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Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 1 Logística -Uma função essencial empresa Não há nada mais difícil de controlar, mais perigoso de conduzir, ou mais incerto no seu sucesso, do que liderar a introdução de uma nova ordem. Nicolo Machiavelli (1469-1527) A logística empresarial estuda como a administração pode prover melhor nível de rentabilidade nos serviços de distribuição aos clientes e consumidores, através de organização e controle efetivos para as atividades de movimentação e armazenagem que visam facilitar o fluxo de produtos. A Logística é um assunto vital, co que tanto os recursos quanto os seus consumidores estão numa ampla área geográfica. Além disso, os consumidores não residem, se é que alguma vez o fizeram, próximos donde os bens ou produtos estão localizados. Este é o problema enfrentado pela Logística: diminuir o hiato entre a produção e a demanda, de modo que os consumidores tenham bens e serviços quando e onde quiserem, e na condição física que desejarem. Numa economia livre é responsabilidade dos empresários proverem os serviços necessários, e, nos Estados Unidos, as empresas enfrentaram esta responsabilidade com notável grau de eficácia e eficiência. Contudo, as empresas operam dentro de um ambiente que muda constantemente, devido aos avanços tecnológicos, às alterações na economia e na legislação, e à disponibilidade de recursos. Portanto, a filosofia da administração se altera com o tempo, de forma a se adaptar às novas exigências de desempenho para as firmas. A Logística assim representa uma nova visão empresarial - uma nova ordem das coisas. A CONCEPÇÃO LOGÍSTICA NA EMPRESA A concepção logística de agrupar conjuntamente as atividades relacionadas ao fluxo de produtos e serviços para administrá-las de forma coletiva é uma evolução natural do pensamento administrativo. As atividades de transporte, estoques e comunicações iniciaram- se antes mesmo da existência de um comércio ativo entre regiões vizinhas. Hoje, as empresas devem realizar essas mesmas atividades como uma parte essencial de seus negócios, a fim de prover seus clientes com os bens e serviços que eles desejam. Entretanto, a administração de empresas nem sempre se preocupou em focalizar o controle e a coordenação coletivas de todas as atividades logísticas. Somente nos últimos anos é que ganhos substanciais nos custos foram conseguidos, graças à coordenação cuidadosa destas atividades. Os ganhos potenciais resultantes de se rever a administração das atividades logísticas está transformando a disciplina numa área de importância vital para uma grande variedade de empresas. Exemplos. A Noxell Corporation, produtora de uma linha de produtos cosméticos e de beleza, enfrentava uma série de problemas associados a um sistema logístico carente de melhorias. Alguns dos sintomas eram: tempo excessivo para completar e entregar pedidos dos clientes, inconvenientes gerados por pedidos incompletos, grande quantidade de erros no preenchimento dos pedidos e alto nível de perdas devido a roubo e danos físicos às mercadorias. Após cuidadoso trabalho de replanejamento e coordenação, que levou em conta o balanceamento dos custos de transportes, manutenção de estoques e processamento de pedidos, foram fechados diversos depósitos, e instalado um sistema aperfeiçoado de comunicações. Apesar de a nova prática incorrer em maiores gastos com fretes e investimentos em equipamento de transmissão de dados, estes custos foram superados por uma redução substancial Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 2 no custo de estoque. Ao mesmo tempo, foi diminuído o tempo médio para entrega, em nível nacional. Assim, realizou-se uma economia anual média de $ 78.0001. A International Minerais and Chemical Corporation estava experimentando rápido crescimento, que colocava seus métodos de distribuição em xeque. Havia preocupação quanto aos incrementos dos custos de armazenagem e transportes, além de pressão crescente por comunicações mais ágeis. Inicialmente, a companhia contava com 44 armazéns públicos no seu sistema de distribuição. Entretanto, uma análise rigorosa de seus custos logísticos mostrou que 13 depósitos poderiam ser usados com pouca deterioração do nível de serviço oferecido aos clientes. O balanceamento dos custos relativos de transportes, manutenção de estoques e processamento de pedidos resultou numa redução de 35% nos custos anuais de operação2. A logística como fundamento para o comércio A logística também tem importância numa escala global. Na economia mundial, sistemas logísticos eficientes formam bases para o comércio e a manutenção de um alto padrão de vida nos países desenvolvidos. Os países, assim como as populações que os ocupam. Não são igualmente produtivos. Assim muitas vezes certa região detém uma vantagem sobre as demais no que diz respeito a alguma especialidade produtiva. Um eficiente sistema logístico permite uma região geográfica explorar suas vantagens inerentes pela especializa cã o de seus esforços produtivos naqueles produtos que ela tem vantagens e pela exportação desses produtos às outras regiões. O sistema permite então que o custo do país (custos logísticos e de produção) e a qualidade desse produto sejam competitivos com aqueles de qualquer outra região. Alguns exemplos passados desta especialização são: a indústria eletrônica japonesa; a agricultura e as indústrias de computadores e de aviação americanas; e o domínio de vários países no fornecimento de matérias-primas como como petróleo, ouro, bauxita e cromo. Custos logísticos são um fator-chave para estimular o comércio. O comércio entre países e entre regiões de um mesmo país é frequentemente determinado pelo fato de que diferenças nos custos de produção podem mais do que compensar os custos logísticos necessários para o transporte entre as regiões. Enquanto os Estados Unidos, o Japão e os membros da Comunidade Econômica Européia gozam de alto padrão de vida e trocam mercadorias livremente devido à eficiência de seus sistemas logísticos, muitas porções do mundo, como partes do Sudeste Asiático, África, China e América do Sul, ainda apresentam sistemas de transportes e armazenagem inadequados para apoiar um comércio extensivo. Por isso, estes povos são forçados a uma auto-suficiência localizada e um padrão de vida relativamente baixo. Uma diferença crítica entre estas duas situações é o ponto no qual se situa o desenvolvimento de seus sistemas logísticos. Quanto maior e mais sofisticado for seu desenvolvimento, e quanto mais baratas forem suas movimentações e armazenagens, mais livre será a troca de mercadorias e maior será a especialização do trabalho. Sem tal desenvolvimento, o comércio, assim como o conhecemos. normalmente não ocorre. Os problemas logísticos permanecem A relevância da logística é influenciada diretamente pelos custos associados a suas atividades. Fatores de peso estão influenciando o incremento dos custos logísticos. Dentre eles, os mais relevantes são: o aumento da competição internacional, as alterações populacionais, a crescente escassez de recursos e a atratividade cada vez maior da mão-de- 1 FARREL, Jack. Physical distribution case síudies. Boston: Cahers Books International, 1973. p. 1-8. 2 HESSLER, Kenneth. Assignment: design and phase-in a new distribution system. Transportation and Distribution Management, p. 33-43, jan 1965. Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 3 obra no Terceiro Mundo. O aumentodo comércio internacional indica que a especialização do trabalho continua acontecendo numa escala mundial. Os desafios logísticos que resultam destes movimentos internacionais devem ser resolvidos. À medida que estes problemas puderem ser solucionados, todos poderão beneficiar-se de mercadorias de melhor qualidade e menor custo. Grandes esforços já foram feitos para o desenvolvimento de sistemas logísticos mais e mais eficientes. Ainda resta muita coisa por fazer para se alcançar o nível ótimo de eficiência e eficácia no suprimento e na distribuição por todo o mundo e também na economia doméstica. Este potencial é ilustrado claramente no seguinte relatório da Associação de Consumidores dos Estados Unidos, que trata da pesca, processamento e distribuição do camarão naquele país. Relatório dos consumidores. Por que o camarão, o produto mais valorizado da indústria pesqueira, é tão decepcionante? Se olharmos com detalhes a jornada do camarão desde o mar até a mesa do consumidor, a resposta ficará evidente. Os métodos de pesca variam conforme a distância do porto, os equipamentos disponíveis nos barcos de pesca e a capacidade do porão desses barcos. Geralmente, a rede é esvaziada no convés, onde o camarão é separado de alguns peixes e outros itens indesejáveis. Nas águas mais ao sul, onde as temperaturas tanto do ar como do convés podem ser extremamente elevadas, o camarão tem a cabeça retirada imediatamente, é lavado com água do mar e colocado no gelo, dentro do porão da embarcação. Se os pesqueiros forem tão pequenos que tenham de retornar ao porto toda noite, pode ser que o resultado do dia tenha sido guardado no gelo. No próprio cais, ele é vendido imediatamente aos agentes das indústrias. Muitos dos barcos maiores carregam gelo picado em quantidade suficiente para permanecer nas áreas de pesca por uma semana ou mais de cada vez. As embarcações mais modernas dispõem de porões refrigerados. Apesar da variação dos procedimentos de pesca, fica óbvio que, uma vez que o frágil camarão é retirado do mar, ele é objeto de manuseio inadequado. Exposto ao ar durante longo tempo no convés, ele pode desenvolver pontos pretos. Posteriormente, dentro dos pequenos depósitos do porto, podem ocorrer outros defeitos que prejudicam parcial ou totalmente a qualidade e a salubridade do pescado. Novamente, o tempo e a temperatura são fatores críticos. Os defeitos têm mais chance de se desenvolver quando o camarão é refrigerado por tempo demais ou por ter sido mantido num período mais curto, mas a temperaturas maiores. Como todo o pescado de vários dias de um barco é muitas vezes industrializado de uma única vez, todos os defeitos da safra não vêm necessariamente juntos em uma só caixa ou saco do produto. Um consumidor pode pegar simplesmente um ou dois dos camarões que ficaram no canto do depósito. Quando o camarão chega à fábrica, ele é lavado e colocado em uma esteira onde inspetores retiram os pescados danificados descorados ou em decomposição. Na mesma esteira, em seguida, dispositivos mecânicos separam o camarão pelo tamanho. A partir deste ponto, o camarão com casca é simplesmente empacotado em caixas de papel-cartão encerado, pesado e congelado. Após o congelamento, o camarão é normalmente submetido a um borrifamento d'água a mais, formando um bloco de gelo com a finalidade de evitar perda de umidade. O camarão descascado passa por diversos estágios adicionais. Existem muitas chances para surgirem problemas durante o processamento. A inspeção casual do camarão que será processado pode não eliminar todo o camarão ruim. O manuseio descuidado pode deixar camarão danificado, pedaços de casca ou tripa, e mesmo cabeças ou pernas inteiras entrar no pacote final. Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 4 Uma vez que o camarão sai da planta industrial, ele deve ser armazenado – em depósitos refrigerados, durante o transporte em caminhões também refrigerados e, finalmente, nos congeladores dos varejistas. Em cada estágio do ciclo de distribuição, é essencial que as temperaturas de estocagem sejam mantidas abaixo de 18°C negativos. Sob boas condições, mesmo um camarão cuidadosamente processado deteriora com o tempo. Sob condições casuais de estoque e temperatura flutuante, a salubridade e a qualidade decaem muito rapidamente.3 Este é apenas um exemplo dos problemas logísticos que permanecem. Neste caso, do produto é afetada pela maneira com que o sistema logístico é administrado. Histórias semelhantes podem ser contadas para virtualmente todo produto no qual atividades logísticas afetam o serviço ao cliente (disponibilidade e condição das mercadorias, preço e qualidade do produto). Da mesma forma que os problemas permanecem, também urgem oportunidades para aqueles capazes de tratá-los. Por que estudar logística? Muitas pessoas estudam logística porque é assunto, além de interessante, essencial, o que certamente as torna mais informadas. Contudo, existem motivos mais pragmáticos para se despender algum tempo aprendendo este assunto. Não existe talvez nenhuma razão mais importante para um jovem do que a perspectiva de um bom emprego ou, para o executivo ambicioso, do que a perspectiva de uma posição melhor. A maioria das firmas de serviços ou agências e instituições governamentais, assim como todas empresas privadas, necessitam do auxílio de um especialista em logística em variados graus. Acontece que a demanda por profissionais em logística tem sido superior à oferta de pessoal treinado, sendo esta escassez particularmente aguda em nível de gerência. Isto tem levado à contratação de pessoal externo à organização logística e sem treinamento formal na área. É uma vida . . ." Fonte: PRESTON, Charles, ed. Carefor a merger?. New York: E. P. Dutton, 1958. p. 69. Reimpresso com permissão dos editores. Figura 1.1 Carreiras em logística guardam potencial para chegar à alta administração 3 Reimpresso com permissão de Frozen Shrimp. ConsumerReports, p. 259-264, Mar. 1974. Copyright (c) 1974 pelo Uaion of United States, Inc., Mount Vernon, New York, 10550 Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 5 Muitas companhias procuram pessoas com diplomas em transportes ou logística. Os cargos iniciais são, em geral, nas áreas de tráfego ou armazenagem e, em menor grau, em operações, estoques e vendas. Futuramente, as condições econômicas tornarão a logística um campo mais atrativo do que ele é hoje. Não se espera que a economia doméstica cresça como no passado, devido à menor taxa de natalidade, a limitações na disponibilidade de fontes de matérias-primas e à maior competição com produtores estrangeiros. Por isso, as companhias mudarão seu foco de gerenciar seu crescimento para competir por maior participação de mercado. Quando isto acontecer, maior atenção será dada à distribuição, que pode consumir de 15 a 20% do PNB. Quando um mercado experimenta rápido crescimento, pode-se tolerar distribuição ineficiente, pois ainda assim as empresas podem manter-se rentáveis. Entretanto, quando se compete por maior participação no mercado, distribuição eficiente e eficaz pode ser a vantagem necessária para se tornar competitivo. Considere outra tendência importante. Muita atenção tem sido dada à disponibilidade de alimentos para abastecer a população mundial. Estima-se que um terço do suprimento de alimentos perecíveis é perdido durante a distribuição. Tendências como esta tornarão importantes e bem remunerados aqueles cargos responsáveis pelo fluxo de materiais, assim como pela entrega de serviços. Mas, e se você nãopretende seguir carreira em logística? Nenhuma firma de produção ou serviços pode operar sem executar atividades logísticas em algum grau. Portanto, todos que desejam subir na carreira executiva precisam ter alguma compreensão dos problemas logísticos e saber como tratá-los. LOGÍSTICA MPRESARIAL DEFINIDA Logística empresarial não tem o mesmo significado para todas as pessoas, inclusive para aquelas que estão ativamente engajadas no assunto. Até o momento, o campo ainda não tem um titulo único para identifica-lo, como fizeram os setores de marketing e produção. Uma amostra dos membros do Conselho Nacional de Administração da Distribuição Física norte- americano4 mostrou que a área é representada por nomes como transportes, distribuição, distribuição física, suprimento e distribuição, administração de materiais, operações e logística. Apesar de distribuição física ser o título mais popular, neste texto a disciplina é chamada de logística empresarial, pois este é o título do futuro. Ele implica tanto o suprimento físico como a distribuição física - que é o escopo desejado para o assunto. Definição e manifesto da missão Logística empresarial associa estudo e administração dos fluxos de bens e serviços e da informação associada que os põe em movimento. Caso fosse viável produzir todos os bens e serviços no ponto onde eles são consumidos ou caso as pessoas desejassem viver onde as matérias-primas e a produção se localizam, então a logística seria pouco importante. Mas isto não ocorre na sociedade moderna. Uma região tende a especializar-se na produção daquilo que tiver vantagem econômica para fazê-lo. Isto cria um hiato de tempo e espaço entre matérias-primas e produção e entre produção e consumo. Vencer tempo e distância na movimentação de bens ou na entrega de serviços de forma eficaz e eficiente é a tarefa do profissional de logística. Ou seja, sua missão é colocar as mercadorias ou os serviços certos no lugar e no instante corretos e na condição desejada, ao menor custo possível. 4 O Conselho Nacional de Adminitração da Distribuição Física (National Council of Physical Distribution Management) é uma organização formada por gerentes, acadêmicos, consultores e outros interessados em compreender o processo de distribuição física e em promover a arte e a ciência do gerenciamento da distribuição física. Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 6 Foram propostas muitas definições para logística empresarial. A preferida neste texto é a seguinte: A logística empresarial trata de todas atividades de movimentação e armazenagem, que facilitam o fluxo de produtos desde o ponto de aquisição da matéria-prima até o ponto de consumo final, assim como dos fluxos de informação que colocam os produtos em movimento, com o propósito de providenciar níveis de serviço adequados aos clientes a um custo razoável. O termo "produto" é aqui utilizado no sentido lato, incluindo tanto bens como serviços. Atividades primárias A definição anterior identifica aquelas atividades que são de importância primária para o atingimento dos objetivos logísticos de custo e nível de serviço. Estas ativida-des-chave são: • Transportes. • Manutenção de estoques. • Processamento de pedidos. Essas atividades são consideradas primárias porque ou elas contribuem com a maior parcela do custo total da logística ou elas são essenciais para a coordenação e o cumprimento da tarefa logística. Transportes. Para a maioria das firmas, o transporte é a atividade logística mais importante simplesmente porque ela absorve, em média, de um a dois terços dos custos logísticos. É essencial, pois nenhuma firma moderna pode operar sem providenciar a movimentação de suas matérias-primas ou de seus produtos acabados de alguma forma. Sua importância é sempre sublinhada pelos problemas financeiros colocados para muitas empresas quando há uma greve ferroviária nacional ou quando carreteiros autônomos paralisam sua atividades devido a aumentos de combustíveis. Não é incomum denominar tais eventos de desastres nacionais. Os mercados não podem ser atendidos e produtos permanecem no canal de distribuição para deteriorarem-se ou tornarem-se obsoletos. "Transporte" refere-se aos vários métodos para se movimentar produtos. Algumas das alternativas populares são os modos rodoviário, ferroviário e aeroviário. A administração da atividade de transporte geralmente envolve decidir-se quanto ao método de transporte, aos roteiros e à utilização da capacidade dos veículos. Manutenção de estoques. Geralmente, não é viável providenciar produção ou entrega instantânea aos clientes. Para se atingir um grau razoável de disponibilidade de produto, é necessário manter estoques, que agem como "amortecedores'' entre a oferta e a demanda. O uso extensivo de estoques resulta no fato de que, em média, eles são responsáveis por aproximadamente um a dois terços dos custos logísticos, o que torna a manutenção de estoques uma atividade-chave da logística. Enquanto o transporte adiciona valor de "lugar" ao produto, o estoque agrega valor de “tempo". Para agregar este valor dinâmico, o estoque deve ser posicionado próximo aos consumidores ou aos pontos de manufatura. O número normalmente grande destes pontos de estoque e os altos custos associados a manter estes produtos armazenados, em geral entre 25 e 30% do valor do produto por ano, requerem administração cuidadosa. A administração de estoques envolve manter seus níveis tão baixos quanto possível, ao mesmo tempo que provê a disponibilidade desejada pelos clientes. Processamento de pedidos. Os custos de processamento de pedidos tendem a ser pequenos quando comparados aos custos de transportes ou de manutenção de estoques. Contudo, processamento de pedidos é uma atividade logística primária. Sua importância deriva do fato de ser um elemento crítico em termos do tempo necessário para levar bens e serviços aos Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 7 clientes. É também a atividade primária que inicializa a movimentação de produtos e a entrega de serviços. Além disso, estas três atividades logísticas podem ser colocadas em perspectiva notando-se sua importância naquilo que pode ser chamado de "ciclo crítico de atividades logísticas”. Como mostrado na Figura 1.2, o tempo requerido para um cliente receber um pedido depende do tempo necessário para entregar o pedido. Como o resultado final de qualquer operação logística é prover serviço por conseguir mercadorias para os clientes quando e onde eles quiserem, estas três atividades são centrais para cumprir esta missão. Por isso elas são chamadas de atividades primárias. Figura 1.2 Relação entre as três atividades logísticas primárias para atender clientes – o “ciclo crítico”. Atividades de apoio Apesar de transportes, manutenção de estoques e processamento de pedidos serem os principais ingredientes que contribuem para a disponibilidade e a condição física de bens e serviços, há uma série de atividades adicionais que apoia estas atividades primárias. Elas são: • Armazenagem. • Manuseio de materiais. • Embalagem de proteção. • Obtenção. • Programação de produtos. • Manutenção de informação. Seu relacionamento com as atividades primárias e o nível de serviço visado está mostrado na Figura 1.3. Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 8 Figura 1.3 Relações entre as atividades logísticas primárias e de apoio e o nível de serviço almejado. Armazenagem.Refere-se à administração do espaço necessário para manter estoques. Envolve problemas como localização, dimensionamento de área, arranjo físico, recuperação do estoque, projeto de docas ou baias de atracação e configuração do armazém. Manuseio de Materiais. Está associada com a armazenagem e também apoia a manutenção de estoques. É uma atividade que diz respeito à movimentação do produto no local de estocagem - por exemplo, a transferência de mercadorias do ponto de recebimento até o local de armazenagem e deste até o ponto de despacho. São problemas importantes: seleção do equipamento de movimentação, procedimentos para formação de pedidos e balanceamento da carga de trabalho. Embalagem proteção. Um dos objetivos da logística é movimentar bens sem danificá=los além do economicamente razoável. Bom projeto de embalagem do produto auxilia a garantir a movimentação sem quebras. Além disso, dimensões adequadas de empacotamento encorajam manuseio e armazenagem eficientes. Obtenção. É a atividade que deixa o produto disponível para o sistema logístico. Trata da seleção das fontes de suprimento, das quantidades a serem adquiridas, da programação das compras e da forma pela qual o produto é comprado. É importante para a logística, pois decisões de compra têm dimensões geográficas e temporais que afetam os custos logísticos. A obtenção não deve ser confundida com a função de compras. Compras inclui muitos dos detalhes de procedimento (por exemplo, negociação de preço e avaliação de vendedores), que não são especificamente relacionados com a tarefa logística; daí o uso do termo obtenção como substituto. Programação do produto. Enquanto a obtenção trata do suprimento (fluxo de entrada) de firmas de manufatura, a programação de produto lida com a distribuição (fluxo de saída). Refere-se primariamente às quantidades agregadas que devem ser produzidas e quando e onde devem ser fabricadas. Não diz respeito à programação detalhada de produção, executada diariamente pelos programadores de produção. Manutenção de informação. Nenhuma função logística dentro de uma firma poderia operar eficientemente sem as necessárias informações de custo e desempenho. Tais Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 9 informações são essenciais para correto planejamento e controle logístico. Manter uma base de dados com informações importantes - por exemplo, localização dos clientes, volumes de vendas, padrões de entregas e níveis dos estoques - apoia a administração eficiente e efetiva das atividades primárias e de apoio. TRAÇANDO TENDÊNCIAS EM LOGÍSTICA Hoje, a logística empresarial é um campo fascinante e em expansão, com potencial para alta administração. Não era o caso de 20 anos atrás. O que levou a este dramático crescimento e interesse? Para todos os efeitos, a prática moderna da logística empresarial configura nova disciplina. Isto não significa que as atividades essenciais de transporte, manutenção de estoques e processamento de pedidos são novidades. Entretanto, foi só recentemente que uma filosofia integrativa esteve disponível para guiar seus passos. O desenvolvimento histórico da logística empresarial desmembra-se em três eras: antes de 1950, 1950-1970, e após 1970. Antes de 1950: os anos adormecidos Até cerca de 1950, o campo permanecia em estado de dormência. Não existia nenhuma filosofia dominante para guiá-lo. As empresas fragmentavam a administração de atividades-chave em logística. Ou seja, o transporte era encontrado frequentemente sob o comando gerencial da produção; os estoques eram responsabilidade de marketing, finanças ou produção; e o processamento de pedidos era controlado por finanças ou vendas. Isto resultava no conflito de objetivos e de responsabilidades para as atividades logísticas, como aparece na Figura 1.4. Fonte: STOLLE, John F. How to manage physical distribution. Harvard Business Review, p. 95, July/Aug. 1967. Copyright pelo presidente e membros do Harvard College todos os direitos reservados. Figura 1.4 Responsabilidades e objetivos conflitantes típicos em atividades logísticas em firmas tradicionais e algumas contemporâneas. Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 10 Entretanto, existiram alguns pioneiros. Antigos estudiosos de marketing e emprsários como Arch Shaw (1912) e Fred Clark (1922) identificaram a natureza da distribuição física e como ela diferia da criação de demanda no marketing. 5 A atividade logística militar na Segunda Guerra Mundial foi um início para muitos dos conceitos logísticos utilizados atualmente. Infelizmente, o exemplo militar somente influenciou as atividades logísticas das firmas comerciais alguns anos depois. Por volta de 1945, algumas empresas já haviam colocado transporte e armazenagem de produtos acabados sob um único gerente. As industrias alimentícias foram pioneiras neste aspecto. Talvez o leitor atento já tenha observado que as atividades logísticas sempre foram administradas pelas empresas. Mas a maior parte dos aperfeiçoamentos gerenciais das atividades logísticas surgiu do reagrupamento desta atividades tradicionais dentro da firma. Antes de 1950, poucas empresas exploraram os benefícios destes rearranjos. Por quê? Olhando-se em retrospectiva, nem o ambiente econômico nem a teoria estavam aptos para a criação do clima necessário a uma mudança de atitudes. A área de administração de marketing estava crescendo em importância, assim como a administração estava mudando seu foco da produção (como influência dominante) para uma orientação para marketing (consumidor). Esta foi uma mudança natural, pois a economia americana no geral alterou-se de escassez da capacidade industrial para uma situação de capacidade Mundial, a economia dos EUA experimentou rápido crescimento , devido parcialmente à demanda reprimida dos anos de depressão e à posição dominante da indústria americana no mercado mundial. O clima era vender e produzir. Os lucros eram altos. Certa ineficiência na distribuição de produtos podia ser tolerada. 1950 - 1970: o período de desenvolvimento O período entre o início dos anos 50 até a década de 60 representa a época de decolagem para a teoria e a prática da logística. O ambiente era propício para novidades no pensamento administrativo. O marketing estava bem estabelecido em muitas instituições educacionais e orientava muitas empresas. Entretanto, professores de marketing e administração não estavam totalmente satisfeitos com o que havia sido criado. Paul Converse, conhecido professor de marketing, disse em 1954 que as companhias prestavam muito mais atenção a compra e venda do que a distribuição física. A distribuição física era muitas vezes subestimada e colocada de lado como algo de pouca importância.6 Peter Drucker, escritor e consultor de administração de empresas bastante conhecido, chamava as atividades de distribuição que ocorriam após a produção dos bens de “ as áreas de negócios infelizmente mais desprezadas e mais promissoras na América."7 Muitos mais tornariam a repetir este tema. Posteriormente, reconheceu-se que um evento-chave para o desenvolvimento da logística empresarial como disciplina foi um estudo conduzido para determinar o papel que o transporte aéreo poderia desempenhar na distribuição física.8 Esse estudo mostrava que o alto custo do transporte aéreo não necessariamente deteria o uso deste serviço, mas que a chave para sua aceitação deveria ser o seu menor custo total, decorrente da soma das taxas do frete aéreo e do menor custo devido à diminuição de estoques, conseguido pela maior velocidade da movimentação por via aérea. Esta compensaçãode um tipo de custo por outro ficou conhecida como o conceito do custo total. Ele tornou-se importante argumento para um 5 Para uma discussão dos dos primórdios, veja LaLONDE, Bernard J., DAWSON, Leslie M. Pioneers in distribuition. Transportation and Distribution Management, p. 58-60, jun. 1969 6 CONVERSE, Paul D. The other half of marketing. Twenty-six Boston Conference on Distribution. Boston Trade Board, 1954. P.22. 7 DRUCKER, Peter F. The economy's dark continent. Fortune p. 103, 265, 268 e 270, abr. 1962 8 LEWIS, Howard T., CULLITON, James W., STEELE, Jack D. The role ofairfreight inphysical distributionBoston: Divisão de Pesquisa, Giaduate School of Business Administration, Universidade de Harvard, 1956. Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 11 reagrupamento lógico de atividades dentro das firmas e também auxiliou a explicar a reorganização em torno das atividades de distribuição que estava ocorrendo em algumas poucas empresas pioneiras. O conceito do custo total é um princípio importante para a logística empresarial e está mais desenvolvido no próximo capítulo. As condições econômicas e tecnológicas eram tais que também encorajaram o desenvolvimento da disciplina. Quatro condições-chave foram identificadas: (1) alterações nos padrões e atitudes da demanda dos consumidores, (2) pressão por custos nas indústrias, (3) avanços na tecnologia de computadores e (4) influências do trato com a logística militar.9 Alterações nos padrões e atitudes da demanda dos consumidores . A cada dez anos, um censo populacional é realizado no país. Alterações dramáticas na população podem ocorrer, sendo reveladas pelas estatísticas do período de dez anos. Durante os anos de formação da logística empresarial existiram mudanças populacionais com substancial impacto nos custos logísticos. Houve migração das áreas rurais com direção aos centros urbanos já estabelecidos. Isto em si poderia reduzir a distribuição pelo incremento dos volumes movimentados para uma menor quantidade de centros de demanda. Ao mesmo tempo, populações começaram a migrar do centro das cidades para os subúrbios circundantes. Varejistas seguiram a população para os subúrbios com pontos de venda adicionais. Servir com entregas uma maior área metropolitana e manter maiores os estoques totais requeridos pelas filiais adicionais incrementaram o custo da distribuição. Além das migrações populacionais, os consumidores demandavam maior variedade das mercadorias ofertadas. Os produtos proliferaram de poucos milhares de itens para 12.000 nos grandes supermercados. Automóveis eram oferecidos em diversas cores, motores e tamanhos. A tendência era a mesma para quase todas as indústrias. Variedade geralmente significa maiores custos de manutenção de estoques. Se um produto é substituído por três para atender a mesma demanda, o nível de estoque para todos os produtos pode aumentar de até 60%.10 Finalmente, os padrões de distribuição em si começaram a mudar. Onde antes o varejista tipicamente carregava estoques substanciais - por exemplo, num bem estocado depósito nos fundos de uma mercearia - ele passou a manutenção do estoque para seu fornecedor ou para centrais de distribuição mis especializadas e, portanto, passou a ou demandar entregas mais frequentes para ressuprimento. Isso aumentou a importância da distribuição para fornecedores e centrais de distribuição, pois maiores níveis de inventário deveriam ser administrados e, ao mesmo tempo, maior disponibilidade de estoque e entregas mais velozes deveriam ser providenciadas. Pressão por custos nas indústrias. O clima econômico geral dos anos 50 era instrumental para fomentar o interesse em logística. Houve crescimento econômico substancial após a Segunda Guerra, seguido de recessão e um período de prolongada pressão nos lucros. Períodos necessários tipicamente forçam os administradores a procurar maneiras de melhorar a produtividade. Os novos conceitos logísticos ofereciam esta oportunidade. Por outro lado, os setores de produção da maioria das firmas já haviam sido bem examinados durante muitos anos pelos engenheiros de produção e as atividades promocionais e de vendas não se rendiam muito bem às tentativas de incremento da produtividade. A administração podia olhar para a logística como “ a última fronteira para redução de custos nas empresas americanas.”11 9 Sugerido fortemente em SCHNEIDER, Lewis M. Milestones on the road of physical distribution. zn:McCONAUGHY, David, ed. Readings in business logistics. Homewood: Richard D. Irwin, 1969. p. 51-63. 10 MAGEE, John F. The logistics of distribution. Harvard Business Review, p. 91, jul./ago. 1960. 11 STEWART, Wendell M. Physical distribution: key to improved volume and profits. Journal of Marketing, p.65-70, jan. 1965. Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 12 Como incentivo adicional, começou-se a reconhecer que os custos logísticos eram substanciais. Em meados dos anos 50, poucas firmas tinham uma ideia clara de quanto eram seus custos logísticos. Quando analistas iniciaram suas pesquisas, os níveis de custo mostraram-se surpreendentes. Se considerarmos a economia como um todo, os custos logísticos podem ser estimados como 15% do produto nacional bruto. O produto nacional bruto (PNB) é o valor de todos os bens e serviços produzidos nos Estados Unidos. Se retirarmos o valor da indústria de serviços do PNB como irrelevantes nas estimativas de custos logísticos, estes seriam cerca de de 23% do PNB de produtos tangíveis. Destes custos, o transporte representa algo em torno de dois terços e a manutenção de estoques toma o terço restante. Estes níveis de custos têm-se mantido constantes em termos porcentuais. Estimou-se também que cerca de 19% da riqueza nacional está investida em atividades logística e que estas atividades empregam cerca de 13% da força de trabalho.12 Um estudo recente mostrou que os custos logísticos são 21% do PNB. Deste total, transporte responde por 46%, armazenagem por 28%, manutenção de estoques por 18% e administração por 6%.13 Com relação a empresas em particular, existe grande variação nos custos logísticos de uma indústria para outra. De tempos em tempos, pesquisas são conduzidas para determinar estes custos. Os resultados de diversas pesquisas estão na Tabela 1.1. No geral, os custos logísticos para uma firma em particular estão entre 19 e 22% das vendas líquidas. Estes custos não refletem o custo de mercadorias compradas, que corresponde em média a cerca de 50% das vendas. Caso os custos de compras estiverem incluídos nos custos logísticos, estes tendem a ser os mais significativos de todas as áreas funcionais dentro da empresa. Mas é o que ocorreria com os custos de qualquer outra área funcional, que tivesse o custo de compras adicionado aos seus. Tabela 1.1 Custos logísticos como porcentagem da receita logística (obtido de três estudos). Indústria Administração Transporte Manuten ção de estoque Armaze- nagem Recepção e expedição Emba- Processamento Total lagem de pedidos I a - Químicos e plásticos 0,3% 6.3% d 1.6% 3.3% 0.7% 1.4% 0.6% 14.2% Alimentos 0.4 8.1d 0.3 3.5 0.9 _ 0.2 13.4 Farmacêutica 0.7 1.4" _ 1.2 0.5 0.1 0.5 4.4 Eletrônica 1.2 3.2d 2.5 3.2 0.9 0.1 1.2 13.3 Papel , ; 0.2 5.8d 0.1 4.6 0.3 - 0.2 11.2 Máquinas e ferramentas 0.5 4.5d 1.0 2.0 0.5 1.0 0.5 10.0 Outras 1.2 6.8d 1.0 2.9 1.4 0.4 0.4 14.1 Todas, manufatura0.5 6.2d 1.3 3.6 0.8 0.7 0.5 13.6 Todas, comerciais 1.2 7.4d 10.3 4.2 0.6 1.2 0.7 25.6 Bens de consumo 1.3 8.1d 8.5 4.0 0.9 0.9 0.5 24.2 Bens industriais 0.7 5.9d 13.7 2.9 0.2 2.0 1.0 26.4 Ll b - Alimentícia 1.68 16.64 NSI e 9.46 l 4.23 NSI 32.01 Metalúrgicas 4.30 10.02 NSI 11.98 1 2.93 NSI 29.23 Químicas, petróleo e borracha 1.13 13.80 NSI 6.13 - 2.74 NSI 23.80 Papel e derivados 0.53 8.43 NSI 5.69 - 3.48 NSI 18.13 Têxteis 0.71 5.52 NSI 7.74 - 2.18 NSI 16.15 Produtos de madeira (inclui móveis) 1.09 11.10 NSI 2.04 - 1.76 NSI 15.99 Equipamentos de transporte 0.45 7.10 NSI 1.54 - 1.13 NSI 10.22 Máquinas 0.21 7.75 NSI 1.23 - 0.83 NSI 10.02 Média 1.27 10.05 - 5.72 - 2.41 - 19.44 III c - Composto de 270 empresas 2.4 6.4 3.8 3.7 — 4.3 1.2 21.8 12 Estas estatísticas foram derivadas de HESKETT, J. L., GLASKOWSKY Jr., N. A., IVIE, R. M. Business logistics. 2. Ed. New York: The Ronald Press, 1973. P. 14-21.1. 13 A . T. KEARNEY, INC. Measuring and improving productivity in physical distribution. Chicago: National Council 1984 of Physical Distribution, 1984. Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 13 a De LaLONDE, Bernard J., ZINSZER, Paul H. Customer servicer. meaning and measurement. Chicago: National Council of Physical Distribution Management, 1976. b De SNYDER, Richard E. Physical distribution costs: a two-year analysis. Distribution Age, p. 50-51, jan. 1963. c De STEWART, Wendall M. Physical distribution: key to improved volume and profits. Journal ot Marketing, p. 67, jan. 1965. d Não inclui custo do transporte de suprimento, qjue é normalmente um teço do frete de distribuiç~eos e Não identificado, nem incluso. f junto com custo de embalagem A comparação dos custos logísticos totais na Tabela 1.1 mostra ampla variação de indústria para indústria. Enquanto a indústria alimentícia experimenta custos logísticos de mais de 32% das vendas, a indústria de máquinas os tem na ordem de 10% das vendas. As outras indústrias ficam entre estes dois extremos. A razão desta diferença está no valor dos produtos. Por exemplo, máquinas têm um alto valor agregado devido aos altos custos de desenvolvimento e produção. Custos logísticos podem variar substancialmente dentro da indústria, mas com relação aos custos de produção eles são um pouco menores que no caso da indústria alimentícia. O grau de atenção que a administração dá a uma área está frequentemente relacionado com sua importância relativa nos custos. Não constitui assim uma surpresa que a indústria alimentícia foi pioneira em arranjos administrativos inovadores para atividades logísticas. Mais recentemente, a medida dos custos logísticos como porcentual de vendas tem sido contestada como boa estimativa da importância da logística para uma firma ou indústria. O valor adicionado pode ser uma medida mais adequada. O custo das matérias -primas e componentes comprados é repassado ao preço de venda e, por isso, pode distorecer medidas de porcentagem de vendas. Este custo, que na média será de 50% do valor das vendas, não é contribuição da firma. O valor adicionado, que é aproximadamente a diferença entre vendas e o custo de mercadorias e serviços adquirido, definem os custos controláveis da empresa. Como porcentual do valor adicionado, os custos logísticos para as seguintes indústrias são: petróleo, 43%; químicos, 39%; produção de alimentos e varejo em geral, 36%; papel, 30%; madeira, 26%; automóveis e materiais de construção, 20%; metalúrgica, 18%; utensílios, 17%; farmacêutica, 16%: máquinas, 12%; borracha, 11%; equipamentos elétricos e têxteis, 10%; vestuário, móveis e fumo, 8%;14 e todas indústrias, 22,5%. Por qualquer medida, os custos logísticos são substanciais para a maioria das firmas e indústrias. Este reconhecimento começou a emergir durante as décadas de 50 e 60. Avanços na tecnologia de computadores. Com o passar dos anos, os problemas logísticos tendem a tornar-se mais complicados. Existem mais tipos de serviços de transporte para selecionar, a proliferação de variedade de produtos leva a maior número de itens de estoque para serem administrados e a demanda dos consumidores por melhores níveis de serviço muitas vezes resulta em maior quantidade de depósitos no sistema de distribuição. Esta complexidade podia ser tratada efetivamente por novas tecnologias que emergiram em meados da década de 50. O computador acabava de realizar sua estreia no mundo dos negócios. Ao mesmo tempo, incrementava-se o uso de modelagem matemática, pois modelos que podiam tratar os problemas logísticos de forma rapidamente sendo desenvolvidos. Particularmente, programação linear de controle de estoques e simulação são valiosas ferramentas para os profissionais da área. Estes poderiam agora lidar mais efetivamente com problemas como localizar depósitos, alocar clientes a depósitos, controlar estoques em múltiplos locais e roteirizar e programar veículos. O interesse gerencial por estas técnicas científicas foi despertado porque elas poderiam auxiliar na 14 Ibidem Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 14 identificação de economias significativas em áreas-problema da logística, que antes só podiam ser encontradas usando-se métodos intuitivos. A experiência militar. Antes que as empresas em geral mostrassem muito interesse em administrar atividades logísticas de forma coletiva, a área militar do governo federal americano estava bem organizada para desempenhar estas funções. Havia muito tempo que os militares tinham reconhecido a importância de coordenação das atividades logísticas. Mais de uma década antes de o mundo dos negócios interessar-se pelo assunto, os militares haviam executado aquela que foi chamada de mais sofisticada e mais bem planejada operação logística da história - a invasão da Europa. A logística militar inclui atividades como aquisição, estoque, definição de especificações, transporte e administração de estoques, a maior parte das quais está incluída na definição de logística. A experiência militar nestas áreas é substancial. Estima-se que somente a área militar detém um terço de todo o inventário mantido nos Estados Unidos - uma fonte de experiência inestimável. Além disso, os militares apoiam pesquisas em logística via organizações como a RAND Corporation e o Escritório de Pesquisas Navais. Mesmo o termo logística provém dos militares. Durante a última parte destes anos de desenvolvimento, filosofias administrativas cristalizaram; universidades começaram a oferecer cursos na área; livros-texto foram preparados; empresas começaram a pôr em prática as novas ideias e a associação de empresários, educadores e consultores conhecida como Conselho Nacional de Administração da Distribuição Física foi formada. 1970 e além: os anos de crescimento A logística empresarial, como campo da administração de empresas, entrou na década de 70 em estado descrito como de semimaturidade15. Os princípios básicos estavam estabelecidos e algumas firmas estavam começando a colher os benefícios do seu uso. Retrospectivamente, a aceitação do campo transcorria vagarosamente, pois as empresas pareciam estar mais preocupadas com a geração de lucros do que com o controle de custos. Expansão de mercado muitas vezes mascara ineficiências tanto na produção como na distribuição. Entretanto, forças de mudança se acumulavam pouco antes desta década. A competição mundial nos bens manufaturados começou a crescer, ao mesmo tempo em que falta de matérias-primas de boa qualidade passou a ocorrer. Os Estados Unidos tambémpassaram a gastar pesadamente na guerra do Vietnã. Eventos fundamentais para mudança foram o embargo petrolífero e a súbita elevação do preço do petróleo realizado pelos países da OPEP em 1973. À medida que os preços do petróleo quadruplicaram nos sete anos seguintes e o crescimento de mercado começou a diminuir, a inflação começou a aumentar ao mesmo tempo em que a produtividade crescia mais devagar. O termo geralmente empregado para descrever esta época foi estagflação. A filosofia econômica dominante passou de estímulo da demanda para melhor administração dos suprimentos. Controle de custos, produtividade e controle de qualidade passaram a ser áreas de interesse, à medida que as empresas tentavam enfrentar o fluxo de mercadorias importadas. As funções logísticas foram mais afetadas do que as outras áreas das empresas. Os preços do petróleo afetaram diretamente os custos de transporte, ao mesmo tempo que inflação e forças competitivas impulsionaram os custos de capital para cima e, portanto, os custos de manutenção de estoques. Com custos de combustíveis crescendo de 2 a 4% acima do custo de vida e juros preferenciais variando entre 10 e 20%, os assuntos logísticos tornaram-se relevantes para a alta administração. Os princípios e conceitos formulados durante anos de desenvolvimento passaram a ser utilizados com grande sucesso. 15 . BOWERSONX, Donald J. Physical distribution in semi-maturity. Air Transportation, p. 9-11, jan. 1966 Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 15 O alto grau de interesse acabou levando à logística integrada. Apesar de a distribuição física ter sido o tema dominante nas décadas de 50 e 60, um tema similar estava sendo desenvolvido em torno das compras. Esta começava a ser entendida dentro do contexto mais amplo da administração de materiais. Hoje, a logística é entendida como a integração tanto da administração de materiais como da distribuição física (vide Figura 1.5). Entretanto, esta integração leva a ligações muito mais estreitas com a função de produção /operação em muitas firmas, de modo que se pode esperar no futuro que produção e logística se aproximarão muito mais em conceito e prática.16 O interesse gerado nestes anos não deverá diminuir no futuro previsível. Ao mesmo tempo que os mercados deverão crescer mais lentamente, a competição internacional e as forças que mantêm altas taxas inflacionárias permanecerão fortes. Entre estas forças se destacam custos de energia, regulamentação governamental, arranjos institucionalizados, como reajustes automáticos de salários, déficits do governo e alteração para uma economia de suprimento ao invés de uma economia de estímulo da demanda como clima econômico dominante. Dado que a logística é atividade de alto custo, os executivos continuarão a procurar por reduções de custo e aumento de produtividade nesta área. Isto exigirá administração hábil, pois alterações, como desregulamentação dos transportes, a competição emergente de países do Terceiro Mundo nos mercados de bens finais e a concorrência por matérias-primas, aumentarão o nível de incerteza para planejamento e operação logísticos. Atualmente, a logística foca principalmente operações manufatureiras ou militares. À medida que a economia continue seu deslocamento da manufatura para serviços, haverá maiores oportunidades para adaptar os atuais princípios e conceitos logísticos para empresas que produzem e distribuem serviços ao invés de produtos tangíveis. Também, enquanto o comércio internacional e a exportação de manufaturados continuam a crescer, maior número de executivos de logística serão envolvidos na administração de suprimento e distribuição 16 Este tema está articulado em VOLLMANN, Thomas E., BARRY, William L., WHYBARK, D. Clay. Manufacturin planníng and contrai systems. Homewood: Richard D. Irwin, 1984. Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 16 internacionais. Isto não apenas alargará o escopo da logística como também enriquecerá os conceitos nos quais ela se baseia. O LUGAR DA LOGÍSTICA NA FIRMA Empresas vêm executando funções logísticas há muitos anos. Uma visão moderna é rearranjar as atividades existentes na firma de modo que o bom gerenciamento seja facilitado. Isto significa que algumas atividades consideradas como responsabilidade única da produção ou do marketing devem ser reagrupadas. Como a logística se relaciona com a produção e o marketing? Uma visão geral está mostrada na Figura 1.6 A f i r m a LOGÍSTICA PRODUÇÃO Atividades típicas • Controle de qualidade • Planejamento detalhado • Manuseio interno • Manutenção de equipamento Atividades de interface: • Programação de produção • Localização industrial • Compras Atividades de interface: • Padrões de níveis de serviço • Formação de preço • Embalagem - Localização de depósitos MARKETING Atividades típicas: • Manutenção de estoques • Processa- mepto de pedidos • Armazena- gem • Manuseio de materiais Atividades típicas: • Promoção/ propaganda • Pesquisa de mercado • Administraçã o da força de vendas Interface produção- logístíca Interface marketing- logística Figura 1.6 Visão geral das atividades logísticas dentro das atividades tradicionais da firma. A Figura 1.6. enfatiza que a responsabilidade primária do marketing é gerar lucros para a firma. Isto é feito através de vários meios promocionais (propaganda, incentivos de preço etc.), oferta de produtos e pesquisa de mercado. A produção preocupa-se principalmente com a formação do produto ou serviço e o controle de qualidade, ao mesmo tempo que minimiza o custo unitário de produção. Para alcançar este objetivo, deve cuidar do corpo administrativo do sistema de produção, do planejamento de capacidade, do controle de qualidade e da programação do processo. Uma vez que a logística é responsável pela movimentação e armazenagem de produtos, então transporte, manutenção de estoques, armazenagem e manuseio de materiais devem ser seus principais focos de interesse. Estrategicamente, a logística ocupa posição intermediária entre produção e marketing. Como é impossível dividir as funções de uma empresa sem alguma sobreposição de responsabilidade pelo menos em algumas delas, atividades de interface devem ser criadas. Estas são aquelas que devem ser gerenciadas por duas ou mais áreas. O profissional de logística deve tratar com estas áreas de limbo entre produção e marketing. Formação de preços ou embalagem são exemplos de atividades administradas conjuntamente por logística e marketing. A formação de preço tem componentes tanto geográficos como competitivos. Já compras e programação de produção são exemplos de áreas de interface entre logística e produção. A produção deve adquirir bens a custo e qualidade aceitáveis, enquanto a logística se preocupa com a localização de fontes de suprimentos e os tempos para abastecimento. O setor de compras toma estas decisões. A programação da produção toma decisões similares. Ela se interessa pela sequência e tamanho dos lotes de produção a serem fabricados, enquanto a logística novamente se preocupa com a localização e os tempos da produção. Arranjos administrativos tradicionais agrupam estas atividades sob diversos rótulos Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 17 funcionais, criando a necessidade decoordenação interfuncional para algumas importantes atividades logísticas. LOGÍSTICA A PARA FIRMAS DE SERVIÇOS Onde empesas e instituições de serviços se encaixam no escopo da logística? O campo da logística até hoje pouco fez para ter reconhecida sua importância na administração de bancos, hospitais, escolas, orquestras e assemelhados. Organizações de serviços têm muitos problemas logísticos, como localização de agências bancárias, atendimento médico e serviços de manutenção telefônica. Os problemas logísticos concentram-se muitas vezes no lado do suprimento de firmas de serviços, onde se pode identificar um bem físico em estoque ou como item de frete - um ponto de vista estreito. (Apesar de este texto não apresentar problemas de serviços, pode-se identificar que muito do que será dito sobre empresas de manufatura também se aplica às empresas não manufatureiras e alguns exemplos de serviços estão espalhados pelo livro). À medida que o campo da logística amadureça, pode-se esperar que muito mais será escrito sobre problemas logísticos de firmas de serviços. RESUMO Logística empresarial é vital para a economia e para a empresa individual. É fator-chave para incrementar comércio regional e internacional. Sistemas logísticos eficientes e eficazes significam melhor padrão de vida para todos. Na firma individual, atividades logísticas absorvem uma porção significativa de seus custos individuais. Estes custos, que são em média cerca de 22% das vendas (22,5% do valor adicionado e 21% do PNB), determinam muitas vezes se uma firma será competitiva. Boa administração é essencial. Logística empresarial tem como objetivo prover o cliente com os níveis de serviço desejados. A meta de nível de serviço logístico é providenciar bens ou serviços corretos, no lugar certo, no tempo exato e na condição desejada ao menor custo possível. Isto é conseguido através da administração adequada das atividades-chave da logística - transportes, manutenção de estoques, processamento de pedido e de várias atividades de apoio adicionais. Administração de materiais e distribuição física integram-se para formar o que se chama hoje de logística empresarial. Muitas companhias desenvolveram novos organogramas para melhor tratar das atividades de suprimento e distribuição, frequentemente dando status de alta administração para a função, ao lado de marketing e produção. O tempo da logística empresarial está chegando e uma nova ordem das coisas está começando. QUESTÕES E PROBLEMAS 1. Identifique as atividades que perfazem a logística empresarial. Relacione cada atividade com as operações das seguintes organizações: a. General Motors (fabricante de automóveis); b. Hospital Brentwood (cirurgia geral); c. McDonald's (franquia de fast-food); d. Sears, Roebuck and Co. (cadeia de lojas de departamentos). 2. A partir do exemplo da pesca, processamento e distribuição do camarão, faça um diagrama mostrando o movimento do produto desde o mar até a mesa de jantar. Indique quais partes são responsabilidade da logística, em qual momento da jornada é mais provável a ocorrência de deterioração e corno você aperfeiçoaria o manuseio. 3. Qual a influência dos seguintes fatores na logística empresarial? a. Aumento da variedade de produtos. Capitulo 1 – p.17- Ballou – logística empresarial: transportes/administração de materiais/distribuição física. São Paulo, Atlas, 2011 18 b. Mudança da distribuição populacional. c. Avanços na pesquisa operacional e na informática. d. Experiência na área militar. 4. Suponha que um fabricante de camisas para homens possa produzir uma camisa, que vale $ 15 cada uma, na sua confecção em Houston, Texas, a um custo de matérias $ 8/camisa (incluindo matérias-primas). Chicago é o maior mercado, consumindo 100.000 camisas/ano. Custos de transporte e armazenagem de Houston para Chicago a $ 5 para cada 100 libras (cwt). Cada camisa embalada pesa l libra. Como alternativa a companhia pode produzi-las em Formosa a um custo de $ 4/camisa (incluindo matérias-primas). As matérias-primas podem ser transportadas de Houston para Formosa a um custo de $2 por cwt. Assim que forem fabricadas, elas devem ser embarcadas diretamente para Chicago, com custo de transporte e armazenagem de $ 6/cwt. Uma taxa de importação de $ 0,50 por camisa deve ser considerada no planejamento. Do ponto de vista da logística/produção/custos, as camisas devem ser produzidas em Formosa? 5. Afirmou-se que o objetivo da logística empresarial é pôr “os bens ou serviços certos no lugar certo, na hora certa e na condição correta a custo razoável". Quais tipos de problemas você prevê para organizações que tentem atingir esse objetivo? 6. Que são atividades de interface e como elas diferem das atividades logísticas principais? 7. Resuma porque a logística empresaril é considerada tópico vital para estudo. 8. Descreva a diferença entre administração de materiais, distribuição física e logística empresarial. 9. Como o transporte contribui para adicionar valor de “lugar” a produtos ou serviços? Como o estoque adiciona valor de “tempo” a produtos ou serviços?