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ISBN 85-7387- 964-5
I I
97885738796 4 3
WWvV .com.br
EDITORES
Joôo
JOé)ü LUlz da Sil'\/a PJrneida
Amílton BUUlO ele
Cezar Hober!o BitCL\ ."c
Cesar Flores
Cristiano Chaves de Farias
Carlos Eduardo Adriano
EuçJônio Rosa
J. M. Leoni Lopes de Oliveira
José dos Santos Carvalho Filho
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Brasília
L
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35
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AUGUSTO
de Diu'i!o F'Cl1u! c
f'rocllrlli!or do Es!([t!n do Rio de JOlleiru,
Crim iI! il I.
o Crirne e o Criminoso:
Entes Políticos
2ª edição
LUMEN JURIS
Rio de Janeiro
2007
2007
Editorial
Lumen Jur: teb.
/\ LIVRARIA E EDITORA LUi'vlEN .lUFUS LTDA.
ilbde desta obr:1.
l~ proibida a , por
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c/ou editoriais. A violação de direitos autorais
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a busca e e
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Livraria c Editora Lumcn Juris Ltda.
r mpresso no Brasil
Prinfed in Brasil
"Por que é qlle ell me colo
"Como um monge medieval
que tivesse passado (I vida
inteira no deserto pelejol1do
contra o demónio e lim dia
corno a notícia de
que o diabo nrlo existe. "
f\FFONSO Rorvl/\NO DE SANT' ANNA
AUTOR
~ Norma Penal em Branco e Retrocrtil'idade
HisíÔriL'() do Di/'c'i!u C'rillli!lu! {:f\'o-Brusiíeiro
- lV/C/fluol de jJara de
- Q Advogado de Defeso !l
FICÇÃO:
Capítulo 1 - A Cifra Negra .......................... , ............................... .
Capítulo 2 - A Inconsistência da Criminologia Tradicional.......... 21
Capítulo 3- A Discriminação da Justiça Penal...... ......... .............. 45
4 O Verdadeiro Conteúdo do Direito Penal
Corretivo ...................... .......................... ................. 95
5 - Conclusões .................................. ..... ....................... 127
I _. I 8.149 elo Juiz Verani)........... 141
II- Procuradores Reclamam das Pressões.... ................. ...... 152
m - Superpopulação Prisional ................................... · .... ·.... 156
IV·- O Malogro do Sistema Penitenciário Sueco ............. · .. · 158
V -- Um Caso de Medida de Segurança Detentiva ......... ..... 165
VI -- Pena de Morte, Prisão Cautelar e Cia. Ilimitada .......... 171
Referências Bibliográficas ............. ... ...... .......... ... ...... ...... ............. 175
ix
"Eu ser esta
{ante do que tcr ([qllc{a velho
illada soúre tudo, "
E
Raul Seixas
Thompson - Acho que ultimJ.mente minha convlvcncÍa com
vocês tem sido intensa. Eu não saberia dizer se nas biritas interminá-
veis que tomamos a filosofia é um pretexto pra cachaça ou o inverso.
O certo é que vocês epistemologizaram meu botequim.
Rosa - Thompson, não seja mentiroso. Você semprc gostou de
cachaça e filosofia. Talvez não estivesse acostumado é com o boteco
como um lugar pra gente negar as "certezas científicas", O boteco
sempre foi () território da eloqüência fácil, onde se trocam as receitas
do senso comum, ou do senso comum teórico, como se as últi-
as grandes verdades da ciência. Kant é que di,scutindo
com os percalços de sua pesquisa sobre o júri te perple-
xo eom a implosão constante dos conceitos que você supõe con-
fiáveis.
Kan! - Pô, eu que não tenho nenhuma para o terror
como incendiário ... Vá pra mim, o pensamento
meus - também. cientista antro-
Poderiam, entuo, eom a leal
frente ao leitor, sobre livro.
converSH. foi o do consumo dc duas
Forestier tinto. Seriam necessélrias mais
xi
xii
tcm que cwtodevorar··sc, . T,~m que 1111er-
mú di () cercam. que há muitas verda-
(k.~. nilp Glbcl1l
p~\rtiuu CLl
S slema. l:u
que pra 1111111
dcvorando as
semprlê
a mudar
é um jurista que a
velhas conv'
d~\s na escola de direito saher" dns tribunais.
é um jurista em
"!udila" no campo do direito,
também como um
destruir as
tramos no e
mOllGlitízar instrumentos
cfosse dominClnte elc, Em seu discurso parece que o é
coisa centralizada e de uma elite CJue detém os pri-
sócio-económicos. Como se nuo houvesse d eI ou
da classe dominante
se o caso é de elites ou de entre as
mesmas, resistência dos dominados etc.
r -- É verdade que sou um J em e como eliz o
Nelson vai abandonando LI
entrando el11 outros dom sta, Nesta
acho que tenho mesmo uma illcli a pensar por OpOS
refletir com mais matizes. Fundamentar certas
que anoto. Afinal, isto seria pensar teoricamente de um modo
sante, Mas há razões para a forma deste livro. Eu não sou um sociólo-
go, um cientista um metodólogo, um de
como vocês, Venho certas coisas com voracidade mas, ao
mesmo tempo, com cautelas. pra evitar uma incli
Inclusive um de í que me deixasse enfastiado, paralisa-
do pra intervir sobre o mCl! dia-a-dia, que se passa cm grande na
esfera elo !las jurídicas. Eu lenho coisas pra dizer, pra
StlO os criminoso,\'? Crinu! crinri!1(Js(l:~': ('flfc'S xiii
mudar e não vou deix:lr de fazê-lo porque não sou um súbio moderno,
E lssÍemais do direito -
Eu que
pra outns pessoas, Acho
não estou me avocando urna missão e muito
tlutrd
. . t ~ . t l c 'I) ',\[TU-ISSO que ear~\C[enza o eonco: es ru ura- l. ::;-
tórios; j Llstapondo
a mais plausível. fvlas a minha é outra, é
, , a
especialmente stificar para , JUizes, ,
que fundamenta a e o tratamento ele entIda-
des como o o Cri
E antes que eu
me acusam de simplificar
nante, sistema etc.,
I a que. dou ú
que llão tenho urna vi são
sempre t'xpressa uma ao
K. - Não fui eu quem Calou que você não stra a d~s
dcll1liné\dos. Acho. que há uma a você considerar a clJ-
. ". . .\ 1·' 'c . d' rhr VilQem económICa um lllchcador seQuro e l e 111ltlVO no . L; , (
cO;1ta da da ~ e das estratégias de
tratamos do Brasil, que uma
estamos dié1l1te de uma sociedade de
fundada no
que
que de acordo COI11 uma ideologia
. . ld·1 I t d 'os cid'lel'íOS perante a contrato SOCial, que a Igua ac e (e () os. . ~ ( .
lei, porque lhes a igualdade perante o merc:ld~), Ol;de todas as
são de conversuo a padrões econoJ11ICos? Penso que
xiv
em nosso pJís a justiçJ se concebe, se representJ, não como um servÍ-
de forma pública e mas como
que assuma os
missos" necessúrios, nem sempre de caráter económico. O ideal bur-
da a!dade não se realizaria , nfío só porque essa
inexiste por num sistema de e
desde o início CO;110 mas porque nos concebemos e
lima sociedade de s, ele e de hierarquias, eIXO
é mas não
O processo de aplicaçélo da lei no Brasil nada mais faria, po1'1<,1I1-
to, do que referendar sistematicamente esta desigualdade que entre
nós ,i
ica que recobre ;t
nfio
ideal é o de "nos locupletarmos todos" ...
R. Pois é, Kant, acho que esse viés analítico é muito significa-
tivo. Aqui, não somente a sociedade se divide em explorados e explo-
radores, em opressores e oprimidos,mas nós também assimilamos o
ideal burguês de igualdade, de forma muito complicada. Quer dizer,
os do direito aprendem este ideal na faculdade, na medi-
da cm que importam uma cultura jurídica européia. Contudo, confliw
com essa ideologia setorial uma macro-ideologia relativa ii totalidade
social onde nos percebemos como desiguais, como investidos ou não
de certos vilégios. Por aceitamos a lei como emanação de um
poder que não é o nosso, que é o poder dos poderosos. ainda,
opomos ao ideal europeu de cidadania a representaçélo de uma socie-
dade hierarquizada como coisa natural.
T - E vocês acham que não percebo essa O
por a mil+ha Lln;ilise sobre a "cifra
ela mostra que há outros e outras normas que não são as
ionais do
resolvendo 0:-,
de resolver os
aprendidas na as recitadas
direito lhes interessa utilizar LI da
. Esta forma
na cifra negra, é,inclusi
Crinle e criminosos: entes xv
R. - Thompson, certamente mais a conversar,
, a essas alturas, trouxemos o nossa discussão.
ele agora lendo seu trabalho confira a de nossa refle-
xão. Kant e eu que este livro tem uma virtude funcla-
: ele contra o uso dos illsti-
e não contra o seu abuso. E se a
ess;1
outro diretor de sistema
penitenciário - você é do Desipc - ou cm escolas
de Direito, ou em cursos da OAB, anda dizendo estas coisas'?
A
A CI
"Então lhe trollxeram os escribas e os fariseus lima
111ul qt!C fura Clll adultério c :1 puscranl no
6. lJiziClIl1 i:,lO os tLntlilHJo ()
acusar. Porém Jesus abaixando-se,
o dedo na terra.
7. E como eles perseveravam em fazer-lhe perguntas, ergueu-
se Jesus e disse-lhes: O que de vós outros está sem
o que a
8. E tornando a abaix,tr-se, escrevia na terra.
9. Mas eles ouvindo·o, foram saindo um a um, sendo os
mais velhos os E ficou só Jesus, e a mulher,
que estava no me.io, cm
10. Enti'ío ergueu·se Jesus, e disse· lhe: Mulher. onde estão os
(!1te te aellSitV:llll') te condenou')
II. ela: Senhor. Enti'ío disse Jcsus: Nem
eu tampouco te condenarei. Vai e não peques mais:'
Silo JOcl(), 8, Novo Testamento I
do
vcl visualizá-lo como um
em si mesmo, tornou
natural c, de pronto, abriu oportu-
I. B SACRADA. Vers:lu de pl'. Antonio Pereira de Figueiredo. São Paulo,
AlIléricus, 1950.
1
nidade para a criação de uma ciência que tivesse por objeto específico
u seu estudo,
a minologia.
O novo ramo do conhecimento do delito
como de tudo CJue lhe anda ú
sando a í
Daí, em sua aI iSt,lS escreveram,
escrevem e V;)O escrever incontáveis obras, em todas as línguas,
, medi classi
icadas fórmulas matemáticas, teo-
rias, , conclusões -- ah, conclusôes em avalanche, ainda
que inconsistentes ou contraditórias - tudo envelopado cm atmosfera
grave, scca, para UlTlCt
ve rdudei r{f ciêncio,
mi nal ch::ntn)
definido
conseguiu-se, cm boa medida, barrar seu à lllvasão do interes-
se ou da curiosidade daqueles que vivenciam a realidade concreta das
infrações penais - isto é, o comum dos mortais - porque havidos
como carentes da formação indispensável que lhes autorize a penetra-
ção em tão complexa disciplina. Conquistada a prerrogativa de con-
templar o crime em "esplêndido Ísolamento",2 os especialistas atribUÍ-
ram-se o direito de reservar um espaço de sua exclusiva competência,
rejeitadas intromissões indébitas a quem não ostentasse suficiente
qualificação p~a merecer o título de criminólogo, Afinal, o templo do
sábio-técnico deve cerrar as portas à entrada da ignorância do vulgo, a
quem cabe apenas suportar a catadupa generosa e cachoante do saber
científico, que esguicha da boca erudita dos sacerdotes,
tardou a surgir um movimento de rebeldia contra fortale-
za assim hermética, puderam os criminólogos gravitar em torno às
suas fantasias com desenvoltura e na segurança do proprietário
que não teme esbulhos quanto ao terreno cuidadosamente cercado c
defendido.
2. CHRISTIE, Nils, Prcfácio do
London, Tavíslock Pub" 1968,
. SC({lIdinol'inll SI/Idies iii
sâo os criminosos: Crime e 3
Aliás, a criminologia seguiu, pura e simplesmente, o exemplo da
irmã mais velha, Jpsiquíatria,
Talvez passJr, e logo, à dos erros
deste engendrJmento, Isso, contudo, estaria ent .kl.i)acor-
do com a forma pela qual se deu o levantamento daqueles
S o curso natural das coisas, partindo do dado que se apresen-
tou como a ponta de verdade a ser
A pJrtir de meados do nosso século, algumas pesquisas
ram evidenciar a existência de discrepância entre o número de cri-
mes constantes das estatÍsticüs oficiais e a realidade escondida por
trás dele, Observou-se que, embora os índices da ordem formal
indiquem existir uma considerável quantidade de infrações, o total
dos delitos de fato prat , A
reduz.ida minoria das viul
cimento A brecha
os [rados denominou-se "clÍ' il
expressão que logo se firmou, enquanto ômel10
muito comum.
Para bem compreender a questão, impõe-se lembrar que crimi-
noso, em sentido formal, é o indivíduo condenado pela justíça
sobretudo se for recolhido à prisão, fazendo jus, dessa maneira, ao
rótulo de delinqüente por parte do grupo social. De outro lado, cabe
recordar que, da prática do delito à condenacão do autor indo um
pouco adiante, até seu encarceramento) há um obrinatório caminho a , b
ser percorrido, o qual oferece como etapas marcantes as seguintes: a)
ser o fato relatado LI polícia; b) se relatado, ser registrado; c) se
trado, ser investigado; d) se investigado, gerar um inquérito; se
o inquérito, dar origem a uma denúncia por parte do promo-
tor; f) denunciado, redundar em condenação pelo g) se, haven-
do condenação e expedido o mandado de prisão, a polí-
cia vamente o executa.
Estigmatizada como criminoso a suportar a
conceitos e tratamento diferenciado por
elemento
será a pessoa que, além de haver
cm abstrato em norma
indicadas e termina confinada numa penitenciária. Se alguém
viola um escapa de
lido pnl' criminoso.
na este
idadns<ls demonstrar que Cll c;\da uma
fascs n.:ferida:.; ocorrc Ullla cntre o Ullivcr:;o dditos
o número dos qUL' a ordem oficial. H~.
P()I descumpasso 110 CIC!!/'{j ( ifra
n:ío ter
os dados que ,Ipenas
ínfima la dos crimes a receber npe
sendo que destes tão-somente uma minoria leva os autores ao cárce-
lit:lr dd ifra negra.
honestamente através de um exame
em nossa viua: de nós é de assegurar jamais haver come-
tido sequer llm único ilícito até o dia de
Lembremos que concorrer de qualquer modo para
sua prúti ca) os ::ttos a arrolados
do de vista ideal: comprar de cuntrabandista uÍs-
de levar
sem
suficiente provisão de fundos;
de dív cometer adultério;
atestado médico
gn sem
paralelo, para usar ex mais ; jogar no no
buquemêiquer; sendo funcionário (inclusive juiz e
char num dado sentido para atender a pcdido de
e crinlinosos: Cl1rcs 5
assinar lista ele presença à auja por ausente; etc.,
. etc.
de ern conse seremos cap(u~es ele nos j u
inOCC1l1 de todo delito'! pr()va\'l~ll1lcllte - cntre este:s,
dizer, n~ío se encontra o autor ckstas línlus.
descritas constitui crime c,
S()S, n a
maioria. de nós nunca teve nenhuma fafo delituoso sequer relatado à
o conforto da ci fra ncgra.
antos abortos !cVàUOS a c to ao
conhecimento das autoriuades? E fUl'tos em
relacionadas com a
lesões
freqüência através de entre víti-
mas e ; os roubos (a vítima, por medo ou por julgar uma
de prefere não comunicar o fato Zl ; a
acidentes de trânsito, e assim por diante'!
a própria polícia conduz o lesado a concorrer
para o da cifra negra, já para evitar que as estatísticas
demonstrem com toda a crueza a enormidade das práticas
o que em dúvida sua em
sufocante plctora de casos que a esmaga no
Nem se que escapa ao fenômeno da cifra negra um
to como o homicídio. entre parentespor melO do emprego de veneno ou de ficam no
por certidões de óbito inexatas ou des-
por médicos que se basearam em ln
de familiares da vítima'?
"Nos Estados e ainda no a de uma
vítima conduziu à de muitas outras que
sido ass,lssinadas uma a lima, enterradas c, aparentemente,
nunca dadas como Histórias se com som-
bria acerca de corpos encontrados enterrados cm
isolados. de homicídios cm massa por empregados ou
6
guardas de prisão tanto quanto por anarquistas ou por políticos extre-
rnistas."3
da
mortos,
foram executados pelos
Quantas pessoas encontradas
a no sentido de terem
natural, quando, cm
Veja-se, a
a de morte
"Uma após outra, oito mulheres idosas, cada qual vivendo
sozinha na mesma rua cm Manhattan, foram encontradas mortas
durante a e venl0 ele I havia
li duas das s
m
morrer,
ainda mais duas."4
a alcoolismo. ando Ulll
a lí ltil muI a
as havia matado a todas e
Sobretudo ingleses e americanos têm investigado e tentado a
mensuração da cifra negra neste primeiro passo (relato à polícia), pro-
curando quantificá-la, ao menos, aproximadamente, concentrando as
pesquisas nas três pontas do fenômeno mais propícias para tal finali
dade. Para isso, realizam inquirições com respeito a grupos, os mais
numerosos possíveis da população, indagando, por meio de formulcl- .-/
adequadamente preparados, quantas vezes caela uma das pessoas
já praticou (pólo ativo) ou foi vítima (pólo passivo), ou de alguma
forma tomou conhecimento (pólo neutro) de delitos que não
rarn a ser relatados à polícia. A elos dados élssÍm obtidos
com nas oficiais tornou possível a
inferência de algumas conclusões que, se ser tomadas
como fornecem, de qualquer sorte, uma idéia da extensão do
tema.
RADZINOWICZ. Leon
Hamilton Lid., 1977. p.
4. Id., p.
CrOl1'11r
sao os cril71l!1(J,I,'()S? Cl'ime e (TI.'11I170\,{.IS. 7
Em Nova Iorque, por exemplo, ocorrem pelo menos duas
vezes mais ais do que as que são objeto de relato. Em
Filadélfia, cinco. Na Alemanha, em termos de aborto, a é
de 500 para um; cm matéria de crimes sexuais, de 10 para um; no
que toca a homicídios, entre três ou seis para um; e no caso dos cri-
mes contra o património, de oito a lO para cada um. Na Inglaterra,
;1S mais modestas vas indicam que o total dos delitos
cados deve ser superior a quatro sendo certo que
metade ao conhecimento das autoridades. Em termos de
homicídio:
"Algumas estimativas v50 ao ponto de afirmar que somente
um homicídio em cclda três ou dos
outras quc a rel
se a
ainda mais precário em face pobreza das próprias estatísticas ofi-
ciais, resulta difícil dimensionar o espaço escuro onde se abriga a
delinqUência n50 relatada. Contudo, valendo-me dos 43 anos que me
ligam ao cotidiano criminal, sou levado a concluir que as estimati-
vas anteriormente referidas são por demais reduzidas para o panora-
ma brasileiro. À minha experiência, somo a intuição de policiais,
promotores, juízes, advogados, com dedicação de muitos anos na
área da administração da justiça, os quais, por mim consultados,
manifestaram a mesma impressão. Creio que, ainda numa previsão
cautelosa, no mínimo dois da globalidade
das condutas delituosas de fato adotadas não chegam à ciência da
polícia.
Crimes Mas Não Registrados
Por vezes, a notícia de um fato
lO da !11 o que
/
8
deve estar
r, e
bera social,
possível
razões
duros que for
independentemente do
e que lhe ordenam for-
mal um procedimento criminal contra o autor de um delho,
desde que este, de alguma lhe ao conhecimento,
de uma
os COll Í1.os
com o dos jurisdi
Mostra-se vi,'ive!, em inúmeros casos, compor os interes-
ses do criminoso e da vítima por meio de um trabalho de persuasão,
de apelo à mútua compreensão, de desarmamento dos espíritos; por
que desprezar essa via para obedecer cegamente ao texto frio das
registrando o fato, expondo o agente ativo aos riscos de um
processo criminal e cortando, praticamente, a possibilidade de o
sujeito passivo ter seu prejuízo indenizado? (A lei penal empresta
nenhum valor - de fato, apesar de sua retórica não admitir isso com
franqueza - ao ressarcimento do dano, de maneira que se tiver de
enfrentar uma acusação já formalizada o criminoso se recusará a
reparar a lesão causada, pois que a providência em nada melhorará
sua posição.)
Ademais, a existência do registro vai determinar, necessariamen-
te, uma série de atividades por parte dos servidores da polícia; evitá-
lo, pois, representa economia de trabalho e de gastos - meta de abso-
luta prioridade numa delegacia policial, sempre assoberbada com
quase insuportável quantidade de casos,
Lesões corporais entre parentes (sobretudo marido e mulher, pais
e filhos, amigos ou colegas), mero uso de tóxicos, furtos em super-
mercados, crimes contra o património de forma
etc., embora levados à mesa da autoridade de dia, e embora consubsc
slio os cril1únosos? CriJJ7e
tanciem verdadeiramente delitos
negra, por falta de
Neste passo,
por
implica a cri
exame
resvalam para a cifra
opera
gozam de tanta ou
absolutórias. efeito,
a o criminoso da trilha Cc única
via) capaz de conduzi-lo à da Naturalmente,
como em todo e qualquer julgamento, o episódio e o autor são encara-
dos da subjetiva do julgador, que os
por meio cÍl;
a
crim
oculta.
Importante motivação a engrossar a hipótese, encontramo-Ia no
espírito de corpo dos membros da instituição policial. Quem traba:ha
no ramo sabe que, a qualquer momento, pode encontrar-se env.olvld.o
em evento no qual se veja apontado como infrator de algum dISpOSI-
tivo penal. Semelhante expectativa é inerente à profissão. Como a
própria polícia apura os delitos atribuídos a policiais, compreende-se
que tal circunstância crie uma atitude de protecionismo dos colegas
que atuam como autoridade repressora relativamente aos colegas que
são acusados, uma vez que as posições, num amanhã próximo e pro-
vável, poderão estar invertidas. Vigora, então, uma forte coesão fun-
cionai, sendo considerados aqueles que recusam endossá-la como
maus companheiros, traidores da classe, indignos de pertencer a seus
quadros, condenados a viver em ostracismo e, até, em regime de pe!'-
seguição. Ora, a maneira mais expedita de inviabiliza~'-s~ a pumçao
do autor de um delito é de registrar o fato cnmll1Oso. Uma
forma atenuada, ou habilidosa, largamente de executar a
manobra consiste em:
"Instaurar sindicância administrativa sumária e ~vo~ar.o
inquérito para a Corregedoria de Polícia são as pn~clpals
providências que a polícia toma para investigar cnmes e
10
arbitrariedades em que figuram policiais como autores ou
envolvidos. "6
Em vez do no I ele a-se para uma
disci inar, que correrá no âmbito interno da Secretaria de
Segurança, obviada assim a submissão do problema à do
Mi o Público e do Juiz.
xam de ser de vanta-
gens, dinheiro) e de prevaricação (atendimento a de pessoas
poderosas, chefes, colegas, amigos, protetares e por aí afora).
o mero do evento um mCI-
piente no rumo de sua exposição ao claro. Se a ele faltar a conseqüên-
cÍa de uma investigação com êxito, o fato que mereceu um lampejo de
luz retroage à escuridão. Com enorme incidência, verifica-se a ausên-
cia de qualquer investigação com respeito a delitos que foram objeto
de registro. Este é o caso de absoluta predominância no concernente
aos crimes contra o patrimônio. Já por causa do elevadíssimo número
em que ocorrem, já parque em geral fornecem diminutos elementos a
permitir um simples vislumbre de elucidação, tendem a jazer esqueci-
dos no mofo dos livros de ocorrências. Quem já foi vítima de furto ou
de roubo - de automóvel, de valores que possuía na casa assaltada, de
bens partados na condução ou na rua - sabe que, mesmo ficando em
cÍmados funci a fornecer apoio, meios, gratificações etc.,
dificilmente a real de uma investigação sistemática, cui-
dadosa, ou mesmo interessada. A maioria das pessoas, por tomar
conhecimento de tal circunstância, desanima de sequer tentar provo-
car algum nos deteti ves formalmente encarregados no
caso, o qual só será por pura questão de sorte.
6. SILVA, J. Paulo da & BRAGA. Ronaldo . .Ioma! do Brasil, Rio de Janeiro, 198 I.
12 cad., p. 22.
selo os crinlinosos? CriUie e crinllnosos: entes
Embora o problema seja mundial, dificilmente se encontram
dados elucidativos a a título de
exemplo aleatório, para o quadro a
TIPO ou INCIDENTE
Homicídio
Suicídio
rncêndio doloso
Furto de automóvel
Lesão corporal grave
Roubo
Estelionato
Crimes sexuais graves
Lesões corporais leves
Furto não-residencial
Cadáveres encontrados
Furto em residência
Furto simples
Vandalismo
Perda de coisas
Todos os tipos juntos
Fonte: Cidade de Kansas - maio/novembro de 1
PORCENTAGEM
100
70,4
65,5
64,4
62,6
59,6
59
41,8
36,3
35,7
30,0
18,4
6,8
0,9
7. Apud CHAIKEN, Jan M ; GREENWOOD, Peter W. & PETERSILIA, Joan.
Criminology Review Yearbook. 1 :711-41, 1979. . ,
motivaram Se
crimes a ser relata-
e, que certamente muitas das
não obtêm sucesso, fica fácil avaliar a
que ostenta o mundo da criminalidade
oficial relativamente ao universo da
Crimes
de Processo Penal
polícia a possibilidade de arquivar autos de inquérito. Naquela época,
pois, a faixa de acomodação viável de ser conseguida na delegacia
estreitava-se entre a ciência do fato e seu registro.
Depois, com força irresistível, surgiu uma prática que, como ver-
dadeiro direito costumeiro, veio a suplantar e revogar a norma escrita.
Por ela, tornou-se possível à polícia deixar de instaurar inquérito com
referência a fatos delituosos, mesmo que tenham sido objeto de relato,
registro e investigação. Abriu-se, pois, à revelia do.--Código, uma opor-
tunidade a mais de perda entre a globalidade dos crimes efetivamente
perpetrados e aqueles a serem iluminados pelo facho das estatísticas
oficiais. Conhece-se o uso ern causa pelos nomes de acaute!wnento
ou arquivamento de sindicâncias. Verifica-se ocorrer, aqui, mais uma
hipótese de transferência para a polícia do julgamento da causa, espé-
cie de delegação manifestamente contrária a toda a sistemática de
nossa legislação. até, com a atribuição de um poder mais discricio-
nário ao delegado do que aquele conferido a promotores e juízes, uma
vez que se dispensam maiores formalidades na citada solução, inclusi-
ve no relativo à motivação justificadora da medida. Reiteradas vezes,
o despacho terminativo do feito restringe-se a um lacônico e imotiva-
do "Acautele-se", de sorte que ao delegado se poupa o trabalho incô-
modo de armar uma convincente süstentação em amparo ao decidido,
silo os' crilninosos? CriJl1e e crinú!1()so,s': entes
coisa a que estão obrigados os membros do Poder Judiciário
A moda
para o escuro.
vazadouro de do claro
Para comprovar a acaso fosse insuficiente o testcmu-
nbo de bastaria lembrar um
vendo-se frustrada em na
busca de melhoria de vencimentos,
que chamou de . se não () aumento reívindica-
seriam instaurados inquéritos para todos os eventos objeto de
registro, ou seja, obedecendo literalmente à determinação da lei, aban-
donaria o aos aeautelamenlos. Atender a e1 a sol
os por obedecerem à (ou olhando de outro por
recusarem a agir fora da lei). De outro lado, caso nascessem inquéritos
de todos os registros, o judiciário estaria afogado em uma semana,
mortalmente paralisado, sem sequer espaço físico para amontoar a ava-
lanche de papel que para lá jorraria das delegacias.
Na base do arquivamento de sindicâncias predomina, com inci-
dência largamente superior, a corrupção e a prevaricação, embora, por
vezes, expresse o sincero convencimento de que, naquela hipótese
específica, inexistiu um verdadeiro delito ou, mais freqUentemente,
que o indiciado refoge ao estereótipo de um típico criminoso, fazendo
jus, dessa maneira, a um ato de complacência e compreensão.
Novidade mais recente que os acautelamentos, os autos de resis-
tência contribuem para o incremento da cifra negra, suprindo-a de um
contingente de delitos graves, perpetrados por policiais. Emprega-se o
expediente como fórmula de suprimir ao exame do Judiciário homicí-
dios e lesões corporais praticados pelos agentes da ordem pública
quando matam OLl ferem supostos meliantes no exercício (também
presumido) da atividade repressiva. Em episódios dessa na~ureza, a
autoridade de plantão limita-se a lavrar um termo no qual regIstra que
o sujeito ativo da infração agiu em estado de legítima defes.a, c(~n:e
de-lhe liberdade e procede à confecção de um simulacro de lI1~uento,
no qual se limita a tomar as declarações dos policiais envolvldos~no
14
caso. Obviamente, apenas uma única versão fica consicrnada no feito b ,
exatamente a que favorece a posição do agressor Oll dos agressores.
algum outro magistrado levanta a voz para demonstrar a ile-
galidade do procedimento em pauta, a judiciária ollvi-
moucos, preferindo encarar a questão numa perspectiva pragmáti-
ca, e se acomodar com a solução quc simplifica e facilita as coisas.
para o exemplo concreto no APÊNDICE 1.
se os policiais cobram de maneira tão exaltada o direito de
dispor da vida jurisdicionados, a recusa a tal prerrogativa por
dos promotores e juízes poderia gerar um estremecimento nos
laços que ligam as respectivas instituições, algo que se considera
muito prejudicial ao bom funcionamento da máquina repressora como
um todo. O que o sistema deseja é vê-las agir em perfeita harmonia e
entrosamento. a a, "a a
do de bí Jorge Elefante i
estourada na mesma hora em que o Secretário de Segurança,
general Waldyr Muniz, e o comandante da PM, coronel Nilton
Cerqueira, acabavam de almoçar no 12º BPM, em Níterói, eom
27 delegados do interior, 13 comandantes de quartéis da PM,
sete juízes e dois promotores, convocados para a reunião a fim
de 'sanar qualquer divergência entre a PM, a Polícia Civil e a
Justiça. '
........................................................................................................
Na reunião, Nilton Cerqueira disse que a PM desenvolve
um trabalho 'em defesa dos direitos humanos e cristãos'. 'A
união faz a força', disse o general Muniz."8
Crimes Cujos Inquéritos São Arquivados
pelo Ministério Público
Muitos dos inquéritos instaurados terminam sem que a polícia
logre elucidar a autoria dos crimes em apuração, sendo, nesse caso,
8. O Rio de 27 jan. 1982, p. 11.
S{{O os' cril71inos{).f;: CriJne e cr;',11iI10,I,'OS:
l'emetidos a Juízo sem a indicação do culpado. Em tais hipóteses,
outra alternativa falta ao Promotor senão a de pedir o arquivamento
do feito. I-louve o delito, disso há certeza; porém, por falta de
tos, torna-se inviável processar - e, condenar - o crimino-
so, o qual, fica oculto à sombra da cifra negra.
Outras razões, como veremos adiante, podem levar o Promotor ~l
renúncia quanto a movimentar uma penal contra alguém. Por
ora, contudo, chamar a para o já referido: delitos
de existência comprovada, mas autores, não ter sido levan-
tada a autoria, não são considerados criminosos ordem formal,
ficando de fora das estatísticas oficiais. É que o dado a seguir forneci-
do desacredita a alegação, por vezes sustentada pelos defensores da
criminologia tradicional, de que a cifra negra só mostra relevância
a de mínima a, sendo ele
delitos graves, como, por
lUdo o mais vimos sustenbndo fosse
a desrazüo do a só do
ria tal efeito:
o
para (lémonstrar
detclmina-
"O Departamento de Polícia Especializada (DPE) admitiu
ontem que existem atualmente cinco mil inquéritos de crimes de
morte san solução,todos a cargo da Delegacia de Homicídios.
Esta estatística - apontando uma média de um mil homicídios
por ano foi feita considerando apenas os anos que se seguiram
à fusão dos antigos Estado do Rio e Guanabara .
Estes números constam do relatório sobre as atividades da
Delegacia de Homicídios durante o ano que passou, encami-
nhado pelo delegado Arnaldo Campana ao diretor do DPE, que
remeteu ao Secretário de Segurança, general Edmundo
Mllrge1. 9
Somente entre 1975 e 1980, alguns milhares de assassinos
engordaram as hostes da cifra negra. Como, no mesmo período, as
por homi não a casa das centenas,
9. O GLOBO, Rio de Janeiro, 15 ago. 1980, p. ! 2.
16
torna-se
crimes relativamente às
como é o caso do
mais enfaticamente
separa o universo dos
num dei
merecem as
real
formal
assim pela ordem
à penitenciária),
na elos
que identificados que servem
ínfima da totalidade?
Além dos processos em que o próprio
de um culpado hipótese em que se vê
Iram pUf . r
de uma e outro de acentuada no tante ú
aquilatação do valor probante dos elementos carreados aos autos. Por
isso mesmo, ainda quando a polícia dá o caso por resolvido, conside-
rando haver descoberto a autoria do crime, ao promotor ocorre pedir o
arquivamento do feito, por lhe parecer serem os indícios reunidos insu-
ficientes para gerar sequer um princípio de convicção.
Percebemos aqui que também ao promotor se faculta uma
oportunidade de julgamento do caso, uma vez que decidir aquilo a
ser considerado como indícios s~~ficientes ou insuficientes exige
uma consideração valorativa sobre o conteúdo do processo. Como
em todo o julgamento, a matéria será enfocada através do subjeti-
vismo de quem a examina, uma vez que inexiste a possibilidade de
alguém adotar uma posição inteiramente desinteressada frente a
qualquer problema relativo à espécie humana. Por outro lado, em
área tão fluida como essa, inexiste fórmula apta a limitar de manei-
ra rígida e exclusiva os verdadeiros motivos aceitáveis no sentido
de autorizar a solução do arquivamento. Necessariamente,
espaço para a manifestação da atividade discricionária quem vai
decidir a matéria.
Como conseqüência, embora sustentando a posição por meio de
um discurso dissimulador, muitas vezes o promotor reqller o arquiva-
mento por entender que o apontado autor não um verda-
17
cieiro ainda que do
e de ser o indiciado seu
Tudo isso
de fato concretizados e os aparecem na claridade da ordem
formal - para cOnlradizer a realidade do r
Na
ondc há
acerca da conveniência da
do !''lIi!li
Poder
no concernente ao
a denúncia. recursos nesse
e se resolvem no àmbito interno da instituição.
manipulação dessa faixa de poder, como sempre acontece
fora dos
lei, influenciando-se
o
m, são se busca aliviar a sobrecar-
ga de serviço das Varas Criminais, ou porque o promotor discorda da
criminalização de certos fatos, ou porque se apieda de alguns acusa-
dos, ou porque, naquele dia, se reconciliou com a namorada e deseja
expressar sua satisfação por meio de uma atitude de magnanimidade,
ou por mil outros motivos que nada têm a ver com a efetiva existência
de um delito praticado por uma pessoa perfeitamente identificada.
O que, de resto, não representa nada novo no front ocidental:
./
"Noventa e nove de cada 100 pessoas detidas por acusação
de delítos graves, na maior cidade da nação (Nova Iorque),
jamais vão para uma prisão estadual e mais de 80 não são sequer
denunciadas como criminosas."lo
Claro, também a corrupção e os pedidos e ordens podem intluir
no ânimo do promotor para conduzi-lo à decisão entre o arquivamento
e a denúncia - embora a primeira causa seja infreqUente (o pape! do
corrupto, o sistema designou a polícia para desempenhá-lo).
10. THE NEW YORK TIMES, aplld Tlle Atlanta Journal, Georgia, USA, 5 jan.
1981, p.9A.
!
i
,.l
'j
18
Quanto à ÍndícÍo de seu alcance
na
CriU1eS que em
Instaur,lda a
"Tudo
são
absolver."
o processo terá de pros-
terminativa do Juiz. Às demolls-
em sentido
a crer que houve o cnme e o acusado é seu
aquela certeza
capaz de uma
por que me na contingência de
muitas vezes esconde tal fórmula o verdadeiro
motivo que levou o Juiz a livrar o réu de uma pena, sendo tão-
somente. como a mais e cómoda maneira de
Àtrás do biombo, podem estar o
de a.
sistência das afirmativas da criminologia positivista, a qual se alimen-
ta quase que exclusivamente de pesquisas realizadas sobre os mem-
bros das populações prisionais. Àdiante, atrevo-me a pensar.
~ .
Condenado o réu a urna pena
Juiz expede uma ordem (mandado de
que efetue a captura do condenado.
de que nào surs'is, o
determinando à polícia
. Pois .bem, existem no país mais de mil mandados por cum-
pnr. ConsIderando que contamos com cerca de 120 mil encarcerados,
constata-se haver muito mais condenados soltos do que dentro das
p~ni.tenciárias, ou ainda: a população prisional representa uma parcela
d1l1l1nuta no que concerne aos criminosos assim etiquetados pela
ordem formal, os quais, por seu turno, configuram reduzido número
da cri rní total.
Àlgumas evidentes conseqüências decorrem da existência da cifra
negra, como anota, por exemplo, Sir Leon Radznowicz: II
a) representa a substância do crime, enquanto as estatísticas oficiais
são tão-somente sua sombra; b) torna extremamente difícil descobrir
os verdadeiros caminhos e composição da criminalidade; c) restrin-
g~ e distorce nosso conhecimento a respeito dos criminosos; d) as
atItudes d~sociedade com relação ao crime e à punição são inevita-
velmente irrealistas; ,e) impõe-se como o maior fator no enfraqueci-
mento de qualquer efeito intimidativo que a punição ou o tratamento
dos criminosos pudesse ter; f) provavelmente, o sistema não tem o
menor interesse em tentar diminuir a cifra pois a polícia, os
promotores, o Judiciário e os estabelecimentos prisionais sucumbi-
~'iam se tivessem que lidar com todos os que, realmente, praticam
mfrações penais.
Também a ONU já afirmou que os estudos acerca da crimínaJi-
dade oculta em xeque as tradicionais relativas ao
problema da delinqUência. Estas doses de
! ! . 0v cit., pp, 52-4.
20
de modo a demonstrar que toda
l~(ILL!" de e
Capitulo II
A
CRIMINOLOGIA
TRADICIONAL
"O conhecillli'nto
r('!l{ç'{{.')1 tl.\'sinlÍ!u os' coj,,>'{f,\'
I1cn/llurt de perdae/c. (f
i,\'so, o conhecilllento SenljJre lilll de.'lconhe-
cimento. Por outro !ado, é sel!Jpre que
visa, nwfdosa, insidiosa e ag.ressÊvCl/l1ente,
indiv(duos, coisas, situaç6es. "
Michel Foucault l
Três postulados seguram todo o edifício da construção crimino-
lógico-positivista: l. O crime é um fenômeno naturaL O estudo do
crime deve ser realizado através do mesmo processo de conhecimento
usado para as ciências naturais. 3. Pela observação e pesquisa dos
minosos, assim identificados oficialmente, é possível desvendar as
causas do crime e extirpá-las da sociedade.
Submetidas a uma crítica que prescinde de maior profundidade,
tais afirmações se esboroam, deixando à mostra o miolo nelas conti-
do: um saber promovido pelo poder dominante, permeado de conteú-
do político. Tratemos de examiná-las, olhando-as pelo avesso.
l. CADERNOS DA PUe. A verdade e as fórmas jurídicas. Rio de Janeiro, 1978,
p. 19.
21
22
o Crime Não é um Fenômeno Natural
para posicií).tHlf o crime corno
ci em reconhecer-lhe a
natura!", isto é, que
vel como. um ser em si mesmo.
vistas a tal mister, impunha-se recusar o
na fase do Direito Penal de acordo com o qual, na elegante
sentença do scu mais completo e coerente mestre, Francesco
Carrara: "O crime é um ente jurídico." Aceitar a concepção deli-
to como alguma coisa dependente da legislação importaria em
empurrá-lo parao mundo das normas, e este, obviamente, constitui
regaço uado para aninhar uma natural. Dentro da
a onde nasceu a crim as
ou tra.
CGmo incomu
ma deJas com
por
O objeto da ciência positiva tem que ser, de modo estável, defi-
nido, absoluto. Ora, a definição das infrações pelos preceitos legais
caracteriza-se pela fluidez, pela mutabilidade, pela extraordinária
variação em função de sua colocação em termos de tempo/espaço.
Agir de uma certa maneira pode ser crime hoje e aqui, mas pode ser
lícito hoje lá ou tê-lo sido aqui ontem ou vir a sê-lo aqui. amanhã.
Como observou um autor: "Uma criminalidade que é regulada em
parte pela cronologia, em parte pela longitude, não se presta facilmen-
te para uma discussão científica."2
A rigor, se por cientifica queremos dizer cientifica-natural, não
se presta de jeito nenhum.
Somente conceituando o crime em total independência quanto
leis é que se poderia elegê-lo como objeto próprio de uma disciplina
ex ata.
No de atender a esse pressuposto incontáveis tentati-
vas foram feitas, e continuam a sê-lo, na busca de apresentar lima
de delito.
2. ELLIS, Havelock. The Criminal. Londres, $. cd., 19 J 4. p. 2.
os crinzinosos? Crirlle e Cri!11ino:üJs: ente};
muito talento, resmas de papel e de tinta
do em causa. Desde
dos
uma profusão
cada crimi que se
preza adota no que concerne ao O fato indiscu-
tível é ínexistir a mais longínqua ou remota esperança de consenso a
o que parece comprovar a presença de
l:m
fico i para cevar
experirnentaI. Nesse passo, os psicólogos obtiveram mais sucesso, ou
foram mais o elemento
metafísico "alma" na de
tude dessa
dela descartar
em o
contas,
normativa.
que tira da
iI idéia de
lei que só em vir-
lado
i.
Trau. B Silveira. Süo
24
outros, cuja criminalidade é
criminosos em todos os
resultariam
que se possa chamar
atribuído por uma lei "6
U<"-,LlIJ':L{A;;' de superar o relativo à conceituação do crime
como "fenômeno natural", a maior parte dos criminólogos adota
impassível postura: concorda quanto a estar num beco sem saída, con-
forma-se, elimina das cogitações qualquer preocupação relativamente
ao ponto, mas persiste com afinco na tarefa de trabalhar no edifício da
criminologia positivista - que flutua no éter, à falta de alicerces.
Assim, criminologiza-se numa espécie de colorido balão solto no
espaço, carente de vínculos que o liguem ao chão da realidade.
.Quadro singular o da criminologia: ciência natural que não dis-
põe de um objeto de estudo precisamente definido.
o Estudo do Crime Pode Ser Realizado
Através do Mesmo Processo de Conhecimento
Usado as Ciências Naturais
do das tentativas de conformar o crime à condi-
de fenómeno natural, nem por um instante ocorreu qualquer vaci-
6. BRUNO, AníhaL Direito Penal. 2. ed. Rio de Janeiro, Forense, s,d. tomo I, 'p. 269.
sua
slio os crhnillOSOS? CriJne e critninosos: entes 001.1111"']\' 25
com referência à escolha
científica:
"Uma sol
ciências naturais
mcnto da
das
do :~;tatlls ele
objetos
a serem na
método das
sob o argu-
o avanço obtido na química, física, astronomia, biologia encheu
o homem
para a buscasse
usar o mesmo conduto no concernente ao novo campo que se abria,
aquele em que o principal objeto de estudo era o próprio homem,
enquanto ser político. A assimilação deu-se de forma tão decidida que
se projetou, até mesmo, na nomenclatura escolhida: v.g., à sociologia
apelidou-se defísica social.
Não parece difícil, porém, apontar o erro básico que macula tal
postura.
Quanto ciências naturais, o homem assume a posição de sujei-
to e a matéria de seu interesse oferece-se corno objeto, algo à sua
frente, autónoma com respeito ao investigador. (Advirta-se estarmos
procurando simplificar a explanação, pois, em verdade, em nenhum
domínio do conhecimento se identificará alguma coisa que seja intei-
ramente objeto relativamente a um homem sujeito: ambos estão no
mesmo mundo e, de alguma forma, interagem).8 No caso das ciências
sociais, torna-se evidente a impossibilidade de realizar a cisão sujeito
x objeto, haja vista estar o homem, de forma principal, nos dois pólos
7, SANTOS, Juarez Cirino dos. A da Rio de Janeiro,
Forense, 1979, p. 16.
8, A da nm,b""A'''' María Alice Máximo, coIbida oralmente.
26
da relação. "O homem é, a um só tempo, sujeito e objeto das relações
. ,')
m
humana são
funde com o
di
sociedade." I o
desenvolvimento c trL1nsfor-
em que se desdobra a ex istência
S, um que se con-
cito que o conhece: não a ser
ela natureza e as ciências da
Com efeito, o sucesso do método ou positivo
medularmente, da neutralidade e desinteresse por parte do sujeito
cln elo estu-
c
vel encontrar neutralidade por parte do cientista enquanto trabalha no
terreno das ciências humanas?
"A questão da neutralidade do conhecimento científico
(produto de um instrumental técnico, neutro), ou de sua objetívi-
dade (relativa a dados objetivamente verificados), depende, por-
tanto, da imparcialidade de um sujeito que como parte de
s~u próprio objetó." II
"A questão, agora, é esta: corno é possível a imparcialidade
do sujeito, se este, como sujeito, é, também, do objeto
investigado?" 12
o cientista está encarnado num homem, situado numa dada
na qual ocupa um determinado lugar específico em
aos outros indivíduos, com se relacionando politicamente, vincu-
9, SANTOS, Juarez Cirino dos.
10. Id., íb.
I I. leL 1.
12.ld.,
p. I
.v{ío os criJlÚnOS05'! Cri/11e c cri"ú!losos: enTes
lado a grupos que se formam em funçã,o da distribuição inigualitária
da da propriedade, do status, das recompensas etc .
ser - ou, para usar s elucidativa, ser
político - é-lhe impossível toda essa gama de
a ponto de o meio a que
como alguma coisa que não lhe diz e, forma, observá-
lo com a distância necessária para fazê-lo um objeto alienado de seus
interesses: "... como se uma ameba saltasse da làmi-
na de um para o visor, c do visor para a lâmina, tentando
observar a si própria".13 Só na mais das será viáVtl
conceber alguém capaz de enxergar o grupo humano sem fazê-lo atra-
vés da intermediação de representações de valor, as quais estarão
meadas da influência da posição do sujeito no que concerne ao confli-
to de entre as chtsses Em suma, na h;i um
resultado
grupos
ante adas qu
ainda que se pretenda cientista, sofrerá a influência do oeu
relativamente ao jogo do poder, quando procurar refletir sobre a reali-
dade na qual está imersa. .
Importante papel desempenha, na construção das ciências sociais
de cunho positivista, a ideologia adotada pelas classes superiores.
Esse "conjünto de idéias, crenças e princípios, mais ou menos sincera-
mente professados, mas que não correspondem aos I apresen-
tado como fruto da atividade espiritual, mas, em verdade, decorrente
da ligação do espírito humano a rnúltiplas formas e pressuposições
materiais e, sobretudo, leva pessoas do grupo dominante
a impor como verdadeiro aquilo que ajuda à continuidade do status
quo social e, à manutenção de suas e
Anexar o atributo "científico" à importa em a
sobremaneira, inclusive de um que a torna indene
aos de todos os do título de - a
13. GOLDTHORPE, .1.E. c Social. Trad. Cabral.
Rio. Zahar, I pp,31 LT L
14. CUV1LLIER, Armam!. \'ocoblllârio do, Tl~(1. 010 .
de 01 íveira e J, g, Damasceno Penna. São Paulo, NacIOnal, 1961, p. 7 f.
28
dor dos elementos de
ser
de re,lcionári o.
da ciél1cizl, ou a
sociais, nas socied
conheci-
articu
diz Foucault: "O ítico não está ausente do saber;
ele é (ramado com o saber."1
Penso que ficarão stradas as afirmações alinhadas, não
apenas por forç:a do tópico seguinte, mas, especialmente, quando cui-
da concernente aocaráter di da
criminal.
Na medida em que quanto a definir e ficar o
eto da disci ma - o crime como natural _. a crimi-
nologia renunciou a el como o ponto básico ele suas investi-
IS. Juarcz Cirino dos, 0/). cito p, 25,
16. FOUCi\ULT, Michel. Vigiar e jJllnir. Trad.
Vozes. 1977. p, ~2, M. PUl1dG Vassalo, is.
StlO os crilJlinos{;s? Crinlf? e crinúnoso.y: entes 29
a H lassirica-
(p!e recusava revestir ;\ concreticidade
para se lhe reconbt:cer a ljllalidadc de o de uma ciCncía
V;l.
obstáculo.
manobra no sentido ele altCl'm !la subs-
Sé: l1l fazc-l () fOlTnél decl;1rada em lU b.:órico e
verbal, o conteúdo da C!'Im!
Certo de que sem material para a de um trabalho de
laboratório ficmia difícil o novu ramo elo conhl2cilllcnto com ,)S
louros da de "ciência", o
por baixo da mesa, de sorte a oferecer coisa utilizóvel
na pe"sqllis~1
resumida: a doença é um mal, realizando-se muitas das suas illvesti-
gações sobre o corpo do doente; o crime é um mal, logo, por anal
possível seria investigá-lo por meio do corpo dos seus portadores, os
, criminosos.
O achado era, como o comprova todo o or [-
mento da criminologia, de alcance extraordinário. Criminoso é um
homem, e homem é algo concreto, real, existente no mundo
descritível, classificável,
. Contando com um
com a entidade delito,
inada a o de objeto de uma clcncia
Claro, desnecessário seria eliminar ostensivamente da nova
objeto "crime". mas seria considerado como um ser de
ao e. por via deste último. se faria a
naturalística daquele.
Eis a verdade: a criminologia positivista, o fato
mediante uma retórica sofisticada e tomou para seu
o criminoso, com o que, se livrou de enfrentar a difi-
culdade ele transformar um ente político o crime -- em ser natural.
dev o problema permane-
é quem pratica um ilícito penal, somente sabendo-
30
se o que é crime seria possível reconhecer em alguém a qualidade de
nesses termos, voltaríamos à estaca zero.
verdadeiro modelo de
entretecido dc conteúdo
o beco sem saída em encalhada a
se as coisas colocadas ele franca:
O que é em sentido isto é, não-normativo
ou
- Não sabemos.
- E quem é crimi
- É quem pratica crime.
as não SabClTlU'-) u que é crime.
o recemhecimento
romper a das barreiras que, ele uutro
qualquer saída para a aventura do novo ramo do
conhecimento. A ideologia, fazendo as vezes de Sócrates nos diálogos
de Platão, guiou os cientistas à tranqüilidade do porto em que deseja-
vam atracar, usando uma lógica aparentemente razoável:
Ideologia - Que é crime, cm sentido concreto?
- Não sabemos. Por mostra-se impossível
tomá-lo como objeto de uma ciência natural.
Ideologia - não é crime o ato praticado pelo criminoso?
- Sim, corresponde à verdade.
criminoso não é real?
- De fato, não há como negá-lo: são homens e,
o criminoso pode servir de objeto a uma
cia natural.
- Mas como encontraremos o criminoso, para exa-
miná-lo cientificamente, se o que crime?
Tal desconhecimento não que se encontre o
Já ficou assentado que
ao crime, não é verdade?
31
então prossigamos, meus
Se eu lhes pedir que me mostrem um me CO!1-
-- A uma
ica.
se nós queremos encontrar o aonde
é lá que os criminosos estão recolhidos.
Ideologia Como vêem, vocês já conheciam a resposta correta,
. üs vezes ocorrem no sistema
Ideologia Não contesto tais possibilidades. Trata-se, porém, de
hipóteses raras e a ciência deve desprezar as exceções na sistemati-
zação do seu saber.
E aí os criminólogos, de Lobroso, Ferri, Garofalo até os mais
modernos e enciclopédicos autores, docemente convencidos por tal
alaaravia que se alimenta tão apenas do senso comum, avançaram
sobre as ~opulações prisionais, ou, na melhor das hipóteses, sobre os
/ indivíduos oficialmente designados como criminosos, para, em fun-
da análise a que os submeteram, construírem sedutoras e brilhan-
tes teorias científico-criminológicas.
Na medida em que a ciência, por meio da conspicuidade dos
abonou cientificamente o reconhecimento do o de cri-
formal rotula como
32
/\ cirra a nu, defi!li í i vo, tI ma
anteriormente r,~;gi ao
para
se resguarda da análise,
positi vamente
. Talvez um
". recebe-a com entusiasmo
casa ü perfeição com a por ela
vl'rcla ~
ti a lei
cnCOI1-
em clcs-
ao lodo -
por escondida no
pode ser mais
ilustrativo
bas i 11 ~l le'()rJ' ,'I elc} C011tl','\10 S'l')C J' ;II', ( j . c., . coe as as pessoas são Iguais
perante a lei; por
é algo mau em si,
soas. más; daí, nada mais do que
mall! festação típica das
concluir que o cnme é urna
ernpresta sua la ao asserto cm
os crinllnosos~? C/filIe' c crinli!l()5;oS:
os
CUl1l0 Cil:;klo
quc a maioria dos prc:;os
única conclusão ~1
característico do enCi\['cerUIl1C!HO.
p;tr:l c:;tudo
o criminoso constrói-se pela
33
o normativo) operadas pelo atuar discrimina-
criminal.
Muito pior a emenda que o soneto. Sem embargo
a llloslTOll~SC fecunda, dando a
extremamente úteis para o político. Vejamos isso.
O direito criminal enraizado na idéia do contrato
búsico desse
de
to caberia uma única pena,
todo estranhas as características
Beccaria amava tais
leis executadas ú
cuJar exalamente os inconvenientes de uma
aI teria de
) 7 BECCARIA. de, nos deli/o" (' dus jJeI70S, Trac!. Paulo M, Oliveira. s. 1"
Ec!. de Ouro, 1965, p. 35,
34
" ... o se mede pelo causado à e não
sensibilidade do "18
Ao margem de d na
leis:
"A mcira que leis
fixar as penas ele cada delito e que () direito de fazer as
s não residir senão na do , qUt;;
toda a sociedade por um contrato social. 19
"Resulta, ai dos precedente-
mente, que os juízes dos crimes não podem ter o direito de
as leis penais, a razão mesma de que não são
SL~ () for um
raciocínio a mais, ou se o fizer por conta própria, tudo se torna
incerto e obscuro. "21
"Quando as leis forem fixas e literais, quando só confia-
rem ao magistrado a missão de examinar os atos dos cidadãos,
para decidir se tais atos são conformes ou contrários à lei
escri ta ... ,,22
Dentro de um regime natureza, a diversificação da aplica-:
ção da justiça em função do status do criminoso acarretava embára-
ços, problemas, o risco de evidenciar de forma ostensiva
que as eventuais inequanimidades praticadas resultavam aluar dis-
criminatório do aparelho repressor.
Obviamente, os donos do poder jamais tiveram a inten-
ção de se ver feridos por suas armas. Afina] de contas:
i8. Id., p. 37.
19. Id .. p.
20. Id., p. 39.
1 Id., p. 40
22. Id., p. 140
selo os critnil1osos? Critne e crinúnosos: entes
"Um sistema penal deve ser
mento para r diferencialmente
como um Ínstru-
idades, não para
a todas. "23
, seri conciliar o discurso fi
iluminismo com os fins pragmáticos a serem extraídos da
, sem colocar em demasiada evidência sua interessa-
damentc di
Subordinada a lei a um lS1110 inelástico no que concerne
ao tratamento Li todas as pessoas, o atuar
a deixaria a descoberto diante dos olhos do
Como solucionar o impasse? Aí troou a voz da ciência.
Como vimos, em virtude da inconsistência de sua
para
da
va
o quadro de dificuldades nesta existente, maleabilizando a amarração
das sanções a cada ação proibida.
Transpirando autoridade, posto que ornada do título subli-
me de ciência, a criminol sentiu-se suficientemente forte para
invadir o campo do direito penal.
Houve resistência por parte dos juristas (Escola Clássica). uma
vez que as soluções propugnadas pelos invasores (Escola Positivista)
pareciam incompatíveis com os pressupostos onde partiam
. os princípios do direito penal do social.
encontrando uma de compromisso
através da qual se as duas
melhor seria
conseguem conviverenquanto
ser mais absurdo que
da reserva com o da
23. FOUCAULT, Michcl. op. cit. p. 82.
to, há evidentes e
de
36
D~lS penas retrihutivas com
CU]]] elcrnel1(os !iornl,\tivos na
l1l',mo III cc éll1 i ÍSla ~- i'undamc!1to
tlV1Stc\ com u li
cIsmo
O caSLllllcnt" foi n~:di/~HJo :. 111:1S vIngou
porque alUui1cnt~~ CUl1clonal
i\
cnmmoso
ares de sabichona
recebc pronto e
ver à parceira, prestigiando-lhe os padrôes de atuação.
Dê]
Do dctcnni-
]a
, apLsar
'-~S( Lido o
dos
Ou, em lermos : a justiça condena os membros das
pobres da população e os envia para a penitenciária; a crimi-
nologia vai aos pesquisa-lhes a e cumunica à
a mais relevante característica do
abonada sua
eSl1lera~se em sekcionar os para o
encarceramento; eom a de ondas de indivíduos miseráveis ~IS
os CrI ali eneastel as mãos ele con-
tentamento e sentenciam: confirmado, cada vez mais
crime é ( co : o
repressor, ciência
bem meu árduo mister~ atesta que estou
Na rneclida construindo o estereótipo do delin-
através dessa de uma ciência com a j
24. FOUCAULT, Michcl. ClllÍemo\' do PUC. Op. cir., p. ('x.
37
cada vez menos se dj da
pClld 0'111
lêlr CU]1l ()
coutra
/WS{[S que
na ln a a uma norma ]c
ZÜ() suficiente p~l!·~l o mediel:ls repre
mlivíduos a
"Tocb a do século XIX passa a ser 111 controle,
rü10 Umto sobre se. o que fizeram os mdivídllOS cstú cm c"onf\)rmi-
dadc ou não com a lei, mas ao nível do que fazer. do que
~;lO capazes de Llzcr, do que estão a fazer, do que estJO
na iminência de fazer."25
erradicar o mal do mundo.
Criminosos, porém, para ela são as pessoas a quem a ordem ofi-
ciaI semelhante rótulo, como vimos. Sem
inebriados vapores elas retortas fumegantes, os criminólogos
desapercebem-se de tão sin a verdade e se aventuram nas mais
tas e variadas teorias a respeito da do delito.
A matéria oportuniza uma vastidão de campo capaz de
de a sorte, fantasias desen-
obras anado com o
resu mo das di versifiea-
causas do crime - o ponto de
das correntes que riscam a arena da crimí-
que, em realid todas tomam
por base um mesmÍsSll110 o conceito de de que
se não tem nada de "natural", ou de , ou de "científi-
co", urna vez que estritamente, ao do aparelho
repressor na oficiaL
25. Id, p. 67.
38 '
Em meia dúzia de palavras é possível traçar a resenha das tais
correntes - embora os pobres universitários percam no
mínimo um semestre inteiro para conseguir uma pequena
a dos seus quiméricos
Os da
deais a ser seguidas
resultar () delito de
de certos indivíduos
VIve
bido o resultado
eclética).
Para os
LISO elo
(não há segundas intenções no
de um
Daí ;\
criminoso nato". a dos
nossos dias. O epígono da escola variou um pouco a respeito da exata
identificação do tal defeito, ficando mais conhecido, porém, por pre-
tender que poderia ser diagnosticado através do encontro de certas
características morfológicas, tais como testa estreita, zigomas salien-
tes" orelhas em couve-flor e por aí afora. Na esteira de tal visão, surge,
maIS tarde, a explicação de que o delito resultaria do funcionamento
anormal das glândulas internas (endocrinologistas). Nos nossos
aparece a teoria genética, pela qual a existência de um Y a mais na
composição cromossomas impele o portador, infal mente, Ú
perpetração de A propósito, não resisto a transcrever
alguns trechos de que saudou entre nós o surgimento de
teoria:
Lombroso, o autor livro O
Delinquente, acaba de ver comprovada sua tese de
que o crime é, na maioria
sâo os crillú!losos? Crillle e criminosos: enles
anos depois da teoria lombrosiana, a
vou, no laboratório, que existenl pessoas
à de todos os crirnes.
o Leonidio Hibeíro diz que deveria haver uma revolu-
mundial em ao invés de se
de a
um trabalho de
associais:
dos Ylo de elementos
como se faz com os e cancerosos -
cou -- a sociedade deveria dedicar-se ao estudo da personalidade
dos anormais, a fim de apurar as razões que os levaram à prática
anti-sociais, o facilitaria a defesa dos seus 8ltos
interesses e, ao mesmo tratan-
no lO da
l'
, U1Z,
irresponsável (no sentido da conscientização e dos efeitos) entre
pessoas sãs, contribuindo para o aumento da criminalidade em
todo o Universo.
Pois a verdade é que o crime (reiterado) é produto da ano-
malia genética que condiciona malformações físicas, e todas as
taras que deságuam na infração e no delito."26
Para os adeptos de , fundador da sociologia criminal, o /'
mundo ao homem, no qual ele se cria_e v o ambiente
que o cerca, os fatores em que imerso,
seriam as condições determinantes no sentido de arrastar alguém,
íncoercivelmente, à prática de ilícitos. As posteriores a esse
pomo de vista atingiram construções extraordinariamente sofisticadas,
das quais, talvez porque pejadas de altas de
sabor hermético, ainda apaixonam os estudiosos hodiernos - tais
diferencial, da anomia etc. Encampa a
o forma de
26, O JORNAL, Rio de Janeiro, I ou!. 1969.
40
alo nascerem certas pessoas com
nll1l n
veremos adiante, ela está infensa ii
contrúrio lidS suas duas f\lrInadolas,
de glândulas
u-
A impugnação a elas também se nu campo da natural,
embora de forma um pouco diferente da já citada, Ao encontrar nas
uma popul caracterizada pela pobreza, pela ignorância,
por se originar de famílias desorganiz.adas, por pertencer a minorias
étnicas, os criminais concluíram solenemente: ii
za, a ignorância, o ser originário de famílias degradadas, o pertencer
a mi eis as causas do crime.
que a verificação de campo
três por cento o número relativo de del
Para que
determinantes,
Mais cómoda revela-se a ecléticos.
conducentes ü eclosão das condutas s veí.rias causas de
cada natureza, ainda estas se mostram falhas na hora da com-
ê sempre para uma tábua de sa]va-
aumentar o número de fatores eaus,lis com ante-
riormente não indicadas. Tal ani ser ampliado e o foi -- até
tornar inviável a contraprova . Atentemos para ,\
palavra de um dos mais autores da corrente:
,<,'tlO os crimiu()S(Js? Crin7C e crinlfilOSOS: entes 41
";\ i
que são reconhecidos
fenômeno illlli
série; de
um crime
llÚO seriam criminos,ls
car nada na de ordem
ca" se consegue retirar dela. Se as causas são tantas c tão diversifica-
termina-se retornando ii estaca zero, por concluir ser o crime o
do imponderável.
Creio que se me permitirá repetir, a essa altura, o antes afirmado:
o fundamento da criminologia amesquinha-se a
uma arenga empolada, que cm torno de um núcleo cuja essên-
de mero senso comum.
cri
exatamente isso, ao dizer:
sem o
da
o
mento
riência
faz o
crim
de acordo com a sabedoria
se condensou cm dois
lcado do meio para o
c "Tal pai, tal filho" (Der
que na base da expc-
"A ocasião
desencadeamento do
II veit vom
27. SEFUCJ, Ernst. Mallllo! di'
Armcnio Amado, 1957. v, I, p, 314.
Trad, Guilherme de Oliveira. Coimbra,
42
da hereditariedade
a em crll1ll
causa pasmo que
do delito, tenha
du crime, se vamos buscá-las a
o descnvolvimen-
comum <l
tão s 111-
aSSlm ordem ofici
do criminoSll
dificuldade
cm ser idemificaclas: J. "a - uma conclusão que pare-
28.
uu absurdn,,:!iJ do J1lccanÍs-
u
das normas s, com-
de conhecimento da realidade e
cimento. a mêUS
tivas do mundo até o 'senso comum , ~lS vezes chanlado
Dennis.
Tavístod: Pub .. 1968, p.
igioso, etc. Como modo de dornina-
lhe
a per-
taria-
assim,
lhe criminul. London.
.VelO os cri/Hlnos'os? Crin1e e crinzillOSOS: ente!';
todo conhecimento é em alguma medida uma forma de submeti-
mento."30
o grande papel ela ideologia é convencer os de que,
dominadores a que os submetem, devemdócil e disciplinadamente:
"Por esse pra comer, por esse chão para dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar
Deus lhe pague ...
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
a
qlle a
:\0. CUNHA, Rosa Maria Cardoso da. O carúter retórico
Porto Alegre, Síntese, 1979, p. 20.
que cair
31. CI-HCO BUARQUE DE HOLANDA. Deus lhe pague.
da
lU
e nel77 () será
acrescento r: niio deve sê· f(}
e, sobrc[uc!o, n(/o del'c pensar que ~, "
A maioria das pessoas acredita piamente, sem dúvidas
ou questionamento, em certas "crenç~as jurídicas", inculcadas de
maneIra pela ideologia, tais como: "1. Que existe um legisla-
dor racional nelo um sistema jurídico coerente, económico,
etc, 2, Que o ordenamento não contradições e
redundâncias e, o direito penal não exibe lacunas, 3,
Que a ordem justa c os
4. Que o julgador é, axiologicamente,
neutro enquanto dec não há o na apl da
I, LE DESIR DE PUNIR.. Pans, p, II.
45
46
Justiça. 5. Que o julgador, no direito penal, busca a verdade real e não
o elo ponto de vista valorativo."2
Verdadeiros arrolados, até que se
assertivas,
por total
acabado da indústria
judiciário, para estu-
porém, como o demonstra a
com a realidade.
resulta da
ele dois momentos: a produção das leis (legisladores), mais sua
aparelho servindo de matéria-
prima para a manufatura os do povo.
Busquemos analisar cada uma das fases referidas para, por fim,
verificarmos' que valor pode ser atribuído à etiqueta de "criminoso",
apl a pessoas ordem
- "Deixe-me prossegui!; disse Colin. Você neIo se arruma
mais aos domingos e não se barbeia mais todas as manhãs.
- Isso não é wn crime, disse Nicolas.
- Isso é um crime, disse Colin. "
Boris Vian 3
Ingenuamente, tendem os cidadãos a,encarar as leis como man-
damentos baixados por um poder transcendente, que as decreta com
superior neutralidade e imparcialidade, verdadeiras revelações que um
ente sagrado se digna a propiciar ao povo. Algo aureolado de um halo
dívino, provindo de origens mágicas ou astrais, ditado por entidades
supraterrenas, de natureza misteriosa. "A lei é a lei", diz-se religiosa-
mente, e estamos conversados.
Ora, a ordem jurídica resulta da atividade humana, elaborada que
é por um legislador, isto é, por um ou mais indivíduos de carne e
2. Rosa Maria Cardoso da. O carâter do da If'!'nllnn/lp
Síntese, 1979, p. 1 18.
DES JOURS, Paris, Union Gen. Editions, 1980, p. 130.
.';;clO os crinúnosos( C'riJne e cril1úno:u)s: ente.1)
partilha de todas as
que e ama,
ça, tronco e
vezes ao dia.
a milit::lr,
de estatuir as normas
comuns aos seus semelhantes,
que possui cabe-
pura idealização ético-
dita as leis a classe
do sta/ils CfUO
Tais considerações aplicam-se, às normas definidoras de
crimes Penal e leis as orientadoras da
pela qual se declarará alguém de Processo
leis Aqui, mais do que em outro ramo do
de passar por cima dessa realidade si
e criminoso não são entidades
ser vistas como
/vontade cio slaclor
a crença na
embuchá-Ios com um
o resultado da
a tarefa de consolidar em
dos grupos
idealística que envolve
devemos
Na medida em que se obscurece a crueza de tais ene-
articul voando-a por meio de uma retórica
obter a adesão camadas
finalidade de manter ditos
a regras pro-
em estado
usá-la por
i.
48
de de
no sentido de eoartar tentativas de
A lei, sem dúvida de
no
Penal relativo
aos
ü cri-
imn resllmir a um
bens ou direitos de uma pessoa para outra, sem o
mento da"4
mais
cantil, uma vez que vivem, na maioria
E o que é um negócio, sobretudo um bom negócio, mais que
tudo um excelente negócio?
. ,Po~ieria u:na sociedade negocista sancionar com castigo os negó-
~IOS? ~na, entao, o da classe negocista punir os negócios,
lmpedlfldo, des.s~rte, que tal classe praticasse os fatos que se consti-
tuem em sua atlvldade precípua?
vez de adotar aquele modelo, preferiu a lei estilhacá-Io em
. figuras delituosas, pois, na medida em que rompe a'vincula-
dl:'et,a da regra ética com a norma jurídica, oportunidade para
subtraIr a a I . , -' c s que, se etIvamente, nao lhe ll1teressa per-
turbar.
A oratória jurídico-liberal, como seria de esperar, enxerga as coi-
sas do m~do muito e dispõe de munição, em seu infi71ito arse-
nal retÓrIco, para justificar plenamente a solução codificada: somente
a precisa do comportamento proibido satisfaz à garantia da
reserva legal ("não há crime sem lei anterior que o defina").
4. CHAPMAN, Denllis. anel lhe lhe CrÍll1 inai. London.
Tavistock Pub., 1968, p. 72.
49.
Eu mesmo
vago, inconcusso ser
de um preceito a irlcertcza dos sobre
a conduta que lhes é defesa, ao mesmo em que fica
I
do
, se infiltra em os
centes ou não, quando subjugados às ditaduras e regimes asse-
melhados. A sufocação, o ambiente trevoso, o fazer ou não fazer
transmudado em tortura permanente, assustadora e paralisante, o
dia-a-dia repassado daquele terror mórbido que Kafka tão bem
sabe transmitir em O processo."s
Ufa! Por tudo a o Código preferido, à encampação de
um conceito abrangente de lesão ao património, parti-lo num rol de
definições, cada qual delimitando com rigor dado. comportamento
específico (tipos penai tais como furto, estelionato, apropriação
indébita, roubo, etc. Só minoso o indivíduo que
observar no mundo fálico uma conduta precisamente adequada ao
modelo abstrato prefixado em um daqueles da lei. Ocorrendo
descoincidência cm algum ponto, o delito,
por ausência de tipicidade.
Por con ia, se alguém para si um bem ou
direito do património de outrem, sem completa ciência ou pleno
REVISTA DE DIREITO DA
em bronco e relroof;vidade
DO ESTADO. Lei
Rio de Janeiro, 19:236, 1968.
50
consentimento do último, mas, apesar disso, sua conduta não se
exatamente das condutas tas na lei,
de delito, cm face da
cubre as
que contrariam a norma moral apresentada como razão
de ser da dos contra o património: em easo vo,
observemos se a ;Írea o por mero acaso,
Toda vez o se dá pelo
aos objetos em si ou facilmente se encontrará
cia entre o do ativo e algum dos
na lei penal. A tirada no roubo, a apropriação do dinheiro da firma
pelo empregado-cobradór, e assim por diante, docilmente se adequa-
1710 aos modelos 111 dos infra-
conlra os sím-
se modifica
kbdes
em qualquer dos
registrados no Código e, ausente a famosa tipicidade, torna-se inviá-
vel qualificar a ação como crime. Isso é que permite permanecerem
fora da área penal hipóteses como as de jogadas de bolsa de valores;
não-pagamento de empréstimos estatais obtidos mediante oferecimen-
to de garantias ÍnexÍstentes ou de valor muito inferior àquele por que
foram avaliadas; recebimento de subsídios governamentais em contra-
dição com o fim a que se destinam; concorrências de cartas marcadas;
jogos contábeis; transações fictícias entre firmas de um mesmo con-
glomerado; triangulares; especulação através da
de mercadorias; evasão de impostos; subida artificial de preços; esma-
gamento de empresas concorrentes, de sorte a obter o domínio do
mercado e imposição de condições escorchantes; fraudes ao consumi-
dor; anúncios falsos; enfim, toda a imensa gama de operações a
permitir a de lucros e que caracterizam a retirada de
bens e direitos dos outros (em , largas da população) con-
tra a vontade deles e sem que tenham conhecimento de estarem sendo
defraudados. Tais contudo, revelam a se amol-
darem a dos
Sabendo que os membros das classes a lidar
com as coisas em (objetos, dinheiro) e as pessoas das classes
StlO os crinzinoso,Ç? Crilll(~ e crinzinosos: entes 51
média e alta com seus símbolos (títulos, papéis), percebe-se com nÍti-
dez que espéciede ladrões mais provavelmente cairão na teia do apa-
relho de criminal e qnais os que incólumes
seus buracos.6
Penso valer a pena submeter à ise a in elo art. 17! do
Código Penal - ionato - pois oferece tal delito excelente material
para etar o tema ora abordado.
Reza o em causa:
para si ou para outrem ilícita, em prejuízo
alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifí-
cio, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento."
Levando "lO da letra o comando a
comércio lima vez que cm todu
erro
crc nüo visa a outra sn senão a
daquele resultado, pelo entorpecimento da capacidade de percepção
do.'ô ~Jlnidores. Talvez por isso os comentadores, em geral, costu-
mam criticar a fórmula legal do estelionato, por a considerarem ampla
em demasia: "fraude" seria expressão vaga, de limites imprecisos,
capaz de abarcar LIma enorme variedade de atos, muitos dos quais, por
certo, não estavam nas cogitações do legislador ao instituir o delito.
Se o anúncio da televisão e, depois, o vendedor da loja me afirmam
que dada mercadoria é tanto a melhor como a mais barata que existe
/' -
na praça e por isso a compro, vindo mais tarde a constatar que nao era
uma coisa nem outra, parece que fui "induzido em erro" "mediante
artifício", ou fui vítima ele estelionato. Para a sociedade burgue-
sa, como salta aos olhos, qualificar fato dessa natureza como crime
representaria um insuportável despautério.
Aí, apela-se para a capacidade inventiva dos juristas, a fim de
dar um jeitinho na questão. , ,
Sem se fazerem de rogados, vêm eles e declaram: espera la, ha
fraudes e fraudes, umas puníveis com pena de reclusão, outras não. E
prosseguem. há fraudes s e fraudes civis, somente o
(). Cf. CHAPMAN, Dennis, op. cit., passim.
52
rÓLulo de cnmlllOSOS Lll1~',H11-Se ~h
lllais de estabelece L
um tipo ele
I:,) I
membros ebs
d J1l n lHes, A III ioria, po
uinte :
() problema llOS t rmo
de fUiílbmclltal coincidem o delito ii u
outro s:to uma rebeldia cuntnl ii ordem jurídí-
ambos num fato exterior ao
a título de dolo ou culpa, /\ única
elo
li
men(o do forçada, restiflilio
nulidade do só deve recorrer ii pena
da ordem j não se obter com
outros meios de isto é, com os meios próprios do direito
civil (ou de outro ramo do direito que não o penal),""
Essa maneira de
faz em
dC;nlicas nu sua
em razão do tipo de
De pela
jado princípio da
mundo abstrato das
mente
para classificá-Ias de criminosas ou não
que as
da rompe-se o feste-
não se resolve no
matéria tal idéia representa inquestionável absurdo: o
definido,;, crime em abstrato é o que é, uma com caracteres
inteiramente na norma
7, HUNGRIA, Nél,üil, Comelllúrios (lO
v. 2, p, ln,
S. ld., ib,
Peno!. Rio de Janeiro, Forense. I ')'i
I
S("lO (JS ( rlu:lu()sos? Crime t! criulino:úJ,v: {'nies 53
sem qu uer desses caracteres ou com o acréscimo ele nutros que
nela inexi,;tam. vl:nto, do mundo cun-
creto (l !ccem
,\s cin:un"U'ínc'
confrontacl() com
casu livo. dir-se·á: ()
mciro reqm
ahstraLO JÜO é
elemento do
que o tipo do cste] ÍonaLo
ele seus cuntornos. Onde
sarcir o dano na área civil.
Qual a "rebeldia ú ordem jurídica"
alarme social? Ou, dito de outro modo, qual
da
rato relevante para o sistema formal-institucional, numa
estratificada em classes verticalmente hierarqu ?
dos membros das camadas superiores podem merecer
podem vezes até irritar (individual
porque não põem cm risco o Sf{{IllS quo
c, carecem da c
ponto de fazer jus aos go
(visão de gru ,Incla mais
i llferiores da sociedade
de a
de esta sim, causana e
ai
aos estratos
Uma atitu-
em face
das conseqüências indesejadas que daí decorreriam, desde a quebra
da solidmiedade do grupo até a demonstração de que as pessoas gra-
das não são melhores, nem mais nem que
~\S das classes inferiores. Isso ocasionaria um
ll~\ distância institucional que separa as classes e poderia elar lugar a
lllovimentos de insubordinação, E, nos regimes de poder, "a,c~rrup-
dos dominadores é muito menos dramática que a insurrelçao dos'
54
domínados".9 Ademais, a ideologia convence ser o crime coisa típica
das pessoas Um indivíduo rico, pois, a ser consi-
derado por seus pares como imoral, imerecedor de con-
do de penúria.
duro homem nunca, contudo,
eapaz de merecer as atrozes
do
quem dis-
quem vive em esta-
passo, pois, aparece com mais clareza, ainda, a
que a existência de delito (fraude penal) ou de não
do estelionaUirio em termos
no
nua, te
m autor de estel
apanhado, não dispõe de patrimônio para indenizar o prejuízo e, por
outro lado, seu golpe contra uma empresa alarma e perturba a ordem
instituída. Já o dono de frigorífico que oculta a mercadoria cm mano-
bra altista, se chega a ser objeto de alguma sanção, o será em área
extrapenal: pode suportar os ónus da multa fiscal ("O Estado só deve
recorrer à pena quando a conservação da ordem jurídica não se possa
o~t~r com outros meios de reClção, isto é, os meios próprios do direito
clv:1 ~~ de ou.tro ramo do direito que não o penal"); e o "alarma
SOCIal ,quer dJzcr, o alarma da classe superior, foi mínimo, uma vez
q:le a ação atingiu apenas os segmentos da população para quem faz
dIferença pagar mais 2 ou 3 reais por um quilo de carne.
Equivocado, por tudo isso, está o dito popular ao dizer: quem
rouba pouco é ladrão, quem rouba muito é financista. O certo seria, se
quem rouba .- pouco ou muito - se situa na classe baixa, é ladrão: sc
pertence à classe alta, é financista. .
Porque, afinal de contas, não são os comportamentos (delitos)
que contam, uma vez que o importante, de fato, para o eht
9. SYKES, Gresham M. The
1972, p. 53.
o( New Princcton Ul1. Prcss.
sâo o.v criminosus;; Crinle crinlfllOS(}S: ente:'; 55
justi criminal, reside na posição social do autor. Como sugere
. " .c s nao Austin Turk, o status elo é jJCSSO'l -
mas pelo que são.
Acerca do cabe
'rar uma manobra elo
atuantes no campo
criminólogos,
e cidadãos comuns.
~cofari'nho branco" rUJln, eis que
para desrnasca~
U,-",:>,"J"" de bons pro-
angelicalmente -
stas,
"crimes de
da lelra da
vvhite collar crill1es; -- em bom a versão
deveria ser "crimes de e
Basicamente, estão assim conceituados:
tal como defini~
livro de Sutherland haja
ca central deste tipo de fato é seu caráter classista. Por isso,
Heller (I967) o denomina Kavalliers-delict ou delito de cava-
lheiros. Este caráter parece ser o elemento que contribui para dar
a esses estudos, depois denominados das mais variadas formas
(delitos económicos, delitos ocupacionais, delitos de enriqueci~
mento, deI inqüência de negócios), sua verdadeira importância
em criminologia ... "11
Empolgados pela perspectiva de colher nas malhas da justiça os
';grandes" criminosos, revertendo dessa maneira o quadro cansativa-
mente repetido de só eonternplar os cardumes de sardinhas que apare-
cem como resultado da aparatosa manipulação do arrastão oficial, os
penalistas se excitam. Escrevem, pesquisam, estudam e até pretendem
agir, com vistas a tal propósito. o de certa
forma uma penitência reequilibradora da consciência, que encontram
10. Cito mcmorw.
II. CASTRO, LoIa Jc. para lInJa sobre eri-
I1lCS colarinho branco na América Latina. RCl'ista
Janeiro, 25:89, 1979.
ícia, ele entrada da
ce de acesso fácil ~l
que-
critninrtl c0l1tr~1
lada. ri
de
em tais áreas, elimina-se a forma mais qual a autorida-
de toma da de crimes, dando início a seu
para o
mente
esquema de
da a a
intestinos através da sol
porque crimes não são ali
tendem a
os membros da classe alta rarissima-
quando constatam ter por
Há, desenvolvido e funcionaL todo um
ser ~lcio!ladas dentro da e:-,ferai ntern~l
de resolver
uma vez que as roturas üs regras
vistas como manobras inerentes inevilá-
12. M!AILLE, :'\lichci. rml",',I" critic(/ {/(J Direito. Coimbra, s. cd .. 1079.
57
veis de um todos os COns()c'iOs
clube dus j<1
que do
popu
da escada cnc~l1ni à ltu d,] ordem
outros lindo que: \l me mo
para () escuro da cifra negra. se ocorrer de o caso
i l;di vi cI cul í stico
.I11 1<..lil::.\l11
lL. l, . c
membros
riencia de muitos anos
11n1
enxergar os criminais vanta-
da ideologia preponderante.
Perigo real de punição para os infratores de colarinho e
quase não há.
De outra
, nas salas ele aula, nos
néW; coturno, colhe () sistema
urn
!1adora. Por tal via, instala-se nos
de di midac\cs
no amparo à sua ati
súditos a crença de que a
distribu concreta de vanta-
sas, tudo ficará
elo dos Com isso, desvia-se
de defeitos meramente do
ma, evitalldo que constate a realidade de ser intrínseca ús
estruturas a i
As deI
obedecem :1 esse
que o vitima.
de velhas, contra a
58
Sistema "O regime em que vocês vivern é o melhor que jii
houve ou que em qualquer istiu."
POl.'(} -- '"l\1as um grupo de pessoas tem carecemos
até do que comer."
Sistcnw -- porque há certos elementos
bando o do SíilCO
Povo - "Mas ... "
Sisienw "Calma, 1 Vamos fazer uma peza,
vamos esmagar a
Povo "Iv1as ... "
os
Sistema "O que precisamos é de mais
combater os grandões necessitamos de mais
liberdade de ação. Olha aí, vamos cortar um
força, de maior
dessas boba-
de
(odas as
bacharelescas, Em
lhas do melhor
'() di/cm o me que."
Sistema - "Quem diz isso são os subversivos! Mas não tem
nada, vamos aproveitar os novos poderes de que nos estamos
munindo para, logo de saída, tirar de circulação os detratores do
regime - que é o melhor que já houve ou que pode em qualquer
tempo existir."
Naturalmente, há sempre a oportunidade de arranjar uns bodes
expiatórios para assegurar certa credibilidade intenções manifesta-
das. Agarram-se alguns i uos provenientes das camadas média
ou baixa que, comportando-se de maneira igualou assemelhada aos
senhores das altas lograram ajuntar alguma
riqueza de monta e se em exibição no pelouri
pública, Ou, o que é muito mais freqUente,
descobrem-se que dispõem
de um ou dois carros, e de 10 ou mil de
as condi
monta uma fortuna
através do de membros da classe
para descar-
nos da virtu-
de entender a
59
Quantos honestos policiais, competentes promotores, magistra-
dos idealistas se prestam a funcionar como instrumentos
convencidos de estar ndo como do
não que nunca, nunca, nunca, concretamente,
obter sucesso, nO ele um
insetos?
Ah, a miopia da classe
(S[ ou
hOlfver ln!!
aos homens de
Manuel Puig l3
Como resultado ela descoberta da cifra negra, surgiu a indagação:
a repartição dos delitos entre o claro e o escuro se dá aleatoriamente
'01I obedece a uma tendência sistemática?
Pal"l 'llnuns a divisão ocorreria meramente em função da c é ~ " 1+ f
, O;;tros, porém, não sendo "crentes da , ' eles,cOI: l.am
que a em causa estar a certos pnnclp,JOs~
C I apontaJ os omprovac a a v
de diferenciação, em
defeituosa tara da balança criminal costuma
PUIG, TvlanucL o do mulher urm:I/(/, cd Trad. Rio
J ancíro. 19RO.
14. CHAPlv1AN. Dennis, 017. dr" p, <)9,
60
Levando Clll L'cm/a que a
no 1
maior
do
i1l0Il1el1l0s distÍnl\)s
citos did:tll
conLlld\l, que: I
anteriormente, (')
(c
lo (k: ingresso
du Ltto (dê a indici
IIl11 delito
) elo cri-
nerabilidade do a ser submetido a violências e arbitra-
riedades.
Na fase policial, os elementos
Cla: na judicial, o fator sub (/ torna-se an
e d c os h c c
como isso acontecc,
lUaior
Ue duas forma Ullla concreta vio] ü iei pcnal ú
da ícia ciência, ele resto, decisiva em termos de fazer fUI1-
Clonar a UIIW da repressão: 1. scus vêem o delito; ou
S({O oS crinúnoslJs? ('rinlC (;' crÚniJ1osus.' entes
) s:lo
\10.
c 1 ,dcrttldos por aI que 1 tLlnsm i
ln que ucon(l i1~11l1
maior facilidade de
ll:lllPO,
des
lei maiores com rapidez ao
a aos logradouros
extremamente dev8ssáveis dados tipos de
61
gam populares, cuja franquia se permite a
quase () mundo e onde a
te de eOllt~\r com a
fave-
COl1-
I
lllde l:i, como
d~l i n
62
da banda rica da
zonas urbanizadas, os
trabalham apenas
ÁS classes média c alta tendem a paSS<lf a maÍor do
em locttis víduos
elidas
o
vada~ . jogam, comem nas próprias
resldcncJas ou nas casas uns dos outros ou nas vivendas de campo ou
nos cl ou cm restnurantes e casas noturnas ele etc.:
vem-se
manccern
do
!llOrrU, di / !lOS C praças,
andam a pe ou usam transportes coletivos, freqücntam escolas públ i-
cas, trabalham pelas ruas ou em massa (como na fábrica), lidam dire-
lamente com o público, reúnem-se nas esquinas.
" Comprecnde-s~, por tais circunstâncias, haver muito mais proba-
bIlIdades de serem os delitos dos miseráveis "vistos" pela polícia do
que aqueles perpetrados pela de posição social mais elevada.
Como conseqüência, idênticos comportamentos, dependendo da
classe a c!ue pertencer o sujeito, mostrarão varia~:ões quanto a gerar o
reconheclmento de ser
Por exemplo: um jovem, meio bêbado, outro. causando-
lhe lesões eorporaí.s. o j' t . a o se concretlza na rua ou no boteco, quer
porque se presente, quer porque, estando próxima, foi atraída
pelo alarido, a polícia pode comparecer ao local logo cm ida.
Nesse caso, prende o agressor para conduzi-lo à e autuá-lo
em "Viu" o crime e, para o claro. Se o mes-
contudo, acontece numa casa de de
se for para
mocorra, ~t
que o autor receba (\
.\'60 os crinúno.\'os? Crime e crinlinosos: entes
Muito contribui para a discriminação em causa a imunidade ins-
titucional os cidadãos ao rclato de
vá ficar rnais claro
ao elo vale a
pena aproveitar a
mente, aqui.
referi-lo, ainda que resumida··
Por o crime como algo típico do pec::soal da arraia
111 os das camadas bem não conse-
guem visualizar seus lá o que fizerem - como delin-
. Para enfrentar de atos
elementos do próprio meio - inobstanle no
como delitos - mantêm todo um mecanismo de defesa que se realiza e
dentro de suas estritas de sorte a poder dispensar
da
:.l ordc
o reI ismo da su
sobretudo amiu(Jada, de existirem nos estra-
tos sociais de cima poria em xeque a visão maniqueísta ela ideologia
que se deseja esposada, no que esta sustenta quanto a ser a sociedade
formada de bons varões (os vencedores, os ricos) e homens maus (a
ralé, a gentalha). Valendo-se de uma justiça privada, realizada no seu
próprio âmbito, logram os grupos qualificados manter razoável disci-
plina, independenternente de recurso aos organismos oficiais. Como
decorr§j1cia, eventuais trapaças praticadas nas empresas são resolvi-
das mediante a inclenização do dano e a demissão simples anota-
estigmatízantes) do autor, se é boa social. Ao
aluno que agride o companheiro, machucando-o, aplica-se uma sus-
pensão ou se pede aos responsáveis que () transfiram para outra esco-
la, Se se trata de estabelecimento particular: O rapaz que estupra ou
tenta estuprar a amigui as discussões e con das
famílias recebe a de para Europa ou Estados
Unidos, onde terá de o tempo suficiente se purificar.
O clube grã-fino aplicará uma até a em caso de
aos rapazes que arrombaram
de onde furtaram pares de
certamente inadmissível para resolver o caso do que
de uma mulher no meio da rua, embora em ambas as hipóteses,
64
IVO, il cl1l1fí uraclo delito: 1'11 (l
de cunho \adu
pela
rl1 casos grav~s, o ChC!Ill~UllCl1t()
arredura da
com mil!":' cClnstilJ1ci e eficiência.
nos de Ul1!.iII11Cnto que paramos indivíduos
para documentos c submetê-los ~l revistas s
eias que constituem rica fonte de ai elas estatísticas relal i
do JÍutor ao
Construido pela
o primeiro básico da imagem do criminoso que represen-
si mcsma como já mos, di!
a seu baix~1'status social. Pedindo a uma pessoa que descre-
ta para
de um deli teremos, em da respos-
la, o retrato preciso de um da classe social in , de
tal sorte se tende a estabelecer i n tercftmbio en Ire e crime
;\ teoria outro mérito nã() teve senão o de dar cunho
científico a esse sentimento do senso comum. AIos sinais mor-
do "criminoso nato", descritos o pai ela crimi liL
casavam-se harmoniosamente com referentes aos párias da
sociedade italiana da Ao que o criminoso é, caractc-
lermos da
noso.
o
l'nvo]venc!o
abre-se facilmente a idade de 0\
p,lra dizer: o é, i eamente, cri mi
irncnto de uma quantidade muito maior de deli!("
miserável do que remediados e ricos COI1'\
'Os 65
la neeessúri criJl)(;, de que uidall10s
vem
scnl ido
vídu con ídcr:ldus como rnillS prupensos ,1 cksrc
A lll, ao p:cr,lrc ou abcrdarl:iJ1 11 nos
QUlI1S, us policiais ()Ilar~() acordo com :l idéi,l
suem a respeito quem criminosu. A maior Ciscali
dados grupos do que r,:lati amvntc a uutros vai rmllWl' uma
taxa divcrsa (::Illrc eles quanto ~i de infralOrcs que:; fic.:a-
rão idos na cifra negra. As estatísticas ofici cm de:;corrên-
ela, ()stentar~o um tímero elevado de criminosos oriundos das
lJ';iSSCS
do dia-a-dia, que todos conhecenl
t,dvez aprovem, o não da análise muito
e clarificador a
Importante
do ponto cm exame.
ele rotina na da segurança
se denomina de "batida
batizada com nomes
arrastão" ,
. a -flor" , c a r n Li \' a 1" ,
arco-íris" ,
"opera~~ão adeus üs
por aí afora. diligência,
a uma úrea dcnsamente Obturadas
os moradores de se retirar do
foi pI com todos
a contar com a
número de viaturas, um
to, sofisticado sistema de Isolado o
1.') invade os
no cerco
as
local at6 o lér-
'1 j de serviço IS, COl!lO afirma .bmes T. a adola um esli o (e _
' f . ·t j'()I'Ç"l de OClIllaçao nas nas zonas das cla,se, altas, enquanto \lIlCI0na como UIll, .e
:\rc'as hahil:td:ls genle de baixa renda (cito de 111ern"lria).
66
igindo documentos comprovadores de ocu lícita,
armas c t6x
em aberto.
sas cm fl
sua 1
de mue", em
das par,] uma
gemo um
desde a
de bens de maior valor, apreendendo
a mandado de
süo atochadas nos
nele sempre cabe e
onde se submeterão a Ulnêl tria-
ou dois labuta investi que
dos antecedentes dos deti através de con-
aos registros policiais, até "hábeis" interrogatórios .- um verda-
deiro pandemônio, com gritos lancinantes, berros tonitroantes, porra-
das para todo () lado, ordens no
espa\'o, uma arrnosl'enl absurdamente histéri assisti ii mais de
s:10 I nqlll'lcls c(\n! as quais nad:l
llledi
média número em
tangidas até a cadeia, apenas 20 ou 30 alt remanescem. De
qualquer sorte, porém, tais batidas determinam como efeito a trazida
para o claro de um certo número de crimes e criminosos até então na
sombra da cifra negra: tráfico de entorpecentes, posse de armas,
receptação, contrabando, furtos, roubos, falsificação, vadiagem, pes-
soas condenadas ou com prisão preventiva decretada etc. Quer dizer:
a submissão de um grupamento humano a uma operação do tipo em
pauta cria condições para estreitar a faixa escura de sua criminalida-
de oculta.
Ora, tais so sao e só se executam, contra
as áreas de habitação das populações miseráveis, as favelas:
"O delinqUente é identificado pelo fato de ser favelado
antes de sê-lo ato de que é acusado. Na favela habita boa
pobres dos centros urbanos e que
de
slio os crinúl1osos? Crinze e crilninoso.\': enles
maioria os moradores das favelas nua são delinqi.ientes mas são
tratados enquanto tais pela polícia e justiça."16
natural que os morros e favelas consi~
derados como redutos de
verdade, esses fatos em torno da
[ra determinados grupos sociais, o que
con-
significa a
de uma classe sobre a olltra."18
A ninguém ocorreria empregar o mesmo método de choque nas
zonas residenciais das classes média e alta. Cercar e vasculhar todos
de um r;1o do ou da urbanizada
do !'vléicr z déid tcÍral1lenlc inconcebível.
n:sultados
li tais locais. Daria lugar ü descoberta ele i
criminal menor, igualou maior que a observada nas favelas? A imuni-
dade institucional, assegurada em nome do direito à privacidade e das
garantias individuais insculpidas na Constituição e na legislação ordi-
nária guarda-chuva que não protege os segmentos mais humildes do
povo impede que se possa estabelecer um cotejo esclarecedor.
2. O segundo traço fundamental para a composição do estereóti-
po do delinqüente fornece-o, ainda, a ideologia do contrato social.
Arma-se o ilogismo de acordo com a seguinte racionalização: a
sociedade é irrepreensivelmente justa; se h{l pessoas capazes-êie lhe
desrespeitar as regras bL'ísicas as normas
será reconhecer que tais pessoas são anormais, isto é, diferem essen-
cia-il1lcnte dos demais componentes do grupo social; por serem entes
anormais,
16. RAl\1ALHO.
p. I
17. leL. p. 170.
18. ld .. p. 171.
constituem, em conjunto, uma
cabendo admitir que seu
o verdadeiro substrato
"desvio" e "desviante", tão ao da criminolo-
o mundo do Janeiro, Graal, I
68
1:\
de grupo tão
m Jl1 () S (1; Ó
elemento para ;\
os Cnmll1(lSOS
: l~, num '1 L
Os dois fatores são vistos cumo elementos de um mesmo circlll-
t alimenta o o serve de ,Feedback
.0, I'
realimenta () outro e a.,-;slm diante.
sempre que existir
ú na
ser feita desde
iro marClll1l'
nal filcij Cieará. !l()
identi
Por seu tumo, a
ç.a em reconhecer o r
como ce1'-
Como a da j se com
o que o acusado pam atentar cuidaclosamente para () que ele é. F
aí a figura típica de um membro da a social aliada iI
no boletim de antecedentes a decisiva no \crc-
dieto do caso.
agora, a outra por melO da
(omar conhecimento de UIll crime não o
(\ provocar a
dn infrator, Ullla vel: que
nesse sentido tende a desanimar a ida
ados
cm q ue i tes de um prucesso
69
a
ra, a fonte de crimes ú formal reduz-se, quase que
cXc!llsivumcn(c, ú vítima, testemunhas pessoas a clas li por
. Considerando que tuna eventual falta de do
ksado a co]allo!',H' com dccl
quc a a doutrina llOmbeteiem a ck estarem
limitados a mínimas hipóteses os casos em a vontade do lesado
'udicar. e muito menos 1 r, a alividade do
Trata-se de pura que encontra mínima na
concreta. De a participação ativa do do
quer em j pesa bastante quanto ii sorte do
E ai no diz a do evento
ma silenciar, probabilidade
de o rato deixar de ter ing:resso no que o levaria à luz do
reconhecimento oficizil. A pnwa disso encontramo-la em certas i ra-
o autor, os demais pes mas. tes-
da bi do
llO
enormes cOllti
não os "viu", ii falta de um lesado que
ao conhecimento da pol irão ocultar-se na f<tixa escura da
criminalidade.
A alternativa aberta ús vítimas, testemunhas c correlatas,
entre referir ou omitir a notícia da i à autoridade, gera, para
elas, a c1ade de "julgar" () delito e o deli Esposando a
,II'
ii
1
70
ideol a dominante, que a imagem que
um "verdadeiro criminoso" influenciará
quem não
criminoso". No lÍltimo caso, a tendênci
a em outra sede que não a
A continuidade repetitiva desse modo de r faz nas
estatísticas oficiais uma predominância de acusados pertencentes às
classes inferiores, o que realimenta a concepção ideológica relativa ao
lil minoso Ull1to quallto tabelas e dos crim
nól
beher nUnl:1 cas~1
lentam mas
pela seguranca da casa. Correspondendo os jovens à idéia
que o dono do estabele~imento tema respeito do que seja um delin-
qüente, provavelmente a polícia será chamada a intervir, pois se con-
sidera de toda a conveniência que sejam punidos ou, pelo menos,
ganhem um registro oficial pelo delito praticado, a fim de sé coartar
prossigam na única atividade que essa categoria especial de indiví-
duos pode observar: perpetrar crimes. Tal registro, num amanhã que
se profetiza próximo e inevitável, ajudará que sejam reconhecidos
como "criminososrnesmos" da classe baixa + vida
sa manchada). Se, são brancos, estudam em bons
a famílias bem e o taberneiro o res-
pelo restaurante do Club ou o proprietário da boate
da preferirá comunicar-se com os dos meninos travessos,
para obter a do para que
se impõe, a deve
da disciplina familiar, uma vez que, mais obviamente represen-
taria rematado absurdo macular a vida de que não são "verda-
deiramente crim , como tudo está a indicar, com uma
vexatória. No dos dois últimos a iva em ouir;1
ia também não dará a a ausência de stm,
vai assegurar a cada nova diabrura a certeza de scrClll
os crlJnillosos? CrillJe
"não verdadeiros criminosos" alta +
o comércio de
mais
as destas do que as concretizadas por quem
aparenta pertencer às classes média e alta. E, naquele caso, agarrado o
Se u um não-este--
da
de c similares ~ ou
fora do âmbito cruel de uma delegacia, uma vez que representaria
rematada ausência de bom senso submeter à ação da delegacia uma
eriaturà que, como entrando pelos olhos da cara, nelO é um
meliante. Mesmo na hipótese de reincidência, bastante comum,
dispensar-se-á o apelo à polícia: "É a terceira ou quarta vez que pega-
mos essa moça surrupiando coisas; mas é claro que não é uma crimi-
nosa, é filha de um médico, estuda na PUC, a família é gente
finíssima, cheia de grana, tá na cara que é um caso de doença -
é que se diz mesmo? - ah, sim, cleptomania."
Certa indaguei ele um de dado
válido com , entre os larápios que
apareciam na loja, os que seriam verdadeiramente dignos
de ir para a e os não-criminosos, a merecerem ser
da à A foi imediata: "Se a pessoa não
furtar, é porque o caso é de c não de crime."
Via Dennis
os executivos senio!' de um núme-
ro de comerciais I acerca da grupos (e casas
ítica relati à das ladras de do que cabe con-
72
cluir
c. que admite que
inrimidt\da através dé\
entrevistadus abordam
está
nWllto L'XC 1 USl :l1!ll'n-
que ii
forma. de
4. Tanto também os têm
sua visão a
pelas crenças
minaI intensamente permeada
da Pressionados a aliviar a imensa caroa ele to
l1:Io só de sua repartição como do próprio Judiciário, são leva-
dos a selecionar os casos que aparecem, de sorte a evitar que muitos
deles prossigam no rumo de uma apuração completa e atinjam as
varas com vistas a uma E o guia mais adequa-
do para tal adivinhar, se consubs-
tancia no exame da figura do indiciado: ou não ao estereó-
tipo do meliante? ademais, que a final a tal
to ao menos formalmente, ao
membro da classe média
hierarquia da estrutura da máquina repressora uma
le 11 do herói grego: nem da dus
filtragem, de acentuada
vista para o incremento da prática dos
, a ocupar na
semelhélll-
que adota para emilir sua decis:lo constroell1-
fornecidos dominante. Entrc (\
19. CIIAPMAN, Dennis. Ii!). cit., p. 72.
(' crimil1usos: c//Íe,\ 73
t\) do crí\lUlo do morro dos acacos o do
dl_~" possibil1"
11
Imelo CO!110 U
raUlda cum hoa \untade c
escolho dois
ln~ltérj
l)uÍ.\ '()vens meio
carro esporte, tudo está a convencer
lida
de mulheres
o aulom(Ívc! bem
os rapazes não
elos". Daí, os patrulheiros, o
der 111avratura do aulo de
o delegado hesitam em
dos e se solicita a
como uma vez que
devolvam seus
Telefona-se para a casa
s. Das duas ele
são.
li bertados os
dos
e que
duas outras, emocionadas c irritadas, recusam segtllr o
em pouco, ii icialos do estudante
e a mãe do executivo. Pessoas
hém compareço, na idade
filhos emociona a todos há
finíssimas. Chamado JS , tam-
promessas de Mais uma
o caso e dá-lo por encerrado. Os
estão mai" do que convencidos de
lurmal do
,)S s, os
tl'lltam vencer a resistência da
mcnto definitivo: "A senhora não vê que é
74
esses moços queriam realmente roubar as bolsas? São umas ninharias
os minha senhora. Foi tudo um porre mal tomado, nada
mais. Isso acontccer com qualquer um. Os pais estão prontos a
indenizar a scnhora susto e aborrecimento. Vamos ter um
pouco de hUl11aniJade' Com alguma conversa
acabou-se a um acordo. As
com o
conversando
presos
arrancarem a capanga de um homem. Um preto, o outro sarará,
sem os dentes da Cheiravam a úlcool. recém-
saídos do serviço militar. Levaram uns e pcscoções, enquan-
to eram eonduzidos ao cartório, para a autuação na forma da lei. Eram
evidentemente "verdadeiros crimi , o que ainda mais
to dos antecedentes:
já tinha est<ídD inicrnado na Funah,,:m.
nha.
s~rias dificuldades para Ir vaga
onde estacionar o carro no centro. Alguém lhe su procurar o
guardador da garagem de dada repartição pública, pois ele poderia
"quebrar o galho". Seguindo o alvitre, o Doutor A. contacta o guar-
dador, aceita o preço solicitado, recebe um cartão de autorização
onde constam dados que o beneficiário sabe serem falsos, e passa a
usufruir da tranqUilidade de dispor de lugar certo para guardar o
automóvel. Meses depois é intimado a comparecer ao distrito poli-
cial. A falcatrua do guardador fora descoberta. O Doutor A. e mais
uma dúzia de pessoas de alta responsabilidade e inatacável gabarito
moral e intelectual estavam envolvidos no easo, como usuários de
documentos falsos. Convencido de que criminoso no episódio fora o
guardador, não se constituindo mais do que em leviandade a conduta
dos o delegado conduz o inquérito de tal maneira que, ao
chegar a Juízo, o promotor, recebera pedidos de várias pessoas
de suas move a penal contra o guardador, mas exclui
da denúneia os demais indiciados. Na hipótese, inexistiu qualquer
oferecimento de a quem que As autoridades
tão-somente buscaram evitar a submissão de pessoas de bem - obvi
mente não eram - ao vexame de se verem
no foro criminal.
Sü() os crinúnosos? Crinu! e crinúl1osos: en/c,\'
Incapacidade do Agente Quanto a se Beneficiar
da Corrupção ou da Prevaricação
75
No processo ele a que são submetidas as práticas cri-
com o vo de livrar de os
centes às castas e destinar à punição formal aqueles
oriundos da ralé, i emprego de variados filtros. De uma
esse cuidado assegura ma de erros -' nào se
vá misturar um de por alguma falha, com o joio a ser
do na lixeira penitenciária. De outra parte, como a c1ireção discrimina-
tória realmente dcsejada deve ficar escondida atrás de uma cortina de
ambigüidades, o emprego de variados e sucessivos dialisadores na
administração da justiça permite a manutenção, formal, da crença na
e santa, cxata-
mente
não a
con10 o faziam ~IS que antecederam
na história. Como lembra James T. Carey: "As leis criminais
revelam-se por si mesmas como instrumento de dominação. A legisla-
ção dirige-se abertamente contra as classes mais baixas."
Causaria enorme constrangimento editar um texto legal como o a
seguir transcrito:
"Das pessoas ql1e são escusas de haver pena vil - para que
saiba, quais devem ser relevados de haver pena de açoites, ou
degredo com baraço e pregão, por razão de privilégios, ou linha-
gem, mandamos que não sejam executadas as tais penas em os
Escudeiros dos Prelados, e dos Fidalgos, e de outras pessoas que
costumam trazer Escudeiros a cavalo, ora o cavalo seja do Escu-
deiro, ora de seu Senhor, nem em moços de Estribeira nossos, ou
da Rainha, Príncipe, Infantes, Duques, Mestres, Marqueses, Pre-
lados, ou de qualquer do nosso Conselho, nem em
pajens de Fidalgos, quepor tais estiverem assentados em nossOS
livros, nem em ou seus filhos, nem nos
Procuradores das nem em e
Pilotos de Navios da que andarem em navios nossos, ou
de cem , ou daí para ainda não nossos nem
dos amos, ou colaços dos nossos Desembargadores, ou de
76
de ou daí para nem nas pessoas que
provarem, que costumam sempre ter cavalo de estada sua
c isto que ou fi lhos de
os Mercadores que tratan::m com
para címa."20
Naturalmente, a democracia do Estado
dades de classe se di
mas várias
de chtí
aI
uma.
enfocado neste itern ofere-
ce excelsas vantagens, mesmo que, por sua causa, a máquil1a da justi-
ça criminal a permanente increpação de desonestidade e hipocri-
sia. ao reverso do que
serve ele úl íl na
prestígio
Dinheiro, importância, poder são os atributos que mais agudamente
extremam os grupos superiores dos inferiores numa sociedade dividi-
da. Autorizando a que tais predicados ajam com eficácia na tarefa de
batear a ganga criminal, obter-se-á uma separação bastante perfeita
entre o metal de valor e o reles cascalho. Sob esse priS111a, por conse-
guinte, o dado discriminatório em pauta se harmoniza com e comple-
menta eficientemente o trabalho desenvolvido pelos outros anterior-
mente examinados.
Como a principal peneirada incumbe à polícia realizar, e como,
para que o fator em causa funcione a contento, impõe-se do
operador aptidão para se deixar comprar e/ou intimidar em larga esca-
la, fica fácil compreender que, para o sistema, só interessa contar com
uma polícia tanto venal quanto submissa ao jogo das pressões.
Assim, a pretensão de reformara polícia, purificá-la, aperfeiçoá-
la, dignificá-la, transformá-la num órgão reta, honesto, equilibrado,
traduz aspiração ingênua, desligada da realidade.
Somente sendo corrupta e prevaricadora, a polícia satisfará as
expectativas nela depositadas pelo sistema.
20. ORDENAÇÕES FILIPINAS, Livro 5, título I capur.
do
c
77
o
União Soviética ou a Coréia
em que o Estado se
mas os usa para favorecer
elementos e fica
deles detém a hegemonia. O que, de resto, aguça
aperfeiçoa a capacidade selctiva do de segurança.
A , em de ser considerada
se mostra,
lirar
até em l1lai~; um inslrumento auxíl io na stotus C/IIO.
A podridão policial, apresenta-a como questão fruto dos
defeitos e vícios dos indivíduos que, no momento, exercem a ativida-
de repressora. E sustenta que basta sanear e aprimorar os fun-
cionais para que o órgão comece a desempenhar suas atribuições de
forma lirnpa, justa e correta - quando então todos viveremos no
melhor dos mundos. Ciclicamente, promove campanhas de depuração
nas hostes policiais, aplica mais recursos no setor, aprimora equipa-
mentos garantindo que, logo, logo, a perfeição será atingida e aÍ...
Por meio da manobra diversionista, convence a população de
que o problema da distribuição de uma justiça criminal profundamen-
te viciada e deteriorada decorre de mero acidente, de má administra-
ou, ainda, porque de um povo que não presta fica inviável imagi-
nar que se possa recrutar gente de bem para compor o corpo policial
("cada povo tem a polícia que mas que medidas enérgicas
estão sendo levadas a cabo e, daqui a pouco, teremos um organismo
puro, eficiente e equânime. Com isso, as pessoas deixam de questio-
nar a validade do próprio sistema, esgotando suas as em brados
de revolta contra a polícia que atuall71cntc existe.
2. t. KONDER, Leandro. Introdução Rio de Janeiro, Graal, 1979.
78
Enquanto se atenta para o que se pretende seja um caso de mau
a que o
fundamentos do sistema.
L~Ii11(:ntável é que pcssoas de bons
a trucidar as fOf11<ldas de
aos altares da purifi
holocausto se concede como
embar-
que costu-
verdadeiros bodes
de existir da
cm alterar a si Lá se vão escri-
a pagar por um estado de coi-
sas continuará o mesmo, e dentro do
mellte a atorcs, pois tal imprescin-
dível para que descmpenhem seus papéis de acordo com o roteiro da
pcça. Ademais, os corpos sacrificados pertcncem a membros das
fcrimcs, o li ue o Crl me
até cicnti
do acusado implica
último.
d
altamente favoráveis para o
Enfocado do ponto de vista formal, o fato não encontra expli-
cação.
De acordo com a letra da lei, afora desimportantes,
nenhum espaço está previsto para a atuação de causídico no inquérito.
Por obedecer ao denominado "procedimento inquisitorial", a autorida-
de que o conduz age da maneira que melhor lhe aprouver na co/eta
dos elementos de prová, descabendo vaza, em plano legal, para a
intervenção da defesa nessa fase. O equilíbrio de ações entre as partes
(princípio do contraditório) vigora quando o feito tem curso já em
JUIZO. O delegado, na atividade preliminar, dirige seu trabalho como
lhe parecer mais acertado, dispensado de fornecer explicações ou
deferir requerimentos das partes e de seus patronos.
Inobstante tal circunstância, raro é o caso em que uma pessoa de
médias posses para cima deixa de se fazer acompanhar de advogado
na polícia.
Por
reservado de para ser
o ser nido de acordo com as
. impedir que o constituinte sofra e
os crinlillO,YO,S' ( CrinlC e crúJ1ino,yos: entes 79
arbitrariedades; manipular convenientemente os frutos de pedidos de
pistolões e do fornecimento de a quem e
Examinemos a
remetemos o leitor i't
80.
Os policiais mente ar com o a
fazê-lo direramente com a parte. Inspira conhece melhor as
regras do . representa um de certa ou muita
conduz a transação sem vacilações e riscos (coisa inevitável quando
se trata com um , conhece as I i em que pode ser atendi-
de sorte a eL\s
di
de si
estarem todos em
coínina pena severa.
de
Quem funciona na área penal conhece sobejamente a importân-
cia da presença do advogado no inquérito. Da simples leitura dos
autos, com um pouco de prática, distingue-se, sem possibilidade de
erro, os casos em que o indiciado deixou de contar com ela.
Como, porém, oficialmente, inexiste um papel definido para o
advogado na policial, que, por suposição, seguirá os mesmos
rumos com ou sem a interveniência de causídico (a lei presume, tam-
bém, o respeito da polícia aos direitos de todos os indiciados), a
Assistência Judiciária, instituição encarregada de prover a dos
réus , não prevê de advogado para assisti-los nas
delegacias. Com vez, executa-se o jogo duplo da
da igualdade de todos (no
plano se desequilibra a posição dos membros das
à dos indivíduos bem situados
Trata-se de mais uma
está
o sistema está atingindo seus objetivos.
80
mais eslÍ-
l11ulado ficará ()
indefeso estará o
D30-nos notícias os
ia de
os U
acreditar que ()
E no nos,>o caso'?
sociaL
para a Rússia ou a China ficilmcnLL'
comunistas são fornecidas por fontes desa-
A m~lioria avassaladora dos delitos elucidados o com base na
confissão do autor. () da concentra-se
do indiciado ou O resto da atividade 1-
núcleo.
elementos contra si mesmo, o trabalho subse-
demonstrar a veracidade sua
por isso ou por a confissão inocorre.
to central cap~lz de fornecer um sentido coordenado ao 1I1VCS-
l o tenderá a se , os adorando dirc-
81
ma rOl,) de que cio
de !'Clrma quase' absoluta, nbtcr :1 con-
Ct~l S cm coagir.
lidade d,)
O reslo e()nsuhsC1l1l:t~1 l11ero
a l11V1
delitos
Quanto aos dois itens, há uma direta deles
com o nível social a que o indiciado e com
económica. Tendo recursos, poderá contratar um bom
qual não só saberá eficientemente para garantir a
cliente como, também, por sua . rcceio aos ais
ele virem a ser emprego da tortura. De outro lado, no cír-
culo de conhecinlcntos dos familiares elo se tal se dá llum
padrão de
das em
que estiver sendo
autor, à para mexer-se
contra a violência, uma vez que, de qu uer
se reconhece formalmentecomo Trat,lI1-
de um elemento izado,
ciai que, dessa
abusar de
esclarecimento do se 1
dos métodos q II e cone! li zi ram ao sucessu ela i J1 vcs( i
cm face da prova da cul pa e!o
82
embora raramente ou nunca se reconheça expressamente,
todo o mundo concorda em que a única via que se mostra segura para
de um delito é a da que, por
. Com
examinar um processo, um
são minuciosa do detalhando
todos os elementos para
autoridades não se sensibilizam 110 sentÍ-
o motivo que levou o deI inqüente a se
auto-acusar? A não ser um que outra razão
será 1 como válida para icar uma confissão intei-
ramente comprometedora? Afora raríssimas exceções, as declarações
auto-incriminadoras só ser concebidas como fruto de exercícío
caV:l
i vamcnl de q ue Li lou de tortura,
encontramo-la os dias na maior parte dos processos criminais,
que constituem massa de trabalho do dia-a-dia do foro: confissão por-
menorizada na delegacia e negativa enfática no interrogatório em
juízo, explicando o réu a discrepância pelo fato de haver sofrido seví-
cias na polícia. Na maioria das hipóteses, duvido que alguém tenha
dúvidas a respeito da veracidade da . A preocupação, contu-
do promotor e do juiz desliga-se de tal circunstância para se CC)!1-
centrar na verificação de existir no processo dados comprobatórios de
encerrarem as declarações um conteúdo de verdade.
Limitam-se a indagar: há contra o acusado somente a confissão,
de outros elementos demonstrativos de que o nela
descrito é verossímil, ou casa-se com outros elementos de prova?
Assim, por exemplo, se o delinqUente contou na polícia que fur-
tou isso ou aquilo e que vendeu coisas a fulano de ou as
empenhou na Caixa Económica, e a realmente encontra e
apreende os objetos no destino indicado, tem-se por seguro que a con-
fissão só pode ser verdadeira, de outro
da res
mediante
o conteúdo de verdade do )
, limita-se o julgador a expressar seu COI1-
83
a
absurda, mas que ocorre na
nio samentc
parte de ll1(lgistrados
rem o llnico adeqmh para tais casos, no scntido
de que: ° acusado é culpado, pois sua confissão está confirmada por
t:ircunstâncias que lhe comprovam a veracidade; mas dita confissão
evidentemente foi conseguida mediante mento da vontade
icinis que a arrancaram,
\) cmprego da tortura
!l1
reitt:.rada c o cndusso dos tribunais. Illstituci\lllaIJzanclo-
sc, funciona com maior eficiência. Às vezes, nem é necessário à polí-
cia bater: a certeza de que a violência no interrogatório ocorre sem
maiores rebuços, sem possibilidade de ser coartada e sem perspectiva
de gerar qualquer responsabilidade para seus autores, leva o indiciado
miserável, mesmo antes de sofrer concretamente a aplicação de sevÍ-
cias (maus-tratos sempre há, tais como berros, ameaças, empurrões,
cascudos), a relatar todos os pecados de sua vida.
S que dos milhares de delitos patrimoniais cometidos,
air;da dos que chegam a ser objeto de registro (a maioria não é), prati-
camente nenhum Gera uma investigação específica. Não há meios b " ~
para realizá-Ia. Serão os casos (inclusive, com freqUência, os não-
registrados) deslindados quando, preso um ladrão por qualquer moti-
vo, for submetido a "hábil interrogatório" - corriqueira,
que encerra manifesta ironia, mas que é encarada com absoluto cinis-
mo por todo o mundo, que não provoca nenhuma verdadeira repul-
sa. Aí, o ladrão confessa 10, 20, 40 delitos, e os casos que estavam
adormecidos no bolor das são trazidos à tona e
como de "'l de êxito",
as não sucedem ao relato do
Relativamente ao ora nem se cuida muito
de disfarçar por meio de complicadas ambigüidades e construções
mostra-se de fáeil
com bas-
"tem que
ele indivíduos e náo a outras - c aí ocorre algo pos-
da Essa
se enraíza no mesmo elemento qUl:, fun-
eomo de na do
crirninal: a classe social dc onde
Ern virtude ela de em que ficam os poli-
s -- cobra-se-lhes a solução dos casos, ainda que
11, oficial
a
autoria do crime e fazer boa prova quando recebem vantagens elo
criminoso. Nessa área, a corrupção torna-se muito difícil de ser com-
batida. Aqueles que poderiam puni-la reconhecem: sem o emprego da
violência, a maioria das investigações fica fadada ao insucesso;
porém, por outro lado, não podem do policial que use a violên-
cia, pois formalmente está ela vedada. Para desespero, sobretudo dos
promotores, à vista de uns autos de inquérito que transitam da polícia
para juízo .e;' vice-versa, por meses e anos a fio, sem que se consiga
recolher quaisquer elementos conspícuos de prova, descabe uma ação
formal capaz de pôr cobro ü inépcia do investigador, embora, como se
pode perceber sem muito esfoí'ço, comprado para não descobrir
nada.
A corrupção, como já verificamos, aproveita a quem dispõe de
recursos e todos sabemos quem dispõe ele recursos numa sociedade
capitalista.
Sem embargo de reconhecer na confissão do indiciado o ponto
mais importante quanto à eficácia da violência policial, cabe lembrar
que não está ela limitada exclusivamente a essa questão. As invasões
de .. casas, a detenção e, às vezes, a tortura de testemunhas, o falsea-
mento dos fatos, o seqUestro de parentes do indiciado, a em
flagrante por vadiagem (contravenção inafiançável) como recurso
to em
contra
frutam.
,",'tio os criminoso,)''! Crinlc crill1inoso,L' ente,)' 85
de coisas em desacordo
de toda uma séric de
de um c1cli-
mais uI
em face do baixo St{ltus social de que des-
a de chamar a para uma interessante manobra
inventada para ou o esclarecimento de certos crimes
que nilo interessa esclarecer, mas com base na
silivo de s
Refiro-me iI pela
de, promotor público para acompanhar certos
ado ta-se tal
que, em rica ou faz-se
mister a presença moralizadora do promotor, a fim de que seja viável
chegar a bom termo a investigação. Geralmente, são escolhidos para
desempenhar tais missões os membros do Ministério Público mais
afamados em termos de responsabilidade e reputação.
À primeira vista, a medida afigura-se altamente positiva.
Tenho para mim, contudo, que, quando se determina a um corre-
to promotor que participe do trabalho policial, objetiva-se, precisa-
mente, não solucionar o caso, contando-se com a presença da ilustre
figura tão-somente para respaldar o insucesso.
Na verdade, a presença do promotor serve para assegurar, pri-
mordialmente, a interdição ao emprego da violência na investigação.
E, 'sem violência, ou não se apura nada, ou o que se apura padece de
pobreza franciscana em termm: de prova - tudo a benefício do culpa-
do. Quer dizer: o promotor funciona como garantia de que a lei vai ser
respeitada; ora, quem se beneficia do respeito à lei é o indiciado, uma
vez qtíe a polícia costuma mostrar rotunda ineficiência quando se dis-
põe a trabalhar estritamente dentro da legalidade. Com a presença do
promotor, o indiciado faz até economia, lÍm vez que não precisa pagar
aos investigadores para que respeitem a leí. Isso, aliás, origina uma
indisfarçável má vontade por parte dos agentes encarregados d~ c~so:
não conseguem dele tirar proveito pessoal nem conseguem elUCIda-lo.
86
E resmungam, enquanto fracassam: "Com esse cara aí, como é que
Se me meter o cacete em dois ou
lava resolvido há muito tempo, mas o é cheio de
com ele para eu à moda - ih, o
Então quc se Ele que se vire.
r:.; o inocente promotor não que sua
se em última como forma de
so ele I LIXO - exatarl.1ente ao contr6rio do que
participação no
o crimino-
De acordo com a estrutura formal do aparelho repressor,
~,~re () a llvacla
do
esta!l-
sob o
mia a Na rcal é a l'Cl','1 C'jllCll1 "t
faixa de atuação dos promotores e juízes, a estes concedida mínima
possibilidade de se insurgir contra tal controle.
Formalmente, o sistema clama por LIma polícia honesta,branda e
equânime. De fato, exige que seja corrupta, violenta e parcial.
Observemos os mecanismos através dos quais se torna viável
levar a máquina repressora a atuar concretamente dentro dos padrões
esperados e a vomitar, ao mesmo tempo, um sermão em que sustenta
exatamente o contrário do que faz.
~ecrutarn-se os promotores e magistrados dos estratos superiores
da SOCIedade, enquanto os policiais, sobretudo os que desempenham o
papel de lidar diretamente com a descoberta e dos delin-
qüentes, das camadas mais baixas; àqueles se fornecem recompensas
(status, vencimentos) equivalentes aos dos membros da alta classe
média; a estes, os do operariado qualificado; os primeiros merecem
uma prote~~o institucional quanto a seus defendidos por uma
llldevassabIlIdade quase sagrada; aos segundos se vota um desprezo
temperado de complacência, que vezes pode
do para
ou por são poupa-
U"'''f''"ét,,.,,,, de se comportar desavergonhada-
süo os crinúl1o,\'o!>'! Cri!llt! (' cri/nino,vos: en/ex 87
mente no concernente à aplicação de uma justiça parcial e classista;
a massa dos policiais é retirada da ralé social, cabe-lhes a
de suportar, de forma altamente nantc, os ónus
dores das pu n'
dores penmmeccr intocados.
entre os autores
devem purgar as
, merecem de tais
Aos domi por sua cm ii
que devem ostentar e, até, em razão do autoconceito, repugna
mãos em atividades indignas. Que as executem, os que não pres-
tam. Postura, de resto, sempre repetida na história do homem, como o
comprova a posição social dos indivíduos destacados para exercer as
atividacles de carrascos, dos cam-
do chuço da dOl11ina-
r que
, daria risco de passar
a"atuar como organismo capaz de autodireção e, nesse caso, geraria o
enorme perigo de poder vir a ferir a quem a criou e a usa. Por isso
mesmo, persistiremos assistindo à condenação e reprovação - verbal
- dos abusos e podridão da polícia, no mesmo passo em que se ado-
tam - concretamente - as medidas necessárias no sentido de perseve-
rar naqueles predicados.
Submetendo o universo dos delitos ao crivo seletivo da visibili-
dade da infração, ela influência do estereótipo do criminoscv,das con-
seqüências ela corrupção e ela prevaricação, do emprego de violência,
a polícia separar com enorme eficácia, do ponto de vista do
sistema, os delinqüentes a serem esmagados nas engrenagens da justi-
ça relativamente às pessoas que devem estar imunes à trituração.
Exatamente ao reverso do que apregoa a ideologia, é a polícia
quem controla e comanda a atividade do Judiciário, pois este só traba-
lha com o material concedido por aquela. Graças a pode o Judi-
cÚ'irio manter uma de e pureza, urna vez que a parte
ostensivamente se realiza
temente à sua e
JUIzes inteiramente com ao papel
a desempenhar. Afinal, seria um contra-senso desprezar a possibilida..:
88
de de usar
eventuais
até
a justiça
parcial e a) a prerrogativa atribuída ao juiz de
decidir a causa em função do seu "livre convencimento"; b) a regra do
in dubio pro reo, isto é, só pode condenar quando estiver absoluta-
mente seguro a respeito da culpabilidade do acus'ado, pois, ocorrendo
alguma hesitação, deve inclinar-se pela absolvição,
Descontada a forma impressionista da apresentação, as duas
máximas resumem-se, na prática, a garantir um poder discricionúrio e
amplo ao juiz no julgamento, /'
Em que consiste, afinal de contas, a famosa "certeza lega]"? Em
algo que só tem existência no subjetivismo de quem profere; decisão
terminativa, Qualquer pessoa que atua junto ao aparelho judiciúrio
sabe, perfeitamente, que fica muito mais f,kil vaticinar o resultado de
um processo através do dado "qual o juiz que vai julgú-Io" do que
fazer a previsão em função do fator "qual a prova constante dos
autos?", O caráter corporativo da magistratura, armação hierárquica
em pirâmide cujo cimo é ocupado pelo Supremo Tribunal, para onde
são designados ministros nomeados pelo Presidente da República, o
sistema de promoções, no qual desempenha papel decisivo ainda o
Poder Executivo, tudo se combina de sorte a dar lugar à uniformidade
quanto a um certo aspeçto das decisões, ao mesmo tempo em que per-
mite, quanto a outros, caracterizarem-se pela incerteza e ausência de
89
incrustados no campo
A t;refa básica na apreciação de um processo criminal diz 1'es-
ao exame da nele contida, Por busca-se reproduzir um
do
rcu
~ muito grande a do grau de perfeição , de ser "
na operação, haja vista que os seres humanos envolvlClos l~um epls~
dio criminal tendem a ter sua capacidade de senso-percepçao prejUdI-
cada pela emoção, pelo tipo de relacionam~nto ~om, as partes, pela
maneira de olhar o~ mundo, pelas crenças llTaClOnalS que adotam,
enfim, por uma de empecilhos que dificu:tam a ~pre,ensão da
verdade dos fatos na sua pureza objetiva, Além dISSO, o luncJOname~
to da memória, no que atende à evocação, traduz, como o ate:ta a PSI-
cologia, uma reconstrução voluntária do passado, consclC~te ou
inconscientemente distorcida em função de uma de condICiona-
mentos deformadores a que está submetido o indivíduo, O ambiente
do tribunal também tensões emocionais nos depoentes, que, com
freqüência, sofrem bloqueios e terminam dizendo coisas que nem
estavam na sua intenção dizer nem guardam correspondênCia com a
verdade do que se passou, A prática forense cunhou LIma bastélll-
te si 0nificativa a respeito da precariedade das declarações prestadas
nos l~rocessos: "A prova testemunhal é a prostituta elas provas," Nesse
caso, a imensa maioria das sentenças se apóia sobre um bordel.
. E o que é dúvida, o que é certeza plena?
Há dúvida quando há uma possibilidade em dez de que a acusa-
, 1 I' "O I' 'a OSsl'bl'j'Idade é de uma para não seja vere ele eIra! II quanc o esse p "
cem? Ou para mil?
90
Em
uma lidade, ainda
veraz. Minha
Por
a
a
incerteza. Na
estará livre de
as
, uma vez que o material sobre
r um de certeza -- ou,
- mas tão apCIl<lS dc
011
objeto, ou, ao contrário, da
mcnos, de certe/o
objeto.
se resulta da vista do
dêlCJuele CJue viu ()
Por
sJo q alru OU CICI1-
ou
llão séÍo
uma certeza extrínseca.'·22 senil0 ele
Tal circunstância está reconhecida de resto .' " c I .
cessu'tJ qu ~ t' ;o-' , • ., plOplld el pro-
, " ~', . e ou 10. ndO pode ser o sentIdo do intrincado aranhol de
I ecm sos por ela cUIdadosamente elaborado
,~, vDiant~ ~a dificuldade de extrair da p;'ova do processo uma real
cei teza, o JUIZ tende a deslocar o objeto de i c" , -I .. '
menos dúbi-l " .. paI d sec e
" c para ele, se ahgura mais palpável mais concret'\-
mente apreensível' a fiuu" I· d . ' <
o . ,'. . b. I d (O dcusa o. E aqUI relcvo especial ganha
que subJeuvamente alimentado
um criminoso.
. .rOUVET, Tmílé de
há
um
que conduz o juiz
Paris, E. Vilte, 1949, v, I. p, 1
,v/ío os' crinllnosos? (:rimc crinzinosos: entes 91
mas opções eticamente comprometidas que, por sua vez, já
cm escolhas probatórias valorativamcntc determina-
das. Assim, no discurso j , () critério de é
anto ü ia entre os cfetivamente
ocorridos e os juízos decisórios, sabemos que a
lhe o verossímil e não o verdadeiro, Nilo c',;{io
mente ditos que se provam. as afirma-
de sua existência e da a partir
desta o juiz resgata o que
e constrói a
"Assim, no processo penal, não existe demonstração da
Em ambas as instf\n-
Na forma da o deveria examillar a prova do pro·-
cesso para concluir se está demonstrada a existência do delito e sua
autoria por parte do réu. Atingida tal certeza, então se preocuparia
com as condições pessoais do culpado, para o efeito de escolher a
pena a ser aplicada. Na prática, porém, há uma inversão na operação:
o exame da pessoa do réu, a ver se corresponde ao estereótipo
do clelinqliente, para depoisverificar-se se os autos fornecem elemen-
tos razoáveis para amparar a decisão sugerida pela convicção previa-
mente ·Para tal convicção, a fonte de certeza reside em algo
extrínsecoü prova do fato, pois sobre a prova relativa ü per-
sonalidade do acusado. E, então, um dado uma importância
: seus antecedentes. A existência ele anteriores cnml-
funciona como o verdadeiro fundamento em que se vaI basear a
certeza do Mesmo
o aeusado a
l~ curioso observar corno se tem em
ainda há
Rosa Maria Cardoso da. op. ciL, p. I
1.
até
92
ASSlnl, apesar de tecnicamente
de antecedentes."
a existência de um conceito de
fora dos limites pela
o fato de ter transi-
tada cm j por delito anterior. O que é uma defini-
jurídica de reincidência, da qual não se consegue entender como
o acusado
só se compreende ade-
rência dos magistrados ao estereótipo do criminoso definido pela
ideologia: indivíduo da baixa classe sociaL com folha de antecedentes
rnanchada.
Configurado o tipo abstrato do deJinqüente, basta encontrar sua
confissão no inquérito policial: dissipadas estão as dúvidas que pode-
riam torturar o espírito do juiz, e este condena de consciência tranqUi-
la. O móvel da decisão vincula-se muito menos ao fato em si ou à sua
prova; o importante é saber se aquele indivíduo deve ou não ir para a
cadeia. Não interessa o que fez, mas o que é.
Outro fator de fecundas conseqüências para a distribuição discri-
minatória da justiça está representado pela atuação do
O processo, em JUÍzo, reveste a forma de um duelo. Do lado da
está o promotor, às vezes ajudado por causídico contratado
vítima ou seus parentes para funcionar como assistente. Da outra
parte, obrigatoriamente, terá de haver um advogado a exercer a defesa
do réu. O resultado da pugna dependerá, em da combati-
vidade, experiência e força dos trocados pelos
rios. O sistema encontra similar na ldade Média:
"Outro tipo de I que, não sendo duelo-vingança, nem
dllelo-meio-de-prova, não se confllnde~ também, com o duelo de
93
examinavam se os lidadores
se tidas as
ita ele
VéU "os I são de Os promotores são servidores públicos,
concurso, em geral bem-remunerados, gozando de elevad? ~·tCltl~S
social, tudo concorrendo para que sejam recrutados entre proflssIon~s
de médio a bom nível. Os advogados contratáveis pelos acusados sao
profissionais autónomos, cuja sobrevivência depende, em grande
parte, da obtenção de resultados favoráveis nas causas e:11 que atuam,
escalonando-se, informalmente, em razão de suas qualIdades, .desde
aqueles pouco dotados (mas baratos) até algu..!).S verdadeiros lUJ11mares
(porém caros). Aos réus carentes de recursos . contratar ad~ogado
particular, o Estado os defensores públIcos - esco1l21clo.s ~e
maneira semelhante aos promotores, mas com ganhos e çoes mte-
riores a estes. . .
aqui, embora de fato ocorra algum desnível, pode-:,c admitIr
que, os campeões um certo eqUlI. em
termos de força. Dadas circunstâncias, todavia, drastIcamente
o quadro. -
Já anotamos, anteriormente, que o indiciado que pode contratar
adVOGado conta com sua atívidade desde a fase policial o que nunca
b
26.-'ITIOMPSON, Augusto P. EscQrço histórico do díreiro criminal
Rio de Janeiro, Editora Liber Juris, 19R2, pp. 53-54.
Y4
facilitando o
que o cliente da defensoria
ça a terreno no ilíbrio de Isso vai acentuar-se, de
maneir<l brutal. em seguida. A grande massa de réus que a íci,\
um tipo
barra tribunais constitui-se de
honorários ainda ao mais modesto ou
Com isso, a clientela dos defensores
Fica-lhe, literalmente impossível dedicar cuj-
a cada um dos casos que são postos sob sua responsa-
conversar COI11
CJua pruva
guem re;Jliz~lr: os aIos s - J
l1111nhas, alegações orais e escritas - sucedem-se numa torrente insu-
portável, que não consegue ser acompanhada, mesmo em plano mera-
mente formal, pelos massacrados defensores. Para resolver o proble-
ma, o jeito é apelar para o concurso de - estudantes de
direito - no sentido de lhes cometer a maior parte das atividacles na
defesa dos réus Corriqueiramente, o passa a exercer
uma fiscalização sobre o trabalho dos estudantes, ]imi
tando-se a chancelá-los com natura em e defesas, com o
que atende, formalmente, à constitucional da "ampla defe-
sa" a todos os Em nada foi
uma vez que a ocasional boa - ou até o e o
de estudante - é insuficiente para permitir o desenvolvimento
de uma
Triste verdade que com absoluta segurança: a
maioria dos réus é sem ou, o que dá no mesmo,
com um mero simulacro de defesa.
Por tudo 95
das camadas nalizadas da
dicional recebe decidido amparo
a do fato.
que
cega nClscença,
depois' mil dos anciãos, que pensnva pr()fundal71enle, teve 1:01/0
idéia. Ele era () mClior doutor entre esse povo, seu e tll7ho
um espírito filosófico e . assim a idéia de
curar Nunez de suas peculiaridades. Um dia, quando faco!J se
ele voltou afolar no caso de
• • 0. /7al'" !'ll·l·}1 o caso é claro. Examine I L Lf'
Considero muito ele ser curado.
_ É o que sempre supus - disse o velho Yacob.
__ com o - () doutor cego.
é que () ataca?
Ah! - disse o
- Isto -
Edaí?- o
e que existem
no caso de
Süo
movem e, em
constante de
-E
96
-- Creio cml! !JasfOlIfe certeza que. para curá-h)
por bosto-nos IIIIW e
saber renw~'cr esses irritontes.
luento/mente :;
smlio e será fim cidadüo admircíve/.
eéils ciência.! eXc!(//1l011 () velho
imediataJ/lente cOJl/wlicar (l SilOS e.\'I)C-
com as cores vistosas do pro-
gresso e da benemerência, por isso endossado ingenuamente por libe-
rais e homens de boa vontade, atua, de fato, como eficiente ferramen-
ta da opressflo/repressão, a fornecer-lhe meios tão duros e cruéis
quanto os castigos empregados pelo direito penal retributivo. Pior: na
medida em que oculta o verdadeiro objetivo atn1s da fraseolonia da
. . b
ressocwhzação do delinqUente, cega as pessoas quanto à violência dos
métodos empregados, dificultando, assim, o surgimento de movimen-
resistência contra eles,
Os instrumentos inventados como aptos para atender a tais pro-
pósitos ambivalentes são a penitenciária, o manicômio judiciário e o
internato para menores, com um desdobramento posterior constituído
pelo denominado "tratamento em comunidade", cujos precursores
foram o livramento condicional, a suspensão condicional e a liberdade
ada.
A incapacidade de alcançarem as instituições fechadas os fins a
que se propõem encontra-se hoje comprovada de maneira irrebatível,
embora ainda haja batalhões de e que cOI1ti~
I FROMM, Erich. Psíc{//uílise da suciedade 3. cd. Trad. L A. Bahia
e Giasone Rebuá. Rio de Janeiro, Zahar, s.d., pp. 190-1.
97
meta-
sistéma viu-se
do fracasso dos cíta-
a mesma c
evitar o desmascaramento dos reais
a cm
niio tinha (l menor idéia do que significavam latitu-
de que er(lm
em variados nomes:
ção, cura, educação, reeducação, reabilitação, regeneração, emenda e
outras tantas, o que parece indicar, por um lado, que ninguém sabe
precisar exatamente aquilo que se visa a conseguir, e, de outro lado,
que o verdadeiro desígnio a ser alcançado se oculta sob o véu dessa
rica prolixidade.
De qualquer sorte, o tratamento penitenciário aponta-se como o
alvo principal a ser atingido pela pena prisionaL Principal, mas não
exclusivo. A seu lado, alinham-se outros, menos altissonantes no
plano verbal, mas cobrados com severo rigor: punição retributiva pelo
mal causado com o crime; prevenção da prática de novas
através da intimidação (particular e geral); e separação do indivíduo
relativamente à comunidade livre, Havendo atrito operacional entre
estes fins e aquele alardeado como meta precípua, inadmite-se o
fício de uns em homenagem ao outro.
2. A é de Rupert Cross em PlIllíshmellf. Prísol1(md lhe PlIb/ic. Londoll,
Steves and Sons, 1971, p. 165.
3. A matéria deste n. 2 contém um resumo da obra de minha autoria, A
lencíâríLl. 5;[ cd. Rio de Jancíro, Forense, 1993.
4. CARROL, Lewis. Alice's Adventures in Wonder/(ll1d. Oxford, Uno Press, 1976,
p.l1.
98
A combi dos objetivos dificuldade de ser
ainda no plano meramente
retributivamente é
E os
A falta de
penitenci
uma ada ao tratamento
em duas
correntes: uma, aproximan o trabalho reeu i1 ativi
m é d i c a ; o II t r a , a sim i 1 a 11 d o - o p r ~lt 1 C a s e LI li C a c i o Il is.
mente. em terreno Uio indefinido e fi há urna forte ten-
dência para as co do que resulta o
teórico da condução da vida prisional, com grande freqUên-
cia, a aparência de um colorido coquetel, cujo conteúdo pouco tem a
ver com os materiais que, , o . E se olvida
uma Clrcu lâilcia relevante quanto ao dcft~it() de L10
é, sofrer, em nume ela retríbu ()
paciente/aluno durante o desenvolvimento do processo curatí-
:o/didéltico. Só mesmo o penitenciarista, que nem é doutor nem pro-
fessor, pode ser capaz de encarar a sério a estrambótica incumbência
que lhe é proposta.
Gravame de maior envergadura, porém, na rota da satisfa-
ção do alvo apresentado como o mais importante. É que ao lado das
metas formais atribuídas à prisão - as quais, como parece evidente,
testilham entre si -- há ainda objetivos outros por alcançar concomi-
tantemente: impedir que o preso fuja e fazer com que
sil ordem intramuros J inauaoem "sses b b \...,' ~ ,
nam-se segurança e disciplina). Em
doutrinárias, informais são rigor
pela sociedade, razão que os a se transformar, em verdade, na
finalidade centra-/. dos estabelecimentos Para
se, predominantemente, os controles do mundo livre, no sentido de
fiscalizar-lhes uma exata consecução, no mesrno passo ern que aque-
les demonstram frouxa no que aos
Bernard Shaw CROSS.
Steves aml Sons. 1971. p. 47.
PUI/ishelllcnf, Prisoll mu! Puhlic.
selo os criJninosos CriOlC e crÍnlÍ!lo.\'os,' entes 99 .
vos formais. Observe-se, verbi gratia, a assiduidade com que retor-
üs vezes de 101lf'O pessoas que mal saÍ-
ram exatamente por. haverem ídênti-
cos aos que as levaram a ser A reíncid(~ncia presl~me-se
que entre do que não há certeza por falta de est,ltÍS-
número, porém, que se considerar como muito
face dos dados de outros
com o mais rico c sofisticado sistema
do munJo, mais de A .recidiva implica a prova incontestável de
a falhou no como na meta
intimidação): submetido ao tratamcnto, com freqüêncía por vários,
muitos anos, o indivíduo continuou tão criminoso como antes. O fato,
ostensivas ou mani
assimilado com
hiJi
Illlltilll. u! homicídio intramuros dand()
lugar, muitas vezes, a verdadeiros escândalos públicos. Movimentam-
se os de comunicação social, a matéria ganha manchetes de
primeira página dos jornais e o horário nobre das de televi-
são. Os episódios são investigados com a finalidade de apurar respon-
sabilidades e disso resultam punições formais (demissões, processos
cri ou informais desmoralização dos culpados).
Ora, nunca ninguém se lembrou de adotar medidas semelhantes para
o caso da 1:9l1cidência do egresso da prisão indivíduo submetido ao
trabalho curativo/reeducativo elo tratamento penitenciário que comete
nova i i1 entretanto,
prova de que a i quanto ao alvo apresentado
oficialmente como o mais importante c, logo, seria curial identificar
pelo insucesso, se tal é a medida adotada no diz res-
na dos fins informais de seguran-
vê-se
ele,
Ir
um me de asfixiante cerceamento à
da disciplina "preço alto que se paga pela
100
do
(e'l
ma requer ()
d~lde, ~t ~1111ocunfi;HH:;~~1~ ~lt)
coerente FeLl
do aUlodisccmÍmenlo, (1<,
de
I i-
ra\'or:íYel
d com uma
que a lilli-
I i-
c!,;
(cdu" os fins
íolítica uper(1-
infnrmais
ser ati concumitantel s() resla saerificlr tlllS cm
uutros, Pelos motivus ,1lL1S -apon
livre para
soas, ou não
em reconhecer a manifesta
Dois
al a controles
do de quc tal
troles forem
de livre,
fornece mínima segurança
v s que os C()l1-
dife-
;\ i fechada "não é uma miniatura da sociedade livre.
mas uma sociedade delltro de uma sociedade",') uma VC7 que nela
foram alteradas, drasl numerosas elo mundo extra-
muros:
JONES. H,)W;lrd' Crime ({/Ir! lhe 1'('110/ 3, ccL Londol1. lJn, Tutorial Prcss.
s.d" p, 24"+.
,SYKES, CJreslJaIll, up, cÍí" p, 4i:l,
í-\, FOX. Vemoll. Prisol1 nar)' I'roblcms, ln' JOHNSTON; SAVrrZ & WOLF-
GANO, orgs, Tile !'lIllishmcl1l ([1Ir! Corrcclioi1, 2, cd, York. John
Wi af1(! Sons, s,lI" p. :19,+.
,){IU (JS cTinúnosos! Crill)( .. ' e c'}'inú!iosoS. eníes IIH
"N:t vida vil. o cidadão é, geralmente, membro de uma
la, um nl1;:\ ,de
ilIIU CC111l níd
permanente, con.línuu c,
cm contraste.
da
111cnt,; resultantes da muradia numa
embora cm
reI
compu!sórí;lS
local de
s, que "treinar homens pare ti vida livre
os a de II se tão absurdo "como
12 para uma corrida ficando na cama por
O uso da da liberdade humana deu lugar ZI
como é
dinaria este.
eOn1l1l11ente acontece, desenvolveria um
mal, chi concreta dos
ndendo esse fato,
nificado da vida intramuros não
muros e celas e trancas. Os
<). SYKES. Grcsh~l111. ()jl (ir., p, 75,
1o, CHAPMAN, Dcnnis. (1), (·il., Pi', 201. 203.
mas, como
infor-
dos
se iram en\'ol idos.
1 I. CROSS, Rup,:rL "IJ, !'ÍI. p, ! C" .
1 Thomas M, Osbornc iljmrl SUT1-IERLi\i'JD & CRESSEY. PrinciJJes I e J'li71I1IO-
V crsflO francc,sa do Inslituto de Direito dn de
Paris. Ed, Cujas. 1966, p, 51 J,
102
comunitárias são de . fundamental, se se
las no modo real ele
Pois
é
a caractcrística marcante da
a tentativa mai extremada
captá-
ele um grupamenlo mano a um de controle total. As regula-
estendendo-se a todo o c;:lmpo ele individual, a
lfincÍa constante, a do nas mãos de uns pou-
cos, o abismo entre os que li-
dade de si de
tudo concorre pare identificar no caso um
Acrescente-se que a ali - presos,
soaI da direção -, vê-se comprimida numa área física angusta, as pes-
soas viver numa intimidade esl onde a conduta de
"Nuo é
~1 rba os indivíduos mas u
'ndo cm cOlldi-
que Illl ln na vida 1 que illgrcssd
dade peculiar submete-se a um processo dc assimilação, a que Donald
Clemer 15 batizou com o nome particular de prisonizaçclo. O pri mei ro
passo, e o mais obviamente integrativo, diz com o status do novo
membro: transforma-se, de um golpe, numa figura anónima de um
grupo subordinado; traja as roupas características elo grupo; é interro-
descobre que os custodiadores são toelo-
as classes e graus de autoridade dos funcionários:
usando ou não a gíria local, apreende-lhe o acostuma-se (l
comer apressadamente e a obter alimentos através elos truques empre-
pelos lhes estão próximos; adquire -novos hábitos sexuais:
ria de todos; olha com rancor I"OS;
do de diversificadas e
deve administrar por ele -
uma
cÍl" p. 14.
JOHNSTON, SAV!TZ
ol P!llIisfll)/Cnr (/1Ir! Correcrioll.
pp. 47 t)·N3.
o
ele que o meio ambiente
e de difícil
da atitude
(j,y crilninosos? CriJne e criJllinu,Yos: entes 103
na vida civil -, do que lhe resulla "adotar
do mundo".!6 A da e clis-
ilimitado sobre
Vcda-se-lllc
Cumo
de um
elas. O preso está
(inal' J
as minuciosarnen
devem provir dos
rimcntar () sentimento serem corretas ou
uma obediência cega, que leva ao automatismo da conduta, habituan-
ele. E
ObVl:J!llcntc
di ;,111 o modo de vida
nada surpreendente, a grande maioria dos egressos dos estabelecimen-
tos carcerários tende a retornar a eles, pois se transforma em clientela
crónica da instituição fechada.
A incapacidade regeneradora da prisão, como se resulta
de condições ínsitas na própriaillStítuição, ao contrário da desculpa
pela qual se justifica a insistência na sua manutenção, de que
os fracassos constatados da sua história - em todos os
em todos os lugares -- decorrem de meras circunstâncias conjunturais,
sobretudo pela precariedade dos recursos alocados ao setor. Não é
ste a mcnor de resol-
tica concordam em
do tratamento
necessário resolver, preliminarmente, o problema da superpopulação
. Acontece que tal insol A
de quem estudou o
1(1. i\ nbservaçilo é Tania Maria Dahmer Pereiral colhida
104
sistema
CE
vagas
do Estado de Süo
o País tem cerca ue 60 mil
viabilizar o
conseguíssemos nosso sistema úrio ao da
metamorfosear os criminosos em nüo-crimi
colhidas por Jonatham
e mesmo nas galeras és nocivo
és um estorvo, és um tUlnO/: ..
Se pensas que pensas,
estás redondamente enganado
e com.o disse o DI: Eiras vem
chegando aijunto com o delegado
para te levw: .. "17
.Caracterizados por pertinaz repugnância quanto a se submeter
pacificamente à injustiça das estruturas sociais, impermeáveis à cate-
quese da ideologia, dotados de teimosa resistência aos castigos infligi-
dos aos transgressores das normas penais, destoando com freqüência
da conduta desejada pelo sistema, uma categoria de infratores gera
uma preocupação - verdadeira dor de cabeça aos mantene-
dores do slatus quo; os criminosos multi-reincidentes. À proposta ele
vida que se lhes faz, no sentido de renunciar de forma quase absoluta
ao usufruto das amenidades do mundo, ~t possibilidade de realização
como seres humanos, reagem vigorosamente, às ferozmente, na
17, CHICO BUARQUE DE HOLANDA, Hino de f)UrlIl1,
105
ini-
maIs
tendem a
revela o grupo, Insuficientes mostram-se, para
an comum dos
!lO manto de uma
desu-
mano e
O discurso de como lógico e
as penas, embora dirigidas precipuamente à recuperação
ainda um expiatório, de punição
o
não pode ser estes
gos, ao praticá-los em contradição com as normas legais; corno,
porém, a permanência tais seres em meio à comunidade livre acar-
retaria gravames para a última, pondo em risco a própria seguran~a
pública, tornou-se forçoso encontrar uma solução que atendesse as
duas ordens de interesses: defender a paz social, de um lado, e, de
outro, fazê-lo independentemente da submissão de irresponsáveis às
dores das sanções criminais .
./
"As medidas de segurança justificam-se porque necessárias
à defesa da ordem jurídico-social contra o crime, Alguns autores
não se satisfazem com essa justificação e procuram aprofundar a
pesquisa em busca de apoio ético-jurídico. Mas deve-se ponderar
que a ordem jurídico-social é um valor é legítimo de~e12der
pelos meios necessários, embora estes impliquem em restnçao a
direitos individuais, desde que esses meios sejam empregados,
com as garantias pelo Direito, Essa necessidade de
de um valor IJrimordial para a coexistência humana basta
a justificação jurídica e ética na medida de "18
18, BRUNO, Aníbal, o[l, cit" v, 3, p, 287.
106
No que concerne ao delinqUente multi-reincidente, a justificativa
panl excluí-lo do c8mpo ela pena para medidas de
segurança mostrou-se um foi apelar para ()
Ea
fornecer o
na
viável assimilá-los aos irres-
26 - É isento de pena o que, por mental
ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao
da ou da inteiramente incapaz de entender
fato ou de dctefl1l in de aconlu
os mul I1C dos ri pena, foral!l
para o redil das medidas de segurança. Porque estas, corno
se reconhece na justificação que lhes acompanhou a criação, podem
importar "em restrição a direitos individuais", compreende-se que dis-
ponham de força para determinar o sacrifício da liberdade de seus
beneficiários. Daí, não deve causar nenhuma surpresa que a legislação
a previsão de medidas de segurança detentivas - haja vista tratar-
se de mero corolário das colocações antes feitas.
Em princípio, no plano teórico, essa detenção há que ocorrer em
outro tipo de estabelecimento01ue não os penitenciários, pois não são
penas. Destinaram-se, então, os manicómios (novo nome dos
hospícios) para os multi-reincidentes.
A éonseqüência mais importante - ou grave - a se retirar da
inidentificação entre penas e medidas de segurança, com base na idéia
de que estas ditadas a de scus contemplados, é que:
de segurança nc7a se estende a sistema de
que cerca a área de penas.
tratemos de descobrir que de carne se esconde
debaixo do angu da retórica atinente ao em
causa.
107
"Multi-Reincidentes
"Da terra, de um rar
uma de aviões no ar. Mas
fora de rota. O avião se encontre 'fora de
pode 'louco' do ponto de vista dos
louca
pria
'Fora de é um critério cl
'Desviado da rota' é um critério ontológico. Um dois
juízos ao longo de diferentes . É ele fundamental
r 'fora de
fica que se encontre necessariamente 'na rota'.
porcos de Gerasa. Não é obrigatório que a pessoa 'fora de fOl,,-
mação' esteja mais 'na rota' do que a formação. Não há neceSSI-
dade de idealizar alguém só porque ele foi classificado de 'fora
de formação'. Não há necessidade de também persuadir a pessoa
nessas condições de que a cura consiste em voltar ~l formação."19
o arcabouço jurídico autorizativo do internamento compulsório
dos doentes mentais que praticaram infrações penais escora-se, por
inteiro no conceito de doença mental que em edifício estra-
nho a; direito, qual seja, o da psiquiatria. Ai surge a primeira .dificul-
dade: nada pode ser mais fluido que a definição de normalIdade e
anormalidade em sede psiquiátrica. . A •
Os juristas, cheios pudor, tomam as afirmações da Cle!1Clél
vizinha como verdades absolutas, ignorando - ou fingindo ignorar. - a
perplexidade que grassa naquela área a respeito da validade dos dwg-
nústicos de seus cultores. Como su um de seus
Il). LAING. R.D. A
Vozes, 1974, p. 88.
da Trad. Aurca B. Weissemberg.
108
ao status quo
"N,l
do como
lk seus
respeitavelmente
dispôs a instrumentar."20
o l:onceito de saber dcsinte-
é
instrumento contra os
Mesmo a esquizofrenia, que aparece aos olhos dos leigos como
enfermidade de cuja realidade ninguém pode duvidar e sobre a qual se
pensa que a psiquiatria detém profundo conhecimento e domínio, não
merece ser vista assim por eminentes estudiosos da disciplina:
"Não existe 'condição esquizofrênica', mas a etiqueta é um
fato social e o fato social é uma ocorrência politica. Este aconte-
cimento político, ocorrendo na ordem cívica da sociedade, impõe
definições e conseqüências à pessoa assim definida. É uma pres-
crição social que racionaliza um conjunto de SOCIaIS, por
meio das quais a pessoa é anexada por outros, que possuem san-
legal, poderes médicos e obrigação moral para se tornarem
responsáveis pela pessoa etiquetada. Esta é introduzida não só no
papel, como na carreira de pela ação combinada de uma
20. SERRA, Antonio A. & PEREIRA, Cristina Rnuter. A psiquiatria como discurso
polífico e os carreirisw,l" da indisciplina. Rio ele Janeiro, Achia:mé/Socii. 1979.
pp. 12·3. .
109
do como exame
como
"O esquizofrénico é alguém que estranhas expe-
riências e/ou age de maneira estranha, do ponto de vista habitual
aos seus parentes e a nós ...
Que o paciente diagnosticado esteja sofrendo de um proces-
so patológico é um fato, ou uma hipótese, uma suposição ~u u~
juízo. Considerá-lo um fato é inequivocamente falso. Consldera-
lo uma hipótese é legítimo. É desnecessário fazer a suposição, ou
o juízo. O psiquiatra, adotando uma clínica nS}
da pessoa pré-diagnosticada, a quem já contempla e ouve como a
um paciente, inclina-se a crel' que se encontra diante do 'fato' da
esquizofrenia. como se sua existência um fat.o e;st~lhe
lecido. Precisa então descobrir a causa, ou fatores etlOlog1cos
múltiplos,para calcular a prognose e estahelecer o tratamento. O
âmago da doença coloca-se então fora da agéncia da pessc;a. Isto
é, a doença é considerada um processo a que a pesso.a esta .suJe;-
ta, seja ele genético, constitucional, endógeno, orgâniCO, pSlcolo-
rrico ou uma mistura de todos.,,22
b '
21. LA] NO, R.D., op. cit., p. 90·1.
22. Id., p. 79.
1W A
Agora, imagine-se o que dizer a respeito da sociopatía - cuja
nomenclatura tern variado bizarramente no tempo -, a qual se projeta
de maneira tão intensa no campo criminal, uma vez que empresta
caráter ao de! de
Trata-se de
patologia· e cura impossível.
A identifi
dificuldade se realiza fora da
muI ti-reincidente.
Frente a esse estranho q
idéia de que:
mal,
medicina:
fica difíci 1 de aceitar a
"Como veremos, o que está em jogo é a busca, por parte da
medicina de um de ús
de cor; social, ii
Nesta l1i tôri a, vamos uma
extremamente semelhante à da criminologia, com a diferença, porém,
de possuir a protegê-la o escudo de uma disciplina mais tradicional e,
em sua maior parte, classificável como ciência natural - a medicina.
De outro lado, em compensação, nem sequer desenvolveu uma arma-
ção sofisticada, estagiando, ainda, lá pelas concepções preconeeituosas
de Lombroso, amarrando-se a idéia do sociopata à do criminoso nato.
O nome tem mudado através dos tempos: desde monomaníaco
(Esquirol), louco moral, sandeu com impulsos perversos, desvaira-
do moral inato, louco sem delírio, até portador de personalidade
psicop;hica, portador de personalidade anti-social e, finalmente,
sociopata. Afirma a psiquiatria que a enfermidade se caracteriza
por uma patologia dos sentimentos e da vontade, sem comprometi-
mento ou perturbação do entendimento, definindo-se em função de
procedimentos sociológicos que rompem uma faixa média que se
tem em mente: aqueles que sofrem ou fazem sofrer a socieda-
de" (Kurt Schneider). A pessoa nasce com o mal e dele jamais se
livrará. Além disso, ou por causa disso, inexiste tratamento eficaz
para
23. SERRRA, Antonio A. & PEREIRA, Cristina Rantcr, op. cit., p. 4 J.
111
complementar a explanação com o excerto:
e
Destas facilmente é infe-
o que
menta o ~lS leis:
"O comportamento da personalidade sociopata impede o
ajustamento psicossocial e vai da estranheza à criminalidade,
com un,
deli
!l1oslr:Ul1 a!itude de
Se' i
Quem não enxerga aí a medical ização do conceito de criminoso
nato, habitual ou por tendência, da criminologia positivista?
E, nesse caso, como deixar de estender ao terreno da psiquiatria
todos os argumentos antes alinhados a respeito da inconsistência
daquela espécie de criminologia? _ ~ .
b) Lá, como aqui, o esteio onde se apóia toda a construçao teonca
(chamada de "científica") é, sempre, a aceitação da sociedade existente
COI12,9 padrão de perfeição e, pois, de nor~n~lidade: devendo ser consid~
rados desviantes (criminosos, para a cnmmologla, loucos, para a PSI-
quiatria) os indivíduos que se insurgem contra suas regras e estruturas:
"Evidentemente a psiquiatria como
toma as leis da sociedade como norma da qual
se constitui cm patologia."26
a de poder
qualquer desvio
O reconhecimento da justiça da sociedade atual, a não ser para
quem tem interesse em como ou quem padeça de
24. ld., p.
25. Id.,
26.ld.,
112
nu
1l10Samcllte extravasa minha COl
quialria." A outra
de V. Exa. haver reconhecido que se trata de um deI
diagnostico-o como doente e o assumo; porém
com os instrumentos de
ista" de uma
Por isso, sou levado a falar
pela boca dos próprios psiquiatras acerca do caráter acicntífico da psi-
quiatria:
"É que a psiquiatria apresentou-se e firmou-se como um
saber científico, ou seja, como algo que falava de uma realidade
(vagamente, a "mente humana") com as garantias do método
científico."f\o embarcar na medicina, a psiquiatria passou a aufe-
rir os lucros da credibilidade científica desta, tornando-se por
tabela legítima. Da mesma forma que a outra, a psiquiatria tratou
de se propor corno um método de conhecimento de algo que se
passava além das conseqüências sofridas que as anomalias fisio-
lógico-anatômicas provocavam. O que a medicina afirmava
apoiada na dissecação dos corpos, nas análises de laboratório ou
na observação dos doentes a psiquiatria (de contrabando)
mou como derivado igualmente da observação e da análise das
funções cerebrais. Só que uma defasagem permaneceu sutilmen-
te pois o progresso da medicina foi a ponto de devas-
"rIo os crirninosos? CrÍlne e crilnínosos: entes' 113
A essa
á das
mo hUl1lanit(lrio das mel!"
Acontece que às medidas de segurança não se fixa data certa
para seu término, podendo, inclusive, revestir caráter de perpetuidade.
O deli
q
raias; disso, dela não cm , ser
superior a 30 anos (Código Penal, arL 75). Finalmente, ao completar
o prazo da sanção imposta, o condenado será necessariamente posto
em liberdade, independentemente da opinião de qualquer pessoa a
respeito da inconveniência da soltura.
Dessarte, se um indivíduo pratica um assalto (furto mediante
violência contra a pessoa) e é tido por sadio mentalmente, est<:1 sujeito
a uma pena de quatro a 10 anos de reclusão. Ainda que o julgador
entenda de lhe aplicar a sanção no grau máximo, o condenado pode
contar por seguro qLH.\ no dia em que completar 10 anos de prisão,
será devolvido à liberdade poúco importando se isso agrada ao juiz,
ao diretor da cadeia, ao Presidente da República ou a quem quer que
seja.
Já com relação ao que está tolhido da liberdade em virtude de
submissão a medida de segurança, o quadro revela-se muito diverso.
O juiz, ao determinar a internação do irresponsável, não marca
data certa para o término da providência, porque, na forma do Código
Carl. 97, 9 12): "A internação, ou tratamento ambulatorial, por
tempo indeterminado, perdurando enquanto não for averiguada,
28. Id., pp. 11-2.
1I4
mediante perícia médica, a cessação de periculosidade. O prazo mÍni-
mo deverá ser de 1 (um) a 3 (três) anos."
Recolhido ao o feliz de medida de segu-
rança só libertado se e quando o juiz achar que o momen-
lo azado. Caso nunca tal o indivíduo perma-
necerá até morrer.
Para decidir se a periculosidade, vale-se
de um exame
culosidade", no qual
vezes coadjuvado por psicólogo.
mental se marca pela dubiedade,
elo laudo de "cessação de periculosidade"!
de cessação de
O de pericuJosidade inorerece problema: o direito presume de
maneira
ou
a lei, desprezadas colaborações extrajurídicas. Como
já vimos, porém, aplicada a medida de segurança de internação, ela só
será revogada se e quando se apurar que desapareceu o estado perigo-
so do paciente. Aqui, a psiquiatria volta a dominar. Cabe-lhe a palavra
decisiva. Os juízes curvam-se ao prognóstico da ciência e de seus
especialistas. Quer dizer: o problema do internado desloca-se da ins-
tância judicial para a médica, onde se inadmitem o atuar das garantias
que cercam o funcionamento da justiça. Não há advogado para defen-
der, nem recursos, nem tribunais, para onde apelar, nem formalidades
a observar - o psiquiatra merece confiança total, é dono da verdade.
Se sentencia: continua ao juiz incumbe, na prática, prorro-
gar o prazo da internação, que pode protrair-se até a perpetuidade.
"na prática", porque o juiz, legalmente, não está adstrito à con-
clusão das perícias. No caso de laudo psiquiátrico, porém, em rarÍssi-
mas o magistrado ousará lançar mão de tal prerrogativa: se
o fizer, pode vir a ser tachado de louco.)
Que isso ocorra -- o internado nos exa-
mes de de de periculosidade
em se tratando de
ual.' """. uma vez que a
não tem tratamento nem cura. De fato, a
entes 115
que cessou a periculosidade representa - embora, em geral, ninguém
atençãoa isto a demonstração de que o diagnóstico inicial
menos do ponto de vista a
da liberdade por do sociopata constitui-se cm
Isso resolve uma importante para o ao mesmo
em que ostenta a no território da
_. onde avulta a da de pena determinada
na cuja duração não em caso algum, ser superior a 30
anos de uma fórmula para manter em confinamento
tuo (em nome da ciência) os indivíduos mais rebeldes, que arrostam a
dureza das sanções repressivas sem deixar quebrar o espírito de insub-
missão.
A terceira a de todo esse o controle
sobrc rnétodos do tratamento
do que au o.
das concorda-se
operadores (autoridades prisionais) submetidos à
ciário, pois, embora aureoladas de um sentido regenerador, conservam
as penas caráter expiatório e, logo, devem ser controlados para que
não extravasem os limites desejados pela lei:
"Esse esquema é puramente formal, mas é importante por-
que fixa para o Estado os limites da punição (a pena não pode
ser maior ou diversa da que está prevista na lei) e estabelece para
O réu a aarantia de não ser atinaido senão nos limites dos ditéitos b b
diminuídos pela Que direitos são Em princípio,
apenas a perda da liberdade e a dos direitos necessariamente afe-
tados por ela."29
O apelo à idéia do conteúdo
suficiente para autorizar os ,-"Ue'"')U}
os processos que lhes parecerem mais
da pena carece de força
arbitrariamente
29. FRAGOSO, Heleno; Yolanda & SUSSEKIND, Elisabeth.
presos. Rio de Janeiro, Forense, 1980, p. 3.
116
sobre a
para mudar
humano."3u
Rêlativamente ás de
ele limitar os
aos internos que o
é o documento de
, ele 1 "31
diferente. porque, sendo em
as
de
estando, expungidas de qualquer traço retaliativo ou de
fornecem a ilidade de que não
exime de intervir, em virtude de escrúpulos que merecem o ,aplauso
dos doutos. Afinal, ao saber científico não cabe ficar submetido à
ingerência das leis e de seus fiscais. Dessa forma, os executores das
medidas de segurança detêm um poder sobre seus pacientes m
amplo e desaçaimado, ainda, que o do carcereiro sobre os presos.
No hospital psiquiátrico ~ cujas características, como mostra
Goffmal1,32 são idênticas às da penitenciária -, o uso de
recursos que ilegalmente podem ser aplicados na prisão: a camisa-
de-força, o choque elétrico, sobretudo o consumo de medicamentos
que, causando a intoxicação da vítima, suprimem-lhe a capacidade de
autovolição (em gíria, conhecidos como sossega-leão). O criminoso
renitente, por sua incrível capacidade de à conformação,
constitui tragédia para a administração prisional, eis que não se deixa
venccr através dos meios repressivos de emprego naquele
tipo de estabelecimento. Mas, para o manicómio, a coisa torna-se
mais fácil: basta ministrar-lhe doses de sossega-leão e,
30. ld., p. 38.
31. Id., ib.
32. GOFFMAN, Ervíng, Memicômios, e cO/1\'entos. Trad. Dante M, Leite. São
Paulo. 1974.
S(/() O~'i crinlino:'}"()s? Crilne 117
manter a em nível su com-
como um buneco sem alma.
Bern, em último assunto foi
sentes,
das medidas de segurança, a tornar
teúdo ali Assim ocorre, V.g., quando os se
de abrir vagas. Alguns p.p.
internados há muito demons-
tram uma certa exaustão quanto à potencialidade de rebeldia contra o
ordenamento disciplinar do mento fechado e, por isso,
a 11
O infrator cerceado em sua I causa da
doença; não fosse a doença, nada justificaria que continuasse preso;
mas, se é doente, como admitir que vá para a prisão comum?
Na medida, porém, em que a psiquiatria fornece o respaldo cien-
t(flco, a justiça, de alma lavada, adere à proposição e a sust.enta com
seu poder: é então que pegamos em flagrante a falta de sene?ade de
toda essa intrincada novela das medidas de segurança. Por melO desse
jogo de cabra-cega, torna-se possível trancafiar na cadeia, em caráter
de perpetuidade, inúmeras pessoas - apesar de o comando do art. 75
do Código Penal proibir penas superiores a 3~O anos.
A título de exemplo, transcrevo no APENDICE VI um caso ~lu.e
é típico e freqüente, no qual toda a inconsistência da colocação medI-
co-jurídica a respeito da sociopatia fulgura com clareza ~e cegar.
Em suma: porque as medidas de segurança são aplicadas a bene-
fício do aaente porque não têm sentido de punição, estão liberadas das
b ' . t
garantias legais que cercam a imposição das penas. Porque o Soclopa a
é um doente, faz ao privilégio da medida de segura.nça. Com~,
todavia, para ele não há cura nem tratamento, deve cumpn-Ia ~la pem-
tenciáría, onde provavelmente permanecerá até o fim de seus dIas.
. . d 1't erendo e entenclen-Sorte a do cnmmoso que perpetrou o e 1 o qu .
, . . 1" d " . t ção" das med1das de do-lhe o carater delttuoso, pOIS se Ivra a pj o e . l'
. .., . data certa para saIr de a. segurança: VaI para a pemtenclana com uma
118
em
no concernente à
metidos ii a
encontrar uma fórmula alternativa que,
tos
consiste em
em à sociedade livre, sob
que lhes a as si lecn
metamorfoseá-los de desviantes em não-desviantes.
.j ndicada para
A respeito, permito-me produzir resenha que fiz acerca das
tuti
ao de reabilitação em instituições fecha-
das -- é tão ineficiente quanto este, não sendo levado mais a sério
que o hiperbólico blablablá que defendia o último. Os dados ofe-
recidos como prova da eficácia do primeiro são tão manipulados
ressaltam-se os sucessos, obscurecem-se os fracassos - quanto
o eram os da recuperação nas organizações fechadas. A fórmula
~e proseJitismo é idêntica à que se usou quanto à tranca terapêu-
tlca: um superentusiasmo inicial, usualmente baseado em peque-
no número de relatórios otimistas sobre casos singulares - e,
naturalmente, muito discurso literário. Submetido o regime a
estudos sistemáticos, nada confirma as assertivas inaugur~s. Em
outras palavras: o 'tratamento comuniuirÍo' que, ndo se
alega, substitui a 'terapêutica em confinamento', não tem sido
mais que um slogan, com pouco ou nenhum conteúdo de realida-
sendo sua capacidade reabilitadora tão aleatória e nominal
quanto a antes atribuída ao tratamento institucional. Outro ponto
de sintomática semelhança entre os na estra-
defesa para da resso-
trilha o mesmo caminho a
ante o impacto da com a
selo os criminv,yos? Crin1e e critnil1osos: entes 119
acercou inicialmente: ainda não produziu os seus inevitáveis
resultados positivos não concederam os recursos de
O erro não é do mas de sua
, como antes, não se toma qualquer para
conceder os tais recursos, para rncnsurá-los ou para saber se são
e se, de fato, acaso fornecidos, trallsformariam em
derrota. A dos indiví-
duos submetidos a c a
incremento, quer em
à
ao exigível. Um vigilante de probation atende, às vezes, a 200
liberados; em de 10 minutos
'lnltamento em
Outro precisa ser diz
alegação de estar demonstrada a superioridade da terapêutica
comunitária através das estatísticas relativas à taxa de reincidên-
cia. Em primeiro lugar, os levantamentos até aqui oferecidos
pela propaganda desprisonizadora são marcantemente inconsis-
tentes e inadequados, apresentando-se aleatórios, falhos, incom-
pletos, freqüentemente tendenciosos e, às vezes, desenganada-
mente manipulados. Em segundo lugar, não parece ser essa espé-
cie de demonstração a mais apropriada para assegl]J./ar que a
solução do tratamento em comunidade é melhor que a do trata-
ment-o em estabelecimentos fechados. Cumpre lembrar que não
são escólhidos ao acaso os indivíduos destinados àquele: exata-
mente o contrário se dá, como, aliás, não só reconhecem como
fazem questão de proclamar enfaticamente os fautores da despri-
lI~U'-'U'J, ou é feita uma cuidadosa descobrir
!-,',,,J0'JU0 que demonstrem 'aptidão' para o regime aberto, cir-
apurada tendo em conta serem menos ruins, menos
autores de atos menos etc. esses des-uma taxa de menor relatÍvamente aos
companheiros considerados 'inaptos' - restando muito difícil
120
avaliar em que medida a troca de
causal na estórl:t,
se a cO!l1unidm!c é
cm
Abunda a
intelectualmente sério para demonstrar a
entra como coeficiente
vlll-se
cornunítáría, Ao disso, ladeia-se o cerne do
nfio o
vizinho e as famílias atendem prontamente e voluntariamente às
necessidades dos membros com problema - ou seja, eleva-se a
correção comunitária a nma nova panacéia terapêutica ..
Três elementos básicos sustentam o programa de despriso-
nização: 1 º - interesse em resguardar os internados da destruição
de sua humanidade essencial, ameaça sempre presente em face
dos efeitos corruptores da instituição fechada; 2º - promessa de
reabilitação, via tratamento comunitário; 3º -- a existência (alega-
de uma tolerância crescente, por parte da sociedade, em con-
viver com e cuidar dos membros desviantes, Quanto ao último,
cabe indagar de onde veio tal tolerância, o que não é e,
muito menos, provado de qualquer maneira. Parece mais certo
reconhecer que não foi a tolerância surgida no povo que justifi-
cou a mudança da política a ser adotada mas que a da
política é que deu lugar a um conhecimento a respeito da alegada
(mas não demonstrada) modificação na tolerância comunitária,
De concreto tem-se, em verdade, os protestos vociferantes dos
cidadãos ante as decisões de libertar criminosos ou deixar soltos
na rua, sob mínima ou nenhuma supervisão, doentes mentais -
'-'w~v,~" dificilmente conciliáveis com a idéia de se haverem tor-
nado tolerantes com a presença dos desviados,
121
dos
em
maIS
mento
que deve-
E a del no
das comunidades miseráveis, começar a gerar pânico, levan-
do as populações a adotar a prática de fazer justiça pelas próp:'ias
mãos? Quem guardará os desviantes contra os vizinhos? Em face
de tal questão, não seria de levar em conta, além da proteção que
a instituição fechada oferece em favor da comunidade contra o
desviante, o resguardo que oferece em favor do desviante contra
a comunidade?
Para finalizar: verifica-se que a desprisonização, na prática,
tem mínima semelhança com o discurso liberal que a defend~ e,
embora provavelmente fora da intenção de seus autores, tem.sldo
usada como uma camuflagem ideológica para obter economIa de
custos mascarada de benevolência e tolerância, Por certo, uma
dada de liberados tem condi~~ão de volt~r a
viver no meio de onde saiu sem causar traumas. Alll1al
de contas, muitos daqueles submetidos a processo pelas ,
oficiais de controle social são escassamente distinguíveIs dos
vizinhos que estão abandonados e, pois, podem ser expelidos d~s
, . . - ' 'ldl'Cl'Oll,ol'S Porém para mUl-ll1stttmçoes sem rISCOS < c<, , ,_
, . . t Cl' '11 a substltUlçao da tos outros eX-ll1ternos ou mternos cm po en . c,, .,
, , " de desViados , internacão representa um mcremento <lOS , .' h b"
Com is'so se instaura um estilo neofeudal de contróle: os a}-
122
lantes de tais guetos ~o as
da poHcia será não a de , prevenir ou
o crime em seu interior, mas a de evitar que transborde
seus limites."33
Em que consiste, afinal de contas, o direito corretivo? Qual
seu verd,ldeiro conteúdo? os curar os·
mentais que praticaram fatos previstos como crimes; educar os meno-
res portadores de desvio de conduta - trovejarão os juristas, criminó-
logos, psiquiatras, penitencíatistas e todos os
() é bem outro.
O jogo da violência, no antigo direito penal, era jogado franca-
mente: "eu tenho o poder; eu dito as regras; quem desobedecer, trata-
rei de triturar na roda ou esquartejar em praça pública."
O desobediente pagava com o corpo os atas de rebeldia. A vio-
lência, agora, atua disfarçadamente e, a título de amparar o insubordi-
nado, se permite transformá-lo em objeto de um trabalho de adapta-
ção. Como conseqüência, porque pretende "tratá-lo", arroga-se o
direito de invadir-lhe o próprio eu, de alterar-lhe a personalidade, de
executar uma tarefa que viola o mais íntimo de todos os direitos do
ser humano: o de ser ele próprio.
"O afrouxamento da severidade penal no decorrer dos últi-
mos séculos é um fenômeno bem conhecido dos historiadores do
direito. Entretanto, foi visto, durante.muito tempo, de forma
geral, como se fosse fenômeno quantitativo: menos crueldade,
menos sofrimento, mais suavidade, mais respeito e 'huma-
. Na tais se concomitantes
33. REVISTA DE DIREITO PENAL, Rio de Janeiro, Forense, 27: 114-6,1980.
ao deslocamento do objeto da ação punitiva. Redução de i
dade? Talvez. Mudança de objetivo, certamente.
123
Se não é mais ao corpo suas
formas mai s dos
que abriram,
que ainda não se encerrou - é
inscrita na Pois não é mais o corpo, é a alma.
À que tripudia sobre o deve suceder um
que atue, profundamente, sobre o o a
as disposições."34
o crime autoriza a ação punitiva, que busca a manutenção do
de aI como criminoso, muito
cujo ista unia o não é
mais castigo, mas alguma coisa a ser operada cientificamente em prol
do condenado, desnecessário se faz apurar se infringiu a norma penal.
Basta a constatação de que precisa de tratamento, e o socorro oficial
lhe prestado - até pela vida toda, se for necessário.
Cada vez mais, a justiça criminal escorrega da sede judiciária
para outras esferas, as quais, por serem cientificas, desnecessitam de
justificação legal para se pôr em ação:
"Resumindo: desde que funciona o novO sistema penal ( ... )
um processo global levou os juízes a julgar coisa bem divel~sa
do que crimes: foram levados em suas sentenças a fazer cO.lsa
diferente de julgar: e o poder de julgar foi, em transfendo
a instâncias que não são as dos da A operação
penal inteira de elementos e extrajurí-
dicos."36
34. POUCAULT. Michel. , ap. cit., p. 20.
35. POUCAULT, Michel. A verdade e
36. FOUCAULT, Michel. e punir, op. cit., p. 25.
ap. cit., p. 68.
124
so
instâncias
do proces-
o
De resto, na medida em se com referên-
de duras repressoras aos seme··
os juízes sentir-se aliviados:
lllente, damos um vcrcdito,
urn
E:
"A justiça criminal de hoje em dia só funciona e só se justi-
fica por essa perpétua referência a outra coisa que não é ela
mesma, por essa .incessante reinscrição nos sistemas não-jurídi-
cos. Ela está votada a essa requalificação pelo saber.
Sob a suavidade ampliada dos castigos, podemos então
verificar um deslocamento de seu ponto de aplicação; e através
desse deslocamento, todo um campo de objetos recentes, todo
um novo me da verdade e uma quantidade de papéis até
então inéditos no exercício da justiça criminal. Um saber, técni-
cas, discursos 'científicos' se formam e se entrelaçam com a prá-
tica do poder de punir."39
o tratamento penitenciário, as medidas de seguranca a medícali-
~ "
zação na execução das o emprego de métodos psico-psi-
37. leI., p. 24.
38. Id., p. 25.
39. Id., pp. 25-6.
e cl'i111l'J70.\'OS: cnles 125
de sentimentos generosos muitas vezes, que o crime é
uma e que o criminoso é um
Essa forma de vcr as coisas gera duas ex!rem~r-
mente s a manutenção do status quo, razão por que merece os
aplausos do sistema: fortalece a idéia ele à sociedade, para ser
falra
em extensão ilimitadas,
pacificamente às normas opressoras.
ar, de maneira
que reagem a se sul1n1eter
e
"A vida, meu caro é sempre mais
ampla que a doutrina; a vida não é para ser
espremida dçntro dos limites de nenhuma
doutrina,"
"H:t na socicdnde russa quc: tcm a
cnragcln úe cllfrcn!~lr o rnundo:
"N a It:í I i ,',do
rcs Marx c c toda a cor-
rente social-democrática alemã, falam com tão
profundo desprezo, Sem dúvida, isso é um
erro, pois é nesse proletariado, e não nas
camadas burguesas da cl asse trabal hadora,
que residem toda a razão e a forçada futura
Revolução Social."
Bakul1in
Criminoso é: a) o indivíduo que age em contradição com a lei
penai; e b) sofre oficial.
A omissão no termo b elimina a concreticidade da definição,
conduzindo a um conceito ideal de válido no
mundo das metafísicas.
O infrator que, por se haver extraviado em do
percurso que conduz ao claro da ordem
negra não é criminoso, nem seu ato constitui crime:
127
128
que I1fío tenha sido criada lei e
que se assinala nos
Por isso mt~S1110, de passagem, trabalhar com uma entida-
de do { "criminosos dc colarinho branco"
a de pessoas bem
e onde ocorre - a título de
ceI' rele vo par,L o exame do
\10
tasia para se descartar de ver submetida a exame a
1.
"De ~mportância crítíea - embora geralmente subestimada -
é que 'crime', 'o criminoso' e outros conceitos que devemos clis-
cutir são definidos pela organização política da sociedade. O
cnme é definido pela lei e as atividades do sistema de justica cri-
~11lna~ (aqu~las instituições que a sociedade faz responsáveis pela
l~entlfIcaça~, apreensão e lida com que se pensa tenham
VIOlado a leI em parte, reguladas lei - e a lei é
criação de um processo político. O legislador o
dos Estados
(ou se nega a
político do Estado
como um corpo
leis cri
dade política quando
rio é também político' (no mesmo
duos acusados de violar a lei. A polícia,
tion, e outros órgãos
. . de. Sistema penal c sistema social: LI
crlll1lnal como de um mesmo processo. Trad.
Rel'lsra de Direito Pellal, Rio de Janeiro, Forense, 30: 12, 19R I.
aprova
no ramo do
Por ISSO fica fáci! entender ii demon
que,
mera
s,
básico princípio político: o de
~l tirania dos grupos dominantes.
neutros
129
indivíduus
yc/cs nem a
~lS inferio-
risco um
das estas quer pela lei, quer de da ci negra.
fnexistem diversidades ontológicas entre condutas criminosa e
não-criminosa. Também não se encontram divergências essenciais
entre criminoso e não-criminoso. O dado distintivo entre tais catego-
rias decorre, exclusivamente, de uma visão axiologicamente dirigida e
parciaL'
A explicação do comportamento criminoso nada tem de diferen-
te da relacionada com o comportamento não-criminoso. Como acen-
tua J amcs T. Carey, porque as pessoas agem como o fazem e porque
certas condutas são definidas como criminosas, consubstanciam dois
problemas distintos.
Idênticas apresentadas como negativas ao se I
rem a um criminoso, ganharão sentido positivo se estiverem vincula-
das a uma prestigiada pela ordem vigente.
Por exemplo:
Refere Cressey que a máfia de seus membros lealdade,
espírito de equipe, honestidade para com a associação, coragem em
SILVER, lsidore. TI/e Crime-COI/Iro! Estahlishment. New Jerscy, EUA, Prcntiec-
Halllnc., 1974. p. 7.
130
face da adversidade, dureza. Ora, que outras qualidades cobra uma
muftinacionaJ de seus executivos?
de de luta e ausên-
cia de
vista mesmo à custa
e abater, ainda
de alguém: é inflexível, frio,
entranh:.ls na de mas
com os 'amigos, com os na hora de gastar -
indústria? Por que não de um descrição de um altruísta capitão de
assaltante?
ele é
Quem assassinou maior quantidade de inde mas: o
homicida famigerado ou o festejado piloto do bombardeiro de guerra?
A elevação de certos comportamentos à classificação de crimes
e, sobretudo, a designação de certos indivíduos para serem oficial-
mente considerados criminosos estão diretamente ligadas com a hie-
rarquização social e o esforço de manutenção do status quo que inte-
ressa às classes dominantes.
Tal circunstância, de resto, pode ser surpreendida nas comunida-
des mais rudimentares, como anotou Malinowskr"em seus estudos
sobre as populações primitivas da Melanésia:
3.
4.
"Assim, em conexão com o meiro objeto que chamou
nossa atenção - a canoa nativa se nos depararam a lei, a
ordem priviléaÍos definidos e um bem desenvolvido sistema de
, b
"4
"Seja lá como a maneira em que funciona, é uma
rnaneira de o statlls quo, um método de Íne-
R io de Janeiro, Graal, I p. lO7.
Broníslaw. CrÍme ond Custom Ín London,
Baul, J 978. p. 21 ..
qualidades
novas."s
A
e impedir a
opressoras; a
das massas
outras
criminosa, de
da luta
as
':No mais lato sentido, pode-se afirmar que todos os crimes
são crimes políticos, uma vez que todas as proibições com san-
ções penais representam a defesa de um dado de
ou de no o social
Reitero a declaração que abre o livro: trata-se de uma reporta-
gem.
Em face da circunstância, fornecidos os dados resultantes do tra-
balho investigatório, incumbe deixar à elaboração de eada um as con-
clusões a tirar. Seria eu desastrado se quisesse fechá-lo por meio de
opinativas colocações pessoais. .
Nada impede, porém e acredito até que faça parte da técnica
jornalística -, terminar o relato com alguns tópicos provocadores e
desafiantes, os quais devem estar codimentados por exposição desor-
denada, incoerente e, às vezes, contraditória. o toque excitante,
sem o qual inexiste reportagem que se preze.
I
o incremento da onda de crimes ou a modifi-
das estruturas sociais·
The Politicai Criminal. New York, The Free Press, 1974.
132
o cOllletil11cnto de (kli
nürÚL 1i
lC~t lnu
llLilmcnh: (k'l1omillada
/\ '\mda
1 rallsf
estas_ 0\1
numa
limitar-se i\ idéia ele p:lssdr do
o
hierarquizada ou
manter-se sem
serú viável abolir a
Mas não é a
deve ser visto como ":llivid:ldc ()-
nesta nossa
) " d
quem bc
iS!:l P,lril () soei
de que tipo
hoje, conceber uma socie-
sem estar dividida em
ou dividida cm
, classista ou hierárquica que inve/]-
11
Sem istência elas entidades crime e criminoso se tem
mostrado parel a da ordem social vigen--
te, Além das razões s ao longo deste caberia chamar a
para as alinhadas sinteticamente a seguir:
Juarcl. Ciril1(J dns, A mdicu/. Rio cie Janeiro, Forense,
os ('!"!núnnsos? CrinIC e crirniJloyos: enTes' 133
fll nc i Oiwr COllH)
cI iní'crioll's_
cri m I1()S(h, A di CUSJO
de mesma classe,
dimenlos de urn cotidi:H1() concentram sua
assim qualifi pela
cu
tos por C,lUsa
exige tratamento c
-- o si s í e rn {l
natureza aos
clcmen-
134
A que se pode pedir socorro nesse mister?
A burocracia, naturalmente.
Como a burocracia do Estado sai mais barato para as camadas
do que a da indústria e todos contri-
buem, os custos ao de
sorte a a maior pmcela da imensa miJo-ele-obra
da de colarinho e gravata.
E que ficar a ue burocráti-
III
Reconheço a funcionalidade que o crime tem representado para
o
no futuro? Üu o nosso tempo é o
momento')
Com respeito aos criminosos classificados como "políticos" ou
"propriamente políticos" ou "políticos reconhecidos como tais pela
ordem oficial", o Estado industrial aperfeiçoou e aguçou sua resposta,
tanto que vem obtendo vitórias e sucessos no seu enfrentamento.
Somente quem não tem "olhos de ver" deixa de perceber a neutraliza-
ção a que estão condenados os movimentos revolucionários tradicio-
nalístas, como os partidos comunistas ocidentais ou os dissidentes da
China. De outra parte, as que optaram pela luta armada
foram destroçadas - v.g., grupo Baadcn-Mcinhot", Brigadas Verme-
lhas, Exército Simbíonês, Tupamaros, Sendero Luminoso.
Em contrapartida, a criminalidade apelidada de "comum" ou
"ordinária" só fez e só faz aumentar, em quantidade e violência, sem
que se encontre fórmula - sequer esperança de fórmula - apta a lhe
estiolar o desenvolvimento.
Em que consiste o fator de diversificação dos resultados colhidos
pelo sistema na contra o crime" numa e noutra
sabe está em que, à o busca o
combate no terreno nas que favorecem o Üs "cri-
, recrutados em maioria da classe médiapara cima,
135
necessitam burocrática e tecnicamente para
Ora,
menos do ponto dc vista
caracterizam-se as elo banditismo comum con-
industrial de tra a ordem social. positivamente, o
ausência de vocação para - quanto mais para pelejar
__ nas áe:uas ela anarquia. Aliás, não será este oceano "o único túmulo
digno cl~ um almirante" técnico-burocrático?
Ponco i se o mel
caso,
mitente contra o status qilO. Por isso, é político c por isso é tratado
politicamente pelos detentores do poder. Vale lembrar: a História se
constrói tanto de atos quanto de fatos.
Com referência a acontecimentos afastados da realidade em que
estamos imersos, que podemos contemplar a uma distância sl:ficic:lt.e
para permitir uma visão razoavelmente descompromissada, fIca facIl
compreender a questão. Quanto às tropelias dos bandos de
ros, pelo fim do século passado,):1o interior do Nordeste: por exel~plo,
a maioria de nós, moradores dos centros urbanos elo fmal d~ sec~lo
. aÍlrmatIva provavelmente sem malOres a
de que:
eles travavam uma luta de classes. lnconscientemente, não
mas uma luta de classes. 10
No que
dias de
10. Rui.
Brasileira, 1978, p. 166.
que, ao
nas metrópoles nos
estuprar, matar,
5. cd. Rio de Janeiro, Civil
136
, destruir, dallific~lL :tm Irm·'ando illilU II/lu de
dO cnco:,{ar u carro para ir ,íllillla
minha mul () de:
lcmo cncontruc () P;lraibínha ou o
POS,\O lido ÍLico do
() CjU;t!110 cunLÍu!a dos tílti
Os sitiados começam a sÍti;lr?
de ousadia.
S;lO outros, agora, os que vive:m
dos por
aos
vadia.
lhes
vai a noite e
II. Ic!, ib.
é rico. pois o povo
decbrado guerra de extermínio."11
li
diria
JSS\),
clus j)t1T11cirus, sou
cobrada por um
atrás de
(os
Teles:
fOlllcccr um último
(JS criJniJ)()sns? Cri!}!(' e crinlino,)'()s: eliTes 137
dado ú medi! que :l1'recadei reiterada com 1111-
!1USOS margll1,lls quc tem marcado minha vida -- dado que costunw
l'iclr ('b:-;clI do na quem prcleciui1(\ subre
haVl'r )IlVér~;;\ alxcrLt clin:ta
com
Ao PCl1S;L sobretudo no concernente
aos donos de !idade í!1te
CD t re a morte o a tal
ia" que caracterizaria () dos criminosos não jJ"S",:1 de
cen..:brina nascida do :-;ellSO cumum ntclcetu,lÍs. Com uma
LI falar o
indivíduos urna detcr-
ordem social da s6
i nl~r
até seus ó ilustres
cm uma VIa de
e haverão de
mentos que os vão deixar estupcfatos.
eonseguirão entender o que lhes parece irracional cm seu
como, por exemplo, por que ceream a prática da sub-
património alheio de uma constel de alos
nada na aquisição dos
torná-los mais vulnerúveis ú
perseguI , causar e
maj()r severidade elos
que o roubo funciona, apenas,
car explosões de
confronto enraivecido contra um sistema que teima em
lado de fora de suas amcnidades.
O criminoso não é não é besta não é fera insen-
sível, nuo nenhuma di qmlllto a
outro ser humano - afora a indómita rebeldia o leva a lutar contra
os com crueldade a crueza com é desde
() vcntrê ela llÜle.
A de acerca da plebe que fez rebentar a Revolu-
merece ser lembrada:
138
"Porque há 25 milhões deles, a quem, contudo, nós agrupa-
de obscura unidade compendiosa, monstruosa
mas de hei ou mais humana-
'as
ver8s que
dadc delas tem o seu
com a sua pele e se a
acha-se coberta
... que cada unidade dessas massas é um hornem milagroso,
exatamcnte como tu és; lutando, com visão ou com cegueira,
pelo seu reino infinito (esta vida, que ele pU5sui uma vez só, no
meio elas , com unn centelha da divi aquilo
que tu alma imortal, dele!
um o governo, lidar
estas massas; mesmo o único ponto e problema de
governo, e todos os outros pontos meras ninharias acidentais,
superficialidades e golpes de vento! Porque digam o que disse-
rem as cartas de privilégio, o uso e os costumes, a lei comum e a
especial, as massas contam uns tantos milhões de unidades; fei-
tas, segundo todas as aparências, por Deus - a quem, como se
proclama, pertence esta Terra. Alem disso, o povo não é isento
de ferocidade; tem nervos e indignação." 12
*
Bem, agora é fazer bom proveito da reportagem; ou desprezá-Ia;
ou marcar o palpite na loteria da História de que marchamos para uma
(salutar?) cambalhota
12. CARL YLE, Thomas. História da Francesa. 2, ed. Trad. Antonio
Ruas. São Paulo, Melhoramentos, 1961, p. 44.
I
"iVCSle,\' ccnútério\' gerois
Juí l!!Orte iso!tu/o
Indefiro o arquivamento a
Fundamentou-se o ilustre em que "os
em estrito cumprimento do dever legal e não é curial que
sobre eles palre , em nada contribu para o combate à
violência e entrave ao aumento de criminalidade", concluindo, afir-
ma que "denunciar estes ais é o mesmo inibir a atividade
de aís que arriscam suas no combate ao cri me",
Injustificável, sob lodos
1\1 i de propor. na
do sistema
do sistema punitivo. são em a sua
danosa e a sua ínfima social devem ser desde
reconhecidas e
Isso não ocorrer, de matar
julgamento, é bom que se
141
142
dever de matar.
Marques:
E no processo do Júri, pela
de da
" o
cumprimento de dever legal. Salvo no caso de
guerra ou revolução, nem ao soldado não pode ser reconhecida a
justificativa. Tampouco ao agente da autoridade pública, ou ao
policial em serviço. Quando há resistência à ordem legal de pri-
são, cabe ao executor usar dos meios necessários para defender-
se ou para vencer a resistência, consoante o disposto no art. 292,
do C PP. Evidente é, no entanto, que matar não se encontra entre
esses meios necessários. A ocorrência de homicídio, em casos
dessa natureza, pode encontrar jusfificativa na legítima
ou no estado de necessidade, nunca, porém, no estrito cumpri-
mento de dever legal" (Tratado Direito Penal, pp. , v. 4).
que a própria versão dos policiais não se apresenta nítida
nos autos. Afirmam todos monocordiamente, que a foi
durante a troca de tentou
fuga, invadindo as de Manoel Alberiques e senhora
Mirian Wanderley Oliveira sendo encontrado em um terreno
ocorre-
a entrar correndo
cozinha e o muro (fls. A vítima,
crimino.yos? Crilne e crinJinosos,' elites 143
fugindo quando foi atingida. Observe-se que o cfetuado da
direita para a de diante para trás e de baL\.D para cima
localizando-se a ferida de entrada "na metude direita da
frontal, a 15 mm da causa do io direito" e a
O tórax na
linear de tonalidade avermelhada.
do auto de exame aliada ao que se vê
no laudo de local
indica, sem muita di
21 - o corpo caído ao muro --,
que a vítima, tentava
pujar o muro ao ser ati ., . _ .
de ser ificada como marglllaJ, a Vitima nao pOSS'Ul
qualquer anotação em sua t'olha penal (fls. 78). E Manoel Alberiqu~s
(fls. , cuja filha era noiva da vítima, informa que a conhecJa
"desde idade", tratava-se de pessoa traba e que "nunca
) 'l ,j(, a conduta da vítima, S( ti lL L 00
que
a casa"
A conduta dos pol militares extravasou, bem se os limi-
tes da sua atuação legai, empregando força não consentida a pretexto
de ter encontrado resistência. O policial, como qualquer cidadão, deve
reagir quando é agredido injustamente. Tal circunstância, p01:ém,. deve
ficar exaustivamente demonstrada através do processo constltuclOnal-
mente estabelecido para o julgamento dos crimes dolosos contra a
vida.
Saliente-se, ainda, que, mesmo no Código Penal Italial1~ ~~mo
se sabe, de inspiração fascista -, que prevê, no seu art. 53, a Just:flca-
tiva autônoma de "1 'uso legittimo della armi", exige-se a necessldade
desse uso, respeitando-se o princípio da proporcionalidade. .
Acolhendo as lições de Manzini, Bataglini, Bettiol, MaggIOre,
Antolisei e Pannain, o professor Heitor Júnior, abrilhanta o
Ministério Público do Estado do Rio, disserta:
"Adotando o ensinamento da melhordoutrina,
, . dência não encon-data que a matéria a maXJlna pru .,
trando o uso de arma por de que
. 1 ~ ou morte do a ocaSIOnar esoes venha
salvo a de excesso
ausente outra forma de lograr a captura, por
144
\10 do
leu!!
11 qUt~:
'~ir o [unbito udcntc ê
i'unciuil;írio o preso que , so porque
leria <1 C(inclellií-lo á morle Ídto da o que seria m011S-
truoso,"
\)'
autores dos disparos sequer
do
desde
ciais -
já
i na condUla dos poli-
A poJ
dever que lhe
lizar o tradicional
o
um
cidadãos.
em heróis -, como se vê na s,
"homicídio -- estrito cumprimento de dever
deixou de lavrar o auto
e sequer deu-se ao
de res
em f1a-
ver e
, instalando o medo e a insegurança nos
que as vítimas desse
o o homicídio no
am, quase sempre, cidadãos das classes marginalizadas e
no sern
e para
São os deserdados da lei, nascidos para cumprir um desti-
sobre os quais se por isso
reeer
instrumento'
de
com o
o ilu Promotor de
do tipo, sem que, com
ela
l.
o na
minaI da Comarca da tal - I
Silva.
o
145
icial em
de
146
Filho, sob o fundamento de que inexistiu crime na ação
que do estar
com-
da favela
nesta cidade,
ao vislumbrarem três
em atitudes suspei deles tentaram se aproximar, ocasião
em que f~ram recebidos a bala, travando-se, então, cerrado tiroteio.
Os ll1ch
disparavam seus
da
da
das meninges" (fls. 48v.).
Tangentemente à matéria fática, baseia-se o Dr. Juiz fundamen-
taln:ente,. no depoimento do ManoeI Alberiques que 'informa ter
ouvIdo. d:sp~ros após a vítima entrar correndo pela porta da sala de
sua res~dencla, sair pela cozinha e galgar o muro (fls. 37).
Dla.nte desta ~ssertíva, e considerando que o disparo fora efetua-
do de baIXO para CIma (fls. 48v.), o ilustre Dr. Juiz, invocando o laudo d~ .10caI (tls. 21/31), conclui que tudo - verbis - "indica, sem muita
dI.fIc,:ldade, que a vítima, provavelmente, tentava pular o muro ao ser
atmgJda. "
mente, o ún ponto destoante do Inquérito reside no
n:o.men,~o em que os tiros foram trocados, dado que enquanto os poli-
CIaIS ailrmam que a vítima adentrou pela d S' M'~ I
' . . o 1. dnoe
apos o tJrotelO, este afirma que o mesmo Ocorreu "minutos
que ~~ versão policiais também neste ponto 1~1ere-
Em se prevalecesse a narrativa Sr.
da
o fato
com
silo os crinú!1o'\'{),)' Crime e crinú!1o.l,'os: entes
existência de qualquer disparo, durante ou ter a vítima passado
sobre seu Ímóvel.
Por outro do Dr. Juiz no sentido de que a víti-
ar o muro ao ser atingida" não nos
([ WIW porque, como teriam
e a duas porque a vítima tombara - verbis --
ii abertura destinada ao ão", não razoável
admitir-se tivesse ela por pular U:ll cerca de
mo tinha a seu
ele local, fls. 21
uma de cerca ele
111, e fundamentalmente em face do que se contém no
rito policial, parece-nos devidamente comprovado nos autos terem os
policiais agido em conformidade com o Direito, na medida em que
escorreita
o anjUI
~lr que para a propo-
situra de ação penal reside na presença de elementos de convicção
indicadores da autoria e da existência de conduta adequável a tipo
penaL Estes elementos, contudo, devem referir-se não apenas a wn
fato aparentemente típico, mas, sobretudo, a uma ação penalmente
reprovável. E, se tais elementos indicam que a conduta questionada se
posiciona ao agasalho da sistemática jurídica, não se h;:1 que cogitar de
deflagração de ação penal pelo Ministério Público, ainda que presente
a de tipícidade.
Demais, no entendimento de que a mecânica de ade-
do fato à norma incriminadora deve processar-se com
não apenas aos formais do tipo, mas em conta,
também, o subjetívismo da conduta cogitada.
Pesem, embora, respeitáveis posicionamentos em contrário,
temos que a pretensão de se retirar do tipo qualquer alcance do
tivo, consoante o magistral Mezger em seu tipo em estrito On
Ein Lehrbuch), em à simpli-
ficada de Beling, em seu Die Lehre von deve
ceder passo ao campo vale dizer, ao necessário
do da conhecimento este que
há de se operar simultaneamente à pesquisa da norma
148
C1SOS, tratou
ico i'nsltu desc!1vol-
mio do cntendimento
bjJjdadc da doutrina que faz a
torno
na
ricdadc com o da
tc, se assinalou.
o
em face do que
verificando que o caso em tela encerrava
ta com o direito de causa
acerto, se houve o Dr.
te,
a admitir,
da descriminantc e da o certo é
entre o Magistrado e o Promotor de Justiça quanto a
doutrinário não servir de óbice à concessão da
nada havendo que o
o reconhecer que LI hipótese melhor se à exc!udente
rotulada por defesa do que a invocada pelo Dr. Promotor de
J llstiça.
os crÍIIl/nn.'-:os? Criuu) (' Crillli!loS(l.\: cn/es 149
de seu divCf<;;lS outras cOllsi-
Enlclltk n Ilustrc
d\) Tr: hu 1 do
do proccsco L'omu
a fasc da in~;tru
Promotor de
. entretanto, o culto colega
por da lei cm caso de fuga
strado trecho do citado autoe em
\'crbis -- "Ampliar o âmbito da exeludcme c
assim, ainda
ise judicial. É a institu
Não vemos como se possa éldmitir os
cis que parte de uma
150
que
são responsáveis pela justiça criminal não pode murchar e secar, e
atrofiar-se".
A aI
penal, deixou de
fazê-lo por entender que os elementos do inquérito indicavam terem
os policiais agido ao amparo de causa excIudente de antijuridicidade,
portanto, em perfeita harmonia com o direito.
Com o arquivamento, não pretendeu a homologação 'da arbitra-
riedade e da violência policiais', nem a 'legalização da impunidade',
incompatibilizando-se com os princípios do 'Estado de Direito De-
mocrático' .
Ao contrário.
Com o arquivamento, o que
e violência contra os transformando-os em que
quando foram recebidos a bala por Cely e seus companhei-
ros, transmudando-se de vítimas de tentativa de homicídio para auto-
res de crime doloso contra a vida.
Com o arquivamento, a
Democrático', porque a e isto não mereceu a
a descabelada e até abusiva con-
tra quem as peças informativas nada revelaram em termos de
mento pela ausência de do face a ope-
rância de causa excludente de
i51
não ter sido
Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1981
Evandro
As:;ístenle do ProclIrudo/"-Geral dli
"APROVO O PJiRECER ..
Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1981
Nelson Pccegueíro do Amaral
Procurador-Geral da Justiça"
"
II
*
em que diz estarem todos revoltados com o fato de não terem
independência no acompanhamento de inquéritos, apesar de ingressa-
rem na carreira por concurso público.
Segundo a mesma fonte, a revolta aumentou depois do afasta-
mento do inquérito e posterior assassinato em Recife do procurador
Jorge de Melo e Silva, o denunciante do escândalo da mandio-
ca, mas a queixa contra a falta independência é antiga. O procura-
dor Osvaldo por exemplo, afirma estar lutando há 10 anos
contra a censura que o procurador sofre na redação do seu parecer.
e
Ele diz que "a censura além de quem o
parecer, tem o condão de embretá-Jo, submetendo-o ao aprovo ou não
de uma única pessoa, que passa a ser censor e juiz". pessoa,
segu.ndo Degrazia, é o procurador-geral da Repúhl nomeado e
SUjeIto a ser demitido a qualquer momento pelo idente da
Maria Tereza. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14 mar. 1932,! cad .. p. 3 ..
152
Em
Nova Lei
deve
ilibada".
saber
te da Assoei Nacional dos Procuradores da
República, Henrique que a classe está revolta-
a morte do
um
milhões. Os cinco procuradores confirmaram que não é a
que um integrante do Ministério Público sofre pressões.
Banco Cidade
Outro episódio recente também envolv~ um escândalo financei-
ro. início do ano passado, a Polícia Federal concluiu uminquérito
que apurou de fiscal e remessa ilegal de dólares
para o exterior, a partir de um clandestino ligado ao Banco
Cidade, que funcionava em São Paulo, sem autorização do Banco
A partir do momento em o inquérito chegou à Justiça
Federal, a procuradora Márcia Dometila de Carvalho passou a pedir
providências ao Banco Central, para que entrasse nas
à Receita Federal, para a obtenção de provas dos crimes de
fiscal.
Desde o da República na época, Firmino
Ferreira chefe do Ministério Público em
São Paulo, Benevídes de Carvalho, para que afastasse a procu-
radora do inquérito. Este fato foi denunciado por Célio de Carvalho,
154
sou ir n São Paulo afastar
o ue a denúncia dos
v no
lbrahim Abadi --
resolver o caso o
nitivamente.
o
outros mornentos de tensão. Foi o
e
bl v
recebeu a incumbência de emitir parecer no processo em que a União,
por intermédio da Funai, e o Grupo Slaviero (indústria e comércio de
madeiras) disputavam a propriedade da reserva pinheiral de
Mangueirinha - 7 mil e 200 hectares de terras cobertas de araucária
brasiliensis - área avaliada em mais de Cr$ 3 bilhões.
Logo que o procurador manifestou o entendimento de que era da
União a propriedade da reserva, um colega seu informou que ele esta-
va sendo pressionado por Firtnino Paz a dar parecer em favor do Gru-
po Slaviero. Para adiar o parecer, João Serra Azul tirou líeença e disse
que esperava a de Firmino Paz para assumir o cargo de
Ministro do Supremo Tribunal Federal, o que só veio a acontecer em
1981.
No final da
parecer contra
informação na L.1J\JL,ct.
tava: "O está entre a cruz e a
o processo sobre a
Carlos CoI iDe]
Uni
lum
Eo
ou dava um
Ao
Guimar?ies ao
parlamentar aproveitara um programa
partidária para fazer declarações acusando
no entanto, o
não
155
na
e,
Ulisses
o
a divulgar doutrina
o Govemo@ftprátíca de
a
cil
construída para
vale dizer estamos com excesso populacional da ordem de 3.800
homens.
públicas do interior, estão recolhidos 7.200 homens,
em excesso populacional, que deveriam estar recolhidos a presídios
da Secretaria da Justiça, mas presídios que não existem.
Não vamos apontar falhas e culpas do passado, até porque isso
não resolve o problema: vamos constatar uma realidade que existe, e
que pode ser detectada através destes números.
Há um excesso populacional, portanto, da ordem de 11 mil
só na área da da Justiça.
Sabendo-se que uma
depende uma tipicamente
izada, e de alto custo, para o número de 500 presos
vamos relacionar este recentes que o Estado
de São Paulo está -', as penitenciárias de Pi uí e de
Araraquara, com capacidade para 500 cada uma,
portanto, o total de um mil, custaram ao Estado a soma global de 200
de ou 200 bilhões de antigos.
PIMENTEL, ManoeJ Pedro, Brasil Rotório, jul. 1976, pp. 30-1
156
,\'ào os critninasos? CrinlC e crhuil1osos: 157
Vale dizer que, para 200
milhões de de lima vaga em
mil cruzei o custo da
que da mil dó]
que um emprego industrial cria 10 empregos i retos, é
rentável, que o custo maior de LI vaga de pre-
sídio é inteiramente ocioso da
Este
de
22
para cada uma,
morreu, nl,lS
mento bem grande, de mais de teríamos ainda válidos para C:1l11-
prir em São Paulo 30 mil mandados de prisão, o qU,e der~andana a
construção de 60 penitenciárias para 500 presos a razao de 100
milhões de cruzeiros cada uma. . '
Se todo o orçamento do Brasil fosse colocado a servl~o dess~s
construções, como solução tradicional do problema do cnme, n~s
ainda não teríamos resolvido o problema, porque os mandados de pn-
são crescem à razão de um mil por mês, demandando constru-
ção de duas penitenciárias por mês, o que se fosse possível, em ter-
mos económicos, não seria possível em termos de con em ter-
mos de engenharia.
"A
litação penitenciáría."
v
Para os criminalistas estrangeiros, que vêm encarando a Suécia
como um laboratório de reforma experimental do sistema presidiário,
o fracasso das tentativas de reabilitação, na Suécia, tem minado seu
empenho em exercer pressões no sentido de obter uma legislação cri-
minal de caráter reabilitador nos seus próprios países.
desolador", disse um visitante, perito em prisões de um país
do Oeste da Europa. "Em meu país, ainda estamos na Idade Média, se
compararmos a assistência que se aos detentos na Suécia. Mesmo
nas melhores oportunidades nos é difícil convencer o governo a pres-
tar melhor assistência aOs presidiários. Atualmente há um clamor
crescente por lei e ordem, e nós nem podemos citar os suecos como
excmplo e argumento para nossa causa de um tratamento
liberal para os presos."
Há 3.300 nas qual for o dia do
ano - um número
de habitantes.
que possui somente
das penas é de 100 dias.
NEW YORK
1972. "~fJUUU~,""v por O Estado de S(IO Paulo. São Paulo. ouL
158
.\'ÜO os criJllino:·;os? C~rifl1e e crinúnosos: entes
Todos os prisioneiros têm quartos individuais que aparentam aloja-
mentos de universitários -, sendo 'o termo cela recebido com repulsa.
Sem
condenados a penas inferiores a um
ano é enviada a sem muros ou cercas, e os conde-
nados manter empregos, o dia, nas cidades próximas.
distante 120 quilômetros ele Estocolmo, os deten-
tos recebem salários ao mercado de trabalho "lá fora" ou
podem freqüentar escolas. Essa prisão-albergue oferece inst~l.ações
para banhos de sauna, natação, esquiagem e espaço para a pratica de
Estocoimo -, há mais nos campos
cional, psiquiátrico e de treinamento profissional do qu~ ~m ~stabele
cimentos semelhantes situados em outros países. As pnsoes lechadas
preparam, ainda, visitas conjugais pelo menos uma vez por semana_ e
concedem uma licença mensal de três dias para todos, com exceçao
de alguns poucos presidiários de alta periculosídade.
É rara a violência nas prisões. Quase não se ouve falar de ata-
ques homossexuais. Os guardas, desarmados, teriam de chamar a polí-
cia 10C'ál em caso de ocorrer um improvável motim.
Um funcionário do presídio de Norrkoping relatou a ocorrência
de uma invasão de um grupo armado que libertou um detento. m
que conseguiram entrar", disse ele, "nós não pu~emo.s nada:.a
não ser ficar parados e assistir à fuga do preso no mtenor ~e ~lm cau.o
Foi bom que os não portas~em armas, pOlS ISSO tena
aumentado o risco de vida eles."
A tolerância do sistema sueco é, em um reflexo do baixo
índice de violência criminal. Somente 1 das 10 mil que
são cona,en
f1 °O passam de tos, e os u.
violen-
"J sso
ser icado fato de tensões raciais e étn~cas .em
uma sociedade tão homogênea como li nossa", disse Lars Bolm, dlre-
tor do de trabalho c treinamento da Admi
cede
sediado cm "Isso
em guerra por
uma arma de
tenciárias também pro-
há muito aceita - com acentuada-
- de que conden:\dos deve ser dado tra-
das últimos anos iriam pro-
as mais da
da e nos Estados Unidos.
Central dos Presidiários, que
de reivindicações que
nhou
é dirigida por
toda a
solí-
tra-
balhadores.
Embora não esteja ansioso por ver a organ emergindo
como um sindicato com plena capacidade, Henrik Martinsson, que
preside a Administração Nacional de Presídios, requereu salários
equiparados - determinados pelo mercado para todos os detentos.
Esse sistema já existe em diversas instituições. São também tomadas
medidas visando manter os condenados em prédios próximos a :;uas
a fim dê' que mantenham seus e no sentido de
lhes possibilitar a obtenção de emprego tão Jogo am postos em
liberdade.
Interpretações Diferem
Por que, então, o alto índice de retorno à prisão?
Entre de detentos que tinham sido condenados ante-
riormente - entrevistados por funcionários e críticos - muitos concor-
daram em que a sociedade sueca, tanto quantoqualquer outra,
de ex-presidiários. Afora esse consenso, as
v,<,,",,,,-,., diferem amplamente, e o fato parece perturbar
I ao processo criminal.
en/es 161
"A maioria das os como se
todos nós andássemos com máscaras em nossas faces e com
, disse Lasse líder da Central dos
Presidiários. "Os
Não i
dificuldade em obter empregos."
nd, que está detido em
manifestou que no seu entender "as
têm tremenda
sües são bastante aceitávei , mas certamente não dissuadem do
crime", e disse: "Você se habitua à vida do Não acho que as
prisões possam reabilitar a maioria das Qualquer reabilitação
principalmente, dos vínculos do recluso com a sociedade lá
atual sentença deve-se a
diz que abandonará o crime
para isso".
por roubo· ua
por fraude. Aos 47 anos, ele
"porque estou ficando velho demais
Programas Ineficazes
Urn detento norte-americano, cumprindo pena de anos e
meio por introdução de narcóticos, disse que julga os programas de
reabilitação empregados na Suécia tão ineficazes como os que se
empregam nos EUA, onde também cumpriu
"A grande diferença, comparando-se a Suécia com os é
que os indivíduos aqui são muito passivos", explicou. "Não há aquela
raiva e violência que se vê nas prisões norte-americanas. Aqui, eles
muito bem convencer os detentos de que a vida na
não é tão terrível assim. Dessa forma, isso é um simples parque de
di versões."
"Veja esses indivíduos", ele continuou, apontando para um
grupo que passava. "Todos eles já estiveram aqui anteriormente.
deles já estão inclusive planejando voltar. Eles não têm mais
nada lá rara."
162
acreditam que as
tido mais sucesso na reabil
se infiltr~lll1 nas prisões, através de
. E temos éstado totalmente
para o
Somente há pouco tempo foi aberta a primeira instituição peni-
tenciária para tratamento de presos viciados, em caráter voluntário.
rela-
de progt-amas de levou os tanto
os ligados como os desligados do sistema, a insistir em que as prisões
sejam usadas somente para proteger a sociedade dos criminosos mais
violentos. Henrik Martinsson, diretor do sistema penitenciário, disse
que gostaria de ver algumas prisões desatívadas e uma redução de
50% na população carcerária, fazendo com que pequenos furtos, rou-
bos sem uso de armas e o crime de dirigir sob embriaguez sejam puni-
dos com I11uItas ao invés de reclusão.
Jar! antigo do
nou um importante crítico das instituições
das sejam abolidas e que o
desenvolvido em contato com a sociedade
indivíduo a exercer maior
Conservador, que se tor-
a fim de obrigar o
em público. "Nós
de mais burocratas. mas uma rede de vo-
insistem na abol do sistema - exceto
das classes ricas. bastante
163
do fato da violência criminal, tais críticos têm até um culto de perso-
nalidade, romanceado, em torno dos mais conhecidos Em
a csse Clark Olofsson, um
como um dos mais
com sas, e tornou-se de um
de caráter biográfico.
e tem suas cartas e publicados com
I 1 t·e '1111'\ ,c> outra Ele já L.uas vezes, uma (U1'an c ( '-'
mediante arrombamento da "Enquanto eu for não haverá
outra forma de eu me aturar que não seja pela ca de atos
minosos", escreveu artigo recente, apresentando uma
"..c'.'~'" para te r .
Na maior parte dos países desenvolvidos do Ocidente, as tentati-
vas de recuperação de criminosos têm sido abandonadas se não na
teoria, o foram na prática -,- numa tentativa do governo para contraba-
as severas reclamações do público, alarmado com a escalada
do crime e a superlotação dos sistemas penitenciários.
Nos Estados Unidos havia mais de 283 mil detentos nas prisões
estaduais e federais no início do ano um aumento de 13% errt rela-
ção a de 1 Os membros do têm repetidarnente
ouvido denúncias de superpopulação, instalações, lon-
gos períodos de espe~a por julgamento .e
Mas os leglsladores estaduais,
substancialmente a
Na Grã-Bretanha, um projeto de lei aprovado em julho estipula
de prisão composta de dois O cumpri-
maior ele uma
pena iria dis-
da principalmente
164
maiS
o governo
ampliando os horários de
IÍvros
está que em
para terroristas e criminosos
iberdade 10 mil condenados
para muÍtos crimes IncnOS
um
uma de .reformas, inclusive
permitindo que os detentos
ha e methor;~() ti condi
para reabllllar uma popu
10.266 - Rio de Janeiro, 13 de setembro de 1977. Exmo. Sr.
Juiz de Direito da Vara de Execuções Criminais do Estado do Rio de
Janeiro.
Os abaixo-assinados, peritos encarregados do exame de srmidade
mental em FRANCISCO DE SOUZA PEIXOTO - RG nº 88.562 -
dão a seguir o laudo respectivo.
IDENTIFICAÇAo: -- FRANCISCO MARIA PEREIRA DE
SOUZA PEIXOTO ou MARIA PEREIRA SOUZA PEI-
XOTO ou FRANCISCO MARIA PEREIRA DE SOUZA, branco,
solteiro, de 38 anos de iclade, nascido em 7/l /l brasileiro, natUl~al
cio católico, instrução secundária, internado no Manicómio
Judiciário Heitor Carrilho.
O periciado vem
HISTÓRICO
submetido a exames de
de 1959.
mental
neste Manicómio Judiciário a
Ao todo foram 10 os exames, que se converteram em 10 laudos,
o primeiro deles realizado em 1959, por solicitação do Juízo da llª
165
166
em foi
de maconha.
eis outros foram para
de
da
ele arma e
de maco-
o de
No primeiro exame realizado em nosso serviço os peritos, depois
de fazerem um estudo primoroso da personalidade do periciado, fir-
tam. cor~clusões diversas, pois o feito em 1960 diz que Francisco
Mana nao tem condições de ser posto em liberdade, face à sua defor-
mação de caráter, enquanto o realizado em 1961 recomenda liberdade
vigiada c~n: indicação de comparecer a um serviço especializado, sob
responsabIlIdade de um familiar.
A primeira perícia solicitada pela 14il Vara Criminal resultou nas
mesmas conclusões dos exames anteriores
responsabilidade, pois os peritos assinalarri: é claramente
uma ~ersonalidad~~psicopática, mentiroso, dissimulado, cínico, que
atraves de uma atItude exterior estudada, procura simpatias em
torno de si para melhor obter seus entretanto
delitos são todos o atual ~ produto
mesmo, de uma tábua sui gene-
anormal-
nitidamente psícóti~
ca, detectada
atual.
sâo os crilninosos? Crinie e crinlinosos: ente,')'
um especialista menos de 20 dias antes do delito
à com o mesmo forçando
o sorri-so no curso do diéílogo, com o campo ideativo se limitando aos
de é vítima de tudo o que acontece no Manicômio,
acusando funcionários e outros internos de serem desonestos e maco-
nheiros, ao contrário dele que é 'homem sério e honesto'. Não tem
agressivos que nas sua
de de relacionar-se ao nível afetivo. Procura superar essa deficiência
através de atitudes artificiais, estudadas, de mímica, sorriso e verbali-
zação, simuladoras de reação emocional. Juízo crítico comprometido.
Memória sem alterações.
O paciente revela não se encontrar nunca triste, nem mesmo pelo
fato de estar internado e condenado: 'isto é um hábito, a gente se
acostmna' ... "
Termina por concluir pelo diagnóstico de personalidade psicopá-
tica com traços predominantes de caráter paranóide.
Um eletroencefalo!Yrama em 4/7/77 não revelou anor-
"" malidades de bioeletrogênese cerebral.
volta a ser o psicopata
de tudo e de
procura assumir ati tu-
retratando-se como vítima da vida e dos demais interna-
com a finalidade de nos examinadores.
168
para rnclhúr nos convencer de que é um
(ornar
n
as personalidades são personalidades anormais que, por
sua anormalIdade, sofrem ou fazem sofrer os outros. personalida-
des q:le ~empre ch~gam, em qualquer situação vital, em qualquer cir-
cunstancIa, a conflItos externos ou internos. 'O psicopata é um indivÍ-
duo. que, por si embora não se tenha em conta as circunstâncias
SOCiaiS, é uma personalidade estranha, afastadado termo médio'
(K. Schneider).
não são doentes mentais, psicóticos. A expressão
tamb.ém não tern mais curso. É, uma variaçüo ano1'-
mal de p~rsonalldade. Conseqüentemente, o que se h21 de fazer no que
diZ respeito ao tratamento não pode ser o preconizado para os
mentazs. O m,élnllsel'o e' d't"'1 "
.. ". I ICI e ex] oe
normas s. O que hoje quase não se bilidacte
de educar, em ou pequena medida, os indi i-
dade anormal no de melhorar seu caráter. Até pouco tempo a
maioria dos identificava o psicopata com;} .
~~. in.divíduo para ser modificado educação e o tratamento.
111l1elpalmente ao da 'psicologia' robusteceu-se a
nova atitude, adotada pelo próprio Klages ao que certa-
mente os , podem ser tratados e o são: se se quer, até !)odem
ser S empre que seentender como tal seu deslocamento para
silo os crirninosos 169
e
acreditam
per-
tratar Contando com enormes
dificuldades, de toda ordem, em todos estes anos vem procurando dar
assistência a esquizofrênicos, psicóticos, maníacos-depressivos, para-
líticos etc., usando as técnicas mais avançadas mercê da ultra-
passagem de grandes obstáculos, como já se acentuou.
A falta em nosso meio de uma casa de custódia e tratamento tem
trazido para nosso hospital nurneroslssimos psicopatas para cumpri-
mento de medidas de segurança. Esta situ j:ll1ormal é uma das
principais causas do desvirtuamento gradual dos objetivos iniciais elo
manicômio judiciário.
Os psicopatas trazem problemas disciplinares, administrativos de
toda ordem, q ue, com o correr dos tempos, foram enorme
monta, sobrepujando os demais. l-foje, sem medo de errar ou ser acu-
sado de podemos fazer esta afirmação: o manicómio não
cumpre suas finalidades de acordo com os mais avançados métodos
da psiquiatria porque teve que sofrer no tempo uma verdadeira adap-
para cobrir a falta da casa de custódia e tratamento. O resultado
é que os doentes mentais, sen.YU strictu, não são bem atendidos como
tal, porque ainda temos que usar métodos coercitivos' rígidos
veis aos É impossível LI uma casa ser, a só hos-
pital e casa de custódia e tratamento.
170
Defendendo a tese da inutilidade
Grulhe
"Não queremos discu!ir-- e
casas de custódia tratamento
Senhor Diretor-Geral,
Face conclusões do laudo de Exame de Verificação de Cessação
de Periculosidade efetuado no apenado FRANCISCO MARIA
PEREIRA DE SOUZA PEIXOTO, RG. nº no Manieômio Ju-
diciário Heitor Carrilho, onde se acha recolhido, solicito a V.Sa.,
determinar providências no sentido de ser o mesmo recolhido às
dependênc~as penais desse Departamento, se possível no INSTITUTO
PENAL CANDIDO MENDES, na Ilha
Outrossim, esclareço a V. Sa. que este Juízo, nesta data,
àquele nosocômÍo, determinando a do apenado em tela a
essa Diretoria-Geral. anexo, do laudo do exame do
nado.
de
de da
G. THOMPSON -Ao llmº Sr. Dr. AUGUSTO
MM. do
VI
Alegoria (com adereços e sem harmol1ia)
Atirada para o meio do palco, a violência criminal transforma-se
no objeto único da concentração de todos os projetores disponíveis no
teatro. Em cena, apenas ela recebe o banho intenso das luzes. O resto é
penumbra, às vezes escuridão absoluta. Surpreen?ida, ofuscada pelos
faróis, sem conhecer o papel a desempenhar, a atnz estrela se contorce
canhestramente, salta, uiva, range os dentes e espuma de ódio, na ten-
tativa frustrada de romper o cerco brilhante que a envolve. Cada movi-
mJ;mto, tragi-ridículo de que se reveste, excita enorme atenção do
público e, por conseqüência, maior empenho dos donos do espetácul0
no sentido de em e singularmente.
Ora! Eis que 'quer abandonar a ribalta! Cumpre coartar tão
Apertem o cerco! Que metida a
cortem-se-lhe os as mãos, dêem-lhe freqüentes
.. mas não a matem! Para que a
preservar-lhe a vida, a os guinchos al.ucinantes. ':'amos,
umas cutiladas a mais as cabriolas do corpo mutilado, os reverberos
rubros do sangue a
tam de maneira
TRIBUNA DO
acrescem em a iman-
os sentidos dos
Rio de Janeiro, OAB, fev. 1980. p. 2.
172
:;Olll br~l, ill
dH -~
()
cstú ali,
posseiros da casa
mais enraivecida e
revolta entope as
enchendo os olhos, entorpecem o
lar, o rebaixamento da 1
morte, maior franquia para a tortura",
seguida: "Tudo
urro
na
a pena de
em
num
voe ex a:;~
a essa maldita que socorJ\~m'r com , com c
das fi las primeira:; não se 11 o ]
e no corpo, que rola
teia, c dú arrancos c gira, irisado no vermelho
os novos agressores,
negro manto e catadura. " não
O sacrifício desse trabalho cabe só a
iea atende a pronta uI
malvada o olho.
risca o ar com os cotocos sangui
,) Olhd () resultado da ]oteca l ".
vol-
Em b~lslidores insuspeitados,
,d ív fi llall1lente ci1Con!t<lc!il fui
173
rall1
SlUI
muito pcns:lr, resolvera o
Cllcenaremos olltra
cump;íl1!Jciros, com-
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