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Quem são os criminosos - Augusto Thompson

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ISBN 85-7387- 964-5 
I I 
97885738796 4 3 
WWvV .com.br 
EDITORES 
Joôo 
JOé)ü LUlz da Sil'\/a PJrneida 
Amílton BUUlO ele 
Cezar Hober!o BitCL\ ."c 
Cesar Flores 
Cristiano Chaves de Farias 
Carlos Eduardo Adriano 
EuçJônio Rosa 
J. M. Leoni Lopes de Oliveira 
José dos Santos Carvalho Filho 
Manoel Messias Peixinho 
Marcellus Polastri Lima 
Marcos Juruena Villela Souto 
Nelson Rosenvald 
Paulo de Bessa Antunes 
Paulo Rangel 
Ricardo Máximo Gomes Ferraz 
Sala de Carvalho 
Victor Gameiro Drummond 
Társis Nametala Sarlo Jorge 
Rio de Janeiro 
Av. Londres, 491 .. Bonsucesso 
Rio de Janeiro - RJ .. CEP 21041·030 
C.N.P.J.: 31661.374/0001·81 
Inscr. Est.: 77.297.936 
TEL. (21) 3868·5531/2564·6319 
Ernail: lumenjuris@msm.com.br / 
Home wvrw.iumenjluís.cOlTI.br 
São Paulo 
CEP 04044·060 
Telefone: (11) 5908·0240 
,..L'\ntonio Carlos IVIartins Soares 
~AuÇJusto Zimrnt:ln1al1Il 
Aurélio V']anrler Bastos 
Elida Séguin 
Flávia Lages de Castro 
Flávio Alves 
Luiz Ferlizarelo Barroso 
Marcello Ciotola 
Omar Gama Ben Kauss 
Sergio Demoro Hamilton 
Rio Grande do Sul 
Rua Cap. João de Oliveira Lima, 129/202 
Santo Antonio da Patrulha - Pitangueiras 
CEP 95500·000 
Telefone: (51) 3662·7147 
Brasília 
L 
Telefone (61) 3225·8569 
35 
I 
:1 
:1 n ti 
I 
AUGUSTO 
de Diu'i!o F'Cl1u! c 
f'rocllrlli!or do Es!([t!n do Rio de JOlleiru, 
Crim iI! il I. 
o Crirne e o Criminoso: 
Entes Políticos 
2ª edição 
LUMEN JURIS 
Rio de Janeiro 
2007 
2007 
Editorial 
Lumen Jur: teb. 
/\ LIVRARIA E EDITORA LUi'vlEN .lUFUS LTDA. 
ilbde desta obr:1. 
l~ proibida a , por 
meio ou processo, inclusive às características 
c/ou editoriais. A violação de direitos autorais 
Penal, art. 184 e e Lei nQ 6.895, 
a busca e e 
diversas (Lei nº 9.6] 0/98). 
Todos os direitos desta reservados il 
Livraria c Editora Lumcn Juris Ltda. 
r mpresso no Brasil 
Prinfed in Brasil 
"Por que é qlle ell me colo 
"Como um monge medieval 
que tivesse passado (I vida 
inteira no deserto pelejol1do 
contra o demónio e lim dia 
corno a notícia de 
que o diabo nrlo existe. " 
f\FFONSO Rorvl/\NO DE SANT' ANNA 
AUTOR 
~ Norma Penal em Branco e Retrocrtil'idade 
HisíÔriL'() do Di/'c'i!u C'rillli!lu! {:f\'o-Brusiíeiro 
- lV/C/fluol de jJara de 
- Q Advogado de Defeso !l 
FICÇÃO: 
Capítulo 1 - A Cifra Negra .......................... , ............................... . 
Capítulo 2 - A Inconsistência da Criminologia Tradicional.......... 21 
Capítulo 3- A Discriminação da Justiça Penal...... ......... .............. 45 
4 O Verdadeiro Conteúdo do Direito Penal 
Corretivo ...................... .......................... ................. 95 
5 - Conclusões .................................. ..... ....................... 127 
I _. I 8.149 elo Juiz Verani)........... 141 
II- Procuradores Reclamam das Pressões.... ................. ...... 152 
m - Superpopulação Prisional ................................... · .... ·.... 156 
IV·- O Malogro do Sistema Penitenciário Sueco ............. · .. · 158 
V -- Um Caso de Medida de Segurança Detentiva ......... ..... 165 
VI -- Pena de Morte, Prisão Cautelar e Cia. Ilimitada .......... 171 
Referências Bibliográficas ............. ... ...... .......... ... ...... ...... ............. 175 
ix 
"Eu ser esta 
{ante do que tcr ([qllc{a velho 
illada soúre tudo, " 
E 
Raul Seixas 
Thompson - Acho que ultimJ.mente minha convlvcncÍa com 
vocês tem sido intensa. Eu não saberia dizer se nas biritas interminá-
veis que tomamos a filosofia é um pretexto pra cachaça ou o inverso. 
O certo é que vocês epistemologizaram meu botequim. 
Rosa - Thompson, não seja mentiroso. Você semprc gostou de 
cachaça e filosofia. Talvez não estivesse acostumado é com o boteco 
como um lugar pra gente negar as "certezas científicas", O boteco 
sempre foi () território da eloqüência fácil, onde se trocam as receitas 
do senso comum, ou do senso comum teórico, como se as últi-
as grandes verdades da ciência. Kant é que di,scutindo 
com os percalços de sua pesquisa sobre o júri te perple-
xo eom a implosão constante dos conceitos que você supõe con-
fiáveis. 
Kan! - Pô, eu que não tenho nenhuma para o terror 
como incendiário ... Vá pra mim, o pensamento 
meus - também. cientista antro-
Poderiam, entuo, eom a leal 
frente ao leitor, sobre livro. 
converSH. foi o do consumo dc duas 
Forestier tinto. Seriam necessélrias mais 
xi 
xii 
tcm que cwtodevorar··sc, . T,~m que 1111er-
mú di () cercam. que há muitas verda-
(k.~. nilp Glbcl1l 
p~\rtiuu CLl 
S slema. l:u 
que pra 1111111 
dcvorando as 
semprlê 
a mudar 
é um jurista que a 
velhas conv' 
d~\s na escola de direito saher" dns tribunais. 
é um jurista em 
"!udila" no campo do direito, 
também como um 
destruir as 
tramos no e 
mOllGlitízar instrumentos 
cfosse dominClnte elc, Em seu discurso parece que o é 
coisa centralizada e de uma elite CJue detém os pri-
sócio-económicos. Como se nuo houvesse d eI ou 
da classe dominante 
se o caso é de elites ou de entre as 
mesmas, resistência dos dominados etc. 
r -- É verdade que sou um J em e como eliz o 
Nelson vai abandonando LI 
entrando el11 outros dom sta, Nesta 
acho que tenho mesmo uma illcli a pensar por OpOS 
refletir com mais matizes. Fundamentar certas 
que anoto. Afinal, isto seria pensar teoricamente de um modo 
sante, Mas há razões para a forma deste livro. Eu não sou um sociólo-
go, um cientista um metodólogo, um de 
como vocês, Venho certas coisas com voracidade mas, ao 
mesmo tempo, com cautelas. pra evitar uma incli 
Inclusive um de í que me deixasse enfastiado, paralisa-
do pra intervir sobre o mCl! dia-a-dia, que se passa cm grande na 
esfera elo !las jurídicas. Eu lenho coisas pra dizer, pra 
StlO os criminoso,\'? Crinu! crinri!1(Js(l:~': ('flfc'S xiii 
mudar e não vou deix:lr de fazê-lo porque não sou um súbio moderno, 
E lssÍemais do direito -
Eu que 
pra outns pessoas, Acho 
não estou me avocando urna missão e muito 
tlutrd 
. . t ~ . t l c 'I) ',\[TU-ISSO que ear~\C[enza o eonco: es ru ura- l. ::;-
tórios; j Llstapondo 
a mais plausível. fvlas a minha é outra, é 
, , a 
especialmente stificar para , JUizes, , 
que fundamenta a e o tratamento ele entIda-
des como o o Cri 
E antes que eu 
me acusam de simplificar 
nante, sistema etc., 
I a que. dou ú 
que llão tenho urna vi são 
sempre t'xpressa uma ao 
K. - Não fui eu quem Calou que você não stra a d~s 
dcll1liné\dos. Acho. que há uma a você considerar a clJ-
. ". . .\ 1·' 'c . d' rhr VilQem económICa um lllchcador seQuro e l e 111ltlVO no . L; , ( 
cO;1ta da da ~ e das estratégias de 
tratamos do Brasil, que uma 
estamos dié1l1te de uma sociedade de 
fundada no 
que 
que de acordo COI11 uma ideologia 
. . ld·1 I t d 'os cid'lel'íOS perante a contrato SOCial, que a Igua ac e (e () os. . ~ ( . 
lei, porque lhes a igualdade perante o merc:ld~), Ol;de todas as 
são de conversuo a padrões econoJ11ICos? Penso que 
xiv 
em nosso pJís a justiçJ se concebe, se representJ, não como um servÍ-
de forma pública e mas como 
que assuma os 
missos" necessúrios, nem sempre de caráter económico. O ideal bur-
da a!dade não se realizaria , nfío só porque essa 
inexiste por num sistema de e 
desde o início CO;110 mas porque nos concebemos e 
lima sociedade de s, ele e de hierarquias, eIXO 
é mas não 
O processo de aplicaçélo da lei no Brasil nada mais faria, po1'1<,1I1-
to, do que referendar sistematicamente esta desigualdade que entre 
nós ,i 
ica que recobre ;t 
nfio 
ideal é o de "nos locupletarmos todos" ... 
R. Pois é, Kant, acho que esse viés analítico é muito significa-
tivo. Aqui, não somente a sociedade se divide em explorados e explo-
radores, em opressores e oprimidos,mas nós também assimilamos o 
ideal burguês de igualdade, de forma muito complicada. Quer dizer, 
os do direito aprendem este ideal na faculdade, na medi-
da cm que importam uma cultura jurídica européia. Contudo, confliw 
com essa ideologia setorial uma macro-ideologia relativa ii totalidade 
social onde nos percebemos como desiguais, como investidos ou não 
de certos vilégios. Por aceitamos a lei como emanação de um 
poder que não é o nosso, que é o poder dos poderosos. ainda, 
opomos ao ideal europeu de cidadania a representaçélo de uma socie-
dade hierarquizada como coisa natural. 
T - E vocês acham que não percebo essa O 
por a mil+ha Lln;ilise sobre a "cifra 
ela mostra que há outros e outras normas que não são as 
ionais do 
resolvendo 0:-, 
de resolver os 
aprendidas na as recitadas 
direito lhes interessa utilizar LI da 
. Esta forma 
na cifra negra, é,inclusi 
Crinle e criminosos: entes xv 
R. - Thompson, certamente mais a conversar, 
, a essas alturas, trouxemos o nossa discussão. 
ele agora lendo seu trabalho confira a de nossa refle-
xão. Kant e eu que este livro tem uma virtude funcla-
: ele contra o uso dos illsti-
e não contra o seu abuso. E se a 
ess;1 
outro diretor de sistema 
penitenciário - você é do Desipc - ou cm escolas 
de Direito, ou em cursos da OAB, anda dizendo estas coisas'? 
A 
A CI 
"Então lhe trollxeram os escribas e os fariseus lima 
111ul qt!C fura Clll adultério c :1 puscranl no 
6. lJiziClIl1 i:,lO os tLntlilHJo () 
acusar. Porém Jesus abaixando-se, 
o dedo na terra. 
7. E como eles perseveravam em fazer-lhe perguntas, ergueu-
se Jesus e disse-lhes: O que de vós outros está sem 
o que a 
8. E tornando a abaix,tr-se, escrevia na terra. 
9. Mas eles ouvindo·o, foram saindo um a um, sendo os 
mais velhos os E ficou só Jesus, e a mulher, 
que estava no me.io, cm 
10. Enti'ío ergueu·se Jesus, e disse· lhe: Mulher. onde estão os 
(!1te te aellSitV:llll') te condenou') 
II. ela: Senhor. Enti'ío disse Jcsus: Nem 
eu tampouco te condenarei. Vai e não peques mais:' 
Silo JOcl(), 8, Novo Testamento I 
do 
vcl visualizá-lo como um 
em si mesmo, tornou 
natural c, de pronto, abriu oportu-
I. B SACRADA. Vers:lu de pl'. Antonio Pereira de Figueiredo. São Paulo, 
AlIléricus, 1950. 
1 
nidade para a criação de uma ciência que tivesse por objeto específico 
u seu estudo, 
a minologia. 
O novo ramo do conhecimento do delito 
como de tudo CJue lhe anda ú 
sando a í 
Daí, em sua aI iSt,lS escreveram, 
escrevem e V;)O escrever incontáveis obras, em todas as línguas, 
, medi classi 
icadas fórmulas matemáticas, teo-
rias, , conclusões -- ah, conclusôes em avalanche, ainda 
que inconsistentes ou contraditórias - tudo envelopado cm atmosfera 
grave, scca, para UlTlCt 
ve rdudei r{f ciêncio, 
mi nal ch::ntn) 
definido 
conseguiu-se, cm boa medida, barrar seu à lllvasão do interes-
se ou da curiosidade daqueles que vivenciam a realidade concreta das 
infrações penais - isto é, o comum dos mortais - porque havidos 
como carentes da formação indispensável que lhes autorize a penetra-
ção em tão complexa disciplina. Conquistada a prerrogativa de con-
templar o crime em "esplêndido Ísolamento",2 os especialistas atribUÍ-
ram-se o direito de reservar um espaço de sua exclusiva competência, 
rejeitadas intromissões indébitas a quem não ostentasse suficiente 
qualificação p~a merecer o título de criminólogo, Afinal, o templo do 
sábio-técnico deve cerrar as portas à entrada da ignorância do vulgo, a 
quem cabe apenas suportar a catadupa generosa e cachoante do saber 
científico, que esguicha da boca erudita dos sacerdotes, 
tardou a surgir um movimento de rebeldia contra fortale-
za assim hermética, puderam os criminólogos gravitar em torno às 
suas fantasias com desenvoltura e na segurança do proprietário 
que não teme esbulhos quanto ao terreno cuidadosamente cercado c 
defendido. 
2. CHRISTIE, Nils, Prcfácio do 
London, Tavíslock Pub" 1968, 
. SC({lIdinol'inll SI/Idies iii 
sâo os criminosos: Crime e 3 
Aliás, a criminologia seguiu, pura e simplesmente, o exemplo da 
irmã mais velha, Jpsiquíatria, 
Talvez passJr, e logo, à dos erros 
deste engendrJmento, Isso, contudo, estaria ent .kl.i)acor-
do com a forma pela qual se deu o levantamento daqueles 
S o curso natural das coisas, partindo do dado que se apresen-
tou como a ponta de verdade a ser 
A pJrtir de meados do nosso século, algumas pesquisas 
ram evidenciar a existência de discrepância entre o número de cri-
mes constantes das estatÍsticüs oficiais e a realidade escondida por 
trás dele, Observou-se que, embora os índices da ordem formal 
indiquem existir uma considerável quantidade de infrações, o total 
dos delitos de fato prat , A 
reduz.ida minoria das viul 
cimento A brecha 
os [rados denominou-se "clÍ' il 
expressão que logo se firmou, enquanto ômel10 
muito comum. 
Para bem compreender a questão, impõe-se lembrar que crimi-
noso, em sentido formal, é o indivíduo condenado pela justíça 
sobretudo se for recolhido à prisão, fazendo jus, dessa maneira, ao 
rótulo de delinqüente por parte do grupo social. De outro lado, cabe 
recordar que, da prática do delito à condenacão do autor indo um 
pouco adiante, até seu encarceramento) há um obrinatório caminho a , b 
ser percorrido, o qual oferece como etapas marcantes as seguintes: a) 
ser o fato relatado LI polícia; b) se relatado, ser registrado; c) se 
trado, ser investigado; d) se investigado, gerar um inquérito; se 
o inquérito, dar origem a uma denúncia por parte do promo-
tor; f) denunciado, redundar em condenação pelo g) se, haven-
do condenação e expedido o mandado de prisão, a polí-
cia vamente o executa. 
Estigmatizada como criminoso a suportar a 
conceitos e tratamento diferenciado por 
elemento 
será a pessoa que, além de haver 
cm abstrato em norma 
indicadas e termina confinada numa penitenciária. Se alguém 
viola um escapa de 
lido pnl' criminoso. 
na este 
idadns<ls demonstrar que Cll c;\da uma 
fascs n.:ferida:.; ocorrc Ullla cntre o Ullivcr:;o dditos 
o número dos qUL' a ordem oficial. H~. 
P()I descumpasso 110 CIC!!/'{j ( ifra 
n:ío ter 
os dados que ,Ipenas 
ínfima la dos crimes a receber npe 
sendo que destes tão-somente uma minoria leva os autores ao cárce-
lit:lr dd ifra negra. 
honestamente através de um exame 
em nossa viua: de nós é de assegurar jamais haver come-
tido sequer llm único ilícito até o dia de 
Lembremos que concorrer de qualquer modo para 
sua prúti ca) os ::ttos a arrolados 
do de vista ideal: comprar de cuntrabandista uÍs-
de levar 
sem 
suficiente provisão de fundos; 
de dív cometer adultério; 
atestado médico 
gn sem 
paralelo, para usar ex mais ; jogar no no 
buquemêiquer; sendo funcionário (inclusive juiz e 
char num dado sentido para atender a pcdido de 
e crinlinosos: Cl1rcs 5 
assinar lista ele presença à auja por ausente; etc., 
. etc. 
de ern conse seremos cap(u~es ele nos j u 
inOCC1l1 de todo delito'! pr()va\'l~ll1lcllte - cntre este:s, 
dizer, n~ío se encontra o autor ckstas línlus. 
descritas constitui crime c, 
S()S, n a 
maioria. de nós nunca teve nenhuma fafo delituoso sequer relatado à 
o conforto da ci fra ncgra. 
antos abortos !cVàUOS a c to ao 
conhecimento das autoriuades? E fUl'tos em 
relacionadas com a 
lesões 
freqüência através de entre víti-
mas e ; os roubos (a vítima, por medo ou por julgar uma 
de prefere não comunicar o fato Zl ; a 
acidentes de trânsito, e assim por diante'! 
a própria polícia conduz o lesado a concorrer 
para o da cifra negra, já para evitar que as estatísticas 
demonstrem com toda a crueza a enormidade das práticas 
o que em dúvida sua em 
sufocante plctora de casos que a esmaga no 
Nem se que escapa ao fenômeno da cifra negra um 
to como o homicídio. entre parentespor melO do emprego de veneno ou de ficam no 
por certidões de óbito inexatas ou des-
por médicos que se basearam em ln 
de familiares da vítima'? 
"Nos Estados e ainda no a de uma 
vítima conduziu à de muitas outras que 
sido ass,lssinadas uma a lima, enterradas c, aparentemente, 
nunca dadas como Histórias se com som-
bria acerca de corpos encontrados enterrados cm 
isolados. de homicídios cm massa por empregados ou 
6 
guardas de prisão tanto quanto por anarquistas ou por políticos extre-
rnistas."3 
da 
mortos, 
foram executados pelos 
Quantas pessoas encontradas 
a no sentido de terem 
natural, quando, cm 
Veja-se, a 
a de morte 
"Uma após outra, oito mulheres idosas, cada qual vivendo 
sozinha na mesma rua cm Manhattan, foram encontradas mortas 
durante a e venl0 ele I havia 
li duas das s 
m 
morrer, 
ainda mais duas."4 
a alcoolismo. ando Ulll 
a lí ltil muI a 
as havia matado a todas e 
Sobretudo ingleses e americanos têm investigado e tentado a 
mensuração da cifra negra neste primeiro passo (relato à polícia), pro-
curando quantificá-la, ao menos, aproximadamente, concentrando as 
pesquisas nas três pontas do fenômeno mais propícias para tal finali 
dade. Para isso, realizam inquirições com respeito a grupos, os mais 
numerosos possíveis da população, indagando, por meio de formulcl- .-/ 
adequadamente preparados, quantas vezes caela uma das pessoas 
já praticou (pólo ativo) ou foi vítima (pólo passivo), ou de alguma 
forma tomou conhecimento (pólo neutro) de delitos que não 
rarn a ser relatados à polícia. A elos dados élssÍm obtidos 
com nas oficiais tornou possível a 
inferência de algumas conclusões que, se ser tomadas 
como fornecem, de qualquer sorte, uma idéia da extensão do 
tema. 
RADZINOWICZ. Leon 
Hamilton Lid., 1977. p. 
4. Id., p. 
CrOl1'11r 
sao os cril71l!1(J,I,'()S? Cl'ime e (TI.'11I170\,{.IS. 7 
Em Nova Iorque, por exemplo, ocorrem pelo menos duas 
vezes mais ais do que as que são objeto de relato. Em 
Filadélfia, cinco. Na Alemanha, em termos de aborto, a é 
de 500 para um; cm matéria de crimes sexuais, de 10 para um; no 
que toca a homicídios, entre três ou seis para um; e no caso dos cri-
mes contra o património, de oito a lO para cada um. Na Inglaterra, 
;1S mais modestas vas indicam que o total dos delitos 
cados deve ser superior a quatro sendo certo que 
metade ao conhecimento das autoridades. Em termos de 
homicídio: 
"Algumas estimativas v50 ao ponto de afirmar que somente 
um homicídio em cclda três ou dos 
outras quc a rel 
se a 
ainda mais precário em face pobreza das próprias estatísticas ofi-
ciais, resulta difícil dimensionar o espaço escuro onde se abriga a 
delinqUência n50 relatada. Contudo, valendo-me dos 43 anos que me 
ligam ao cotidiano criminal, sou levado a concluir que as estimati-
vas anteriormente referidas são por demais reduzidas para o panora-
ma brasileiro. À minha experiência, somo a intuição de policiais, 
promotores, juízes, advogados, com dedicação de muitos anos na 
área da administração da justiça, os quais, por mim consultados, 
manifestaram a mesma impressão. Creio que, ainda numa previsão 
cautelosa, no mínimo dois da globalidade 
das condutas delituosas de fato adotadas não chegam à ciência da 
polícia. 
Crimes Mas Não Registrados 
Por vezes, a notícia de um fato 
lO da !11 o que 
/ 
8 
deve estar 
r, e 
bera social, 
possível 
razões 
duros que for 
independentemente do 
e que lhe ordenam for-
mal um procedimento criminal contra o autor de um delho, 
desde que este, de alguma lhe ao conhecimento, 
de uma 
os COll Í1.os 
com o dos jurisdi 
Mostra-se vi,'ive!, em inúmeros casos, compor os interes-
ses do criminoso e da vítima por meio de um trabalho de persuasão, 
de apelo à mútua compreensão, de desarmamento dos espíritos; por 
que desprezar essa via para obedecer cegamente ao texto frio das 
registrando o fato, expondo o agente ativo aos riscos de um 
processo criminal e cortando, praticamente, a possibilidade de o 
sujeito passivo ter seu prejuízo indenizado? (A lei penal empresta 
nenhum valor - de fato, apesar de sua retórica não admitir isso com 
franqueza - ao ressarcimento do dano, de maneira que se tiver de 
enfrentar uma acusação já formalizada o criminoso se recusará a 
reparar a lesão causada, pois que a providência em nada melhorará 
sua posição.) 
Ademais, a existência do registro vai determinar, necessariamen-
te, uma série de atividades por parte dos servidores da polícia; evitá-
lo, pois, representa economia de trabalho e de gastos - meta de abso-
luta prioridade numa delegacia policial, sempre assoberbada com 
quase insuportável quantidade de casos, 
Lesões corporais entre parentes (sobretudo marido e mulher, pais 
e filhos, amigos ou colegas), mero uso de tóxicos, furtos em super-
mercados, crimes contra o património de forma 
etc., embora levados à mesa da autoridade de dia, e embora consubsc 
slio os cril1únosos? CriJJ7e 
tanciem verdadeiramente delitos 
negra, por falta de 
Neste passo, 
por 
implica a cri 
exame 
resvalam para a cifra 
opera 
gozam de tanta ou 
absolutórias. efeito, 
a o criminoso da trilha Cc única 
via) capaz de conduzi-lo à da Naturalmente, 
como em todo e qualquer julgamento, o episódio e o autor são encara-
dos da subjetiva do julgador, que os 
por meio cÍl; 
a 
crim 
oculta. 
Importante motivação a engrossar a hipótese, encontramo-Ia no 
espírito de corpo dos membros da instituição policial. Quem traba:ha 
no ramo sabe que, a qualquer momento, pode encontrar-se env.olvld.o 
em evento no qual se veja apontado como infrator de algum dISpOSI-
tivo penal. Semelhante expectativa é inerente à profissão. Como a 
própria polícia apura os delitos atribuídos a policiais, compreende-se 
que tal circunstância crie uma atitude de protecionismo dos colegas 
que atuam como autoridade repressora relativamente aos colegas que 
são acusados, uma vez que as posições, num amanhã próximo e pro-
vável, poderão estar invertidas. Vigora, então, uma forte coesão fun-
cionai, sendo considerados aqueles que recusam endossá-la como 
maus companheiros, traidores da classe, indignos de pertencer a seus 
quadros, condenados a viver em ostracismo e, até, em regime de pe!'-
seguição. Ora, a maneira mais expedita de inviabiliza~'-s~ a pumçao 
do autor de um delito é de registrar o fato cnmll1Oso. Uma 
forma atenuada, ou habilidosa, largamente de executar a 
manobra consiste em: 
"Instaurar sindicância administrativa sumária e ~vo~ar.o 
inquérito para a Corregedoria de Polícia são as pn~clpals 
providências que a polícia toma para investigar cnmes e 
10 
arbitrariedades em que figuram policiais como autores ou 
envolvidos. "6 
Em vez do no I ele a-se para uma 
disci inar, que correrá no âmbito interno da Secretaria de 
Segurança, obviada assim a submissão do problema à do 
Mi o Público e do Juiz. 
xam de ser de vanta-
gens, dinheiro) e de prevaricação (atendimento a de pessoas 
poderosas, chefes, colegas, amigos, protetares e por aí afora). 
o mero do evento um mCI-
piente no rumo de sua exposição ao claro. Se a ele faltar a conseqüên-
cÍa de uma investigação com êxito, o fato que mereceu um lampejo de 
luz retroage à escuridão. Com enorme incidência, verifica-se a ausên-
cia de qualquer investigação com respeito a delitos que foram objeto 
de registro. Este é o caso de absoluta predominância no concernente 
aos crimes contra o patrimônio. Já por causa do elevadíssimo número 
em que ocorrem, já parque em geral fornecem diminutos elementos a 
permitir um simples vislumbre de elucidação, tendem a jazer esqueci-
dos no mofo dos livros de ocorrências. Quem já foi vítima de furto ou 
de roubo - de automóvel, de valores que possuía na casa assaltada, de 
bens partados na condução ou na rua - sabe que, mesmo ficando em 
cÍmados funci a fornecer apoio, meios, gratificações etc., 
dificilmente a real de uma investigação sistemática, cui-
dadosa, ou mesmo interessada. A maioria das pessoas, por tomar 
conhecimento de tal circunstância, desanima de sequer tentar provo-
car algum nos deteti ves formalmente encarregados no 
caso, o qual só será por pura questão de sorte. 
6. SILVA, J. Paulo da & BRAGA. Ronaldo . .Ioma! do Brasil, Rio de Janeiro, 198 I. 
12 cad., p. 22. 
selo os crinlinosos? CriUie e crinllnosos: entes 
Embora o problema seja mundial, dificilmente se encontram 
dados elucidativos a a título de 
exemplo aleatório, para o quadro a 
TIPO ou INCIDENTE 
Homicídio 
Suicídio 
rncêndio doloso 
Furto de automóvel 
Lesão corporal grave 
Roubo 
Estelionato 
Crimes sexuais graves 
Lesões corporais leves 
Furto não-residencial 
Cadáveres encontrados 
Furto em residência 
Furto simples 
Vandalismo 
Perda de coisas 
Todos os tipos juntos 
Fonte: Cidade de Kansas - maio/novembro de 1 
PORCENTAGEM 
100 
70,4 
65,5 
64,4 
62,6 
59,6 
59 
41,8 
36,3 
35,7 
30,0 
18,4 
6,8 
0,9 
7. Apud CHAIKEN, Jan M ; GREENWOOD, Peter W. & PETERSILIA, Joan. 
Criminology Review Yearbook. 1 :711-41, 1979. . , 
motivaram Se 
crimes a ser relata-
e, que certamente muitas das 
não obtêm sucesso, fica fácil avaliar a 
que ostenta o mundo da criminalidade 
oficial relativamente ao universo da 
Crimes 
de Processo Penal 
polícia a possibilidade de arquivar autos de inquérito. Naquela época, 
pois, a faixa de acomodação viável de ser conseguida na delegacia 
estreitava-se entre a ciência do fato e seu registro. 
Depois, com força irresistível, surgiu uma prática que, como ver-
dadeiro direito costumeiro, veio a suplantar e revogar a norma escrita. 
Por ela, tornou-se possível à polícia deixar de instaurar inquérito com 
referência a fatos delituosos, mesmo que tenham sido objeto de relato, 
registro e investigação. Abriu-se, pois, à revelia do.--Código, uma opor-
tunidade a mais de perda entre a globalidade dos crimes efetivamente 
perpetrados e aqueles a serem iluminados pelo facho das estatísticas 
oficiais. Conhece-se o uso ern causa pelos nomes de acaute!wnento 
ou arquivamento de sindicâncias. Verifica-se ocorrer, aqui, mais uma 
hipótese de transferência para a polícia do julgamento da causa, espé-
cie de delegação manifestamente contrária a toda a sistemática de 
nossa legislação. até, com a atribuição de um poder mais discricio-
nário ao delegado do que aquele conferido a promotores e juízes, uma 
vez que se dispensam maiores formalidades na citada solução, inclusi-
ve no relativo à motivação justificadora da medida. Reiteradas vezes, 
o despacho terminativo do feito restringe-se a um lacônico e imotiva-
do "Acautele-se", de sorte que ao delegado se poupa o trabalho incô-
modo de armar uma convincente süstentação em amparo ao decidido, 
silo os' crilninosos? CriJl1e e crinú!1()so,s': entes 
coisa a que estão obrigados os membros do Poder Judiciário 
A moda 
para o escuro. 
vazadouro de do claro 
Para comprovar a acaso fosse insuficiente o testcmu-
nbo de bastaria lembrar um 
vendo-se frustrada em na 
busca de melhoria de vencimentos, 
que chamou de . se não () aumento reívindica-
seriam instaurados inquéritos para todos os eventos objeto de 
registro, ou seja, obedecendo literalmente à determinação da lei, aban-
donaria o aos aeautelamenlos. Atender a e1 a sol 
os por obedecerem à (ou olhando de outro por 
recusarem a agir fora da lei). De outro lado, caso nascessem inquéritos 
de todos os registros, o judiciário estaria afogado em uma semana, 
mortalmente paralisado, sem sequer espaço físico para amontoar a ava-
lanche de papel que para lá jorraria das delegacias. 
Na base do arquivamento de sindicâncias predomina, com inci-
dência largamente superior, a corrupção e a prevaricação, embora, por 
vezes, expresse o sincero convencimento de que, naquela hipótese 
específica, inexistiu um verdadeiro delito ou, mais freqUentemente, 
que o indiciado refoge ao estereótipo de um típico criminoso, fazendo 
jus, dessa maneira, a um ato de complacência e compreensão. 
Novidade mais recente que os acautelamentos, os autos de resis-
tência contribuem para o incremento da cifra negra, suprindo-a de um 
contingente de delitos graves, perpetrados por policiais. Emprega-se o 
expediente como fórmula de suprimir ao exame do Judiciário homicí-
dios e lesões corporais praticados pelos agentes da ordem pública 
quando matam OLl ferem supostos meliantes no exercício (também 
presumido) da atividade repressiva. Em episódios dessa na~ureza, a 
autoridade de plantão limita-se a lavrar um termo no qual regIstra que 
o sujeito ativo da infração agiu em estado de legítima defes.a, c(~n:e­
de-lhe liberdade e procede à confecção de um simulacro de lI1~uento, 
no qual se limita a tomar as declarações dos policiais envolvldos~no 
14 
caso. Obviamente, apenas uma única versão fica consicrnada no feito b , 
exatamente a que favorece a posição do agressor Oll dos agressores. 
algum outro magistrado levanta a voz para demonstrar a ile-
galidade do procedimento em pauta, a judiciária ollvi-
moucos, preferindo encarar a questão numa perspectiva pragmáti-
ca, e se acomodar com a solução quc simplifica e facilita as coisas. 
para o exemplo concreto no APÊNDICE 1. 
se os policiais cobram de maneira tão exaltada o direito de 
dispor da vida jurisdicionados, a recusa a tal prerrogativa por 
dos promotores e juízes poderia gerar um estremecimento nos 
laços que ligam as respectivas instituições, algo que se considera 
muito prejudicial ao bom funcionamento da máquina repressora como 
um todo. O que o sistema deseja é vê-las agir em perfeita harmonia e 
entrosamento. a a, "a a 
do de bí Jorge Elefante i 
estourada na mesma hora em que o Secretário de Segurança, 
general Waldyr Muniz, e o comandante da PM, coronel Nilton 
Cerqueira, acabavam de almoçar no 12º BPM, em Níterói, eom 
27 delegados do interior, 13 comandantes de quartéis da PM, 
sete juízes e dois promotores, convocados para a reunião a fim 
de 'sanar qualquer divergência entre a PM, a Polícia Civil e a 
Justiça. ' 
........................................................................................................ 
Na reunião, Nilton Cerqueira disse que a PM desenvolve 
um trabalho 'em defesa dos direitos humanos e cristãos'. 'A 
união faz a força', disse o general Muniz."8 
Crimes Cujos Inquéritos São Arquivados 
pelo Ministério Público 
Muitos dos inquéritos instaurados terminam sem que a polícia 
logre elucidar a autoria dos crimes em apuração, sendo, nesse caso, 
8. O Rio de 27 jan. 1982, p. 11. 
S{{O os' cril71inos{).f;: CriJne e cr;',11iI10,I,'OS: 
l'emetidos a Juízo sem a indicação do culpado. Em tais hipóteses, 
outra alternativa falta ao Promotor senão a de pedir o arquivamento 
do feito. I-louve o delito, disso há certeza; porém, por falta de 
tos, torna-se inviável processar - e, condenar - o crimino-
so, o qual, fica oculto à sombra da cifra negra. 
Outras razões, como veremos adiante, podem levar o Promotor ~l 
renúncia quanto a movimentar uma penal contra alguém. Por 
ora, contudo, chamar a para o já referido: delitos 
de existência comprovada, mas autores, não ter sido levan-
tada a autoria, não são considerados criminosos ordem formal, 
ficando de fora das estatísticas oficiais. É que o dado a seguir forneci-
do desacredita a alegação, por vezes sustentada pelos defensores da 
criminologia tradicional, de que a cifra negra só mostra relevância 
a de mínima a, sendo ele 
delitos graves, como, por 
lUdo o mais vimos sustenbndo fosse 
a desrazüo do a só do 
ria tal efeito: 
o 
para (lémonstrar 
detclmina-
"O Departamento de Polícia Especializada (DPE) admitiu 
ontem que existem atualmente cinco mil inquéritos de crimes de 
morte san solução,todos a cargo da Delegacia de Homicídios. 
Esta estatística - apontando uma média de um mil homicídios 
por ano foi feita considerando apenas os anos que se seguiram 
à fusão dos antigos Estado do Rio e Guanabara . 
Estes números constam do relatório sobre as atividades da 
Delegacia de Homicídios durante o ano que passou, encami-
nhado pelo delegado Arnaldo Campana ao diretor do DPE, que 
remeteu ao Secretário de Segurança, general Edmundo 
Mllrge1. 9 
Somente entre 1975 e 1980, alguns milhares de assassinos 
engordaram as hostes da cifra negra. Como, no mesmo período, as 
por homi não a casa das centenas, 
9. O GLOBO, Rio de Janeiro, 15 ago. 1980, p. ! 2. 
16 
torna-se 
crimes relativamente às 
como é o caso do 
mais enfaticamente 
separa o universo dos 
num dei 
merecem as 
real 
formal 
assim pela ordem 
à penitenciária), 
na elos 
que identificados que servem 
ínfima da totalidade? 
Além dos processos em que o próprio 
de um culpado hipótese em que se vê 
Iram pUf . r 
de uma e outro de acentuada no tante ú 
aquilatação do valor probante dos elementos carreados aos autos. Por 
isso mesmo, ainda quando a polícia dá o caso por resolvido, conside-
rando haver descoberto a autoria do crime, ao promotor ocorre pedir o 
arquivamento do feito, por lhe parecer serem os indícios reunidos insu-
ficientes para gerar sequer um princípio de convicção. 
Percebemos aqui que também ao promotor se faculta uma 
oportunidade de julgamento do caso, uma vez que decidir aquilo a 
ser considerado como indícios s~~ficientes ou insuficientes exige 
uma consideração valorativa sobre o conteúdo do processo. Como 
em todo o julgamento, a matéria será enfocada através do subjeti-
vismo de quem a examina, uma vez que inexiste a possibilidade de 
alguém adotar uma posição inteiramente desinteressada frente a 
qualquer problema relativo à espécie humana. Por outro lado, em 
área tão fluida como essa, inexiste fórmula apta a limitar de manei-
ra rígida e exclusiva os verdadeiros motivos aceitáveis no sentido 
de autorizar a solução do arquivamento. Necessariamente, 
espaço para a manifestação da atividade discricionária quem vai 
decidir a matéria. 
Como conseqüência, embora sustentando a posição por meio de 
um discurso dissimulador, muitas vezes o promotor reqller o arquiva-
mento por entender que o apontado autor não um verda-
17 
cieiro ainda que do 
e de ser o indiciado seu 
Tudo isso 
de fato concretizados e os aparecem na claridade da ordem 
formal - para cOnlradizer a realidade do r 
Na 
ondc há 
acerca da conveniência da 
do !''lIi!li 
Poder 
no concernente ao 
a denúncia. recursos nesse 
e se resolvem no àmbito interno da instituição. 
manipulação dessa faixa de poder, como sempre acontece 
fora dos 
lei, influenciando-se 
o 
m, são se busca aliviar a sobrecar-
ga de serviço das Varas Criminais, ou porque o promotor discorda da 
criminalização de certos fatos, ou porque se apieda de alguns acusa-
dos, ou porque, naquele dia, se reconciliou com a namorada e deseja 
expressar sua satisfação por meio de uma atitude de magnanimidade, 
ou por mil outros motivos que nada têm a ver com a efetiva existência 
de um delito praticado por uma pessoa perfeitamente identificada. 
O que, de resto, não representa nada novo no front ocidental: 
./ 
"Noventa e nove de cada 100 pessoas detidas por acusação 
de delítos graves, na maior cidade da nação (Nova Iorque), 
jamais vão para uma prisão estadual e mais de 80 não são sequer 
denunciadas como criminosas."lo 
Claro, também a corrupção e os pedidos e ordens podem intluir 
no ânimo do promotor para conduzi-lo à decisão entre o arquivamento 
e a denúncia - embora a primeira causa seja infreqUente (o pape! do 
corrupto, o sistema designou a polícia para desempenhá-lo). 
10. THE NEW YORK TIMES, aplld Tlle Atlanta Journal, Georgia, USA, 5 jan. 
1981, p.9A. 
! 
i 
,.l 
'j 
18 
Quanto à ÍndícÍo de seu alcance 
na 
CriU1eS que em 
Instaur,lda a 
"Tudo 
são 
absolver." 
o processo terá de pros-
terminativa do Juiz. Às demolls-
em sentido 
a crer que houve o cnme e o acusado é seu 
aquela certeza 
capaz de uma 
por que me na contingência de 
muitas vezes esconde tal fórmula o verdadeiro 
motivo que levou o Juiz a livrar o réu de uma pena, sendo tão-
somente. como a mais e cómoda maneira de 
Àtrás do biombo, podem estar o 
de a. 
sistência das afirmativas da criminologia positivista, a qual se alimen-
ta quase que exclusivamente de pesquisas realizadas sobre os mem-
bros das populações prisionais. Àdiante, atrevo-me a pensar. 
~ . 
Condenado o réu a urna pena 
Juiz expede uma ordem (mandado de 
que efetue a captura do condenado. 
de que nào surs'is, o 
determinando à polícia 
. Pois .bem, existem no país mais de mil mandados por cum-
pnr. ConsIderando que contamos com cerca de 120 mil encarcerados, 
constata-se haver muito mais condenados soltos do que dentro das 
p~ni.tenciárias, ou ainda: a população prisional representa uma parcela 
d1l1l1nuta no que concerne aos criminosos assim etiquetados pela 
ordem formal, os quais, por seu turno, configuram reduzido número 
da cri rní total. 
Àlgumas evidentes conseqüências decorrem da existência da cifra 
negra, como anota, por exemplo, Sir Leon Radznowicz: II 
a) representa a substância do crime, enquanto as estatísticas oficiais 
são tão-somente sua sombra; b) torna extremamente difícil descobrir 
os verdadeiros caminhos e composição da criminalidade; c) restrin-
g~ e distorce nosso conhecimento a respeito dos criminosos; d) as 
atItudes d~sociedade com relação ao crime e à punição são inevita-
velmente irrealistas; ,e) impõe-se como o maior fator no enfraqueci-
mento de qualquer efeito intimidativo que a punição ou o tratamento 
dos criminosos pudesse ter; f) provavelmente, o sistema não tem o 
menor interesse em tentar diminuir a cifra pois a polícia, os 
promotores, o Judiciário e os estabelecimentos prisionais sucumbi-
~'iam se tivessem que lidar com todos os que, realmente, praticam 
mfrações penais. 
Também a ONU já afirmou que os estudos acerca da crimínaJi-
dade oculta em xeque as tradicionais relativas ao 
problema da delinqUência. Estas doses de 
! ! . 0v cit., pp, 52-4. 
20 
de modo a demonstrar que toda 
l~(ILL!" de e 
Capitulo II 
A 
CRIMINOLOGIA 
TRADICIONAL 
"O conhecillli'nto 
r('!l{ç'{{.')1 tl.\'sinlÍ!u os' coj,,>'{f,\' 
I1cn/llurt de perdae/c. (f 
i,\'so, o conhecilllento SenljJre lilll de.'lconhe-
cimento. Por outro !ado, é sel!Jpre que 
visa, nwfdosa, insidiosa e ag.ressÊvCl/l1ente, 
indiv(duos, coisas, situaç6es. " 
Michel Foucault l 
Três postulados seguram todo o edifício da construção crimino-
lógico-positivista: l. O crime é um fenômeno naturaL O estudo do 
crime deve ser realizado através do mesmo processo de conhecimento 
usado para as ciências naturais. 3. Pela observação e pesquisa dos 
minosos, assim identificados oficialmente, é possível desvendar as 
causas do crime e extirpá-las da sociedade. 
Submetidas a uma crítica que prescinde de maior profundidade, 
tais afirmações se esboroam, deixando à mostra o miolo nelas conti-
do: um saber promovido pelo poder dominante, permeado de conteú-
do político. Tratemos de examiná-las, olhando-as pelo avesso. 
l. CADERNOS DA PUe. A verdade e as fórmas jurídicas. Rio de Janeiro, 1978, 
p. 19. 
21 
22 
o Crime Não é um Fenômeno Natural 
para posicií).tHlf o crime corno 
ci em reconhecer-lhe a 
natura!", isto é, que 
vel como. um ser em si mesmo. 
vistas a tal mister, impunha-se recusar o 
na fase do Direito Penal de acordo com o qual, na elegante 
sentença do scu mais completo e coerente mestre, Francesco 
Carrara: "O crime é um ente jurídico." Aceitar a concepção deli-
to como alguma coisa dependente da legislação importaria em 
empurrá-lo parao mundo das normas, e este, obviamente, constitui 
regaço uado para aninhar uma natural. Dentro da 
a onde nasceu a crim as 
ou tra. 
CGmo incomu 
ma deJas com 
por 
O objeto da ciência positiva tem que ser, de modo estável, defi-
nido, absoluto. Ora, a definição das infrações pelos preceitos legais 
caracteriza-se pela fluidez, pela mutabilidade, pela extraordinária 
variação em função de sua colocação em termos de tempo/espaço. 
Agir de uma certa maneira pode ser crime hoje e aqui, mas pode ser 
lícito hoje lá ou tê-lo sido aqui ontem ou vir a sê-lo aqui. amanhã. 
Como observou um autor: "Uma criminalidade que é regulada em 
parte pela cronologia, em parte pela longitude, não se presta facilmen-
te para uma discussão científica."2 
A rigor, se por cientifica queremos dizer cientifica-natural, não 
se presta de jeito nenhum. 
Somente conceituando o crime em total independência quanto 
leis é que se poderia elegê-lo como objeto próprio de uma disciplina 
ex ata. 
No de atender a esse pressuposto incontáveis tentati-
vas foram feitas, e continuam a sê-lo, na busca de apresentar lima 
de delito. 
2. ELLIS, Havelock. The Criminal. Londres, $. cd., 19 J 4. p. 2. 
os crinzinosos? Crirlle e Cri!11ino:üJs: ente}; 
muito talento, resmas de papel e de tinta 
do em causa. Desde 
dos 
uma profusão 
cada crimi que se 
preza adota no que concerne ao O fato indiscu-
tível é ínexistir a mais longínqua ou remota esperança de consenso a 
o que parece comprovar a presença de 
l:m 
fico i para cevar 
experirnentaI. Nesse passo, os psicólogos obtiveram mais sucesso, ou 
foram mais o elemento 
metafísico "alma" na de 
tude dessa 
dela descartar 
em o 
contas, 
normativa. 
que tira da 
iI idéia de 
lei que só em vir-
lado 
i. 
Trau. B Silveira. Süo 
24 
outros, cuja criminalidade é 
criminosos em todos os 
resultariam 
que se possa chamar 
atribuído por uma lei "6 
U<"-,LlIJ':L{A;;' de superar o relativo à conceituação do crime 
como "fenômeno natural", a maior parte dos criminólogos adota 
impassível postura: concorda quanto a estar num beco sem saída, con-
forma-se, elimina das cogitações qualquer preocupação relativamente 
ao ponto, mas persiste com afinco na tarefa de trabalhar no edifício da 
criminologia positivista - que flutua no éter, à falta de alicerces. 
Assim, criminologiza-se numa espécie de colorido balão solto no 
espaço, carente de vínculos que o liguem ao chão da realidade. 
.Quadro singular o da criminologia: ciência natural que não dis-
põe de um objeto de estudo precisamente definido. 
o Estudo do Crime Pode Ser Realizado 
Através do Mesmo Processo de Conhecimento 
Usado as Ciências Naturais 
do das tentativas de conformar o crime à condi-
de fenómeno natural, nem por um instante ocorreu qualquer vaci-
6. BRUNO, AníhaL Direito Penal. 2. ed. Rio de Janeiro, Forense, s,d. tomo I, 'p. 269. 
sua 
slio os crhnillOSOS? CriJne e critninosos: entes 001.1111"']\' 25 
com referência à escolha 
científica: 
"Uma sol 
ciências naturais 
mcnto da 
das 
do :~;tatlls ele 
objetos 
a serem na 
método das 
sob o argu-
o avanço obtido na química, física, astronomia, biologia encheu 
o homem 
para a buscasse 
usar o mesmo conduto no concernente ao novo campo que se abria, 
aquele em que o principal objeto de estudo era o próprio homem, 
enquanto ser político. A assimilação deu-se de forma tão decidida que 
se projetou, até mesmo, na nomenclatura escolhida: v.g., à sociologia 
apelidou-se defísica social. 
Não parece difícil, porém, apontar o erro básico que macula tal 
postura. 
Quanto ciências naturais, o homem assume a posição de sujei-
to e a matéria de seu interesse oferece-se corno objeto, algo à sua 
frente, autónoma com respeito ao investigador. (Advirta-se estarmos 
procurando simplificar a explanação, pois, em verdade, em nenhum 
domínio do conhecimento se identificará alguma coisa que seja intei-
ramente objeto relativamente a um homem sujeito: ambos estão no 
mesmo mundo e, de alguma forma, interagem).8 No caso das ciências 
sociais, torna-se evidente a impossibilidade de realizar a cisão sujeito 
x objeto, haja vista estar o homem, de forma principal, nos dois pólos 
7, SANTOS, Juarez Cirino dos. A da Rio de Janeiro, 
Forense, 1979, p. 16. 
8, A da nm,b""A'''' María Alice Máximo, coIbida oralmente. 
26 
da relação. "O homem é, a um só tempo, sujeito e objeto das relações 
. ,') 
m 
humana são 
funde com o 
di 
sociedade." I o 
desenvolvimento c trL1nsfor-
em que se desdobra a ex istência 
S, um que se con-
cito que o conhece: não a ser 
ela natureza e as ciências da 
Com efeito, o sucesso do método ou positivo 
medularmente, da neutralidade e desinteresse por parte do sujeito 
cln elo estu-
c 
vel encontrar neutralidade por parte do cientista enquanto trabalha no 
terreno das ciências humanas? 
"A questão da neutralidade do conhecimento científico 
(produto de um instrumental técnico, neutro), ou de sua objetívi-
dade (relativa a dados objetivamente verificados), depende, por-
tanto, da imparcialidade de um sujeito que como parte de 
s~u próprio objetó." II 
"A questão, agora, é esta: corno é possível a imparcialidade 
do sujeito, se este, como sujeito, é, também, do objeto 
investigado?" 12 
o cientista está encarnado num homem, situado numa dada 
na qual ocupa um determinado lugar específico em 
aos outros indivíduos, com se relacionando politicamente, vincu-
9, SANTOS, Juarez Cirino dos. 
10. Id., íb. 
I I. leL 1. 
12.ld., 
p. I 
.v{ío os criJlÚnOS05'! Cri/11e c cri"ú!losos: enTes 
lado a grupos que se formam em funçã,o da distribuição inigualitária 
da da propriedade, do status, das recompensas etc . 
ser - ou, para usar s elucidativa, ser 
político - é-lhe impossível toda essa gama de 
a ponto de o meio a que 
como alguma coisa que não lhe diz e, forma, observá-
lo com a distância necessária para fazê-lo um objeto alienado de seus 
interesses: "... como se uma ameba saltasse da làmi-
na de um para o visor, c do visor para a lâmina, tentando 
observar a si própria".13 Só na mais das será viáVtl 
conceber alguém capaz de enxergar o grupo humano sem fazê-lo atra-
vés da intermediação de representações de valor, as quais estarão 
meadas da influência da posição do sujeito no que concerne ao confli-
to de entre as chtsses Em suma, na h;i um 
resultado 
grupos 
ante adas qu 
ainda que se pretenda cientista, sofrerá a influência do oeu 
relativamente ao jogo do poder, quando procurar refletir sobre a reali-
dade na qual está imersa. . 
Importante papel desempenha, na construção das ciências sociais 
de cunho positivista, a ideologia adotada pelas classes superiores. 
Esse "conjünto de idéias, crenças e princípios, mais ou menos sincera-
mente professados, mas que não correspondem aos I apresen-
tado como fruto da atividade espiritual, mas, em verdade, decorrente 
da ligação do espírito humano a rnúltiplas formas e pressuposições 
materiais e, sobretudo, leva pessoas do grupo dominante 
a impor como verdadeiro aquilo que ajuda à continuidade do status 
quo social e, à manutenção de suas e 
Anexar o atributo "científico" à importa em a 
sobremaneira, inclusive de um que a torna indene 
aos de todos os do título de - a 
13. GOLDTHORPE, .1.E. c Social. Trad. Cabral. 
Rio. Zahar, I pp,31 LT L 
14. CUV1LLIER, Armam!. \'ocoblllârio do, Tl~(1. 010 . 
de 01 íveira e J, g, Damasceno Penna. São Paulo, NacIOnal, 1961, p. 7 f. 
28 
dor dos elementos de 
ser 
de re,lcionári o. 
da ciél1cizl, ou a 
sociais, nas socied 
conheci-
articu 
diz Foucault: "O ítico não está ausente do saber; 
ele é (ramado com o saber."1 
Penso que ficarão stradas as afirmações alinhadas, não 
apenas por forç:a do tópico seguinte, mas, especialmente, quando cui-
da concernente aocaráter di da 
criminal. 
Na medida em que quanto a definir e ficar o 
eto da disci ma - o crime como natural _. a crimi-
nologia renunciou a el como o ponto básico ele suas investi-
IS. Juarcz Cirino dos, 0/). cito p, 25, 
16. FOUCi\ULT, Michel. Vigiar e jJllnir. Trad. 
Vozes. 1977. p, ~2, M. PUl1dG Vassalo, is. 
StlO os crilJlinos{;s? Crinlf? e crinúnoso.y: entes 29 
a H lassirica-
(p!e recusava revestir ;\ concreticidade 
para se lhe reconbt:cer a ljllalidadc de o de uma ciCncía 
V;l. 
obstáculo. 
manobra no sentido ele altCl'm !la subs-
Sé: l1l fazc-l () fOlTnél decl;1rada em lU b.:órico e 
verbal, o conteúdo da C!'Im! 
Certo de que sem material para a de um trabalho de 
laboratório ficmia difícil o novu ramo elo conhl2cilllcnto com ,)S 
louros da de "ciência", o 
por baixo da mesa, de sorte a oferecer coisa utilizóvel 
na pe"sqllis~1 
resumida: a doença é um mal, realizando-se muitas das suas illvesti-
gações sobre o corpo do doente; o crime é um mal, logo, por anal 
possível seria investigá-lo por meio do corpo dos seus portadores, os 
, criminosos. 
O achado era, como o comprova todo o or [-
mento da criminologia, de alcance extraordinário. Criminoso é um 
homem, e homem é algo concreto, real, existente no mundo 
descritível, classificável, 
. Contando com um 
com a entidade delito, 
inada a o de objeto de uma clcncia 
Claro, desnecessário seria eliminar ostensivamente da nova 
objeto "crime". mas seria considerado como um ser de 
ao e. por via deste último. se faria a 
naturalística daquele. 
Eis a verdade: a criminologia positivista, o fato 
mediante uma retórica sofisticada e tomou para seu 
o criminoso, com o que, se livrou de enfrentar a difi-
culdade ele transformar um ente político o crime -- em ser natural. 
dev o problema permane-
é quem pratica um ilícito penal, somente sabendo-
30 
se o que é crime seria possível reconhecer em alguém a qualidade de 
nesses termos, voltaríamos à estaca zero. 
verdadeiro modelo de 
entretecido dc conteúdo 
o beco sem saída em encalhada a 
se as coisas colocadas ele franca: 
O que é em sentido isto é, não-normativo 
ou 
- Não sabemos. 
- E quem é crimi 
- É quem pratica crime. 
as não SabClTlU'-) u que é crime. 
o recemhecimento 
romper a das barreiras que, ele uutro 
qualquer saída para a aventura do novo ramo do 
conhecimento. A ideologia, fazendo as vezes de Sócrates nos diálogos 
de Platão, guiou os cientistas à tranqüilidade do porto em que deseja-
vam atracar, usando uma lógica aparentemente razoável: 
Ideologia - Que é crime, cm sentido concreto? 
- Não sabemos. Por mostra-se impossível 
tomá-lo como objeto de uma ciência natural. 
Ideologia - não é crime o ato praticado pelo criminoso? 
- Sim, corresponde à verdade. 
criminoso não é real? 
- De fato, não há como negá-lo: são homens e, 
o criminoso pode servir de objeto a uma 
cia natural. 
- Mas como encontraremos o criminoso, para exa-
miná-lo cientificamente, se o que crime? 
Tal desconhecimento não que se encontre o 
Já ficou assentado que 
ao crime, não é verdade? 
31 
então prossigamos, meus 
Se eu lhes pedir que me mostrem um me CO!1-
-- A uma 
ica. 
se nós queremos encontrar o aonde 
é lá que os criminosos estão recolhidos. 
Ideologia Como vêem, vocês já conheciam a resposta correta, 
. üs vezes ocorrem no sistema 
Ideologia Não contesto tais possibilidades. Trata-se, porém, de 
hipóteses raras e a ciência deve desprezar as exceções na sistemati-
zação do seu saber. 
E aí os criminólogos, de Lobroso, Ferri, Garofalo até os mais 
modernos e enciclopédicos autores, docemente convencidos por tal 
alaaravia que se alimenta tão apenas do senso comum, avançaram 
sobre as ~opulações prisionais, ou, na melhor das hipóteses, sobre os 
/ indivíduos oficialmente designados como criminosos, para, em fun-
da análise a que os submeteram, construírem sedutoras e brilhan-
tes teorias científico-criminológicas. 
Na medida em que a ciência, por meio da conspicuidade dos 
abonou cientificamente o reconhecimento do o de cri-
formal rotula como 
32 
/\ cirra a nu, defi!li í i vo, tI ma 
anteriormente r,~;gi ao 
para 
se resguarda da análise, 
positi vamente 
. Talvez um 
". recebe-a com entusiasmo 
casa ü perfeição com a por ela 
vl'rcla ~ 
ti a lei 
cnCOI1-
em clcs-
ao lodo -
por escondida no 
pode ser mais 
ilustrativo 
bas i 11 ~l le'()rJ' ,'I elc} C011tl','\10 S'l')C J' ;II', ( j . c., . coe as as pessoas são Iguais 
perante a lei; por 
é algo mau em si, 
soas. más; daí, nada mais do que 
mall! festação típica das 
concluir que o cnme é urna 
ernpresta sua la ao asserto cm 
os crinllnosos~? C/filIe' c crinli!l()5;oS: 
os 
CUl1l0 Cil:;klo 
quc a maioria dos prc:;os 
única conclusão ~1 
característico do enCi\['cerUIl1C!HO. 
p;tr:l c:;tudo 
o criminoso constrói-se pela 
33 
o normativo) operadas pelo atuar discrimina-
criminal. 
Muito pior a emenda que o soneto. Sem embargo 
a llloslTOll~SC fecunda, dando a 
extremamente úteis para o político. Vejamos isso. 
O direito criminal enraizado na idéia do contrato 
búsico desse 
de 
to caberia uma única pena, 
todo estranhas as características 
Beccaria amava tais 
leis executadas ú 
cuJar exalamente os inconvenientes de uma 
aI teria de 
) 7 BECCARIA. de, nos deli/o" (' dus jJeI70S, Trac!. Paulo M, Oliveira. s. 1" 
Ec!. de Ouro, 1965, p. 35, 
34 
" ... o se mede pelo causado à e não 
sensibilidade do "18 
Ao margem de d na 
leis: 
"A mcira que leis 
fixar as penas ele cada delito e que () direito de fazer as 
s não residir senão na do , qUt;; 
toda a sociedade por um contrato social. 19 
"Resulta, ai dos precedente-
mente, que os juízes dos crimes não podem ter o direito de 
as leis penais, a razão mesma de que não são 
SL~ () for um 
raciocínio a mais, ou se o fizer por conta própria, tudo se torna 
incerto e obscuro. "21 
"Quando as leis forem fixas e literais, quando só confia-
rem ao magistrado a missão de examinar os atos dos cidadãos, 
para decidir se tais atos são conformes ou contrários à lei 
escri ta ... ,,22 
Dentro de um regime natureza, a diversificação da aplica-: 
ção da justiça em função do status do criminoso acarretava embára-
ços, problemas, o risco de evidenciar de forma ostensiva 
que as eventuais inequanimidades praticadas resultavam aluar dis-
criminatório do aparelho repressor. 
Obviamente, os donos do poder jamais tiveram a inten-
ção de se ver feridos por suas armas. Afina] de contas: 
i8. Id., p. 37. 
19. Id .. p. 
20. Id., p. 39. 
1 Id., p. 40 
22. Id., p. 140 
selo os critnil1osos? Critne e crinúnosos: entes 
"Um sistema penal deve ser 
mento para r diferencialmente 
como um Ínstru-
idades, não para 
a todas. "23 
, seri conciliar o discurso fi 
iluminismo com os fins pragmáticos a serem extraídos da 
, sem colocar em demasiada evidência sua interessa-
damentc di 
Subordinada a lei a um lS1110 inelástico no que concerne 
ao tratamento Li todas as pessoas, o atuar 
a deixaria a descoberto diante dos olhos do 
Como solucionar o impasse? Aí troou a voz da ciência. 
Como vimos, em virtude da inconsistência de sua 
para 
da 
va 
o quadro de dificuldades nesta existente, maleabilizando a amarração 
das sanções a cada ação proibida. 
Transpirando autoridade, posto que ornada do título subli-
me de ciência, a criminol sentiu-se suficientemente forte para 
invadir o campo do direito penal. 
Houve resistência por parte dos juristas (Escola Clássica). uma 
vez que as soluções propugnadas pelos invasores (Escola Positivista) 
pareciam incompatíveis com os pressupostos onde partiam 
. os princípios do direito penal do social. 
encontrando uma de compromisso 
através da qual se as duas 
melhor seria 
conseguem conviverenquanto 
ser mais absurdo que 
da reserva com o da 
23. FOUCAULT, Michcl. op. cit. p. 82. 
to, há evidentes e 
de 
36 
D~lS penas retrihutivas com 
CU]]] elcrnel1(os !iornl,\tivos na 
l1l',mo III cc éll1 i ÍSla ~- i'undamc!1to 
tlV1Stc\ com u li 
cIsmo 
O caSLllllcnt" foi n~:di/~HJo :. 111:1S vIngou 
porque alUui1cnt~~ CUl1clonal 
i\ 
cnmmoso 
ares de sabichona 
recebc pronto e 
ver à parceira, prestigiando-lhe os padrôes de atuação. 
Dê] 
Do dctcnni-
]a 
, apLsar 
'-~S( Lido o 
dos 
Ou, em lermos : a justiça condena os membros das 
pobres da população e os envia para a penitenciária; a crimi-
nologia vai aos pesquisa-lhes a e cumunica à 
a mais relevante característica do 
abonada sua 
eSl1lera~se em sekcionar os para o 
encarceramento; eom a de ondas de indivíduos miseráveis ~IS 
os CrI ali eneastel as mãos ele con-
tentamento e sentenciam: confirmado, cada vez mais 
crime é ( co : o 
repressor, ciência 
bem meu árduo mister~ atesta que estou 
Na rneclida construindo o estereótipo do delin-
através dessa de uma ciência com a j 
24. FOUCAULT, Michcl. ClllÍemo\' do PUC. Op. cir., p. ('x. 
37 
cada vez menos se dj da 
pClld 0'111 
lêlr CU]1l () 
coutra 
/WS{[S que 
na ln a a uma norma ]c 
ZÜ() suficiente p~l!·~l o mediel:ls repre 
mlivíduos a 
"Tocb a do século XIX passa a ser 111 controle, 
rü10 Umto sobre se. o que fizeram os mdivídllOS cstú cm c"onf\)rmi-
dadc ou não com a lei, mas ao nível do que fazer. do que 
~;lO capazes de Llzcr, do que estão a fazer, do que estJO 
na iminência de fazer."25 
erradicar o mal do mundo. 
Criminosos, porém, para ela são as pessoas a quem a ordem ofi-
ciaI semelhante rótulo, como vimos. Sem 
inebriados vapores elas retortas fumegantes, os criminólogos 
desapercebem-se de tão sin a verdade e se aventuram nas mais 
tas e variadas teorias a respeito da do delito. 
A matéria oportuniza uma vastidão de campo capaz de 
de a sorte, fantasias desen-
obras anado com o 
resu mo das di versifiea-
causas do crime - o ponto de 
das correntes que riscam a arena da crimí-
que, em realid todas tomam 
por base um mesmÍsSll110 o conceito de de que 
se não tem nada de "natural", ou de , ou de "científi-
co", urna vez que estritamente, ao do aparelho 
repressor na oficiaL 
25. Id, p. 67. 
38 ' 
Em meia dúzia de palavras é possível traçar a resenha das tais 
correntes - embora os pobres universitários percam no 
mínimo um semestre inteiro para conseguir uma pequena 
a dos seus quiméricos 
Os da 
deais a ser seguidas 
resultar () delito de 
de certos indivíduos 
VIve 
bido o resultado 
eclética). 
Para os 
LISO elo 
(não há segundas intenções no 
de um 
Daí ;\ 
criminoso nato". a dos 
nossos dias. O epígono da escola variou um pouco a respeito da exata 
identificação do tal defeito, ficando mais conhecido, porém, por pre-
tender que poderia ser diagnosticado através do encontro de certas 
características morfológicas, tais como testa estreita, zigomas salien-
tes" orelhas em couve-flor e por aí afora. Na esteira de tal visão, surge, 
maIS tarde, a explicação de que o delito resultaria do funcionamento 
anormal das glândulas internas (endocrinologistas). Nos nossos 
aparece a teoria genética, pela qual a existência de um Y a mais na 
composição cromossomas impele o portador, infal mente, Ú 
perpetração de A propósito, não resisto a transcrever 
alguns trechos de que saudou entre nós o surgimento de 
teoria: 
Lombroso, o autor livro O 
Delinquente, acaba de ver comprovada sua tese de 
que o crime é, na maioria 
sâo os crillú!losos? Crillle e criminosos: enles 
anos depois da teoria lombrosiana, a 
vou, no laboratório, que existenl pessoas 
à de todos os crirnes. 
o Leonidio Hibeíro diz que deveria haver uma revolu-
mundial em ao invés de se 
de a 
um trabalho de 
associais: 
dos Ylo de elementos 
como se faz com os e cancerosos -
cou -- a sociedade deveria dedicar-se ao estudo da personalidade 
dos anormais, a fim de apurar as razões que os levaram à prática 
anti-sociais, o facilitaria a defesa dos seus 8ltos 
interesses e, ao mesmo tratan-
no lO da 
l' 
, U1Z, 
irresponsável (no sentido da conscientização e dos efeitos) entre 
pessoas sãs, contribuindo para o aumento da criminalidade em 
todo o Universo. 
Pois a verdade é que o crime (reiterado) é produto da ano-
malia genética que condiciona malformações físicas, e todas as 
taras que deságuam na infração e no delito."26 
Para os adeptos de , fundador da sociologia criminal, o /' 
mundo ao homem, no qual ele se cria_e v o ambiente 
que o cerca, os fatores em que imerso, 
seriam as condições determinantes no sentido de arrastar alguém, 
íncoercivelmente, à prática de ilícitos. As posteriores a esse 
pomo de vista atingiram construções extraordinariamente sofisticadas, 
das quais, talvez porque pejadas de altas de 
sabor hermético, ainda apaixonam os estudiosos hodiernos - tais 
diferencial, da anomia etc. Encampa a 
o forma de 
26, O JORNAL, Rio de Janeiro, I ou!. 1969. 
40 
alo nascerem certas pessoas com 
nll1l n 
veremos adiante, ela está infensa ii 
contrúrio lidS suas duas f\lrInadolas, 
de glândulas 
u-
A impugnação a elas também se nu campo da natural, 
embora de forma um pouco diferente da já citada, Ao encontrar nas 
uma popul caracterizada pela pobreza, pela ignorância, 
por se originar de famílias desorganiz.adas, por pertencer a minorias 
étnicas, os criminais concluíram solenemente: ii 
za, a ignorância, o ser originário de famílias degradadas, o pertencer 
a mi eis as causas do crime. 
que a verificação de campo 
três por cento o número relativo de del 
Para que 
determinantes, 
Mais cómoda revela-se a ecléticos. 
conducentes ü eclosão das condutas s veí.rias causas de 
cada natureza, ainda estas se mostram falhas na hora da com-
ê sempre para uma tábua de sa]va-
aumentar o número de fatores eaus,lis com ante-
riormente não indicadas. Tal ani ser ampliado e o foi -- até 
tornar inviável a contraprova . Atentemos para ,\ 
palavra de um dos mais autores da corrente: 
,<,'tlO os crimiu()S(Js? Crin7C e crinlfilOSOS: entes 41 
";\ i 
que são reconhecidos 
fenômeno illlli 
série; de 
um crime 
llÚO seriam criminos,ls 
car nada na de ordem 
ca" se consegue retirar dela. Se as causas são tantas c tão diversifica-
termina-se retornando ii estaca zero, por concluir ser o crime o 
do imponderável. 
Creio que se me permitirá repetir, a essa altura, o antes afirmado: 
o fundamento da criminologia amesquinha-se a 
uma arenga empolada, que cm torno de um núcleo cuja essên-
de mero senso comum. 
cri 
exatamente isso, ao dizer: 
sem o 
da 
o 
mento 
riência 
faz o 
crim 
de acordo com a sabedoria 
se condensou cm dois 
lcado do meio para o 
c "Tal pai, tal filho" (Der 
que na base da expc-
"A ocasião 
desencadeamento do 
II veit vom 
27. SEFUCJ, Ernst. Mallllo! di' 
Armcnio Amado, 1957. v, I, p, 314. 
Trad, Guilherme de Oliveira. Coimbra, 
42 
da hereditariedade 
a em crll1ll 
causa pasmo que 
do delito, tenha 
du crime, se vamos buscá-las a 
o descnvolvimen-
comum <l 
tão s 111-
aSSlm ordem ofici 
do criminoSll 
dificuldade 
cm ser idemificaclas: J. "a - uma conclusão que pare-
28. 
uu absurdn,,:!iJ do J1lccanÍs-
u 
das normas s, com-
de conhecimento da realidade e 
cimento. a mêUS 
tivas do mundo até o 'senso comum , ~lS vezes chanlado 
Dennis. 
Tavístod: Pub .. 1968, p. 
igioso, etc. Como modo de dornina-
lhe 
a per-
taria-
assim, 
lhe criminul. London. 
.VelO os cri/Hlnos'os? Crin1e e crinzillOSOS: ente!'; 
todo conhecimento é em alguma medida uma forma de submeti-
mento."30 
o grande papel ela ideologia é convencer os de que, 
dominadores a que os submetem, devemdócil e disciplinadamente: 
"Por esse pra comer, por esse chão para dormir 
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir 
Por me deixar respirar, por me deixar 
Deus lhe pague ... 
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir 
a 
qlle a 
:\0. CUNHA, Rosa Maria Cardoso da. O carúter retórico 
Porto Alegre, Síntese, 1979, p. 20. 
que cair 
31. CI-HCO BUARQUE DE HOLANDA. Deus lhe pague. 
da 
lU 
e nel77 () será 
acrescento r: niio deve sê· f(} 
e, sobrc[uc!o, n(/o del'c pensar que ~, " 
A maioria das pessoas acredita piamente, sem dúvidas 
ou questionamento, em certas "crenç~as jurídicas", inculcadas de 
maneIra pela ideologia, tais como: "1. Que existe um legisla-
dor racional nelo um sistema jurídico coerente, económico, 
etc, 2, Que o ordenamento não contradições e 
redundâncias e, o direito penal não exibe lacunas, 3, 
Que a ordem justa c os 
4. Que o julgador é, axiologicamente, 
neutro enquanto dec não há o na apl da 
I, LE DESIR DE PUNIR.. Pans, p, II. 
45 
46 
Justiça. 5. Que o julgador, no direito penal, busca a verdade real e não 
o elo ponto de vista valorativo."2 
Verdadeiros arrolados, até que se 
assertivas, 
por total 
acabado da indústria 
judiciário, para estu-
porém, como o demonstra a 
com a realidade. 
resulta da 
ele dois momentos: a produção das leis (legisladores), mais sua 
aparelho servindo de matéria-
prima para a manufatura os do povo. 
Busquemos analisar cada uma das fases referidas para, por fim, 
verificarmos' que valor pode ser atribuído à etiqueta de "criminoso", 
apl a pessoas ordem 
- "Deixe-me prossegui!; disse Colin. Você neIo se arruma 
mais aos domingos e não se barbeia mais todas as manhãs. 
- Isso não é wn crime, disse Nicolas. 
- Isso é um crime, disse Colin. " 
Boris Vian 3 
Ingenuamente, tendem os cidadãos a,encarar as leis como man-
damentos baixados por um poder transcendente, que as decreta com 
superior neutralidade e imparcialidade, verdadeiras revelações que um 
ente sagrado se digna a propiciar ao povo. Algo aureolado de um halo 
dívino, provindo de origens mágicas ou astrais, ditado por entidades 
supraterrenas, de natureza misteriosa. "A lei é a lei", diz-se religiosa-
mente, e estamos conversados. 
Ora, a ordem jurídica resulta da atividade humana, elaborada que 
é por um legislador, isto é, por um ou mais indivíduos de carne e 
2. Rosa Maria Cardoso da. O carâter do da If'!'nllnn/lp 
Síntese, 1979, p. 1 18. 
DES JOURS, Paris, Union Gen. Editions, 1980, p. 130. 
.';;clO os crinúnosos( C'riJne e cril1úno:u)s: ente.1) 
partilha de todas as 
que e ama, 
ça, tronco e 
vezes ao dia. 
a milit::lr, 
de estatuir as normas 
comuns aos seus semelhantes, 
que possui cabe-
pura idealização ético-
dita as leis a classe 
do sta/ils CfUO 
Tais considerações aplicam-se, às normas definidoras de 
crimes Penal e leis as orientadoras da 
pela qual se declarará alguém de Processo 
leis Aqui, mais do que em outro ramo do 
de passar por cima dessa realidade si 
e criminoso não são entidades 
ser vistas como 
/vontade cio slaclor 
a crença na 
embuchá-Ios com um 
o resultado da 
a tarefa de consolidar em 
dos grupos 
idealística que envolve 
devemos 
Na medida em que se obscurece a crueza de tais ene-
articul voando-a por meio de uma retórica 
obter a adesão camadas 
finalidade de manter ditos 
a regras pro-
em estado 
usá-la por 
i. 
48 
de de 
no sentido de eoartar tentativas de 
A lei, sem dúvida de 
no 
Penal relativo 
aos 
ü cri-
imn resllmir a um 
bens ou direitos de uma pessoa para outra, sem o 
mento da"4 
mais 
cantil, uma vez que vivem, na maioria 
E o que é um negócio, sobretudo um bom negócio, mais que 
tudo um excelente negócio? 
. ,Po~ieria u:na sociedade negocista sancionar com castigo os negó-
~IOS? ~na, entao, o da classe negocista punir os negócios, 
lmpedlfldo, des.s~rte, que tal classe praticasse os fatos que se consti-
tuem em sua atlvldade precípua? 
vez de adotar aquele modelo, preferiu a lei estilhacá-Io em 
. figuras delituosas, pois, na medida em que rompe a'vincula-
dl:'et,a da regra ética com a norma jurídica, oportunidade para 
subtraIr a a I . , -' c s que, se etIvamente, nao lhe ll1teressa per-
turbar. 
A oratória jurídico-liberal, como seria de esperar, enxerga as coi-
sas do m~do muito e dispõe de munição, em seu infi71ito arse-
nal retÓrIco, para justificar plenamente a solução codificada: somente 
a precisa do comportamento proibido satisfaz à garantia da 
reserva legal ("não há crime sem lei anterior que o defina"). 
4. CHAPMAN, Denllis. anel lhe lhe CrÍll1 inai. London. 
Tavistock Pub., 1968, p. 72. 
49. 
Eu mesmo 
vago, inconcusso ser 
de um preceito a irlcertcza dos sobre 
a conduta que lhes é defesa, ao mesmo em que fica 
I 
do 
, se infiltra em os 
centes ou não, quando subjugados às ditaduras e regimes asse-
melhados. A sufocação, o ambiente trevoso, o fazer ou não fazer 
transmudado em tortura permanente, assustadora e paralisante, o 
dia-a-dia repassado daquele terror mórbido que Kafka tão bem 
sabe transmitir em O processo."s 
Ufa! Por tudo a o Código preferido, à encampação de 
um conceito abrangente de lesão ao património, parti-lo num rol de 
definições, cada qual delimitando com rigor dado. comportamento 
específico (tipos penai tais como furto, estelionato, apropriação 
indébita, roubo, etc. Só minoso o indivíduo que 
observar no mundo fálico uma conduta precisamente adequada ao 
modelo abstrato prefixado em um daqueles da lei. Ocorrendo 
descoincidência cm algum ponto, o delito, 
por ausência de tipicidade. 
Por con ia, se alguém para si um bem ou 
direito do património de outrem, sem completa ciência ou pleno 
REVISTA DE DIREITO DA 
em bronco e relroof;vidade 
DO ESTADO. Lei 
Rio de Janeiro, 19:236, 1968. 
50 
consentimento do último, mas, apesar disso, sua conduta não se 
exatamente das condutas tas na lei, 
de delito, cm face da 
cubre as 
que contrariam a norma moral apresentada como razão 
de ser da dos contra o património: em easo vo, 
observemos se a ;Írea o por mero acaso, 
Toda vez o se dá pelo 
aos objetos em si ou facilmente se encontrará 
cia entre o do ativo e algum dos 
na lei penal. A tirada no roubo, a apropriação do dinheiro da firma 
pelo empregado-cobradór, e assim por diante, docilmente se adequa-
1710 aos modelos 111 dos infra-
conlra os sím-
se modifica 
kbdes 
em qualquer dos 
registrados no Código e, ausente a famosa tipicidade, torna-se inviá-
vel qualificar a ação como crime. Isso é que permite permanecerem 
fora da área penal hipóteses como as de jogadas de bolsa de valores; 
não-pagamento de empréstimos estatais obtidos mediante oferecimen-
to de garantias ÍnexÍstentes ou de valor muito inferior àquele por que 
foram avaliadas; recebimento de subsídios governamentais em contra-
dição com o fim a que se destinam; concorrências de cartas marcadas; 
jogos contábeis; transações fictícias entre firmas de um mesmo con-
glomerado; triangulares; especulação através da 
de mercadorias; evasão de impostos; subida artificial de preços; esma-
gamento de empresas concorrentes, de sorte a obter o domínio do 
mercado e imposição de condições escorchantes; fraudes ao consumi-
dor; anúncios falsos; enfim, toda a imensa gama de operações a 
permitir a de lucros e que caracterizam a retirada de 
bens e direitos dos outros (em , largas da população) con-
tra a vontade deles e sem que tenham conhecimento de estarem sendo 
defraudados. Tais contudo, revelam a se amol-
darem a dos 
Sabendo que os membros das classes a lidar 
com as coisas em (objetos, dinheiro) e as pessoas das classes 
StlO os crinzinoso,Ç? Crilll(~ e crinzinosos: entes 51 
média e alta com seus símbolos (títulos, papéis), percebe-se com nÍti-
dez que espéciede ladrões mais provavelmente cairão na teia do apa-
relho de criminal e qnais os que incólumes 
seus buracos.6 
Penso valer a pena submeter à ise a in elo art. 17! do 
Código Penal - ionato - pois oferece tal delito excelente material 
para etar o tema ora abordado. 
Reza o em causa: 
para si ou para outrem ilícita, em prejuízo 
alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifí-
cio, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento." 
Levando "lO da letra o comando a 
comércio lima vez que cm todu 
erro 
crc nüo visa a outra sn senão a 
daquele resultado, pelo entorpecimento da capacidade de percepção 
do.'ô ~Jlnidores. Talvez por isso os comentadores, em geral, costu-
mam criticar a fórmula legal do estelionato, por a considerarem ampla 
em demasia: "fraude" seria expressão vaga, de limites imprecisos, 
capaz de abarcar LIma enorme variedade de atos, muitos dos quais, por 
certo, não estavam nas cogitações do legislador ao instituir o delito. 
Se o anúncio da televisão e, depois, o vendedor da loja me afirmam 
que dada mercadoria é tanto a melhor como a mais barata que existe 
/' -
na praça e por isso a compro, vindo mais tarde a constatar que nao era 
uma coisa nem outra, parece que fui "induzido em erro" "mediante 
artifício", ou fui vítima ele estelionato. Para a sociedade burgue-
sa, como salta aos olhos, qualificar fato dessa natureza como crime 
representaria um insuportável despautério. 
Aí, apela-se para a capacidade inventiva dos juristas, a fim de 
dar um jeitinho na questão. , , 
Sem se fazerem de rogados, vêm eles e declaram: espera la, ha 
fraudes e fraudes, umas puníveis com pena de reclusão, outras não. E 
prosseguem. há fraudes s e fraudes civis, somente o 
(). Cf. CHAPMAN, Dennis, op. cit., passim. 
52 
rÓLulo de cnmlllOSOS Lll1~',H11-Se ~h 
lllais de estabelece L 
um tipo ele 
I:,) I 
membros ebs 
d J1l n lHes, A III ioria, po 
uinte : 
() problema llOS t rmo 
de fUiílbmclltal coincidem o delito ii u 
outro s:to uma rebeldia cuntnl ii ordem jurídí-
ambos num fato exterior ao 
a título de dolo ou culpa, /\ única 
elo 
li 
men(o do forçada, restiflilio 
nulidade do só deve recorrer ii pena 
da ordem j não se obter com 
outros meios de isto é, com os meios próprios do direito 
civil (ou de outro ramo do direito que não o penal),"" 
Essa maneira de 
faz em 
dC;nlicas nu sua 
em razão do tipo de 
De pela 
jado princípio da 
mundo abstrato das 
mente 
para classificá-Ias de criminosas ou não 
que as 
da rompe-se o feste-
não se resolve no 
matéria tal idéia representa inquestionável absurdo: o 
definido,;, crime em abstrato é o que é, uma com caracteres 
inteiramente na norma 
7, HUNGRIA, Nél,üil, Comelllúrios (lO 
v. 2, p, ln, 
S. ld., ib, 
Peno!. Rio de Janeiro, Forense. I ')'i 
I 
S("lO (JS ( rlu:lu()sos? Crime t! criulino:úJ,v: {'nies 53 
sem qu uer desses caracteres ou com o acréscimo ele nutros que 
nela inexi,;tam. vl:nto, do mundo cun-
creto (l !ccem 
,\s cin:un"U'ínc' 
confrontacl() com 
casu livo. dir-se·á: () 
mciro reqm 
ahstraLO JÜO é 
elemento do 
que o tipo do cste] ÍonaLo 
ele seus cuntornos. Onde 
sarcir o dano na área civil. 
Qual a "rebeldia ú ordem jurídica" 
alarme social? Ou, dito de outro modo, qual 
da 
rato relevante para o sistema formal-institucional, numa 
estratificada em classes verticalmente hierarqu ? 
dos membros das camadas superiores podem merecer 
podem vezes até irritar (individual 
porque não põem cm risco o Sf{{IllS quo 
c, carecem da c 
ponto de fazer jus aos go 
(visão de gru ,Incla mais 
i llferiores da sociedade 
de a 
de esta sim, causana e 
ai 
aos estratos 
Uma atitu-
em face 
das conseqüências indesejadas que daí decorreriam, desde a quebra 
da solidmiedade do grupo até a demonstração de que as pessoas gra-
das não são melhores, nem mais nem que 
~\S das classes inferiores. Isso ocasionaria um 
ll~\ distância institucional que separa as classes e poderia elar lugar a 
lllovimentos de insubordinação, E, nos regimes de poder, "a,c~rrup-
dos dominadores é muito menos dramática que a insurrelçao dos' 
54 
domínados".9 Ademais, a ideologia convence ser o crime coisa típica 
das pessoas Um indivíduo rico, pois, a ser consi-
derado por seus pares como imoral, imerecedor de con-
do de penúria. 
duro homem nunca, contudo, 
eapaz de merecer as atrozes 
do 
quem dis-
quem vive em esta-
passo, pois, aparece com mais clareza, ainda, a 
que a existência de delito (fraude penal) ou de não 
do estelionaUirio em termos 
no 
nua, te 
m autor de estel 
apanhado, não dispõe de patrimônio para indenizar o prejuízo e, por 
outro lado, seu golpe contra uma empresa alarma e perturba a ordem 
instituída. Já o dono de frigorífico que oculta a mercadoria cm mano-
bra altista, se chega a ser objeto de alguma sanção, o será em área 
extrapenal: pode suportar os ónus da multa fiscal ("O Estado só deve 
recorrer à pena quando a conservação da ordem jurídica não se possa 
o~t~r com outros meios de reClção, isto é, os meios próprios do direito 
clv:1 ~~ de ou.tro ramo do direito que não o penal"); e o "alarma 
SOCIal ,quer dJzcr, o alarma da classe superior, foi mínimo, uma vez 
q:le a ação atingiu apenas os segmentos da população para quem faz 
dIferença pagar mais 2 ou 3 reais por um quilo de carne. 
Equivocado, por tudo isso, está o dito popular ao dizer: quem 
rouba pouco é ladrão, quem rouba muito é financista. O certo seria, se 
quem rouba .- pouco ou muito - se situa na classe baixa, é ladrão: sc 
pertence à classe alta, é financista. . 
Porque, afinal de contas, não são os comportamentos (delitos) 
que contam, uma vez que o importante, de fato, para o eht 
9. SYKES, Gresham M. The 
1972, p. 53. 
o( New Princcton Ul1. Prcss. 
sâo o.v criminosus;; Crinle crinlfllOS(}S: ente:'; 55 
justi criminal, reside na posição social do autor. Como sugere 
. " .c s nao Austin Turk, o status elo é jJCSSO'l -
mas pelo que são. 
Acerca do cabe 
'rar uma manobra elo 
atuantes no campo 
criminólogos, 
e cidadãos comuns. 
~cofari'nho branco" rUJln, eis que 
para desrnasca~ 
U,-",:>,"J"" de bons pro-
angelicalmente -
stas, 
"crimes de 
da lelra da 
vvhite collar crill1es; -- em bom a versão 
deveria ser "crimes de e 
Basicamente, estão assim conceituados: 
tal como defini~ 
livro de Sutherland haja 
ca central deste tipo de fato é seu caráter classista. Por isso, 
Heller (I967) o denomina Kavalliers-delict ou delito de cava-
lheiros. Este caráter parece ser o elemento que contribui para dar 
a esses estudos, depois denominados das mais variadas formas 
(delitos económicos, delitos ocupacionais, delitos de enriqueci~ 
mento, deI inqüência de negócios), sua verdadeira importância 
em criminologia ... "11 
Empolgados pela perspectiva de colher nas malhas da justiça os 
';grandes" criminosos, revertendo dessa maneira o quadro cansativa-
mente repetido de só eonternplar os cardumes de sardinhas que apare-
cem como resultado da aparatosa manipulação do arrastão oficial, os 
penalistas se excitam. Escrevem, pesquisam, estudam e até pretendem 
agir, com vistas a tal propósito. o de certa 
forma uma penitência reequilibradora da consciência, que encontram 
10. Cito mcmorw. 
II. CASTRO, LoIa Jc. para lInJa sobre eri-
I1lCS colarinho branco na América Latina. RCl'ista 
Janeiro, 25:89, 1979. 
ícia, ele entrada da 
ce de acesso fácil ~l 
que-
critninrtl c0l1tr~1 
lada. ri 
de 
em tais áreas, elimina-se a forma mais qual a autorida-
de toma da de crimes, dando início a seu 
para o 
mente 
esquema de 
da a a 
intestinos através da sol 
porque crimes não são ali 
tendem a 
os membros da classe alta rarissima-
quando constatam ter por 
Há, desenvolvido e funcionaL todo um 
ser ~lcio!ladas dentro da e:-,ferai ntern~l 
de resolver 
uma vez que as roturas üs regras 
vistas como manobras inerentes inevilá-
12. M!AILLE, :'\lichci. rml",',I" critic(/ {/(J Direito. Coimbra, s. cd .. 1079. 
57 
veis de um todos os COns()c'iOs 
clube dus j<1 
que do 
popu 
da escada cnc~l1ni à ltu d,] ordem 
outros lindo que: \l me mo 
para () escuro da cifra negra. se ocorrer de o caso 
i l;di vi cI cul í stico 
.I11 1<..lil::.\l11 
lL. l, . c 
membros 
riencia de muitos anos 
11n1 
enxergar os criminais vanta-
da ideologia preponderante. 
Perigo real de punição para os infratores de colarinho e 
quase não há. 
De outra 
, nas salas ele aula, nos 
néW; coturno, colhe () sistema 
urn 
!1adora. Por tal via, instala-se nos 
de di midac\cs 
no amparo à sua ati 
súditos a crença de que a 
distribu concreta de vanta-
sas, tudo ficará 
elo dos Com isso, desvia-se 
de defeitos meramente do 
ma, evitalldo que constate a realidade de ser intrínseca ús 
estruturas a i 
As deI 
obedecem :1 esse 
que o vitima. 
de velhas, contra a 
58 
Sistema "O regime em que vocês vivern é o melhor que jii 
houve ou que em qualquer istiu." 
POl.'(} -- '"l\1as um grupo de pessoas tem carecemos 
até do que comer." 
Sistcnw -- porque há certos elementos 
bando o do SíilCO 
Povo - "Mas ... " 
Sisienw "Calma, 1 Vamos fazer uma peza, 
vamos esmagar a 
Povo "Iv1as ... " 
os 
Sistema "O que precisamos é de mais 
combater os grandões necessitamos de mais 
liberdade de ação. Olha aí, vamos cortar um 
força, de maior 
dessas boba-
de 
(odas as 
bacharelescas, Em 
lhas do melhor 
'() di/cm o me que." 
Sistema - "Quem diz isso são os subversivos! Mas não tem 
nada, vamos aproveitar os novos poderes de que nos estamos 
munindo para, logo de saída, tirar de circulação os detratores do 
regime - que é o melhor que já houve ou que pode em qualquer 
tempo existir." 
Naturalmente, há sempre a oportunidade de arranjar uns bodes 
expiatórios para assegurar certa credibilidade intenções manifesta-
das. Agarram-se alguns i uos provenientes das camadas média 
ou baixa que, comportando-se de maneira igualou assemelhada aos 
senhores das altas lograram ajuntar alguma 
riqueza de monta e se em exibição no pelouri 
pública, Ou, o que é muito mais freqUente, 
descobrem-se que dispõem 
de um ou dois carros, e de 10 ou mil de 
as condi 
monta uma fortuna 
através do de membros da classe 
para descar-
nos da virtu-
de entender a 
59 
Quantos honestos policiais, competentes promotores, magistra-
dos idealistas se prestam a funcionar como instrumentos 
convencidos de estar ndo como do 
não que nunca, nunca, nunca, concretamente, 
obter sucesso, nO ele um 
insetos? 
Ah, a miopia da classe 
(S[ ou 
hOlfver ln!! 
aos homens de 
Manuel Puig l3 
Como resultado ela descoberta da cifra negra, surgiu a indagação: 
a repartição dos delitos entre o claro e o escuro se dá aleatoriamente 
'01I obedece a uma tendência sistemática? 
Pal"l 'llnuns a divisão ocorreria meramente em função da c é ~ " 1+ f 
, O;;tros, porém, não sendo "crentes da , ' eles,cOI: l.am 
que a em causa estar a certos pnnclp,JOs~ 
C I apontaJ os omprovac a a v 
de diferenciação, em 
defeituosa tara da balança criminal costuma 
PUIG, TvlanucL o do mulher urm:I/(/, cd Trad. Rio 
J ancíro. 19RO. 
14. CHAPlv1AN. Dennis, 017. dr" p, <)9, 
60 
Levando Clll L'cm/a que a 
no 1 
maior 
do 
i1l0Il1el1l0s distÍnl\)s 
citos did:tll 
conLlld\l, que: I 
anteriormente, (') 
(c 
lo (k: ingresso 
du Ltto (dê a indici 
IIl11 delito 
) elo cri-
nerabilidade do a ser submetido a violências e arbitra-
riedades. 
Na fase policial, os elementos 
Cla: na judicial, o fator sub (/ torna-se an 
e d c os h c c 
como isso acontecc, 
lUaior 
Ue duas forma Ullla concreta vio] ü iei pcnal ú 
da ícia ciência, ele resto, decisiva em termos de fazer fUI1-
Clonar a UIIW da repressão: 1. scus vêem o delito; ou 
S({O oS crinúnoslJs? ('rinlC (;' crÚniJ1osus.' entes 
) s:lo 
\10. 
c 1 ,dcrttldos por aI que 1 tLlnsm i 
ln que ucon(l i1~11l1 
maior facilidade de 
ll:lllPO, 
des 
lei maiores com rapidez ao 
a aos logradouros 
extremamente dev8ssáveis dados tipos de 
61 
gam populares, cuja franquia se permite a 
quase () mundo e onde a 
te de eOllt~\r com a 
fave-
COl1-
I 
lllde l:i, como 
d~l i n 
62 
da banda rica da 
zonas urbanizadas, os 
trabalham apenas 
ÁS classes média c alta tendem a paSS<lf a maÍor do 
em locttis víduos 
elidas 
o 
vada~ . jogam, comem nas próprias 
resldcncJas ou nas casas uns dos outros ou nas vivendas de campo ou 
nos cl ou cm restnurantes e casas noturnas ele etc.: 
vem-se 
manccern 
do 
!llOrrU, di / !lOS C praças, 
andam a pe ou usam transportes coletivos, freqücntam escolas públ i-
cas, trabalham pelas ruas ou em massa (como na fábrica), lidam dire-
lamente com o público, reúnem-se nas esquinas. 
" Comprecnde-s~, por tais circunstâncias, haver muito mais proba-
bIlIdades de serem os delitos dos miseráveis "vistos" pela polícia do 
que aqueles perpetrados pela de posição social mais elevada. 
Como conseqüência, idênticos comportamentos, dependendo da 
classe a c!ue pertencer o sujeito, mostrarão varia~:ões quanto a gerar o 
reconheclmento de ser 
Por exemplo: um jovem, meio bêbado, outro. causando-
lhe lesões eorporaí.s. o j' t . a o se concretlza na rua ou no boteco, quer 
porque se presente, quer porque, estando próxima, foi atraída 
pelo alarido, a polícia pode comparecer ao local logo cm ida. 
Nesse caso, prende o agressor para conduzi-lo à e autuá-lo 
em "Viu" o crime e, para o claro. Se o mes-
contudo, acontece numa casa de de 
se for para 
mocorra, ~t 
que o autor receba (\ 
.\'60 os crinúno.\'os? Crime e crinlinosos: entes 
Muito contribui para a discriminação em causa a imunidade ins-
titucional os cidadãos ao rclato de 
vá ficar rnais claro 
ao elo vale a 
pena aproveitar a 
mente, aqui. 
referi-lo, ainda que resumida·· 
Por o crime como algo típico do pec::soal da arraia 
111 os das camadas bem não conse-
guem visualizar seus lá o que fizerem - como delin-
. Para enfrentar de atos 
elementos do próprio meio - inobstanle no 
como delitos - mantêm todo um mecanismo de defesa que se realiza e 
dentro de suas estritas de sorte a poder dispensar 
da 
:.l ordc 
o reI ismo da su 
sobretudo amiu(Jada, de existirem nos estra-
tos sociais de cima poria em xeque a visão maniqueísta ela ideologia 
que se deseja esposada, no que esta sustenta quanto a ser a sociedade 
formada de bons varões (os vencedores, os ricos) e homens maus (a 
ralé, a gentalha). Valendo-se de uma justiça privada, realizada no seu 
próprio âmbito, logram os grupos qualificados manter razoável disci-
plina, independenternente de recurso aos organismos oficiais. Como 
decorr§j1cia, eventuais trapaças praticadas nas empresas são resolvi-
das mediante a inclenização do dano e a demissão simples anota-
estigmatízantes) do autor, se é boa social. Ao 
aluno que agride o companheiro, machucando-o, aplica-se uma sus-
pensão ou se pede aos responsáveis que () transfiram para outra esco-
la, Se se trata de estabelecimento particular: O rapaz que estupra ou 
tenta estuprar a amigui as discussões e con das 
famílias recebe a de para Europa ou Estados 
Unidos, onde terá de o tempo suficiente se purificar. 
O clube grã-fino aplicará uma até a em caso de 
aos rapazes que arrombaram 
de onde furtaram pares de 
certamente inadmissível para resolver o caso do que 
de uma mulher no meio da rua, embora em ambas as hipóteses, 
64 
IVO, il cl1l1fí uraclo delito: 1'11 (l 
de cunho \adu 
pela 
rl1 casos grav~s, o ChC!Ill~UllCl1t() 
arredura da 
com mil!":' cClnstilJ1ci e eficiência. 
nos de Ul1!.iII11Cnto que paramos indivíduos 
para documentos c submetê-los ~l revistas s 
eias que constituem rica fonte de ai elas estatísticas relal i 
do JÍutor ao 
Construido pela 
o primeiro básico da imagem do criminoso que represen-
si mcsma como já mos, di! 
a seu baix~1'status social. Pedindo a uma pessoa que descre-
ta para 
de um deli teremos, em da respos-
la, o retrato preciso de um da classe social in , de 
tal sorte se tende a estabelecer i n tercftmbio en Ire e crime 
;\ teoria outro mérito nã() teve senão o de dar cunho 
científico a esse sentimento do senso comum. AIos sinais mor-
do "criminoso nato", descritos o pai ela crimi liL 
casavam-se harmoniosamente com referentes aos párias da 
sociedade italiana da Ao que o criminoso é, caractc-
lermos da 
noso. 
o 
l'nvo]venc!o 
abre-se facilmente a idade de 0\ 
p,lra dizer: o é, i eamente, cri mi 
irncnto de uma quantidade muito maior de deli!(" 
miserável do que remediados e ricos COI1'\ 
'Os 65 
la neeessúri criJl)(;, de que uidall10s 
vem 
scnl ido 
vídu con ídcr:ldus como rnillS prupensos ,1 cksrc 
A lll, ao p:cr,lrc ou abcrdarl:iJ1 11 nos 
QUlI1S, us policiais ()Ilar~() acordo com :l idéi,l 
suem a respeito quem criminosu. A maior Ciscali 
dados grupos do que r,:lati amvntc a uutros vai rmllWl' uma 
taxa divcrsa (::Illrc eles quanto ~i de infralOrcs que:; fic.:a-
rão idos na cifra negra. As estatísticas ofici cm de:;corrên-
ela, ()stentar~o um tímero elevado de criminosos oriundos das 
lJ';iSSCS 
do dia-a-dia, que todos conhecenl 
t,dvez aprovem, o não da análise muito 
e clarificador a 
Importante 
do ponto cm exame. 
ele rotina na da segurança 
se denomina de "batida 
batizada com nomes 
arrastão" , 
. a -flor" , c a r n Li \' a 1" , 
arco-íris" , 
"opera~~ão adeus üs 
por aí afora. diligência, 
a uma úrea dcnsamente Obturadas 
os moradores de se retirar do 
foi pI com todos 
a contar com a 
número de viaturas, um 
to, sofisticado sistema de Isolado o 
1.') invade os 
no cerco 
as 
local at6 o lér-
'1 j de serviço IS, COl!lO afirma .bmes T. a adola um esli o (e _ 
' f . ·t j'()I'Ç"l de OClIllaçao nas nas zonas das cla,se, altas, enquanto \lIlCI0na como UIll, .e 
:\rc'as hahil:td:ls genle de baixa renda (cito de 111ern"lria). 
66 
igindo documentos comprovadores de ocu lícita, 
armas c t6x 
em aberto. 
sas cm fl 
sua 1 
de mue", em 
das par,] uma 
gemo um 
desde a 
de bens de maior valor, apreendendo 
a mandado de 
süo atochadas nos 
nele sempre cabe e 
onde se submeterão a Ulnêl tria-
ou dois labuta investi que 
dos antecedentes dos deti através de con-
aos registros policiais, até "hábeis" interrogatórios .- um verda-
deiro pandemônio, com gritos lancinantes, berros tonitroantes, porra-
das para todo () lado, ordens no 
espa\'o, uma arrnosl'enl absurdamente histéri assisti ii mais de 
s:10 I nqlll'lcls c(\n! as quais nad:l 
llledi 
média número em 
tangidas até a cadeia, apenas 20 ou 30 alt remanescem. De 
qualquer sorte, porém, tais batidas determinam como efeito a trazida 
para o claro de um certo número de crimes e criminosos até então na 
sombra da cifra negra: tráfico de entorpecentes, posse de armas, 
receptação, contrabando, furtos, roubos, falsificação, vadiagem, pes-
soas condenadas ou com prisão preventiva decretada etc. Quer dizer: 
a submissão de um grupamento humano a uma operação do tipo em 
pauta cria condições para estreitar a faixa escura de sua criminalida-
de oculta. 
Ora, tais so sao e só se executam, contra 
as áreas de habitação das populações miseráveis, as favelas: 
"O delinqUente é identificado pelo fato de ser favelado 
antes de sê-lo ato de que é acusado. Na favela habita boa 
pobres dos centros urbanos e que 
de 
slio os crinúl1osos? Crinze e crilninoso.\': enles 
maioria os moradores das favelas nua são delinqi.ientes mas são 
tratados enquanto tais pela polícia e justiça."16 
natural que os morros e favelas consi~ 
derados como redutos de 
verdade, esses fatos em torno da 
[ra determinados grupos sociais, o que 
con-
significa a 
de uma classe sobre a olltra."18 
A ninguém ocorreria empregar o mesmo método de choque nas 
zonas residenciais das classes média e alta. Cercar e vasculhar todos 
de um r;1o do ou da urbanizada 
do !'vléicr z déid tcÍral1lenlc inconcebível. 
n:sultados 
li tais locais. Daria lugar ü descoberta ele i 
criminal menor, igualou maior que a observada nas favelas? A imuni-
dade institucional, assegurada em nome do direito à privacidade e das 
garantias individuais insculpidas na Constituição e na legislação ordi-
nária guarda-chuva que não protege os segmentos mais humildes do 
povo impede que se possa estabelecer um cotejo esclarecedor. 
2. O segundo traço fundamental para a composição do estereóti-
po do delinqüente fornece-o, ainda, a ideologia do contrato social. 
Arma-se o ilogismo de acordo com a seguinte racionalização: a 
sociedade é irrepreensivelmente justa; se h{l pessoas capazes-êie lhe 
desrespeitar as regras bL'ísicas as normas 
será reconhecer que tais pessoas são anormais, isto é, diferem essen-
cia-il1lcnte dos demais componentes do grupo social; por serem entes 
anormais, 
16. RAl\1ALHO. 
p. I 
17. leL. p. 170. 
18. ld .. p. 171. 
constituem, em conjunto, uma 
cabendo admitir que seu 
o verdadeiro substrato 
"desvio" e "desviante", tão ao da criminolo-
o mundo do Janeiro, Graal, I 
68 
1:\ 
de grupo tão 
m Jl1 () S (1; Ó 
elemento para ;\ 
os Cnmll1(lSOS 
: l~, num '1 L 
Os dois fatores são vistos cumo elementos de um mesmo circlll-
t alimenta o o serve de ,Feedback 
.0, I' 
realimenta () outro e a.,-;slm diante. 
sempre que existir 
ú na 
ser feita desde 
iro marClll1l' 
nal filcij Cieará. !l() 
identi 
Por seu tumo, a 
ç.a em reconhecer o r 
como ce1'-
Como a da j se com 
o que o acusado pam atentar cuidaclosamente para () que ele é. F 
aí a figura típica de um membro da a social aliada iI 
no boletim de antecedentes a decisiva no \crc-
dieto do caso. 
agora, a outra por melO da 
(omar conhecimento de UIll crime não o 
(\ provocar a 
dn infrator, Ullla vel: que 
nesse sentido tende a desanimar a ida 
ados 
cm q ue i tes de um prucesso 
69 
a 
ra, a fonte de crimes ú formal reduz-se, quase que 
cXc!llsivumcn(c, ú vítima, testemunhas pessoas a clas li por 
. Considerando que tuna eventual falta de do 
ksado a co]allo!',H' com dccl 
quc a a doutrina llOmbeteiem a ck estarem 
limitados a mínimas hipóteses os casos em a vontade do lesado 
'udicar. e muito menos 1 r, a alividade do 
Trata-se de pura que encontra mínima na 
concreta. De a participação ativa do do 
quer em j pesa bastante quanto ii sorte do 
E ai no diz a do evento 
ma silenciar, probabilidade 
de o rato deixar de ter ing:resso no que o levaria à luz do 
reconhecimento oficizil. A pnwa disso encontramo-la em certas i ra-
o autor, os demais pes mas. tes-
da bi do 
llO 
enormes cOllti 
não os "viu", ii falta de um lesado que 
ao conhecimento da pol irão ocultar-se na f<tixa escura da 
criminalidade. 
A alternativa aberta ús vítimas, testemunhas c correlatas, 
entre referir ou omitir a notícia da i à autoridade, gera, para 
elas, a c1ade de "julgar" () delito e o deli Esposando a 
,II' 
ii 
1 
70 
ideol a dominante, que a imagem que 
um "verdadeiro criminoso" influenciará 
quem não 
criminoso". No lÍltimo caso, a tendênci 
a em outra sede que não a 
A continuidade repetitiva desse modo de r faz nas 
estatísticas oficiais uma predominância de acusados pertencentes às 
classes inferiores, o que realimenta a concepção ideológica relativa ao 
lil minoso Ull1to quallto tabelas e dos crim 
nól 
beher nUnl:1 cas~1 
lentam mas 
pela seguranca da casa. Correspondendo os jovens à idéia 
que o dono do estabele~imento tema respeito do que seja um delin-
qüente, provavelmente a polícia será chamada a intervir, pois se con-
sidera de toda a conveniência que sejam punidos ou, pelo menos, 
ganhem um registro oficial pelo delito praticado, a fim de sé coartar 
prossigam na única atividade que essa categoria especial de indiví-
duos pode observar: perpetrar crimes. Tal registro, num amanhã que 
se profetiza próximo e inevitável, ajudará que sejam reconhecidos 
como "criminososrnesmos" da classe baixa + vida 
sa manchada). Se, são brancos, estudam em bons 
a famílias bem e o taberneiro o res-
pelo restaurante do Club ou o proprietário da boate 
da preferirá comunicar-se com os dos meninos travessos, 
para obter a do para que 
se impõe, a deve 
da disciplina familiar, uma vez que, mais obviamente represen-
taria rematado absurdo macular a vida de que não são "verda-
deiramente crim , como tudo está a indicar, com uma 
vexatória. No dos dois últimos a iva em ouir;1 
ia também não dará a a ausência de stm, 
vai assegurar a cada nova diabrura a certeza de scrClll 
os crlJnillosos? CrillJe 
"não verdadeiros criminosos" alta + 
o comércio de 
mais 
as destas do que as concretizadas por quem 
aparenta pertencer às classes média e alta. E, naquele caso, agarrado o 
Se u um não-este--
da 
de c similares ~ ou 
fora do âmbito cruel de uma delegacia, uma vez que representaria 
rematada ausência de bom senso submeter à ação da delegacia uma 
eriaturà que, como entrando pelos olhos da cara, nelO é um 
meliante. Mesmo na hipótese de reincidência, bastante comum, 
dispensar-se-á o apelo à polícia: "É a terceira ou quarta vez que pega-
mos essa moça surrupiando coisas; mas é claro que não é uma crimi-
nosa, é filha de um médico, estuda na PUC, a família é gente 
finíssima, cheia de grana, tá na cara que é um caso de doença -
é que se diz mesmo? - ah, sim, cleptomania." 
Certa indaguei ele um de dado 
válido com , entre os larápios que 
apareciam na loja, os que seriam verdadeiramente dignos 
de ir para a e os não-criminosos, a merecerem ser 
da à A foi imediata: "Se a pessoa não 
furtar, é porque o caso é de c não de crime." 
Via Dennis 
os executivos senio!' de um núme-
ro de comerciais I acerca da grupos (e casas 
ítica relati à das ladras de do que cabe con-
72 
cluir 
c. que admite que 
inrimidt\da através dé\ 
entrevistadus abordam 
está 
nWllto L'XC 1 USl :l1!ll'n-
que ii 
forma. de 
4. Tanto também os têm 
sua visão a 
pelas crenças 
minaI intensamente permeada 
da Pressionados a aliviar a imensa caroa ele to 
l1:Io só de sua repartição como do próprio Judiciário, são leva-
dos a selecionar os casos que aparecem, de sorte a evitar que muitos 
deles prossigam no rumo de uma apuração completa e atinjam as 
varas com vistas a uma E o guia mais adequa-
do para tal adivinhar, se consubs-
tancia no exame da figura do indiciado: ou não ao estereó-
tipo do meliante? ademais, que a final a tal 
to ao menos formalmente, ao 
membro da classe média 
hierarquia da estrutura da máquina repressora uma 
le 11 do herói grego: nem da dus 
filtragem, de acentuada 
vista para o incremento da prática dos 
, a ocupar na 
semelhélll-
que adota para emilir sua decis:lo constroell1-
fornecidos dominante. Entrc (\ 
19. CIIAPMAN, Dennis. Ii!). cit., p. 72. 
(' crimil1usos: c//Íe,\ 73 
t\) do crí\lUlo do morro dos acacos o do 
dl_~" possibil1" 
11 
Imelo CO!110 U 
raUlda cum hoa \untade c 
escolho dois 
ln~ltérj 
l)uÍ.\ '()vens meio 
carro esporte, tudo está a convencer 
lida 
de mulheres 
o aulom(Ívc! bem 
os rapazes não 
elos". Daí, os patrulheiros, o 
der 111avratura do aulo de 
o delegado hesitam em 
dos e se solicita a 
como uma vez que 
devolvam seus 
Telefona-se para a casa 
s. Das duas ele 
são. 
li bertados os 
dos 
e que 
duas outras, emocionadas c irritadas, recusam segtllr o 
em pouco, ii icialos do estudante 
e a mãe do executivo. Pessoas 
hém compareço, na idade 
filhos emociona a todos há 
finíssimas. Chamado JS , tam-
promessas de Mais uma 
o caso e dá-lo por encerrado. Os 
estão mai" do que convencidos de 
lurmal do 
,)S s, os 
tl'lltam vencer a resistência da 
mcnto definitivo: "A senhora não vê que é 
74 
esses moços queriam realmente roubar as bolsas? São umas ninharias 
os minha senhora. Foi tudo um porre mal tomado, nada 
mais. Isso acontccer com qualquer um. Os pais estão prontos a 
indenizar a scnhora susto e aborrecimento. Vamos ter um 
pouco de hUl11aniJade' Com alguma conversa 
acabou-se a um acordo. As 
com o 
conversando 
presos 
arrancarem a capanga de um homem. Um preto, o outro sarará, 
sem os dentes da Cheiravam a úlcool. recém-
saídos do serviço militar. Levaram uns e pcscoções, enquan-
to eram eonduzidos ao cartório, para a autuação na forma da lei. Eram 
evidentemente "verdadeiros crimi , o que ainda mais 
to dos antecedentes: 
já tinha est<ídD inicrnado na Funah,,:m. 
nha. 
s~rias dificuldades para Ir vaga 
onde estacionar o carro no centro. Alguém lhe su procurar o 
guardador da garagem de dada repartição pública, pois ele poderia 
"quebrar o galho". Seguindo o alvitre, o Doutor A. contacta o guar-
dador, aceita o preço solicitado, recebe um cartão de autorização 
onde constam dados que o beneficiário sabe serem falsos, e passa a 
usufruir da tranqUilidade de dispor de lugar certo para guardar o 
automóvel. Meses depois é intimado a comparecer ao distrito poli-
cial. A falcatrua do guardador fora descoberta. O Doutor A. e mais 
uma dúzia de pessoas de alta responsabilidade e inatacável gabarito 
moral e intelectual estavam envolvidos no easo, como usuários de 
documentos falsos. Convencido de que criminoso no episódio fora o 
guardador, não se constituindo mais do que em leviandade a conduta 
dos o delegado conduz o inquérito de tal maneira que, ao 
chegar a Juízo, o promotor, recebera pedidos de várias pessoas 
de suas move a penal contra o guardador, mas exclui 
da denúneia os demais indiciados. Na hipótese, inexistiu qualquer 
oferecimento de a quem que As autoridades 
tão-somente buscaram evitar a submissão de pessoas de bem - obvi 
mente não eram - ao vexame de se verem 
no foro criminal. 
Sü() os crinúnosos? Crinu! e crinúl1osos: en/c,\' 
Incapacidade do Agente Quanto a se Beneficiar 
da Corrupção ou da Prevaricação 
75 
No processo ele a que são submetidas as práticas cri-
com o vo de livrar de os 
centes às castas e destinar à punição formal aqueles 
oriundos da ralé, i emprego de variados filtros. De uma 
esse cuidado assegura ma de erros -' nào se 
vá misturar um de por alguma falha, com o joio a ser 
do na lixeira penitenciária. De outra parte, como a c1ireção discrimina-
tória realmente dcsejada deve ficar escondida atrás de uma cortina de 
ambigüidades, o emprego de variados e sucessivos dialisadores na 
administração da justiça permite a manutenção, formal, da crença na 
e santa, cxata-
mente 
não a 
con10 o faziam ~IS que antecederam 
na história. Como lembra James T. Carey: "As leis criminais 
revelam-se por si mesmas como instrumento de dominação. A legisla-
ção dirige-se abertamente contra as classes mais baixas." 
Causaria enorme constrangimento editar um texto legal como o a 
seguir transcrito: 
"Das pessoas ql1e são escusas de haver pena vil - para que 
saiba, quais devem ser relevados de haver pena de açoites, ou 
degredo com baraço e pregão, por razão de privilégios, ou linha-
gem, mandamos que não sejam executadas as tais penas em os 
Escudeiros dos Prelados, e dos Fidalgos, e de outras pessoas que 
costumam trazer Escudeiros a cavalo, ora o cavalo seja do Escu-
deiro, ora de seu Senhor, nem em moços de Estribeira nossos, ou 
da Rainha, Príncipe, Infantes, Duques, Mestres, Marqueses, Pre-
lados, ou de qualquer do nosso Conselho, nem em 
pajens de Fidalgos, quepor tais estiverem assentados em nossOS 
livros, nem em ou seus filhos, nem nos 
Procuradores das nem em e 
Pilotos de Navios da que andarem em navios nossos, ou 
de cem , ou daí para ainda não nossos nem 
dos amos, ou colaços dos nossos Desembargadores, ou de 
76 
de ou daí para nem nas pessoas que 
provarem, que costumam sempre ter cavalo de estada sua 
c isto que ou fi lhos de 
os Mercadores que tratan::m com 
para címa."20 
Naturalmente, a democracia do Estado 
dades de classe se di 
mas várias 
de chtí 
aI 
uma. 
enfocado neste itern ofere-
ce excelsas vantagens, mesmo que, por sua causa, a máquil1a da justi-
ça criminal a permanente increpação de desonestidade e hipocri-
sia. ao reverso do que 
serve ele úl íl na 
prestígio 
Dinheiro, importância, poder são os atributos que mais agudamente 
extremam os grupos superiores dos inferiores numa sociedade dividi-
da. Autorizando a que tais predicados ajam com eficácia na tarefa de 
batear a ganga criminal, obter-se-á uma separação bastante perfeita 
entre o metal de valor e o reles cascalho. Sob esse priS111a, por conse-
guinte, o dado discriminatório em pauta se harmoniza com e comple-
menta eficientemente o trabalho desenvolvido pelos outros anterior-
mente examinados. 
Como a principal peneirada incumbe à polícia realizar, e como, 
para que o fator em causa funcione a contento, impõe-se do 
operador aptidão para se deixar comprar e/ou intimidar em larga esca-
la, fica fácil compreender que, para o sistema, só interessa contar com 
uma polícia tanto venal quanto submissa ao jogo das pressões. 
Assim, a pretensão de reformara polícia, purificá-la, aperfeiçoá-
la, dignificá-la, transformá-la num órgão reta, honesto, equilibrado, 
traduz aspiração ingênua, desligada da realidade. 
Somente sendo corrupta e prevaricadora, a polícia satisfará as 
expectativas nela depositadas pelo sistema. 
20. ORDENAÇÕES FILIPINAS, Livro 5, título I capur. 
do 
c 
77 
o 
União Soviética ou a Coréia 
em que o Estado se 
mas os usa para favorecer 
elementos e fica 
deles detém a hegemonia. O que, de resto, aguça 
aperfeiçoa a capacidade selctiva do de segurança. 
A , em de ser considerada 
se mostra, 
lirar 
até em l1lai~; um inslrumento auxíl io na stotus C/IIO. 
A podridão policial, apresenta-a como questão fruto dos 
defeitos e vícios dos indivíduos que, no momento, exercem a ativida-
de repressora. E sustenta que basta sanear e aprimorar os fun-
cionais para que o órgão comece a desempenhar suas atribuições de 
forma lirnpa, justa e correta - quando então todos viveremos no 
melhor dos mundos. Ciclicamente, promove campanhas de depuração 
nas hostes policiais, aplica mais recursos no setor, aprimora equipa-
mentos garantindo que, logo, logo, a perfeição será atingida e aÍ... 
Por meio da manobra diversionista, convence a população de 
que o problema da distribuição de uma justiça criminal profundamen-
te viciada e deteriorada decorre de mero acidente, de má administra-
ou, ainda, porque de um povo que não presta fica inviável imagi-
nar que se possa recrutar gente de bem para compor o corpo policial 
("cada povo tem a polícia que mas que medidas enérgicas 
estão sendo levadas a cabo e, daqui a pouco, teremos um organismo 
puro, eficiente e equânime. Com isso, as pessoas deixam de questio-
nar a validade do próprio sistema, esgotando suas as em brados 
de revolta contra a polícia que atuall71cntc existe. 
2. t. KONDER, Leandro. Introdução Rio de Janeiro, Graal, 1979. 
78 
Enquanto se atenta para o que se pretende seja um caso de mau 
a que o 
fundamentos do sistema. 
L~Ii11(:ntável é que pcssoas de bons 
a trucidar as fOf11<ldas de 
aos altares da purifi 
holocausto se concede como 
embar-
que costu-
verdadeiros bodes 
de existir da 
cm alterar a si Lá se vão escri-
a pagar por um estado de coi-
sas continuará o mesmo, e dentro do 
mellte a atorcs, pois tal imprescin-
dível para que descmpenhem seus papéis de acordo com o roteiro da 
pcça. Ademais, os corpos sacrificados pertcncem a membros das 
fcrimcs, o li ue o Crl me 
até cicnti 
do acusado implica 
último. 
d 
altamente favoráveis para o 
Enfocado do ponto de vista formal, o fato não encontra expli-
cação. 
De acordo com a letra da lei, afora desimportantes, 
nenhum espaço está previsto para a atuação de causídico no inquérito. 
Por obedecer ao denominado "procedimento inquisitorial", a autorida-
de que o conduz age da maneira que melhor lhe aprouver na co/eta 
dos elementos de prová, descabendo vaza, em plano legal, para a 
intervenção da defesa nessa fase. O equilíbrio de ações entre as partes 
(princípio do contraditório) vigora quando o feito tem curso já em 
JUIZO. O delegado, na atividade preliminar, dirige seu trabalho como 
lhe parecer mais acertado, dispensado de fornecer explicações ou 
deferir requerimentos das partes e de seus patronos. 
Inobstante tal circunstância, raro é o caso em que uma pessoa de 
médias posses para cima deixa de se fazer acompanhar de advogado 
na polícia. 
Por 
reservado de para ser 
o ser nido de acordo com as 
. impedir que o constituinte sofra e 
os crinlillO,YO,S' ( CrinlC e crúJ1ino,yos: entes 79 
arbitrariedades; manipular convenientemente os frutos de pedidos de 
pistolões e do fornecimento de a quem e 
Examinemos a 
remetemos o leitor i't 
80. 
Os policiais mente ar com o a 
fazê-lo direramente com a parte. Inspira conhece melhor as 
regras do . representa um de certa ou muita 
conduz a transação sem vacilações e riscos (coisa inevitável quando 
se trata com um , conhece as I i em que pode ser atendi-
de sorte a eL\s 
di 
de si 
estarem todos em 
coínina pena severa. 
de 
Quem funciona na área penal conhece sobejamente a importân-
cia da presença do advogado no inquérito. Da simples leitura dos 
autos, com um pouco de prática, distingue-se, sem possibilidade de 
erro, os casos em que o indiciado deixou de contar com ela. 
Como, porém, oficialmente, inexiste um papel definido para o 
advogado na policial, que, por suposição, seguirá os mesmos 
rumos com ou sem a interveniência de causídico (a lei presume, tam-
bém, o respeito da polícia aos direitos de todos os indiciados), a 
Assistência Judiciária, instituição encarregada de prover a dos 
réus , não prevê de advogado para assisti-los nas 
delegacias. Com vez, executa-se o jogo duplo da 
da igualdade de todos (no 
plano se desequilibra a posição dos membros das 
à dos indivíduos bem situados 
Trata-se de mais uma 
está 
o sistema está atingindo seus objetivos. 
80 
mais eslÍ-
l11ulado ficará () 
indefeso estará o 
D30-nos notícias os 
ia de 
os U 
acreditar que () 
E no nos,>o caso'? 
sociaL 
para a Rússia ou a China ficilmcnLL' 
comunistas são fornecidas por fontes desa-
A m~lioria avassaladora dos delitos elucidados o com base na 
confissão do autor. () da concentra-se 
do indiciado ou O resto da atividade 1-
núcleo. 
elementos contra si mesmo, o trabalho subse-
demonstrar a veracidade sua 
por isso ou por a confissão inocorre. 
to central cap~lz de fornecer um sentido coordenado ao 1I1VCS-
l o tenderá a se , os adorando dirc-
81 
ma rOl,) de que cio 
de !'Clrma quase' absoluta, nbtcr :1 con-
Ct~l S cm coagir. 
lidade d,) 
O reslo e()nsuhsC1l1l:t~1 l11ero 
a l11V1 
delitos 
Quanto aos dois itens, há uma direta deles 
com o nível social a que o indiciado e com 
económica. Tendo recursos, poderá contratar um bom 
qual não só saberá eficientemente para garantir a 
cliente como, também, por sua . rcceio aos ais 
ele virem a ser emprego da tortura. De outro lado, no cír-
culo de conhecinlcntos dos familiares elo se tal se dá llum 
padrão de 
das em 
que estiver sendo 
autor, à para mexer-se 
contra a violência, uma vez que, de qu uer 
se reconhece formalmentecomo Trat,lI1-
de um elemento izado, 
ciai que, dessa 
abusar de 
esclarecimento do se 1 
dos métodos q II e cone! li zi ram ao sucessu ela i J1 vcs( i 
cm face da prova da cul pa e!o 
82 
embora raramente ou nunca se reconheça expressamente, 
todo o mundo concorda em que a única via que se mostra segura para 
de um delito é a da que, por 
. Com 
examinar um processo, um 
são minuciosa do detalhando 
todos os elementos para 
autoridades não se sensibilizam 110 sentÍ-
o motivo que levou o deI inqüente a se 
auto-acusar? A não ser um que outra razão 
será 1 como válida para icar uma confissão intei-
ramente comprometedora? Afora raríssimas exceções, as declarações 
auto-incriminadoras só ser concebidas como fruto de exercícío 
caV:l 
i vamcnl de q ue Li lou de tortura, 
encontramo-la os dias na maior parte dos processos criminais, 
que constituem massa de trabalho do dia-a-dia do foro: confissão por-
menorizada na delegacia e negativa enfática no interrogatório em 
juízo, explicando o réu a discrepância pelo fato de haver sofrido seví-
cias na polícia. Na maioria das hipóteses, duvido que alguém tenha 
dúvidas a respeito da veracidade da . A preocupação, contu-
do promotor e do juiz desliga-se de tal circunstância para se CC)!1-
centrar na verificação de existir no processo dados comprobatórios de 
encerrarem as declarações um conteúdo de verdade. 
Limitam-se a indagar: há contra o acusado somente a confissão, 
de outros elementos demonstrativos de que o nela 
descrito é verossímil, ou casa-se com outros elementos de prova? 
Assim, por exemplo, se o delinqUente contou na polícia que fur-
tou isso ou aquilo e que vendeu coisas a fulano de ou as 
empenhou na Caixa Económica, e a realmente encontra e 
apreende os objetos no destino indicado, tem-se por seguro que a con-
fissão só pode ser verdadeira, de outro 
da res 
mediante 
o conteúdo de verdade do ) 
, limita-se o julgador a expressar seu COI1-
83 
a 
absurda, mas que ocorre na 
nio samentc 
parte de ll1(lgistrados 
rem o llnico adeqmh para tais casos, no scntido 
de que: ° acusado é culpado, pois sua confissão está confirmada por 
t:ircunstâncias que lhe comprovam a veracidade; mas dita confissão 
evidentemente foi conseguida mediante mento da vontade 
icinis que a arrancaram, 
\) cmprego da tortura 
!l1 
reitt:.rada c o cndusso dos tribunais. Illstituci\lllaIJzanclo-
sc, funciona com maior eficiência. Às vezes, nem é necessário à polí-
cia bater: a certeza de que a violência no interrogatório ocorre sem 
maiores rebuços, sem possibilidade de ser coartada e sem perspectiva 
de gerar qualquer responsabilidade para seus autores, leva o indiciado 
miserável, mesmo antes de sofrer concretamente a aplicação de sevÍ-
cias (maus-tratos sempre há, tais como berros, ameaças, empurrões, 
cascudos), a relatar todos os pecados de sua vida. 
S que dos milhares de delitos patrimoniais cometidos, 
air;da dos que chegam a ser objeto de registro (a maioria não é), prati-
camente nenhum Gera uma investigação específica. Não há meios b " ~ 
para realizá-Ia. Serão os casos (inclusive, com freqUência, os não-
registrados) deslindados quando, preso um ladrão por qualquer moti-
vo, for submetido a "hábil interrogatório" - corriqueira, 
que encerra manifesta ironia, mas que é encarada com absoluto cinis-
mo por todo o mundo, que não provoca nenhuma verdadeira repul-
sa. Aí, o ladrão confessa 10, 20, 40 delitos, e os casos que estavam 
adormecidos no bolor das são trazidos à tona e 
como de "'l de êxito", 
as não sucedem ao relato do 
Relativamente ao ora nem se cuida muito 
de disfarçar por meio de complicadas ambigüidades e construções 
mostra-se de fáeil 
com bas-
"tem que 
ele indivíduos e náo a outras - c aí ocorre algo pos-
da Essa 
se enraíza no mesmo elemento qUl:, fun-
eomo de na do 
crirninal: a classe social dc onde 
Ern virtude ela de em que ficam os poli-
s -- cobra-se-lhes a solução dos casos, ainda que 
11, oficial 
a 
autoria do crime e fazer boa prova quando recebem vantagens elo 
criminoso. Nessa área, a corrupção torna-se muito difícil de ser com-
batida. Aqueles que poderiam puni-la reconhecem: sem o emprego da 
violência, a maioria das investigações fica fadada ao insucesso; 
porém, por outro lado, não podem do policial que use a violên-
cia, pois formalmente está ela vedada. Para desespero, sobretudo dos 
promotores, à vista de uns autos de inquérito que transitam da polícia 
para juízo .e;' vice-versa, por meses e anos a fio, sem que se consiga 
recolher quaisquer elementos conspícuos de prova, descabe uma ação 
formal capaz de pôr cobro ü inépcia do investigador, embora, como se 
pode perceber sem muito esfoí'ço, comprado para não descobrir 
nada. 
A corrupção, como já verificamos, aproveita a quem dispõe de 
recursos e todos sabemos quem dispõe ele recursos numa sociedade 
capitalista. 
Sem embargo de reconhecer na confissão do indiciado o ponto 
mais importante quanto à eficácia da violência policial, cabe lembrar 
que não está ela limitada exclusivamente a essa questão. As invasões 
de .. casas, a detenção e, às vezes, a tortura de testemunhas, o falsea-
mento dos fatos, o seqUestro de parentes do indiciado, a em 
flagrante por vadiagem (contravenção inafiançável) como recurso 
to em 
contra 
frutam. 
,",'tio os criminoso,)''! Crinlc crill1inoso,L' ente,)' 85 
de coisas em desacordo 
de toda uma séric de 
de um c1cli-
mais uI 
em face do baixo St{ltus social de que des-
a de chamar a para uma interessante manobra 
inventada para ou o esclarecimento de certos crimes 
que nilo interessa esclarecer, mas com base na 
silivo de s 
Refiro-me iI pela 
de, promotor público para acompanhar certos 
ado ta-se tal 
que, em rica ou faz-se 
mister a presença moralizadora do promotor, a fim de que seja viável 
chegar a bom termo a investigação. Geralmente, são escolhidos para 
desempenhar tais missões os membros do Ministério Público mais 
afamados em termos de responsabilidade e reputação. 
À primeira vista, a medida afigura-se altamente positiva. 
Tenho para mim, contudo, que, quando se determina a um corre-
to promotor que participe do trabalho policial, objetiva-se, precisa-
mente, não solucionar o caso, contando-se com a presença da ilustre 
figura tão-somente para respaldar o insucesso. 
Na verdade, a presença do promotor serve para assegurar, pri-
mordialmente, a interdição ao emprego da violência na investigação. 
E, 'sem violência, ou não se apura nada, ou o que se apura padece de 
pobreza franciscana em termm: de prova - tudo a benefício do culpa-
do. Quer dizer: o promotor funciona como garantia de que a lei vai ser 
respeitada; ora, quem se beneficia do respeito à lei é o indiciado, uma 
vez qtíe a polícia costuma mostrar rotunda ineficiência quando se dis-
põe a trabalhar estritamente dentro da legalidade. Com a presença do 
promotor, o indiciado faz até economia, lÍm vez que não precisa pagar 
aos investigadores para que respeitem a leí. Isso, aliás, origina uma 
indisfarçável má vontade por parte dos agentes encarregados d~ c~so: 
não conseguem dele tirar proveito pessoal nem conseguem elUCIda-lo. 
86 
E resmungam, enquanto fracassam: "Com esse cara aí, como é que 
Se me meter o cacete em dois ou 
lava resolvido há muito tempo, mas o é cheio de 
com ele para eu à moda - ih, o 
Então quc se Ele que se vire. 
r:.; o inocente promotor não que sua 
se em última como forma de 
so ele I LIXO - exatarl.1ente ao contr6rio do que 
participação no 
o crimino-
De acordo com a estrutura formal do aparelho repressor, 
~,~re () a llvacla 
do 
esta!l-
sob o 
mia a Na rcal é a l'Cl','1 C'jllCll1 "t 
faixa de atuação dos promotores e juízes, a estes concedida mínima 
possibilidade de se insurgir contra tal controle. 
Formalmente, o sistema clama por LIma polícia honesta,branda e 
equânime. De fato, exige que seja corrupta, violenta e parcial. 
Observemos os mecanismos através dos quais se torna viável 
levar a máquina repressora a atuar concretamente dentro dos padrões 
esperados e a vomitar, ao mesmo tempo, um sermão em que sustenta 
exatamente o contrário do que faz. 
~ecrutarn-se os promotores e magistrados dos estratos superiores 
da SOCIedade, enquanto os policiais, sobretudo os que desempenham o 
papel de lidar diretamente com a descoberta e dos delin-
qüentes, das camadas mais baixas; àqueles se fornecem recompensas 
(status, vencimentos) equivalentes aos dos membros da alta classe 
média; a estes, os do operariado qualificado; os primeiros merecem 
uma prote~~o institucional quanto a seus defendidos por uma 
llldevassabIlIdade quase sagrada; aos segundos se vota um desprezo 
temperado de complacência, que vezes pode 
do para 
ou por são poupa-
U"'''f''"ét,,.,,,, de se comportar desavergonhada-
süo os crinúl1o,\'o!>'! Cri!llt! (' cri/nino,vos: en/ex 87 
mente no concernente à aplicação de uma justiça parcial e classista; 
a massa dos policiais é retirada da ralé social, cabe-lhes a 
de suportar, de forma altamente nantc, os ónus 
dores das pu n' 
dores penmmeccr intocados. 
entre os autores 
devem purgar as 
, merecem de tais 
Aos domi por sua cm ii 
que devem ostentar e, até, em razão do autoconceito, repugna 
mãos em atividades indignas. Que as executem, os que não pres-
tam. Postura, de resto, sempre repetida na história do homem, como o 
comprova a posição social dos indivíduos destacados para exercer as 
atividacles de carrascos, dos cam-
do chuço da dOl11ina-
r que 
, daria risco de passar 
a"atuar como organismo capaz de autodireção e, nesse caso, geraria o 
enorme perigo de poder vir a ferir a quem a criou e a usa. Por isso 
mesmo, persistiremos assistindo à condenação e reprovação - verbal 
- dos abusos e podridão da polícia, no mesmo passo em que se ado-
tam - concretamente - as medidas necessárias no sentido de perseve-
rar naqueles predicados. 
Submetendo o universo dos delitos ao crivo seletivo da visibili-
dade da infração, ela influência do estereótipo do criminoscv,das con-
seqüências ela corrupção e ela prevaricação, do emprego de violência, 
a polícia separar com enorme eficácia, do ponto de vista do 
sistema, os delinqüentes a serem esmagados nas engrenagens da justi-
ça relativamente às pessoas que devem estar imunes à trituração. 
Exatamente ao reverso do que apregoa a ideologia, é a polícia 
quem controla e comanda a atividade do Judiciário, pois este só traba-
lha com o material concedido por aquela. Graças a pode o Judi-
cÚ'irio manter uma de e pureza, urna vez que a parte 
ostensivamente se realiza 
temente à sua e 
JUIzes inteiramente com ao papel 
a desempenhar. Afinal, seria um contra-senso desprezar a possibilida..: 
88 
de de usar 
eventuais 
até 
a justiça 
parcial e a) a prerrogativa atribuída ao juiz de 
decidir a causa em função do seu "livre convencimento"; b) a regra do 
in dubio pro reo, isto é, só pode condenar quando estiver absoluta-
mente seguro a respeito da culpabilidade do acus'ado, pois, ocorrendo 
alguma hesitação, deve inclinar-se pela absolvição, 
Descontada a forma impressionista da apresentação, as duas 
máximas resumem-se, na prática, a garantir um poder discricionúrio e 
amplo ao juiz no julgamento, /' 
Em que consiste, afinal de contas, a famosa "certeza lega]"? Em 
algo que só tem existência no subjetivismo de quem profere; decisão 
terminativa, Qualquer pessoa que atua junto ao aparelho judiciúrio 
sabe, perfeitamente, que fica muito mais f,kil vaticinar o resultado de 
um processo através do dado "qual o juiz que vai julgú-Io" do que 
fazer a previsão em função do fator "qual a prova constante dos 
autos?", O caráter corporativo da magistratura, armação hierárquica 
em pirâmide cujo cimo é ocupado pelo Supremo Tribunal, para onde 
são designados ministros nomeados pelo Presidente da República, o 
sistema de promoções, no qual desempenha papel decisivo ainda o 
Poder Executivo, tudo se combina de sorte a dar lugar à uniformidade 
quanto a um certo aspeçto das decisões, ao mesmo tempo em que per-
mite, quanto a outros, caracterizarem-se pela incerteza e ausência de 
89 
incrustados no campo 
A t;refa básica na apreciação de um processo criminal diz 1'es-
ao exame da nele contida, Por busca-se reproduzir um 
do 
rcu 
~ muito grande a do grau de perfeição , de ser " 
na operação, haja vista que os seres humanos envolvlClos l~um epls~­
dio criminal tendem a ter sua capacidade de senso-percepçao prejUdI-
cada pela emoção, pelo tipo de relacionam~nto ~om, as partes, pela 
maneira de olhar o~ mundo, pelas crenças llTaClOnalS que adotam, 
enfim, por uma de empecilhos que dificu:tam a ~pre,ensão da 
verdade dos fatos na sua pureza objetiva, Além dISSO, o luncJOname~­
to da memória, no que atende à evocação, traduz, como o ate:ta a PSI-
cologia, uma reconstrução voluntária do passado, consclC~te ou 
inconscientemente distorcida em função de uma de condICiona-
mentos deformadores a que está submetido o indivíduo, O ambiente 
do tribunal também tensões emocionais nos depoentes, que, com 
freqüência, sofrem bloqueios e terminam dizendo coisas que nem 
estavam na sua intenção dizer nem guardam correspondênCia com a 
verdade do que se passou, A prática forense cunhou LIma bastélll-
te si 0nificativa a respeito da precariedade das declarações prestadas 
nos l~rocessos: "A prova testemunhal é a prostituta elas provas," Nesse 
caso, a imensa maioria das sentenças se apóia sobre um bordel. 
. E o que é dúvida, o que é certeza plena? 
Há dúvida quando há uma possibilidade em dez de que a acusa-
, 1 I' "O I' 'a OSsl'bl'j'Idade é de uma para não seja vere ele eIra! II quanc o esse p " 
cem? Ou para mil? 
90 
Em 
uma lidade, ainda 
veraz. Minha 
Por 
a 
a 
incerteza. Na 
estará livre de 
as 
, uma vez que o material sobre 
r um de certeza -- ou, 
- mas tão apCIl<lS dc 
011 
objeto, ou, ao contrário, da 
mcnos, de certe/o 
objeto. 
se resulta da vista do 
dêlCJuele CJue viu () 
Por 
sJo q alru OU CICI1-
ou 
llão séÍo 
uma certeza extrínseca.'·22 senil0 ele 
Tal circunstância está reconhecida de resto .' " c I . 
cessu'tJ qu ~ t' ;o-' , • ., plOplld el pro-
, " ~', . e ou 10. ndO pode ser o sentIdo do intrincado aranhol de 
I ecm sos por ela cUIdadosamente elaborado 
,~, vDiant~ ~a dificuldade de extrair da p;'ova do processo uma real 
cei teza, o JUIZ tende a deslocar o objeto de i c" , -I .. ' 
menos dúbi-l " .. paI d sec e 
" c para ele, se ahgura mais palpável mais concret'\-
mente apreensível' a fiuu" I· d . ' < 
o . ,'. . b. I d (O dcusa o. E aqUI relcvo especial ganha 
que subJeuvamente alimentado 
um criminoso. 
. .rOUVET, Tmílé de 
há 
um 
que conduz o juiz 
Paris, E. Vilte, 1949, v, I. p, 1 
,v/ío os' crinllnosos? (:rimc crinzinosos: entes 91 
mas opções eticamente comprometidas que, por sua vez, já 
cm escolhas probatórias valorativamcntc determina-
das. Assim, no discurso j , () critério de é 
anto ü ia entre os cfetivamente 
ocorridos e os juízos decisórios, sabemos que a 
lhe o verossímil e não o verdadeiro, Nilo c',;{io 
mente ditos que se provam. as afirma-
de sua existência e da a partir 
desta o juiz resgata o que 
e constrói a 
"Assim, no processo penal, não existe demonstração da 
Em ambas as instf\n-
Na forma da o deveria examillar a prova do pro·-
cesso para concluir se está demonstrada a existência do delito e sua 
autoria por parte do réu. Atingida tal certeza, então se preocuparia 
com as condições pessoais do culpado, para o efeito de escolher a 
pena a ser aplicada. Na prática, porém, há uma inversão na operação: 
o exame da pessoa do réu, a ver se corresponde ao estereótipo 
do clelinqliente, para depoisverificar-se se os autos fornecem elemen-
tos razoáveis para amparar a decisão sugerida pela convicção previa-
mente ·Para tal convicção, a fonte de certeza reside em algo 
extrínsecoü prova do fato, pois sobre a prova relativa ü per-
sonalidade do acusado. E, então, um dado uma importância 
: seus antecedentes. A existência ele anteriores cnml-
funciona como o verdadeiro fundamento em que se vaI basear a 
certeza do Mesmo 
o aeusado a 
l~ curioso observar corno se tem em 
ainda há 
Rosa Maria Cardoso da. op. ciL, p. I 
1. 
até 
92 
ASSlnl, apesar de tecnicamente 
de antecedentes." 
a existência de um conceito de 
fora dos limites pela 
o fato de ter transi-
tada cm j por delito anterior. O que é uma defini-
jurídica de reincidência, da qual não se consegue entender como 
o acusado 
só se compreende ade-
rência dos magistrados ao estereótipo do criminoso definido pela 
ideologia: indivíduo da baixa classe sociaL com folha de antecedentes 
rnanchada. 
Configurado o tipo abstrato do deJinqüente, basta encontrar sua 
confissão no inquérito policial: dissipadas estão as dúvidas que pode-
riam torturar o espírito do juiz, e este condena de consciência tranqUi-
la. O móvel da decisão vincula-se muito menos ao fato em si ou à sua 
prova; o importante é saber se aquele indivíduo deve ou não ir para a 
cadeia. Não interessa o que fez, mas o que é. 
Outro fator de fecundas conseqüências para a distribuição discri-
minatória da justiça está representado pela atuação do 
O processo, em JUÍzo, reveste a forma de um duelo. Do lado da 
está o promotor, às vezes ajudado por causídico contratado 
vítima ou seus parentes para funcionar como assistente. Da outra 
parte, obrigatoriamente, terá de haver um advogado a exercer a defesa 
do réu. O resultado da pugna dependerá, em da combati-
vidade, experiência e força dos trocados pelos 
rios. O sistema encontra similar na ldade Média: 
"Outro tipo de I que, não sendo duelo-vingança, nem 
dllelo-meio-de-prova, não se confllnde~ também, com o duelo de 
93 
examinavam se os lidadores 
se tidas as 
ita ele 
VéU "os I são de Os promotores são servidores públicos, 
concurso, em geral bem-remunerados, gozando de elevad? ~·tCltl~S 
social, tudo concorrendo para que sejam recrutados entre proflssIon~s 
de médio a bom nível. Os advogados contratáveis pelos acusados sao 
profissionais autónomos, cuja sobrevivência depende, em grande 
parte, da obtenção de resultados favoráveis nas causas e:11 que atuam, 
escalonando-se, informalmente, em razão de suas qualIdades, .desde 
aqueles pouco dotados (mas baratos) até algu..!).S verdadeiros lUJ11mares 
(porém caros). Aos réus carentes de recursos . contratar ad~ogado 
particular, o Estado os defensores públIcos - esco1l21clo.s ~e 
maneira semelhante aos promotores, mas com ganhos e çoes mte-
riores a estes. . . 
aqui, embora de fato ocorra algum desnível, pode-:,c admitIr 
que, os campeões um certo eqUlI. em 
termos de força. Dadas circunstâncias, todavia, drastIcamente 
o quadro. -
Já anotamos, anteriormente, que o indiciado que pode contratar 
adVOGado conta com sua atívidade desde a fase policial o que nunca 
b 
26.-'ITIOMPSON, Augusto P. EscQrço histórico do díreiro criminal 
Rio de Janeiro, Editora Liber Juris, 19R2, pp. 53-54. 
Y4 
facilitando o 
que o cliente da defensoria 
ça a terreno no ilíbrio de Isso vai acentuar-se, de 
maneir<l brutal. em seguida. A grande massa de réus que a íci,\ 
um tipo 
barra tribunais constitui-se de 
honorários ainda ao mais modesto ou 
Com isso, a clientela dos defensores 
Fica-lhe, literalmente impossível dedicar cuj-
a cada um dos casos que são postos sob sua responsa-
conversar COI11 
CJua pruva 
guem re;Jliz~lr: os aIos s - J 
l1111nhas, alegações orais e escritas - sucedem-se numa torrente insu-
portável, que não consegue ser acompanhada, mesmo em plano mera-
mente formal, pelos massacrados defensores. Para resolver o proble-
ma, o jeito é apelar para o concurso de - estudantes de 
direito - no sentido de lhes cometer a maior parte das atividacles na 
defesa dos réus Corriqueiramente, o passa a exercer 
uma fiscalização sobre o trabalho dos estudantes, ]imi 
tando-se a chancelá-los com natura em e defesas, com o 
que atende, formalmente, à constitucional da "ampla defe-
sa" a todos os Em nada foi 
uma vez que a ocasional boa - ou até o e o 
de estudante - é insuficiente para permitir o desenvolvimento 
de uma 
Triste verdade que com absoluta segurança: a 
maioria dos réus é sem ou, o que dá no mesmo, 
com um mero simulacro de defesa. 
Por tudo 95 
das camadas nalizadas da 
dicional recebe decidido amparo 
a do fato. 
que 
cega nClscença, 
depois' mil dos anciãos, que pensnva pr()fundal71enle, teve 1:01/0 
idéia. Ele era () mClior doutor entre esse povo, seu e tll7ho 
um espírito filosófico e . assim a idéia de 
curar Nunez de suas peculiaridades. Um dia, quando faco!J se 
ele voltou afolar no caso de 
• • 0. /7al'" !'ll·l·}1 o caso é claro. Examine I L Lf' 
Considero muito ele ser curado. 
_ É o que sempre supus - disse o velho Yacob. 
__ com o - () doutor cego. 
é que () ataca? 
Ah! - disse o 
- Isto -
Edaí?- o 
e que existem 
no caso de 
Süo 
movem e, em 
constante de 
-E 
96 
-- Creio cml! !JasfOlIfe certeza que. para curá-h) 
por bosto-nos IIIIW e 
saber renw~'cr esses irritontes. 
luento/mente :; 
smlio e será fim cidadüo admircíve/. 
eéils ciência.! eXc!(//1l011 () velho 
imediataJ/lente cOJl/wlicar (l SilOS e.\'I)C-
com as cores vistosas do pro-
gresso e da benemerência, por isso endossado ingenuamente por libe-
rais e homens de boa vontade, atua, de fato, como eficiente ferramen-
ta da opressflo/repressão, a fornecer-lhe meios tão duros e cruéis 
quanto os castigos empregados pelo direito penal retributivo. Pior: na 
medida em que oculta o verdadeiro objetivo atn1s da fraseolonia da 
. . b 
ressocwhzação do delinqUente, cega as pessoas quanto à violência dos 
métodos empregados, dificultando, assim, o surgimento de movimen-
resistência contra eles, 
Os instrumentos inventados como aptos para atender a tais pro-
pósitos ambivalentes são a penitenciária, o manicômio judiciário e o 
internato para menores, com um desdobramento posterior constituído 
pelo denominado "tratamento em comunidade", cujos precursores 
foram o livramento condicional, a suspensão condicional e a liberdade 
ada. 
A incapacidade de alcançarem as instituições fechadas os fins a 
que se propõem encontra-se hoje comprovada de maneira irrebatível, 
embora ainda haja batalhões de e que cOI1ti~ 
I FROMM, Erich. Psíc{//uílise da suciedade 3. cd. Trad. L A. Bahia 
e Giasone Rebuá. Rio de Janeiro, Zahar, s.d., pp. 190-1. 
97 
meta-
sistéma viu-se 
do fracasso dos cíta-
a mesma c 
evitar o desmascaramento dos reais 
a cm 
niio tinha (l menor idéia do que significavam latitu-
de que er(lm 
em variados nomes: 
ção, cura, educação, reeducação, reabilitação, regeneração, emenda e 
outras tantas, o que parece indicar, por um lado, que ninguém sabe 
precisar exatamente aquilo que se visa a conseguir, e, de outro lado, 
que o verdadeiro desígnio a ser alcançado se oculta sob o véu dessa 
rica prolixidade. 
De qualquer sorte, o tratamento penitenciário aponta-se como o 
alvo principal a ser atingido pela pena prisionaL Principal, mas não 
exclusivo. A seu lado, alinham-se outros, menos altissonantes no 
plano verbal, mas cobrados com severo rigor: punição retributiva pelo 
mal causado com o crime; prevenção da prática de novas 
através da intimidação (particular e geral); e separação do indivíduo 
relativamente à comunidade livre, Havendo atrito operacional entre 
estes fins e aquele alardeado como meta precípua, inadmite-se o 
fício de uns em homenagem ao outro. 
2. A é de Rupert Cross em PlIllíshmellf. Prísol1(md lhe PlIb/ic. Londoll, 
Steves and Sons, 1971, p. 165. 
3. A matéria deste n. 2 contém um resumo da obra de minha autoria, A 
lencíâríLl. 5;[ cd. Rio de Jancíro, Forense, 1993. 
4. CARROL, Lewis. Alice's Adventures in Wonder/(ll1d. Oxford, Uno Press, 1976, 
p.l1. 
98 
A combi dos objetivos dificuldade de ser 
ainda no plano meramente 
retributivamente é 
E os 
A falta de 
penitenci 
uma ada ao tratamento 
em duas 
correntes: uma, aproximan o trabalho reeu i1 ativi 
m é d i c a ; o II t r a , a sim i 1 a 11 d o - o p r ~lt 1 C a s e LI li C a c i o Il is. 
mente. em terreno Uio indefinido e fi há urna forte ten-
dência para as co do que resulta o 
teórico da condução da vida prisional, com grande freqUên-
cia, a aparência de um colorido coquetel, cujo conteúdo pouco tem a 
ver com os materiais que, , o . E se olvida 
uma Clrcu lâilcia relevante quanto ao dcft~it() de L10 
é, sofrer, em nume ela retríbu () 
paciente/aluno durante o desenvolvimento do processo curatí-
:o/didéltico. Só mesmo o penitenciarista, que nem é doutor nem pro-
fessor, pode ser capaz de encarar a sério a estrambótica incumbência 
que lhe é proposta. 
Gravame de maior envergadura, porém, na rota da satisfa-
ção do alvo apresentado como o mais importante. É que ao lado das 
metas formais atribuídas à prisão - as quais, como parece evidente, 
testilham entre si -- há ainda objetivos outros por alcançar concomi-
tantemente: impedir que o preso fuja e fazer com que 
sil ordem intramuros J inauaoem "sses b b \...,' ~ , 
nam-se segurança e disciplina). Em 
doutrinárias, informais são rigor 
pela sociedade, razão que os a se transformar, em verdade, na 
finalidade centra-/. dos estabelecimentos Para 
se, predominantemente, os controles do mundo livre, no sentido de 
fiscalizar-lhes uma exata consecução, no mesrno passo ern que aque-
les demonstram frouxa no que aos 
Bernard Shaw CROSS. 
Steves aml Sons. 1971. p. 47. 
PUI/ishelllcnf, Prisoll mu! Puhlic. 
selo os criJninosos CriOlC e crÍnlÍ!lo.\'os,' entes 99 . 
vos formais. Observe-se, verbi gratia, a assiduidade com que retor-
üs vezes de 101lf'O pessoas que mal saÍ-
ram exatamente por. haverem ídênti-
cos aos que as levaram a ser A reíncid(~ncia presl~me-se 
que entre do que não há certeza por falta de est,ltÍS-
número, porém, que se considerar como muito 
face dos dados de outros 
com o mais rico c sofisticado sistema 
do munJo, mais de A .recidiva implica a prova incontestável de 
a falhou no como na meta 
intimidação): submetido ao tratamcnto, com freqüêncía por vários, 
muitos anos, o indivíduo continuou tão criminoso como antes. O fato, 
ostensivas ou mani 
assimilado com 
hiJi 
Illlltilll. u! homicídio intramuros dand() 
lugar, muitas vezes, a verdadeiros escândalos públicos. Movimentam-
se os de comunicação social, a matéria ganha manchetes de 
primeira página dos jornais e o horário nobre das de televi-
são. Os episódios são investigados com a finalidade de apurar respon-
sabilidades e disso resultam punições formais (demissões, processos 
cri ou informais desmoralização dos culpados). 
Ora, nunca ninguém se lembrou de adotar medidas semelhantes para 
o caso da 1:9l1cidência do egresso da prisão indivíduo submetido ao 
trabalho curativo/reeducativo elo tratamento penitenciário que comete 
nova i i1 entretanto, 
prova de que a i quanto ao alvo apresentado 
oficialmente como o mais importante c, logo, seria curial identificar 
pelo insucesso, se tal é a medida adotada no diz res-
na dos fins informais de seguran-
vê-se 
ele, 
Ir 
um me de asfixiante cerceamento à 
da disciplina "preço alto que se paga pela 
100 
do 
(e'l 
ma requer () 
d~lde, ~t ~1111ocunfi;HH:;~~1~ ~lt) 
coerente FeLl 
do aUlodisccmÍmenlo, (1<, 
de 
I i-
ra\'or:íYel 
d com uma 
que a lilli-
I i-
c!,; 
(cdu" os fins 
íolítica uper(1-
infnrmais 
ser ati concumitantel s() resla saerificlr tlllS cm 
uutros, Pelos motivus ,1lL1S -apon 
livre para 
soas, ou não 
em reconhecer a manifesta 
Dois 
al a controles 
do de quc tal 
troles forem 
de livre, 
fornece mínima segurança 
v s que os C()l1-
dife-
;\ i fechada "não é uma miniatura da sociedade livre. 
mas uma sociedade delltro de uma sociedade",') uma VC7 que nela 
foram alteradas, drasl numerosas elo mundo extra-
muros: 
JONES. H,)W;lrd' Crime ({/Ir! lhe 1'('110/ 3, ccL Londol1. lJn, Tutorial Prcss. 
s.d" p, 24"+. 
,SYKES, CJreslJaIll, up, cÍí" p, 4i:l, 
í-\, FOX. Vemoll. Prisol1 nar)' I'roblcms, ln' JOHNSTON; SAVrrZ & WOLF-
GANO, orgs, Tile !'lIllishmcl1l ([1Ir! Corrcclioi1, 2, cd, York. John 
Wi af1(! Sons, s,lI" p. :19,+. 
,){IU (JS cTinúnosos! Crill)( .. ' e c'}'inú!iosoS. eníes IIH 
"N:t vida vil. o cidadão é, geralmente, membro de uma 
la, um nl1;:\ ,de 
ilIIU CC111l níd 
permanente, con.línuu c, 
cm contraste. 
da 
111cnt,; resultantes da muradia numa 
embora cm 
reI 
compu!sórí;lS 
local de 
s, que "treinar homens pare ti vida livre 
os a de II se tão absurdo "como 
12 para uma corrida ficando na cama por 
O uso da da liberdade humana deu lugar ZI 
como é 
dinaria este. 
eOn1l1l11ente acontece, desenvolveria um 
mal, chi concreta dos 
ndendo esse fato, 
nificado da vida intramuros não 
muros e celas e trancas. Os 
<). SYKES. Grcsh~l111. ()jl (ir., p, 75, 
1o, CHAPMAN, Dcnnis. (1), (·il., Pi', 201. 203. 
mas, como 
infor-
dos 
se iram en\'ol idos. 
1 I. CROSS, Rup,:rL "IJ, !'ÍI. p, ! C" . 
1 Thomas M, Osbornc iljmrl SUT1-IERLi\i'JD & CRESSEY. PrinciJJes I e J'li71I1IO-
V crsflO francc,sa do Inslituto de Direito dn de 
Paris. Ed, Cujas. 1966, p, 51 J, 
102 
comunitárias são de . fundamental, se se 
las no modo real ele 
Pois 
é 
a caractcrística marcante da 
a tentativa mai extremada 
captá-
ele um grupamenlo mano a um de controle total. As regula-
estendendo-se a todo o c;:lmpo ele individual, a 
lfincÍa constante, a do nas mãos de uns pou-
cos, o abismo entre os que li-
dade de si de 
tudo concorre pare identificar no caso um 
Acrescente-se que a ali - presos, 
soaI da direção -, vê-se comprimida numa área física angusta, as pes-
soas viver numa intimidade esl onde a conduta de 
"Nuo é 
~1 rba os indivíduos mas u 
'ndo cm cOlldi-
que Illl ln na vida 1 que illgrcssd 
dade peculiar submete-se a um processo dc assimilação, a que Donald 
Clemer 15 batizou com o nome particular de prisonizaçclo. O pri mei ro 
passo, e o mais obviamente integrativo, diz com o status do novo 
membro: transforma-se, de um golpe, numa figura anónima de um 
grupo subordinado; traja as roupas características elo grupo; é interro-
descobre que os custodiadores são toelo-
as classes e graus de autoridade dos funcionários: 
usando ou não a gíria local, apreende-lhe o acostuma-se (l 
comer apressadamente e a obter alimentos através elos truques empre-
pelos lhes estão próximos; adquire -novos hábitos sexuais: 
ria de todos; olha com rancor I"OS; 
do de diversificadas e 
deve administrar por ele -
uma 
cÍl" p. 14. 
JOHNSTON, SAV!TZ 
ol P!llIisfll)/Cnr (/1Ir! Correcrioll. 
pp. 47 t)·N3. 
o 
ele que o meio ambiente 
e de difícil 
da atitude 
(j,y crilninosos? CriJne e criJllinu,Yos: entes 103 
na vida civil -, do que lhe resulla "adotar 
do mundo".!6 A da e clis-
ilimitado sobre 
Vcda-se-lllc 
Cumo 
de um 
elas. O preso está 
(inal' J 
as minuciosarnen 
devem provir dos 
rimcntar () sentimento serem corretas ou 
uma obediência cega, que leva ao automatismo da conduta, habituan-
ele. E 
ObVl:J!llcntc 
di ;,111 o modo de vida 
nada surpreendente, a grande maioria dos egressos dos estabelecimen-
tos carcerários tende a retornar a eles, pois se transforma em clientela 
crónica da instituição fechada. 
A incapacidade regeneradora da prisão, como se resulta 
de condições ínsitas na própriaillStítuição, ao contrário da desculpa 
pela qual se justifica a insistência na sua manutenção, de que 
os fracassos constatados da sua história - em todos os 
em todos os lugares -- decorrem de meras circunstâncias conjunturais, 
sobretudo pela precariedade dos recursos alocados ao setor. Não é 
ste a mcnor de resol-
tica concordam em 
do tratamento 
necessário resolver, preliminarmente, o problema da superpopulação 
. Acontece que tal insol A 
de quem estudou o 
1(1. i\ nbservaçilo é Tania Maria Dahmer Pereiral colhida 
104 
sistema 
CE 
vagas 
do Estado de Süo 
o País tem cerca ue 60 mil 
viabilizar o 
conseguíssemos nosso sistema úrio ao da 
metamorfosear os criminosos em nüo-crimi 
colhidas por Jonatham 
e mesmo nas galeras és nocivo 
és um estorvo, és um tUlnO/: .. 
Se pensas que pensas, 
estás redondamente enganado 
e com.o disse o DI: Eiras vem 
chegando aijunto com o delegado 
para te levw: .. "17 
.Caracterizados por pertinaz repugnância quanto a se submeter 
pacificamente à injustiça das estruturas sociais, impermeáveis à cate-
quese da ideologia, dotados de teimosa resistência aos castigos infligi-
dos aos transgressores das normas penais, destoando com freqüência 
da conduta desejada pelo sistema, uma categoria de infratores gera 
uma preocupação - verdadeira dor de cabeça aos mantene-
dores do slatus quo; os criminosos multi-reincidentes. À proposta ele 
vida que se lhes faz, no sentido de renunciar de forma quase absoluta 
ao usufruto das amenidades do mundo, ~t possibilidade de realização 
como seres humanos, reagem vigorosamente, às ferozmente, na 
17, CHICO BUARQUE DE HOLANDA, Hino de f)UrlIl1, 
105 
ini-
maIs 
tendem a 
revela o grupo, Insuficientes mostram-se, para 
an comum dos 
!lO manto de uma 
desu-
mano e 
O discurso de como lógico e 
as penas, embora dirigidas precipuamente à recuperação 
ainda um expiatório, de punição 
o 
não pode ser estes 
gos, ao praticá-los em contradição com as normas legais; corno, 
porém, a permanência tais seres em meio à comunidade livre acar-
retaria gravames para a última, pondo em risco a própria seguran~a 
pública, tornou-se forçoso encontrar uma solução que atendesse as 
duas ordens de interesses: defender a paz social, de um lado, e, de 
outro, fazê-lo independentemente da submissão de irresponsáveis às 
dores das sanções criminais . 
./ 
"As medidas de segurança justificam-se porque necessárias 
à defesa da ordem jurídico-social contra o crime, Alguns autores 
não se satisfazem com essa justificação e procuram aprofundar a 
pesquisa em busca de apoio ético-jurídico. Mas deve-se ponderar 
que a ordem jurídico-social é um valor é legítimo de~e12der 
pelos meios necessários, embora estes impliquem em restnçao a 
direitos individuais, desde que esses meios sejam empregados, 
com as garantias pelo Direito, Essa necessidade de 
de um valor IJrimordial para a coexistência humana basta 
a justificação jurídica e ética na medida de "18 
18, BRUNO, Aníbal, o[l, cit" v, 3, p, 287. 
106 
No que concerne ao delinqUente multi-reincidente, a justificativa 
panl excluí-lo do c8mpo ela pena para medidas de 
segurança mostrou-se um foi apelar para () 
Ea 
fornecer o 
na 
viável assimilá-los aos irres-
26 - É isento de pena o que, por mental 
ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao 
da ou da inteiramente incapaz de entender 
fato ou de dctefl1l in de aconlu 
os mul I1C dos ri pena, foral!l 
para o redil das medidas de segurança. Porque estas, corno 
se reconhece na justificação que lhes acompanhou a criação, podem 
importar "em restrição a direitos individuais", compreende-se que dis-
ponham de força para determinar o sacrifício da liberdade de seus 
beneficiários. Daí, não deve causar nenhuma surpresa que a legislação 
a previsão de medidas de segurança detentivas - haja vista tratar-
se de mero corolário das colocações antes feitas. 
Em princípio, no plano teórico, essa detenção há que ocorrer em 
outro tipo de estabelecimento01ue não os penitenciários, pois não são 
penas. Destinaram-se, então, os manicómios (novo nome dos 
hospícios) para os multi-reincidentes. 
A éonseqüência mais importante - ou grave - a se retirar da 
inidentificação entre penas e medidas de segurança, com base na idéia 
de que estas ditadas a de scus contemplados, é que: 
de segurança nc7a se estende a sistema de 
que cerca a área de penas. 
tratemos de descobrir que de carne se esconde 
debaixo do angu da retórica atinente ao em 
causa. 
107 
"Multi-Reincidentes 
"Da terra, de um rar 
uma de aviões no ar. Mas 
fora de rota. O avião se encontre 'fora de 
pode 'louco' do ponto de vista dos 
louca 
pria 
'Fora de é um critério cl 
'Desviado da rota' é um critério ontológico. Um dois 
juízos ao longo de diferentes . É ele fundamental 
r 'fora de 
fica que se encontre necessariamente 'na rota'. 
porcos de Gerasa. Não é obrigatório que a pessoa 'fora de fOl,,-
mação' esteja mais 'na rota' do que a formação. Não há neceSSI-
dade de idealizar alguém só porque ele foi classificado de 'fora 
de formação'. Não há necessidade de também persuadir a pessoa 
nessas condições de que a cura consiste em voltar ~l formação."19 
o arcabouço jurídico autorizativo do internamento compulsório 
dos doentes mentais que praticaram infrações penais escora-se, por 
inteiro no conceito de doença mental que em edifício estra-
nho a; direito, qual seja, o da psiquiatria. Ai surge a primeira .dificul-
dade: nada pode ser mais fluido que a definição de normalIdade e 
anormalidade em sede psiquiátrica. . A • 
Os juristas, cheios pudor, tomam as afirmações da Cle!1Clél 
vizinha como verdades absolutas, ignorando - ou fingindo ignorar. - a 
perplexidade que grassa naquela área a respeito da validade dos dwg-
nústicos de seus cultores. Como su um de seus 
Il). LAING. R.D. A 
Vozes, 1974, p. 88. 
da Trad. Aurca B. Weissemberg. 
108 
ao status quo 
"N,l 
do como 
lk seus 
respeitavelmente 
dispôs a instrumentar."20 
o l:onceito de saber dcsinte-
é 
instrumento contra os 
Mesmo a esquizofrenia, que aparece aos olhos dos leigos como 
enfermidade de cuja realidade ninguém pode duvidar e sobre a qual se 
pensa que a psiquiatria detém profundo conhecimento e domínio, não 
merece ser vista assim por eminentes estudiosos da disciplina: 
"Não existe 'condição esquizofrênica', mas a etiqueta é um 
fato social e o fato social é uma ocorrência politica. Este aconte-
cimento político, ocorrendo na ordem cívica da sociedade, impõe 
definições e conseqüências à pessoa assim definida. É uma pres-
crição social que racionaliza um conjunto de SOCIaIS, por 
meio das quais a pessoa é anexada por outros, que possuem san-
legal, poderes médicos e obrigação moral para se tornarem 
responsáveis pela pessoa etiquetada. Esta é introduzida não só no 
papel, como na carreira de pela ação combinada de uma 
20. SERRA, Antonio A. & PEREIRA, Cristina Rnuter. A psiquiatria como discurso 
polífico e os carreirisw,l" da indisciplina. Rio ele Janeiro, Achia:mé/Socii. 1979. 
pp. 12·3. . 
109 
do como exame 
como 
"O esquizofrénico é alguém que estranhas expe-
riências e/ou age de maneira estranha, do ponto de vista habitual 
aos seus parentes e a nós ... 
Que o paciente diagnosticado esteja sofrendo de um proces-
so patológico é um fato, ou uma hipótese, uma suposição ~u u~ 
juízo. Considerá-lo um fato é inequivocamente falso. Consldera-
lo uma hipótese é legítimo. É desnecessário fazer a suposição, ou 
o juízo. O psiquiatra, adotando uma clínica nS} 
da pessoa pré-diagnosticada, a quem já contempla e ouve como a 
um paciente, inclina-se a crel' que se encontra diante do 'fato' da 
esquizofrenia. como se sua existência um fat.o e;st~lhe­
lecido. Precisa então descobrir a causa, ou fatores etlOlog1cos 
múltiplos,para calcular a prognose e estahelecer o tratamento. O 
âmago da doença coloca-se então fora da agéncia da pessc;a. Isto 
é, a doença é considerada um processo a que a pesso.a esta .suJe;-
ta, seja ele genético, constitucional, endógeno, orgâniCO, pSlcolo-
rrico ou uma mistura de todos.,,22 
b ' 
21. LA] NO, R.D., op. cit., p. 90·1. 
22. Id., p. 79. 
1W A 
Agora, imagine-se o que dizer a respeito da sociopatía - cuja 
nomenclatura tern variado bizarramente no tempo -, a qual se projeta 
de maneira tão intensa no campo criminal, uma vez que empresta 
caráter ao de! de 
Trata-se de 
patologia· e cura impossível. 
A identifi 
dificuldade se realiza fora da 
muI ti-reincidente. 
Frente a esse estranho q 
idéia de que: 
mal, 
medicina: 
fica difíci 1 de aceitar a 
"Como veremos, o que está em jogo é a busca, por parte da 
medicina de um de ús 
de cor; social, ii 
Nesta l1i tôri a, vamos uma 
extremamente semelhante à da criminologia, com a diferença, porém, 
de possuir a protegê-la o escudo de uma disciplina mais tradicional e, 
em sua maior parte, classificável como ciência natural - a medicina. 
De outro lado, em compensação, nem sequer desenvolveu uma arma-
ção sofisticada, estagiando, ainda, lá pelas concepções preconeeituosas 
de Lombroso, amarrando-se a idéia do sociopata à do criminoso nato. 
O nome tem mudado através dos tempos: desde monomaníaco 
(Esquirol), louco moral, sandeu com impulsos perversos, desvaira-
do moral inato, louco sem delírio, até portador de personalidade 
psicop;hica, portador de personalidade anti-social e, finalmente, 
sociopata. Afirma a psiquiatria que a enfermidade se caracteriza 
por uma patologia dos sentimentos e da vontade, sem comprometi-
mento ou perturbação do entendimento, definindo-se em função de 
procedimentos sociológicos que rompem uma faixa média que se 
tem em mente: aqueles que sofrem ou fazem sofrer a socieda-
de" (Kurt Schneider). A pessoa nasce com o mal e dele jamais se 
livrará. Além disso, ou por causa disso, inexiste tratamento eficaz 
para 
23. SERRRA, Antonio A. & PEREIRA, Cristina Rantcr, op. cit., p. 4 J. 
111 
complementar a explanação com o excerto: 
e 
Destas facilmente é infe-
o que 
menta o ~lS leis: 
"O comportamento da personalidade sociopata impede o 
ajustamento psicossocial e vai da estranheza à criminalidade, 
com un, 
deli 
!l1oslr:Ul1 a!itude de 
Se' i 
Quem não enxerga aí a medical ização do conceito de criminoso 
nato, habitual ou por tendência, da criminologia positivista? 
E, nesse caso, como deixar de estender ao terreno da psiquiatria 
todos os argumentos antes alinhados a respeito da inconsistência 
daquela espécie de criminologia? _ ~ . 
b) Lá, como aqui, o esteio onde se apóia toda a construçao teonca 
(chamada de "científica") é, sempre, a aceitação da sociedade existente 
COI12,9 padrão de perfeição e, pois, de nor~n~lidade: devendo ser consid~­
rados desviantes (criminosos, para a cnmmologla, loucos, para a PSI-
quiatria) os indivíduos que se insurgem contra suas regras e estruturas: 
"Evidentemente a psiquiatria como 
toma as leis da sociedade como norma da qual 
se constitui cm patologia."26 
a de poder 
qualquer desvio 
O reconhecimento da justiça da sociedade atual, a não ser para 
quem tem interesse em como ou quem padeça de 
24. ld., p. 
25. Id., 
26.ld., 
112 
nu 
1l10Samcllte extravasa minha COl 
quialria." A outra 
de V. Exa. haver reconhecido que se trata de um deI 
diagnostico-o como doente e o assumo; porém 
com os instrumentos de 
ista" de uma 
Por isso, sou levado a falar 
pela boca dos próprios psiquiatras acerca do caráter acicntífico da psi-
quiatria: 
"É que a psiquiatria apresentou-se e firmou-se como um 
saber científico, ou seja, como algo que falava de uma realidade 
(vagamente, a "mente humana") com as garantias do método 
científico."f\o embarcar na medicina, a psiquiatria passou a aufe-
rir os lucros da credibilidade científica desta, tornando-se por 
tabela legítima. Da mesma forma que a outra, a psiquiatria tratou 
de se propor corno um método de conhecimento de algo que se 
passava além das conseqüências sofridas que as anomalias fisio-
lógico-anatômicas provocavam. O que a medicina afirmava 
apoiada na dissecação dos corpos, nas análises de laboratório ou 
na observação dos doentes a psiquiatria (de contrabando) 
mou como derivado igualmente da observação e da análise das 
funções cerebrais. Só que uma defasagem permaneceu sutilmen-
te pois o progresso da medicina foi a ponto de devas-
"rIo os crirninosos? CrÍlne e crilnínosos: entes' 113 
A essa 
á das 
mo hUl1lanit(lrio das mel!" 
Acontece que às medidas de segurança não se fixa data certa 
para seu término, podendo, inclusive, revestir caráter de perpetuidade. 
O deli 
q 
raias; disso, dela não cm , ser 
superior a 30 anos (Código Penal, arL 75). Finalmente, ao completar 
o prazo da sanção imposta, o condenado será necessariamente posto 
em liberdade, independentemente da opinião de qualquer pessoa a 
respeito da inconveniência da soltura. 
Dessarte, se um indivíduo pratica um assalto (furto mediante 
violência contra a pessoa) e é tido por sadio mentalmente, est<:1 sujeito 
a uma pena de quatro a 10 anos de reclusão. Ainda que o julgador 
entenda de lhe aplicar a sanção no grau máximo, o condenado pode 
contar por seguro qLH.\ no dia em que completar 10 anos de prisão, 
será devolvido à liberdade poúco importando se isso agrada ao juiz, 
ao diretor da cadeia, ao Presidente da República ou a quem quer que 
seja. 
Já com relação ao que está tolhido da liberdade em virtude de 
submissão a medida de segurança, o quadro revela-se muito diverso. 
O juiz, ao determinar a internação do irresponsável, não marca 
data certa para o término da providência, porque, na forma do Código 
Carl. 97, 9 12): "A internação, ou tratamento ambulatorial, por 
tempo indeterminado, perdurando enquanto não for averiguada, 
28. Id., pp. 11-2. 
1I4 
mediante perícia médica, a cessação de periculosidade. O prazo mÍni-
mo deverá ser de 1 (um) a 3 (três) anos." 
Recolhido ao o feliz de medida de segu-
rança só libertado se e quando o juiz achar que o momen-
lo azado. Caso nunca tal o indivíduo perma-
necerá até morrer. 
Para decidir se a periculosidade, vale-se 
de um exame 
culosidade", no qual 
vezes coadjuvado por psicólogo. 
mental se marca pela dubiedade, 
elo laudo de "cessação de periculosidade"! 
de cessação de 
O de pericuJosidade inorerece problema: o direito presume de 
maneira 
ou 
a lei, desprezadas colaborações extrajurídicas. Como 
já vimos, porém, aplicada a medida de segurança de internação, ela só 
será revogada se e quando se apurar que desapareceu o estado perigo-
so do paciente. Aqui, a psiquiatria volta a dominar. Cabe-lhe a palavra 
decisiva. Os juízes curvam-se ao prognóstico da ciência e de seus 
especialistas. Quer dizer: o problema do internado desloca-se da ins-
tância judicial para a médica, onde se inadmitem o atuar das garantias 
que cercam o funcionamento da justiça. Não há advogado para defen-
der, nem recursos, nem tribunais, para onde apelar, nem formalidades 
a observar - o psiquiatra merece confiança total, é dono da verdade. 
Se sentencia: continua ao juiz incumbe, na prática, prorro-
gar o prazo da internação, que pode protrair-se até a perpetuidade. 
"na prática", porque o juiz, legalmente, não está adstrito à con-
clusão das perícias. No caso de laudo psiquiátrico, porém, em rarÍssi-
mas o magistrado ousará lançar mão de tal prerrogativa: se 
o fizer, pode vir a ser tachado de louco.) 
Que isso ocorra -- o internado nos exa-
mes de de de periculosidade 
em se tratando de 
ual.' """. uma vez que a 
não tem tratamento nem cura. De fato, a 
entes 115 
que cessou a periculosidade representa - embora, em geral, ninguém 
atençãoa isto a demonstração de que o diagnóstico inicial 
menos do ponto de vista a 
da liberdade por do sociopata constitui-se cm 
Isso resolve uma importante para o ao mesmo 
em que ostenta a no território da 
_. onde avulta a da de pena determinada 
na cuja duração não em caso algum, ser superior a 30 
anos de uma fórmula para manter em confinamento 
tuo (em nome da ciência) os indivíduos mais rebeldes, que arrostam a 
dureza das sanções repressivas sem deixar quebrar o espírito de insub-
missão. 
A terceira a de todo esse o controle 
sobrc rnétodos do tratamento 
do que au o. 
das concorda-se 
operadores (autoridades prisionais) submetidos à 
ciário, pois, embora aureoladas de um sentido regenerador, conservam 
as penas caráter expiatório e, logo, devem ser controlados para que 
não extravasem os limites desejados pela lei: 
"Esse esquema é puramente formal, mas é importante por-
que fixa para o Estado os limites da punição (a pena não pode 
ser maior ou diversa da que está prevista na lei) e estabelece para 
O réu a aarantia de não ser atinaido senão nos limites dos ditéitos b b 
diminuídos pela Que direitos são Em princípio, 
apenas a perda da liberdade e a dos direitos necessariamente afe-
tados por ela."29 
O apelo à idéia do conteúdo 
suficiente para autorizar os ,-"Ue'"')U} 
os processos que lhes parecerem mais 
da pena carece de força 
arbitrariamente 
29. FRAGOSO, Heleno; Yolanda & SUSSEKIND, Elisabeth. 
presos. Rio de Janeiro, Forense, 1980, p. 3. 
116 
sobre a 
para mudar 
humano."3u 
Rêlativamente ás de 
ele limitar os 
aos internos que o 
é o documento de 
, ele 1 "31 
diferente. porque, sendo em 
as 
de 
estando, expungidas de qualquer traço retaliativo ou de 
fornecem a ilidade de que não 
exime de intervir, em virtude de escrúpulos que merecem o ,aplauso 
dos doutos. Afinal, ao saber científico não cabe ficar submetido à 
ingerência das leis e de seus fiscais. Dessa forma, os executores das 
medidas de segurança detêm um poder sobre seus pacientes m 
amplo e desaçaimado, ainda, que o do carcereiro sobre os presos. 
No hospital psiquiátrico ~ cujas características, como mostra 
Goffmal1,32 são idênticas às da penitenciária -, o uso de 
recursos que ilegalmente podem ser aplicados na prisão: a camisa-
de-força, o choque elétrico, sobretudo o consumo de medicamentos 
que, causando a intoxicação da vítima, suprimem-lhe a capacidade de 
autovolição (em gíria, conhecidos como sossega-leão). O criminoso 
renitente, por sua incrível capacidade de à conformação, 
constitui tragédia para a administração prisional, eis que não se deixa 
venccr através dos meios repressivos de emprego naquele 
tipo de estabelecimento. Mas, para o manicómio, a coisa torna-se 
mais fácil: basta ministrar-lhe doses de sossega-leão e, 
30. ld., p. 38. 
31. Id., ib. 
32. GOFFMAN, Ervíng, Memicômios, e cO/1\'entos. Trad. Dante M, Leite. São 
Paulo. 1974. 
S(/() O~'i crinlino:'}"()s? Crilne 117 
manter a em nível su com-
como um buneco sem alma. 
Bern, em último assunto foi 
sentes, 
das medidas de segurança, a tornar 
teúdo ali Assim ocorre, V.g., quando os se 
de abrir vagas. Alguns p.p. 
internados há muito demons-
tram uma certa exaustão quanto à potencialidade de rebeldia contra o 
ordenamento disciplinar do mento fechado e, por isso, 
a 11 
O infrator cerceado em sua I causa da 
doença; não fosse a doença, nada justificaria que continuasse preso; 
mas, se é doente, como admitir que vá para a prisão comum? 
Na medida, porém, em que a psiquiatria fornece o respaldo cien-
t(flco, a justiça, de alma lavada, adere à proposição e a sust.enta com 
seu poder: é então que pegamos em flagrante a falta de sene?ade de 
toda essa intrincada novela das medidas de segurança. Por melO desse 
jogo de cabra-cega, torna-se possível trancafiar na cadeia, em caráter 
de perpetuidade, inúmeras pessoas - apesar de o comando do art. 75 
do Código Penal proibir penas superiores a 3~O anos. 
A título de exemplo, transcrevo no APENDICE VI um caso ~lu.e 
é típico e freqüente, no qual toda a inconsistência da colocação medI-
co-jurídica a respeito da sociopatia fulgura com clareza ~e cegar. 
Em suma: porque as medidas de segurança são aplicadas a bene-
fício do aaente porque não têm sentido de punição, estão liberadas das 
b ' . t 
garantias legais que cercam a imposição das penas. Porque o Soclopa a 
é um doente, faz ao privilégio da medida de segura.nça. Com~, 
todavia, para ele não há cura nem tratamento, deve cumpn-Ia ~la pem-
tenciáría, onde provavelmente permanecerá até o fim de seus dIas. 
. . d 1't erendo e entenclen-Sorte a do cnmmoso que perpetrou o e 1 o qu . 
, . . 1" d " . t ção" das med1das de do-lhe o carater delttuoso, pOIS se Ivra a pj o e . l' 
. .., . data certa para saIr de a. segurança: VaI para a pemtenclana com uma 
118 
em 
no concernente à 
metidos ii a 
encontrar uma fórmula alternativa que, 
tos 
consiste em 
em à sociedade livre, sob 
que lhes a as si lecn 
metamorfoseá-los de desviantes em não-desviantes. 
.j ndicada para 
A respeito, permito-me produzir resenha que fiz acerca das 
tuti 
ao de reabilitação em instituições fecha-
das -- é tão ineficiente quanto este, não sendo levado mais a sério 
que o hiperbólico blablablá que defendia o último. Os dados ofe-
recidos como prova da eficácia do primeiro são tão manipulados 
ressaltam-se os sucessos, obscurecem-se os fracassos - quanto 
o eram os da recuperação nas organizações fechadas. A fórmula 
~e proseJitismo é idêntica à que se usou quanto à tranca terapêu-
tlca: um superentusiasmo inicial, usualmente baseado em peque-
no número de relatórios otimistas sobre casos singulares - e, 
naturalmente, muito discurso literário. Submetido o regime a 
estudos sistemáticos, nada confirma as assertivas inaugur~s. Em 
outras palavras: o 'tratamento comuniuirÍo' que, ndo se 
alega, substitui a 'terapêutica em confinamento', não tem sido 
mais que um slogan, com pouco ou nenhum conteúdo de realida-
sendo sua capacidade reabilitadora tão aleatória e nominal 
quanto a antes atribuída ao tratamento institucional. Outro ponto 
de sintomática semelhança entre os na estra-
defesa para da resso-
trilha o mesmo caminho a 
ante o impacto da com a 
selo os criminv,yos? Crin1e e critnil1osos: entes 119 
acercou inicialmente: ainda não produziu os seus inevitáveis 
resultados positivos não concederam os recursos de 
O erro não é do mas de sua 
, como antes, não se toma qualquer para 
conceder os tais recursos, para rncnsurá-los ou para saber se são 
e se, de fato, acaso fornecidos, trallsformariam em 
derrota. A dos indiví-
duos submetidos a c a 
incremento, quer em 
à 
ao exigível. Um vigilante de probation atende, às vezes, a 200 
liberados; em de 10 minutos 
'lnltamento em 
Outro precisa ser diz 
alegação de estar demonstrada a superioridade da terapêutica 
comunitária através das estatísticas relativas à taxa de reincidên-
cia. Em primeiro lugar, os levantamentos até aqui oferecidos 
pela propaganda desprisonizadora são marcantemente inconsis-
tentes e inadequados, apresentando-se aleatórios, falhos, incom-
pletos, freqüentemente tendenciosos e, às vezes, desenganada-
mente manipulados. Em segundo lugar, não parece ser essa espé-
cie de demonstração a mais apropriada para assegl]J./ar que a 
solução do tratamento em comunidade é melhor que a do trata-
ment-o em estabelecimentos fechados. Cumpre lembrar que não 
são escólhidos ao acaso os indivíduos destinados àquele: exata-
mente o contrário se dá, como, aliás, não só reconhecem como 
fazem questão de proclamar enfaticamente os fautores da despri-
lI~U'-'U'J, ou é feita uma cuidadosa descobrir 
!-,',,,J0'JU0 que demonstrem 'aptidão' para o regime aberto, cir-
apurada tendo em conta serem menos ruins, menos 
autores de atos menos etc. esses des-uma taxa de menor relatÍvamente aos 
companheiros considerados 'inaptos' - restando muito difícil 
120 
avaliar em que medida a troca de 
causal na estórl:t, 
se a cO!l1unidm!c é 
cm 
Abunda a 
intelectualmente sério para demonstrar a 
entra como coeficiente 
vlll-se 
cornunítáría, Ao disso, ladeia-se o cerne do 
nfio o 
vizinho e as famílias atendem prontamente e voluntariamente às 
necessidades dos membros com problema - ou seja, eleva-se a 
correção comunitária a nma nova panacéia terapêutica .. 
Três elementos básicos sustentam o programa de despriso-
nização: 1 º - interesse em resguardar os internados da destruição 
de sua humanidade essencial, ameaça sempre presente em face 
dos efeitos corruptores da instituição fechada; 2º - promessa de 
reabilitação, via tratamento comunitário; 3º -- a existência (alega-
de uma tolerância crescente, por parte da sociedade, em con-
viver com e cuidar dos membros desviantes, Quanto ao último, 
cabe indagar de onde veio tal tolerância, o que não é e, 
muito menos, provado de qualquer maneira. Parece mais certo 
reconhecer que não foi a tolerância surgida no povo que justifi-
cou a mudança da política a ser adotada mas que a da 
política é que deu lugar a um conhecimento a respeito da alegada 
(mas não demonstrada) modificação na tolerância comunitária, 
De concreto tem-se, em verdade, os protestos vociferantes dos 
cidadãos ante as decisões de libertar criminosos ou deixar soltos 
na rua, sob mínima ou nenhuma supervisão, doentes mentais -
'-'w~v,~" dificilmente conciliáveis com a idéia de se haverem tor-
nado tolerantes com a presença dos desviados, 
121 
dos 
em 
maIS 
mento 
que deve-
E a del no 
das comunidades miseráveis, começar a gerar pânico, levan-
do as populações a adotar a prática de fazer justiça pelas próp:'ias 
mãos? Quem guardará os desviantes contra os vizinhos? Em face 
de tal questão, não seria de levar em conta, além da proteção que 
a instituição fechada oferece em favor da comunidade contra o 
desviante, o resguardo que oferece em favor do desviante contra 
a comunidade? 
Para finalizar: verifica-se que a desprisonização, na prática, 
tem mínima semelhança com o discurso liberal que a defend~ e, 
embora provavelmente fora da intenção de seus autores, tem.sldo 
usada como uma camuflagem ideológica para obter economIa de 
custos mascarada de benevolência e tolerância, Por certo, uma 
dada de liberados tem condi~~ão de volt~r a 
viver no meio de onde saiu sem causar traumas. Alll1al 
de contas, muitos daqueles submetidos a processo pelas , 
oficiais de controle social são escassamente distinguíveIs dos 
vizinhos que estão abandonados e, pois, podem ser expelidos d~s 
, . . - ' 'ldl'Cl'Oll,ol'S Porém para mUl-ll1stttmçoes sem rISCOS < c<, , ,_ 
, . . t Cl' '11 a substltUlçao da tos outros eX-ll1ternos ou mternos cm po en . c,, ., 
, , " de desViados , internacão representa um mcremento <lOS , .' h b" 
Com is'so se instaura um estilo neofeudal de contróle: os a}-
122 
lantes de tais guetos ~o as 
da poHcia será não a de , prevenir ou 
o crime em seu interior, mas a de evitar que transborde 
seus limites."33 
Em que consiste, afinal de contas, o direito corretivo? Qual 
seu verd,ldeiro conteúdo? os curar os· 
mentais que praticaram fatos previstos como crimes; educar os meno-
res portadores de desvio de conduta - trovejarão os juristas, criminó-
logos, psiquiatras, penitencíatistas e todos os 
() é bem outro. 
O jogo da violência, no antigo direito penal, era jogado franca-
mente: "eu tenho o poder; eu dito as regras; quem desobedecer, trata-
rei de triturar na roda ou esquartejar em praça pública." 
O desobediente pagava com o corpo os atas de rebeldia. A vio-
lência, agora, atua disfarçadamente e, a título de amparar o insubordi-
nado, se permite transformá-lo em objeto de um trabalho de adapta-
ção. Como conseqüência, porque pretende "tratá-lo", arroga-se o 
direito de invadir-lhe o próprio eu, de alterar-lhe a personalidade, de 
executar uma tarefa que viola o mais íntimo de todos os direitos do 
ser humano: o de ser ele próprio. 
"O afrouxamento da severidade penal no decorrer dos últi-
mos séculos é um fenômeno bem conhecido dos historiadores do 
direito. Entretanto, foi visto, durante.muito tempo, de forma 
geral, como se fosse fenômeno quantitativo: menos crueldade, 
menos sofrimento, mais suavidade, mais respeito e 'huma-
. Na tais se concomitantes 
33. REVISTA DE DIREITO PENAL, Rio de Janeiro, Forense, 27: 114-6,1980. 
ao deslocamento do objeto da ação punitiva. Redução de i 
dade? Talvez. Mudança de objetivo, certamente. 
123 
Se não é mais ao corpo suas 
formas mai s dos 
que abriram, 
que ainda não se encerrou - é 
inscrita na Pois não é mais o corpo, é a alma. 
À que tripudia sobre o deve suceder um 
que atue, profundamente, sobre o o a 
as disposições."34 
o crime autoriza a ação punitiva, que busca a manutenção do 
de aI como criminoso, muito 
cujo ista unia o não é 
mais castigo, mas alguma coisa a ser operada cientificamente em prol 
do condenado, desnecessário se faz apurar se infringiu a norma penal. 
Basta a constatação de que precisa de tratamento, e o socorro oficial 
lhe prestado - até pela vida toda, se for necessário. 
Cada vez mais, a justiça criminal escorrega da sede judiciária 
para outras esferas, as quais, por serem cientificas, desnecessitam de 
justificação legal para se pôr em ação: 
"Resumindo: desde que funciona o novO sistema penal ( ... ) 
um processo global levou os juízes a julgar coisa bem divel~sa 
do que crimes: foram levados em suas sentenças a fazer cO.lsa 
diferente de julgar: e o poder de julgar foi, em transfendo 
a instâncias que não são as dos da A operação 
penal inteira de elementos e extrajurí-
dicos."36 
34. POUCAULT. Michel. , ap. cit., p. 20. 
35. POUCAULT, Michel. A verdade e 
36. FOUCAULT, Michel. e punir, op. cit., p. 25. 
ap. cit., p. 68. 
124 
so 
instâncias 
do proces-
o 
De resto, na medida em se com referên-
de duras repressoras aos seme·· 
os juízes sentir-se aliviados: 
lllente, damos um vcrcdito, 
urn 
E: 
"A justiça criminal de hoje em dia só funciona e só se justi-
fica por essa perpétua referência a outra coisa que não é ela 
mesma, por essa .incessante reinscrição nos sistemas não-jurídi-
cos. Ela está votada a essa requalificação pelo saber. 
Sob a suavidade ampliada dos castigos, podemos então 
verificar um deslocamento de seu ponto de aplicação; e através 
desse deslocamento, todo um campo de objetos recentes, todo 
um novo me da verdade e uma quantidade de papéis até 
então inéditos no exercício da justiça criminal. Um saber, técni-
cas, discursos 'científicos' se formam e se entrelaçam com a prá-
tica do poder de punir."39 
o tratamento penitenciário, as medidas de seguranca a medícali-
~ " 
zação na execução das o emprego de métodos psico-psi-
37. leI., p. 24. 
38. Id., p. 25. 
39. Id., pp. 25-6. 
e cl'i111l'J70.\'OS: cnles 125 
de sentimentos generosos muitas vezes, que o crime é 
uma e que o criminoso é um 
Essa forma de vcr as coisas gera duas ex!rem~r-
mente s a manutenção do status quo, razão por que merece os 
aplausos do sistema: fortalece a idéia ele à sociedade, para ser 
falra 
em extensão ilimitadas, 
pacificamente às normas opressoras. 
ar, de maneira 
que reagem a se sul1n1eter 
e 
"A vida, meu caro é sempre mais 
ampla que a doutrina; a vida não é para ser 
espremida dçntro dos limites de nenhuma 
doutrina," 
"H:t na socicdnde russa quc: tcm a 
cnragcln úe cllfrcn!~lr o rnundo: 
"N a It:í I i ,',do 
rcs Marx c c toda a cor-
rente social-democrática alemã, falam com tão 
profundo desprezo, Sem dúvida, isso é um 
erro, pois é nesse proletariado, e não nas 
camadas burguesas da cl asse trabal hadora, 
que residem toda a razão e a forçada futura 
Revolução Social." 
Bakul1in 
Criminoso é: a) o indivíduo que age em contradição com a lei 
penai; e b) sofre oficial. 
A omissão no termo b elimina a concreticidade da definição, 
conduzindo a um conceito ideal de válido no 
mundo das metafísicas. 
O infrator que, por se haver extraviado em do 
percurso que conduz ao claro da ordem 
negra não é criminoso, nem seu ato constitui crime: 
127 
128 
que I1fío tenha sido criada lei e 
que se assinala nos 
Por isso mt~S1110, de passagem, trabalhar com uma entida-
de do { "criminosos dc colarinho branco" 
a de pessoas bem 
e onde ocorre - a título de 
ceI' rele vo par,L o exame do 
\10 
tasia para se descartar de ver submetida a exame a 
1. 
"De ~mportância crítíea - embora geralmente subestimada -
é que 'crime', 'o criminoso' e outros conceitos que devemos clis-
cutir são definidos pela organização política da sociedade. O 
cnme é definido pela lei e as atividades do sistema de justica cri-
~11lna~ (aqu~las instituições que a sociedade faz responsáveis pela 
l~entlfIcaça~, apreensão e lida com que se pensa tenham 
VIOlado a leI em parte, reguladas lei - e a lei é 
criação de um processo político. O legislador o 
dos Estados 
(ou se nega a 
político do Estado 
como um corpo 
leis cri 
dade política quando 
rio é também político' (no mesmo 
duos acusados de violar a lei. A polícia, 
tion, e outros órgãos 
. . de. Sistema penal c sistema social: LI 
crlll1lnal como de um mesmo processo. Trad. 
Rel'lsra de Direito Pellal, Rio de Janeiro, Forense, 30: 12, 19R I. 
aprova 
no ramo do 
Por ISSO fica fáci! entender ii demon 
que, 
mera 
s, 
básico princípio político: o de 
~l tirania dos grupos dominantes. 
neutros 
129 
indivíduus 
yc/cs nem a 
~lS inferio-
risco um 
das estas quer pela lei, quer de da ci negra. 
fnexistem diversidades ontológicas entre condutas criminosa e 
não-criminosa. Também não se encontram divergências essenciais 
entre criminoso e não-criminoso. O dado distintivo entre tais catego-
rias decorre, exclusivamente, de uma visão axiologicamente dirigida e 
parciaL' 
A explicação do comportamento criminoso nada tem de diferen-
te da relacionada com o comportamento não-criminoso. Como acen-
tua J amcs T. Carey, porque as pessoas agem como o fazem e porque 
certas condutas são definidas como criminosas, consubstanciam dois 
problemas distintos. 
Idênticas apresentadas como negativas ao se I 
rem a um criminoso, ganharão sentido positivo se estiverem vincula-
das a uma prestigiada pela ordem vigente. 
Por exemplo: 
Refere Cressey que a máfia de seus membros lealdade, 
espírito de equipe, honestidade para com a associação, coragem em 
SILVER, lsidore. TI/e Crime-COI/Iro! Estahlishment. New Jerscy, EUA, Prcntiec-
Halllnc., 1974. p. 7. 
130 
face da adversidade, dureza. Ora, que outras qualidades cobra uma 
muftinacionaJ de seus executivos? 
de de luta e ausên-
cia de 
vista mesmo à custa 
e abater, ainda 
de alguém: é inflexível, frio, 
entranh:.ls na de mas 
com os 'amigos, com os na hora de gastar -
indústria? Por que não de um descrição de um altruísta capitão de 
assaltante? 
ele é 
Quem assassinou maior quantidade de inde mas: o 
homicida famigerado ou o festejado piloto do bombardeiro de guerra? 
A elevação de certos comportamentos à classificação de crimes 
e, sobretudo, a designação de certos indivíduos para serem oficial-
mente considerados criminosos estão diretamente ligadas com a hie-
rarquização social e o esforço de manutenção do status quo que inte-
ressa às classes dominantes. 
Tal circunstância, de resto, pode ser surpreendida nas comunida-
des mais rudimentares, como anotou Malinowskr"em seus estudos 
sobre as populações primitivas da Melanésia: 
3. 
4. 
"Assim, em conexão com o meiro objeto que chamou 
nossa atenção - a canoa nativa se nos depararam a lei, a 
ordem priviléaÍos definidos e um bem desenvolvido sistema de 
, b 
"4 
"Seja lá como a maneira em que funciona, é uma 
rnaneira de o statlls quo, um método de Íne-
R io de Janeiro, Graal, I p. lO7. 
Broníslaw. CrÍme ond Custom Ín London, 
Baul, J 978. p. 21 .. 
qualidades 
novas."s 
A 
e impedir a 
opressoras; a 
das massas 
outras 
criminosa, de 
da luta 
as 
':No mais lato sentido, pode-se afirmar que todos os crimes 
são crimes políticos, uma vez que todas as proibições com san-
ções penais representam a defesa de um dado de 
ou de no o social 
Reitero a declaração que abre o livro: trata-se de uma reporta-
gem. 
Em face da circunstância, fornecidos os dados resultantes do tra-
balho investigatório, incumbe deixar à elaboração de eada um as con-
clusões a tirar. Seria eu desastrado se quisesse fechá-lo por meio de 
opinativas colocações pessoais. . 
Nada impede, porém e acredito até que faça parte da técnica 
jornalística -, terminar o relato com alguns tópicos provocadores e 
desafiantes, os quais devem estar codimentados por exposição desor-
denada, incoerente e, às vezes, contraditória. o toque excitante, 
sem o qual inexiste reportagem que se preze. 
I 
o incremento da onda de crimes ou a modifi-
das estruturas sociais· 
The Politicai Criminal. New York, The Free Press, 1974. 
132 
o cOllletil11cnto de (kli 
nürÚL 1i 
lC~t lnu 
llLilmcnh: (k'l1omillada 
/\ '\mda 
1 rallsf 
estas_ 0\1 
numa 
limitar-se i\ idéia ele p:lssdr do 
o 
hierarquizada ou 
manter-se sem 
serú viável abolir a 
Mas não é a 
deve ser visto como ":llivid:ldc ()-
nesta nossa 
) " d 
quem bc 
iS!:l P,lril () soei 
de que tipo 
hoje, conceber uma socie-
sem estar dividida em 
ou dividida cm 
, classista ou hierárquica que inve/]-
11 
Sem istência elas entidades crime e criminoso se tem 
mostrado parel a da ordem social vigen--
te, Além das razões s ao longo deste caberia chamar a 
para as alinhadas sinteticamente a seguir: 
Juarcl. Ciril1(J dns, A mdicu/. Rio cie Janeiro, Forense, 
os ('!"!núnnsos? CrinIC e crirniJloyos: enTes' 133 
fll nc i Oiwr COllH) 
cI iní'crioll's_ 
cri m I1()S(h, A di CUSJO 
de mesma classe, 
dimenlos de urn cotidi:H1() concentram sua 
assim qualifi pela 
cu 
tos por C,lUsa 
exige tratamento c 
-- o si s í e rn {l 
natureza aos 
clcmen-
134 
A que se pode pedir socorro nesse mister? 
A burocracia, naturalmente. 
Como a burocracia do Estado sai mais barato para as camadas 
do que a da indústria e todos contri-
buem, os custos ao de 
sorte a a maior pmcela da imensa miJo-ele-obra 
da de colarinho e gravata. 
E que ficar a ue burocráti-
III 
Reconheço a funcionalidade que o crime tem representado para 
o 
no futuro? Üu o nosso tempo é o 
momento') 
Com respeito aos criminosos classificados como "políticos" ou 
"propriamente políticos" ou "políticos reconhecidos como tais pela 
ordem oficial", o Estado industrial aperfeiçoou e aguçou sua resposta, 
tanto que vem obtendo vitórias e sucessos no seu enfrentamento. 
Somente quem não tem "olhos de ver" deixa de perceber a neutraliza-
ção a que estão condenados os movimentos revolucionários tradicio-
nalístas, como os partidos comunistas ocidentais ou os dissidentes da 
China. De outra parte, as que optaram pela luta armada 
foram destroçadas - v.g., grupo Baadcn-Mcinhot", Brigadas Verme-
lhas, Exército Simbíonês, Tupamaros, Sendero Luminoso. 
Em contrapartida, a criminalidade apelidada de "comum" ou 
"ordinária" só fez e só faz aumentar, em quantidade e violência, sem 
que se encontre fórmula - sequer esperança de fórmula - apta a lhe 
estiolar o desenvolvimento. 
Em que consiste o fator de diversificação dos resultados colhidos 
pelo sistema na contra o crime" numa e noutra 
sabe está em que, à o busca o 
combate no terreno nas que favorecem o Üs "cri-
, recrutados em maioria da classe médiapara cima, 
135 
necessitam burocrática e tecnicamente para 
Ora, 
menos do ponto dc vista 
caracterizam-se as elo banditismo comum con-
industrial de tra a ordem social. positivamente, o 
ausência de vocação para - quanto mais para pelejar 
__ nas áe:uas ela anarquia. Aliás, não será este oceano "o único túmulo 
digno cl~ um almirante" técnico-burocrático? 
Ponco i se o mel 
caso, 
mitente contra o status qilO. Por isso, é político c por isso é tratado 
politicamente pelos detentores do poder. Vale lembrar: a História se 
constrói tanto de atos quanto de fatos. 
Com referência a acontecimentos afastados da realidade em que 
estamos imersos, que podemos contemplar a uma distância sl:ficic:lt.e 
para permitir uma visão razoavelmente descompromissada, fIca facIl 
compreender a questão. Quanto às tropelias dos bandos de 
ros, pelo fim do século passado,):1o interior do Nordeste: por exel~plo, 
a maioria de nós, moradores dos centros urbanos elo fmal d~ sec~lo 
. aÍlrmatIva provavelmente sem malOres a 
de que: 
eles travavam uma luta de classes. lnconscientemente, não 
mas uma luta de classes. 10 
No que 
dias de 
10. Rui. 
Brasileira, 1978, p. 166. 
que, ao 
nas metrópoles nos 
estuprar, matar, 
5. cd. Rio de Janeiro, Civil 
136 
, destruir, dallific~lL :tm Irm·'ando illilU II/lu de 
dO cnco:,{ar u carro para ir ,íllillla 
minha mul () de: 
lcmo cncontruc () P;lraibínha ou o 
POS,\O lido ÍLico do 
() CjU;t!110 cunLÍu!a dos tílti 
Os sitiados começam a sÍti;lr? 
de ousadia. 
S;lO outros, agora, os que vive:m 
dos por 
aos 
vadia. 
lhes 
vai a noite e 
II. Ic!, ib. 
é rico. pois o povo 
decbrado guerra de extermínio."11 
li 
diria 
JSS\), 
clus j)t1T11cirus, sou 
cobrada por um 
atrás de 
(os 
Teles: 
fOlllcccr um último 
(JS criJniJ)()sns? Cri!}!(' e crinlino,)'()s: eliTes 137 
dado ú medi! que :l1'recadei reiterada com 1111-
!1USOS margll1,lls quc tem marcado minha vida -- dado que costunw 
l'iclr ('b:-;clI do na quem prcleciui1(\ subre 
haVl'r )IlVér~;;\ alxcrLt clin:ta 
com 
Ao PCl1S;L sobretudo no concernente 
aos donos de !idade í!1te 
CD t re a morte o a tal 
ia" que caracterizaria () dos criminosos não jJ"S",:1 de 
cen..:brina nascida do :-;ellSO cumum ntclcetu,lÍs. Com uma 
LI falar o 
indivíduos urna detcr-
ordem social da s6 
i nl~r 
até seus ó ilustres 
cm uma VIa de 
e haverão de 
mentos que os vão deixar estupcfatos. 
eonseguirão entender o que lhes parece irracional cm seu 
como, por exemplo, por que ceream a prática da sub-
património alheio de uma constel de alos 
nada na aquisição dos 
torná-los mais vulnerúveis ú 
perseguI , causar e 
maj()r severidade elos 
que o roubo funciona, apenas, 
car explosões de 
confronto enraivecido contra um sistema que teima em 
lado de fora de suas amcnidades. 
O criminoso não é não é besta não é fera insen-
sível, nuo nenhuma di qmlllto a 
outro ser humano - afora a indómita rebeldia o leva a lutar contra 
os com crueldade a crueza com é desde 
() vcntrê ela llÜle. 
A de acerca da plebe que fez rebentar a Revolu-
merece ser lembrada: 
138 
"Porque há 25 milhões deles, a quem, contudo, nós agrupa-
de obscura unidade compendiosa, monstruosa 
mas de hei ou mais humana-
'as 
ver8s que 
dadc delas tem o seu 
com a sua pele e se a 
acha-se coberta 
... que cada unidade dessas massas é um hornem milagroso, 
exatamcnte como tu és; lutando, com visão ou com cegueira, 
pelo seu reino infinito (esta vida, que ele pU5sui uma vez só, no 
meio elas , com unn centelha da divi aquilo 
que tu alma imortal, dele! 
um o governo, lidar 
estas massas; mesmo o único ponto e problema de 
governo, e todos os outros pontos meras ninharias acidentais, 
superficialidades e golpes de vento! Porque digam o que disse-
rem as cartas de privilégio, o uso e os costumes, a lei comum e a 
especial, as massas contam uns tantos milhões de unidades; fei-
tas, segundo todas as aparências, por Deus - a quem, como se 
proclama, pertence esta Terra. Alem disso, o povo não é isento 
de ferocidade; tem nervos e indignação." 12 
* 
Bem, agora é fazer bom proveito da reportagem; ou desprezá-Ia; 
ou marcar o palpite na loteria da História de que marchamos para uma 
(salutar?) cambalhota 
12. CARL YLE, Thomas. História da Francesa. 2, ed. Trad. Antonio 
Ruas. São Paulo, Melhoramentos, 1961, p. 44. 
I 
"iVCSle,\' ccnútério\' gerois 
Juí l!!Orte iso!tu/o 
Indefiro o arquivamento a 
Fundamentou-se o ilustre em que "os 
em estrito cumprimento do dever legal e não é curial que 
sobre eles palre , em nada contribu para o combate à 
violência e entrave ao aumento de criminalidade", concluindo, afir-
ma que "denunciar estes ais é o mesmo inibir a atividade 
de aís que arriscam suas no combate ao cri me", 
Injustificável, sob lodos 
1\1 i de propor. na 
do sistema 
do sistema punitivo. são em a sua 
danosa e a sua ínfima social devem ser desde 
reconhecidas e 
Isso não ocorrer, de matar 
julgamento, é bom que se 
141 
142 
dever de matar. 
Marques: 
E no processo do Júri, pela 
de da 
" o 
cumprimento de dever legal. Salvo no caso de 
guerra ou revolução, nem ao soldado não pode ser reconhecida a 
justificativa. Tampouco ao agente da autoridade pública, ou ao 
policial em serviço. Quando há resistência à ordem legal de pri-
são, cabe ao executor usar dos meios necessários para defender-
se ou para vencer a resistência, consoante o disposto no art. 292, 
do C PP. Evidente é, no entanto, que matar não se encontra entre 
esses meios necessários. A ocorrência de homicídio, em casos 
dessa natureza, pode encontrar jusfificativa na legítima 
ou no estado de necessidade, nunca, porém, no estrito cumpri-
mento de dever legal" (Tratado Direito Penal, pp. , v. 4). 
que a própria versão dos policiais não se apresenta nítida 
nos autos. Afirmam todos monocordiamente, que a foi 
durante a troca de tentou 
fuga, invadindo as de Manoel Alberiques e senhora 
Mirian Wanderley Oliveira sendo encontrado em um terreno 
ocorre-
a entrar correndo 
cozinha e o muro (fls. A vítima, 
crimino.yos? Crilne e crinJinosos,' elites 143 
fugindo quando foi atingida. Observe-se que o cfetuado da 
direita para a de diante para trás e de baL\.D para cima 
localizando-se a ferida de entrada "na metude direita da 
frontal, a 15 mm da causa do io direito" e a 
O tórax na 
linear de tonalidade avermelhada. 
do auto de exame aliada ao que se vê 
no laudo de local 
indica, sem muita di 
21 - o corpo caído ao muro --, 
que a vítima, tentava 
pujar o muro ao ser ati ., . _ . 
de ser ificada como marglllaJ, a Vitima nao pOSS'Ul 
qualquer anotação em sua t'olha penal (fls. 78). E Manoel Alberiqu~s 
(fls. , cuja filha era noiva da vítima, informa que a conhecJa 
"desde idade", tratava-se de pessoa traba e que "nunca 
) 'l ,j(, a conduta da vítima, S( ti lL L 00 
que 
a casa" 
A conduta dos pol militares extravasou, bem se os limi-
tes da sua atuação legai, empregando força não consentida a pretexto 
de ter encontrado resistência. O policial, como qualquer cidadão, deve 
reagir quando é agredido injustamente. Tal circunstância, p01:ém,. deve 
ficar exaustivamente demonstrada através do processo constltuclOnal-
mente estabelecido para o julgamento dos crimes dolosos contra a 
vida. 
Saliente-se, ainda, que, mesmo no Código Penal Italial1~ ~~mo 
se sabe, de inspiração fascista -, que prevê, no seu art. 53, a Just:flca-
tiva autônoma de "1 'uso legittimo della armi", exige-se a necessldade 
desse uso, respeitando-se o princípio da proporcionalidade. . 
Acolhendo as lições de Manzini, Bataglini, Bettiol, MaggIOre, 
Antolisei e Pannain, o professor Heitor Júnior, abrilhanta o 
Ministério Público do Estado do Rio, disserta: 
"Adotando o ensinamento da melhordoutrina, 
, . dência não encon-data que a matéria a maXJlna pru ., 
trando o uso de arma por de que 
. 1 ~ ou morte do a ocaSIOnar esoes venha 
salvo a de excesso 
ausente outra forma de lograr a captura, por 
144 
\10 do 
leu!! 
11 qUt~: 
'~ir o [unbito udcntc ê 
i'unciuil;írio o preso que , so porque 
leria <1 C(inclellií-lo á morle Ídto da o que seria m011S-
truoso," 
\)' 
autores dos disparos sequer 
do 
desde 
ciais -
já 
i na condUla dos poli-
A poJ 
dever que lhe 
lizar o tradicional 
o 
um 
cidadãos. 
em heróis -, como se vê na s, 
"homicídio -- estrito cumprimento de dever 
deixou de lavrar o auto 
e sequer deu-se ao 
de res 
em f1a-
ver e 
, instalando o medo e a insegurança nos 
que as vítimas desse 
o o homicídio no 
am, quase sempre, cidadãos das classes marginalizadas e 
no sern 
e para 
São os deserdados da lei, nascidos para cumprir um desti-
sobre os quais se por isso 
reeer 
instrumento' 
de 
com o 
o ilu Promotor de 
do tipo, sem que, com 
ela 
l. 
o na 
minaI da Comarca da tal - I 
Silva. 
o 
145 
icial em 
de 
146 
Filho, sob o fundamento de que inexistiu crime na ação 
que do estar 
com-
da favela 
nesta cidade, 
ao vislumbrarem três 
em atitudes suspei deles tentaram se aproximar, ocasião 
em que f~ram recebidos a bala, travando-se, então, cerrado tiroteio. 
Os ll1ch 
disparavam seus 
da 
da 
das meninges" (fls. 48v.). 
Tangentemente à matéria fática, baseia-se o Dr. Juiz fundamen-
taln:ente,. no depoimento do ManoeI Alberiques que 'informa ter 
ouvIdo. d:sp~ros após a vítima entrar correndo pela porta da sala de 
sua res~dencla, sair pela cozinha e galgar o muro (fls. 37). 
Dla.nte desta ~ssertíva, e considerando que o disparo fora efetua-
do de baIXO para CIma (fls. 48v.), o ilustre Dr. Juiz, invocando o laudo d~ .10caI (tls. 21/31), conclui que tudo - verbis - "indica, sem muita 
dI.fIc,:ldade, que a vítima, provavelmente, tentava pular o muro ao ser 
atmgJda. " 
mente, o ún ponto destoante do Inquérito reside no 
n:o.men,~o em que os tiros foram trocados, dado que enquanto os poli-
CIaIS ailrmam que a vítima adentrou pela d S' M'~ I 
' . . o 1. dnoe 
apos o tJrotelO, este afirma que o mesmo Ocorreu "minutos 
que ~~ versão policiais também neste ponto 1~1ere-
Em se prevalecesse a narrativa Sr. 
da 
o fato 
com 
silo os crinú!1o'\'{),)' Crime e crinú!1o.l,'os: entes 
existência de qualquer disparo, durante ou ter a vítima passado 
sobre seu Ímóvel. 
Por outro do Dr. Juiz no sentido de que a víti-
ar o muro ao ser atingida" não nos 
([ WIW porque, como teriam 
e a duas porque a vítima tombara - verbis --
ii abertura destinada ao ão", não razoável 
admitir-se tivesse ela por pular U:ll cerca de 
mo tinha a seu 
ele local, fls. 21 
uma de cerca ele 
111, e fundamentalmente em face do que se contém no 
rito policial, parece-nos devidamente comprovado nos autos terem os 
policiais agido em conformidade com o Direito, na medida em que 
escorreita 
o anjUI 
~lr que para a propo-
situra de ação penal reside na presença de elementos de convicção 
indicadores da autoria e da existência de conduta adequável a tipo 
penaL Estes elementos, contudo, devem referir-se não apenas a wn 
fato aparentemente típico, mas, sobretudo, a uma ação penalmente 
reprovável. E, se tais elementos indicam que a conduta questionada se 
posiciona ao agasalho da sistemática jurídica, não se h;:1 que cogitar de 
deflagração de ação penal pelo Ministério Público, ainda que presente 
a de tipícidade. 
Demais, no entendimento de que a mecânica de ade-
do fato à norma incriminadora deve processar-se com 
não apenas aos formais do tipo, mas em conta, 
também, o subjetívismo da conduta cogitada. 
Pesem, embora, respeitáveis posicionamentos em contrário, 
temos que a pretensão de se retirar do tipo qualquer alcance do 
tivo, consoante o magistral Mezger em seu tipo em estrito On 
Ein Lehrbuch), em à simpli-
ficada de Beling, em seu Die Lehre von deve 
ceder passo ao campo vale dizer, ao necessário 
do da conhecimento este que 
há de se operar simultaneamente à pesquisa da norma 
148 
C1SOS, tratou 
ico i'nsltu desc!1vol-
mio do cntendimento 
bjJjdadc da doutrina que faz a 
torno 
na 
ricdadc com o da 
tc, se assinalou. 
o 
em face do que 
verificando que o caso em tela encerrava 
ta com o direito de causa 
acerto, se houve o Dr. 
te, 
a admitir, 
da descriminantc e da o certo é 
entre o Magistrado e o Promotor de Justiça quanto a 
doutrinário não servir de óbice à concessão da 
nada havendo que o 
o reconhecer que LI hipótese melhor se à exc!udente 
rotulada por defesa do que a invocada pelo Dr. Promotor de 
J llstiça. 
os crÍIIl/nn.'-:os? Criuu) (' Crillli!loS(l.\: cn/es 149 
de seu divCf<;;lS outras cOllsi-
Enlclltk n Ilustrc 
d\) Tr: hu 1 do 
do proccsco L'omu 
a fasc da in~;tru 
Promotor de 
. entretanto, o culto colega 
por da lei cm caso de fuga 
strado trecho do citado autoe em 
\'crbis -- "Ampliar o âmbito da exeludcme c 
assim, ainda 
ise judicial. É a institu 
Não vemos como se possa éldmitir os 
cis que parte de uma 
150 
que 
são responsáveis pela justiça criminal não pode murchar e secar, e 
atrofiar-se". 
A aI 
penal, deixou de 
fazê-lo por entender que os elementos do inquérito indicavam terem 
os policiais agido ao amparo de causa excIudente de antijuridicidade, 
portanto, em perfeita harmonia com o direito. 
Com o arquivamento, não pretendeu a homologação 'da arbitra-
riedade e da violência policiais', nem a 'legalização da impunidade', 
incompatibilizando-se com os princípios do 'Estado de Direito De-
mocrático' . 
Ao contrário. 
Com o arquivamento, o que 
e violência contra os transformando-os em que 
quando foram recebidos a bala por Cely e seus companhei-
ros, transmudando-se de vítimas de tentativa de homicídio para auto-
res de crime doloso contra a vida. 
Com o arquivamento, a 
Democrático', porque a e isto não mereceu a 
a descabelada e até abusiva con-
tra quem as peças informativas nada revelaram em termos de 
mento pela ausência de do face a ope-
rância de causa excludente de 
i51 
não ter sido 
Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1981 
Evandro 
As:;ístenle do ProclIrudo/"-Geral dli 
"APROVO O PJiRECER .. 
Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1981 
Nelson Pccegueíro do Amaral 
Procurador-Geral da Justiça" 
" 
II 
* 
em que diz estarem todos revoltados com o fato de não terem 
independência no acompanhamento de inquéritos, apesar de ingressa-
rem na carreira por concurso público. 
Segundo a mesma fonte, a revolta aumentou depois do afasta-
mento do inquérito e posterior assassinato em Recife do procurador 
Jorge de Melo e Silva, o denunciante do escândalo da mandio-
ca, mas a queixa contra a falta independência é antiga. O procura-
dor Osvaldo por exemplo, afirma estar lutando há 10 anos 
contra a censura que o procurador sofre na redação do seu parecer. 
e 
Ele diz que "a censura além de quem o 
parecer, tem o condão de embretá-Jo, submetendo-o ao aprovo ou não 
de uma única pessoa, que passa a ser censor e juiz". pessoa, 
segu.ndo Degrazia, é o procurador-geral da Repúhl nomeado e 
SUjeIto a ser demitido a qualquer momento pelo idente da 
Maria Tereza. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14 mar. 1932,! cad .. p. 3 .. 
152 
Em 
Nova Lei 
deve 
ilibada". 
saber 
te da Assoei Nacional dos Procuradores da 
República, Henrique que a classe está revolta-
a morte do 
um 
milhões. Os cinco procuradores confirmaram que não é a 
que um integrante do Ministério Público sofre pressões. 
Banco Cidade 
Outro episódio recente também envolv~ um escândalo financei-
ro. início do ano passado, a Polícia Federal concluiu uminquérito 
que apurou de fiscal e remessa ilegal de dólares 
para o exterior, a partir de um clandestino ligado ao Banco 
Cidade, que funcionava em São Paulo, sem autorização do Banco 
A partir do momento em o inquérito chegou à Justiça 
Federal, a procuradora Márcia Dometila de Carvalho passou a pedir 
providências ao Banco Central, para que entrasse nas 
à Receita Federal, para a obtenção de provas dos crimes de 
fiscal. 
Desde o da República na época, Firmino 
Ferreira chefe do Ministério Público em 
São Paulo, Benevídes de Carvalho, para que afastasse a procu-
radora do inquérito. Este fato foi denunciado por Célio de Carvalho, 
154 
sou ir n São Paulo afastar 
o ue a denúncia dos 
v no 
lbrahim Abadi --
resolver o caso o 
nitivamente. 
o 
outros mornentos de tensão. Foi o 
e 
bl v 
recebeu a incumbência de emitir parecer no processo em que a União, 
por intermédio da Funai, e o Grupo Slaviero (indústria e comércio de 
madeiras) disputavam a propriedade da reserva pinheiral de 
Mangueirinha - 7 mil e 200 hectares de terras cobertas de araucária 
brasiliensis - área avaliada em mais de Cr$ 3 bilhões. 
Logo que o procurador manifestou o entendimento de que era da 
União a propriedade da reserva, um colega seu informou que ele esta-
va sendo pressionado por Firtnino Paz a dar parecer em favor do Gru-
po Slaviero. Para adiar o parecer, João Serra Azul tirou líeença e disse 
que esperava a de Firmino Paz para assumir o cargo de 
Ministro do Supremo Tribunal Federal, o que só veio a acontecer em 
1981. 
No final da 
parecer contra 
informação na L.1J\JL,ct. 
tava: "O está entre a cruz e a 
o processo sobre a 
Carlos CoI iDe] 
Uni 
lum 
Eo 
ou dava um 
Ao 
Guimar?ies ao 
parlamentar aproveitara um programa 
partidária para fazer declarações acusando 
no entanto, o 
não 
155 
na 
e, 
Ulisses 
o 
a divulgar doutrina 
o Govemo@ftprátíca de 
a 
cil 
construída para 
vale dizer estamos com excesso populacional da ordem de 3.800 
homens. 
públicas do interior, estão recolhidos 7.200 homens, 
em excesso populacional, que deveriam estar recolhidos a presídios 
da Secretaria da Justiça, mas presídios que não existem. 
Não vamos apontar falhas e culpas do passado, até porque isso 
não resolve o problema: vamos constatar uma realidade que existe, e 
que pode ser detectada através destes números. 
Há um excesso populacional, portanto, da ordem de 11 mil 
só na área da da Justiça. 
Sabendo-se que uma 
depende uma tipicamente 
izada, e de alto custo, para o número de 500 presos 
vamos relacionar este recentes que o Estado 
de São Paulo está -', as penitenciárias de Pi uí e de 
Araraquara, com capacidade para 500 cada uma, 
portanto, o total de um mil, custaram ao Estado a soma global de 200 
de ou 200 bilhões de antigos. 
PIMENTEL, ManoeJ Pedro, Brasil Rotório, jul. 1976, pp. 30-1 
156 
,\'ào os critninasos? CrinlC e crhuil1osos: 157 
Vale dizer que, para 200 
milhões de de lima vaga em 
mil cruzei o custo da 
que da mil dó] 
que um emprego industrial cria 10 empregos i retos, é 
rentável, que o custo maior de LI vaga de pre-
sídio é inteiramente ocioso da 
Este 
de 
22 
para cada uma, 
morreu, nl,lS 
mento bem grande, de mais de teríamos ainda válidos para C:1l11-
prir em São Paulo 30 mil mandados de prisão, o qU,e der~andana a 
construção de 60 penitenciárias para 500 presos a razao de 100 
milhões de cruzeiros cada uma. . ' 
Se todo o orçamento do Brasil fosse colocado a servl~o dess~s 
construções, como solução tradicional do problema do cnme, n~s 
ainda não teríamos resolvido o problema, porque os mandados de pn-
são crescem à razão de um mil por mês, demandando constru-
ção de duas penitenciárias por mês, o que se fosse possível, em ter-
mos económicos, não seria possível em termos de con em ter-
mos de engenharia. 
"A 
litação penitenciáría." 
v 
Para os criminalistas estrangeiros, que vêm encarando a Suécia 
como um laboratório de reforma experimental do sistema presidiário, 
o fracasso das tentativas de reabilitação, na Suécia, tem minado seu 
empenho em exercer pressões no sentido de obter uma legislação cri-
minal de caráter reabilitador nos seus próprios países. 
desolador", disse um visitante, perito em prisões de um país 
do Oeste da Europa. "Em meu país, ainda estamos na Idade Média, se 
compararmos a assistência que se aos detentos na Suécia. Mesmo 
nas melhores oportunidades nos é difícil convencer o governo a pres-
tar melhor assistência aOs presidiários. Atualmente há um clamor 
crescente por lei e ordem, e nós nem podemos citar os suecos como 
excmplo e argumento para nossa causa de um tratamento 
liberal para os presos." 
Há 3.300 nas qual for o dia do 
ano - um número 
de habitantes. 
que possui somente 
das penas é de 100 dias. 
NEW YORK 
1972. "~fJUUU~,""v por O Estado de S(IO Paulo. São Paulo. ouL 
158 
.\'ÜO os criJllino:·;os? C~rifl1e e crinúnosos: entes 
Todos os prisioneiros têm quartos individuais que aparentam aloja-
mentos de universitários -, sendo 'o termo cela recebido com repulsa. 
Sem 
condenados a penas inferiores a um 
ano é enviada a sem muros ou cercas, e os conde-
nados manter empregos, o dia, nas cidades próximas. 
distante 120 quilômetros ele Estocolmo, os deten-
tos recebem salários ao mercado de trabalho "lá fora" ou 
podem freqüentar escolas. Essa prisão-albergue oferece inst~l.ações 
para banhos de sauna, natação, esquiagem e espaço para a pratica de 
Estocoimo -, há mais nos campos 
cional, psiquiátrico e de treinamento profissional do qu~ ~m ~stabele­
cimentos semelhantes situados em outros países. As pnsoes lechadas 
preparam, ainda, visitas conjugais pelo menos uma vez por semana_ e 
concedem uma licença mensal de três dias para todos, com exceçao 
de alguns poucos presidiários de alta periculosídade. 
É rara a violência nas prisões. Quase não se ouve falar de ata-
ques homossexuais. Os guardas, desarmados, teriam de chamar a polí-
cia 10C'ál em caso de ocorrer um improvável motim. 
Um funcionário do presídio de Norrkoping relatou a ocorrência 
de uma invasão de um grupo armado que libertou um detento. m 
que conseguiram entrar", disse ele, "nós não pu~emo.s nada:.a 
não ser ficar parados e assistir à fuga do preso no mtenor ~e ~lm cau.o 
Foi bom que os não portas~em armas, pOlS ISSO tena 
aumentado o risco de vida eles." 
A tolerância do sistema sueco é, em um reflexo do baixo 
índice de violência criminal. Somente 1 das 10 mil que 
são cona,en 
f1 °O passam de tos, e os u. 
violen-
"J sso 
ser icado fato de tensões raciais e étn~cas .em 
uma sociedade tão homogênea como li nossa", disse Lars Bolm, dlre-
tor do de trabalho c treinamento da Admi 
cede 
sediado cm "Isso 
em guerra por 
uma arma de 
tenciárias também pro-
há muito aceita - com acentuada-
- de que conden:\dos deve ser dado tra-
das últimos anos iriam pro-
as mais da 
da e nos Estados Unidos. 
Central dos Presidiários, que 
de reivindicações que 
nhou 
é dirigida por 
toda a 
solí-
tra-
balhadores. 
Embora não esteja ansioso por ver a organ emergindo 
como um sindicato com plena capacidade, Henrik Martinsson, que 
preside a Administração Nacional de Presídios, requereu salários 
equiparados - determinados pelo mercado para todos os detentos. 
Esse sistema já existe em diversas instituições. São também tomadas 
medidas visando manter os condenados em prédios próximos a :;uas 
a fim dê' que mantenham seus e no sentido de 
lhes possibilitar a obtenção de emprego tão Jogo am postos em 
liberdade. 
Interpretações Diferem 
Por que, então, o alto índice de retorno à prisão? 
Entre de detentos que tinham sido condenados ante-
riormente - entrevistados por funcionários e críticos - muitos concor-
daram em que a sociedade sueca, tanto quantoqualquer outra, 
de ex-presidiários. Afora esse consenso, as 
v,<,,",,,,-,., diferem amplamente, e o fato parece perturbar 
I ao processo criminal. 
en/es 161 
"A maioria das os como se 
todos nós andássemos com máscaras em nossas faces e com 
, disse Lasse líder da Central dos 
Presidiários. "Os 
Não i 
dificuldade em obter empregos." 
nd, que está detido em 
manifestou que no seu entender "as 
têm tremenda 
sües são bastante aceitávei , mas certamente não dissuadem do 
crime", e disse: "Você se habitua à vida do Não acho que as 
prisões possam reabilitar a maioria das Qualquer reabilitação 
principalmente, dos vínculos do recluso com a sociedade lá 
atual sentença deve-se a 
diz que abandonará o crime 
para isso". 
por roubo· ua 
por fraude. Aos 47 anos, ele 
"porque estou ficando velho demais 
Programas Ineficazes 
Urn detento norte-americano, cumprindo pena de anos e 
meio por introdução de narcóticos, disse que julga os programas de 
reabilitação empregados na Suécia tão ineficazes como os que se 
empregam nos EUA, onde também cumpriu 
"A grande diferença, comparando-se a Suécia com os é 
que os indivíduos aqui são muito passivos", explicou. "Não há aquela 
raiva e violência que se vê nas prisões norte-americanas. Aqui, eles 
muito bem convencer os detentos de que a vida na 
não é tão terrível assim. Dessa forma, isso é um simples parque de 
di versões." 
"Veja esses indivíduos", ele continuou, apontando para um 
grupo que passava. "Todos eles já estiveram aqui anteriormente. 
deles já estão inclusive planejando voltar. Eles não têm mais 
nada lá rara." 
162 
acreditam que as 
tido mais sucesso na reabil 
se infiltr~lll1 nas prisões, através de 
. E temos éstado totalmente 
para o 
Somente há pouco tempo foi aberta a primeira instituição peni-
tenciária para tratamento de presos viciados, em caráter voluntário. 
rela-
de progt-amas de levou os tanto 
os ligados como os desligados do sistema, a insistir em que as prisões 
sejam usadas somente para proteger a sociedade dos criminosos mais 
violentos. Henrik Martinsson, diretor do sistema penitenciário, disse 
que gostaria de ver algumas prisões desatívadas e uma redução de 
50% na população carcerária, fazendo com que pequenos furtos, rou-
bos sem uso de armas e o crime de dirigir sob embriaguez sejam puni-
dos com I11uItas ao invés de reclusão. 
Jar! antigo do 
nou um importante crítico das instituições 
das sejam abolidas e que o 
desenvolvido em contato com a sociedade 
indivíduo a exercer maior 
Conservador, que se tor-
a fim de obrigar o 
em público. "Nós 
de mais burocratas. mas uma rede de vo-
insistem na abol do sistema - exceto 
das classes ricas. bastante 
163 
do fato da violência criminal, tais críticos têm até um culto de perso-
nalidade, romanceado, em torno dos mais conhecidos Em 
a csse Clark Olofsson, um 
como um dos mais 
com sas, e tornou-se de um 
de caráter biográfico. 
e tem suas cartas e publicados com 
I 1 t·e '1111'\ ,c> outra Ele já L.uas vezes, uma (U1'an c ( '-' 
mediante arrombamento da "Enquanto eu for não haverá 
outra forma de eu me aturar que não seja pela ca de atos 
minosos", escreveu artigo recente, apresentando uma 
"..c'.'~'" para te r . 
Na maior parte dos países desenvolvidos do Ocidente, as tentati-
vas de recuperação de criminosos têm sido abandonadas se não na 
teoria, o foram na prática -,- numa tentativa do governo para contraba-
as severas reclamações do público, alarmado com a escalada 
do crime e a superlotação dos sistemas penitenciários. 
Nos Estados Unidos havia mais de 283 mil detentos nas prisões 
estaduais e federais no início do ano um aumento de 13% errt rela-
ção a de 1 Os membros do têm repetidarnente 
ouvido denúncias de superpopulação, instalações, lon-
gos períodos de espe~a por julgamento .e 
Mas os leglsladores estaduais, 
substancialmente a 
Na Grã-Bretanha, um projeto de lei aprovado em julho estipula 
de prisão composta de dois O cumpri-
maior ele uma 
pena iria dis-
da principalmente 
164 
maiS 
o governo 
ampliando os horários de 
IÍvros 
está que em 
para terroristas e criminosos 
iberdade 10 mil condenados 
para muÍtos crimes IncnOS 
um 
uma de .reformas, inclusive 
permitindo que os detentos 
ha e methor;~() ti condi 
para reabllllar uma popu 
10.266 - Rio de Janeiro, 13 de setembro de 1977. Exmo. Sr. 
Juiz de Direito da Vara de Execuções Criminais do Estado do Rio de 
Janeiro. 
Os abaixo-assinados, peritos encarregados do exame de srmidade 
mental em FRANCISCO DE SOUZA PEIXOTO - RG nº 88.562 -
dão a seguir o laudo respectivo. 
IDENTIFICAÇAo: -- FRANCISCO MARIA PEREIRA DE 
SOUZA PEIXOTO ou MARIA PEREIRA SOUZA PEI-
XOTO ou FRANCISCO MARIA PEREIRA DE SOUZA, branco, 
solteiro, de 38 anos de iclade, nascido em 7/l /l brasileiro, natUl~al 
cio católico, instrução secundária, internado no Manicómio 
Judiciário Heitor Carrilho. 
O periciado vem 
HISTÓRICO 
submetido a exames de 
de 1959. 
mental 
neste Manicómio Judiciário a 
Ao todo foram 10 os exames, que se converteram em 10 laudos, 
o primeiro deles realizado em 1959, por solicitação do Juízo da llª 
165 
166 
em foi 
de maconha. 
eis outros foram para 
de 
da 
ele arma e 
de maco-
o de 
No primeiro exame realizado em nosso serviço os peritos, depois 
de fazerem um estudo primoroso da personalidade do periciado, fir-
tam. cor~clusões diversas, pois o feito em 1960 diz que Francisco 
Mana nao tem condições de ser posto em liberdade, face à sua defor-
mação de caráter, enquanto o realizado em 1961 recomenda liberdade 
vigiada c~n: indicação de comparecer a um serviço especializado, sob 
responsabIlIdade de um familiar. 
A primeira perícia solicitada pela 14il Vara Criminal resultou nas 
mesmas conclusões dos exames anteriores 
responsabilidade, pois os peritos assinalarri: é claramente 
uma ~ersonalidad~~psicopática, mentiroso, dissimulado, cínico, que 
atraves de uma atItude exterior estudada, procura simpatias em 
torno de si para melhor obter seus entretanto 
delitos são todos o atual ~ produto 
mesmo, de uma tábua sui gene-
anormal-
nitidamente psícóti~ 
ca, detectada 
atual. 
sâo os crilninosos? Crinie e crinlinosos: ente,')' 
um especialista menos de 20 dias antes do delito 
à com o mesmo forçando 
o sorri-so no curso do diéílogo, com o campo ideativo se limitando aos 
de é vítima de tudo o que acontece no Manicômio, 
acusando funcionários e outros internos de serem desonestos e maco-
nheiros, ao contrário dele que é 'homem sério e honesto'. Não tem 
agressivos que nas sua 
de de relacionar-se ao nível afetivo. Procura superar essa deficiência 
através de atitudes artificiais, estudadas, de mímica, sorriso e verbali-
zação, simuladoras de reação emocional. Juízo crítico comprometido. 
Memória sem alterações. 
O paciente revela não se encontrar nunca triste, nem mesmo pelo 
fato de estar internado e condenado: 'isto é um hábito, a gente se 
acostmna' ... " 
Termina por concluir pelo diagnóstico de personalidade psicopá-
tica com traços predominantes de caráter paranóide. 
Um eletroencefalo!Yrama em 4/7/77 não revelou anor-
"" malidades de bioeletrogênese cerebral. 
volta a ser o psicopata 
de tudo e de 
procura assumir ati tu-
retratando-se como vítima da vida e dos demais interna-
com a finalidade de nos examinadores. 
168 
para rnclhúr nos convencer de que é um 
(ornar 
n 
as personalidades são personalidades anormais que, por 
sua anormalIdade, sofrem ou fazem sofrer os outros. personalida-
des q:le ~empre ch~gam, em qualquer situação vital, em qualquer cir-
cunstancIa, a conflItos externos ou internos. 'O psicopata é um indivÍ-
duo. que, por si embora não se tenha em conta as circunstâncias 
SOCiaiS, é uma personalidade estranha, afastadado termo médio' 
(K. Schneider). 
não são doentes mentais, psicóticos. A expressão 
tamb.ém não tern mais curso. É, uma variaçüo ano1'-
mal de p~rsonalldade. Conseqüentemente, o que se h21 de fazer no que 
diZ respeito ao tratamento não pode ser o preconizado para os 
mentazs. O m,élnllsel'o e' d't"'1 " 
.. ". I ICI e ex] oe 
normas s. O que hoje quase não se bilidacte 
de educar, em ou pequena medida, os indi i-
dade anormal no de melhorar seu caráter. Até pouco tempo a 
maioria dos identificava o psicopata com;} . 
~~. in.divíduo para ser modificado educação e o tratamento. 
111l1elpalmente ao da 'psicologia' robusteceu-se a 
nova atitude, adotada pelo próprio Klages ao que certa-
mente os , podem ser tratados e o são: se se quer, até !)odem 
ser S empre que seentender como tal seu deslocamento para 
silo os crirninosos 169 
e 
acreditam 
per-
tratar Contando com enormes 
dificuldades, de toda ordem, em todos estes anos vem procurando dar 
assistência a esquizofrênicos, psicóticos, maníacos-depressivos, para-
líticos etc., usando as técnicas mais avançadas mercê da ultra-
passagem de grandes obstáculos, como já se acentuou. 
A falta em nosso meio de uma casa de custódia e tratamento tem 
trazido para nosso hospital nurneroslssimos psicopatas para cumpri-
mento de medidas de segurança. Esta situ j:ll1ormal é uma das 
principais causas do desvirtuamento gradual dos objetivos iniciais elo 
manicômio judiciário. 
Os psicopatas trazem problemas disciplinares, administrativos de 
toda ordem, q ue, com o correr dos tempos, foram enorme 
monta, sobrepujando os demais. l-foje, sem medo de errar ou ser acu-
sado de podemos fazer esta afirmação: o manicómio não 
cumpre suas finalidades de acordo com os mais avançados métodos 
da psiquiatria porque teve que sofrer no tempo uma verdadeira adap-
para cobrir a falta da casa de custódia e tratamento. O resultado 
é que os doentes mentais, sen.YU strictu, não são bem atendidos como 
tal, porque ainda temos que usar métodos coercitivos' rígidos 
veis aos É impossível LI uma casa ser, a só hos-
pital e casa de custódia e tratamento. 
170 
Defendendo a tese da inutilidade 
Grulhe 
"Não queremos discu!ir-- e 
casas de custódia tratamento 
Senhor Diretor-Geral, 
Face conclusões do laudo de Exame de Verificação de Cessação 
de Periculosidade efetuado no apenado FRANCISCO MARIA 
PEREIRA DE SOUZA PEIXOTO, RG. nº no Manieômio Ju-
diciário Heitor Carrilho, onde se acha recolhido, solicito a V.Sa., 
determinar providências no sentido de ser o mesmo recolhido às 
dependênc~as penais desse Departamento, se possível no INSTITUTO 
PENAL CANDIDO MENDES, na Ilha 
Outrossim, esclareço a V. Sa. que este Juízo, nesta data, 
àquele nosocômÍo, determinando a do apenado em tela a 
essa Diretoria-Geral. anexo, do laudo do exame do 
nado. 
de 
de da 
G. THOMPSON -Ao llmº Sr. Dr. AUGUSTO 
MM. do 
VI 
Alegoria (com adereços e sem harmol1ia) 
Atirada para o meio do palco, a violência criminal transforma-se 
no objeto único da concentração de todos os projetores disponíveis no 
teatro. Em cena, apenas ela recebe o banho intenso das luzes. O resto é 
penumbra, às vezes escuridão absoluta. Surpreen?ida, ofuscada pelos 
faróis, sem conhecer o papel a desempenhar, a atnz estrela se contorce 
canhestramente, salta, uiva, range os dentes e espuma de ódio, na ten-
tativa frustrada de romper o cerco brilhante que a envolve. Cada movi-
mJ;mto, tragi-ridículo de que se reveste, excita enorme atenção do 
público e, por conseqüência, maior empenho dos donos do espetácul0 
no sentido de em e singularmente. 
Ora! Eis que 'quer abandonar a ribalta! Cumpre coartar tão 
Apertem o cerco! Que metida a 
cortem-se-lhe os as mãos, dêem-lhe freqüentes 
.. mas não a matem! Para que a 
preservar-lhe a vida, a os guinchos al.ucinantes. ':'amos, 
umas cutiladas a mais as cabriolas do corpo mutilado, os reverberos 
rubros do sangue a 
tam de maneira 
TRIBUNA DO 
acrescem em a iman-
os sentidos dos 
Rio de Janeiro, OAB, fev. 1980. p. 2. 
172 
:;Olll br~l, ill 
dH -~ 
() 
cstú ali, 
posseiros da casa 
mais enraivecida e 
revolta entope as 
enchendo os olhos, entorpecem o 
lar, o rebaixamento da 1 
morte, maior franquia para a tortura", 
seguida: "Tudo 
urro 
na 
a pena de 
em 
num 
voe ex a:;~ 
a essa maldita que socorJ\~m'r com , com c 
das fi las primeira:; não se 11 o ] 
e no corpo, que rola 
teia, c dú arrancos c gira, irisado no vermelho 
os novos agressores, 
negro manto e catadura. " não 
O sacrifício desse trabalho cabe só a 
iea atende a pronta uI 
malvada o olho. 
risca o ar com os cotocos sangui 
,) Olhd () resultado da ]oteca l ". 
vol-
Em b~lslidores insuspeitados, 
,d ív fi llall1lente ci1Con!t<lc!il fui 
173 
rall1 
SlUI 
muito pcns:lr, resolvera o 
Cllcenaremos olltra 
cump;íl1!Jciros, com-
Dos delitos e das penas, Trac!, 
1977. 
l. 1. 
Antonio Ruas. São 
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