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18/11/2015
1
Professora Vanessa Alves
NÍVEIS DE SIGNIFICAÇÃO DAS PALAVRAS:
DENOTAÇÃO E CONOTAÇÃO
 DENOTAÇÃO - Consiste em utilizar a palavra no seu
sentido original, em estado primeiro de dicionário. A
denotação aproxima a palavra da essência do objeto
que ela buscou primordialmente expressar.
 CONOTAÇÃO - Consiste em atribuir novos
significados ao valor denotativo. A conotação
aproxima a apalavra da percepção do sujeito que a
observa, dando-lhe um valor subjetivo.
Comparação: estabelece uma equivalência explícita
entre um comparante e um comparado, por meio de
um termo de comparação, que pode ser uma palavra
ou locução.
Ex1: A vida é COMO uma grande escola.
Ex2:O concurso público é TAL QUAL um campo de
batalha.
Metáfora: é uma comparação implícita, ou seja, não
possui o termo comparativo. Baseia-se numa
associação de ideias subjetivas: uma palavra deixa o
seu contexto normal para fazer parte de outro
contexto.
Ex: “Veja bem, nosso caso
É uma porta entreaberta”
(Gonzaguinha- Grito de Alerta)
Ex: “Meu pensamento é um rio subterrâneo”.
(Fernando Pessoa)
18/11/2015
2
 Metonímia: é a utilização de uma palavra por outra.
Essas palavras mantêm-se relacionadas de várias
formas:
Ex1: O autor pela obra: Você já leu Camões (algum
livro de Camões)?
Ex2: A parte pelo todo: Eles não têm teto onde se
abrigar (teto= casa)
Perífrase (ou Antonomásia): emprego de palavra ou
expressão designativa da qualidade do ser, em vez do nome
do ser:
Ex1: O Poeta dos Escravos morreu na flor dos anos. (Castro
Alves)
Ex2: O Rei do Futebol já fez mais de mil golos (Pelé-Edson
Arantes do Nascimento).
 Antítese: é a aproximação de palavras ou expressões
que exprimem ideias contrárias, adversas.
Ex1: Amamos, vagamente surpreendidos
Pelo ardor com que estávamos unidos
Nós que andávamos sempre separados.
(Vinícius de Moraes)
Ex2: “Como eram possível beleza e horror, vida e morte
harmonizarem-se assim no mesmo quadro?”
(Érico Veríssimo)
 Eufemismo: é uma maneira de, por meio de palavras
mais polidas, tornar mais suave e sutil uma
informação de cunho desagradável e chocante.
Ex1: Infelizmente ele se foi (em vez de ele morreu).
 Gradação: é a maneira ascendente ou descendente
como as idéia podem ser organizadas na frase.
Ex1: “O primeiro milhão possuído excita, acirra,
assanha a gula do milionário” (Olavo Bilac)
18/11/2015
3
 Hipérbole: modo exagerado de exprimir uma idéia.
Ex1: “Queria gritar setecentas mil vezes”.
Como são lindos, como são lindos os burgueses...
(Caetano Veloso – podre poderes)
 Prosopopéia (ou personificação): é a atribuição de
características humanas a seres não humanos.
“A lua”,
Tal qual a dona de um bordel,
Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel.
E nuvens,
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas”
(João Bosco e Aldir Blanc - O bêbado e a equilibrista)
 Paradoxo: é uma afirmação que subverte as idéias,
apresentando fatos que mantêm relações
incompatíveis entre si.
Ex.: Amor é fogo que arde sem se ver
È ferida que dói e não se sente.
1. Leia o trecho da música Catavento e Girassol, de
Guinga e Aldir Blanc, e responda a questão
seguinte.
“Meu catavento tem dentro o que há do lado de fora
do teu girassol. Entre o escancaro e o contido, eu te
pedi sustenido e você riu bemol.”
A figura de linguagem predominante nesses versos é
A) antítese.
B) comparação.
C) eufemismo.
D) metáfora.
E) pleonasmo
A novidade veio dar à praia,
na qualidade rara de sereia
Metade o busto de uma deusa Maia,
metade um grande rabo de baleia
A novidade era o máximo,
do paradoxo estendido na areia
Alguns a desejar seus beijos de deusa
Outros a desejar seu rabo prá ceia
Ó mundo tão desigual,
tudo é tão desigual, ô ô ô ô ô
De um lado este carnaval,
de outro a fome total, ô
18/11/2015
4
E a novidade que seria um sonho,
o milagre risonho da sereia
Virava um pesadelo tão medonho,
ali naquela praia, ali na areia
A novidade era a guerra
entre o feliz poeta e o esfomeado
Estraçalhando uma sereia bonita,
despedaçando o sonho prá cada lado
(Gilberto Gil – A Novidade)
2. Gilberto Gil em seu poema usa um procedimento
de construção textual que consiste em agrupar ideias
de sentidos contrários ou contraditórios numa
mesma unidade de significação.
A figura de linguagem acima caracterizada é:
a) Metonímia
b) Paradoxo
c) Hipérbole
d) Sinestesia
e ) Gradação
3. A figura de linguagem empregada nos versos em destaque
é:
“Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável)
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!”
a) clímax
b) eufemismo
c) paradoxo
d) catacrese
e) pleonasmo.
ABORDAGEM DE TEMAS METAFÓRICOS/ FILOSÓFICOS
Todo tema metafórico/filosófico, na verdade, é um tema
social que foi abordado numa linguajem figurada, conotativa.
Decodifique as ideias expressas nos textos abaixo.
18/11/2015
5
1. Cidade prevista
Irmãos, cantai esse mundo
que não verei, mas virá
um dia, dentro em mil anos,
talvez mais... não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas nem quartéis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver,
mas nesse jeito a variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casas sem armadilha,
um país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
nem vosso ainda, poetas.
Mas ele será um dia
o país de todo homem.
(Carlos Drummond de Andrade, Poesia e prosa, Rio de Janeiro : Nova Aguilar, 1992, p. 158-159)
2. CÉREBRO ELETRÔNICO
O cérebro eletrônico faz tudo
Faz quase tudo
Faz quase tudo
Mas ele é mudo.
O cérebro eletrônico comanda
Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda
Só eu posso pensar
Se Deus existe
Só eu posso chorar quando estou triste
Eu cá com meus botões
De carne e osso
Eu falo e ouço
Eu penso e posso
Eu posso decidir
Se vivo ou morro por que
Porque sou vivo
Vivo pra cachorro e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
No meu caminho inevitável para a morte
Porque sou vivo e sei
Que a morte é nosso impulso primitivo e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Com seus botões de ferro e seus
Olhos de vidro.
Autor: Gilberto Gil
18/11/2015
6
3. Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?
 Cecília Meireles
4. HOJE
Nas noites de verão, ou todas as noites, depois do jantar, o pai
abandona a mesa. Ainda com a xícara de café na mão, ele se
dirige à caixa quadrada. A deusa dos raios azulados espera o
toque. O lugar principal é para o pai. Ninguém conversa. Não
há o que falar. O pai não traz nada da rua, do dia-a-dia, do
escritório. Os filhos não perguntam, estão proibidos de
interromper. A mulher mergulha na telenovela, no filme.
Todos sabem que não virá visita. E se vier alguma, vai chegar
antes da telenovela. Conversas esparsas durante os
comerciais. A sensação é que basta estar junto. Nada mais.
Silenciosa, a família contempla a caixa azulada. Os olhos
excitados, cabeças inflamadas. Recebendo, recebendo.
Enquanto o corpo suportar, estarão ali.
Depois tocarão o botão e a deusa descansará. Então, as
pessoas vão para as camas, deitam e sonham. Com as coisas
vistas. Sempre vistas através da caixa. Nunca sentidas ou
vividas. Imunizadas que estão contra a própria vida.
 Ignácio de Loyola Brandão
5. Eu, Etiqueta
Em minha calça está grudado um nome, que não é meu de batismo
ou de cartório, um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca, nessavida, em minha camiseta, a marca de cigarro que não fumo, até
hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto que nunca experimentei, mas são
comunicados a meus pés. Meu tênis é proclama colorido de alguma
coisa não provada, por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu lençol, meu chaveiro, minha gravata e cinto e
escova e pente, meu copo, minha xícara, minha toalha de banho e
sabonete, meu isso, meu aquilo, desde a cabeça ao bico dos
sapatos, são mensagens, letras falantes, gritos visuais, ordens de
uso, abuso, reincidências, costume, hábito, premência,
indispensabilidade, e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda!!!.
É duro andar na moda, ainda que a moda seja negar minha
Agora sou anúncio, ora vulgar ora bizarro, em língua nacional
ou em qualquer língua (Qualquer principalmente), e nisto me
comprazo, tiro glória de minha anulação.
Não sou – vê-lá – anúncio contratado. Eu é que mimosamente
pago para anunciar, para vender em bares, festas, praias,
piscinas, e bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que
desiste de ser veste e sandália de uma essência tão viva,
independente, que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais, tão minhas que no rosto
se espelhavam e cada gesto, cada olhar, cada vinco da roupa.
Sou gravado de forma universal, seio da estamparia, não de
casa, da vitrine me tiram, recolocam, objeto pulsante mas
objeto que se oferece como signo de outros objetos estáticos,
tarifados. Por me ostentar assim, tão orgulhoso de ser não Eu,
mas artigo industrial, peço que meu nome retifiquem. Já não
me convém o título de homem. Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.
Carlos Drummond de Andrade
18/11/2015
7
É duro andar na moda, ainda que a moda seja negar minha
identidade, trocá-la por mil, açambarcando todas as marcas
registradas, todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser Eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim mesmo, ser pensante sentinte e
solitário com outros seres diversos e conscientes de sua humana,
invencível condição.
Agora sou anúncio, ora vulgar ora bizarro, em língua nacional ou
em qualquer língua (Qualquer principalmente), e nisto me
comprazo, tiro glória de minha anulação.
Não sou – vê-lá – anúncio contratado. Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender em bares, festas, praias, piscinas, e bem
à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste de ser veste e
sandália de uma essência tão viva, independente, que moda ou
suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher, minhas
idiossincrasias tão pessoais, tão minhas que no rosto se espelhavam
e cada gesto, cada olhar, cada vinco da roupa.
Sou gravado de forma universal, seio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam, objeto pulsante mas objeto que se
oferece como signo de outros objetos estáticos, tarifados. Por me
ostentar assim, tão orgulhoso de ser não Eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem. Já não me convém o título de
homem. Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.
Carlos Drummond de Andrade
6. A PRECE DA ÁRVORE
Ser humano,
protege-me!
Junto ao puro ar
da manhã ao crepúsculo,
eu te ofereço
aroma, flores, frutos e sombra!
Se ainda assim não te bastar,
curvo-me e te dou
proteção para teu ouro,
pinho para tua nota,
teto para teu abrigo,
lenha para teu calor,
mesa para teu pão,
leito para teu repouso,
apoio para teus passos,
bálsamo para tua dor,
altar para tua oração
e te acompanharei até à morte...
Rogo-te: Não me maltrates!
Walter Rossi
7. O Bicho
Vi ontem um bicho
na imundície do pátio
catando comida entre os detritos.
Quando encontrava alguma coisa,
não examinava, nem cheirava,
engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
não era um gato,
não era um rato.
O bicho, meu Deus,
era um homem.
18/11/2015
8
EXERCÍCIOS PROPOSTOS
Velha Chácara
“A casa era por aqui...
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.
Ah quanto tempo passou!
( Foram mais que cinqüenta anos)
Tantos que a morte levou!
(E a vida...nos desenganos...)
A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...
Mas o menino ainda existe.
(Manuel Bandeira)
EXERCÍCIOS PROPOSTOS
Velha Chácara
“A casa era por aqui...
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.
Ah quanto tempo passou!
( Foram mais que cinqüenta anos)
Tantos que a morte levou!
(E a vida...nos desenganos...)
A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...
Mas o menino ainda existe.
(Manuel Bandeira)
1. O tema ou assunto do poema é
(A) amor pela cidade onde nasceu.
(B) alegria de reencontrar a casa de sua infância.
(C) saudades do tempo de criança.
(D) a casa de sua infância continua como era.
(E) saudades da cidade onde nasceu.
2. Escolha a alternativa que interpreta melhor o verso “Mas o
menino ainda existe.”, segundo a leitura do poema “Velha
Chácara”
(A) o menino ainda mora na chácara.
(B) o menino existe nas lembranças do homem.
(C) o homem quer ser criança.
(D) o menino visita a casa em que nasceu.
(E) o homem não quer ser adulto.
“Rua dos Cataventos”
“Dorme, ruazinha...É tudo escuro...
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos
Dorme...Não há ladrões, eu te asseguro...
Nem guardas para acaso persegui-los
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos...
O vento está dormindo na calçada
O vento enovelou-se como um cão...
Dorme, ruazinha...Não há nada...
Só os meus passos...mas tão leves são
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração...
(Mário Quintana)

18/11/2015
9
3. Leia o poema com atenção e assinale a alternativa que exprime melhor
os sentimentos do autor.
(A) Saudade e tristeza.
(B) Ternura e carinho.
(C) Amor e sofrimento.
(D) Revolta e mágoa.
(E) Tristeza e sofrimento.
4. Existe um verso no poema anterior em que o autor faz referência à sua
morte. Assinale sua comprovação.
(A) “Dorme o teu sono sossegado e puro,”
(B) “Dorme, ruazinha... É tudo escuro...”
(C) “E nos meus passos, quem é que pode ouvi-los?”
(D) “Os da minha futura assombração...”
(E) “Só os meus passos...Mas tão leves são”

A CASA VIAJA NO TEMPO
Volto, como antigamente, a esta grande casa amiga, na noite de
domingo. Recuso, com o mesmo sorriso, a batida que a dona da casa
me oferece, e tomo a mesma cachacinha de sempre. O dono da casa
é o mesmo, a cachaça é a mesma, a casa, eu... E tantas vezes vim
aqui que não tomo consciência das coisas que mudaram.
Sento-me, por acaso, ao lado de uma jovem senhora, amiga da
família, e a conversa é tranqüila e morna. Mas, de repente, a
propósito de alguma coisa, ela diz que se lembra de mim há muito
tempo. “Você vinha às vezes jantar, sempre assim, de paletó e sem
gravata. Sentava calado, com a cara meio triste, um ar sério. Eu me
lembro muito bem. Eu tinha seis anos...”
Seis anos! Certamente não me recordo dessa menina de seis anos;
a casa sempre esteve cheia de meninas e mocinhas, há pessoas que
eu conheço de muitos domingos através de muitos anos, e das quais
nem sequer sei o nome. Pessoas que para mim fazem parte desta
casa e desses domingos, visitando esta casa.
(...)
Inutilmente procuro reconstituir a menina de seis anos que
me olhava na mesa e me achava triste. E não faço a menor
idéia do que ela soube ou viu a meu respeito durante esses
inumeráveis domingos. Certamente fui sempre, para ela, uma
figura constante, mas vaga – um senhor feio e quieto, que ela
se acostumou a ver distraidamente de vez em quando – às
vezes com um ano ou mais de intervalo, que viaja e reaparece
coma mesma cara e o mesmo jeito. Tomo consciência de que é
a primeira vez que conversamos os dois, ao fim de tantos anos
de vagos “boa-noite” e “como vai?”, mas nossa conversa
tranqüila e trivial me emociona de repente quando ela diz “eu
tinha seis anos...”
Penso em tudo o que vivi nestes anos – tanta coisa tão intensa que
veio e se foi – e penso na casa, no dono da casa, na família, na gente
que passou por aqui. A casa não é mais a mesma, a casa não é mais
casa, é um grande navio que vai singrando o tempo, que vai
embarcando e desembarcando gente no porto de cada domingo:
dentro em pouco outra menina de seis anos, filha dessa menina,
estará sentada na mesma sala, sob a mesma lâmpada, e com seus
dois olhinhos pretos verá o mesmo senhor calado, de cara triste – o
mesmo senhor que numa noite de domingo, sem o saber, se
despedirá para sempre e irá para o remoto país onde encontrará
outras sombras queridas ou indiferentes que aqui viveram também
suas noites de domingo – e não voltaram mais.
(Rubem Braga)
18/11/2015
10
1. Segundo o autor do texto, ele não nota as mudanças
da casa que frequenta porque:
a) procura preservar na memória como eram as coisas
antigamente;
b) sempre gostou das coisas como eram;
c) mentalmente atua como se o tempo não existisse;
d) tais mudanças de fato não ocorreram;
e) visita a casa com muita assiduidade e não se apercebe das
mudanças.
2. No final da crônica, o autor do texto compara a casa a
um navio; essa comparação é feita com base numa
semelhança entre esses dois elementos, que é:
a) o fato da grandiosidade da casa permitir a presença de
muita gente;
b) a circunstância de a casa ser freqüentada por pessoas de
diversas idades;
c) a presença constante do cronista na casa nas noites de
domingo;
d) a transitoriedade de muitas pessoas que freqüentam a
casa;
e) as mudanças constantes da aparência da casa.
Profundamente
“Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
[...]
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.” Manuel Bandeira, Libertinagem
18/11/2015
11
3. No conhecido poema de Bandeira, aqui parcialmente
reproduzido, a experiência do afastamento da festa de São
João
a) É de ordem subjetiva e ocorre, primordialmente, no plano
do sonho e da imaginação.
b) Reflete, em chave saudosista, o tradicionalismo que
caracterizou a geração modernista de 1922.
c) Se dá predominantemente no plano do tempo e encaminha
uma reflexão sobre a transitoriedade das coisas humanas.
d) Assume feição abstrata, na medida em que evita assimilar
os dados da percepção sensível, registrados pela visão e
pela audição.
e) É figurada poeticamente segundo o princípio estético que
prevê a separação nítida de prosa e poesia.
O AÇÚCAR
O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.
Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da
mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
(...)
Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
Ferreira Gullar. Toda Poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p. 227-8.
4. O antagonismo que configura uma imagem da divisão
social do trabalho na sociedade brasileira é expresso
poeticamente na oposição entre a doçura do branco
açúcar e
a) o trabalho dos homens de vida amarga em usinas escuras.
b) o trabalho do dono da mercearia de onde veio o açúcar.
c) o beijo de moça, a água na pele e a flor que se dissolve na
boca.
d) o trabalho do dono do engenho em Pernambuco, onde se
produz o açúcar.
e) a beleza dos extensos canaviais que nascem no regaço do
vale.
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12
A LIBERDADE
A liberdade como problema
A torneira seca
(mas pior: a falta
De sede)
a luz apagada
(mas pior: o gosto
do escuro)
A porta fechada
(mas pior: a chave
por dentro)
1. Este poema de José Paulo Paes nos fala, de forma
extremamente concentrada e precisa, do núcleo da
liberdade e de sua ausência. O poeta lança um contraponto
entre uma situação externa experimentada como um dado
ou como um fato (a torneira seca, a luz apagada, a porta
fechada) e a inércia resignada no interior do sujeito (a falta
de sede, o gosto do escuro, a chave por dentro). O
contraponto é feito pela expressão "mas pior". Que significa
ela? Que diante da adversidade, renunciamos a enfrentá-la,
fazemo-nos cúmplices dela e é isso o pior. Pior é a renúncia
à liberdade. Secura, escuridão e prisão deixam de estar fora
de nós, para se tornarem nós mesmos, com nossa falta de
sede, nosso gosto do escuro e nossa falta de vontade de
girar a chave.
2. Um outro poema também oferece o contraponto entre nós e o mundo:
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
3. Neste poema, Carlos Drummond de Andrade, como José Paulo Paes,
confronta-nos com a realidade exterior: o "vasto mundo" do qual somos
uma pequena parcela e no qual estamos mergulhados. Todavia, os dois
poemas diferem, pois, em vez da inércia resignada, estamos agora
diante da afirmação de que nosso ser é mais vasto do que o mundo:
pelo nosso coração - sentimentos e imaginação - somos maiores do que
o mundo, criamos outros mundos possíveis, inventamos outra realidade.
Abrimos a torneira, acendemos a luz e giramos a chave.
4. Embora diferentes, os dois poemas apontam para o grande
tema da ética, desde que esta se tornou questão filosófica: o que
está e o que não está em nosso poder? Até onde se estende o
poder de nossa vontade, de nosso desejo, de nossa consciência?
Em outras palavras: até onde alcança o poder de nossa
liberdade? Podemos mais do que o mundo - ou este pode mais do
que nossa liberdade? O que está inteiramente em nosso poder e o
que depende inteiramente de causas e forças exteriores que agem
sobre nós? Por que o pior é a falta de sede e não a torneira seca,
o gosto do escuro e não a luz apagada, a chave imobilizada e não
a porta fechada? O que depende do "vasto mundo" e o que
depende de nosso "mais vasto coração"?
(Marilena Chauí : Convite à Filosofia, São Paulo : Ática, p. 357.
Fragmento)
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5. A pretensão maior da autora, no desenvolvimento do texto, é
questionar:
a) A liberdade de que gozam os poetas, quando expressam a
repercussão de situações externas no interior do sujeito.
b) A forma como a realidade exterior restringe a liberdade de uma
pequena parcela da população, mergulhada nos mistérios deste ‘vasto
mundo’.
c) A profundidade de nossos sentimentos e de nossa imaginação na
compreensão dos problemas que nos deixam inertes e resignados.
d) Até que ponto somos senhores de nosso destino e podemos controlar,
nós mesmos, nossos projetos de vida.
e) A consistência dos princípios éticos que se aplicam aos temas da
literatura poética e das doutrinas filosóficas.
6.Analisando as estratégias da autora na composição do texto,
podemos afirmar que:
a)Já no primeiro parágrafo, o autor sintetiza a ideia geral do texto
e antecipa elementos da conclusão.
b) O segundo e terceiro parágrafos dão continuidade à temática
do primeiro, mantendo, inclusive, o mesmo foco de percepção
da questão em análise.
c) As diferentes perspectivas dos poemas citados no texto
serviram de base para se abordar a natureza complexa do
problema proposto.
d) O autor optou pela estratégia das afirmações taxativas, em
todos os parágrafos, prescindindo da capacidade de reflexão
do leitor.
e) O último parágrafo se restringe à retomada do primeiro poema,
articulando, assim, o início com o final do texto.
.

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