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PERINATOLOGIA Manual de LARANJEIRAS Rua das Laranjeiras, 445 Laranjeiras – Rio de Janeiro – RJ 22240-002 Tel.: (21) 2102-2300 Fax: (21) 2102-2306 BARRA Av. Embaixador Abelardo Bueno, 201 Barra de Tijuca – Rio de Janeiro - RJ 22775-040 Tel.: (21) 3722-2000 Fax: (21) 3722-2032 www.perinatal.com.br faleconosco@perinatal.com.br Impressão apoiada por: capa-manual-perinatologia_120621.indd 1 22/06/2012 11:20:52 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 1 20/06/2012 19:26:09 DIRETORIA DA PERINATAL Manoel de Carvalho José Maria de Andrade Lopes DIRETORIA DO CENTRO DE DIAgNósTICO Renato Augusto Moreira de sá Paulo Roberto Nassar de Carvalho Cristiane Alves de Oliveira Paulo Roberto Marinho COORDENAÇÃO CIENTÍFICA Renato Augusto Moreira de sá Fernanda Campos da silva COORDENAÇÃO EDITORIAL Ricardo Machado PROJETO gRÁFICO silvia Fittipaldi DIAgRAMAÇÃO Lucas Moraes REVIsÃO sonia Cardoso FIChA CATALOgRÁFICA P445 Perinatal Manual de perinatologia / Perinatal. – Rio de Janeiro: julho, 2012. 300 p.: il. (color.); 24 cm. Inclui bibliografia. 1. Perinatologia. 2. Recém-nascidos – Cuidado e tratamento. 3. Manual. CDD 618.32 CDU 618.438 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 2 20/06/2012 19:53:19 Rio de Janeiro, 2012 PERINATOLOgIA Manual de manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 3 20/06/2012 19:26:09 Missão Oferecer assistência de excelência na área de saúde perinatal. Visão ser referência nacional em assistência, ensino e pesquisa na área de saúde perinatal. Valores e Princípios 1. Ética, honestidade e integridade 2. Inovação e criatividade 3. Competência e segurança 4. Investimento nas pessoas 5. simpatia, alegria e calor humano 6. Valorização do médico manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 4 20/06/2012 19:26:09 A Perinatal nasceu em 1985 no Rio de Janeiro como resultado do trabalho de um grupo pioneiro que há décadas investe na busca por excelência no cuidado médico. Responsável pela introdução no Brasil do con- ceito de perinatologia na assistência materno-infantil, o grupo Perinatal possui foco único no atendimento pleno à gestante e ao recém-nascido. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 5 20/06/2012 19:26:10 A ARTE DE BEM AssIsTIR APREsENTAÇÃO “Conservarei imaculada minha vida e minha arte.” JuRAMENTO DE hIPóCRATEs É possível uma ciência ser também arte? No caso da Medicina, desde hipócrates a busca por essa resposta dá origem a inúmeros ensaios e artigos escritos por médicos, cientistas, filósofos... Sob as lentes da dialética desses pensadores, não raro surge a avaliação da natureza única, individual, subjetiva da obra de arte em contraposição às bases do método de investigação científica, de resultados objetiváveis, mensurá- veis, sujeitos à comparação e à confirmação por terceiros. Walter Osswald,1 presidente do Instituto de Bioética da universidade Católica Por- tuguesa (Porto), é um dos que se propõem a lançar luz sobre o tema. Para ele, a ponte entre essas “duas grandezas” é o “encontro” – da obra de arte com quem a experimenta; do médico com o paciente – a simbiose entre o que chama de “uma confiança e uma competência”. Assim como na arte, defende Osswald, “neste encontro dessas duas pessoas há muito de individual, subjetivo, emocional, já que as circunstâncias em que ele ocor- re não se repetirão exatamente: a febre, a dor, a angústia, a inquietação quanto ao prognóstico são daquele dia e daquela hora”. Portanto, para o professor da univer- sidade do Porto, estão exatamente no que alguns críticos apontam como “desseme- lhanças” entre Medicina e Arte as similitudes que as aproximam. 1. Medicina e Arte: uma Ressonância. Revista Portuguesa de Psicossomática, Julho-dezembro, vol.4, número 2, 2002, sociedade Portuguesa de Psicossomática, Porto (Portugal), p. 60-62. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 6 20/06/2012 19:26:10 “Se esta [a arte] é”, como afirmou Gerhart Hauptmann,2 “a mais antiga língua sagra- da da humanidade, a Medicina serve-se dessa língua para assegurar o entendimento entre o rosto sofredor e o rosto curador”, analisa. Na busca contínua pelo aprimoramento dessa “arte do encontro”, a Maternidade Perinatal dedicou-se à elaboração deste Manual de Perinatologia. seu propósito é reunir informações que contribuam para a melhor interação médico-paciente, da anamnese até o diagnóstico/prognóstico e adoção de medidas e condutas terapêuti- cas. Para isso, reuniu um corpo de especialistas que apresentam, de forma objetiva e didática, conceitos, protocolos e orientações de condutas, desde a preconcepção e assistência pré-natal até as intercorrências durante a gestação e os cuidados no pré e pós-parto. Dessa forma, a Maternidade Perinatal deseja que este manual possa contribuir para o desenvolvimento e o aprimoramento da sagacidade e do exercício da arte de bem assistir, tão importantes na prática médica. 2. Teatrólogo alemão, ganhador do Prêmio Nobel de literatura (1912) pelo conjunto de sua obra. APREsENTAÇÃO manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 7 20/06/2012 19:26:10 SUMÁRIO CAPÍTULO 1 PRECONCEPÇÃO ................................................................................11 CAPÍTULO 2 ASSISTÊNCIA PRÉ-NATAL ..................................................................21 CAPÍTULO 3 PROTOCOLO DE IMUNIZAÇÃO DA GESTANTE E DA PUÉRPERA ............29 CAPÍTULO 4 RASTREAMENTO DE ANEUPLOIDIAS ..................................................41 CAPÍTULO 5 ABORTAMENTO..................................................................................49 CAPÍTULO 6 GESTAÇÃO ECTÓPICA .........................................................................57 CAPÍTULO 7 DOENÇA TROFOBLÁSTICA GESTACIONAL ............................................67 CAPÍTULO 8 HIPERÊMESE GRAVÍDICA ...................................................................73 CAPÍTULO 9 PREMATURIDADE ..............................................................................79 CAPÍTULO 10 RUPTURA PREMATURA DE MEMBRANAS OVULARES ..........................83 CAPÍTULO 11 HIPERTENSÃO ARTERIAL PRÉ-GESTACIONAL .....................................93 CAPÍTULO 12 HIPERTENSÃO ARTERIAL GESTACIONAL ..........................................103 CAPÍTULO 13 ANEMIAS NA GESTAÇÃO ..................................................................117 CAPÍTULO 14 DIABETES MELLITUS GESTACIONAL .................................................123 CAPÍTULO 15 SÍNDROME ANTIFOSFOLIPÍDEO ........................................................129 CAPÍTULO 16 INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO .......................................................137 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 8 20/06/2012 19:47:19 CAPÍTULO 17 INFECÇÕES CONGÊNITAS 1..............................................................145 CAPÍTULO 18 INFECÇÕES CONGÊNITAS 2..............................................................159 CAPÍTULO 19 SANGRAMENTO NO TERCEIRO TRIMESTRE ......................................177 CAPÍTULO 20 GESTAÇÃO GEMELAR .......................................................................191 CAPÍTULO 21 DOENÇA HEMOLÍTICA PERINATAL ....................................................201 CAPÍTULO 22 PROPEDÊUTICA FETAL NÃO INVASIVA ..............................................209 CAPÍTULO 23 VIGILÂNCIA FETAL NAS GESTAÇÕES DE ALTO RISCO ........................217 CAPÍTULO 24 PÓS-DATISMO ..................................................................................225 CAPÍTULO 25 PREVENÇÃO DA DOENÇA ESTREPTOCÓCICA PERINATAL DO GRUPO B ....................................................................................229 CAPÍTULO 26 INDUÇÃO DO PARTO ........................................................................235CAPÍTULO 27 ASSISTÊNCIA AO PARTO ..................................................................243 CAPÍTULO 28 HEMORRAGIA PÓS-PARTO ................................................................255 CAPÍTULO 29 INFECÇÃO PUERPERAL ....................................................................265 CAPÍTULO 30 PROFILAXIA PARA TROMBOSE VENOSA PROFUNDA NA GESTAÇÃO, NO PARTO E NO PÓS-PARTO ............................................................273 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................287 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 9 20/06/2012 19:47:19 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 10 20/06/2012 19:26:10 PRECONCEPÇÃO CAPÍTuLO 1 O B J E T I V O O objetivo primário do cuidado preconcepcional é a promoção da saúde da mu- lher em idade reprodutiva antes da concepção e, assim, melhorar os resultados perinatais. sabe-se que diversas intervenções antes da gestação melhoram o desfecho ges- tacional; elas serão abordadas nesta seção. Em linhas gerais, essas intervenções podem ser divididas em três categorias: 1. planejamento familiar; 2. identificação de fatores de risco; 3. intervenções e aconselhamento. Fernanda Campos da silva manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 11 20/06/2012 19:26:10 Perinatal | Manual de Perinatologia 12 1. PLANEJAMENTO FAMILIAR Objetivos: Orientar em relação ao planejamento da vida reprodutiva da mulher, incluindo a contracepção, especialmente nos grupos de risco. Diminuir gestações não planejadas e abortos provocados. Diminuir a taxa de cesarianas para ligadura tubária. Aumentar o intervalo interpartal. 2. IDENTIFICAÇÃO DE FATORES DE RISCO GESTACIONAIS Durante o período preconcepcional, alguns fatores de risco, seja para a mãe ou o feto, podem ser identificados e muitas vezes corrigidos. A avaliação deve considerar: Risco pessoal ■ história pessoal e familiar, exame clínico e rastrea- mento laboratorial. Prevenção ■ Planejamento familiar. ■ Nutrição, suplementos, controle do peso e exercícios. ■ Vacinação. Riscos individuais ■ Doenças crônicas. ■ uso de medicações. ■ Abuso de substâncias, exposição ambiental. Muitas comorbidades clínicas são agravadas pela gesta- ção ou pioram o prognóstico da gestação em si. Portanto, é importante que na concepção as mulheres estejam na sua melhor condição clínica. Além de doenças crônicas, muitas mulheres que engravidam têm comportamento de risco, ou manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 12 20/06/2012 19:26:11 C A P Í T U L O 1 | P R E C O N C E P Ç Ã O 13 seja, hábitos que sabidamente afetam a gestação – o fumo tem relação com parto prematuro e baixo peso; o uso de álcool relaciona-se à síndrome alcoólica fetal, uma das prin- cipais causas de retardo mental; o uso de algumas substân- cias lícitas ou ilícitas; ou um comportamento sexual de risco à exposição a doenças sexualmente transmissíveis. Ademais, sabe-se que os próprios antecedentes pessoais, em especial o passado obstétrico e a história familiar da grávida são relevantes na identificação do risco gestacional. 3. INTERVENÇÕES E ACONSELHAMENTO A identificação de algum fator de risco impõe que este seja mais bem detalhado na anamnese, no exame físico, e pos- sivelmente com exames complementares. Aqueles fatores de risco modificáveis, como o fumo, geram intervenções; já aqueles não modificáveis geram aconselhamento. Nutrição, peso e exercícios Hábitos saudáveis de vida – boa dieta e exercícios físicos regulares – devem ser iniciados antes da concepção. Essas medidas podem evitar complicações na gestação, como dia- betes e hipertensão arterial. Dieta: cozimento adequado das carnes e peixes, lavagem exaustiva de verduras e frutas e ingestão de ovos e laticí- nios pasteurizados. Peso: mulheres com índice de massa corpórea (IMC) fora da faixa normal (19 a 25) devem ser especialmente aconselhadas. Aquelas com baixo peso devem ser inves- tigadas para bulimia ou anorexia, e as com sobrepeso, quanto à redução de peso. Exercício físico: deve-se estimular a prática cinco vezes ou mais por semana durante 30 a 60 minutos. manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 13 22/06/2012 11:53:48 Perinatal | Manual de Perinatologia 14 Q u A D r o 1 Doenças infecciosas e preconcepção Suplementos Ácido fólico na dose de 400 mcg/dia para a prevenção de defeitos do tubo neural (DTN). Iniciar 30 dias antes da concepção e manter até 28 dias depois. Em mulhe- res com antecedente de feto com DTN, a dose deve ser de 4 mg/dia. Doenças infecciosas Busca-se o estado sorológico das mulheres em relação a doenças infecciosas que tenham algum tipo de repercussão negativa sobre a gestação. o Quadro 1 resume o rastreio e o aconselhamento decorrente dele. Doença Força de evidência Qualidade da evidência Recomendação HIV A I-b Todo casal deve ser encorajado a saber seu estado soro- lógico para HIV. Caso negativo, orientar sobre formas de transmissão e prevenção. Caso positivo, orientar sobre ris- co de transmissão vertical; oferecer contracepção. Caso a opção seja gestar, iniciar tratamento antes da concepção. Hepatite B A II-a rastreamento universal com pesquisa do HbsAg na primeira consulta de pré-natal. Pode ser considerada a vacinação, inclusive durante a gestação. Hepatite C C III Não há evidência de que o rastreamento universal para hepatite C melhore o desfecho gestacional. Mulheres com alto rico devem ser testadas. As com sorologia po- sitiva devem ser aconselhadas sobre risco para a saúde e transmissão, as que estiverem em tratamento devem ser desaconselhadas de gestar. Tuberculose B II-2 Mulheres com alto risco devem ser rastreadas e trata- das antes da gestação. Toxoplasmose C III Não há evidência clara de que o aconselhamento e o ras- treamento reduzem a infecção. Quando testadas, aquelas positivas podem ser confortadas de que não estão em risco de aquisição na gestação. As negativas devem ser aconse- lhadas sobre as formas de transmissão e prevenção. manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 14 22/06/2012 11:53:48 C A P Í T U L O 1 | P R E C O N C E P Ç Ã O 15 > > Doença Força de evidência Qualidade da evidência Recomendação Citomegalovírus C II-2 As mulheres que têm filhos pequenos ou que traba- lham com crianças devem ser aconselhadas sobre re- dução de risco com cuidados de higiene. Listeriose C III Aconselhar mulheres a evitar patês e queijo fresco pro- duzido com leite não pasteurizado e a cozinhar comidas enlatadas, como salsichas. Parvovírus E III Sem evidência de melhora de desfecho com rastreio ou aconselhamento. Malária C III Aconselhar a evitar viagem às áreas endêmicas. Caso não seja possível, orientar a contracepção e fornecer quimioprofilaxia. Gonorreia B II-b Mulheres com alto risco devem ser rastreadas e tratadas. Clamídia A I-a Todas as mulheres abaixo de 25 anos e as com fatores de risco devem ser rastreadas em consultas rotineiras antes da gestação. Sífilis A II-a É recomendado o rastreio universal – antes da concep- ção – e o tratamento dos casos. Herpes simples B II-a Mulheres com história de herpes genital devem ser aconselhadas sobre transmissão. As sem história, so- bre as formas de aquisição. o rastreio sorológico uni- versal não é recomendado. Bacteriúria assintomática E II-a o rastreio e tratamento na preconcepção não diminui a infecção e suas consequências na gestação. Não é recomendado. Doenças periodontais C I-b o rastreio e o tratamento de doenças periodontais, apesar de benéficos para a mãe, não fazem parte do cuidado preconcepcional por não trazerem comprova- dos benefícios diretos parao feto. Vaginose bacteriana D/C I-b Em mulheres sem história de parto prematuro não há benefício do rastreio universal (D). Naquelas com par- to prematuro anterior, o rastreio e tratamento parecem ser benéficos (C). Estreptococo do grupo B E I-b o rastreio de colonização na preconcepção não é re- comendado. Estreptococo do grupo B E I-2 o rastreio de colonização na preconcepção não é re- comendado. manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 15 22/06/2012 11:53:49 Perinatal | Manual de Perinatologia 16 Doenças crônicas e hábitos sociais A presença de comorbidades e determinados hábitos sociais sabidamente pioram o prognóstico da gestação. Algumas in- tervenções para mulheres com fatores de risco específicos estão listadas no Quadro 2. Q u A D R O 2 Intervenções preconcepcionais para mulheres com fatores de risco específicos Fator de risco Intervenção Prevenção Tabagismo Cessar o fumo PMT, BPN, etc. Álcool Evitar ingestão Anomalias congênitas, retardo mental. Obesidade Dieta e exercícios para normalizar IMC. Rastreio para DM Infertilidade, DTN, PMT, PC, hAs, DM, TEV. Diabetes mellitus Euglicemia, rastreio de bacteriúria assin- tomática Anomalias congênitas, abortamento, mortalidade perinatal, hospitalização materna, doença renal materna. hipertensão arterial Evitar inibidores da ECA, rastreio de lesão renal, oftálmica e cardíaca Anomalias congênitas, complicações hi- pertensivas, PC, CIuR, DPP, PMT, mor- te perinatal. hipotireoidismo suplementação de tiroxina para manter Tsh normal (0,5-2,0 muI/L) Infertilidade, hAs, PE, anemia, PMT, morte fetal, possíveis problemas neuro- lógicos na criança. hipertireoidismo suplementação com propiltiouracil para T4l normal superior e Tsh normal inferior Perda gestacional espontânea, PMT, PE, morte fetal, CIuR, ICC materno, crise tireotóxica, doença de gravis neonatal. Epilepsia Menor dose segura de anticonvulsivante, monoterapia, ácido fólico 4 mg/dia Anomalias congênitas. Asma Controle clínico como em não gestantes PMT, BPN, PE, mortalidade perinatal. Lúpus eritematoso sistêmico Mais de seis meses de estabilidade clí- nica hAs, PE, PMT, morte fetal, CIuR, lúpus neonatal. hIV Iniciar ou ajustar medicação para: 1- car- ga viral < 1000 c/mL 2; evitar drogas te- ratogênicas Infecção perinatal pelo hIV. PMT: prematuridade; BPN: baixo peso ao nascimento; IMC: índice de massa corpórea; DM: diabetes melli- tus; DTN: defeito do tubo neural; PC: parto cesáreo; hAs: hipertensão arterial; TEV: tromboembolismo venoso; ECA: enzima conversora de angiotensina; CIuR: crescimento intrauterino restrito; DPP: desco- lamento prematuro de placenta; PE: pré-eclâmpsia; ICC: insuficiência cardíaca congestiva; HIV: vírus da imunodeficiência adquirida. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 16 20/06/2012 19:26:11 C A P Í T U L O 1 | P R E C O N C E P Ç Ã O 17 História reprodutiva Antecedente de recém-nato com baixo peso (menor que 2.500 g) Principais causas: prematuridade e/ou crescimento fetal restrito. Como podem ser concomitantes, muitos fatores de risco e medidas de prevenção são comuns: ■ Antecedente de prematuridade: ■ Principal fator de risco para novo parto prematuro. outros fatores importantes são o peso materno abai- xo de 50 kg, o IMC abaixo de 19,8, raça negra, fumo, pequeno intervalo interpartal, história de in- competência istmocervical, ou colo curto ao ultras- som na gestação. ■ Fatores de risco para crescimento fetal restrito: ■ Maternos: doença vascular crônica materna, hiper- tensão arterial, insuficiência renal, diabetes melli- tus, doenças do colágeno. ■ Fetais: alterações cromossômicas, diversas síndro- mes genéticas, infecções. ■ Placentários: descolamento, placenta prévia e infar- tos placentários. Intervenção para fatores de risco modificáveis: manuten- ção do peso adequado; interrupção do fumo; orientação sobre correção da incompetência istmocervical na ges- tação; possível uso de progesterona nos casos de parto prematuro anterior espontâneo. Abortamento espontâneo anterior Perda esporádica: as pacientes que sofreram uma perda esporádica antes de 14 semanas de gestação podem ser aconselhadas em relação ao bom prognóstico para futu- ras gestações e seguir orientação preconcepcional de ro- tina. Aquelas cuja perda se deu após 14 semanas podem ser mais bem avaliadas na tentativa de relacionar a perda a um parto prematuro ou natimorto. História reprodutiva Antecedente de recém-nato com baixo peso Baixo peso ao nascimento: Peso menor que 2500g. Principais causas: prematuridade e/ou crescimento fetal restrito. Como podem ser concomitantes, muitos fatores de risco e medidas de prevenção são comuns. Antecedente de prematuridade: principal fator de risco para novo parto prematuro. outros fatores importantes são o peso materno abaixo de 50 Kg, o IMC abaixo de 19,8, raça negra, fumo, pequeno intervalo interpartal, história de incompetência istmocer- vical, ou colo curto ao ultrassom na gestação. Fatores de risco para crescimento fetal restrito: ■ Maternos: doença vascular crônica materna, hiperten- são arterial, insuficiência renal, diabetes mellitus, do- enças do colágeno. ■ Fetais: alterações cromossômicas, diversas síndromes genéticas, infecções. ■ Placentários: descolamento, placenta prévia e infartos placentários Intervenção para fatores de risco modificáveis: Manuten- ção do peso adequado, a interrupção do fumo, orientação sobre correção da incompetência istmocervical na gesta- ção e o possível uso de progesterona nos casos de parto prematuro anterior espontâneo Abortamento espontâneo anterior Perda esporádica: as pacientes que sofreram uma perda esporádica antes de 14 semanas de gestação podem ser aconselhadas em relação ao bom prognóstico para fu- turas gestações e seguir orientação preconcepcional de rotina. Aquelas cuja perda foi após 14 semanas podem ser melhor avaliadas na tentativa de relacionar a perda a um parto prematuro ou natimorto. Abortamento de repetição (3 ou mais perdas): pesquisa de anticorpos antifosfolipídeos, cariotipagem dos pais, e ultrassonografia do útero para a pesquisa de anomalias manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 17 22/06/2012 11:53:49 Perinatal | Manual de Perinatologia 18 Abortamento de repetição (três ou mais perdas): pesqui- sa de anticorpos antifosfolipídeos, cariotipagem dos pais, e ultrassonografia do útero para a pesquisa de anomalias uterinas. A avaliação da função tireoidiana, o teste de tole- rância a glicose, ou deficiência da fase lútea não têm com- provação de relação com aborto de repetição, não havendo evidências suficientes para a recomendação. Intervenções: a presença de anticorpos antifosfolipídeos pode indicar o uso de aspirina e/ou heparina. Os casais com alteração cromossômica devem ser encaminhados para aconselhamento genético na preconcepção, e as anomalias uterinas, como os septos ou alguns tipos de miomas, devem ser removidos também antes da próxima gestação. Quando não é identificada uma causa, o prognóstico é favorável. Antecedente de natimorto Os natimortos correspondem à metade da mortalidade pe- rinatal e 50% têm causa desconhecida. O risco de recor- rência é duas a dez vezes aumentado em relação a uma mulher sem esse antecedente. O risco depende das carac- terísticas do episódio anterior, como a etiologia, a idade gestacional no acontecimento, e a presença de restrição de crescimento. Muitas condições clínicas maternas au- mentam o risco fetal e com isso os óbitos (Quadro 3). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 18 20/06/2012 19:26:12 C A P Í T U L O 1 | P R E C O N C E P Ç Ã O 19 Q u A D r o 3 risco de natimortalidadeem relação a fatores maternos de risco Condição clínica Prevalência (%) Taxa de natimortos por 1.000 Razão de chances Todas as gestações 6,4 1,0 Gestações de baixo risco 80 4-4,5 0,86 Doenças hipertensivas HAS crônica 6-10 6-25 1,5-2,7 Pré-eclâmpsia ■ Leve 5,8-7,7 9-51 1,2-4,0 ■ Grave 1,3-3,3 12-29 1,8-4,4 Diabetes mellitus uso de dieta 2,5-5 6-10 1,2-2,2 uso de insulina 2,4 6-35 1,8-4,4 Lupus eritematoso sistêmico <1 40-150 6-20 Doença renal <1 15-200 2,2-30 Doenças da tireoide 0,2-2 12-20 2,2-3,0 Trombofilias 1-5 18-40 2,8-5,0 Fumo > 10 cigarros/dia 10-20 10-15 1,7-3,0 obesidade (preconcepção) IMC 25-29,9 kg/m² 21 12-15 1,9-2,7 IMC ≥ 30 kg/m² 20 13-18 2,1-2,8 Antecedente de CIur 6,7 12-30 2-4,6 Antecedente de natimorto 0,5-1 9-20 1,4-3,2 Gestação múltipla (atual) Dupla 2,7 12 1,0-2,8 Tripla 0,14 34 2,8-3,7 Idade materna avançada 35-39 anos 15-18 11-14 1,8-2,2 ≥ 40 anos 2 11-21 1,8-3,3 raça negra x raça branca 15 12-14 2,0-2,2 manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 19 22/06/2012 11:53:49 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 20 20/06/2012 19:26:12 AssIsTÊNCIA PRÉ-NATAL CAPÍTULO 2 Cristiane Alves de Oliveira A AssIsTÊNCIA PRÉ-NATAL DEVE sER INICIADA O MAIs PRECOCEMENTE POssÍVEL E TEM COMO OBJETIVOs: Orientar sobre os hábitos de vida e tratar os pequenos distúrbios da gestação; Dar assistência psicológica para a gestante e seus familiares; Orientar sobre o uso de medicações e de medidas que podem comprometer o concepto; Conduzir doenças próprias da gestação ou doenças preexistentes que aumentem risco para mãe e feto (identificar gestações de alto risco); Instruir sobre o parto e puerpério. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 21 20/06/2012 19:26:12 Perinatal | Manual de Perinatologia 22 1. PLANEJAMENTO FAMILIAR Objetivos: Orientação em relação ao planejamento da vida reprodu- tiva da mulher, incluindo a contracepção especialmente nos grupos de risco. Diminuir gestações não planejadas e abortos provocados. Diminuir taxa de cesarianas para ligadura tubária. Aumentar o intervalo interpartal. 2. IDENTIFICAÇÃO DE FATORES DE RISCO GESTACIONAIS: Durante o período preconcepcional alguns fatores de risco para a gestação, seja para a mãe ou feto, podem ser iden- tificados e muitas vezes corrigidos. Uma avaliação de risco preconcepcional deve considerar: Avaliação pessoal de risco ■ história pessoal e familiar, exame clínico e rastrea- mento laboratorial. Prevenção ■ Planejamento familiar ■ Nutrição, suplementos, controle do peso e exercícios. ■ Vacinação Riscos individuais ■ Doenças crônicas ■ uso de medicações ■ Abuso de substâncias, exposição ambiental Muitas comorbidades clínicas são agravadas pela gestação ou pioram o prognóstico da gestação em si. É importante que na concepção as mulheres estejam na sua melhor condição clínica. PRIMEIRA CONSULTA Anamnese Queixa: avaliar as queixas presentes. História da gestação atual: caracterizar se a gravidez foi planejada; arguir sobre as queixas atuais; registrar o peso habitual; determinar a idade gestacional (Ig) e a idade (< 16 anos ou > 35 anos, se associam com maior frequência a disfunções gestacionais). História obstétrica: gestações, paridade, peso dos filhos ao nascer, tipo de partos, complicações, abortamentos espontâneos ou provocados, amamentação em gestações anteriores. História ginecológica: vida sexual; doenças sexualmente transmissíveis. História clínico-cirúrgica: intervenções prévias; passado clínico relevante (comorbidades). Alergias a fatores ambientais e medicamentosos. Hábitos de vida: tabagismo, etilismo, drogas ilícitas, fal- ta de atividade física. História familiar: pesquisar doenças hereditárias, doença hipertensiva própria da gestação e de diabetes mellitus em parente de primeiro grau. Vacinação: pesquisar o estado vacinal da paciente em relação a tétano, hepatite B, rubéola e influenza. Determinação da idade gestacional (IG) Data da última menstruação (DUM): a utilização apenas da DuM para cálculo da Ig pode estar associada a erro, dependente tanto da falha da memória da gestante quan- to da possibilidade de ovulação tardia. Portanto, para um cálculo mais preciso é necessária a associação com o exame ultrassonográfico. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 22 20/06/2012 19:26:12 C A P Í T U L O 2 | A S S I S T Ê N C I A P R É - N A T A L 23 Ultrassonografia: quando realizada no primeiro trimes- tre da gestação (com a mensuração de CCN), ideal- mente entre seis e 13 semanas, apresenta erro médio na estimativa da Ig de cinco dias, para mais ou para menos. se houver uma diferença de mais de cinco dias entre a Ig calculada pela DuM e a Ig calculada pelo ultrassom realizado no primeiro trimestre, a Ig deve ser calculada considerando-se o ultrassom. Caso con- trário (havendo diferença menor que cinco dias), a Ig deve ser seguida pela DuM. No segundo trimestre, o erro médio na estimativa da Ig é de dez dias, para mais ou para menos. Cálculo da data provável do parto (DPP) Tendo como base o primeiro dia da última menstruação (DuM), a gestação dura, em média 280 dias ou 40 sema- nas. A técnica singela para o cálculo da DPP consiste em somar nove meses e sete dias à DuM. Medicações A gestante deve ser orientada a não usar nenhuma medica- ção sem prescrição médica, devendo a mesma alertar sobre sua gravidez sempre que for atendida por outro profissional de saúde. No primeiro trimestre da gestação, período da embriogênese, deve-se evitar o uso de medicamentos. O uso de suplemento multivitamínico com ferro no pré-na- tal satisfaz as necessidades diárias da maioria das gestan- tes. O uso de 30 mg de ferro elementar/dia administrado sob a forma de sal, como gluconato, sulfato ou fumarato, fornece ferro suficiente para suprir as necessidades da ges- tação e proteger qualquer reserva preexistente. O sulfato ferroso na dose de 300 mg/dia corresponde a 60 mg de ferro elementar. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 23 20/06/2012 19:26:15 Perinatal | Manual de Perinatologia 24 Devem ser ingeridos alimentos ricos em ácido fólico, como grãos, espinafre, lentilha, grão de bico, espargos, brócolis, ervilha, couve, milho e laranja. No entanto, é recomendada a suplementação de folato para a prevenção de defeitos de fechamento do tubo neural e outras anomalias, como fenda facial, cardiopatia estrutural, defeito de membros, defeito do trato urinário, anomalia e hidrocefalia. A dose de ácido fólico recomendada para prevenção de ocorrência de defeitos do tubo neural é de 0,4 mg/dia, enquanto que a dose para pre- venção de recorrência dos mesmos é de 4 mg/dia. O ácido fólico nessas pacientes deve ser prescrito na dose de 4 mg/dia por pelo menos três meses antes da concepção e continuar até 10-12 semanas após a concepção. A partir daí até o final da gestação e do período pós-parto (quatro-seis semanas ou enquanto continuar a amamentação) a suple- mentação deve consistir de ácido fólico (0,4-1,0 mg) asso- ciado a suplemento multivitamínico. Determinação do risco gestacional Na primeira consulta pré-natal, qualquer fator de risco na his- tória pregressa da paciente ou na história da gestação atual in- dica encaminhamento da gestante para serviço especializado. Exames Exame físico Deverá ser completo, com especial atenção para: Ausculta cardíaca e respiratória. ■ Exame das mamas. ■ Registro do peso e altura (IMC = peso [kg] /estatura²[m]). ■ Registro dos sinais vitais. Palpação abdominal com delimitação do fundo uterino e do seu conteúdo (a partir da segunda metade da gesta- ção, principalmente). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd24 20/06/2012 19:26:15 C A P Í T U L O 2 | A S S I S T Ê N C I A P R É - N A T A L 25 Ausculta dos batimentos cardíacos do concepto com so- nar Doppler ou estetoscópio de Pinard. Exame especular. Toque vaginal. Exames complementares (na primeira consulta) hemograma completo. grupo sanguíneo e Fator Rh – quando o Rh for negativo, solicitar Rh do parceiro. Coombs indireto. glicemia de jejum. VDRL (Veneral Disease Research Laboratory). hBsAg. sorologia para hIV em dependência do consentimento da gestante. IgM e Igg para: toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus. Rotina de urina (EAs – Elementos Anormais e sedimen- tos – e urinocultura). Parasitológico de fezes. Ultrassonografia transvaginal (até 14 semanas é a me- lhor para avaliação da gestação, excluir gemelidade e di- minuir as induções de parto por pós-datismo). Avaliação de risco fetal: ■ Translucência nucal (TN), avaliação do osso nasal e do ducto venoso (marcadores biofísicos de cromossomopa- tia fetal) – devem ser avaliadas nos fetos com compri- mento cabeça-nádega (CCN) entre 45 mm e 84 mm (corresponde a Ig entre 11 a 13 semanas e seis dias). ■ A dosagem no plasma materno de PAPP-A (Pregnancy- -Associated Plasma Protein) em associação com a do- sagem da fração livre da beta-hCg (teste duplo – mar- cadores bioquímicos de cromossomopatia fetal) entre dez e 14 semanas de prenhez. ■ Avaliação do risco materno – pode ser utilizado Dop- pler da artéria uterina, associado à história materna para predição de pré-eclâmpsia. Colpocitologia oncótica – a colheita deve ser tríplice (va- ginal, ectocervical e endocervical). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 25 20/06/2012 19:26:16 Perinatal | Manual de Perinatologia 26 CONSULTAS SUBSEQUENTES Intervalos: mensais, até 32 semanas; quinzenais, de 32 a 36 semanas; semanais, a partir de 36 semanas até o parto. Anamnese (avaliação de queixas). Registro do peso materno, sinais vitais, medicações em uso e exames complementares: ■ ganho de peso – o cálculo ideal do ganho ponderal deve ser feito com base no Índice de Massa Corporal (IMC) da gestante pré-gestacional. ■ PA ≥ 140/90 mmhg em dois registros com intervalos mínimos de quatro horas, com a gestante em repouso no leito em decúbito lateral, diagnosticam a hiperten- são arterial. Palpação abdominal, medida de fundo de útero e auscul- ta fetal. ■ A medida do fundo do útero, obtida a partir da borda su- perior da sínfise púbica, é importante para o rastreamen- to de distúrbios na evolução da gravidez (como suspeita de restrição do crescimento fetal). Toques vaginais a partir de 34 semanas. Orientação sobre hábitos de vida e sobre o parto. Gestação com IG ≥ 41 semanas – deve-se atentar para a presença de envelhecimento e disfunção da placenta, característicos da gravidez patologicamente prolongada ou pós-matura, que cursa com envelhecimento e insuficiência placentária e conduz ao sofrimento fetal. Exames complementares Ultrassonografia morfológica com 20-24 semanas (in- cluir avaliação do colo uterino nessa fase) e ultrassono- grafia com 36-38 semanas (avaliação do crescimento fetal e do líquido amniótico). Dopplerfluxometria com 26-28 semanas de gestação (para estudo do fluxo uteroplacentário) e com 36-38 semanas (para estudo do fluxo fetoplacentário). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 26 20/06/2012 19:26:16 C A P Í T U L O 2 | A S S I S T Ê N C I A P R É - N A T A L 27 Cardiotocografia basal (CTG) ou Perfil Biofísico Fetal com 36-38 semanas. hemograma (série vermelha) no segundo e no terceiro trimestres. Rotina de urina (EAs/Elementos Anormais e sedimentos e urinocultura) em cada trimestre da gestação. VDRL no segundo e no terceiro trimestres e por ocasião do parto, nas pacientes VDRL negativo. IgM e Igg para toxoplasmose no segundo e no terceiro trimestres, caso a Igg seja negativa no primeiro exame. Teste oral de tolerância a glicose – TOTg (ver cap.14). Investigação de colonização genital por estreptococo do grupo B entre 35 e 37 semanas de gestação – cultura de material obtido de introito vaginal e do reto. ■ A presença de cultura positiva ou de urinocultura po- sitiva para estreptococo do grupo B durante a gestação define o diagnóstico de colonização genital por esse germe, devendo ser realizada profilaxia antibiótica in- traparto para proteção do recém-nato. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 27 20/06/2012 19:26:16 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 28 20/06/2012 19:26:16 PROTOCOLO DE IMuNIZAÇÃO DA gEsTANTE E DA PuÉRPERA CAPÍTuLO 3 Isabella Ballalai A IMPORTâNCIA FUNDAMENTAL DA VACINAÇÃO Antes de engravidar, de preferência, a mulher deve ser orientada a atualizar suas vacinas de acordo com o calendário de vacinação da mulher adulta. Com o objetivo de auxiliar nesse sentido, a sociedade Brasileira de Imunizações (sBIm) e a Federação Brasileira das Associações de ginecologia e Obstetrícia (Fe- brasgo) lançaram o Consenso de Vacinação da Mulher, cujas recomendações estão resumidas na Tabela 1. Deve-se lembrar que, durante a gravidez, algumas vacinas são contraindicadas, ou- tras recomendadas ou devem ser consideradas de acordo com fatores epidemiológi- cos e pessoais. Veja as recomendações na Tabela 2 No pós-parto imediato é seguro vacinar e algumas vacinas são recomendadas nesse período com o objetivo de proteger a criança (estratégia cocoon). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 29 20/06/2012 19:26:16 Perinatal | Manual de Perinatologia 30 VACINAÇÃO NA PRECONCEPÇÃO Idealmente, a vacinação deve ocorrer antes da gestação, para proteger a mulher de infecções potencialmente graves, prevenir infecções intrauterinas e permitir a transferência de anticorpos para o feto. Protocolo de imunização para a gestante As vacinas atenuadas estão contraindicadas durante a ges- tação diante do risco teórico para o feto. A vacinação deve ser evitada no primeiro trimestre de ges- tação – essa precaução se deve à incidência de abortos es- pontâneos nessa fase e à importância de se evitar relação temporal destes com a vacinação. As vacinas inativadas não apresentam evidências de riscos teóricos para a gestante e o feto. Não existe risco conhecido para o feto com a imunização passiva de mulheres gestantes com preparações de imuno- globulinas humanas. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 30 20/06/2012 19:26:16 C A P Í T U L O 3 | P R O T O C O L O D E I M U N I Z A Ç Ã O D A G E S T A N T E E D A P U É R P E R A 31 T a b e l a 1 Recomendações para a vacinação da mulher vacina tipo número de doses do esquema vacinal completo esquema de doses intervalo recomendado antes de engravidar HPV inativada três 0-1-6 meses ou 0-2-6 meses não informado Tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) atenuada duas intervalo mínimo de 1 mês entre as doses 1 mês Varicela atenuada duas intervalo mínimo de 1 mês entre as doses 1 mês Hepatite B inativada três 0-1-6 meses nenhum Hepatite A inativada duas 0-6 meses nenhum Hepatite A e B com- binadas inativada três 0-1-6 meses nenhum Meningite C conjugada inativada única – nenhum Tríplice bacteriana acelular (difteria, tétano, coqueluche) inativada depende do his- tórico vacinal com históri- co vacinal = dose única sem histórico ou não vacinada anteriormente = 0 (=dTpa) - 2 (= dT) - 6 (=dT) meses nenhum Influenza (gripe) inativada uma dose anual – nenhum Febre Amarela atenuada uma dose a cada 10 anosem situação epide- miológica que justifique uma dose a cada 10 anos 1 mês Adaptado de Vacinação da Mulher – Consenso SBIm & Febrasgo 2012 e Calendário de Vacinação da Mulher SBIm 2012/13. manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 31 22/06/2012 11:47:41 Perinatal | Manual de Perinatologia 32 Quanto à recomendação para a gestante Vacinas do calendário da mulher esquema completo situação antes de engravidar conduta na gravidez conduta após a gravidez ALTAMENTE RECOMENDADA Hepatite B três 0-1-6 meses nenhuma dose anterior iniciar esquema de doses 0-1-6 meses dar continuidade uma dose anterior continuar sem recome- çar esquema de doses dar continuidade duas doses anteriores aplicar terceira dose, se a última há mais de 4 meses – Considerações: As mulheres grávidas de qualquer idade que são identificadas como suscetíveis à hepatite B devem ser vacinadas. Influenza (gripe) uma dose anual ainda não vacinada na sazonalidade vacinar – Considerações: A recomendação da vacinação se sustenta no fato de a gestante pertencer ao grupo de risco aumentado para as complicações da infecção pelo vírus da influenza sazonal ou pandêmica. Além disso, a transferência de anti- corpos por via transplacentária e pelo leite materno possibilita a proteção do bebê nos primeiros meses de vida. Além disso, a mãe vacinada evita a possivel transmissão do virus para o lactente que não pode ser vacinado antes dos seis meses de vida. Tríplice bacteriana acelular (difteria, tétano, coqueluche) de acordo com passado vacinal: 1 a 3 doses previamente vacinadas, com pelo menos três doses de vacina contendo o toxoide tendo recebido a última dose há menos de cinco anos nada ou dTpa fazer dTpa no puer- pério (se possível, na maternidade) se optou por não vacinar durante a gestação previamente vacinadas, com pelo menos três doses de vacina contendo o toxoide tendo recebido a última dose há mais de cinco anos uma dose de dT ou dTpa fazer dTpa no puerpéro (se possível, na maternidade), se optou por vacinar com dT durante a gestação em gestantes que receberam vacinação incompleta contra tétano, tendo recebido ape- nas uma dose na vida aplicar uma dose de dT e uma dose de dTpa ou dT com intervalo de 2 meses fazer dTpa no puerpéro (se possível, na maternidade), se optou por não vacinar com dTpa durante a gestação em gestantes que receberam vacinação incompleta contra tétano, tendo recebido ape- nas duas doses na vida uma dose de dT ou dTpa fazer dTpa no puerpéro (se possível, na maternidade), se optou por não vacinar com dTpa durante a gestação em gestantes com vacinação desconhecida aplicar uma dose de dT e uma dose de dTpa ou dT com intervalo de 2 meses fazer dTpa no puerpéro (se possível, na maternidade), se optou por não vacinar com dTpa durante a gestação Considerações: dT = Dupla do tipo adulto - dTpa = Tríplce bacteriana acelular do tipo adulto. A dTpa é vacina inati- vada, portanto, sem evidências de riscos teóricos para a gestante e o feto e não contraindicada nessa fase. O uso de dTpa em gestantes é recomendado após a 20ª semana de gestação. No entanto, devemos ressaltar que não há dados que descartem a possibilidade de interferência na resposta imune à vacina triplice bacteriana aplicada na criança. RECOMENDADA Hepatite A duas 0-6 meses nenhuma dose anterior iniciar esquema de doses dar continuidade uma dose anterior continuar sem recome- çar esquema de doses, se última dose há mais de 6 meses – Considerações: A atual prevalência para hepatite A, no Brasil, sugere que essa vacina seja considerada na proteção da gestante. T A B E L A 2 Recomendações para a vacinação da gestante manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 32 20/06/2012 19:26:16 C A P Í T U L O 3 | P R O T O C O L O D E I M U N I Z A Ç Ã O D A G E S T A N T E E D A P U É R P E R A 33 Quanto à recomendação para a gestante Vacinas do calendário da mulher esquema completo situação antes de engravidar conduta na gravidez conduta após a gravidez RECOMENDADA Hepatite A e B combinadas três 0-1-6 meses nenhuma dose anterior iniciar esquema de doses 0-1-6 meses dar continuidade uma dose anterior continuar sem recome- çar esquema de doses dar continuidade duas doses anteriores aplicar terceira dose, se a última há mais de 4 meses – Considerações: A vacina combinada contra hepatite A e B é opção para as pacientes com indicação de imunização contra hepatite A e B. A SER CONSIDERADA EM SITUAÇÃO EPIDEMIOLÓGICA DE RISCO Meningocócica conjugada única nenhuma dose anterior avaliar risco vacinar Considerações: vacina inativada, portanto, sem evidências de riscos teóricos para a gestante e o feto. No entanto, na gestação, está indicada apenas nas situações de surtos da doença. CONTRAINDICADAS Febre amarela uma dose a cada 10 anos não vacinada em principio, não vaci- nar, mas, avaliar risco se lactante, vacinar após sexto mês do lactente Considerações: A vacinação contra febre amarela está indicada para as pessoas que vivem nas regiões onde a doença é endêmica ou que pretendem viajar para esses locais. A vacinação de gestante é contraindicada, visto o risco teórico de contaminação do feto. No entanto, o Ministério da saúde considera que quando o risco da doença ultrapassa o risco de evento adverso da vacina, o médico deve avaliar a indicação ou não dessa vacina.* Tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) duas 0-1 meses nenhuma dose anterior não vacinar iniciar esquema de doses uma dose anterior não vacinar aplicar a segunda dose Considerações: A orientação para evitar a vacinação de gestantes com vacinas de vírus atenuados baseia-se no risco teórico de infecção do feto. Em estudos como o do Advisory Committee on Immunization Practices (Acip) – onde foram analisa- das notificações de 680 recém-nascidos filhos de mulheres suscetíveis para rubéola que foram vacinadas até três meses antes da concepção ou durante a gestação – e o da secretaria de saúde de são Paulo – onde foram acompanhas das mais de seis mil gestantes vacinadas inadvertidamente durante o primeiro trimestre de gestação – não identificaram qualquer recém-nascido com malformações indicativas de síndrome da Rubéola Congênita. Como precaução, o Programa Nacional de Imunizações recomenda que as mulheres não sejam vacinadas durante a gestação, mas logo após o parto. Recomenda, também, que as mulheres vacinadas evitem a gravidez por um mês. Varicela duas 0-1 meses nenhuma dose anterior não vacinar iniciar esquema de doses uma dose anterior não vacinar aplicar a segunda dose Considerações: Vacina de vírus atenuado contraindicada na gestação. Mulheres gestantes suscetíveis e em situação de risco (contato com doente) devem receber imunoglobulina específica (ver item “uso de Imunglobulinas para imunização passiva da gestante”). Idealmente, toda mulher suscetível deve ser vacinada antes de engravidar. HPV três 0-1-6 meses ou 0-2-6 meses não vacinada não vacinar iniciar esquema de doses vacinando interromper continuar sem recomeçar esquema de doses Considerações: As duas vacinas contra o HPV receberam a classificação B de medicamentos (testadas em cobaias pre- nhas). No entanto ainda estão contraindicadas na gestação. * Em relação à vacina contra febre amarela: A segurança da vacinação contra a febre amarela durante a gravidez não foi estabelecida, e a vacina deve ser administrada somente quando viajar para área endêmica é inevitável ou se existir um aumento do risco de exposição. Infecçãodo feto com YF17D (cepa vacinal) aparentemente ocorre a uma baixa taxa e não tem sido associada com anomalias congênitas. Se os requisitos de viagens internacionais forem a única razão para vacinar uma mulher grávida, e não um aumento do risco de infecção, o médico deve contraindicar e fazer carta de justificativa para isso. Adaptado de Vacinação da Mulher – Consenso SBIm & Febrasgo 2012 e Calendário de Vacinação da Mulher SBIm 2012/13. > > manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 33 20/06/2012 19:26:17 Perinatal | Manual de Perinatologia 34 USO DE IMUNGLOBULINAS PARA IMUNIzAÇÃO PASSIVA DA GESTANTE As imunoglobulinas humanas específicas são direcionadas es- pecialmente para a proteção contra determinados microrganis- mos ou toxinas, de doenças tais como tétano, hepatite B, raiva, varicela. são obtidas de doadores humanos selecionados, que apresentam alto título sérico de anticorpos contra a doença especifica, em geral pessoas recentemente vacinadas contra as respectivas doenças das quais deseja se proteger. As imu- noglobulinas de uso médico são constituídas em essência por Igg que, em circunstâncias habituais, têm sua concentração sérica reduzida à metade (meia vida) em 21 a 28 dias, sendo a duração da proteção variável. As imunoglobulinas para a imunização passiva estão dispo- níveis no Brasil para gestantes e outros grupos especiais nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (Cries), de acordo com o protocolo do Ministério da saúde, a seguir. Imunoglobulinas, segundo as indicações dos Cries Imunoglobulina humana anti-hepatite B Prevenção da infecção perinatal pelo vírus da hepatite B (mães sabidamente infectantes). Vítimas de acidentes com material biológico positivo ou for- temente suspeito de infecção por VhB. Comunicantes sexuais de casos agudos de hepatite B. Vítimas de abuso sexual. Imunodeprimidos após exposição de risco, mesmo que pre- viamente vacinados. Imunoglobulina humana antivaricela-zoster (IGHVZ) Na pós-exposição. Quando acontecer uma das três con- dições a seguir: 1. Que o comunicante seja suscetível, isto é: a) pessoa imunocompetente e imunodeprimida sem história bem definida da doença e/ou de vacinação anterior; b) pessoa manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 34 20/06/2012 19:26:17 C A P Í T U L O 3 | P R O T O C O L O D E I M U N I Z A Ç Ã O D A G E S T A N T E E D A P U É R P E R A 35 com imunossupressão celular grave, independentemen- te de história anterior. 2. Que tenha havido contato significativo com o vírus varicela zoster, isto é: a) contato domiciliar contínuo: permanência junto com o doente durante pelo menos uma hora em ambiente fechado; b) contato hospitalar: pessoas internadas no mesmo quarto do doente ou que tenham mantido com ele contato direto prolongado, de pelo menos uma hora. 3. Que o suscetível apresente risco especial de varicela grave, isto é: a) imunodeprimidos; b) grávidas; c) recém- -nascidos de mães nas quais a varicela apareceu nos cin- co últimos dias de gestação ou até 48 horas depois do parto; c) recém-nascidos prematuros, com 28 ou mais semanas de gestação, cuja mãe nunca teve varicela; d) recém-nascidos prematuros, com menos de 28 semanas de gestação (ou com menos de 1 kg ao nascimento), in- dependentemente de história materna de varicela. Imunoglobulina Humana Antirrábica (IGHR) Indivíduos que apresentaram algum tipo de hipersensibili- dade quando da utilização de soro heterólogo (antitetânico, antirrábico, antidiftérico, etc.); Indivíduos que não completaram o esquema antirrábico por eventos adversos à vacina; Indivíduos imunodeprimidos – na situação de pós-exposi- ção, sempre que houver indicação de vacinação antirrábica. Imunoglobulina humana antitetânica (IGHAT) Indivíduos que apresentaram algum tipo de hipersensibili- dade quando da utilização de qualquer soro heterólogo (an- titetânico, antirrábico, antidiftérico, antiofídico, etc.); Indivíduos imunodeprimidos, nas indicações de imunopro- filaxia para o tétano, mesmo que vacinado. Os imunodepri- midos deverão receber sempre a IghAT no lugar do sAT, devido à meia vida maior dos anticorpos; manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 35 20/06/2012 19:26:17 Perinatal | Manual de Perinatologia 36 Recém-nascidos em situações de risco para tétano cujas mães sejam desconhecidas ou não tenham sido adequada- mente vacinadas; Recém-nascidos prematuros com lesões tetanogênicas em potencial, independentemente da história vacinal da mãe. ESTRATÉGIA COCOON A palavra inglesa cocoon significa ‘casulo’ e é usada para dar nome à estratégia mundial de conscientização e estí- mulo à proteção de bebês ainda não imunizados contra a co- queluche, porque não foram vacinados ou estão com o esquema de vacinação incompleto. É adotada nos Estados unidos e em outros países. A importância dessa estratégia está no fato de que a coqueluche ainda é a quinta causa de morte no mundo em menores de 5 anos, apesar da vacinação rotineira desse grupo, e na evidência de que o adolescente ou adulto são os responsáveis pela trans- missão da doença para os bebês. Entre os principais transmissores da Bordetella pertussis, de acordo com estudos na literatura, estão: a mãe (32%), os irmãos (20%), o pai (15%), os avós (8%). Outras pessoas que têm con- tato frequente com bebês, como as babás, os profissionais da educação e da saúde, por exemplo, respondem por cerca de 25% das transmissões. O problema é que, na maioria das vezes, os adultos e adolescen- tes transmitem a coqueluche sem saber. Estudos realizados nos EuA, Canadá, França, Alemanha, Austrália e Espanha demons- traram que 25% dos adolescentes e adultos que apresentam tosse seca por mais de 14 dias, têm coqueluche e não sabem. Fazer o diagnóstico de coqueluche não é simples, muitas vezes depende de exames que não estão ainda na rotina e outros que podem apresentar resultado falso positivo. Por esse motivo, al- manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 36 20/06/2012 19:26:17 C A P Í T U L O 3 | P R O T O C O L O D E I M U N I Z A Ç Ã O D A G E S T A N T E E D A P U É R P E R A 37 guns países aderiram à estratégia da vacinação do adolescente e do adulto como forma de evitar a contaminação de bebês. Além da coqueluche, a estratégia cocoon contempla a preven- ção da varicela e da influenza, outras infecções graves para os bebês e que podem ser transmitidas por adultos de seu convívio. 1. Coqueluche – um estudo multinacional rastreou os contatos de lactentes hospitalizados por coqueluche e evidenciou que em 50% dos casos as mães eram a fonte de transmissão, se- guidas por outro adulto (20%), os irmãos (17%), pais (10%), e outra criança moradora da mesma casa (3%). Esse e ou- tros estudos recomendam a imunização de crianças, adoles- centes e adultos contra a coqueluche – lembrando que a proteção conferida pela vacina tríplice bacteriana (do tipo pediátrica ou adulto) protege por cerca de sete a dez anos. 2. Influenza – além de a gestante integrar o grupo de risco para as complicações e óbitos pela doença, ela transmite a infecção para o lactente que, antes dos 6 meses de ida- de não pode ser vacinado contra a influenza. A recomen- dação é vacinar qualquer adulto e criança que convivam com o lactente. 3. Varicela – o recém-nascido de mãe sem registro da doen- ça ou de imunização, e que, portanto, não recebeu os an- ticorpos maternos contra a varicela, está suscetível. Des- sa forma, os adultos e crianças suscetíveis que convivem com o RN, se adoecerem, serão fonte de transmissão. Portanto, a vacinação da mãe e de outros contactantes é a melhor forma de proteger o lactente menor de 9 meses (que ainda não pode ser vacinado contra a varicela). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd37 20/06/2012 19:26:17 Perinatal | Manual de Perinatologia 38 PROTOCOLO DE VACINAÇÃO PARA A PUÉRPERA Com exceção da vacina contra a febre amarela, não existe contraindicação para a aplicação de vacinas atenuadas ou inativadas na puérpera que esteja amamentando (ou não). No entanto, nessa fase deve ser priorizada a aplicação de vacinas contra infecções que podem atingir gravemente o bebê (ver “Estratégia cocoon”, p. 36). Vacinação e lactação Em geral, as vacinas não estão contraindicadas durante a lactação. A exceção é a vacinação para febre amarela, que deve ser evitada em mulheres que estejam amamentando lactentes menores de seis meses. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 38 20/06/2012 19:26:17 C A P Í T U L O 3 | P R O T O C O L O D E I M U N I Z A Ç Ã O D A G E S T A N T E E D A P U É R P E R A 39 T a b e l a 3 Recomendações para a vacinação da puérpera Vacinas do calen- dário da mulher esquema completo conduta recomendar para outros adultos para proteger bebês ESTRATÉGIA COCOON Influenza (gripe) uma dose anual vacinar as mulheres ainda não vacinada na sazonalidade Sim. Todos que convivem e cuidam do bebê. Tríplice bacteriana acelular (difteria, tétano, coqueluche) dose única de dTpa aplicar uma dose de dTpa no puerpério imediato se recebeu a última dose com com- ponente pertussis há mais de 10 anos. Va- cinar mesmo mulheres que tenham recebido dT na gestação Sim. Todos que convivem e cuidam do bebê. Tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) duas 0-1 meses vacinar mulheres com uma ou nenhuma dose anterior Sim. Todos que convivem e cuidam do bebê. Varicela duas 0-1 meses iniciar esquema de doses Sim. Todos que convivem e cuidam do bebê. ROTINA PARA TODA MULHER Hepatite b três 0-1-6 meses dar continuidade ou iniciar esquema de doses não Hepatite a duas 0-6 meses dar continuidade ou iniciar esquema de doses não Hepatite a e b com- binadas duas 0-6 meses dar continuidade ou iniciar esquema de doses não HPV três 0-1-6 meses ou0-2-6 meses dar continuidade ou iniciar esquema de doses não Meningocócica conjugada (tipo C ou quadrivalente - A.C.W135.Y) única dar continuidade ou iniciar esquema de doses não CONTRA INDICADA Febre amarela uma dose a cada 10 anos indicada para quem vive ou vai visitar regiões endemicas. Contraindicada para mulheres que estejam amamentando meno- res de 6 meses. não Adaptado de Vacinação da Mulher – Consenso SBIm & Febrasgo 2012 e Calendário de Vacinação da Mulher SBIm 2012/13. manual-perinatologia_magic-rm_120622.indd 39 22/06/2012 15:52:41 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 40 20/06/2012 19:26:18 RAsTREAMENTO DE ANEuPLOIDIAs CAPÍTuLO 4 Ana Elisa Baião O rastreamento pré-natal consiste na aplicação de um ou mais testes à população de mulheres grávidas para identificar as que apresentam risco alto para aneuploidias, as quais serão candidatas aos testes diagnósticos invasivos. Atualmente existem vários testes utilizados no rastreamento de aneuploidias – os biofísicos (marcadores ultrassonográficos) e os bioquímicos. Estes testes podem ser combinados, com o objetivo de melhorar o desempenho do rastreamento. CONDIÇÕES RASTREADAS As aneuploidias são anomalias genéticas em que há alteração do número de cromos- somos. A aneuploidia mais comum em nascidos vivos é a trissomia do cromossomo 21, também conhecida como síndrome de Down (sD). Outras aneuploidias que mais raramente são diagnosticadas em nascidos vivos são as trissomias dos cromossomos 13 e 18. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 41 20/06/2012 19:26:18 Perinatal | Manual de Perinatologia 42 Essas três são as condições que se associam às alterações nos testes de rastreamento, embora o rastreamento alterado eventualmente possibilite o diagnóstico de outras aneuploi- dias, como a monossomia do X. IDADE MATERNA AVANÇADA Reconhecidamente, o risco de ter um filho com uma aneu- ploidia aumenta com a idade da mulher. são exceções as aneuploidias dos cromossomos sexuais, e aquelas origina- das de translocações, herdadas ou não. Quando, na década de 1960, tornou-se possível diagnosti- car as aneuploidias durante a gravidez, foi estabelecida a idade superior a 35 anos como ponto de corte para definir a população de alto risco. Para essa faixa, os riscos associa- dos aos procedimentos invasivos se equiparavam ao risco de ter um filho afetado por uma aneuploidia. Entretanto, os indivíduos afetados pela sD nascidos de mães nessa faixa etária representam menos de 50% do total. A partir desse dado, foram pesquisados métodos que permitissem rastrear a população mais jovem e possibilitar o diagnóstico pré- -natal mais amplo. TESTES Os testes de rastreamento e as taxas de detecção para sD estão resumidos no Quadro 1. Primeiro trimestre Biofísicos Diversos marcadores ultrassonográficos associados às aneuploidias foram descritos. De todos eles, o que tem maior sensibilidade é a translucência nucal (TN). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 42 20/06/2012 19:26:18 C A P Í T U L O 4 | R A S T R E A M E N T O D E A N E U P L O I D I A S 43 A translucência nucal é a visão pela usg do acúmulo de líquido entre a pele e as partes moles adjacentes à coluna cervical do feto, e deve ser medida entre 11 e 14 sema- nas (45 mm a 84 mm de comprimento cabeça-nádega), seguindo padrão técnico rigoroso. O resultado anormal é a medida acima do percêntil 95 para a idade gestacional, não sendo adequada a utilização de pontos de corte. Outros marcadores do primeiro trimestre, avaliados na mesma ocasião da TN, são: osso nasal; ducto venoso; regurgitação tricúspide; ângulo maxilar. A associação dos outros marcadores aumenta a taxa de detecção de aneuploidias de 75% para cerca de 85%. Bioquímicos Os testes bioquímicos consistem na dosagem de algu- mas substâncias no sangue materno e na sua compara- ção com a distribuição normal da população. seu resul- tado é expresso em múltiplos da mediana (MoM). No primeiro trimestre, os marcadores bioquímicos são: beta-hCg; PAPP-A (proteína A associada à gestação). A associação da TN e dos marcadores secundários com os testes bioquímicos confere sensibilidade de 90% a 95%, com 3% de falsos positivos e é conhecida como teste combinado do 1º Trimestre, ou Pratic (programa de rastreamento de aneuploidias por testes de integra- ção clínica). Atualmente, considera-se que é o teste com melhor desempenho associado à vantagem de, por ser concluído no primeiro trimestre, possibilitar a realização da biópsia de vilo corial para o diagnóstico precoce. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 43 20/06/2012 19:26:18 Perinatal | Manual de Perinatologia 44 Segundo trimestre Bioquímicos Ainda são os testes mais amplamente utilizados no mun- do, e vêm sendo aos poucos substituídos pelo teste com- binado nos protocolos de rastreamento. Entre 15 e 19 semanas são dosados no sangue materno o beta-hCg, o estriol livre e a alfafetoproteína, no teste conhecido como ‘teste triplo’. A adição da inibina di- mérica A compõe o teste quádruplo, com sensibilidade próxima de 70% para a detecção da sD. Biofísicos Dos marcadores de segundo trimestre, a prega nucal é o que tem maior sensibilidade (40%) e maior razão de verossimilhança, representando um aumento de cerca de nove vezes o risco basal de aneuploidia. Todos os outros marcadores descritos têm peso menor no cálculo de ris- co, ganhando maior importância apenas quando associa- dos entre si. CáLCULO DO RISCO O princípio do rastreamento, comqualquer método utiliza- do, consiste na correção do risco a partir de razões de ve- rossimilhança particulares a cada marcador. Assim, o risco inicial ou basal (aquele calculado a partir da idade materna, antecedentes de aneuploidias, ou derivado de testes de ras- treamento prévios) será corrigido para o risco final. INDICAÇÃO DO PROCEDIMENTO INVASIVO A indicação do cariótipo será feita àquelas gestantes clas- sificadas como de alto risco após o rastreamento. O ponto de corte a partir do qual se considera o risco alto varia, de manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 44 20/06/2012 19:26:18 C A P Í T U L O 4 | R A S T R E A M E N T O D E A N E U P L O I D I A S 45 modo geral, entre 1:100 e 1:300. Embora a classificação atribuída pelos médicos influencie a decisão de prosseguir ou não com a investigação fetal, o ideal é que a gestante seja informada dos riscos numéricos, tanto relativos ao feto quanto ao procedimento invasivo, para que ela possa decidir com base em seus próprios valores. INVESTIGAÇÃO COMPLEMENTAR O rastreamento alterado pode estar associado a outras com- plicações além das aneuploidias. A TN aumentada já foi relacionada com várias malformações e síndromes gené- ticas, porém mais caracteristicamente com malformações cardíacas e esqueléticas. Dessa forma, na presença da TN aumentada, indica-se avaliação cuidadosa da morfologia fe- tal e ecocardiografia fetal. Também se deve atentar para a associação da insuficiência placentária com a alteração dos testes bioquímicos. Decisão informada É considerado de extrema importância que a mulher seja informada de que os testes de rastreamento são opcionais e que sua decisão de fazê-los ou não seja com base em infor- mação suficiente sobre os exames. são consideradas informações indispensáveis: características dos testes oferecidos (sensibilidade, taxa de falsos positivos); que condições podem ser rastreadas pelo teste; na ocorrência de um resultado positivo, qual seria a in- vestigação a seguir e riscos associados à mesma; no caso de diagnóstico de uma aneuploidia, quais seriam as opções de condução da gravidez. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 45 20/06/2012 19:26:21 Perinatal | Manual de Perinatologia 46 Tipo de teste Taxa de detecção (sensibilidade) 1º trimestre Translucência nucal (TN) 70-75% TN + bioquímica (beta-hCg e PAPP-A) 85-90% 2º trimestre Teste triplo 65% Teste quádruplo 70-80% 1º e 2º trimestres Teste integrado (TN + PAPP-A + teste quádruplo) 95% Teste bioquímico integrado (PAPP-A+ teste quádruplo) 85% sequencial em etapas 95% 1º Trimestre alterado – BVC* 1º Trimestre normal – oferecido teste quádruplo Risco final – resultados combinados de 1º e 2º trimestres Q u A D R O 1 : Testes de rastreamento e taxas de detecção para sD (falso positivo 5%) *BVC: biópsia de vilo corial. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 46 20/06/2012 19:26:21 C A P Í T U L O 4 | R A S T R E A M E N T O D E A N E U P L O I D I A S 47 Fluxograma de rastreamento sequencial por grupos de risco 1º trimestre Risco > 1:100 e < 1:1000Risco > 1:100 BVC Risco > 1:100 Amniocentese Concluído Risco > 1:1000 Concluído Risco < 1:1000 Teste de 2º trimestre Resultados combinados Risco >1:100 e <1:1.000 Discutir opção com o casal manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 47 20/06/2012 19:26:21 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 48 20/06/2012 19:26:22 ABORTAMENTO CAPÍTuLO 5 Renato Augusto Moreira de sá Paulo Roberto Nassar de Carvalho O abortamento é a interrupção da gestação com concepto pesando menos de 500 g ou com idade gestacional inferior a 22 semanas completas (154 dias). Pode-se classificá- -lo quanto à forma de expulsão do ovo em espontâneo ou induzido. O abortamento pode se apresentar sob diversas formas clínicas, sendo que a conduta a ser assumida deverá se alicerçar em um cuidadoso diagnóstico diferencial entre estas múltiplas manifestações da gestação precocemente interrompida ou em vias de se interromper. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 49 20/06/2012 19:26:22 Perinatal | Manual de Perinatologia 50 DIAGNÓSTICO O diagnóstico das diferentes formas clínicas de abortamen- to pode ser realizado através dos sinais e sintomas e dos exames complementares, conforme exposto na Tabela 1. Sinais e sintomas Formas clínicas do abortamento Ameaça Inevitável Completo Incompleto Infectado Retido Exame especular. Sangra- mento Sangra- mento discreto ou ausente Sangramen- to presente e por vezes abundante Sangra- mento discreto ou ausente Sangramento presente e abundante. Saída de tecido ovular pelo OE1 Sangramen- to variável. Presença de secreção purulenta. Ausente Dor Discreta ou ausente Cólicas sempre presentes Ausentes Cólicas sempre presentes Sinais de peritonite podem estar presentes Ausente Febre Ausente Ausente Ausente Ausente Presente Ausente Útero Compatível com IG (2) Compatível com IG (2) Contraído e menor que o esperado para a IG2 Menor que o esperado para a IG2 Amolecido e doloroso à palpação Menor que o esperado para a IG2 Orifício interno do colo uterino Fechado Entreaberto Fechado Entreaberto Entreaberto Fechado β-HCG3 Positivo No mais das vezes positivo Negativo No mais das vezes negativo Negativo Negativo Ultrassom Sem alterações Ovo defor- mado e/ou baixo e/ou hematoma retrocorial Útero vazio Sugere res- tos ovulares intrauterino Pode-se visualizar restos ovulares intrauterino BCF4 ou embrião ausente (confir- mar com intervalo de 15 dias) 1- OE: Orifício Externo do colo uterino; 2 - IG: idade gestacional; 3- β-HCG: fração beta da gonadotrofina coriônica humana; 4 - BCF: bati- mentos cardíacos do feto. T A B E L A 1 : Diagnóstico das diferentes formas clínicas do abortamento manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 50 22/06/2012 11:42:42 C A P Í T U L O 5 | A B O R T A M E N T O 51 CONDUTA Análise clínica hemograma completo: deve ser solicitado na suspeita de aborto infectado ou no caso de sangramento intenso. solicitar tipagem sanguínea e Coombs indireto: as pacientes apresentando sangramento importante com fator Rh negativo e Coombs indireto negativo devem ser medicadas com Imunoglobulina anti-Rh, de 300µg, IM, para prevenção de possível aloimunização. O material do abortamento deve ser enviado para aná- lise histopatológica sempre. A avaliação do cariótipo deve ser solicitada segundo cada caso. Ameaça de abortamento Repouso relativo, acompanhamento ambulatorial e abstinência sexual. Ultrassonografia: seriada em intervalos dependentes da evolução do quadro. A realização em caráter de emergência não é obrigatória. Hioscina: 1 comprimido, VO, de 6/6 horas, em caso de cólicas. Progesterona (Utrogestan: cápsula 200 mg, via vagi- nal, 2x/dia ou Progesterona natural micronizada: 100 mg, VO, ou via vaginal de 8/8 horas), em caso de sus- peita de insuficiência de corpo lúteo. Abortamento inevitável Internação da paciente. sinais vitais a cada seis horas (temperatura axilar, pul- so radial, frequência respiratória e pressão arterial). hemograma completo para monitorar a espoliação e rastrear a infecção. Lembrar que 70% dos abortamentos até oito semanas resolvem-se espontaneamente. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 51 20/06/2012 19:26:22 Perinatal | Manual de Perinatologia 52 A presença de sangramento volumoso requer a opção pelo tratamento imediato atravésda correção de vole- mia (estabilização da paciente) e esvaziamento uterino: ■ Idade gestacional ≤ 12 semanas: aspiração manual intrauterina (AMIu) ou, quando não disponível, dila- tação e curetagem uterina por técnica convencional. ■ Idade gestacional ≥ 12 semanas: só deve ser fei- to esvaziamento cirúrgico uterino após expulsão do feto (ver tratamento medicamentoso com misopros- tol adiante). Pacientes Rh negativo e Coombs indireto negativo de- vem ser medicadas com Imunoglobulina anti-Rh para prevenção de possível aloimunização. O uso de perfusão venosa de ocitocina no primeiro tri- mestre da gestação é questionado pelo fato de o útero ainda não ter receptores suficientes para essa subs- tância nesta fase da gestação. Caso se opte pela sua utilização: Ocitocina em solução glicosada na velocidade de 40 mUI/min (20UI – 4 ampolas de 5UI – do fármaco em 500 ml de soro glicosado a 5% a 20 gotas/min). Abortamento incompleto Internação da paciente. sinais vitais a cada seis horas (temperatura axilar, pul- so radial, frequência respiratória e pressão arterial). hemograma completo para monitorar espoliação e ras- trear infecção. A presença de sangramento volumoso requer correção de volemia (estabilização da paciente) e esvaziamento uterino (AMIu ou dilatação e curetagem uterina). O uso de misoprostol, na dose de 200 µg a 400 µg, via vaginal, é admissível para a preparação do colo do útero (nos casos de colo muito rígido e fechado) antes do procedimento de esvaziamento uterino. Nesses ca- sos, o misoprostol deve ser administrado entre quatro e seis horas antes do procedimento cirúrgico. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 52 20/06/2012 19:26:22 C A P Í T U L O 5 | A B O R T A M E N T O 53 O uso de perfusão venosa de ocitocina no primeiro tri- mestre da gestação é questionado pelo fato de o útero ainda não ter receptores suficientes para essa substância nesta fase da gestação. Caso se opte pela sua utilização: Ocitocina em solução glicosada na velocidade de 40 mUI/min (20UI – 4 ampolas de 5UI – do fármaco em 500 ml de soro glicosado a 5% a 20 gotas/min). A conduta expectante tem boa resposta nas pacientes com abortamento incompleto, podendo ser feita nos casos de: ■ sangramento leve, sem repercussões hemodinâmi- cas na paciente; ■ ultrassom evidenciando pequena quantidade de restos ovulares. Pacientes Rh negativo e Coombs indireto negativo de- vem ser medicadas com Imunoglobulina anti-Rh para prevenção de possível aloimunização. Abortamento retido A ultrassonografia realizada com intervalo de 15 dias de- fine o diagnóstico dos dois tipos de abortamento retido: ■ Retenção do ovo morto ou missed abortion – presen- ça de embrião sem vida no saco gestacional íntegro. ■ Ovo anembrionado ou ovo cego – ausência de em- brião no saco gestacional íntegro. Deve-se lembrar que 70% dos abortamentos até oito semanas resolvem-se espontaneamente. A conduta ex- pectante pode ser uma opção nestas pacientes. Ao optar pelo esvaziamento uterino, internar a paciente: ■ Ovo cego e missed abortion com idade gestacional sonográfica < 12 semanas: ■ Dilatação e esvaziamento do útero pela técnica da aspiração manual intrauterina (AMIu) ou, quan- do não disponível, curetagem uterina por técnica convencional. ■ Missed abortion com idade gestacional sonográfica > 12 semanas: manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 53 20/06/2012 19:26:22 Perinatal | Manual de Perinatologia 54 ■ Misoprostol (ver tratamento medicamentoso com misoprostol a seguir). O uso de misoprostol, na dose de 200 µg a 400 µg, via vaginal, é admissível para a preparação do colo do úte- ro (nos casos de colo muito rígido e fechado) antes do procedimento de esvaziamento uterino. Nesses casos, o misoprostol deve ser administrado entre quatro e seis horas antes do procedimento cirúrgico. Pacientes Rh negativo e Coombs indireto negativo de- vem ser medicadas com Imunoglobulina anti-Rh para prevenção de possível aloimunização. Abortamento infectado Internação da paciente. sinais vitais a cada seis horas (temperatura axilar, pul- so radial, frequência respiratória e pressão arterial). hemograma completo para monitoramento da espolia- ção e acompanhamento do estado infeccioso. A presença de sangramento volumoso requer correção de volemia (estabilização da paciente). Pacientes Rh negativo e Coombs indireto negativo de- vem ser medicadas com Imunoglobulina anti-Rh para prevenção de possível aloimunização. Antibiótico Patógeno não isolado: ■ Sem peritonite: ■ Cefalotina: 2g, EV, de 6/6 horas. ■ Metronidazol: 500mg, EV, de 8/8 horas. ■ Com peritonite acrescentar: ■ gentamicina: 80 mg, IM, de 8/8 horas. Esvaziamento uterino É prudente aguardar no mínimo uma hora após a ad- ministração de antibiótico e ocitócito para curetagem uterina. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 54 20/06/2012 19:26:23 C A P Í T U L O 5 | A B O R T A M E N T O 55 Esvaziamento uterino: ■ Idade gestacional ≤ 12 semanas: aspiração manual intrauterina (AMIu) ou, quando não disponível, dila- tação e curetagem uterina por técnica convencional. ■ Idade gestacional ≥ 12 semanas: só deve ser feito esvaziamento cirúrgico uterino após expulsão do feto (ver tratamento medicamentoso com misoprostol abaixo). Tratamento medicamentoso com misoprostol 1. Indução do abortamento até 12 semanas e 6 dias: ■ 800 mcg a cada 12 h 2. Indução do abortamento de 13 semanas a 16 semanas: ■ 800 mcg dose única diária 3. Indução do abortamento de 16 semanas 1 dia a 20 se- manas: ■ 400 mcg a cada 12 h por 48 h ■ 800 mcg dose única diária (falha em caso de não res- posta em 48 h) manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 55 20/06/2012 19:26:23 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 56 20/06/2012 19:26:23 gEsTAÇÃO ECTóPICA CAPÍTuLO 6 Fernanda Campos da silva Dois por cento das gestações são ectópicas e 18% dos casos de sangramento de primeiro trimestre e dor pélvica que dão entrada em serviço de emergência estão relacionados a esta causa. Em 97%, o local de implantação é a tuba uterina, abdome, colo, ovário ou corno uterino e os fatores de risco são: cirurgia tubária anterior, gestação ectópica anterior, infecção do trato genital causando doença inflamatória pélvica, exposição uterina ao dietiletilbestrol, uso de técnicas de reprodução assistida, cirurgia pélvica ou abdo- minal anterior, tabagismo. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 57 20/06/2012 19:26:23 Perinatal | Manual de Perinatologia 58 DIAGNÓSTICO Com base na anamnese, exame físico, níveis de Beta- -HCG e ultrassonografia transvaginal. sinais e sintomas (principalmente em casos de rotura da tuba): 1. Dor pélvica; 2. Amenorreia; 3. sangramento vaginal. Beta-hCg: 1. Negativo: praticamente exclui o diagnóstico de gesta- ção ectópica (gE) em gestações concebidas natural- mente. Já nas assistidas, é necessário excluir gestação heterotópica que incide em até 1% dos casos. 2. < 1500 mUI/mL: a ultrassonografia pode não confir- mar a gestação intrauterina, será necessária uma do- sagem seriada para avaliara a gestação. >1500 muI/ mL: a ultrassonografia transvaginal é indicada para confirmar a viabilidade e o local de implantação da gestação. Ultrassonografia transvaginal: 1. sem sinais de gestação: a. Beta-hCg < 1500 muI/mL: os diagnósticos possí- veis são gestação tópica inicial, gestação inviável (abortamento), gestação ectópica inicial. b. Beta-hCg > 1500 muI/mL: o diagnóstico de gesta- ção ectópica é possível. 2. Ausência de gestação intrauterina e massa anexial: diversas são as imagens ultrassonográficas possíveis na gE. Pode ser um cistosimples, cisto complexo ou embrião vivo na tuba, com ou sem líquido livre na ca- vidade abdominal. 3. Embrião vivo em localização ectópica: confirma GE. Pacientes sintomáticas: seguir fluxograma 1. Pacientes assintomáticas: seguir fluxograma 1 a partir do resultado do nível de Beta-hCg. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 58 20/06/2012 19:26:23 C A P Í T U L O 6 | G E S T A Ç Ã O E C T Ó P I C A 59 Fluxograma 1: Diagnóstico de gestação ectópica Abortamento em curso Ameaça de abortamento Gestante sintomática: - Dor pélvica - Sangramento vaginal - Atraso menstrual Beta-HCG Diminuição: provável gestação inviável. Negativo < 1.500 mUI/mL > 1.500 mUI/mL Ausência de gestação Repetir Beta-HCG em 48 h USTV Aumento anormal: pos- sível gestação ectópica. Repetir Beta-HCG em 48 h: considerar como GE se com aumento anormal Gestação intrauterina: exclui GE Aumento normal: provável gestação intrauterina Sem imagem de gestação Sem gestação intrauterina + massa anexial: GE provável SG dentro da tuba uterina: diagnóstico de GE. manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 59 22/06/2012 11:59:37 Perinatal | Manual de Perinatologia 60 TRATAMENTO gestação tubária: são duas as principais opções de trata- mento, cirúrgico ou medicamentoso. Algumas pacientes são candidatas a tratamento expectante. gestação abdominal: tratamento cirúrgico. gestação cornual: tratamento medicamentoso. gestação cervical: tratamento medicamentoso. gestação na cicatriz da cesariana anterior: tratamento cirúrgico. Tratamento cirúrgico da gestação tubária As opções de tratamento cirúrgico são a salpingectomia ou salpingostomia por laparotomia ou laparoscopia. Laparoscopia: melhor relação custo-benefício em relação à laparotomia. Laparotomia: indicada nos casos de instabilidade clínica. Tratamento medicamentoso: metotrexate 35% das pacientes com gestação tubária são elegíveis a tratamento medicamentoso com metotrexate. Nelas, a taxa de sucesso é semelhante à do tratamento cirúrgico. É antagonista do ácido fólico, muito utilizado para o tratamento de neoplasias, psoríase grave e artrite reu- matoide. Inibe a síntese de DNA e a reprodução celular de células em proliferação ativa como as células malignas, trofoblas- to e células fetais. Rapidamente excretada pelos rins. Dose baixa para gestação ectópica: 50 mg/m2 ou 1 mg/kg. O Quadro 1 expõe as principais indicações e contraindica- ções ao uso do metotrexate. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 60 20/06/2012 19:26:24 C A P Í T U L O 6 | G E S T A Ç Ã O E C T Ó P I C A 61 Q U A D R o 1 Indicações e contraindicações ao uso de metotrexate CANDIDATAS AO TRATAMENTO COM METOTREXATE Hemodinamicamente estáveis. Beta-HCG <5000 mUI/mL. Embrião sem atividade cardíaca. Saco gestacional até 3 cm a 4 cm. CONTRAINDICAÇÕES AO USO DE METOTREXATE Instabilidade hemodinâmica. Sinais de rotura ou iminência de rotura da tuba. Imunodeficiências, doença pulmonar ativa, úlcera péptica. Hipersensibilidade ao metotrexate. Coexistência de gestação intrauterina. Amamentação. Impossibilidade de acompanhamento. CONTRAINDICAÇÕES RELATIVAS AO USO DE METOTREXATE Beta-HCG > 5000 mUI/mL: fator importante de falha no tratamento e necessidade de múltiplas doses (OR 5,5 IC95% 3,0-9,8). Atividade cardíaca fetal: Também associado a maior falha no tratamento (OR 9,1 IC95% 3,8-22,0). Massa ectópica grande: pouco se comparou resultados entre massas menores ou maiores que 3,5 cm porque estudos de poucos casos indicaram falha em massas maiores. Líquido livre na pelve: quando em pequena quantidade ou restrita à pelve, não está associado a falha no tratamento. Protocolos de administração 1. Dose única: mesma eficácia, menos efeitos colaterais, mais barato (ver Quadro 2). 2. Dose múltipla: primeira escolha nas gestações cornuais (ver Quadro 3). Avaliação pré-tratamento 1. Beta-HCG; 2. Hemograma; 3. Tipo sanguíneo; 4. Função renal e hepática; 5. Ultrassonografia transvaginal. manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 61 22/06/2012 11:59:37 Perinatal | Manual de Perinatologia 62 Precauções durante o tratamento, evitar: 1. Atividade sexual até Beta-hCg negativo. 2. Exame vaginal. 3. Exposição ao sol (risco de dermatite). 4. Alimentos com ácido fólico. 5. AINE – risco de supressão da medula óssea, anemia aplásica e toxicidade gástrica. Q u A D R O 2 Protocolo de administração de dose única de metotrexate Q u A D R O 3 Protocolo de administração de doses múltiplas de metotrexate Dia 1 Metotrexate 50 mg/m2 de área corporal IM Dia 4 Beta-hCg Dia 7 Beta-hCg Repetir MTX se queda Beta-hCg < 25% em relação ao D1, ou <15% para D4. Manter dosagem semanal de Beta-hCg até nível indetectável Máximo de 3 doses. Caso queda <15% até terceira dose: indicar cirurgia MTX IM 1mg/kg D1, D3, D5, D7 Ácido folínico D2, D4, D6 e D8 Beta-hCg D1, D3, D5, D7 Queda Beta-hCg >15% Fim do tratamento Queda Beta-hCg <15% Dose adicional 1mg/kg Dosagem semanal de Beta-hCg até nível indetectável manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 62 20/06/2012 19:26:24 C A P Í T U L O 6 | G E S T A Ç Ã O E C T Ó P I C A 63 Tratamento cirúrgico x medicamentoso Nas pacientes suscetíveis a tratamento medicamentoso (35%) a eficácia é a mesma da salpingostomia. A paciente deve ser orientada quanto a riscos e benefí- cios e assinar termo de consentimento para o procedi- mento escolhido. Efeitos colaterais são mais frequentes com tratamento clínico em relação ao cirúrgico (60% x 12%). O nível de Beta-hCg se torna indetectável antes no tra- tamento cirúrgico, menor tempo de monitoramento. Tratamento expectante O tratamento expectante se baseia no fato de que muitas gestações ectópicas têm resolução espontânea: aborto tubário ou reabsorção. Pode ser uma opção para pacientes nas quais a gestação não foi visualizada no usTV, e/ou Beta-hCg baixo. Necessidade de Beta-hCg seriado para monitorização. Gestação cervical Incidência: < 1% das ectópicas. sangramento vaginal intenso e indolor. O saco gestacional ou o tecido trofoblástico podem ser vistos ao exame especular. Diagnóstico por usTV: ■ saco gestacional no canal cervical. ■ Endométrio normal. ■ Útero em forma de “8” por dilatação do colo. ■ Visualização do embrião no sg. Diferenciar de aborto incompleto. Tratamento: medicamentoso tem menor risco. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 63 20/06/2012 19:26:24 Perinatal | Manual de Perinatologia 64 Gestação cornual Localizada entre a trompa e a cavidade uterina. Metotrexate com múltiplas doses é o tratamento de es- colha. ■ MTX 1 mg/kg dias 1, 3, 5 e 7. ■ Ácido folínico 0,1 mg/kg VO dias 2, 4, 6 e 8. ■ Pode ser repetido em uma semana. A imagem na ultrassonografia com evidência de vascula- rização pode persistir. Cirurgia em caso de instabilidade clínica. Gestação na cicatriz de cesariana anterior 6% das ectópicas em pacientes com cesariana anterior. Diagnóstico por usTV: cuidado – pode ter invasão para be- xiga/reto. Poucos casos descritos para uma recomendação específica. Desvantagens do tratamento medicamentoso: resolução lenta, risco de ruptura e sangramento; pode ser necessária a histerectomia. Vantagens do tratamento cirúrgico: pode remover a gesta- ção e resolver o defeito. Riscos se mantêm altos para futuras gestações. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 64 20/06/2012 19:26:24 C A P Í T U L O 6 | G E S T A Ç Ã O E C T Ó P I C A 65 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd65 20/06/2012 19:26:24 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 66 20/06/2012 19:26:24 DOENÇA TROFOBLÁsTICA gEsTACIONAL CAPÍTuLO 7 Ana Elisa Baião A denominação ‘doença trofoblástica gestacional’ abrange um grupo de doenças que inclui a mola completa e a mola parcial, o coriocarcinoma, a mola invasora e o tumor de sítio placentário, sendo as três últimas condições malignas. Na existência de do- ença trofoblástica persistente, evidenciada pela elevação mantida da gonadotrofina coriônica no sangue, a condição é denominada ‘neoplasia trofoblástica gestacional’ (ver Fluxograma 1). ETIOLOGIA A mola completa é diploide e androgênica, resultando da duplicação de um esper- matozoide após fertilização de um ovócito ‘vazio’ ou da fertilização do mesmo por dois espermatozoides. Não há evidência de tecido fetal. A mola parcial costuma ser triploide com a fertilização de um ovócito normal por dois espermatozoides. Neste caso, pode haver feto ou evidências de linhagens celulares fetais, como eritrócitos. QUADRO CLÍNICO O quadro clássico inclui sangramento vaginal irregular, útero aumentado para a ida- de gestacional, e amolecido, e hiperêmese gravídica. A eliminação de vesículas pela vagina é patognomônica. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 67 20/06/2012 19:26:24 Perinatal | Manual de Perinatologia 68 Também pode ocorrer pré-eclâmpsia precoce, hipertireoi- dismo e distensão abdominal devida a cistos tecaluteínicos. Falência respiratória aguda e convulsões são raras e suge- rem doença metastática. DIAGNÓSTICO O diagnóstico definitivo é histopatológico. A ultrassonografia no primeiro trimestre mostrou-se eficaz em antecipar o diagnóstico da mola, sendo a maioria dos casos associados a laudos ultrassonográficos de abortamento in- completo ou ovo anembrionado, embora seja possível a iden- tificação de imagem típica de vesículas no tecido placentário. A mola parcial pode ser suspeitada pela presença de cistos no tecido placentário associados a anomalias fetais sugesti- vas de triploidia. A dosagem sérica de hCg maior que dois múltiplos da me- diana é sugestiva. TRATAMENTO Após a suspeição clínica, segue-se avaliação mínima com hemograma completo, HCG e radiografia de tórax. O trata- mento indicado na mola completa é a aspiração uterina. Na mola parcial, deve-se levar em consideração o tamanho do feto na escolha do método de esvaziamento uterino. O uso de ocitócito não é indicado pelo risco de embolização e disseminação do tecido trofoblástico na circulação veno- sa, salvo em casos de hemorragia grave. O uso de mifepris- tona ou misoprostol não está definido até o presente e deve ser evitado. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 68 20/06/2012 19:26:24 C A P Í T U L O 7 | D O E N Ç A T R O F O B L Á S T I C A G E S T A C I O N A L 69 A imunoglobulina anti-D deve ser administrada após o esva- ziamento uterino nas gestantes Rh negativo não imunizadas. SEGUIMENTO Devem ser realizados exames clínicos e dosagens sema- nais de hCg até três resultados negativos consecutivos. O exame deve então ser realizado mensalmente por seis meses. Radiografia de tórax e ultrassonografia mensais enquanto houver hCg positivo. A gravidez deve ser evitada até o término do seguimento, preferencialmente com contraceptivos orais. Deve ser realizada ultrassonografia precoce na próxima gestação devido ao risco de recorrência de 1% a 2% da gestação molar. É recomendada a dosagem de hCg sérico seis a oito se- manas após o término das gestações subsequentes, com qualquer desfecho, para investigar recorrência. NEOPLASIA TROFOBLáSTICA GESTACIONAL A malignização é suspeitada em caso de: níveis estacionários por três dosagens semanais consecu- tivas de hCg; aumento do hCg; presença de metástases; níveis de hCg maiores que 20.000 muI/mL após quatro semanas do esvaziamento uterino; hCg positivo após seis meses do esvaziamento uterino. Na presença de doença persistente, deve ser realizada ra- diografia de tórax para investigação de metástases. Se a ra- diografia mostrar lesões suspeitas, é indicada a tomografia ou ressonância magnética de cabeça, tórax e abdome. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 69 20/06/2012 19:26:24 Perinatal | Manual de Perinatologia 70 Tratamento A escolha do tratamento quimioterápico, com uma ou mais drogas, baseia-se no estadiamento proposto pela Federação Internacional de ginecologia e Obstetrícia (Figo), em 2000, conforme demonstrado no Quadro 1: O tratamento monoterápico, com metotrexate, está indicado para escores menores que 6, e a taxa de cura é de quase 100%. Para escores ≥ 7, a taxa de cura chega a 95%. O tratamento deve ser mantido, em todos os casos, até a negativação do hCg e até seis semanas depois. A gravidez deve ser evitada por um ano. O tumor de sítio placentário, não metastático, tem resposta pobre à quimioterapia e deve ser tratado com histerectomia. Q u A D R O 1 : Tratamento quimioterápico da neoplasia trofoblástica gestacional (Figo – 2000) Escore Figo 0 1 2 4 Idade < 40 anos ≥ 40 anos – – gestação prévia Mola Aborto Termo – Intervalo em meses entre a gestação e o tratamento < 4 4 – 7 7 – 13 ≥ 13 hCg pré-tratamento < 103 103 – 104 104 – 105 ≥ 105 Maior tumor (cm) <3 3 – 5 >5 – Local das metástases pulmão baço, rim gastrointestinal fígado e cérebro Nº metástases – 1 – 4 5 – 8 >8 Quimioterapia prévia – – monoterapia 2 ou mais drogas manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 70 20/06/2012 19:26:25 C A P Í T U L O 7 | D O E N Ç A T R O F O B L Á S T I C A G E S T A C I O N A L 71 Fluxograma 1: Acompanhamento da doença trofoblástica gestacional hemograma Radiografia de tórax histopatológico Esvaziamento uterino us Beta-hCg > 2 MoM Quadro clínico suspeito de gestação molar Metástases pulmonares e/ou NTg Exames normais Beta-hCg negativo por três semanas e por seis meses com dosagem mensal Beta-hCg estacionário ou crescente Cura Neoplasia trofoblástica Quimioterapia seguimento: - Beta-hCg e exame clínico semanais; - US pélvico e radiografia de tórax mensais. Estadiamento manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 71 20/06/2012 19:26:25 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 72 20/06/2012 19:26:25 hIPERÊMEsE gRAVÍDICA CAPÍTuLO 8 Fernanda Campos da silva A êmese gravídica afeta de 50% a 90% das gestantes e é caracterizada por algum grau de náusea com ou sem vômitos, podendo ser considerada normal. Tem início com cinco-seis semanas de gestação, com pico com nove semanas, melhorando após 16 a 18 semanas. De 15% a 20% das gestantes têm sintomas até o terceiro trimestre. Já a forma grave de náusea e vômitos na gravidez é chamada hiperêmese, sendo muitas vezes de difícil diferenciação entre o normal e o patológico. É geralmente acompanhada de perda de peso e apresenta incidência de 0,3% a 2% das gesta- ções. A maior parte das grávidas melhora na segunda metade da gestação, mas, em alguns casos, o quadro clínico pode persistir até o parto. FATORES DE RISCO Não são bem definidos. Possíveis fatores de risco pré-gestacionais seriam: gestação gemelar, doença trofoblástica gestacional, adolescente, gestações não planejadas. história de náusea/vômito a exposições prévias ao estrogênio, a enxaqueca e ao movimento. Distúrbios psiquiátricos e diabetes pré-gestacional. Pirose e refluxo gastroesofágico. Antecedente familiar de hiperêmese. Fatores protetores: idade materna maior que 35 anos e tabagismo. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 73 20/06/2012 19:26:25 Perinatal | Manual de Perinatologia 74 QUADRO CLÍNICO E LABORATORIAL Presençade vômitos persistentes, desidratação, emagreci- mento maior que 5% do peso pré-gestacional e cetonúria, após exclusão de outras causas. O início dos sintomas é geralmente entre quatro e dez semanas com pico de hospi- talização com nove semanas. Complicações: lesão hepática e renal, hemorragia reti- niana e distúrbios nutricionais e neurológicos (encefalo- patia de Wernicke). Alterações laboratoriais: hipocalemia Alcalose metabólica hematócrito (hemoconcentração) hiperuricemia AsT e ALT hiperbilirrubinemia Amilase e lipase (origem salivar) hipertireoidismo leve DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL A hiperêmese geralmente é diagnóstico de exclusão. Os sintomas associados, como dor abdominal, febre, cefaleia, bócio, sintomas neurológicos, diarreia, constipação ou hi- pertensão sugerem outros diagnósticos, como: colecistite, hepatite, úlcera gástrica, apendicite, infecções urinárias, hérnias de hiato, síndromes paraneoplásicas, hipertensão intracraniana. TRATAMENTO Controle da náusea e dos vômitos. Correção da desidratação e dos distúrbios eletrolíticos (ver Tabela 1). Prevenção das complicações. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 74 20/06/2012 19:26:25 C A P Í T U L O 8 | H I P E R Ê M E S E G R A V Í D I C A 75 Internação hospitalar Fluxograma 1: Opções terapêuticas para a hiperêmese gravídica hidratação venosa com cristaloides. Reposição de eletrólitos. Dieta zero por 24 a 48 horas. Progressão gradual: dieta pobre em lipídeos e rica em carboidratos. Não aceitação: nutrição enteral por sonda até parenteral. 3a escolha: corticosteroides 1. Metilpredinisolona 16 mg IV 8/8 h 1ª escolha: antieméticos 1. Metoclorpramida: 10 mg IV 6/6h 2. Dimenidrato: 50 mg IV 6/6h 3. Prometazina: 25 mg IM 8/8h 4. Ondansetron: 4 a 8 mg IV até 6/6h 2a escolha: sedativos 1. Levometromazina 3 mg (solução a 4% – 3 gotas) VO 8/8 h 2. Diazepan 5 mg VO ou 10 mg IV até 8/8 h Medicamentos para êmese. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 75 20/06/2012 19:26:26 Perinatal | Manual de Perinatologia 76 T a b e l a 1 : esquema de reposição hidroeletrolítica Q u a d r o 1 : recomendações dietéticas na hiperêmese gravídica Fluido Uso Primeiras 24 horas 1l de SF 0,9% em 2 h com 20 mmol de KCl Seguido de: 1l de SF 0,9% em 4 h com 20 mmol de KCl 1l de SF 0,9% em 6 h 1l de SF 0,9% em 8 h 1l de SF 0,9% em 8 h (manutenção) reposição de potássio de acordo com os níveis séricos evitar soluções com alta concentração de glicose evitar reposição vigorosa de sódio após a melhora clínica e melhor tolerância à alimentação via oral, algumas recomendações dietéticas são sugeridas e expostas no Quadro 1: Ao preparar as refeições evitar cozinhar, se possível. Pedir ajuda de amigos ou familiares. Preparar preferencialmente os alimentos que não necessitam de cozimento, como sanduíches. evitar o cheiro de comida quente, tentar ingerir alimentos frios. beber limonada gelada, suco diluído de frutas, chá fraco ou sopa (por serem tolerados melhor do que água). evitar comer em lugar abafado, quente demais, ou com odores de comida. Ter alguém para retirar a tampa de alimentos cozidos. Ao comer Comer pequenas refeições frequentes, realizar lanches leves entre as refeições. diminuir a ingesta hídrica nas refeições. beber líquidos de 30 min a 1 h após as refeições. evitar alimentos gordurosos, frituras, apimentados, muito doces. alimentos leves e secos. Comer amidos de fácil digestão, como arroz, batata, macarrão, cereais e pão. escolher alimentos com baixo teor de gordura e de proteínas. manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 76 22/06/2012 12:02:51 C A P Í T U L O 8 | H I P E R Ê M E S E G R A V Í D I C A 77 COMPLICAÇÕES síndrome de Mallory-Weiss: laceração da mucosa gástri- ca pelo vômito excessivo causando hematêmese. É im- portante diferenciar de úlcera péptica. Considerar endos- copia caso não haja boa resposta com ranitidina IV. Tromboembolismo venoso: a combinação de gestação com imobilidade e desidratação parece predispor ao tromboembolismo. O tratamento consiste em corrigir a desidratação, mobilizar no leito, usar meia elástica e considerar heparina de baixo peso molecular. Depressão: a hg é muito associada à depressão. No en- tanto, corrigir a depressão não reverte a hg de forma comprovada. Encefalopatia de Wernicke: complicação rara sugerida na presença da tríade de anormalidades oculares, confu- são mental e ataxia. O diagnóstico inclui baixos níveis de vitamina B1. É potencialmente reversível, mas demanda tratamento rápido. PROGNÓSTICO Fetal: parece aumentar as taxas de prematuridade e de restrição de crescimento quando associados ao baixo ga- nho de peso na gestação. Materno: a encefalopatia de Wernicke é a complicação mais grave e que pode deixar sequelas a longo prazo. há risco de recorrência de hg em 15% das gestantes. Outras dicas Comer quando estiver se sentindo bem ou com fome. Descansar após as refeições. sentar-se em uma cadeira por cerca de uma hora após as refeições. Evitar movimentos bruscos. usar roupas soltas. Tomar um polivitamínico na época da concepção pode diminuir a gravidade de náuseas e vômitos durante a gravidez. Evitar o estresse constante. A reposição de tiamina, piridoxina e ácido fólico em dose de 5 mg/dia é recomendada. > > manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 77 20/06/2012 19:26:26 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 78 20/06/2012 19:26:26 PREMATuRIDADE CAPÍTuLO 9 Juliana silva Esteves Penha Luciana Carneiro do Cima A prematuridade é a principal causa de internação hospitalar antenatal. O trabalho de parto prematuro é definido como presença de pelo menos duas contrações ute- rinas em um período de 10 minutos, rítmicas e dolorosas, associadas à dilatação e apagamento do colo uterino, que ocorre entre 20 e 37 semanas de gestação. AVALIAÇÃO INICIAL Afastar possíveis patologias clínicas e obstétricas que possam estar associadas ao trabalho de parto prematuro. Monitorização dos sinais vitais (exame físico completo). Rastreio infeccioso: hemograma completo, EAs e urinocultura. Rastreio para estreptococo do grupo B (gBs). Avaliação da vitalidade fetal: cardiotocografia, ultrassonografia obstétrica e Doppler, quando indicados. Obs.: Estas medidas devem ser tomadas concomitantemente à tocólise. USO DO CORTICOIDE A intervenção mais benéfica no trabalho de parto prematuro é o uso do corticoide. Visa à redução significativa da morbimortalidade neonatal e está preconizado em gestações entre 24 e 34 semanas, com as seguintes opções: 1ª - Betametasona 12 mg IM (duas doses com intervalo de 24 horas entre as doses) 2ª - Dexametasona 6 mg IM (quatro doses com intervalo de 12 horas entre as doses) manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 79 20/06/2012 19:26:26 Perinatal | Manual de Perinatologia 80 TOCÓLISE Tem como objetivo prolongar a gestação para a adminis- tração de corticoides visando à maturação pulmonar fetal. Não existe atualmente indicação formal para manutenção da tocólise após este período. Contraindicações morte fetal; anomalia congênita incompatível com a vida; amniorrexe prematura (exceto em gestações abaixo de 34 semanas); suspeita de corioamnionite; complicações obstétricas ou clínicas graves. Manutenção pós-tocólise: Progesterona natural micronizada: 200 mg via vaginal à noite até 34 semanas. Drogas tocolíticas Bloqueador do canal de cálcio (nifedipina): Dose de ataque: 30 mg VO Dose de manutenção: 10 – 20 mg VO em intervalos de 4 a 6 horas Inibidor do receptor da ocitocina (Atosiban): Etapa 1: 1 ampola de 0,9 ml IV em bolus, em 1 minuto, sem diluirEtapa 2: Infusão de solução (90 ml de soro fisiológico, glicosado ou ringer-lactato + 10 ml de Atosiban) a 24 ml/h por 3 horas (total de 72 ml). O restante do volume será infundido na velocidade de 8 ml/h, até terminar o produto. Etapa 3 (se necessário): Infusão de nova solução subsequente na velocidade de 8 ml/h, por até 45 horas. Beta-agonistas (salbutamol/terbutalina): 10 mcg/min IV (5 amp em 500 ml de soro glicosado isotônico a 20 gotas/min) manter frequência cardíaca da paciente < 120 bpm; dose máxima de 80 gotas/min Inibidor da ciclo-oxigenase (indometacina): até 32 semanas Dose de ataque: 50 mg VR ou 50 – 100 mg VO; Dose de manutenção: 25 – 50 mg VO de 6/6 horas (maximo de 48 horas). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 80 20/06/2012 19:26:26 C A P Í T U L O 9 | P R E M A T U R I D A D E 81 USO DO SULFATO DE MAGNÉSIO PARA NEUROPROTEÇÃO FETAL Indicação Paciente com Ig ≤ 31 semanas e seis dias e Iminência de parto prematuro: Trabalho de parto ativo com dilatação cervical ≥ 4 cm com falha da tocólise ou contraindicação à tocólise. Amniorrexe prematura em trabalho de parto ativo. Parto programado por indicação fetal ou materna. Droga de escolha sulfato de magnésio 4 g IV em 30 minutos (ataque); sulfato de magnésio infusão de 1 g/h IV (manutenção); Monitoração fetal contínua no trabalho de parto; Monitoração materna específica – frequência respiratória e reflexos profundos. Considerações O sulfato de magnésio deve ser suspenso se o parto não for mais iminente ou se já foi atingido um máximo de 24 horas de infusão da droga. A tocólise deve ser descontinuada. O sulfato de magnésio pode ser usado imediatamente após a suspensão do tocolítico e não há co- traindicação após o uso de Nifedipina para tocólise ou hipertensão. O parto não deve ser retardado para o uso do sulfato de magnésio para neuroproteção se existe indicação de parto imediato. Não há indicação de monitorar níveis séricos de magnésio nem de cateterização vesical. USO DE ANTIBIÓTICOS Não há indicação para o uso de antibióticos com o objetivo exclusivo de prevenir o trabalho de parto prematuro em pa- cientes com as membranas íntegras. Exceto com o objetivo de prevenir a infecção fetal pelo gBs, de acordo com o pro- tocolo específico. VIA DE PARTO Não existe evidência atual que justifique a realização da cesariana de rotina em fetos pré-termo nas apresenta- ções cefálicas. sua indicação nestes casos deve ser a mesma para fetos a termo. O parto cesáreo deve ser considerado como uma alter- nativa menos traumática nas pacientes com fetos com apresentação pélvica. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 81 20/06/2012 19:26:27 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 82 20/06/2012 19:26:27 RuPTuRA PREMATuRA DE MEMBRANAs OVuLAREs CAPÍTuLO 10 Juliana silva Esteves Penha A ruptura de membranas ovulares (RPMO) é definida com a ruptura de membrana que ocorre antes do início do trabalho de parto. Dessa forma, quando este evento ocorre antes de 37 semanas é chamado de RPMO pré-termo. Sabe-se que enquanto a RPMO a termo representa um evento fisiológico, a RPMO pré-termo pode apresentar um amplo espectro de desfecho envolvendo mãe e feto, o que torna fundamental a confirmação diagnóstica. A RPMO pré-termo é dividida em: RPMO pré-termo próxima ao termo: entre 32-36 semanas; RPMO pré-termo distante do termo: entre 24-31 semanas; RPMO pré-viável: antes de 24 semanas* * O limite de viabilidade fetal pode variar de acordo com a capacidade tecnológica da unidade de atendimento, sendo um tema de grande discussão na atualidade. Diante da grande repercussão desta entidade na morbimortalidade perinatal, o manejo na RPMO pré-termo é guiado pela presença de infecção intrauterina, trabalho de parto avançado e dano fetal. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 83 20/06/2012 19:26:27 Perinatal | Manual de Perinatologia 84 DIAGNÓSTICO O diagnóstico de RPMO tem como base a história da pa- ciente, somada ao exame físico. É importante lembrar que o exame ginecológico deve ser realizado sempre com a tenta- tiva de minimizar o risco de contaminação, principalmente quando se trata de RPMO pré-termo. sendo assim, o exame ginecológico deve englobar o exa- me especular com o uso de fita de pH (papel de nitrazina), devendo ser evitado o toque vaginal, exceto em casos de trabalho de parto avançado. Para alguns casos específicos, em que a história clínica característica de RPMO confronta um exame físico apa- rentemente normal, pode ser utilizado o Amnisure® ROM TEST, com sensibilidade de 98-99% e especificidade de 88-100%. A amniorrexe não pode ser excluída ou assegurada pela ul- trassonografia. A presença de oligodramnia, principalmente quando acentuada, associada à história da paciente, reforça a hipótese diagnóstica. É importante lembrar que outras anormalidades podem estar associadas à redução do volume de líquido amniótico, como agenesia renal, uropatia obstrutiva e insuficiência placentá- ria grave. A normalidade do volume de líquido amniótico não afasta o diagnóstico de amniorrexe. O ultrassom não é método para diagnóstico de RPMO. Após a confirmação diagnóstica, é fundamental a iden- tificação de sinais de comprometimento materno-fetal, seguida da determinação da idade gestacional em que o evento ocorreu para que o manejo adequado possa ser iniciado. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 84 20/06/2012 19:26:27 C A P Í T U L O 1 0 | R U P T U R A P R E M A T U R A D E M E M B R A N A S O V U L A R E S 85 CONDUTA Como regra geral, aplicável a todos os casos de amniorrexe prematura, impõe-se: Internação da paciente. Diagnóstico da idade gestacional: confirmar idade gesta- cional pelo ultrassom de primeiro trimestre. Avaliação da vitalidade fetal: ■ Não há teste ideal para avaliar a presença de infecção fetal. ■ A cardiotocografia basal pode ser realizada a partir de 26 semanas de gestação. ■ A ultrassonografia pode ser utilizada para avaliação do volume de líquido amniótico. A presença de redução acentuada do líquido aumenta o risco de compressão funicular. A avaliação do crescimento fetal deve ser feita com ultrassom em intervalo não inferior a duas semanas. Rastreamento do processo infeccioso: ■ leucograma em dias alternados; ■ temperatura axilar de 4/4 horas; ■ exame físico: presença de secreção cervical purulenta e palpação uterina dolorosa são sugestivas de infecção intrauterina. ■ Marcadores indiretos de processo inflamatório (Proteí- na C reativa – PCR). Cultura de swab de introito vaginal e retal para pesquisa de estreptococo do grupo B (GBS). A profilaxia antibióti- ca para gBs é recomendada para pacientes em trabalho de parto pré-termo e/ou trabalho de parto a termo e am- niorrexe por mais de 18 horas, a menos que a paciente tenha cultura recente (< cinco semanas) negativa para este microrganismo. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 85 20/06/2012 19:26:28 Perinatal | Manual de Perinatologia 86 Antibiótico e profilaxia Nas situações em que se deseja a extensão do período de latência (tempo entre a ruptura de membranas e o parto) como nos casos de RPMO pré-termo, preconiza-se o uso de antibiótico profilático para minimizar a morbimortalidade materno-fetal. O esquema utilizado é o seguinte: Ampicilina/amoxilina 1 g 6/6 h – 48 h IV + Azitromicina 1 g VO dose única Amoxilina 1 g VO 8/8 h por 5 dias Esquema alternativo: Ampicilina 1 g EV 6/6 h + Claritromi- cina 500 mg 12/12 h EV por 48 h; Amoxilina1 g VO 8/8 h + Claritromicina 500 mg VO 12/12h por 5 dias. Rotura prematura de membranas ovulares a termo RPMO a termo (>) 37 sem Prosseguir o parto, indução se possível. Profilaxiapara GBS, se indicado. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 86 20/06/2012 19:26:28 C A P Í T U L O 1 0 | R U P T U R A P R E M A T U R A D E M E M B R A N A S O V U L A R E S 87 Ruptura de membranas ovulares próximo ao termo Este grupo, na ausência de sinais de infecção no momen- to do diagnóstico, tem seu manejo influenciado pelo grau de maturidade pulmonar, o que permite uma diferença de conduta com base na idade gestacional em que ocorre a ruptura, conforme representado a seguir. RPMO entre 34 e 36 semanas completas* Prosseguir o parto, indução se possível. Profilaxia para GBS, se indicado. *Conduzir na mesma forma que RPMO a termo. RPMO entre 32 e 33 semanas completas Conduta expectante. Colher swab endocervical: Chlamydia trachomatis Neisseria gonorrhoeae Colher swab vaginal/retal: gBs Realizar profilaxia para gBs, se indicado Antibioticoprofilaxia para prolongar período de latência, na ausência de contraindicação Rastreio infeccioso e avaliação de vitalidade fetal periodicamente manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 87 20/06/2012 19:26:28 Perinatal | Manual de Perinatologia 88 Ruptura prematura de membranas ovulares distante do termo: RPMO entre 24 e 31 semanas completas Conduta expectante. Colher swab vaginal/retal: gBs Antibioticoprofilaxia para prolongar período de latência, na ausência de contraindicação Rastreio infeccioso e avaliação de vitalidade fetal periodicamente Colher swab endocervical: Chlamydia trachomatis Neisseria gonorrhoeae Realizar profilaxia para GBS, se indicado Administrar corticoide (1 ciclo) Tocólise: não existe consenso manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 88 20/06/2012 19:26:29 C A P Í T U L O 1 0 | R U P T U R A P R E M A T U R A D E M E M B R A N A S O V U L A R E S 89 Ruptura de membranas pré-viável: RPMO abaixo de 24 semanas Aconselhamento dos pais Conduta expectante x Indução do parto Colher swab vaginal/retal: gBs Antibioticoprofilaxia para prolongar período de latência, na ausência de contraindicação Rastreio infeccioso e avaliação de vitalidade fetal periodicamente Colher swab endocervical: Chlamydia trachomatis Neisseria gonorrhoeae Realizar profilaxia para GBS, se indicado Tocólise: não existe consenso manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 89 20/06/2012 19:26:29 Perinatal | Manual de Perinatologia 90 CONSIDERAÇÕES FINAIS sabe-se que a presença de oligodramnia (índice de líquido amniótico menor que 5 cm ou maior bolsão vertical menor que 2 cm) na ultrassonografia inicial vem sendo associada à redução no período de latên- cia com aumento na morbidade neonatal, porém sem influenciar na taxa de infecção materno-fetal. No en- tanto, é baixo o valor preditivo positivo da oligodram- nia para os desfechos desfavoráveis. O manejo conservador da RPMO inclui o repouso re- lativo no leito na tentativa de reduzir a perda líquida, associado ao rastreio infeccioso periódico e à avalia- ção fetal. A presença de febre, dor a mobilização uterina, taqui- cardia fetal ou materna também representa a possibi- lidade de infecção intrauterina, e deve ser valorizada mesmo na ausência de alteração laboratorial. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 90 20/06/2012 19:26:29 C A P Í T U L O 1 0 | R U P T U R A P R E M A T U R A D E M E M B R A N A S O V U L A R E S 91 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 91 20/06/2012 19:26:29 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 92 20/06/2012 19:26:29 hIPERTENsÃO ARTERIAL PRÉ-gEsTACIONAL CAPÍTuLO 11 Paulo Roberto Nassar de Carvalho Fernanda Borges Flosi A doença vascular hipertensiva crônica (DVhC) é um dos principais problemas de saúde pública e acomete cerca de 3% a 5% das gestantes. DIAGNÓSTICO O diagnóstico de DVhC é estabelecido quando a pressão arterial sistólica (PAs) é ≥ 140 mmhg e/ou a pressão arterial diastólica (PAD) é ≥ 90 mmhg em duas aferições diferentes com pelo menos quatro horas de intervalo em pacientes não grávidas ou gestantes com até 20 semanas de gestação. Devemos ainda considerar hipertensa crônica a paciente com hipertensão gestacio- nal que não normaliza em 12 semanas após o pós-parto e aquela que fazia uso de medicações anti-hipertensivas antes da gestação. No Fluxograma 1 apresentamos esquema de conduta para tratamento da gestante com DVhC. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 93 20/06/2012 19:26:29 Perinatal | Manual de Perinatologia 94 T A B E L A 1 : Tabela de correção da PA em função da circunferência do braço Técnica de aferição da pressão arterial Paciente em repouso por pelo menos 10 minutos. Paciente sentada, com os pés apoiados no chão e braço na altura do coração. Utilizar esfignomanômetro de mercúrio. utilizar um manguito apropriado (1,5 x a circunferência do braço). Na falta do manguito apropriado, utilizar a tabela de Maxwell para correção do valor da PA aferido em função da circunferência do braço (Tabela 1). Considerar como pressão diastólica a fase V de Korotkoff. Na avaliação inicial, aferir a PA em ambos os braços. se a pressão estiver consistentemente maior em um braço, utilizar sempre este nas próximas aferições. Caso contrá- rio, aferir a PA sempre no braço direito. Cincurferência do braço (cm) Correção PA Sistólica (mmHg) Correção PA Diastólica (mmHg) 20 + 11 + 7 22 + 9 + 6 24 + 7 + 4 26 + 5 + 3 28 + 3 + 2 30 zero zero 32 - 2 - 1 34 - 4 - 3 36 - 6 - 4 38 - 8 - 6 40 - 10 - 7 42 - 12 - 9 44 - 14 - 10 46 - 16 - 11 48 - 18 - 13 50 - 21 - 14 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 94 20/06/2012 19:26:30 C A P Í T U L O 1 1 | H I P E R T E N S Ã O A R T E R I A L P R É - G E S T A C I O N A L 95 CLASSIFICAÇÃO A DVHC pode ser classificada em primária ou essencial (~ 90% dos casos) ou secundária (~10% dos casos). Esta deve ser investigada quando a hipertensão é diagnosticada antes de 25 ou após os 50 anos, quando se inicia de forma grave ou na presença de achados na anamnese e/ou exame físico que falem a favor de uma causa subjacente. Veja a classificação referente à gravidade na Tabela 2. Na gestação, as pacientes podem ainda ser classificadas como com baixo ou alto risco de resultados adversos. Constituem alto risco: 1) hipertensão secundária; 2) hipertensão grave; 3) presença de lesões em órgãos-alvo; e 4) resultados adversos em gestações anteriores. T A B E L A 2 : Classificação da DVHC de acordo com a gravidade da doença Estágio 1 (leve) PAs: 140-159 e PAD: 90-99 mmhg Estágio 2 (moderada) PAs: 160 – 179 ou PAD: 100-109 mmhg Estágio 3 (grave) PAs: 180 – 209 ou PAD: 110-119 mmhg* * Ou na presença de lesões de órgãos-alvos. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 95 20/06/2012 19:26:30 Perinatal | Manual de Perinatologia 96 PRINCIPAIS COMPLICAÇÕES DA DVHC NA GESTAÇÃO Pré-eclâmpsia sobreposta/eclâmpsia; Descolamento prematuro de placenta; Crescimento intrauterino restrito; Prematuridade; Edema pulmonar, encefalopatia hipertensiva, hemorra- gia cerebral e insuficiência renal materna; óbito materno e/ou perinatal. CONDUTA Preconcepção e primeira consulta de pré-natal Obter anamnese e exame físico detalhados. Otimizar o controle pressórico e orientar quanto a hábitos saudáveis (atividade física regular, dieta adequada, perda ponderal, cessação do tabagismo e da ingestão abusiva de álcool e de outras drogas). Orientar quanto às repercussões da DVhC na gravidez, bem como da gravidez na DVhC. Avaliar suspensão e/ou troca de anti-hipertensivos: com a di- minuição fisiológica da pressão arterial que ocorre até o se- gundotrimestre da gestação, a maioria das gestantes pode ter sua medicação totalmente suspensa sem nenhum pre- juízo materno e com benefício fetal. Além disso, devemos atentar para as medicações contraindicadas na gravidez. solicitar exames maternos (Tabela 3) a fim de se avaliar a função dos órgãos comumente atingidos pela DVhC, bem como de comorbidades associadas. Buscar, sempre que possível, o acompanhamento conjun- to com um cardiologista ou clínico geral. Alvo pressórico Paciente sem comorbidades: PAs = 130-155 mmhg e PAD = 80-105 mmhg manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 96 20/06/2012 19:26:30 C A P Í T U L O 1 1 | H I P E R T E N S Ã O A R T E R I A L P R É - G E S T A C I O N A L 97 Paciente com comorbidades: PAs = 130-139 mmhg e PAD = 80-89 mmhg T A B E L A 3 : Avaliação preconcepcional e/ou da gestante hipertensa hemograma completo Teste de tolerância oral à glicose ureia, creatinina, ácido úrico e eletrólitos EAs, urinocultura e proteinúria de 24 horas Eletrocardiograma Ecocardiograma e avaliação oftalmológica nas pacientes com hipertensão de longa data Escolha do anti-hipertensivo Iniciar medicação anti-hipertensiva quando a pressão ar- terial estiver acima do alvo para a paciente. Existe pouca informação acerca do melhor agente a ser usado, deven- do o médico pré-natalista aplicar a terapia com medica- mento com o qual possui mais experiência. Entre os anti-hipertensivos mais utilizados na gestação estão: Metildopa (α-agonista de ação central) e Labelatol (β-bloqueador não comercializado no Brasil), seguidos pelos bloqueadores do canal de cálcio (Nifedipina, Amlo- dipina e Verapamil) e outros β-bloqueadores (Propanolol, Metropolol). são proscritos na gravidez os inibidores da enzima conversora de Angiotensina (IECA) e antagonis- tas dos receptores da angiotensina II (ARA) – devidos à sua fetotoxicidade. Não estão recomendados o Atenolol (redução do peso fetal) e Prazosin (óbito fetal). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 97 20/06/2012 19:26:30 Perinatal | Manual de Perinatologia 98 A hidralazina (vasodilatador) como monoterapia possui fraco efeito hipotensor e está associada a efeitos adversos maternos. Pode ser utilizada, em casos selecionados, em terapia combinada com outros anti-hipertensivos. Os diuréticos tiazídicos podem levar à hemoconcentração e hiperuricemia, prejudicando a avaliação laboratorial em caso de PE sobreposta, não devendo, portanto, ser utiliza- dos nessa ocasião. Na prática, costumam ser utilizados so- mente de forma complementar a outros anti-hipertensivos e em pacientes que já faziam uso dessa medicação antes da gestação. Os principais agentes, bem como as doses preconizadas, são mostrados na Tabela 4. T A B E L A 4 : Doses dos anti-hipertensivos mais utilizados em gestantes com DVhC Agente Dose inicial Dose máxima Metildopa 250 mg VO de 8/8 h 500 mg VO de 6/6 h (2 g a 3 g/dia) Labetalol 100 mg VO de 12/12 h 400 mg VO de 8/8 h (1200 mg/d) Nifedipina 10 mg VO de 8/8 h 20 mg VO de 8/8 h Nifedipina de liberação prolongada 40 mg VO de 12/12 h 60 mg VO 8/8 h (120 mg/d) Anlodipina 5 mg VO 1x/d 10 mg VO 1x/d (10 mg/d) Verapamil 80 mg VO de 8/8 h 120 mg VO de 8/8 h (360 mg/d) hidralazina 25 mg VO de 8/8 h 50 mg VO de 6/6 h (200 mg/d) manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 98 20/06/2012 19:26:30 C A P Í T U L O 1 1 | H I P E R T E N S Ã O A R T E R I A L P R É - G E S T A C I O N A L 99 Recomendações não medicamentosas Faltam estudos para se fazer qualquer recomendação acer- ca da restrição de sal na dieta, restrição calórica, realização de atividade física, diminuição de trabalho e/ou estresse. AVALIAÇÃO FETAL Faltam evidências acerca do melhor teste para avaliação do bem-estar fetal, bem como do melhor intervalo entre os testes. Muitos autores recomendam a realização mensal da ultrassonografia com Doppler a partir de 28-32 semanas e até o parto, para rastreio de CIuR/sofrimento fetal, além dos exames (usg, CTg e PBF) já realizados de rotina. sabe-se que a dopplervelocimetria da artéria umbilical nas gestações de alto risco diminui a morbimortalidade perinatal em 29% e está associado a menores taxas de indução de parto e internações hospitalares desnecessá- rias. A avaliação pormenorizada em caso de alteração de algum exame é mais bem discutida no capítulo 23, “Vigi- lância fetal nas gestações de alto risco”. MOMENTO E VIA DE PARTO Todas as pacientes hipertensas crônicas são candidatas ao parto vaginal, ficando a cesariana reservada para ou- tras indicações obstétricas. Pacientes com hipertensão leve e não complicada podem aguardar o parto espontâneo até 40 semanas. Nas pacientes com DVhC grave, deve-se considerar a interrupção com 37-38 semanas (ver conduta no Fluxo- grama 1). Na ocorrência de pré-eclâmpsia sobreposta, o melhor momento e a via de parto são discutidos em capítulo próprio. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 99 20/06/2012 19:26:31 Perinatal | Manual de Perinatologia 100 Ainda nas pacientes hipertensas graves, atentar para a não administração excessiva de fluidos devido ao maior risco de edema pulmonar. É preconizado o manejo ativo do terceiro período do trabalho de parto (secundamento) através do uso de ocitocina intravenosa ou intramuscular. A Ergometrina não deve ser utilizada. A analgesia/anestesia regional não está contraindica- da, mesmo em uso de aspirina, desde que a conta- gem de plaquetas encontre-se acima de 75.000 e na ausência de coagulopatia. PUERPÉRIO Monitorar a pressão arterial buscando manter a PAs <160 mmhg e a PAD < 110 mmhg, sobretudo nas primeiras 48 horas pós-parto, quando há maior risco de pico pressórico e eventos adversos. Evitar o uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) nas pacientes com hipertensão arterial de difícil controle. Avaliar o retorno das medicações previamente uti- lizadas antes da gestação, sendo que os diuréticos devem ser utilizados com cautela, devido ao seu po- tencial efeito negativo sobre a produção de leite. Os anti-hipertensivos utilizados durante a gravidez são permitidos durante a amamentação, bem como a utilização do Atenolol. A utilização do IECA e ARA é controversa dado seu potencial efeito deletério na função renal do recém- -nato. se a pressão arterial estiver estável, agendar consulta de revisão para seis a 12 semanas após o parto. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 100 20/06/2012 19:26:31 C A P Í T U L O 1 1 | H I P E R T E N S Ã O A R T E R I A L P R É - G E S T A C I O N A L 101 Fluxograma 1: Conduta na gestante com DVhC Avaliação preconcepcional - Investigação de lesão de órgãos-alvo e comorbidades associadas - suspender/Trocar IECA e ARA - Otimizar PA e mudança de hábitos BAIXO RIsCO De resultado gestacional adverso - hipertensão essencial - PA < 180x110 mmhg - sem lesão de órgão-alvo ALTO RIsCO De resultado gestacional adverso - hipertensão secundária - PA > 80x110 mmhg - Presença de lesão de órgão-alvo - Resultado gestacional anterior adverso 1ª consulta com a gestante - hospitalização na 1ª visita - Iniciar AAs - Manter anti-hipertensivos / suspender ou trocar Atenolol - Alvo pressórico: PAs=130-139 e PAD=80-89 mmhg 1ª consulta com a gestante - suspender toda medicação hipertensiva - Iniciar AAs - Alvo pressórico: PAs =130-155 e PAD = 80-105 mmhg BAIXO RIsCO - Aguardar o parto espontâneo até 40 semanas ALTO RIsCO - Avaliar interrupção da gestação com 37-38 semanas Avaliar interrupção da gestação de acordo com a idade gestacional e a causa específica. PA compensada e exames normaisPA descompensada; PE sobreposta; CIuR ou sofrimento fetal - Avaliação fetal: usg + Doppler mensal a partir de 28-32 semanas - Iniciar / Aumentar anti-hipertensivo se PA acima do alvo - se PA > 160 x 110 mmhg ou sinais de eclâmpsia: internação para investigação de PE sobreposta manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 101 20/06/2012 19:26:31 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 102 20/06/2012 19:26:31 hIPERTENsÃO ARTERIAL gEsTACIONAL CAPÍTuLO 12 Paulo Roberto Nassar de Carvalho Fernanda Borges Flosi A hipertensão arterial é uma das complicações médicas mais comuns durante a gestação e, no Brasil, permanece como a primeira causa de morte materna direta, atingindo 15,1 óbitos por cem mil nascidos vivos (Datasus, 2007). A doença hipertensiva na gestação é classificada em quatro tipos: 1. Doença Vascular hipertensiva Crônica (DVhC). 2. Pré-eclâmpsia (PE) / Eclâmpsia. 3. Pré-eclâmpsia sobreposta (à hipertensão crônica). 4. hipertensão gestacional. A DVhC foi discutida no capítulo 11. Todas as demais são tratadas a seguir. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 103 20/06/2012 19:26:31 Perinatal | Manual de Perinatologia 104 PRÉ-ECLâMPSIA Diagnóstico O diagnóstico de pré-eclâmpsia (PE) é estabelecido na pre- sença de ambos os achados numa paciente com mais de 20 semanas de gestação, previamente normotensa: hipertensão arterial (PAs ≥ 140 e/ou PAD ≥ 90 mmhg) em duas aferições com pelo menos quatro horas de inter- valo, mas não mais que sete dias. Proteinúria de 300 mg ou mais em coleta de urina de 24 h. OBS.: O aumento de 30 mmHg na PAS e/ou de 15 mmHg na PAD, assim como a presença de edema, não são mais considerados critérios para PE. Classificação A PE é classificada em leve ou grave. Os sinais e sintomas de gravidade são descritos na Tabela 1. T A B E L A 1 : Critérios de gravidade na pré-eclâmpsia sintomas de disfunção do sNC: cefaleia intensa ou refratária à analgesia* turvação visual ou escotomas* alteração do estado mental* sintomas de disfunção hepática: dor epigástrica ou em hipocôndrio direito* naúseas e vômitos* aumento das transaminases hipertensão arterial: PAs ≥ 160 ou PAD ≥ 110 mmhg em duas aferições com pelo menos seis horas de intervalo Trombocitopenia < 100.000 Oligúria < 500 ml em 24 h Proteinúria > 5 g em 24 h** Edema pulmonar ou cianose Crescimento intrauterino restrito * Sinais de iminência de eclâmpsia ** Para alguns autores, a proteinúria de 24 horas não tem valor prognóstico, devendo ser usada apenas no diagnós- tico da doença. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 104 20/06/2012 19:26:32 C A P Í T U L O 1 2 | H I P E R T E N S Ã O A R T E R I A L G E S T A C I O N A L 105 Fatores de risco Nuliparidade; Idade > 40 anos ou < 18 anos; história de pré-eclâmpsia em gestação anterior; história de resultado adverso em gestação anterior: Crescimento intrauterino restrito, descolamento pre- maturo de placenta ou óbito fetal. história familiar de pré-eclâmpsia; gestação múltipla; Obesidade; Condições médicas/genéticas preexistentes: DVhC; Doença renal; Diabetes mellitus; síndrome do Anticorpo Antifosfolipídeo (sAF); Doenças do colágeno, vasculares e trombofilias. Predição e prevenção Nenhum teste é considerado confiável ou custo-efetivo na predição da PE. O Doppler da artéria uterina parece melhor predizer a PE quando na presença de incisuras diastólicas no segundo trimestre associadas a índices de pulsatilidade (PI) aumentados. No primeiro trimestre parece promissor a dosagem de mar- cadores como a PIgF e PAAP-A (proteína A plasmática asso- ciada à gestação), no entanto tais testes ainda encontram- -se longe da realidade da maioria da nossa população. A aspirina em baixa dose (AAs 60-150 mg VO 1 x/dia) é a única droga com evidência científica de benefício na pre- venção da PE em pacientes de alto risco, quando iniciada precocemente na gestação. A suplementação de cálcio (1-2 g/dia de carbonato de cál- cio em doses fracionadas) não é mais recomendada de forma manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 105 20/06/2012 19:26:32 Perinatal | Manual de Perinatologia 106 rotineira. Em populações com baixa ingestão dietética dessa substância, porém, esta medida parece diminuir o risco de PE. Principais complicações da pré-eclâmpsia Alterações renais, hepáticas, hematológicas e neurológicas; Eclâmpsia; síndrome hELLP; Descolamento prematuro de placenta; Crescimento intrauterino restrito; Oligodramnia; sofrimento fetal; Morbimortalidade perinatal. Avaliação fetal Faltam evidências acerca do melhor teste para avaliação do bem-estar fetal, bem como do melhor intervalo entre os testes. É recomendada a realização da ultrassonografia com Do- ppler a cada duas-três semanas para avaliação do líquido amniótico, crescimento e sofrimento fetal. A conduta clássica inclui a realização da cardiotocografia (CTG) ou o perfil biofísico fetal (PBF) uma a duas vezes por semana. Em caso de mudança do quadro materno e/ou de acordo com a gravidade da doença, os exames devem ser solici- tados em intervalos menores. A avaliação pormenorizada em caso de alteração de al- gum exame é mais bem discutida no capítulo 20, acerca da avaliação fetal nas gestações de alto risco. Manejo da gestante com pré-eclâmpsia Na suspeita de PE, proceder a internação para realização de exames (Tabela 2) e monitorização da pressão arterial com fins de confirmação diagnóstica e avaliação da gravidade da doença. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 106 20/06/2012 19:26:32 C A P Í T U L O 1 2 | H I P E R T E N S Ã O A R T E R I A L G E S T A C I O N A L 107 Pré-eclâmpsia leve Após a avaliação inicial, o acompanhamento extra-hospitalar pode ser realizado em caso de PE leve, com as pacientes sendo conduzidas de modo expectante até o termo, a fim de permitir o crescimento e amadurecimento do feto. A restrição da atividade física é recomendada, embora não haja evidência de que o repouso absoluto no leito melhore o resultado gestacional. A restrição de sódio, a restrição calórica e o uso de diu- réticos não são recomendados. A rotina laboratorial deve ser repetida semanalmente. Em caso de sinais e/ou sintomas de progressão da doença, é recomendada a hospitalização para nova avaliação. T A B E L A 2 : Avaliação laboratorial na gestante com pré-eclâmpsia hemograma Proteinúria de 24 horas Creatinina, ureia e ácido úrico Proteínas totais e frações Bilirrubinas totais e frações TgO e TgP LDh EAs OBS.: O coagulograma em geral encontra-se normal na ausência de trombocito- penia ou disfunção hepática e, portanto, não precisa ser monitorado de rotina. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 107 20/06/2012 19:26:32 Perinatal | Manual de Perinatologia 108 Pré-eclâmpsia grave Em caso de PA ≥ 160 x 110 mmhg é recomendado o tra- tamento medicamentoso de urgência. Os anti-hipertensivos utilizados são os listados na Tabela 3. se não houver controle da PA após dose máxima de um anti-hipertensivo, um segun- do agente deve ser iniciado. T A B E L A 3 : Anti-hipertensivos utilizados na crise hipertensiva Agente Dose inicial Dose máxima hidralazina 5-10 mg IV a cada 15-20 min 20 mg Labetalol 20 mg IV seguido de 40 mg após 10 min. Após, 80 mg a cada 10 min 220 mg Nifedipina 5-20 mg VO a cada 30 min 50 mg O sulfato de magnésio deve ser utilizado na profilaxia e trata- mento de convulsões em pacientes com pré-eclâmpsia grave e eclâmpsia. Em caso de PE grave após 34 semanas de gestação, está indicada a pronta interrupção da gestação. Antes de 34 se- manas, o manejo é controverso.Na presença de estabilidade materna e boa vitalidade fetal, alguns autores recomendam a monitorização rigorosa da gestação a fim de se ganhar tem- po para a maturidade fetal. Nesses casos, deve-se manter a paciente internada até o parto, com avaliação diária do bem- -estar materno e fetal. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 108 20/06/2012 19:26:32 C A P Í T U L O 1 2 | H I P E R T E N S Ã O A R T E R I A L G E S T A C I O N A L 109 T A B E L A 4 : Anti-hipertensivos utilizados na crise hipertensiva Agente Dose inicial Dose máxima hidralazina 25 mg VO de 8/8 h 50 mg VO de 6/6 h (200 mg/dia) Metildopa 250 mg VO de 8/8 h 500 mg VO de 6/6 h (2 g/dia) Nifedipina 10 mg VO de 8/8 h 20 mg VO de 8/8 h (60 mg/dia) Nifedipina de liberação prolongada 20 mg VO 1 x/dia 60 mg VO 1 x/dia (60 mg/dia) Administrar corticoterapia (Betametasona 12 mg IM 1 x/dia por dois dias) para maturação pulmonar fetal se idade gesta- cional entre 24 e 34 semanas. Deve-se avaliar a introdução de anti-hipertensivos orais na PE grave distante do termo. Os principais agentes usados no manejo da PE grave encontram-se na Tabela 4. Utilização do sulfato de magnésio A dose preconizada é de 4-6 g de ataque, seguido de 1-2 g por hora de manutenção, como exemplificado na Tabela 5. Em caso de insuficiência renal, reajustar a dose de manutenção. seu uso está contraindicado em paciente com miastenia gravis. Durante o período de sua administração, a paciente deve ser monitorada a cada quatro horas para a ausência de manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 109 20/06/2012 19:26:32 Perinatal | Manual de Perinatologia 110 reflexos patelares e depressão respiratória (frequência res- piratória < 12 irpm), ambos sinais de hipermagnesemia. A diurese < 25 ml/hora aumenta o risco de intoxicação. Caso seja necessária a manutenção do sulfato de magné- sio, é recomendada a monitorização dos níveis séricos do magnésio. A dose terapêutica varia de 4,8-8,4 mg/dl ou 2,0-3,5 mmol/l ou 4-7 mEq/L. Manter o gluconato de Cálcio 1 g IV ao lado da paciente, para pronta administração em caso de intoxicação. Manter a administração do sulfato de magnésio por pelo menos 24 horas após o parto. Não há contraindicação ao uso concomitante com os blo- queadores do canal de cálcio (ex: nifedipina). T A B E L A 5 : Dose do sulfato de magnésio ECLâMPSIA O diagnóstico é estabelecido na presença de convulsões numa paciente com pré-eclâmpsia, excluídas outras pos- síveis causas para a convulsão. Durante a crise, deve-se colocar a paciente em decúbito lateral, levantar e acolchoar as grades da cama, colocar um protetor de língua, fornecer suporte de oxigênio sob máscara a 8-10L/min e aspirar as secreções, se neces- sário, a fim de se evitar traumas, acidose respiratória e broncoaspiração. A administração de diazepam ou fenitoína não deve ser realizada. Ataque sulfato de magnésio 50% 8 ml + sg5% 42 ml IV. Correr em 10-20 minutos. Manutenção sulfato de magnésio 50% 20 ml (ou 40 ml) + sg5% 480 ml (ou 460 ml) IV. Correr em bomba infusora a 50 ml/h. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 110 20/06/2012 19:26:33 C A P Í T U L O 1 2 | H I P E R T E N S Ã O A R T E R I A L G E S T A C I O N A L 111 O manejo adequado inclui a estabilização da paciente através da administração de sulfato de magnésio (anti- convulsivante) e anti-hipertensivos (se PA ≥ 160 x 110 mmhg). Até 10% das mulheres podem apresentar uma segunda convulsão após o início da terapia com sulfato de magné- sio. Nesse caso, novo bolus de 2 g deve ser administrado em 3-5 minutos. Em caso de crises recorrentes apesar da terapia adequa- da, o tratamento deve ser realizado com um barbitúrico intravenoso (ex: Tiopental ou Fenobarbital), infundido lentamente. uma vez a paciente estável, está indicada a interrupção da gestação. SÍNDROME HELLP Esta síndrome é caracterizada pela tríade: hemólise (defini- da pela anemia hemolítica microangiopática), alteração da função hepática e plaquetopenia. Quando nem todos os critérios estão presentes, fala-se em síndrome hELLP parcial. Na confirmação de síndrome HELLP, a interrupção da gestação é recomendada. se o diagnóstico é estabelecido antes de 34 semanas de gestação, a paciente encontra-se estável (exceto pelas al- terações laboratoriais) e é comprovada a vitalidade fetal, pode ser realizada a administração de corticoterapia com parto 24 horas após a última dose. A conduta expectante até completar 34 semanas ou sur- gir qualquer indicação materna ou fetal de interrupção da gravidez é levantada por alguns autores, porém há pouco relato na literatura para se estabelecer qualquer recomendação quanto à segurança desta conduta. A transfusão de plaquetas só é recomendada: na presen- ça de sangramento ativo ou quando indicado procedi- manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 111 20/06/2012 19:26:33 Perinatal | Manual de Perinatologia 112 mento invasivo com plaquetas < 50.000; ou profilatica- mente com plaquetas < 20.000. A dose preconizada para transfusão é de um concentrado a cada 10 kg de peso corpóreo. T A B E L A 6 : Critérios diagnósticos de síndrome hELLP Hemólise Esfregaço de sangue periférico anormal (presença de esquizócitos ou helmet-cells, equinócitos e burn cells) LDh > 600 uI/L Bilirrubina total > 1,2 mg/dl Aumento das enzimas hepáticas (TGO ou TGP > 72UI/L) Plaquetopenia < 100.000 Momento e via de parto O tratamento definitivo da PE é o parto. A decisão de reali- zá-lo ou não depende da idade gestacional e da gravidade da doença. Pacientes com PE a termo (≥ 37 semanas de gestação) se beneficiam da interrupção da gestação. Na ausência de outras indicações obstétricas para a cesa- riana, o parto vaginal pode ser induzido. Em caso de gra- vidade, não há benefício de manter a gestação após 34 semanas. Na presença de PE grave, eclâmpsia ou síndrome hELLP, bem como no descolamento prematuro de placenta ou so- frimento fetal agudo, o parto deve ser realizado. Considera- ções são feitas apenas em casos distantes do termo, com paciente estável (compensada após crise inicial ou só com alterações laboratoriais) e com comprovado bem-estar fetal. Nesses casos, devem ser individualizados o melhor momen- to para interrupção da gestação e a via de parto. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 112 20/06/2012 19:26:33 C A P Í T U L O 1 2 | H I P E R T E N S Ã O A R T E R I A L G E S T A C I O N A L 113 É preconizado o manejo ativo do terceiro período do traba- lho de parto (secundamento) através do uso de ocitocina intravenosa ou intramuscular. Atentar para a não administração excessiva de fluidos devi- do ao maior risco de edema pulmonar. Na ausência de trombocitopenia ou coagulopatia, é preferível a realização de anestesia regional (peridural ou raquianeste- sia) à anestesia geral, mesmo em uso de aspirina. Atentar apenas para a adequada expansão plasmática, uma vez que a anestesia pode levar a uma queda abrupta da pressão arte- rial, com comprometimento cerebral ou cardíaco. Puerpério Monitorar a pressão arterial buscando manter a PAs <160 mmhg e a PAD < 110 mmhg, sobretudo nas pri- meiras 48 horas pós-parto, quando há maior risco de pico pressórico e eventos adversos. Quando iniciado, o sulfato de magnésio deve ser admi- nistrado por pelo menos 24 horas após o parto. Evitar o uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINES) nas pacientes com hipertensão arterial de difícil controle, trombocitopenia, coagulopatia ou injúria renal. Caso paciente em uso de anti-hipertensivos orais, sus- pender toda medicação após o parto e monitorar a PA. Reintroduziranti-hipertensivos somente se PA persisten- temente > 160 x 110 mmhg. Repetir os exames laboratoriais até sua normalização. se a pressão arterial estiver estável, agendar consulta de revisão para 6-12 semanas após o parto. As pacientes com PE grave e precoce devem ser rastrea- das para hipertensão preexistente, doença renal subjacen- te, SAF e trombofilias. Orientar quanto a cuidados e risco cardiovascular no lon- go prazo. Preferencialmente, referenciar a um cardiologista. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 113 20/06/2012 19:26:33 Perinatal | Manual de Perinatologia 114 PRÉ-ECLâMPSIA SOBREPOSTA O diagnóstico de pré-eclâmpsia sobreposta é estabelecido nos seguintes casos: surgimento de proteinúria (> 300 mg/24 h) numa pa- ciente com DVhC. Aumento abrupto da proteinúria, aumento súbito da pressão arterial, desenvolvimento de eclâmpsia ou de síndrome hELLP numa paciente previamente hipertensa com proteinúria > 300 mg antes de 20 semanas. O manejo dessas pacientes é semelhante ao já descrito para as pacientes com pré-eclâmpsia, com especial atenção para lesões de órgãos-alvos, prévias à gestação. Mais observa- ções sobre a condução de gestantes com DhVC estão pre- sentes no capítulo 30. HIPERTENSÃO GESTACIONAL O diagnóstico de hipertensão gestacional é estabelecido na presença PAs ≥ 140 mmhg e/ou PAD ≥ 90 mmhg (em duas aferições com pelo menos seis horas de intervalo) numa pa- ciente previamente normotensa com mais de 20 semanas de gestação, na ausência de proteinúria. Procedimento: A paciente deve ser acompanhada semanalmente para o desenvolvimento de pré-eclâmpsia e/ou sinais de gravi- dade. Não há consenso acerca do melhor exame ou intervalo entre os testes para avaliação fetal. Na ausência de intercorrências ou evolução para PE, o parto deve ser induzido com 40 semanas de gestação. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 114 20/06/2012 19:26:34 C A P Í T U L O 1 2 | H I P E R T E N S Ã O A R T E R I A L G E S T A C I O N A L 115 Fluxograma 1: Conduta na gestante com pré-eclâmpsia Avaliação preconcepcional ou 1ª consulta de pré-natal - Iniciar AAs para as pacientes de alto risco de pré-eclâmpsia (PE) - Acompanhamento pré-natal regular Suspeita de pré-eclâmpsia - Internação para confirmação diagnóstica e avaliação da gravidade da doença Pronta interrupção da gestação PA estável e exames normais PA estável e exames normais Piora clínica ou alteração laboratorial Parto com 37 semanas Parto com 34 semanas Pré-eclâmpsia leve - Acompanhamento extra- hospitalar semanal, incluindo rotina laboratorial - Restringir atividade física - Não utilizar anti-hipertensivos - Avaliação fetal seriada Pré-eclâmpsia grave - hospitalização até o parto - Tratamento anti-hipertensivo se PA > 160x110 mmhg - sulfato de magnésio como profilaxia para eclâmpsia - Corticoterapia se Ig entre 24- 34 semanas - Avaliar início de anti- hipertensivo oral na PE grave longe do termo - Avaliação fetal seriada Desenvolvimento de eclâmpsia, síndrome hEELP, Edema agudo de pulmão, Insuficiência renal, Descolamento prematuro de placenta ou sofrimento fetal manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 115 20/06/2012 19:26:34 manual-perinatologia_magic-rm_120622.indd 116 22/06/2012 16:05:12 ANEMIAs NA gEsTAÇÃO CAPÍTuLO 13 Fernanda Campos da silva A anemia é definida como um estado de deficiência de hemoglobina no sangue cir- culante para o transporte de oxigênio requerido para a atividade fisiológica (no caso a gravidez) de um indivíduo. Para a população de gestantes, o limite da concentração de hemoglobina é de 11 g/dL, abaixo do qual se define anemia, independente da idade gestacional. CLASSIFICAÇÃO DAS ANEMIAS As anemias podem ser classificadas de acordo com o mecanismo fisiopatológico pelo qual ocorrem, em três grandes grupos (ver Quadro 1): manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 117 20/06/2012 19:26:34 Perinatal | Manual de Perinatologia 118 Q u A D R O 1 : Classificação das anemias pela fisiopatologia Diminuição da produção Aumento da destruição Anemia por perdas Anemia ferropriva Deficiência de vitamina B12 Deficiência de ácido fólico Anemia associada a distúrbios da medula óssea Anemia associada a supressão da medula óssea Anemia da insuficiência renal crônica Anemia de doença crônica Anemias hemolíticas hereditárias Anemia falciforme Talassemia major Esferocitose hereditária Anemias hemolíticas adquiridas Deficiência de glicose-6- fosfato desidrogenase (g6PD) Anemia hemolítica autoimune Anemia hemolítica associada a síndrome hemolítico-urêmica sangramento agudo sangramento crônico Q u A D R O 2 : Classificação das anemias pelo volume corpuscular médio (VCM) Microcítica (VCM < 80 fl) Normocítica (VCM 80-100 fl) Macrocítica (VCM > 100 fl) Anemia ferropriva Talassemias Anemias siderobláticas Doenças crônicas Deficiência de cobre Intoxicação por chumbo Anemia hemolítica sangramento agudo Anemia associada a doença crônica Insuficiência renal crônica hipotireoidismo ou hipopituitarismo hipo/Aplasia medular Anemia hemolítica autoimune Esferocitose hereditária hemoglobinúria paroxística noturna Deficiência de ácido fólico Deficiência de vitamina B12 Anemia hemolítica induzida por drogas (ex. Zidovudina) Anemia associada a reticulocitose Anemia associada a doença hepática Anemia associada a abuso de álcool Anemia associada a síndrome mielodisplásica As anemias também podem ser classificadas pelo tamanho da célula (ver Quadro 2). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 118 20/06/2012 19:26:35 C A P Í T U L O 1 3 | A N E M I A S N A G E S T A Ç Ã O 119 INVESTIGAÇÃO LABORATORIAL As modificações fisiológicas dificultam o diagnóstico das anemias na gestação, o que aumenta a importância de uma avaliação laboratorial completa para o diagnóstico diferen- cial, incluindo: Hemoglobina e hematócrito – exames a serem solicitados a todas as gestantes. Prosseguir investigação em caso de diminuição dos níveis: ■ Contagem de reticulócitos. ■ VCM. ■ Ferritina. ■ Ferro sérico. ■ Capacidade total de fixação do ferro. ■ Esfregaço de sangue periférico. ■ Biópsia de medula óssea em casos selecionados. ANEMIA FERROPRIVA Anemia mais comum na gestação e fora dela. Espectro final da deficiência de ferro. Deve sempre ser pesquisada na ges- tação. Associada a baixo peso ao nascer, parto prematuro, mortalidade perinatal. Os índices normais de ferro estão ex- postos no Quadro 3. Q u A D r O 3 : Índices de ferro normais na gestação Teste Valor normal Ferro sérico 40-175 mcg/dL TIBC 216-400 mcg/dL Saturação de transferrina 16% a 60% Ferritina sérica > 10 mcg/dL Protoporfirina eritrocitária livre < 3 mcg/g manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 119 22/06/2012 12:08:12 Perinatal | Manual de Perinatologia 120 DIAGNÓSTICO DA ANEMIA FERROPRIVA anemia hipocrômica e microcítica; ferro sérico; TIBC; ferritina; protoporfirina eritrocitária livre; Muitas vezes o diagnóstico é presuntivo. Espera-se que com a reposição de ferro os reticulócitos aumentem em sete a dez dias, com aumento do hematócrito e da hemoglobina nas próximas semanas. Caso não haja boa resposta, prosse- guir a investigação à procura de outras causas de anemia. SUPLEMENTAÇÃO Recomendada para todas as gestantes no segundo e ter- ceiro trimestres na dose de 30 mg de ferro elementar por dia, para diminuir a chance de anemia no parto. TRATAMENTO Reposição oral: 80 mg de ferro elementar por dia por três a seis meses(ver Quadro 4). Transfusão sanguínea ■ Indicações maternas: principalmente em sangramen- tos agudos e em situações de instabilidade clínica como sangramento por placenta prévia, descolamento prematuro de placenta. ■ Indicação fetal: anemia grave com hemoglobina < 6 g/dL. Está associada à diminuição da perfusão pla- centária e fetal. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 120 20/06/2012 19:26:35 C A P Í T U L O 1 3 | A N E M I A S N A G E S T A Ç Ã O 121 Q u A D r O 4 : Principais preparações de ferro no mercado e concentração de ferro elementar Sal de ferro Ferro (mg) Ferro elementar (mg) Fumarato 200 65 Succinato 100 35 Gluconato 300 36 Sulfato 300 60 ANEMIA MACROCÍTICA Esse tipo de anemia pode ser megaloblástica ou não mega- loblástica. Megaloblástica Não megaloblástica deficiência de vitamina B12 deficiência de ácido fólico anemia perniciosa alcoolismo doença hepática mielodisplasia anemia aplásica hipotireoidismo Diagnóstico VCM > 100 fL. Quando > 115 fL o diagnóstico é quase exclusivamen- te deficiência de ácido fólico ou vitamina B12. Gestação: mais comum é deficiência de ácido fólico: há aumento da necessidade de 50 mcg/dia para 400 mcg/dia. Tratamento da deficiência de ácido fólico Ácido fólico 1mg/dia. manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 121 22/06/2012 12:08:13 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 122 20/06/2012 19:26:35 DIABETEs MELLITus gEsTACIONAL CAPÍTuLO 14 Juliana silva Esteves Penha A diabetes mellitus gestacional (DMG) é definida atualmente como qualquer altera- ção glicêmica diagnosticada durante o período gestacional. Os níveis glicêmicos acima da normalidade têm relação com desfechos perinatais desfavoráveis (peso fetal > 90 percentil, hipoglicemia neonatal clínica, pré-eclâmp- sia, parto prematro, distócia de ombro). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 123 20/06/2012 19:26:35 Perinatal | Manual de Perinatologia 124 RASTREAMENTO utiliza-se o teste oral de tolerância à glicose com sobrecar- ga de 75 g de glicose anidra. É dosada a glicose em jejum, seguida da glicose plasmática na primeira hora e segunda após sobrecarga. A seguir, os valores a serem considerados para o diagnóstico de diabetes gestacional. Considera-se DMg a presença de um ou mais dos valores descritos acima; diagnostica-se diabetes preexistente se gli- cemia de jejum ≥ 126 mg/dl. Todas as gestantes que ainda não tenham diagnóstico de diabetes mellitus devem ser rastreadas entre 24 e 28 semanas de gestação; gestantes com glicemia de jejum na primeira consulta acima de 92 mg/dl devem ter seu rastreio antecipado – na tentativa de identificar diabetes prévia; gestantes consideradas de alto risco* devem ser rastrea- das na primeira consulta pré-natal. glicemia de jejum ≥ 126 mg/dl ou hemoglobina glicada ≥ 6,5% ou ainda glicose plasmática ≥ 200 mg/dl identi- ficam a presença de diabetes não diagnosticada previa- mente. *Alto risco: Obesidade, história prévia de DMG, glicosúria e história familiar impor- tante para diabetes mellitus, macrossomia fetal em gestação anterior ou óbito fetal tardio sem causa aparente. Momento da dosagem Valores da glicemia (mg/dl) Jejum ≥ 92 1a hora após sobrecarga ≥ 180 2a hora após sobrecarga ≥ 153 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 124 20/06/2012 19:26:39 C A P Í T U L O 1 4 | D I A B E T E S M E L L I T U S G E S T A C I O N A L 125 1ª consulta pré-natal Rastreio universal ou alto risco solicitar: glicemia de jejum, hemoglobina glicada, ou glicemia plasmática. Resultado compatível com diabetes prévio Tratamento e segui- mento como diabetes prévio Rastrear com TOTg 75 g: 24-28 semanas glicemia jejum 92-126 mg/dl Diagnosticar como DMg glicemia de jejum < 92 mg/dl Sim Não Não manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 125 20/06/2012 19:26:39 Perinatal | Manual de Perinatologia 126 TRATAMENTO O tratamento da DMg deve sempre envolver uma equipe multidisciplinar; Instaurar controle nutricional e mudança no estilo de vida; O objetivo principal é evitar hiperglicemia, cetoacidose e cetonúria, pois apresentam influência direta no desfecho perinatal. A glicemia capilar deve ser avaliada sete vezes ao dia con- forme o esquema: Momento da dosagem Valores da glicemia (mg/dl) Jejum e pré-prandiais < 105 1a hora após refeições <140 2a hora após refeições < 120 glicemias acima das estabelecidas anteriormente indi- cam início da insulinoterapia. O controle glicêmico rigoroso promove a redução da frequência de polidramnia e macrossomia fetal, pré- -eclâmpsia e distócia de ombro. Exemplo de esquema de administração de insulina Estimativa da dose 1º trimestre 0,7 uI/kg peso corporal por dia. 2º trimestre 0,8 uI/kg peso corporal por dia. 3º trimestre 0,9 uI/kg peso corporal por dia. Distribuição da dose total no dia 2/3 do total pela manhã Total da manhã (antes do café) – 2/3 NPh e 1/3 da regular. 1/3 do total à noite Total da noite: 50% NPh antes de dormir e 50% regular (15 a 20 minutos antes do jantar). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 126 20/06/2012 19:26:40 C A P Í T U L O 1 4 | D I A B E T E S M E L L I T U S G E S T A C I O N A L 127 AvAliAção fetAl O melhor parâmetro para a avaliação do bem-estar fetal em gestantes com diabetes é o controle adequado da glicemia. O quadro abaixo sugere uma forma de monitorização fetal, porém uma maior vigilância pode ser necessária em caso de mau controle glicêmico. CondutA obstétriCA Gestantes com bom controle glicêmico e sem comprome- timento fetal: indução do parto com 38-39 semanas; Gestantes em uso de insulinoterapia e/ou outras comor- bidades associadas (pré-eclâmpsia): interrupção da ges- tação de acordo com as condições materno-fetais. MAnejo puerperAl Alto risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2; Reavaliar no puerpério (seis semanas após o parto) com TOTG 75 g e glicemia de jejum; Se resultados normais: acompanhar apenas com glice- mia de jejum. Avaliação fetal na gestação complicada pelo diabetes Período gestacional Exames de avaliação fetal 1º trimestre USG para avaliar IG. Rastreio de aneuploidias e malformações fetais.* 2º trimestre USG morfológica para rastreamento de malformações entre 20 e 24 sema- nas.* Doppler das artérias uterinas com 20 semanas. Ecocardiograma fetal entre 24 e 28 semanas. USG de 3/3 semanas a partir de 24 semanas para avaliar crescimento fetal, circunferência abdominal e polidramnia. 3º trimestre USG de 2/2 semanas até 34 semanas, a seguir semanal com cálculo de peso. CTG basal a partir de 32 semanas (semanal). Doppler – somente tem valor em pacientes com possível insuficiência placen- tária (HAC, PE ou vasculopatia). Observar MF diários. USG: Ultrassonografia; IG: Idade Gestacional; CTG: Cardiotocografia; HAC: Hipertensão Arterial Crônica; PE: Pré- -eclâmpsia; MF: Movimentos Fetais. * principalmente para as diagnosticadas no 1o trimestre. manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 127 22/06/2012 14:14:06 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 128 20/06/2012 19:26:40 sÍNDROME ANTIFOsFOLIPÍDEO CAPÍTuLO 15 Carolina Mocarzel de Carvalho Os anticorpos antifosfolipídeos (AAF) são uma família de autoanticorpos que se liga aos fosfolipídeos carregados negativamente, às proteínas ligadoras de fosfolipídeos ou a combinação de ambos. A associação dos AAF com trombose e perda gestacional está bem estabelecida. DIAGNÓSTICO O diagnóstico da sAAF é, antes de tudo, clínico, de modo que a paciente deve ter uma ou mais das características trombóticas ou obstétricasdessa condição. Os tes- tes laboratoriais para anticorpos antifosfolipídeos são usados para confirmar ou refu- tar o diagnóstico. Este, para ser estabelecido, requer pelo menos um critério clínico e pelo menos um critério laboratorial. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 129 20/06/2012 19:26:40 Perinatal | Manual de Perinatologia 130 T A B E L A 1 : Critérios diagnósticos para síndrome antifosfolipídeo Critérios clínicos Trombose vascular um ou mais episódios clínicos de trombose arterial, venosa ou de pequenos vasos em qualquer tecido ou órgão. A trombose deve ser confirmada por exame de imagem (ultrassonografia com Doppler) ou através de histopatológico. No caso da confirmação histopatológica, a trombose deve estar presente sem evidência significativa de inflamação na parede do vaso. Morbidade gestacional - uma ou mais mortes fetais inexplicadas a partir de dez semanas de gestação em fetos com morfo- logia normal documentada através de ultrassonografia, ou - um ou mais partos prematuros de neonatos morfologicamente normais antes de 34 semanas de gestação devido à eclâmpsia ou pré-eclâmpsia grave (de acordo com as definições padrão) ou devido às características de insuficiência placentária reconhecidas, ou - Três ou mais abortos espontâneos antes de dez semanas de gestação, com exclusão de anormalida- des anatômicas ou hormonais maternas ou de causas cromossômicas maternas ou paternas. Critérios laboratoriais 1. Anticorpos anticardiolipina Anticorpos anticardiolipina do isótipo imunoglobulina g ou M, ou ambos, presentes no sangue em título médio a elevado (ex.> 40 gPL ou MPL, ou títulos acima do percentil 99), em duas ou mais ocasiões separadas por 12 semanas, pelo menos, e medidas por Elisa padrão. 2. Anticorpos anti-β2-glicoproteína I Anticorpos anticardiolipina do isótipo imunoglobulina g ou M, ou ambos, presentes no sangue (títulos acima do percentil 99 em duas ou mais ocasiões separadas por 12 semanas, pelo menos, e medidas por Elisa padrão. 3. Anticorpos anticoagulante lúpico Anticoagulante lúpico presente no plasma, em duas ou mais ocasiões separadas por 12 semanas, pelo menos. OBS.: Enquanto o anticoagulante lúpico é informado como positivo ou negativo, os anticorpos anticardiolipina e anti- 2-glicoproteína I são frequentemente informados em unidades internacionais (GPL para a ligação o IgG e MPL para a ligação IgM). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 130 20/06/2012 19:26:40 C A P Í T U L O 1 5 | S Í N D R O M E A N T I F O S F O L I P Í D E O 131 TRATAMENTO O tratamento ideal durante a gravidez deverá melhorar o desfecho materno e fetal/neonatal pela prevenção da perda gestacional, da pré-eclâmpsia, da insuficiência placentária e do parto pré-termo bem como pela redução ou eliminação do risco de trombose materna. A heparina administrada na mãe é, no momento, o tratamento de escolha. uma vez estabelecido o diagnóstico de sAAF obstétrica (sem eventos trombóticos), a paciente deve iniciar o uso de aspirina (100 mg/dia) durante o período preconcepcional. há três possíveis cenários: 1. Mulheres com sAAF, diagnosticada devido a perdas gestacionais pré-embriônicas ou embriônicas, mas sem trombose prévia. 2. Mulheres com sAAF, diagnosticadas em razão de per- da fetal prévia ou de parto pré-termo secundário à pré- -eclâmpsia grave ou a insuficiência placentária grave, mas sem trombose prévia. 3. Mulheres com sAAF que apresentaram trombose. Uma vez identificado o cenário em que a paciente se encon- tra, o tratamento pode ser estabelecido conforme demons- trado nas Tabelas 2 e 3. T A B E L A 2 : Esquemas de tratamento de acordo com o cenário clínico Cenários 1 e 2 Aspirina (100 mg/dia) no preconcepcional. Iniciar heparina (regime profilático) no primeiro trimestre da gravidez após a demonstração ultrassonográfica do embrião vivo. Cenário 3 Essas pacientes, em função da trombose prévia, já estarão em uso de anticoagulante antes da concepção. Em caso de uso da warfarina, esta deve ser substituída pela heparina. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 131 20/06/2012 19:26:40 Perinatal | Manual de Perinatologia 132 T A B E L A 3 : Regimes de heparina subcutânea usados no tratamento da sAAF na gestação Regimes profiláticos Perdas gestacionais pré-embriônicas ou embriônicas, mas sem trombose prévia. heparina não fracionada: 5.000 a 7.500 uI 12/12 horas no pri- meiro trimestre, 5.000 a 10.000 uI 12/12 horas no segundo e terceiro trimestres. heparina de baixo peso molecular: Enoxaparina 40 mg 1 vez ao dia ou Dalteparina 5.000 uI 1 vez ao dia ou Enoxaparina 30 mg 12/12 horas ou Dalteparina 5.000 uI 12/12 horas. Perda fetal prévia ou de parto pré-termo secundário à pré-eclâmp- sia grave ou a insuficiência placentária grave, mas sem trombose prévia. heparina não fracionada: 7.500 a 10.000 uI 12/12 horas no primeiro trimestre, 10.000 uI 12/12 horas no segundo e terceiro trimestres. heparina de baixo peso molecular: Enoxaparina 40 mg 1 vez ao dia ou Dalteparina 5.000 uI 1 vez ao dia ou Enoxaparina 30 mg 12/12 horas ou Dalteparina 5.000 uI 12/12 horas. Regimes de anticoagulação Recomendado para mulheres com história de eventos trombóticos heparina não fracionada: 7.500 a 10.000 uI a cada 8-12 horas, ajustada para manter os níveis de heparina no intervalo dos limites terapêuticos. heparina de baixo peso molecular: Enoxaparina 1 mg/kg a cada 12 horas ou Dalteparina 200 uI/kg a cada 12 horas. heparina de baixo peso molecular (dose intermediária): Enoxapa- rina 40 mg 1 vez ao dia até 16ª semana e a cada 12 horas a partir dessa data. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 132 20/06/2012 19:26:41 C A P Í T U L O 1 5 | S Í N D R O M E A N T I F O S F O L I P Í D E O 133 Considerações Até o momento, não há evidências que sugiram vanta- gens entre os dois tipos de heparina (não fracionada e de baixo peso molecular) desde que os regimes uti- lizados garantam efeitos anticoagulantes equivalentes durante as 24 horas. Pacientes tratadas com heparina de baixo peso molecu- lar devem substituí-la por heparina não fracionada nas 34-36 semanas de gestação com intuito de reduzir o risco de hematoma neuroaxial associado com anestesia epidural ou espinhal. A anticoagulação com warfarin pode ser recomendada, durante o segundo trimestre e início do terceiro trimes- tre, em pacientes selecionadas com história trombótica evidente (eventos recorrentes ou trombose cerebral). O uso de imunoglobulina intravenosa não mostrou resul- tados superiores à associação de aspirina com heparina. Devido à variedade de complicações associadas à sAAF na gestação, as consultas devem ser realizadas em in- tervalos mais curtos que o habitual. Sobretudo no final do segundo e terceiro trimestres, a paciente deve ser cuidadosamente avaliada em função da maior chan- ce de desenvolvimento de pré-eclâmpsia, restrição de crescimento e óbito fetal (ver Fluxograma 1). As complicações potenciais da gravidez em mulheres com sAAF incluem a perda gestacional, pré-eclâmpsia, insuficiência placentária, trombose materna (incluindo acidente vascular cerebral) e complicações associadas à anticoagulação. Nas pacientes com lupus eritematoso sistêmico (LEs) associado à sAAF, as complicações potenciais também incluem a exacerbação do LEs. A heparina pode induzir trombocitopenia. Recomenda-se que a contagem plaquetária seja checada no quinto dia e, após, periodicamente pelas duas primeiras semanas de tratamento. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 133 20/06/2012 19:26:41 Perinatal | Manual de Perinatologia 134 Fluxograma 1: Acompanhamento da gestante com sAAF Mulheres com diagnóstico de sAAF que desejam engravidarConsulta preconcepcional com obstetra e reumatologista Iniciar aspirina Ultrassonografia transvaginal para confirmar um embrião vivo (por volta da 6ª semana) Início do tratamento com heparina Cuidados clínicos Testes diagnósticos Ultrassonografia obstétrica a cada 3-4 semanas, iniciando nas 17-20 semanas de gestação. Avaliar cres- cimento fetal e líquido amniótico. Testes de vigilância fetal (ex: car- diotocografia) pelo menos sema- nais iniciando nas 30-32 semanas ou mais cedo, se há suspeita de insuficiência placentária. Consultas pré-natais a cada 2-4 semanas até 20-24 semanas e então a cada 1-2 semanas. Monitorizar o crescimento fetal e ocorrência de pré-eclampsia. Consultas reumatológicas a cada 2-4 semanas. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 134 20/06/2012 19:26:41 C A P Í T U L O 1 5 | S Í N D R O M E A N T I F O S F O L I P Í D E O 135 CONTROVÉRSIAS SOBRE A SAAF OBSTÉTRICA Os anticorpos anticardiolipina IgM e IgA isolados são de significância incerta. Ainda não está estabelecida a relevância dos anticorpos anticardiolipina Igg positivos em títulos baixos. Níveis baixos (menores que 40 unidades MPL) de anti- corpos anticardiolipina Igg e IgM não devem ser usados para diagnóstico da sAAF. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 135 20/06/2012 19:26:41 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 136 20/06/2012 19:26:41 INFECÇÃO DO TRATO uRINÁRIO CAPÍTuLO 16 Cristiane Alves de Oliveira Denise Cotrim Complicação clínica mais comum da gestação, a infecção aguda do trato urinário (ITu) pode ser assintomática (bacteriúria assintomática) ou sintomática (cistite ou pielonefrite). FATORES DE RISCO PRINCIPAIS A dilatação das vias urinárias e a estase da urina, observadas em geral em todas as gestações, são fatores facilitadores para o desenvolvimento da infecção na grávida. Entre os principais fatores de risco, destacamos: sexo feminino Diabetes mellitus hemoglobinopatias Anormalidades anatômicas do trato urinário Litíase urinária história de episódios de infecção geniturinária de repetição Baixo nível socioeconômico manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 137 20/06/2012 19:26:41 Perinatal | Manual de Perinatologia 138 AGENTES ETIOLÓGICOS As bactérias, na maioria das vezes, atingem o trato urinário por via ascendente, originadas da vagina e do reto, sendo rara a responsabilidade hematogênica. A Escherichia coli é o agente etiológico em 80-85% dos casos. Outros patógenos gram-negativos podem ocorrer, quase sempre associados à uropatia obstrutiva, litíase renal ou diabetes mellitus: Proteus mirabilis; Staphylococcus sapro- phyticus; Klebsiella pneumoniae; Enterococcus. BACTERIÚRIA ASSINTOMáTICA Na bacteriúria assintomática (BA), há colonização ativa e persistente do trato urinário por bactérias patogênicas em concentração superior a 100.000 colônias por mililitro de urina, sem sintomatologia específica. Se não for tratada, 30% dos casos evoluem para pielonefrite. Incide em 2% a 10% das gestações. O tratamento da BA reduz em 70%- 90% a probabilidade de progressão do quadro infeccioso. Diagnóstico urinocultura (uRC) entre 12 e 16 semanas de gestação ou na primeira consulta em todas as gestantes. Está indicada repetição da uRC no terceiro trimestre. Colher jato médio da primeira urina e conservar a 4°C imedia- tamente a amostra (caso não seja possível, o ideal é haver um tempo mínimo entre uma micção e outra de três horas antes da coleta). gestante que possuir fator de risco adicional para ITu deverá realizar uRC trimestralmente. O exame rotineiro de urina (Elementos Anormais e sedi- mentoscopia/ EAs) não confirma o diagnóstico. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 138 20/06/2012 19:26:44 C A P Í T U L O 1 6 | I N F E C Ç Ã O D O T R A T O U R I N Á R I O 139 Conduta Incentivar ingesta hídrica para aumentar a diurese. Antibioticoterapia: ■ Nitrofurantoína – 400 mg/dia por sete dias. Evitar no 1o trimestre. ■ Cefalexina – 2 g/dia por sete dias. ■ Amoxacilina – 1,5 g/dia por sete dias. ■ Cefuroxine – 1 g/dia durante sete dias. OBS: A antibioticoterapia deve ser orientada, preferencialmente, pelo antibiograma. As fluoroquinolonas devem ser evitadas na gestação. Seguimento urinocultura de controle uma a duas semanas após o término do antibiótico e depois mensalmente até o parto. A presença de mais de duas uRC positivas durante o pré-natal indica prescrição de quimioprofilaxia com ce- falexina (500 mg/dia) ou nitrofurantoína (100 mg/dia). Manter quimioprofilaxia de preferência enquanto perdu- rarem as alterações anatômicas do trato urinário decor- rentes da gestação (até oito semanas do pós-parto). CISTITE As cistites, infecções sintomáticas baixas do aparelho uri- nário, acometem de 1% a 2% das gestações. Na maioria das vezes, cursam sem manifestações sistêmicas como fe- bre, cefaleia ou náuseas. Na gestação, a cistite não tratada pode evoluir rapidamente para pielonefrite aguda. Diagnóstico Os principais sintomas são: ■ Polaciúria. ■ Desconforto suprapúbico. ■ Disúria (dificuldade ou desconforto para urinar). Ardência miccional, principalmente terminal. } Só utilizar quando houver sensibilidade no antibiograma. A resistência a E. Coli está pre-sente em até 50% dos casos. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 139 20/06/2012 19:26:45 Perinatal | Manual de Perinatologia 140 ■ urgência urinária. ■ Raramente ocorre hematúria. Diagnóstico: uRC (contagem >105 UFC/ml). O EAs pode sugerir o diagnóstico, mas não substitui a uRC. uRC com contagem de 102 UFC/ml em mulheres com sintomatologia aguda e piúria pode ser considerada como cultura de urina positiva, devendo a gestante ser conduzida como tal. Quando os sintomas de infecção do trato urinário baixo se associam com cultura de urina negativa, pensar em Chlamydia trachomatis e gonococo. Conduta Incentivar ingesta hídrica para aumentar a diurese. Antibioticoterapia e seguimento: semelhantes aos des- critos para bacteriúria assintomática. PIELONEFRITE AGUDA Acomete 1% a 2% das gestações e é a maior causa não obstétrica de internação materna durante o ciclo grávido- -puerperal. Cerca de 20% das grávidas apresentam recidiva durante a gestação. Diagnóstico Dor lombar (com punho percussão positiva); Náuseas; Vômitos; Febre (temperatura axilar > 38oC); e/ou Queda do estado geral; Presença ou ausência de sintomas da cistite. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 140 20/06/2012 19:26:45 C A P Í T U L O 1 6 | I N F E C Ç Ã O D O T R A T O U R I N Á R I O 141 Achados fortemente sugestivos de pielonefrite nos exames laboratoriais incluem: Piúria significativa e hematúria frequente. Cultura de urina positiva (confirma o diagnóstico – con- tagem >105 uFC/ml). Leucocitose e desvio para esquerda no hemograma. Anemia pelo dano das células vermelhas causado pelas endotoxinas. Diagnóstico diferencial Deve ser feito com: litíase urinária isolada, apendicite, co- lecistite e colite. Conduta hospitalização e monitoração de sinais vitais. Analgesia. hidratação venosa, caso necessária, para assegurar débi- to urinário maior que 30 ml/hora. Avaliar a presença de trabalho de parto prematuro (e ne- cessidade de tocólise venosa) – já que a pielonefrite é um fator de risco para o mesmo. Ultrassonografia das vias urinárias para diagnóstico de doenças associadas, como litíase renal. solicitar uRC, hemograma completo e função renal. Iniciar a antibioticoterapia somente após a coleta da uRC empiricamente com: ■ Cefuroxima 750 a 1,5g/IV de 8/8h (nos casos de boa resposta terapêutica afebre cessará entre 48 h e 72 h). ■ Pacientes alérgicas a cefalosporinas – avaliar prescrição de quinolona: ciprofloxacina 500 mg/IV de 12/12 h (ava- liar risco x benefício). Após resultado da uRC: antibioticoterapia segundo re- sultados do antibiograma. ■ O antibiótico deve atingir altos níveis sanguíneos e concentrações elevadas no parênquima renal. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 141 20/06/2012 19:26:45 Perinatal | Manual de Perinatologia 142 Nos casos não complicados: troca do antibiótico venoso por oral, após 48 horas sem febre, de acordo com o teste de sensibilidade aos antibióticos (TsA), totalizando dez a 14 dias de tratamento. A nitrofurantoína só pode ser utilizada para a terapêutica de ITu baixa (pois não apresenta concentrações adequa- das no parênquima renal). gestantes com fatores de risco adicionais deverão utili- zar antibiótico venoso por dez a 14 dias. Considerar falência terapêutica quando, mesmo após três dias completos de Cefuroxima, a paciente ainda apresentar febre e/ou sintomatologia urinária; nestes casos, investigar: ■ Obstrução do trato urinário; ■ Infecção por bactérias do gênero pseudomonas; ■ Imunossupressão; ■ Infecções por bactérias multirresistentes. Nos casos refratários ao uso do cefuroxima, sem resulta- do de TsA, pensar na troca do esquema terapêutico para cefepime 2 g, IV de 8/8 h e avaliar intervenções urológi- cas (como nefrostomia ou colocação de cateter duplo J). A alta hospitalar pode ser dada após início da terapia oral. Avaliação da vitalidade fetal em intervalos individualiza- dos, definidos pela resposta da gestante ao tratamento. Seguimento uRC uma a duas semanas após o término do antibiótico e depois mensalmente até o parto. Pacientes com pielonefrite complicada deverão receber alta com prescrição de quimioprofilaxia até o parto, en- tretanto nas situações de pielonefrite não complicada a quimioprofilaxia só deverá ser administrada após o se- gundo evento infeccioso. Esquema profilático recomendado para profilaxia: cefa- lexina 500 mg/dia (primeira escolha) ou nitrofurantoína 100 mg/dia (ambos ingeridos ao deitar). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 142 20/06/2012 19:26:45 C A P Í T U L O 1 6 | I N F E C Ç Ã O D O T R A T O U R I N Á R I O 143 Complicações Trabalho de parto prematuro; Anemia; Insuficiência respiratória; Insuficiência renal; Celulite e/ou abscesso perirrenal; Choque séptico. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 143 20/06/2012 19:26:45 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 144 20/06/2012 19:26:45 INFECÇÕES CONGÊNITAS 1 CAPÍTULO 17 Cristiane Alves de Oliveira Juliana Silva Esteves Penha SÍFILIS Doença sistêmica, causada pelo Treponema pallidum, a sífilis, quando presente na gestação, é capaz de causar dano fetal com importante morbimortalidade. Atualmente é dividida em estágios, conforme descrito a seguir. Estágios da sífilis determinados com base nos achados clínicos Sífilis primária Presença de úlcera ou cancro genital no sítio de infecção Sífilis secundária Presença de rash cutâneo, lesões mucocutâneas e linfadenopatias Neurossífilis Alteração mental, lesão de pares cranianos e outras manifestações do sistema nervoso central Sífilis terciária Lesão cardíaca (goma sifilítica) Sífilis latente Sífilis latente precoce Sífilis latente tardia Ausência de manifestação clínica com teste sorológico positivo Quando ocorre em até 1 ano. Quando ocorre após 1 ano. manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 145 22/06/2012 12:13:47 Perinatal | Manual de Perinatologia 146 Sífilis congênita Transmissão vertical A presença de infecção primária pode atingir 100% de contaminação fetal nos casos de gestante infectada sem diagnóstico e tratamento pré-natal. Quando diagnosticada na gravidez e adequadamente tra- tada, a taxa de transmissão se reduz para 1%-2%. Acometimento fetal e neonatal Manifestações perinatais óbito fetal Crescimento intrauterino restrito (CIuR) hidropsia fetal / Anemia hemolítica Microcefalia hepatoesplenomegalia Placentomegalia Manifestações neonatais surdez Icterícia Periostite dos ossos frontais Tíbia em sabre Exantema Dentes de hutchinson Retardo mental Pneumonias manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 146 20/06/2012 19:26:45 C A P Í T U L O 1 7 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 1 147 Diagnóstico Rastreio pré-natal a) captação precoce da gestante para o início do pré-natal; b) realização de, no mínimo, seis consultas com atenção integral qualificada; c) realização do VDRL no primeiro trimestre da gestação, ideal- mente na primeira consulta, e de um segundo teste em torno da 28ª semana com ações direcionadas para busca ativa a partir dos testes reagentes (recém-diagnosticadas ou em seguimento); d) instituição do tratamento e seguimento adequados da gestante e do(s) seu(s) parceiro(s), abordando os casos de forma clínico-epidemiológica; e) documentação dos resultados das sorologias e tratamento da sífilis na carteira da gestante; e) notificação dos casos de sífilis congênita. Além disso, as medidas de controle, envolvendo a realização do VDRL, devem abranger também outros momentos, nos quais há possibilidade de a mulher infectar-se, ou, estando infectada, transmitir a doença para o filho: antes da gravi- dez e na admissão na maternidade, seja para a realização do parto ou para curetagem pós-aborto, seja por qualquer outra intercorrência durante a gravidez. Lembrar que se deve rastrear toda gestante com óbito fetal após a 20ª semana: gestantes soropositivas devem ser consideradas infecta- das, a menos que o tratamento adequado seja comprovado e seja detectada queda do título dos anticorpos. A persistência de altos títulos sugere reinfecção. Testes treponêmicos - Confirma o diagnóstico - Cicatriz sorológica FTA-ABS (fluorescent treponemal antibody absorbed) TP-PA (T. pallidum passive particle agglutination) Teste não treponêmico - Reagente após 2- 4 semanas do cancro - Variação no título 4 vezes em 1 mês - Falso positivo: título baixo VDRL (Venereal Disease Research Laboratory) OBS: Lembrar que os testes devem ser usados de forma complementar. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 147 20/06/2012 19:26:46 Perinatal | Manual de Perinatologia 148 Tratamento Tratamento imediato dos casos diagnosticados em ges- tantes e seus parceiros. Tratamento do parceiro: é imperiosa a realização do tra- tamento, mesmo na impossibilidade da realização do seu diagnóstico laboratorial, em razão da definição de caso de sífilis congênita incluir o não tratamento do parceiro entre seus critérios por caracterizar tratamento materno inadequado. gestantes ou nutrizes comprovadamente alérgicas à peni- cilina, após teste de sensibilidade à penicilina, devem ser dessensibilizadas e mais tarde tratadas com penicilina. Reforçar a orientação sobre os riscos relacionados à in- fecção pelo T. pallidum por meio da transmissão sexual para que as mulheres com sífilis e seu(s) parceiro(s) evitem relações sexuais durante o tratamento ou mante- nham práticas sexuais utilizando preservativos, durante o tratamento. Recomendar o uso regular do preservativo (masculino ou feminino) também no período pós-tratamento. Realizar o controle de cura mensal por meio do VDRL, considerando resposta adequada ao tratamento o declí- nio dos títulos em três vezes. A elevação de títulos em quatro ou mais vezes (exemplo: de 1:2 para 1:8), acima do último VDRL realizado, justi- fica um novo tratamento; deve-se verificar se o tratamen- to do parceiro foi realizado. situações em que a gestante apresente-se na fase se-cundária da doença, a primeira dose do tratamento de- verá ser realizada, idealmente, em ambiente hospitalar devido à possibilidade de desenvolvimento da Reação de Jarish-herxheimer, em que os principais sinais e sintomas são: febre, calafrios, mialgia, dor de cabeça, hipotensão, taquicardia e acentuação das lesões cutâ- neas. Esta reação inicia-se, geralmente, entre duas a quatro horas após o tratamento com penicilina, poden- do durar de 24 a 48 horas), com risco potencial de abortamento. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 148 20/06/2012 19:26:46 C A P Í T U L O 1 7 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 1 149 Gestantes com diagnóstico de sífilis e titulação elevada ou tratadas no final do segundo ou no terceiro trimestre devem ser submetidas à ultrassonografia obstétrica para avaliação fetal 5. Após o tratamento adequado, os testes não treponêmicos na sífilis primária e secundária devem declinar cerca de quatro vezes após três a seis meses e oito vezes após seis a 12 meses, com níveis não reativos após os 12 meses. Na infecção latente precoce, a queda de quatro vezes no título ocorre, em geral, após um ano. Pacientes tratadas no estágio latente tardio ou que tiveram múltiplos episó- dios de sífilis podem mostrar um declínio mais gradual dos títulos. Tratamento adequado É o completo, adequado ao estágio da doença, feito com penicilina e finalizado pelo menos 30 dias antes do parto, tendo sido o parceiro tratado concomitantemente. Tratamentos inadequados da sífilis materna Tratamento realizado com qualquer medicamento que não seja a penicilina; ou tratamento incompleto, mesmo tendo sido feito com pe- nicilina; ou tratamento inadequado para a fase clínica da doença; ou instituição de tratamento dentro do prazo dos 30 dias anteriores ao parto; ou ausência de documentação de tratamento anterior; ou ausência de queda dos títulos (sorologia não treponêmi- ca) após tratamento adequado; ou parceiro não tratado ou tratado inadequadamente, ou quando não se tem a informação disponível sobre o seu tratamento. Falha terapêutica Cerca de 14% das gestantes podem apresentar falência no tratamento, com consequente risco de interrupção da gravi- dez ou nascimento de crianças com sífilis congênita. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 149 20/06/2012 19:26:46 Perinatal | Manual de Perinatologia 150 Os fatores importantes implicados na falência terapêutica são: coinfecção sífilis-HIV; os estágios precoces da sífilis; altos títulos de VDRL no momento do tratamento e parto; parto prematuro (< 36 semanas); severidade da doença fetal: hidropsia, hepatomegalia, pla- centomegalia, ascite e elevação das transaminases fetais; tratamento após 24 semanas; esquema terapêutico reduzido: 1 dose de penicilina ben- zatina em sífilis precoce. Estadiamento Penicilina G Benzatina Intervalo entre as séries Controle de cura (sorologia) Sífilis primária 1 série Dose total: 2.400.000 ul Dose única VDRL mensal Sífilis secundária ou latente com menos de um ano de evolução 2 séries Dose to- tal: 4.800.000 ul 1 semana VDRL mensal Sífilis terciária ou com mais de um ano de evolução ou com duração ignorada 3 série Dose total: 7.200.000 ul 1 semana VDRL mensal * Essa gestante não será considerada adequadamente tratada para fins de transmissão fetal, sendo obrigatória a investigação e o tratamento adequado da criança logo após seu nascimento. Eritromicina – 500 mg VO 6/6 h por 14 dias ou Ceftriaxone – 1 g/dia IV por 10 dias Pacientes alérgicas à penicilina:* Tratamento do recém-nato A - Nos recém-nascidos de mães com sífilis não tratada ou com tratamento inadequado, independentemente do resul- tado do VDRL do recém-nascido, realizar: hemograma, ra- diografia de ossos longos, punção lombar (na impossibilida- de de realizar este exame, tratar o caso como neurossífilis), e outros exames, quando clinicamente indicados. De acor- do com a avaliação clínica e de exames complementares; A1- se houver alterações clínicas e/ou sorológicas e/ou radiológicas e/ou hematológicas, o tratamento deverá ser manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 150 20/06/2012 19:26:46 C A P Í T U L O 1 7 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 1 151 feito com penicilina g cristalina na dose de 50.000 uI/ kg/dose, por via endovenosa, a cada 12 horas (nos pri- meiros sete dias de vida) e a cada oito horas (após sete dias de vida), durante dez dias; ou penicilina g procaína 50.000 uI/kg, dose única diária, IM, durante dez dias; A2 - se houver alteração liquórica, o tratamento deve- rá ser feito com penicilina g cristalina 6, na dose de 50.000 uI/kg/dose, por via endovenosa, a cada 12 ho- ras (nos primeiros sete dias de vida) e a cada oito horas (após sete dias de vida), durante dez dias; A3 - se não houver alterações clínicas, radiológicas, he- matológicas e/ou liquóricas, e a sorologia for negativa, deve-se aplicar o tratamento com penicilina g benzatina por via intramuscular na dose única de 50.000 uI/kg. O acompanhamento é obrigatório, incluindo o seguimen- to com VDRL sérico após conclusão do tratamento (ver “seguimento”, adiante). sendo impossível garantir o acompanhamento, o recém-nascido deverá ser tratado com o esquema A1. B - nos recém-nascidos de mães adequadamente tratadas: realizar o VDRL em amostra de sangue periférico do recém- -nascido; se este for reagente com titulação maior do que a materna, e/ou na presença de alterações clínicas, realizar hemograma, radiografia de ossos longos e análise do LCR: B1 - se houver alterações clínicas e/ou radiológicas, e/ou he- matológica sem alterações liquóricas, o tratamento deverá ser feito como em A1; B2 - se houver alteração liquórica, o tratamento deverá ser feito como em A2; C - Nos recém-nascidos de mães adequadamente trata- das: realizar o VDRL em amostra de sangue periférico do recém-nascido: C1 - se for assintomático e o VDRL não for reagente, proceder apenas ao seguimento clínico-laboratorial. Na impossibilidade de garantir o seguimento 8, deve-se pro- ceder o tratamento com penicilina g benzatina, IM, na dose única de 50.000 uI/kg. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 151 20/06/2012 19:26:46 Perinatal | Manual de Perinatologia 152 C2 - se for assintomático e tiver o VDRL reagente, com títu- lo igual ou menor que o materno, acompanhar clinicamente (ver “seguimento”, adiante). Na impossibilidade do segui- mento clínico, investigar e tratar como A1 (sem alterações de LCR) ou A2 (se houver alterações no LCR). Conduta na gestante com sífilis Mãe com sífilis Raios-X ossos, punção lombar e hemograma Raios-X ossos, punção lombar e hemograma Tratar – A1 (cristalina/ procaína) Tratar – A3 (benzatina) Tratar – A1 (cris- talina/ procaína) LCR alterado (Neurosífilis) Tratar – A2 (cristalina) Exames alterados LCR normal Tratar – A1 (cristalina/ procaína) Exames normais LCR normal Tratar – A3 (benzatina) Tratar – A2 (cristalina) VDRL segui- mento ou tratar – C1 (benzatina) > materno Negativo< materno LCR normal LCR alterado (Neurosífilis) Tratar – A2 (cristalina) Raios-X ossos, punção lombar e hemograma LCR normal LCR alterado (Neurosífilis) Exames normais e VDRL negativo RN assintomático RN assintomáticoRN sintomático RN sintomático Não tratada ou inadequada- mente tratada Adequada- mente tratada manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 152 20/06/2012 19:26:46 C A P Í T U L O 1 7 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 1 153 HIV A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida(Aids) é doença causada por retrovírus (hIV) de transmissão sexual e paren- teral. A transmissão materno-fetal (transmissão vertical) do vírus pode ocorrer por via transplacentária, intraparto por inoculação direta ou através da amamentação. A carga viral elevada é o principal fator de risco associado à transmissão vertical do hIV. Diagnóstico solicitar de rotina o teste Elisa para hIV na primeira con- sulta pré-natal. Em caso de positividade do Elisa, é obrigatória a solicita- ção de Western-blot (para confirmação do diagnóstico). Caso se confirme a presença do HIV no organismo ma- terno, deve-se encaminhar a gestante para acompanha- mento em centros especializados no controle e trata- mento da Aids. OBS.: Não é indicada a invasão do ambiente fetal (amniocentese, cordocentese) para o diagnóstico da infecção no concepto pelo significativo risco de contágio do feto nesses procedimentos. Conduta As taxas de transmissão vertical do hIV, sem qualquer in- tervenção durante a gestação, situam-se entre 25% e 30%. Com a utilização de profilaxia, essas taxas podem chegar a valores abaixo de 1%-2%. Toda gestante infectada pelo hIV deve receber terapia antir- retroviral (TARV) durante a gestação. A indicação de TARV na gestação pode ter dois objetivos: Profilaxia da transmissão vertical – ou seja, gestante in- fectada, que não usa antirretroviral e não necessita de tratamento para sua própria saúde. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 153 20/06/2012 19:26:47 Perinatal | Manual de Perinatologia 154 Tratamento da infecção pelo hIV – presença de indica- ções para tratamento da mulher (objetivo de tratar a do- ença e/ou reduzir o risco de progressão). Deve-se solicitar no pré-natal a contagem de CD4 para esti- mar o grau de imunossupressão existente. Profilaxia da transmissão vertical Recomendada para gestantes assintomáticas e com LT-CD4+ ≥ 350 céls./mm3 (dano imunológico é pequeno ou ausente), que não possuem, portanto, indicação de tratar a infecção pelo hIV. O início do esquema deve ser precoce, após o pri- meiro trimestre, entre a 14ª e a 28ª semana de gravidez. Recomendações para profilaxia da transmissão vertical do HIV: Profilaxia antirretroviral durante a gestação e parto; Profilaxia antirretroviral no recém-nascido; Cesárea eletiva (antes de início do trabalho de parto). Indicada para gestantes soropositivas que: ■ receberam esquema antirretroviral inadequado; ou ■ apresentam carga viral ≥ 1.000 cópias/ml ou desco- nhecida, a partir de 34 semanas. ■ Evitar bolsa rota por mais de quatro horas; ■ Evitar trabalho de parto prolongado e episiotomia; ■ Inibição de lactação. Tratamento da infecção pelo HIV Mulheres que apresentam repercussão clínica e/ou imunoló- gica grave da infecção do hIV têm indicação de tratamento, independentemente da gravidez e em qualquer idade ges- tacional. Gestantes sintomáticas ou assintomáticas com contagem de LT-CD4+ ≤ 350 céls./mm3 apresentam critérios de início de tratamento, conforme recomendado para adul- tos que vivem com hIV, devendo iniciá-lo com o objetivo de tratar a doença ou reduzir o risco de sua progressão. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 154 20/06/2012 19:26:47 C A P Í T U L O 1 7 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 1 155 Gestantes assintomáticas com contagem de LT-CD4+ entre 200 e 350 céls./mm3 – o tratamento poderá ser postergado para após a 14ª semana de gestação, consi- derando a relação risco-benefício. Quanto mais próxima de 200 céls./mm3 estiver a con- tagem de LT-CD4+, maior será a necessidade de início precoce da terapia devido ao maior risco de progressão da doença. OBS.: Sempre que houver indicação de TARV na gestação, esta deverá ser mantida (e readequada, se necessário) após o parto. Terapia antirretroviral recomendada na gestação – anteparto utilizar esquema antirretroviral composto por três antirre- trovirais de duas classes diferentes, seja para profilaxia ou tratamento. Inibidores de transcriptase reversa análogos de nucleosí- deos (ITRN): ■ A associação zidovudina/lamivudina (AZT/3TC) é a mais estudada em gestantes infectadas pelo hIV, sen- do habitualmente bem tolerada. O AZT/3TC é a dupla de ITRN de primeira escolha para compor o esquema antirretroviral inicial. ■ Recomenda-se evitar o uso de AZT em casos de anemia (Hb < 8 g/dl) e/ou neutropenia (neutrófilos < 1.000 céls./mm3), com monitoramento mais frequente caso a hemoglobina seja inferior a 10 g/dl. ■ A lamivudina habitualmente é bem tolerada, sendo rara a ocorrência de efeitos adversos. ■ Posologia: ■ Comprimidos associados AZT (300 mg) + 3TC (150 mg); ■ Zidovudina – AZT (categoria C): 300 mg, VO, 2x/ dia, a partir de 14 semanas de gestação. Monitorar mensalmente as condições da paciente pelo hemo- grama, plaquetas, TgO e TgP. ■ Lamivudina (categoria C): 150 mg, 2 x/dia. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 155 20/06/2012 19:26:47 Perinatal | Manual de Perinatologia 156 Inibidor da Protease (IP): ■ O IP de escolha para terapia inicial deve ser o lopina- vir/rotinavir (LPV/r), com base na sua maior experiên- cia de uso, na alta potência de supressão viral e no perfil de segurança na gestação. ■ O ritonavir (r) age como adjuvante farmacológico po- tencializando o efeito do IP. ■ Posologia na gestação - Lopinavir/ritonavir (categoria C): ■ Duas tomadas diárias (2 comprimidos de 12/12 h). Inibidores de transcriptase reversa não análogos de nu- cleosídeos (ITRNN): ■ Quanto à escolha dos ITRNN na gestação, a nevirapina (NVP) continua sendo a opção dessa classe, devido ao potencial teratogênico do efavirenz (EFZ) (categoria D). ■ A frequência relatada na literatura de toxicidade hepá- tica e/ou cutânea em gestantes, durante o uso de ne- virapina, varia de 2,7% a 29%, acometendo principal- mente mulheres com contagem de células LT-CD4+ em sangue periférico acima de 250 céls./mm3. ■ Posologia: ■ Nevirapina (categoria B): 200 mg 1 x/dia nos primei- ros 14 dias (esta fase de introdução deve ser realizada pois demonstrou diminuir a ocorrência das erupções cutâneas), seguida de 200 mg 2 x/ dia. Esquemas para terapia inicial Preferencial Alternativo 2 ITRN + IP/r 2 ITRN + ITRNN ITRN: Inibidores Nucleosídeos da Transcriptase Reversa; IP: Inibidor da Protease; ITRNN: Inibidores de trans- criptase reversa não análogos de nucleosídeos; r = ritonavir (como adjuvante farmacológico). Os efeitos adversos mais comuns nas primeiras se- manas de tratamento antirretroviral são semelhantes àqueles que ocorrem com os adultos em geral. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 156 20/06/2012 19:26:47 C A P Í T U L O 1 7 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 1 157 Terapia antirretroviral recomendada no parto-intraparto Todas as gestantes, independentemente do tipo de par- to, devem receber AZT intravenoso (IV) desde o início do trabalho de parto ou pelo menos três horas antes da cesárea eletiva, a ser mantido até o clampeamento do cordão umbilical. Durante o trabalho de parto, ou no dia da cesárea pro- gramada, manter os medicamentos antirretrovirais (ARV) orais utilizados pela gestante, nos seus horários habituais, independentemente do jejum, ingeridos com pequena quantidade de água, inclusive durante o perío- do de infusão venosa da zidovudina (AZT). A única droga que deve ser suspensa até 12 horas antes do início do AZT intravenoso é a d4T (estavudina). ■ Apresentação comercial do AZT IV: frasco ampola de 200 mg com 20 ml (10 mg/ml); ■ Fazer AZT 2 mg/kg, EV, perfundidos em uma hora, seguido de 1 mg/kg/hora até o nascimento. ■ Caso o AZT parenteral não esteja disponível, fazer: 300 mg de zidovudina oral no começo do trabalho de parto ou na admissão, seguidade 300 mg a cada três horas, até o clampeamento do cordão umbilical. Conduta no parto A condução no parto de pacientes soropositivas deve obedecer, com rigor, às normas gerais de proteção do profissional que atende à paciente para evitar sua expo- sição ao sangue e fluidos corporais. gestantes com contagem plasmática do RNA viral (car- ga viral) ≥ 1.000 cópias/ml perto do momento do parto (após 34 semanas) ou desconhecida – agendar cesariana com 38 semanas de gestação. Evitar tempo de amniorrexe superior a quatro horas. Proibir a mãe de amamentar e orientá-la sobre os cuida- dos necessários para evitar a exposição do recém-nato ao seu sangue e fluidos corporais. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 157 20/06/2012 19:26:47 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 158 20/06/2012 19:26:47 INFECÇÕEs CONgÊNITAs 2 CAPÍTuLO 18 Ana Elisa Baião TOXOPLASMOSE Parasitose de registro frequente, causada pelo Toxoplasma gondii, a toxoplasmose pode acometer o feto de mulheres infectadas durante a gestação. Embora a trans- missão vertical ocorra em cerca de um terço dos fetos das gestantes afetadas e a grande maioria destes permaneça assintomática após o nascimento, até 4% evolui- rão com óbito ou sequelas, como deficiência neurológica ou visual grave. A infecção é adquirida pela ingestão dos oocistos excretados nas fezes dos gatos (hospedeiro definitivo), que contaminam o solo ou a água, ou pela ingestão de cistos que permanecem viáveis na carne mal cozida dos hospedeiros intermediários, como gado, suínos ou ovinos. A prevalência mundial da toxoplasmose é bastante variável, chegando a até 90% da população em algumas regiões. No Brasil, a prevalência de mulheres em idade reprodutiva soroconvertidas é de 60% a 65%. A incidência da toxoplasmose aguda é estimada em 5/1.000 gestações, em estudos brasileiros, com taxas de transmissão vertical em torno de 10% a 20%. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 159 20/06/2012 19:26:47 Perinatal | Manual de Perinatologia 160 Prevenção A prevenção da infecção durante a gestação pode ser feita a partir de medidas ambientais e alimentares. Medidas ambientais evitar mexer em jardins sem luvas e sempre lavar as mãos logo depois; trocar a caixa de areia dos gatos diariamente; não alimentar o gato com carne crua ou parcialmente cozida; manter o gato dentro de casa para que não cultive o há- bito da caça; combater baratas e outros insetos. Medidas alimentares não ingerir carne crua ou parcialmente cozida; lavar cuidadosamente frutas e verduras antes de ingeri- -las, e dar preferência a ingeri-las cozidas e descascadas; lavar bem as mãos e utensílios de cozinha com água mor- na após o contato com carne crua. Diagnóstico uma vez que a infecção sintomática é muito rara em adultos imunocompetentes, o diagnóstico é feito pelo rastreamento sorológico na gestação. Mulheres não soroconvertidas, ou seja, com IgM e Igg negativos, devem receber orientação sobre a prevenção e ter sua sorologia repetida uma vez a cada trimestre. O diagnóstico da infecção na gravidez é feito quando se docu- menta a soroconversão durante o período gestacional, com IgM positivo. Quando o primeiro exame na gestação é positivo, po- de-se utilizar o teste de avidez da Igg, que diferencia a infec- ção com mais ou menos de quatro meses de evolução. Embora não seja comum, a IgM pode permanecer positiva no soro por mais de 18 meses, o que torna difícil em algumas situações caracterizar se a infecção foi anterior ou posterior à gestação. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 160 20/06/2012 19:26:48 C A P Í T U L O 1 8 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 2 161 O tratamento e a investigação fetal deverão se basear no grau de probabilidade de que a infecção tenha se dado durante a gravidez. As categorias diagnósticas abaixo fo- ram propostas a partir da probabilidade de infecção, e adotadas pelo European Research Network on Congenital Toxoplasmosis. *Na presença de IgM específica para T. gondii positiva. Toxoplasmose - Diagnóstico Diagnóstico definitivo soroconversão na gestação* Diagnóstico fetal (PCR no líquido amniótico positivo, IgM no sangue fetal) Diagnóstico provável Igg com baixa avidez Igg maior que 300 uI/mL ou com títulos crescentes 3 ou mais vezes Diagnóstico possível Igg com avidez duvidosa após 20 semanas de idade gestacional Igg menor que 300 uI/mL em um único exame após 20 semanas de idade gestacional ou no parto Diagnóstico improvável Igg menor que 300 uI/mL e com alta avidez após 16 semanas Títulos de Igg estáveis em sorologias repetidas após 20 semanas manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 161 20/06/2012 19:26:48 Perinatal | Manual de Perinatologia 162 Diagnóstico fetal Com o aumento da idade gestacional, a taxa de transmissão au- menta, devido ao aumento da circulação placentária; a gravida- de do acometimento fetal diminui. Quando ocorre a infecção aguda na gestação, deve-se oferecer o diagnóstico fetal invasivo. Após 15 semanas de idade gestacio- nal, é possível detectar o Toxoplasma gondii no líquido amniótico por PCR (polimerase chain reaction) com alta sensibilidade. A ultrassonografia pode evidenciar sinais de toxoplasmo- se fetal, tais como placentomagalia, hidrocefalia, calcifi- cações cerebais ou hepáticas, ascite fetal, hepatomegalia. No entanto, a ultrassonografia normal não exclui a infecção fetal. Tratamento O tratamento na gestação objetiva a diminuição da trans- missão vertical e das sequelas pós-natais da infecção fetal, e deve ser mantido até o parto. A droga de escolha para a prevenção da transmissão mater- nofetal é a Espiramicina, na dose de 3 g diários divididos em três doses. Esta droga alcança níveis terapêuticos no tecido placentário, mas não na circulação fetal. uma vez que a infecção fetal seja diagnosticada, o trata- mento recomendado é a associação de sulfadiazina, 3 g diários, com a Pirimetamina, 25 mg diários. Deve-se asso- ciar o ácido folínico, 10 mg diários, para prevenção da ane- mia decorrente da depressão medular das drogas antifolato. Este esquema deve ser suspenso com 34 semanas (manten- do-se exclusivamente a espiramicina). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 162 20/06/2012 19:26:48 C A P Í T U L O 1 8 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 2 163 Fluxograma 1: Diagnóstico e tratamento da toxoplasmose na gestação IgM e Igg positivos para toxoplasmose soroconversão na gestação ou teste de avidez fraco ou teste de avidez forte acima de 16 semanas ou teste de avidez impossibilitado (Igg > 1200 ul) Espiramicina 3 g/dia Consulta na medicina fetal Infecção prévia à gestação – não tratar Manter espiramicina até o parto Teste de avidez forte antes de 16 semanas completas Ultrassonografia sugestiva de infecção fetal Ultrassonografia normal Iniciar sulfadiazina 3 g/dia + Pirimetamina 25 mg/dia + ácido folínico 10 mg/dia Manter seguimento na medicina fetal Oferecer amniocentese para PCR PCR positivo PCR negativo manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 163 20/06/2012 19:26:48 Perinatal | Manual de Perinatologia 164 CITOMEGALOVÍRUS A citomegalovirose é atualmente a infecção congênita mais comum nos países desenvolvidos, ocorrendo em até 2,2% dos nascidos vivos. seu agente etiológico, o citomegalovírus (CMV), pertence ao gênero Citomegalovirus, subfamília ß-Her- pesvirinae da família Herpesviridae. A soroconversão ocorre em 1% a 4% das gestações. A maior parte das primoinfecções pelo citomegalovírus se dá na infância. Portanto, o maior fator de risco para gestan- tes não imunes é o contato íntimo com crianças pequenas. Os profissionaisde saúde e que lidam com o cuidado infan- til constituem grupos de risco ocupacional. O baixo nível socioeconômico também é relacionado com maior taxa de soroconversão na gravidez. As medidas preventivas incluem: evitar o contato com a saliva e urina de crianças pequenas e boa higienização das mãos após a troca de fraldas. A maioria das infecções é assintomática, porém algumas pes- soas podem experimentar síndrome mononucleose-like com febre persistente, linfadenopatia cervical, mialgia, astenia e, raramente, pneumonia ou hepatite. Depois da infecção aguda, primária, o vírus assume um estado latente e pode voltar a se ativar, mesmo em pessoas imunocompetentes, o que é defini- do com infecção secundária. Além disso, existem vários sub- tipos que infectam humanos, podendo ocorrer nova infecção. A infecção fetal ocorre por transmissão transplacentária do vírus. Após a infecção primária, 30% a 40% evoluirão com transmissão para o feto, o que ocorre apenas em 1% das in- fecções secundárias. Dentre os fetos infectados, 10% a 15% terão sintomas ao nascer, tais como baixo peso, anemia, icte- rícia, microcefalia, hepatoesplenomegalia, coriorretinite, trom- bocitopenia, e 20% a 30% destes irão morrer. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 164 20/06/2012 19:26:48 C A P Í T U L O 1 8 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 2 165 A maioria dos fetos acometidos (85% a 90%) é assintomática ao nascimento. Porém 5% a 15% deles desenvolverão seque- las, tais como atraso do desenvolvimento psicomotor, deficiên- cia auditiva neurossensorial e deficiência visual. Diagnóstico O diagnótico é feito quando se observa soroconversão durante a gestação ou quando se detecta IgM específica no soro ma- terno com Igg com baixa avidez. Mulheres soroconvertidas previamente que apresentem títu- los crescentes de Igg e com alta avidez, com ou sem IgM positivo, são classificadas com tendo infecção recorrente. uma vez que o rastreamento da infecção pelo CMV não é recomendado atualmente, o diagnóstico sorológico pode ser feito apenas na investigação de achados sugestivos de infec- ção fetal à ultrassonografia ou no caso de quadro infeccioso materno. O rastreamento pode ser considerado em mulheres com risco ocupacional e mães de crianças pequenas. Diagnóstico fetal uma vez que a infecção é materna, os pais devem ser infor- mados do risco de 30% a 40% de infecção fetal e de 20% a 25% de sequelas pós-natais em fetos afetados. A ultrassonografia pode mostrar achados sugestivos da infec- ção fetal mas estes só estão presentes em 25% dos casos. Achados ultrassonográficos sugestivos de infecção fetal pelo CMV Crescimento fetal restrito Microcefalia Ventriculomegalia cerebral Calcificações intracranianas – caracteristicamente periventriculares Intestino hiperecogênico Ascite, derrame pleural ou hidropisia fetal Oligodramnia ou polidramnia Calcificações hepáticas manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 165 20/06/2012 19:26:48 Perinatal | Manual de Perinatologia 166 O diagnóstico fetal deve se basear no isolamento do CMV em cultura celular ou PCR para identificação do DNA viral a partir de amostras do líquido amniótico. A amniocentese deve ser realizada a partir de sete semanas da infecção materna e somente após 21 semanas de idade gestacional – tempo necessário para que o CMV se replique nos rins e seja excre- tado na urina em quantidade suficiente para garantir a alta sensibilidade do exame. Embora o risco de infecção fetal seja substancialmente me- nor na infecção recorrente (1%), os pais devem ser informa- dos sobre o mesmo e o diagnóstico fetal invasivo pode ser considerado, uma vez que existem relatos na literatura de sequelas pós-natais também nestes casos. uma limitação do diagnóstico fetal invasivo é que ele não prediz o grau de acometimento fetal. Ultrassonografias seriadas a cada duas a quatro semanas podem identificar alterações que ajudem no prognóstico fetal. O papel da ressonância magnética como complementar da ultrassonografia na avaliação das lesões do sistema nervoso e seu prognóstico ainda não foi estabelecido. Assim também, o papel da carga viral no líquido amniótico, es- timado pelo PCR quantitativo, necessita de maior investigação. Tratamento Não existe ainda tratamento comprovadamente eficaz para o CMV. um estudo de corte multicêntrico mostrou bons resul- tados com o uso de imunoglobulina hiperimune em gestantes com infecção comprovada, tanto na prevenção da transmis- são fetal quanto na diminuição das manifestações clínicas pós-natais. Esses resultados promissores precisam ser con- firmados em ensaio clínico controlado para que o tratamento possa ser incorporado à prática clínica. Quanto ao tratamento pós-natal, resultados limitados foram demonstrados com o uso de ganciclovir, com melhora das sequelas auditivas em crianças sintomáticas. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 166 20/06/2012 19:26:49 C A P Í T U L O 1 8 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 2 167 Fluxograma para o diagnóstico e seguimento da infecção por CMV na gestação Diagnóstico sorológico da infecção materna primária: - soroconversão - IgM positivo com Igg com baixa avidez Diagnóstico da infecção fetal: - Amniocentese (PCR) – após 7 semanas de infecção; após 21 semanas de Ig - Ultrassonografia - Ausência de infecção fetal - Repetir a ultrassonografia em 4 a 6 semanas - Ultrassonografia a cada 2 semanas - Considerar PCR quantitativo POsITIVO NEgATIVO manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 167 20/06/2012 19:26:49 Perinatal | Manual de Perinatologia 168 RUBÉOLA Doença viral comum na infância, cujo vírus pertence à família togaviridae, a rubéola, em geral, é uma doença autolimitada com sintomas leves. Quando ocorre durante a gestação, no en- tanto, pode ter efeitos devastadores no desenvolvimento fetal. Diagnósticos Diagnóstico clínico A rubéola é transmissível de sete dias antes do exantema até sete dias depois. O período de incubação pode variar de 12 a 23 dias. O quadro clínico é caracterizado por exantema maculopapu- lar e puntiforme difuso (rash cutâneo), iniciando-se na face, couro cabeludo e pescoço, espalhando-se posteriormente para o tronco e membros. Além disso, apresenta febre baixa e linfadenopatia retroauricular, occipital e cervical posterior, geralmente antecedendo ao exantema no período de cinco a dez dias, podendo perdurar por algumas semanas. Formas inaparentes são comuns, sobretudo em crianças. Adolescentes e adultos podem apresentar um período pro- drômico com febre baixa, cefaleia, dores generalizadas (ar- tralgias e mialgias), conjuntivite, coriza e tosse. A leucopenia é comum e raramente ocorrem manifestações hemorrágicas. Apesar de raras, complicações podem ocorrer com maior frequência em adultos, destacando-se artrite ou artralgia, encefalites (1 para 5 mil casos) e manifestações hemorrági- cas (1 para 3 mil casos). Síndrome da Rubéola Congênita (SRC) Compreende os achados neonatais da rubéola congênita, ini- cialmente descrita pela presença da tríade clássica de ano- malias auditivas, oftálmicas e cardíacas. Na Tabela 1, encon- tram-se as manifestações clínicas associadas à sRC. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 168 20/06/2012 19:26:49 C A P Í T U L O 1 8 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 2 169 T a b e l a 1 : Síndrome da rubéola congênita: manifestações precoces e tardias No nascimento Anomalias auditivas 60% a 75% Surdez neurossensorial Defeitos cardíacos 10% a 20% estenose pulmonar Ducto arterioso patente Defeito de septo interventricular Defeitos oftálmicos 10% a 25% Retinopatia Catarata Microftalmia SNC atraso de desenvolvimento MicrocefaliaOutros Trombocitopenia Hepatoesplenomegalia alterações ósseas Púrpura (blueberry muffin) Manisfestações tardias Diabetes mellitus Tireoidite Deficiência de hormônio do crescimento Distúrbios de comportamento A datação da infecção na gestação tem papel fundamental no aconselhamento, uma vez que a SRC depende da ação teratogênica do vírus no período da orga- nogênese. Embora o risco de infecção fetal aumente com a idade gestacional, chegando a 100% no termo, não há relatos de SRC quando a infecção ocorre depois da 20ª semana (Tabela 2). Não há relatos de SRC com infecção no período periconcepcional. manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 169 22/06/2012 13:53:28 Perinatal | Manual de Perinatologia 170 T A B E L A 2 : Risco de infecção fetal versus Risco de defeitos congênitos Diagnóstico laboratorial O diagnóstico laboratorial deve sempre ser feito na suspei- ção clínica de rubéola e a sorologia deve ser oferecida a to- das as gestantes para que se conheça o estado imunológico. A infecção é diagnosticada se há: IgM especifíca positiva; aumento de quatro vezes do título de Igg entre as fases aguda e convalescente da doença; cultura viral positiva em espécimes do paciente. OBS.: A sorologia deve ser colhida de sete a dez dias após o início do rash cutâneo e deve ser repetida duas a três semanas depois. As culturas virais podem ser positivas de uma semana antes até duas semanas depois do rash. Diagnóstico fetal Poucas séries de casos publicadas mostraram bons resul- tados com o PCR para o vírus da rubéola em material fetal (biópsia de vilo corial, amniocentese). A ultrassonografia não é uma ferramenta muito confiável para afastar infecção em virtude da natureza das manifes- tações clínicas. Risco de transmissão vertical Risco de defeitos congênitos 80% no primeiro trimestre 25% no final do segundo trimestre 35% de 27 a 30 semanas Quase 100% com 36 semanas 90% antes de 11 semanas 33% de 11 a 12 semanas 11% de 13 a 14 semanas 24% de 15 a 16 semanas < 1% depois de 16 semanas 0% depois de 20 semanas Reinfecção 8% manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 170 20/06/2012 19:26:49 C A P Í T U L O 1 8 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 2 171 Risco de transmissão vertical Risco de defeitos congênitos 80% no primeiro trimestre 25% no final do segundo trimestre 35% de 27 a 30 semanas Quase 100% com 36 semanas 90% antes de 11 semanas 33% de 11 a 12 semanas 11% de 13 a 14 semanas 24% de 15 a 16 semanas < 1% depois de 16 semanas 0% depois de 20 semanas Reinfecção 8% Tratamento Não há tratamento. O aconselhamento sobre a condução da gestação e a investigação fetal dependem da idade ges- tacional. A interrupção da gestação é uma opção quando a infecção se dá no primeiro trimestre nos países em que não há restrição legal. Prevenção A vacinação não é recomendada durante a gravidez. As mulheres que pretendem engravidar devem ter seu estado sorológico investigado e receber a vacina caso não sejam imunes. Fluxograma de investigação de rubéola na gestação sorologia prévia suscetívelImune Ig M negativoIg M positivo Ig g positivo Ig g negativoDoença aguda manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 171 20/06/2012 19:26:49 Perinatal | Manual de Perinatologia 172 HEPATITE B A hepatite B é uma infecção viral que atinge o fígado, cau- sando tanto doença aguda quanto crônica. É transmitida pelo contato com sangue ou outras secreções de indiví- duos contaminados. Estima-se que no mundo dois bilhões de pessoas já tive- ram contato com o vírus e cerca de 350 milhões vivem com a forma crônica da doença, que tem alta morbimor- talidade por predispor à cirrose hepática e ao hepatocar- cinoma. A chance de evolução da hepatite B para a forma crônica é inversamente proporcional à idade no contágio. Cer- ca de 90% dos infectados no primeiro ano de vida irão desenvolvê-la. A transmissão perinatal tem importante participação nessa faixa etária e responde por 30% a 40% dos indivíduos com doença crônica nos EuA. Diagnóstico O diagnóstico da hepatite B é sorológico e o principal marcador é o antígeno de superfície do vírus (hBsAg). Este teste tem alta sensibilidade e especificidade. O rastreio de todas as gestantes é recomendado uma vez que a vacinação do recém-nato associada à administra- ção de imunoglobulina específica diminui significativa- mente o risco de transmissão vertical. A pesquisa do hbsAg deve ser solicitada na primeira consulta pré-natal. Pode ser considerada a vacinação durante a gestação para as mulheres sob risco contínuo de contágio. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 172 20/06/2012 19:26:49 C A P Í T U L O 1 8 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 2 173 Tratamento O tratamento para a hepatite B crônica em atividade consis- te na administração de interferon e antivirais. O interferon é contraindicado na gestação. Dentre os antivirais, a lamivu- dina e o tenofovir são considerados seguros. É indispensável o acompanhamento em conjunto com o infectologista ou hepatologista. Tratamento neonatal Os recém-natos de mães infectadas devem receber a va- cina para hepatite B e a imunoglobulina anti-hBV nas primeiras 12 horas após o nascimento. A imunoglobulina pode ser administrada até sete dias após o nascimento, para aqueles com mães hBsAg positivo desconhecido no momento do parto. Atualmente, a amamentação é considerada segura, pois não há diferença na transmissão vertical com ou sem aleitamento materno. Prevenção Aconselha-se profilaxia da doença ao se vacinar toda a população suscetível. A vacina contra hepatite B está liberada para uso na gestação. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 173 20/06/2012 19:26:49 Perinatal | Manual de Perinatologia 174 Fluxograma para avaliação pré-natal e conduta na hepatite B 1ª consulta pré-natal: hbsAg, anti-hbs gestante hBsAg – gestante hBsAg + Anti-hBsAg –Anti-hBs + Imune para hepatite B Considerar vacinação Avaliação laboratorial: Enzimas hepáticas, plaquetas, anti-hBc, anti-hBs, anti-hBe, hBeAg Acompanhamento pelo infectologista ou hepatologista Administração ao recém-nato de vacina para hepatite B e imu- noglobulina anti-hBV nas primeiras 12 h pós-parto manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 174 20/06/2012 19:26:50 C A P Í T U L O 1 8 | I N F E C Ç Õ E S C O N G Ê N I T A S 2 175 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 175 20/06/2012 19:26:50 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 176 20/06/2012 19:26:50 sANgRAMENTO NO TERCEIRO TRIMEsTRE CAPÍTuLO 19 Carolina Mocarzel de Carvalho DESCOLAMENTO PREMATURO DA PLACENTA (DPP) Trata-se da separação prematura da placenta normalmente implantada. Complica cerca de 1% dos nascimentos, e cerca de 80% dos casos de DPP ocorrem antes do trabalho de parto. Fatores de risco descolamento prematuro em gestação anterior: ■ maior determinante de risco: eleva o risco de DPP na gestação atual para 15 a 20 vezes; multiparidade; idade materna avançada; tabagismo; uso de cocaína; trauma; hipertensão materna; rotura prematura das membranas ovulares; gestação múltipla; polidramnia com rápida descompressão da cavidade uterina; trombofilias (hereditárias ou adquiridas); miomatose uterina, malformações uterinas; anomalias placentárias; sangramento no início da gravidez. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 177 20/06/2012 19:26:50 Perinatal | Manual de Perinatologia 178 Diagnóstico Manifestações clínicas: sangramento vaginal ou sangramento uterino oculto (10% a 20% dos DPP não exteriorizam sangramento); dor abdominal; contrações uterinas ou hipertonia; bradicardia fetal importante ou bcf inaudível; coagulação intravascular disseminada (CIVD), insuficiên- cia renal, histerectomia e morte; fragilidade e rotura das membranas; os casos de DPP crônicos estão associados a restrição do crescimento fetal. O risco para o feto está associado à gravidade do descola- mento e a idade gestacional em que ele ocorreu, enquanto o perigo para a mãe depende primariamente da gravidade do descolamento. Ultrassonografia Quando normal, não afasta DPP. No DPP agudo pode-se não detectar alterações ultrassonográficas ou identificar imagem hiperecoica a isoecoica, comparada à placenta. Em alguns casos, a placenta pode “balançar” quando se aplica uma pressão súbita com o transdutor. Mais tar- de, quando os hematomas se resolvem, o descolamento torna-se hipoecoico em uma semana e ecolucente dentro de duas semanas. Em outros casos, no entanto, observa- -se apenas uma placenta heterogênea e espessada. A ultrassonografia é importante para o diagnóstico de óbito fetal. Cardiotocografia Padrão não reativo ou bradicardia fetal importante. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 178 20/06/2012 19:26:50 C A P Í T U L O 1 9 | S A N G R A M E N T O N O T E R C E I R O T R I M E S T R E 179 Conduta Depende da apresentação, da idade gestacional e do grau de comprometimento materno fetal. É importante individualizar caso a caso. O manejo mais agressivo, de- sejável nos casos de descolamento grave, pode não ser apropriado nos casos mais leves. De forma didática, pode-se ter três cenários frente a um DPP: Cenário 1 DPP grave com morte fetal Razoável permitir que a paciente tenha um parto vaginal, desde que a condição materna permita e não haja outra contraindicação. Caracteristicamente o útero se contrai de forma vigorosa e a evolução do trabalho de parto é rápida. A amniotomia acelera o parto. Quando o trabalho de parto não evolui rapidamente é indi- cada cesariana devido aos riscos de coagulopatia e choque hipovolêmico. Cenário 2 DPP no termo ou próximo ao termo com feto vivo Parto cesáreo imediato é indicado. Nos casos em que o parto transpélvico é iminente, sem evidências de gravidade materna e fetal, este pode ser con- siderado. Muita cautela nessa conduta, pois um descola- mento total com óbito fetal pode ocorrer sem aviso prévio. sempre acompanhar o bem-estar fetal. Cenário 3 DDP parcial em idades gestacionais iniciais (20 a 34 semanas) e feto vivo Tendo em vista que o parto pré-termo é a principal causa de morte neonatal nos casos de prematuridade extrema deve-se avaliar o contexto clínico e, se possível, prolongar a gestação. Os pré-requisitos para o manejo conservador são: bem-es- tar fetal confirmado após monitorização adequada, avalia- ção laboratorial materna normal e quadro de sangramento pequeno. É indicada hospitalização e monitorização materna e fetal prolongada associada à administração de corticoide para maturação pulmonar fetal. Qualquer evidência de riscos para a mãe ou para o feto indica a interrupção da gestação. Ultrassonografias seriadas devem ser realizadas para ava- liação da progressão da área de descolamento. Rotina la- boratorial materna para acompanhar possíveis quedas no hematócrito/hemoglobina e excluir CIVD (importante ava- liar o nível de fibrinogênio). A paciente deve ser orientada quanto aos riscos e aos be- nefícios da conduta conservadora. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 179 20/06/2012 19:26:51 Perinatal | Manual de Perinatologia 180 uma vez realizado o diagnóstico de DPP, precauções devem ser tomadas com o intuito de minimizar as situações de risco para o feto e para a mãe. Essas medidas devem ser tidas como rotinas em todos os serviços no momento da admissão da paciente. Rotina para minimizar as situações de risco Realizar imediata internação da paciente e contato com centro cirúrgico/obstétrico para que a sala de cirurgia seja providenciada, bem como a equipe de neonatologistas prontamente comunicada. Instalação de acesso venoso calibroso. Coleta de sangue materno para realização de tipagem sanguínea, fator Rh, prova cruzada (tendo em vista a possibilidade de hemotransfusão), hemograma completo, coagulograma e fibrinogênio (risco de coagulação intravascular disseminada). Reserva de sangue e derivados. OBS.: Aproximadamente 8% das pacientes podem apresentar útero de Courvelaire. A administração de uterotônicos (ocitocina venosa/nos cornos uterinos, metilergonovina intramuscular/venosa, misoprostol retal/ sublingual) está associada à melhora do quadro clínico, porém, na ausência de resposta, a histerectomia está indicada. PLACENTA PRÉVIA É caracterizada pela presença de tecido placentário próximo ou cobrindo o orifício interno (OI) do colo uterino. Condição que complica 0,3% a 0,5% das gestações. Classificação (1) Placenta prévia completa: placenta cobre completa- mente o OI. (2) Placenta prévia parcial: placenta cobre parcialmente o OI. (3) Placenta prévia marginal: placenta chega ao OI, mas não o cobre. Esse termo deve ser utilizado quando a distância da borda placentária ao OI é de 2,5 cm ou menos. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 180 20/06/2012 19:26:51 C A P Í T U L O 1 9 | S A N G R A M E N T O N O T E R C E I R O T R I M E S T R E 181 Fatores de risco Multiparidade; Idade materna avançada; Tabagismo; gestações Múltiplas; história anterior de placenta prévia; Curetagens prévias; Cesariana anterior; Residência em local de altas altitudes. Riscos associados sangramento anteparto; Necessidade de histerectomia; Aderência mórbida da placenta; hemorragia intraparto; hemorragia pós-parto; Transfusão sanguínea; sepse; Tromboflebite; Nascimentos pré-termo; Aumento da morbidade e mortalidade perinatais. Diagnóstico A apresentação clássica da PP é um sangramento indolor no final do segundo trimestre ou no início do terceiro. Contudo, algumas pacientes apresentarão hemorragia do- lorosa, possivelmente em consequência das contrações uterinas ou da separação placentária. Ultrassonografia: método de escolha para confirmação do diagnóstico de PP. É seguro, não tendo sido observada as- sociação com hemorragia devido ao seu uso. É importante avaliar a localização placentária no exame de rotina realizado com 20 semanas, porém somente a partir de 28 semanas podemos fechar o diagnóstico de PP. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 181 20/06/2012 19:26:51 Perinatal | Manual de Perinatologia 182 Atenção especial deve ser dada às pacientes com cesariana prévia e placenta anterior localizada próximo ao OI na ges- tação atual, pois estas possuem três problemas a serem ex- cluídos: placenta prévia (PP), placenta acreta (PA) e PP/PA implantadas na cicatriz da cirurgia anterior. As três condi- ções são de risco e merecem cuidadoso acompanhamento. Conduta A ocorrência de sangramento requer hospitalização e imediata avaliação do bem-estar materno e fetal. E ainda: Instalação de hidratação venosa com acesso venoso cali- broso. Exames laboratoriais: hemograma completo, tipagem san- guínea, coombs indireto, coagulograma. Monitorização fetal. uma vez estabilizado o sangramento, a paciente deve ser man- tida internada, em repouso no leito. Nos casos de gestações com menos de 34 semanas, principalmente nos casos de san- gramento intenso, deve-se considerar a administração de cor- ticoide. A avaliação do hematócrito materno após o(s) episódio(s) de sangramento é de suma importância, pois, em alguns casos, há necessidade de transfusão sanguínea. Na ausência de indicação do uso de hemoderivados, recomenda-sea pres- crição de sulfato ferroso e ácido fólico. As pacientes Rh negativo não sensibilizadas devem receber imunoglobulina anti-Rh quando houver sangramento. Pacientes assintomáticas ou aquelas com pequeno sangra- mento com resolução espontânea em período menor ou igual a sete dias são potenciais candidatas ao regime domiciliar desde que tenham boa aderência ao acompanhamento, en- tendam os riscos associados à placenta prévia, residam a 15 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 182 20/06/2012 19:26:51 C A P Í T U L O 1 9 | S A N G R A M E N T O N O T E R C E I R O T R I M E S T R E 183 minutos do hospital e haja disponibilidade de transporte 24 horas por dia. Pacientes manejadas em casa devem estar cientes do risco de sangramento. O parto Orientar a paciente e seus familiares mais próximos da indicação da via de parto, do risco de hemotransfusão e histerectomia. A via de parto deve ser baseada no julga- mento clínico associado às informações obtidas através da ultrassonografia transvaginal. Na presença de PP total ou parcial a via de parto é sempre a cesariana. Na presença de PP marginal (borda placentária distando menos que 2 cm do OI no terceiro trimestre) é indicada cesariana. Nos casos cuja distância do OI seja de 2 cm a 3 cm, o parto vaginal pode ser considerado, porém, precauções devem ser tomadas devido ao risco de uma cesariana de urgência. O parto através de cesariana eletiva em mulheres com PP assintomáticas não é recomendado antes de 38 se- manas. Da mesma forma que, nos casos com suspeita de acretismo placentário, deve ser planejado por volta de 36-37 semanas e não antes. Preparações para o parto Consentimento informado considerando os riscos de hemotransfusão e histerectomia. Reserva de san- gue e derivados (concentrado de hemácias, plasma fresco e criopreciptado). sala ampla que permita a circulação dos membros da equipe. Bandeja de parto preparada para histerectomia. Definir plano cirúrgico com a equipe da obstetrícia: Local da histerotomia (tentativa de realizar longe da placenta). Avaliar se local na histerotomia dificultará a extração do feto. Nos casos de placenta anterior, prever dificuldades da extração transplacentária. Estar ciente da possibilidade de acretismo. Rever os passos da histerectomia de urgência (se necessário). Definir plano cirúrgico com a equipe da anestesia. Definir plano cirúrgico com a equipe da pediatria. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 183 20/06/2012 19:26:51 Perinatal | Manual de Perinatologia 184 Fluxograma de avaliação de placenta prévia * Regime domiciliar desde que tenham boa aderência ao acompanhamento, entendam os riscos associados à placenta prévia, residam a 15 minutos do hospital e haja disponibilidade de transporte 24 horas por dia. ** Nos casos cuja distância do OI seja de 2 cm a 3 cm, o parto vaginal pode ser considerado, porém, precauções devem ser tomadas devido ao risco de uma cesariana de urgência. *** Considerar a administração de corticoide. 20 semanas: Rastreamento com USTV Sangramento Vitalidade fetal AlteradaNormal Sangramento Cesariana CesarianaDomiciliar* - Hospitalização até o parto - Repor perdas - Imunoglobulina se Rh negativo - Controle se < 34 semanas*** GraveModeradoLeve ou com resolução em 7 dias SIM Não Cesariana eletiva nos casos de PP total ou parcial** - avaliar internação e repor perdas - hemograma completo - TS, fator Rh e Coombs indireto - avaliação fetal 28 semanas: Diagnóstico e classificação manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 184 22/06/2012 14:07:33 C A P Í T U L O 1 9 | S A N G R A M E N T O N O T E R C E I R O T R I M E S T R E 185 ACRETISMO PLACENTáRIO Trata-se da placenta que se adere anormalmente ao útero. É importante que o diagnóstico seja feito no período pré-natal para permitir o manejo efetivo, minimizando a morbidade. A incidência vem aumentando ao longo dos anos em virtude do aumento do número de partos cesáreos. Risco aumen- tado com a presença de placenta prévia na gestação atual. Classificação (1) Placenta acreta: invasão trofoblástica além do limite normal, estabelecido pela camada fibrinoide de Nitabuch; (2) Placenta increta: placenta invade o miométrio; (3) Placenta percreta: invade o miométrio, serosa, e algu- mas vezes invade órgãos adjacentes, como a bexiga. Fatores de risco suspeitar de acretismo placentário nas mulheres com pla- centa prévia e uma história de cesariana ou outras cirurgias uterinas. A vigilância é particularmente indicada quando a placenta é anterior ou recobre a cicatriz da cesariana. Riscos associados hemorragia obstétrica maciça, coagulação intravascular disseminada, necessidade de histerectomia, lesão cirúrgica de ureteres, da bexiga ou de outras vísceras, síndrome do desconforto respiratório agudo, insuficiência renal e morte. Diagnóstico A ultrassonografia ainda é o método de escolha para o diagnóstico. A ressonância nuclear magnética pode ter um papel au- xiliar para avaliação dos casos. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 185 20/06/2012 19:26:51 Perinatal | Manual de Perinatologia 186 Conduta É, idealmente, tratada pela histectomia total abdominal. A placenta não deve ser manipulada, pois há associação com hemorragia maciça. Realizar cirurgia com preparo ade- quado (equipe bem treinada, reserva de hemoderivados, anestesistas experientes, hospital com infraestrutura). Tratamentos alternativos: os procedimentos adjuvantes en- volvem embolização das artérias ilíacas internas, tratamento com metotrexato, ressecção do segmento uterino afetado, uso de suturas de compressão uterina e sutura do leito pla- centário. Tais propostas de manejo acentuam o risco de in- fecção intrauterina, que pode ser potencialmente fatal. Achados ultrassonográficos Presença de lacunas com formatos irregulares (espaços vasculares). Placenta com aspecto de “queijo suíço” ou “saca bocado”. Afinamento do miométrio coberto pela placenta. Perda do “espaço claro” retroplacentário. Protusão da placenta para bexiga. Fluxo sanguíneo com turbulhonamento através de lacunas (avaliação pelo Doppler). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 186 20/06/2012 19:26:51 C A P Í T U L O 1 9 | S A N G R A M E N T O N O T E R C E I R O T R I M E S T R E 187 VASA PRÉVIA Presença de vasos umbilicais não protegidos pela placenta ou pelo cordão umbilical, que cruzam a membrana sobre a cérvice e sob a apresentação fetal. Em geral, essa condição resulta da inserção velamentosa do cordão para o interior das membranas em vez de inserir-se na placenta ou de vasos que correm entre os lobos da placenta com um ou mais lobos acessórios. Fatores de risco Implantação baixa da placenta no segundo trimestre (mesmo quando essa implantação ou a placenta prévia “se resolvem” no terceiro trimestre). gestações cuja placenta tem lobos acessórios. gestações múltiplas ou resultantes de fertilização in vitro. Riscos associados Exsanguinação e morte fetal. Diagnóstico Na presença de um sangramento atípico durante um trabalho de parto e, principalmente, após amniotomia deve-se avaliar a presença de comprometimento fetal agudo. Todo esse pro- cesso deve ser feito em curto período de tempo, pois, quanto maior o tempo entre o diagnóstico de vasa prévia e a interrup- ção da gestação, maior a perda sanguínea fetal. A ressonância nuclear magnética, a amnioscopia e palpação digital dos vasos durante toque vaginal são outras maneiras descritas para o diagnóstico antenatal da vasa prévia. A maior parte dos diagnósticos pré-natais é realizada inciden- talmente durante usTV para avaliação de implantação baixa de placenta. Cabe ressaltar que,se durante ultrassonografia de rotina no segundo trimestre, a inserção placentária do cordão umbilical for estudada, a vasa prévia pode ser suspeitada. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 187 20/06/2012 19:26:52 Perinatal | Manual de Perinatologia 188 Até o momento não há recomendações quanto a um programa de rastreamento para placenta prévia em todas as pacientes. Conduta Nos casos de vasa prévia diagnosticados no segundo trimes- tre, a avalição através de ultrassonografia transvaginal deve ser repetida para confirmar a persistência da vasa prévia. Frente à confirmação, deve ser realizada cesariana eletiva antes que a paciente entre em trabalho de parto ou ocorra amniorrexe prematura. Frente a um diagnóstico antenatal de vasa prévia, deve ser considerada a administração de corticoide por volta de 28 a 32 semanas, visando à maturação pulmonar fetal. A hos- pitalização por volta de 30 a 32 semanas com objetivo de manter a paciente em ambiente com maior suporte no caso de sangramento inesperado é outra abordagem mencionada em alguns guidelines recentes. há relatos na literatura de coagulação a laser dos vasos da vasa prévia – proposta ainda experimental e sem cunho prá- tico na obstetrícia do dia a dia. gestante apresentando sangramento importante com indicação de cesariana de urgência Acesso venoso calibroso Coleta as sangue materno Avaliação do bem- estar fetal Contato com banco de sangue Definir plano cirúrgico com equipe obstétrica Comunicar com equipe da anestesia Comunicar equipe da pediatria Rápida internação Ressuscitação volêmica manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 188 20/06/2012 19:26:52 C A P Í T U L O 1 9 | S A N G R A M E N T O N O T E R C E I R O T R I M E S T R E 189 sangramento importante na segunda metade da gestação Definir etiologia. Importante sempre pensar em: Atenção aos riscos de coagulação intravascular disseminada e útero de Courvelaire. Cesariana de urgência Cesariana de urgência Avaliar idade gestacional. hemodinâmica materna, bem-estar fetal e persistência do sangramento No caso de: - Gestação final do terceiro trimestre - Instabilidade hemodinâmica materna - Persistência de sangramento importante - Evidências de sofrimento fetal Cesariana de urgência Considerar conduta conservadora nos casos de prematuridade extrema, estabilidade hemodinâmica materna, interrupção do sangramento e confirmação do bem-estar fetal. Manter paciente internada. Administração de corticoide. Avaliação dos parâmetros hematológicos maternos. Descolamento prematuro de placenta Vasa prévia Placenta prévia manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 189 20/06/2012 19:26:52 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 190 20/06/2012 19:26:52 gEsTAÇÃO gEMELAR CAPÍTuLO 20 Carolina Mocarzel de Carvalho A presença simultânea de dois fetos no útero materno define a gestação gemelar ou dupla. FATORES DE RISCO (1) Raça: em mulheres brancas a taxa de dizigóticos é de 1/100 gestações, em ne- gras, 1/80, e entre asiáticas, 1/155. (2) Idade materna: aumento da frequência de gêmeos dizigóticos com o avançar da idade materna. Após 37 anos, a taxa é decrescente como resultado da redução da produção hormonal. (3) Paridade: o aumento da paridade aumenta a frequência de gestações gemelares. (4) Tratamento de infertilidade: o uso de agentes indutores de ovulação aumenta a chance de ovulação múltipla e, consequentemente, a de gestação múltipla. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 191 20/06/2012 19:26:52 Perinatal | Manual de Perinatologia 192 Riscos maternos associados Anemia Diabetes gestacional Distúrbios hipertensivos Riscos fetais associados Aumento da incidência de malformações congênitas, pla- centação anormal, desordens do líquido amniótico, cresci- mento discordante entre os gêmeos e prematuridade. Na primeira metade da gestação, há aumento da chance de perda fetal única (the vanishing twin). Já no terceiro trimes- tre, há risco aumentado de crescimento intrauterino restrito (CIuR), de óbito fetal e parto prematuro quando comparado a gestações de fetos únicos. Mesmo com a diminuição da taxa de mortalidade das gesta- ções multifetais, estas permanecem elevadas quando compa- radas às com fetos únicos com a mesma idade gestacional. TIPOS DE GESTAÇÕES GEMELARES Podem ser dicoriônicas ou monocoriônicas. gêmeos dizigó- ticos (DZ) ocorrem quando há fertilização de dois óvulos separados. Em contrapartida, quando há fertilização de um único óvulo que posteriormente se divide, originam-se os gêmeos monozigóticos (MZ). A gestação DZ é sempre dicoriônica (DC) e diamniótica (DA). Na gestação MZ, o período em que ocorreu a divi- são após a fecundação determina o resultado do processo. sendo assim, quando esta ocorre nas primeiras 72 horas a gestação será DC e DA, se ocorre entre quatro e oito dias, monocoriônica (MC) e DA e, por fim, se entre oito e 12 dias, MC e monoamniótica (MA). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 192 20/06/2012 19:26:53 C A P Í T U L O 2 0 | G E S T A Ç Ã O G E M E L A R 193 DIAGNÓSTICO DA CORIONICIDADE A ultrassonografia auxilia bastante no diagnóstico do tipo de gestação gemelar. A partir de dez semanas pode ser fei- ta uma avaliação com segurança e a identificação precisa do número de sacos gestacionais, vesícula(s) vitelínicas(s), membrana amniótica e embriões. Na gestação dicoriônica há sempre dois sacos gestacionais, ao passo que, na mono- coriônica, há apenas um único saco gestacional. Nas gestações MC monoamnióticas possuem somente uma vesícula vitelínica e as MC diamnióticas possuem duas ve- sículas vitelínicas. sinal do Twin peak sign é uma projeção triangular do cório que se estende entre as duas camadas do âmnio, sinal do λ diagnosticando a gestação DC. Na MC em que a orientação do âmnio se dá em “T ou ⟘”. O PRÉ-NATAL NA GESTAÇÃO GEMELAR O diagnóstico precoce da gestação gemelar, bem como a corionicidade da mesma são dados fundamentais para a boa condução do pré-natal. Os centros que se propõem a conduzir as gestações gemelares devem ter fácil aces- so a ultrassonografia, amplo conhecimento das possíveis complicações que envolvem essas gestações e equipe de neonatologia bem treinada tendo em vista o maior risco de prematuridade. Ultrassonografia no primeiro trimestre: O risco de abor- tamentos e de malformações, particularmente a anen- cefalia e os defeitos cardíacos congênitos, é maior nas gestações gemelares quando comparado às gestações únicas. Como na gestação única, entre 11 semanas e 13 semanas + seis dias, realizamos o rastreio para aneuploi- dias do primeiro trimestre que consiste na avaliação da manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 193 20/06/2012 19:26:53 Perinatal | Manual de Perinatologia 194 translucência nucal, osso nasal e ducto venoso. O scre- ening através da bioquímica materna (PAPP-A e BhCg) tem pouco valor nas gestações gemelares. Aconselhamento genético: Não tem particularidades quando o quesito é idade materna: o avançar da idade aumenta tanto a prevalência de gestação gemelar quanto de aneuploidias fetais. No entanto, nas gestações mono- zigóticas os fetos têm o mesmo cariótipo e o risco rela- cionado à idade materna é o mesmo que para gestação única. Entretanto, para as dizigóticas o risco é dobrado. há alguns detalhes que merecem ser mencionados nos ca- sos de procedimento invasivo nas gestações múltiplas. Em tese, nas gestações MC, uma única punção seria necessária para fazer o diagnóstico de alterações genéticas. No entan- to, embora bastante rara, a não disjunção pós-meióticados cromossomos pode ocorrer, e isso justificaria a punção das duas cavidades amnióticas mesmo nas gestações sabida- mente MC. Nas gestações dicoriônicas diamnióticas, cada feto merece um estudo em separado (duas punções realiza- das, obrigatoriamente). Ultrassonografia nos segundo e terceiro trimestres: Após 16 semanas as MC são reavaliadas de duas em duas se- manas e as DC, a partir da segunda metade da gestação, seguem esse mesmo perfil de acompanhamento. A ocor- rência de alguma intercorrência materna ou fetal pode alterar esse intervalo. O estudo morfológico é realizado, preferencialmente, com 24 semanas. Nesse momento, realizamos como rotina a medida do comprimento do colo uterino via transvaginal. Medidas menores que 25 mm estão associadas ao aumento de risco de prematuridade. A ultrassonografia anteparto é importante para avaliação dos pesos fetais, para o acompanhamento do crescimento dos manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 194 20/06/2012 19:26:53 C A P Í T U L O 2 0 | G E S T A Ç Ã O G E M E L A R 195 fetos e definição da apresentação dos fetos, o que pode in- terferir na escolha da via de parto. Dopplervelocitometria na gestação gemelar: A Dopplerve- locitometria das artérias uterinas é realizada seguindo o mesmo protocolo das gestações únicas. Como rotina, a partir do segundo trimestre, a Dopplervelocitometria de artéria umbilical é realizada em todos as avaliações fetais. Prevenção e/ou tratamento do trabalho de parto prematu- ro: A avaliação rotineira do comprimento do colo uterino via transvaginal é no momento da realização do exame morfológico. A valorização das queixas referentes a aumentos de tônus uterino e o exame clínico frequente são fundamentais nes- sas pacientes. Ainda não é consenso o uso rotineiro de corticoide para ace- leração da maturidade pulmonar fetal entre 28 e 34 sema- nas de gestação, exceto se houver risco de parto prematuro. O PARTO NA GESTAÇÃO GEMELAR O trabalho de parto e o parto na gestação gemelar apre- sentam maior incidência de complicações perinatais, den- tre elas: trabalho de parto prematuro, ruptura prematura de membranas ovulares, discinesias uterinas, distocias posi- cionais, prolapso de cordão umbilical, descolamento pre- maturo de placenta, atonia uterina, hemorragia pós-parto e morte fetal intraútero. A indicação de cesariana nas gestações monoamnióticas é bem estabelecida. Prolapso ou enovelamento de cordões e colisão de partes fetais são complicações relacionadas a es- sas gestações. A interrupção da gestação se dá, na maior parte das instituições, por cesariana eletiva ao ser atingida a maturidade pulmonar (32-34 semanas). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 195 20/06/2012 19:26:54 Perinatal | Manual de Perinatologia 196 Atualmente, a escolha da via de parto na gestação gemelar diamniótica não complicada é assunto bastante controver- so. Não há, na literatura atual, respaldo para a indicação da via alta em todos os casos de gestação gemelar. A apresen- tação dos fetos é o parâmetro mais importante atualmente utilizado para determinar a via de parto. Quando ambos os fetos são cefálicos, há maior associação com sucesso do parto vaginal. A segurança desta via nes- tes casos é bem relatada na literatura e, na ausência de contraindicações, o parto normal ainda é a via preferencial. Cabe ressaltar que, durante o acompanhamento de um tra- balho de parto de gestação gemelar é importante ter acesso fácil e rápido a sala de cesariana. se o primeiro feto está em apresentação cefálica e o se- gundo não, a via de parto é bastante discutível. O parto vaginal do segundo gemelar, nestes casos, frequentemente requer manobras obstétricas mais arrojadas aumentando a incidência de complicações como sofrimento fetal agudo, descolamento de placenta e prolapso de cordão umbilical. COMPLICAÇÕES ESPECÍFICAS DAS GESTAÇÕES GEMELARES I) Gêmeo Acárdico (Twin Reversed Arterial Perfusion -TRAP) Envolve a perfusão arterial reversa ou retrógrada em um dos fetos que acaba recebendo sangue pela artéria um- bilical. O aporte sanguíneo oriundo da artéria umbilical é pobre em oxigênio, o que leva a prejuízo no desenvol- vimento do feto que recebe esse sangue, denominado ‘feto acárdico’ (pode ter ausência da cabeça e/ou do co- ração e/ou dos membros superiores). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 196 20/06/2012 19:26:56 C A P Í T U L O 2 0 | G E S T A Ç Ã O G E M E L A R 197 O outro gemelar, denominado “feto bomba”, em geral é anatomicamente normal, porém, fica exposto a uma so- brecarga cardíaca ao promover suporte circulatório para o feto acárdico. Essa alteração hemodinâmica o coloca em alto risco para desenvolvimento de falência cardíaca e polidramnia. A taxa de mortalidade do “feto bomba” na ausência de tratamento é de 50%-70%. A intervenção visa evitar a deteriorização cardíaca do ‘fetos bomba’ e postergar seu nascimento para uma idade gesta- cional com maturidade pulmonar. O objetivo é obliterar o fluxo sanguíneo do feto acárdico. Ligadura do cordão umbi- lical por via endoscópica, coagulação a laser do cordão do feto acárdico e termocoagulação dos vasos intra-abdomi- nais do feto acárdico são alguns exemplos de tratamentos descritos na literatura. Até o presente momento não há uma conduta intervencionista padrão ouro para essa com- plicação das gestações monocoriônicas. II) Síndrome de Transfusão Feto Fetal (STFF) Condição que ocorre nas gestações MC diamnióticas, em função da presença de anastomoses transplacentárias entre a circulação de fetos, principalmente artério-venosas, com desequilíbrio da transfusão sanguínea em favor de um deles. O feto doador torna-se anêmico e o receptor policitêmico. Os casos mais graves têm alta taxa de mortalidade (60% a 100%) para ambos os fetos. O diagnóstico ultrassonográfico da sequência polidram- nia/oligodramnia é o dado mais importante no diagnós- tico, deixando em papel secundário a discordância dos pesos fetais e os níveis de hemoglobina. A fetoscopia com coagulação a laser das anastomoses placentárias é o tratamento de escolha. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 197 20/06/2012 19:26:56 Perinatal | Manual de Perinatologia 198 A interrupção da gestação deve ser realizada através de cesariana eletiva, em centro terciário, ao completar 34 semanas de gestação. III) Óbito de um dos gemelares Quando o óbito se dá no início da gestação, a absorção do feto morto ocorre, no geral, sem problemas. Quando este ocorre na segunda metade da gestação, a conduta depende basicamente da corionicidade, sendo o prognóstico mais reservado nas gestações MC. O risco de complicações maternas relacionadas à coagu- lação intravascular disseminada parece ser baixo. Não há um protocolo definido quanto ao intervalo para solicitação do coagulograma e dosagem de fibrinogênio, porém, é re- comendável que periodicamente esses exames sejam soli- citados. Frente ao acompanhamento desses casos, é imperioso que todas as decisões sejam divididas com a paciente e seus familiares. Manejo das gestações MC: a avaliação de órgãos nobres, principalmente o sistema nervoso central, através da res- sonância nuclear magnética, pode ser realizada como propedêutica para o feto sobrevivente após duas-três se- manas do diagnóstico do óbito do outro feto. Avaliação fetal semanal e interrupção da gestação com 36 sema- nas através de cesariana eletiva em centro terciário devi- do aos riscos da prematuridade. O prognóstico depende do tempo ocorrido e da causa do óbito do outro gemelar, do grau de compartilhamento da circulação fetal e da idade gestacional. Metade dos monocoriônicos apresenta anemia quando o óbito se dá após o segundo trimestre. Manejo das gestações DC: a atenta monitorizaçãofetal através de avaliação semanal é fundamental. Na ausên- manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 198 20/06/2012 19:26:56 C A P Í T U L O 2 0 | G E S T A Ç Ã O G E M E L A R 199 cia de complicações maternas, pode-se conduzir a gesta- ção até 38 semanas. IV) Amniorrexe prematura em um dos gemelares Até o momento, permanecem válidas as condutas preconi- zadas para a amniorrexe na gestação única quando, na au- sência de processo infecioso, a conduta expectante deverá ser realizada até 32 semanas (interrupção após completar 32 semanas e esquema completo de corticoide). Nos casos de amniorrexe após 34 semanas, procede-se à interrupção imediata da gestação. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 199 20/06/2012 19:26:57 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 200 20/06/2012 19:26:57 DOENÇA hEMOLÍTICA PERINATAL CAPÍTuLO 21 Ana Elisa Baião A Doença hemolítica Perinatal (DhPN) é caracterizada por anemia hemolítica fetal devida a aloimunização materna a antígenos presentes na membrana das hemácias fetais herdados do pai. O antígeno mais frequentemente envolvido nesta condição é o antígeno D, cuja presença ou ausência determina o fator Rh do san- gue. Assim, mulheres Rh negativo previamente expostas ao antígeno D produzem anticorpos que cruzam a barreira placentária e aderem às hemácias Rh positivas do feto, provocando hemólise e anemia progressiva que pode levar à morte. Vários outros antígenos podem mais raramente ser a causa da doença, com níveis de gravidade variável, isoladamente ou associados ao antígeno D. PREVENÇÃO Até a década de 1960, a DhPN era causa importante de morbimortalidade perina- tal. Desde então, com o advento da profilaxia com a imunoglobulina anti-D, essa doença teve sua incidência bastante diminuída. A profilaxia baseia-se em fornecer anticorpos que vão aderir às hemácias fetais que entram na corrente sanguínea materna, no momento no parto principalmente, antes que o sistema imunológico materno reconheça o antígeno estranho e se sensibilize. A administração de 250 µg a 300 µg de imunoglobulina anti-D até 72 horas pós-parto é o padrão em todo o mundo. Doses maiores podem ser necessárias nos casos em que o volume de sangue fetal extravasado no sangue materno seja maior que o habitual. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 201 20/06/2012 19:26:57 Perinatal | Manual de Perinatologia 202 Cerca de 2% das aloimunizações acontecem durante a gra- videz, principalmente no terceiro trimestre, quando há a possibilidade crescente de contato do sangue fetal com o materno. Por esse motivo, atualmente também é recomen- dada a imunoprofilaxia durante a gestação, na mesma dose da utilizada pós-parto, entre 28 a 32 semanas. Outras indicações para a profilaxia são: abortamento de primeiro trimestre; gestação ectópica; procedimentos invasivos na gestação. DIAGNÓSTICO O diagnóstico da aloimunização materna se faz através da pesquisa de anticorpos irregulares no sangue, exame conheci- do como Teste de Coombs indireto. Esse teste deve ser solici- tado na primeira consulta pré-natal de todas as gestantes Rh negativo, independentemente do histórico obstétrico. Caso positivo, os anticorpos devem ser identificados e titulados. Quando o título é menor que 16, deve-se acompanhar a titulação a cada quatro semanas até 24 semanas de gesta- ção e a partir daí a cada duas semanas até o parto. se o título é maior ou igual a 16, deve-se indicar o acom- panhamento fetal com ultrassonografia e Dopplerfluxome- tria da artéria cerebral média (ACM). A cordocentese, co- leta de sangue fetal do cordão umbilical, será indicada, de acordo com gravidade do quadro. Dopplervelocimetria da artéria cerebral média A diminuição da viscosidade do sangue na presença de anemia grave faz com que a velocidade sistólica máxima (VSM) do fluxo sanguíneo fique aumentada. A artéria cerebral média é o vaso que tem melhor correlação entre o Doppler e a anemia fetal. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 202 20/06/2012 19:26:57 C A P Í T U L O 2 1 | D O E N Ç A H E M O L Í T I C A P E R I N A T A L 203 A velocidade sistólica máxima acima de 1,5 múltiplo da me- diana (MoM) para a idade gestacional sugere anemia fetal grave e indica investigação fetal invasiva. O seguimento com o Doppler da ACM será feito a cada uma a três semanas até 35 semanas, quando seu valor preditivo diminui. Cordocentese A cordocentese é a punção do cordão umbilical, via utiliza- da para coleta de sangue para exames e para hemotransfu- são intrauterina. É indicada nas seguintes situações: Fetos com sinais ultrassonográficos de pré-hidropisia (ar- redondamento do bordo hepático, espessamento placen- tário, polidramnia). sinais de hidropisia. Pico de Velocidade Máxima da ACM ≥ 1,5 MoM para a idade gestacional. Histórico obstétrico Antecedentes obstétricos de gravidade (nati ou neomorta- lidade por DhPN, hidropisia prévia, exsanguineotransfu- são, transfusão intrauterina) são bons preditores de doença grave na gestação atual, indicam acompanhamento mais amiúde com o Doppler de ACM, e devem ser levados em consideração ao avaliar a oportunidade da propedêutica invasiva. Tipagem sanguínea e genotipagem paterna O tipo sanguíneo e fator Rh do pai deve ser sempre solicita- dos em caso de gestante Rh negativo. O estudo do fenótipo – antígenos expressados nas hemácias paternas – associando raça e histórico de filhos anteriores, permite supor com graus variáveis de certeza a genotipagem manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 203 20/06/2012 19:26:57 Perinatal | Manual de Perinatologia 204 paterna, ou seja, se ele é homozigoto ou heterozigoto para o antígeno D. Tipagem sanguínea fetal A tipagem sanguínea do feto pode ser obtida por técnicas de biologia molecular através da coleta de líquido amniótico por amniocentese a partir de 15 semanas. Atualmente, também é possível obter o tipo de sangue fetal pelo DNA livre no san- gue materno. Quando se detecta que o feto é Rh negativo, pode-se encerrar a investigação para a doença hemolítica. Transfusão intraútero (TIU) Atualmente a via intravascular é preconizada para a admi- nistração de sangue para o feto, salvo algumas exceções. Na suspeita de anemia fetal grave ou hidropisia fetal, será realizada a cordocentese com coleta de amostra de sangue fetal, em que serão analisados tipagem sanguínea do feto, teste de Coombs direto (pesquisa de anticorpos anti-D ade- ridos às hemácias), hematócrito, hemoglobina e plaquetas. A hemotransfusão está indicada quando o hematócrito é menor que 30% (hemoglobina abaixo de 10 mg/dL). O san- gue transfundido deve ser fresco (colhido até cinco dias), 0 negativo, testado para doenças hemotransmissíveis, in- clusive citomegalovírus, deleucocitado e irradiado. Deve ser realizada prova cruzada com o sangue materno para evitar sensibilização a outros anticorpos irregulares. O volume transfundido é calculado, com base no peso fetal e idade gestacional, para elevar o hematócrito fetal até 45%-50%. As transfusões subsequentes ocorrerão em intervalos de duas a três semanas, até o parto. Deve ser prescrita a corticoterapia com betametasona na ocasião da indicação da primeira investigação invasiva, quando acima de 24 semanas. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 204 20/06/2012 19:26:57 C A P Í T U L O 2 1 | D O E N Ç A H E M O L Í T I C A P E R I N A T A L 205 COMPLICAÇÕES A complicação mais frequente da TIu é a bradicardia fetal, podendo haver indicação de parto cesáreo de urgência caso persistente. O risco de morte fetal associado ao procedi- mento é de 1% a 2%, e o risco de complicações, tais como hemorragia fetal, infecção e trauma, é de 3%. PROGRAMAÇÃO E VIA DE PARTO A idadegestacional de 36 a 38 semanas é a ideal para o término da gestação, de acordo com a gravidade do caso. A última TIu deve ser realizada entre 33 e 34 semanas, com o parto de uma a duas semanas depois. A via de parto transpélvica não está contraindicada para os casos de melhor prognóstico, respeitando-se as condições obstétricas, sempre com monitoração fetal contínua. No entanto, a cesariana eletiva pode facilitar em alguns con- textos a programação da assistência neonatal, com acesso a uma equipe de neonatologistas preparados para receber o concepto em condições ideais (equipamentos, reserva de sangue, vaga em uTI neonatal). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 205 20/06/2012 19:26:57 Perinatal | Manual de Perinatologia 206 Fluxograma de acompanhamento na aloimunização Rh gestante Rh negativo Coombs indireto (Cl) Cl positivo VsM < 1,5 MoM sem hidropisia fetal Parto com 38 semanas Tipagem sanguínea fetal biologia molecular Encerrar acompanhamento Título < 16 Feto Rh +Título > 16 Feto Rh – Acompanhamento com Doppler de ACM e usg a cada 1-3 semanas VsM ACM > 1,5 MoM e/ou hidropisia fetal Cordocentese Transfusão intraútero Última TIu com 32-34 semanas Parto com 34-36 semanas Cl mensal até 24 semanas; quinzenal até o parto manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 206 20/06/2012 19:26:58 C A P Í T U L O 2 1 | D O E N Ç A H E M O L Í T I C A P E R I N A T A L 207 RN Rh + RN Rh – Cl negativo Cl negativo Pai Rh – Pai Rh + Tipagem sanguínea e fenotipagem paterna Repetir Cl com 28 semanas Imunoglobulina anti-D 28-32 semanas Imunoglobulina anti-D até 72 h pós-parto Imunoglobulina anti-D não indicada manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 207 20/06/2012 19:26:58 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 208 20/06/2012 19:26:58 PROPEDÊuTICA FETAL NÃO INVAsIVA CAPÍTuLO 22 Ana Elisa Baião Entende-se por propedêutica fetal o conjunto de exames complementares que envol- vem o feto, com objetivo de detectar alterações no seu desenvolvimento. A ultrasso- nografia (USG) consagrou-se como o exame de escolha para avaliação fetal por ser um método reconhecidamente seguro e por permitir avaliação estrutural e funcional do feto e da placenta. Atualmente, sua realização é recomendada para todas as grá- vidas pela maioria das autoridades em saúde materno-infantil. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 209 20/06/2012 19:26:58 Perinatal | Manual de Perinatologia 210 ULTRASSONOGRAFIA OBSTÉTRICA O objetivo principal da usg obstétrica de rotina é obter in- formações que permitam a otimização da assistência para que se consigam os melhores desfechos perinatais. Os benefícios comprovados da usg na gestação são: 1. Datação acurada da gestação Resultado demonstrado em vários ensaios clínicos, a data- ção da gestação obtida por usg diminui o número de tocó- lises desnecessárias, assim como de induções do parto por gestação prolongada. Além disso, permite maior acurácia no diagnóstico do crescimento fetal restrito (CFR). 2. Diagnóstico de gestação gemelar uma parcela considerável das gestações gemelares não é diagnosticada até o terceiro trimestre sem a usg. Dessas, um grupo menor pode ser diagnosticada apenas no parto. O diagnóstico precoce da gestação gemelar e da corioni- cidade é de fundamental importância para o acompanha- mento pré-natal. 3. Detecção de anomalias congênitas A usg representa um grande diferencial para o diagnóstico pré-natal das malformações congênitas e das aneuploidias. Quando a interrupção da gestação é contemplada, o diag- nóstico precoce significa economia de recursos financeiros e possibilita o exercício da autonomia reprodutiva, com ga- nhos psicológicos significativos. Algumas malformações têm melhor desfecho pós-natal quando diagnosticadas antes do nascimento. Exemplos dis- so são: a hipoplasia do ventrículo esquerdo e a transposição dos grandes vasos. Além dessas, com o desenvolvimento das intervenções in- traútero, outras malformações podem experimentar mudan- manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 210 20/06/2012 19:26:58 C A P Í T U L O 2 2 | P R O P E D Ê U T I C A F E T A L N Ã O I N V A S I V A 211 ças significativas em sua história natural. A síndrome de transfusão gemelogemelar, a meningomielocele e a hérnia diafragmática são alguns exemplos. ROTINA PRÉ-NATAL Primeiro trimestre Considera-se atualmente que o grande benefício da usg no primeiro trimestre é a oportunidade do rastreio de aneu- ploidias, através de marcadores ultrassonográficos avaliados entre 11 e 14 semanas. Além desse, outros benefícios se- riam a datação mais precisa da gestação e o diagnóstico da corionicidade em gestações gemelares. A principal indicação clínica neste trimestre é o sangramen- to vaginal, intercorrência frequente em que o método permi- te avaliar a viabilidade da gravidez. Segundo trimestre se apenas uma usg de rotina puder ser realizada na ges- tação, deve ser a do segundo trimestre (entre 18 e 22 se- manas). grande parte das malformações maiores pode ser diagnosticada nessa idade. A datação da gravidez ainda conta com margem de erro aceitável (de uma semana até idade gestacional [Ig] de 20 semanas). Terceiro trimestre O benefício clínico da usg de rotina no terceiro trimestre, em população de baixo risco, ainda não foi demonstrado. Alguns sugerem aumento de intervenções desnecessárias na gestação, outros recomendam sua realização, pela pos- sibilidade de diagnosticar anomalias fetais de diagnóstico mais tardio. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 211 20/06/2012 19:26:59 Perinatal | Manual de Perinatologia 212 A grande indicação da usg no terceiro trimestre permanece sendo a avaliação fetal em gestações de alto risco, notada- mente aquelas que evoluem com CFR, permitindo tanto ava- liar a biometria fetal e volume de líquido amniótico, quanto acessar a função placentária através da Dopplerfluxometria. OUTROS EXAMES Alguns outros exames farão parte da propedêutica fetal em situações especifícas, e estão relacionados a seguir. Dopplerfluxometria A Dopplerfluxometria da artéria umbilical tem papel fun- damental na avaliação da função placentária, com grande impacto no desfecho perinatal em gestações de alto risco. A avaliação da circulação fetal com o Doppler está indicada para: 1. síndrome hipertensiva da gestação, especialmente na pré-eclâmpsia; 2. colagenoses; 3. crescimento fetal restrito; 4. oligodramnia; 5. diabetes com vasculopatia. A utilização do Doppler para avaliação da circulação ute- rina, com a finalidade de selecionar a população de risco para pré-eclâmpsia ainda está em discussão. Apesar de não haver ainda medidas profiláticas com custo/benefício comprovado para o uso populacional no segundo trimes- tre, pesquisas recentes demonstram bom desempenho do Doppler no primeiro trimestre, associado a outros fatores de risco na detecção de pacientes de alto risco para pré- -eclâmpisa. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 212 20/06/2012 19:26:59 C A P Í T U L O 2 2 | P R O P E D Ê U T I C A F E T A L N Ã O I N V A S I V A 213 Ecocardiografia fetal O estudo detalhado do coração fetal está indicado em algumas situações de risco para cardiopatas congênitas. são elas: idade materna acima de 35 anos; translucência nucal aumentada; colagenoses (especialmente com anti-Ro e anti-La po- sitivos); suspeita de malformação cardíaca na usg; diagnóstico de outra malformação; visualização inadequada do coração na usg; diabetes mellitus; antecedente de filho com cardiopatia congênita; uso de algumas medicações, como sais de lítio; rubéola no primeiro trimestre.Ultrassonografia fetal tridimensional As tecnologias 3D e 4D representam ótimos recursos para a complementação do estudo ultrassonográfico morfológico. A visualização tridimensional de defeitos congênitos superficiais, como da face e dos membros, de bridas amnióticas e de malformações do esqueleto pode fornecer informações importantes para o médico e para a paciente e seus familiares, ao facilitar a visuali- zação e compreensão do defeito em questão. seu uso rotineiro em gestações de baixo risco, no entan- to, não demonstrou nenhum benefício. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 213 20/06/2012 19:27:02 Perinatal | Manual de Perinatologia 214 Cardiotocografia e Perfil Biofísico Fetal (PBF) sua utilização rotineira na gravidez não encontra res- paldo na literatura. No entanto, esses exames têm indi- cações valiosas como coadjuvantes da Dopplerfluxome- tria no crescimento restrito e em gestações de alto risco em que o Doppler não tem benefício comprovado, como gestação prolongada e no diabetes. Assim, também, é indiscutível o uso da cardiotocografia na monitorização fetal durante o trabalho de parto, para população de alto risco. Ressonância magnética fetal A ressonância magnética fetal oferece a possibilidade de obter imagens fetais com ótima resolução sem as limitações atribuídas à usg – obesidade materna, oli- godramnia, idade gestacional avançada e estática fetal desfavorável. seu uso permanece limitado à complementação da usg, por não apresentar relação custo-benefício aceitá- vel para um exame de rastreio. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 214 20/06/2012 19:27:02 C A P Í T U L O 2 2 | P R O P E D Ê U T I C A F E T A L N Ã O I N V A S I V A 215 Fluxograma da propedêutica fetal não invasiva 1º Trimestre – 11 a 14 semanas Datação da gestação Diagnóstico da corionicidade Rastreio de aneuploidias Ultrassonografia de rotina pré-natal 2º Trimestre – 18 a 22 semanas Avaliação da morfologia fetal Datação da gestação Diagnóstico da corionicidade 3º Trimestre – a partir de 28 semanas Avaliação complementar da morfologia fetal Avaliação fetal em gestações de alto risco 1º Trimestre – Indicações: sangramento vaginal Dor pélvica aguda Crescimento uterino discordante com a Ig pela DuM Avaliação fetal complementar: Ecocardiograma fetal Ultrassonografia 3D Ressonância magnética fetal Cardiotocografia Perfil biofísico fetal manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 215 20/06/2012 19:27:02 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 216 20/06/2012 19:27:03 VIgILÂNCIA FETAL NAs gEsTAÇÕEs DE ALTO RIsCO CAPÍTuLO 23 Paulo Roberto Nassar de Carvalho Neste capítulo, será considerada a vigilância fetal no modelo obstrutivo. O principal objetivo é diagnosticar o feto comprometido e determinar o melhor momento para interrupção da gestação. Tenta-se prolongar a gestação para que se evitem as complicações da prematuridade e para indicar o momento do parto antes que as alterações na circulação fetal tragam prejuízos irreversíveis ao concepto. O QUE É O MODELO OBSTRUTIVO Corresponde à invasão trofoblástica inadequada levando a um quadro de insufici- ência placentária decorrednte da progressiva obliteração das arteríolas do sistema viloso terciário. Nesses casos observa-se um aumento da resistência na circulação placentária e diminuição do aporte de gases e nutrientes ao feto. A insuficiência pla- centária é encontrada, sobretudo, em quadros hipertensivos maternos, trombofilias e algumas doenças autoimunes. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 217 20/06/2012 19:27:03 Perinatal | Manual de Perinatologia 218 MECANISMOS DE DEFESA DO FETO NO MODELO OBSTRUTIVO A manutenção da normalidade da função cardiovascular fe- tal frente ao insulto hipóxico é extremamente complexa e de- pende da inter-relação de mecanismos vasculares, nervosos e hormonais. Inicialmente ocorre vasoconstrição de vísceras (so- bretudo, intestino, rins, pulmões e fígado) e musculatura com o objetivo de garantir fluxo sanguíneo preferencial aos órgãos vitais (suprarrenais, coração e cérebro) e placenta, fenômeno conhecido como ‘centralização de fluxo sanguíneo’. Na circulação venosa, as mudanças de resistência vascu- lar também cursam com várias repercussões: diminuição do suprimento sanguíneo da placenta para o fígado, maior pro- porção do débito cardíaco direcionado para o corpo do feto e consequentemente para a VCI, aumento do fluxo sanguíneo oriundo da veia cava superior (VCs) em decorrência da vaso- dilatação cerebral, e um aumento da pós-carga do ventrículo direito (VD). Tudo isso leva a um aumento da precarga que pre- judica o suprimento de sangue de origem placentária. Iniciam- -se então mecanismos compensatórios venosos, que procuram restabelecer esse suprimento pelo aumento da proporção do shunt através do duto venoso (DV). O desvio do fluxo sanguíneo para o DV é diretamente propor- cional à gravidade e à duração da insuficiência placentária, refletida pelo fluxo diastólico das artérias umbilicais. Também em função desse desvio e da consequente diminuição do su- primento de sangue oxigenado ao fígado, órgão-chave na regu- lação do crescimento fetal, surge a primeira evidência clínica da insuficiência placentária: a restrição do crescimento. Com o agravamento do quadro, nota-se a deterioração da função cardíaca e a falência dos mecanismos compensatórios. O au- mento da pós-carga determina diminuição da velocidade de flu- xo de saída dos ventrículos, e aumento na pressão nas câmaras cardíacas, o que aumenta a impedância ao fluxo da VCI e da VU. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 218 20/06/2012 19:27:03 C A P Í T U L O 2 3 | V I G I L Â N C I A F E T A L N A S G E S T A Ç Õ E S D E A L T O R I S C O 219 O próximo estágio envolve a diminuição do retorno do sangue da placenta, aumentando o grau de hipoxia, do metabolismo anaeróbio e determinando, por conseguinte, a acidemia fetal. Caso não haja intervenção o desfecho final será a natimortalidade. A PROPEDêUTICA FETAL No modelo obstrutivo, a avaliação do crescimento fe- tal, do volume de líquido amniótico e da impedância do fluxo sanguíneo arterial e venoso é de grande impor- tância na avaliação da vitalidade fetal e na decisão do momento mais apropriado para interrupção da gestação. A avaliação seriada deve ser realizada, com intervalos determinados pela severidade do quadro. Ultrassonografia A biometria fetal deve ser realizada com intervalos de duas a três semanas para acompanhamento da velocidade de cres- cimento e o diagnóstico do crescimento intrauterino restrito (peso fetal estimado abaixo do percentil 10 para idade ges- tacional), evidência clínica da insuficiência placentária. Perfil Biofísico Fetal (PBF) É usado como método de monitorização, pois permite o estudo de vários parâmetros fetais, como volume de lí- quido amniótico, cardiotocografia, movimentação, tônus e movimento respiratório fetal. É relativamente fácil de ser realizado e é confiável na avaliação da vitalidade fetal, caso seu resultado seja fa- vorável (é raro óbito fetal em uma semana após um PBF normal). Entretanto, seu uso em prematuros extremos é menos confiável, tendo, nessas situações, a cardiotoco- grafia ser analisada à luz da idade gestacional. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 219 20/06/2012 19:27:03 Perinatal | Manual de Perinatologia 220 Tipicamente é realizado uma a duas vezes por semana, po- rém, pode ser realizado até diariamente em caso de CIuR grave, oligoidramnia grave, Doppler de artéria umbilical com diástole zero ou reversa ou PBF alterado (<6/10). A presença de oligoidramnia, definida como maior bolsão ver- tical menor do que 2 cm ou índicede líquido amniótico (ILA) inferior a 6 cm, está associada a um aumento importante do risco de mortalidade perinatal. Inversamente, na presença de normoidramnia, o óbito fetal é menos frequente. Dopplervelocimetria É a principal arma na vigilância do modelo obstrutivo. Identifica a resposta cardiovascular, a hipoxia e a acidose progressiva e ajuda na diferenciação de fetos constitucio- nalmente pequenos de fetos com crescimento restrito em resposta a insuficiência placentária. É um método pouco útil no diagnóstico de sofrimento fetal agudo durante o trabalho de parto e também não apresenta benefícios nos resultados perinatais quando utilizado em gestações de baixo risco. Segue-se a interpretação dos achados da Dopplerfluxometria e uma proposta de conduta: Fluxo diastólico normal está raramente associado à morbida- de fetal e respalda o obstetra a aguardar a maturidade fetal. A reavaliação semanal está indicada. Caso o índice de pulsatilidade esteja acima do percentil 95, ou esta esteja piorando progressivamente, a vigilân- cia semanal deve ser acrescida de perfil biofísico fetal ou cardiotocografia uma a duas vezes por semana, de acordo com as condições clínicas da paciente. Na presença de fluxo diastólico ausente em gestações com mais de 34 semanas está indicado à interrupção da gestação. Antes de 34 semanas o Doppler da AU é insuficiente como único critério para interrupção. Está indicada a reallização manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 220 20/06/2012 19:27:03 C A P Í T U L O 2 3 | V I G I L Â N C I A F E T A L N A S G E S T A Ç Õ E S D E A L T O R I S C O 221 de Doppler venoso e arterial diário com paciente internada. O acompanhamento da relação sístole ventricular/contração atrial (s/A) nesses casos é fundamental para orientação. Na presença de diástole reversa, pode ser considerada a interrupção por via alta em gestações a partir de 28 se- manas. Em gestações com idade gestacional menor que 28 semanas, a gestação deve ser interrompida caso o Doppler do DV apresente onda A ausente. MANEJO INTRAPARTO Os partos vaginais em gestações com alteração de fluxo ao Dop- pler da artéria umbilical podem ser considerados, especialmente em gestações acima de 34 semanas. A monitorização intraparto deve ser realizada em todos os casos. Quando indicar a interrupção da gestação O melhor momento para interrupção da gestação deve ser determinado pela idade gestacional, pelo peso e bem-estar fetal. O término programado da prenhez deve ser indicado quando os riscos de óbito fetal excedem os riscos neonatais identificados pelas alterações dos exames biofísicos intraú- tero. Deve-se ressaltar que nos casos de CIuR de causa pla- centária, mesmo na ausência de alterações no Doppler, a gestação não deve ultrapassar 37 semanas. O Fluxograma 1 demonstra uma sugestão de conduta, consi- derando a análise conjunta de todos os parâmetros biofísicos disponíveis, por Ig. Apesar do sucesso expressivo no acom- panhamento de alguns casos esporádicos, fetos com menos de 400 g são na prática considerados inviáveis para fins de investimento perinatal. Deixamos claro, no entanto, que o manuseio de tais gestações deve ser particularizado, basea- do nas informações fetais obtidas pela vigilância diária bem como nas condições maternas. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 221 20/06/2012 19:27:03 Perinatal | Manual de Perinatologia 222 Fluxograma 1: Proposta de conduta. Parâmetros biofísicos < 24 semanas Peso < 400 g 25-29 semanas Doppler DV Doppler AU ILA 30-34 semanas Doppler DV Doppler AU ILA CTG > 34 semanas Limite da viabilidade? USO DE CORTICOIDE ANTENATAL PARTO CESÁRIO INDICAÇÃO OBSTÉTRICA Avaliar interrupção gestação Aumento dos índices de resistência da artéria umbilical acima do percentil 95 para IG manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 222 22/06/2012 11:28:47 C A P Í T U L O 2 3 | V I G I L Â N C I A F E T A L N A S G E S T A Ç Õ E S D E A L T O R I S C O 223 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 223 20/06/2012 19:27:04 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 224 20/06/2012 19:27:04 Pós-DATIsMO CAPÍTuLO 24 Carolina Mocarzel de Carvalho A Organização Mundial de Saúde (OMS) define com gestação prolongada a que tem duração de 42 semanas completas (294 dias). A gestação prolongada está associada à macrossomia fetal, síndrome de aspiração de mecônio, oligodramnia e aumento das taxas de cesariana. Tendo em vista o aumento progressivo da mortalidade peri- natal a partir de 41 semanas é de suma importância reconhecer as gestações pro- longadas, oferecer o adequado acompanhamento nesse final de gestação e evitar os riscos associados a esta condição. DIAGNÓSTICO Para o correto diagnóstico de uma gestação prolongada é fundamental a adequada datação da gestação. A ultrassonografia do primeiro trimestre tem papel fundamen- tal para a correta avaliação da duração da gestação. havendo uma diferença maior que cinco dias entre a idade gestacional calculada pela última menstruação e pela ultrassonografia do primeiro trimestre, a data estimada do parto deve ser calculada com base nesta última. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 225 20/06/2012 19:27:04 Perinatal | Manual de Perinatologia 226 CONDUTA Descolamento de membranas: durante o exame vaginal, em pacientes com gestações entre 38 e 41 semanas, pode-se realizar toque com rotação de 360 graus no orifício interno com intuito de separar as membranas fetais do colo e seg- mento inferior do útero. Essa medida promove a liberação de prostaglandinas, favorece o amolecimento do colo uterino e estimula as contrações uterinas induzidas pela ocitocina. Os trabalhos científicos, até o momento, não mostraram risco aumentado de infecção fetal ou neonatal com essa prática. As complicações maternas estão relacionadas principalmente ao desconforto durante o procedimento, sangramento e con- trações que não deflagram trabalho de parto em 24 horas. Indução de parto com 41 semanas: deve ser oferecida in- dução de parto às pacientes com 41 semanas de gestação com o intuito de reduzir a mortalidade perinatal e o risco de cesariana (ver Fluxograma e Tabela 1). Acompanhamento do bem-estar fetal nas gestações entre 41 e 42 semanas: contagem diária da movimentação fetal e o perfil biofísico fetal (PBF) são avaliações importantes nes- sas gestações. há poucos estudos controlados e randomi- zados avaliando diferentes estratégias no acompanhamento dessas gestações, a periodicidade ideal para esses testes e o impacto dessa vigilância nos desfechos neonatais. A maior parte dos trabalhos propõe avaliação semanal ou duas vezes por semana. uma avaliação razoável parece ser a realização de cardio- tocografia pelo menos uma vez por semana, associada ao acompanhamento do volume do líquido amniótico duas ve- zes por semana. A Dopplervelocitometria pode auxiliar, prin- cipalmente, nos casos em que há oligodramnia. Na suspeita de macrossomia fetal, a ultrassonografia obstétrica pode au- xiliar estimando o peso fetal. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 226 20/06/2012 19:27:06 C A P Í T U L O 2 4 | P Ó S - D A T I S M O 227 Fluxograma de conduta na gestação prolongada Maturidade fetal assegurada Bishop desfavorável (<6) Bishop favorável Amadurecimento do colo com misoprostol Indução com ociticina Cesariana Perfil biofísico fetal dopplerfluxometria gravidez supostamente prolongada Idade gestacional desconhecidaConfirmada por idade gestacional conhecida AlteradoNormal T A B E L A 1 : Índice de Bishop para avaliação do colo uterino Índice de Bishop Parâmetros avaliados Pontos atribuídos 0 1 2 3 Altura da apresentaçãofetal (DeLee) - 3 - 2 - 1 0 ou abaixo Colo uterino Dilatação (cm) 0 1-2 3-4 > 5 Apagamento (%) 0-30 40-50 60-70 > 80 Consistência Firme Médio Amolecido - Posição Posterior Central Anterior - Pontuação total igual ou superior a 9 indica colo uterino maduro. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 227 20/06/2012 19:27:08 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 228 20/06/2012 19:27:09 PREVENÇÃO DA DOENÇA EsTREPTOCóCICA PERINATAL DO gRuPO B CAPÍTuLO 25 Juliana silva Esteves Penha O Streptococcus agalactae é do grupo B (GBS). Identificado como importante causa de morbimortalidade neonatal precoce, tem como colonização habitual o trato geni- tourinário e gastrointestinal. A profilaxia intraparto vem se mostrando, nas últimas décadas, capaz de promover a redução da taxa de infecção neonatal precoce, porém, sem influenciar na taxa de infecção tardia. FATORES DE RISCO Idade gestacional inferior a 37 semanas. Tempo de ruptura de membranas ovulares superior a 18 horas. Infecção intra-amniótica ou febre intraparto. gestante com menos de 20 anos. Pacientes da raça negra. Antecedente de filhos com infecção por GBS. urinocultura positiva para gBs (> 104 colônias/ml) em qualquer período da gestação. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 229 20/06/2012 19:27:09 Perinatal | Manual de Perinatologia 230 RASTREIO PERINATAL Preconiza-se o rastreio universal das gestantes na tentativa de prevenir a infecção neonatal precoce. Orientações para realização do rastreio: Colher swab vaginal/retal em todas as gestantes entre 35 e 37 semanas de gestação. Introduzir o swab no 1/3 inferior da vagina e do reto uti- lizando um ou dois swabs. Colocar o swab em meio para transporte apropriado – se necessário, o material colhido pode permanecer no meio por alguns dias – refri- gerar se possível. Indicar sempre no pedido que a cultura é para gBs e caso a paciente seja alérgica à penicilina e com alto ris- co* de anafilaxia, testar suscetibilidade à clindamicina. *Alto risco de anafilaxia: Paciente com história de anfilaxia ou angioedema ou insu- ficiência respiratória ou urticária após administração de penicilina ou cefalosporina. INDICAÇÃO DE PROFILAXIA INTRAPARTO Recém-nato anterior com sepse por gBs. Bacterúria por gBs em qualquer trimestre da gestação. swab positivo para gBs no terceiro trimestre. status desconhecido e uma das situações: ■ idade gestacional inferior a 37 semanas; ■ tempo de ruptura de membranas ovulares superior a 18 horas; ■ febre intraparto – temperatura axilar igual ou superior a 38oC. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 230 20/06/2012 19:27:09 C A P Í T U L O 2 5 | P R E V E N Ç Ã O D A D O E N Ç A E S T R E P T O C Ó C I C A P E R I N A T A L D O G R U P O B 231 O uso de antibióticos na profilaxia para GBS não está indi- cada nas seguintes situações: Colonização para gBs na gestação anterior (a menos que o rastreio seja positivo na gestação atual). urinocultura positiva para gBs na gestação anterior. Rastreio negativo na gestação atual na ausência de risco intraparto. Cesariana realizada na ausência de trabalho de parto com membranas intactas, independente do status da colonização e da idade gesta- cional. Profilaxia intraparto Esquemas de antibiótico para profilaxia para estreptococo do grupo B (beta hemolítico) intraparto Antibiótico Posologia Penicilina g cristalina 5 milhões de uI, EV, seguidas de 2,5 milhões a cada 4 horas até o parto. Ampicilina 2 g, EV, como dose inicial, seguida de 1 g, EV, a cada 4 horas até o parto. Cefazolina 2 g EV, como dose inicial, seguida de 1 g EV a cada 8 horas até o parto. Em caso de alergia à penicilina: Clindamicina 900 mg, EV, a cada 8 horas até o parto. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 231 20/06/2012 19:27:09 Perinatal | Manual de Perinatologia 232 Fluxograma de escolha de antibiótico para profilaxia para estreptococo do grupo B Alergia a penicilina? Cefazolina 2g IV + 1g IV 8/8 h Amostra suscetível a clindamicina Vancomicina 1 g IV 12/12 h Clindamicina 900 mg IV 8/8 h Penicilina g 5 milhões IV + 2.5 a 3.0 milhões IV 4/4h Ou Ampicilina 2g IV + 1g IV 4/4h Presença de risco alto de anafilaxia (história de): Anafilaxia Angioedema sARA urticária Não Não Não Sim Sim Sim sIM sIM sIM NÃO NÃO NÃO manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 232 20/06/2012 19:27:10 C A P Í T U L O 2 5 | P R E V E N Ç Ã O D A D O E N Ç A E S T R E P T O C Ó C I C A P E R I N A T A L D O G R U P O B 233 Fluxograma de profilaxia para estreptococo do grupo B na rotura prematura de membranas ovulares pré-termo Colher swab vaginal/retal e iniciar antibiótico para profilaxia de GBS ou latência* Paciente em trabalho de parto sIM NÃO Resultado da cultura Realizar profilaxia intraparto Não realizar profilaxia, repetir swab com 35-37 semanas se não nasceu sem resultado até início do trabalho de parto Positiva Negativa Manter antibiótico até o parto Manter antibiótico para latência conforme protocolo RPMO Ou Manter antibiótico por 48 horas se para gBs *Se indicado. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 233 20/06/2012 19:27:10 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 234 20/06/2012 19:27:10 INDuÇÃO DO PARTO CAPÍTuLO 26 Paulo Roberto Nassar de Carvalho Marcos Nakamura Pereira Entende-se como indução do parto o estímulo artificial à deflagração do trabalho de parto, em momento anterior à sua ocorrência espontânea, com o intuito de antecipar a expulsão do feto. Clinicamente, considera-se o resultado satisfatório da indução quando encontrada a presença de contrações que duram entre 50 e 70 segundos (boa intensidade), exibem frequência de 3 a 4/10 minutos, mostrando bom relaxa- mento uterino (tono normal). INDICAÇÕES Corioamnionite. Crescimento intrauterino restrito. Diabete. Doença hemolítica perinatal. Descolamento prematuro da placenta. gestação ≥ 41 semanas. hipertensão crônica. Malformações fetais com indicação de antecipação do parto. óbito fetal. Oligoidramnia. Pré-eclâmpsia / eclâmpsia. Rotura prematura das membranas. Interrupção legal da gravidez. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 235 20/06/2012 19:27:13 Perinatal | Manual de Perinatologia 236 CONTRAINDICAÇÕES* Apresentação córmica. Câncer cervical invasivo. Cesárea clássica anterior (histerotomia vertical). Cicatriz uterina fúndica anterior. Desproporção cefalopélvica absoluta. herpes genital ativo. Placenta prévia. Prolapso de cordão umbilical. Vasa previa. Apresentação pélvica (contraindicação relativa). * As contraindicações se referem à indução do feto vivo a termo. CONDUTA 1. Confirmação da indicação a- Reavaliar a necessidade de indução do parto. b- Excluir contraindicações. 2. Determinação do método de indução a. Avaliar a idade gestacional, a vitalidade fetal e o índice de Bishop (ver Tabela 1). b. Quando o índice de Bishop for ≥ 6, o colo será considerado favorável e o método de eleição será a ocitocina por infusão contínua. c. A indução com ocitocina poderá ser realizada com regimes de alta dose e de baixa dose, sendo ambos considerados tecnicamente apropriados (ver Tabela 2). A escolha entre o regime de alta ou baixa dose deve considerar as características específicas do caso. d. O método de eleição para indução do parto com colo desfavorável (Bishop < 6) é o misoprostol (Mi- soprostol: análogo de prostaglandina E1 (PGE1), efetivo para provocar contrações uterinas). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 236 20/06/201219:27:14 C A P Í T U L O 2 6 | I N D U Ç Ã O D O P A R T O 237 T A B E L A 1 : Índice de Bishop (1964), modificado PONTUAÇÃO 0 1 2 3 Altura -3 -2 -1/0 +1/+2 Dilatação do colo (cm) 0 1-2 3-4 >4 Comprimento do colo (cm) >2 2 1 <1 Consistência do colo Firme Intermediária Amolecida _ Posição do colo Posterior Intermediário Central _ T A B E L A 2 : Indução do parto com ocitocina: regimes de alta dose e baixa dose Regime Dose inicial (mU/min) Aumento da dose (mU/min) Intervalo entre doses (min) Baixa dose 0,5-1,0 1 30-40 1-2 2 15 Alta dose ~6 ~6 15 6 6, 3, 1 20-40 e. O método de Krause será o método de eleição apenas nos casos de óbito fetal no terceiro trimestre em mulhe- res com cesariana prévia (Método de Krause: introdução de sonda de Foley n. 18-26 pelo canal cervical). f. O método de Krause será considerado também em casos de falha do método de eleição. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 237 20/06/2012 19:27:14 Perinatal | Manual de Perinatologia 238 3. Protocolo de indução com misoprostol por via vaginal a. Indução do parto de 20+1 a 24+0 semanas 400 µg em dose única diária por 48 h; 400 µg a cada 12 h (falha após 48 h); 200 µga cada 12 h em mulheres com cesárea(s) prévia(s). b. Indução do parto de 24+1 a 28+0 semanas 100 µg a cada 12 h com feto vivo; 200 µg a cada 12 h com feto morto por 48 h; 400 µg dose única diária (falha após 48 h); 100 µg a cada 12 h em mulheres com cesárea(s) prévia(s). c. Indução do parto com feto vivo após 28+1 semanas (con- traindicado em mulheres com cesárea prévia) 50 µg a cada 6 h por 72 h. d. Indução do parto com feto morto após 28+1 semanas (Contraindicado em mulheres com cesárea prévia) 100 mcg a cada 12 h por 48 h de 28+1 a 32+0 semanas; 100 mcg a cada 6 h de 28+1 a 32+0 semanas (falha após 48 h); 50 mcg a cada 6 h após 32+1 semanas por 72 h. OBS.: A presença de cesariana prévia deve ser ignorada em gestações com menos de 20 semanas pelo fato de haver apenas um caso de rotura uterina relatado na lite- ratura. Entre 20-28 semanas, a indução com misoprostol em mulheres com até duas cesarianas prévias está respaldada por revisão sistemática que evidenciou risco de rotura bastante baixo (0,4%). 4. Rotina de administração do misoprostol a. sempre que possível, o misoprostol será administrado nos horários de 6 h, 12 h. 18 h, 0 h. b. Não haverá pausas noturnas. c. Antes de administrar o misoprostol, deverá ser avaliada a atividade uterina e a vitalidade fetal (em caso de feto vivo, cuja indicação não seja interrupção legal da gestação). d. A avaliação clínica e a administração da dose devem ser registradas no prontuário. e. As gestantes com feto vivo deverão ter sua dinâmica ute- rina reavaliada 90 minutos após a administração de cada manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 238 20/06/2012 19:27:14 C A P Í T U L O 2 6 | I N D U Ç Ã O D O P A R T O 239 dose, considerando a farmacocinética da droga, a fim de surpreender episódios de taquissistolia (item 6). f. Caso a gestante apresente contrações uterinas, não con- figurando taquissistolia, a conduta dependerá da idade gestacional e da condição fetal: Indução do parto de 20+1 a 24+0 semanas Manter a indução a despeito das contrações. Indução do parto de 24+1 a 28+0 semanas Feto vivo – administrar analgésico e antiespasmódi- cos; se intervalo de contrações maior que 10 min, manter indução; se intervalo de contrações menor que 10 min, reavaliar em 1 h. Feto morto – manter indução a despeito das contra- ções. se intervalo de contrações inferior a 10 min e colo favorável, cogitar uso de ocitocina. Indução do parto com feto vivo após 28+1 semanas se intervalo de contrações superior a 10 min, admi- nistrar 25 µg. se intervalo de contrações inferior a 10 min e colo desfavorável, administrar analgésico e antiespasmó- dicos e reavaliar em 1 h. se intervalo de contrações inferior a 10 min e colo favorável, cogitar uso de ocitocina. Indução do parto com feto morto após 28+1 semanas se intervalo de contrações superior a 10 min, admi- nistrar metade da dose. se intervalo de contrações inferior a 10 min e colo desfavorável, administrar analgésico e antiespasmó- dicos e reavaliar em 1h. se intervalo de contrações inferior a 10 min e colo favorável, cogitar uso de ocitocina. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 239 20/06/2012 19:27:15 Perinatal | Manual de Perinatologia 240 Em todos os casos aqui citados a analgotocia em adequa- do ambiente cirúrgico deve ser considerada em situação de intolerância materna ao quadro álgico, respeitadas as condições do colo uterino e contrações (trabalho de parto ativo). 5. Rotina de administração da ocitocina a. sempre administrar ocitocina em bomba infusora nos casos de indução do parto. b. A diluição poderá ser realizada conforme a experiência de cada um, podendo-se utilizar 5 uI em 500 ml (1 mu/min = 6 ml/h) ou 10 uI em 500 ml (1 muI/min = 3 ml/h). c. Caso tenha sido administrado misoprostol para amadu- recimento do colo, respeitar intervalo mínimo de quatro horas para iniciar a ocitocina. d. A dose máxima a ser utilizada é 40 mu/min. 6. Rotina de utilização do método de Krause a. Introduzir sonda de Foley n. 18-26 no canal cervical após assepsia e antissepsia adequadas. b. Encher o balão com ao menos 30 ml, sabendo-se que o diâmetro do balão está diretamente relacionado à eficá- cia do procedimento. c. Manter a sonda tracionada, prendendo-a na parte inter- na da coxa da paciente. d. Jamais utilizar ‘pesos’ na sonda. e. Admite-se o uso concomitante com ocitocina. f. A sonda será mantida por 48 h ou até a expulsão espon- tânea da mesma. FALHA DE INDUÇÃO a. A falha de indução é a incapacidade de atingir 4 cm de dilatação e 90% de apagamento, ou 5 cm independen- temente do apagamento, após no mínimo 12 a 18 horas de membranas rotas e administração de ocitocina (no manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 240 20/06/2012 19:27:15 C A P Í T U L O 2 6 | I N D U Ç Ã O D O P A R T O 241 intuito de atingir 250 unidades de Montevidéu ou cinco contrações em 10 minutos). b. Considerando a definição acima, a conduta inicial para quando não se obtiver boa resposta com o método de indução empregado é a rotura artificial das membranas. c. Não havendo resposta após a rotura das membranas, com manutenção da indução farmacológica, indica-se a operação cesariana. CONDUTA NA TAQUISSISTOLIA (PRESENÇA DE MAIS DE CINCO CONTRAÇÕES EM 10 MINUTOS) a. Caso seja evidenciada atividade uterina com mais de cinco contrações em 10 minutos (após 28 semanas), a indução deverá ser suspensa temporariamente. b. Posicionar a paciente em decúbito lateral esquerdo, au- mentar a hidratação venosa, utilizar máscara de oxigênio a 10 l/min e realizar toque vaginal. c. se após 20 minutos a paciente mantiver o quadro, fazer 30 mg de nifedipina oral. d. Pode-se recorrer aos opioides (petidina) para analgesia, especialmente no feto morto. e. Em gestações com mais de 28 semanas, realizar monito- rização fetal contínua. f. Caso não haja evidência de sofrimento fetal, aguardar resolução do quadro. g. Após resolução do quadro, reiniciar a indução com dose inferior àquela preconizada. h. A interrupção da gestação por cesariana deve ser con- siderada caso não haja resposta a nifedipina, em fetos clinicamente viáveis e em vigência de sofrimento fetal agudo. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 241 20/06/2012 19:27:15 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 242 20/06/2012 19:27:15 AssIsTÊNCIA AO PARTO CAPÍTuLO 27 Cristiane Alves de Oliveira O parto é o processo por meiodo qual os produtos da concepção são expelidos do útero e da vagina para o ambiente externo, a partir de 22 semanas de gestação. PERÍODO PREMONITÓRIO Período premonitório ou pródromo de trabalho de parto é caracterizado por adapta- ções fisiológicas que anunciam o trabalho de parto, tendo duração extremamente variável. É caracterizado por: Aumento gradual da atividade uterina – contrações com ritmo irregular, incoorde- nadas, por vezes dolorosas. Amadurecimento do colo uterino – amolecimento, alteração da sua orientação (centralização: o colo do útero passa a se alinhar ao eixo vaginal) e principia o seu encurtamento (apagamento). Acomodação do polo fetal ao estreito superior da pelve. Aumento das secreções cervicais – podendo haver eliminação de muco, por vezes acompanhado de sangue (‘perda de tampão mucoso’). Descida do fundo uterino, caracterizada por seu abaixamento em cerca de 2 cm a 4 cm. há também descrição da fase latente, que corresponde ao final do pré-parto ou o início do parto, quando as contrações, embora rítmicas, são incapazes de promover a dilatação do colo uterino. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 243 20/06/2012 19:27:15 Perinatal | Manual de Perinatologia 244 TRABALHO DE PARTO Didaticamente, o trabalho de parto é dividido em três fases principais: Fase de dilatação ou primeiro período – entre o início do trabalho de parto e a dilatação completa do colo uterino. Fase de expulsão ou segundo período – começa com a dilatação total da cérvice e termina com a expulsão do feto. Secundamento ou terceiro período – inicia-se após o desprendimento do feto e termina com a expulsão da placenta e seus anexos. há ainda o quarto período, que compreende a primeira hora após a expulsão da placenta. DIAGNÓSTICO Contrações uterinas regulares (rítmicas), em geral dolo- rosas, que se estendem por todo o útero. Frequência mínima de duas contrações a cada 10 mi- nutos, duração maior que 15-20 segundos, mantidas após repouso no leito por período mínimo de 30 minu- tos. Colo uterino dilatado para, no mínimo, 2 cm, centrali- zado e com apagamento parcial ou total, com modifica- ção progressiva. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 244 20/06/2012 19:27:16 C A P Í T U L O 2 7 | A S S I S T Ê N C I A A O P A R T O 245 EXAME FÍSICO a. Sinais vitais maternos: pressão arterial (PA), frequência cardíaca (FC) e frequência respiratória (FR), tempera- tura axilar (Tax). b. Avaliação do abdome materno Altura do fundo uterino; tônus uterino e metrossísto- les (contadas em período de 10 minutos). Estática fetal. Ausculta dos batimentos cardíacos fetais (BCF): an- tes e após contração. c. Toque vaginal: características do colo uterino (orientação, dilatação, apagamento). Avaliação da apresentação fetal: tipo, altura, atitude (flexão e sinclitismo) e variedade de posição. Avaliar a arquitetura da pelve (o toque do pro- montório leva a suspeita de pelve angustiada). Altura da apresentação fetal ■ Classificação de Hogde ■ 1º plano) Corresponde ao estreito superior da bacia, passando pela borda superior do púbis e promontório; ■ 2º plano) Da borda inferior do púbis ao meio da segunda vértebra sacra; ■ 3º plano) É traçado nas espinhas ciáticas e cor- responde ao estreito médio; ■ 4º plano) Passa pela ponta do cóccix. ■ Classificação de De Lee: tem como ponto de re- paro o diâmetro interespinhoso, ou terceiro plano de hodge (considerado o plano “0” de De Lee). A partir dele, a distância do ponto mais baixo da altura da apresentação é contada em centímetros em relação à distância da altura das espinhas ci- áticas. A contagem é positiva caso a apresentação fetal tenha ultrapassado o plano “0”, e negativa, caso a apresentação não o tenha atingido. Estes planos variam de “-5” a “+5”. d. Exame especular: realizar na presença de queixa ou sus- peita de amniorrexe e/ou sangramento vaginal. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 245 20/06/2012 19:27:16 Perinatal | Manual de Perinatologia 246 Conduta Internação hospitalar: uma vez diagnosticado o trabalho de parto. Tricotomia: não há evidências de que a tricotomia peri- neal traga benefícios para o parto ou puerpério. Enema: a enteróclise é desnecessária como conduta roti- neira. Alimentação: durante o trabalho de parto, optar por líqui- do por via oral. Instalação de acesso venoso: dispensável como proce- dimento de rotina. Evidências de desidratação materna e/ou necessidade de correção de anormalidades da con- tratilidade uterina, práticas anestésicas ou possibilidade de complicações do parto obrigam a instalação de acesso venoso. Posição da parturiente: não há por que impedir a par- turiente de deambular. Lembrar que o decúbito dorsal provoca hipotensão, ocasiona discinesias e prejudica a oxigenação do concepto. avaliação laboratorial Avaliação laboratorial na admissão hospitalar ■ VDRL e teste rápido para HIV – se desconhecidos ou não realizados no terceiro trimestre. ■ Grupo sanguíneo e fator Rh – caso desconhecido. Ava- liar Coombs indireto em gestantes fator Rh negativo. ■ Avaliar necessidade de outros exames (individualizar). Admission test / Cardiotocografia Não há evidência científica que justifique a realização de rotina de cardiotocografia admissional para gestantes de baixo risco. Não é necessária cardiotocografia para comprovação de que a paciente está em trabalho de parto. manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 246 22/06/2012 14:12:04 C A P Í T U L O 2 7 | A S S I S T Ê N C I A A O P A R T O 247 ACOMPANHAMENTO DO TRABALHO DE PARTO Propõe-se a utilização do partograma para o acompanha- mento da dinâmica do trabalho de parto em função do tem- po. Em gráfico horário específico são plotados a altura da apresentação, a variedade de posição, a dilatação cervical, o padrão das contrações uterinas, a frequência cardíaca fetal e o eventual emprego de medicações, hidratação e procedi- mentos anestésicos. Fase de dilatação ou primeiro período do trabalho de parto Inicia-se com o diagnóstico do trabalho de parto e termina com a dilatação total do colo. Dura, no geral, de oito a 12 horas nas nulíparas e de seis a oito horas nas multíparas. Os cuidados necessários nessa fase são: a. Cuidados com a mãe ■ Deambulação permitida desde que a paciente não es- teja sob anestesia. ■ Controle dos sinais vitais (PA, FC, FR e Tax). ■ Correção de hipotensão, hipovolemia e hipoglicemia. ■ Analgesia peridural contínua: indicada para controle da dor. b. Toque vaginal – Avaliação da progressão do trabalho de parto (progressão da dilatação cervical). ■ Realizado inicialmente a cada 60 minutos (encurtar intervalos à medida que a dilatação progride). ■ Avaliar bolsa amniótica e características das perdas vaginais (sangue, líquido amniótico e sua coloração) – lembrar que a presença de mecônio no líquido amnió- tico é sinal de alerta e não parâmetro para diagnóstico de sofrimento fetal. ■ Avaliação da apresentação fetal: tipo, altura, atitude (flexão e sinclitismo) e variedade de posição. c. Monitoramento das contrações uterinas As contrações uterinas iniciam-se com frequência de 2-3 em 10 minutos e duração de 40 segundos, alcan- çando, ao final do período de dilatação, frequência de manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 247 20/06/2012 19:27:16 Perinatal | Manual de Perinatologia 248 4-5 em 10 minutos, maior intensidade e duração até 60 a 70 segundos. Os parâmetros a serem observados são: frequência, in- tensidade, duração, sentido de progressão, tônus uterino. Principais distorções que podem ocorrer na ativida- de uterina: ■ Hipoatividade: contrações de baixa intensidadee/ou duração (< 25 mmhg ou duração < 30 segundos) – hipossistolia; baixa frequência (< 2/10 minutos) – bradissistolia. ■ Causas: não esclarecidas. ■ Conduta: Perfusão venosa de ocitocina, de preferência com bomba de infusão. - Apresentação: solução injetável 5 uI/ml. - Dose inicial: iniciar a uma velocidade de 2 muI/min (5 uI de ocitocina diluídas em 500 ml de soro glicosado a 5%, perfundi- dos a quatro gotas por minuto). - Aumentar a velocidade de perfusão em 2 muI por minuto, a cada 15 minutos, até se obter padrão contrátil adequado (2 metrossístoles em 10 minutos com duração mínima de 45 segundos cada) ou até dose máxima de 40 muI por minuto (80 gotas por minuto). ■ Hiperatividade: contrações com intensidade e/ou duração aumentadas (> 50 mmhg ou duração > 70 segundos) – hipersistolia; frequência aumentada (> 5/10 minutos) – taquissistolia. ■ Causas: idiopática; administração incorreta de ocitocina, parto obstruído, síndrome de com- pressão da veia cava. ■ Conduta: - Decúbito lateral esquerdo. - Oxigênio sob cateter nasal. - Redução da dose de ocitocina administrada. - Avaliar proporcionalidade cefalopélvica e outros obstáculos mecânicos à progressão do parto. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 248 20/06/2012 19:27:17 C A P Í T U L O 2 7 | A S S I S T Ê N C I A A O P A R T O 249 ■ Hipotonia: tônus uterino reduzido (< 5 mmhg); úte- ro amolecido à palpação. ■ Causas: não esclarecidas; geralmente associa- da à hipoatividade. ■ Conduta: perfusão venosa de ocitocina. ■ Hipertonia: tônus uterino aumentado (> 20 mmhg); útero endurecido à palpação com dificuldade para se identificar as contrações ou para se deprimir a parede uterina. ■ Causas: sobredistensão uterina, incoordena- ção, taquissistolia, hipertonia autêntica (ge- ralmente associada ao descolamento prema- turo da placenta). ■ Conduta: - Amniocentese descompressiva (no caso de polidramnia). - Decúbito lateral esquerdo. - Oxigênio sob cateter nasal. - Analgesia peridural. - Quando do descolamento prematuro da placenta ou do insucesso na correção da hipertonia com repercussões na saúde fe- tal, indicar operação cesariana. ■ Incoordenação ■ Conduta: - Decúbito lateral esquerdo. - Oxigênio sob cateter nasal. - Perfusão venosa de ocitocina. - Amniotomia. - Analgesia peridural. d. Acompanhamento da vitalidade fetal Ausculta fetal intermitente – é recomendada para acompanhamento fetal em gestações de baixo risco. Na ausculta fetal intermitente, as gestantes de baixo risco devem ser acompanhadas a cada 15-30 minutos na fase de dilatação e a cada cinco minutos no período expulsivo. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 249 20/06/2012 19:27:17 Perinatal | Manual de Perinatologia 250 Fluxograma de acompanhamento da vitalidade fetal intraparto* Ausculta intermitente Por 1 minuto após a contração A cada 15 minutos no 1º estágio do trabalho de parto e a cada 5 minutos no segundo estágio. Ausculta anormal Linha de base < 110 bpm ou > 160 bpm; Qualquer desaceleração MONITORAÇÃO FETAL CONTÍNUA Presença de fatores de risco Não Sim Classificação da cardiotocografia intraparto* Parâmetro Normal Atípico ou suspeita Anormal Linha de base 110 – 160 bpm 100 – 109 bpm ou 161-180 bpm < 100 bpm ou >180 bpm Padrão sinusoidal por ≥ 10 min Variabilidade ≥ 5 bpm < 5 por ≥ 40 min e < 90 min < 5 por ≥ 90 min Desacelerações Nenhuma Desacelerações precoces. Desacelerações variáveis. Desaceleração pro- longada única (até 3 minutos). Desacelerações variá- veis atípicas. Desaceleração tardia. Desaceleração pro- longada única (> 3 minutos). Acelerações Presente A ausência de acelerações associada a outros critérios normais tem significado incerto. Cardiotocografia intraparto Na ausculta fetal intermitente das gestantes de alto risco, caso não seja possível o acompanhamento através da cardiotocografia contínua, os intervalos de ausculta fetal devem ser encurtados. * Royal College of Obstetricians and gynaecologists, 2001. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 250 20/06/2012 19:27:17 C A P Í T U L O 2 7 | A S S I S T Ê N C I A A O P A R T O 251 ■ Condutas na cardiotocografia fetal atípica/suspeita intraparto – visam melhorar o fluxo uterino, a circu- lação umbilical e a saturação de oxigênio materna: ■ Parar ou reduzir a ocitocina. ■ Mudança de decúbito materno. ■ Melhorar a hidratação materna (hidratação ve- nosa). ■ Exame vaginal (prolapso de cordão?). ■ Administrar oxigênio sob máscara. ■ Reduzir ansiedade materna. ■ Condutas na cardiotocografia fetal anormal intrapar- to (um ou mais critérios anormais) – interrupção via alta (cesariana). ■ Considerar também como cardiotocografia fetal anormal a presença de dois ou mais critérios atí- picos/suspeitos que não melhoram com as con- dutas acima descritas. Período expulsivo ou segundo período do trabalho de parto Dura, em média, 50 minutos nas primíparas e 20 mi- nutos nas multíparas. As contrações uterinas se tornam cada vez mais intensas e frequentes (frequência de 5/10 minutos, duração de até 70 segundos). Iniciam-se con- trações involuntárias da parede abdominal (puxos). Cuidados necessários nessa fase: Posição da parturiente – pode ser adotada a posição de maior conforto para a paciente, classicamente a posição de decúbito dorsal com flexão máxima das co- xas sobre o abdome e abdução dos joelhos, ou semi- -sentada – quando cadeiras apropriadas estiverem dis- poníveis, são as mais usadas. Ausculta fetal – a cada cinco minutos ou monitoriza- ção eletrônica contínua. Sonda vesical de alívio – só obrigatória sua utilização quando da prática do fórcipe. Assepsia perineal. Episiotomia mediana ou mediolateral – não é indicada manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 251 20/06/2012 19:27:17 Perinatal | Manual de Perinatologia 252 de rotina. Avaliar sua realização diante do risco de ro- tura perineal quando da expulsão fetal. Anestesia locorregional – caso a paciente não tenha sido submetida à analgesia peridural ou se ainda sentir dor perineal apesar desta (lidocaína 1%). ■ Dose máxima da lidocaína sem vasocontritor: não deve exceder 4,5 mg/kg e, em geral, é recomendado que a dose máxima total não exceda a 300 mg/dia. ■ Dose máxima individual recomendada de lidocaína com epinefrina: 7 mg/kg e em geral é a máxima dose total e não deve exceder a 500 mg/dia. Fórcipe de alívio ■ Quando indicada a abreviação do período expulsivo preferir o emprego do fórcipe de alívio no lugar da manobra de Kristeler, habitualmente prejudicial ao concepto. Proteção do períneo no desprendimento da cabeça fe- tal nas apresentações de vértice. Após o desprendimento do polo cefálico, nas apresen- tações de vértice, aguardar que se complete esponta- neamente a rotação fetal e auxiliar no desprendimento do ombro. Clampeadura oportuna do cordão umbilical – 8 cm a 10 cm de sua inserção abdominal. Momento ideal do clampeamento (1 a 3 minutos após desprendimento fetal). Na ausência de prematuridade, mecônio e estando o recém-nato chorando, colocar o mesmo sobre o abdo- me materno. Secundamento ou terceiro período do trabalho de parto Período em que ocorre a dequitação, descida e expulsão da placenta e das membranas. Dura de 10 a 30 minutos e necessita, por vezes, da intervenção do tocólogo para completar a descida e a expulsão placentária. Imediatamente após se completar a expulsão fetal deve-se fazer 10 uI de ocitocina intramuscular (nas pacientes que se encontram sem acesso venoso). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 252 20/06/2012 19:27:17 C A P Í T U L O 2 7 | A S S I S TÊ N C I A A O P A R T O 253 Procedimentos indicados na condução do secunda- mento: ■ Leve tração do cordão umbilical associada à sustenta- ção do útero através na parede abdominal (evitando-se com isso a sua descida durante a tração do cordão). ■ A revisão do colo uterino deve ser praticada de rotina. Episiorrafia por planos com fios absorvíveis naturais ou sintéticos, 0 ou 00. Pontos separados para aproximação do plano muscular e para a síntese da pele, chuleio na mucosa vaginal. Certificar-se de que o útero se encontra firmemente con- traído. Não realizar expressão manual do útero para expulsão de coágulo que se forma já que essa etapa (trombotam- ponagem) faz parte do processo de hemostasia uterina puerperal. Desnecessária a administração rotineira de metilergono- vina. A prescrição de ocitocina endovenosa, nas primeiras horas após o parto auxilia no controle de sangramento vaginal pós-parto naquelas pacientes com lóquios aumentados. A puérpera deverá ser mantida em observação por no mínimo uma hora após o parto (quarto período do parto), ocasião em que se completa a hemostasia da ferida pla- centária, época da ocorrência de hemorragias importan- tes quando da falha desses mecanismos. O secundamento que não se completa decorridos 30 mi- nutos do parto caracteriza a retenção placentária. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 253 20/06/2012 19:27:17 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 254 20/06/2012 19:27:18 hEMORRAgIA Pós-PARTO CAPÍTuLO 28 Fernanda Campos da silva A hemorragia pós-parto é definida como a perda sanguínea excessiva que acontece nas primeiras 24 horas do parto. Tradicionalmente, essa perda é excessiva quando maior que 500 mL após um parto vaginal e 1.000 mL após uma cesariana. Na práti- ca clínica, a HPP pode ser definida por um sangramento pós-parto que produz sinais de instabilidade hemodinâmica. Os sinais e sintomas expostos na Tabela 1 ajudam na estimativa do volume de perda. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 255 20/06/2012 19:27:18 Perinatal | Manual de Perinatologia 256 T A B E L A 1 : sinais e sintomas de choque por hemorragia Grau do choque Perda sanguínea Sinais e sintomas Leve <20% Diaforese Aumento do enchimento capilar Extremidades frias Ansiedade Moderada 20% a 40% Todos os acima mais: Taquicardia e taquipneia hipotensão postural Oligúria grave >40% Todos os acima mais: hipotensão Agitação/confusão Instabilidade hemodinâmica ETIOLOGIA Os principais fatores de risco para hPP podem ser lembra- dos pelos quatro T´s: Tônus, Tecido, Trauma e Trombina. Estão listados na Tabela 2. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 256 20/06/2012 19:27:19 C A P Í T U L O 2 8 | H E M O R R A G I A P Ó S - P A R T O 257 T A B E L A 2 : Fatores de risco para hemorragia pós-parto (hPP) Categoria e processo etiológico Fatores de risco clínicos Tônus: sobredistensão uterina Exaustão do miométrio Infecção intra-amniótica Distorção anatômica ou funcional do útero Medicações uterolíticas Polidramnia, gestação múltipla, macrossomia Trabalho de parto rápido ou prolongado, multi- paridade, uso de ocitocina Febre, rotura de membranas ovulares prolon- gada Miomatose, anormalidades uterinas As usadas para tocólise, anestésicos haloge- nados Tecido: retenção Retenção de produtos da concepção: placen- tação anormal, lobo sucenturiado, cotilédones Retenção de coágulos Placenta incompleta no delivramento, cirurgia uterina prévia, multiparidade Atonia uterina Trauma: do trato genital Laceração do colo, vagina ou períneo Extensão ou laceração na cesariana Rotura uterina Inversão uterina Parto precipitado ou operatório Mau posicionamento, insinuação profunda Cirurgia uterina prévia Multiparidade, placenta fúndica, tração exces- siva do cordão Trombina: distúrbios da coagulação Estados preexistentes: hemofilia A, doença de Von Willebrand, antecedente de hPP Adquiridas na gravidez: púrpura trombocito- pênica idiopática, trombocitopenia com pré- -eclâmpsia, coagulação intravascular dissemi- nada, hipertensão na gestação com feto morto, infecção grave descolamento de placenta, em- bolia amniótica Anticoagulação terapêutica história de coagulopatias hereditárias ou do- ença hepática Equimoses, aumento da pressão arterial, óbito fetal, febre, neutrofilia ou neutropenia, hemorra- gia anteparto, colapso súbito história de doença trombótica manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 257 20/06/2012 19:27:19 Perinatal | Manual de Perinatologia 258 PREVENÇÃO DA HPP O manejo ativo do terceiro período do parto envolve inter- venções para assistir a expulsão da placenta com o objetivo de prevenir ou diminuir a perda sanguínea. Uterotônicos Promovem contrações uterinas para prevenir atonia e au- mentar a velocidade do delivramento. Os agentes uterotô- nicos incluem a ocitocina, a ergonovina, a carbetocina, o misoprostol. Esquemas de uso na profilaxia de HPP: Ocitocina ■ 5 uI IM após o desprendimento do ombro anterior nos partos vaginais de baixo risco, ou ■ 20 a 40 uI em 1.000 mL, 150 mL/h. Ergonovina ■ 0,2 mg IM. segunda escolha para prevenção de hPP, pela maior incidência de efeitos colaterais maternos e maior necessidade de extração manual da placenta em relação à ocitocina. Relativamente contraindicado em pacientes hipertensas. Misoprostol: prostaglandina com efeito uterotônico ■ 600 a 800 µg por via oral, vaginal ou retal. Pode ser utilizada também como segunda escolha, quando a ocitocina não estiver disponível. Manejo da placenta Clampeamento do cordão: O clampeamento precoce no recém-nato a termo pode diminuir até 20 a 40 mL/kg de sangue para esse recém- -nato. Por outro lado, o procedimento tardio aumenta o volume circulatório que pode evoluir com complicações, como angústia respiratória, icterícia neonatal, e polici- temia. Nos prematuros, o clampeamento após 30 a 120 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 258 20/06/2012 19:27:19 C A P Í T U L O 2 8 | H E M O R R A G I A P Ó S - P A R T O 259 segundos diminuiu a necessidade e transfusão sanguí- nea e a hemorragia intraventricular. Nos recém-natos a termo, não houve diferença em relação à hPP, mas ocorreu maior incidência de icterícia com ne- cessidade de fototerapia. Aos seis meses essas crianças tinham ferritina e hemoglobina em níveis maiores. Recomendação: sempre que possível, atrasar o clampea- mento do cordão em um minuto nos recém-natos com menos que 37 semanas de gestação já que há menor incidência de hemorragia intraventricular e necessidade de hemotransfusão. Momento da dequitação: A dequitação placentária é essencial para a contração ute- rina e redução do sangramento pós-parto. O processo se completa em cinco minutos em 50% dos partos, e em 15 minutos em 90%. A retenção placentária é um conhecido fator de risco para HPP e é classicamente definida como a falha na dequitação por mais de 30 a 45 minutos do parto. Recomendação: não há evidência de que no parto não complicado sem sangramento, intervenções que ace- leram a dequitação para menos que 30 a 45 minutos reduzam o risco de hPP. TRATAMENTO DA HPP ESTABELECIDA A Tabela 3 resume a proposta de tratamento de hPP. Uterotônicos 1. Ocitocina a. 10 uI IM. b. 20 a 40 uI em 250 mL de solução salina, 500 a 1.000 mL/h IV manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 259 20/06/2012 19:27:19 Perinatal | Manual de Perinatologia 260 2. Misoprostol a. 800 a 1.000 µg via retal. 3. Ergonovina a. 0,25 mg IM ou IV, pode ser repetida a cada duas horas. b. relativamentecontraindicado em hipertensas e nas que usam certas medicações (exemplo: proteases para infec- ção por hIV). Tamponamento O modo mais rápido de realizar o tamponamento é pela compressão bimanual do útero. uma mão é colocada sobre o útero externamente e a outra pela vagina fazendo pressão no segmento inferior. Essa manobra pode ser mantida até que outras sejam realizadas ou que chegue ajuda. A compressão direta do útero, na situação de atonia uterina, pode ser realizada pelos mecanismos seguintes: Cateter de Bakri sOs com balão de tamponamento (ver Figura 1). Cateter esofageano de sengstaken Blakemore. Cateter de Foley com 60 a 80 mL de solução estéril. Cateter hidrostático de condom. A técnica de inserção de um cateter com balão é relati- vamente simples e eficaz para conter temporariamente o sangramento. O balão deve ser mantido por 8 a 48 horas e gradualmente desinflado para retirada. Métodos radiológicos A embolização arterial percutânea é uma opção na pa- ciente com sangramento ativo e hemodinamicamente estável, antes de uma intervenção cirúrgica. Essa téc- nica preserva o útero, os anexos, e, assim, a fertilidade. O procedimento exige disponibilidade de radiologistas intervencionistas, que não estão disponíveis na maioria dos centros. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 260 20/06/2012 19:27:22 C A P Í T U L O 2 8 | H E M O R R A G I A P Ó S - P A R T O 261 F i g u r a 1 : Cateter de Bakri SOS com balão de tamponamento Métodos cirúrgicos a ligadura das artérias ilíacas internas pode ser utilizada no sangramento por atonia uterina ou por lesão do trato genital. O momento para a realização do procedimento é importan- te, antes que haja instabilidade hemodinâmica grave. as suturas compressivas, descritas por B-Lynch e Cho, têm a vantagem de preservar o útero. ambas as técnicas envolvem a compressão externa do útero e suturas por dentro e por fora dele e amarradas de forma que a com- pressão seja mantida. É necessária a histerotomia no segmento inferior para certificação de que não há restos placentários que possam comprometer a contração efi- caz do útero (ver Figura 2). manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 261 22/06/2012 13:56:53 Perinatal | Manual de Perinatologia 262 A histerectomia periparto é indicada quando a hemorra- gia maciça não responde às manobras anteriores. Indi- cações mais frequentes incluem placenta acreta/prévia, atonia, trauma, rotura e sepse. A desvantagem é a perda da fertilidade. F I g u R A 2 : Técnica de B-Lynch de tamponamento uterino manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 262 20/06/2012 19:27:24 C A P Í T U L O 2 8 | H E M O R R A G I A P Ó S - P A R T O 263 T A B E L A 3 : Tratamento da hemorragia pós-parto Avaliação inicial e tratamento primário da HPP Etiologia Terapia direcionada Continuação do sangramento Continuação do sangramento Continuação do sangramento solicitar ajuda Ressuscitação “ABC” “Oxigênio sob máscara” Acesso venoso Cristaloides/ fluidos isotônicos Monitorização dos sinais vitais Esvaziar bexiga, avaliar débito urinário Testes laboratoriais hemograma Testes de coagulação Tipagem sanguínea e prova cruzada Útero amolecido e relaxado Atonia uterina Massagem uterina uterotônicos Compressão uterina não cirúrgica: Compres- são uterina bimanual Compres- são aórtica externa Empacota- mento uterino Tampona- mento com balão suturas com- pressivas B-Lynch Compressão vertical Embolização das artérias uterinas Ligadura arte- rial (uterina, hipogástrica) histerectomia total ou subtotal Placenta não separada Retenção placen- tária Retenção total uterotônicos Tração controlada do cordão Retenção parcial Aspiração a vácuo Exploração manual Curetagem cuidadosa Placenta ainda retida: extração manual Placenta ainda retida (acreta): Remoção da placenta por laparotomia histerectomia hemorragia logo após o parto, útero contraído Trauma do trato genital inferior Reparação do períneo, vulva e colo – – – Rotura uterina Laparotomia: reparação ou histerectomia – – – Fundo uterino não palpável no abdome ou visível na vagina Inversão uterina Correção sob anestesia se a cor- reção não cirúrgica não funcionar, manter útero contraído Cirurgia: Correção por laparotomia histerectomia Coagula- ção Distúrbios da coagulação: Tratar com hemoderivados manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 263 20/06/2012 19:27:24 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 264 20/06/2012 19:27:24 INFECÇÃO PuERPERAL CAPÍTuLO 29 Cristiane Alves de Oliveira Denise Cotrim Caracteriza-se a morbidade febril puerperal por temperatura > 38oC, observada no mínimo em quatro ocasiões diárias distintas, que persiste por mais de 48 horas e ocorre nos dez primeiros dias de puerpério, excluídas as primeiras 24 horas. Em nosso meio, a infecção puerperal é uma das principais causas de morte materna. FATORES DE RISCO A cesariana é o principal fator predisponente para o desenvolvimento de febre no puerpério (a infecção puerperal incide cinco a 30 vezes mais nos partos abdominais do que nos vaginais). manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 265 20/06/2012 19:27:24 Perinatal | Manual de Perinatologia 266 PRINCIPAIS AGENTES ETIOLÓGICOS As bactérias que habitam a pele e os intestinos e coloni- zam o períneo, vagina e cérvice uterina são as principais responsáveis pela morbidade febril puerperal. Em geral, as infecções são mistas. Aeróbios ■ Gram-positivos: Estreptococo beta-hemolítico dos gru- pos A, B e D; Staphylococcus aureus e epidermidis. ■ Gram-negativos: E. coli; Klebsiella; Enterobacter; Pro- teus; Pseudomonas. Anaeróbios ■ Gram-positivos: Peptococos; Peptoestreptococos; Clos- tridium perfringens ou welchii. ■ Gram-negativos: Bacteroides fragilis. Clamydia trachomatis; Micoplasma: Mycoplasma hominis; Ureaplasma ureali- ticum. DIAGNÓSTICO Os sinais e sintomas de infecção puerperal, tais como dor abdominal espontânea ou à palpação uterina, febre tran- sitória e leucocitose com desvio à esquerda podem estar presentes em puérperas normais. Portanto, nem sempre o diagnóstico é fácil. Importante lembrar que as puérperas acometidas de in- fecção limitada à ferida operatória (episiotomia ou cesa- riana) raramente apresentam quadro febril. Nas pacientes com morbidade febril puerperal, exames laboratoriais podem auxiliar na identificação do provável agente etiológico, na localização da infecção e na avalia- ção da gravidade do caso. Podendo incluir: ■ hemograma e hemocultura. ■ Rotina e cultura de urina. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 266 20/06/2012 19:27:25 C A P Í T U L O 2 9 | I N F E C Ç Ã O P U E R P E R A L 267 ■ Cultura de secreções aparentes. ■ Raios X de tórax e de abdome. ■ Ultrassonografia: útil na suspeita de coleções e abs- cessos. Estratégias para prevenção da infecção puerperal Limpeza das mãos. uso de material e equipamentos descartáveis. Uso de antibióticos profilático para cesariana. Uso profilático de antibióticos para ruptura prematura de membranas. Uso de antibióticos específicos para infecções estabele- cidas. Métodos clínicos de auditoria e acompanhamento das in- fecções e uso de técnicas de diagnóstico microbiológico rápido. FORMAS CLÍNICAS Infecção da ferida operatória (episiotomia, cesariana). Endometrite/endomiometrite. Parametrite. Anexite. Peritonite. Tromboflebite. Choque séptico. Infecção da ferida operatória A infecção de parede na operação cesariana não é aconte- cimento incomum, ao contrário do que se observa na epi- siotomia que, embora localizada em região contaminada, raramente se infecta. Nas infecções superficiais da ferida operatória podemos observar: manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 267 20/06/2012 19:27:25 Perinatal | Manual de Perinatologia 268 ■ Sinais e sintomas flogísticos locais: dor, rubor e calor. ■ Febre moderada ocasional. ■ secreção purulenta. Em casos raros, quando existe contaminação por Clostri- dium perfringens, a infecção pode evoluir com necrose dos tecidos afetados. Conduta higiene local com soluções antissépticas. Compressa morna no local. Prescrever anti-inflamatórios orais (AINE): Analgésicos e antitérmicos quando necessários. Antibioticoterapia Infecção sem comprometimento materno grave: tratamen- to ambulatorial e antibioticoterapia oral: ■ Cefalexina 500 mg a 1g, VO, de 6/6 h. Infecção grave: internação e antibioticoterapia parenteral: ■ Cefazolina 1 a 2 g EV de 8/8 h ou Oxacilina 1 a 2 g, EV, de 4/4 h. ■ Na suspeita de gram negativo e anaeróbio associar Clindamicina e Aminoglicosídeo: ■ Clindamicina 600 mg a 900 mg, EV, de 6/6 h e Gentamicina 240 mg, EV, 1x/dia ou dividido em três doses/dia. ■ Amicacina 500 mg, EV, 12/12 horas ou Ceftriaxone 1 a 2g, EV, de 12/12 h são outras associações pos- síveis com a Clindamicina. Não ocorrendo melhora após 48 horas de terapêutica clínica Abertura e exploração da ferida operatória sob anestesia. Lavagem exaustiva com soro fisiológico. Desbridamento do tecido necrótico. Drenagem da região afetada (dreno de Penrose). Aproximação grosseira dos planos subdérmicos, evitan- do-se oclusão da ferida operatória. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 268 20/06/2012 19:27:25 C A P Í T U L O 2 9 | I N F E C Ç Ã O P U E R P E R A L 269 Endometrite / Endomiometrite É a infecção puerperal mais prevalente. surge da coloni- zação da ferida placentária (endometrite) e, na maioria das vezes, acomete o miométrio (endomiometrite). Além da febre, estão presentes: Lóquios purulentos e com odor fétido. Útero amolecido e doloroso à palpação/mobilização. secreção purulenta quando da manipulação do colo uterino. Conduta Hemograma e bioquímica ■ Hemocultura (colher dois pares de hemocultura – aeró- bio e anaeróbio). ■ Repete-se a colheita de hemoculturas, se após 48 ho- ras de tratamento houver manutenção dos picos febris. Urinocultura: a presença de bacteriúria assintomática por enterobactéria pode indicar a participação deste micror- ganismo na infecção puerperal. hidratação venosa e perfusão de ocitocina. Ultrassonografia – avaliar cavidade uterina e pélvica (pes- quisa de restos ovulares e abscesso pélvico). ■ Quando da existência de restos ovulares, a curetagem está indicada, devendo ser praticada após iniciada a antibioticoterapia e com a paciente em uso de ocitoci- na venosa. Antibioticoterapia parenteral Gentamicina 240 mg, EV, 1 x/dia e Clindamicina 600 a 900 mg, EV, de 6/6 h. O antibiótico deverá ser interrompido após três dias do desaparecimento dos sintomas. Em casos mais graves, a antibioticoterapia poderá ser mantida por até 21 dias. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 269 20/06/2012 19:27:25 Perinatal | Manual de Perinatologia 270 Outras opções Ampicilina / sulfactam 3 g / 1 g, EV, 6/6 h. Piperacilina / tazobacatam 4,5 g, EV, 6/6 h. Azitromicina 500 mg, EV, 1x/dia ou doxiciclina 100 mg, VO, 12/12 h (em caso de cultura positiva para Chlamydia trachomatis). Não ocorrendo melhora após 48 horas de terapêutica clínica Após iniciada a medicação, a presença de febre por mais de 48 horas indica insucesso terapêutico: ■ Modificar o antibiótico segundo o antibiograma. ■ Excluir: resistência bacteriana, infecção do sítio cirúr- gico, hematomas, celulite pélvica, abscesso intracavi- tário e tromboflebite pélvica séptica. ■ A tomografia computadorizada auxilia na identificação dos diagnósticos acima. Nas pacientes refratárias ao tratamento clínico conside- rar histerectomia. Peritonite são sinais e sintomas que caracterizam a peritonite: ■ Febre alta, ≥ 40°C. ■ Taquicardia. ■ Distensão abdominal. ■ Íleo paralítico. ■ Dor intensa à descompressão abdominal súbita. ■ Dor intensa quando, ao toque vaginal, mobiliza-se o fundo-de-saco de Douglas, que pode estar abaulado (coleção purulenta). Conduta Antibioticoterapia (a mesma da Endometrite). Drenagem de abscesso do fundo-de-saco de Douglas por colpotomia. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 270 20/06/2012 19:27:26 C A P Í T U L O 2 9 | I N F E C Ç Ã O P U E R P E R A L 271 Laparotomia com histerectomia e pesquisa de outros focos abdominais nos casos de peritonite generalizada resistente à terapêutica clínica instituída. Admitir a hipótese de tromboflebite pélvica séptica asso- ciada quando persistir o quadro febril. Tromboflebite pélvica séptica Há que se admitir a hipótese de tromboflebite pélvica sép- tica sempre que a morbidade febril puerperal não regredir com a terapêutica clínica instituída. Nesses casos, é aconselhada prova terapêutica com hepa- rina que, se eficaz, leva à rápida regressão do quadro e a paciente se toma afebril em 36 horas. Conduta Antibioticoterapia (a mesma da Endometrite). Confirmar o diagnóstico com Doppler pélvico, Tomografia Computadorizada ou Ressonância Magnética Nuclear. Considerar filtro de veia cava ou ligadura do ligamento infundíbulo-pélvico em caso de complicação por embolia pulmonar. Choque séptico Quadro grave, que deve ser conduzido em Unidade de Tera- pia Intensiva (uTI), habitualmente causado por E. coli. Paradoxalmente, o útero pode ser indolor à palpação e os lóquios podem se apresentar discretos. Conduta Antibioticoterapia (a mesma da Endometrite). Investigação e drenagem de abscesso intracavitário (caso presente). Laparotomia com histerectomia e pesquisa de outros focos abdominais, nos casos de peritonite generalizada resistente à terapêutica clínica instituída. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 271 20/06/2012 19:27:26 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 272 20/06/2012 19:27:27 PROFILAXIA PARA TROMBOsE VENOsA PROFuNDA NA gEsTAÇÃO, NO PARTO E NO Pós-PARTO CAPÍTuLO 30 Carolina Mocarzel de Carvalho AVALIAÇÃO DE RISCOS PRECONCEPCIONAIS Independente de ter história prévia de trombose venosa profunda (TVP), toda a ges- tante deve ser submetida a uma avaliação individual de risco trombótico logo no iní- cio de seu pré-natal. Esse risco deverá ser reavaliado caso a paciente tenha alguma intercorrência durante a gestação que aumente o risco para trombose. A mulher grávida tem dez vezes mais risco de TVP comparado a uma mulher fora do ciclo gravídico puerperal. Toda mulher com história de trombose anterior à gestação deve ser submetida a um rastreio para trombofilias (congênitas e adquiridas), idealmente, antes da gestação. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 273 20/06/2012 19:27:32 Perinatal | Manual de Perinatologia 274 C A P Í T U L O 3 0 | P R O F I L A X I A P A R A T R O M B O S E V E N O S A P R O F U N D A N A G E S T A Ç Ã O , N O P A R T O E N O P Ó S - P A R T O T A B E L A 1 : Fatores de risco para tromboembolismo venoso na gestação e no puerpério Preexistentes Condições transitórias ou de instalação recente história prévia de tromboembolismo Trombofilias congênitas Deficiência de antitrombina Deficiência de proteína C Deficiência de proteína S Mutação no Fator V de Leiden Mutação no gene da protrombina Trombofilias adquiridas síndrome de anticorpo antifosfolipídeo Presença de anticoagulante lúpico Idade maior que 35 anos Obesidade (IMC > 30 kg/m2) tanto pré-gesta- ção como no início da gestação Paridade maior que 4 Varizes calibrosas Paraplegia Anemia falciforme Desordens inflamatórias (ex: doença inflama- tória intestinal) Desordens mieloproliferativas (ex: policitemia vera) síndrome nefrótica Obstétricas gestação múltipla uso de técnicas de reprodução assistida Pré-eclâmpsia Cesariana Trabalho de parto prolongado hemorragia pós-parto (maior que 1 litro) que necessitou de hemotransfusão Procedimentos cirúrgicos na gestação ou no puerpério Restrição ao leito após o parto Condições potencialmente reversíveis hiperêmese Desidratação síndrome hiperestímulo ovariano Infecção severa (pielonefrite, pneumonia) Repouso absoluto no leito (maior que quatro dias) Perda de grande quantidade de sangue Viagem prolongada (duração maior que quatro horas) A obesidade por si só é um fator de risco para trombose. No entanto, frequentemente a paciente obesa se movimenta menos, tem mais intercorrências clínicas ao longo da gesta- ção e possui varizes de membros inferiores. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 274 20/06/2012 19:27:33 C A P Í T U L O 3 0 | P R O F I L A X I A P A R A T R O M B O S E V E N O S A P R O F U N D A N A G E S T A Ç Ã O , N O P A R T O E N O P Ó S - P A R T O 275 DIAGNÓSTICO DE TROMBOFILIAS Cerca de 50% dos casos de tromboembolismo na gestação es- tão associados a trombofilias congênitas ou adquiridas. É de suma importância ter em mente o risco de trombose associado a cada condição e avaliar a conduta frente a uma portadora as- sintomática e uma gestante com trombofilia e história prévia de trombose. Mutação do Fator V de Leiden é um defeito primariamente hereditário autossômico dominante. A heterozigose está pre- sente em 20% a 40% das pacientes não grávidas com doen- ça tromboembólica. A homozigose para a mutação, embora rara, confere risco quase cem vezes maior para tromboembo- lismo. Mutação do gene da protrombina (g20210A) leva a uma ele- vação dos níveis circulantes de protrombina (150% a 200%) e um aumento do nível de tromboembolismo. É responsável por 17% dos casos de tromboembolismo na gestação. O ris- co real para uma grávida carreadora assintomática do gene, sem história pessoal ou forte história familiar de tromboem- bolismo é de apenas 0,5%. Nos casos de grávidas heterozi- góticas com história pessoal ou familiar, essa taxa pode ser maior que 10%. A homozigose confere um risco de trombose semelhante à mutação do fator V de Leiden. A antitrombina III (AT-III) é o maior inibidor plasmático da trombina, sendo capaz de conferir uma proteção natural contra a formação de trombos. Sua deficiência tem padrão autossômico dominante. É a mais trombogênica das trombo- filias. O risco de TVP em uma gestante com deficiência de AT-III sem história pessoal ou familiar é de 3% a 7% e, nos casos em que há história, 11% a 40%. A proteína C, em sua forma ativa, é responsável pela inativa- ção dos fatores V e VIII e ativação da fibrinólise. A proteína s é um cofator para a proteína C na neutralização do fator V ativado e na fibrinólise. Ambas as deficiências têm padrão autossômico dominante. O risco de TVP em uma gestante manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 275 20/06/2012 19:27:33 Perinatal | Manual de Perinatologia 276 C A P Í T U L O 3 0 | P R O F I L A X I A P A R A T R O M B O S E V E N O S A P R O F U N D A N A G E S T A Ç Ã O , N O P A R T O E N O P Ó S - P A R T O com uma das deficiências parece ser menor que 1% na au- sência de história pessoal ou familiar de trombose. A mutação de metilenotetraidrofolato redutase, quando as- sociada à hiper-homocisteinemia, há maior chance de trom- bose. As mutações mais frequentes (C677T e A1298C) não aumentam o risco para trombose na ausência de hiper-ho- mocisteinemia. síndrome de anticorpo antifosfolitídeo (sAAF) tem diagnós- tico clínico, de modo que a paciente deve ter uma ou mais das características trombóticas ou obstétricas dessa condi- ção. Os testes laboratoriais para anticorpo antifosfolipídeos são usados para confirmar ou refutar o diagnóstico. Fluxograma de conduta na paciente com evento trombótico prévio história de evento trombótico prévio 1) Investigação de trombofilia 2) identificação da presença de fatores de risco não recorrentes Ausência de trombofilia Presença de fator de risco não recorrente Desnecessário tratamento anteparto ou pós-parto Presença de trombofilia e/ou ausência de fatores de risco não recorrentes Trombofilias mais trombogênicas → anticoagulação plena com heparina anteparto e no pós-parto (6 a 18 semanas) Trombofilias menos trombogênicas → anticoagulação profilática com heparina anteparto e no pós-parto (6 semanas) manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 276 20/06/2012 19:27:33 C A P Í T U L O 3 0 | P R O F I L A X I A P A R A T R O M B O S E V E N O S A P R O F U N D A N A G E S T A Ç Ã O , N O P A R T O E N O P Ó S - P A R T O 277 PROFILAXIA Atualmente, as estratégias de prevenção envolvem a deambula- ção precoce, meias de compressão gradual, dispositivos de com- pressão pneumática e anticoagulantes (warfarin e heparina). T A B E L A 2 : Fármacos com ação anticoagulante Heparina não fracionada (HNF) Principais efeitos colaterais são hemorragia, osteoporose e trombo- citopenia. Trombocitopenia induzida pela heparina ocorre em 3% dos pacien- tes. A tipo I é autolimitada e não tem associação com risco aumenta- do de trombose ou hemorragia. A tipo II (imonomediada) usualmente ocorre quatro a 15 dias após o início da terapia e paradoxalmente aumenta o risco de trombose. Por esse motivo, é importante acom- panhar a contagem de plaquetas nas pacientes em uso de heparina, até o 14º dia ou até que o tratamento seja interrompido. Efeito revertido com administração de protamina. Como regra geral, 1 mg de protamina é necessário para anular 100 unidades residuais de heparina circulante. Não se deve administrar mais de 50 mg de protamina em 10 minutos. Pode ser mantido até o final da gestação. Frente ao uso de doses te- rapêuticas (anticoagulação plena) a dose deve ser suspensa 24 horas antes da indução do parto ou cesariana programada. Heparina de baixo peso molecular (HBPM) Alternativa segura ao uso de hNF. Menos efeitos colaterais. Possuem maior meia vida que a hNF. A protamina não é tão efetiva para reverter sua ação, embora possa reduzir o sangramento. Menor risco de trombocitopenia induzida. Acompanhar a contagem de plaquetas entre o 4º e o 14º dia, a cada dois a três dias. Anestesia regional é contraindicada quando doses terapêuticas de hBPM foram administradas há 18-24 h. É recomendado que seja substituída por hNF nas gestantes, a partir de 36 semanas (ou antes, se um parto prematuro é esperado). Frente ao uso de doses terapêuticas (anticoagulação plena) a dose deve ser suspensa 24 h antes da indução do parto ou cesariana programada. Cumarínicos Bloqueiam a ação dos fatores dependentes de vitamina K. Possuem efeitos teratogênicos (embriopatia warfarínica) devendo ser evitados entre seis e 12 semanas. uso cada vez mais restrito na ges- tação devido à segurança e ao fácil manejo da hBPM. Dose inicial de 5 mg a 10 mg. Avaliar INR dois dias após início da terapia (usualmente deseja-se que este esteja entre 2.0 e 3.0). O efeito máximo ocorre após 72 horas. Efeito pode ser revertido com a administração devitamina K (com 5 mg vitamina K o INR normaliza em seis horas). Plasma fresco pode ser utilizado para se obter uma reversão imediata. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 277 20/06/2012 19:27:33 Perinatal | Manual de Perinatologia 278 C A P Í T U L O 3 0 | P R O F I L A X I A P A R A T R O M B O S E V E N O S A P R O F U N D A N A G E S T A Ç Ã O , N O P A R T O E N O P Ó S - P A R T O Indicações de anticoagulação A HBPM é o agente de escolha para a profilaxia antena- tal por ser tão efetiva quanto a HNF, porém, mais segura. A anticoagulação adequada será instituída após estratifica- ção do risco da paciente. Fluxograma de estratificação de risco da paciente Avaliação do risco Anamnese + exame clínico. Analisar presença dos fatores de risco. Repetir avaliação de risco sempre que houver alguma mudança no quadro clínico. Risco Muito Alto TVP recorrente e/ou trombofilias com alto risco de trombose (deficiência de antitrombina ou SAAF). Geralmente já iniciarão o pré-natal anticoaguladas e merecem que o esquema seja mantido com altas doses de HBPM antenatal e por pelo menos 6 semanas após o parto. Merecem acompanhamento em conjunto com hematologistas/ reumatologistas. Risco Intermediário História de TVP provocada por fator transitório que não está mais presente e não existem outros fatores de risco na gestação atual. Acompanhamento clínico/ obstétrico rigoroso. Somente anticoagulação profilática com HBPM no pós-parto (6 semanas). Na presença de algum fator de risco na gestação atual (Tabela 1), considerar anticoagulação profilática antenatal. Risco Alto História de TVP idiopática ou TVP relacionada a uso de estrogênio. Mais Presença de fatores de risco familiares (TVP em parente de 1º grau/trombofilia documentada). Iniciar anticoagulação com HBPM antenatal e por 6 semanas após o parto. manual-perinatologia_magic-rm_120621.indd 278 22/06/2012 11:32:18 C A P Í T U L O 3 0 | P R O F I L A X I A P A R A T R O M B O S E V E N O S A P R O F U N D A N A G E S T A Ç Ã O , N O P A R T O E N O P Ó S - P A R T O 279 Deve ser considerada anticoagulação profilática em pacien- tes com três ou mais fatores de risco para trombose (ver Tabela 1). Casos de trombose prévia devido a fator de risco não re- corrente (ex: cirurgia ortopédica, trauma, repouso absoluto prolongado) e na ausência de outros fatores de risco para trombose no início da gestação, é recomendado um acom- panhamento rigoroso, porém, a anticoagulação de rotina não é obrigatória. Casos de trombose prévia recorrente, quadros iniciados de- vido ao uso de estrogênios ou trombose na gestação anterior e parente de primeiro grau com história de trombose (ou com trombofilia documentada) deve ser oferecida anticoa- gulação profilática com HBPM. Possíveis cenários Mulheres com UM episódio de trombose prévia e SEM diagnóstico de trombofilias A anticoagulação durante a gestação não é necessária, exceto na presença de outros fatores de risco associados (exemplo: trauma, repouso absoluto). Anticoagulação profilática até seis semanas após o parto. Mulheres com MAIS DE UM episódio de trombose prévia ou as com somente UM episódio de trombose prévia com parente de primeiro grau com história de trombose ou história de trombose em locais pouco comuns (ex: veia axilar) + SEM diagnóstico de trombofilias Anticoagulação profilática durante a gestação. Anticoagulação profilática até seis semanas após o parto. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 279 20/06/2012 19:27:34 Perinatal | Manual de Perinatologia 280 C A P Í T U L O 3 0 | P R O F I L A X I A P A R A T R O M B O S E V E N O S A P R O F U N D A N A G E S T A Ç Ã O , N O P A R T O E N O P Ó S - P A R T O Possíveis cenários Mulheres COM história de trombose prévia + COM diagnóstico de trombofilia A maior parte dessas pacientes já inicia o pré-natal em uso de anticoagulantes e estes deverão ser mantidos. são pacientes com maior chance de desenvolvimento de trombose ao longo da gestação, sendo o risco específico para cada trombofilia. Distúrbio Aumento do risco evento trombótico venoso Mutação do Fator V de Leiden (heterozigoto) 3 a 8 vezes Mutação do gene da protrombina (g20210A) 3 vezes Antitrombina III (AT-III) 25 a 50 vezes Proteína C 10 a 15 vezes Proteína s 2 vezes hiper-homocisteinemia 2,5 vezes com níveis acima de 18,5 micromol/L e de três a quatro vezes com níveis acima de 20 micromol/L. Evidências atuais sugerem (no caso da paciente não estar fazendo uso de an- ticoagulante no início da gestação). Anticoagulação profilática durante a gestação. Anticoagulação profilática até seis semanas após o parto. Existem recomendações que propõem doses mais elevadas de heparina (an- ticoagulação plena) para as pacientes com trombofilias com maior risco de trombose, como a deficiência de antitrombina. Paciente SEM história de trombose prévia + COM trombofilia São pacientes que em geral fazem o diagnóstico de trombofilia em função de rastreio realizado devido à identificação de alguma trombofilia em um membro da família. O risco de trombose varia com o tipo de trombofilia. Cada caso deve ser avaliado isoladamente; deve-se traçar a conduta com base no risco específico associado à trombofilia que a paciente possui (mesmo sendo assintomática). A deficiência de antitrombina é a condição associada a maior risco de trombose durante a gestação. Mesmo as pacientes assintomáticas merecem anticoagulação durante a gestação e o puerpério. Mulheres assintomáticas com deficiência de proteína C ou proteína S têm risco oito vezes maior de trombose venosa profunda na gestação, no entanto, a maior parte dos eventos ocorre no puerpério. Mulheres homozigotas para a mutação do fator V de Leiden têm alto risco de trombo- se (RR=41.3). As pacientes heterozigotas para a mutação são consideradas de baixo risco (risco de 1,2% de trombose da gestação). Mesmo nas pacientes que não tiveram indicação de anticoagulação durante a gesta- ção, é indicada a anticoagulação profilática no pós-parto, por seis semanas. > > manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 280 20/06/2012 19:27:34 C A P Í T U L O 3 0 | P R O F I L A X I A P A R A T R O M B O S E V E N O S A P R O F U N D A N A G E S T A Ç Ã O , N O P A R T O E N O P Ó S - P A R T O 281 T A B E L A 3 : Esquemas profiláticos e terapêuticos da heparina de baixo peso molecular, via subcutânea* T A B E L A 4 : Esquemas profiláticos e terapêuticos da heparina não fracionada, via subcutânea Enoxaparina (100 units/mg) Dalteparina Profilaxia Peso corporal normal (50-90 kg) Peso < 50 kg Peso > 90 kg 40 mg 20 mg 40 mg 12/12 h 5.000 uI uma vez ao dia 2.500 uI uma vez ao dia 4.500 uI 12/12 h Dose profilática elevada 40 mg 12/12 h 4500 uI 12/12 h Dose terapêutica 1 mg/kg 12/12 h 90 uI/kg 12/12 h Heparina não fracionada Dose profilática 5.000 uI a 7.500 uI 12/12 h no 1º trimestre. 7.500 uI a 10.000 uI 12/12 h nos 2º e 3º trimestres. Dose terapêutica 7.500 uI a cada 8-12 h. Ajuste feito em função do acompanha- mento do PTT. *Royal College of Obstetricians and gynaecologists manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 281 20/06/2012 19:27:34 Perinatal | Manual de Perinatologia 282 C A P Í T U L O 3 0 | P R O F I L A X I A P A R A T R O M B O S E V E N O S A P R O F U N D A N A G E S T A Ç Ã O , N O P A R T O E N O P Ó S - P A R T O DIAGNÓSTICO DE TVP NA GESTAÇÃO Na suspeita clínica de TVP ou TEP, deve ser iniciada hBPM em doses terapêuticas até que o diagnóstico possa ser ex- cluído. A ultrassonografia com Doppler deve ser realizadana sus- peita de TVP. Caso o exame não apresente achados sugesti- vos de tal complicação e haja uma suspeita clínica fraca, o tratamento com anticoagulação pode ser suspenso. Diante da confirmação da TVP pela ultrassonografia com Do- ppler, a anticoagulação deverá ser mantida. Nos casos em que o exame de imagem não confirma a desordem, porém o exame clínico é muito sugestivo, o tratamento deverá ser mantindo e a paciente reavaliada em uma semana. O trata- mento poderá ser suspenso caso no segundo exame mante- nha ausência de evidências de trombose. DIAGNÓSTICO DE TROMBOEMBOLISMO PULMONAR (TEP) NA GESTAÇÃO Devem ser realizados, pelo menos, radiografia de tórax, ul- trassonografia com Doppler de membros inferiores. Caso ambos os testes sejam negativos e haja suspeita clínica de TEP agudo, pode ser realizada cintilografia de ventilação- -perfusão. Nos casos de TEP maciço, uma equipe clínica experiente deve ser contactada. heparina não fracionada venosa, agen- tes trombolíticos ou procedimentos cirúrgicos (toracotomia ou embolectomia cirúrgica) podem ser realizados. hNF venosa é o tratamento de escolha nos casos de TEP com compromentimento cardiovascular. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 282 20/06/2012 19:27:35 C A P Í T U L O 3 0 | P R O F I L A X I A P A R A T R O M B O S E V E N O S A P R O F U N D A N A G E S T A Ç Ã O , N O P A R T O E N O P Ó S - P A R T O 283 PROFILAXIA APÓS O PARTO As pacientes devem se estimuladas a se movimentarem ao longo do trabalho de parto e no pós-parto. A desidratação deve ser evitada. Pacientes com dois ou mais fatores de risco persisten- tes devem ser avaliadas quanto à anticoagulação profi- lática por sete dias após o parto. Após cesariana de urgência ou cesariana eletiva em pa- cientes com um ou mais fatores de risco (idade maior que 35 anos, IMC maior que 30) deve ser feita anticoa- gulação profilática por sete dias após o parto. Todas as pacientes com trombofilias (congênita ou adqui- rida) devem receber anticoagulação profilática pelo me- nos por sete dias após o parto, mesmo que não tenham realizado anticoagulação antenatal. Esse período pode ser estendido para seis semanas em caso de história familiar positiva e na presença de demais fatores de risco. Warfarina e heparina são medicações seguras no pós- -parto. Na presença de internação prolongada devido a inter- corrências clínicas no pós-parto como a infecção de pa- rede, a profilaxia pode ser estendida. As pacientes com obesidade classe III (IMC maior que > 40 kg/m2) devem ser avaliadas quanto à anticoagula- ção profilática por sete dias após o parto. CONTRAINDICAÇÕES PARA TROMBOPROFILAXIA COM HBPM Presença de sangramento ativo (na gestação ou pós-parto). Paciente com risco elevado de hemorragia importante (ex: placenta prévia). Pacientes com Doença de Von Willebrand, hemofilia ou coagulopatia adquirida. Presença de contagem de plaquetas inferior a 75.000. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 283 20/06/2012 19:27:35 Perinatal | Manual de Perinatologia 284 C A P Í T U L O 3 0 | P R O F I L A X I A P A R A T R O M B O S E V E N O S A P R O F U N D A N A G E S T A Ç Ã O , N O P A R T O E N O P Ó S - P A R T O Acidente vascular cerebral (isquêmico ou hemorrágico) a menos de quatro semanas. Doença renal severa (taxa de filtração glomerular menor que 30 ml/minuto/1,73 m2). hepatopatia severa (TAP alargado ou presença de vari- zes). hipertensão arterial sistêmica grave e não controla- da (PAs maior que 200 mmhg e PAD maior que 120 mmhg). RESUMO O obstetra, juntamente com a equipe clínica, deve estar atento às condições de risco para eventos trombóticos du- rante a gestação, tendo em vista o alta morbidade e mor- talidade desta condição. uma avaliação adequada garante segurança à gestação. Estratificar as pacientes com risco elevado de trombose e instituir medidas profiláticas/terapêuticas tem grande im- portância para o desfecho da gestação. A paciente deve ser estratificada quantas vezes for necessário ao longo da gesta- ção. A cada intercorrência clínica o risco de trombose deve ser reavaliado. um caso de baixo risco no primeiro trimestre pode tornar-se de alto risco com o decorrer da gestação. Observe o esquema a seguir. Gestação Condição dinâmica Necessidade de constante REAVALIAÇÃO dos fatores de risco para trombose. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 284 20/06/2012 19:27:35 C A P Í T U L O 3 0 | P R O F I L A X I A P A R A T R O M B O S E V E N O S A P R O F U N D A N A G E S T A Ç Ã O , N O P A R T O E N O P Ó S - P A R T O 285 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 285 20/06/2012 19:27:35 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 286 20/06/2012 19:27:35 Cap. 1 - Preconcepção 1. Comissão Nacional Especializada em ginecologia e Obstetrícia: Perinatologia. Manual de Orien- tação Perinatologia. Febrasgo, 2010. 2. American College of Obtetricians and gynecologists. ACOg Committe opinion no.313. The im- portance of preconceptional care in the continuum of women’s health care. Obstet Gynecol. 2005, Vol. 106, 665-6. 3. Johnson K, Posner sF, Biermann J, Cordero JF, Atrash hK, Parker Cs, Boulet s, Curtis Mg, group, CDC/ATsDR Preconception Care Work and Care. select Panel on Preconception. Recom- mendations to improve preconception health and health care – united states. MMWR Recomm Rep. 2006, Vol. 21, 55(RR-6):1-23. Cap. 2 - Assistência pré-natal 1. Chaves Netto, hermógenes e sá, Renato Augusto Moreira de. Obstetrícia básica (edição revista e atualizada). são Paulo: Atheneu, 2007. 2. Brasil. Ministério da saúde. Assistência pré-natal. Manual Técnico. Brasília, 2000. 3. Febrasgo. Assistência pré-natal. Manual de orientação. Rio de Janeiro, 2007. Cap. 3 - Protocolo de imunização da gestante e da puérpera 1. ACIP. guidance for Vaccine Recommendations in Pregnant and Breastfeeding Women. Disponí- vel em: http://www.cdc.gov/vaccines/recs/acip/rec-vac-preg.htm. Acesso em 15/08/2011. 2. CDC. guidelines for Vaccinating Pregnant Women. Disponível em: http://www.cdc.gov/vaccines/ pubs/preg-guide.htm. Acesso em 15/08/2011. 3. sociedade Brasileira de Imunizações (sBIm). Calendário de vacinação da mulher 2011. 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EuA: Mcgraw-hill, 2009. 289 L E I T u R A C O M P L E M E N T A R manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 289 20/06/2012 19:27:35 3. gabbe, steven g. Obstetrics: Normal and Problem Pregnancies. 5 ed. Churchill Livingstone, 2007. 4. sOgC Clinical Practice guideline n. 206. Diagnosis, Evaluation and Management of the hyper- tensive Disorders of Pregnancy. Journal of Obstetrics and gynaecology of Canada, March 2008. 5. ACOg Practice Bulletin n. 33. Diagnosis and Management of Preeclampsia and Eclampsia. Obs- tetrics & gynecology, January 2002. 6. sibai, Baha; Dekker, gus; Kupferminc, Michael. Pre-eclampsia. Lancet, February 26, 2005. Vol. 365. 7. sibai, Baha. Diagnosis, Prevention and Management of Eclampsia. Obstetrics & gynecology, February 2005. Vol. 105, n. 02. Cap. 13 - Anemais na gestação 1. Beucher G, Grossetti E, Simonet T, Leporrier M, Dreyfus M. Iron deficiency anemia and pregnancy. Prevention and treatment. J gynecol Obstet Biol Reprod (Paris).2011May;40(3):185-200. 2. 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Manual de Orientação Perinatologia Febrasgo, 2010. 2. Leduc DL, senikas V, Lalonde AB. Active management of the third stage of labour: prevention of postpartum hemorrhage. sOgC Clinical Practice guideline. JOgC.2009;980-93. 3. Mathai M, gulmezoglu AM. Postpartum hemorrhage and retained placenta. WhO guideline. geneva: World health Organization; 2009. 4. Prendville WJ, Elbourne D, McDonald s. Active versus expectant management in the third stage of labour. Cochrane Database syst Rev. 2000;(3):CD000007. 5. World health Organization. Recommendations for the prevention of postpartum hemorrhage. geneva:WhO; 2007. Cap. 29 - Infecção puerperal 1. Chaves Netto, hermógenes e sá, Renato Augusto Moreira de. Obstetrícia básica (edição revista e atualizada). são Paulo,Atheneu, 2007. 2. Febrasgo. Manual de orientação assistência ao abortamento, parto e puerpério. Febrasgo, 2010. Cap. 30 - Profilaxia para trombose venosa profunda na gestação, no parto e no pós-parto 1. James Ah, grotegut CA, Brancazio LR et al. Thromboemoblism in pregnancy: recurrence and its prevention. semin Perinatol. 2007;31:167–175. 2. ACOg Practice Bulletin #84, Clinical Management guidelines for Obstetrican-gynecologists. Preven- tion of deep vein thrombosis and pulmonary embolism. Obstet gynecol, August 2007;110(2),Part 1;429-440. 3. National Clinical guideline Centre – Acute and Chronic Conditions. Venous Thromboembolism: Re- ducing the Risk of Venous Thromboembolism (Deep Vein Thrombosis and Pulmonary Embolism) in Patients Admitted To hospital. London: NCgCACC at the Royal College of surgeons of England; in press (due for publication January 2010). Clinical guideline. Disponível em: [www.nice.org.uk/ guidance/index.jsp?action=folder&o=45821]. 4. Royal College of Obstetricians and gynaecologists. Thromboembolic Disease in Pregnancy and the Puerperium: Acute Management. green-top guideline n. 37. London: RCOg; 2009. 295 L E I T u R A C O M P L E M E N T A R manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 295 20/06/2012 19:27:36 Este livro foi composto com a família tipográfica Trade Gothic. Títulos corpo 21/25,2, texto 10,5/13. Impresso na Walprint Gráfica e Editora. Rio de Janeiro, julho de 2012. manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 296 20/06/2012 19:27:37 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 297 20/06/2012 19:27:37 manual-perinatologia_magic-rm_120619.indd 298 20/06/2012 19:27:37