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PSICANÁLISE E CRIMINOLOGIA 
AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Paulo Kohara 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Após uma introdução ao pensamento criminológico e às obras seminais 
para construção de uma criminologia psicanalítica, é chegado o momento de 
contextualizar onde esse debate se insere, seja com relação às condições 
institucionais onde essa prática vem repousar, seja com relação ao debate 
epistemológico sobre o qual a psicanálise vem incidir. 
Desse modo, pretendemos auxiliá-los na diferenciação dos pontos de 
vista a partir da análise intrapsíquica da psicanálise e da ordem social vigente, 
bem como na apropriação dos conceitos de sujeito de direitos e, 
consequentemente, de cidadania. 
A partir justamente da apresentação do sujeito de direitos e seus 
desdobramentos com relação à noção de responsabilidade (jurídica e subjetiva), 
iniciaremos este percurso. Na sequência, apresentaremos como esses conceitos 
se articulam com a história dos direitos da criança e do adolescente no Brasil e 
com o atual paradigma da Justiça Juvenil. 
Por fim, apresentaremos como as noções de sujeito e responsabilidade 
são centrais também para compreender a mudança de paradigma promovida 
pela Justiça Restaurativa no âmbito do processamento criminal. 
TEMA 1 – O SUJEITO DE DIREITOS 
O sujeito de direitos é definido na literatura jurídica como a pessoa física 
ou jurídica que tem a capacidade de titularizar direitos e deveres na ordem 
jurídica. Os sujeitos de direitos são fundamentais para a garantia dos direitos 
humanos, uma vez que o reconhecimento da pessoa como sujeito de direitos é 
o que permite o exercício pleno da cidadania e a promoção da justiça social. 
Trata-se de uma construção social e histórica, resultado de lutas políticas e 
sociais que buscaram reconhecer a humanidade e a capacidade de 
autodeterminação de todos os indivíduos. 
Para nossos fins, é importante destacar que a noção de sujeito de direitos 
tem como unidade fundamental o indivíduo consciente e racional. Nos termos do 
célebre jurista Norberto Bobbio (2015, p. 20), 
A declaração dos direitos do homem e do cidadão reconhece não só a 
liberdade e a igualdade como direitos fundamentais, mas também a 
 
 
3 
propriedade, a segurança e a resistência à opressão. A esses direitos, 
no decurso do tempo, foram adicionados muitos outros, como o direito 
ao trabalho, à previdência social, à saúde, à educação, ao meio 
ambiente etc. Mas, em todos os casos, o sujeito de direitos é sempre 
o homem enquanto tal, isto é, como ser racional e livre. 
Nessa passagem, Bobbio destaca que os direitos fundamentais 
reconhecidos pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, bem como 
outros direitos que foram incorporados ao longo do tempo, têm como sujeito 
sempre o homem enquanto ser racional e livre. A professora Luana Gusso nos 
auxilia a delimitar melhor esse sujeito no âmbito do direito penal: 
O sujeito de direito […] está encerrado nos aportes da filosofia 
transcendental, ou seja, está situado em um espaço-tempo 
determinado por uma consciência racional. A razão é a unidade 
delineadora de todas as possibilidades subjetivas construídas no limiar 
da modernidade, que acaba por formatar a noção de sujeito de direito 
penal como o “homem do livre-arbítrio” (Gusso, 2011, p. 44) 
No âmbito do debate criminológico, a noção de sujeito de direitos, como 
“homem do livre-arbítrio”, está intimamente relacionada com a noção de 
responsabilidade e, consequentemente, imputabilidade por seus atos. Embora 
seja a base de uma sociedade livre e da possibilidade do estabelecimento de 
direitos fundamentais, é preciso se atentar que: 
Nada adentra o Direito que não seja por esta transmutação 
objetivadora que procura integrar, no final das contas, um fato a uma 
norma, pela lógica da subsunção, e um sujeito a ambos, para fazer crer 
que, no plano da racionalidade jurídica, nada que é do comportamento 
humano escapa ao controle do seu regramento, seja para prescrever 
ou punir condutas. (Oliveira, 2010, p. 288) 
A operação pela qual o “homem do livre-arbítrio” adentra no plano do 
controle e da punição de condutas, a “transmutação objetivadora” do sujeito 
operada pelo Direito, decorre do conceito de imputabilidade. De acordo com o 
bastante influente jurista Damásio de Jesus, “imputável é o sujeito mentalmente 
são e desenvolvido, capaz de entender o caráter ilícito do fato e determinar-se 
de acordo com esse entendimento” (Jesus, 2015, p. 513). 
A exceção para essa associação entre imputabilidade e condição de 
sujeito de direitos são as crianças e os adolescentes. Embora inimputáveis, são 
tratadas pelo ordenamento jurídico nacional como sujeito de direitos, com 
implicações no campo criminal. Por se tratar de sujeitos de direitos, portanto 
indivíduos racionais e livres, no caso do cometimento de atos infracionais, a não 
qualificação desses atos como crime não afasta a necessidade de uma resposta 
 
 
4 
estatal com vistas à responsabilização, especialmente no caso dos adolescentes 
(12 a 17 anos). 
Outra especificidade desse público é que sua condição de sujeito de 
direitos é recente na história, sendo incluída no ordenamento jurídico pátrio 
somente a partir do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990. 
Evidentemente, não foi o marco legal que dotou de consciência e liberdade a 
subjetividade de crianças e adolescentes, que continuaram as mesmas. O que 
a mudança legislativa nos indica é como o binômio sujeito de 
direitos/imputabilidade pode ser relativo e em que termos isso se processa. 
Vejamos, nos próximos tópicos, como a responsabilização criminal de 
crianças e adolescentes evoluiu ao longo da história brasileira e o que a atual 
configuração nos ensina sobre punição, responsabilização e seus impactos 
subjetivos. 
TEMA 2 – A CRIANÇA E O ADOLESCENTE AUTORES DE CRIMES NA 
HISTÓRIA BRASILEIRA 
A exclusão de crianças e adolescentes como inimputáveis do controle do 
direito penal, originalmente, sustentava-se na constatação empírica de que 
pessoas menores de certa idade são desprovidas de plena capacidade cognitiva 
e volitiva para responder por seus atos. Tal presunção legal, durante a maior 
parte de nossa história (e ainda hoje na cabeça de muitos), era sustentada no 
critério biológico, tendo como referência exclusiva essa aptidão cognitiva. A 
definição da idade na qual essa transformação ocorre, por outro lado, nem 
sempre foi a mesma, ao longo do tempo e nos diferentes lugares. 
O Código Penal brasileiro de 1890, postulava o seguinte: 
Art. 27. Não são criminosos: 
§ 1º Os menores de 9 annos completos; 
§ 2º Os maiores de 9 e menores de 14, que obrarem sem 
discernimento; 
[…] 
Art. 399. Deixar de exercitar profissão, officio, ou qualquer mister em 
que ganhe a vida, não possuindo meios de subsistencia e domicilio 
certo em que habite; prover a subsistencia por meio de occupação 
prohibida por lei, ou manifestamente offensiva da moral e dos bons 
costumes: 
 
 
5 
Pena - de prisão cellular por quinze a trinta dias. 
[…] 
§ 2º Os maiores de 14 annos serão recolhidos a estabelecimentos 
disciplinares industriaes, onde poderão ser conservados até á idade de 
21 annos. 
Para aqueles que defendem o rigor punitivo contra adolescentes, talvez 
seja relevante saber que o Brasil já os aprisionou. Porém, cabe destacar que, 
como hoje, a lei não era aplicada igualmente a todos os jovens, o que nos leva 
à ressalva de que, em nosso contexto, a capacidade de autodeterminação não 
é a única variável em jogo para que o indivíduo acesse, na prática, a condição 
de sujeito de direitos. 
O mesmo Código Penal que dois anos após a abolição da escravatura 
criminalizava a capoeira e todos aqueles que não tivessem trabalho para se 
sustentar era o código que autorizava a prisão de maiores de 9 anos. Não é 
preciso mais do que essas informações para concluir que, por mais que 
procurássemos, não encontraríamosos filhos delinquentes da aristocracia 
brasileira em nossas prisões. 
Mas os anos se passaram e a memória não devidamente significada da 
escravidão foi ficando para trás. Em março de 1926, ganhou ampla repercussão 
no país a história de Bernardino: 
Em março de 1926, o Jornal do Brasil revelou a estarrecedora história 
do menino Bernardino, de 12 anos, que ganhava a vida nas ruas do 
Rio como engraxate. Ele foi preso por ter atirado tinta num cliente que 
se recusara a pagar pelo polimento das botinas. Nas quatro semanas 
que passou trancafiado numa cela com 20 adultos, Bernardino sofreu 
todo tipo de violência. Os repórteres do jornal encontraram o garoto na 
Santa Casa “em lastimável estado” e “no meio da mais viva indignação 
dos seus médicos”. (Agência Senado, 2015) 
Coincidente ao solapamento do sistema escravista, com a entrada maciça 
de mão de obra imigrante, o crescimento das cidades e a ampliação do mundo 
urbano, emerge o movimento em favor da infância abandonada e delinquente. 
Orientado por uma Doutrina Salvacionista, o movimento resulta na edição do 
primeiro Código de Menores, em 1927. A partir do novo código, delinquentes 
com idade entre 14 e 17 anos passaram a ter como destino uma escola de 
reforma (ou reformatório), onde, em tese, receberiam educação e aprenderiam 
um trabalho. Os menores de 14 anos que não tivessem família, por sua vez, 
 
 
6 
seriam mandados para a escola de preservação, uma versão abrandada do 
reformatório. 
Se há inegável avanço com relação ao Código Penal aplicado a crianças 
e adolescentes, a edição do Código de Menores, manteve como alvos os filhos 
das famílias outrora escravizadas, abrangendo no máximo os filhos de outras 
famílias pobres. Via-se na lei que as situações definidas como abandono – não 
habitação condizente com as necessidades de criação de uma 
criança/adolescente, não contar com meio de subsistência, estar desempregado 
ou empregado em trabalhos contrários à moral e aos bons costumes, o mendigar 
– tinham alvos certos. 
Em 1979, é editado um novo Código de Menores, com vigência até o 
advento do ECA. A mudança no Código de Menores coincide com uma mudança 
de paradigma no tratamento de crianças e adolescentes que, no período da 
ditadura civil-militar brasileira, passou a se organizar em função da Doutrina da 
Situação Irregular. Essa doutrina defende que o Estado deve intervir para 
proteger crianças e adolescentes que se encontram em situação irregular, ou 
seja, que não estão sendo devidamente cuidados por seus pais ou responsáveis, 
reforçando sua condição de objetos de intervenção do Estado, e não de sujeitos 
de direito. 
O Código previa assistência, proteção e vigilância a menores de 18 anos 
que se encontrassem em situação irregular e, em casos expressos, também a 
indivíduos entre 18 e 21 anos. A situação irregular definia-se quando o menor 
estivesse: I - privado de condições essenciais à sua subsistência, saúde e 
instrução obrigatória, ainda que eventualmente; II - vítima de maus tratos ou 
castigos imoderados impostos pelos pais ou responsável; III - em perigo moral; 
IV - privado de representação ou assistência legal, pela falta eventual dos pais 
ou responsável; V - com desvio de conduta, em virtude de grave inadaptação 
familiar ou comunitária; VI - autor de infração penal. Inimputáveis e não sujeitos 
de direito, crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social 
recebiam o mesmo tratamento dispensado pelo Estado a adolescentes autores 
de infrações penais, tratamento este, no mais das vezes, de viés punitivista e 
disciplinador – tratados ali como delinquentes ou delinquentes em potencial. 
Vale destacar que, até hoje, crianças e adolescentes são referidos como 
“menores” em razão dos quase 67 anos das normas que os tutelaram como 
 
 
7 
objetos do direito. Assim, recomendamos que, ao referirem-se a crianças e 
adolescentes, evitem a utilização do termo menor, que embora consagrado no 
senso comum, está em completo desacordo com o ECA e com o paradigma 
vigente que os considera como sujeitos de direito. 
TEMA 3 – A CRIANÇA E O ADOLESCENTE AUTORES DE CRIMES A PARTIR 
DO ECA 
A Constituição Brasileira de 1988 traz, em seu art. 227, que os direitos 
fundamentais de crianças e adolescentes passam a ser tratados com absoluta 
prioridade. No plano internacional, após um intenso debate e ampla cooperação 
entre os países, a Convenção dos Direitos da Criança (ONU, 1990) substitui o 
modelo tutelar pelo modelo da proteção integral (ou de responsabilidade). As 
crianças e adolescentes são vistos como sujeitos de direitos e, sob certas 
condições, dotados da capacidade de exercício autônomo de seus direitos – 
portanto, passíveis de responsabilização. O novo paradigma substitui a ideia de 
incapacidade pela ideia de autonomia progressiva, com implicações na resposta 
estatal face ao cometimento de atos infracionais desses agentes. 
O ECA, editado também em 1990, incorpora o paradigma da proteção 
integral, marco a partir do qual a criança e o adolescente passam a ser 
entendidos como sujeitos de direito, tornam-se destinatários de prioridade 
absoluta da política públicas e passam a ter respeitada (ao menos em tese) sua 
condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. O autor de ato infracional, 
antes menor delinquente, pervertido ou criminoso, passa a ser entendido como 
em situação de conflito com a lei. As internações, antes prática preventiva, 
recorrente e altamente discricionária, tornam-se medida delimitada e 
extraordinária. De acordo com o ECA: 
Art. 122. A medida de internação só poderá ser aplicada quando: 
I - tratar-se de ato infracional cometido mediante grave ameaça ou 
violência a pessoa; 
II - por reiteração no cometimento de outras infrações graves; 
III - por descumprimento reiterado e injustificável da medida 
anteriormente imposta. […] 
§ 2º. Em nenhuma hipótese será aplicada a internação, havendo outra 
medida adequada. 
 
 
8 
Com relação ao tratamento de adolescentes autores de atos infracionais, 
o ECA é complementado ainda pelo Sistema Nacional de Atendimento 
Socioeducativo (Sinase), estabelecido pela Lei n. 12.594/2012. Vinte e dois anos 
depois da edição do ECA, o Sinase vem regulamentar a execução das medidas 
destinadas a adolescente que pratique ato infracional. De acordo com o Sinase, 
são objetivos das medidas socioeducativas: 
I - a responsabilização do adolescente quanto às consequências 
lesivas do ato infracional, sempre que possível incentivando a sua 
reparação; 
II - a integração social do adolescente e a garantia de seus direitos 
individuais e sociais, por meio do cumprimento de seu plano individual 
de atendimento; 
III - a desaprovação da conduta infracional, efetivando as disposições 
da sentença como parâmetro máximo de privação de liberdade ou 
restrição de direitos, observados os limites previstos em lei. 
Como bem destaca o jurista Flavio Frasseto (2022), o novo sistema de 
Justiça Juvenil se descola do modelo anterior centrado na ideia de 
inimputabilidade do direito penal clássico e ganha autonomia em relação ao 
direito penal de adultos. Constrói-se e legitima-se em outras bases – não 
depende mais de uma determinada teoria da pena, de um determinado conceito 
de inimputabilidade de base biológica. Não é mais uma “concessão” do sistema 
penal, que pode ser retirada a qualquer momento. Ao mesmo tempo, não exclui 
a necessidade de responsabilização do indivíduo por seus atos. 
Da nossa perspectiva, de uma criminologia de base psicanalítica, o 
modelo de resposta estatal socioeducativo, estabelecido para o autor como ato 
infracional adolescente, é muito mais próximo do ideal que o próprio modelo 
penal. Isso porque, como aprendemos com a Psicanálise, o livre-arbítrio é 
também relativo no caso dos adultos, não por sua condição peculiar de pessoa 
em desenvolvimento, mas em razão de sua dinâmica inconsciente. A 
responsabilização do autor do crimequanto às consequências lesivas de seu 
ato, sempre que possível incentivando a sua reparação, é muito mais compatível 
com os ensinamentos psicanalíticos do que a pena de vingança. 
A partir da teoria winnicottiana que apresentamos em etapa anterior, 
vimos que a destrutividade direcionada ao meio na forma de delinquência é 
também um pedido de ajuda, na medida em que o sujeito busca apoio do 
 
 
9 
ambiente para lidar com os impulsos agressivos que atacam seu próprio Eu. Nos 
termos da ótima síntese de Maíra Gomes e Fernando Aguiar (2019, p. 204-5), 
[…] é quando o sujeito encontra no exterior um ambiente que contém 
sua agressividade, devolvendo-a de maneira metabolizada, que ele 
pode integrá-la com os impulsos amorosos. Essa integração se dá pelo 
sentimento de culpa, somente possível porque, antes de mais nada, o 
sujeito encontrou um objeto que lhe mostrasse que a agressividade é 
tolerável. […] Assim, este sentimento de culpa demanda uma 
responsabilização pela agressividade. Porém, antes de tudo isso, a 
agressividade não pode ser rechaçada pelo meio. O sujeito não pode 
se sentir culpado por sentir ódio, mas precisa admiti-lo como afeto 
humano. Daí, pode-se hipotetizar os danosos efeitos de um ambiente, 
do qual o Sistema Judicial é mais um na série, que confunde punição 
com responsabilização, e que reduz a subjetividade daqueles que 
cometem atos reprováveis juridicamente à insígnia de autores. 
O que encontramos ordinariamente no Direito Penal é essa resposta 
estatal que confunde punição com responsabilização e que apenas reforça os 
impulsos destrutivos do Eu. Embora a execução das medidas socioeducativas 
ainda esteja longe de atingir o que preconizam suas normas e seus ideias, 
principalmente no cotidiano das Varas de Infância e Juventude e nas instituições 
de cumprimento da medidas de internação, estas não apenas são muito mais 
próximas da noção de responsabilidade psicanalítica, como dão espaço à sua 
intervenção, por investir na escuta desses sujeitos ao longo do cumprimento das 
medidas. Não nos aprofundaremos nos problemas de execução da política, que 
passam pelo número insuficiente de profissionais por caso e pela carência de 
condições de trabalho para os profissionais responsáveis por esses 
atendimentos. Ocorre que, como apontamos em etapa anterior, o pouco de 
intervenção em psicanálise que é possível construir, no contexto punitivista de 
aplicação do Direito Penal no Brasil, se dá no âmbito da Justiça Juvenil e só é 
possível em razão do modelo de proteção integral preconizado Convenção dos 
Direitos da Criança e pelo ECA. 
Ainda no campo da diferenciação entre punição e responsabilização, e 
sua articulação com a noção de sujeito de direitos e o sujeito da psicanálise, uma 
outra experiência é digna de nota, embora sem a previsão normativa e 
abrangência da Justiça Juvenil. Nos últimos tópicos, apresentaremos a Justiça 
Restaurativa. 
 
 
 
10 
TEMA 4 – JUSTIÇA RESTAURATIVA 
A Justiça Restaurativa é um movimento crítico à justiça punitiva, que tem 
como objetivo restaurar as relações danificadas entre vítimas, agressores e 
comunidade após um conflito. Essa abordagem se concentra na restauração das 
perdas para as partes envolvidas, em detrimento de apenas perseguir e punir o 
agressor, buscando envolver as partes afetadas pelo conflito em um processo 
colaborativo e inclusivo, com a ajuda de um facilitador imparcial. 
A Justiça Restaurativa tem suas raízes em práticas indígenas e tribais, 
mas foi desenvolvida e formalizada no âmbito do sistema de justiça criminal a 
partir da década de 70, no século passado. A abordagem da justiça restaurativa 
envolve a identificação das partes afetadas, a realização de uma reunião em que 
as partes podem compartilhar suas perspectivas e trabalhar juntas para 
encontrar soluções, e a criação de um plano para reparar o dano causado. Isso 
pode incluir o pagamento de restituição, a prestação de serviços comunitários ou 
a participação em programas de reabilitação. Como bem delimita Howard Zehr 
(citado por Penido e Silva, 2015, p. 579), as três perguntas tradicionais da Justiça 
Retributiva – Que leis foram infringidas? Quem fez isso? O que o ofensor 
merece? – são substituídas por questões direcionadas à vítima e ao dano: 
“Quem sofreu os danos? Quais suas necessidades? De quem é a obrigação de 
suprir essas necessidades?”. Assim, ainda de acordo com Zehr (2015, p. 579), 
a Justiça Restaurativa se edificaria em torno de três pilares: 
os danos e as consequentes necessidades (das vítimas, 
prioritariamente, da comunidade e do ofensor); as obrigações (do 
ofensor e da comunidade) que advêm do dano e que levaram ao dano; 
e o engajamento daqueles que detêm legítimo interesse no caso e na 
sua solução (vítimas, ofensores e membros da comunidade). 
Há na Justiça Restaurativa um claro contraste com o modelo punitivo na 
medida em que não basta a aplicação da regra para que se defina o que é o 
justo. A compreensão e o valor da norma violada na vida dos indivíduos, nesse 
método de processamento dos crimes, é essencial para a elaboração das 
questões decorrentes da ofensa. Destaca-se ainda que, mais do que uma 
técnica de resolução de conflitos, na Justiça Restaurativa o plano proposto pelo 
método engloba um feixe de ações coordenadas que não apenas visam a 
resolução do conflito, mas sim sua transformação, o que se dá pela articulação 
 
 
11 
de redes locais, propostas de mudanças institucionais e o que mais for cabível 
no caso concreto para que a ofensa não apenas se finde, mas que seus fatos 
desencadeadores não se repitam. Penido e Mumme (2015, p. 580) propõem que 
a Justiça Restaurativa apresenta um eixo relacional, um eixo institucional e um 
eixo social. 
O eixo relacional refere-se ao procedimento restaurativo em si, às 
reuniões com as partes envolvidas coordenadas por um facilitador, podendo 
incidir a aplicação de técnicas como os círculos de construção da paz, os círculos 
restaurai-vos, círculos de sentença, entre outros. O eixo institucional, por sua 
vez, compreende a dimensão conflituosa e violenta do contexto organizacional 
no qual emergiu o conflito, tratando de incidir sobre as estruturas que organizam 
a convivência e que, eventualmente, acabam por favorecer a emergência de 
conflitos. Por fim, o eixo social, refere-se à articulação com a Rede de Garantia 
de Direitos, contribuindo para o estabelecimento da Justiça como um valor para 
além do conjunto diretamente afetado pelo conflito. Como informam Penido e 
Mumme (2015, p. 581), “buscar a harmonização justa para os conflitos significa 
transitar de uma lógica de responsabilidade individual para uma coletiva”. 
Em suma, temos que, ao contrário da justiça punitiva que sequer tem 
como enfoque a responsabilização do ofensor (lembrando que punição e 
responsabilização são conceitos diferentes), a Justiça Restaurativa tem como 
foco “a responsabilização ativa daqueles que contribuíram direta ou 
indiretamente para o evento danoso” (Penido; Silva, 2015, p. 581). 
Para a conclusão desta etapa, vejamos como a Justiça Restaurativa pode 
ser compreendida sob a óptica da Psicanálise. 
TEMA 5 – JUSTIÇA RESTAURATIVA E A PERSPECTIVA PSICANALÍTICA 
Para articularmos as reflexões psicanalíticas ao paradigma da Justiça 
Restaurativa, cabe, de início, aprofundarmos algumas questões epistemológicas 
introduzidas por esse novo paradigma. Na justiça punitiva tradicional, embora 
não se envolva a coletividade no processamento do crime, a justiça não a ignora, 
incluindo-a de forma abstrata pelo primado do interesse público. Esse interesse 
público, por sua vez, é representado pela dogmática do Direito Penal positivo, 
exercida na forma da análise do cumprimento ou descumprimento das leis. 
 
 
12 
Na forma de um interesse coletivo abstrato, o monopólio da justiça é 
exercido pelo Estado, que soluciona os conflitos no lugar dos envolvidos. Assim, 
ao delegar aspartes envolvidas na administração do conflito, a Justiça 
Restaurativa põe em questão, a um só tempo, o monopólio estatal da justiça 
criminal e o uso dogmático do Direito penal positivo, uma vez que não apenas a 
resposta à ofensa será determinada pelos envolvidos, como a própria definição 
do que são as condutas reprováveis passará, antes de tudo, por esse crivo. O 
conceito de crime é complexificado, seja pela ampliação de variáveis (inclusão 
da comunidade na equação), seja pela contextualização cultural e institucional 
da conduta que diante de um mesmo ato pode resultar em níveis diferentes de 
reprovação (ou não reprovação) e resposta. 
Outra diferença da justiça restaurativa é a modificação do tempo que faz 
referência à tomada de decisão. Enquanto a tradicional Justiça Retributiva apoia-
se no passado, no tempo em que ocorreu a infração, para determinar a pena, o 
processo restaurativo volta-se ao futuro, objetivando restaurar o que foi perdido. 
Com a participação da vítima na resolução do conflito, restitui-se a ela o 
protagonismo que lhe fora subtraído e, já no próprio processo restaurativo, 
independentemente de sua conclusão, desloca-se a vítima do papel no qual foi 
colocada ao sofrer violação de seus direitos. Como apontam Gomes e Aguiar 
(2018, p. 207), “há uma consideração da verdade do sujeito no processo jurídico, 
por meio da restituição à fala a propriedade sequestrada pela ambição da última 
versão (a verdadeira) dos fatos. A justiça restaurativa concebe a pluralidade de 
verdades”. Os autores destacam que a restauração, focada no futuro, é derivada 
da própria irreversibilidade dos danos. 
Retomando os conhecimentos que vêm sendo construídos ao longo deste 
estudo, temos que os resultados que a justiça restaurativa busca alcançar 
demandam o abandono dos ideais de vingança, retaliação e violência, que 
devem ser substituídos pelo reconhecimento de que a violência é algo que nos 
constitui enquanto indivíduos e enquanto coletividade. Compreender essa 
violência constitutiva de nossas relações não significa aceitá-las, mas é 
justamente aquilo que possibilita seu manejo – trata-se justamente daquilo que 
possibilita o manejo da violência no contexto da clínica psicanalítica estrita. O 
que comumente ocorre na Justiça Criminal (e muitas vezes mesmo na Justiça 
Juvenil que se debruça sobre o cometimento de atos infracionais) é que a 
 
 
13 
violência é rechaçada como algo exclusivo dos criminosos, o que imobiliza as 
vítimas numa condição de perplexidade e de dependência do Direito Penal como 
único representante “crença na Justiça”1. Restituir a condição de sujeito a vítima 
se dá pela instituição de um dispositivo de escuta, o que é amplamente 
favorecido pela Justiça Restaurativa. De outro lado, também o ofensor tem seu 
lugar de sujeito reconhecido e, consequentemente, é possível compreendermos 
(e intervirmos) na singularidade de sua experiência que resultou no ato 
criminoso. 
O psicanalista Paulo Endo (2008) destaca o papel do círculo restaurativo 
na escuta e no acolhimento da dor psíquica e seu potencial transformador na 
perspectiva psicanalítica: 
Assim é que o círculo restaurativo é o âmbito próprio onde a dor 
encontra o seu lugar, embora não possa e não deva se esgotar na 
manifestação da dor singular, mas avançar para a restauração do 
convívio público. Daí, creio, a preocupação da justiça restaurativa com 
o porvir. (Endo, 2008, p. 36-37) 
Cabe destacar que, embora nem toda violência seja traumática, da 
perspectiva psicanalítica, a Justiça Restaurativa é especialmente relevante para 
esses casos. Recorremos novamente a Endo para um síntese: 
Se, ao menos do ponto de vista psicanalítico, não há restauração 
diante do traumático […] Naquelas [violências] em que o 
desdobramento traumático ocorreu sabemos que o fundamental é o 
reconhecimento dessa marca, desse dolo e desse excesso. 
Reconhecimento de que o traumático não pode ser completamente 
reparado. […] Há uma dimensão dessa dor que não pode ser 
transferida, nem delegada, nem atribuída a outrem e que funda o 
território do irreparável. É isso o que ocorre em todos os traumatismos. 
Essas dores que carregamos, com pesar, se tornam mais leves e livres 
de culpa e do imperativo da vingança. Se livres da obrigação de termos 
de eliminar aquele que ofendeu, magoou ou feriu alguém. (Endo, 2008, 
p. 35-6) 
O reconhecimento de que há uma dimensão da dor que não pode ser 
reparada, transferida, delegada ou atribuída a outrem é, em si, terapêutico e, em 
alguns casos, o máximo que se pode fazer. A manifestação da dor singular em 
um espaço público permite ao mesmo tempo o reconhecimento do caráter 
narcísico do delito e o reposicionamento do sujeito no espaço público, com sua 
 
1 É comum nas entrevistas às vítimas de violência a fala “agora só restar acreditar na Justiça”, 
que quando não se refere ao Direito Penal, faz referência a uma justiça divina. É possível que 
você, caso tenha sido vítima de algum crime na vida, já tenha proferido essas palavras. Ambas 
as referências, no entanto, denunciam o lugar de impotência da vítima, construído historicamente 
pelo Direito Penal moderno nas sociedades ocidentais. 
 
 
14 
consequente responsabilidade para com ele. Quanto mais desconsiderarmos a 
violência que nos constitui, mais irresponsáveis por ela seremos, mais a 
projetaremos na forma de violência vingativa do Estado, mais ansiaremos punir 
com a violência do outro, como com o rigor que afastamos a nossa própria 
violência do horizonte de nossa subjetividade. Com ou sem a difusão da Justiça 
Restaurativa como prática, esse alerta nunca deve sair do horizonte dos 
psicanalistas que se dediquem ao campo da Criminologia. 
NA PRÁTICA 
Como abordamos em etapa anterior, a Justiça infantojuvenil, com o 
advento do ECA, é permeável ao trabalho de responsabilização de adolescentes 
autores de atos infracionais. O que podemos destacar com relação a esta etapa 
é o debate sobre a redução da maioridade penal, que é atravessado justamente 
pela noção subjacente de punição/responsabilização desses jovens pelos atos 
cometidos. Muito da discussão sobre a maioridade penal passa justamente pela 
equivocada ideia de que os jovens que cometem atos infracionais não são 
responsabilizados por seus atos por serem adolescentes. 
Confunde-se responsabilização com punição penal, com vingança, o que 
cotidianamente é alimentado por uma Criminologia midiática que reforça as 
fileiras do populismo penal e propaga a ideia de uma sociedade de risco, do 
medo, da insegurança, da violência e da criminalização de pessoas 
consideradas inimigas/outsiders, operando de forma a sensacionalizar a opinião 
pública, para clamar pelo endurecimento criminal e, consequentemente, o 
encarceramento em massa. O bom entendimento da diferenciação das noções 
de punição e responsabilidade, ancorados nas noções de sujeito de direitos e 
sujeito do inconsciente, nos permite enfrentar com propriedade esse debate e 
revelar a inconsistência dessa ideologia. 
Com relação à Justiça Restaurativa, cabe o destaque de que se trata de 
prática ainda incipiente no Brasil. Em 2016, com vistas a estimular a prática, o 
Conselho Nacional de Justiça editou a Resolução n. 225, que dispõe sobre a 
Política Nacional de Justiça Restaurativa no âmbito do Poder Judiciário e dá 
outras providências. Embora as iniciativas hoje atinjam a maior partes dos 
tribunais do país, tanto federais quanto estaduais, trata-se de programas ou 
projetos isolados, de iniciativa de alguns magistrados mais sensíveis ao tema e 
 
 
15 
que seguem longe de gerar um impacto institucional na forma como os tribunais 
processam as demandas criminais ordinariamente. 
FINALIZANDO 
Nesta etapa, procuramos, de forma conceitual e articulada às 
experiências da Justiça Juvenil e da Justiça Restaurativa, apresentar como a 
noção de sujeito de direitos e de responsabilidade articulam-se às contribuiçõespsicanalíticas no campo criminológico. 
Chegando ao final deste estudo, posteriormente, nos dedicaremos a 
temas diversos que nos restam explorar a interface entre Psicanálise e 
Criminologia, e sua aplicação prática junto ao Sistema de Justiça Criminal. 
 
 
 
16 
REFERÊNCIAS 
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1920. Brasília, 2015. Disponível em: 
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do Laboratório de Estudos Contemporâneos da UERJ, v. 7, n. 1, p. 31-39, 2008. 
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. Acesso em: 
22 abr. 2023. 
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Cad. psicanal., Rio de Janeiro, v. 40, n. 39, p. 191-212, dez. 2018. Disponível 
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GUSSO, L. de C. S. O sujeito de direito entre a transcendência e o desejo: uma 
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Universidade da Região de Joinville, Joinville, v. 1, n. 1, p. 44-51, 2011. 
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psicanálise. Captura Críptica: direito, política, atualidade, v. 1, n. 3, p. 285-322, 
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C.; SIMÃO, J. F. Dicionário de Direito de Família. São Paulo: Atlas, 2015. v. 2. 
p. 578-583.

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