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PSICANÁLISE E CRIMINOLOGIA AULA 6 Prof. Paulo Kohara 2 CONVERSA INICIAL Em nossos estudos, percorremos um longo caminho até aqui, desde a apresentação das escolas criminológicas (clássica, clínicas, sociológicas e crítica), passando pelas teorias psicanalíticas clássicas sobre o crime, chegando à articulação entre os conceitos de Sujeito e Responsabilidade. Nesse percurso, foram objetos de nossa atenção as diferentes abordagens do comportamento delituoso, o papel da sociedade punitiva na resposta e na própria definição do crime, o papel da neurose e da culpa como desencadeadores da conduta criminal, a psicogênese das leis (tabus) e do psiquismo, a violência urbana, a Justiça Infanto-Juvenil, a Justiça Restaurativa, entre outros. Nesta etapa, dedicaremos nossa atenção à interface da Psicanálise com as Ciências Jurídicas no que se refere às atribuições e limites de suas competências. Esse contexto institucional no qual se insere a prática psicanalítica é importante para compreendermos limites e potencialidades atuais do psicanalista nessa seara, bem como para subsidiar, especialmente aqueles menos familiarizados com o Direito, para que tenham condições de fazer uma análise crítica e não ingênua do Sistema de Justiça Criminal. Vamos introduzir também a criminologia lacaniana e os subsídios que ela nos oferece para tratar do tema crime/loucura. Por fim, transversais em nossos estudos, serão tratadas as noções de Acesso à Justiça e o papel dos Direitos Humanos. TEMA 1 – SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL: FASE PRÉ-PROCESSUAL O Sistema de Justiça Criminal no Brasil é composto por diversas instituições responsáveis pela aplicação e execução da lei. Essas instituições incluem as polícias, o Ministério Público (MP), o Poder Judiciário e o sistema prisional. A primeira resposta estatal ao crime, evidentemente, começa pelas polícias, que, para uma eventual condenação criminal, também são responsáveis por inicialmente formalizar a ocorrência do delito e instruir, por meio de provas, o eventual processo penal. A polícia é responsável pela prevenção (na forma de policiamento ostensivo), investigação e repressão de crimes. No Brasil, existem diferentes polícias, sendo que as que se ocupam do enfrentamento dos crimes comuns são as polícias civis e militares estaduais. 3 A Polícia Civil tem o papel de polícia judiciária, ou seja, tem como função a investigação de crimes para instrução dos processos judiciais criminais. Cabe à investigação apurar os fatos (foi cometido um ato ilícito?), tipificar a conduta delitiva (quais leis foram infringidas pelo ato criminoso?) e identificar os prováveis autores. O principal instrumento da Polícia Civil em seu mister é o Inquérito Policial (IP), instituído no Brasil em 1871, no período monárquico, e que marcou a separação institucional entre justiça e polícia. Já a Polícia Militar é responsável pelo policiamento ostensivo, fardado, com vistas a coibir a ocorrência de crimes ou reprimi-los prontamente mediante denúncias da população. Detentora do legítimo uso da força para reprimir atos em contrariedade com a lei, o policiamento ostensivo em outros países não é necessariamente militarizado. No Brasil, essa militarização é histórica e data da polícia da província (predecessora dos estados), pré-republicana e anterior à formação do Exército Nacional. Destaca-se que, em razão da cisão entre policiamento ostensivo e polícia judiciária no Brasil, as detenções realizadas pela Polícia Militar devem ocorrer exclusivamente em casos de flagrantes (com instauração subsequente de IP para instrução do processo criminal) ou em operações previamente autorizadas pela Justiça (decorrentes de IP já em andamento). Não cabe aos Policiais Militares a investigação de crimes, mesmo que a presença no território desses agentes lhes deem acesso a elementos e informações que facilitassem tal investigação – as informações devem ser transmitidas à Polícia Civil a fim de instruírem eventual IP. O destinatário do IP na organização do Sistema de justiça Criminal é o Ministério Público (MP). Na seara criminal, o MP atua como fiscal da lei, tendo a responsabilidade de “promover a ação penal pública, zelar pela legalidade da investigação criminal, requisitar diligências e perícias, oferecer denúncia e atuar na fase de instrução do processo penal” (Barroso, 2012, p. 751). São integrantes do MP os/as Promotores/as de Justiça, figuras conhecidas no imaginário popular em função de seu papel de acusar, nos tribunais, os supostos autores de crimes. O MP é responsável também por acompanhar as investigações policiais, requisitar diligências e perícias, controlar prazos. Ao fim da investigação, caso encontre elementos suficientes para tanto, o Delegado de Polícia encaminha seu relatório ao promotor com o indiciamento de um ou mais suspeitos, ou com a sugestão de arquivamento do feito. Cabe aos promotores nesse momento analisar o material e, ou solicitar mais diligências, ou oferecer denúncia ao Poder 4 Judiciário quando entenderem que existem indícios suficientes de autoria e materialidade de um crime. Em caso de acolhimento da denúncia pelo juiz, tem- se início efetivamente a fase processual. Cabe destacar que o MP tem como função institucional privativa a proposição de ação penal pública e, no caso concreto, se o/a promotor/a entender que não há indícios suficientes para a denúncia e optar pelo arquivamento da investigação, não haverá julgamento, mesmo que a vítima assim o deseje. Trata-se de informação relevante, pois, no senso comum, estamos habituados a compreender que diante de um crime apenas o juiz pode avaliar se alguém é culpado ou inocente, mas considerando que a vítima não tem o poder de capitanear a ação penal, antes do crivo do juiz há sempre um primeiro crivo do Ministério Público. Uma crítica relevante com relação à atuação do Sistema de Justiça Criminal no Brasil refere-se à violência policial. Existem diversas críticas quanto à manutenção de um modelo militarizado no seio de um Estado Democrático de Direito, uma vez que a formação e estrutura de uma instituição militar, de especialização no combate ao inimigo, enviesa a atividade policial e a condiciona para o uso da violência. A concepção de crime subjacente à uma polícia militarizada é a do delinquente essencial, uma vez que é esse alvo abstrato que justifica uma política de segurança pública de guerra. Uma consequência dessa ideologia é o combate aos criminosos e não ao crime, criminosos estes que são estereotipados e associados muito mais a uma determinada condição social do que aos atos cometidos, que, como apontamos, não são investigados pela Polícia Militar. Sob essa ideologia de guerra ao crime, de combate ao inimigo interno, que o país viu nascer o Esquadrão da Morte (Manso, 2012, p. 102-103), que, mais do que uma organização criminosa, tornou-se um significante que se irradiou nacionalmente, dando origem ao que popularmente conhecemos hoje como milícias. Institucionalmente, o Sistema de Justiça de Criminal dispõe também do MP para exercer o controle externo da atividade policial e enfrentar a violência policial. No entanto, o crime, quando cometido por agentes de Segurança Pública no exercício de sua função, é tema complexo, não somente por se afastar do estereótipo de criminalidade combatida pelas instituições, mas também por contar, muitas vezes, como o apoio da opinião pública e com a conivência dos órgãos de repressão ao crime. Paradoxalmente, das polícias 5 nascem e se alimentam uma das expressões de crime mais difíceis de enfrentarmos na atualidade. TEMA 2 – SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL: PROCESSO PENAL Nos casos em que há o acolhimento da denúncia pelo Poder Judiciário, tem-se início a fase de instrução do processo penal, na qual cabe ao MPapresentar provas da acusação e realizar interrogatórios, nesse momento, sob o manto do contraditório, ou seja, com a possibilidade de advogados ou Defensores Públicos, representantes dos réus, também apresentarem suas provas e participarem das oitivas. Além disso, o MP também pode propor acordos de não persecução penal, acordos de colaboração premiada e acordos de leniência, a depender das circunstâncias envolvidas. Um destaque importante sobre a atuação do MP no processo é que, embora atue para responsabilizar os autores dos crimes, os promotores não representam a vítima, mas sim a lei, sendo que o dano subjetivo da vítima não é objeto de reparação no processo criminal. Acolhida a denúncia, o Poder Judiciário é responsável por garantir que as leis sejam aplicadas de forma justa e imparcial, e que os direitos individuais sejam respeitados durante todo o processo criminal. No contexto do Sistema de Justiça Criminal, isso significa que o Poder Judiciário é responsável por garantir a legalidade do processo (evitando excessos das partes na condução das oitivas por exemplo), julgar se os réus são culpados ou inocentes (exceto nos casos de crimes contra vida, em que esse papel cabe a um júri popular) e, em caso de condenação, qual a dosimetria da pena1. O Poder Judiciário também é responsável por proteger os direitos dos acusados, garantindo que eles tenham um julgamento justo e imparcial, regido pelo devido processo legal, com presunção de inocência e direito a um advogado. O processo penal é dividido em duas fases distintas: a fase de conhecimento e a fase de execução, necessariamente com dois juízes distintos responsáveis por cada fase. Na fase de conhecimento, ocorre a apuração dos fatos que envolvem o crime, a defesa do acusado, o julgamento e a sentença. Se o acusado for considerado culpado, o juiz fixará a pena a ser cumprida na 1 A dosimetria da pena consiste em definir o tempo de prisão, o valor da multa ou outras medidas punitivas, que deverão ser aplicadas ao réu, caso ele seja considerado culpado. 6 fase de execução. Cabe destacar que, quando houver dúvida sobre a integridade mental do acusado, poderá ser instaurado, a pedido de qualquer um dos envolvidos no processo, um incidente de insanidade mental, na qual este, anteriormente à sentença, será avaliado quanto à sua imputabilidade. Nos próximos temas, abordaremos mais detidamente essa interface entre crime e loucura, com as contribuições da psicanálise lacaniana. Já a fase de execução é a segunda etapa do processo penal, que se inicia após a sentença. Seu objetivo é fazer com que a sentença seja cumprida de acordo com as determinações legais, tendo o juiz tem atribuições como: verificar se as condições impostas na sentença estão sendo cumpridas; decidir sobre pedidos de progressão de regime, saída temporária, remissão de pena, entre outros; verificar se o condenado tem direito à redução de pena por trabalho ou estudo; decidir sobre eventuais punições ou sanções disciplinares aplicáveis ao condenado que cometer infrações no cumprimento da pena; acompanhar a evolução do estado de saúde do condenado e decidir sobre a concessão de tratamento médico, se necessário. Na execução penal, o juiz também tem o papel de garantir que o cumprimento da pena seja feito de forma humanitária, respeitando os direitos humanos do condenado e evitando a prática de tortura ou tratamento cruel ou degradante. É ainda na fase de execução penal que juiz tem à disposição a possibilidade de requisitar o exame criminológico. No Brasil, o exame criminológico estava originalmente previsto em dois artigos da Lei n. 7.210/1984 (Lei de Execução Penal): 8.º (para a individualização da pena) e 112.º (para progressão de regime). Com a reforma introduzida pela Lei n. 10.792/2003, a Lei de Execução Penal extinguiu o exame criminológico feito para instruir pedidos de progressão de regime. A maior crítica ao exame criminológico para esses fins é a expectativa dos magistrados de uma avaliação de periculosidade que possa prever a capacidade do indivíduo de reiterar na prática delitiva, condicionando assim seus direitos progressão de regime a essa avaliação. Tal expectativa esbarra em duas questões, uma de ordem técnica jurídica e outra de ordem científica: a primeira em razão de a pena não se destinar, no ordenamento jurídico, a um tratamento de periculosidade, mas sim à responsabilização objetiva decorrente de um ato cometido (na fase de conhecimento não foi julgada a personalidade do indivíduo, mas o ato por ele cometido); segundo que, cientificamente, não dispomos de instrumentos (a 7 psicanálise incluída) para prever o cometimento de novos crimes. Apesar disso, em 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) admitiu o uso do exame pelos juízes de forma facultativa (Súmula Vinculante 26). Em maio de 2010, o Superior Tribunal de Justiça (STJ), que desde 2003 refutava a realização do exame por ausência de previsão legal, passou a acompanhar o STF por meio da Súmula 439: “Admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada”. Em contrapartida, sem a mesma visibilidade, o exame criminológico quando do ingresso no Sistema Prisional, com vistas à individuação da pena e que poderia ser utilizado em favor da futura reinserção do preso na sociedade, segue negligenciado, massificando a execução penal sem qualquer propósito ressocializador. TEMA 3 – CRIME E LOUCURA EM LACAN: AIMÉE E AS IRMÃS PAPIN Com relação à discussão sobre imputabilidade e doença mental no Sistema de Justiça Criminal, em razão de nossa proximidade temática, cabe nos determos um pouco mais. Aproveitaremos o tema para introduzir algumas contribuições de Jacques Lacan, já sinalizando que em razão da complexidade e especificidade de sua obra, cujo universo semântico é bastante singular entre os demais autores da psicanálise, nossa proposta aqui é apenas apresentar alguns conceitos que poderão ser aprofundados individualmente por aqueles que se interessam pela abordagem lacaniana ou queiram ampliar seus estudos sobre Psicanálise e Criminologia. Essa introdução passa necessariamente por visitarmos os crimes cometidos por Aimée e pelas irmãs Papin, trabalhados por Lacan em sua tese de doutorado em Psiquiatria, publicada em 1932, sob o título “Psicose paranoica e sua relação com a personalidade”. Texto seminal não apenas de suas considerações sobre o crime, mas de sua própria incursão pela psicanálise, ele nos apresenta justamente uma análise de casos em que as acusadas foram submetidas a exames de sanidade mental em razão do cometimento de crimes aparentemente imotivados, ou cometidos por motivação fútil. Aimée, em determinada noite parisiense, foi ao teatro em que a atriz Huguette Duflos, figura pública que nunca conhecera pessoalmente, se apresentaria e a atacou com uma faca, ferindo sua mão. Embora ambas nunca houvessem tido qualquer contato, Aimée estava convencida de que a atriz a 8 ameaçava e desejava a morte de seu filho. Suas primeiras vivências persecutórias se manifestam anos antes, durante a primeira gravidez. Aimée começou a acreditar que as pessoas a seu redor desejavam o seu mal e a morte de seu bebê. Passou a identificar ameaças contra si em jornais e voltou-se também contra o esposo. Com o nascimento de sua filha natimorta, Aimée tem reforçada sua persecutoriedade, voltando sua agressividade especialmente para sua irmã mais velha. Aimée volta a engravidar e, após o nascimento da criança, Aimée tornou-se cada vez mais hostil. Aimée foi internada para tratamento, mas a medida apenas reforçou suas fantasias persecutórias. Ela se mudou para Paris e lá passou a ouvir sobre Huguette Duflos (por se tratar de uma famosa atriz de teatro), a quem passou a atribuir a responsabilidade pelo complô daqueles que querem seu mal e de seu filho. Aiméefoi presa após o atentado e, na prisão, admitindo sua culpa, seu delírio se desvaneceu. Em uma outra noite francesa, em 1933, as irmãs Christine e Lea Papin, empregadas domésticas de uma família rica da cidade de Le Mans, atacaram e desfiguraram suas patroas, mãe e filha. Cada uma das duas atacou uma das patroas, as espancaram e arrancaram seus olhos das órbitas. Cortaram coxas e nádegas, abandonaram os corpos com os órgão genitais despidos. Lavaram a si e aos instrumentos do crime, deitaram-se juntas em uma cama como conclusão: “agora está tudo limpo” (Lacan, 1987, p. 382). Quando foram encontradas pela polícia, não demonstraram remorso e admitiram o crime, mas não souberam dar explicações sobre o ato. Sua única preocupação era partilhar a responsabilidade pelo crime. Apurou-se que cotidianamente elas eram dedicadas ao trabalho, não incomodavam suas patroas e pouco conversavam com elas. Ficavam grande parte do dia reclusas, quietas, convivendo somente uma com a outra. De origem pobre, passaram a infância em um orfanato e quiseram ser colocadas juntas na casa de um mesmo patrão (na qual viera a ocorrer o crime). Chegaram a denunciar que foram perseguidas ao comissário central da cidade, situação que teve consequências por parte da autoridade policial. Christine e Lea tinham ainda uma irmã mais velha, Emília, que entrou em um convento após anos denunciando os abusos sexuais de um pai alcoólatra. Já na prisão, as irmãs foram separadas e Christine passou a conviver com delírios e alucinações, além de expressar diversos sintomas melancólicos. Alternava comportamentos de exibições eróticas e rezas, vez ou outra anunciava que em uma outra vida seria 9 o marido de sua irmã. Em uma crise, tentou arrancar os próprios olhos. Em razão das crises, foi contida com o uso de camisa-de-força. Quando questionada por que ela despiu a vítima, Christine respondeu: “eu estava procurando uma coisa cuja posse me teria tomado mais forte” (Roudinesco, 1988, p. 143). Apesar disso, os peritos psiquiatras convocados declaram as irmãs Papin sadias e imputáveis, atribuindo as atitudes de Christine a simulações. No julgamento, Christine, de joelhos, recebeu a sentença de morte2. TEMA 4 – PARANOIA DE AUTOPUNIÇÃO Os dois casos apresentados por Lacan servem ao intuito de ilustrar as teses inovadoras do autor sobre a relação entre crime e loucura, nos orientando também, enquanto psicanalistas, para uma escuta que vai além do exame de sanidade operado pela Justiça Criminal. O conceito-chave para essa primeira incursão do jovem psiquiatra Lacan na Psicanálise e na Criminologia é a paranoia. O sujeito paranoico é comumente caracterizado por um sentimento de que o mundo está contra ele, o que compreende delírios persecutórios, mas também erotomaníacos e megalomaníacos. Entretanto, nem todo sujeito paranoico cometerá um crime. O delírio é um esforço racional do sujeito para explicar experiências de distúrbios momentâneos de percepção, sendo o ato criminoso uma reação passional motivada pela convicção delirante. As condições psíquicas que sustentam esse mecanismo de passagem ao ato do sujeito paranoico são estudadas por Lacan, tomando o caso Aimée como paradigmático. Em sua tese, baseado na formulação freudiana de que na paranoia há um recalcamento da pulsão homossexual, o autor interpreta que Aimée tem dirigida sua pulsão às mulheres, que haviam sido eleitas, em seu inconsciente, para o lugar de seu eu ideal. Denegado, o amor transforma-se em ódio ao objeto do mesmo sexo, o que redunda no tema da perseguição, com o ódio sendo projetado no outro. Na óptica de Lacan, primeiro a irmã, depois outras perseguidoras e finalmente Huguette Duflos, são investidas dessa pulsão sexual recalcada, proibida, e que retorna na forma de sentimento de perseguição. “A mesma imagem que representa seu ideal é o objeto de seu ódio” (Lacan, 1932/1987, p. 253). É por meio dessa constatação, percebida com base no caso Aimée, de que o crime contra a 2 Comutada em prisão perpétua posteriormente. 10 pessoa idealizada é, inconscientemente, uma tentativa de se autoferir, que Lacan propõe a definição de uma paranoia de autopunição. Para além dos sintomas paranoicos que precederam sua passagem ao ato (ataque a Huguette Duflos), é para seu desvanecimento após o crime que Lacan nos chama a atenção: “pelo mesmo golpe que a torna culpada diante da lei, Aimée atinge a si mesma e, quando ela o compreende sente então a satisfação do desejo realizado: o delírio, tornado inútil se desvanece. A natureza da cura demonstra, quer nos parecer, a natureza da doença” (Lacan, 1932/1987, p. 254). É em razão do desvanecimento posterior das interpretações autorreferentes e das ideias de perseguição que ocorreram após o crime, que Lacan forma a convicção de que a motivação inconsciente de Aimée repousava na autopunição. Por meio da materialização da punição pela perda da liberdade, Aimée se liberta dos delírios e alucinações que a mantinham em um aprisionamento subjetivo, em grau muito mais intenso e complexo do que os aventados por Freud em seus criminosos neuróticos por sentimento de culpa. Destaca-se que, com a passagem ao ato, Aimée não se liberta da autopunição sobre a qual se organiza seu psiquismo, mas a transfere para uma dimensão concreta que a liberta dos delírios. No caso das irmãs Papin, embora não as tenha atendido, Lacan especula que o mesmo mecanismo de passagem ao ato tenha se operado. Assim como Aimée, o autor interpreta que as irmãs Papin mataram suas patroas em decorrência de uma pulsão homossexual recalcada que, ao mesmo tempo, as elegia como eu ideal e objeto de ódio. “Essa tendência homossexual só se expressaria por uma negação apaixonada de si mesma, que fundaria a convicção de ser perseguido e designaria o ser amado no perseguidor” (Lacan, 1932/1987, p. 388). Essa homossexualidade latente seria observada na declaração de Christine, que em seus delírios se toma por marido de Léa, revelando a folie à deux que sustenta tanto a relação entre as irmãs quanto a relação delas com suas patroas/vítimas. No que se refere à autopunição, no caso de Christine, a prisão e a separação da irmã não foram suficientes, como para Aimée, o que a impele a tentar arrancar seus próprios olhos. Há que se destacar ainda como o enigma da castração feminina ronda as fantasias de Christine, que desnuda o sexo das vítimas atrás de algo que não existia e que “a tornaria mais forte”. 11 Desde a época em foi construída a tese de Lacan até os dias atuais, a questão que se apresenta à justiça criminal diante dos crimes aparentemente imotivados é a da responsabilidade penal dos sujeitos, ou sua imputabilidade, que tratamos em momento anterior. A psiquiatria é convocada a dar o seu parecer quanto à racionalidade e à consequente responsabilidade do indivíduo por seu ato criminoso. Ante a prática psiquiátrica, consolidada até hoje, no qual o médico coteja os sintomas do periciado com os sintomas previstos em seu manual diagnóstico e conclui sobre a doença mental com base na convergência ou divergência dessas listas, Lacan inova e propõe o que poderíamos nomear de uma escrita da loucura. Nos termo de Roudinesco (1988, p.131-145): Em vez de preparar um catálogo dos sintomas da doente, Lacan procura captar a significação inconsciente do motivo paranoico […]. Em face dos partidários da psiquiatria dinâmica que tentam subtrair os loucos da guilhotina, e frente aos peritos oficiais que se tomam cúmplices dos carrascos, Lacan formula […] a hipótese de urna terceira via […]. Segundo ele, explicar o crime não é nem perdoá-lo nem condená-lo, nem puni-lo nem aceitá-lo. É, ao contrário, irrealizá- lo, ou seja, restituir-lhe sua dimensão imaginária e, depois, simbólica. Dentro dessa ótica, se o criminoso é louco, nem por isso ele é um monstro reduzido a instintos assassinos.Dito de outra maneira […], nosso herói recusa o conjunto das doutrinas provenientes da raça e da degenerescência. Só que vai ainda mais longe. Critica também o dinamismo, ramo mais novo da teoria da hereditariedade, mostrando que o louco não é irresponsável quanto a seus atos, já que a loucura é a realidade alienada do homem, e não o avesso de uma razão ilusória. Com a mensagem freudiana, portanto, Lacan irrealiza o crime sem desumanizar o criminoso. O que se destaca na síntese de Roudinesco sobre as inovações propostas por Lacan com base na tese deste, é que o autor não se contenta com a classificação simplista de que a loucura, por si só, seria suficiente para explicar o ato criminoso. Mesmo dentro da realidade alienada do autor do crime, Lacan procura captar como essa realidade resultou no ato criminoso, investigação esta que nos aponta para uma responsabilidade distinta daquela tratada pelo Direito Penal. Dessa forma, Lacan radicaliza a ideia do tratamento como resposta penal adequada, em oposição à mera repressão penitenciária, o que poderia ser realizado mesmo nos casos inimputáveis de psicose. TEMA 5 – DIREITOS HUMANOS E ACESSO À JUSTIÇA Para concluirmos nossos estudos, dediquemos algumas palavras à reafirmação dos Direitos Humanos, questão transversal a todos os conteúdos apresentados até aqui. Ante a esse quadro complexo de organização do Sistema 12 de Justiça Criminal e o contexto histórico e macropolítico brasileiro de extrema desigualdade, social e racial, um dos tópicos mais relevantes para a garantia dos direitos humanos no Brasil refere-se às condições de acesso à justiça da população, incluídos os encarcerados. A expressão “acesso à justiça” refere-se ao direito fundamental de todas as pessoas de acessar a tutela jurisdicional do Estado para a proteção de seus direitos. O acesso à justiça não se limita apenas ao acesso físico aos tribunais e órgãos do sistema de justiça, mas também engloba aspectos relacionados à efetividade da justiça, como a qualidade da assistência judiciária, a celeridade do processo, a adequação dos procedimentos, a disponibilidade de recursos e a igualdade de oportunidades para todos os envolvidos. A relevância do acesso à justiça foi reafirmada pela Cúpula de Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Geral das Nações Unidas, da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2015, que estabeleceu como um de seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) “promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis”. O pós-segunda guerra fez com que esses princípios de acesso à justiça se materializassem nos países ocidentais na forma de serviços jurídicos gratuitos custeados pelo Estado – conhecido em países anglo-saxônicos como Judicare. Como aponta Boaventura de Sousa Santos, “a consagração constitucional dos novos direitos econômicos e sociais e a sua expansão paralela à do Estado-Providência transformou o direito ao acesso efectivo à justiça num direito charneira, um direito cuja denegação acarretaria a de todos uso demais” (Santos, 2008, p. 167). A principal instituição responsável por trabalho em favor do acesso à justiça no Brasil é a Defensoria Pública. Além da defesa nos processos judiciais daqueles que não tem recursos para contratar um advogado, a atuação da Defensoria Pública em prol dos direitos humanos reflete-se em ações em prol dos diretos da população carcerária. Tratam-se de ações em favor de atendimento médico ou odontológico adequado, acesso a medicamentos, exames ou cirurgias, garantia de condições higiênicas e sanitárias adequadas, visitas dos familiares, prevenção à prática de tortura, ações de educação em direitos para que presos e seus familiares saibam de seus direitos. 13 Compreender os Direitos Humanos e afastar-se da polarização rasa que insiste em organizar a vida social na busca de inimigos, passa, necessariamente, por compreendermos que estamos tratando de uma conquista histórica (e ainda em processo) da humanidade. Sob efeito da Segunda Guerra Mundial, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, afirma já em seu primeiro considerando: “o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”. Notemos a convergência da Declaração Universal dos Direitos Humanos com o conjunto da obra que percorremos ao longo de nossos estudos. O reconhecimento à dignidade inerente a todos os membros da família humana, em nossos termos, significa romper definitivamente com a concepção de um delinquente nato, de um criminoso essencial abstrato e não humano, que nos afasta da igualdade de direitos e daquilo que é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo. A Psicanálise pode e deve ser veículo também da disseminação dos Direitos Humanos na medida em que ela converge para o entendimento dessa igualdade humana essencial, que ao mesmo tempo não ignora a diversidade de expressões do psiquismo. Como observa o professor Fábio Konder Comparato (2005, p. 224): “a vigência dos direitos humanos independe de sua declaração em constituições, leis e tratados internacionais, exatamente porque se está diante de exigências de respeito à dignidade humana, exercidas contra todos os poderes estabelecidos, oficiais ou não.” Nesse sentido, é inequívoco o alinhamento da Psicanálise aos Direitos Humanos, independentemente do que venham a ser as crenças pessoais e familiares do aspirante à psicanalista – inclusive fora do campo criminológico. Não há cura analítica que não tenha no horizonte a dignidade da pessoa humana, não se pode aspirar libertar o sujeito de seus sintomas para admitir seu aprisionamento a condições intersubjetivas alienantes. Em suma, não há Psicanálise sem afirmação dos Direitos Humanos. NA PRÁTICA A atuação da psicanálise em conjunto com as polícias, no Brasil, não atinge o campo investigativo, como idealizaria Reik, focando-se no cuidado em saúde mental de policiais realizado por psicólogos psicanalistas. Isso não 14 significa que esse cuidado esteja desconectado do contexto criminológico que estudamos ao longo de nossos estudos. O impacto do contexto de franca exposição à violência a que o policial está submetido exige dele, pela via do trabalho, um nível de autocontrole, controle de suas pulsões, de seus afetos, que comumente faz com que os valores da corporação policial extrapolem o exercício da função e passem a se configurar como um modo de vida. Em estudo realizado pela Ouvidoria das Polícias de São Paulo, em 2019, constatou-se que o suicídio policial é quatro a cinco vezes maior que no conjunto da sociedade paulista e na população brasileira. O número também é 47% superior ao número de policiais mortos na ativa, em razão de confrontos com criminosos. Assim, trata-se de um cuidado em saúde mental intimamente ligado ao ofício do policial, variável que amplia o risco de sofrimento e adoecimento mental. Com relação à esfera judicial, a intervenção da psicanálise é ainda mais restrita. Ainda que nos incidentes de insanidade a condição psíquica do sujeito seja analisada, essa perícia tem como produto laudos médico-psiquiátricos com pouca ou nenhuma permeabilidade ao referencial psicanalítico. Setenta anos após a tese lacaniana, embora existam muitos psiquiatras psicanalistas, a atividade pericial segue resumida à distinção positivada entre loucura e sanidade a fim de que se estabeleçam as consequências legais devidas – pena ou medida de segurança. Mesmo no caso dos autores de crimes considerados inimputáveis, é também a psiquiatria mais tradicional que tende a se ocupar dos internos. No caso das medidas de segurança cumpridasem meio aberto, o tratamento tende a ser realizado nos Centros de Atenção Psicossocial – Caps, o que torna mais acessível o atendimento de base psicanalítica. Por fim, cabe destacar que vem crescendo no país a oferta de atendimento multidisciplinar pelas Defensoria Públicas. Para além da função pericial, esse atendimento prevê a possibilidade de intervenções diretas em ações extrajudiciais que favoreçam os direitos de pessoas atingidas pelo Sistema Penal. Tais ações vão desde o amparo as famílias de pessoas presas até ações de educação em direitos dentro das penitenciárias. Há permeabilidade para entrada do saber psicanalítico que, muitas vezes, orientam a prática de psicólogos nessas carreiras, entretanto, a admissão via concurso público direta de psicanalistas segue obstruída pela não regulamentação da profissão no país. 15 FINALIZANDO Ao longo desta etapa, procuramos apresentar o funcionamento da Justiça Criminal no Brasil, que institucionalmente faz o enfrentamento da criminalidade da qual nos ocupamos ao longo de nossos estudos. Discutimos ainda a relação crime e loucura, introduzindo noções lacanianas sobre a paranoia e sua interface com o crime. Por fim, apresentamos a noção de Direitos Humanos como algo indissociável da prática psicanalítica. Esperamos que tenham aproveitado o curso e que ele possa ter oferecido bases sólidas para uma análise crítica do crime, com base na perspectiva psicanalítica. 16 REFERÊNCIAS BARROSO, Luís Roberto. O direito constitucional e a efetividade de suas normas: limites e possibilidades da constituição brasileira. 12 ed. rev. atual. São Paulo: Saraiva, 2012. COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 4. ed. revista e atual. São Paulo: Saraiva, 2005. LACAN, Jacques [1932]. Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987. MANSO, Bruno Paes. Crescimento e queda dos homicídios em SP entre 1960 e 2010: uma análise dos mecanismos da escolha homicida e das carreiras no crime. 2012. Tese (Doutorado em Ciências Políticas) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. ROUDINESCO, Elisabeth. História da psicanálise na França: a Batalha dos Cem Anos, v. 2, 1925-1985. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1988. SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós- modernidade. 12 ed. São Paulo: Cortez, 2008.