a l se a p o i a v a n u m a c o n c e p ç ã o de
o r g a n i z a ç ã o d o s a b e r q u a s e t o t a l m e n t e de s l i g a d a d a
p r e s e n t e e x p e r i ê n c i a viva d o a l u n o , a e d u c a ç ã o b a s e a d a
nessa exper i ê n c i a viva de ve d e s p r e z a r a o r g a n i z a ç ã o
d e f a t o s e idéias.
Q u a n d o , há p o u c o , designei essa o r g a n i z a ç ã o
c o m o u m ideal, quis s i g n i f i c a r , no a s p e c t o n e g a t i v o da
a f i r m a ç ã o , q u e o e d u c a d o r n ã o p o d e p a r t i r d o c o n h e c i .
m c n t o j á o r g a n i z a d o , p r o c u r a n d o d á - l o p o r doses de
c o l h e r ao a l u n o . Mas, c o m o u m ideal, o p r o c e s s o a t i -
vo d e o r g a n i z a ç ã o dos f a t o s e idéias deve c o n s t i t u i r - s e
o o b j e t i v o s e m p r e p r e s e n t e da a t i v i d a d e e d u c a t i v a .
N e n h u m a e x p e r i ê n c i a s e r á e d u c a t i v a se n ã o t e n d e r a
le v a r - s i m u l t a n e a m e n t e - ao c o n h e c i m e n t o d e mais
fatos, a e n t r e t e r mais idéias e a m e l h o r e mais o r g a n i -
z a d o a r r a n j o desses f a t o s e idéias. N ã o é v e r d a d e q u e o
p r i n c í p i o d e o r g a n i z a ç ã o s e j a e s t r a n h o à e x p e r i ê n c i a .
N e s s e caso, a e x p e r i ê n c i a s e r i a t ã o d i s p e r s i v a· q u e se
t o r n a r i a c a ó t i c a . A e x p e r i ê n c i a das c r i a n ç a s p e q u e n a s
t e m o seu c e n t r o d e o r g a n i z a ç ã o nas pessoas e n o l a r .
O d i st ú r b i o n a o r d e m n o r m a l de r e l a ç õ e s n a f a m í l i a
- sabem h o j e os p s i q u i a t r a s - é u m a f o n t e f é r t i l de
p e r t u r b a ç õ e s m e n t a i s e e m o c i o n a i s n a v i d a p o s t e r i o r
da pessoa e isto c o m p r o v a a r e a l i d a d e d e s t a espéc ie
de o r g a n i z a ç ã o . U m dos g r a n d e s a v a n ç o s d a e d u c a ç ã o
e s c o l a r , n o j a r d i m d e i n f â n c i a e n o s g r a u s i n i c i a i s d a
esco la p r i m á r i a , é o de p r e s e r v a r o c e n t r o s o c i a l e
A O R G A N I Z A Ç Ã O PROGRESSIVA 87
h u m a n o d e o r g a n i z a ç ã o d a e x p e r i ê n c i a , a b a n d o n a n d o
a v i o l e n t a m u d a n ç a d e c e n t r o d e g r a v i d a d e d a o r g a -
n i z a ç ã o s i s t e m á t i c a t r a d i c i o n a l . U m dos p r o b l e m a s
f u n d a m e n t a i s d e e d u c a ç ã o é, c o m o n a m ú s i c a , o d e
m o d u l a ç ã o . N o c a s o d a e d u c a ç ã o , m o d u l a ç ã o é u m
m o v i m e n t o d o c e n t r o social e h u m a n o de o r g a n i z a ç ã o
p~a ~m e s q u e m a mais i n t e l e c t u a l e o b j e t i v o d e o r g a -
m z a ç a o. Is t o n ã o se deve d a r , e n t r e t a n t o sem se t e r
' .
s e m p r e e m m e n t e q u e a o r g a n i z a ç ã o i n t e l e c t u a l n ã o é
u m . f!m em si mesmo, mas o meio p e l o q u a l as r e l a ç õ e s
sociaiS, os laços e apegos mais d i s t i n t a m e n t e h u m a n o s ,
s e j a m c o m p r e e n d i d o s e mais i n te l i g e n t e m e n t e o r g a n i -
z a d o s .
É c l a r o q u e a e d u c a ç ã o baseada n a t e o r i a e p r á t i c a
de ex~~riência ~ão p o d e t e r , c o r n o p o n t o d e p a r t i d a ,
a r n a t e n a o r g a m z a d a d o p o n t o de v i s t a d o a d u l t o e d o
especialista . T a l o r g a n i z a ç ã o , c o n t u d o , r e p r e s e n t a a
----
m e t a p a r a q u e a e d u c a ç ã o d e v e e s t a r s e m p r e a t e n d e r .
N ã o é n e c e s s á r i o s e q u e r l e m b r a r q u e u m d o s m a i s l
f u n d a m e n t a i s p r i n c í p i o s da o r g a n i z a ç ã o c i e n t í f i c a d o \,(J '"~
sa~er,é. o ~e " c a u s a . e e f e i t o " . O m o d o p e l o q u a l e s t e .
prmcipiO e c o n c e b i d o e f o r m u l a d o p e l o e s p e c i a l i s t a
é, p o r cer.to, m u i t o d i f e r e n t e d o m o d o p o r q u e o p e r -
c e b e a c n a n ç a . Mas ' 1 u a n d o u m a c r i a n ç a d e dois o u
t r ê s anos a p r e n d e a n ã o se a p r o x i m a r do f o g o a p o n t o
de se q u e i m a r e, ao m e s m o t e m p o , c h e g a r b a s t a n t e
p e r t o p a r a se a q u e c e r - e s t á ela p e r c e b e n d o e u s a n d o
u m a r e l a ç ã o causal. N ã o h á n e n h u m a a t i v i d a d e i n t e -
l i g e n t e q u e n ã o se c o n f o r m e c o m as exigências dessa
86 E X P E R I Ê N C I A E E D U C A Ç Ã O
tos da f i l o s o f i a do " i s t o o u a q u i l o " . N a p r á t i c a , se
n ã o e m palavras, s u s t e n t a - s e o s e g u i n t e : d e s d e q u e a
e d u c a ç ão t r a d i c i o n a l se a p o i a v a n u m a c o n c e p ç ã o de
o r g a n i z a ç ã o d o s a b e r q u a s e t o t a l m e n t e de s l i g a d a d a
p r e s e n t e e x p e r i ê n c i a viva d o a l u n o , a e d u c a ç ã o b a s e a d a
nessa exper i ê n c i a viva de ve d e s p r e z a r a o r g a n i z a ç ã o
d e f a t o s e idéias.
Q u a n d o , há p o u c o , designei essa o r g a n i z a ç ã o
c o m o u m ideal, quis s i g n i f i c a r , no a s p e c t o n e g a t i v o da
a f i r m a ç ã o , q u e o e d u c a d o r n ã o p o d e p a r t i r d o c o n h e c i .
m c n t o j á o r g a n i z a d o , p r o c u r a n d o d á - l o p o r doses de
c o l h e r ao a l u n o . Mas, c o m o u m ideal, o p r o c e s s o a t i -
vo d e o r g a n i z a ç ã o dos f a t o s e idéias deve c o n s t i t u i r - s e
o o b j e t i v o s e m p r e p r e s e n t e da a t i v i d a d e e d u c a t i v a .
N e n h u m a e x p e r i ê n c i a s e r á e d u c a t i v a se n ã o t e n d e r a
le v a r - s i m u l t a n e a m e n t e - ao c o n h e c i m e n t o d e mais
fatos, a e n t r e t e r mais idéias e a m e l h o r e mais o r g a n i -
z a d o a r r a n j o desses f a t o s e idéias. N ã o é v e r d a d e q u e o
p r i n c í p i o d e o r g a n i z a ç ã o s e j a e s t r a n h o à e x p e r i ê n c i a .
N e s s e caso, a e x p e r i ê n c i a s e r i a t ã o d i s p e r s i v a· q u e se
t o r n a r i a c a ó t i c a . A e x p e r i ê n c i a das c r i a n ç a s p e q u e n a s
t e m o seu c e n t r o d e o r g a n i z a ç ã o nas pessoas e n o l a r .
O d i s t ú r b i o n a o r d e m n o r m a l de r e l a ç õ e s n a f a m í l i a
- sabem h o j e os p s i q u i a t r a s - é u m a f o n t e f é r t i l de
p e r t u r b a ç õ e s m e n t a i s e e m o c i o n a i s n a v i d a p o s t e r i o r
da pessoa e isto c o m p r o v a a r e a l i d a d e d e s t a espéc ie
de o r g a n i z a ç ã o . U m dos g r a n d e s a v a n ç o s d a e d u c a ç ã o
e s c o l a r , n o j a r d i m d e i n f â n c i a e n o s g r a u s i n i c i a i s d a
esco la p r i m á r i a , é o de p r e s e r v a r o c e n t r o s o c i a l e
A O R G A N I Z A Ç Ã O PROGRESSIVA 87
h u m a n o d e o r g a n i z a ç ã o d a e x p e r i ê n c i a , a b a n d o n a n d o
a v i o l e n t a m u d a n ç a d e c e n t r o d e g r a v i d a d e d a o r g a -
n i z a ç ã o s i s t e m á t i c a t r a d i c i o n a l . U m dos p r o b l e m a s
f u n d a m e n t a i s d e e d u c a ç ã o é, c o m o n a m ú s i c a , o d e
m o d u l a ç ã o . N o c a s o d a e d u c a ç ã o , m o d u l a ç ã o é u m
m o v i m e n t o d o c e n t r o social e h u m a n o de o r g a n i z a ç ã o
p~a ~m e s q u e m a mais i n t e l e c t u a l e o b j e t i v o d e o r g a -
m z a ç a o. Is t o n ã o se deve d a r , e n t r e t a n t o sem se t e r
' .
s e m p r e e m m e n t e q u e a o r g a n i z a ç ã o i n t e l e c t u a l n ã o é
u m . f!m em si mesmo, mas o meio p e l o q u a l as r e l a ç õ e s
sociaiS, os laços e apegos mais d i s t i n t a m e n t e h u m a n o s ,
s e j a m c o m p r e e n d i d o s e mais i n te l i g e n t e m e n t e o r g a n i -
z a d o s .
É c l a r o q u e a e d u c a ç ã o baseada n a t e o r i a e p r á t i c a
de ex~~riência ~ão p o d e t e r , c o r n o p o n t o d e p a r t i d a ,
a r n a t e n a o r g a m z a d a d o p o n t o de v i s t a d o a d u l t o e d o
especialista . T a l o r g a n i z a ç ã o , c o n t u d o , r e p r e s e n t a a
----
m e t a p a r a q u e a e d u c a ç ã o d e v e e s t a r s e m p r e a t e n d e r .
N ã o é n e c e s s á r i o s e q u e r l e m b r a r q u e u m d o s m a i s l
f u n d a m e n t a i s p r i n c í p i o s da o r g a n i z a ç ã o c i e n t í f i c a d o \,(J '"~
sa~er,é. o ~e " c a u s a . e e f e i t o " . O m o d o p e l o q u a l e s t e .
prmcipiO e c o n c e b i d o e f o r m u l a d o p e l o e s p e c i a l i s t a
é, p o r cer.to, m u i t o d i f e r e n t e d o m o d o p o r q u e o p e r -
c e b e a c n a n ç a . Mas ' 1 u a n d o u m a c r i a n ç a d e