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18/11/2015 1 Professora Vanessa Alves NÍVEIS DE SIGNIFICAÇÃO DAS PALAVRAS: DENOTAÇÃO E CONOTAÇÃO DENOTAÇÃO - Consiste em utilizar a palavra no seu sentido original, em estado primeiro de dicionário. A denotação aproxima a palavra da essência do objeto que ela buscou primordialmente expressar. CONOTAÇÃO - Consiste em atribuir novos significados ao valor denotativo. A conotação aproxima a apalavra da percepção do sujeito que a observa, dando-lhe um valor subjetivo. Comparação: estabelece uma equivalência explícita entre um comparante e um comparado, por meio de um termo de comparação, que pode ser uma palavra ou locução. Ex1: A vida é COMO uma grande escola. Ex2:O concurso público é TAL QUAL um campo de batalha. Metáfora: é uma comparação implícita, ou seja, não possui o termo comparativo. Baseia-se numa associação de ideias subjetivas: uma palavra deixa o seu contexto normal para fazer parte de outro contexto. Ex: “Veja bem, nosso caso É uma porta entreaberta” (Gonzaguinha- Grito de Alerta) Ex: “Meu pensamento é um rio subterrâneo”. (Fernando Pessoa) 18/11/2015 2 Metonímia: é a utilização de uma palavra por outra. Essas palavras mantêm-se relacionadas de várias formas: Ex1: O autor pela obra: Você já leu Camões (algum livro de Camões)? Ex2: A parte pelo todo: Eles não têm teto onde se abrigar (teto= casa) Perífrase (ou Antonomásia): emprego de palavra ou expressão designativa da qualidade do ser, em vez do nome do ser: Ex1: O Poeta dos Escravos morreu na flor dos anos. (Castro Alves) Ex2: O Rei do Futebol já fez mais de mil golos (Pelé-Edson Arantes do Nascimento). Antítese: é a aproximação de palavras ou expressões que exprimem ideias contrárias, adversas. Ex1: Amamos, vagamente surpreendidos Pelo ardor com que estávamos unidos Nós que andávamos sempre separados. (Vinícius de Moraes) Ex2: “Como eram possível beleza e horror, vida e morte harmonizarem-se assim no mesmo quadro?” (Érico Veríssimo) Eufemismo: é uma maneira de, por meio de palavras mais polidas, tornar mais suave e sutil uma informação de cunho desagradável e chocante. Ex1: Infelizmente ele se foi (em vez de ele morreu). Gradação: é a maneira ascendente ou descendente como as idéia podem ser organizadas na frase. Ex1: “O primeiro milhão possuído excita, acirra, assanha a gula do milionário” (Olavo Bilac) 18/11/2015 3 Hipérbole: modo exagerado de exprimir uma idéia. Ex1: “Queria gritar setecentas mil vezes”. Como são lindos, como são lindos os burgueses... (Caetano Veloso – podre poderes) Prosopopéia (ou personificação): é a atribuição de características humanas a seres não humanos. “A lua”, Tal qual a dona de um bordel, Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel. E nuvens, Lá no mata-borrão do céu Chupavam manchas torturadas” (João Bosco e Aldir Blanc - O bêbado e a equilibrista) Paradoxo: é uma afirmação que subverte as idéias, apresentando fatos que mantêm relações incompatíveis entre si. Ex.: Amor é fogo que arde sem se ver È ferida que dói e não se sente. 1. Leia o trecho da música Catavento e Girassol, de Guinga e Aldir Blanc, e responda a questão seguinte. “Meu catavento tem dentro o que há do lado de fora do teu girassol. Entre o escancaro e o contido, eu te pedi sustenido e você riu bemol.” A figura de linguagem predominante nesses versos é A) antítese. B) comparação. C) eufemismo. D) metáfora. E) pleonasmo A novidade veio dar à praia, na qualidade rara de sereia Metade o busto de uma deusa Maia, metade um grande rabo de baleia A novidade era o máximo, do paradoxo estendido na areia Alguns a desejar seus beijos de deusa Outros a desejar seu rabo prá ceia Ó mundo tão desigual, tudo é tão desigual, ô ô ô ô ô De um lado este carnaval, de outro a fome total, ô 18/11/2015 4 E a novidade que seria um sonho, o milagre risonho da sereia Virava um pesadelo tão medonho, ali naquela praia, ali na areia A novidade era a guerra entre o feliz poeta e o esfomeado Estraçalhando uma sereia bonita, despedaçando o sonho prá cada lado (Gilberto Gil – A Novidade) 2. Gilberto Gil em seu poema usa um procedimento de construção textual que consiste em agrupar ideias de sentidos contrários ou contraditórios numa mesma unidade de significação. A figura de linguagem acima caracterizada é: a) Metonímia b) Paradoxo c) Hipérbole d) Sinestesia e ) Gradação 3. A figura de linguagem empregada nos versos em destaque é: “Quando a Indesejada das gentes chegar (Não sei se dura ou caroável) Talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga: - Alô, iniludível!” a) clímax b) eufemismo c) paradoxo d) catacrese e) pleonasmo. ABORDAGEM DE TEMAS METAFÓRICOS/ FILOSÓFICOS Todo tema metafórico/filosófico, na verdade, é um tema social que foi abordado numa linguajem figurada, conotativa. Decodifique as ideias expressas nos textos abaixo. 18/11/2015 5 1. Cidade prevista Irmãos, cantai esse mundo que não verei, mas virá um dia, dentro em mil anos, talvez mais... não tenho pressa. Um mundo enfim ordenado, uma pátria sem fronteiras, sem leis e regulamentos, uma terra sem bandeiras, sem igrejas nem quartéis, sem dor, sem febre, sem ouro, um jeito só de viver, mas nesse jeito a variedade, a multiplicidade toda que há dentro de cada um. Uma cidade sem portas, de casas sem armadilha, um país de riso e glória como nunca houve nenhum. Este país não é meu nem vosso ainda, poetas. Mas ele será um dia o país de todo homem. (Carlos Drummond de Andrade, Poesia e prosa, Rio de Janeiro : Nova Aguilar, 1992, p. 158-159) 2. CÉREBRO ELETRÔNICO O cérebro eletrônico faz tudo Faz quase tudo Faz quase tudo Mas ele é mudo. O cérebro eletrônico comanda Manda e desmanda Ele é quem manda Mas ele não anda Só eu posso pensar Se Deus existe Só eu posso chorar quando estou triste Eu cá com meus botões De carne e osso Eu falo e ouço Eu penso e posso Eu posso decidir Se vivo ou morro por que Porque sou vivo Vivo pra cachorro e sei Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro No meu caminho inevitável para a morte Porque sou vivo e sei Que a morte é nosso impulso primitivo e sei Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro Com seus botões de ferro e seus Olhos de vidro. Autor: Gilberto Gil 18/11/2015 6 3. Retrato Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face? Cecília Meireles 4. HOJE Nas noites de verão, ou todas as noites, depois do jantar, o pai abandona a mesa. Ainda com a xícara de café na mão, ele se dirige à caixa quadrada. A deusa dos raios azulados espera o toque. O lugar principal é para o pai. Ninguém conversa. Não há o que falar. O pai não traz nada da rua, do dia-a-dia, do escritório. Os filhos não perguntam, estão proibidos de interromper. A mulher mergulha na telenovela, no filme. Todos sabem que não virá visita. E se vier alguma, vai chegar antes da telenovela. Conversas esparsas durante os comerciais. A sensação é que basta estar junto. Nada mais. Silenciosa, a família contempla a caixa azulada. Os olhos excitados, cabeças inflamadas. Recebendo, recebendo. Enquanto o corpo suportar, estarão ali. Depois tocarão o botão e a deusa descansará. Então, as pessoas vão para as camas, deitam e sonham. Com as coisas vistas. Sempre vistas através da caixa. Nunca sentidas ou vividas. Imunizadas que estão contra a própria vida. Ignácio de Loyola Brandão 5. Eu, Etiqueta Em minha calça está grudado um nome, que não é meu de batismo ou de cartório, um nome... estranho. Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca, nessavida, em minha camiseta, a marca de cigarro que não fumo, até hoje não fumei. Minhas meias falam de produto que nunca experimentei, mas são comunicados a meus pés. Meu tênis é proclama colorido de alguma coisa não provada, por este provador de longa idade. Meu lenço, meu lençol, meu chaveiro, minha gravata e cinto e escova e pente, meu copo, minha xícara, minha toalha de banho e sabonete, meu isso, meu aquilo, desde a cabeça ao bico dos sapatos, são mensagens, letras falantes, gritos visuais, ordens de uso, abuso, reincidências, costume, hábito, premência, indispensabilidade, e fazem de mim homem-anúncio itinerante, escravo da matéria anunciada. Estou, estou na moda!!!. É duro andar na moda, ainda que a moda seja negar minha Agora sou anúncio, ora vulgar ora bizarro, em língua nacional ou em qualquer língua (Qualquer principalmente), e nisto me comprazo, tiro glória de minha anulação. Não sou – vê-lá – anúncio contratado. Eu é que mimosamente pago para anunciar, para vender em bares, festas, praias, piscinas, e bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste de ser veste e sandália de uma essência tão viva, independente, que moda ou suborno algum a compromete. Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher, minhas idiossincrasias tão pessoais, tão minhas que no rosto se espelhavam e cada gesto, cada olhar, cada vinco da roupa. Sou gravado de forma universal, seio da estamparia, não de casa, da vitrine me tiram, recolocam, objeto pulsante mas objeto que se oferece como signo de outros objetos estáticos, tarifados. Por me ostentar assim, tão orgulhoso de ser não Eu, mas artigo industrial, peço que meu nome retifiquem. Já não me convém o título de homem. Meu nome novo é Coisa. Eu sou a coisa, coisamente. Carlos Drummond de Andrade 18/11/2015 7 É duro andar na moda, ainda que a moda seja negar minha identidade, trocá-la por mil, açambarcando todas as marcas registradas, todos os logotipos do mercado. Com que inocência demito-me de ser Eu que antes era e me sabia tão diverso de outros, tão mim mesmo, ser pensante sentinte e solitário com outros seres diversos e conscientes de sua humana, invencível condição. Agora sou anúncio, ora vulgar ora bizarro, em língua nacional ou em qualquer língua (Qualquer principalmente), e nisto me comprazo, tiro glória de minha anulação. Não sou – vê-lá – anúncio contratado. Eu é que mimosamente pago para anunciar, para vender em bares, festas, praias, piscinas, e bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste de ser veste e sandália de uma essência tão viva, independente, que moda ou suborno algum a compromete. Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher, minhas idiossincrasias tão pessoais, tão minhas que no rosto se espelhavam e cada gesto, cada olhar, cada vinco da roupa. Sou gravado de forma universal, seio da estamparia, não de casa, da vitrine me tiram, recolocam, objeto pulsante mas objeto que se oferece como signo de outros objetos estáticos, tarifados. Por me ostentar assim, tão orgulhoso de ser não Eu, mas artigo industrial, peço que meu nome retifiquem. Já não me convém o título de homem. Meu nome novo é Coisa. Eu sou a coisa, coisamente. Carlos Drummond de Andrade 6. A PRECE DA ÁRVORE Ser humano, protege-me! Junto ao puro ar da manhã ao crepúsculo, eu te ofereço aroma, flores, frutos e sombra! Se ainda assim não te bastar, curvo-me e te dou proteção para teu ouro, pinho para tua nota, teto para teu abrigo, lenha para teu calor, mesa para teu pão, leito para teu repouso, apoio para teus passos, bálsamo para tua dor, altar para tua oração e te acompanharei até à morte... Rogo-te: Não me maltrates! Walter Rossi 7. O Bicho Vi ontem um bicho na imundície do pátio catando comida entre os detritos. Quando encontrava alguma coisa, não examinava, nem cheirava, engolia com voracidade. O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. 18/11/2015 8 EXERCÍCIOS PROPOSTOS Velha Chácara “A casa era por aqui... Onde? Procuro-a e não acho. Ouço uma voz que esqueci: É a voz deste mesmo riacho. Ah quanto tempo passou! ( Foram mais que cinqüenta anos) Tantos que a morte levou! (E a vida...nos desenganos...) A usura fez tábua rasa Da velha chácara triste: Não existe mais a casa... Mas o menino ainda existe. (Manuel Bandeira) EXERCÍCIOS PROPOSTOS Velha Chácara “A casa era por aqui... Onde? Procuro-a e não acho. Ouço uma voz que esqueci: É a voz deste mesmo riacho. Ah quanto tempo passou! ( Foram mais que cinqüenta anos) Tantos que a morte levou! (E a vida...nos desenganos...) A usura fez tábua rasa Da velha chácara triste: Não existe mais a casa... Mas o menino ainda existe. (Manuel Bandeira) 1. O tema ou assunto do poema é (A) amor pela cidade onde nasceu. (B) alegria de reencontrar a casa de sua infância. (C) saudades do tempo de criança. (D) a casa de sua infância continua como era. (E) saudades da cidade onde nasceu. 2. Escolha a alternativa que interpreta melhor o verso “Mas o menino ainda existe.”, segundo a leitura do poema “Velha Chácara” (A) o menino ainda mora na chácara. (B) o menino existe nas lembranças do homem. (C) o homem quer ser criança. (D) o menino visita a casa em que nasceu. (E) o homem não quer ser adulto. “Rua dos Cataventos” “Dorme, ruazinha...É tudo escuro... E os meus passos, quem é que pode ouvi-los? Dorme o teu sono sossegado e puro, Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos Dorme...Não há ladrões, eu te asseguro... Nem guardas para acaso persegui-los Na noite alta, como sobre um muro, As estrelinhas cantam como grilos... O vento está dormindo na calçada O vento enovelou-se como um cão... Dorme, ruazinha...Não há nada... Só os meus passos...mas tão leves são Que até parecem, pela madrugada, Os da minha futura assombração... (Mário Quintana) 18/11/2015 9 3. Leia o poema com atenção e assinale a alternativa que exprime melhor os sentimentos do autor. (A) Saudade e tristeza. (B) Ternura e carinho. (C) Amor e sofrimento. (D) Revolta e mágoa. (E) Tristeza e sofrimento. 4. Existe um verso no poema anterior em que o autor faz referência à sua morte. Assinale sua comprovação. (A) “Dorme o teu sono sossegado e puro,” (B) “Dorme, ruazinha... É tudo escuro...” (C) “E nos meus passos, quem é que pode ouvi-los?” (D) “Os da minha futura assombração...” (E) “Só os meus passos...Mas tão leves são” A CASA VIAJA NO TEMPO Volto, como antigamente, a esta grande casa amiga, na noite de domingo. Recuso, com o mesmo sorriso, a batida que a dona da casa me oferece, e tomo a mesma cachacinha de sempre. O dono da casa é o mesmo, a cachaça é a mesma, a casa, eu... E tantas vezes vim aqui que não tomo consciência das coisas que mudaram. Sento-me, por acaso, ao lado de uma jovem senhora, amiga da família, e a conversa é tranqüila e morna. Mas, de repente, a propósito de alguma coisa, ela diz que se lembra de mim há muito tempo. “Você vinha às vezes jantar, sempre assim, de paletó e sem gravata. Sentava calado, com a cara meio triste, um ar sério. Eu me lembro muito bem. Eu tinha seis anos...” Seis anos! Certamente não me recordo dessa menina de seis anos; a casa sempre esteve cheia de meninas e mocinhas, há pessoas que eu conheço de muitos domingos através de muitos anos, e das quais nem sequer sei o nome. Pessoas que para mim fazem parte desta casa e desses domingos, visitando esta casa. (...) Inutilmente procuro reconstituir a menina de seis anos que me olhava na mesa e me achava triste. E não faço a menor idéia do que ela soube ou viu a meu respeito durante esses inumeráveis domingos. Certamente fui sempre, para ela, uma figura constante, mas vaga – um senhor feio e quieto, que ela se acostumou a ver distraidamente de vez em quando – às vezes com um ano ou mais de intervalo, que viaja e reaparece coma mesma cara e o mesmo jeito. Tomo consciência de que é a primeira vez que conversamos os dois, ao fim de tantos anos de vagos “boa-noite” e “como vai?”, mas nossa conversa tranqüila e trivial me emociona de repente quando ela diz “eu tinha seis anos...” Penso em tudo o que vivi nestes anos – tanta coisa tão intensa que veio e se foi – e penso na casa, no dono da casa, na família, na gente que passou por aqui. A casa não é mais a mesma, a casa não é mais casa, é um grande navio que vai singrando o tempo, que vai embarcando e desembarcando gente no porto de cada domingo: dentro em pouco outra menina de seis anos, filha dessa menina, estará sentada na mesma sala, sob a mesma lâmpada, e com seus dois olhinhos pretos verá o mesmo senhor calado, de cara triste – o mesmo senhor que numa noite de domingo, sem o saber, se despedirá para sempre e irá para o remoto país onde encontrará outras sombras queridas ou indiferentes que aqui viveram também suas noites de domingo – e não voltaram mais. (Rubem Braga) 18/11/2015 10 1. Segundo o autor do texto, ele não nota as mudanças da casa que frequenta porque: a) procura preservar na memória como eram as coisas antigamente; b) sempre gostou das coisas como eram; c) mentalmente atua como se o tempo não existisse; d) tais mudanças de fato não ocorreram; e) visita a casa com muita assiduidade e não se apercebe das mudanças. 2. No final da crônica, o autor do texto compara a casa a um navio; essa comparação é feita com base numa semelhança entre esses dois elementos, que é: a) o fato da grandiosidade da casa permitir a presença de muita gente; b) a circunstância de a casa ser freqüentada por pessoas de diversas idades; c) a presença constante do cronista na casa nas noites de domingo; d) a transitoriedade de muitas pessoas que freqüentam a casa; e) as mudanças constantes da aparência da casa. Profundamente “Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos [...] Onde estavam os que há pouco Dançavam Cantavam E riam Ao pé das fogueiras acesas? — Estavam todos dormindo Estavam todos deitados Dormindo Profundamente Quando eu tinha seis anos Não pude ver o fim da festa de São João Porque adormeci Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo Minha avó Meu avô Totônio Rodrigues Tomásia Rosa Onde estão todos eles? — Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo Profundamente.” Manuel Bandeira, Libertinagem 18/11/2015 11 3. No conhecido poema de Bandeira, aqui parcialmente reproduzido, a experiência do afastamento da festa de São João a) É de ordem subjetiva e ocorre, primordialmente, no plano do sonho e da imaginação. b) Reflete, em chave saudosista, o tradicionalismo que caracterizou a geração modernista de 1922. c) Se dá predominantemente no plano do tempo e encaminha uma reflexão sobre a transitoriedade das coisas humanas. d) Assume feição abstrata, na medida em que evita assimilar os dados da percepção sensível, registrados pela visão e pela audição. e) É figurada poeticamente segundo o princípio estético que prevê a separação nítida de prosa e poesia. O AÇÚCAR O branco açúcar que adoçará meu café nesta manhã de Ipanema não foi produzido por mim nem surgiu dentro do açucareiro por milagre. Vejo-o puro e afável ao paladar como beijo de moça, água na pele, flor que se dissolve na boca. Mas este açúcar não foi feito por mim. Este açúcar veio da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia. Este açúcar veio de uma usina de açúcar em Pernambuco ou no Estado do Rio e tampouco o fez o dono da usina. Este açúcar era cana e veio dos canaviais extensos que não nascem por acaso no regaço do vale. (...) Em usinas escuras, homens de vida amarga e dura produziram este açúcar branco e puro com que adoço meu café esta manhã em Ipanema. Ferreira Gullar. Toda Poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p. 227-8. 4. O antagonismo que configura uma imagem da divisão social do trabalho na sociedade brasileira é expresso poeticamente na oposição entre a doçura do branco açúcar e a) o trabalho dos homens de vida amarga em usinas escuras. b) o trabalho do dono da mercearia de onde veio o açúcar. c) o beijo de moça, a água na pele e a flor que se dissolve na boca. d) o trabalho do dono do engenho em Pernambuco, onde se produz o açúcar. e) a beleza dos extensos canaviais que nascem no regaço do vale. 18/11/2015 12 A LIBERDADE A liberdade como problema A torneira seca (mas pior: a falta De sede) a luz apagada (mas pior: o gosto do escuro) A porta fechada (mas pior: a chave por dentro) 1. Este poema de José Paulo Paes nos fala, de forma extremamente concentrada e precisa, do núcleo da liberdade e de sua ausência. O poeta lança um contraponto entre uma situação externa experimentada como um dado ou como um fato (a torneira seca, a luz apagada, a porta fechada) e a inércia resignada no interior do sujeito (a falta de sede, o gosto do escuro, a chave por dentro). O contraponto é feito pela expressão "mas pior". Que significa ela? Que diante da adversidade, renunciamos a enfrentá-la, fazemo-nos cúmplices dela e é isso o pior. Pior é a renúncia à liberdade. Secura, escuridão e prisão deixam de estar fora de nós, para se tornarem nós mesmos, com nossa falta de sede, nosso gosto do escuro e nossa falta de vontade de girar a chave. 2. Um outro poema também oferece o contraponto entre nós e o mundo: Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. 3. Neste poema, Carlos Drummond de Andrade, como José Paulo Paes, confronta-nos com a realidade exterior: o "vasto mundo" do qual somos uma pequena parcela e no qual estamos mergulhados. Todavia, os dois poemas diferem, pois, em vez da inércia resignada, estamos agora diante da afirmação de que nosso ser é mais vasto do que o mundo: pelo nosso coração - sentimentos e imaginação - somos maiores do que o mundo, criamos outros mundos possíveis, inventamos outra realidade. Abrimos a torneira, acendemos a luz e giramos a chave. 4. Embora diferentes, os dois poemas apontam para o grande tema da ética, desde que esta se tornou questão filosófica: o que está e o que não está em nosso poder? Até onde se estende o poder de nossa vontade, de nosso desejo, de nossa consciência? Em outras palavras: até onde alcança o poder de nossa liberdade? Podemos mais do que o mundo - ou este pode mais do que nossa liberdade? O que está inteiramente em nosso poder e o que depende inteiramente de causas e forças exteriores que agem sobre nós? Por que o pior é a falta de sede e não a torneira seca, o gosto do escuro e não a luz apagada, a chave imobilizada e não a porta fechada? O que depende do "vasto mundo" e o que depende de nosso "mais vasto coração"? (Marilena Chauí : Convite à Filosofia, São Paulo : Ática, p. 357. Fragmento) 18/11/2015 13 5. A pretensão maior da autora, no desenvolvimento do texto, é questionar: a) A liberdade de que gozam os poetas, quando expressam a repercussão de situações externas no interior do sujeito. b) A forma como a realidade exterior restringe a liberdade de uma pequena parcela da população, mergulhada nos mistérios deste ‘vasto mundo’. c) A profundidade de nossos sentimentos e de nossa imaginação na compreensão dos problemas que nos deixam inertes e resignados. d) Até que ponto somos senhores de nosso destino e podemos controlar, nós mesmos, nossos projetos de vida. e) A consistência dos princípios éticos que se aplicam aos temas da literatura poética e das doutrinas filosóficas. 6.Analisando as estratégias da autora na composição do texto, podemos afirmar que: a)Já no primeiro parágrafo, o autor sintetiza a ideia geral do texto e antecipa elementos da conclusão. b) O segundo e terceiro parágrafos dão continuidade à temática do primeiro, mantendo, inclusive, o mesmo foco de percepção da questão em análise. c) As diferentes perspectivas dos poemas citados no texto serviram de base para se abordar a natureza complexa do problema proposto. d) O autor optou pela estratégia das afirmações taxativas, em todos os parágrafos, prescindindo da capacidade de reflexão do leitor. e) O último parágrafo se restringe à retomada do primeiro poema, articulando, assim, o início com o final do texto. .