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Medicina – 3º Período – Arielle Moraes Prática Médica I – Tosse Tosse A tosse é o mais importante e mais frequente sintoma respiratório. Esse sintoma pode indicar uma variedade de patologias, podendo ser pulmonares ou extra-pulmonares. É preciso saber diferenciar se é uma tosse aguda, tosse crônica, tosse por infecção, se é relevante, uma emergência, ou se é apenas um sintoma associado. A tosse consiste em uma expiração rápida e profunda. Ocorre a inspiração, e ao inspirar ocorre fechamento da glote, contração dos músculos respiratórios como diafragma, e ao forçar a glote será aberta subitamente fazendo uma expiração profunda, causando a tosse. É um fato de incomodo e uma das principais causas de falta ao trabalho e ao colégio. Causa desconforto em lugares cheios, e certo constrangimento em idosos com incontinência urinária (ao tossir acaba urinando acidentalmente). Ainda acarreta prejuízo no sono e leva à um custo, muitas vezes não necessário, com a saúde. Pode causar hemorragias conjuntivais pelo aumento da pressão, fratura de arcos costais em pacientes mais idosos e debilitados, hérnias inguinais pelo aumento da pressão em pessoas idosas, e ainda desconforto em recém-operados. Fisiopatologia Existem dois mecanismos de depuração para proteção das vias aéreas com relação à entrada de partículas procedentes do meio externo. ▪ O clearance mucociliar, através do qual os movimentos ciliares impulsionam, no sentido cranial, uma fina camada de muco com partículas a serem depuradas. Vai ajudar a expelir pelo muco. ▪ A tosse ocorrendo por meio de ato reflexo é o segundo mecanismo envolvido neste sistema de proteção das vias aéreas inferiores, podendo ser voluntária ou involuntária. Neurofisiologia O reflexo da tosse envolve cinco grupos de componentes: receptores de tosse, nervos aferentes, centro da tosse, nervos eferentes e músculos efetores. O mecanismo da tosse requer um complexo arco reflexo iniciado pelo estímulo irritativo em receptores distribuídos pelas vias aéreas e em localização extratorácica. O início deste reflexo dá-se pelo estímulo irritativo que sensibiliza os receptores difusamente localizados na árvore respiratória, e posteriormente ele é enviado à medula. (A parte de receptores que é mais importante, e não a parte de nervos) Os receptores da tosse podem ser encontrados: ▪ Vias aéreas superiores: cavidade nasal, seios maxilares (nervo trigêmeo aferente), faringe (nervo glossofaríngeo aferente), canal auditivo externo e membrana timpânica. ▪ Vias aéreas inferiores: laringe, carina e brônquios. ▪ Na pleura, no estômago (nervo vago aferente), no pericárdio e diafragma (nervo frênico aferente) e no esôfago. ▪ Os receptores de tosse não estão presentes nos alvéolos e no parênquima pulmonar. As vias aferentes partem das zonas tussígenas indo até o bulbo. As vias eferentes dirigem-se do bulbo à glote e aos músculos expiratórios responsáveis pelo fechamento da glote, pelo nervo frênico e pelos nervos que inervam os músculos expiratórios. Origem da Tosse A tosse resulta de estimulação dos receptores da mucosa das vias respiratórias. Os estímulos podem ser: ▪ Natureza Inflamatória: hiperemia, edema, secreções e úlcerações (asma). ▪ Mecânica: poeira, alergia, irritação das vias aéreas, corpo estranho, aumento ou diminuição da pressão pleural como ocorre nos derrames e nas atelectasias. ▪ Química: gases irritantes, inalantes, contato com ambientes insalubres e pós químicos. ▪ Térmica: frio ou calor excessivo, extremos de temperatura. Benefícios ▪ Eliminação das secreções das vias aéreas pelo aumento da pressão positiva pleural, o que determina compressão das vias aéreas de pequeno calibre, e através da produção de alta velocidade do fluxo nas vias aéreas. ▪ Proteção contra aspiração de alimentos, secreções e corpos estranhos. É o mais efetivo mecanismo quando existe lesão ou disfunção ciliar, como acontece na mucoviscidose, asma e discinesia ciliar. ▪ Proteção contra arritmias potencialmente fatais ao originar aumento da pressão intratorácica. Investigação ▪ Frequência – frequente ou rara ▪ Intensidade – forte ou fraca ▪ Tonalidade – rouca, afônica, bitonal ou “de cachorro” ▪ Expectoração – seca ou produtiva ▪ Decúbito – melhora ou piora ▪ Período do dia em que é maior sua intensidade Classificação ▪ Tosse Aguda: duração inferior a três semanas - História e exame físico minuciosos - Doença potencialmente grave ou não? - Doenças de baixo risco: Resfriado, gripe, sinusite aguda, traqueobronquites agudas, rinite, exposição a alérgenos e irritantes, medicamentos, exacerbações de asma, DPOC e rinossinusites. - Doenças de alto risco: exacerbações graves de asma, DPOC ou rinossinusites, pneumonia, edema pulmonar cardiogênico e embolia pulmonar. ▪ Tosse Subaguda: duração entre três e oito semanas - História e exame físico minuciosos - Pós infecciosa ou outra causa? - Pós infecciosa: história recente de virose - Outras causas: as clássicas da tosse crônica como asma e síndrome das vias aéreas superiores (rinossinusites), doença do refluxo gastroesofágico, bronquite eosinofílica e doenças broncopulmonares evidenciadas pela história clínica, exame físico e exames de imagem ▪ Tosse Crônica: duração de mais de oito semanas - DPOC, asma crônica e tuberculose Duração ▪ Tosse Aguda: duração inferior a três semanas ▪ Tosse Subaguda: duração entre três e oito semanas ▪ Tosse Crônica: duração de mais de oito semanas Particularidades ▪ Características da tosse: produtiva, seca, irritativa, pigarro, paroxística, rouca, com estridor. ▪ Ritmo diário: matinal, noturna, piora com decúbito ▪ Época e condições de início: locais e ambientes, após infecções, exercícios, mudança de postura, deglutição, exposição a alérgenos e irritantes. ▪ Enfermidades, sinais e sintomas associados: atopia, sintomas gastrointestinais, déficit pondero estatural, parasitoses, cardiopatias, hipoxemia, infecções em outros aparelhos, sinusite, hiperplasia de adenoides. Frequência Depende da abundância, do grau de irritação das zonas tussígenas e do grau de irritabilidade das vias reflexas que produzem a tosse. Não há relação direta entre a frequência da tosse e a gravidade das lesões. Afecções benignas das vias aéreas inferiores podem causar mais tosse que lesões graves do parênquima pulmonar. Intensidade ▪ Tosse em ímpetos isolados, variando de frequência. ▪ Tosse quintosa: surgir em acessos, geralmente de madrugada, com intervalos curtos de acalmia, acompanhada de vômitos e sensação de asfixia (coqueluche). ▪ Tosse emetizante: caracteriza-se pela existência de vômitos por ela provocado. Aparece geralmente após as refeições. É um acesso de tosse violenta, seca, em geral quintosa, vem vômito e sem náuseas. Tonalidade ▪ Rouca: encontrada nas laringites crônicas (causadas geralmente por infecções por fungos), nos processos ulcerosos das cordas vocais (câncer, tuberculose, sífilis), no edema de cordas vocais. Fumantes também. ▪ Afônica: encontrada nas lesões das cordas vocais, na paralisia dos músculos da que atuam no fechamento da glote, no edema de laringe. ▪ Bitonal: é própria dos indivíduos que apresentam lesão do nervo recorrente, em geral localiza-se à esquerda. Comum em recém-nascidos que fazem cirurgia de fechamento do canal arterial. ▪ “De cachorro”: tonalidade grave, é estridente, um tanto rouca. Própria de compressões, inflamações e infecções traqueobrônquicas. Expectoração ▪ Tosse seca: ocorre sem que haja matéria estranha para expelir da árvore brônquica ou quando, embora havendo secreção, esse se mantém com dificuldade de ser removível, como na bronquiolite, traqueíte e laringite. Pode ter origem devido à uma irritação fora do aparelho respiratório. ▪ Tosse úmida: tosse seguida de expectoração de substâncias anormais como muco, sangue e pus. Expectoração é consequência da tosse. Deve ser avaliado o volume, cor, odor, transparência e consistência. Geralmente é classificada por sua constituição como: serosa,rica em água, como no edema pulmonar agudo; mucoide como asma; purulento rico em piócitos e hemoptoico com sangue. Os bronquíticos crônicos (bronquiectasia) costumam eliminar pela manhã grande quantidade de secreção. - Lesões alveolares – pneumonias bacterianas: após algumas horas ou dias surge uma secreção abundante, amarelo-esverdeada, pegajosa e densa. - Lesões intersticiais – pneumonias virais Fetidez típica do abcesso pulmonar. Tuberculose: expectoração com sangue geralmente desde o início da doença Decúbito A mudança de posição do corpo de um lado para o outro ou passando da posição supina para sentada tem um violento acesso de tosse. Pode tratar-se de caverna, dilatação brônquica, ou de derrame pleural moderado. O líquido se desloca e vai ocupar outros locais, irritando novos pontos da pleura ou da mucosa brônquica, alcançando novos filetes do vago, produzindo a tosse. Causas Aparelho respiratório: laringe, traqueia, brônquios e pleura, bronquites agudas e crônicas, bronquiectasias, tuberculose pulmonar, carcinoma brônquico, infarto pulmonar e pleuris. Outros aparelhos: reflexos, adenopatias traqueobrônquicas, dentárias, amigdalianas, faríngea (faringite crônica), gástrica (ingestão de bebidas frias), intestinal (vermes, tumores fecais, hemorroidas, etc), hepática (litíase biliar) e uterina. As mais comuns são as que provêm de aneurismas da aorta torácica e da ICC. Tosse Nervosa É necessário que não se encontre nem no aparelho respiratório, explorado clinicamente e radiologicamente, nem em qualquer outro ponto do organismo nenhuma causa capaz de explicar o fenômeno que se observa e que o paciente apresente sinais de excessivo nervosismo ou de histeria capazes de justificar a natureza nervosa da sua tosse. A tosse nervosa é seca, sonora, persistente, incomoda, fatigante, excepcionalmente quintosa, cessando geralmente durante o sono e durante as refeições. Outro tipo de tosse nervosa é realmente um tique. Causas ▪ Asma brônquica – geralmente seca ▪ Refluxo gastroesofágico ▪ Sinusites – seca por irritação de orofaringe associada a dor, cefaleia e febre ▪ Bronquites – comumente purulenta ▪ Bronquiectasias ▪ Medicamentos (bloqueadores da ECA, betabloqueadores, AINEs, antagonistas do cálcio) ▪ Pneumonias ▪ Irritação do canal auditivo externo – tosse seca ▪ Tensão nervosa (tosse psicogênica) ▪ Adenoides ▪ Amigdalites ▪ Faringites – tosse seca ▪ Laringites ▪ Traqueítes ▪ Pleurites ▪ Tuberculose pulmonar – tosse com sangue ▪ Abcesso pulmonar ▪ Câncer de pulmão ▪ Embolia pulmonar – tosse com sangue ▪ Infarto pulmonar ▪ Pneumoconicose ▪ Insuficiência ventricular esquerda ▪ Corpo estranho – tosse seca e depois de um período evolui com produção de secreção ▪ Estenose mitral ▪ Tumores do mediastino ▪ Megaesôfago ▪ Edema agudo de pulmão (com espuma) – presença de raios de sangue Drogas que Reduzem o Reflexo da Tosse ▪ Antitussivos – dextrometorfano (não opióide) e codeína (opióide) são inibidores do reflexo da tosse. ▪ Mucolíticos, mucocinéticos, expectorantes e fluidificantes e outros remédios apresentados aos médicos e familiares para auxiliar a eliminação da secreção brônquica, e por consequência da tosse, são produtos sem comprovação científica. ▪ Beta-adrenérgicos (asma) – salbutamol ▪ Beta2-adrenérgico + ipatrópio por via inalatória (nebulização) ▪ Corticoesteróide por via inalatória (budesonida e outros) ou mesmo sistêmica (prednisolona por via oral) estão sendo pesquisados e já usados ▪ Anti-histamínicos – fármacos como desclorfeniramina ou cetirizina Obs: nenhum deles tem estudos comprovando eficácia de 100%. É usado principalmente codeína. Mecanismos de Supressão ou de Diminuição da Efetividade da Tosse ▪ Anormalidades ou alterações no arco reflexo que podem tornar os receptores ineficazes ou pouco efetivos ▪ Idosos ou crianças com retardo de desenvolvimento neuropsicomotor grave – baixo reflexo para tosse ▪ Uso de medicamentos sedativos e narcóticos ▪ Tumores de sistema nervoso central e hipertensão intracraniana ▪ Doenças neuromusculares pela menor capacidade de mobilizar o ar na fase inspiratória ▪ Cirurgias abdominais e torácicas ▪ Anomalias da laringe com ineficácia de abertura da glote fisiologicamente e por procedimentos médicos como traqueostomia Micoplasma Manifestação clínica: tosse seca somente, sem febre nem outros sintomas. Geralmente a tosse tem duração de 15 a 30 dias. O início da tosse geralmente é seca e depois pode evoluir para produtiva pois o paciente toma expectorantes. Se o paciente toma anti-histamínicos que melhoraram a tosse enquanto estava tomando, então o tratamento pode ser feito para micoplasma: azitromicina de 3 a 5 dias ou até resolver. É passado de maneira muito fácil, apenas pelo ar já é possível se contaminar. Ele principalmente coloniza e irrita a orofaringe.