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UFGD 01 OBRAS LITERÁRIAS 2021 dessa forma, por veículos alternativos (e independentes). Desse grupo marginal, participaram nomes que hoje são referência de poesia contemporânea no Brasil, como, por exemplo, Ana Cristina César, Paulo Leminski, Cacaso, Chacal, Roberto Piva, Torquato Neto, Isabel Câmara. A seguir o comentário de Heloísa Buarque de Holanda, sobre a poesia marginal na década de 70: “Curiosamente, hoje, o artigo do dia é poesia. Nos bares da moda, nas portas de teatro, nos lançamentos, livrinhos circulam e se esgotam com rapidez. Alguns são mimeografados, outros, em offset, mostram um trabalho gráfico sabido e diferenciado do que se vê no design industrializado das editoras comerciais. Mesas redondas e artigos de imprensa discutem o acontecimento. O assunto começa – ainda com alguma resistência – a ser ventilado nas universidades. Trata-se de um movimento literário ou de mais uma moda? E se for moda, foi a poesia que entrou na moda ou foram os poetas? O fato é que a poesia circula, o número de poetas aumenta dia a dia e as segundas edições já não são raras”. Sobre o nome que define esta geração de poetas, vale a ressalva de que não remete à noção de fora-da-lei, como poderia supor a primeira vista. Mas, se aplica a autores que se colocavam à margem do sistema editorial ou tin- ham dificuldade para publicar suas obras em editoras de grande porte. Por esse mesmo motivo, também ficaram conhecidos pela expressão “geração do mimeógrafo”, uma vez que se valiam de tal máquina para levar ao pú- blico consumidor, de forma ágil e barata, autofinanciados e distribuídos por conta própria, para fugir da censura imposta pelo regime militar. Enquanto a prosa poderia ser denominada “literatura-engajada” (na qual busca-se fazer uma espécie de denúncia e retrato falado do país e da condição de seu momento histórico), a poesia se car- acteriza como a “literatura do eu”, pois nela encontra-se uma aproximação muito forte entre a o viver e o fazer poético, com incorporação do cotidiano dos poetas e seus escritos. Todos os verbos devem necessariamente apontar para uma primeira pessoa verbal. Podemos, então, ver certa concepção neorromântica por trás desse procedi- mento de composição, ao invés da construção poética, privilegia-se a expressão poética. Os poetas marginais além de buscarem incorporar o co- tidiano na literatura, utilizam em suas composições um recurso de aproximação confessional entre o eu-lírico e seus leitores. O “sistema” de publicação empregado pe- los poetas marginais pressupunha que a venda dos livros fosse feita cara a cara. Tal aproximação entre o poeta e seu público leitor causa o estabelecimento de uma intimidade imposta. Daí, o tom de diário (pessoal ou geracional) de grande parte da poesia produzida nas últimas décadas no país. Parece obedecer a essa exigência quase amorosa de um tom íntimo, caseiro, no texto poético descrito como ‘uma conversinha’, com temas como ‘futebol’ e a ‘vida. A TEUS PÉS ...é sempre mais difícil ancorar um navio no espaço” A AUTORA Ana Cristina Cruz Cesar (Rio de Janeiro 1952 – 1983). Poeta,tradutora. Filha do sociólogo e jornalista Waldo Aranha César, fundador da editora ecumênica Paz e Terra, aos sete anos, Ana Cristina tem seus primeiros poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa. Desde a vida universitária, participa ativamente da cena cultural ca- rioca e do movimento da poesia marginal, convivendo com poetas como Cacaso (1944-1987) e intelectuais como Heloísa Buarque de Hollanda (1939). Ainda em 1971, inicia a atuação como professora, em escolas de 2º grau e de idiomas. Após a conclusão da graduação, em 1975, colabora para publicações como Opinião, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, com destaque para Beijo, impor- tante periódico de cultura, com sete números impressos, cujo processo acompanha desde sua criação. Em 1979 lança, de forma independente, o primeiro livro de poesia, Cenas de Abril. Seguem-se Correspondência Completa, uma carta ficcional, e Luvas de Pelica, publicado em 1980. Depois de lecionar alguns anos na Inglaterra volta ao Brasil, é contratada como analista de textos pela Rede Globo de Televisão e lança, em 1982, A Teus Pés. Aos 31 anos, em 1983, durante uma crise emocional, Ana C., como assinava, se matou,saltando pela janela. Após sua morte, o poeta e amigo Armando Freitas Filho organiza sua obra e promove o lançamento dos livros Inéditos e Dispersos. PUBLICAÇOES Cenas de abril (1979); Correspondência completa (1979); Literatura não é documento (1980); Luvas de pelica (1980); A teus pés (1982); Inéditos e dispersos (1982); Escritos da Inglaterra (1988); Escritos no Rio (1993); Correspondência incompleta (1999). A POSIA MARGINAL – ANOS 70 Na década de 1970, logo após a “Tropicália”, de Tom Zé, Gil, Torquato Neto, Gal Costa, Os Mutantes e Caetano, surgiu um grupo de poetas que, sem conseguir publicar os seus livros por editoras, passou a editá-los em condições precárias, artesanalmente, mimeografando- os (daí, ge- ração mimeógrafo1) ou em papéis mais baratos (como os de pão ou os de jornal). Como não possuíam quem os divulgasse e os distribuísse às livrarias, esses poetas passaram a vendê-los nas portas de teatros, restauran- tes, cinemas, faculdades etc. Eles, portanto, estavam à margem do sistema editorial da época, tornando-se conhecidos como “poetas marginais”. Vale ressaltar- mos que esses poetas eram ferrenhos críticos à ditadura militar,portanto, perseguidos e censurados, optando, UFGD OBRAS LITERÁRIAS 2021 02 A poesia de Ana Cristina Cesar apresenta características singulares em relação a chamada poesia marginal. Mas, Ainda que a poeta tenha mantido estreitas relações com autores do grupo (chegou até mesmo 394 a ser denomina- da a musa dos poetas marginais) e tenha publicado alguns livros aos moldes da geração mimeografo, os pontos de distanciamento entre eles são muitos. Podemos perceber que o eu encontrado na poesia de Ana C não é expressão de intimidades biografistas, como o característico de poetas como Cacaso e Charles, mas, sim, o contrário. Se, em primeiro momento, a forma de sua escrita parece prever a expressão de intimidades, uma análise mais at- enta revela que, na verdade, o que se tem exposto é uma intimidade falseada, construída literariamente de forma a provocar um distanciamento entre leitor e poeta. É inútil, portanto, imaginar que haja corações desnudados, diante da folha há apenas ‘um olho que pensa e esquece’. Em Ana Cristina a subjetividade é antes de tudo literária, o que vai de encontro à obsessão biográfica por retratar-se, expressar a própria experiência cotidiana ou fazer de tudo que se diz poesia, tendência marcante na poesia marginal. Outro aspecto diferenciador a ser destacado, se encontra na incorporação da tradição literária na poesia de Ana C.. apesar de fazer poesia com o universo da cultura popular (como a televisão, os quadrinhos, o futebol e outras miudezas da vida cotidiana), Ana Cristina César não abandona o diálogo com a literatura tradicional como referência para sua composição poética. ANÁLISE DA OBRA Cristina César (1952-1983) começou a escrever aos 7 anos para o jornal A Tribuna da Imprensa, no Rio de Ja- neiro. Formou-se em Letras e mudou-se para a Inglaterra. Produziu intensamente e sob pressões pessoais o que a levou a se matar pulando de uma janela. Sua produção é heterodoxa, mas mantém vínculos com os modernistas de primeira geração, dado o uso de versos livres e bran- cos, frases às vezes centopeicas, às vezes truncadas; e também há a presença de seus amigos marginais, como Cacaso, Paulo Leminski e Wally Salomão. Todos eles exerceram sua veia subversiva e íntima no Brasil dos anos 70 e isso implica a construção de textos codifica- dos e muitas vezes vorazes contra o sistema. Como eles mesmo produziam suas obras por meio de manuscritos, mimeógrafos, encadernações próprias e venda de mesa em mesa nos bares e filas de cinema, foramchamados de marginais. Isso, vale ressaltar, significa à margem do processo editorial e não necessariamente malandragem ou vandalismo. Ana Cristina escreve, muitas vezes, mostrando sua sub- versão, sua sedição, não na mensagem impressa, mas no modo em que tal mensagem se expressa. É o que se percebe, de início, no poema que abre a coletânea “A Teus Pés”: I Trilha sonora ao fundo: piano no bordel, vozes bargan- hando uma informação difícil. Agora silêncio; silêncio ele- trônico, produzido no sintetizador que antes construiu a ameaça das asas batendo freneticamente. Apuro técnico. Os canais que só existem no mapa. O aspecto moral da experiência. Primeiro ato da imaginação. Suborno no bordel. Eu tenho uma ideia. Eu não tenho a menor ideia. Uma frase em cada linha. Um golpe de exercício. Memórias de Copacabana. Santa Clara às três da tarde. Autobiografia. Não, biografia. Mulher. Papai Noel e os marcianos. Billy the Kid versus Drácula. Drácula versus Billy the Kid. Muito sentimental. Agora pouco sentimental. Pensa no seu amor de hoje que sempre dura menos que o seu amor de ontem. Gertrude: estas são ideias bem comuns. Apresenta a jazz-band. Não, toca blues com ela. Esta é a minha vida. Atravessa a ponte. É sempre um pouco tarde. Não presta atenção em mim. Olha aqueles três barcos colados imóveis no meio do grande rio. Estamos em cima da hora. Daydream. Quem caça mais o olho um do outro? Sou eu que admito vitória. Ela que mora conosco então nem se fala. UFGD 03 OBRAS LITERÁRIAS 2021 Caça, caça. E faz passos pesados subindo a escada correndo. Outra cena da minha vida. Um amigo velho vive em táxis. Dentro de um táxi é que ele me diz que quer chorar mas não chora. Não esqueço mais. E a última, eu já te contei? É assim. Estamos parados. Você lê sem parar, eu ouço uma canção. Agora estamos em movimento. Atravessando a grande ponte olhando o grande rio e os três barcos colados imóveis no meio. Você anda um pouco na frente. Penso que sou mais nova do que sou. Bem nova. Estamos deitados. Você acorda correndo. Sonhei outra vez com a mesma coisa. Estamos pensando. Na mesma ordem de coisas. Não, não na mesma ordem de coisas. É domingo de manhã (não é dia útil às três da tarde). Quando a memória está útil. Usa. Agora é a sua vez. Do you believe in love....? Então está. Não insisto mais. ANÁLISE A noite parece ser embalada por um eu-lírico em uma boate. Ele persegue a ideia do amor e só lhe interessa que ama: “são insisto mais”. Outra coisa importante é a ideia do ócio criativo. Domingo, de manhã, a memória deve ser acionada para, provavelmente, fazer a arte po- emática (memória útil).O par que ama está sempre em dissonância: ele lê sem parar e ela ouve uma canção. Antes de serem par, marcaram um encontro, ás três da tarde, parados... tudo isso são memórias de Copacabana, memórias de um tempo em que a liberdade era restrita, mas o amor era curto, pois alguém irá escrever uma bio- grafia e não uma autobiofragia, pois o EU já não existe. Só tem sentido esta análise, se condicionada aos anos 70. O início do texto, por exemplo, marca no plano da pon- tuação a imitação do som do bordel. As frases truncadas denotam o som metálico bem marcado dos anos 70/80. II O tempo fecha. Sou fiel aos acontecimentos biográficos. Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos que não largam! Minhas saudades ensurdecidas por cigarras! O que faço aqui no campo declamando aos metros versos longos e sentidos? Ah que estou sentida e portuguesa, e agora não sou mais veja, não sou mais severa e ríspida: agora sou profissional. ANÁLISE Ser severa e ríspida implica ser combatente de um sistema. Neste poema, porém, o Eu lírico aplica-se o fugere urbem ao se deslocar para a natureza e produzir versos longos, bucólicos, profissionais. Isso equivale a dizer que houve uma desistência consciente de que os valores reivindicados por ela não são mais realidade para este texto: rendeu-se ao sistema, perdeu a luta e ser profissional significa ser calma, submetida, igual aos outros poetas – sem a massa poética necessária para mover a sociedade. O texto trata de uma critica à insipiência da poesia sem teor político e crítico. III Segunda história rápida sobre a felicidade – descendo a colina ao escurecer – meu amor ficou longe, com seu ar de não ter dúvida, e dizia: meus pais... – não posso mais duvidar dos meus passinhos, neste sítio – agora você fala até mais baixo, delicada que eu reparo mais que os outros depois de um tempo fora – é como voltar e achar as crianças crescidas, e sentar na varanda para trocar pensamentos e memórias de um tempo que passou – mas quando eu fui (aquele dia no aeroporto) ainda havia ares de mistério – agora, é agora, descendo esta colina, sem nenhum, que eu conto então do amor distante, e não imito a minha nostalgia, mas a delicadeza, a sua, assim feliz. UFGD OBRAS LITERÁRIAS 2021 04 ANÁLISE Parece que este poema remonta a alguma coisa da própria biografia de Ana Cristina, emigrante brasileira rumo à Inglaterra. Ela se despede de algum ou alguns familiares no aeroporto, daí o tom nostálgico do corte do cordão umbilical. Isso explica também o tanto de índices negativos como rápida, descende, escurecer, longe, sem nenhum, distante, nostalgia. Esses índices também se encaixam no contexto da ditadura de 70, uma vez que a despedida pode ser equiparada a uma viagem deliberada ou imposta (exílio). Seja qual for, a ideia de dor pela separação é presente. IV sete chaves Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha grande história passional, que guardei a sete chaves, e meu coração bate incompassado entre gaufrettes. Conta mais essa história, me aconselhas como um marechal-do-ar fazendo alegoria. Estou tocada pelo fogo. Mais um roman à clé? Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher moderna. Nem te conheço. Então: É daqui que eu tiro versos, desta festa – com arbítrio si- lencioso e origem que não confesso – como quem apaga seus pecados de seda, seus três monumentos pátrios, e passa o ponto e as luvas. Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha grande história passional, que guardei a sete chaves, e meu coração bate incompassado entre gaufrettes. Conta mais essa história, me aconselhas como um marechal-do-ar fazendo alegoria. Estou tocada pelo fogo. Mais um roman à clé? Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher moderna. Nem te conheço. Então: É daqui que eu tiro versos, desta festa – com arbítrio si- lencioso e origem que não confesso – como quem apaga seus pecados de seda, seus três monumentos pátrios, e passa o ponto e as luvas. ANÁLISE Parece que a cultura inglesa já influencia na produção deste texto, uma vez que chá e graufettes (wafers) estão presentes na estrutura poética. Além disso, ela afirma que “apaga os monumentos pátrios”, o que assinala o distanciamento do Brasil. Essa análise é reforçada pela ideia de “tirar as luvas e abandonar o ponto”, situações de revolta da classe operária, espécie de greve. Mas greve de quê? Novamente a ambiguidade se faz presente nos textos marginais: greve do amor (situação pintada desde o início do texto) greve de poética engajada, cansaço temático, redirecionamento do lirismo. V inverno europeu Daqui é mais difícil: país estrangeiro, onde o creme de leite é desconjunturado e a subjetividade se parece com um roubo inicial. Recomendo cautela. Não sou person- agem do seu livro e nem que você queira não me recorta no horizonte teórico da década passada. Os militantes sensuais passam a bola: depressão legítima ou charme diante das mulheres inquietas que só elas? Manifesto: se- gura a bola; eu de conviva não digo nada e indiscretíssima descalço as luvas (no máximo), à direita de quem entra. ANÁLISE As palavras chaves (país estrangeiro, cautela, militan- tes, manifesto, não digo nada) indicam uma espécie de desconforto em terra alheia, mas também ainda estão contaminados pela ideologia que existiano Brasil da época (1970). Há uma espécie de medo que transcende o território Médici e atinge a Europa. Inverno, simbolica- mente, indica tempo de reclusão, solidão, fim da vida, úl- timo estágio antes da primavera, época de renascimento. VI noite carioca Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta do mundo: essa que não tem nenhum segredo. ANÁLISE O Texto é truncado na pontuação e essa interrupção marcada é ressaltada por palavras do tipo: atravanco, contramão e contrafluxo. Há um pouco mais de fluidez na leitura e na história narrada quando aparece a mulher sem segredos que pode indicar: a) nada sabe, mesmo; b) não pode ser torturada porque falaria tudo; c) é alienada e nada sabe; d) já se expôs totalmente e por isso perdeu seus segredos. VII Marfim A moça desceu os degraus com o robe monogramado no peito: l. m. sobre o coração. Vamos iniciar outra Correspondência, ela propõe. Você já amou alguém verdadeiramente? Os limites do romance realista. Os caminhos do conhecer. A imitação da rosa. As aparências desenganam. Estou desenganada. Não reconheço você, que é tão quieta, nessa história. Liga amanhã outra vez sem falta. Não posso interromper o trabalho agora. Gente falando por todos os lados. Palavra que não mexe mais no barril de pólvora plantado sobre a torre de marfim UFGD 05 OBRAS LITERÁRIAS 2021 ANÁLISE Uma moça decide recomeçar sua vida amorosa com outro relacionamento, mas em seu robe (toalha) está gravado as iniciais do nome do parceiro anterior. Ela dialoga com o narratário para saber se existe amor verdadeiro, para além dos limites do real. Isso equivale a dizer que deseja o amor ideal. Ao inverter a lógica, ela promove a utilização do prefixo que também inverte, o DES. Daí o uso de enganada, DESenganada. Estar desenganada significa consciente de que, na nova relação, será menos ingênua. Ela se desentende com o turbilhão de fora (pes- soas falando, inclusive a narratária, pelo telefone) e com o turbilhão de dentro (barril de pólvora prestes a estourar). Daí a necessidade de “plantar” o passado sobre a torre de marfim. Torre indica distanciamento, intangibilidade. Marfim indica frieza, impassibilidade, paz na imobili- dade. Há, então, a necessidade de se afastar do passado. VIII mocidade independente Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra cima sem medir as consequências. Por que recusamos ser pro- féticas? E que dialeto é esse para a pequena audiência de serão? Voei pra cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por você, e furiosa: é agora, nesta contramão. ANÁLISE O fato de voar para cima, tanto na linguagem adolescente dotada de gíria como na atitude inconsequente denota quem seria o Eu-lírico: um jovem. Ser profética é indi- cação da fuga do Realismo fixado no presente e a crença de que o futuro será melhor. Daí a crença no Amor, que incendeia os ares. No entanto, ao atravessar São Paulo em busca de um sonho abstrato e volátil, o Eu-lírico já sabe que será difícil atingir a felicidade com tal metodologia: está na contramão. Ou seja, a felicidade não se alcança tendo como metodologia o distanciamento do racional. IX EXTERIOR. DIA. Trocando minha pura indiscrição pela tua história bem datada. Meus arroubos pela tua conjuntura. mar, azul, cavernas, campos e trovões. Me encosto contra a mureta do bondinho e choro. Pego um táxi que atravessa vários túneis da cidade. Canto o mo- torista. Driblo a minha fé. Os jornais não convocam para a guerra. Torça, filho, torça, mesmo longe, na distância de quem ama e se sabe um traidor. Tome bitter no velho pub da esquina, mas pensando em mim entre um flash e outro de felicidade. Te amo estranha, esquiva, com outras cenas mixadas ao sabor do teu amor. ANÁLISE Texto em forma de telegrama: frases curtas, codificadas e com preferência por substantivos. Parece emitir uma mensagem que vem de longe, do exterior. O eu-lírico parece deslocado ou infeliz: chora, está preso entre o muro e bondinho; não vê nada além de túneis; trans- gride sua ética religiosa ao assediar o motorista. Sofre e de alguma forma utiliza a palavra filho ambiguamente: filho mesmo, filho como forma carinhosa de se dirigir ao outro, filho como forma de se dirigir a si mesmo. Pode- se entender essa palavra como a causa do sofrimento textual: alguém (o próprio eu, um filho ou outro cidadão) está fora de sua pátria, mas tem que torcer para que ela dê certo. Chega a indicar que este indefinido filho tome “bitter”, um licor amargo, sem se esquecer do próprio eu-lírico. O texto termina com uma expressão curiosa: te amo estranha. Talvez se sinta estranha porque, pouco a pouco sofre o distanciamento da pátria. Igualmente se sente esquiva, impotente, distante, incapaz. Fato que aumenta o sofrimento. X cartilha da cura As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios. ANÁLISE Afundar navios é uma atitude de guerra. Possivelmente há aqui uma alusão à guerra fria ou a situações turbulentas no plano subjetivo. No entanto, a expressão remonta a uma frase típica do mar: “Em caso de naufrágio, mulheres e crianças deverão ser resgatadas primeiro”. A inversão se dá como a dizer que há, em mulheres e crianças, um espírito protetor, de cuidado, que antecede as desgraças. Ou ainda, ciente de que mulheres e crianças têm o poder de naufragar navios (homens e vida) decidem vivem em harmonia (ou submissão). Ao anularem-se, promovem ao barco homem e ao barco vida uma travessia tranquila. Daí o título da obra: a cura não está no homem... XI Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios. ANÁLISE Talvez se se lesse este poema como extensão do anterior fosse mais fácil a compreensão. O fato de os quartos es- tarem vazios indica uma vida turbulenta. Se a vida fosse um navio, estaria esse passando por águas revoltas... no entanto, quando o eu-lírico diz que tem que “rever” os quartos ele afirma ter de reconciliar com seu passado traumático para atingir a paz, a cura. UFGD OBRAS LITERÁRIAS 2021 06 É um poema freudiano, capaz de, pela psicanálise, proporcionar uma forma de se viver de forma menos dolorosa. XII conversa de senhoras Não preciso nem casar Tiro dele tudo que preciso Não saio mais daqui Duvido muito Esse assunto de mulher já terminou O gato comeu e regalou-se Ele dança que nem um realejo Escritor não existe mais Mas também não precisa virar deus Tem alguém na casa Você acha que ele aguenta? Sr. ternura está batendo Eu não estava nem aí Conchavando: eu faço a tréplica Armadilha: louca pra saber Ela é esquisita Também você mente demais Ele está me patrulhando Para quem você vendeu seu tempo? Não sei dizer: fiquei com o gauche Não tem a menor lógica Mas e o trampo? Ele está bonzinho Acho que é mentira Não começa ANÁLISE A ausência de pontuação faz as falas se sobreporem, fato que contribui para a simultaneidade e instantaneísmo típico do cubismo. A dificuldade de se entender o assunto se dá pelo estabelecimento de uma temática íntima a qual o leitor não deve ter acesso porque se trata de uma CONVERSA DE MULHERES. XIII Sumário Polly Kellog e o motorista Osmar. Dramas rápidos mas intensos. Fotogramas do meu coração conceitual. De tomara-que-caia azul-marinho. Engulo desaforos mas com sinceridade. Sonsa com bom-senso. Antena da praça. Artista da poupança. Absolutely blind. Tesão do talvez. Salta-pocinhas. Água na boca. Anjo que registra. ANÁLISE O leitor se vê lançado em frases que parecem interrompi- das pela metade, cruzando-se e atropelando-se num ritmo frenético. No corte que se dá entre palavras, ou entre versos, ou frases de um texto – tendo que esses poemas já não apresentam um gênero fixo –, o leitor é lançado em inúmeros silêncios, não ditos instalados entre cenários, lugares, situações, que não se ligam, mas coexistem em um mesmo textocomo se vindos de mundos distantes. Cada elemento do texto parece ser “peças de quebra- cabeças que não vêm do mesmo, mas de quebra-cabeças diferentes, violentamente inseridas umas nas outras”. O enredo, portanto, é Kodak, telegráfico, cubista. Deve ser lido como se cada linha fosse uma poesia autônoma que, se somada aos outros períodos, formaria um panorama mosaico de como é o turbilhão de vida da autora. Parece que para onde repousa o olhar do eu-lírico o texto nasce, sem nenhuma preocupação de coesão ou coerência. Típico exemplar de revolta textual dentro de um Brasil ditatorial sedento por Ordem e Progresso ou melhor: sedento de pessoas que o amassem ou o deixassem. XIV A história está completa: wide sargasso sea, azul azul que não me espanta, e canta como uma sereia de papel. ANÁLISE O romance Wide Sargasso Sea, de Jean Rhys, foi elaborado como uma estratégia ficcional de dar voz à personagem Bertha Mason, “uma louca do sótão” do romance Jane Eyre, de Charlotte Brontë. Logo após, em 1993, houve uma versão adaptada para o cinema. É possível que a autora tivesse entrado em contato com o livro e o resumiu em uma linha, pois se trata de uma personagem que enlouquece em no mar. Daí a expressão “sereia de papel”. Se sereia é a deusa do canto, aquela que seduz, seu adjetivo “de papel” marca sua ineficiência neste aspecto. Logo, a solidão seria uma consequência. Outra forma de pensar é que o louco do poema estivesse ouvindo a sedução de uma sereia falsa, de papel. Neste caso, a consequência é a mesma: solidão, dada a crença em um pseudo amor. XV Sem você bem que sou lago, montanha. Penso num homem chamado Herberto. Me deito a fumar debaixo da janela. Respiro com vertigem. Rolo no colchão. E sem bravata, coração, aumenta o preço. ANÁLISE Novamente a temática da solidão é evocada. O texto afirma que sem o outro, o eu-lírico é algo parado: lago, montanha. O que é o mesmo que dizer “sem vida”. Daí a necessidade de substituir a ausência por uma presença qualquer. Note o sentido do pronome indefinido “um” em “um homem chamado Herberto”. Talvez fosse esse o nome que se adequasse a uma forma (homem) mais ad- equada a ocupar o espaço daquele que se foi. Deitar indica posição de morte ou de reflexão, mas o que pode fugir deste aprisionamento simbolista é a fumaça. É ela quem escapa pela janela enquanto a tontura se ocupa de tirar o eu-lírico da realidade. Seria um cigarro alucinógeno? Talvez. A última linha parece esclarecer mais o texto: o eu-lírico é uma prostituta que se apaixonou por alguém UFGD 07 OBRAS LITERÁRIAS 2021 cujo nome deve ser mantido em segredo. Mas o amor, para ser respeitado, exige que o preço (da prostituição, do programa) fosse aumentando para que ela não en- contrasse pagador a fim de manchar este amor. Ou, caso encontrasse, que fique claro que a relação é puramente desprovida de sentimento dado seu teor materialista. XVI ATRÁS DOS OLHOS DAS MENINAS SÉRIAS Aviso que vou virando um avião. Cigana do horário nobre do adultério. Separatista protestante. Melindrosa basca com fissura da verdade. Me entenda faz favor: minha franqueza era meu fraco, o primeiro side-car anfíbio nos classificados de aluguel. No flanco do motor vinha um anjo encouraçado, Charlie’s Angel rumando a toda para o Lagos, Seven Year Itch, mato sem cachorro. Pulo para fora (mas meu salto engancha no pedaço de pedal?), não me afogo mais, não abano o rabo nem rebolo sem gás de decolagem. Não olho para trás. Aviso e profetizo com minha bola de cristais que vê novela de verdade e meu manto azul dourado mais pesado do que o ar. Não olho para trás e sai da frente que essa é uma rasante: garras afiadas, e pernalta. ANÁLISE Como o próprio título induz a pensar, atrás do olhos de uma meninas sérias, não há a seriedade propagada. Há, nos olhos, uma aparência que esconde a essência. Adúltera, compulsiva sexualmente, sexualizada. Nada de menina, portanto, submissa. Mas de mulher livre. A fraqueza dela era se relacionar com o homem do primeiro carro anunciado no jornal. No entanto, certa vez, algo deu errado (mato sem cachorro) e ela pulou do carro. Como seu salto a prendeu no automóvel ela caiu no lago. Não se afogou, mas aprendeu com a lição e ficou menos ingênua e mais agressiva: garras afiadas. XVII Encontro de assombrar na catedral Frente a frente, derramando enfim todas as palavras, dizemos, com os olhos, do silêncio que não é mudez. E não toma medo desta alta compadecida passional, desta crueldade intensa que te toma as duas mãos. ANÁLISE Diante de uma catedral, frente a uma santa, o eu-lírico se confessa em silêncio (tome como base o poema anterior e terás um pecado a ser redimido). Não há medo na con- fissão, mesmo diante da “crueldade” de uma santa. Esta santa é cruel porque joga para o confessor um modelo de comportamento que está distante daquele que pecou. Daí o sofrimento do contato real (aquele que peca) com a vida ideal (santificada). XVIII Este livro Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two total., tilintar de verdade que você seduz, charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a carapuça. E cante. Puro açúcar branco e blue. ANÁLISE Ao explicar as palpitações do coração, parece que o Eu- lírico foi indagado pelo filho sobre ser real (automático) ou não. Ao dizer “jazz” do coração, a metáfora mostra uma resposta que afirma ser um ritmo suave, melodioso, melancólico e lento. É isso que é o livro: um chá para dois. Enfiar a carapuça e cantar dá a ideia de que quem seja o dono do livro (ele ou ela) deve aceita-lo às escu- ras. É como se ela justificasse sua própria publicação ou prefaciasse a dele dizendo: vamos publicar e deixemos nas mãos do destino as consequências desta obra. XIX Duas antigas I. Vamos fazer alguma coisa: escreva cartas doces e azedas Abre a boca, deusa Aquela solenidade destransando leve Linhas cruzando: as mulheres gostam de provocação Saboreando o privilégio Seu livro solta as folhas UFGD OBRAS LITERÁRIAS 2021 08 Aí então ela percebeu que seu olho corria veloz pelo museu e só parava em três, desprezando como uma ignorante os outros grandes. E ficou feliz e muito certa com a volúpia da sua ignorância. Só e sempre procura essas frases soltas no seu livro que conta história que não pode ser contada. Só tem caprichos. É mais e mais diária – e não se perde no meio de tanta e tamanha companhia. ANÁLISE O título se refere a duas cartas antigas escritas a uma interlocutora infeliz. A primeira é metalinguística e ensina que a outra deve escrever também duas: uma doce e outra azeda. Talvez se refira a ideia de que devesse equilibrar o relacionamento frustrado ponderando dados positivos e negativos. A interlocutora está em um museu e só percebe três obras importantes (não reveladas aqui a autoria) e são elas que exercem a grande companhia a ela. Parece que a felicidade se dá longe dos humanos e em presença de obras de arte, descomprometidas, fieis, sinceras... XX Vacilo da vocação Precisaria trabalhar – afundar – – como você – saudades loucas – nesta arte – ininterrupta – de pintar – A poesia não – telegráfica – ocasional – me deixa sola – solta – à mercê do impossível – – do real. ANÁLISE Texto metalinguístico. A poetiza compara o fazer poético (difícil, aprisionador) ao pintar (livre, automático, com vontade de quero mais). O aspecto gráfico do texto, no entanto, é bem semelhante a uma tela cubista em que cada figura geométrica vem separada pelo plano do travessão. Desta forma, ela poetiza e pinta ao mesmo tempo. XXI Minha boca também está seca deste ar seco do planalto bebemos litros d’água Brasília está tombada iluminada como o mundo real pouso a mão no teu peito mapa de navegação desta varanda hoje sou eu que estou te livrando da verdade Te livrando: Castilo de alusuiones Forest of mirros Anjo Que extermina A dor ANÁLISE A presença dos travessões marca uma espéciede pince- lada no papel, desejo do eu-lírico, que, sem perceber, acaba pintando um quadro, só que verbal, poético. No entanto, a autora estabelece uma diferença entre pintar e poetizar: esta é espontânea, automática, mecânica, na fronteira entre o impossível e o real; aquela, é lírica, contínua, suave. XXII Minha boca também está seca deste ar seco do planalto bebemos litros d’água Brasília está tombada iluminada como o mundo real pouso a mão no teu peito mapa de navegação desta varanda hoje sou eu que UFGD 09 OBRAS LITERÁRIAS 2021 estou te livrando da verdade Te livrando: Castillho de alusiones Forest of mirrors Anjo Que extermina a dor. ANÁLISE Boca seca é uma expressão ambígua: pode-se referir à baixa humidade do ar ou a incapacidade de engolir/aceitar determinada situação. O mesmo se diz de “tombada” no sentido histórico como patrimônio ou caída, no sentido pejorativo de inerte, morta. Na mesma linha segue a ideia de “por a mão no peito” como sinal de respeito (é assim que fazemos quando ouvimos o hino) ou de despedida de um ente querido, agora morto. Se hoje é o eu-lírico que livra o outro (interlocutor ou a própria Brasília) de falar a verdade pode ser que o próprio eu-lírico diga a verdade ou autorize o outro a mentir. Sendo assim, ideologias que veem de Brasília podem ser consideradas, pelo texto, inverdades. Brasília é, de acordo com o final do texto, um castelo de ilusões, uma floresta de espelhos... algo indeciso, impreciso, in- definido... por isso a necessidade de ser buscada/retirada/ extirpada de nossa sociedade por um anjo que a levasse para um espaço no qual não tivesse ação política. O anjo vem busca-la como a purificar a vida do eu-lírico e do cidadão brasileiro. XXIII Ela quis Queria me matar Quererá ainda, querida? ANÁLISE “Ela” é um pronome anafórico. Como não há texto anterior, a incoerência se estabelece desde a primeira palavra. Mas a incógnita é uma forma de se projetar dentro da época da poesia marginal em que os textos deviam ser cifrados mesmo, Diante disso, mais impor- tante não é a ambiguidade do “Ela” (mulher ou contexto, ditatura militar), mas a continuidade do medo: “quererá ainda?”. Outra forma de ler o texto é buscar o referente de “Ela” em Brasília, do texto anterior. Aí a crítica se amplia ainda mais... XXIV é muito claro amor bateu para ficar nesta varanda descoberta a anoitecer sobre a cidade em construção sobre a pequena constrição no teu peito angústia de felicidade luzes de automóveis riscando o tempo canteiros em obras em repouso recuo súbito da trama ANÁLISE A expressão “canteiros em obras em repouso” fecha a ideia de amor e ódio à Brasília: há carros, há movimento, há geração de recursos... mas há a ineficiência da gestão de tudo o que é construído por este centro administrativo. Daí a necessidade do recuo (redução) súbito (de repente) da Trama (história contada pela poetiza ou tramoia, corrupção efetuada por Brasília). É assim que se faz necessário o anjo (fim da capital) que libertará o país. XXV Quando entre nós só havia uma carta certa a correspondência completa o trem os trilhos a janela aberta uma certa paisagem sem pedras ou sobressaltos meu salto alto em equilíbrio o copo d’água a espera do café UFGD OBRAS LITERÁRIAS 2021 10 Reaparecia abruptamente como se nada tivesse acontecido abria as cortinas com palpites Turbilhão de novidades Antena das últimas Tendências Força de leão escancarava a porta preta vento redemoinho gargalhada no ar meio dia ANÁLISE Antes do turbilhão Brasília, havia tempo para o trem, para carta, para o café. A vida valoriza a própria vida. Não havia boca seca. Mas a presença do progresso era inevitável e mesmo diante da negativa a ideia de Brasí- lia “reaparecia abruptamente”, invadia a varanda com “força de leão” e gargalhava no ar. Brasília venceu. XXVI Cabeceira Não quero mais pôr poemas no papel nem dar a conhecer minha ternura. Faço ar de dura, muito sóbria e dura, não pergunto “da sombra daquele beijo que farei?” É inútil ficar à escuta ou manobrar a lupa da adivinhação. Dito isto o livro de cabeceira cai no chão. Tua mão que desliza distraidamente? sobre a minha mão ANÁLISE Poema metalinguístico. Em vez de poetizar, grafa a sua revolta: não quer mais escrever (mas escreve). Prefere esconder o lirismo, a ternura. Tudo isso porque do beijo que deu só lhe restam sombras, passado, lembrança. Daí o endurecimento lírico de sua poética, metáfora de sua vida. Lendo, o livro cai no chão... a lembrança a desloca de realidade e pensa ser a mão do outro ao lado dela... poesia que expressa a carência da falta de um amor ou pior a presença dele só na imaginação. XXVII Aventura na Casa Atarracada Movido contraditoriamente por desejo e ironia não disse mas soltou, numa noite fria, aparentemente desalmado; – Te pego lá na esquina, na palpitação da jugular, com soro de verdade e meia, bem na veia, e cimento armado para o primeiro a andar. Ao que ela teria contestado, não, desconversado, na beira do andaime ainda a descoberto: - Eu também, preciso de alguém que só me ame. Pura preguiça, não se movia nem um passo. Bem se sabe que ali ela não presta. E ficaram assim, por mais de hora, a tomar chá, quase na borda, olhos nos olhos, e quase testa a testa. ANÁLISE A declaração de amor foi feita de forma indireta: “te pego lá na esquina...” se a outra parte aceitar, bom para quem fez o pedido... no entanto a proposta é seguida de uma vantagem diante da aceitação: soro na veia (heroína?) e cimento para o primeiro andar (promessa de viverem juntos uma relação sólida, estável). Parece que, talvez, ele seja um pedreiro porque a conversa foi efetuada a beira de um andaime. Ela, provavelmente, negou os presentes alegando que seria necessário só amor – ato UFGD 11 OBRAS LITERÁRIAS 2021 que também ele concorda. O amor é concorde uma vez que continuam conversando, agora em outro tempo, com os olhos nos olhos e testa na testa... parece que estão no final do texto, no futuro: morando juntos e tomando chá. Daí a justificativa do título: casa (local onde o amor vive junto) atarracada (apertada, pequena. Por isso estão tão próximos – testa na testa). XXVIII O HOMEM PÚBLICO N. 1 Tarde aprendi bom mesmo é dar a alma como lavada. Não há razão para conservar este fiapo de noite velha. Que significa isso? Há uma fita que vai sendo cortada deixando uma sombra no papel. Discursos detonam. Não sou eu que estou ali de roupa escura sorrindo ou fingindo ouvir. No entanto também escrevi coisas assim, para pessoas que nem sei mais quem são, de uma doçura venenosa de tão funda. ANÁLISE Fiapo de noite velha é a lembrança de algo que deve ser esquecido para que a vida prossiga. “Fita” era a forma com que o cinema era retratado ou transmitido. Se ela foi cortada, significa para nós, hoje, editada. O mal foi retirado, mas as lembranças, “sombras”, permanecem. Daí a necessidade de se livrar do passado. Aquele que está ali de “roupa escura” pode se referir a ideia de luto: alguém morreu e deve ser esquecido, por ter vivido sempre no fingimento do sorriso falso. Assim como essa pessoa, outras do convívio social do eu-lírico e que o obriga a escrever também exercem um compor- tamento condenável e, por extensão, merecem o mesmo fim: morte, fita editada, esquecimento. Escrever, para este texto, é vingar-se. É poder ser verda- deiro enquanto o mundo não o é. XXIX Pour Mémoire Não me toques nesta lembrança. Não perguntes a respeito que viro mãe-leoa ou pedra-lage lívida ereta na grama muito bem-feita. Estas são as fazes da minha fúria. Sob a janela molhada passam guarda-chuvas na horizontal, como em Cherbourg, mas não era este o nome. Saudade em pedaços, estação de vidro. Água As cartas não mentem jamais: virá ver-te outra vez um homem de outro continente. Não metoques, foi minha cortante resposta sem palavras que se digam dentro do ouvido num murmúrio. E mais não quer saber a outra, que sou eu, do espelho em frente. UFGD OBRAS LITERÁRIAS 2021 12 Ela instrui: deixa a saudade em repouso (em estação de águas) tomando conta desse objeto claro e sem nome. ANÁLISE O eu-lírico não suporta a lembrança de algo. Conversa com um interlocutor implícito e ameaça com violência se ele insistir no assunto. A melancolia se acentua com a cena da chuva e os guarda-chuvas passando na horizontal, como no litoral de Cherbourg, na França. A dor se dá porque a “saudade está em pedaços”. O eu-lírico chegou a frequentar uma cartomante que garantiu a verdade por meio do jogo de cartas: “chegará um homem de outro continente”. A instrução é simples: deixar a saudade em repouso, cuidando deste ser anônimo sobre o qual não se deve falar. Por extensão, a outra mul- her que dentro da que sobre a ausência deverá estar aberta a novas propostas (homem que vem de outro continente). XXX Sexta Feira Da Paixão Alguns estão dormindo de tarde, outros subiram para Petrópolis como meninos tristes. Vou bater à porta do meu amigo, que tem uma pequena mulher que sorri muito e fala pouco, como uma japonesa. Chego meio prosa, sombras no rosto. Não tenho muitas palavras como pensei. “Coisa ínfima, quero ficar perto de ti”. Te levo para a avenida Atlântica beber de tarde e digo: está lindo, mas não sei ser engraçada. “A crueldade é seu dilema…” O meu embaraço te deseja, quem não vê? Consolatriz cheia de vontades. Caixa de areia com estrelas de papel. Balanço, muito devagar. Olhos desencontrados: e se eu te disser, te adoro, e te raptar não sei como dessa aflição de março, bem que aproveitando maus bocados para sair do esconderijo num relance? Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis? Beware: esta compaixão é é paixão. ANÁLISE “O meu embaraço te deseja, quem não vê?”. A frase revela que o título nada tem a ver com a crucificação de cristo. Mas deve ser lido de forma denotativa: em uma sexta-feira, a paixão estava para ser efetivada. Mas algumas coisas a obstam em formas de situações pouco esclarecidas pelo poema: parece que ela se aproveitou d submissão da esposa do amigo e o convidou para sair. Declarou-se, mas não há o relato da consumação da re- lação. O texto termina com uma advertência: compaixão é paixão. O prefixo “co” indica junto, que por extensão se refere ao interlocutor dela, ao amado. XXXI Que desliza “Onde seus olhos estão As lupas desistem. O túnel corre, interminável Pouso negro sem quebra de estações. Os passageiros nada adivinham. Deixam correr Não ficam negros Deslizam na borracha Carinho discreto pelo cansaço que apenas se recosta contra a transparente escuridão.” ANÁLISE Não é necessário lupa porque o olhar se amplia por si mesmo. É o olhar do outro que desliza por sobre o interlocutor, o eu-lírico. Isso cria metáforas como túnel interminável ou há de fato uma viagem de trem e é neste túnel que o lance amoroso ocorre. Isso porque os pas- sageiros nada adivinham. Os olhos, metonímia do afeto, são, portanto, carinhos discretos; deleites que deslizam e criam o êxtase no eu-lirico. UFGD 13 OBRAS LITERÁRIAS 2021 XXXII Samba-canção Tantos poemas que perdi. Tantos que ouvi, de graça, pelo telefone – taí,, eu fiz tudo pra você gostar, fui mulher vulgar, meia-bruxa, meia-fera, risinho modernista arranhando na garganta, malandra, bicha, bem viada, vândala, talvez maquiavélica, e um dia emburrei-me, vali-me de mesuras (era comércio, avara, embora um pouco burra, porque inteligente me punha logo rubra, ou ao contrário, cara pálida que desconhece o próprio cor-de-rosa, e tantas fiz, talvez querendo a glória, a outra cena à luz de spots, talvez apenas teu carinho, mas tantas, tantas fiz... ANÁLISE Em linguagem coloquial em alguns pontos, a letra da música-poema afirma que o eu-lírico deixou de criar, de compor (ironia: ele já está compondo... trata-se de um texto metalinguístico) e se esforçou ao máximo para atingir outro valor: a amor da pessoa que o ignorava. O samba, choroso e sentimental, é balanço de um relacio- namento em que houve desequilíbrio: um ama e não é correspondido. XXXIII TRAVELLING Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar. Guardo os papéis todos que sobraram. Confirmo para mim a solidez dos cadeados. Nunca mais te disse uma palavra. Do alto da serra de Petrópolis, com um chapéu de ponta e e um regador, Elizabeth reconfirmava, “Perder é mais fácil que se pensa”. Rasgo os papéis todos que sobraram. “Os seus olhos pecam, mas seu corpo não”, dizia o tradutor preciso, simultâneo, e suas mãos é que tremiam. “É perigoso”, ria Carolina perita no papel Kodak. A câmera em rasante viajava. A voz em off nas montanhas, inextinguível fogo domado da paixão, a voz do espelho dos meus olhos, negando-se a todas as viagens, e a voz rascante da velocidade, de todas três bebi um pouco ANÁLISE Houve um término e de noite, na hora de dormir, há uma necessidade de verificar a casa (metáfora da própria vida) em cada detalhe. O texto se passa em Petrópolis e a personagem, Elizabeth Reconfirmava que perder é fácil. O RE indica que perdera mais de uma vez e por isso consegue teorizar a situação de ausência. Rasgar os papéis indica esquecer/anular o passado porque olhar é pecado, mas se não houver o papel, haverá a pure- za. Entra na história cubista (isto é: sem muita sequência lógica no enredo) uma fotógrafa. Parece que a poesia retrata cenas de um filme em que Elizabeth divaga sobre sentimentos enquanto é fotografada por Carolina. Esta cena, composta pelo tradutor, pela atriz e pela fotógrafa ensinou algo sobre relacionamentos ao eu-lírico: nunca mais dizer uma palavra sobre o que ouviu de lirismo na cena vista. Talvez ela tenha internalizado o sofrimento interpretado e falar sobre ele seria sofrer novamente. Não falar, portanto, seria um mecanismo de defesa. XXXIV lá fora há um amor que entra de férias. Há um embaçamento UFGD OBRAS LITERÁRIAS 2021 14 de minhas agulhas nítidas diante dessa boa bisca de mulher. Há um placar visível em altas horas, pela persiana deste hotel, fatal, que diz: fiado, só depois de amanhã e olhe lá, onde a minha lâmina cortante, sofrendo de súbita cegueira noturna, pendura a conta e não corta mais, suspendendo seu pêndulo De Nietzsche ou Poe por um nada que pisca e tira folga e sai afiado para a rua como um ato falho deixando as chaves soltas em cima do balcão. XXXV Volta e meia vasculho a sacola preta à cata de um três por quatro. Exatamente o meu peito está superlotado. Os ditos dele zumbem por detrás. Na batida dou com figuras de outras dimensões. Nesta hora grave a mais peituda, estirada no sofá, encara fixamente a mulher da máquina. (Junto a lista lacônica das férias: mudança, aborto, briga rápida com A, tensão dramática em SP, carta para B – pura negação – , afasia com H, tarde sentida no Castelo.) Rigidez aguardando um clique. Um still. Que morresse pela boca. Nesta volta e meia vira e mexe acabo achando ouro na sacola. Fabulosas iscas do futuro. Helicóptero sobrevoando baixo o hospital do câncer Sorriso gabola da turma de 71. Papai, mamãe, a linha do horizonte. Concorde. Bonde do desejo. Espaçonave. Hoje mesmo quando olhei para o rosto exausto de Angelita. Desde que o Sombra me falou de amor. ANÁLISE O amor entrou de férias e por isso é necessário cumprir protocolos de uma vida solitária. Talvez sejam as férias o espaço do eu-lírico cumprir metodologias que nada se relacionam com o amor, mesmo porque houve um motivo para a separação: gravidez. É por isso que tem que pensar em aborto e brigar com A (possível causa do aborto ou um obstáculo à felicidade). A tensão referida pode ser de alguma das famílias, dela ou dele, que já sabem da situação problema. Carta para B pode ser compreendida como a negação da própria gravidez ouaborto pensado. Afasia significa dizer que não sabia e por isso, ser per- doada pelo erro. O clique a que se refere é uma foto, um still. O final do texto marca o trevelling : a viagem é mental, é um deva- neio diante de uma situação difícil em que a vida em toda de uma vez para dentro da cabeça. É uma espécie de surto. XXXVI Queria falar da morte e sua juventude me afagava. Uma estabanada, alvíssima, um palito. Entre dentes não maldizia a distração elétrica, beleza ossuda al mare. Afogava-me. ANÁLISE O poema pode ser lido como uma referência à época de 1970, ou à biografia conturbada da autora ou ainda como extensão do anterior, uma vez que morte poderia ser a fuga máxima de uma pessoa em desespero. A juventude que afaga pode ser da própria morte ou de um interlocutor que a consola, ainda que imaginariamente, no momento em que pensa falar sobre morte. Outra ambiguidade: a pessoa é estabanada e branca ou esta é a forma de como a morte se apresenta para o eu-lírico. E, por fim, o afoga- mento se deu por salvação via interlocutor ou por morte via própria morte. XXXVII Sábado de aleluia Escuta, Judas. Antes que você parta pro teu baile. A morte nos absorve inteiramente. Tudo é aconchego árido. UFGD 15 OBRAS LITERÁRIAS 2021 Cheiro eterno de Proderm. Mesa posta, e as garras da vontade. A gana de procurar um por um e pronunciar o escândalo. Falar sem ser ouvida. Desfraldar pendengas: te desejo. Indiferença fanática ao ainda não. ANÁLISE Como no texto “Sexta-feira da Paixão” o eu-lírico não conseguiu amar com tranquilidade, uma vez que seria uma “traição” se, de fato, a relação se consumasse, aqui, o ídolo do eu-lírico é Judas, o traidor. O sábado é um dia livre, pronto para que aconteça transgressões e tanto Judas quanto o eu-lírico tem “gana de procurar um escândalo”. A ideia é deixar as pendengas, aquilo que está suspenso e mal resolvido, prontas para serem observadas (desfraldadas), nuas. O texto termina com uma indiferença ao não. Quando não se interpreta ou se aceita a palavra não o eu-lírico e Judas estão livres para ultrapassar os limites da ética e fazer o que o sistema desaprova, seja tal sistema no campo político da autora, afetivo do eu-lírico ou religioso, de Judas. XXXVIII Desde que voltei tenho sobressaltos ao ouvir tua voz ao telefone Desde que o Sombra me falou de amor Fotografar era pescar na margem Ancorar um navio no espaço e a voz rascante da velocidade antes que você parta pro teu baile mesa posta, e as garras da vontade Daqui que eu tiro versos, desta festa doçura venenosa de tão funda aventura na casa atarracada Consolatriz tão cheia de vontades a fome tenra que você me deu apenas me castiga com seus uivos ANÁLISE O início desta coletânea remonta à ideia de que o eu- lírico estivesse fora do país. Este poema, um dos últimos de “A Teus Pés” indica um retorno, mas a truculência do contexto e a dificuldade de se manter feliz permane- cem: ela fala pouco com o outro e às vezes é bruta. Ela deseja que Pedro encare o relacionamento a sério e que se encontrem com menos intenções sexuais. Ela sai do hotel e vai para o parque. Utiliza a tecnologia disponível: máquina fotográfica e rádio. Dorme. É possível pensar que ela marcou um encontro com Pedro neste parque, mas a demora fez com que ela cochilasse e sonhasse com tantas situações surreais como escotilhas, brincos caídos, estrelas, piloto... XXXIX Tudo que eu nunca te disse, dentro destas margens. A curriola consolava. O assunto era sempre outro. Os espiões não informavam direito. A intimidade era teatro. O tom de voz subtraía um número. As cartas, quando chegavam, certos silêncios, nunca mais. Excesso de atenção varrido para baixo do capacho. Risco a lápis sobre o débito. Vermelho. Agora chega. Agora, aqui, de repente, de propósito, de batom, leio: “Contas Novas”, em letras plásticas. Três variações de assinatura. Três dias para o livro de cheques desta agência. Demito o agente e o atravessador. Felicidade se chama meios de transporte. Saída do cinema hipnótico. Ascensão e queda e ascensão e queda deste império mas vou abrir um lacre. Antes disso, um sus: pousa aqui. Ouve: “Como em turvas águas de enchente…” É lá fora. Espera. UFGD OBRAS LITERÁRIAS 2021 16 ANÁLISE Texto politizado. Curriola é uma gíria nordestina para se referir a corja, bando. Os espiões que trabalhavam em favor da contra ideologia eram ineficazes. Tudo era representação porque a verdade não pode ser explicitada. Tudo era melindroso e exigia atenção e silêncio. O “Agora chega” dá vasão a uma série de mínimas ações revoltosas, mas significativas porque libertadoras de um sistema opressor: ir ao cinema, por exemplo. No entanto, chama alguém porque escutou um barulho lá fora. Este “lá fora” pode se referir à repressão que se seguirá dado a revolta libertária operada pelo eu-lírico. O poema termina com um silencio operando como um corte no poema. Este silencia também deve ser lido como parte da construção do sentido. XL Fogo do final Escrevendo no automóvel. Pedra sobre pedra: você estava para chegar. Numa providência, me desapaixonei, num risco, numa frase: Não adiantam nem mesmo os bilhetes profanos pela grande imprensa. Saudades do rigor de Catarina, impecável riscando o chão da sala. Ancorada no carro em fogo pela capital: sightseeing no viaduto para a Liberdade. Caio chutando pedrinhas na calçada, damos adeus passando a mil, dirijo em círculo pelo maior passeio público do mundo, nos perdemos – exclamo num achado –, é tardíssimo, um deserto industrial com perigosas bocas imperguntáveis. Não precisa responder. Envelopes de jasmim. Amizade nova com o carteiro do Brasil. Cartões-postais escolhidos dedo a dedo. No verso: atenção, estás falando para mim, sou eu que estou aqui, deste lado, como um marinheiro na ponta escura do cais. É para você que escrevo, hipócrita. Para você – sou eu que te seguro os ombros e grito verdades nos ouvidos, no último momento. Me jogo aos teus pés inteiramente grata. Bofetada de estalo – decolagem lancinante – baque de fuzil. É só para você y que letra tán hermosa. Pratos limpos atirados para o ar. Circo instantâneo, pano rápido mas exato descendo sobre a tua cabeleira de um só golpe, e o teu espanto! Não tenho pressa. Neste lago um vapor, neste lago. Por enquanto não tem luz de lado amenizando a noite; nem um abajur. Uma sentinela: ilha de terrível sede. Hoje não estou me dando com as mulheres, ele responde, enfurecido, e bate o telefone num tropel. As mulheres pedem: vem cá, te trato, faço um chá, mas nada, ele não vai mais à casa de ninguém e faz récita sozinho, como se não fosse com ninguém. Meu velho: Antes te dava chás de cadeira alternados com telefonemas de consultas: que faço com a mulher que mente tanto e me calunia pelas costas, ou o homem que pede que eu apenas faça sala para o seu silêncio? O chá abria, mas eu queria uma quiromancia, um olho clínico, mundano, viajado, uma resposta aguda, uma pancada no miolo. Quem sabe uma corrida por fora da tabela, meio em zigue-zague, motorista de perícia desvairada. Comprou carteira no Detran? E suicidaram-se os operários de Babel. Isso foi antes. Agora irretocável prefiro ficar fora, só na capa do seu livro. Este é o jasmim. Você de morte. Não posso mais mentir. Corto meu jejum com dedos de prosa ao telefone, meu próprio fanatismo em ascensão: “O silêncio, o exílio, e a astúcia”? Engato a quarta ao som de Revolution. Descontinuidade. Iluminações no calçadão. Ultimamente deu pra me turvar a vista. Alerta não sou mais a mesma, vertigem das alturas. Você está errado: não é o romance da longa vida que começa. Não foi nossa razão que deu com os burros n’água. Nem o frio na espinha dentro do ar engarrafado no aterro do Flamengo. Rush. Não foi a pressa. O estabanamento na escada em espiral. O livro que falta na estante e no entanto deveria ficar lá onde está. A amizade recente com o carteiro do Brasil, que entravila 13623-miolo-poetica.indd 122 10/31/13 6:03 PM Sergio Alcides e Luiz Fernando Vianna – IMS 123 adentro e bate na janela e me entrega o envelope pelo nome. Os grunhidos do ciúme. Minhas escapadas pelo grande mundo, suas retiradas para dentro da sólida mansão. Não foi nada disso. Então o quê? 26 de março. Preciso começar de novo o caderno terapêutico. Não é como o fogo do final. Um caderno terapêutico é outra história. É deslavada. Sem luvas. Meio bruta. É um papel que desistiu de dar recados. Uma imitação da lavanderia com suas máquinas a seco e suas prensas a vapor. Um relatório do instituto nacional do comércio, ríspido mas ditoso, inconfessadamente ditoso. Nele eu sou eu e você é você mesmo. Todos nós. Digo tudo com ais à vontade. E recolho os restos das conversas, ambulância. Trottoir na casa. Umas tantas cismas. O terapêutico não se faz de inocente ou rogado. Responde e passa as chaves. Metálico, estala na boca, sem cascata. E de novo. ANÁLISE O Eu-lírico começa a poesia escrevendo algo com pe- dras, em cima do automóvel. Há um encontro e ele sente saudades de Catarina. Se esta for considerada esposa, a pessoa do encontro seria uma amante. O carro sai, não se sabe se só com um ou dois passageiros (ancorada no carro em fogo), em alta velocidade e passa por lugares importantes para a poética de Ana Cristina: Viaduto (alto, por cima, superior) da liberdade (nada de amarras). Só aqui se declara que o carro está com os dois que a relação é ilegítima: “nos perdermos” e as perguntas da grande imprensa já ressoam na cabeça do eu-lírico, porém ela afirma que “não precisas responder”. O texto dá a ideia de fuga dos amantes. Logo abaixo o título é justificado: “Me jogo aos Teus Pés inteiramente grata.” Momento em que o texto mantém o estilo tipográfico, cubista e as frases são aproximadas sem nenhum elemento coesivo ou com qualquer coerência. UFGD 17 OBRAS LITERÁRIAS 2021 Continuam rodando até um lago sereno. Uma confusão se estabelece: parece que o outro estava somente na cabeça do eu-lírico e que, de fato, o carro está somente com uma pessoa. Isso porque há um telefonema e uma das falas é: “Hoje não estou me dando com as mulheres, ele responde, enfurecido, e bate o telefone num tropel.”. Ele não vai. O carro se acelera ao som da rebeldia (Revolu- tion). A luz se faz mais presente quanto mais o exercício libertário de correr, de acelerar o carro, é efetuado. O eu-lírico está com as vistas turvas, mas insiste em dialogar com o leitor e dizer que nada tem isso a ver com amor. Mas sim com a raiva do outro: ela escapa do mundo correndo; ele, entrando em sua mansão. Ela, então, propõe fazer um “caderno terapêutico”: espécie de relatos que exprimissem a autenticidade e a identidade de cada um. Neste caderno, ela será cada vez mais ela (rebelde, transbordante, efusiva) e ele seria ele (submisso, quito, discreto, nada ousado). O caderno seria a substituição Dele, do Outro. Seria a forma literária realista do que a vida deveria ter sido. XLI Índice Onomástico Alvim, Francisco Augusto, Eudoro Bandeira, Manuel Bishop, Elizabeth Buarque, Helô Carneiro, ÂngelaDicki- son, Emily Drabik, Grazyna Drummond, Carlos Freitas Fº, Armando Holiday, Billie Joyce, James Kleinmain, Mary Mansfield, Katherine Meireles, Cecilia Melim, Angela Mendes, Murilo Muricy, Katia Paz, Octavio Pedrosa, Vera Rhuys, Jean Stein, Gertrude Whitman, Wal ANÁLISE O poema coloca em ordem alfabética os autores e termina com uma dedicatória. Este texto é híbrido porque se quer considerar literatura, mas também é encontrado no final de uma obra (índice Onomástico) é uma lista que se con- sulta quando se quer ler no livro somente algo específico ou citações diretas. No entanto, dedicatória costuma vir antes da história em si. Desta forma, pode-se entender que o fim (índice on- omástico) e o começo (Dedicatória) estão juntos for- mando um ciclo. Outra forma de entender pode estar relacionada ao de- staque dado a Armando, separando-o dos demais nomes. Isso porque ele não é autor famoso, não tem sobrenome, mas indica intimidade e homenagem. Logo, este “Ar- mando” pode ser a causa do desespero do eu-lírico, ao logo do texto, sempre jogado aos “Pés dele”. XLll Eu também, não resisto. Dans mon île, vendo a barca e as gaivotinhas passarem. Sua resposta vem de barca e passa por aqui, muito rara. Quando tenho insônia me lembro sempre de uma gaffe e de um anúncio do museu: “to see all these works together is an experience not to be missed”. E eu nem nada. Fiz misérias nos caminhos do conhecer. Mas hoje estou doente de tanta estupidez porque espero ardente- mente que alguma coisa... divina aconteça. F for fake. Os horóscopos também erram. Me escreve mais, manda um postal do azul (eu não me espanto). O lugar do passado? Na próxima te digo quem são os 3, mas os outros grandes... eu resisto. Não fica aborrecida: beijo político nos lábios de cada amor que tenho. ANÁLISE A segunda carta, estando na solidão de sua ilha, olhando gaivotas e barcas a outra (da carta anterior) recebe sua correspondência. Assim, os textos passam a formar um diálogo. Ela relembra o anúncio do museu que diz “ver todas essas palavras junto com alguém é uma experiência que não se pode perder”. Ela classifica este slogan do museu como gafe, porque entrou sozinha...Mas ainda espera ardentemente que alguma coisa aconteça: seria ar- ranjar um companheiro ou companheira? Possivelmente. Ela ainda pede para a amiga escrever mais. Postal do azul pode fazer referência ao “wide sargasso sea”, mesmo porque a expressão “eu não me espanto” está presente naquele texto. Ainda há uma promessa que alivia um pouco a leitura cifrada entre duas pessoas cujo leitor não tem acesso nem a elas nem ao que falam: “na próxima (carta) digo quem são os três”. Ela diz que revelará as obras, autores ou monumentos... CONSIDERAÇÕES FINAIS Inserida no clima da geração 70, revelam a atração pelo insólito do cotidiano, o sentido de asfixia, experimentado no cotidiano, mas trabalhado com humor; valorização do coloquialismo; culto do instante, em uma visão de mundo que valorizava o aqui e o agora. A intertextualidade, o pastiche, a linguagem fragmentada e a mistura do popular e o erudito estão presentes. O leitor descobre diversas alusões feitas por Ana Cristina à cultura de massa, como a Roberto Carlos, estabelecendo uma rede infinita de intertextualidades. Como exemplo, no poema seguinte se percebe a presença de um dos mais influentes “modelos” de Ana Cristina, Manuel Bandeira, com o seu clássico “Irene no céu”. É a própria Ana Cris- UFGD OBRAS LITERÁRIAS 2021 18 tina quem confessa, nos versos escolhidos como epígrafe a esse ensaio, que são das tetas dos poetas. Ao escrever através de uma linguagem informal, em tom de conversa, seu método a afastou das “perfeições” tão desejadas por Cecília Meireles, cuja preocupação formal torna seus poemas visivelmente distintos dos produzidos por Ana Cristina, o que a levou a declarar certa vez que “Cecília Meireles é um homem”. Em contrapartida, Ana Cristina admirava “as belas imperfeições de Adélia Prado. Freqüentemente questiona a sociedade conservadora e o lugar nela destinado à mulher. É o que se lê em: “[...] Não sou dama nem mulher / moderna”. O lirismo misturado ao cotidiano frio de uma cidade também é uma constante na obra de Ana C. Vale a pena ressaltarmos que amor é um dos temas centrais de sua produção literária. O desejo de vivê-lo intensamente como se o seu tempo fosse curto, curtíssimo (e o foi realmente), faz com que seu poema se torne mais uma confissão. Ana C. constantemente utiliza, em sua obra, imagens de chaves e cadeados. Usa também a palavra francesa “clé”, que significa chave, resposta ou solução (para um enigma ou problema). E, mais uma vez, voltamos ao olhar através do buraco de fechadura, à brincadeira de mostra-esconde e ao desafio. Qual é, afinal, a chave para a poesiade Ana C.? Em vários de seus poemas, Ana C. (que possuía um vasto conhecimento literário e tinha lá as suas predileções poé- ticas) homenageia alguns poetas em intertextualidades, paródias e paráfrases, como podemos notar neste poema em que cita Manuel Bandeira: Também Álvares de Azevedo, o poeta da morte, mel- ancólico e romântico, irônico e sarcástico, assim como a própria Ana Cristina César. A figura do navio também é frequente na poesia de Ana C. Segundo a própria poeta, “os navios me iluminam”. Em certos poemas, Ana C. trata de sua intimidade com total naturalidade, fazendo com que unisse o lírico ao proibido. Além do texto em formas de diário temos poemas em estilo epistolar, como se fossem cartas, correspondências fictícias Luvas de pelica Querida. É a terceira com esta a quarta que te escrevo sem resposta. No dia do meu aniversário pegou fogo na linha férrea e eu vinha lendo A Man and Two Women e tive de mudar de cabine de tanto que me irritou a mulher que não falava uma palavra, feia apontando por livrinho, e o velho prestativo se inclinando e abrindo a boca para falar mais. Saí da cabine e procurei um canto vazio mas não tinha. Horas paradas esperando... Ana Cristina César veio de uma família de protestantes, daí, não raro, mencionar a religião.