Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

1 
Breve Introdução à Ergonomia 
Francisco Soares Másculo, PhD, UFPB 
Mario César Vidal, Dr, COPPE/UFRJ 
 
Cenas da vida diária 
Suponha um trabalhador diante de um microcomputador: monitor, teclado, mouse, mesa e 
assento formam um conjunto nem sempre harmônico. Esta pessoa trabalha com uma máquina, 
maravilhosa e rápida, em ar condicionado, num móvel da melhor fabricação. Mas se queixa de 
dores lombares, nas mãos, no pescoço. Alguém sabe explicar o porquê? 
Vejamos uma grande confecção onde a produção acontece num galpão de grande porte. Impera 
o ruído das máquinas de corte, pesponto, costura, acrescidos do calor resultante de própria 
edificação e das prensas de acabamento. Os resíduos têxteis formam uma poeira que reduz a 
iluminação geral obrigando a que cada posto tenha uma iluminação local que aumenta ainda 
mais a contrante térmica e compromete a qualidade do ar. O ambiente se caracteriza ainda pelo 
odor de tecidos novos, alguns com muito pouco tempo de saída da tinturaria. É ali onde se 
trabalha. 
Suponha agora um bom e antigo almoxarife numa grande concessionária autorizada de uma 
montadora. Suas tarefas são relativamente simples: receber um pedido de material, localizar e 
trazer as peças encomendadas. Rotineiro, até monótono, mas o cidadão se queixa de tensão, 
estresse e outras coisas que não fazem lá muito sentido à primeira vista. Na verdade, por trás da 
pressuposta rotina existe uma complexidade recôndita e nebulosa em transformar a citação de 
uma peça para um carro popular em código 067893452PW456, cuja disponibilidade deve se 
verificada na posição BX / 357 / l-8. Depois disso, conferir no registro de entrada de estoques 
recentemente informatizado. Uma vez localizados estes dados num computador moderno à 
vista do cliente, eles se traduzem, para o nosso almoxarife, na posição física do estoque: a peça se 
encontraria na prateleira atrás da caixa de grampos que chegou ontem. O nosso almoxarife, após 
essa maratona mental de busca, ainda terá de ir até o local, bem no fundo do magazine. Ao 
chegar à posição do estoque, constata que existiu um pequeno erro de lançamento. Retorna para 
comunicar que a solicitação não pode ser atendida, pois a peça assinalada como existente no 
sistema pertence à série especial "Millenium III", e que, portanto, não serve para o modelo do 
cliente. E na saída do trabalho ainda ouve seu colega lanterneiro falar da "moleza" do trabalho 
na seção de estoque... 
A vida diária pode vir a ser muito injusta com um chofer de caminhão de entregas, muitas vezes 
ofendido por pessoas que certamente ignoram que para além do acelerar e trocar marchas, frear 
e estacionar, esta atividade possui dimensões físicas como carga e descarga – dimensões mentais 
complexas e urgentes como o estabelecimento de itinerários sob pressão do horário de entrega e 
em face de contingências como engarrafamentos, outros caminhões de entregas ... – e tendo 
instâncias afetivas importantes, já que tudo isso acontece em meio a um trânsito intenso onde 
estão todos mais ou menos estressados. Ao fundo, o delicioso concerto urbano de buzinas, tudo 
isso transpassado pela "suavidade diáfana" de motores desregulados em funcionamento. 
 2 
Se você passar a reparar em postos de trabalho de computador com atenção, certamente 
vai observar situações do tipo: altura do monitor muito alta ou muito baixa, obrigando o 
operador a elevar ou abaixar a cabeça, causando tensão no pescoço; cadeiras muito baixas 
ou altas, causando formigamento nas coxas; altura inadequada do teclado e mouse e 
ausência de suportes para os braços, obrigando a musculatura das mãos e ombros a 
atuarem sem necessidade; ausência de suportes para os pés e punhos; entre outras 
inadequações. 
 
Em 29/09/06 ocorreu o famigerado acidente em que colidiram um Boeing 737, que fazia o 
vôo 1907 da empresa aérea Gol, entre as cidades de Manaus e Brasília, e um jato de menor 
porte, Legacy, em que perderam as vidas 154 pessoas. Os aviões voavam em sentido 
contrário. Se imaginarmos a imensa quantidade de “estradas aéreas” verticais e horizontais 
no espaço entre aquelas duas cidades, os dispositivos de controle nos centros em terra e os 
mecanismos de segurança nas aeronaves, é inacreditável que pudéssemos ter essa 
ocorrência. Mas, o fato é que ocorreu e as causas por mais inconclusas que estejam, 
certamente tiveram algum componente de projeto ergonômico inadequado. Entre outras 
supostas possibilidades, pode-se citar: 
a) O software. O software foi concebido para o plano de vôo entrar na tela, 
independentemente da autorização dos controladores. Isso realmente levou os 
controladores a acreditarem que o jato estava a 36 mil metros (estava a 37 mil onde 
se deu a colisão). 
b) O “transponder”. Este instrumento que possibilita o piloto ser informado da 
aproximação de outra aeronave estava desligado no jato Legacy. A National 
Transportation Safety Board, órgão de segurança aérea dos Estados Unidos vai 
obrigar que as aeronaves possuam dispositivo de informação auditivo para informar 
ao piloto quando o “transponder” estiver desligado. 
c) A equipe responsável pelo acompanhamento. Este é feito por um centro de 
controle até determinado ponto e daí passa para outro. Isso requer comunicação 
clara e sem possibilidade de erro de quem esta controlando o que. 
d) Linguagem verbal. Os controladores devem se comunicar em uma língua universal, 
no caso inglês. Nem sempre essa comunicação é clara. 
e) A localização. As aeronaves são acompanhadas em monitores através de 
rastreamento por radares. Há momentos, dizem os controladores, que as aeronaves 
desaparecem do monitor, aparecem sombras que não são reais, etc. 
f) A jornada de trabalho dos controladores. Como faltavam controladores estes 
tinham que trabalhar mais tempo. 
g) Carga mental. Pelo mesmo motivo anterior eles controlavam um número maior de 
aviões que o recomendado internacionalmente. 
 
Observando-se o controle remoto de uma determinada TV, verifica-se a existência de 48 
teclas e 31 funções. É necessário fazer um curso para uma pessoa comum poder utilizar 
todas as possibilidades que esse instrumento oferece. Isso sem considerar questões do tipo 
tamanho das teclas e sua disposição física no controle devido à limitação do tamanho. 
 
Já que falamos em TV, vamos colocar nosso tema em imagens. As figuras e seguir ilustram 
atividades de trabalho em dois postos de uma determinada indústria. No primeiro posto o 
trabalhador realiza os procedimentos para acondicionar o produto final em sacos de 20 kg. 
Após pegar o saco de papelão e abri-lo, ele posiciona-o na balança e move a alavanca para 
baixo, assim ele libera o produto que desce por gravidade. Ele controla visualmente o peso 
na balança e quando o peso estipulado é alcançado, ele fecha o dosador também acionando 
 3 
a alavanca. Em seguida segura o saco por baixo e faz uma rotação de tronco dando dois 
passos para colocar o saco em uma esteira rolante. 
 
 
Figuras 01 e 02: Operação de enchimento. 
 
 
Figuras 03 e 04: Palletização. 
 
No segundo posto o trabalhador pega o saco que já foi costurado na esteira e transporta-o 
até o local em que esta o pallet e o arruma em 08 pilhas de 4 por 4 sacos, que atingem 1,70 
m. Ambos fazem isso durante uma jornada de 8 horas diárias. 
 
Você poderá observar que os trabalhadores estão bem protegidos de capacete, luvas, 
máscaras, botas e usam óculos de proteção. Mas, também notará que no primeiro posto a 
balança poderia ter uma altura que evitasse que ele se curvasse para pegar o saco, que a 
alavanca de acionamento do dosador exige a elevação dos braços, que a esteira poderia 
estar ao lado da balança. No segundo posto o pallet e a esteira estão muito afastados. O 
trabalhador para arrumar os primeiros sacos tem que se curvar e a pilha ao atingir alturas 
mais altas irá exigir elevação das mãos, o queé agravado pelo peso de 20 kg. 
 
Exste semelhança entre esses casos? Bem, em todos eles há objetos, máquinas ou sistemas 
projetados pelo homem em principio para facilitar a sua vida. O problema é que eles 
também podem provocar dores, sofrimentos, lesões e tragédias. A Ergonomia lida com 
isso tudo. 
 
Mas o que nós, engenheiros de produção temos a ver com isso tudo? 
 4 
Ergonomia e Engenharia de Produção 
 
A Ergonomia contribui para a Engenharia de Produção tanto fornecendo seus 
conhecimentos para a subárea de Engenharia do Produto como mais especificamente na 
subárea que podemos denominar Engenharia do Trabalho, que objetiva projetar, implantar 
e controlar o posto de trabalho e a maneira de trabalhar. Esta engloba os conhecimentos 
das disciplinas de Engenharia de Métodos, Organização do Trabalho, Processos de 
Trabalho, Higiene e Segurança do Trabalho, Layout ou Planejamento das Instalações, além 
da própria Ergonomia. A Figura 5 é uma representação esquemática de um processo de 
transformação Entradas x Saídas, característica dos sistemas produtivos, os diversos 
conteúdos profissionalizantes da Engenharia de Produção (ABEPRO, 2007), e a 
Engenharia do Trabalho com suas disciplinas. 
 
 
Figura 05 – Modelo Simplificado de Sistema de Produção, Conteúdos Profissionalizantes da Engenharia de 
Produção e a Ergonomia. 
4. Definição, propósitos e finalidades da Ergonomia 
A Ergonomia é uma ocupação de pessoas qualificadas para responder às demandas acerca da 
atividade de trabalho. E como vimos acima, estas demandas estabelecem campos de interesse 
amplos e diversificados, que abrangem temas que vão da anatomia à teoria das organizações, do 
cognitivo ao social, do conforto à prevenção de acidentes. 
Não inventemos a roda. A seguir mos a definição internacional de Ergonomia aprovada pelo 
conselho cientifico da International Ergonomics Association em San Diego, USA, 2000. International 
Ergonomics Association: P.O. Box 1369, Santa Monica, CA 90406-1369, USA, Site: 
http://ergonomics-iea.org. 
“Ergonomia (ou Fatores Humanos) é a disciplina científica que trata da compreensão das interações 
entre os seres humanos e outros elementos de um sistema, e a profissão que aplica teorias, princípios, 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
OUTROS 
FINANCEIROS 
HUMANOS 
FÍSICOS 
ENTRADAS: SAIDAS: 
BENS 
SERVIÇOS 
RESIDUOS 
OUTROS 
Ergonomia 
Organização do Trabalho, 
Engenharia de Métodos, 
HST e Layout. 
 5 
dados e métodos, a projetos que visam otimizar o bem estar humano e a performance global dos 
sistemas. 
 Os praticantes da Ergonomia, Ergonomistas, contribuem para o planejamento, projeto e a 
avaliação de tarefas, postos de trabalho, produtos, ambientes e sistemas para torná-los compatíveis com 
as necessidades, habilidades e limitações das pessoas.”(IEA, 2000). 
Isto nos conduz a uma formulação deontológica, segundo a qual Ergonomia, antes de tudo, é 
uma atitude profissional que se agrega à prática de uma profissão definida. Neste sentido é 
possível falar de um médico ergonomista, de um psicólogo ergonomista, de um designer 
ergonomista e assim por diante. Esta atitude profissional advém da própria definição 
estabelecida pela Associação Brasileira de Ergonomia: 
“A Ergonomia objetiva modificar os sistemas de trabalho para adequar as atividades nele existentes às 
características, habilidades e limitações das pessoas com vistas ao seu desempenho eficiente, confortável e 
seguro.” (ABERGO, 2000). 
Esta definição que coloca finalidades – modificar os sistemas de trabalho – propósitos – adequar 
a atividade às características, habilidades e limitações das pessoas – e critérios – eficiência, 
conforto e segurança – necessita ser complementada por uma outra, que estabeleça qual a 
tecnologia a que a Ergonomia está referida ou que possua um referente de suas finalidades, 
propósitos e critérios. Esta tecnologia se aplica à realização (concepção, construção e 
manutenção) de interfaces entre as pessoas e os sistemas, melhor dizendo, estabelecendo uma 
relação de adequação entre os aspectos humanos presentes na atividade de trabalho e os 
demais componentes dos sistemas de produção (tecnologia física, meio-ambiente, softwares, 
conteúdo do trabalho e organização da produção) através dessas interfaces. Por adequação 
estamos significando uma orientação para o desenvolvimento das interfaces entre as pessoas e 
destas com a tecnologia e a organização. 
 Cabe, neste momento, fazer uma importante observação: esta classificação tem apenas 
finalidades didáticas para compreensão de conceitos. Uma realidade de trabalho é um sistema 
complexo onde cada um dos aspectos intervem a seu modo, porém de forma interdependente 
ou sistêmica. Por exemplo, a atividade numa central de atendimento é regulada por seus 
conteúdos organizacionais: deve-se operar segundo um script, com margens de tempo 
preestabelecidas de acordo com o tipo de atendimento, com finalidades distintas em função da 
natureza do processo (reclamação, suporte ou venda). O operador – massivamente do sexo 
feminino – deve seguir esses parâmetros organizacionais – mas para atender uma pessoa do 
outro lado da linha numa situação dialogal de forte conteúdo cognitivo, que poderá complicar-se 
bastante em função do andamento nem sempre controlável da conversa. Os clientes usam 
termos diferentes daqueles que os operadores estão acostumados, tentam explicar-se de formas 
nem sempre compreensíveis, etc. E isso se passa num ambiente físico com vários aspectos a 
serem devidamente agenciados que vão desde os aspectos posturais decorrentes da composição 
do posto de trabalho até as interferências ambientais (acústicas, térmicas e lumínicas) do local 
sobre a atividade. A combinação de fatores que produzem um efeito contrário ao bom 
desempenho – no jargão de Ergonomia, os contrantes –, pode ser cruel, a grande incidência de 
LER/DORT’s na população de trabalhadores em call-centers corrobora esta afirmação, em que 
pese notáveis esforços de correção de mobiliário feitos por várias empresas em todo o mundo. 
 
 
 6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 06: Ergonomia como uma tecnologia de interfaces 
Em sua atividade de trabalho o ser humano interage com os diversos componentes do sistema 
de trabalho: com os equipamentos, instrumentos e mobiliários, através de interfaces sensoriais, 
energéticas e posturais, com a organização e o ambiente por interfaces ambientais, cognitivas, 
emocionais e organizacionais (figura 06). O ser humano, realiza essas interações de forma 
sistêmica, cabendo à Ergonomia modelar essas interações e otimizá-las, ou seja, buscar formas 
de adequação para o desempenho confortável, eficiente e seguro face às capacidades, limitações 
e demais características da pessoa em atividade (Vidal e Soares, 2000). 
Ainda assim, confrontando nossa caracterização da prática da Ergonomia como a de pessoas 
qualificadas para responder a demandas com a definição da IEA segundo a qual trata-se da 
compreensão das interações entre os seres humanos e outros elementos de um sistema, para 
otimizar o bem estar humano e a performance global dos sistemas, chegamos à evidente conclusão de que a 
Ergonomia vai requerer uma multiplicidade de abordagens que se complementem para dar 
conta dos principais aspectos de uma demanda. 
A Ergonomia vai permitir que existam interfaces adequadas. Estas interfaces adequadas 
atenderão de forma conjunta, integrada e coerente aos critérios de conforto, eficiência e 
segurança. Com estas será possível trabalhar corretamente: 
Sem as dores lombares no uso de modernos computadores em confortáveis escritórios; 
Executando as operações de manuseio de tecidos num ambiente condizente, sem intoxicações e 
sem perda de material; 
Encontrando os pedidos de peças, livros,itens eletrônicos, enfim, realizando operações de 
estoque numa forma eficiente e menos estressante, garantindo a qualidade de atendimento; 
Organizando a logística de entregas de forma adequada preparando o motorista, o cliente e as 
rotas evitando problemas reais do caos urbano. 
Segundo o Comitê de Planejamento Estratégico da Human Factors and Ergonomics Society, 
sociedade que agrupa os ergonomistas norte-americanos e que é a maior sociedade de 
Ergonomia do planeta, esta tecnologia tem como capítulos seus princípios – basicamente 
 
 7 
estabelecidos pela definição apresentada – suas especificações – no que consistem os 
resultados úteis, práticos e aplicados dos trabalhos de Ergonomia – seus métodos – que 
codificam a forma de trabalhar da equipe de Ergonomia – e suas técnicas – que concretizam a 
realização de especificações com base nos princípios e mediante o emprego dos métodos 
pertinentes ao problema de interface que está sendo tratado pela Ergonomia. 
5. Uma disciplina útil, prática e aplicada 
À luz do que vimos, a principal forma de se entender a Ergonomia é através de sua ausência 
que se traduz por perdas de produção em quantidade, em qualidade e ainda produz muitas 
conseqüências ruins sobre os operadores, usuários e sobre o ambiente, como doenças, erros, 
acidentes e poluição. 
A atitude profissional que caracteriza uma equipe de Ergonomia tem ao mesmo tempo uma 
dimensão1 cientifica, que traz fundamento às aplicações que realiza, e uma dimensão prática, que 
torna essa aplicação viável no mundo da produção. A combinação das dimensões científicas e 
práticas da Ergonomia revela sua utilidade como uma disciplina que nasceu e se estabelece 
voltada para resolver problemas, essencialmente. Essa, por sinal, tem sido uma grande 
dificuldade da Ergonomia como atividade acadêmica, como bem o assinalou Daniellou (1991). 
A Ergonomia está exposta a dois tipos não coerentes de avaliação: (i) avaliação sob critérios 
científicos acerca de suas modelagens e formulações, (ii) avaliação sob critérios econômico-
sociais do valor de suas propostas de soluções. 
A superação desse duplo registro está numa compreensão da Ergonomia como disciplina útil, 
prática e aplicada. Como disciplina útil, através de seus procedimentos de modelagem da 
realidade do uso e a incorporação de conhecimentos para a melhoria das interfaces entre os 
componentes humanos e os demais constituintes do sistema de produção, a Ergonomia tem 
tido bastante sucesso em tratar de problemas onde outras abordagens têm deixado a desejar. 
Como disciplina científica a Ergonomia através do estudo das capacidades e limitações e 
demais características humanas necessárias para o projeto de boas interfaces, assim como busca 
modelar a atividade de trabalho para garantir a qualidade operacional deste projeto. Para tanto 
ela situa num cruzamento interdisciplinar entre várias disciplinas como Fisiologia, a Psicologia, a 
Sociologia, a Lingüística e práticas profissionais como a Medicina do Trabalho, o Design, a 
Sociotécnica e as Tecnologias de Gestão. Toda esta interdisciplinaridade se centra no conceito 
de atividade de trabalho (Figura 07). 
 
 
1
 Empregaremos muito este conceito de dimensões. O termo está sendo tomado no sentido topológico, segundo o 
qual uma entidade pode ser decomposta, rebatida ou derivada em dimensões constituintes, a partir de um contexto 
de referencia. Assim um ponto P se localiza no espaço euclidiano por sua distância à origem numa dada trajetória 
T. Esta trajetória pode ser complexa (curva reversa, por exemplo). Neste caso projetar a trajetória T em eixos 
retilíneos X, Y e Z simplifica o cálculo e a posição pode ser expressa em termos de valores x ,y e z tomados sobre 
aqueles eixos. Neste sentido X, Y e Z são os domínios das dimensões x, y e z de que se compõe a posição do ponto 
P, uma forma mais fácil de trabalhar do que uma distância d sobre uma trajetória T. 
 8 
 
Figura 07: Interdisciplinaridade da Ergonomia (Hubault, 1992, modificado) 
 A Ergonomia como interdisciplinaridade interage com várias disciplinas no campo das Ciências 
da Vida, Técnicas, Humanas e Sociais. Seus conteúdos se orientam para o Design, Arquitetura e 
Engenharia, cuja inserção nesses quadrantes é basicamente a mesma. 
Como disciplina prática a Ergonomia busca encaminhar soluções sempre adequadas aos 
usuários, operadores e à realidade das empresas e organizações ode as intervenções ergonômicas 
têm lugar. Uma boa Ergonomia pode até se limitar à produção de um laudo, de um parecer, de 
uma avaliação se esta for a demanda feita à Ergonomia. Mas isso é uma posição muito fraca. 
Qual o interesse de um laudo analítico e de um quadro esquemático se estas construções não 
desaguarem em um conjunto de medidas e providências concretas de transformação da 
realidade que os produziram? Em Ergonomia contemporânea a resposta é a via projetual: ou a 
Ação Ergonômica se resolve como concepção de sistemas, de artefatos ou de formas 
organizacionais, na perspectiva tecnologia de interfaces, ou terá representado um esforço vão. 
Um outro tema prático a que muitas equipes de ergonomistas em todo o mundo estão se 
voltando é a aferição da relação custo-benefício das ações ergonômicas. Consideramos este 
assunto de tamanha relevância que a ele dedicaremos um capítulo integral desta obra. 
Como disciplina aplicada ela traz os resultados dos tratamentos científicos de modelagem da 
realidade e de levantamento do estado da arte do problema ao desenvolvimento de tecnologia 
de interfaces para a concepção, análise, testagem, normatização e controle dos sistemas de 
trabalho. São assuntos aplicados de Ergonomia, portanto, a concepção de sistemas de trabalho 
sob o ponto de vista da atividade das pessoas que nele se integram, de produtos sob o ponto de 
vista de uso e manuseio pelos adquirentes, de sistemas informatizados sob a ótica da usabilidade 
(interatividade facilitada, amigabilidade, customização, etc.). de estruturas organizacionais do 
ponto de vista dos que nela trabalham, e assim por diante. 
5.1. Problemas retrospectivos, prospectivos e 
emergentes 
 Por ser uma disciplina útil, prática e aplicada a Ergonomia é indicada para tratar de 
problemas retrospectivos, prospectivos e emergentes nos sistemas de produção. 
 A compreensão do que esta acontecendo e que requer uma intervenção ergonômica – 
ou seja a construção de um diagnóstico ergonômico de um sistema de trabalho vai requerer o 
levantamento de problemas retrospectivos como: 
 9 
 
 custo de doenças ligadas ao trabalho; 
 inadequação dos postos de trabalho ou dos ambientes; 
 qualidade insatisfatória dos produtos e dos processos de produção; 
 ineficiências dos métodos de produção, de formação, de inspeção ; 
 defeitos dos produtos; 
 funcionamento inadequado de equipamentos e softwares. 
 
De posse de um diagnóstico ergonômico, é preciso agir para adequar as diferentes interfaces. A 
Ação Ergonômica, a partir dos elementos que o diagnóstico ergonômico lhe fornece, lida com 
problemas prospectivos como: 
 concepção de novos produtos, de sistemas de produção, de novas instalações ; 
 inovações nos equipamentos: mobiliário, maquinário, instrumentos e acessórios; 
 formação e treinamento na implantação de novas tecnologias e métodos. 
 
Porém em certas passagens é necessário que o sistema de trabalho responda a situações 
inusitadas e tenha a capacidade de absorver fatos novos. Assim sendo a ação ergonômica é 
indicada para tratar de alguns problemas emergentes como: 
 prevenção de acidentes e doenças do trabalho (ações básicas); 
 problemas cruciais de qualidade ou de produção (ações focadas); 
 adequação a novos parâmetros legais e/ou corporativos (ações ampliadas). 
 
 Conseqüentemente,as empresas e organismos diversos têm podido empregar, com 
muitas vantagens, os serviços de uma equipe de Ergonomia para intervir sobre estes diversos 
tipos de problemas com que a produção se defronta. Esses problemas podem ser referentes ao 
histórico da empresa (retrospectivos), à disposição para mudanças (prospectivos) ou mesmo 
urgentes e/ou desconhecidos ate então (caso das emergências). 
Constatamos que, em todo o mundo, a Ergonomia vem sendo objeto de uma explosão de 
demanda, com um número crescente de empresas solicitando consultorias e criando cargos para 
ergonomistas em seus organogramas. No Brasil, a demanda já ultrapassa bastante a capacidade 
de formação e treinamento hoje disponível no mercado. Demonstra esta assertiva o vertiginoso 
crescimento de normas internacionais sobre Ergonomia, no final do século XX (Figura 08). 
 
 
 10 
 Figura 08: Publicação de normas ISO de Ergonomia (Vidal e Bucich, 2001) 
Hendrick (1998) aponta ao menos quatro razões explicativas para esse quadro: 
Paradoxalmente um número razoável de pessoas se confrontou com o que Chong (1996) denomina de 
“voodoo ergonomics”. Isto produziu produtos, ambientes e processos rotulados como ergonômicos 
quando na verdade foram elaborados por pessoas sem uma competência certificada ou acreditada em 
Ergonomia. Essa é uma das razões que tem levado a IEA a estabelecer como prioritária e urgente o 
estabelecimento de padrões de formação e de certificação profissional, uma realidade já efetiva na 
América do Norte, na União Européia, no Japão e na Austrália. 
A Ergonomia contribui decisivamente para que os operadores tenham as condições requeridas 
para executar satisfatoriamente suas tarefas. Assim sendo, a explosão da demanda por 
Ergonomia o fato de que na vida cotidiana atual nos tornamos todos operadores, como o 
sustenta Mallet (1995). Cada um de nós “opera” diariamente algum tipo de sistema tais como 
automóveis, computadores, televisão aberta ou a cabo, telefones convencionais ou celulares. 
Neste sentido, é extremamente delicado considerar os aspectos humanos destas interfaces como 
solucionáveis pelo emprego de constatações de senso comum. Um grande número de 
ergonomistas experientes pode apresentar uma lista onde as decisões de projeto, apenas 
baseadas no senso comum, resultaram senão em acidentes graves, ao menos em aparelhos ou 
equipamentos cuja usabilidade (boa capacidade de uso ou manuseio) é bastante deficiente; 
Muitos responsáveis de empresas têm demandado Ergonomia simplesmente por se tratar da 
coisa certa a se fazer, até porque essas pessoas devem pensar naquilo que seja o mais adequado 
para realizar os objetivos estratégicos de suas organizações; 
Finalmente, embora haja muito pouca documentação a esse respeito, até por uma falha de 
formação e de sistemática de trabalho das equipes de Ergonomia, em alguns casos tem sido 
possível realizar uma avaliação do resultado das ações ergonômicas em termos de custo-
benefício. E essas avaliações têm sido muito positivas. 
 
Questões 
 
a) O que você entendeu por prática de projeto e disciplina de base? 
b) O que você entende por conhecer como o trabalho é feito? Por que o ergonomista deve 
conhecê-lo? 
c) Das causas do acidente da Gol, vôo 1907, qual é o que você acha o mais relevante? 
Justifique. 
d) Considerando a figura 05 do texto, explique a relação da Ergonomia com a Engenharia 
de Produção. 
e) Dê exemplos da utilidade, praticidade e aplicação da Ergonomia. 
Pesquisa 
 
Pesquise na Internet os sites da IEA e da ABERGO e descreva os seus conteúdos mais 
relevantes. 
 11 
 
Referências 
 
ABERGO (2000) – A definição Brasileira da Ergonomia: Contribuição para a definição Internacional de Ergonomia. 
Report 2000 to IEA Council, Brazilian Ergonomics Association, Rio de Janeiro & San Diego 
Benchekroun, (1997) – Avanços Recentes na metodologia de Análise Ergonômica do Trabalho. Palestra no 
GENTE/COPPE, julho de 1997. 
Bucich, C. e Vidal M.C. (2001) – Levantamento preliminar da normalização internacional em Ergonomia. 
Relatório Técnico, GENTE/COPPE, Rio de Janeiro. 
Chong, Ian (1996). The economics of ergonomics. Workplace Ergonomics, March/April, pp. 26-29. 
Daniellou (1991) – L’ergonomie en quête de ses principes. Octarès Editions, Toulouse, FR. 
Hendrick (1997) – Good Ergonomics is good Economics . HFES Publishing, USA 
IEA (2000) – Core Competencies for practitioners in Ergonomics. Triennial Report of the Executive Board of the 
IEA. IEA Press, Santa Monica. 
IEA (2000) – Definição Internacional de Ergonomia. Ação Ergonômica I(1), p.10. 
Mallett, R. (1995). Human factors: Why aren’t they considered? Professional Safety, Jul, pp.30-32. 
Másculo, F.S. (2008) – Ergonomia e Higiene e Segurança do Trabalho, em Introdução à Engenharia de Produção, 
Campus/Elsevier. Rio de Janeiro. 
 
Novo J. M. e Vidal, M.C (1999) – Sistema de assistência à emissão de laudos laboratoriais Anais do ABERGO 99, 
Salvador, Brasil 
Setti M.E. (1996 ) Aetatis Novo: A modernização do parque gráfico de um jornal diário. Tese de doutorado, 
COPPE/UFRJ. (orientador: Paulo Rodrigues Lima) 
Telles R. e Vidal, M.C. (1999) – Levantamento ergonômico da habitalidade dos barcos de pesca da região de Cabo Frio, 
RJ. Relatório de pesquisa, GENTE/COPPE. 
Telles, Vidal e Thiolent, (2000) – The ergonomic design of fishing vessels. Proceedings of the XIV triennial 
congress of the IEA, San Diego, USA. 
Vidal, M.C. (2002) Ergonomia na Empresa-Útil, Prática e Aplicada, EVC, Rio de Janeiro, RJ.

Mais conteúdos dessa disciplina