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1 Breve Introdução à Ergonomia Francisco Soares Másculo, PhD, UFPB Mario César Vidal, Dr, COPPE/UFRJ Cenas da vida diária Suponha um trabalhador diante de um microcomputador: monitor, teclado, mouse, mesa e assento formam um conjunto nem sempre harmônico. Esta pessoa trabalha com uma máquina, maravilhosa e rápida, em ar condicionado, num móvel da melhor fabricação. Mas se queixa de dores lombares, nas mãos, no pescoço. Alguém sabe explicar o porquê? Vejamos uma grande confecção onde a produção acontece num galpão de grande porte. Impera o ruído das máquinas de corte, pesponto, costura, acrescidos do calor resultante de própria edificação e das prensas de acabamento. Os resíduos têxteis formam uma poeira que reduz a iluminação geral obrigando a que cada posto tenha uma iluminação local que aumenta ainda mais a contrante térmica e compromete a qualidade do ar. O ambiente se caracteriza ainda pelo odor de tecidos novos, alguns com muito pouco tempo de saída da tinturaria. É ali onde se trabalha. Suponha agora um bom e antigo almoxarife numa grande concessionária autorizada de uma montadora. Suas tarefas são relativamente simples: receber um pedido de material, localizar e trazer as peças encomendadas. Rotineiro, até monótono, mas o cidadão se queixa de tensão, estresse e outras coisas que não fazem lá muito sentido à primeira vista. Na verdade, por trás da pressuposta rotina existe uma complexidade recôndita e nebulosa em transformar a citação de uma peça para um carro popular em código 067893452PW456, cuja disponibilidade deve se verificada na posição BX / 357 / l-8. Depois disso, conferir no registro de entrada de estoques recentemente informatizado. Uma vez localizados estes dados num computador moderno à vista do cliente, eles se traduzem, para o nosso almoxarife, na posição física do estoque: a peça se encontraria na prateleira atrás da caixa de grampos que chegou ontem. O nosso almoxarife, após essa maratona mental de busca, ainda terá de ir até o local, bem no fundo do magazine. Ao chegar à posição do estoque, constata que existiu um pequeno erro de lançamento. Retorna para comunicar que a solicitação não pode ser atendida, pois a peça assinalada como existente no sistema pertence à série especial "Millenium III", e que, portanto, não serve para o modelo do cliente. E na saída do trabalho ainda ouve seu colega lanterneiro falar da "moleza" do trabalho na seção de estoque... A vida diária pode vir a ser muito injusta com um chofer de caminhão de entregas, muitas vezes ofendido por pessoas que certamente ignoram que para além do acelerar e trocar marchas, frear e estacionar, esta atividade possui dimensões físicas como carga e descarga – dimensões mentais complexas e urgentes como o estabelecimento de itinerários sob pressão do horário de entrega e em face de contingências como engarrafamentos, outros caminhões de entregas ... – e tendo instâncias afetivas importantes, já que tudo isso acontece em meio a um trânsito intenso onde estão todos mais ou menos estressados. Ao fundo, o delicioso concerto urbano de buzinas, tudo isso transpassado pela "suavidade diáfana" de motores desregulados em funcionamento. 2 Se você passar a reparar em postos de trabalho de computador com atenção, certamente vai observar situações do tipo: altura do monitor muito alta ou muito baixa, obrigando o operador a elevar ou abaixar a cabeça, causando tensão no pescoço; cadeiras muito baixas ou altas, causando formigamento nas coxas; altura inadequada do teclado e mouse e ausência de suportes para os braços, obrigando a musculatura das mãos e ombros a atuarem sem necessidade; ausência de suportes para os pés e punhos; entre outras inadequações. Em 29/09/06 ocorreu o famigerado acidente em que colidiram um Boeing 737, que fazia o vôo 1907 da empresa aérea Gol, entre as cidades de Manaus e Brasília, e um jato de menor porte, Legacy, em que perderam as vidas 154 pessoas. Os aviões voavam em sentido contrário. Se imaginarmos a imensa quantidade de “estradas aéreas” verticais e horizontais no espaço entre aquelas duas cidades, os dispositivos de controle nos centros em terra e os mecanismos de segurança nas aeronaves, é inacreditável que pudéssemos ter essa ocorrência. Mas, o fato é que ocorreu e as causas por mais inconclusas que estejam, certamente tiveram algum componente de projeto ergonômico inadequado. Entre outras supostas possibilidades, pode-se citar: a) O software. O software foi concebido para o plano de vôo entrar na tela, independentemente da autorização dos controladores. Isso realmente levou os controladores a acreditarem que o jato estava a 36 mil metros (estava a 37 mil onde se deu a colisão). b) O “transponder”. Este instrumento que possibilita o piloto ser informado da aproximação de outra aeronave estava desligado no jato Legacy. A National Transportation Safety Board, órgão de segurança aérea dos Estados Unidos vai obrigar que as aeronaves possuam dispositivo de informação auditivo para informar ao piloto quando o “transponder” estiver desligado. c) A equipe responsável pelo acompanhamento. Este é feito por um centro de controle até determinado ponto e daí passa para outro. Isso requer comunicação clara e sem possibilidade de erro de quem esta controlando o que. d) Linguagem verbal. Os controladores devem se comunicar em uma língua universal, no caso inglês. Nem sempre essa comunicação é clara. e) A localização. As aeronaves são acompanhadas em monitores através de rastreamento por radares. Há momentos, dizem os controladores, que as aeronaves desaparecem do monitor, aparecem sombras que não são reais, etc. f) A jornada de trabalho dos controladores. Como faltavam controladores estes tinham que trabalhar mais tempo. g) Carga mental. Pelo mesmo motivo anterior eles controlavam um número maior de aviões que o recomendado internacionalmente. Observando-se o controle remoto de uma determinada TV, verifica-se a existência de 48 teclas e 31 funções. É necessário fazer um curso para uma pessoa comum poder utilizar todas as possibilidades que esse instrumento oferece. Isso sem considerar questões do tipo tamanho das teclas e sua disposição física no controle devido à limitação do tamanho. Já que falamos em TV, vamos colocar nosso tema em imagens. As figuras e seguir ilustram atividades de trabalho em dois postos de uma determinada indústria. No primeiro posto o trabalhador realiza os procedimentos para acondicionar o produto final em sacos de 20 kg. Após pegar o saco de papelão e abri-lo, ele posiciona-o na balança e move a alavanca para baixo, assim ele libera o produto que desce por gravidade. Ele controla visualmente o peso na balança e quando o peso estipulado é alcançado, ele fecha o dosador também acionando 3 a alavanca. Em seguida segura o saco por baixo e faz uma rotação de tronco dando dois passos para colocar o saco em uma esteira rolante. Figuras 01 e 02: Operação de enchimento. Figuras 03 e 04: Palletização. No segundo posto o trabalhador pega o saco que já foi costurado na esteira e transporta-o até o local em que esta o pallet e o arruma em 08 pilhas de 4 por 4 sacos, que atingem 1,70 m. Ambos fazem isso durante uma jornada de 8 horas diárias. Você poderá observar que os trabalhadores estão bem protegidos de capacete, luvas, máscaras, botas e usam óculos de proteção. Mas, também notará que no primeiro posto a balança poderia ter uma altura que evitasse que ele se curvasse para pegar o saco, que a alavanca de acionamento do dosador exige a elevação dos braços, que a esteira poderia estar ao lado da balança. No segundo posto o pallet e a esteira estão muito afastados. O trabalhador para arrumar os primeiros sacos tem que se curvar e a pilha ao atingir alturas mais altas irá exigir elevação das mãos, o queé agravado pelo peso de 20 kg. Exste semelhança entre esses casos? Bem, em todos eles há objetos, máquinas ou sistemas projetados pelo homem em principio para facilitar a sua vida. O problema é que eles também podem provocar dores, sofrimentos, lesões e tragédias. A Ergonomia lida com isso tudo. Mas o que nós, engenheiros de produção temos a ver com isso tudo? 4 Ergonomia e Engenharia de Produção A Ergonomia contribui para a Engenharia de Produção tanto fornecendo seus conhecimentos para a subárea de Engenharia do Produto como mais especificamente na subárea que podemos denominar Engenharia do Trabalho, que objetiva projetar, implantar e controlar o posto de trabalho e a maneira de trabalhar. Esta engloba os conhecimentos das disciplinas de Engenharia de Métodos, Organização do Trabalho, Processos de Trabalho, Higiene e Segurança do Trabalho, Layout ou Planejamento das Instalações, além da própria Ergonomia. A Figura 5 é uma representação esquemática de um processo de transformação Entradas x Saídas, característica dos sistemas produtivos, os diversos conteúdos profissionalizantes da Engenharia de Produção (ABEPRO, 2007), e a Engenharia do Trabalho com suas disciplinas. Figura 05 – Modelo Simplificado de Sistema de Produção, Conteúdos Profissionalizantes da Engenharia de Produção e a Ergonomia. 4. Definição, propósitos e finalidades da Ergonomia A Ergonomia é uma ocupação de pessoas qualificadas para responder às demandas acerca da atividade de trabalho. E como vimos acima, estas demandas estabelecem campos de interesse amplos e diversificados, que abrangem temas que vão da anatomia à teoria das organizações, do cognitivo ao social, do conforto à prevenção de acidentes. Não inventemos a roda. A seguir mos a definição internacional de Ergonomia aprovada pelo conselho cientifico da International Ergonomics Association em San Diego, USA, 2000. International Ergonomics Association: P.O. Box 1369, Santa Monica, CA 90406-1369, USA, Site: http://ergonomics-iea.org. “Ergonomia (ou Fatores Humanos) é a disciplina científica que trata da compreensão das interações entre os seres humanos e outros elementos de um sistema, e a profissão que aplica teorias, princípios, OUTROS FINANCEIROS HUMANOS FÍSICOS ENTRADAS: SAIDAS: BENS SERVIÇOS RESIDUOS OUTROS Ergonomia Organização do Trabalho, Engenharia de Métodos, HST e Layout. 5 dados e métodos, a projetos que visam otimizar o bem estar humano e a performance global dos sistemas. Os praticantes da Ergonomia, Ergonomistas, contribuem para o planejamento, projeto e a avaliação de tarefas, postos de trabalho, produtos, ambientes e sistemas para torná-los compatíveis com as necessidades, habilidades e limitações das pessoas.”(IEA, 2000). Isto nos conduz a uma formulação deontológica, segundo a qual Ergonomia, antes de tudo, é uma atitude profissional que se agrega à prática de uma profissão definida. Neste sentido é possível falar de um médico ergonomista, de um psicólogo ergonomista, de um designer ergonomista e assim por diante. Esta atitude profissional advém da própria definição estabelecida pela Associação Brasileira de Ergonomia: “A Ergonomia objetiva modificar os sistemas de trabalho para adequar as atividades nele existentes às características, habilidades e limitações das pessoas com vistas ao seu desempenho eficiente, confortável e seguro.” (ABERGO, 2000). Esta definição que coloca finalidades – modificar os sistemas de trabalho – propósitos – adequar a atividade às características, habilidades e limitações das pessoas – e critérios – eficiência, conforto e segurança – necessita ser complementada por uma outra, que estabeleça qual a tecnologia a que a Ergonomia está referida ou que possua um referente de suas finalidades, propósitos e critérios. Esta tecnologia se aplica à realização (concepção, construção e manutenção) de interfaces entre as pessoas e os sistemas, melhor dizendo, estabelecendo uma relação de adequação entre os aspectos humanos presentes na atividade de trabalho e os demais componentes dos sistemas de produção (tecnologia física, meio-ambiente, softwares, conteúdo do trabalho e organização da produção) através dessas interfaces. Por adequação estamos significando uma orientação para o desenvolvimento das interfaces entre as pessoas e destas com a tecnologia e a organização. Cabe, neste momento, fazer uma importante observação: esta classificação tem apenas finalidades didáticas para compreensão de conceitos. Uma realidade de trabalho é um sistema complexo onde cada um dos aspectos intervem a seu modo, porém de forma interdependente ou sistêmica. Por exemplo, a atividade numa central de atendimento é regulada por seus conteúdos organizacionais: deve-se operar segundo um script, com margens de tempo preestabelecidas de acordo com o tipo de atendimento, com finalidades distintas em função da natureza do processo (reclamação, suporte ou venda). O operador – massivamente do sexo feminino – deve seguir esses parâmetros organizacionais – mas para atender uma pessoa do outro lado da linha numa situação dialogal de forte conteúdo cognitivo, que poderá complicar-se bastante em função do andamento nem sempre controlável da conversa. Os clientes usam termos diferentes daqueles que os operadores estão acostumados, tentam explicar-se de formas nem sempre compreensíveis, etc. E isso se passa num ambiente físico com vários aspectos a serem devidamente agenciados que vão desde os aspectos posturais decorrentes da composição do posto de trabalho até as interferências ambientais (acústicas, térmicas e lumínicas) do local sobre a atividade. A combinação de fatores que produzem um efeito contrário ao bom desempenho – no jargão de Ergonomia, os contrantes –, pode ser cruel, a grande incidência de LER/DORT’s na população de trabalhadores em call-centers corrobora esta afirmação, em que pese notáveis esforços de correção de mobiliário feitos por várias empresas em todo o mundo. 6 Figura 06: Ergonomia como uma tecnologia de interfaces Em sua atividade de trabalho o ser humano interage com os diversos componentes do sistema de trabalho: com os equipamentos, instrumentos e mobiliários, através de interfaces sensoriais, energéticas e posturais, com a organização e o ambiente por interfaces ambientais, cognitivas, emocionais e organizacionais (figura 06). O ser humano, realiza essas interações de forma sistêmica, cabendo à Ergonomia modelar essas interações e otimizá-las, ou seja, buscar formas de adequação para o desempenho confortável, eficiente e seguro face às capacidades, limitações e demais características da pessoa em atividade (Vidal e Soares, 2000). Ainda assim, confrontando nossa caracterização da prática da Ergonomia como a de pessoas qualificadas para responder a demandas com a definição da IEA segundo a qual trata-se da compreensão das interações entre os seres humanos e outros elementos de um sistema, para otimizar o bem estar humano e a performance global dos sistemas, chegamos à evidente conclusão de que a Ergonomia vai requerer uma multiplicidade de abordagens que se complementem para dar conta dos principais aspectos de uma demanda. A Ergonomia vai permitir que existam interfaces adequadas. Estas interfaces adequadas atenderão de forma conjunta, integrada e coerente aos critérios de conforto, eficiência e segurança. Com estas será possível trabalhar corretamente: Sem as dores lombares no uso de modernos computadores em confortáveis escritórios; Executando as operações de manuseio de tecidos num ambiente condizente, sem intoxicações e sem perda de material; Encontrando os pedidos de peças, livros,itens eletrônicos, enfim, realizando operações de estoque numa forma eficiente e menos estressante, garantindo a qualidade de atendimento; Organizando a logística de entregas de forma adequada preparando o motorista, o cliente e as rotas evitando problemas reais do caos urbano. Segundo o Comitê de Planejamento Estratégico da Human Factors and Ergonomics Society, sociedade que agrupa os ergonomistas norte-americanos e que é a maior sociedade de Ergonomia do planeta, esta tecnologia tem como capítulos seus princípios – basicamente 7 estabelecidos pela definição apresentada – suas especificações – no que consistem os resultados úteis, práticos e aplicados dos trabalhos de Ergonomia – seus métodos – que codificam a forma de trabalhar da equipe de Ergonomia – e suas técnicas – que concretizam a realização de especificações com base nos princípios e mediante o emprego dos métodos pertinentes ao problema de interface que está sendo tratado pela Ergonomia. 5. Uma disciplina útil, prática e aplicada À luz do que vimos, a principal forma de se entender a Ergonomia é através de sua ausência que se traduz por perdas de produção em quantidade, em qualidade e ainda produz muitas conseqüências ruins sobre os operadores, usuários e sobre o ambiente, como doenças, erros, acidentes e poluição. A atitude profissional que caracteriza uma equipe de Ergonomia tem ao mesmo tempo uma dimensão1 cientifica, que traz fundamento às aplicações que realiza, e uma dimensão prática, que torna essa aplicação viável no mundo da produção. A combinação das dimensões científicas e práticas da Ergonomia revela sua utilidade como uma disciplina que nasceu e se estabelece voltada para resolver problemas, essencialmente. Essa, por sinal, tem sido uma grande dificuldade da Ergonomia como atividade acadêmica, como bem o assinalou Daniellou (1991). A Ergonomia está exposta a dois tipos não coerentes de avaliação: (i) avaliação sob critérios científicos acerca de suas modelagens e formulações, (ii) avaliação sob critérios econômico- sociais do valor de suas propostas de soluções. A superação desse duplo registro está numa compreensão da Ergonomia como disciplina útil, prática e aplicada. Como disciplina útil, através de seus procedimentos de modelagem da realidade do uso e a incorporação de conhecimentos para a melhoria das interfaces entre os componentes humanos e os demais constituintes do sistema de produção, a Ergonomia tem tido bastante sucesso em tratar de problemas onde outras abordagens têm deixado a desejar. Como disciplina científica a Ergonomia através do estudo das capacidades e limitações e demais características humanas necessárias para o projeto de boas interfaces, assim como busca modelar a atividade de trabalho para garantir a qualidade operacional deste projeto. Para tanto ela situa num cruzamento interdisciplinar entre várias disciplinas como Fisiologia, a Psicologia, a Sociologia, a Lingüística e práticas profissionais como a Medicina do Trabalho, o Design, a Sociotécnica e as Tecnologias de Gestão. Toda esta interdisciplinaridade se centra no conceito de atividade de trabalho (Figura 07). 1 Empregaremos muito este conceito de dimensões. O termo está sendo tomado no sentido topológico, segundo o qual uma entidade pode ser decomposta, rebatida ou derivada em dimensões constituintes, a partir de um contexto de referencia. Assim um ponto P se localiza no espaço euclidiano por sua distância à origem numa dada trajetória T. Esta trajetória pode ser complexa (curva reversa, por exemplo). Neste caso projetar a trajetória T em eixos retilíneos X, Y e Z simplifica o cálculo e a posição pode ser expressa em termos de valores x ,y e z tomados sobre aqueles eixos. Neste sentido X, Y e Z são os domínios das dimensões x, y e z de que se compõe a posição do ponto P, uma forma mais fácil de trabalhar do que uma distância d sobre uma trajetória T. 8 Figura 07: Interdisciplinaridade da Ergonomia (Hubault, 1992, modificado) A Ergonomia como interdisciplinaridade interage com várias disciplinas no campo das Ciências da Vida, Técnicas, Humanas e Sociais. Seus conteúdos se orientam para o Design, Arquitetura e Engenharia, cuja inserção nesses quadrantes é basicamente a mesma. Como disciplina prática a Ergonomia busca encaminhar soluções sempre adequadas aos usuários, operadores e à realidade das empresas e organizações ode as intervenções ergonômicas têm lugar. Uma boa Ergonomia pode até se limitar à produção de um laudo, de um parecer, de uma avaliação se esta for a demanda feita à Ergonomia. Mas isso é uma posição muito fraca. Qual o interesse de um laudo analítico e de um quadro esquemático se estas construções não desaguarem em um conjunto de medidas e providências concretas de transformação da realidade que os produziram? Em Ergonomia contemporânea a resposta é a via projetual: ou a Ação Ergonômica se resolve como concepção de sistemas, de artefatos ou de formas organizacionais, na perspectiva tecnologia de interfaces, ou terá representado um esforço vão. Um outro tema prático a que muitas equipes de ergonomistas em todo o mundo estão se voltando é a aferição da relação custo-benefício das ações ergonômicas. Consideramos este assunto de tamanha relevância que a ele dedicaremos um capítulo integral desta obra. Como disciplina aplicada ela traz os resultados dos tratamentos científicos de modelagem da realidade e de levantamento do estado da arte do problema ao desenvolvimento de tecnologia de interfaces para a concepção, análise, testagem, normatização e controle dos sistemas de trabalho. São assuntos aplicados de Ergonomia, portanto, a concepção de sistemas de trabalho sob o ponto de vista da atividade das pessoas que nele se integram, de produtos sob o ponto de vista de uso e manuseio pelos adquirentes, de sistemas informatizados sob a ótica da usabilidade (interatividade facilitada, amigabilidade, customização, etc.). de estruturas organizacionais do ponto de vista dos que nela trabalham, e assim por diante. 5.1. Problemas retrospectivos, prospectivos e emergentes Por ser uma disciplina útil, prática e aplicada a Ergonomia é indicada para tratar de problemas retrospectivos, prospectivos e emergentes nos sistemas de produção. A compreensão do que esta acontecendo e que requer uma intervenção ergonômica – ou seja a construção de um diagnóstico ergonômico de um sistema de trabalho vai requerer o levantamento de problemas retrospectivos como: 9 custo de doenças ligadas ao trabalho; inadequação dos postos de trabalho ou dos ambientes; qualidade insatisfatória dos produtos e dos processos de produção; ineficiências dos métodos de produção, de formação, de inspeção ; defeitos dos produtos; funcionamento inadequado de equipamentos e softwares. De posse de um diagnóstico ergonômico, é preciso agir para adequar as diferentes interfaces. A Ação Ergonômica, a partir dos elementos que o diagnóstico ergonômico lhe fornece, lida com problemas prospectivos como: concepção de novos produtos, de sistemas de produção, de novas instalações ; inovações nos equipamentos: mobiliário, maquinário, instrumentos e acessórios; formação e treinamento na implantação de novas tecnologias e métodos. Porém em certas passagens é necessário que o sistema de trabalho responda a situações inusitadas e tenha a capacidade de absorver fatos novos. Assim sendo a ação ergonômica é indicada para tratar de alguns problemas emergentes como: prevenção de acidentes e doenças do trabalho (ações básicas); problemas cruciais de qualidade ou de produção (ações focadas); adequação a novos parâmetros legais e/ou corporativos (ações ampliadas). Conseqüentemente,as empresas e organismos diversos têm podido empregar, com muitas vantagens, os serviços de uma equipe de Ergonomia para intervir sobre estes diversos tipos de problemas com que a produção se defronta. Esses problemas podem ser referentes ao histórico da empresa (retrospectivos), à disposição para mudanças (prospectivos) ou mesmo urgentes e/ou desconhecidos ate então (caso das emergências). Constatamos que, em todo o mundo, a Ergonomia vem sendo objeto de uma explosão de demanda, com um número crescente de empresas solicitando consultorias e criando cargos para ergonomistas em seus organogramas. No Brasil, a demanda já ultrapassa bastante a capacidade de formação e treinamento hoje disponível no mercado. Demonstra esta assertiva o vertiginoso crescimento de normas internacionais sobre Ergonomia, no final do século XX (Figura 08). 10 Figura 08: Publicação de normas ISO de Ergonomia (Vidal e Bucich, 2001) Hendrick (1998) aponta ao menos quatro razões explicativas para esse quadro: Paradoxalmente um número razoável de pessoas se confrontou com o que Chong (1996) denomina de “voodoo ergonomics”. Isto produziu produtos, ambientes e processos rotulados como ergonômicos quando na verdade foram elaborados por pessoas sem uma competência certificada ou acreditada em Ergonomia. Essa é uma das razões que tem levado a IEA a estabelecer como prioritária e urgente o estabelecimento de padrões de formação e de certificação profissional, uma realidade já efetiva na América do Norte, na União Européia, no Japão e na Austrália. A Ergonomia contribui decisivamente para que os operadores tenham as condições requeridas para executar satisfatoriamente suas tarefas. Assim sendo, a explosão da demanda por Ergonomia o fato de que na vida cotidiana atual nos tornamos todos operadores, como o sustenta Mallet (1995). Cada um de nós “opera” diariamente algum tipo de sistema tais como automóveis, computadores, televisão aberta ou a cabo, telefones convencionais ou celulares. Neste sentido, é extremamente delicado considerar os aspectos humanos destas interfaces como solucionáveis pelo emprego de constatações de senso comum. Um grande número de ergonomistas experientes pode apresentar uma lista onde as decisões de projeto, apenas baseadas no senso comum, resultaram senão em acidentes graves, ao menos em aparelhos ou equipamentos cuja usabilidade (boa capacidade de uso ou manuseio) é bastante deficiente; Muitos responsáveis de empresas têm demandado Ergonomia simplesmente por se tratar da coisa certa a se fazer, até porque essas pessoas devem pensar naquilo que seja o mais adequado para realizar os objetivos estratégicos de suas organizações; Finalmente, embora haja muito pouca documentação a esse respeito, até por uma falha de formação e de sistemática de trabalho das equipes de Ergonomia, em alguns casos tem sido possível realizar uma avaliação do resultado das ações ergonômicas em termos de custo- benefício. E essas avaliações têm sido muito positivas. Questões a) O que você entendeu por prática de projeto e disciplina de base? b) O que você entende por conhecer como o trabalho é feito? Por que o ergonomista deve conhecê-lo? c) Das causas do acidente da Gol, vôo 1907, qual é o que você acha o mais relevante? Justifique. d) Considerando a figura 05 do texto, explique a relação da Ergonomia com a Engenharia de Produção. e) Dê exemplos da utilidade, praticidade e aplicação da Ergonomia. Pesquisa Pesquise na Internet os sites da IEA e da ABERGO e descreva os seus conteúdos mais relevantes. 11 Referências ABERGO (2000) – A definição Brasileira da Ergonomia: Contribuição para a definição Internacional de Ergonomia. Report 2000 to IEA Council, Brazilian Ergonomics Association, Rio de Janeiro & San Diego Benchekroun, (1997) – Avanços Recentes na metodologia de Análise Ergonômica do Trabalho. Palestra no GENTE/COPPE, julho de 1997. Bucich, C. e Vidal M.C. (2001) – Levantamento preliminar da normalização internacional em Ergonomia. Relatório Técnico, GENTE/COPPE, Rio de Janeiro. Chong, Ian (1996). The economics of ergonomics. Workplace Ergonomics, March/April, pp. 26-29. Daniellou (1991) – L’ergonomie en quête de ses principes. Octarès Editions, Toulouse, FR. Hendrick (1997) – Good Ergonomics is good Economics . HFES Publishing, USA IEA (2000) – Core Competencies for practitioners in Ergonomics. Triennial Report of the Executive Board of the IEA. IEA Press, Santa Monica. IEA (2000) – Definição Internacional de Ergonomia. Ação Ergonômica I(1), p.10. Mallett, R. (1995). Human factors: Why aren’t they considered? Professional Safety, Jul, pp.30-32. Másculo, F.S. (2008) – Ergonomia e Higiene e Segurança do Trabalho, em Introdução à Engenharia de Produção, Campus/Elsevier. Rio de Janeiro. Novo J. M. e Vidal, M.C (1999) – Sistema de assistência à emissão de laudos laboratoriais Anais do ABERGO 99, Salvador, Brasil Setti M.E. (1996 ) Aetatis Novo: A modernização do parque gráfico de um jornal diário. Tese de doutorado, COPPE/UFRJ. (orientador: Paulo Rodrigues Lima) Telles R. e Vidal, M.C. (1999) – Levantamento ergonômico da habitalidade dos barcos de pesca da região de Cabo Frio, RJ. Relatório de pesquisa, GENTE/COPPE. Telles, Vidal e Thiolent, (2000) – The ergonomic design of fishing vessels. Proceedings of the XIV triennial congress of the IEA, San Diego, USA. Vidal, M.C. (2002) Ergonomia na Empresa-Útil, Prática e Aplicada, EVC, Rio de Janeiro, RJ.