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UNIVERSIDADE PAULISTA DE RIBEIRÃO PRETO FACULDADE DE DIREITO CURSO DE BACHARELADO EM CIÊNCIA JURÍDICAS APS – PRESCRIÇÃO, DECADÊNCIA E PROVAS Ribeirão Preto 2015 UNIVERSIDADE PAULISTA DE RIBEIRÃO PRETO TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 2 FACULDADE DE DIREITO CURSO DE BACHARELADO EM CIÊNCIA JURIDICAS APS – PRESCRIÇÃO, DECADÊNCIA E PROVAS Trabalho apresentado a Universidade Paulista – Unip, como parte das atividades da disciplina: Teoria Geral do Direito Civil. Professor avaliador ______________________________ Ribeirão Preto/SP 2015 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 3 INDICE INTRODUÇÃO 4 CONCEITO DE PRESCRIÇÃO 5 ESPÉCIES DE PRESCRIÇÃO 7 REQUISITOS DA PRESCRIÇÃO 7 ALEGAÇÃO DA PRESCRIÇÃO 8 PRAZOS DE PRESCRIÇÃO 9 PRAZOS PRESCRICIONAIS EM MATÉRIA DE DIREITO INTERTEMPORAL 14 SUSPENSÃO OU IMPEDIMENTOS DA PRESCRIÇÃO 15 INTERRUPÇÃO DA PRESCRIÇÃO 18 PRESCRIÇÃO DE DÍVIDA PÚBLICA 22 RENÚNCIA 23 DECADÊNCIA 24 EFEITOS 26 PRAZOS DE DECADÊNCIA 27 DISTINÇÃO ENTRE PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA 29 PROVA 33 MEIOS DE PROVA 34 DOCUMENTO 36 TESTEMUNHA 37 PRESUNÇÕES 38 PERÍCIA 40 BIBLIOGRAFIA 44 PERIÓDICOS E SITES 45 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 4 INTRODUÇÃO Desde a concepção do ser humano o tempo influi nas relações jurídicas de que o indivíduo participa. É ele o personagem principal do instituto da prescrição. Nesse campo, a interferência desse elemento é substancial, pois existe interesse da sociedade em atribuir juridicidade àquelas situações que se prolongaram no tempo1 O tempo é um fato jurídico natural de enorme importância nas relações jurídicas travadas na sociedade, uma vez que tem grandes repercussões no nascimento, exercício e extinção de direitos. O decurso de certo lapso temporal no exercício de determinadas faculdades jurídicas pode ser o fato gerador da aquisição de direitos, como, por exemplo, no usucapião, em que a posse mansa e pacífica — ainda que sem boa-fé — possibilita a aquisição da propriedade móvel ou imóvel. Além disso, o tempo tem força modificativa, a exemplo do que ocorre na teoria das capacidades. Com o passar dos anos, modificamos a nossa situação jurídica individual: partimos da absoluta incapacidade para a prática dos atos da vida civil (abaixo dos dezesseis anos), avançamos para a fase intermediária da incapacidade relativa (entre dezesseis e dezoito anos), e, finalmente, atingimos a plena capacidade civil ao atingirmos a maioridade (dezoito anos)2. O maior fundamento da existência do próprio direito é a garantia de pacificação social. De fato, ao fazermos tal afirmação, temos em mente a ideia de que o ordenamento jurídico deve buscar prever, na medida do possível, a disciplina das relações sociais, para que todos saibam — ou tenham a expectativa de saber — como devem se portar para o atendimento das finalidades — negociais ou não — que pretendam atingir. Por isso, não é razoável, para a preservação do sentido de estabilidade social e segurança jurídica, que sejam estabelecidas relações jurídicas perpétuas, que podem obrigar, sem limitação temporal, outros sujeitos, à mercê do titular. Ademais, a existência de prazo para o exercício de direitos e pretensões é uma forma de disciplinar a conduta social, sancionando aqueles titulares que se mantêm inertes, ou seja, o titular do direito não pode ficar inerte aos seus direitos. 1 Francisco Amaral, Direito civil, p. 555; Silvio Rodrigues, Direito civil, v. 1, p. 323. t. 3, p. 633. 2 Pablo Stolze Gagliano; Rodolfo Pamplona Filho, Novo Curso De Direito Civil 1, Editora Saraiva, São Paulo, 14ª edição, pg 444 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 5 Segundo Cunha Gonçalves, a prescrição é indispensável à estabilidade e consolidação de todos os direitos; sem ela, nada seria permanente; o proprietário jamais estaria seguro de seus direitos, e o devedor livre de pagar duas vezes a mesma dívida3 CONCEITO DE PRESCRIÇÃO Com o intuito de indicar que não se trata de um direito subjetivo público abstrato de ação, o atual Código Civil adotou a tese da prescrição da pretensão. De acordo com o art. 189 do CC, violado um direito, nasce para o seu titular uma pretensão, que pode ser extinta pela prescrição. A prescrição é a perda da pretensão de reparação do direito violado, em virtude da inércia do seu titular, no prazo previsto pela lei4. Se o titular do direito permanecer inerte, tem como pena a perda da pretensão que teria por via judicial. Repise-se que a prescrição constitui um benefício a favor do devedor, pela aplicação da regra de que o direito não socorre aqueles que dormem, diante da necessidade do mínimo de segurança jurídica nas relações negociais. Neste caso, a obrigação jurídica prescrita converte-se em obrigação natural, que é aquela “que não confere o direito de exigir seu cumprimento, mas, se cumprida espontaneamente, autoriza a retenção do que foi pago”5 O pensamento de CARVALHO SANTOS: “Tal prescrição pode definir-se como sendo um modo de extinguir os direitos pela perda da ação que os assegurava, devido à inércia do credor durante um decurso de tempo determinado pela lei e que só produz seus efeitos, em regra, quando invocada por quem dela se aproveita”6 No entanto, no pensamento de alguns doutrinadores, o direito de ação, ou seja, o direito de pedir ao Estado um provimento jurisdicional que ponha fim ao litígio, é sempre público, abstrato, de natureza essencialmente processual e indisponível. Não importando se o autor possui ou não razão, isto é, se detém ou não o direito subjetivo que alega ter, a ordem jurídica sempre lhe conferirá o legítimo direito de ação, e terá, à luz do princípio da inafastabilidade, inviolável direito a uma sentença. 3 Tratado de direito civil, t. 3, p. 633., p. 16. 4 CC-02: “Art. 189. Violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue, pela prescrição, nos prazos a que se referem os arts. 205 e 206”. 5 Sérgio Carlos Covello, A Obrigação Natural — Elementos para uma Possível Teoria, São Paulo: LEUD, 1996, p. 71-2. 6 M. de Carvalho Santos, Código Civil Brasileiro Interpretado — Parte Geral, Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1950, v. III, p. 371. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 6 Por isso, não se pode dizer que a prescrição ataca a ação! A prescrição não atinge o direito de ação — que sempre existirá —, mas, sim, a pretensão que surge do direito material violado. Na doutrina nacional, alguns autores, como Maria Helena Diniz (Curso..., 2007, v. 1, p. 383) e Sílvio de Salvo Venosa (Direito civil..., 2005, p. 595, v. 1), ainda conceituam a prescrição extintiva como sendo a perda do direito de ação ou da própria ação, tese antiga de Clóvis Beviláqua e com a qual não há como concordar, principalmente com a emergência da codificação de 2002. O escritor MIGUEL REALE, com sabedoria, pontifica: “Ainda a propósito da prescrição, há problema terminológico digno de especial ressalte. Trata-se de saber se prescreve a ação ou a pretensão. Após amadurecidos estudos, preferiu-se a segunda solução, por ser considerada a mais condizente com o Direito Processual contemporâneo, que de há muito superou a teoria da ação como simples projeção de direitos subjetivos”7 Camara Leal aponta quatro elementosintegrantes ou condições elementares da prescrição: a) existência de uma ação exercitável (actio nata); b) inércia do titular da ação pelo seu não exercício; c) continuidade dessa inércia durante um certo lapso de tempo; d) ausência de algum fato ou ato a que a lei atribua eficácia impeditiva, suspensiva ou interruptiva do curso prescricional8. O primeiro elemento, todavia, deve ser atualizado, tendo em vista que a moderna doutrina e o novo Código Civil exigem não uma ação exercitável, mas uma pretensão. E o último não constitui propriamente elemento conceitual da prescrição, implicando apenas na não tipificação ou em mera forma alternativa de contagem do prazo9. O que se entende por pretensão? Pretensão é a expressão utilizada para caracterizar o poder de exigir de outrem coercitivamente o cumprimento de um dever jurídico, vale dizer, é o poder de exigir a submissão de um interesse subordinado (do devedor da prestação) a um interesse subordinante (do credor da prestação) amparado pelo ordenamento jurídico. Um exemplo irá tornar claro o pensamento. Joaquim (credor) é titular de um direito de crédito em face de Fabrício (devedor). Nos termos do contrato pactuado, Caio teria direito ao pagamento de 100 reais, no dia 1.º de janeiro de 2002 (dia do vencimento). Firmado o contrato no dia 10 de dezembro de 2001, Caio já dispõe do crédito, posto somente seja exigível no dia do vencimento. Observe, pois, que o direito de crédito nasce com a realização do contrato, em 10 de dezembro. No dia do 7 Miguel Reale, O Projeto do Novo Código Civil, 2. ed., São Paulo: Saraiva, 1999, p. 68. 8 Gonçalves, Carlos Roberto, Direito Civil Brasileiro Vol I, 10 Ed. São Paulo – Editora Saraiva, 2012, pg 1182 9 Renan Lotufo, Código Civil comentado, p. 189. Caio Mário da Silva Pereira, , Instituições de Direito Civil, v. 1, p. 439. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 7 vencimento, para a surpresa de Caio, o devedor nega-se a cumprir a sua obrigação. Torna-se, portanto, inadimplente, violando o direito patrimonial de Caio de obter a satisfação do seu crédito. Neste exato momento, portanto, violado o direito, surge para o credor a legítima pretensão de poder exigir, judicialmente, que o devedor cumpra a prestação assumida. Esta pretensão, por sua vez, quedará prescrita, se não for exercida no prazo legalmente estipulado para o seu exercício (dez anos, no Novo Código Civil — art. 205; vinte anos, no Código de 1916 — art. 177).10 Observando que o objeto da prescrição extintiva é a pretensão, e não o direito de ação em si, que sempre existirá, mesmo depois de decorrido o prazo prescricional estabelecido em lei. No entanto, mesmo que o direito em si permaneça, ele não ficou com a proteção jurídica para solucioná-lo, por isso que se pagar uma divida prescrita, a pessoa não pode pedir o ressarcimento dos valores só porque estava prescrita, ele continuava devedor, só que o credor tinha perdido o tempo hábil para cobrar a dívida. Hoje, no entanto, predomina o entendimento, na moderna doutrina, de que a prescrição extingue a pretensão, que é a exigência de subordinação de um interesse alheio ao interesse próprio. O direito material, violado, dá origem à pretensão (CC, art. 189), que é deduzida em juízo por meio da ação. Extinta a pretensão, não há ação. Portanto, a prescrição extingue a pretensão, atingindo também a ação. O instituto que extingue somente a ação (conservando o direito material e a pretensão, que só podem ser opostos em defesa) é a perempção. Registre-se que os “relativamente incapazes e as pessoas jurídicas têm ação contra os seus assistentes ou representantes legais, que derem causa à prescrição, ou não a alegarem oportunamente” (art. 195 do CC-02), regra que também é aplicável para a decadência, por força do art. 208 do CC-02. Tal preceito destaca a importância dos institutos — e de sua arguição em juízo —, uma vez que podem ensejar ações de responsabilização civil por perdas de chance. ESPÉCIES DE PRESCRIÇÃO REQUISITOS DA PRESCRIÇÃO Pode-se dizer, pois, que a prescrição tem como requisitos: a) a violação do direito, com o nascimento da pretensão; b) a inércia do titular; c) o decurso do tempo fixado em lei. Camara Leal define que para que se configure a prescrição, imprescindível será a ocorrência de quatro requisitos. 10 Pablo Stolze Gagliano; Rodolfo Pamplona Filho, Novo Curso De Direito Civil 1, Op. Cit. Pg 477 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 8 1) Existência de uma pretensão, que possa ser em juízo alegada por meio de uma ação exercitável, que é seu objeto, em virtude da violação do direito, que ela tem por fim remover. Deveras, violado o direito pessoal ou real nasce a pretensão (ação em sentido material) contra o sujeito passivo; com a recusa deste em atender a pretensão, nasce a ação processual, com a qual se provoca a intervenção estatal, que prescreverá se o interessado não a mover. 2) Inércia do titular da ação ( em sentido material) pelo seu não exercício, que é sua causa eficiente, mantendo-se em passividade ante a violação que sofreu em seu direito, deixando que ela permaneça. Cessa tal inércia no momento em que o titular ajuizar uma ação pedindo ao órgão judiciário o restabelecimento de seu direito, impondo ao infrator a reparação de perdas e danos. 3) Continuidade dessa inércia durante um certo lapso de tempo, que é o seu fator operante, pois o que a norma jurídica pretende punir é a inércia prolongada e não a passageira. Para a consumação da prescrição exige-se inércia continuada, sem qualquer interrupção, durante todo o tempo previsto em lei para o exercício da ação. O código Civil fixa, no art. 205, o prazo prescricional de 10 anos para os caso em que a lei não fixou prazo menor e prazos especiais para as diversas ações no art. 206. Não havendo prazo especial, a ação submete-se ao prazo geral, segundo sua natureza pessoal ou real. Salvo casos expressamente previsto em lei. 4) Ausência de algum fato ou ato a que a lei confere eficácia impeditiva, suspensiva ou interruptiva de curso prescricional, que é o seu fator neutralizante. ALEGAÇÃO DA PRESCRIÇÃO Dispõe o art. 193 da codificação vigente que a prescrição pode ser alegada em qualquer grau de jurisdição, pela parte a quem aproveita (o devedor ou qualquer interessado). Ilustrando, a prescrição pode ser alegada em sede de apelação, ainda que não alegada em contestação: “Direitos civil e processual civil. Prescrição. Espécie extintiva. Alegação. Apelação. Possibilidade. Art. 162, CC. Silêncio em contestação. Irrelevância. Precedentes. Recurso especial. Enunciado n. 7 da Súmula/STJ. Recurso desacolhido. I – A prescrição extintiva pode ser alegada em qualquer fase do processo, nas instâncias ordinárias, mesmo que não tenha sido deduzida na fase própria de defesa ou na inicial dos embargos à execução. II – A pretensão recursal, que depende do reexame de documentos apresentados nas instâncias ordinárias, não comporta análise nesta Corte, a teor do TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 9 Enunciado n. 7 de sua Súmula” (STJ, REsp 157.840/SP, Rel. Min. Sálvio de Figueiredo Teixeira, 4.ª Turma, j. 16.05.2000, DJ 07.08.2000, p. 109). Em complemento, anote-se que, em recente julgado envolvendo o Direito Tributário, concluiu o STJ que a prescrição pode ser conhecida de ofício em qualquer grau de jurisdição, por envolver matéria de ordem pública, não havendo supressão de instância(STJ, Ag Rg-REsp 1.176.688/RJ, 1.ª Turma, Rel. Min. Luiz Fux, j. 10.08.2010, DJE13.10.2010). PRAZOS DE PRESCRIÇÃO Quanto à contagem do prazo prescricional, é o teor do Enunciado n. 14 do CJF/STJ, aprovado na I Jornada de Direito Civil, realizada em setembro de 2002: “Art. 189: 1) o início do prazo prescricional ocorre com o surgimento da pretensão, que decorre da exigibilidade do direito subjetivo; 2) o art. 189 diz respeito a casos em que a pretensão nasce imediatamente após a violação do direito absoluto ou da obrigação de não fazer”. A doutrina majoritária sempre foi favorável ao que refere o enunciado, sendo certo que os parâmetros que nele constam devem ser aplicados para o início da contagem dos prazos prescricionais. A título de exemplo, pode-se apontar: – No caso de uma dívida a termo, a prescrição tem início quando ela não é paga (vencimento + inadimplemento). – No caso de um ato ilícito, a prescrição tem início quando ocorre o evento danoso. Todavia, esses parâmetros de início da contagem do prazo prescricional – a partir da violação do direito subjetivo – vêm sendo contestados jurisprudencialmente. Isso porque cresce na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça a adoção à teoria da actio nata, pela qual o prazo deve ter início a partir do conhecimento da violação ou lesão ao direito subjetivo. Realmente, a tese é mais justa, diante do princípio da boa-fé11. Seguindo nas concretizações práticas, a teoria da actio nata é abstraída da conclusão de que, no caso de falecimento de pessoa da família, o início do prazo prescricional para que os parentes promovam a demanda reparatória se dá com o falecimento do ente querido. Assim: “O termo inicial da contagem do prazo prescricional na hipótese em que se pleiteia indenização por danos 11 Flávio Tartuce. – 10. ed. rev., atual. e ampl. – Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2014. Pg 1095 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 10 morais e/ ou materiais decorrentes do falecimento de ente querido é a data do óbito, independentemente da data da ação ou omissão. Não é possível considerar que a pretensão à indenização em decorrência da morte nasça antes do evento que lhe deu causa” (STJ, REsp 1.318.825/SE, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 13.11.2012, publicado no seu Informativo n. 509). Em sede legislativa, a teoria foi adotada pelo art. 27 do Código de Defesa do Consumidor, pelo qual, havendo acidente de consumo, o prazo prescricional de cinco anos tem início do conhecimento do dano e de sua autoria. Pois bem, o art. 190 do CC/2002 traz novidade, prevendo que a exceção prescreve no mesmo prazo em que a pretensão. A exceção é vista como um contra direito frente à pretensão, geralmente com o fim de negá-la ou de afastar o seu cumprimento (LARENZ, Karl. Derecho Civil..., p. 321). Como é notório, os prazos de prescrição não podem ser alterados por acordo das partes, outra inovação que consta do art. 192 do CC/2002. Questão controvertida na doutrina fora dirimida pelo Novo Código Civil: a possibilidade de alteração convencional dos prazos prescricionais. “Problema que, por outro lado, desperta a atenção dos juristas”, observa CAIO MÁRIO DA SILVA PEREIRA, “é o que se contém na indagação se é possível a alteração dos prazos prescricionais. Atentando na circunstância de envolverem um interesse de ordem pública, entende-se que é ilícita a sua extensão convencional, sob fundamento de que envolveria uma renúncia antecipada, e, como a lei a proíbe, veda também o alongamento do prazo. Tem-se discutido a validade da cláusula que o restringe, admitindo-se a sua eficácia, por implicar a mais rápida liberação do devedor”12 Nesse ponto, talvez pelo fato de a prescrição somente poder ser fixada por lei (ao contrário da decadência, que admite a delimitação pela via negocial), os “prazos de prescrição não podem ser alterados por acordo das partes”, conforme preceitua o art. 192, que pôs fim à controvérsia. SOBRE O PRAZO EM SI. O prazo da prescrição, como se sabe, é o espaço de tempo que decorre entre seu termo inicial e final. Ao contrário da codificação anterior, o Código Civil de 2002 optou por um critério simplificado de 10 anos para o prazo prescricional geral, tanto para as ações pessoais como para as reais, salvo quando a lei lhe tenha fixado prazo menor (art. 205 do CC). Assim, os prazos de prescrição recebem a seguinte classificação: 12 Caio Mário da Silva Pereira, Instituições de Direito Civil, 19, Ed., Rio de Janeiro: forense, 2001, p. 445 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 11 a) Prazo ordinário ou comum – quando não houver previsão de prazo especial, tem-se o prazo prescricional de 10 anos, tanto para as ações pessoais quanto reais. b) Prazos especiais – prazos mais exíguos para possibilitar o exercício de certos direitos subjetivos, em situações especiais – art. 206, §§ 1.° a 5.°, do CC. Os prazos de prescrição, no Código Civil de 2002, estão todos previstos no citado art. 206 e são de 1, 2, 3, 4 ou 5 anos, de acordo com o número do parágrafo correspondente. Vários doutrinadores classificam o tempo conforme os artigos 206, seguiremos aqui a linha de racícionio de Maria Helena Diniz que explica: I) Prescrevem em 1 ano: 1) “I — a pretensão dos hospedeiros ou fornecedores de víveres destinados a consumo no próprio estabelecimento, para o pagamento da hospedagem ou dos alimentos; 2) As pretensões decorrentes do contrato de seguro (CC, Art 206 § 1º, Ii, a e b) sejam, elas do segurado contra o segurador, ou as deste contra aquele, contado o prazo: a) para o segurado, no caso de seguro de responsabilidade civil, da data em que é citado para responder à ação de indenização proposta pelo terceiro prejudicado, ou da daa que a este indeniza, com a anuência do segurador; b) quantos aos demais seguros, da ciência do fato gerador da pretensão. 3) A pretensão dos tabeliães, auxiliares da justiça, serventuários judiciais, árbitros e peritos, pela percepção de emolumentos, custas e honorários. 4) A pretensão contra os peritos, pela avaliação dos bens que entraram para a formação do capital de sociedade anônima, contado da publicação da ata da assembleia que aprovar o laudo. 5) a pretensão dos credores não pagos contra os sócios ou acionistas e os liquidantes, contado o prazo da publicação da ata de encerramento da liquidação da sociedade. II) Prescreve em 2 (dois) anos a pretensão para haver prestações alimentares já fixadas, a partir da data em que se vencerem. Esclareça-se que a ação de alimentos em si não está sujeita à prescrição ou à decadência. Apenas prescrevem em dois anos os valores fixados em sentença ou em acordo, a partir dos respectivos vencimentos (prescrição parcial ou parcelar). Sobre o tema, esclarece Nestor Duarte que, “quando o direito se dividir em cotas periódicas, distingue-se a prescrição nuclear, ou de fundo de direito, da prescrição parcelar” (DUARTE, Nestor. Código Civil Comentado.... 4. ed., TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 12 2010, p. 144). A primeira atinge toda a pretensão; a segunda, apenas parcelas relativas ao direito subjetivo.13 III) Prescrevem em 3 (três) anos: 1) A pretensão relativa a aluguéis de prédios urbanos ou rústicos. 2) A pretensão para receber prestações vencidas de rendas temporárias ou vitalícias. 3) A pretensão para haver juros, dividendos ou quaisquer prestações acessórias, pagáveis, em períodos não maiores de umano, com capitalização ou sem ela. 4) A pretensão de ressarcimento de enriquecimento sem causa. 5) A pretensão de reparação civil – prazo este que era de vinte anos, aplicando-se a regra geral do Código de 1916 pela ausência de norma específica, e alterou a sistemática da matéria de responsabilidade civil, conforme tópico que ainda será discutido. Pelo tratamento específico que consta do atual Código, deve-se entender que estão canceladas as seguintes súmulas: Súmula n. 39 do STJ – “Prescreve em vinte anos a ação para haver indenização, por responsabilidade civil, de sociedade de economia mista”; Súmula n. 143 do STJ – “Prescreve em cinco anos a ação de perdas e danos pelo uso de marca comercial” e Súmula n. 22 do 1.° TACSP – “Prescreve em cinco anos as ações de indenização decorrentes de acidente ferroviário propostos contra a Ferrovia Paulista S/A”. Para todos esses casos, deverá ser aplicado o novo prazo legal de três anos, eis que as hipóteses anteriores tratavam de reparação civil. A questão não é pacífica, uma vez que julgados do STJ concluem pela aplicação de outros prazos especificados em outros preceitos e não no comando em análise, em havendo a citada responsabilidade civil contratual. Assim, aplicando o prazo de geral de dez anos do art. 205 do CC: STJ, REsp. 1.176.320/RS, Rel. Min. Sidnei Beneti, Terceira Turma, j. 19.02.2013,DJe 26.02.2013; REsp 1.222.423/SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, j. 15.09.2011, DJe 01.02.2012; e REsp 1.276.311/RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, j. 20.09.2011, DJe 17.10.2011. Esta última parece a melhor solução, especialmente quando a responsabilidade civil contratual envolver a tutela de vulneráveis, como consumidores e aderentes. Relativamente às ações de responsabilidade civil decorrentes de acidente de trabalho, filia-se à corrente segundo a qual continua em vigor o prazo prescricional de cinco anos, previsto para o trabalhador urbano ou o rural (art. 7.°, XXIX, da CF/1988), prazo esse que é mais favorável ao trabalhador-vulnerável. Nessa linha de conclusão, o preciso Enunciado n. 420 do CJF/STJ, da V Jornada de Direito Civil: “Não se aplica o art. 206, § 3.°, V, do Código Civil às pretensões indenizatórias decorrentes de acidente de 13 Flávio Taturce, Op CIt, p 1142 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 13 trabalho, após a vigência da Emenda Constitucional n. 45, incidindo a regra do art. 7.°, XXIX, da Constituição da República”.14 6) A pretensão de restituição dos lucros ou dividendos recebidos de má-fé, correndo o prazo da data em que foi deliberada a distribuição. 7) A pretensão contra as pessoas em seguida indicadas por violação da lei ou do estatuto, contado o prazo: • para os fundadores, da publicação dos atos constitutivos da sociedade anônima; • para os administradores, ou fiscais, da apresentação, aos sócios, do balanço referente ao exercício em que a violação tenha sido praticada, ou da reunião ou assembleia-geral que dela deva tomar conhecimento; • para os liquidantes, da primeira assembleia semestral posterior à violação. 8) A pretensão para haver o pagamento de título de crédito, a contar do vencimento, ressalvadas as disposições de lei especial. Esse dispositivo somente se aplica a títulos de crédito atípicos, aqueles sem previsão legal. Não se aplica ao cheque e à duplicata, por exemplo, que têm tratamento legal específico (art. 903 do CC). 9) A pretensão do beneficiário contra o segurador, e a do terceiro prejudicado, no caso de seguro de responsabilidade civil obrigatório. Aqui se enquadra a cobrança do DPVAT, nos termos da recente Súmula 405 do STJ. Neste artigo temos dois comando: a) terceiro, beneficiário do seguro (por ex. Seguro de vida), como, por exemplo herdeiro indicado, no contrato, por segurado, terá 3 anos para fazer valer sua pretensão contra a seguradora; b) terceiro prejudicado, não beneficiário (por exemplo vítima de acidente de transito), havendo seguro obrigatório de responsabilidade civil, conforme citado acima DPVAT, terá também prazo prescricional de 03 anos para exigir sua pretensão contra a seguradora. A indenização, como ensina Nestor Duarte, será devida, ocorrendo o dano (lesão corporal, falecimento), cujo valor a lei estabelece, bem como o procedimento administrativo para seu recebimento (Lei n. 8.441/92) IV) Prescreve em 4 (quatro) anos a pretensão relativa à tutela, a contar da data da aprovação das contas. V) Prescrevem em 5 (cinco) anos: 1) A pretensão de cobrança de dívidas líquidas constantes de instrumento público ou particular. 2) A pretensão dos profissionais liberais em geral, procuradores judiciais, curadores e professores pelos seus honorários, contado o prazo da conclusão dos serviços, da cessação dos respectivos contratos ou mandato. Como se 14 Ibidem, p. 1146 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 14 nota, em tal previsão se enquadram as cobranças de créditos em benefício dos advogados em geral frente aos seus clientes. 3) A pretensão do vencedor para haver do vencido o que despendeu em juízo. 4) A ação para reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço, contado o prazo da data do conhecimento do prejuízo e de sua autoria (Lei n. 8.078/90, ARts 27, 12 a 17). 5) A pretensão para o trabalhador urbano quanto aos créditos resultantes das relações de trabalho, até o limite de dois anos após a extinção do contrato (CLT, Art 11, I). Vale registrar que o prazo do Art 205 somente é aplicável no silêncio de previsão específica, seja no supratranscrito art 206, seja na legislação especial. PRAZOS PRESCRICIONAIS EM MATÉRIA DE DIREITO INTERTEMPORAL Quanto aos prazos de prescrição cuja contagem se iniciou na vigência do Código Civil de 1916, aplica-se a regra de direito intertemporal constante do art. 2.028 da atual codificação, a saber: “Art. 2.028. Serão os da lei anterior os prazos, quando reduzidos por este Código, e se, na data de sua entrada em vigor, já houver transcorrido mais da metade do tempo estabelecido na lei revogada”. Parece-nos importante tratar da questão dos prazos prescricionais em matéria de Direito Intertemporal, quando há conflito de normas jurídicas no tempo, fixando prazos distintos. O art. 6.º da LINDB estabelece que “a lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada”. Assim, dois princípios básicos podem ser enunciados sobre o tema: 1) Imediatidade dos efeitos da lei; 2) Irretroatividade da nova regra legal. Quando uma nova lei entra em vigor, três situações jurídicas bem distintas podem ocorrer: 1) Pretéritas — iniciadas e terminadas antes da vigência da nova lei; 2) Pendentes — iniciadas antes da vigência da lei; 3) Futuras — iniciadas após a vigência da lei nova e ainda não concluídas. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 15 Em relação às situações pretéritas, nenhuma dificuldade há de se colocar, uma vez que se trata de uma situação jurídica consolidada. No caso das situações futuras stricto sensu, a questão é ainda mais fácil, pois simplesmente aplicar-se-á a nova regra prescricional, sem qualquer maior questionamento. A situação, porém, é mais complexa em relação às situações jurídicas pendentes (facta pendentia), nas quais se incluem as situações futuras ainda não concluídas quando da edição da nova norma. No caso de uma nova lei não estabelecer regras de transição, o escritorWILSON DE SOUZA CAMPOS BATALHA15 inspirado nas diretrizes do Código Civil alemão, aponta alguns critérios: I — Se a lei nova aumenta o prazo de prescrição ou de decadência, aplica-se o novo prazo, computando-se o tempo decorrido na vigência da lei antiga; II — Se a lei nova reduz o prazo de prescrição ou decadência, há que se distinguir: a) se o prazo maior da lei antiga se escoar antes de findar o prazo menor estabelecido pela lei nova, adota-se o prazo da lei anterior; b) se o prazo menor da lei nova se consumar antes de terminado o prazo maior previsto pela lei anterior, aplica-se o prazo da lei nova, contando- se o prazo a partir da vigência desta. SUSPENSÃO OU IMPEDIMENTOS DA PRESCRIÇÃO A priori, não há diferença ontológica entre impedimento e suspensão da prescrição, pois ambas são formas de paralisação do prazo prescricional. A sua diferença fática é quanto ao termo inicial, pois, no impedimento, o prazo nem chegou a correr, enquanto na suspensão, o prazo, já fluindo, “congela-se”, enquanto pendente a causa suspensiva. As causas impeditivas estão arroladas no arts. 197, I a III, 198, I, e 199, I e II, do Código Civil, que se fundam no status da pessoa, individual ou familiar, 15 Wilson de Souza Campos Batalha, Lei de Introdução ao Código Civil, São Paulo: Max Limonad, 1957, v. 1, t. 1, p. 229 e s. Pablo Stolze Gagliano, Op cit, p. 1301 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 16 atendendo a razões de confiança, parentesco, amizade e motivos de ordem moral16. Assim, dispõe o art. 197 que não corre prescrição “entre os cônjuges na constância da sociedade conjugal” (inc. I). Se o prazo ainda não começou a fluir, a causa ou obstáculo (no caso, a constância da sociedade conjugal) impede que comece. Se, entretanto, o obstáculo (casamento) surge após o prazo ter se iniciado, dá-se a suspensão. Nesse caso, somam-se os períodos, isto é, cessada a causa de suspensão temporária, o lapso prescricional volta a fluir somente pelo tempo restante. Diferentemente da interrupção, que será estudada adiante, em que o período já decorrido é inutilizado e o prazo volta a correr novamente por inteiro. A justificativa para a suspensão da prescrição está na consideração legal de que certas pessoas, por sua condição ou pela situação em que se encontram, estão impedidas de agir. Assim, o art. 197 declara: “Não corre a prescrição: I - entre os cônjuges, na constância da sociedade conjugal; II - entre ascendentes e descendentes, durante o poder familiar; III - entre tutelados ou curatelados e seus tutores ou curadores, durante a tutela ou curatela”. O motivo, nos três casos, é a confiança, a amizade, os laços de afeição que existem entre as partes. O rol do dispositivo retrotranscrito é taxativo, não admitindo interpretação extensiva. Tendo em vista que a prescrição é instituto de ordem pública, a benesse é restrita às hipóteses legais. Exemplificando: João é credor de Maria de uma dívida já vencida e exigível, constante em instrumento público ou particular, estando em curso o prazo prescricional (para se formular a pretensão condenatória, via ação de cobrança) de cinco anos (na forma do art. 206, § 5.º, do CC-02; no CC-16, o prazo era o geral de vinte anos). Dois anos após a data do vencimento da dívida, contraem matrimônio, por força do qual o prazo prescricional ficará suspenso até a dissolução da sociedade conjugal. No caso, decretada a separação judicial do casal, o prazo prescricional (suspenso durante o tempo de convivência conjugal) continuará a correr, computados os dois anos transcorridos, até que o credor atue ou seja atingido o limite máximo da prescrição. O matrimônio, no caso, atuou como uma causa suspensiva da prescrição. Se, todavia, Maria, respeitado o regime de separação de bens, 16 Maria Helena Diniz, Curso de Direito Civil Brasileiro, 17. ed., São Paulo: Saraiva, 2001, v. 1, p. 271 P. 438 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 17 contrai a dívida perante João, no curso do casamento, o prazo prescricional ficará impedido de correr até a dissolução da sociedade conjugal17. Diante da proteção constitucional da união estável (art. 226 da CF/1988), na IV Jornada de Direito Civil, foi aprovado o Enunciado n. 296 do CJF/STJ prevendo que “Não corre a prescrição entre os companheiros, na constância da união estável”. Tal conclusão já foi aplicada pela jurisprudência nacional, contando com o apoio deste autor (TJMG, Apelação Cível 1.0702.08.432531- 6/0011, Uberlândia, 13.ª Câmara Cível, Rel. Des. Luiz Carlos Gomes da Mata, j. 04.06.2009, DJEMG 29.06.2009)18. O mesmo raciocínio é aplicado entre ascendentes e descendentes, durante o poder familiar (expressão que substitui o superado “pátrio poder”), e entre tutelados e curatelados e seus tutores e curadores, durante a tutela ou curatela. Outros casos de suspensão foram criados por leis especiais (cf. art. 440 da CLT; art. 6º da Lei de Falências etc.). A jurisprudência admite a suspensão da prescrição em caso de obstáculo judicial, como greve dos servidores etc. Art. 198. Também não corre a prescrição: I — contra os incapazes de que trata o art. 3.º; II — contra os ausentes do País em serviço público da União, dos Estados ou dos Municípios; III — contra os que se acharem servindo nas Forças Armadas, em tempo de guerra. Art. 199. Não corre igualmente a prescrição: I — pendendo condição suspensiva; II — não estando vencido o prazo; III — pendendo ação de evicção”. Da mesma forma, não corre a prescrição contra os absolutamente incapazes, os ausentes do País em serviço público da União, dos Estados e dos Municípios, e os que se acharem servindo nas Forças Armadas, em tempo de guerra. Note-se que, dado o interesse público envolvido, a prescrição não corre contra essas pessoas, embora possa correr a favor. Assim, se o credor ausentou-se do País para prestar serviços em uma embaixada brasileira em Islamabad, por exemplo, o prazo prescricional ficará suspenso até o seu retorno. Por outro lado, se o ausente for o devedor, a prescrição corre a seu 17 Pablo Stolze Gagliano; Rodolfo Pamplona Filho, Op. Cit. Pg 457 18 Flávio Tartuce. – 10. , Cit. Pg 1118 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 18 favor, de maneira que, durante o período em que estiver fora, o prazo fluirá normalmente. Um dado importantíssimo, de grandes consequências práticas, é a novel regra do art. 200 do CC-02, que assim dispõe: “Art. 200. Quando a ação se originar de fato que deva ser apurado no juízo criminal, não correrá a prescrição antes da respectiva sentença definitiva”. Com efeito, muitas vezes, determinados fatos geram repercussões tanto no juízo civil, quanto no criminal, correndo processos simultaneamente que poderiam gerar, inclusive, sentenças contraditórias, caso a sentença civil seja prolatada antes da penal. Por fim, saliente-se que a suspensão da prescrição em favor de um dos credores solidários somente aproveitará aos outros se a obrigação for indivisível, consoante já disciplinava o art. 171 do CC-16, cuja regra vem repetida no art. 201 do CC-02: “Art. 201. Suspensa a prescrição em favor de um dos credores solidários, só aproveitam os outros se a obrigação for indivisível”. Assim, se Caio, Tício e Tácito são credores solidários de Xerxes (devedor), de uma quantia de trezentos reais, verificada uma causa suspensiva em face de algum deles (ex.: Caio ausentou-sedo país, em serviço público da União), só restará suspenso o prazo prescricional em favor do beneficiário direto da suspensão, uma vez que se trata de obrigação divisível (prestação de dar dinheiro). Contra os outros credores, o prazo prescricional fluirá normalmente. Diferentemente, se o objeto da obrigação for indivisível (ex.: um cavalo de raça), a suspensão da prescrição em face de um dos credores beneficiará todos os demais. INTERRUPÇÃO DA PRESCRIÇÃO A diferença entre a interrupção e a suspensão da prescrição é que, enquanto na segunda o prazo fica paralisado, na primeira “zera-se” todo o prazo decorrido, recomeçando a contagem “da data do ato que a interrompeu, ou do último ato do processo para a interromper” (parágrafo único do art. 202 do CC-02). Assim, transcorridos dois anos do prazo prescricional para se formular uma pretensão, via ação ordinária de cobrança (prazo máximo de dez anos no CC-02 — vinte anos no CC-16), por exemplo, e verificada posteriormente uma causa interruptiva, todo o lapso temporal recomeça “do zero”. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 19 Uma outra inovação da disciplina legal da prescrição pelo Novo Código Civil diz respeito à interrupção da prescrição, que, agora, somente poderá ocorrer uma única vez. Esta limitação nos parece bastante salutar, no sentido de moralizar a utilização da possibilidade de interrupção, evitando-se abusos generalizáveis e a própria perpetuação da lide. Pois bem, estatui o art. 202, caput, do atual Código Civil que a interrupção da prescrição somente poderá ocorrer uma vez, novidade que traz alguns problemas práticos, conforme será analisado. a) Como primeira hipótese de interrupção (art. 202, inc. I, do CC), esta pode ocorrer “por despacho do juiz, mesmo incompetente, que ordenar a citação, se o interessado a promover no prazo e na forma da lei processual”. De início, é interessante confrontar esse dispositivo, novidade parcial, com o art. 219 do CPC, que preceitua: “A citação válida torna prevento o juízo, induz litispendência e faz litigiosa a coisa; e, ainda quando ordenada por juiz incompetente, constitui em mora o devedor e interrompe a prescrição. § 1.° A interrupção da prescrição retroagirá à data da propositura da ação”. Anote-se que a previsão é mantida pelo projeto de Novo Código de Processo Civil (art. 209 do Substitutivo). Resta a dúvida: há realmente um conflito entre tais normas ou antinomia? O Código Civil de 2002 revogou o Código de Processo Civil? Acredita-se que não. A melhor resposta é dada por Carlos Roberto Gonçalves (Prescrição: questões relevantes e polêmicas. Questões controvertidas..., 2003, v. I), entre os civilistas; e Flávio Luiz Yarshell (A interrupção..., Síntese Jornal, n. 75, p. 13, maio 2003), entre os processualistas. Entendem esses doutrinadores que não houve revogação. Na verdade os dois artigos devem ser interpretados sistematicamente e em complemento. O que se procura fazer é um diálogo de complementaridade entre as duas leis, outra aplicação da festejada tese do diálogo das fontes, de Erik Jayme e Cláudia Lima Marques. A solução, então, é a seguinte: a interrupção dar-se-á com o despacho do juiz (Código Civil), retroagindo essa interrupção ao momento da propositura da ação (Código de Processo Civil). Seguindo a ideia, na V Jornada de Direito Civil aprovou-se enunciado com o seguinte teor: “O art. 202, I, do CC, deve ser interpretado sistematicamente com o art. 219, § 1.°, do CPC, de modo a se entender que o efeito interruptivo da prescrição, produzido pelo despacho que ordena a citação, possui efeito retroativo até a data da propositura da demanda” (Enunciado n. 417). b) O protesto, nas mesmas condições do inciso antecedente (inc. II). TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 20 Trata-se, aqui, da medida cautelar de protesto, prevista nos arts. 867 a 873 do Código de Processo Civil. Pode, pois, o credor, vencendo a sua inércia, valer-se do protesto judicial para dar ciência de seu interesse no cumprimento da obrigação ao devedor, interrompendo, dessa forma, a prescrição. “É o protesto, portanto, ato judicial de comprovação ou documentação de intenção do promovente. Revela- se, por meio dele, o propósito do agente de fazer atuar no mundo jurídico uma pretensão, geralmente, de ordem substancial ou material”19 Por fim, observe que, por expressa disposição de lei, o protesto só terá o condão de interromper o curso do prazo prescricional se o “interessado o promover no prazo e na forma da lei processual”. c) O protesto cambial (inc. III). Trata-se, neste ponto, de uma inovação. De fato, a Lei Codificada anterior, segundo a doutrina, só previa o protesto judicial como causa de interrupção da prescrição (art. 172, II, do CC- 16). O Novo Código Civil, por sua vez, alargando o horizonte de aplicação da norma, admitiu, em regra expressa, o protesto cambial como causa interruptiva, revogando inequivocamente o entendimento anterior já assentado pelo Supremo Tribunal Federal na Súmula 153 (“simples protesto cambiário não interrompe a prescrição”). Em conclusão, e para a boa fixação do tema, cumpre-nos transcrever a precisa definição de RUBENS REQUIÃO: “O protesto constitui precisamente um ato oficial e público que comprova a exigência do cumprimento daquelas obrigações cambiárias, constituindo-se em prova plena”20. Assim, o protesto de uma nota promissória, por exemplo, além de repercutir junto aos coobrigados indiretos da cártula, tem o efeito de interromper o curso do prazo prescricional. d) A quarta modalidade de atos interruptivos da prescrição é a “apresentação do título de crédito em juízo de inventário ou em concurso de credores” (inciso IV). A habilitação do credor em inventário, nos autos da falência ou da insolvência civil, constitui comportamento ativo que demonstra a intenção do titular do direito em interromper a prescrição. 19 Humberto Theodoro Júnior, Curso de Direito Processual Civil, 21. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1998, v. 2, p. 518 20 Rubens Requião, Curso de Direito Comercial, 23. ed., São Paulo: Saraiva, 1998, v. 2, p. 391. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 21 O inciso V do art. 202 declara, ainda, que a prescrição pode ser interrompida por “qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor”. Diante da generalização, inclui-se na hipótese toda manifestação ativa do credor, em especial a propositura de medidas cautelares, notadamente notificações e interpelações. A propositura de ação pauliana, necessária para a cobrança eficaz do crédito, já foi considerada como hábil para interromper a prescrição. e) Por último, dispõe o inciso VI do art. 202 que a prescrição se interrompe por “qualquer ato inequívoco, ainda que extrajudicial, que importe reconhecimento do direito pelo devedor”. Esta é a única hipótese em que a interrupção da prescrição ocorre sem a manifestação volitiva do credor. Incluem-se, nesses atos de reconhecimento da dívida, por exemplo, pagamentos parciais, pedidos de prorrogação do prazo ou de parcelamento, pagamento de juros etc. Ressalte-se que outras causas de interrupção da prescrição são previstas em leis especiais. “A prescrição pode ser interrompida por qualquer interessado” (CC, art. 203), como, por exemplo, o próprio titular do direito em via de prescrição, quem legalmente o represente ou, ainda, terceiro que tenha legítimo interesse (herdeiros do prescribente, seus credores e o fiador do devedor). Os efeitos da prescrição são pessoais. Em consequência,“a interrupção da prescrição por um credor não aproveita aos outros”, assim como aquela promovida contra um devedor, ou seu herdeiro, “não prejudica aos demais coobrigados” (CC, art. 204). Essa regra, porém, admite exceção: a interrupção por um dos credores solidários (solidariedade ativa) aproveita aos outros; assim como a interrupção efetuada contra o devedor solidário envolve os demais e seus herdeiros (solidariedade passiva, em que cada devedor responde pela dívida inteira). A interrupção operada contra um dos herdeiros do devedor solidário não prejudica os outros herdeiros ou devedores (o prazo para estes continuará a correr), a não ser quando se trate de obrigações e direitos indivisíveis. Neste caso, todos os herdeiros ou devedores solidários sofrem os efeitos da interrupção da prescrição, passando a correr contra todos eles o novo prazo prescricional (art. 204, §§ 1º e 2º). Já decidiu o Superior Tribunal de Justiça: “Se o direito em discussão é indivisível, a interrupção da prescrição por um dos credores a todos aproveita”. Por fim, dispõe o § 3º do art. 204 que “a interrupção produzida contra o principal devedor prejudica o fiador”. Como a fiança é contrato acessório, e este segue o destino do principal, se a interrupção for promovida apenas contra o principal devedor ou afiançado, o prazo se restabelece também contra o fiador, que fica, assim, prejudicado. O contrário, entretanto, não é verdadeiro: a TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 22 interrupção operada contra o fiador não prejudica o devedor, pois o principal não acompanha o destino do acessório. Com respeito à retroatividade da lei prescricional, preleciona Camara Leal: “Estabelecendo a nova lei um prazo mais curto de prescrição, essa começará a correr da data da nova lei, salvo se a prescrição iniciada na vigência da lei antiga viesse a completar-se em menos tempo, segundo essa lei, que, nesse caso, continuaria a regê-la, relativamente ao prazo”21 O Código de Defesa do Consumidor, por exemplo, estabeleceu prazo prescricional de cinco anos para as ações pessoais. Os prazos vintenários do Código Civil de 1916 que estavam em curso, referentes a relações de consumo, recomeçaram a correr por cinco anos, a contar da data da nova lei, nos casos em que o tempo faltante era superior. Quando a lei nova estabelece um prazo mais longo de prescrição, a consumação se dará ao final desse novo prazo, “contando-se, porém, para integrá-lo, o tempo já decorrido na vigência da lei antiga”22 Nas “Disposições Transitórias”, o novo Código Civil estabeleceu a seguinte regra: “Serão os da lei anterior os prazos, quando reduzidos por este Código, e se, na data de sua entrada em vigor, já houver transcorrido mais da metade do tempo estabelecido na lei revogada” (art. 2.028). Assim, por exemplo, se quando da entrada em vigor do Código de 2002 já haviam decorrido doze anos para o ajuizamento de uma ação de reparação de danos, continuará valendo o prazo da lei anterior e ainda faltarão oito anos para a consumação da prescrição vintenária. Se, contudo, o prazo decorrido era de apenas oito anos, aplicar-se-á o prazo de três anos estabelecido no art. 206, § 3º, V, do novo diploma, a partir de sua entrada em vigor. PRESCRIÇÃO DE DÍVIDA PÚBLICA Lei nº 7/98 de 03-02-1998 TÍTULO III - Gestão da dívida pública Artigo 14.º - Prescrição da dívida pública 1 — Os créditos correspondentes a juros e a rendas perpétuas prescrevem no prazo de cinco anos contados da data do respectivo vencimento. 2 — Os créditos correspondentes ao capital mutuado e a rendas vitalícias prescrevem, considerando-se abandonados a favor do Fundo de Regularização da Dívida Pública, no prazo de 10 anos contados da data do respectivo 21 Da prescrição e da decadência, cit., p. 90, n. 67. Antonio Luiz da Camara Leal, , cit., p. 91. 22 Antonio Luis da Camara Leal, Da Prescrição e da Decadência, 2. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1959, p. 91. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 23 vencimento ou do primeiro vencimento de juros ou rendas posterior ao dos últimos juros cobrados ou rendas recebidas, consoante a data que primeiro ocorrer. 3 — Aos prazos previstos nos números anteriores são aplicáveis as regras quanto à suspensão ou interrupção da prescrição previstas na lei civil. RENÚNCIA De acordo com o art. 191 do atual Código, passa a ser admitida a renúncia à prescrição por parte daquele que dela se beneficia, ou seja, o devedor. Está superada a admissão da renúncia prévia, pois a renúncia somente é possível após se consumar a prescrição. Inicialmente, essa renúncia à prescrição poderá ser expressa, mediante declaração comprovada e idônea do devedor, sem vícios. Pode ocorrer ainda a renúncia tácita da prescrição, por condutas do devedor que induzem a tal fato, como o pagamento total ou mesmo parcial da dívida prescrita, que não pode ser repetida, exemplo que é de obrigação natural (art. 882 do CC). Igualmente há renúncia tácita à prescrição no caso de acordo para parcelamento da dívida (TJMG, Apelação Cível 1.0145.02.0039445/0011, Juiz de Fora, 6.ª Câmara Cível, Rel. Des. Edilson Olímpio Fernandes, j. 20.10.2009, DJEMG 11.12.2009). Essa renúncia à prescrição ainda pode ser judicial – quando manifestada em juízo –, ou extrajudicial – fora dele23. A própria possibilidade de renúncia prévia é elemento interessante para a distinção, uma vez que a decadência, prevista em lei, é irrenunciável (art. 209), enquanto a renúncia à prescrição não é somente admissível, como também se aceita a sua caracterização tácita. Para se renunciar à aplicação da prescrição, todavia, é preciso que a mesma já esteja consumada e não haja prejuízo a terceiro “Renunciar à prescrição” consiste na possibilidade de o devedor de uma dívida prescrita, consumado o prazo prescricional e sem prejuízo a terceiro, abdicar do direito de alegar esta defesa indireta de mérito (a prescrição) em face do seu credor. Se anuncia o pagamento, e o executa, renunciou expressamente. Se, embora não o haja afirmado expressamente, constituiu procurador, providenciou as guias bancárias para o depósito ou praticou qualquer ato incompatível com a prescrição, significa que renunciou tacitamente24. 23 Flávio Tartuce. – 10. , Cit. Pg 1101 24 Pablo Stolze Gagliano; Rodolfo Pamplona Filho, Op. Cit. Pg 454 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 24 De forma clara podemos reafirmar que o art. 191 não admite a renúncia prévia da prescrição,25 isto é, antes que se tenha consumado. Não se admite a renúncia prévia, nem de prescrição em curso, mas só da consumada, porque o referido instituto é de ordem pública e a renúncia tornaria a ação imprescritível por vontade da parte. Dois são os requisitos para a validade da renúncia: a) que a prescrição já esteja consumada; b) que não prejudique terceiro. Terceiros eventualmente prejudicados são os credores, pois a renúncia à possibilidade de alegar a prescrição pode acarretar a diminuição do patrimônio do devedor. Em se tratando de ato jurídico, requer a capacidade do agente. DECADÊNCIA Segundo Francisco Amaral, decadência é a perda do direito potestativo pela inércia do seu titular no período determinado em lei. Seu objeto são os direitos potestativos de qualquer espécie, disponíveis ou indisponíveis, direitos que conferem ao respectivo titular o poder de influir ou determinar mudanças na esfera jurídica de outrem, por ato unilateral, sem quehaja dever correspondente, apenas uma sujeição.26 Um dos critérios usados pela doutrina para distinguir prescrição de decadência consiste em considerar que, nesta, o prazo começa a fluir no momento em que o direito nasce. Desse modo, no mesmo instante em que o agente adquire o direito já começa a correr o prazo decadencial. O prazo prescricional, todavia, só se inicia a partir do momento em que este tem o seu direito violado. Também se diz que a prescrição resulta exclusivamente da lei, enquanto a decadência pode resultar da lei (legal), do testamento e do contrato (convencional). O Código Civil de 1916 não se referia, expressamente, à decadência, também denominada caducidade. Englobava, indiscriminadamente, em um mesmo capítulo, as causas devidas à fluência do tempo, aparecendo todas sob a denominação genérica de prescrição. O novo Código, contudo, inspirado no Código Civil italiano, optou por uma fórmula segura de distinção, considerando prescricionais somente os prazos taxativamente discriminados na Parte Geral, nos arts. 205 (regra geral) e 206 (regras especiais), sendo decadenciais todos os demais, estabelecidos como complemento de cada artigo que rege a matéria, tanto na Parte Geral como na 25 Carlos Roberto Gonçalves, Op Cit., p 1194 26 Direito civil: Introdução, p. 561. José Carlos Moreira Alves, , p. 155-156. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 25 Especial. Para evitar discussões sobre se ação prescreve, ou não, adotou a tese da prescrição da pretensão, por ser considerada a mais condizente com o direito processual contemporâneo. Na decadência, que é instituto do direito substantivo, há a perda de um direito previsto em lei. O legislador estabelece que certo ato terá que ser exercido dentro de um determinado tempo, fora do qual ele não poderá mais efetivar-se porque dele decaiu o seu titular. A decadência se consubstancia, pois, no decurso infrutífero de um termo prefixado para o exercício do direito. O tempo age em relação à decadência como um requisito do ato, pelo que a própria decadência é a sanção consequente da inobservância de um termo. A Comissão revisadora, aduziu que: “Logo, se a hipótese não é de violação de direito (quando se exercer, judicialmente, o direito de anular um negócio jurídico, não se está pedindo condenação de ninguém por violação de direito, mas, apenas, exercendo um direito por via judicial), mas há prazo para exercer esse direito — prazo esse que não é nem do art. 205, nem do art. 206, mas se encontra em outros artigos —, esse prazo é de decadência”27 Dizia Caio Mário da Silva Pereira que o tratamento dado à decadência convencional deveria ser, pelo menos em parte, o mesmo dado à prescrição, o que pode ser percebido pelo art. 209 do CC, pelo qual: “É nula a renúncia à decadência fixada em lei” (Instituições..., 2004, p. 691-692). Mais uma vez, com intuito didático, socorremo-nos de um quadro esquemático: Renúncia À prescrição: Só admite-se depois de consumada e desde que não acarrete prejuízo a terceiros À decadência: – legal: é nula; – convencional: admite-se. Dessa forma, não é admitida a renúncia à decadência legal, o mesmo não se podendo dizer quanto à convencional. Para esta última, por analogia, deve ser aplicada a regra do art. 191, cabendo a renúncia pelo devedor após a consumação, não sendo também aceita a renúncia prévia da decadência convencional. Mas o que se percebe é que, se Caio Mário da Silva Pereira ainda estivesse entre nós, deveria rever os seus conceitos. Isso porque, de acordo com o art. 210 do CC/2002, deve o juiz, de ofício, conhecer da decadência, quando estabelecida por lei. Assim sendo, por envolver preceito de ordem pública, o juiz deve decretar de ofício a decadência legal, julgando a ação improcedente com a resolução do mérito, conforme o art. 27 José Carlos Moreira Alves, A Parte Geral do Projeto de Código Civil brasileiro, p. 155-156., 130/1001; , 652/128 e 656/220. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 26 269, inc. IV, do CPC. Quanto à decadência convencional, há regra específica vedando o seu reconhecimento de ofício pelo juiz. Trata-se do art. 211 do CC, segundo o qual: “se a decadência for convencional, a parte a quem aproveita pode alegá-la em qualquer grau de jurisdição, mas o juiz não pode suprir a alegação”. Nesse ponto, o tratamento da decadência convencional não é mais igual ao da prescrição. Por isso é que, se ainda estivesse entre nós, Caio Mário teria que rever os seus conceitos. Isso, diante da Lei 11.280/2006, que revogou a previsão do art. 194 do CC e alterou o § 5.° do art. 219 do CPC, prevendo que o juiz deve reconhecer de ofício a prescrição. Para esclarecer as diferenças entre a decadência legal e a convencional, propomos o quadro a seguir: Decadência Legal Decadência Convencional Deve ser reconhecida de ofício pelo juiz (art. 210 do CC), como ocorre com a prescrição. Não pode ser reconhecida pelo juiz (art. 211 do CC). Não pode ser renunciada pela parte (art. 209 do CC). Pode ser renunciada após a consumação, assim como ocorre com a prescrição. EFEITOS Do conceito de decadência pudemos depreender que seu efeito direto é a extinção do direito em decorrência de inércia de seu titular para o seu exercício; extingue, indiretamente, a ação correspondente , se ela nasceu juntamente com este, representando o modo de seu exercício, e impede o nascimento dessa ação, se ela não se originou do mesmo fato gerador do direito, mas deveria protegê-lo, futuramente, depois de definitivamente efetivado, sobrevindo algum obstáculo ao seu livre exercício. Extinto o direito pela decadência, torna-se, portanto, inoperante; não pode ser fundamento de qualquer alegação em juízo, nem ser invocado, ainda mesmo por via de exceção. A decadência produz seus efeitos extintivos de modo absoluto. O prazo decadencial corre contra todos; nem mesmo aquelas pessoas contra as quais não corre a prescrição ficam isentas dos seus efeitos, salvo a hipótese do Art 198, ( Código Civil), pois tal prazo não correrá contra os absolutamente incapazes (CC, Art 208), e a prevista no art. 26 § 2º da Lei n. 8.078/90. Os relativamente incapazes e as pessoas jurídicas têm ação contra os seus assistentes ou representantes legais, que derem causa à decadência, ou a não alegarem oportunamente (CC., Art 195 c/c o Art. 208). TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 27 A decadência não se suspende nem se impede ou interrompe exceto se houver disposição legal em contrário e só é impedida pelo efetivo exercício do direito, dentro do lapso de tempo prefixado (CC, Art 207). Prazos de decadência Os prazos prescricionais estão discriminados no art. 206 do CC. Logo, todos os demais prazos estabelecidos em outros artigos, tanto na parte geral quanto na parte especial do Código Civil, são decadenciais. Deve ficar claro que a parte geral da codificação traz prazos de decadência, como os já transcritos arts. 178 e 179. Citemos alguns prazos decadenciais, de forma exemplificativa: a) 3 dias – sendo a coisa móvel, inexistindo prazo estipulado para exercer o direito de preempção (preferência), após a data em que o comprador tiver notificado o vendedor (art. 516 do CC). b) 30 dias – contados da tradição da coisa, para o exercício do direito de propor a ação em que o comprador pretende o abatimento do preço da coisa móvel recebida com vício redibitório – ação estimatória –, ou rescindiro contrato e reaver o preço pago, mais perdas e danos – ação redibitória (art. 445 do CC). c) 60 dias – para exercer o direito de preempção, inexistindo prazo estipulado, se a coisa for imóvel, contados da data em que o comprador tiver notificado o vendedor (art. 516 do CC). d) 180 dias – para o condômino, a quem não se deu conhecimento da venda, haver para si a parte vendida a estranhos, depositando o valor correspondente ao preço – direito de preferência ou prelação legal –, sendo a coisa móvel (art. 513, parágrafo único, do CC). O prazo é o mesmo para anular casamento do menor quando não autorizado por seu representante legal, contados os 180 dias do dia em que cessou a incapacidade (se a iniciativa for do incapaz), a partir do casamento (se a ação for proposta pelo representante legal) ou da morte do incapaz (ação proposta pelos herdeiros) – art. 1.555 do CC. O mesmo prazo vale para a anulação de casamento, do incapaz de consentir, prazo contado da data da sua celebração (art. 1.560, inc. I, do CC). Também é de 180 dias o prazo para anular o casamento de menor de 16 anos, contado o prazo do dia em que o mesmo perfez a idade núbil para o caso de a demanda ser proposta pelo próprio menor ou da data do matrimônio para a ação proposta pelos seus representantes legais (art. 1.560, § 2.°, do CC). e) 1 ano – para obter a redibição ou abatimento no preço, se a coisa viciada for imóvel, contado o prazo da entrega efetiva ou do conhecimento do TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 28 vício (art. 445 do CC). O prazo decadencial de um ano também vale para se pleitear revogação de doação por ingratidão ou diante da inexecução do encargo, contado da data do conhecimento do doador do fato que a autorizar (art. 559 do CC). f) 1 ano e 1 dia – para desfazer janela, sacada, terraço ou goteira sobre o seu prédio, em face do vizinho, prazo esse que é contado da conclusão da obra (art. 1.302 do CC). g) 2 anos – para anular negócio jurídico, não havendo prazo, contado da data da conclusão do ato, prazo geral de anulação dos atos e negócios jurídicos (art. 179 do CC). Mesmo prazo vale para exercer o direito de preferência se a coisa for imóvel (art. 513, parágrafo único, do CC), bem como para anular casamento se incompetente a autoridade celebrante (art. 1.560, II, do CC) e para pleitear anulação de ato praticado pelo consorte sem a outorga do outro, conforme rol do art. 1.647 do CC, contado do término da sociedade conjugal (art. 1.649 do CC). h) 3 anos – para o vendedor de coisa imóvel recobrá-la, se reservou para si o direito de retrovenda, mediante a devolução do preço e o reembolso das despesas do comprador (art. 505 do CC). O mesmo prazo é previsto para anular casamento celebrado com erro essencial quanto à pessoa do outro cônjuge, contado da data da sua celebração (art. 1.560, III, do CC). i) 4 anos – para pleitear anulação de negócio jurídico celebrado com vício do consentimento ou vício social, contados: nos casos de coação, do dia em que ela cessar; nos de erro, dolo, fraude contra credores, estado de perigo ou lesão, do dia em que se realizou o negócio jurídico (art. 178, inc. II, do CC). O prazo de quatro anos de igual modo serve para os casos de anulação do negócio jurídico por incapacidade do agente, prazo contado de quando cessar a incapacidade (art. 178, I, do CC). Também é de quatro anos o prazo para anulação de casamento celebrado sob coação, a contar da celebração do ato (art. 1.560, inc. IV, do CC). j) 5 anos – prazo para impugnar a validade de testamento, contado da data de seu registro (art. 1.859 do CC). Mais uma vez consigne-se que, de acordo com a obra de Agnelo Amorim Filho (Critério científico para distinguir a prescrição da decadência e para identificar as ações imprescritíveis), os prazos decadenciais referem-se às ações constitutivas, sejam elas positivas ou negativas, diante da existência de um direito potestativo. Na grande maioria das vezes, relacionada com prazo decadencial, tem-se a ação constitutiva negativa típica, que é a ação anulatória. Exemplo mais comum da prática é a hipótese de se pleitear a anulação de um negócio jurídico por nulidade relativa, situação em que o prazo correspondente é decadencial. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 29 DISTINÇÃO ENTRE PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA Para distinguir prescrição de decadência28, o atual Código Civil optou por uma fórmula que espanca qualquer dúvida. Prazos de prescrição são, apenas e exclusivamente, os taxativamente discriminados na Parte Geral, nos arts. 205 (regra geral) e 206 (regras especiais), sendo de decadência todos os demais, estabelecidos como complemento de cada artigo que rege a matéria, tanto na Parte Geral como na Especial. Para evitar a discussão sobre se ação prescreve, ou não, adotou-se a tese da prescrição da pretensão, por ser considerada a mais condizente com o Direito Processual contemporâneo. Como a matéria era demais confusa na vigência do Código Civil de 1916, visando a esclarecer o assunto, Agnelo Amorim Filho concebeu um artigo histórico, em que associou os prazos prescricionais e decadenciais a ações correspondentes, buscando também quais seriam as ações imprescritíveis (Critério científico..., 1960, RT 300/7 e 744/725). Este professor observa: “A questão referente à distinção entre prescrição e decadência — tão velha quanto os dois velhos institutos de profundas raízes romanas — continua a desafiar a argúcia dos juristas. As dúvidas são tantas e vêm se acumulando de tal forma através dos séculos, que, ao lado de autores que acentuam a complexidade da matéria, outros, mais pessimistas, chegam até a negar — é certo que com indiscutível exagero — a existência de qualquer diferença entre as duas primeiras espécies de prazos extintivos. É o que informa De Ruggiero (Instituições de Direito Civil, v. 1.º, p. 335, da trad. port.). Já Baudry-Lacantinerie e Albert Tissler declaram que são falíveis, ou imprestáveis, os vários critérios propostos para distinguir os dois institutos. Acentuam, ainda, que não se pode, a priori, estabelecer diferença entre prescrição e decadência e assim examinar caso por caso, para dizer, a posteriori, se o mesmo é de prescrição ou de decadência. Clóvis Beviláqua, por sua vez, afirma que ‘a doutrina ainda não é firme e clara neste domínio’ (Teoria Geral, 2. ed., p. 367). Para Amílcar de Castro, é ‘uma das mais difíceis e obscuras questões de Direito essa de distinguir a prescrição da decadência’ (RT, v.156/323). Giorgi diz que a ciência ainda não encontrou um critério seguro para distinguir a prescrição das caducidades (Teoría de las obligaciones, v. 9.º, p. 217). E Camara Leal, inegavelmente o autor brasileiro que mais se dedicou ao estudo do assunto, chegando mesmo a elaborar um método prático para se fazer a distinção entre os dois institutos, diz que este é ‘um dos problemas mais árduos da Teoria Geral do Direito Civil’ (Da Prescrição e da Decadência, 1.ª ed., p. 133)” No seu Artigo o professor paraibano associou a prescrição às ações condenatórias, ou seja, àquelas ações relacionadas com direitos subjetivos, próprio das pretensões pessoais. Assim, a prescrição mantém relação com 28 Gonçalves, Carlos Roberto, Direito Civil Brasileiro Vol I, 10 Ed. São Paulo – Editora Saraiva, 2012, pg 1179 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 30 deveres, obrigações e com a responsabilidade decorrente da inobservância das regras ditadas pelas partes ou pela ordem jurídica. Por outro lado, a decadência estáassociada a direitos potestativos e às ações constitutivas, sejam elas positivas ou negativas. As ações anulatórias de atos e negócios jurídicos, logicamente, têm essa última natureza. A decadência, portanto, tem relação com um estado de sujeição, próprio dos direitos potestativos. Didaticamente, é certo que o direito potestativo, por se contrapor a um estado de sujeição, é aquele que encurrala a outra parte, que não tem saída.29 Por fim, as ações meramente declaratórias, como aquelas que buscam a nulidade absoluta de um negócio, são imprescritíveis, ou melhor, tecnicamente, não estão sujeitas à prescrição ou à decadência. A imprescritibilidade dessa ação específica está também justificada porque a nulidade absoluta envolve ordem pública, não convalescendo pelo decurso do tempo (art. 169 do CC). Na doutrina nacional, destaca-se o critério sugerido por CAMARA LEAL, nos seguintes termos: “É de decadência o prazo estabelecido pela lei, ou pela vontade unilateral ou bilateral, quando prefixado ao exercício do direito pelo seu titular. E é de prescrição, quando fixado, não para o exercício do direito, mas para o exercício da ação que o protege. Quando, porém, o direito deve ser por meio de ação, originando-se ambos do mesmo fato, de modo que o exercício da ação representa o próprio exercício do direito, o prazo estabelecido para a ação deve ser tido como prefixado ao exercício do direito, sendo, portanto, de decadência, embora aparentemente se afigure de prescrição”30. MARIA HELENA DINIZ, fazendo uma compilação de todos os critérios propostos para a distinção entre os institutos, apresenta o seguinte quadro esquemático, antes do Novo Código Civil: “1) A decadência extingue o direito e indiretamente a ação; a prescrição extingue a ação e por via oblíqua o direito. 2) O prazo decadencial é estabelecido por lei ou por vontade unilateral ou bilateral; o prazo prescricional somente por lei. 3) A prescrição supõe uma ação cuja origem seria diversa da do direito; a decadência requer uma ação cuja origem é idêntica à do direito. 4) A decadência corre contra todos; a prescrição não corre contra aqueles que estiverem sob a égide das causas de interrupção ou suspensão previstas em lei. 29 Flávio Tartuce. – 10. ed. rev., atual. e ampl. – Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2014. Pg 1086 30 Antonio Luis da Camara Leal, Da Prescrição e da Decadência, 2. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1959, p.133-4. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 31 5) A decadência decorrente de prazo legal pode ser julgada, de ofício, pelo juiz, independentemente de arguição do interessado; a prescrição das ações patrimoniais não pode ser, ex officio, decretada pelo magistrado. 6) A decadência resultante de prazo legal não pode ser renunciada; a prescrição, após sua consumação, pode sê-lo pelo prescribente. 7) Só as ações condenatórias sofrem os efeitos da prescrição; a decadência só atinge direitos sem prestação que tendem à modificação do estado jurídico existente”31. Todos esses critérios, embora válidos para efeitos didáticos, acabam pecando por não explicitar a efetiva causa de cada um desses institutos jurídicos, estando muitas vezes mais preocupados em delimitar as suas consequências que, em verdade, dependem muito mais de disciplina legal do que propriamente de sua essência32 O critério clássico, no direito brasileiro33, consiste em colocar o elemento diferenciador no campo de incidência da cada um dos institutos. Assim, a prescrição atinge diretamente a ação e, por via oblíqua, faz desaparecer o direito por ela tutelado (o que perece é a ação que protege o direito). A decadência, ao contrário, atinge diretamente o direito e, por via oblíqua, extingue a ação (é o próprio direito que perece). O critério mais aceito na doutrina é o apresentado por Agnelo Amorim Filho, denominado “critério científico”, baseado na classificação dos direitos subjetivos e nos tipos de ações correspondentes. Para o mencionado doutrinador, são sujeitas a prescrição somente as ações de natureza condenatória, em que se pretende a imposição ao cumprimento de uma prestação, pois a prescrição é a extinção da pretensão à prestação devida. Só as ações condenatórias podem sofrer os efeitos da prescrição, pois são as únicas ações por meio das quais se protegem judicialmente os direitos que irradiam pretensões. Os direitos potestativos, que são direitos sem pretensão ou direitos sem prestação, insuscetíveis de violação, dão origem a ações de natureza constitutiva ou desconstitutiva. Quando têm prazo fixado na lei, esse prazo é decadencial; quando não têm (como no caso das ações de separação judicial, p. ex.), a ação é imprescritível. As ações de natureza declaratória também são imprescritíveis porque visam apenas à obtenção de uma certeza jurídica. 31 Maria Helena Diniz, Curso de Direito Civil Brasileiro, 17. ed., São Paulo: Saraiva, 2001, v. 1, p. 271. Com efeito, a questão, por exemplo, da inaplicabilidade geral de causas impeditivas, suspensivas ou interruptivas da prescrição ao instituto da decadência — prevista expressamente no art. 207 do CC-02 — é excepcionada pela Lei n. 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor), que, em seu art. 26, § 2., admite causas obstativas do prazo. 32 Pablo Stolze Gagliano; Rodolfo Pamplona Filho, Novo Curso De Direito Civil 1, Op. Cit. Pg 450 33 Gonçalves, Carlos Roberto, Op. Cit , pg 1189 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 32 Acrescente-se que a prescrição resulta exclusivamente da lei, enquanto a decadência pode resultar da lei, do costume e do testamento; e que, segundo proclama a Súmula 150 do Supremo Tribunal Federal, “prescreve a execução no mesmo prazo da prescrição da ação”34. E isto se dá, em verdade, porque se a prescrição é a extinção da pretensão à prestação devida — direito este que continua existindo na relação jurídica de direito material — em função de um descumprimento (que gerou a ação), esta somente pode ser aplicada às ações condenatórias. Afinal, somente este tipo de ação exige o cumprimento coercitivo de uma prestação. Já a decadência, como se refere à perda efetiva de um direito, pelo seu não exercício no prazo estipulado, somente pode ser relacionada aos direitos potestativos, que exijam uma manifestação judicial. Tal manifestação, por ser elemento de formação do próprio exercício do direito, somente pode-se dar, portanto, por ações constitutivas. Por fim, as ações declaratórias, que visam somente ao mero reconhecimento de certeza jurídica (e isto independe de qualquer prazo), somente podem ser imprescritíveis, uma vez que não são direcionadas a modificar qualquer estado de coisas. Por exceção, nos casos de direitos potestativos exercitáveis mediante simples declaração de vontade do titular, sem prazo especial de exercício previsto em lei, a eventual ação judicial ajuizada (ações constitutivas sem prazo especial de exercício previsto em lei) também será imprescritível, como é o caso da ação de divórcio, que desconstitui o vínculo matrimonial. Prescrição Decadência Extingue a pretensão. Extingue o direito Prazos somente estabelecidos pela lei. Prazos estabelecidos pela lei (decadência legal) ou por convenção das partes (decadência convencional). Deve ser conhecida de ofício pelo juiz. A decadência legal deve ser reconhecida de ofício pelo magistrado, o que não ocorre com a decadência convencional. A parte pode não alegá-la. Pode ser renunciada pelo devedor após a consumação.A decadência legal não pode ser renunciada, em qualquer hipótese. A decadência convencional pode ser renunciada após a consumação, também pelo devedor (mesmo tratamento da prescrição). Não corre contra determinadas pessoas. Corre contra todas, com exceção dos absolutamente incapazes (art. 3.° do CC). 34 Ibidem, Op Cit, pg 1192 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 33 Previsão de casos de impedimento, suspensão ou interrupção. Não pode ser impedida, suspensa ou interrompida, regra geral, com exceção de regras específicas. Relacionada com direitos subjetivos, atinge ações condenatórias (principalmente cobrança e reparação de danos). Relacionada com direitos potestativos, atinge ações constitutivas positivas e negativas (principalmente ações anulatórias). Prazo geral de 10 anos (art. 205 do CC). Não há, para a maioria da doutrina, prazo geral de decadência. Há um prazo geral para anular negócio jurídico, de dois anos contados da sua celebração, conforme o art. 179 do CC. Prazos especiais de 1, 2, 3, 4 e 5 anos, previstos no art. 206 do CC. Prazos especiais em dias, meses, ano e dia e anos (1 a 5 anos), todos previstos em outros dispositivos, fora dos arts. 205 e 206 do CC. PROVA Uma vez aperfeiçoado, o negócio jurídico pode necessitar de um meio de prova, visando à certeza e à segurança jurídica. Assim, a prova pode ser conceituada como “um conjunto de meios empregados para demonstrar, legalmente, a existência de negócios jurídicos” (BEVILÁQUA, Clóvis. Comentários..., 1972, v. 1, p. 260). Na divisão do negócio jurídico, a prova, em regra, encontra-se no plano da eficácia, pois mantém relação com as consequências do ato ou negócio (terceiro degrau da Escada Ponteana). Prova é o meio empregado para demonstrar a existência do ato ou negócio jurídico. Deve ser admissível (não proibida por lei e aplicável ao caso em exame), pertinente(adequada à demonstração dos fatos em questão) e concludente (esclarecedora dos fatos controvertidos)35. Quanto aos princípios básicos:36 ■ não basta alegar, é preciso provar, pois allegare nihil et allegatum non probare paria sunt (nada alegar e alegar e não provar querem dizer a mesma coisa); ■ o que se prova é o fato alegado, e não o direito a aplicar, pois é atribuição do juiz conhecer e aplicar o direito (iura novit curia); ■ o ônus da prova incumbe a quem alega o fato, e não a quem o contesta; ■ os fatos notórios independem de prova. 35 Washington de Barros Monteiro, Curso de Direito Civil, V. 1. P. 255-256. 36 Gonçalves, Carlos Roberto, Op. Cit , pg 1235 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 34 A regulamentação dos princípios referentes à prova é encontrada no Código Civil e no Código de Processo Civil. Ao primeiro, cabe a determinação das provas, a indicação do seu valor jurídico e as condições de admissibilidade; ao diploma processual civil, o modo de constituir a prova e de produzi-la em juízo. Quando a lei exigir forma especial como o instrumento público para a validade do negócio jurídico, nenhuma outra prova, por mais especial que seja, pode suprir-lhe a falta (CPC, art. 366; e CC, art. 107, a contrario sensu). Caso contrário, não havendo nenhuma exigência quanto à forma (ato não formal),qualquer meio de prova pode ser utilizado, desde que não proibido, como estatui o art. 332 do Código de Processo Civil: “Todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não especificados neste Código, são hábeis para provar a verdade dos fatos, em que se funda ação ou defesa”. Nas palavras de Sílvio de Salvo Venosa, afastando qualquer crítica mais contundente em relação a tal previsão, uma vez que “como é íntimo o conteúdo do negócio jurídico com sua prova, é acertado o enfoque do Código Civil, ao traçar os princípios fundamentais e dispor sobre os meios de prova. A utilidade de um direito mede-se pela possibilidade de que se dispõe para se realizar a prova de um fato. De nada adianta possuir um direito se não se tem os meios para prová-lo. Na verdade, o que se prova não é o direito. Prova-se o fato relacionado com um direito. A demonstração da evidência em juízo é a finalidade elementar do processo na busca da verdade processual. Isso porque nem sempre o que se logra provar em uma lide coincide com a verdade real. Não há outra solução para o Direito a não ser contentar-se com a ‘verdade processual’” (Direito civil..., 2003, p. 549). MEIOS DE PROVA O art. 212 do CC/2002 enuncia que, salvo o negócio a que se impõe forma especial, o fato jurídico pode ser provado mediante: a) confissão; b) documento; c) testemunha; d) presunção; e) perícia. Desse modo, a atual codificação privada prevê que os fatos jurídicos – incluindo-se, logicamente, os atos e negócios jurídicos – podem ser provados TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 35 por confissão, documentos, testemunhas, presunções e perícias em sentido genérico. Os processualistas criticam tal dispositivo, eis que estabelece um rol de institutos jurídicos de naturezas diversas, pois os testemunhos e documentos são fonte de prova; confissões e perícias, meios de prova e as presunções, meras conclusões de dedução, de raciocínio (DIDIER JR., Fredie. Regras processuais..., 2004, p. 37). A crítica, como não poderia ser diferente, é ainda apontada por Alexandre Freitas Câmara, principalmente por essa confusão (Lições de direito processual..., 2004, p. 407). Pelo que consta do art. 332 do CPC, deve-se entender que o rol do art. 212 do Código Civil é meramente exemplificativo (numerus apertus), uma vez que, segundo a lei processual, “todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não especificados neste Código, são hábeis para provar a verdade dos fatos, em que se funda a ação ou defesa” (TARTUCE, Fernanda. Meios de prova no Código..., 2006, p. 163-175). CONFISSÃO Ocorre a confissão quando a parte admite a verdade de um fato, contrário ao seu interesse e favorável ao adversário (CPC, art. 348). Pode ser judicial (em juízo) ou extrajudicial (fora do processo), espontânea ou provocada, expressa ou presumida (ou ficta) pela revelia (CPC, arts. 302 e 319). Tem, como elementos essenciais, a capacidade da parte, a declaração de vontade e o objeto possível. “Não tem eficácia a confissão se provém de quem não é capaz de dispor do direito a que se referem os fatos confessados” (CC, art. 213). “Se feita a confissão por um representante, somente é eficaz nos limites em que este pode vincular o representado” (art. 213, parágrafo único). A confissão, como foi dito, é prova que consiste em manifestação de uma parte reconhecendo situação favorável à outra. O representante legal do incapaz não pode, em princípio, confessar, porque lhe é vedado concluir negócios em conflito de interesses com o representado (CC, art. 119), e a confissão opera, essencialmente, contra os interesses do titular do direito. A representação voluntária, no entanto, legitima o representante a confessar desde que lhe seja atribuído, expressamente, tal poder. Nas ações que versarem sobre bens imóveis, a confissão de um cônjuge não valerá sem a do outro (CPC, art. 350, parágrafo único). Não vale, também, a confissão relativa a direitos indisponíveis (CPC, art. 351). “A confissão é irrevogável, mas pode ser anulada se decorreu de erro de fato ou de coação” (CC, art. 214). TRABALHO DEAPS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 36 DOCUMENTO O documento pode ser público ou particular. Tem função apenas probatória. Públicos são os documentos elaborados por autoridade pública, no exercício de suas funções, como as certidões, traslados etc. Particulares quando elaborados por particulares. Uma carta, um telegrama, por exemplo, podem constituir importante elemento de prova. Documentos não se confundem com instrumentos públicos ou particulares. Estes são espécies e aqueles são o gênero. O instrumento é criado com a finalidade precípua de servir de prova, como, por exemplo, a escritura pública, ou a letra de câmbio. Os instrumentos públicos são feitos perante o oficial público, observando-se os requisitos do art. 215. Os particulares são realizados somente com a assinatura dos próprios interessados. Dispõe o art. 215 que “a escritura pública, lavrada em notas de tabelião, é documento dotado de fé pública, fazendo prova plena”. Por essa razão, não se exige a subscrição por testemunhas instrumentárias. Não se admite, com efeito, provar com testemunhas contra ou além do instrumento público. No entanto, “se algum dos comparecentes não for conhecido do tabelião, nem puder identificar-se por documento, deverão participar do ato pelo menos duas testemunhas que o conheçam e atestem sua identidade” (§ 5º). A escritura pública tem, pois, fidedignidade, inerente à fé pública do notário. Dispõe o art. 221 que “o instrumento particular, feito e assinado, ou somente assinado por quem esteja na livre disposição e administração de seus bens, prova as obrigações convencionais de qualquer valor; mas os seus efeitos, bem como os da cessão, não se operam, a respeito de terceiros, antes de transcrito no registro público”. Mesmo sem testemunhas, o documento particular vale entre as próprias partes, por força do art. 219, que prescreve: “As declarações constantes de documentos assinados presumem-se verdadeiras em relação aos signatários”. Estatui o art. 220 que “a anuência ou a autorização de outrem, necessária à validade de um ato, provar-se-á do mesmo modo que este, e constará, sempre que se possa, do próprio instrumento”. Desse modo, só por instrumento público pode a mulher casada outorgar procuração ao marido para a alienação de bens imóveis, pois é essencial à validade do ato a escritura pública (art. 108). Certidão é a reprodução do que se encontra transcrito em determinado livro ou documento. Quando integral, abrangendo todo o conteúdo da anotação, chama-se verbo ad verbum. Se abranger apenas determinados pontos indicados pelo interessado, denomina-se certidão “em breve TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 37 relatório”. Traslado é cópia do que se encontra lançado em um livro ou em autos. A admissibilidade das diversas formas de reprodução mecânica de documentos hoje existentes, bem como os seus efeitos, está regulamentada no Código de Processo Civil, na seção que trata da força probante dos documentos (arts. 364 e s.). “O telegrama, quando lhe for contestada a autenticidade, faz prova mediante conferência com o original assinado” (CC, art. 222). “A cópia fotográfica de documento, conferida por tabelião de notas, valerá como prova de declaração da vontade, mas, impugnada sua autenticidade, deverá ser exibido o original” (art. 223). “A prova não supre a ausência do título de crédito, ou do original, nos casos em que a lei ou as circunstâncias condicionarem o exercício do direito à sua exibição” (art. 223, parágrafo único), em razão dos princípios da literalidade e abstração, que regem a exigibilidade dos títulos de crédito. Aduza-se, por fim, que “os documentos redigidos em língua estrangeira serão traduzidos para o português para ter efeitos legais no País” (art. 224). O dispositivo está em consonância com o art. 129, § 6º, da Lei de Registros Públicos (Lei n. 6.015/73). A tradução deverá ser feita por tradutor juramentado, gozando assim de fé pública. TESTEMUNHA As testemunhas podem ser instrumentárias ou judiciárias. Estas são as que prestam depoimento em juízo. Aquelas são as que assinam o instrumento. A prova testemunhal é menos segura que a documental. Por essa razão, só se admite, “salvo os casos expressos, a prova exclusivamente testemunhal nos negócios jurídicos cujo valor não ultrapasse o décuplo do maior salário mínimo vigente no País ao tempo em que foram celebrados”. “Qualquer que seja o valor do negócio jurídico, a prova testemunhal é admissível como subsidiária ou complementar da prova por escrito” (CC, art. 227 e parágrafo único). A prova testemunhal, que resulta do depoimento oral das pessoas que viram, ouviram ou souberam dos fatos relacionados com a causa, por estar impregnada de alto grau de subjetividade, é sempre alvo de críticas dentro do sistema jurídico. Daí as restrições a sua admissibilidade ampla, como a feita no presente artigo. Embora não se admita prova exclusivamente testemunhal nos contratos, como o comodato, por exemplo, cujo valor exceda o limite previsto em lei, há uma tendência para considerar que, quanto aos efeitos pretéritos do contrato, é admissível a prova exclusivamente testemunhal, qualquer que seja o seu valor. Assim, “quando se tratar, não da prova da existência da sociedade em si, mas de um fato consumado – a comunhão de bens e interesses –, qualquer meio de prova é admissível”. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 38 Pessoas que não podem ser admitidas como testemunhas Algumas pessoas, no entanto, não podem ser admitidas como testemunhas. O art. 228 do Código Civil menciona: “I — os menores de 16 (dezesseis) anos; II — aqueles que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem discernimento para a prática dos atos da vida civil; III — os cegos e surdos, quando a ciência do fato que se quer provar dependa dos sentidos que lhes faltam; IV — o interessado no litígio, o amigo íntimo ou o inimigo capital das partes; V — os cônjuges, os ascendentes, os descendentes e os colaterais, até o terceiro grau de alguma das partes, por consanguinidade, ou afinidade.” No entanto, para a prova de fatos que só elas conheçam, pode o juiz admitir o depoimento das referidas pessoas (art. 228, parágrafo único). O Código de Processo Civil, no art. 405, relaciona os incapazes para testemunhar, os impedidos e os suspeitos. E o art. 229 do Código Civil dispõe que ninguém pode ser obrigado a depor sobre fato: “I — a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar segredo; II — a que não possa responder sem desonra própria, de seu cônjuge, parente em grau sucessível, ou amigo íntimo; III — que o exponha, ou as pessoas referidas na letra antecedente, a perigo de vida, de demanda, ou de dano patrimonial imediato.” PRESUNÇÕES Seguindo ainda a diretriz de nossa Lei Civil, as presunções também são meio de prova do fato jurídico (art. 212, IV, do CC-02; art. 136, V, do CC-16). A presunção é a operação mental pela qual, partindo-se de um fato conhecido, chega-se a um fato desconhecido, admitido como verdadeiro. Vejamos alguns exemplos colhidos de nosso direito positivo: a existência da pessoa natural, como se sabe, termina com a morte, presumindo-se esta, todavia, quanto aos ausentes, nos casos em que a lei autoriza a abertura de sucessão definitiva (art. 6.º do CC-02); no contrato de empreitada, o que se mediu presume-se verificado se, em trinta dias, a contar da medição, não forem TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 39 denunciados os vícios ou defeitos pelo dono da obra ou por quem estiver incumbido dasua fiscalização (art. 614, § 2.º, do CC-02). As presunções legais, que mais de perto nos interessam, poderão ser: a) absolutas (juris et de jure); b) relativas (juris tantum). As primeiras são inafastáveis, firmando a certeza jurídica da verdade do fato que se pretende provar. Nos atos de alienação gratuita, em fraude contra credores, por exemplo, firma-se a presunção da má-fé(consilium fraudis) em caráter absoluto, exigindo-se para a obtenção da ineficácia do ato apenas a prova do prejuízo causado (eventus damni). As hipóteses de presunções relativas, por sua vez, são mais comuns. Neste caso, admite-se prova em contrário. Assim, a propriedade presume-se plena e exclusiva até prova em contrário (art. 1.231 do CC-02). O Direito das Obrigações, consoante mencionado acima, reconhece, na seção referente ao objeto do pagamento e sua prova, três importantes regras de presunção legal relativa de pagamento: “Art. 322. Quando o pagamento for em quotas periódicas, a quitação da última estabelece, até prova em contrário, a presunção de estarem solvidas as anteriores. Art. 323. Sendo a quitação do capital sem reserva dos juros, estes presumem-se pagos. Art. 324. A entrega do título ao devedor firma a presunção do pagamento. Parágrafo único. Ficará sem efeito a quitação assim operada se o credor provar, em sessenta dias, a falta do pagamento”. Ao lado das presunções legais existem as comuns, ou seja, não decorrentes da lei, mas extraídas da experiência ordinária. Nesse sentido, a própria legislação processual civil admite, em seu art. 335, que, na falta de normas jurídicas particulares, o juiz aplicará as regras da experiência comum subministradas pela observação do que ordinariamente acontece e ainda às regras da experiência técnica, ressalvado, quanto a esta, o exame pericial. Assim, o comerciante que, durante anos, forneceu, para agradar o comprador, pequena quantidade a mais do produto vendido, firma uma presunção da ocorrência deste fato, quando da efetivação de um negócio, no mesmo lugar e em condições semelhantes. Da mesma forma, em algumas cidades do interior deste país de extensão continental em que vivemos, não é raro o magistrado se valer de certas TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 40 presunções comuns à sua comarca, registrando a experiência, por exemplo, a importância do “dia da feira”, em que raramente há labor fora dessa atividade, mesmo que não caia em dia consagrado legalmente para o repouso. Nesses casos, a lei prevê a impossibilidade do reconhecimento da presunção comum, se, na situação concreta, não se admitir a prova testemunhal (art. 230 do CC-02). PERÍCIA Finalmente, é meio de prova do fato jurídico a perícia (art. 212, V, do CC- 02), expressão utilizada em substituição à expressão “exames e vistorias”, constante no Código de 1916 (art. 136, VI), que, tecnicamente, são espécies da prova pericial. A perícia, disciplinada pelos arts. 420 a 439 do CPC, pode ser classificada em: a) exame: atividade técnica ou científica desenvolvida pelos peritos, consistente na inspeção descritiva de coisas e pessoas com o propósito de provar determinado ato ou fato jurídico; b) vistoria: exame pericial realizado em bens imóveis; c) avaliação: atribuição de valor a determinados bens jurídicos móveis e imóveis, corpóreos e incorpóreos. O perito é auxiliar da justiça e desempenha um múnus público, não podendo escusar-se sem justo motivo, nem, muito menos, atuar temerariamente, sob pena de ser responsabilizado penal, civil, e administrativamente (arts. 422 e 423 do CPC e art. 342 do CP). Considerando que o desenvolvimento da produção judicial da prova técnica ou pericial interessa mais de perto ao Direito Processual, entendemos inapropriado exaurir, neste tópico, toda a matéria. Fixaremos, portanto, a nossa atenção nas questões diretamente ligadas ao Direito material. Nesse ponto, urge reconhecer que o Novo Código Civil, adotando posição digna de encômios, consagrou duas importantes regras disciplinadoras da perícia médica e da consequência da recusa injustificada da parte em submeter-se à sua realização. Assim, dispõem os arts. 231 e 232 do CC-02: “Art. 231. Aquele que se nega a submeter-se a exame médico necessário não poderá aproveitar-se de sua recusa. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 41 Art. 232. A recusa à perícia médica ordenada pelo juiz poderá suprir a prova que se pretendia obter com o exame”. Há pouco tempo, o Supremo Tribunal Federal fora chamado a se manifestar a respeito de uma interessante questão. O réu de determinada ação de investigação de paternidade, aduzindo ser avesso a injeções e agulhas, resistiu à realização do exame médico-pericial de DNA, já ordenado pelo Juízo de Direito. Ante a recalcitrância apresentada, o ilustre magistrado de primeiro grau determinou a condução coercitiva do acusado, que se insurgiu, impetrando habeas corpus, cujo deslinde, por via de recurso constitucional, chegou ao conhecimento do Pretório Excelso. Por maioria, então, o Tribunal entendeu que o réu, à luz da doutrina dos direitos da personalidade, poderia furtar-se à realização do exame, embora suportasse, em seu desfavor, a presunção de verdade do fato que se pretendia provar por meio da prova pericial. Nesse sentido, leia-se resumo constante no Informativo 106 do Supremo Tribunal Federal: “Com base na orientação adotada pelo STF no julgamento do HC 71.373-RS (DJU de 22-11-96) — no sentido de que, em ação civil de investigação de paternidade, não se pode obrigar o réu à coleta de material para exame de DNA, sob pena de violação da intangibilidade do corpo humano —, a Turma deferiu habeas corpus contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina que mantivera a decisão, tomada em ação ordinária de reconhecimento de paternidade, de submeter o paciente ao exame hematológico de DNA”37 Completando tal linha de intelecção, concluiu, em artigo publicado no site do Conselho da Justiça Federal, o Ministro MOREIRA ALVES: “No Supremo Tribunal Federal, não há muito, tivemos uma vasta discussão em habeas corpus, em que uma juíza havia determinado, debaixo de vara, a condução de um investigando de paternidade que se recusava a extrair sangue para efeito do exame de DNA. A juíza não teve dúvida e disse: conduza-se, ainda que à força. Ele alegava: tenho terror e pânico até de injeção, quanto mais de tirar sangue. Depois de uma vasta discussão no Plenário do Supremo Tribunal Federal, por 6 votos a 5, considerou-se que isso atingia um direito de personalidade dele de não querer tirar sangue, mas corria contra ele, obviamente, a presunção de que realmente fosse o pai”38. 37 HC 76.060-SC, Rel. Min. Sepúlveda Pertence (31-3-98), constante no Informativo 106 do Supremo Tribunal Federal. 38 José Carlos Moreira Alves, A Parte Geral do Projeto do Código Civil, disponível no endereço eletrônico:www.cjf.gov.br/revista/numero9/artigo1.htm, acessado em 20 de dezembro de 2001, também publicado, segundo informação encontrada no site, na Revista CEJ — quadrimestre: set./dez. 1999. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 42 Firmou-se, portanto, ainda que em nível jurisprudencial, a presunção de veracidade da prova que se pretendia produzir, em face da recusa injustificada à sua realização. Ora, o Novo Código Civil, seguindo esta vertente de pensamento, sem violar a intangibilidade do corpo humano, consagra a mesma presunção, agora em nível legal (art. 232), decorrente da negativa injustificada à colheitado material humano para a realização do DNA. Assim, a partir da eficácia da nova Lei, poderá o réu esquivar-se da realização do exame, suportando a presunção de paternidade que a prova pretendia reconhecer ou afastar. Nessa linha de intelecção, foi editada, em 18 de outubro de 2004, a Súmula 301 do Superior Tribunal de Justiça, preceituando que “em ação investigatória, a recusa do suposto pai a submeter-se ao exame de DNA induz presunção juris tantum de paternidade”. Enfatizou o relator, Ministro Luis Felipe Salomão, que “a recusa do descendente, quando no polo passivo da ação de investigação de paternidade, em ceder tecido humano para a realização de exame pericial, não se reveste de presunção relativa e nem lhe impõe o ônus de formar robusto acervo probatório que desconstitua tal presunção”39. Segue quadro esquemático oferecido pelo Professor Flávio Tartuce40. 39 STJ, Resp 714.969, 4ª T., rel. Min. Luis Felipe Salomão, disponível em www.editoramagister.com, 15-3-2010. 40 Flávio Tartuce, Op. Cit, p 1276 TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 43 Aqui um Quadro oferecido pelo professor Carlos Roberto Gonçalves. DA PROVA Conceito É o meio empregado para demonstrar a existência do ato ou negócio jurídico. Requisitos Deve ser: a) admissível (não proibida por lei); b) pertinente (adequada à demonstração dos fatos em questão); c) concludente (esclarecedora dos fatos controvertidos). Princípios ■ Não basta alegar, é preciso provar, pois allegare nihil et allegatum no probare paria sunt (nada alegar e alegar e não provar querem dizer a mesma coisa). ■ O que se prova é o fato alegado, não o direito a aplicar, pois é atribuição do juiz conhecer e aplicar o direito (iura novit curia). ■ O ônus da prova incumbe a quem alega o fato, e não a quem o contesta. ■ Os fatos notórios independem de prova. Meios de prova Dispõe o art. 212 do CC: “Salvo o negócio a que se impõe forma especial, o fato jurídico pode ser provado mediante: I — confissão; II — documento; III — testemunha; IV — presunção; V — perícia.” Confissão Conceito: ocorre quando a parte admite a verdade de um fato, contrário ao seu interesse e favorável ao adversário (CPC, art. 348). Espécies: a) judicial e extrajudicial; b) espontânea e provocada; e c) expressa e presumida (ficta) pela revelia. Documento Função: tem função apenas probatória. Espécies: a) público (o elaborado por autoridade pública, no exercício de suas funções, como as certidões e os traslados); b) particular (o elaborado por particulares, como uma carta ou um telegrama). Testemunhas Podem ser: a) instrumentárias: as que assinam o instrumento; e b) judiciárias: as que prestam depoimento em juízo. Presunção Conceito: é a ilação que se extrai de um fato conhecido para se chegar a um desconhecido. Espécies: a) legais (juris) — as que decorrem de lei e se dividem em absolutas (juris et de jure: que não admitem prova em contrário) e relativas (juris tantum: que admitem prova em contrário); b) comuns (hominis) — as que se baseiam no que ordinariamente acontece, na experiência da vida. Perícia Segundo o art. 420 do CPC, a prova pericial consiste em exame, vistoria ou avaliação: a) exame: é a apreciação de alguma coisa, por peritos, para auxiliar o juiz a formar a sua convicção. Ex.: exame grafotécnico, hematológico etc.; b) vistoria: é perícia restrita à inspeção ocular, comum nas ações imobiliárias; c) avaliação: é o exame pericial destinado a apurar o valor de determinado bem, comum nas desapropriações e indenizatórias. TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 44 BIBLIOGRAFIA Antonio Luis da Camara Leal, Da Prescrição e da Decadência, 2. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1959, Caio Mário da Silva Pereira, Instituições de Direito Civil, 19, Ed., Rio de Janeiro: forense, 2001, Flávio Tartuce. – 10. ed. rev., atual. e ampl. – Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2014. Francisco Amaral, Direito civil, p. 555; Silvio Rodrigues, Direito civil, v. 1, p. 323. t. 3, Gonçalves, Carlos Roberto, Direito Civil Brasileiro Vol I, 10 Ed. São Paulo – Editora Saraiva, 2012, Humberto Theodoro Júnior, Curso de Direito Processual Civil, 21. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1998, v. 2 Maria Helena Diniz, Curso de Direito Civil Brasileiro, 17. ed., São Paulo: Saraiva, 2001, v. 1 José Carlos Moreira Alves, A Parte Geral do Projeto de Código Civil brasileiro, p. 155-156., 130/1001; , 652/128 e 656/220. M. de Carvalho Santos, Código Civil Brasileiro Interpretado — Parte Geral, Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1950, v. III, Miguel Reale, O Projeto do Novo Código Civil, 2. ed., São Paulo: Saraiva, 1999, Pablo Stolze Gagliano; Rodolfo Pamplona Filho, Novo Curso De Direito Civil 1, Editora Saraiva, São Paulo, 14ª edição, Renan Lotufo, Código Civil comentado, p. 189. Caio Mário da Silva Pereira, , Instituições de Direito Civil, v. 1, Rubens Requião, Curso de Direito Comercial, 23. ed., São Paulo: Saraiva, 1998, v. 2, Sérgio Carlos Covello, A Obrigação Natural — Elementos para uma Possível Teoria, São Paulo: LEUD, 1996, TRABALHO DE APS – PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA – ANO 2015. 45 Wilson de Souza Campos Batalha, Lei de Introdução ao Código Civil, São Paulo: Max Limonad, 1957, v. 1, t. 1, p. 229 e s. Pablo Stolze Gagliano, Op cit, p. 1301 . PERIÓDICOS E SITES José Carlos Moreira Alves, A Parte Geral do Projeto do Código Civil, disponível no endereço eletrônico:www.cjf.gov.br/revista/numero9/artigo1.htm, acessado em 20 de dezembro de 2001, também publicado, segundo informação encontrada no site, na Revista CEJ — quadrimestre: set./dez. 1999. STJ, Resp 714.969, 4ª T., rel. Min. Luis Felipe Salomão, disponível em www.editoramagister.com, 15-3-2010.