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APOSTILA ESPECÍFICA PSICOLOGIA CONCURSO TRE-CE - REPRODUÇÃO PROIBIDA – www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 2 SUMÁRIO 1. UNIDADE I – INTRODUÇÃO......................................................................................... 6 1.1 Psicologia Social ....................................................................................................... 6 1.1.1 Abordagens Teóricas em Psicologia Social e Suas Práticas ............................ 15 1.2 Psicologia Organizacional....................................................................................... 28 1.2.1 Transformações no mundo do trabalho e mudanças nas organizações .......... 30 1.2.1.1 Taylorismo e Fordismo: Início do Século XX ................................................... 30 1.2.1.2 Cibernética e Teoria Geral dos Sistemas ......................................................... 32 1.2.1.3 Gestão de Pessoas ............................................................................................ 35 1.3 Estrutura Organizacional na Administração Pública ............................................ 37 2. UNIDADE II – PRÁTICAS EM RECURSOS HUMANOS ............................................. 39 2.1 Recrutamento e Seleção e os Preditores em Seleção ...................................... 39 2.1.1 Recrutamento........................................................................................................ 39 2.2 Seleção de Pessoas................................................................................................. 41 2.2.1 Seleção por Competências .................................................................................. 42 2.3 Recrutamento e Seleção na Administração Pública ............................................. 43 2.4 Apresentação de resultados (laudos, relatórios e listas de classificação).......... 49 2.5 Desligamento: entrevista de desligamento............................................................ 56 2.6 Treinamento e Desenvolvimento de Pessoal: levantamento de necessidades, planejamento, execução e avaliação............................................................................ 57 2.7 Análise e Desenvolvimento Organizacional........................................................... 59 3. UNIDADE III – O INDIVÍDUO E O CONTEXTO ORGANIZACIONAL: variáveis individuais, grupais e organizacionais ........................................................................ 60 3.1 Cultura organizacional: paradigmas, conceitos, elementos e dinâmica ............. 60 3.2 Clima organizacional: evolução conceitual, componentes e estratégias de gestão ............................................................................................................................. 62 www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 3 3.3 Comportamento humano no trabalho: motivação, satisfação e comprometimento ........................................................................................................................................ 63 3.3.1 Teoria da Hierarquia de Necessidades................................................................ 64 3.3.2 Teoria dos Dois Fatores de Herzberg .................................................................. 65 3.3.3 Teorias X e Y ......................................................................................................... 66 3.3.4 Modelo Contingencial de Motivação.................................................................... 66 3.3.5 Teoria de Campo ................................................................................................... 67 3.3.6 A Abordagem Fenomenológica da Logoterapia ................................................. 68 3.3.7 Técnicas Motivacionais ........................................................................................ 69 3.4 Comunicação nas organizações............................................................................. 70 3.5 Grupos nas organizações: abordagens, modelos de intervenção e dinâmica de grupo .............................................................................................................................. 71 3.5.1 Dinâmicas de Grupo ............................................................................................. 72 3.6 Equipes de trabalho e desempenho organizacional em diferentes organizações ........................................................................................................................................ 78 3.7 Trabalho em equipe interprofissional: relacionamento e competências............. 78 3.8 Mediação: diagnóstico e gerenciamento de conflitos interpessoais e organizacionais.............................................................................................................. 81 3.9 Liderança e Poder nas organizações ..................................................................... 85 4 – UNIDADE IV - GESTÃO DO TRABALHO ................................................................. 91 4.1 Condições e organização do trabalho: trabalho prescrito, ambiente físico, processos de trabalho e relações sócio-profissionais. .............................................. 91 4.1.1 Trabalho prescrito e a função da descrição de cargos ...................................... 91 4.1.2 Ambiente Físico .................................................................................................... 92 4.1.3 Processos de Trabalho......................................................................................... 93 4.1.4 Relações Sócio-Profissionais .............................................................................. 93 4.2 Carga de trabalho e custo humano: atividade, tarefa e condições de trabalho .. 93 www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 4 4.3 Análise de tarefa e desempenho do trabalho ........................................................ 94 4.3.1 Avaliação 360°....................................................................................................... 97 4.4 Gestão de comportamento nas organizações ....................................................... 98 4.4.1 Gestão de Desempenho: Conceito, Objetivos, Métodos de Avaliação ............. 98 4.4.2 Gestão do Conhecimento..................................................................................... 98 4.4.3 Gestão por competências: objetivos estratégicos, definição de competências, avaliação de desempenho por competências, gestão do desempenho, feedback. .. 99 4.4.3.1 Definir e Desenvolver Competências ............................................................. 103 4.4.3.2 Indicadores de Competências......................................................................... 103 4.4.3.3 Avaliação de Desempenho com Foco em Competências ............................. 104 4.4.3.4 Feedback .......................................................................................................... 106 5. UNIDADE V: SAÚDE NO TRABALHO ..................................................................... 107 5.1 Trabalho, subjetividade e saúde psíquica/Psicopatologia e Psicodinâmica do Trabalho ....................................................................................................................... 107 5.1.1 Fatores psicossociais da DORT e outros distúrbios relacionados ao trabalho ......................................................................................................................................108 5.2 Segurança no trabalho e saúde ocupacional....................................................... 111 5.3 Saúde no trabalho e gerenciamento do estresse ................................................ 114 5.4 Psicologia da saúde: fundamentos e prática....................................................... 116 5.5 Ergonomia .............................................................................................................. 117 5.6 Programas em saúde mental: atuação em programas de prevenção e intervenção de saúde mental no trabalho.................................................................. 118 5.8 Orientação, acompanhamento e readaptações profissionais / realocação em outro posto de trabalho/ readaptação e reabilitação................................................. 119 5.9 Entrevista de Acompanhamento........................................................................... 121 6. UNIDADE VI – PSICODIAGNÓSTICO E TEORIAS DA PERSONALIDADE............. 123 6.1 Psicologia Clínica e Relações humanas .............................................................. 123 www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 5 6.2 Psicodiagnóstico e Diagnóstico Diferencial ........................................................ 123 6.3 Testes Psicológicos............................................................................................... 133 6.3.1 Testes Psicométricos ......................................................................................... 134 6.3.2 Testes Projetivos ................................................................................................ 145 6.3.3 Alguns Testes Psicológicos............................................................................... 149 6.4 Técnicas de entrevista psicológica ...................................................................... 156 6.5 Teorias da Personalidade...................................................................................... 166 6.5.1 Sigmund Freud.................................................................................................... 166 6.5.2 Carl Rogers e a Abordagem Centrada na Pessoa ............................................ 183 6.5.3 Kurt Lewin ........................................................................................................... 191 6.5.4 Alfred Adler ......................................................................................................... 197 6.5.4 Erich Fromm........................................................................................................ 204 6.5.5 Skinner - Ênfase na Aprendizagem.................................................................... 209 7. UNIDADE VII – PESQUISA E ÉTICA EM PSICOLOGIA........................................... 216 7.1 Pesquisa e intervenção nas organizações: planejamento, instrumentos (escalas, questionários, documentos, entrevistas, observações), procedimentos e análise:216 7.2 Código de Ética Profissional do Psicólogo.......................................................... 218 8 REFERÊNCIAS .......................................................................................................... 224 www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 6 1. UNIDADE I – INTRODUÇÃO1 1.1 Psicologia Social2 O que estuda a Psicologia Social ou o que faz o psicólogo social? Essa, talvez, seja a primeira indagação de um estudante de Psicologia ao se deparar com mais essa área de atuação do psicólogo. Para compreendermos os “afazeres” de uma ciência, não basta, no entanto, apontar somente sua atual conjuntura, pois uma definição que se esgota no existente não alcança as necessárias mediações para entender a sua própria forma hodierna. É fundamental retomar sua origem e história a fim de notar suas alterações epistemológicas e/ou práticas ao longo de sua fundamentação, percebendo que suas finalidades, campos de ação, teorias e práticas são fenômenos históricos que merecem ser resgatados até mesmo com a finalidade de reflexão sobre os possíveis desdobramentos atuais desse campo de conhecimento que envolve a Psicologia Social. A Psicologia Social consolidou-se como um campo de atuação do psicólogo junto a grupos e comunidades, trata-se de uma área de intervenção com objetivos e finalidades ligadas ao estudo e práticas grupais, diferenciando-se da atuação individual em suas formas, métodos e teorias. O início de seu estabelecimento é marcado por um esforço teórico em aproximar a Psicologia da Sociologia, da Antropologia e das Ciências Políticas e somente após a Segunda Guerra Mundial sua expressão torna-se mais prática, servindo à resolução de problemáticas sociais próprias àquele período. Com a chamada “crise da Psicologia Social”, na década de 1960, muitos questionamentos a essas práticas consolidadas explodem na Europa e na América Latina, precipitando movimentos em direção à revisão e proposição de uma nova Psicologia Social, com objetivos, finalidades, epistemologia e práticas vinculadas à cultura do país em questão e também objetivando transformações sociais. É o que veremos a seguir. 1 Apostila organizada por Mariana de Oliveira Farias, mestre em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem pela Unesp, graduada em Psicologia pela Unesp, professora universitária. 2 Este item foi extraído da Apostila Temática de Psicologia Social/Grupal, elaborada por Polyana Stocco Muniz, Psicóloga formada pela Unesp – Bauru/SP. Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo, São Paulo/SP. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 7 Vamos começar, então, retomando seus primórdios. Como toda ciência, ela surgiu de uma necessidade prática, então, apareceu como um instrumento necessário à moral e à Sociologia, como apontou Augusto Comte, principal filósofo que impulsionou o desenvolvimento de uma orientação cientificista ao pensamento filosófico, por esse motivo considerado o pai do Positivismo3. Pode-se dizer que um primeiro esboço de preocupação pela constituição de uma Psicologia Social foi realizado por este filosofo do século XIX. Em seus estudos sobre a natureza das ciências, dividia-as em abstratas e concretas, sendo as últimas subproduto e instrumento necessário às primeiras. Assim, aparece a necessidade de uma Psicologia Social, ciência concreta que visaria a responder uma questão fundamental formulada pela moral e pela Sociologia, ciências de natureza abstrata: “Como pode o indivíduo ser, ao mesmo tempo, causa e consequência da sociedade?” (COMTE apud LANE, 2002, p. 75). Apesar de Comte apontar a necessidade dessa ciência psicológica, entendia que seu objeto, a psique, além de estar disperso entre as especulações filosóficas, as ciências físicas, biológicas e sociais, também não se apresentava como um objeto observável, princípio norteador da ciência positiva. Portanto, não via um caminho definido e independente para esta nova ciência (FIGUEIREDO; SANTI, 2000). Já Wilhelm Wundt, outro filósofo do século XIX, foi pioneiro na formulação de um projeto de Psicologia como ciência independente; criando instituições destinadas exclusivamente à sua pesquisa e ensino, formando inúmeros psicólogos, sendo considerado, por isso,o pai da Psicologia moderna. Entendia a Psicologia como ciência intermediária entre as ciências da natureza e as ciências da cultura, expressão disso se vislumbra na extensão de sua obra que vai da Psicologia Experimental Fisiológica à Psicologia Social. O seu objeto de estudos foi a experiência imediata ou subjetiva dos sujeitos, sendo o homem uma unidade psicofísica; seu método ganhou duas formas: 1 – método experimental, destinado ao estudo em laboratório das condições físicas do ambiente e das condições fisiológicas a que estavam submetidos os homens; 2 – análises dos fenômenos culturais, emprestando da Antropologia e da Filologia o método comparativo para o desenvolvimento da sua Psicologia Social ou “dos povos”, como ficou mais conhecida (FIGUEIREDO; SANTI, 2000). 3 Doutrina filosófica iniciada por Comte que visa justamente desenvolver processos científicos no pensamento filosófico. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 8 No final deste mesmo século, em 1895, Gustave Le Bon, cientista social francês, interessado em compreender as relações entre os indivíduos na massa social, principalmente aqueles inseridos nas massas revolucionárias do período da Revolução Francesa, escreve seu trabalho intitulado Psicologia das multidões. Esse trabalho apresentou as bases para o entendimento de uma Psicologia Social, questionando a autonomia do indivíduo no grupo, entendendo que, sejam quais forem os sujeitos que compõem um grupo, por semelhantes ou dessemelhantes que sejam seus modos de vida, suas ocupações, seu caráter ou sua inteligência, o fato de haverem sido transformados num grupo, coloca-os na posse de uma espécie de “mente coletiva” que os fazem sentir, pensar e agir de maneira muito diferente daquela pela qual cada membro dele, tomado individualmente, sentiria, pensaria ou agiria (wikipedia.org/wiki/Gustave_Le_Bon). Freud nutriu-se dos conhecimentos de Le Bon e, em 1921, também preocupado em entender os homens nas suas relações grupais, talvez por já perceber alguns primeiros rudimentos do que viria a estourar uma década e meia depois – o regime nazista –, publicou seu trabalho intitulado Psicologia de grupo e análise do ego. Neste trabalho, Freud não questionou a caracterização geral dada às massas feita por Le Bon, em que seus membros passam por um processo de desindividualização, ficando altamente influenciáveis e propensos à ação violenta, enfim regredidos a estágios anteriores de civilização. Na verdade, segundo Adorno, o que o diferencia de Le Bon, aristocrata contrario as mudanças requeridas pelos revolucionários franceses, é a ausência do tradicional desprezo pelas massas, descritas habitualmente como inferiores per se, e assim Freud se pergunta: o que transforma as massas em massas? Ele rejeita a hipótese fácil de um instinto social ou de rebanho e busca respostas a esta indagação em razões psicológicas, entendendo-as dentro das relações grupais, constituídas ao longo da história da civilização humana (ADORNO, 2006). Esses autores são representativos das primeiras tentativas de constituir uma ciência psicológica independente das ciências biológicas e sociais e também são responsáveis por tentar um diálogo entre a Psicologia e as outras ciências humanas (Sociologia, Antropologia, Política). Por exemplo, apesar de Freud não centrar-se especificamente nas questões políticas e sociais ou mesmo propor uma atuação sobre esses fenômenos, seus textos, ditos sociais, tratam de questões daquela ordem e lançam www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 9 luz sobre problemáticas para além do entendimento isolado do indivíduo, apontando para a relação dialética entre esses dois fenômenos: indivíduo e sociedade. Psicologia Social Norte-Americana: A Consolidação de uma Ciência Se quisermos compreender a faceta mais prática desta ciência, devemos voltar nossa atenção para o norte da América, onde seu desenvolvimento pragmático atingiu seu auge e manteve-se dominante até meados da década de 1960. Da preocupação mais “abstrata” encontrada na Filosofia ao extremo pragmatismo norte-americano dão-se os primeiros passos rumo a uma Psicologia Social mais preocupada em responder às questões de ordem social imediata. A sua expressão mais sistemática, herdeira da Filosofia Positivista, só é desenvolvida após a Segunda Guerra Mundial, não pela mesma motivação dos autores já citados aqui, mas sim pela vontade de saber se, em meio aos horrores da guerra, ainda seria possível uma vida humana. Foi por meio desta necessidade urgente que a atuação positivista da Psicologia Social se tornou mais presente, fez-se necessária uma ciência que pusesse termo ou que buscasse explicações para os desastres das guerras e nos conflitos inter e intragrupais. Podemos citar Otto Klineberg como um dos principais expoentes dessa corrente prática da Psicologia Social (LANE, 2002; SAMPAIO, 1986). A atividade do psicólogo social neste período é intensa e visa estudar fenômenos de liderança, conflitos de valores, relações grupais, preconceito, opinião pública, propaganda, dinâmica de grupo entre outros objetos tão caros àquele momento delicado de guerra e que clamavam por explicações e harmonizações. A intensificação dessa atividade é patente a partir da Segunda Guerra Mundial, como já salientado, e atingiu o seu auge nos Estados Unidos, onde sua aplicabilidade foi enorme (LANE, 2002). A prática científica valia-se de experimentos grupais, extrapolando os limites do laboratório, propondo experimentos com humanos em situações sociais, na tentativa de aproximar-se da complexidade desses fenômenos. Em 1948, valendo-se da psicologia experimental, alguns pesquisadores norte-americanos, liderados por Muzafer Sherif, entre eles, Marvin Sussman, Robert Huntington, Jack White, Willian Hood e Carolyn Sherif, uniram-se para executar um programa de estudos experimentais de grupos, dentro daquela perspectiva: pesquisar fenômenos grupais, dentro de situações controladas, embora semelhantes às existentes na vida. Tratava-se de transportar a sistematização e www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 10 o controle de variáveis laboratoriais para a administração de situações sociais. O artigo publicado em 1953, chamado Experimentos em conflito de grupo, de autoria deste grupo, expressa a necessidade de sair do “intramuros” do laboratório, relatando a experiência de uma intervenção em um acampamento de verão para adolescentes nos Estados Unidos, totalmente controlado por eles, sem os participantes terem conhecimento, a fim de investigar conflitos grupais. Pode-se dizer que muito do que a Psicologia Social produziu na época visava ao que este artigo descreve em sua introdução: “O conflito entre grupos – entre bandos de meninos, classes sociais, ‘raças’ ou nações – não tem uma causa simples, e nem a humanidade tem cura à vista” (SHERIF, 1973, p. 76). Portanto, visava minimizar os conflitos, harmonizar as relações grupais, naqueles tempos de guerra, por meio de análises sistemáticas, controladas que trouxessem resultados imediatos e a formulação de leis universais sobre essas relações. Silvia T. Maurer Lane, psicóloga brasileira e, atualmente, uma das principais referências em Psicologia Social em nosso país, analisao início dessa ciência como atrelado aos interesses das guerras, em uma perspectiva positivista e à procura de fórmulas de ajustamento e adequação de comportamentos individuais ao contexto social. É nesse momento de intensos conflitos de interesses e em meio aos massacres que o psicólogo social encontra seu lugar, justamente na tentativa de manter os indivíduos atrelados a esta civilização desumana. Continuando sua análise crítica, Lane diz que, para essa Psicologia, a sociedade era entendida como algo dado, buscando compreender os comportamentos dos indivíduos segundo causas internas, desvinculando sociedade e indivíduo (LANE, 2002). Deste modo, evidencia onde deveriam intervir para obter seus objetivos: no treinamento dos sujeitos. Logo, o desenvolvimento inicial da Psicologia Social esteve comprometido com os objetivos da sociedade norte-americana do pós- guerra, que precisava de conhecimentos e de instrumentos que possibilitassem a intervenção na realidade, de forma a obter resultados imediatos, com a intenção de recuperar a nação, garantindo o aumento da produtividade econômica (wikipedia.org/wiki/Psicologia_social) Outra vertente da Psicologia Social desenvolvida neste mesmo período foi a de Kurt Lewin, estudioso alemão de origem judaica, que migra em 1933 para os Estados Unidos, devido ao nazismo, onde continua seus estudos sobre Psicologia e, 12 anos depois, funda um centro de pesquisas em dinâmica de grupo, consolidando seus www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 11 trabalhos até então desenvolvidos sobre Psicologia de Grupos e a teoria de campo, com base na fenomenologia (Gestalt). Lane (1984) relembrou esta passagem histórica da Psicologia Social em seu texto diferenciando-a daquela primeira tendência vinculada à filosofia pragmática4 e positivista, pois entendeu que Lewin compreendeu o ser humano dentro de seu campo existencial, no entanto, a autora relacionou-as quando revelou que as duas vertentes tinham como finalidade última evitar novas catástrofes mundiais. Na Europa merece destaque a tendência em Psicologia Social de Jacob Levy Moreno, o criador do Psicodrama, que, em meados de 1930, introduziu o termo psicoterapia de grupo, revelando seu entendimento de que o homem é um indivíduo social, pois se constitui e se mantém por meio daquele, sendo, então, imprescindível que a atuação do psicólogo se produza nas relações grupais. A Crise da Psicologia Social Apesar da intensificação das condições precárias de vida, até os primeiros anos da década de 1960, ainda apostava-se na eficácia da Psicologia Social norte-americana na resolução de problemas sociais. No entanto, data também desta mesma década a agitação político-cultural (movimento universitário de 1968) que se alastrou na Europa e nos Estados Unidos em meio a Guerra Fria, em que questionamentos ideológicos eram inevitáveis em um mundo dividido em dois: entre o capitalismo e o comunista. Nesse contexto, a Psicologia Social pragmática também foi questionada. Portanto, é na Europa, principalmente na França e na Inglaterra, em que surgem, no final dessa década, as críticas mais incisivas a essa Psicologia, denunciando o seu caráter ideológico e, portanto, mantenedora das relações sociais existentes. Além dos fatores políticos e históricos, os estudos positivistas, segundo Lane (1984), falharam em sua pretensão de criar leis universais, já que a replicação das pesquisas e experimentos não permitiu formular tais leis, principalmente porque estudos interculturais apontavam para uma complexidade de variáveis que desafiavam os pesquisadores estatísticos. Estes fatores compõem o que foi chamado de a “crise da Psicologia Social”, em que os 4 Uma doutrina filosófica de origem norte-americana (principal filósofo desta vertente: Charles Sanders Peirce – 1839-1914), cuja tese fundamental é a de que os conhecimentos que obtemos sobre um dado objeto se definem por um conjunto de ideias de todos os efeitos práticos atribuídos por nós a estes objetos. Deste modo, a verdade de uma proposição sobre um objeto esta no fato dela ser útil (FERREIRA, 1975). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 12 questionamentos sobre os objetos tradicionais de estudo desta matéria impulsionavam a redefinição de seu campo de ação e caminhos metodológicos. Os estudiosos da época criticavam-na, resgatando as concepções de autores como Freud, Marx, Politzer, George Mead e Vygotsky (LANE, 1995, 2002; SAMPAIO, 1986). Podemos citar algumas produções da época que questionavam essa Psicologia e marcaram sua entrada na crise: segundo Lane (1995), o prefácio do livro Introduction de la psycologie sociale de Moscovici traz reflexões críticas sobre este momento, assim como Merani, na Venezuela, Sève, na França, e Israel e Tajfel, na Inglaterra. Assim como a Europa, a América Latina também se nutria dos conhecimentos da Psicologia Social norte-americana, e, apesar das diferenças explícitas entre os países do norte e do sul, aplicavam-se os conhecimentos produzidos nos Estados Unidos aos países europeus e latino-americanos, sem qualquer alteração nos instrumentos e análises de dados, caracterizando-se numa transposição direta da ciência desenvolvida nos Estados Unidos aos países latinos. No entanto, a crise também chegou a estes países, muitos sob o regime ditatorial militar e também sob a influência das revoluções político- culturais do mundo afora, fazendo com que um olhar mais crítico, principalmente sobre a pertinência desses conhecimentos estrangeiros, se instalasse nas reavaliações sobre o papel do psicólogo social. E, em um congresso de Psicologia Interamericana realizado em Miami, em 1976, a crise é denunciada por meio das críticas de psicólogos sociais de vários países da América Latina. Estes criticavam as metodologias e teorias existentes, porém sem nenhuma proposta concreta para a superação desses impasses (LANE, 2002). Foi em 1979, em Lima, capital do Peru, a grande virada. As críticas foram amadurecidas e encontravam-se mais precisas, surgindo novas propostas que visavam uma redefinição da Psicologia Social. Cientistas do Brasil, do México e do Peru relataram coincidentemente dificuldades e críticas semelhantes, e isso impulsionou a articulação entre eles em direção a uma Psicologia Social voltada para as condições próprias a cada país latino-americano. Três teóricos merecem destaque nas críticas mais sistemáticas àquela Psicologia: Silvia Lane, no Brasil, Martín Baró, em El Salvador, e Maritza Montero, na Venezuela (LANE, 2002; FREITAS, 1996). No Brasil, a mesma influência forte da Psicologia Social norte-americana podia ser notada tanto pelo seu ensino nos novos cursos de Psicologia, iniciados a partir de 1962, www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 13 como pelo significativo fato de que, em 1959, a primeira publicação nesta área foi a tradução da obra de Otto Klineberg, psicólogo social norte-americano que, além disso, foi o responsável pela introdução desta Psicologia na Universidade de São Paulo (USP) (LANE, 2002). Lane (2002) salienta que estes conteúdos não eram aceitos com passividade pelos pesquisadores e alunos brasileiros. A insatisfação quanto à Psicologia Social existente se dava tanto pelo descompasso percebidoentre seus sistemas explicativos e a realidade brasileira como também pelas práticas existentes que se limitavam a três campos específicos: na universidade, onde poucos cientistas trabalhavam em relativo isolamento, buscando no exterior eco para suas preocupações acadêmicas; na indústria, onde o psicólogo dedicava-se à seleção de pessoal e ao ajustamento dos empregados às condições dadas; e, por último, no mercado de manipulações de opinião pública, onde seus conhecimentos e técnicas ficavam a serviço dos interesses econômicos e políticos dominantes. Essas insatisfações e o polêmico congresso de 1979, em Lima, marcaram a passagem da América Latina pela “crise da Psicologia Social”, fomentando discussões sobre a necessidade de uma nova Psicologia Social no Brasil, o que culmina na criação da Associação Brasileira de Psicologia Social, a Abrapso5, visando um maior intercâmbio entre cientistas de diferentes regiões, responsável pela realização de encontros nacionais e regionais e preocupados com a redefinição desta ciência nos termos das necessidades patentes de nosso país, repensando, assim, objeto de estudos, metodologia, campo de ação e finalidades (LANE, 2002). Novos Caminhos: A Psicologia Social Contemporânea O primeiro movimento desta nova tentativa de Psicologia Social buscava a deselitização da profissão, ou seja, suas atividades eram mais destinadas aos segmentos menos privilegiados da população brasileira; com isso, há uma redefinição tanto do objeto de estudos, como do campo de ação e das finalidades. Este era um momento fundamentalmente político e histórico da Psicologia, portanto trabalhos dirigidos a 5 “[...] criada oficialmente em julho de 1980, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro [...], tendo como um dos fundadores a professora doutora Sílvia T. Maurer Lane – no contexto da psicologia no Brasil, constituindo- se em um marco importante para a construção de uma psicologia social crítica, histórica e comprometida com a realidade concreta da população” (FREITAS, M. F. Q., 1996, p. 68). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 14 fornecer algum tipo de colaboração à população eram incentivados e necessários para construir novas frentes de intervenção. Porém, uma definição mais madura a respeito das orientações teóricas e metodológicas para essa Psicologia ainda não se delineara (FREITAS, 1996). Foi em meados da década de 1980 que o termo Psicologia Social Comunitária firmou-se para assim denominar um campo de atuação do psicólogo cada vez mais frequente no país. Dentre tantos grupos, um grupo de pesquisadores merece destaque tanto por sua prática pioneira como por sua solidez epistemologia e metodológica desenvolvida para Psicologia Social Comunitária: o grupo de pesquisadores ligados ao departamento de Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), liderados pela professora Sílvia T. Maurer Lane e Alberto Abib Andery. Este grupo tem por orientação teórica a Escola Soviética de Psicologia, formada por três principais pensadores Lev Semionovitch Vygotsky, Alexei Nikolaevich Leontiev e Alexander Romanovich Luria, estudiosos, respectivamente, da linguagem, dos processos grupais e do cérebro, sob a perspectiva da filosofia materialista, histórica e dialética de Karl Marx. No Brasil, convencionou-se chamá-la de Psicologia Sócio-Histórica e sua atuação se faz sobre a realidade concreta da população, visando às transformações das formas de dominação existente. Outros estudiosos brasileiros dessa perspectiva também ganharam destaque por conta de suas produções consistentes, são eles: Ana Bock, Bader Sawaia e Wanderley Codo (FREITAS, 1996; wikipedia.org/wiki/Psicologia_social) Alguns pesquisadores buscaram na Psicanálise, em seus conceitos políticos, uma forma de intervenção neste campo. Uma delas é a Psicologia Social de Serge Moscovici, que atualmente é diretor do Laboratório Europeu da Psicologia Social; suas pesquisas influenciaram muitas atuações nesta área no Brasil. Outro pesquisador desenvolveu conhecimentos nessa interface psicanálise e teoria social, Enrique Pichon-Riviére (1907- 1977), psiquiatra argentino que atuava junto a grupos de pacientes psiquiátricos seguindo os princípios da Psicanálise (wikipedia.org/wiki/Enrique_Pichon_Riviere). Na Argentina, diferentemente do que ocorre no Brasil, a Psicologia Social com orientação psicanalítica tem maior expressão, sendo Pichon-Riviére uma das principais referências. Apesar da escassa produção brasileira nessa interface, podemos citar algumas referências, como Jurandir Freire Costa e Hélio Pellegrino, na constituição do que chamaram de “clínica do social”. Atualmente, temos alguns teóricos nesta vertente, como Paulo Cesar Endo, que www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 15 buscam novas modificações no desenvolvimento da relação entre Psicanálise e teoria social. Merece destaque também o grupo de pesquisadores que encontra nos desenvolvimentos do Instituto para Pesquisa Social de Frankfurt6, formado por pensadores como Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Max Horkheimer dentre outros, os elementos para a constituição de uma Psicologia Social Crítica. Podemos citar alguns psicólogos, no Brasil, que atualmente realizam pesquisas com base nesta perspectiva: Iray Carone, José Leon Crochík, Conrado Ramos, Ari Fernando Maia entre outros. Fizemos um breve apanhado histórico da Psicologia Social, preocupamo-nos, mais essencialmente, em apresentar o máximo de tendências teóricas e práticas dentro desta ciência. Sabemos que este campo é muito mais amplo e rico do que o apresentado aqui. Esperamos, entretanto, ter garantido pelo menos alguns pontos essenciais e a busca por mais (in) formação é bem-vinda. 1.1.1 Abordagens Teóricas em Psicologia Social e Suas Práticas A história da constituição da Psicologia enquanto ciência independente passa pela necessária diferenciação em relação aos grandes sistemas filosóficos que, desde a Antiguidade, já abordavam noções e conceitos relacionados ao que hoje faz parte do domínio da Psicologia Científica, tais como o comportamento, o “espírito” ou a “alma” do homem. Era um terreno de difícil penetração, já que esses objetos de estudos e a metodologia de suas análises estavam estabelecidos pela Filosofia e, mais tarde, no século XIX, na constituição das ciências da sociedade (Sociologia, História, Economia Política, Antropologia e a Linguística) também se notava a pretensão de conhecer o homem singular (FIGUEIREDO; SANTI, 2000). 6 O Instituto para Pesquisa Social de Frankfurt foi fundado em 1923. Em 1931, Horkheimer assume sua direção, iniciando-se o desenvolvimento da teoria critica da sociedade. Com a ascensão de Hitler ao poder, em 1933, o Instituto, composto por muitos judeus, se deslocou para Genebra e, em 1934, para Nova York, afiliando-se então à Universidade de Columbia. Após o término da guerra, o retorno a Frankfurt se deu em 1951, onde permanece até dias atuais (HORKHEIMER, 2006; wikipedia.org/wiki/Escola_de_Frankfurt). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 16 A necessidade de uma ciência específica para se entender o advento e crise da noção de subjetividadeprivatizada, deu-se no século XIX e firmou-se enquanto ciência psicológica para assim possibilitar tanto a afirmação como a negação dessa subjetividade individualizada. Apesar de sua diferenciação conquistada, esta ciência é marcada pela contradição em seu objeto de estudos, pois, por um lado, reivindica um lugar à parte entre as ciências; por outro, não conseguiu se desenvolver sem estabelecer estreitas relações com as ciências biológicas e sociais (FIGUEIREDO; SANTI, 2000). A consolidação da Psicologia Social é também expressão da curiosa constituição da ciência psicológica, pois realça justamente a intersecção entre a Psicologia e as ciências da sociedade; relembrando o difícil estabelecimento da Psicologia enquanto ciência independente, feitora de seus próprios meios de estudo e intervenção sobre o objeto, condição esta imprescindível à sua separação dos outros campos do saber. Assim como uma das principais demandas por uma Psicologia Aplicada se deu pela necessidade de disciplinar e normatizar o sujeito individualizado do final do século XIX, a Psicologia Social foi mais claramente sistematizada no pós-guerra, também por uma demanda prática, como já ressaltada na primeira unidade: a necessidade de harmonizar os conflitos e amenizar as catástrofes da guerra. Para tal, mostrou-se necessária a retomada dos conteúdos das ciências sociais, porém a relação já era de diálogo entre dois campos diferentes do saber, pois a Psicologia já estava estabelecida. A Psicologia Social norte-americana ocupou-se de sua sistematização para a compreensão das relações e conflitos entre indivíduos e grupos. Os anos 1960 foram marcados pela crise desses estudos, e foi da crítica às novas sistematizações que se compôs este campo de conhecimento da Psicologia contemporânea tão claramente balizado e denominado de Psicologia Social. Cada abordagem com a sua história e motivos, estabeleceu a necessidade de parâmetros e intervenções para além do indivíduo isolado e são estas diferenças de estabelecimentos, motivos, teoria e contexto históricos entre elas que veremos nessa unidade. Vamos começar pelas teorias da época do pós-guerra, mais especificamente pela Psicologia Social norte-americana e a teoria do campo de Kurt Lewin. Psicologia Social Norte-Americana e a Teoria do Campo de Kurt Lewin www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 17 Já desenvolvemos bem as considerações sobre a Psicologia Social norte- americana na primeira unidade, entretanto vamos trazer outro exemplo, a fim de termos a devida noção de sua amplitude dentro do contexto americano até meados dos anos 1960. Um trecho do prefácio do livro intitulado Psicologia social experimental: manual de laboratório de Charles Ward (1974) nos ajuda a compreender o espírito desta ciência, na época; preocupada em trazer para os termos dos experimentos laboratoriais, com todos os princípios da ciência positiva garantida, esta ciência: Cada vez mais tem aumentado o caráter experimental dos estudos em psicologia social. Uma manifestação deste fato desejável é a criação em muitas faculdades e universidades de um curso de pré-graduação de laboratório em psicologia social, em vários níveis. (prefácio) Podemos notar que o essencial da Psicologia Social experimental é trazer para o estudo deste objeto (indivíduo e grupo) parâmetros “científicos”, buscar ter o mesmo rigor e controle das ciências naturais ao estudo de seus problemas como: desvendar os conflitos grupais, diferenças entre atividades individuais e grupais, entre outros. Desta forma, o método central é o experimental, com a finalidade de descrição dos fenômenos e busca de soluções aos impasses sociais. O conteúdo do já citado livro Psicologia social experimental, publicado nos Estados Unidos, em 1969 e, no Brasil, em 1974, é, em sua totalidade, composto por propostas de experimentos sociais em formato de manual. Assim, cada capítulo é descrito “passo a passo” os modos de operação de um experimento social. Como exemplo, pegamos o primeiro capitulo, em que é proposto avaliar a produtividade de trabalhos desenvolvidos individual e grupalmente. Neste capítulo, faz-se uma revisão bibliográfica sobre o assunto, estabelece-se uma hipótese, que, no caso, é a afirmação da maior produtividade em trabalhos feitos individualmente, e, logo em seguida, faz-se a descrição do experimento, que consiste em propor aos mesmos indivíduos tarefas grupais e individuais e, posteriormente, comparar os resultados, que confirmam a primeira hipótese. Assim, segue o resto do livro; em cada capítulo há a proposição de experimentos com grupos comparativos, grupos controle e manipulação de variáveis para se estudar a relação indivíduo e grupo (WARD, 1974). E, como demonstra explicitamente no prefácio, a intervenção experimental sobre estes fenômenos é a mais desejável e esperada nas universidades daquele país. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 18 É importante ressaltar que se trata de uma tendência geral naquele momento, a proposição do método das ciências naturais à Psicologia Social, numa tentativa de neutramente resolver os conflitos sociais. A pretensa neutralidade científica das ciências naturais é expandida à Psicologia Social; isso significa que qualquer emissão de análises críticas, históricas e sociais anterior aos experimentos, no formato descrito acima, não são consideradas atos científicos. Já o alemão Kurt Lewin, no início da Segunda Guerra Mundial, migra para os Estados Unidos justamente por conta de suas ideias não serem compatíveis com o regime nazista. Em 1945, funda o Centro de Pesquisas em Dinâmica de Grupo, no qual desenvolveu inúmeras pesquisas e formou diversos profissionais no campo da Psicologia e da Sociologia. Sua maior contribuição para a Psicologia Social foi a teoria do campo psicológico. Com formação intelectual ligada à Psicologia da Gestalt, desenvolveu sua teoria sobre o campo psicológico para compreender a percepção do indivíduo e seu espaço vital no grupo. Para ele, a noção de campo psicológico não é uma teoria, mas sim um método para analisar relações causais e construir conceitos, entendendo que qualquer evento é o resultado de múltiplos fatores (wikipedia.org/wiki/Kurt_Lewin.; SPINK, 2003). Ao tratar da Psicologia Individual, o campo dentro do qual o cientista tem que trabalhar é o espaço de vida do indivíduo. O espaço de vida consiste da própria pessoa e seu ambiente psicológico. Uma formulação similar é proposta para a compreensão da Psicologia de Grupo ou a Sociologia. Deste modo, fala-se do campo dentro do qual o grupo ou a instituição existem, sendo que seu espaço de vida consiste dele mesmo e de como o ambiente existe para o grupo. No entanto, Lewin também entende a vida do grupo como resultado de constelações específicas de forças dentro da conjuntura mais ampla, ou seja, o campo como um todo, incluindo seus componentes psicológicos e não- psicológicos. Lewin discutiu a relação entre esses dois espaços a partir de três aspectos: o espaço de vida psicológico, o aspecto físico e o aspecto social, estabelecendo fronteiras entre essas dimensões. Ressalta que muitos dos aspectos físicos e sociais são da ordem do não-psicológico, ou seja, o clima, a comunicação, as leis de um país, entre outros. Seu trabalho consistiu em estabelecer as zonas fronteiriças entre as dimensões grupais, individuais, sociais e físicas, entendendo a dinâmica de gruponeste contexto mais amplo, levando em considerações essas multideterminações (SPINK, 2003). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 19 A teoria do campo buscou entender a influência do meio ambiente sobre o homem, e, nessa perspectiva, novas tendências da Psicologia se desenvolveram, como é o caso da Psicologia Ambiental, um campo relativamente novo, preocupado com problemas ambientais. Lewin também influenciou bastante o modo de se entender e atuar dentro de organizações, por conta de sua teoria sobre dinâmica de grupo. A finalidade desse primeiro item foi a de detalhar as teorias e intervenções do início do desenvolvimento mais sistemático da Psicologia Social, que se deu no período do pós-guerra. O próximo item se incumbirá de explicar as teorias européias pré-crise da Psicologia Social. Vertentes Pré-Crise da Psicologia Social Começaremos pela tendência européia de Jacob Levy Moreno por dois motivos: primeiro por uma questão cronológica e segundo porque, apesar de diferenciar-se bastante da tendência norte-americana, não se consolidou como uma teoria crítica àquela, pois seu surgimento e desenvolvimento a precederam. Moreno formou-se em Medicina em Viena, no ano de 1917, atuando principalmente na área da Psiquiatria. Além da Medicina, também fez parte de sua formação o teatro, realizando trabalhos nesta área desde muito cedo. Foi em 1922 que iniciou o desenvolvimento do que depois ficou conhecido como Psicodrama, neste ano alugou um teatro e lá: [...] ele propõe uma inversão de papéis entre os atores e o público, no qual o público passa a representar seus dramas cotidianos no espaço cênico. Esse espaço é composto pelo palco, o protagonista ou paciente, um diretor ou terapeuta, egos auxiliares e o público ou plateia. Através do uso de técnicas como a inversão de papéis, o duplo, o espelho, a concretização da imagem de um sentimento, uma emoção, da interpolação de resistência, entre outras, as pessoas desenvolvem uma nova percepção sobre si mesmas, sobre os outros e sobre o ambiente, permitindo o surgimento do novo, da eventualidade, da resposta nova, uma nova linguagem resignificada. (MESQUITA, 2000, p. 4) Inicia o desenvolvimento desta atividade, de caráter terapêutico e também como meio de se conhecer e atuar em grupo. Para ele, o espaço cênico é multidimensional, pois inclui os aspectos: verbal, o corporal, gestual, a cultura, o jogo, a imaginação, presentificados no momento, ou seja, no aqui e agora, precipitando mudanças na autopercepção, na percepção dos outros, do ambiente e do grupo, possibilitando novas formas de vida para seus participantes. Portanto, Moreno considerou o teatro um espaço www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 20 privilegiado para atuar como terapeuta e assim proporcionar efeitos transformadores e terapêuticos em seus clientes. Tomou, então, este espaço como metodologia principal em sua atividade, e ao se mudar para Nova York em 1925, teve a possibilidade de aperfeiçoar a metodologia do Psicodrama, o que fez até a sua morte, em 1974 (MESQUITA, 2000). A teoria dos papéis é um dos constructos fundamentais do Psicodrama. O homem desenvolve diversos papéis psicodramáticos que foram divididos em: fisiológicos, psicossomáticos, culturais e imaginários. Na interação entre os homens, o outro seria o ego auxiliar e é neste jogo intersubjetivo de papel e contra papel que o “eu” se constitui. Moreno considerou que os papéis desenvolvidos pelas pessoas se alteram ao longo da vida e que a saúde mental está muito ligada à sua flexibilidade e à adequação (MESQUITA, 2000). Já ao desenvolver a técnica, decompõe-na em três etapas: psico, sócio e axiodramático ou, como também as denominava: aquecimento, dramatização e o compartilhar. Cada uma das etapas representa um momento diferente no processo de encenação. Na primeira, trabalha-se a aleatoriedade por meio de jogos que envolvem a linguagem verbal, do corpo e a imaginação. Na dramatização alguma situação já adquiriu significado para o grupo, para o protagonista emergente ou paciente. Na última etapa, no compartilhar, há troca de sentimentos, impressões e reflexões sobre o acontecido em cena; é o momento de dar significado aos conteúdos da cena (MESQUITA, 2000). No Brasil foi criada, em 1976, a Federação Brasileira de Psicodrama (Febrap), com a finalidade de regulamentar a formação dos psicodramatistas, que se disseminaram no país principalmente após um congresso internacional de Psicodrama ocorrido em São Paulo, no ano de 1970, sentindo-se, assim, a necessidade de sua centralidade na figura da Febrap (FEBRAP, s.d.). A aplicabilidade do Psicodrama é vasta, suas intervenções estão listadas no site da federação e se dão em duas principais frentes: uma psicoterapêutica, em que os psicodramatistas atuam em clínicas, hospitais e consultórios médicos e a outra na frente educacional, em que o trabalho é desenvolvido em escolas, empresas e instituições comunitárias, tendo como foco principal o grupo (FEBRAP, s.d.). Enrique Pichon Riviére, teórico latino-americano, também cursou Medicina e se especializou em Psiquiatria em meados de 1920. Trajetória similar à de Moreno, não www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 21 fosse pela Psicanálise; sua atuação desde então, foi na tentativa de articular estes dois campos de saber: Psicanálise e Psiquiatria. Realizou diversos trabalhos em hospitais psiquiátricos, nos quais desenvolveu sua técnica de grupos operativos (PICHON, s.d.). Considera-se que Pichon debruçou-se sobre as questões da Psicologia Social, quando progressivamente vai deixando a concepção da Psicanálise Ortodoxa7 e concentra-se nos grupos da sociedade, nos quais desenvolve um novo enfoque epistemológico, o qual o levará à Psicologia Social, a qual concebe como sendo a democratização da Psicanálise, em sua obra Del psicoanálisis a la psicología social (PICHON, s.d.). A Teoria de Vínculo, produto de sua prática e proposição de uma Psicologia Social, demonstra claramente seu afastamento da Psicanálise Ortodoxa, pois propõe outra maneira de se entender a relação entre os indivíduos e os objetos. Considera que Freud entendia esta relação de maneira linear, pois não considerava as ressonâncias do próprio objeto sobre os indivíduos, e, assim, sugere um entendimento desta relação de maneira dialética, na qual os dois lados são ativos, existindo um vínculo entre as pessoas e as coisas. Dessa forma, com a Teoria do Vínculo, Pichon considera o indivíduo como uma resultante dinâmica, não da ação dos instintos e objetos interiorizados, mas sim do interjogo estabelecido entre sujeito e os objetos internos (fantasias) e externos por meio de uma interação dialética, a qual pode ser observada por meio de determinadas condutas (PROFESSIORI, 2004). Inicia seus trabalhos grupais nos hospitais psiquiátricos, pois observa uma grande influência do grupo familiar em seus pacientes. Portanto, concebe a interpretação do ser humano em seu contexto e sob a influência dos grupos sociais na constituição de diferentes papéis que assume nestes mesmos grupos. Para intervir nesta dinâmica, Pichon desenvolveu a técnica dos Grupos Operativos. Esta técnica tem por finalidade principal proporcionar o processo de aprendizagem e é uma forma de pensar e operar em gruposque se aplica à sua coordenação. Entende a dinâmica do grupo mediada por duas dimensões, que chama de verticalidade e horizontalidade. Quando se estabelece um 7 Chama-se comumente Psicanálise Ortodoxa aquela vertente que se mantém no estudo dos textos de Freud e de alguns de seus seguidores, não adentrando em outras leituras que “fujam” dos objetos de estudos propostos pelo próprio Freud. Fazem pouca relação com estudos em outros campos, como: Ciências Sociais, Artes, História entre outras e até mesmo estudos de seguidores que proponham grandes mudanças nos fundamentos da psicanálise clássica são lidos com cautela. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 22 grupo, cada participante traz sua história pessoal consciente e inconsciente, isto seria a verticalidade. Na medida em que o grupo vai se constituindo, compartilha necessidades devido a objetivos comuns e cria uma nova história, isto seria a horizontalidade, que não é a somatória das verticalidades, pois tem suas características próprias, foi construída coletivamente e produz consequências como a identidade grupal (PROFESSIORI, 2004). Esta dinâmica produz outro efeito, que Pichon descreveu como o estabelecimento de papéis entre os indivíduos. Estes se formam das representações que cada um tem de si mesmo e também das expectativas que os outros têm deste. Pichon, por conta de sua vasta experiência com grupos, conseguiu generalizar alguns dos papéis grupais mais constantes, destacou o papel do porta-voz, do bode expiatório, do líder e do sabotador. Cada um desses papéis, desenvolvido na verticalidade, retrata uma dada necessidade horizontal (grupal) de expressar uma angústia (porta-voz), de ser alvo dela (bode expiatório), de organizar (líder) ou mesmo de desestruturar o grupo (sabotador). Salienta que esta dinâmica é fluida e não fixa, alterando-se constantemente tanto em suas necessidades como na distribuição dos papéis (PROFESSIORI, 2004). No Brasil, existe o Instituto Pichon-Riviére, que propõe intervenções de ordem social segundo a compreensão da dinâmica grupal proposta por este autor, desenvolvendo diversas atividades institucionais, nas quais os psicólogos coordenam os grupos, a fim de abordar questões para além do indivíduo, centrando-se em questões grupais (INSTITUTO, s.d.). Após destacar essas duas principais vertentes pré-crise da Psicologia Social, iremos abordar a crise propriamente dita, bem como suas ressonâncias sobre as teorias e práticas em Psicologia Social. Abordagens Pós-Crise da Psicologia Social e Tendências Contemporâneas O início da crise da Psicologia Social foi marcado pelas críticas de um pensador naturalizado na França, Serge Moscovici, teórico importante que questionou a Psicologia Social de sua época e contribuiu para sua reavaliação e reestruturação. Segundo Oliveira (2004), sua obra tem importância tanto para a Psicologia, sua área de formação e atuação, como para a História e as Ciências Sociais, tendo influenciado, ao longo das últimas quatro décadas, pesquisadores da Europa e América, principalmente com sua teoria das Representações Sociais. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 23 Em seu livro intitulado Representações sociais: investigações em psicologia social, ele dedicou um dos capítulos à análise das condições históricas e atuais da Psicologia Social europeia e norte-americana. Suas análises apontam para uma dicotomia entre elas, tanto na dimensão teórica, como prática. Enquanto pesquisadores norte-americanos se preocupavam essencialmente em buscar respostas ao contexto concreto de seu país, os europeus se afastavam dos problemas sociais cotidianos. Para Moscovici apud OLIVEIRA, 2004, não se tratava nem de negligenciar a teoria em favor da prática, muito menos seu oposto e, analisando o desenvolvimento até então da Psicologia Social, identificou como problemáticas as duas posturas. Entre os americanos encontrou pouco desenvolvimento epistemológico, teórico e metodológico e, entre os europeus, um afastamento das questões sociais imediatas. Moscovici, então, apontou para os perigos sociais e os limites científicos dessa postura e exigiu maior interação da Psicologia com todas as Ciências Sociais, em especial da Sociologia, para a qual as noções de mudança, conflito e poder são centrais. Central na obra de Moscovici é seu interesse por epistemologia, e disso nasce a base de sua teoria, quando discute a relação entre as palavras e as coisas, cerne do debate em epistemologia; entende que qualquer prática mental e social (pensamento primitivo, senso comum e a ciência) opera por representações: a linguagem é seu principal instrumento e, por isso, representam a realidade concreta e não podem ser confundidas com a coisa em si, ou seja, com a realidade em si. Completa dizendo que é em função delas e não necessariamente das realidades que se movem indivíduos e coletividades. Interpela-se com diversos pensadores da sociedade, principalmente Durkheim, na discussão da natureza e origem das representações. O posicionamento de Moscovici é dialético, considera as representações como um ato social com características imanentes: um signo constituído pelos homens a fim de representar a realidade e a si próprio. Por isso, cunhou o termo representações sociais, a fim de explicitar a maneira como o homem se relaciona com o mundo, ou seja, por meio da linguagem e dos símbolos, alcançando, assim, sua humanização, e também para salientar a formação dialética entre o social e o individual. Difere-se de Durkheim no aspecto dinâmico e de bilateralidade que atribui ao processo de constituição das representações sociais, entendendo-as como formas de conhecimento socialmente elaboradas e partilhadas, e também como realidade www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 24 psicológica, afetiva e analógica, inserida no comportamento dos indivíduos. Sinteticamente: “As representações são medidas sociais da realidade, produto e processo de uma atividade de elaboração psicológica e social dessa realidade nos processos de interação e mudança social” (XAVIER, 2002). Dois principais aspectos caracterizam as representações sociais, diferenciando-as de simples opinião pessoal ou pública: a sua funcionalidade e seu caráter performativo. Da primeira, entende-se que as representações são formadas para o entendimento das formas de raciocínio e das teorias existentes e elaboradas na vida cotidiana. Já seu caráter performativo deve-se à sua qualidade de constituir o sujeito e a realidade social. Assim sendo, o elemento "construção" assume um lugar central, representando o esforço de trazer o "indivíduo" ao seu lugar de sujeito, na medida em que o percebe na sua condição de socialmente constituído e, ao mesmo tempo, constituinte (XAVIER, 2002). A categoria Representação Social presta-se a traduzir a dinâmica orgânica existente, para Moscovici, entre a constituição do mundo, dos grupos e dos indivíduos; não há meios de compreender essas substâncias senão por meio da relação dialética entre elas. Assim, o material psicológico será elaborado por meio daquela categoria e o vínculo entre as substâncias é realçado pelo termo Psicologia Social. No Brasil, sua obra influencia diversos grupos de pesquisaem Psicologia Social. Podemos dar destaque à sua inserção na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), nas pesquisas do professor Antonio da Costa Ciampa, que, em suas diversas pesquisas sobre o indivíduo em sociedade, são feitas com base nas suas considerações sobre as representações sociais, eixo principal para se entender o homem em sociedade. A Psicologia Sócio-Histórica, abordagem latino-americana, também se desenvolveu da crise da Psicologia Social, buscando referências na Psicologia Russa desenvolvida por teóricos marxistas como Vygotsky, Leontiev e Lúria. Seu posicionamento frente à Psicologia até então desenvolvida é de crítica, assim como Karl Marx se posicionou frente à Filosofia de sua época com as famosas 11 teses sobre Feuerbach, merecendo destaque aqui a sua última tese, pois traduz o espírito político desta abordagem da Psicologia Social: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo; diferentemente, cabe transformá-lo.” (MARX, 1978, p. 53). Há, então, o questionamento justamente do fazer meramente teórico da Psicologia, bem como de seu caráter imediatista no trato dos problemas psicossociais. Dedicando-se apenas à tarefa www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 25 de descrever o que é observado ou enfocar o Indivíduo como causa e efeito de sua individualidade, a Psicologia, segundo essa abordagem, tem uma prática ideológica, pois conservadora e estatizante da realidade existente (LANE, 1984). Ao movimentar as bases desta ciência, seus propositores, Silvia Lane no Brasil, Martín Baró, em El Salvador, e Maritza Montero, na Venezuela, trouxeram novas concepções de homem, de ciência, de método e de política para a Psicologia. Suas produções do início da década de 1980 tinham o intuito de redefinir solidamente as bases teóricas desta ciência, tanto que boa parte do livro de Silvia Lane, Psicologia social: o homem em movimento, publicado em 1984, traz redefinições de conceitos, como enunciado pelo título de um de seus capítulos: “A psicologia social e uma nova concepção do homem para a psicologia”. Vale resgatar aqui essas novas concepções. Destacam que o homem é um ser cultural, social e histórico, isto significa dizer que o seu organismo é uma infraestrutura que permite o desenvolvimento de uma superestrutura, que é social e histórica. Por se tratar de um ser biológico que não sobrevive e se reproduz por si só, tem necessidades imanentes de socialização e produção de cultura. A Psicologia que ignora o entendimento do ser humano enquanto produto histórico-social, ou seja, que no conjunto das relações sociais vai se definindo concretamente na sociedade em que vive, reproduz a ideologia dominante, buscando somente descrever seu comportamento dado e estabelecendo relações de causalidade com base na frequência dos mesmos. Esta Psicologia esquece-se de perguntar os “porquês”, por que tal comportamento acontece e outro não? Para responder a isso é necessário buscar as bases sociais e históricas do homem (LANE, 1984). Redefinido seu objeto de estudos, outra metodologia emerge para dar conta de responder às indagações sobre este indivíduo concebido como ser concreto e manifestação de uma totalidade histórico-social. É por meio dos desenvolvimentos da teoria dialética de Leontiev sobre o psiquismo humano que se encontra a base para sua epistemologia, como ressalta Lane neste trecho: “[...] é no materialismo histórico e da lógica dialética que vamos encontrar os pressupostos epistemológicos para a reconstrução de um conhecimento que atenda à realidade social e ao cotidiano de cada indivíduo” (LANE, 1984, p. 15-16). Pretendem-se uma análise psicossocial do indivíduo e, para tal, Leontiev, por meio de suas pesquisas, sistematizou as três categorias fundamentais do psiquismo: atividade, consciência e personalidade. Essas categorias www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 26 estão inter-relacionadas por meio da mediação da linguagem, do pensamento e do grupo social. Lane (1995) diz que essas categorias são consideradas como estruturas vazias, necessitando serem preenchidas com os dados de nossa realidade histórica e social, permitindo encontrar as características próprias do psiquismo de indivíduos inseridos em seu meio. Para tanto, vale-se da pesquisa empírica e, assim, lembra a necessária relação dialética entre teoria e prática no fazer do psicólogo social. A Psicologia Sócio-Histórica entende que o produto de suas pesquisas não é neutro, assim como o de nenhuma ciência o é, e, diferentemente de outras ciências, não pretende ser neutra, pois está comprometida com a transformação das condições sociais tanto dos pesquisadores como dos pesquisados. Deste modo, esta Psicologia Social continua tendo por objetivo conhecer o indivíduo no conjunto de suas relações sociais, tanto naquilo que lhe é específico como naquilo em que ele é manifestação grupal e social, porém, agora, tem por finalidade última responder à questão de como o homem pode ser sujeito da história e transformador de sua própria vida e da sua sociedade (LANE, 1984). As intervenções da Psicologia Sócio-Histórica se dão em âmbito comunitário e institucional, tendo como principal atividade a organização e análise grupais, visando à transformação das relações grupais alienadas e das condições sociais conservadoras de estruturas ideológicas e de poder. Devemos também aprofundar aqui as concepções de indivíduo, sociedade e Psicologia Social derivadas das obras filosóficas e sociológicas da Escola de Frankfurt, já citada na primeira unidade. José Leon Crochík (1996), psicólogo brasileiro e estudioso desta perspectiva, aponta a proposição de Theodor Adorno por uma Psicologia Social analiticamente orientada e também que seu estudo empírico Personalidade autoritária é a tentativa concreta de realizar uma análise que relacione personalidade e ideologia; e, para tanto, utiliza categorias da Psicanálise para explicar a adesão dos indivíduos às ideologias irracionais. Entretanto, Adorno não propõe a Psicanálise como Psicologia Social, pois as causas objetivas dos fenômenos sociais encontram explicações em outros campos, como, por exemplo, na Sociologia. Entende a Psicanálise como arcabouço teórico indispensável ao psicólogo social para entender não tanto as causas do surgimento, por exemplo, do fascismo, mas sim como teoria importantíssima para entender porque os indivíduos aceitaram tal causa e como a realizaram. Propõe, portanto, em vistas da aporia entre www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 27 sujeito-objeto, uma relação de crítica imanente constante entre teoria social e a Psicologia Social analiticamente orientada, buscando, dentro do campo da Psicologia, basicamente em Freud, os elementos para tais reflexões e, no campo das teorias sociais, as contribuições de Karl Marx. A atuação desta perspectiva se dá no âmbito acadêmico e educacional, sendo de fundamental importância para trabalhos de pesquisa que visem estudar o individuo imerso nas massas e os motivos razoáveis e irracionais para tal condição. De modo geral, buscamos trazer os princípios mais essenciais de cada abordagem teórica da Psicologia Social aqui apresentada. Em uma área tão vasta como esta, sabemos que não abarcamos todas as tendências existentes, porém, assim como emrelação aos seus princípios, também tentamos apresentar as escolas mais expressivas no Brasil. Na próxima unidade vamos abordar a inserção da Psicologia no âmbito das ações sociais no Brasil, consolidando, assim, uma prática crescente no país e uma forma de se entender e desenvolver a Psicologia Social atualmente. Atividades 1. Qual teórico é considerado o que trouxe as bases para a Psicologia Social? Por quê? E qual seu principal trabalho na área? 2. Quais são considerados os “textos sociais” de Freud e por quê? 3. Quais são as duas principais tendências e principais representantes da Psicologia Social norte-americana até a década de 1960? 4. Descreva o método utilizado pela Psicologia Social norte-americana pragmática? 5. Qual a principal motivação da Psicologia Social norte-americana, considerada a primeira prática mais desenvolvida na área? 6. Descreva o momento de "crise da Psicologia Social", seus principais críticos, os motivos e desfechos? 7. Quais foram os principais críticos, na América Latina, da Psicologia Social norte- americana? O que questionavam? 8. No Brasil, qual a principal intenção da atuação do psicólogo social comunitário? www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 28 9. Quem foram os principais fundadores, no Brasil, de uma nova Psicologia Social? Em que momento isso ocorreu? 10. O que é a Abrapso? Qual sua função e história? 11. Por que a constituição da Psicologia como ciência independente foi de difícil execução? 12. O que a Psicologia Social ressalta com as suas pretensões de estudo? (Relacione com a pergunta anterior) 13. Qual foi a principal motivação para a consolidação da Psicologia Social como campo específico de estudos dentro da Psicologia e por quê? 14. Descreva algumas características do método desenvolvido pela Psicologia Social Experimental para conhecer os indivíduos no grupo. 15. Como a Teoria do Campo de Kurt Lewin compreende o grupo? 16. Qual o princípio fundamental do Psicodrama? 17. Quais são as etapas propostas por Moreno para o desenvolvimento da técnica do Psicodrama? Descreva cada uma delas sucintamente. 18. Por que a Teoria do Vínculo de Pichon marca seu afastamento da Psicanálise Ortodoxa? 19. Resumidamente, descreva a dinâmica dos papéis grupais proposta por Pichon. 20. O que diferencia a Representação Social das simples opiniões públicas e pessoais? 21. Descreva como Serge Moscovici critica a Psicologia Social de sua época. 22. Como e por que a Psicologia Sócio-Histórica questiona a pretensão a neutralidade científica? 23. Descreva a concepção de homem para a Psicologia Sócio-Histórica. 24. Por que Adorno não propõe a Psicanálise como Psicologia Social? 25. No que a Psicanálise contribui para responder às questões levantadas pela Teoria Crítica? 1.2 Psicologia Organizacional8 8 Parte extraída da Apostila Temática de Psicologia Organizacional, elaborada por Rafael Santos Vaz de Lima, psicólogo formado pela Unesp e Pós-Graduado em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 29 Pode-se considerar como objeto de trabalho da Psicologia Organizacional “as relações entre as condições de ajustamento da organização em seu ambiente, das relações de interdependência de seus subsistemas e os fatores que determinam tais relações — isto tudo no que concerne especificamente aos recursos humanos...” (ZANELLI, 1986, p. 31) Segundo Pereira (2009), a atuação do Psicólogo Organizacional é bastante diversificada, envolvendo atividades como “seleção, treinamento, desenvolvimento de pessoal, avaliação de desempenho, estudo da formação e funcionamento de grupos, estilos de liderança, comprometimento com os objetivos organizacionais, padrões de comunicação”, além de incluir aconselhamento psicológico, desenvolvimento organizacional por meio do diagnóstico e planejamento de mudanças, podendo também atuar no âmbito da legislação trabalhista e relação com sindicatos. Temos na citação abaixo, uma definição concisa e objetiva sobre a psicologia organizacional; através dela, podemos ter um panorama desse campo de atuação do psicólogo que, cada vez mais, ocupa espaço e importância estratégica e tática nas organizações. Segundo Robbins (2005): “Psicologia é a ciência que busca medir, explicar e algumas vezes, modificar o comportamento dos seres humanos e animais. Os psicólogos dedicam-se ao estudo e ao esforço de compreender o comportamento individual. Os cientistas que contribuem nesta área do conhecimento são os que estudam as teorias relativas ao processo de aprendizagem e à personalidade, os psicólogos e, principalmente, os psicólogos organizacionais e industriais. Inicialmente, os psicólogos organizacionais e industriais estudavam os problemas da fadiga, falta de entusiasmo e outros fatores relevantes para as condições de trabalho que poderiam impedir o desempenho eficiente. Mais recentemente, sua contribuição se expandiu para incluir estudos sobre aprendizagem, percepção, personalidade, emoções, treinamento, eficácia de liderança, necessidades e forças motivacionais, satisfação com o trabalho, processos de tomada de decisões, avaliação de desempenho, mensuração de atitudes, técnicas de seleção de pessoal, planejamento do trabalho e estresse profissional” (ROBBINS, 2005, p. 8). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 30 Os fundamentos, técnicas e procedimentos usuais da psicologia, como por exemplo, percepção, autodesenvolvimento, consciência e visão holística da empresa e do mercado, integração, mudanças, liderança, grupo e conflitos, inteligência emocional, qualidade de vida, testes seletivos, dinâmicas de grupos, entrevistas e observação técnica, podem contribuir no contexto organizacional à medida que viabilizam a compreensão das várias funções que acontecem na organização (SIQUEIRA NETO, s.d.). Assim, os conhecimentos do psicólogo permitem que ele, na organização, lance um olhar sobre as relações humanas, os comportamentos dos indivíduos e, a partir de então, realize ou possibilite realizar ações de capacitação, desenvolvimento e retenção através de seu trabalho na organização. No cenário social atual, o conhecimento é algo imprescindível e, por isso, essa sociedade ficou conhecida como “sociedade do conhecimento”. Neste cenário, a produção e o desenvolvimento de conhecimento e de tecnologia estão mais acelerados e há, cada vez mais, a exigência de que as pessoas absorvam esses conhecimentos para utilizá-los em suas vidas e no trabalho, necessitando, para isso, de maiores e melhores qualificações e capacitação (GOULART JR.; CANÊO; LUNARDELLI, 2006). Neste contexto, o psicólogo organizacional surge como o profissional com conhecimento em comportamento humano que pode, assim, contribuir nas organizações para com a capacitação, o treinamento e a educação das pessoas no ambiente organizacional. Além disso, há também o trabalho de saúde que deve ser realizado, na prevenção de doenças de ordem ocupacional, o que será trabalhado nas próximas unidades. 1.2.1 Transformações no mundo do trabalho e mudanças nas organizações 1.2.1.1 Taylorismo e Fordismo: Início do Século XX O sistema econômicoe de produção de bens no qual estamos inseridos desde a revolução industrial é o capitalismo. É nesse contexto histórico que a psicologia inicia seu desenvolvimento, inicialmente nas instituições produtivas, em âmbito industrial e atrelada ao pensamento da época. Para o entendimento do início dessa atuação do psicólogo, faz- www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 31 se necessário compreender as teorias da Administração Científica, criada por Frederick Winslow Taylor (1856-1915), e da linha de montagem de Henry Ford (1863-1947). Frederick W. Taylor, engenheiro norte-americano, foi o criador da chamada Administração Científica. Em seus estudos, Taylor parte do princípio de que a administração deve ser tratada como uma ciência. No período de seus estudos, os operários eram pouco instruídos e o tratamento para com eles era negligente. Isto ocorria devido ao contingente de pessoas que, supostamente, poderiam ocupar os postos de trabalho. Assim, Taylor inicia suas pesquisas da camada operária até atingir os níveis mais altos da hierarquia, ou seja, ele realiza as pesquisas do chão de fábrica até a diretoria. Através de seus estudos, Taylor percebeu que instruindo de forma sistemática os trabalhadores, eles poderiam produzir cada vez mais e melhor; isto refletiria em uma redução de custos e, através de um controle de procedimentos e da construção de normas específicas para as atividades, os trabalhos pré-programados diminuiriam os erros operacionais. No taylorismo, o trabalhador passa a ser monitorado e se tornar uma extensão da máquina que está operando. Individualmente suas tarefas são monitoradas, cronometradas. Desse modo, o bom operário, neste modelo, é aquele que executa suas atividades de modo que produza mais e melhor. Portanto, o trabalhador fabril é aquele que executa ordens e tarefas determinadas pela gerência. Produzindo mais, são premiados economicamente. São princípios da Administração Científica: 1) Os processos de trabalho devem ser analisados, para que se formule um modo eficiente e eficaz de executar as tarefas; 2) Os trabalhadores devem ser selecionados de acordo com as características do trabalho; 3) Os funcionários devem ser treinados e qualificados para a atividade que desempenham; www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 32 4) O homem econômico é motivável pela recompensa salarial e, portanto, deve ser recompensado por sua produtividade, pois assim, incentiva-se o desempenho. Henry Ford iniciou seus estudos na produção de veículos e motores à combustão, na mesma época em que Taylor expunha seus princípios de administração. Com a criação de sua fábrica de automóveis, ele elaborou também um sistema de fabricação, em que cada operário fazia uma atividade na montagem dos automóveis; este sistema é chamado de linha de montagem. Ford trouxe para o coletivo os conceitos individuais de Taylor. A forma de produção criada por Ford permitiu que se produzisse uma quantidade de carros nunca antes imaginada, em um espaço curto de tempo. Os trabalhadores eram dispostos frente às esteiras rolantes e ficavam responsáveis por uma atividade. A mão de obra era altamente mecânica; a produção era em uma sequência de montagem pré-estabelecida e os operários, cada qual fazia sua tarefa, o que permitia uma maior produtividade. O homem se fundia ao ritmo da máquina trabalhando nesse modelo, ficando completamente alheio ao todo do processo produtivo. A produção em massa idealizada e produzida por Ford foi unida aos conceitos de Taylor, o que possibilitou o aumento na produção da indústria americana, que teve seu ápice produtivo nas décadas de 1950 e 1960, no pós-Segunda Guerra Mundial. 1.2.1.2 Cibernética e Teoria Geral dos Sistemas A Cibernética e a Teoria Geral dos Sistemas são importantes constructos que irão permitir as mudanças nas formas de gestão administrativa das empresas, de uma maneira geral, como será visto na sequência do texto. A Cibernética surge na década de 1940 como um modelo de pensamento que questionava o modelo cartesiano de ciência, o qual é mecanicista, pragmático e que promove a visão fragmentada e isolada dos fenômenos. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 33 Como destacado em Rapizo (2002, p. 30) “[...] para Von Foerster (1991) a Cibernética se ocupa basicamente da circularidade no estudo dos mecanismos de causação circular, retroalimentação e autorreferência em sistemas artificiais, biológicos e sociais”. Como ciência, a Cibernética preocupa-se com a relação entre os componentes de um sistema, como por exemplo, peças em uma máquina, e não em entendê-los apenas isoladamente, um por um (RAPIZO, 2002). As pesquisas matemáticas de Nobert Wiener tinham o propósito de conceber máquinas que pudessem corrigir seu próprio funcionamento, o que implicava em desenvolver um circuito circular que realizasse essa autocorreção e, consequentemente, levasse este sistema a aproveitar o máximo de sua capacidade. Esse mecanismo foi chamado, então, de retroalimentação (RAPIZO, 2002). A organização, na época do taylorismo e do fordismo, era vista como um sistema fechado, no qual os indivíduos pertencentes a ela não recebiam influência do meio externo. A partir dessa visão, o trabalho poderia ser realizado de maneira mecânica, previsível e totalmente mensurável. Esta visão de mundo foi-se modificando com a entrada de novas correntes filosóficas e modelos de gestão, iniciadas no fim da década de 1960 no Japão, com o surgimento do toyotismo. Segundo Chiavenato (2008), as organizações são sistemas que permitem às pessoas satisfazerem inúmeras necessidades: emocionais, econômicas, intelectuais, entre outras. As organizações surgem de indivíduos que, para cumprir seus objetivos, unem-se na busca da superação pessoal a fim de realizarem atividades que seriam impossíveis de serem feitas individualmente. As organizações afetam a vida dos indivíduos em diversos campos, pois existem organizações variadas como industriais, comerciais, de serviços, públicas, militares e religiosas. As organizações provocam impacto na maneira de se vestir, pensar, alimentar- se e, até mesmo, de se relacionar com as pessoas (CHIAVENATO, 2008). Em oposição ao que se pensava sobre as organizações, hoje se percebe as organizações como sistemas abertos. O sistema aberto recebe informações, energia, materiais do ambiente externo a ele. Esta interação com o ambiente é que permite a sobrevivência do sistema, caso contrário, poderia ocorrer o fenômeno da entropia que www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 34 consiste na tendência dos sistemas fechados, de seus movimentos, irem em direção a um estado caótico (CHIAVENATO, 2008). A Teoria Geral dos Sistemas foi desenvolvida por Ludwing von Bertalanffy nas décadas de 1930 e 1940. O autor tentou explicar o funcionamento dos sistemas gerais independentemente daquilo que os formava (RAPIZO, 2002). A Cibernética e a Teoria dos Sistemas possuem semelhanças, porém, uma preocupação de Bertalanffy era esclarecer as diferenças entre elas. Ele considerava que a Cibernética tinha aspectos mais mecanicistas, atémesmo porque suas características derivam da matemática. Para Chiavenato (2003, p. 476), de acordo com a Teoria dos Sistemas, estes são conjuntos de “elementos interdependentes, cujo resultado final é maior do que a soma dos resultados que esses elementos teriam caso operassem de maneira isolada”. Ou seja, a visão do fenômeno é integrada e não fragmentada. Desta forma, as diversas ciências e discplinas, ateriormente compreendidas e estudadas separadamente, passam a ser consideradas de forma conjunta, para que desta forma seja possível comprreender o fenômento em sua totalidade. Neste sentido, Chiavenato (2008, p. 475), diz: “Em suma, a Teoria de Sistemas permite reconceituar os fenômenos dentro de uma abordagem global, permitindo a inter-relação e a integração de assuntos que são, na maioria das vezes, de naturezas completamente diferentes”.. A ciência tradicional clássica trabalha a partir da causalidade linear na qual existe uma causa e um efeito; isto não se faz para a teoria dos sistemas, senão de maneira artificial e imposta. No conceito da causalidade circular, trabalhada por esta teoria, o todo não possui um começo nem um fim (CALIL, 1987). A hipótese sistêmica ainda traz que o todo é maior que a soma das partes em um sistema (GALERA; LUIS, 2002). Ou seja, a visão global é mais importante do que a divisão das partes para a análise. Para Filomeno (2002): “A Teoria Sistêmica faz o convite a este novo paradigma da ciência, a substituição desta forma de pensar separativista do ou-ou para um pensamento integrador e-e que não reduza as diferenças, mas sim, some com estas diferenças”. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 35 Os sistemas têm a propriedade da retroalimentação ou feedback que podem ser positivos e negativos no sistema. O feedback negativo é a maneira do sistema responder à mudança que ocorre com ele, na busca de retornar à sua situação anterior. Já o feedback positivo é uma resposta à desestabilização do sistema para a mudança e evolução do mesmo. Este, quando não dilui o sistema, permite a sua transformação. Deve-se entender o feedback em relação à homeostase, que é a busca do sistema em manter um equilíbrio dinâmico para sua manutenção. Portanto, o feedback negativo busca a manutenção do sistema em termos estáticos, de retorno da homeostase, ou seja, ao estado anterior que o sistema apresentava. Já o feedback positivo, busca o equilíbrio dinâmico, através da transformação e da mudança do estado anterior, no qual estava o sistema. Portanto, a concepção sistêmica enxerga o mundo em termos de relações e de integração entre os sistemas. Os sistemas são totalidades e não podem ser reduzidos em unidades menores. A abordagem sistêmica enfatiza princípios básicos de organização ao invés de concentrar-se em elementos ou substâncias básicas dos sistemas (CAPRA, 2005). As organizações, dessa maneira, são abordadas de modo equivalente a um sistema no qual todos os elementos (pessoas, cargos, investimentos, por exemplo), exercem influência uns sobre os outros. Elas são órgãos estruturados, abertos e relacionados intensamente a outros sistemas, com os quais compartilham informações. Todo e qualquer sistema comporta-se como um todo em busca da coesão. A mudança em uma parte do sistema provoca mudança em todas as outras partes e no sistema como um todo (FILOMENO, 2002). Então, este modo de pensar a respeito dos sistemas e de seus componentes, descrevendo-os em função de um objetivo global, permite às organizações que cada parte do conjunto, que compõe esse objetivo global ─ no caso, a missão desta organização ─ seja adequadamente definido, controlado e avaliado. 1.2.1.3 Gestão de Pessoas A ideia primeira de gestão de pessoas vem de um modelo autocrático e absolutista, no qual a distribuição de poder é realizada por uma minoria da alta direção e as decisões vêm do alto escalão da organização. Este paradigma é baseado, principalmente, nas teorias do taylorismo e fordismo do início do século XX. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 36 Atualmente, as mudanças relações trabalhistas vêm refletindo-se na estrutura das organizações, combinadas com a crescente competitividade no mercado, empresas e instituições viram a necessidade de repensar e discutir diferentes modos de realizar a gestão de pessoas, que se confrontam com as maneiras anteriores de realizar essas atividade. As empresas podem se equiparar na área tecnológica, de equipamentos, o grande diferencial passou a ser o conhecimento e atitude que as pessoas podem agregar à organização e assim contribuir para sua competitividade. (CHIAVENATO, 2008). A administração de pessoas está passando de um simples departamento de pessoal para um RH transformador na organização. Os recursos humanos são vistos como agentes de transformação, no sentido de realizar melhores resultados na saúde organizacional, no aumento de produtividade e na satisfação dos funcionários. A gestão de pessoas possui, então, ferramentas que auxiliam na obtenção dos resultados supracitados, sendo elas, o treinamento e o desenvolvimento, a remuneração/seleção por competência e habilidade; a avaliação 360 graus, que serão discutidos adiante. O treinamento e desenvolvimento são uma dessas ferramentas, muito usadas pela gestão de pessoas. Um diagnóstico é realizado levantando as necessidades na preparação profissional dos funcionários; depois, são preparados materiais e formas para treinar e desenvolver as necessidades apresentadas. Após essas atividades, avalia-se se esses processos desenvolveram ou ainda permitirão o desenvolvimento das habilidades ou não e quais serão os passos para cada um desses parâmetros; se a empresa mantém a forma de trabalho ou a modifica. É importante que se crie um clima positivo para o desenvolvimento de treinamentos na organização, visando o desenvolvimento das habilidades e competências dos colaboradores da mesma. O conceito de competência é caracterizado por Rabaglio (2001), como um conjunto de conhecimentos (referindo-se ao saber teórico), habilidades (referindo-se ao saber prático), e atitudes e comportamentos (referindo-se ao querer fazer). Estes três elementos juntos formam o conceito de competência que, quando presente no indivíduo, permite-lhe desempenhar determinadas tarefas com efetividade. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 37 As competências dentro de um perfil profissional devem compreender competências técnicas e comportamentais. O conceito de competência não levava em consideração as questões comportamentais como acontece atualmente. As competências técnicas são mais simples de serem percebidas e desenvolvidas, pois levam em consideração conhecimentos e habilidades técnicas específicas para uma função. Já as competências comportamentais são atitudes e comportamentos que a pessoa deve ter para ocupar certas posições (RABAGLIO, 2001). Essas novas maneiras de gestão são voltadas para uma maior participação dos colaboradores, para a integração entre os setores e departamentos e para a descentralização do poder e redução na quantidade de níveis hierárquicos (ROCHA- PINTO et al., 2007). “Portanto, o diferencial na gestão de pessoas reside em superar a visão tradicional da administração de recursos humanos queconcebe as pessoas como recursos semelhantes aos demais ou como extensão dos demais recursos da organização. A partir do enfoque sistêmico e estratégico, a gestão de pessoas é compreendida como um conjunto de políticas e práticas definidas por uma organização para orientar o comportamento humano e as relações interpessoais no ambiente de trabalho” (FLEURY; FISCHER, 1998). Atividades 1. Faça uma pesquisa sobre as áreas de atuação do psicólogo no contexto organizacional. 2. Faça uma síntese sobre o conteúdo abordado em Gestão de Pessoas, observando a evolução das formas de abordagem. 1.3 Estrutura Organizacional na Administração Pública Segundo Meirelles (1994) apud Alves, Alves e Casella (2008), ao analisar a Administração Pública, considerando tanto sua estrutura quanto suas atividades, faz-se necessário partir do conceito de Estado, e logo, das concepções de organização e funcionamento dos serviços públicos. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 38 Os autores comentam sobre a estrutura da Administração Pública afirmando que: Os órgãos públicos integram a estrutura do Estado e das demais pessoas jurídicas, dotados de vontade e capazes de exercer direito e contrair obrigações para a consecução de seus fins institucionais. Para tanto os órgãos não são dotados de personalidade jurídica e nem possuem vontade própria. É o comum o entendimento de serem centro de competência, sob critério de hierarquia com relação de subordinação entre os órgãos (ALVES, ALVES, CASELLA, 2008, s/p). Meirelles (1994, p. 64) apud Alves, Alves, Casella (2008, s/p) complementa, explicando o que são os órgãos públicos, suas funções e modo de organização: Órgãos públicos são centros de competência instituídos para o desempenho de funções estatais, através de seus agentes, cuja atuação é imputada à pessoa jurídica a que pertencem. São unidades de ação com atribuições específicas na organização estatal. Cada órgão, como centro de competência governamental ou administrativa, tem necessariamente funções, cargos e agentes, mas é distinto desses elementos, que podem ser modificados, substituídos ou retirados sem supressão da unidade orgânica. A Administração Pública divide-se em duas, a chamada Administração Direta, que é centralizada, e a chamada Administração Indireta, que é descentralizada. A Administração Direta é composta pelas entidades federativas do Estado (União, estados, Distrito Federal e municípios). Em certos momentos, para melhorar o desempenho das funções públicas, faz-se necessária a descentralização de competências, “outorgando-se funções a pessoas jurídicas diversas do ente estatal, que permanecerão vinculadas a este (não subordinadas), para efeitos de controle e avaliação de desempenho” (ESTRUTURA, s/d). Estas são as chamadas pessoas meramente administrativas e referem-se à Administração Indireta: não possuem poder político, mas funções administrativas que visam o melhor funcionamento das tarefas competentes ao Estado (ESTRUTURA, s/d). A administração indireta podem existir e 4 formatos: a) Autarquias: “pessoas jurídicas de direito público criadas para desempenhar descentralizadamente atividades típicas de Estado, outorgadas (e não delegadas) pelo ente estatal para seu melhor desempenho. São regidas pelo direito público justamente por www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 39 desempenharem funções típicas de Estado, como saúde, educação, previdência social etc” (ESTRUTURA, s/d). b) Fundações públicas: “pessoas jurídicas criadas para o desempenho de atividades sociais, culturais, assistenciais etc. Representam a personificação de um patrimônio para o desempenho de um fim determinado, sem qualquer fim lucrativo” (ESTRUTURA, s/d). c) Empresas Públicas e Sociedades de Economia Mista: ambas são espécies do gênero empresas estatais. São pessoas jurídicas de direito privado e ambas para serem criadas dependem de autorização por lei específica, “para a prestação de serviços públicos ou para a execução de atividades econômicas de comercialização ou de produção de bens ou serviços”. Porém, elas possuem diferenças, dentre elas, o fato de que a empresa pública é constituída somente com capital público. Por outro lado, a sociedade de economia mista é constituída tanto pelo capital público quanto pelo capital privado, no entanto, o controle acionário deve pertencer ao ente estatal a que se vincula (ESTRUTURA, s/d). As entidades parestatais, também chamadas de entes de cooperação não fazem parte da Administração Pública, porém, realizam atividades que são do interesse do Estado. Por este motivo, o Estado incentiva as atividades destas entidades. Dentro das espécies desse gênero encontram-se os serviços sociais autônomos, as organizações sociais e as organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIPs) (ESTRUTURA, s/d). 2. UNIDADE II – PRÁTICAS EM RECURSOS HUMANOS9 2.1 Recrutamento e Seleção e os Preditores em Seleção 2.1.1 Recrutamento Recrutamento Interno 9 Parte desta unidade foi extraída da apostila temática Psicologia Organizacional, elaborada por Rafael Santos Vaz de Lima, Psicólogo formado pela Unesp e Pós-Graduado em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 40 O recrutamento interno é realizado quando surge uma vaga na empresa e esta tenta preenchê-la através de um remanejamento de seus colaboradores. Isto pode ocorrer quando o funcionário é promovido (movimentação vertical), transferido (movimentação horizontal) ou, até mesmo, transferido com promoção (movimentação diagonal). Essa forma de recrutamento tem algumas vantagens como poder ser uma fonte de motivação para os funcionários e aproveitar os treinamentos que o colaborador já fez; não há um gasto econômico tão alto, pois não existe a necessidade de captação de pessoas fora da organização. Algumas desvantagens dessa forma de recrutamento seriam o desenvolvimento dos colaboradores para receberem promoções e os conflitos de interesses na organização. Às vezes, explicar algumas formas de promoção, na instituição, torna-se complexo ao ponto dos profissionais de cargos mais altos poderem boicotar o desenvolvimento de seus subordinados, devido à possibilidade de superação destes em relação aos seus cargos. Recrutamento Externo A modalidade de recrutamento externo é utilizada para a captação de pessoas de fora da organização. Através de abordagens em fontes de captação de pessoas é que se dá este tipo de recrutamento. Essas abordagens podem ser diretas (contato empresa- mercado) ou indiretas (contato indireto da empresa com o mercado). Como principais técnicas de abordagem para o recrutamento externo temos: a consulta a banco de dados de candidatos, indicações de possíveis perfis, cartazes nos portões da empresa, contato com sindicatos, outras empresas, escolas, universidades e associações de classes para captação de candidatos, anúncios em jornais e revistas e agências de recrutamento. As vantagens do recrutamento externo são no sentido de: renovação de ideias e experiências que as “pessoas de fora” podem trazer à organização; aproveitamento de investimentos de treinamentos e desenvolvimento que essas pessoas já trazemde outras empresas. Todavia, as desvantagens também existem: a frustração dos funcionários que, por ventura, foram privados de mudanças de cargo e/ou promoções; a possibilidade da www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 41 política salarial sofrer alterações, devido à influência de políticas praticadas em outras empresas. Recrutamento Misto O recrutamento misto nada mais é que a união dos dois recrutamentos apresentados anteriormente. As empresas, geralmente, utilizam essa forma de recrutamento, captando pessoas interna e externamente para a realização de seus processos seletivos. Essa modalidade de recrutamento pode ser realizada tanto com o recrutamento interno antes do externo, como com o recrutamento externo anterior ao interno, e os dois tipos de recrutamento, ocorrendo concomitantemente. 2.2 Seleção de Pessoas Após a realização do recrutamento para a captação de candidatos à vaga aberta na organização, passa-se à fase de seleção de pessoas. É o momento de escolha de um candidato; primeiro, restringindo-os e chegando-se a um número cada vez mais reduzido até a escolha; depois, a apresentação de proposta e contratação desse candidato. A seleção ocorre em fases. Após a triagem de candidatos, são aplicadas técnicas para identificar o candidato mais adequado ao cargo ou que poderá ter melhor desempenho nesse cargo. A seleção de pessoas utiliza, para identificar o candidato mais próximo ao perfil, técnicas de entrevistas de seleção, provas de conhecimento ou de capacidade, testes psicométricos, de personalidade e técnicas de dinâmica de grupo e simulação. Cada uma dessas técnicas deve ser escolhida de acordo com o que se exige para o cargo, o tipo de empresa e as condições para a realização dessa seleção. Entre as formas de avaliação temos as entrevistas que são, ainda, os instrumentos mais utilizados para a seleção de pessoas. Também os testes escritos são ferramentas bastante utilizadas. Segundo Robbins (2005), esta forma de avaliação teve seu uso reduzido a partir do fim da década de 1960; porém, houve uma retomada desse tipo de avaliação cerca de 20 anos depois. Essas avaliações, atualmente, buscam www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 42 identificar no sujeito fatores como confiabilidade, atenção, responsabilidade e honestidade. A partir de evidências, é possível prever comportamentos de roubo, problemas disciplinares, por exemplo. Os testes de simulação de desempenho, fortemente utilizados hoje, são aqueles que colocam o candidato para realizar atividades referentes ao trabalho que irá executar, caso ingresse na empresa que o está testando. Comumente, são utilizadas duas técnicas como mostra Robbins (2005): uma chamada de amostragens de trabalho ─ mais utilizada para avaliar trabalhos rotineiros ─ e a outra, chamada de centros de avaliação, para cargos mais administrativos. Para os testes de amostragens de trabalho, como o próprio nome sugere, são feitas simulações do trabalho como um todo, ou de parte dele, para saber qual a capacidade do candidato. Já os centros de avaliação são realizados de modo que o candidato é submetido a diversas provas e testagens, sendo avaliado por uma equipe de profissionais que irão avaliar como este sujeito supera situações de dilemas da posição que está buscando. 2.2.1 Seleção por Competências A seleção por competência, utilizada largamente pelas organizações atuais, traz vantagens para a escolha do profissional. Esse método parte das necessidades técnicas e comportamentais que o cargo exige. A partir daí, é elaborado um perfil comportamental, no qual as competências necessárias para este cargo serão elencadas. As avaliações, como dinâmicas e entrevistas, são realizadas a partir do pressuposto de que o comportamento passado prediz o comportamento futuro, como citado em Rabaglio (2001). Isso quer dizer que, tendo como base o que a pessoa já executou em sua carreira, aquilo que o candidato responder, deve satisfazer, obrigatoriamente, três quesitos para serem analisados. São eles: 1) Contexto: em qual contexto ocorreu à determinada situação. 2) Ação: qual ação foi realizada pelo sujeito. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 43 3) Resultado: o resultado atingido pela ação realizada dentro do contexto descrito. Com esses dados em mãos, o avaliador passa a comparar os perfis selecionados para realizar a escolha. Esse tipo de seleção carrega consigo vantagens em relação aos métodos tradicionais, pois possui mais foco e objetividade; tem uma sistematização e planejamento; traz maior garantia no momento da contratação e, em consequência, diminui o turnover e, assim, os custos com novas contratações. 2.3 Recrutamento e Seleção na Administração Pública Em estudo realizado por Marinho, Minayo-Gomez e Degrave (2000), sobre a atuação em setores públicos e privados, observou-se que a contratação nos setores públicos ocorre por concurso público, mas geralmente o número de vagas não consegue atender à todas as necessidades da Instituição. Porém na área pública, é muito difícil ocorrer a possibilidade de demissão, que depende de processos e inquéritos administrativos difíceis que muitas vezes não são conclusivos. De acordo com a Constituição Federal, de 1988: Art. 37 - A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: I - os cargos, empregos e funções públicas são acessíveis aos brasileiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei, assim como aos estrangeiros, na forma da lei; II - a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração; III - o prazo de validade do concurso público será de até dois anos, prorrogável uma vez, por igual período; IV - durante o prazo improrrogável previsto no edital de convocação, aquele aprovado em concurso público de provas ou de provas e títulos será convocado com prioridade sobre novos concursados para assumir cargo ou emprego, na carreira; V - as funções de confiança, exercidas exclusivamente por servidores ocupantes de cargo efetivo, e os cargos em comissão, a serem preenchidos por servidores de carreira nos casos, condições e www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 44 percentuais mínimos previstos em lei, destinam-se apenas às atribuições de direção, chefia e assessoramento; [...] VIII - a lei reservará percentual dos cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência e definirá os critérios de sua admissão; IX - a lei estabelecerá os casos de contratação por tempo determinado para atender a necessidade temporária de excepcional interesse público; (BRASIL, 1988, s/p) Em Decreto sancionado em 2009 pelo então Presidente Lula, também regulariza formas de recrutamento (divulgação do edital) e seleçãopara cargos públicos (concursos públicos), como se verifica na parte do Decreto reproduzido abaixo (BRASIL, 2009): DECRETO Nº 6.944, DE 21 DE AGOSTO DE 2009.10 Estabelece medidas organizacionais para o aprimoramento da administração pública federal direta, autárquica e fundacional, dispõe sobre normas gerais relativas a concursos públicos, organiza sob a forma de sistema as atividades de organização e inovação institucional do Governo Federal, e dá outras providências. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso VI, alínea “a”, da Constituição, DECRETA: CAPÍTULO I DAS MEDIDAS PARA O FORTALECIMENTO DA CAPACIDADE INSTITUCIONAL Seção I Das Disposições Gerais Art. 1o Para fins deste Decreto, considera-se fortalecimento da capacidade institucional o conjunto de medidas que propiciem aos órgãos ou entidades da administração pública federal direta, autárquica e fundacional a melhoria das suas condições de funcionamento, compreendendo as de caráter 10 O Decreto completo pode ser consultado no site: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ _Ato2007-2010/2009/Decreto/D6944.htm organizacional, que lhes proporcionem melhor desempenho no exercício de suas competências institucionais, especialmente na execução dos programas do Plano Plurianual - PPA. § 1o As medidas de fortalecimento da capacidade institucional observarão as seguintes diretrizes: I - organização da ação governamental por programas; II - eliminação de superposições e fragmentações de ações; III - aumento da eficiência, eficácia e efetividade do gasto e da ação administrativa; IV - orientação para resultados; V - racionalização de níveis hierárquicos e aumento da amplitude de comando; VI - orientação para as prioridades de governo; e VII - alinhamento da proposta apresentada com as competências da organização e os resultados que se pretende alcançar. § 2o O fortalecimento da capacidade institucional será alcançado por intermédio: I - da criação e transformação de cargos e funções, ou de sua extinção, quando vagos; II - da criação, reorganização e extinção de órgãos e entidades; III - da realização de concursos públicos e provimento de cargos e empregos públicos; IV - da aprovação e revisão de estrutura regimental e de estatuto; V - do remanejamento ou redistribuição de cargos e funções públicas; e VI - da autorização para contratação temporária de excepcional interesse público, www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 45 nos termos da Lei no 8.745, de 9 de dezembro de 1993. Art. 2o As propostas sobre matéria de que trata o § 2o do art. 1o serão encaminhadas ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e, quando couber, submetidas à apreciação da Casa Civil da Presidência da República, nos termos do disposto no Decreto no 4.176, de 28 de março de 2002, e deverão conter: I - justificativa da proposta, caracterizando-se a necessidade de fortalecimento institucional, demonstrando o seu alinhamento com os resultados pretendidos, em especial no que se refere aos programas do PPA; II - identificação sucinta dos macroprocessos, produtos e serviços prestados pelos órgãos e entidades; e III - resultados que se pretende alcançar com o fortalecimento institucional e indicadores para mensurá-los. Parágrafo único. O Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão analisará as propostas com base nas diretrizes relacionadas no art. 1o, cabendo-lhe emitir parecer sobre sua adequação técnica e orçamentária, bem como propor ou adotar os ajustes e medidas que forem necessários à sua implementação ou prosseguimento. Art. 3o O órgão ou entidade deverá apresentar as propostas de que tratam os incisos I e II do § 2o do art. 1o, quando acarretarem aumento de despesa, até o dia 31 de maio de cada exercício, de modo a compatibilizá-las com o projeto de lei orçamentária anual para o exercício subsequente. Seção II Dos Documentos e Informações a serem encaminhados Art. 4o Para avaliação do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, as propostas de que trata o § 2o do art. 1o deverão ser acompanhadas dos documentos abaixo relacionados: I - aviso do Ministro de Estado sob cuja subordinação ou supervisão se encontrar o órgão ou entidade; II - minuta de exposição de motivos, quando for o caso; III - minuta de projeto de lei ou decreto, e respectivos anexos, quando for o caso, observado o disposto no Decreto no 4.176, de 2002; IV - nota técnica da área competente; e V - parecer da área jurídica. Art. 5o Quando a proposta acarretar aumento de despesa, em complementação à documentação prevista no art. 4o, deverá ser encaminhada a estimativa do seu impacto orçamentário-financeiro, no exercício em que deva entrar em vigor e nos dois exercícios subsequentes, observadas as normas complementares a serem editadas pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. § 1o A estimativa de impacto deverá estar acompanhada das premissas e da memória de cálculo utilizadas, elaboradas pela área técnica competente, que deverão conter: I - o quantitativo de cargos ou funções a serem criados ou providos; II - os valores referentes a: a) remuneração do cargo ou emprego, na forma da legislação; b) encargos sociais; c) pagamento de férias; d) pagamento de gratificação natalina, quando for o caso; e e) demais despesas com benefícios de natureza trabalhista e previdenciária, tais como auxílio-alimentação, auxilio-transporte, auxílio-moradia, indenização de transporte, contribuição a entidades fechadas de previdência, FGTS e contribuição a planos de saúde; e III - indicação do mês previsto para ingresso dos servidores ou empregados no serviço público. § 2o Para efeito da estimativa de impacto deverá ser considerado o valor correspondente a vinte e dois por cento para os encargos sociais relativos ao Plano de Seguridade Social do Servidor Público - PSS e o adicional de um terço de férias a partir do segundo ano de efetivo exercício. Art. 6o Os órgãos e entidades deverão encaminhar, ainda, outros documentos e informações definidos em ato do Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão. Seção III www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 46 Das Estruturas Regimentais, Estatutos e Regimentos Internos dos Órgãos e Entidades Art. 7o Quando da publicação das estruturas regimentais e dos estatutos dos órgãos e entidades da administração direta, autárquica e fundacional, para fins de classificação de seus cargos em comissão e funções de confiança, considerar-se-á a nomenclatura padrão e o nível correspondente do cargo ou função, na forma a ser estabelecida em ato do Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão. Art. 8o Na proposta de aprovação ou revisão de suas estruturas regimentais ou estatutos, os órgãos e entidades deverão tomar como referência, para cálculo da despesa com pessoal, o custo unitário efetivo expresso em DAS - Unitário, constante do Anexo I. Parágrafo único. As disposições estabelecidas no caput não se aplicam às instituições federais de ensino e ao Banco Central do Brasil. Art. 9o Os órgãos e entidades que decidirem pela edição de regimento interno deverão publicá-lo no Diário Oficialda União, em absoluta consonância com o decreto que aprovar a respectiva estrutura regimental ou estatuto. § 1o Poderá haver um único regimento interno para cada Ministério ou órgão da Presidência da República, abrangendo todas as unidades administrativas integrantes de sua estrutura regimental, ou regimentos internos específicos para cada unidade administrativa, a critério do Ministro de Estado correspondente. § 2o As autarquias e fundações terão apenas um regimento. CAPÍTULO II DO CONCURSO PÚBLICO Seção I Das Disposições Gerais Art. 10. Fica delegada competência ao Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão para autorizar a realização de concursos públicos nos órgãos e entidades da administração pública federal direta, autárquica e fundacional e decidir sobre o provimento de cargos e empregos públicos, bem como expedir os atos complementares necessários para este fim. § 1o A delegação prevista no caput não se aplica para efeito de ingresso: I - nas carreiras de Advogado da União, de Procurador da Fazenda Nacional e de Procurador Federal, cujos atos serão praticados pelo Advogado-Geral da União; II - na carreira de Defensor Público da União, cujos atos serão praticados pelo Defensor Público-Geral; e III - na carreira de Diplomata, cujos atos serão praticados pelo Ministro de Estado das Relações Exteriores. § 2o Prescinde de autorização do Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão o provimento de cargo docente e contratação de professor substituto, observado o limite que cada universidade federal se encontra autorizada a manter em seu quadro docente, conforme norma conjunta dos Ministros de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão e da Educação. § 3o Nas hipóteses dos incisos I a III do § 1o, os atos ali referidos dependerão de manifestação do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, emitida previamente à realização do concurso, que confirme a existência de disponibilidade orçamentária para cobrir as despesas com o provimento dos cargos. Art. 11. Durante o período de validade do concurso público, o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão poderá autorizar, mediante motivação expressa, a nomeação de candidatos aprovados e não convocados, podendo ultrapassar em até cinquenta por cento o quantitativo original de vagas. Art. 12. Excepcionalmente o Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão poderá autorizar a realização de concurso público para formação de cadastro reserva para provimento futuro, de acordo com a necessidade, de cargos efetivos destinados a atividades de natureza administrativa, ou de apoio técnico ou operacional dos planos de cargos e carreiras do Poder Executivo federal. Art. 13. O concurso público será de provas ou de provas e títulos, podendo ser realizado em duas etapas, conforme dispuser a lei ou o regulamento do respectivo plano de carreira. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 47 § 1o Quando houver prova de títulos, a apresentação destes deverá ocorrer em data a ser estabelecida no edital, sempre posterior à da inscrição no concurso, ressalvada disposição diversa em lei. § 2o A prova de títulos deverá ser realizada como etapa posterior à prova escrita e somente apresentarão os títulos os candidatos aprovados nas etapas anteriores ou que tiverem inscrição aceita no certame. § 3o Havendo prova oral ou defesa de memorial, deverá ser realizada em sessão pública e gravada para efeito de registro e avaliação. § 4o A realização de provas de aptidão física exige a indicação no edital do tipo de prova, das técnicas admitidas e do desempenho mínimo para classificação. § 5o No caso das provas de conhecimentos práticos específicos, deverá haver indicação dos instrumentos, aparelhos ou das técnicas a serem utilizadas, bem como da metodologia de aferição para avaliação dos candidatos. § 6o É admitido, observados os critérios estabelecidos no edital de abertura do concurso, o condicionamento da aprovação em determinada etapa à, simultaneamente, obtenção de nota mínima e obtenção de classificação mínima na etapa. § 7o No caso da realização do concurso em duas etapas, a segunda será constituída de curso ou programa de formação, de caráter eliminatório e classificatório, ressalvada disposição diversa em lei específica. § 8o Quando o número de candidatos matriculados para a segunda etapa ensejar a formação de mais de uma turma, com início em datas diferentes, o resultado será divulgado por grupo, ao término de cada turma. Art. 14. A realização de exame psicotécnico está condicionada à existência de previsão legal expressa específica e deverá estar prevista no edital. § 1o O exame psicotécnico limitar-se-á à detecção de problemas psicológicos que possam vir a comprometer o exercício das atividades inerentes ao cargo ou emprego disputado no concurso. § 2o É vedada a realização de exame psicotécnico em concurso público para aferição de perfil profissiográfico, avaliação vocacional ou avaliação de quociente de inteligência. Art. 14. A realização de avaliação psicológica está condicionada à existência de previsão legal específica e deverá estar prevista no edital. (Redação dada pelo Decreto nº 7.308, de 2010) § 1o Para os fins deste Decreto, considera-se avaliação psicológica o emprego de procedimentos científicos destinados a aferir a compatibilidade das características psicológicas do candidato com as atribuições do cargo. (Redação dada pelo Decreto nº 7.308, de 2010) § 2o A avaliação psicológica será realizada após a aplicação das provas escritas, orais e de aptidão física, quando houver. (Redação dada pelo Decreto nº 7.308, de 2010) § 3o Os requisitos psicológicos para o desempenho no cargo deverão ser estabelecidos previamente, por meio de estudo científico das atribuições e responsabilidades dos cargos, descrição detalhada das atividades e tarefas, identificação dos conhecimentos, habilidades e características pessoais necessários para sua execução e identificação de características restritivas ou impeditivas para o cargo. (Incluído pelo Decreto nº 7.308, de 2010) § 4o A avaliação psicológica deverá ser realizada mediante o uso de instrumentos de avaliação psicológica, capazes de aferir, de forma objetiva e padronizada, os requisitos psicológicos do candidato para o desempenho das atribuições inerentes ao cargo. (Incluído pelo Decreto nº 7.308, de 2010) § 5o O edital especificará os requisitos psicológicos que serão aferidos na avaliação. (Incluído pelo Decreto nº 7.308, de 2010) Art. 14-A. O resultado final da avaliação psicológica do candidato será divulgado, exclusivamente, como “apto” ou “inapto”. (Incluído pelo Decreto nº 7.308, de 2010) § 1o Todas as avaliações psicológicas serão fundamentadas e os candidatos poderão obter cópia de todo o processado envolvendo sua avaliação, independentemente de requerimento www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 48 específico e ainda que o candidato tenha sido considerado apto. (Incluído pelo Decreto nº 7.308, de 2010) § 2o Os prazos e a forma de interposição de recurso acerca do resultado da avaliação psicológica serão definidos pelo edital do concurso. (Incluído pelo Decreto nº 7.308, de 2010) § 3o Os profissionais que efetuaram avaliações psicológicas no certame não poderão participar dojulgamento de recursos. (Incluído pelo Decreto nº 7.308, de 2010) § 4o É lícito ao candidato apresentar parecer de assistente técnico na fase recursal. (Incluído pelo Decreto nº 7.308, de 2010) § 5o Caso no julgamento de recurso se entenda que a documentação e a fundamentação da avaliação psicológica são insuficientes para se concluir sobre as condições do candidato, a avaliação psicológica será anulada e realizado novo exame. (Incluído pelo Decreto nº 7.308, de 2010) Art. 15. O valor cobrado a título de inscrição no concurso publico será fixado em edital, levando-se em consideração os custos estimados indispensáveis para a sua realização, e ressalvadas as hipóteses de isenção nele expressamente previstas, respeitado o disposto no Decreto no 6.593, de 2 de outubro de 2008. Art. 16. O órgão ou entidade responsável pela realização do concurso público homologará e publicará no Diário Oficial da União a relação dos candidatos aprovados no certame, classificados de acordo com Anexo II deste Decreto, por ordem de classificação. § 1o Os candidatos não classificados no número máximo de aprovados de que trata o Anexo II, ainda que tenham atingido nota mínima, estarão automaticamente reprovados no concurso público. § 2o No caso de realização de concurso público em mais de uma etapa, o critério de reprovação do § 1o será aplicado considerando-se a classificação na primeira etapa. § 3o Nenhum dos candidatos empatados na última classificação de aprovados serão considerados reprovados nos termos deste artigo. § 4o O disposto neste artigo deverá constar do edital de concurso público. Art. 17. Na autorização do Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão para realização de concurso público ou na manifestação de que trata o § 3o do art. 10, será fixado prazo não superior a seis meses para o órgão ou entidade publicar o edital de abertura de inscrições para realização do certame. § 1o Para as instituições federais de ensino vinculadas ao Ministério da Educação, o prazo referido no caput será contado a partir da publicação do ato do Ministro de Estado da Educação que realizar a distribuição, entre essas entidades, das vagas autorizadas. § 2o Findo o prazo de que trata o caput, sem a abertura de concurso público, ficará sem efeito a autorização concedida pelo Ministro de Estado do Planejamento, Orçamento e Gestão ou a manifestação de que trata o § 3o do art. 10. Seção II Do Edital do Concurso Público Art. 18. O edital do concurso público será: I - publicado integralmente no Diário Oficial da União, com antecedência mínima de sessenta dias da realização da primeira prova; e II - divulgado no sitio oficial do órgão ou entidade responsável pela realização do concurso público e da instituição que executará o certame, logo após a sua publicação. § 1o A alteração de qualquer dispositivo do edital deverá ser publicada no Diário Oficial da União e divulgada na forma do disposto no inciso II. § 2o O prazo de que trata o inciso I poderá ser reduzido mediante ato motivado do Ministro de Estado sob cuja subordinação ou supervisão se encontrar o órgão ou entidade responsável pela realização do concurso público. Art. 19. Deverão constar do edital de abertura de inscrições, no mínimo, as seguintes informações: www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 49 I - identificação da instituição realizadora do certame e do órgão ou entidade que o promove; II - menção ao ato ministerial que autorizar a realização do concurso público, quando for o caso; III - número de cargos ou empregos públicos a serem providos; IV - quantitativo de cargos ou empregos reservados às pessoas com deficiência e critérios para sua admissão, em consonância com o disposto nos arts. 37 a 44 do Decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1999; V - denominação do cargo ou emprego público, a classe de ingresso e a remuneração inicial, discriminando-se as parcelas que a compõem; VI - lei de criação do cargo, emprego público ou carreira, e seus regulamentos; VII - descrição das atribuições do cargo ou emprego público; VIII - indicação do nível de escolaridade exigido para a posse no cargo ou emprego; IX - indicação precisa dos locais, horários e procedimentos de inscrição, bem como das formalidades para sua confirmação; X - valor da taxa de inscrição e hipóteses de isenção; XI - orientações para a apresentação do requerimento de isenção da taxa de inscrição, conforme legislação aplicável; XII - indicação da documentação a ser apresentada no ato de inscrição e quando da realização das provas, bem como do material de uso não permitido nesta fase; XIII - enunciação precisa das disciplinas das provas e dos eventuais agrupamentos de provas; XIV - indicação das prováveis datas de realização das provas; XV - número de etapas do concurso público, com indicação das respectivas fases, seu caráter eliminatório ou eliminatório e classificatório, e indicativo sobre a existência e condições do curso de formação, se for o caso; XVI - informação de que haverá gravação em caso de prova oral ou defesa de memorial; XVII - explicitação detalhada da metodologia para classificação no concurso público; XVIII - exigência, quando cabível, de exames médicos específicos para a carreira ou de exame psicotécnico ou sindicância da vida pregressa; XIX - regulamentação dos meios de aferição do desempenho do candidato nas provas, observado o disposto na Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003; XX - fixação do prazo de validade do concurso e da possibilidade de sua prorrogação; e XXI - disposições sobre o processo de elaboração, apresentação, julgamento, decisão e conhecimento do resultado de recursos. Parágrafo único. A escolaridade mínima, e a experiência profissional, quando exigidas, deverão ser comprovadas no ato de posse no cargo ou emprego, vedada a exigência de comprovação no ato de inscrição no concurso público ou em qualquer de suas etapas, ressalvado o disposto em legislação específica. 2.4 Apresentação de resultados (laudos, relatórios e listas de classificação) O parecer da seleção deverá indicar os principais atributos do candidato, que são importantes para a vaga e quais aspectos não atendem à necessidade da vaga. Faz-se importante indicar se o candidato está, segundo Tadesco (2009): www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 50 Acima do esperado Se é favorável ou atende as expectativas Se é Favorável, porém com restrições. Se é Inaceitável ou desfavorável É importante também justificar o parecer do avaliador, indicando os resultados do candidato nas etapas do processo de seleção. O psicólogo poderá utilizar testes psicológicos na avaliação do candidato. O Conselho Federal de Psicologia instituiu o Manual de Elaboração de Documentos Escritos produzidos pelo psicólogo, decorrentes de avaliação psicológica, em 2003. Verifique a Resolução na íntegra abaixo. RESOLUÇÃO CFP N.º 007/2003 Institui o Manual de Elaboração de Documentos Escritos produzidos pelo psicólogo, decorrentes de avaliação psicológica e revoga a Resolução CFP º 17/2002. O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso de suas atribuições legais e regimentais, que lhe são conferidas pela Lei no 5.766, de 20 de dezembro de 1971; CONSIDERANDO que o psicólogo, no seu exercícioprofissional, tem sido solicitado a apresentar informações documentais com objetivos diversos; CONSIDERANDO a necessidade de referências para subsidiar o psicólogo na produção qualificada de documentos escritos decorrentes de avaliação psicológica; CONSIDERANDO a freqüência com que representações éticas são desencadeadas a partir de queixas que colocam em questão a qualidade dos documentos escritos, decorrentes de avaliação psicológica, produzidos pelos psicólogos; CONSIDERANDO os princípios éticos fundamentais que norteiam a atividade profissional do psicólogo e os dispositivos sobre avaliação psicológica contidos no Código de Ética Profissional do Psicólogo; CONSIDERANDO as implicações sociais decorrentes da finalidade do uso dos documentos escritos pelos psicólogos a partir de avaliações psicológicas; CONSIDERANDO as propostas encaminhadas no I FORUM NACIONAL DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA, ocorrido em dezembro de 2000; CONSIDERANDO a deliberação da Assembléia das Políticas Administrativas e Financeiras, em reunião realizada em 14 de dezembro de 2002, para tratar da revisão do Manual de Elaboração de Documentos produzidos pelos psicólogos, decorrentes de avaliações psicológicas; CONSIDERANDO a decisão deste Plenário em sessão realizada no dia 14 de junho de 2003, RESOLVE: Art. 1º - Instituir o Manual de Elaboração de Documentos Escritos, produzidos por psicólogos, decorrentes de avaliações psicológicas. Art. 2º - O Manual de Elaboração de Documentos Escritos, referido no artigo anterior, dispõe sobre os seguintes itens: I. Princípios norteadores; II. Modalidades de documentos; III. Conceito / finalidade / estrutura; IV. Validade dos documentos; V. Guarda dos documentos. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 51 Art. 3º - Toda e qualquer comunicação por escrito decorrente de avaliação psicológica deverá seguir as diretrizes descritas neste manual. Parágrafo único – A não observância da presente norma constitui falta ético- disciplinar, passível de capitulação nos dispositivos referentes ao exercício profissional do Código de Ética Profissional do Psicólogo, sem prejuízo de outros que possam ser argüidos. Art. 4º - Esta resolução entrará em vigor na data de sua publicação. Art. 5º - Revogam-se as disposições em contrário. Brasília, 14 de junho de 2003. ODAIR FURTADO Conselheiro Presidente MANUAL DE ELABORAÇÃO DE DOCUMENTOS DECORRENTES DE AVALIAÇÕES PSICOLÓGICAS CONSIDERAÇÕES INICIAIS A avaliação psicológica é entendida como o processo técnico-científico de coleta de dados, estudos e interpretação de informações a respeito dos fenômenos psicológicos, que são resultantes da relação do indivíduo com a sociedade, utilizando-se, para tanto, de estratégias psicológicas – métodos, técnicas e instrumentos. Os resultados das avaliações devem considerar e analisar os condicionantes históricos e sociais e seus efeitos no psiquismo, com a finalidade de servirem como instrumentos para atuar não somente sobre o indivíduo, mas a modificação desses condicionantes que operam desde a formulação da demanda até a conclusão do processo de avaliação psicológica. O presente Manual tem como objetivos orientar o profissional psicólogo na confecção de documentos decorrentes das avaliações psicológicas e fornecer os subsídios éticos e técnicos necessários para a elaboração qualificada da comunicação escrita. As modalidades de documentos aqui apresentadas foram sugeridas durante o I FÓRUM NACIONAL DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA, ocorrido em dezembro de 2000. Este Manual compreende os seguintes itens: I. Princípios norteadores da elaboração documental; II. Modalidades de documentos; III. Conceito / finalidade / estrutura; IV. Validade dos documentos; V. Guarda dos documentos. 1 – PRINCÍPIOS TÉCNICOS DA LINGUAGEM ESCRITA O documento deve, na linguagem escrita, apresentar uma redação bem estruturada e definida, expressando o que se quer comunicar. Deve ter uma ordenação que possibilite a compreensão por quem o lê, o que é fornecido pela estrutura, composição de parágrafos ou frases, além da correção gramatical. O emprego de frases e termos deve ser compatível com as expressões próprias da linguagem profissional, garantindo a precisão da comunicação, evitando a diversidade de significações da linguagem popular, considerando a quem o documento será destinado. A comunicação deve ainda apresentar como qualidades: a clareza, a concisão e a harmonia. A clareza se traduz, na estrutura frasal, pela seqüência ou ordenamento adequado dos conteúdos, pela explicitação da natureza e função de cada parte na construção do todo. A concisão se verifica no emprego da linguagem adequada, da palavra exata e necessária. Essa “economia verbal” requer do psicólogo a atenção para o equilíbrio que evite uma redação lacônica ou o exagero de uma redação prolixa. Finalmente, a harmonia se traduz na correlação adequada das frases, no aspecto sonoro e na ausência de cacofonias. I - PRINCÍPIOS NORTEADORES NA ELABORAÇÃO DE DOCUMENTOS O psicólogo, na elaboração de seus documentos, deverá adotar como princípios norteadores as técnicas da linguagem www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 52 escrita e os princípios éticos, técnicos e científicos da profissão. 2 – PRINCÍPIOS ÉTICOS E TÉCNICOS 2.1.Princípios Éticos Na elaboração de DOCUMENTO, o psicólogo baseará suas informações na observância dos princípios e dispositivos do Código de Ética Profissional do Psicólogo. Enfatizamos aqui os cuidados em relação aos deveres do psicólogo nas suas relações com a pessoa atendida, ao sigilo profissional, às relações com a justiça e ao alcance das informações - identificando riscos e compromissos em relação à utilização das informações presentes nos documentos em sua dimensão de relações de poder. Torna-se imperativo a recusa, sob toda e qualquer condição, do uso dos instrumentos, técnicas psicológicas e da experiência profissional da Psicologia na sustentação de modelos institucionais e ideológicos de perpetuação da segregação aos diferentes modos de subjetivação. Sempre que o trabalho exigir, sugere-se uma intervenção sobre a própria demanda e a construção de um projeto de trabalho que aponte para a reformulação dos condicionantes que provoquem o sofrimento psíquico, a violação dos direitos humanos e a manutenção das estruturas de poder que sustentam condições de dominação e segregação. Deve-se realizar uma prestação de serviço responsável pela execução de um trabalho de qualidade cujos princípios éticos sustentam o compromisso social da Psicologia. Dessa forma, a demanda, tal como é formulada, deve ser compreendida como efeito de uma situação de grande complexidade. 2.2. Princípios Técnicos O processo de avaliação psicológica deve considerar que os objetos deste procedimento (as questões de ordem psicológica) têm determinações históricas, sociais, econômicas e políticas, sendo as mesmas elementos constitutivos no processo de subjetivação. O DOCUMENTO, portanto, deve considerar a natureza dinâmica, não definitiva e não cristalizada do seu objeto de estudo. Os psicólogos, ao produzirem documentos escritos, devem se basear exclusivamente nos instrumentais técnicos (entrevistas, testes, observações, dinâmicas de grupo, escuta, intervenções verbais) que se configuramcomo métodos e técnicas psicológicas para a coleta de dados, estudos e interpretações de informações a respeito da pessoa ou grupo atendidos, bem como sobre outros materiais e grupo atendidos e sobre outros materiais e documentos produzidos anteriormente e pertinentes à matéria em questão. Esses instrumentais técnicos devem obedecer às condições mínimas requeridas de qualidade e de uso, devendo ser adequados ao que se propõem a investigar. A linguagem nos documentos deve ser precisa, clara, inteligível e concisa, ou seja, deve-se restringir pontualmente às informações que se fizerem necessárias, recusando qualquer tipo de consideração que não tenha relação com a finalidade do documento específico. Deve-se rubricar as laudas, desde a primeira até a penúltima, considerando que a última estará assinada, em toda e qualquer modalidade de documento. II - MODALIDADES DE DOCUMENTOS 1. Declaração * 2. Atestado psicológico 3. Relatório / laudo psicológico 4. Parecer psicológico * * A Declaração e o Parecer psicológico não são documentos decorrentes da avaliação Psicológica, embora muitas vezes apareçam desta forma. Por isso consideramos importante constarem deste manual afim de que sejam diferenciados. III - CONCEITO / FINALIDADE / ESTRUTURA 1 – DECLARAÇÃO 1.1. Conceito e finalidade da declaração É um documento que visa a informar a ocorrência de fatos ou situações objetivas www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 53 relacionados ao atendimento psicológico, com a finalidade de declarar: a) Comparecimentos do atendido e/ou do seu acompanhante, quando necessário; b) Acompanhamento psicológico do atendido; c) Informações sobre as condições do atendimento (tempo de acompanhamento, dias ou horários). Neste documento não deve ser feito o registro de sintomas, situações ou estados psicológicos. 1.2. Estrutura da declaração a) Ser emitida em papel timbrado ou apresentar na subscrição do documento o carimbo, em que conste nome e sobrenome do psicólogo, acrescido de sua inscrição profissional (“Nome do psicólogo / N.º da inscrição”). b) A declaração deve expor: - Registro do nome e sobrenome do solicitante; - Finalidade do documento (por exemplo, para fins de comprovação); - Registro de informações solicitadas em relação ao atendimento (por exemplo: se faz acompanhamento psicológico, em quais dias, qual horário); - Registro do local e data da expedição da declaração; - Registro do nome completo do psicólogo, sua inscrição no CRP e/ou carimbo com as mesmas informações. Assinatura do psicólogo acima de sua identificação ou do carimbo. 2 – ATESTADO PSICOLÓGICO 2.1. Conceito e finalidade do atestado É um documento expedido pelo psicólogo que certifica uma determinada situação ou estado psicológico, tendo como finalidade afirmar sobre as condições psicológicas de quem, por requerimento, o solicita, com fins de: a) Justificar faltas e/ou impedimentos do solicitante; b) Justificar estar apto ou não para atividades específicas, após realização de um processo de avaliação psicológica, dentro do rigor técnico e ético que subscreve esta Resolução; c) Solicitar afastamento e/ou dispensa do solicitante, subsidiado na afirmação atestada do fato, em acordo com o disposto na Resolução CFP nº 015/96. 2.2. Estrutura do atestado A formulação do atestado deve restringir-se à informação solicitada pelo requerente, contendo expressamente o fato constatado. Embora seja um documento simples, deve cumprir algumas formalidades: a) Ser emitido em papel timbrado ou apresentar na subscrição do documento o carimbo, em que conste o nome e sobrenome do psicólogo, acrescido de sua inscrição profissional (“Nome do psicólogo / N.º da inscrição”). b) O atestado deve expor: - Registro do nome e sobrenome do cliente; - Finalidade do documento; - Registro da informação do sintoma, situação ou condições psicológicas que justifiquem o atendimento, afastamento ou falta – podendo ser registrado sob o indicativo do código da Classificação Internacional de Doenças em vigor; - Registro do local e data da expedição do atestado; - Registro do nome completo do psicólogo, sua inscrição no CRP e/ou carimbo com as mesmas informações; - Assinatura do psicólogo acima de sua identificação ou do carimbo. Os registros deverão estar transcritos de forma corrida, ou seja, separados apenas pela pontuação, sem parágrafos, evitando, com isso, riscos de adulterações. No caso em que seja necessária a utilização de parágrafos, o psicólogo deverá preencher esses espaços com traços. O atestado emitido com a finalidade expressa no item 2.1, alínea b, deverá guardar relatório correspondente ao processo de avaliação psicológica realizado, nos arquivos profissionais do psicólogo, pelo prazo estipulado nesta resolução, item V. 3 – RELATÓRIO PSICOLÓGICO www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 54 3.1. Conceito e finalidade do relatório ou laudo psicológico O relatório ou laudo psicológico é uma apresentação descritiva acerca de situações e/ou condições psicológicas e suas determinações históricas, sociais, políticas e culturais, pesquisadas no processo de avaliação psicológica. Como todo DOCUMENTO, deve ser subsidiado em dados colhidos e analisados, à luz de um instrumental técnico (entrevistas, dinâmicas, testes psicológicos, observação, exame psíquico, intervenção verbal), consubstanciado em referencial técnico- filosófico e científico adotado pelo psicólogo. A finalidade do relatório psicológico será a de apresentar os procedimentos e conclusões gerados pelo processo da avaliação psicológica, relatando sobre o encaminhamento, as intervenções, o diagnóstico, o prognóstico e evolução do caso, orientação e sugestão de projeto terapêutico, bem como, caso necessário, solicitação de acompanhamento psicológico, limitando-se a fornecer somente as informações necessárias relacionadas à demanda, solicitação ou petição. 3.2. Estrutura O relatório psicológico é uma peça de natureza e valor científicos, devendo conter narrativa detalhada e didática, com clareza, precisão e harmonia, tornando-se acessível e compreensível ao destinatário. Os termos técnicos devem, portanto, estar acompanhados das explicações e/ou conceituação retiradas dos fundamentos teórico-filosóficos que os sustentam. O relatório psicológico deve conter, no mínimo, 5 (cinco) itens: identificação, descrição da demanda, procedimento, análise e conclusão. 1.Identificação 2.Descrição da demanda 3. Procedimento 4. Análise 5. Conclusão 3.2.1. Identificação É a parte superior do primeiro tópico do documento com a finalidade de identificar: O autor/relator – quem elabora; O interessado – quem solicita; O assunto/finalidade – qual a razão/finalidade. No identificador AUTOR/RELATOR, deverá ser colocado o(s) nome(s) do(s) psicólogo(s) que realizará(ão) a avaliação, com a(s) respectiva(s) inscrição(ões) no Conselho Regional. No identificador INTERESSADO, o psicólogo indicará o nome do autor do pedido (se a solicitação foi da Justiça, se foi de empresas, entidades ou do cliente). No identificador ASSUNTO, o psicólogo indicará a razão, o motivo do pedido (se para acompanhamento psicológico, prorrogação de prazo para acompanhamento ou outras razões pertinentes a uma avaliação psicológica). 3.2.2.Descrição da demanda Esta parte é destinada à narração das informações referentes à problemática apresentada e dos motivos, razões e expectativas que produziram o pedido do documento. Nesta parte, deve-se apresentar a análise que se faz da demanda de forma a justificar o procedimento adotado. 3.2.3. Procedimento A descrição do procedimento apresentará os recursos e instrumentos técnicos utilizados para coletar as informações (número de encontros, pessoas ouvidas etc) à luz do referencial teórico- filosófico que os embasa. O procedimento adotado deve ser pertinente para avaliar a complexidade do que está sendo demandado. 3.2.4. Análise É a parte do documento na qual o psicólogo faz uma exposição descritiva de forma metódica, objetiva e fiel dos dados colhidos e das situações vividas relacionados à demanda em sua complexidade. Como apresentado nos princípios técnicos, “O processo de avaliação psicológica deve considerar que os objetos deste procedimento (as questões de ordem psicológica) têm determinações históricas, sociais, econômicas e políticas, sendo as mesmas elementos constitutivos no processo de subjetivação. O DOCUMENTO, portanto, deve considerar a www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 55 natureza dinâmica, não definitiva e não cristalizada do seu objeto de estudo”. Nessa exposição, deve-se respeitar a fundamentação teórica que sustenta o instrumental técnico utilizado, bem como princípios éticos e as questões relativas ao sigilo das informações. Somente deve ser relatado o que for necessário para o esclarecimento do encaminhamento, como disposto no Código de Ética Profissional do Psicólogo. O psicólogo, ainda nesta parte, não deve fazer afirmações sem sustentação em fatos e/ou teorias, devendo ter linguagem precisa, especialmente quando se referir a dados de natureza subjetiva, expressando-se de maneira clara e exata. 3.2.4. Conclusão Na conclusão do documento, o psicólogo vai expor o resultado e/ou considerações a respeito de sua investigação a partir das referências que subsidiaram o trabalho. As considerações geradas pelo processo de avaliação psicológica devem transmitir ao solicitante a análise da demanda em sua complexidade e do processo de avaliação psicológica como um todo. Vale ressaltar a importância de sugestões e projetos de trabalho que contemplem a complexidade das variáveis envolvidas durante todo o processo. Após a narração conclusiva, o documento é encerrado, com indicação do local, data de emissão, assinatura do psicólogo e o seu número de inscrição no CRP. 4 – PARECER 4.1. Conceito e finalidade do parecer Parecer é um documento fundamentado e resumido sobre uma questão focal do campo psicológico cujo resultado pode ser indicativo ou conclusivo. O parecer tem como finalidade apresentar resposta esclarecedora, no campo do conhecimento psicológico, através de uma avaliação especializada, de uma “questão-problema”, visando a dirimir dúvidas que estão interferindo na decisão, sendo, portanto, uma resposta a uma consulta, que exige de quem responde competência no assunto. 4.2. Estrutura O psicólogo parecerista deve fazer a análise do problema apresentado, destacando os aspectos relevantes e opinar a respeito, considerando os quesitos apontados e com fundamento em referencial teórico-científico. Havendo quesitos, o psicólogo deve respondê-los de forma sintética e convincente, não deixando nenhum quesito sem resposta. Quando não houver dados para a resposta ou quando o psicólogo não puder ser categórico, deve-se utilizar a expressão “sem elementos de convicção”. Se o quesito estiver mal formulado, pode-se afirmar “prejudicado”, “sem elementos” ou “aguarda evolução”. O parecer é composto de 4 (quatro) itens: 1. Identificação 2. Exposição de motivos 3. Análise 4. Conclusão 4.2.1. Identificação Consiste em identificar o nome do parecerista e sua titulação, o nome do autor da solicitação e sua titulação. 4.2.2. Exposição de Motivos Destina-se à transcrição do objetivo da consulta e dos quesitos ou à apresentação das dúvidas levantadas pelo solicitante. Deve-se apresentar a questão em tese, não sendo necessária, portanto, a descrição detalhada dos procedimentos, como os dados colhidos ou o nome dos envolvidos. 4.2.3. Análise A discussão do PARECER PSICOLÓGICO se constitui na análise minuciosa da questão explanada e argumentada com base nos fundamentos necessários existentes, seja na ética, na técnica ou no corpo conceitual da ciência psicológica. Nesta parte, deve respeitar as normas de referências de trabalhos científicos para suas citações e informações. 4.2.4. Conclusão Na parte final, o psicólogo apresentará seu posicionamento, respondendo à questão levantada. Em seguida, informa o local e data em que foi elaborado e assina o documento. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 56 V – VALIDADE DOS CONTEÚDOS DOS DOCUMENTOS O prazo de validade do conteúdo dos documentos escritos, decorrentes das avaliações psicológicas, deverá considerar a legislação vigente nos casos já definidos. Não havendo definição legal, o psicólogo, onde for possível, indicará o prazo de validade do conteúdo emitido no documento em função das características avaliadas, das informações obtidas e dos objetivos da avaliação. Ao definir o prazo, o psicólogo deve dispor dos fundamentos para a indicação, devendo apresentá-los sempre que solicitado. VI - GUARDA DOS DOCUMENTOS E CONDIÇÕES DE GUARDA Os documentos escritos decorrentes de avaliação psicológica, bem como todo o material que os fundamentou, deverão ser guardados pelo prazo mínimo de 5 anos, observando-se a responsabilidade por eles tanto do psicólogo quanto da instituição em que ocorreu a avaliação psicológica. Esse prazo poderá ser ampliado nos casos previstos em lei, por determinação judicial, ou ainda em casos específicos em que seja necessária a manutenção da guarda por maior tempo. Em caso de extinção de serviço psicológico, o destino dos documentos deverá seguir as orientações definidas no Código de Ética do Psicólogo. 2.5 Desligamento: entrevista de desligamento A entrevista de desligamento é um instrumento muito útil para analisar todas políticas de Recursos Humanos praticadas na Instituição, analisando as sensações e opiniões do colaborador sobres as práticas da organização. Costuma ser um bom meio de diagnosticar os motivos que levam à rotatividade de pessoal (CAXITO, 2007; CHIAVENATO, 2008). Para o Chiavenato (2008, p. 156), a entrevista de desligamento busca analisar, principalmente, os seguintes itens: 1) Motivo do desligamento [...] 2) Opinião do empregado sobre a empresa. 3) Opinião do empregado sobre o cargo que ocupa na organização. 4) Opinião do empregado sobre seu chefe direto. 5) Opinião do empregado sobre seu horário de trabalho 6) Opinião do empregado sobre as condições físicas e ambientais dentro das quais desenvolve seu trabalho. 7) Opinião do empregado sobre os benefícios sociais concedidos na organização 8) Opinião do empregado sobre seu salário 9) Opinião do empregado sobre o relacionamento humano existente em sua seção. 10) Opinião do empregado sobre as oportunidades de progresso que sentiu dentro da organização. www.educapsico.com.brKarina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 57 11) Opinião do empregado sobre o moral e atitude de seus colegas de trabalho. 12) Opinião do empregado sobre as oportunidades que encontra no mercado de trabalho. 2.6 Treinamento e Desenvolvimento de Pessoal: levantamento de necessidades, planejamento, execução e avaliação Subsistema de Desenvolvimento Este subsistema trabalha a capacidade de aprendizagem das pessoas em relação a novos conhecimentos e na modificação de comportamentos existentes. Assim, esse subsistema se relaciona ao treinamento e ao desenvolvimento organizacional. Treinamento e Desenvolvimento de Pessoal O treinamento é a educação do profissional para adaptá-lo a uma determinada empresa e cargo. É realizado por empresas terceiras especializadas ou pela própria empresa; obedece a um programa preestabelecido e sistemático, com objetivos de uma adaptação mais rápida da pessoa ao trabalho. O desenvolvimento profissional “É a educação profissional que visa ampliar, desenvolver e aperfeiçoar a pessoa para seu crescimento profissional em uma determinada carreira na organização ou para que se torne mais eficiente e produtiva em seu cargo” (CHIAVENATO, 2008, p. 401). O treinamento busca fornecer meios para possibilitar a aprendizagem. Chiavenato (2008) traz uma comparação do treinamento a um modelo de sistema aberto, no qual existem: Entradas (inputs): os treinandos, os recursos organizacionais etc. Processamento ou operação (throughputs): como processos de aprendizagem individual, o programa de treinamento etc. Saída (outputs): como habilidades, eficácia organizacional, conhecimentos. Retroação (feedback): como as avaliações dos resultados do treinamento. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 58 Como objetivos do treinamento temos: 1) O preparo de pessoa para a execução imediata de atividades na organização; 2) A oportunidade de o funcionário desenvolver-se continuamente e para mudanças de atitudes (questões comportamentais), clima organizacional, melhoras na motivação e aprendizado de técnicas gerenciais. As responsabilidades do treinamento organizacional, de uma maneira geral, são ou dos órgãos de treinamento ou dos órgãos responsáveis pelas próprias atividades. Mas, essa responsabilidade, preferencialmente, deve ser dividida entre o órgão responsável pelas atividades e o órgão de treinamento, de maneira a prestar uma consultoria, realizando levantamentos de necessidades, diagnóstico e programações de treinamento. As pessoas possuem necessidade de treinamentos para seu desenvolvimento constante, pois mesmo um funcionário que tenha competência neste momento, no futuro, se não se atualizar pode ter essa competência superada por outras que passam a serem necessárias para a atividade. Robbins (2005) discute quatro categorias de habilidades básicas que são trabalhadas em treinamentos: linguagem, técnica, habilidade interpessoal e resolução de problemas. A linguagem é uma habilidade básica que deve estar desenvolvida no funcionário no momento da contratação; porém, esse desenvolvimento nem sempre é possível, pois o sistema educacional dos países está cada vez mais comprometido, obrigando as empresas a treinarem e desenvolverem seus colaboradores nessa habilidade também. Habilidades técnicas são sempre os focos dos treinamentos, primeiro, pensando- se em adequar o conhecimento funcionário para a atividade que ele executa e, também, em relação às novas questões técnicas que surgem e devem ser apreendidas para o bom desempenho desse colaborador, como por exemplo, uma mudança na linha de produtos no portfólio da empresa. As habilidades interpessoais, tão cobradas atualmente, são bem desenvolvidas em diversos colaboradores de uma maneira geral, ou por formação ou por exigência do mercado. Porém, existem ainda deficiências no desenvolvimento dessa habilidade. São www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 59 exemplos de habilidades interpessoais: a expressão de ideias com maior clareza e o trabalho em equipe mais eficaz. Quanto à habilidade de resolução de problemas, podemos desenvolver outras aptidões para chegarmos ao desenvolvimento de solucionar problemas, especificamente. O que é treinado, aquilo que se tem o objetivo de desenvolver neste caso, são a lógica, o raciocínio, a capacidade de definir problemas, entre outros. O desenvolvimento, nessa habilidade, faz-se cada vez mais necessário com a implantação de programas de qualidade e equipes autogerenciadas. Atualmente, são trabalhadas duas formas de treinamentos: os formais e os informais. Os treinamentos formais são aqueles planejados, agendados, bem estruturados, sendo do tipo mais tradicional. Os informais não são planejados, nem têm uma estrutura fixa, com mobilidade de aplicação e fácil adaptação àquele que vai ser treinado. Esse treinamento informal é o que já foi chamado de conversa de corredor. Robbins (2005) traz que há os treinamentos no trabalho e que são realizados no expediente, necessitando de mudanças na rotina, substitutos, o que gera uma cisão no processo organizacional, dificultando mais sua aplicação. Já a outra modalidade, que é mais utilizada pelas grandes empresas, é a do treinamento fora do trabalho. São utilizadas para esse tipo de treinamento, frequentemente, atividades como palestras, sessões de vídeos, seminários, programas de autoaprendizado, cursos pela internet, atividades em grupo, dramatizações, entre outros. 2.7 Análise e Desenvolvimento Organizacional O desenvolvimento organizacional está atrelado a mudanças estruturais de ordem sistêmica na organização, ao contrário das mudanças estabelecidas nos treinamentos que, de modo geral, são referentes às questões de desenvolvimento individual. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 60 As modificações para o desenvolvimento organizacional baseiam-se em mudanças de longo prazo, mudanças em processos e estruturas organizacionais, vislumbrando mudanças na totalidade da organização. Desenvolvimento tem ligação com a capacidade da organização para a mudança, para acompanhar as mudanças externas, modificando-se internamente, seja em estrutura, funcionamento, gestão, etc. Na busca por essas mudanças, o processo de Desenvolvimento Organizacional (DO), faz-se em três etapas: inicia com a Coleta de Dados, que consiste no levantamento de informações sobre os elementos da organização, pertinentes para a identificação de problemas; segue, então, o Diagnóstico Organizacional, sendo essa a fase que analisa, interpreta os dados coletados, a fim de obter o diagnóstico propriamente dito e, assim, buscar objetivos para a ação; e, por último, temos a Ação de Intervenção, na qual são escolhidas as melhores ações para a intervenção, visando atingir os objetivos das modificações verificadas pelo diagnóstico. O DO segue no sentido de mudança da organização e, para tal, utiliza-se de técnicas de intervenção como: feedback de dados, desenvolvimento de equipes, enriquecimento de cargos, treinamentos e modificações de processos. 3. UNIDADE III – O INDIVÍDUO E O CONTEXTO ORGANIZACIONAL: variáveis individuais, grupais e organizacionais 11 3.1 Cultura organizacional: paradigmas, conceitos,elementos e dinâmica Edgar Schein (1982) apud Rocha-Pinto et al (2007) afirma que a cultura organizacional é um conjunto de padrões de suposições básicas inventadas, descobertas ou desenvolvidas pelos membros de uma empresa, para lidar com problemas de adaptação externa e integração interna. Esses padrões funcionam com eficácia suficiente 11 Parte desta unidade foi extraída da apostila temática Psicologia Organizacional, elaborada por Rafael Santos Vaz de Lima, Psicólogo formado pela Unesp e Pós-Graduado em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 61 para serem considerados válidos e, em seguida, ensinados aos novos membros como a maneira correta de perceber, pensar e sentir esses problemas. A cultura organizacional abarca ideias de várias áreas do conhecimento. Em princípio, a cultura organizacional foi um conceito elaborado pela antropologia, cuja visão permite a identificação de diferenças entre os diversos grupos humanos e suas culturas. De modo multidisciplinar, a cultura das organizações decorre de um complexo processo social, no qual estão presentes fatores tangíveis e intangíveis. Como fatores tangíveis, temos: aspectos concretos da organização, como a arquitetura dos prédios, o mobiliário; as comunicações visuais e também os produtos e serviços que a empresa realiza. Já os fatores intangíveis são as crenças, as marcas, as ideias preestabelecidas, as regras e os costumes presentes na organização. Assim, as organizações possuem cada qual sua cultura e os funcionários, ao adentrarem na instituição, são inseridos neste contexto e, o momento em que a cultura organizacional é absorvida pelos trabalhadores, dá-se quando estes começam a partilhar as visões de mundo parecidas (ROCHA-PINTO et al, 2007). Percebe-se que a cultura organizacional influencia o comportamento dos funcionários, seja através de normas e regras explícitas ou através de regras que estão presentes no cotidiano da empresa sem que elas não sejam especificadas abertamente no acordo de trabalho. A cultura organizacional engloba normas, valores, recompensas e poder. Vejamos cada um desses seus aspectos: a) Normas. Elas podem ser explicitas ou implícitas e dizem respeito a padrões/ normas de comportamento que as pessoas, como partes da organização, devem seguir. b) Valores. São “coisas” que as pessoas, como partes da organização, avaliam como positivo ou negativo, bom ou ruim. Relacionam-se com as normas da empresa. c) Recompensa. É aquilo que se oferece de positivo ao funcionário em função de certos comportamentos. Enfatiza-se aqui a importância de recompensar ótimos desempenhos, mas também, de se usar o sistema de recompensas para incentivar aqueles funcionários que precisam melhorar seus desempenhos. d) Poder. O poder na organização pode ser mais centralizado ou ser distribuído. Cada maneira de organizar o poder na organização pode ser usada para a www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 62 análise da cultura de cada organização; também irá influenciar no clima organizacional. Alguns outros elementos também estão presentes na cultura organizacional. São eles: a) Símbolo. Representa algo que dever ser decodificado por aqueles que entram em contato com o mesmo (por exemplo, bandeira). b) Heróis. Funcionam como modelos de comportamento e valores. c) Estórias. São narrativas com base em fatos reais, porém, com presença de elementos fictícios. Elas têm a função de informar sobre o comportamento esperado. d) Endoculturação. Diante da necessidade de aprender a desempenhar novos papéis, as pessoas aprendem novas habilidades e valores para os mesmos. e) Mitos. Estórias que servem para explicar diferentes fenômenos. f) Ritos. Atividades que buscam a afirmação de aspectos que representam certa cultura. 3.2 Clima organizacional: evolução conceitual, componentes e estratégias de gestão Os estudos sobre clima organizacional surgiram nos Estados Unidos com Forehand e Gilmor, no início da década de 60 (SILVA; DORNELAS; SANTOS, 2008). O conceito de clima organizacional baseia-se na percepção dos colaboradores sobre a qualidade física do ambiente, os recursos e práticas estabelecidas e as relações existentes na organização. Estas percepções influenciam seu sentimento de bem-estar ou mal-estar em relação à organização e logo, o clima organizacional relaciona-se também com a motivação. O clima organizacional como instrumento, como forma de pesquisa nas organizações é importante, pois ele apoia a gestão de recursos humanos no sentido da produtividade e qualidade nas empresas. É feito um levantamento dos comportamentos, a fim de conhecer questões conflitivas na organização e, a partir de então, poder realizar o planejamento de ações do núcleo de Recursos Humanos das organizações. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 63 A pesquisa de clima organizacional é uma ferramenta objetiva e segura, isenta de comprometimento com a situação atual, em busca de problemas reais na gestão dos Recursos Humanos. A análise, o diagnóstico e as sugestões, proporcionados pela pesquisa, são valiosos instrumentos para o sucesso de programas voltados para a melhoria da qualidade, aumento da produtividade e adoção de políticas internas (BISPO, 2006, s/p). Então, temos o conceito de clima e a ferramenta “pesquisa de clima” que identificam o que está sendo favorável e desfavorável à motivação dos trabalhadores em uma organização. Quando o clima é favorável, este proporciona uma satisfação do trabalhador; já quando é desfavorável, proporciona a frustração do mesmo. Portanto, o clima organizacional influencia o estado motivacional das pessoas e, por consequência, também é influenciado por ele (CHIAVENATO, 1988). Para a pesquisa do clima organizacional, várias técnicas são utilizadas, dentre as quais se pode destacar a aplicação de questionários aos funcionários. Algumas categorias de análise do clima organizacional foram propostas por diferentes autores, sendo que os principais modelos são: Modelo Litwin e Stringer (1968), Modelo de Kolb (1986) e Modelo de Sbragia (1983), (SILVA; DORNELAS; SANTOS, 2008). Para a análise do clima organizacional é necessário levar-se em conta a cultura organização, analisando os seguintes aspectos: crenças, valores, costumes, rituais, slogans, mitos, tabus, tradições, sentimentos e comportamentos daqueles que fazem parte da organização. 3.3 Comportamento humano no trabalho: motivação, satisfação e comprometimento Robbins (2005) define motivação: “como o processo responsável pela intensidade, direção e persistência dos esforços de uma pessoa para o alcance de uma determinada meta”. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 64 A partir dessa definição, vamos trabalhar agora com as teorias sobre a motivação humana. Estas surgiram na década de 1950 e ainda são utilizadas atualmente para explicar a motivação para o trabalho (ROBBINS, 2005). 3.3.1 Teoria da Hierarquia de Necessidades De acordo com Chiavenato (2008), Abraham Maslowcriou a teoria da hierarquia de necessidades que, provavelmente, é a mais conhecida das teorias sobre motivação. Para Maslow, o homem possui uma hierarquia de necessidades, as quais influenciam seus comportamentos. São cinco categorias existentes em cada ser humano, segundo ele: 1) Necessidades fisiológicas (fome, sede, sexo, abrigo); 2) Necessidades de segurança (proteção contra abusos físicos ou privação); 3) Necessidades sociais (amizades, sentimento de pertença ao grupo); 4) Necessidade de estima (amor, reconhecimento, status) 5) Necessidade de autorrealização (utilização dos plenos potenciais individuais, autodesenvolvimento) (CHIAVENATO, 2008; ROBBINS, 2005). Neste contexto, quando as necessidades de um nível são atendidas, as outras do nível superior tornam-se predominantes. Além dessa divisão das cinco necessidades, Maslow fez outra divisão das necessidades primárias e secundárias. As necessidades primárias englobam as fisiológicas e de segurança, enquanto as necessidades secundárias englobam as sociais, de estima e de autorrealização. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 65 Figura 1: Pirâmide de Maslow. Extraída do site: <www.novo-mundo.org/log/wp- content/uploads/maslow.jpg>. 3.3.2 Teoria dos Dois Fatores de Herzberg Herzberg elaborou uma teoria sobre motivação para o trabalho. Para criar esta teoria ele baseou-se na análise do ambiente externo (condições que rodeiam a pessoa em seu trabalho) e no conteúdo do trabalho do indivíduo. Assim, a motivação para ele é dependente de dois fatores: os fatores higiênicos e os fatores motivadores. Os fatores higiênicos se destinam a evitar a insatisfação do trabalhador, estando relacionados aos fatores externos; são as condições estruturais do local de trabalho, relacionamento com os outros, remuneração, entre outros. Esses fatores são os que, no www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 66 caso, irão aquietar os colaboradores e não necessariamente motivá-los. (CHIAVENATO, 2008; ROBBINS, 2005). Já os fatores motivadores estão atrelados aos conteúdos do cargo, tarefas a serem feitas, deveres e responsabilidades. Esses fatores produzem efeitos mais duradouros em relação à satisfação e também ao aumento de produtividade. 3.3.3 Teorias X e Y McGregor criou sua teoria preocupando-se com as concepções dadas à natureza humana. Assim, denominou a concepção tradicional sobre a natureza na administração, de Teoria “X”, e a concepção moderna, de Teoria “Y” (CHIAVENATO, 2008). Desta maneira, a Teoria “X” possui concepções distorcidas e equivocadas quanto à natureza humana. Essas concepções são de que o homem é, por natureza, indolente e preguiçoso, que sua única motivação se faz pelo dinheiro; que o homem é passivo e controlado pela organização. Portanto, a administração deve persuadir, recompensar, punir, coagir e controlar as pessoas para conseguir que elas façam as coisas necessárias à organização. Já a Teoria “Y” concebe o homem de uma nova maneira. Deste modo, a teoria da motivação, baseada na Teoria “Y”, vislumbra um ser humano ativo, que tem capacidade de utilizar o raciocínio para elaborar soluções aos problemas da organização; e que tem a capacidade de autorregulação e autorrealização. Assim, a Teoria “Y” trabalha, na administração, a motivação em um sentido participativo e democrático do trabalhador na instituição (CHIAVENATO, 2008). 3.3.4 Modelo Contingencial de Motivação Para Victor Vroom, motivação é o processo que governa a escolha de comportamentos voluntários alternativos. Inicialmente, o indivíduo tem opções para www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 67 escolha. Ele pode realizar coisas diferentes, em situações do tipo A, B ou C. No entanto, para que seja efetivada a escolha, depende-se de três fatores: Valência que é o valor atribuindo pela pessoa ao resultado advindo de cada alternativa. Ou seja, a pessoa valoriza os possíveis resultados das alternativas. Instrumentalidade é a percepção que a obtenção de cada resultado está ligada a uma compensação. Expectativa que a pessoa tem de poder obter com cada resultado. Assim, para que uma pessoa esteja "motivada" a fazer alguma coisa, é preciso que ela, simultaneamente: Atribua valor à compensação proveniente de fazer essa coisa; Acredite que fazendo essa coisa, ela receberá a compensação esperada; E, acredite que tem condições de fazer aquela coisa. Esses três fatores interdependentes, portanto, não podem estar ausentes na “motivação” da pessoa; esses fatores necessitam, obrigatoriamente, estar presentes nas decisões motivadas das pessoas. A motivação, a partir desses fatores, é algo que depende de cada indivíduo e em função de objetivos pessoais (WAAL; TELLES, 2004). 3.3.5 Teoria de Campo Kurt Lewin foi responsável pelo desenvolvimento da teoria de campo no século XX. Segundo Lewin, os fenômenos psicológicos ocorrem em um determinado campo, que é o espaço da vida do indivíduo onde estão a pessoa e seu ambiente psicológico. O ambiente psicológico é como a pessoa interpreta seu ambiente externo, seus componentes e eventos que, assim, passam a assumir valores diferentes (AGUIAR, 1986; CHIAVENATO, 1988). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 68 Lewin faz algumas suposições básicas, explicando do que depende o comportamento humano. Essas suposições são brevemente apresentadas a seguir: O comportamento é derivado do todo dos fatos coexistentes que o envolvem. Esses fatos têm o caráter de campo psicológico e cada parte deste depende de uma inter-relação dinâmica com as outras partes (CHIAVENATO, 1988). Para Lewin, as ações humanas são motivadas para que ocorra a liberação de tensões. O indivíduo se atrai por atividades nas quais ele possa liberar essas tensões; o que move o indivíduo para essas atividades é denominado de valência positiva. Já seu oposto é a valência negativa que afasta a pessoa de certas atividades, com as quais ela não conseguiria satisfazer essas tensões (AGUIAR, 1986). 3.3.6 A Abordagem Fenomenológica da Logoterapia A logoterapia surge com Victor Frankl no período da Segunda Guerra Mundial. Através de suas observações feitas quando preso, nos campos de concentração de Auschwitz, Sobibor e Treblinka ele percebeu que a atitude individual alternativa dos prisioneiros, era o que permitia a eles transcender aos atos desumanos da guerra e não renunciar ao sentido da vida (QUEIROZ, 1996). Logoterapia vem do grego logos, que significa sentido. Esta escola da psicologia tem como princípio a questão de que a principal força motivadora do ser humano é ter um sentido para vida, é estar na busca desse sentido. Vejamos o que significa esse sentido a partir de um trecho transcrito da obra de Bueno: www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 69 “O sentido é entendido por Frankl em dois níveis distintos: o sentido supremo, caracterizado pela missão quea pessoa percebe frente ao mundo, e o sentido do momento, que representa o significado específico da vida de uma pessoa numa dada circunstância” ( QUEIROZ, 1996, s/p). Segundo Queiroz (1996), para Frankl, existem três formas para se alcançar sentidos supremos e momentâneos: a) Criar um trabalho ou praticar algum ato. b) Experimentar algo ─ como a bondade, a verdade e a beleza, experimentando a natureza e a cultura, ou experimentando outro ser humano em sua originalidade própria ─ amando-o. c) Pela atitude que o indivíduo toma em relação ao sofrimento inevitável, considerando que " O ser humano não é alguém em busca da felicidade, mas sim alguém em busca de uma razão para ser feliz, através - e isto é importante - da manifestação concreta do significado potencial inerente e latente numa situação dada. (...) Uma vez que a busca do sentido por parte do indivíduo é bem sucedida, isto não só o deixa feliz, mas também lhe dá capacidade de enfrentar sofrimento” (Frankl, 1987, p.150, apud QUEIROZ, 1996) 3.3.7 Técnicas Motivacionais Nas organizações, os líderes precisam estar sempre atentos ao bem-estar dos colaboradores e à motivação da equipe. Existem algumas técnicas e recursos que são utilizados com o objetivo de melhorar a motivação dos colaboradores. De acordo com Robbins (2005), algumas delas são: Administração por objetivos. Esta técnica enfatiza a fixação de específicas tangíveis, verificáveis e mensuráveis; visa converter os objetivos gerais da organização em metas específicas para cada unidade organizacional e para cada indivíduo da empresa; www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 70 Programa de reconhecimento dos funcionários. Podem ter diferentes formatos, desde um reconhecimento informal como um “muito obrigado” espontâneo até programas mais formais e explícitos, nos quais tipos específicos de comportamento são encorajados e descrevem-se os procedimentos claramente Programas de envolvimento dos funcionários. Englobam os programas de gestão participativa, participação por representação, círculos de qualidade (grupo de trabalho com membros entre funcionários e chefes que tem uma área de responsabilidade conjunta), e planos de participação acionária; Planejamento de trabalho com esquemas flexíveis. Engloba os programas de rodízio de tarefas, ampliação de tarefas (aumento do número e da variedade de atividades realizadas por um indivíduo, que resulta em um trabalho com maior diversidade), enriquecimento de tarefas (aumenta o grau em que o trabalhador controla o planejamento, a execução e a avaliação de seu trabalho); horários flexíveis; emprego compartilhado (permite que duas ou mais pessoas dividam entre si um emprego tradicional de 40 horas semanais), e telecomutação (não há deslocamento físico; o horário é flexível; há total liberdade para se vestir e nenhuma interrupção por parte dos colegas). Programas de remuneração variável. Referem-se a planos de remuneração de acordo com a produção e desempenho do trabalhador. Algumas formas possíveis desses programas são incentivos salariais, participação nos lucros e participação nos ganhos . Planos de remuneração por habilidades. Esses planos podem ser uma alternativa à remuneração com base no cargo, estabelecendo o nível salarial com base na quantidade de habilidades do funcionário, ou na variedade de funções que ele é capaz de desempenhar. Pode ser chamado de remuneração por competências. Benefícios flexíveis. Planos que permitem aos funcionários escolher entre diversos itens de um cardápio de opções de benefícios, de acordo com suas necessidades e situação. 3.4 Comunicação nas organizações www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 71 A comunicação no ambiente organizacional, ou mesmo em um grupo, tem quatro funções básicas: controle, motivação, expressão emocional e informação (ROBBINS, 2005). O processo da comunicação depende de um emissor e de um receptor. Outros elementos que fazem parte da comunicação são: canal, código, mensagem e feedback, como na figura abaixo. Assim, a mensagem é emitida pelo emissor que se utiliza de um código; esta mensagem passa por um canal, até chegar ao receptor que, por sua vez, tem a mensagem decodificada e recebida. Finalmente, há aí o processo do feedback, que é a verificação se a mensagem foi recebida como o emissor queria transmiti-la. Figura 2: Esquema de Comunicação. Extraído do site: <www.linguaseciencias.blogs.sapo.pt> 3.5 Grupos nas organizações: abordagens, modelos de intervenção e dinâmica de grupo Os grupos em uma organização são fundamentais, à medida que as pessoas se comportam de modos diferentes no grupo e individualmente. Assim, grupo é definido como dois ou mais indivíduos que tem um objetivo comum, dependentes entre si, e que interagem para a realização deste interesse em comum. Uma organização possui grupos formais e informais. Por grupo formal, entende-se que tem sua formação relacionada às atribuições do trabalho, possuindo objetivos e funções estipulados pela organização. Os grupos informais estão ligados por aspectos não determinados pela organização, pertencentes aos laços de amizade e afinidades outras (MACÊDO et al, 2005). Em relação aos grupos, existem conceitos básicos acerca deles. Primeiramente, abordaremos o conceito de papéis. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 72 Os papéis são as formas como as pessoas se mostram no grupo e como estão as expectativas de seus membros para aquele papel que cada indivíduo irá desempenhar. No caso das organizações, dois papéis são característicos: o do patrão que deve fornecer as condições de trabalho aceitáveis, justiça aos funcionários, e saiba transmitir aquilo que deseja do trabalhador. E, no outro papel, está o funcionário que, para seu patrão, deve cumprir os horários, fazer as atividades de seu cargo, entre outras coisas. Outro conceito é o de normas. Elas são os padrões de comportamento aceitáveis no grupo. Esses padrões se formam através das necessidades deste grupo e a partir de como os indivíduos, pertencentes a ele, querem constituir uma forma de exercer um mínimo de influência do grupo sobre os comportamentos de cada indivíduo inserido nele. O status, outro conceito, está relacionado à posição social que o grupo e/ou um membro deste possui. O status pode ser definido pelo poder que um indivíduo pode exercer sobre outros, pela capacidade de contribuir para aquilo que aquele grupo deseja e, por fim, pelas características que aquela pessoa possui. A coesão é uma característica que está ligada à relação dos membros entre si, ao quanto eles se sentem atraídos e motivados para seguirem unidos naquele grupo. Um grupo coeso, normalmente, tem maior produção grupal. Outra característica é o tamanho de um grupo, pois o tamanho afeta as relações e desempenhos de um determinado grupo. Quanto maior este grupo, mais demorado será o cumprimento da tarefa, ao passo que, as chances de se chegar a um melhor resultado também são prováveis. E, por fim, tem-se a composição como característica da formação de um grupo. Os grupos podem ser homogêneos e heterogêneos. Isto quer dizer que o grupo pode ser formado por pessoas extremamente parecidas em determinado aspectos ouque um grupo é formado por pessoa de características diferentes. 3.5.1 Dinâmicas de Grupo www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 73 Psicodrama “Psicodrama pode ser definido como uma via de investigação da alma humana mediante a ação. É um método de pesquisa e intervenção nas relações interpessoais, nos grupos, entre grupos ou de uma pessoa consigo mesma. Mobiliza para vivenciar a realidade a partir do reconhecimento das diferenças e dos conflitos e facilita a busca de alternativas para a resolução do que é revelado, expandindo os recursos disponíveis. Tem sido amplamente utilizado na educação, nas empresas, nos hospitais, na clínica, nas comunidades. O Psicodrama é uma parte de uma construção muito mais ampla, criada por Jacob Levy Moreno, a Socionomia. Na verdade, a denominação da parte foi estendida para o todo e, quando as pessoas usam o termo Psicodrama, estão, geralmente, se referindo à Socionomia. Ciência das leis sociais e das relações, a socionomia é caracterizada fundamentalmente por seu foco na intersecção do mundo subjetivo, psicológico e do mundo objetivo, social, contextualizando o indivíduo em relação às suas circunstâncias. Divide-se em três ramos: a Sociometria, a Sociodinâmica e a Sociatria, que guardam em comum a ação dramática como recurso para facilitar a expressão da realidade implícita nas relações interpessoais ou para a investigação e reflexão sobre determinado tema” (FEBRAP, s/d, s/p). Como técnica, existe diferença entre o Psicodrama e o Sociodrama. O primeiro consiste no trabalho dramático e tem como foco o indivíduo, ainda que visto como um ser em relação. O segundo tem como foco o próprio grupo (FEBRAP, s/d) “O Psicodrama foi inicialmente dirigido a pacientes com comprometimento psiquiátrico ou emocional, que eram incentivados a representar peças com textos improvisados. Moreno acreditava que a dramatização era o método por excelência para se resgatar a espontaneidade e chegar ao autoconhecimento [...] Durante as sessões de Psicodrama, os participantes são estimulados a expressar livremente as criações de seu mundo interno, seja na produção mental de uma fantasia concretizada em cena ou numa determinada atividade corporal” 12 12 Texto retirado do site da Revista Vida Simples: http://vidasimples.abril.com.br/100respostas/conteudo_258599.shtml www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 74 Como todo método, o Psicodrama também possui vantagens e desvantagens que devem ser observadas ao ser utilizado. Vantagens. O psicodrama coloca em evidência determinados conteúdos internos não percebidos no cotidiano, oportunizando a reflexão. Ao fazer isso, o método psicodramático permite que os participantes, na função de observadores, projetem-se na situação vivenciada e elaborem melhor dificuldades semelhantes. Limitações. A utilização do método psicodramático exige habilidade do facilitador em manejar emoções intensamente mobilizadas. Tempestade de Ideias ou Brainstorming Dentre diversos outros métodos, a técnica de brainstorming propõe que um grupo de pessoas ─ composto de duas até dez pessoas ─ reúna-se e se utilize das diferenças em seus pensamentos e ideias, para que possa chegar a um denominador comum, eficaz e com qualidade, gerando, assim, ideias inovadoras que levem o projeto adiante. Segundo Lins (1993, p. 157) “O brainstorming caracteriza-se como uma reunião de grupo em que novas idéias são buscadas e, portanto, a livre expressão dos participantes deve ser assegurada. O objetivo é o de maximizar o fluxo de idéias, a criatividade e a capacidade analítica do grupo”. Para Lins (1993), os participantes devem ser ouvidos, sem nenhuma crítica, e todas as idéias são anotadas. Posteriormente as idéias são agrupadas para serem ordenadas e ser possível uma análise melhor diante do problema que se pretende solucionar. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 75 Vantagens. Esta técnica permite a obtenção de respostas espontâneas, valorizando as concepções, ideias e sentimentos prévios dos integrantes do grupo. Valoriza a criatividade, economiza tempo e recursos (ROCHA et al, 2000). Limitações. O brainstorming exige que o facilitador tenha habilidade para lidar com a diversidade de opiniões no grupo, durante a fase de discussão. Para Rocha et al (2000), deve-se ter o cuidado para não fazer julgamentos e respeitar os valores de cada participante. É importante o uso de recursos visuais para que todos os participantes possam conhecer as idéias compartilhadas, caso contrário será dificultado o processo. Debate “Debate é uma discussão amigável entre duas ou mais pessoas que queiram apenas colocar suas ideias em questão ou discordar das demais, sempre tentando prevalecer a sua própria opinião ou sendo convencido pelas opniões opostas” (WIKIPEDIA, s/d). Uma forma de utilizar a técnica do Debate como dinâmica de grupo, é a explicada por Minto et al (2006, p. 565): “O coordenador propõe ao grupo um debate. Os participantes estipulam algumas regras que propiciem ser ele respeitoso. Em seguida, divide-se o grupo em dois subgrupos. Um subgrupo é orientado a defender um tema – por exemplo, o ensino público no país. O outro subgrupo deve argumentar contra o tema. Os subgrupos têm 15 minutos para preparar a argumentação. Os dois subgrupos debatem o tema, apresentando seus argumentos. Repete-se o debate com outro assunto. Desta vez, inverte-se, entre os subgrupos, a tarefa de defender e argumentar contra o tema. O debate não deverá ter a finalidade de encontrar um vencedor, pois a habilidade de pensar criticamente consiste em analisar e refletir sobre aspectos positivos e negativos de diversos assuntos. Em uma dinâmica de grupo, o psicólogo atua como o moderador de um debate, e se utiliza dessa técnica para avaliar habilidades dos participantes, bem como para incentivar a reflexão dos mesmos sobre um tema específico”. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 76 Vantagens. A técnica contribui para que os participantes formem opiniões consistentes, auxilia na flexibilização e compreensão das opiniões de outras pessoas e também contribui para que as escolhas sejam realizadas de forma responsável (MINTO et al, 2006). Limitações. Exige a habilidade do facilitador em evitar competição acirrada nas diferentes opiniões manifestas; o controle do tempo, de modo a não haver desequilíbrio dos argumentos apresentados; e o conhecimento amplo do assunto. Discussão em pequenos grupos Esta técnica pode ser realizada antes do debate. Ela “possibilita a participação e a contribuição dos treinandos em relação a diversos aspectos, mediante a discussão em subgrupos. (BRASIL 1996, p. 55). Vantagens. A técnica promove a participação e envolvimento dos treinandos pois, como estão em pequenos grupos, sentem-se mais estimulados a falar sobre suas idéias, opiniões, sentimentos, etc. O grupo pequeno tende a diminuir a timidez, vergonha e insegurança para falar (BRASIL,1996). Limitações. Para que a técnica seja utilizada de forma adequada, é necessário que o espaço físico disponível seja amplo para a separação dos integrantes nos pequenos grupos. Estes não devem ser formados por mais de seis pessoas (BRASIL, 1996) Estudo de Caso www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 77 O estudo de caso visa “permitir a discussão e a busca de soluções, de casos passíveis de serem encontrados na vida real, baseados não em meras opiniões, mas em conhecimento de fatos relevantes” (BRASIL, 1996, p. 56) Vantagens. A técnica baseia-se em caso real e por tal motivo possibilita a reflexão e a solução de problemas de situações que podem ser encontradas na vida cotidiana (BRASIL, 1996) Limitações. É necessário que o caso esteja bem descrito para que as pessoas tenham informações suficientes para discutir e avaliar a situação. É importante que os participantes tenham acesso prévio às informações e conhecimentos necessário para analisar o estudo do caso, caso contrário ocorrerá apenas a manifestação de opinião leiga (BRASIL, 1996) Painel “Um grupo de entendidos no assunto [...] dialoga diante do grupo em torno de determinado tema [...] a discussão se desenrola sob a direção de um moderador” (IDÁÑEZ, 2004, p. 200). Vantagens. A técnica permite conhecer diferentes opiniões sobre um determinado tema e as vantagens e desvantagens sobre de cada um dos enfoques (IDÁÑEZ, 2004) Limitações. É importante tomar cuidado para que discussão ocorra de forma tranqüila, sem agressividade e que seja criado um clima agradável para debater o tema. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 78 O local físico deve ser adequado para que os painelistas possam dialogar e o público possa vê-los (IDÁÑEZ, 2004). 3.6 Equipes de trabalho e desempenho organizacional em diferentes organizações Segundo Macêdo et. al. (2007, p. 127) “Entende-se por equipe um conjunto de pessoas com habilidades complementares, atuando juntas numa mesma atividade, com propósitos e objetivos comuns, comprometidas umas com as outras e com a qualidade dos relacionamentos e dos resultados”. Os autores apresentam alguns requisitos importantes para que uma equipe tenha um bom desempenho, são eles: Conhecer os objetivos da equipe, ou seja, saber claramente o propósito das atividades desenvolvidas pela equipe; Conhecer as condições, isto é, conhecer prazos e recursos que dispõem para executarem as atividades; Ter comunicação aberta, isto é, todos membros da equipe devem ter acesso às informações e sentir-se bem em expressar usas opiniões; Haver aceitação e respeito à diferenças de valores e personalidade e aproveitá-las para desenvolver habilidades e competências; Saber negociar e fazer concessões; Saber aprender em conjunto e compartilhar tarefas e responsabilidades; Saber dar e receber feedback; Ser confiante para aceitar novos desafios e superar dificuldades; Deve haver respeito, compromisso e confiança entre os membros; Deve haver flexibilidade, exercitando a troca de papéis quando necessário, inclusive compartilhando a liderança. 3.7 Trabalho em equipe interprofissional: relacionamento e competências13 13 Trecho adaptado da Apostila Específica para concursos - TJ-PE da Educa Psico. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 79 Sabe-se que a competência compreende não apenas as habilidades, mas outros aspectos comportamentais e técnicos. Para Durand (1998 apud MONTEIRO, 2009) o conceito de competência baseia-se em três dimensões: • Conhecimentos (saber o que fazer); • Habilidades (saber como fazer); • Atitudes (querer fazer) Essas dimensões se relacionam e são interdependentes, pois quando o indivíduo se comporta na organização apresentará não só conhecimentos, mas habilidades e atitudes requeridas em cada situação. O conceito de competência é aplicado também às equipes e à organização de forma geral (SILVA; WEIGEL, MILANEZE, 2006). Uma das competências básicas para o trabalho em equipe parece levar em conta o conceito de interdisciplinaridade, ou seja o trabalho de toda a equipe na busca de soluções para as questões do trabalho, respeitando porém o conhecimento específica de cada profissional. Refere-se então à como o trabalho da equipe se organiza e compartilha conceitos, teorias e abordagens para resolver problemas Na figura abaixo podemos verificar os resultados de um estudo que visou analisar as competências necessárias para o trabalho em equipe, em um Programa de Saúde da Família. Figura 1 - Desdobramentos da Competência para Interdisciplinaridade conforme Conhecimentos, Habilidades e Atitudes necessárias aos profissionais que atuam no Programa Saúde da Família. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 80 Fonte: Saupe et. al (2005) O estudo refere-se à uma equipe da área da saúde, mas podemos verificar competências importantes para o bom desempenho da equipe multiprofissional, como pode-se ver na figura: nota-se na categoria “Conhecimento” a importância de cada profissional ter o conhecimento específico da sua área, mas também o conhecimento relativo à área de atuação da equipe e que diz respeito à todos os profissionais; na categoria “Habilidades”, destacam-se os itens saber trabalhar em equipe, saber se www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 81 comunicar adequadamente, identificar e resolver conflitos coletivamente. Por último, na categoria “Atitudes”, observa-se a importância da pluralidade de visões, da tolerância, flexibilidade e do saber falar e ouvir. A equipe multidsiciplinar pode ser muito eficaz caso considere os itens aqui citados e procure desenvolver-se neste sentido. 3.8 Mediação: diagnóstico e gerenciamento de conflitos interpessoais e organizacionais Conflito, segundo Robbins (2005, p. 326), “é um processo que tem início quando uma das partes percebe que a outra parte afeta, ou pode afetar, negativamente, alguma coisa que a primeira considera importante”. O conflito no ambiente organizacional pode ocorrer por incompatibilidade do objetivos, interpretações diferentes de uma determinada situação, desavenças quanto a expectativas de comportamento, etc (ROBBINS, 2005). Segundo Chiavenato (2008), como efeitos negativos de um conflito podem-se destacar: sentimentos de frustração, hostilidade e ansiedade, aumento da pressão social para que as pessoas se conformem com os objetivos da parte envolvida, muita energia gasta no conflito, recusa em não cooperar com a parte com que se está em conflito e prejuízo do relacionamento entre as partes conflitantes. . Dentre as abordagens que conceituam conflitos destacamos, conforme Robbins (2005): Visão tradicional. Essa visão prevaleceu nas décadas de 1930 e 1940. De acordo com essa abordagem, todo conflito é considerado ruim e, por isso, deve ser evitado. Aqui, o conflito é entendidocomo “disfunção resultante de falhas de comunicação, falta de abertura e de confiança entre as pessoas e um fracasso dos administradores em atender às necessidades e às aspirações de seus funcionários”. Visão das relações humanas. De acordo com essa abordagem, o conflito faz parte das relações nos grupos e organizações, são inevitáveis e alguns casos são benéficos ao grupo. Essa visão predominou do final da década de 40 até meados da década de 70 (ROBBINS, 2005). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 82 Visão interacionista. Consiste em uma visão mais recente e valoriza o conflito pois “um grupo harmonioso,, pacífico, tranqüilo e cooperativo está na iminência de tornar- se estático, apático e insensível à necessidade de mudança e inovação” (ROBBINS, 2005, p. 327) Os conflitos ainda podem ser classificados em outros tipos: de tarefa; de relacionamento ou de processo. Os conflitos de tarefa envolvem elementos cognitivos como diferentes pontos de vista e opiniões que se relacionam ao planejamento e execução das atividades do grupo. Os de relacionamento se referem a elementos emocionais e afetivos em atrito, gerando tensão ou raiva no grupo. E por último, os conflitos de processos referem-se à incompatibilidade de perspectivas ou de idéias sobre como as tarefas devem ser realizadas, o que dificultaria a distribuição de funções entre as pessoas da equipe (SILVA; PUENTE-PALACIOS, 2010). “Estudos mostram que os conflitos de relacionamento são quase sempre disfuncionais, pois, conflitos de relacionamento aumentam o choque de personalidades e reduzem a compreensão mútua, impedindo, assim, a realização das tarefas organizacionais. Para que o conflito de processo seja produtivo, seu nível tem de ser baixo, pois, muita discussão sobre quem deve fazer o quê se torna disfuncional quando gera incertezas sobre os papéis de cada um, aumentando o tempo de realização das tarefas. Um nível baixo a moderado de conflito de tarefa tem demonstrado um efeito positivo no desempenho do grupo, por estimular a discussão de ideias que ajudam o trabalho do grupo” (OLIVEIRA, 2006, p. s/p). Os conflitos ainda podem ser considerados internos (quando duas forças divergentes atuam na mesma pessoa); ou podem ocorrer entre indivíduos; entre indivíduos e grupos; entre grupos ou ainda entre organizações. Diagnósticos de conflitos organizacionais são elaborados pelos psicólogos, com base em análises da cultura da organização bem como do clima organizacional. A pesquisa de clima organizacional proporciona a análise da organização com o seu ambiente, e também com o conjunto de condições que caracterizam o estado de satisfação ou insatisfação dos funcionários e das outras pessoas que com eles interagem. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 83 Com base nessas informações, é elaborado um programa de intervenção. Alguns pontos que pode ser trabalhados nesses programas são: trabalho em equipe; habilidades de liderança; habilidades sociais e de comunicação etc. Cabe ao profissional psicólogo ser o mediador, buscando trazer à tona os conflitos latentes e refletindo sobre eles com os empregados. Algumas das técnicas de resolução de conflitos citadas por Oliveira (2006) são: Resolução de problemas. Identificação e resolução do problema através de discussão aberta; Metas superordenadas. As metas são compartilhadas de forma que não possam ser atingidas sem a cooperação entre as partes conflitantes. Expansão de recursos. Caso o conflito seja causado pela escassez de recursos, a expansão deste cria uma solução ganha-ganha e ambas as partes são beneficiadas; Não enfrentamento. Consiste em evitar ou fugir do conflito; Suavização. Minimizar as diferenças entre as partes conflitantes e ressaltar os interesses comuns; Concessão. Cada uma das partes abre mão de algo valioso para ela a fim de se chegar a um acordo; Comando autoritário. A liderança utiliza sua autoridade formal para resolver o conflito, de forma autoritária e, posteriormente, comunica seu desejo às partes envolvidas; Alteração de variáveis humanas. Utilização de técnicas de mudança comportamental, como treinamentos, com o objetivo de mudar atitudes e comportamentos que propiciem conflitos; Alteração de variáveis estruturais. Mudanças na estrutura formal e nos padrões de interação organizacionais que envolvam as partes conflitantes. Isso ocorre por meio de redesenho de atribuições, transferências, etc. O processo de negociação é composto, segundo Robbins (2005), por algumas fases. São elas: www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 84 a preparação e o planejamento da negociação. Deve-se analisar a natureza do conflito, se há histórico de tentativa de negociação, quais são as partes envolvidas nele e quais são as percepções dos envolvidos à respeito do conflito; a definição das regras básicas em questão. Nessa etapa, deve-se analisar quem serão os negociadores; onde a negociação acontecerá; qual é o limite de tempo para a resolução e, no caso de impasse, qual será o procedimento a ser seguido; o esclarecimento e a justificativa. Nesse momento, as partes tendem a reforçar e justificar suas demandas. É uma oportunidade para apresentar e informar as partes sobre as questões envolvidas e as demandas de cada um. Não se faz necessário o confronto; a barganha. É o ponto crucial de todo o processo de negociação, na qual inevitavelmente concessões devem ser feitas, por ambas as partes, na busca de uma solução. o fechamento e a formalização do acordo. Consiste na formalização do acordo e no estabelecimento dos procedimentos a serem seguidos e monitorados a fim de que se cumpra o que foi acordado. Podem ser feitos de várias formas, desde um aperto de mão (em situações informais) até um contrato formal. “Em um conflito intergrupal, as dimensões das intenções dos grupos de conflito podem ser de cooperação onde há a satisfação de desejos do outro grupo ou de assertividade, com a satisfação de desejos do próprio grupo”.(GLANZMANN, 2009, s/p) Para se administrar relações entre grupos e conflitos, deve haver um planejamento com metas específicas e bem definidas, assim como a delimitação da área de responsabilidade de cada indivíduo. É necessário também, que haja profissionais especializados, falando a linguagem de ambos na negociação: “Nesse caso, podem entrar em ação as famosas forças-tarefas, ou seja, grupos temporários para se resolver problemas (apagar incêndio)”(GLANZMANN, 2009, s/p). “Quando todos esses mecanismos de coordenação prévios não funcionam mais, surgem equipes permanentes integrando departamentos ou ainda departamentos permanentes que administram conflitos em longo prazo” (GLANZMANN, 2009, s/p). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 85 Assim, podemos afirmar que conflitos existem e sempre existirão em todos os grupos. A maneira pela qual se conduzirá e se observará um conflito é fundamental para que ele seja funcional ou disfuncional. Conflitos organizacionais são saudáveis e devem ser estimulados e controladosem níveis desejáveis, para que haja o surgimento de novas ideias, o estímulo de motivação e o aumento da produtividade” (GLANZMANN, 2009, s/p). 3.9 Liderança e Poder nas organizações O estudo da liderança é necessário para entender o próprio desenvolvimento da humanidade. Liderar, para alguns teóricos, é considerado como a arte de educar, orientar e estimular pessoas a persistirem em busca de melhores resultados naquilo que estiverem realizando, independentemente das circunstâncias (MACÊDO et al, 2005). Robbins (2005, p. 258) traz que a liderança é “a capacidade de influenciar um grupo para alcançar metas”. A liderança, muitas vezes, é confundida ou se funde em relação a papéis de poder desempenhados nas organizações. Por isso, precisamos entender que o líder possui uma autoridade que nem sempre é formal, ao contrário do chefe, que ocupa um cargo que, na estrutura hierárquica, dá-lhe poder. O poder que o líder exerce sobre seus liderados pode ser qualificado de cinco formas (MACÊDO et al, 2005): Poder legítimo. Provém do cargo formal que o líder ocupa na organização. Quando esse poder provém de um determinado prestígio que o líder possui, então, é chamado de poder informal; Poder sobre recompensas. É embasado na concessão de prêmios materiais e sociais, oferecidos à partir de critérios específicos, que influenciam de forma positiva as atitudes das pessoas e dos grupos; Poder de coerção. Provém do manejo de punições para comportamentos considerados indesejáveis; www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 86 Poder de referência. Provém de algumas características pessoais que são admiradas pelas pessoas; Poder de competência. Baseia-se em conhecimentos e habilidades que o líder apresenta e que são valorizados pelo grupo. Ser líder requer diversas habilidades que podem ser desenvolvidas; por exemplo, abertura para que seus liderados também participem das decisões; ouvir atentamente e expressar satisfação quanto aos esforços das pessoas; preparar as pessoas para desenvolverem mais e melhor suas atividades; ser versátil, intuitivo; ter a visão do todo na organização. Stelnmann e Caldeira (2003) abordam, em seu artigo, quatro teorias sobre liderança: Teoria dos Traços; Teoria do Comportamento; Teoria das Trocas; Teoria do Enfoque Situacional. Seguem, abaixo, as características principais de cada uma delas: a) Teoria dos Traços. Aqui, o estilo de liderança é estudado como sendo decorrente da personalidade do indivíduo, ou seja, não se pensa em uma relação do estilo de liderança de certa pessoa com o meio no qual ela está inserida. b) Teoria do Comportamento. De acordo com esta teoria, ser líder implica em se comportar de determinada forma, sendo que, tal maneira de se comportar, pode ser aprendida no decorrer da vida do sujeito. c) Teoria das Trocas. Segundo esta teoria, a liderança é definida na relação líder-subordinado, apontando que o subordinado tem expectativas sobre o comportamento do líder e, é esta relação (expectativas-ações do líder) que define liderança. d) Teoria do Enfoque Situacional. Nesta teoria, analisam-se os contextos internos e externos da organização para compreensão do tipo de liderança. O líder pode ter diferentes papéis, dos quais se pode citar: papel de educador, político, facilitador, não controlador, fiscalizador, autoritário. Ele deve coordenar sua equipe com as demais da organização e garantir a autonomia de seus funcionários. Krauz (1991) apud Stelnmann e Caldeira (2003) afirma que a liderança pode ser conseguida de www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 87 duas maneiras. A primeira seria a “autoridade delegada”, na qual a autoridade é atribuída ao sujeito independentemente da escolha do grupo que ele irá liderar. Também é possível que aconteça a “autoridade natural”, a qual acontece em decorrência da própria dinâmica do grupo. Durante muito tempo a liderança foi exercida verticalmente, situação na qual os líderes tomavam as decisões e os funcionários dos níveis mais baixos apenas as executavam. Hoje, nota-se uma tendência das lideranças acontecerem horizontalmente, possibilitando a participação efetiva dos colaboradores nas tomadas de decisão. Apesar dessa tendência para relações horizontais, o que se encontra muito hoje são níveis intermediários entre as lideranças verticais e horizontais. Seguem alguns tipos de liderança: a) Autoritária. Os funcionários são submissos, sem voz, acatando imposições passivamente; b) Transição da liderança Autoritária para a Democrática. Os funcionários, que eram submissos, começam a impor alguma resistência sobre o manipulador; c) Democrática. Existe diálogo entre os funcionários e o administrativo; relação equilibrada; d) Laissez-faire. Neste caso, não há liderança, pois o líder se abstém dessa função. Não existe o melhor estilo, pois cada um desses tipos de liderança vai ter consequências positivas e negativas para a organização. Assim, dependendo do objetivo que se deseja alcançar, determinada forma de liderança será melhor que as demais. Poder nas organizações Segundo Ferreira, Vilamaior e Gomes (2005), Abraham Kaplan conceitua poder como “a habilidade de uma pessoa ou grupo de influenciar o comportamento alheio”. Robbins (2005, p. 302) conceitua poder como “a capacidade que A tem de influenciar o comportamento de B, de maneira que B aja de acordo com a vontade de A”. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 88 Pensando nesse conceito percebe-se a importância de estudá-lo dentre das organizações, ou melhor, nas relações que se estabelece na organização. Robbins (2005) cita algumas fontes de poder como: 1) Poder baseado na recompensa; 2) Poder baseado na coerção; 3) Poder baseado na legitimidade da posição que o indivíduo ocupa na organização; 4) Poder baseado na referência (identificação com características desejáveis); 5) Poder de especialista ou de informação, que é baseado no conhecimento que a pessoa tem. Além desses pilares, o autor acima referido também aponta três fontes de poder citadas por Galbraith (1983) apud Borenstein (1996), a saber: 1) Personalidade; 2) Propriedade (riqueza); 3) Organização. A origem do poder que certo indivíduo ou grupo exerce sobre outro é discutida por muitos autores, sendo que não há consenso sobre a nomenclatura usada. Contudo, apesar dessa falta de consenso, é importante analisar em que está baseado o poder exercido nas organizações. Morgan (1996) apud Ferreira; Vilamaior; Gomes (2005) afirma que o poder está relacionado à dependência que o influenciado tem do influenciador e, por isso, cada caso deveria ser analisado individualmente. Cada forma de poder, ou seja, o poder baseado em determinado pilar, assim como vindo de determinada fonte irá influenciar as ações que acontecem dentro das organizações, o clima organizacional (FERREIRA; VILAMAIOR; GOMES, 2005). Robbins (2002) apud Ferreira; Vilamaior; Gomes (2005) apresenta táticas do poder, que consistem em: 1) Razão. Convencimento do outro através de fatos; uso de argumentos racionais; 2) Amabilidade. Ser amável com o outro para convencê-lo;www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 89 3) Coalizão. Trata-se de convencer o outro, através da busca de apoio de outros membros da organização; 4) Afirmação. Através de pedidos e ordens diretas feitos para que o outro faça aquilo que é desejado por aquele que exerce o poder; 5) Autoridade superior. É semelhante à coalizão; contudo, o apoio é buscado entre pessoas de níveis altos da hierarquia da organização, e; 6) Sanções. Neste caso, recompensas e punições são usadas como promessas ou ameaças. De acordo com o autor acima referido, os funcionários na tentativa de obter ganhos (salariais, promoções etc.) na organização acabam por organizar “nichos” para exercer influência. Quando há a presença desses nichos e estes acabam por realizar ações concretas, afirma-se que os funcionários estão fazendo política. Este comportamento político influencia fortemente as relações dentro das organizações, mesmo não sendo explícito em muitos casos. Cada forma de exercer o poder, ou seja, a maneira como se dão as relações de poder na organização, trará consequências (positivas e negativas) para as mesmas. Gestores e lideranças devem estar atentos a essas consequências. Ferreira, Vilamaior e Gomes (2005) apontam duas formas de práticas administrativas ligadas ao poder: autocracia coercitiva e democracia participativa. Na primeira forma, o poder está concentrado nas mãos do chefe; é ele quem toma as decisões. Já na democracia participativa, há um diálogo entre os membros das organizações e, com isso, os colaboradores são mais comprometidos. Há, nesse caso, o uso do empowerment, que significa “dar poder aos colaboradores”. Na democracia participativa há uma maior motivação dos colaboradores. Empowerment É uma filosofia utilizada há muitos anos nos EUA e veio para o Brasil com o surgimento das Políticas de Qualidade Total, isto já na década de 1990. O termo não www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 90 possui correlato em português, mas é conhecido como “dar poder”, ou mais usualmente, como energização, termo usado como seu sinônimo. Este conceito foi criado na área da psicologia industrial com o intuito de motivar os indivíduos no trabalho, colocando-os em destaque, trazendo a eles a responsabilidade pelo trabalho que executam e estimulando-os na resolução de problemas. Byham (1992) apud Bueno (2002) concebe que a motivação vem da ideia de energização. Para ele, as pessoas ficam motivadas ao se aperfeiçoarem diariamente, através da aplicação da energia criativa dos colaboradores, isto é, energizando-as. A energia tem o caráter de passar a ser transmitida de pessoa a pessoa, existindo dois tipos de energia: a Zapp! (ânimo, persistência, poder) ou a Sapp¡ (abatimento, pessimismo, prostração). Para a realização de energização, é necessário que ocorra uma direção, a disposição de recursos, de conhecimentos e apoio. Esses elementos devem estar presentes tanto no nível de energização individual quanto no das equipes. Deve-se energizar os funcionários a partir do nível individual, quando este nível de energia estiver alto; a partir deste estágio, é que a energização deve ir para o nível das equipes (GROHMANN, 1999). Essa energização individual só pode ser atingida até certo nível, por isso a necessidade de passá-la para o nível de equipes. A partir de então, as equipes semiautônomas devem ser “zappeadas”. Direção significa “o que fazer” para o funcionário. Saber isto é de extrema importância nesse processo. O estabelecimento de metas, tanto organizacionais como em nível individual, deve ser realizado. Recursos são os materiais, instrumentos, estruturas para que as tarefas sejam desempenhadas. Os conhecimentos devem ser verificados para que as pessoas tenham informação para a realização daquilo que lhes foi designado. O apoio é um dos fatores que afeta a motivação das pessoas e deve ser bastante destacado, pois pode ser crucial para o sucesso da energização. Três princípios são www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 91 destacados por Grohmann (1999): manter a estima do empregado; ouvir e responder com empatia; e pedir ajuda na solução de problemas. Desta forma, a energização é um conceito que traz à organização uma autonomia de seus funcionários. Os trabalhadores, assim, conseguem passar a tomar decisões por si mesmos e a ter o controle de suas tarefas, conseguindo, desse modo, que a figura de chefe desapareça e surja a do facilitador (BUENO, 2002). 4 – UNIDADE IV - GESTÃO DO TRABALHO 4.1 Condições e organização do trabalho: trabalho prescrito, ambiente físico, processos de trabalho e relações sócio-profissionais. 4.1.1 Trabalho prescrito e a função da descrição de cargos14 O conceito de ‘trabalho prescrito’ (ou tarefa) refere-se ao que é esperado no âmbito de um processo de trabalho específico, com suas singularidades locais. O ‘trabalho prescrito’ é vinculado, de um lado, a regras e objetivos fixados pela organização do trabalho e, de outro, às condições dadas. Pode-se dizer, de forma sucinta, que indica aquilo que ‘se deve fazer’ em um determinado processo de trabalho (BRITO, s/d). Desta forma, é importante conhecer também o processo de descrição de cargos, e o conceito de cargo. Este é o conjunto das atividades e funções que o funcionário deve exercer na empresa e a sua posição na estrutura organizacional. No cargo, estão presentes os atributos como: tarefas e atribuições de quem ocupa o cargo; a posição no organograma; quem é superior a quem em termos de atribuições e responsabilidades na organização. 14 Parte dste subitem foi extraído da apostila temática Psicologia Organizacional, elaborada por Rafael Santos Vaz de Lima, Psicólogo formado pela Unesp e Pós-Graduado em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 92 A descrição de cargo tem a função de mostrar o conteúdo do cargo. Chiavenato (2008) traz que a descrição de cargo enumera as tarefas e atribuições do cargo (o que o ocupante do cargo faz), com que periodicidade (quando ele faz), quais as maneiras de se fazer (como faz) e com quais objetivos (porque faz). 4.1.2 Ambiente Físico A Higiene do Trabalho ocupa-se das condições ambientais de trabalho prioritariamente, além de atuar também sobre as condições de tempo (jornada, períodos de descanso,m etc) e as condições sociais. As condições ambientais de trabalhos, segundo Chiavenato (2008, p. 350), refere- se às “circunstâncias físicas que envolvem o empregado enquanto ocupante de um cargo na organização. É o ambiente físico que envolve o empregado, enquanto ele desempenha um cargo”. Para o autor, são três os itens envolvidos nas condições ambientais: a) Iluminação: refere-se à luz que incide no ponto onde o empregado desempenha seu cargo e para estar adequada deve ser suficiente e adequada para a tarefa a ser desenvolvida; ser constante e bem distribuída. b) Ruído: refere-se a um som indesejável (barulho). No ambiente de trabalho, busca-se controlar os ruídos, eliminando-os ou reduzindo-os. Os métodos para controle de ruídos podem ser cinco: eliminação do ruído, separaçãodo empregado da fonte de onde é emitido o ruído, encerramento da fonte de ruídos dentro de paredes anti-ruídos, tratamento acústico dos tetos, paredes e solos, equipamentos de proteção individual (EPIs). c) Condições atmosféricas: temperatura e umidade. Em alguns cargos a temperatura a qual o empregado se submete podem ser bem altas, como próximos a fornos de cerâmica, ou muito baixas, como em frigoríficos. Nestes casos, os empregados precisam vestir roupas especiais para controlar a temperatura. Também quanto à umidade, dependendo do cargo, o empregado pode estar submetido a um ambiente de alta umidade ou em um ambiente com baixíssima umidade. Nesses casos extremos, tanto de temperatura quanto de www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 93 umidade, a insalubridade é a principal característica dos ambientes de trabalho. 4.1.3 Processos de Trabalho Cunha e Souza (2005), definem Processo de Trabalho como um “conjunto de atividades que devem ser executadas para produzir pelo menos um resultado identificável e utilizável por um ente denominado cliente do processo de trabalho”. Segundo os autores, o processo de trabalho possui entradas, chamadas de acionamento do processo de trabalho (aquilo que ativa o processo), e saídas, chamadas de resultado do processo de trabalho (o produto final do processo de trabalho). Cada colaborador possuirá processos de trabalho, com entradas (necessidades) e saídas (resultados) que contribuirá para o produto final, juntamente com sua equipe na organização. 4.1.4 Relações Sócio-Profissionais Para Veras e Ferreira (2006), as relações sócio-profissionais são as relações estabelecidas entre as pessoas no trabalho e elas são tão importantes para o desempenho do profissional quanto o suporte oferecido pela organização e a política de gestão presente Ou seja, parece que a qualidade das relações sócio- profissionais estão relacionados aos demais fatores relacionados à produção de bens e serviços: as condições de trabalho e a organização do trabalho. Para compreender melhor as relações sócio-profissionais, temos a definição apresentada por Veras e Ferreira (2006, p. 137): Relações Socioprofissionais de Trabalho (RST): elementos interacionais que expressam as relações profissionais de trabalho. São integrantes dessa dimensão: (a) as interações hierárquicas; (b) as interações coletivas entre membros da equipe de trabalho e membros de outros grupos; e (c) as interações externas com usuários, consumidores, fornecedores. 4.2 Carga de trabalho e custo humano: atividade, tarefa e condições de trabalho O custo humano no trabalho corresponde ao custo despendido pelos trabalhadores em diversas áreas: física, cognitiva e afetiva diante das relações que ocorrem no contexto de produção. Vamos explicar cada uma dessas esferas, relativas ao custo humano no trabalho: www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 94 Exigências físicas: referem-se o custo relacionado ao corpo, em questão de dispêndio fisiológico e biomecânico que são expressos em posturas, gestos, deslocamentos e uso da força física; Exigências cognitivas: relacionam-se ao custo cognitivo, referindo-se ao dispêndio intelectual expresso em forma de aprendizagem necessária ao trabalho, resolução de problemas e tomadas de decisões; Exigências afetivas: relacionam-se ao custo afetivo referente ao dispêndio emocional expresso em reações afetivas, de sentimentos e de estado de humor (VERAS; FERREIRA, 2006). O custo no trabalho tem estreita relação com a atividade que o indivíduo executa e com as condições de trabalho como grau insalubridade e periculosidade e benefícios oferecidos pela organização como remuneração, práticas de gestão, relacionamento com a equipe, etc. 4.3 Análise de tarefa e desempenho do trabalho15 Seguindo a sequência dos processos, após a elaboração da descrição e análise de cargo, há outro processo, o da Avaliação de Desempenho. Esta consiste na avaliação e análise do desempenho de cada indivíduo na organização, além de permitir que o potencial de desenvolvimento do indivíduo seja mensurado. Os objetivos fundamentais da Avaliação de Desempenho, segundo Chiavenato (2008, p. 264), são: “1) Permitir condições de medição do potencial humano no sentido de determinar sua plena aplicação; 2) Permitir o tratamento dos recursos humanos como importante vantagem competitiva da organização cuja produtividade pode ser desenvolvida, dependendo, obviamente, da forma de administração. 3) Fornecer oportunidades de crescimento e condições de efetiva participação a todos os membros da organização, tendo em vista, de um lado, os objetivos organizacionais e, de outro, os objetivos individuais”.”. 15 Este subitem foi extraído da apostila temática Psicologia Organizacional, elaborada por Rafael Santos Vaz de Lima, Psicólogo formado pela Unesp e Pós-Graduado em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 95 As avaliações de desempenho podem ser executadas por diversos funcionários na organização. O desempenho pode ser avaliado pelo superior imediato, sendo esta a maneira mais comum de se fazer este tipo de avaliação. Colegas são uma boa alternativa, pelo fato de estarem próximos das tarefas executadas e, também, por serem várias as avaliações que podemos ter e, assim, conseguimos uma média das avaliações. A autoavaliação ajuda a diminuir as defesas do funcionário quanto à avaliação em si, porém, esse tipo de avaliação deve ser confrontado com outros para se chegar a um consenso. Na avaliação feita pelos subordinados imediatos, o modelo funciona de maneira a trazer a realidade do trabalho executado pelo funcionário, inclusive em seu aspecto gerencial; entretanto, o que pode acontecer é o receio do subordinado responder à avaliação de maneira imparcial, pensando sofrer alguma represália. Portanto, nesse método, o anonimato é essencial (ROBBINS, 2005). Temos como métodos de Avaliação de Desempenho: relatórios escritos, incidentes críticos, escala gráfica de mensuração, escala de mensuração com âncora comportamental, comparações multipessoais. Relatórios escritos: este método é um dos mais simples. Um relatório escrito é elaborado com características do colaborador, por exemplo, os pontos fortes, os fracos e como este colaborador pode melhorar seu desempenho. Esse método depende, intrinsecamente, daquele que elabora este relatório. Incidentes críticos: neste modo, são avaliados os comportamentos específicos e críticos do colaborador, e não traços de personalidade. Esses comportamentos analisados são aqueles relacionados com a eficácia e ineficácia no desenvolvimento das funções. O resultado fornece um conjunto rico de exemplos para mostrar ao funcionário os comportamentos desejáveis e aqueles que precisam ser melhorados. Escala gráfica de mensuração: é um método comum e antigo. Esse método funciona da seguinte maneira: primeiro, uma série de fatores relacionados ao desempenho é listada (qualidade e quantidade do trabalho, profundidade do conhecimento, cooperação, lealdade, comparecimento, honestidade e iniciativa), possibilitando que o avaliador classifique o colaborador em escala incremental, graduadawww.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 96 de 1 (pouco conhecimento das atribuições) a 5 (conhecimento profundo das atribuições). É frequentemente usado por ser rápido na administração e elaboração e permitir análises e comparações quantitativas. Escala de mensuração com âncora comportamental: é uma combinação dos principais elementos dos incidentes críticos e das escalas gráficas de mensuração. As notas são dadas pelo avaliador com base em diversos itens e a pontuação reflete o comportamento real (específico ao trabalho, observável e mensurável) e não descrições ou traços gerais como nos outros métodos. Esses resultados são transferidos para diversas dimensões, cada uma possuindo níveis de desempenho, gerando como produto final, as descrições comportamentais, por exemplo: antecipa, procrastina, cumpre ordens, enfrenta situações de emergência, entre outros. Comparações multipessoais: baseiam-se na comparação de desempenho de colaboradores quando pareada com outras pessoas, sendo um instrumento de medição mais relativo que absoluto. As mais comuns são as classificações por grupo em que o avaliador insere o colaborador em determinada faixa de um grupo, classificando-o na faixa dos 5 primeiros, 5 últimos etc. e as classificações individuais, sendo este um método que não permite o empate, por se tratar de uma classificação clara, que vai do melhor desempenho ao pior. No processo de avaliação de desempenho, algumas distorções são presumíveis: a) Leniência: tendência que algumas pessoas têm de abrandar o julgamento que fazem de alguns avaliados. b) Efeito de halo: tendência de nivelar o julgamento de uma pessoa por cima ou por baixo. Leva em conta a visão que o avaliador tem das habilidades do avaliado, por exemplo, se o avaliador julga que alguns comportamentos do avaliado são ruins, é provável que este candidato receba notas baixas em todos os quesitos avaliados. c) Falsidade: distorção ou ocultação proposital de dados sobre o julgamento do avaliado, objetivando favorecê-lo ou prejudicá-lo. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 97 d) Obstáculos políticos: semelhantes à falsidade. Esses entraves estão relacionados à distorção das informações por interesses políticos, na busca da manutenção de uma boa imagem própria ou do setor, por exemplo. e) Obstáculos interpessoais: existem quando o avaliador é influenciado por aspectos emocionais, tais como, simpatias e antipatias, não conseguindo, assim, elaborar um julgamento imparcial do colaborador. f) Diferentes graus de rigor: existem quando alguns avaliadores usam de mais rigor que outros, gerando avaliações discrepantes, mesmo quando se trata do mesmo colaborador. Um dos modelos de avaliação que tem sido muito eficaz nas organizações é o da Avaliação 360º, em que o funcionário é avaliado por todos que o rodeiam, seus pares, chefia, subordinados e clientes. 4.3.1 Avaliação 360° A avaliação 360º permite ao trabalhador receber o feedback sobre seu desempenho de todos aqueles com os quais tem contato no cotidiano do seu trabalho como colegas, chefe, subordinados, clientes e fornecedores (ROBBINS, 2005). Ao utilizar diversas fontes de avaliação do desempenho do trabalhador, diminui- se a probabilidade de haver julgamento enviesado (tanto negativo quanto positivo) e pode-se ter uma visão ampla da atuação do colaborador nos diversos setores da organização No entanto, deve-se tomar alguns cuidados como treinar os avaliadores a fazerem críticas construtivas e, no caso de organizações que permitem ao colaborador escolher as pessoas que farão sua avaliação, poderão enviesar os resultados (Robbins (2005). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 98 4.4 Gestão de comportamento nas organizações16 4.4.1 Gestão de Desempenho: Conceito, Objetivos, Métodos de Avaliação A avaliação deve ser vista como um meio e não como finalidade, na busca pela produtividade e qualidade. Os objetivos da Avaliação/Gestão de Desempenho, segundo Chiavenato (2008) são: gerar condições para perceber o potencial humano e desenvolvê-lo para sua plena aplicação; possibilitar que os recursos humanos sejam percebidos como recursos básicos da organização e, a partir disso, trabalhar a administração da melhor maneira, a fim de se obter maior produtividade e alinhar os interesses do funcionário aos da organização. 4.4.2 Gestão do Conhecimento Segundo Chiavenato (2008), o conhecimento tem sido bastante valorizado nas organizações, sendo considerado um ativo corporativo, faz-se importante buscar meio de gerir o conhecimento Nas organizações, o conhecimento pode ser encontrado embutido em documentos, processos e práticas da organização. “A Gestão do Conhecimento refere-se à criação, identificação, integração e recuperação, compartilhamento e utilização do conhecimento dentro da empresa. Está voltada para a criação e organização de fluxos de informação dentro e entre os vários níveis organizacionais, para gerar, incrementar, desenvolver e partilhar o conhecimento dentro da organização, sobretudo para incentivar trocas espontâneas de conhecimento entre as pessoas” (CHIAVENATO, 2008, p. 425). Muitos autores propuseram modelos de Gestão do Conhecimento. Sveiby (1998), Stewart (1998) e Edvinsson (1998), os pioneiros da Gestão do Conhecimento, eram empresários e jornalistas. Para estes autores, o valor de empresas intensivas ─ nas quais o Conhecimento sobeja ─ deixou de estar relacionado aos bens tangíveis, como prédios e máquinas, passando a ser cotado a partir de seus ativos intangíveis. Todos os três 16 Parte extraída da Apostila Temática de Psicologia Organizacional, elaborada por Rafael Santos Vaz de Lima, psicólogo formado pela Unesp e Pós-Graduado em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 99 propõem um modelo de gestão para as empresas, formado por três componentes básicos, como dizem Cavalcanti e Gomes (2000, p. 56): “O primeiro deles, Sveiby nomeia estrutura interna; Stewart chama de capital estrutural; e Edvinsonn, de capital organizacional. Eles estão se referindo às patentes, conceitos e modelos administrativos e informatizados de uma organização. O segundo capital é o que Sveiby chama de competências, enquanto que Stewart e Edvinsonn chamam de capital humano. Este capital tem a ver com a capacidade individual de atuação de cada integrante da empresa. Nesta categoria, estão incluídas as habilidades, a educação formal, a experiência e os valores de um determinado indivíduo. Finalmente, o terceiro capital é chamado de estrutura externa por Sveiby e, de capital de clientes por Stewart e Edvinsonn. Nesse último capital, inscrevem-se os clientes, parceiros, fornecedores e a imagem que a empresa tem junto a eles e ao mercado”. Para o autor citado, todos estes modelos possuem um ponto em comum: para aquelas pessoas e organizações que têm como objetivo apresentarem competitividade no mundo globalizado, monitorar e gerir a informação e o conhecimento torna-se essencial. 4.4.3 Gestão por competências: objetivos estratégicos, definição de competências, avaliação de desempenhopor competências, gestão do desempenho, feedback. O modelo das competências profissionais nas organizações começa a ser discutido na década de 80. Neste modelo não importa somente os conhecimento técnicos, aprendidos em cursos formais, mas valoriza-se também a capacidade de mobilizar estes conhecimento para resolver problemas e lidar com imprevistos no trabalho. O modelo das competências faz com que as características individuais dos trabalhadores sejam vistas e valorizadas. (DELUIZ, s/d). O modelo de competências irá implicar em novas formas de gestão dos recursos humanos como recrutamento, critérios para mobilidade interna, modificação de sistemas de remuneração, dentre outras. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 100 O modelo das competências traz tanto vantagens quanto desvantagens para o trabalhador. Dentre as vantagens, pode-se dizer que há valorização do trabalho com caráter mais intelectualizado e menos prescritivo; exigências de qualificação do trabalhador, o que faz com que seja necessário elevar o nível de escolaridade; valorização das competências apresentadas por cada trabalhador; maior polivalência do trabalhador; possibilidade de construir competências coletivas por meio do trabalho em equipe, etc (DELUIZ, s/d). O autor também destaca os pontos negativos do modelo de competências para os trabalhadores: busca incansável de se desenvolver constantemente; exacerbado nível de estresse devido ao medo da perda do emprego, da intensificação da jornada de trabalho, do aumento de responsabilidades e de ambientes de trabalho muito competitivos e individualistas. Competências são conjuntos de Conhecimentos, Habilidades e Atitudes (CHA) que, quando integrados e utilizados estrategicamente pela pessoa, permitem que ela atinja com sucesso os resultados que deseja. A partir dos anos 1980, a temática da competência começou a surgir nas empresas e pesquisadores começaram a se interessar por ela. Segundo Neves (2007), um desses pesquisadores foi Philippe Zarifian. Ele elaborou um conceito de competência que o relacionava ao conceito de qualificação,, isto é, referia-se à capacidade da pessoa em ter iniciativa, antecipar-se às atividades prescritas e ir além, ser capaz de se adaptar a novas situações no trabalho, cumprir com seus deveres e regras organizacionais e ser reconhecida por isto. A definição de Philippe Zarifian sobre competência centra-se na mudança do comportamento social dos seres humanos que se relaciona às atividades no trabalho e à sua organização (NEVES, 2007). “Segundo este modelo, a gestão de competências deve ser vista como um processo circular, envolvendo os diversos níveis da organização, desde o coorporativo até o individual, passando pelo divisional e o grupal” (NEVES, 2007 apud BRANDÃO E GUIMARÃES, 2001, p. 11). Para Neves (2007), é essencial que a gestão de competências esteja alinhada com a estratégia organizacional. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 101 Para Minarelli (1995, p. 52 apud NEVES, 2007), “competência é sinônimo de capacitação profissional; com ela, você compete no mercado, pois compreende os conhecimentos adquiridos, as habilidades físicas e mentais e a experiência”. Segundo Pereira et al (2006), uma das grandes estratégias que tem sido utilizada pelas grandes organizações para atingir o cliente final é a de pontuar e desenvolver competências organizacionais e individuais. Sabe-se que a competência compreende não apenas as habilidades, mas outros aspectos comportamentais e técnicos. Para Durand (1998 apud MONTEIRO, 2009) o conceito de competência baseia-se em três dimensões: • Conhecimentos (saber o que fazer); • Habilidades (saber como fazer); • Atitudes (querer fazer) Essas dimensões são se relacionam e são interdependentes, pois quando o indivíduo se comporta na organização apresentará não só conhecimentos, mas habilidades e atitudes requeridas em cada situação. O conceito de competência é aplicado também às equipes e à organização de forma geral (SILVA; WEIGEL, MILANEZE, 2006). Para Gramigna (2007, p. 25), ao se realizar a Gestão por Competência “é um programa que se instala por meio de blocos de intervenção que sucedem de forma simultânea ou passo a passo”. O primeiro bloco é chamado pela autora de sensibilização e consiste em obter o envolvimento das pessoas-chave da administração da organização. O segundo bloco é chamado de definição de perfis e consiste as mapear as competências essências e básicas necessárias para cada grupo, delineando os perfis. O terceiro bloco é chamado de avaliação de potencial e formação de banco de talentos e nesta etapa busca-se, por meio de entrevistas e outros instrumentos, formar um banco de identificação de pessoas com o perfil desejado pela organização. O quarto bloco é chamado de capacitação e consiste no treinamento e desenvolvimento dos www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 102 trabalhadores, de acordo com as competências mapeadas e com o nível individual de desenvolvimento. E por último, o quinto bloco é a gestão do desempenho consiste na avaliação do desempenho individual ou grupal, a fim de avaliar as competências instaladas, fechando o ciclo deste modelo. A Gestão por Competências é uma nova tendência da gestão de pessoas. Esta nova forma de gestão, na prática, desenvolve as seguintes atividades, como CITAM Fleury e Fleury (2010, p. 79): “a captação: na procura das competências necessárias às estratégias de negócio, as empresas buscam por pessoas que tenham um nível educacional elevado; os programas de trainees, são considerados fundamentais para atrair novos talentos [...]; o desenvolvimento: essa é considerada a peça-chave das práticas de gestão: o desenvolvimento, por meio de práticas diversas, das competências essenciais; [...] a remuneração: observa-se a adoção de novas formas de remuneração: participação nos resultados, remuneração variável e mesmo remuneração, tomando como base as competências desenvolvidas;”. Segundo Calvosa et al (2005), ao se considerar a competência no plano das organizações, faz-se necessário levar em conta dois aspectos: a) verificar qual é o âmbito de atuação da organização (local, regional, nacional ou global); e b) qual a visão estratégica. Para os autores, pode-se perceber a diferença entre uma competência essencial de uma habilidade avaliando o valor percebido pelos clientes. As competências essenciais são, segundo Fleury e Fleury (2010, p. 33), “aquelas que obedecem a três critérios: oferecem reais benefícios aos consumidores, são difíceis de imitar e dão acesso www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 103 diferentes mercados” um grupo de habilidades que permitem às empresas entregar um benefício fundamental aos seus clientes. Já a competência básica, para Neves (2007), é constituída por todas as capacidades necessárias à existência da organização, porém, estas não são suficientes para dar competitividade à organização. 4.4.3.1 Definir e Desenvolver Competências Para Milanese et al (2006),as competências devem ser definidas e desenvolvidas deacordo com a estratégia da empresa, seus objetivos e as exigências do mercado. É importante definir também, de que forma a organização deseja se diferenciar no mercado pois a partir disto novas competências podem ser requeridas e desenvolvidas. Após a definição da estratégia é necessário estabelecer quais são os resultados que se deseja alcançar e que podem se referir ao financeiro, aos clientes de mercado e aos processos internos. Ao final, é importante estabelecer e o que é preciso aprender para atingir estes objetivos. Segundo os autores citados, para desenvolver competências pode-se elaborar um programa mais estruturado e formal ou também se pode formar pequenos grupos e desenvolver o programa de modo mais informal. O processo de gestão de competências não exige necessariamente programas de capacitação, mas sempre haverá um processo aprendizado embutido nele. A organização precisará analisar se o conhecimento necessário se encontra já desenvolvido dentro dela, ainda que escondido, ou aplicado apenas a um setor, ou se deverá buscá-lo no mercado ou ainda desenvolver o conhecimento com sua equipe. 4.4.3.2 Indicadores de Competências Os conhecimentos e competências necessárias para a organização podem ser identificadas e avaliadas se encontram-se presente ou se precisam ser desenvolvidas. A partir disso, podem ser identificados os “gaps”, que segundo Cardoso et al (2002, p. 03) www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 104 “representam desnivelamentos entre oferta e demanda de conhecimento e podem indicar falhas na gestão do conhecimento vigente na organização”. Segundo os autores, existem oito indicadores que podem ser utilizados como ferramenta organizacional para avaliação e desenvolvimento da gestão de competência. Esses indicadores fornecendo informações para a elaboração de programas de treinamento; para verificar a possibilidade de transferências ou promoções de pessoal; para efetuar novas contratações; para avaliar a forma de remuneração; para efetuar demissões de pessoal, dentre outros. Esses indicadores são divididos em dois grupos da seguinte forma: Indicadores com Foco na Unidade Organizacional Nesse grupo pode-se verificar quatro indicadores: “a necessidade; o excesso aderente; o excesso extra de conhecimento; e o percentual de cobertura da árvore de conhecimento necessário” (CARDOSO et al, 2002, p. 04). Esses indicadores permitem avaliar se existem setores que se encontram aquém das necessidades de conhecimento para executar suas funções e então corrigir este problema. Indicadores com Foco no Conhecimento Este grupo muda o foco das unidades organizacionais para o conhecimento, como o próprio nome já diz e engloba também quatro indicadores: das necessidade dos conhecimentos nos processos; do grau de cobertura dos conhecimento; do grau de disponibilidade dos conhecimentos e grau de balanceamento dos conhecimentos. Conhecer os indicadores de competência por si só não garante o desenvolvimento organizacional, a vantagem competitiva está alicerçada na estratégia de gerir os recursos. O conhecimento é componente único, mutável e exclusivo a cada organização e por isto a gestão desse recurso pode de ser importante à orientação da vantagem competitiva (CARDOSO et al, 2002). 4.4.3.3 Avaliação de Desempenho com Foco em Competências www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 105 Segundo Rabaglio (2006), é a partir do mapeamento das competências necessárias ao desenvolvimento da organização e das competências necessárias ao ocupante do cargo que poderá ser realizada a avaliação de desempenho por competências. Devem ser descritas as competências do cargo, e indicadores, por meio de afirmações, como o exemplo a seguir: Competência: Resistência à frustração Indicador 1: Nunca desiste de um projeto por mais difícil que lhe pareça. Indicador 2: Quando recebe um não como resposta, refaz seu planejamento sem desistir do que pretende. Como descrito acima, todas as competências e seus indicadores devem ser elencados. Rabaglio (2006) propõe a ferramenta que chama de “Medidor de Competências”, para realizar a avaliação em que, após descrever as competências, deve- se atribuir uma nota de 1 a 5, em cada indicador, seguindo os seguintes critérios: 5 – Excelente: dê o grau 5 se você achar forte evidência da competência investigada. 4 – Bom: dê o grau 4 se você achar boa evidência da competência investigada. 3 – Médio: dê o grau 3 se você achar média evidência da competência investigada. 2 – Insatisfatório: dê o grau 2 se você achar pouca evidência da competência investigada. 1 – Inaceitável: dê o grau 1 se você achar nenhuma evidência da competência investigada. Depois de serem dadas as notas para cada indicador de competência, deve-se verificar o número de indicadores por competência, somar todas as notas atribuídas aos indicadores daquela competência e dividir pelo número de indicadores. Veja o exemplo: Competência: Resistência à Frustração No. de notas (2): 5 + 3 Soma das notas: 8 Soma das notas dividida pelo número de indicadores desta competência: 8 : 2 = 4 Avaliação média da competência Resistência a Frustração = 4 E desta forma deve ser realizado com todas as demais competências e seus indicadores. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 106 4.4.3.4 Feedback “O conceito de feedback é herdado da teoria de sistemas, significa na tradução literal retroalimentação, isto é, processar informações e transmiti-las ao sistema para continuidade do seu funcionamento (RABAGLIO, 2006, p. 46)” O feedback na organização tem como objetivo direcionar o comportamento das pessoas, seja visando valorizar seu desempenho e atitudes (manter o comportamento), seja corrigindo suas atitudes (mudar o comportamento). 4.4.3.5 Remuneração por Competência Para CALVOSA et al, (2005), na remuneração por competência, diferenciação salarial entre os colaboradores difere da forma tradicional que ocorre de acordo com o cargo ocupado, aumentando o salário com promoções. A remuneração por competência baseia-se na identificação de conhecimentos e habilidades que o colaborador apresenta ou desenvolve. Segundo CALVOSA et al (2005, p. 301), o “sistema de remuneração passou a ser interessante em função de diversos fatores como o crescimento do setor de serviços na economia, aumento da demanda de profissionais qualificados, necessidade de conhecimento intensivo nas empresas em geral, implantação de sistemas mais flexíveis e redução de estruturas hierárquicas rígidas e popularidade do conceito de competência”. Atualmente várias empresas estão modificando seu modelo de remuneração para o por competência. Se utilizada adequadamente, a remuneração por competência, motiva o colaborador e o recompensa por suas habilidades, conhecimento e atitudes e ademais, auxilia a organização a se desenvolver de acordo com seus objetivos. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 107 5. UNIDADE V: SAÚDE NO TRABALHO17 5.1 Trabalho, subjetividade e saúde psíquica/Psicopatologia e Psicodinâmica do Trabalho O trabalho como a atividade de transformação do homem tambémpode trazer consequências físicas e psicológicas, nocivas à saúde, quando não realizado em condições adequadas. O ser humano apresenta limites físicos e mentais quanto às funções desempenhadas nas empresas. Desta forma existem tipos de trabalhos que necessitam de cuidados especiais. Abordaremos aqui os aspectos das doenças relacionadas ao trabalho. “Os limites mentais e emocionais são de predição mais difícil e, em geral, variam de dia para dia, dependendo do nível de estresse mental do indivíduo. Se uma pessoa tem a capacidade de entender uma tarefa, captar a informação e tomar decisões acertadas, deve também ser capaz de executar um bom trabalho com segurança. Considerando os aspectos mentais-emocionais, o trabalho mais seguro será aquele que permita ao trabalhador executá-lo de modo feliz, satisfeito e bem ajustado... O estresse laboral, com sequelas nocivas para o indivíduo, age sob a forma de moléstia, falta de saúde com alterações cardíacas e respiratórias, gastrite, úlcera, transtorno do sono, náuseas e com isso há desgaste do rendimento ou da qualidade de trabalho.” (SOBRECARGA, s/d, s/p) 17 Parte desta unidade foi extraída da apostila temática Psicologia Organizacional, elaborada por Rafael Santos Vaz de Lima, Psicólogo formado pela Unesp e Pós-Graduado em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas (FGV). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 108 5.1.1 Fatores psicossociais da DORT e outros distúrbios relacionados ao trabalho DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho), são doenças ocupacionais que, anteriormente, acometiam, por exemplo, os digitadores e, atualmente, devido ao aumento no uso do computador como ferramenta de trabalho, têm acometido um maior número de pessoas; mazelas adquiridas em decorrência do trabalho e de origem multicausal. Elas possuem características sintomatológicas de dor no local onde as lesões ocorrem; causam a incapacidade de movimentos e isto interfere nas atividades diárias do indivíduo, podendo causar além dos sintomas físicos, sintomas de ordem psicológica, pois, há o impedimento de realização do trabalho, trazendo aí um sentimento de degradação emocional. Segundo Wagner, Rodrigo e Friess (s/d), o DORT pode ter diversos graus, dependendo dos sintomas apresentados, são eles: GRAU 1: sensação de peso e desconforto no membro afetado. Dor espontânea no local, às vezes com pontadas ocasionais durante a jornada de trabalho, as quais não chegam a interferir na produtividade. Essa dor é leve e melhora com o repouso. Não há sinais clínicos. GRAU 2: dor mais persistente e mais intensa. Aparece durante a jornada de trabalho de forma contínua. É tolerável e permite o desempenho de atividade, mas afeta o rendimento nos períodos de maior esforço. A manifestação de dor ocorre inclusive no desempenho de tarefas domésticas. É mais localizada e pode vir acompanhada de formigamento e calor, além de leves distúrbios de sensibilidade. Os sinais clínicos, de modo geral, continuam ausentes. Podem ser observadas pequenas nodulações e dor ao apalpar o músculo envolvido. GRAU 3: A dor torna-se mais persistente, forte e tem irradiação mais definida. O repouso em geral só diminui a intensidade, nem sempre fazendo-a desaparecer por completo. Aparece mais vezes fora da jornada, especialmente à noite. Perde-se um pouco a força muscular e há queda de produtividade, quando não a impossibilidade de executar a função. Os trabalhos domésticos muitas vezes não podem ser executados, estando presentes os sinais clínicos. O inchaço é freqüente, assim como a transpiração e a alteração da sensibilidade. Movimentar ou apalpar o local afetado causa dor forte. Nesta fase, o retorno ao trabalho já se mostra problemático. GRAU 4: Dor forte, contínua, por vezes insuportável, levando a intenso sofrimento. A dor se acentua com os movimentos, estendendo-se a todo o membro afetado. Dói até quando o www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 109 membro estiver imobilizado. A perda de força e controle dos movimentos são constantes. O inchaço é persistente e podem aparecer deformidades, como as atrofias nos dedos, em função do desuso. A capacidade do trabalho é anulada e a invalidez se caracteriza pela impossibilidade de um trabalho produtivo regular. As atividades do cotidiano são muito prejudicadas. Nesse estágio, são comuns as alterações psicológicas, com quadros de depressão, ansiedade e angústia. A reabilitação é difícil, podendo gerar seqüelas irreversíveis (http://www.sintfub.org.br/arquivos/publicacoes/SINTFUB_- _Cartilha_LER-DORT.pdf). Dentre os fatores de risco para o desenvolvimento de LER/DORT, são citados os seguintes, segundo Wagner, Rodrigues e Friess (s/d): a) Fatores Físicos ou Biomecânicos: quando movimento é repetitivo e se utiliza força muscular constante; a postura é constantemente incorreta; b) Fatores Organizacionais: natureza repetitiva do trabalho; deficiência na comunicação com os líderes ou colegas; ausência de rodízios ou pausas nas atividades do trabalho; inadequação do posto de trabalho; obrigatoriedade de manter um ritmo acelerado das atividades; jornadas prolongadas de trabalho, com freqüente realização de horas extras;. c) Fatores Psicossociais: quadros de ansiedade, depressão e, principalmente, de estresse originado pelas percepções negativas do empregado sobre alguns fatores de organização do trabalho, como: falta de autonomia, cobranças excessivas, perfeccionismo, carga e ritmo de trabalho aumentados, impossibilidade de crescimento na carreira, dentre outros. Os tratamentos são no sentido de minimizar a dor e possibilitar o não agravamento dos sintomas. Assim, são utilizadas diversas técnicas em um trabalho multidisciplinar no qual, terapias físicas, medicamentos, terapias psicológicas e, até mesmo, intervenções cirúrgicas podem ocorrer. A questão principal é a prevenção para o não aparecimento dessas lesões, através da adequação de equipamentos e atividades, em uma visão ergonômica, intervalos para descanso do indivíduo, ginástica laboral, alongamentos e melhores índices de satisfação no trabalho podem prevenir estas doenças (MERLO, JACQUES, HOEFEL, 2001). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 110 Karoshi Karoshi se origina de duas palavras japonesas, karo (excesso de trabalho) e shi (morte). O karoshi (morte por sobrecarga de trabalho) ocorre com frequência no Japão e é descrito, na literatura sócio-médica, como um quadro clínico extremo (ligado ao estresse ocupacional,) com morte súbita por patologia coronária isquêmica ou cérebro vascular. Karoshi é um acometimento fatal por sobre-esforço, sendo considerada uma doença relacionada ao trabalho e que, frequentemente, está associada a longos períodos de horas trabalhadas (SOBRECARGA, s/d). Burnout Burnout é uma doença do trabalho no qual o trabalhador passa a apresentar um esgotamento e uma perda em sua vitalidade em decorrência de um esgotamento físico e mental, causado pelo seu trabalho. A vontade de realizar suas atividades rotineiras passa a não existir mais e, sintomas comuns a esta doença laboral são, além desta anedonia, também irritação, fadiga, distúrbios gastrointestinais, insônia, baixo envolvimentocom o pessoal do local de trabalho. “As pessoas em estado extremo de estresse sentem fadiga (resultante da sobrecarga de trabalho); insatisfação (resultante da comparação com a situação vivenciada e seus anseios); frustração (resultante de um teor impróprio em relação às competências e às necessidades do indivíduo); angústia (resultante do conflito da contradição entre os impulsos das pressões e dos desejos); medo (caracterizado por problemas de sono e pelo consumo de medicamentos); ansiedade (caracterizada por tensão nervosa e medo); agressividade, resistência e crueldade (decorrentes das relações do trabalho e incompatibilidade com a hierarquia, chefia, e os outros profissionais); alcoolismo (vícios decorrentes de insatisfação e frustração).” (SOBRECARGA, s/d, s/p). Formas de prevenção comuns são relaxamentos durante o expediente, atividades de lazer para tornar o ambiente de trabalho menos estressante. Este tipo de síndrome www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 111 acomete, geralmente, pessoas que exercem funções nas quais as tarefas e responsabilidades são altas e em que há o trato e cuidado com pessoas, como atividade principal (INOCENTE, CALAIS, BAPTISTA, MORAIS, 2004). 5.2 Segurança no trabalho e saúde ocupacional “Segurança do trabalho é um conjunto de medidas técnicas, educacionais, médicas e psicológicas utilizadas para prevenir acidentes seja eliminando condições inseguras do ambiente, seja instruindo ou convencendo as pessoas da utilização de práticas preventivas (CHIAVENATO, 2008, p. 352). Têm a finalidade de estabelecer normas e procedimentos, criando recursos para prevenir acidentes e controlar os resultados obtidos. Cada gerente/supervisor, deve ser responsável pela segurança em seu setor, embora possa existir na empresa um órgão de segurança para assessorar as chefias. CIPA A CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) é uma imposição legal da CLT, de acordo com a atividade da empresa, periculosidade das atividades e número de funcionários. Não deve ser confundida com o órgão da Segurança, que pode ser criado pela empresa, mas não por imposição legal. À CIPA cabe fiscalizar as condições que podem levar a riscos de acidentes, doenças, etc, ou seja, à falta de segurança. Ao órgão de segurança cabe apontar soluções. PLANO DE SEGURANÇA Um plano de segurança envolve alguns requisitos como: 1. A segurança é responsabilidade de linha e uma função de staff. 2. As condições de trabalho, o setor de atuação da empresa, sua atuação e localização determinam os recursos materiais preventivos. 3. Todos os setores devem estar inclusos no plano de segurança, não só a produção. 4. A segurança do trabalho envolve treinamento para controle e cumprimento de normas de segurança, simulação de acidentes, verificação periódica dos equipamentos de combate a incêndio, primeiros socorros; alem da utilização de www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 112 roupas e acessórios específicos para determinado setor (óculos de proteção, luvas, macacão, etc). Alguns princípios também são importantes para a implantação de um Plano de Segurança: 1. Participação ativa da administração; 2. Manutenção de pessoal dedicado exclusivamente à segurança; 3. Instruções de Segurança para cada atividade, para funcionários novatos, execução do programa de Segurança por meio da supervisão, integração de todos os funcionários mo espírito de segurança, extensão do programa de segurança fora da empresa (evitar acidentes externos à companhia) 4. Não confundir a CIPA com o órgão de Segurança da empresa. A Segurança do Trabalho trabalha em três áreas de atividade: 1. Prevenção de Acidentes; 2. Prevenção de Roubos; 3. Prevenção de Incêndios. PREVENÇÃO DE ACIDENTES “Podemos conceituar acidente do trabalho como decorrente do trabalho, provocando direta ou indiretamente, lesão corporal, perturbação funcional ou doença que determine a morte, a perda total ou parcial permanente ou temporária da capacidade para o trabalho. A palavra acidente significa ato imprevisto e perfeitamente evitável na maioria dos casos. As estatísticas de acidentes de trajeto, ou seja, aqueles que ocorrem no trajeto do empregado de sua casa para a organização, e vice-versa” (CHIAVENATO, 2008, p. 354). Os acidentes de trabalho classificam-se em: 1. Acidentes sem afastamento – após o acidente o empregado continua trabalhando; 2. Acidente com afastamento – pode resultar em: www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 113 a) Incapacidade temporária – perda total da capacidade para o trabalho durante o dia do acidente ou por período menor a um ano; b) Incapacidade permanente parcial – redução permanente e parcial da capacidade para o trabalho, ocorrida no mesmo dia ou até um ano. Pode ser provocado por perda de um membro ou parte dele, redução da função de um membro, redução da visão ou perda total dela, perda ou redução da audição, quaisquer outras perturbações físicas ou psíquicas que, na opinião do médico, reduza menos de três quartos da capacidade de trabalho. 3. Incapacidade total permanente – perda total e permanente da capacidade de trabalho. RAZÕES PARA UM PROGRAMA DE SEGURANÇA Com um Programa de Segurança, pode-se evitar sofrimento para o empregado ocasionado por possíveis acidentes ou lesões; evitar custos com o empregado acidentado; evitar a diminuição da produtividade por causa das lesão/acidente; evitar problemas legais por não cumprir as normas de segurança; manter responsabilidade social e uma imagem positiva da organização perante seu empregados e clientes. ESTATÍSTICAS DE ACIDENTES Existem duas fórmulas, um para calcular a freqüência com a qual ocorrem os acidentes e a gravidade deles. Fórmula do Coeficiente de Freqüência (CF) CF = nº de acidentes com afastamento x 1.000.000 Nº de homens / horas trabalhadas Fórmula do Coeficiente de Gravidade (CG) www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 114 CG = dias perdidos + dias computados x 1.000.000 Nº de homens/ horas trabalhadas IDENTIFICAÇÃO DAS CAUSAS DE ACIDENTES “Os acidentes são provocados por causas que podem ser identificadas e removidas para que não continuem provocando novos acidentes” (CHIAVENATO, 2008, p. 358). As principais causas de acidente são: 1. O agente ou parte dele– o objeto ou substância que está diretamente relacionada com a lesão como mesa, martelo, ferramenta, etc. 2. A condição insegura – condição física ou mecânica existente no local ou no equipamento, que poderia ser corrigida para evitar acidentes. 3. Tipo de acidente – é a forma como ocorreu o acidente como tombos, escorregões, choques, etc. 4. Ato inseguro - violação da regra de segurança como deixar de usar o equipamento de segurança, fumar em área proibida, etc. 5. Fator pessoal de insegurança – característica do empregado como deficiência, alteração mental ou psíquica,que permite a diminuição da segurança. 5.3 Saúde no trabalho e gerenciamento do estresse “Não são apenas as condiçõesfísicas de trabalho que importam. É preciso algo mais. As condições sociais e psicológicas também fazem parte do ambiente de trabalho” (CHIAVENATO, 2008, p. 365). Segundo a metodologia Robert Levering, utilizada todos os anos pela Revista Exame para analisar as melhores empresas para se trabalhar, os seguintes itens são analisados: Ambiente de trabalho: confiança e credibilidade que os empregados têm na liderança; respeito, ou seja, como as pessoas são tratadas, quanto participam das www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 115 decisões que afetam seu trabalho, quais as oportunidades de crescimento, como é o pacote de benefícios; imparcialidade, ou seja justiça nas promoções e ausência de favoritismo; camaradagem – reflete a convivência agradável entre os colegas. Perfil da empresa: benefícios, ou seja, capacidade da empresa em focar as necessidades dos empregados, que nem sempre são financeiras; remuneração, refere-se a como os funcionários se sentem em relação à sua remuneração; ética e cidadania, refere-se à transparência nas informações e programas de bem-estar organizados pela empresa, em prol da comunidade; desenvolvimento profissional, oportunidades de desenvolvimento como cursos; equilíbrio, refere-se ao quanto as companhias conseguem fazer com que o empregado consiga conciliar sua vida pessoal e profissional, com incentivo à prática de esporte e bem-estar dos funcionários. O estresse no trabalho parece estar relacionado ao equilíbrio entre exigências do cargo e a capacidade do indivíduo de lidar e adaptar-se a essas exigências. Se o equilíbrio é atingido, tem-se o bem-estar, caso não ocorra o equilíbrio, surgirão incertezas, conflitos e sensação de desamparo. Alguns fatores organizacionais parecem contribuir para o estresse como exagerado esforço físico, padrões forçados de trabalho e atividades desmotivantes para o indivíduo (LIMONGI-FRANÇA; ARELLANO, 2002). Neste sentido faz-se importante avaliar as políticas de gestão da organização, bem como a cultura e clima organizacional para, por meio destes conhecimentos, atuar sobre o estresse organizacional. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 116 5.4 Psicologia da saúde: fundamentos e prática18 Para entendermos a atuação do psicólogo na área da saúde, é importante salientar que estamos sob um novo paradigma, o qual surgiu da necessidade de entender o homem de forma holística, integrado aos sistemas biopsicossociais, em detrimento ao pensamento cartesiano (CAPRA, 1995). O processo saúde-doença é considerado como um fenômeno social, compreendido como um “fenômeno coletivo, num processo histórico e multideterminado” (ALMEIDA, CANTAL E COSTA JUNIOR, 2008, p. 432), sendo assim exige uma prática interdisciplinar. Nesse contexto, a atuação do psicólogo vai além da atuação clínica, do psicodiagnóstico e da terapia individual. Esse perfil de atuação já não satisfaz as necessidades do contexto atual; vale parafrasear Bleger, que, já em 1984, definiu o psicólogo institucional como um agente de mudanças. Assim, as diretrizes que correspondem a uma ação de mudança são: • atuação interdisciplinar, orientação das ações profissionais na direção da saúde coletiva e o caráter educativo da assistência; • inserção dos indivíduos, grupos e comunidades na promoção da saúde; • a natureza da intervenção deixaria de ter uma perspectiva unidisciplinar para evoluir para uma perspectiva multidisciplinar, com ênfase em equipes multiprofissionais e interdisciplinares; • o enfoque pode ser de natureza curativa ou preventiva numa perspectiva primária, secundária e terciária; 18 Este subitem foi extraído da Apostila Temática Psicologia Hospitalar/Saúde, elaborada por Denise Dascanio, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFSCar e Professora da Universidade Paulista, e Marta Regina Gonçalves Correia, mestre em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem (Unesp/Bauru) e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia da USP- Ribeirão Preto. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 117 A atuação do psicólogo na rede básica de saúde pode ocorrer tanto na organização dos serviços de saúde preconizada pelo SUS, cujos níveis de atendimento vão desde as ações preventivas ou remediativas de baixa complexidade (na atenção primária) às ações especializadas, que requerem seguimento (atenção secundária) até as ações especializadas específicas das situações hospitalares (atenção terciária) (GIOIA- MARTINS & ROCHA-JUNIOR, 2001). No tocante a atenção primária à saúde, requer do psicólogo uma atuação que anteceda a doença. Envolve atuações como a prevenção de atendimentos ambulatoriais e hospitalares. Em centros de saúde, o tipo de intervenção pode ser: psicoterapia de adulto, triagem, orientação de mães, psicoterapia de adolescentes, psicodiagnóstico, ludoterapia, grupos de alcoolistas, usuários de drogas, portadores do vírus HIV, tuberculosos, hansenianos, dentre outros (GIOIA-MARTINS & ROCHA-JUNIOR, 2001). Em termos de prevenção, pode-se atuar em orientação a puérperas; planejamento familiar; orientação à terceira idade e a sexualidade dos adolescentes; lazer; acompanhamento ao desenvolvimento infantil, visando à detecção precoce e intervenção em problemas e ou atrasos; acompanhamento a grupos de gestantes; acompanhamento a clientela de programas e subprogramas de saúde de adulto em problemas específicos de saúde, tais como hipertensos, hansenianos, diabéticos, desnutridos etc (GIOIA-MARTINS & ROCHA-JUNIOR, 2001). 5.5 Ergonomia A Ergonomia surge a partir de adaptações feitas por diversos profissionais aos veículos e armamentos no período entre a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, visando melhor utilização destes nos campos de batalha. Assim, com o final destes confrontos, as indústrias não bélicas nos EUA e Europa perceberam que poderiam levar vantagens no uso desta nova ciência, que tem o nome originário de duas palavras gregas: ergon (trabalho) e nomos (lei), ou seja, lei do trabalho. Para Ilda (1990, p. 01) apud Filus (2006, p. 29), “a ergonomia é o estudo da adaptação do trabalho ao homem. O trabalho aqui tem uma acepção bastante ampla, abrangendo não apenas aquelas máquinas e equipamentos utilizados para transformar os materiais, mas também toda a situação em que ocorre o relacionamento entre o homem e www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 118 seu trabalho. Isso envolve não somente o ambiente físico, mas também os aspectos organizacionais, de como esse trabalho é programado e controlado para produzir os resultados desejados”. A Ergonomia é abordada pela legislação do Ministério do Trabalho na Norma Reguladora, a NR-17. Segundo ela, a organização do trabalho deve ser adequada às características psicofisiológicas dos trabalhadores e à natureza do trabalho a ser executado (BRASIL, 1978). Para que isso ocorra devem ser considerados: a) “o modo operatório; b) as normas de produção;c) a exigência de tempo; d) a determinação do conteúdo de tempo; e) o ritmo de trabalho; e f) o conteúdo das tarefas” (BRASIL, 1978, s/p). Desta forma, a ergonomia atua para que o cansaço, tanto físico como mental, do trabalhador seja reduzido e, consequentemente, reduzam-se os erros e acidentes de trabalho. A ergonomia possibilita, assim, aumentar o conforto, produtividade e rentabilidade do indivíduo em seu trabalho 5.6 Programas em saúde mental: atuação em programas de prevenção e intervenção de saúde mental no trabalho Dentre as principais correntes que explicam as relações entre saúde mental duas são mais presente: a psicopatologia do trabalho (também chamada de psicodinâmica do trabalho, constituída à partir dos estudos de Dejours) e os estudos que abordam a relação entre estresse e trabalho (GLINA et. al 2001). A inter-relação saúde mental e trabalho abrange desde o mal-estar ao quadro psiquiátrico. O sofrimento corresponderia à experiência subjetiva e intermediária entre a doença mental o bem-estar (GLINA et. al. 2001). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 119 Rocha (2006), cita os passos para a implantação de um programa de prevenção e intervenção em saúde mental no trabalho: - Etapa diagnóstica: nesta etapa deve-se definir a abrangência do programa, se para toda a empresa ou para setores específicos, o prazo e cronograma, e as dificuldades e facilidades de implantação. Nesse momento é importante conhecer o contexto da organização como sua estrutura, organograma, histórico e número de funcionários. Além disso, faz-se necessário realizar a análise ergonômica do trabalho, analisando a situação de trabalho que pode estar associada aos problemas de saúde identificados. - Planejamento e Implementação da Intervenção: uma forma eficaz de realizar esta etapa tem sido mostrar às pessoas envolvidas o diagnóstico realizado e pensar, em equipes em formas de intervenção e soluções. Cada equipe deve envolver cargos de diversos níveis. Posteriormente, deve-se comunicar aos trabalhadores o diagnóstico, a proposta de intervenção e os resultados esperados. Deve-se buscar estratégias de adesão dos trabalhadores à implementação e participação no programa. - Avaliação da Intervenção: deve ser avaliado constantemente os resultados do programa e reavaliadas as ações de intervenção. 5.8 Orientação, acompanhamento e readaptações profissionais / realocação em outro posto de trabalho/ readaptação e reabilitação A readaptação profissional ocorre quando para um servidor ─ acometido por restrição física ou mental ─ seja imperioso a mudança das atividades exercidas (cargo) ou a mudança de local de trabalho (lotação), para melhor se adequar às limitações decorrentes, com tudo certificado por avaliação pericial realizada pela Junta Médica competente. “Já a reabilitação profissional é constituída pelos serviços de assistência reeducativa e de readaptação profissional e é prestada pela Previdência Social aos segurados incapacitados parcial ou totalmente para o trabalho, independentemente de carência, e às pessoas portadoras de deficiência. O objetivo desses serviços é proporcionar-lhes os meios para a reeducação ou readaptação profissional e social, que lhes permitam participar do mercado de trabalho e do contexto em que vivem. Inscritos no www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 120 programa nas Equipes Técnicas de Reabilitação Profissional, esses beneficiários são habilitados em uma nova função/atividade, podendo ser considerados aptos para reingressarem no mercado de trabalho ou incapacitados para o desempenho de atividade profissional” (BRASIL, 1997, s/p). “No decorrer do programa, são concedidos os auxílios materiais necessários ao desenvolvimento do programa, que incluem, em caráter obrigatório, aparelhos de prótese e órtese para atenuar a perda ou a redução da capacidade funcional. O objetivo desse serviço é a reinserção do segurado no mercado de trabalho, evitando a sua marginalização, proporcionando-lhe meios para garantir sua própria subsistência” (BRASIL, 1997, s/p).. O psicólogo, no caso de um processo de readapatação e/ou reabilitação profissional de um funcionário, faz parte de uma equipe interdisciplinar. É o psicólogo quem auxiliará na compreensão dos interesses, desejos, afetos, modo de funcionamento habitual do funcionário para auxiliá-lo na realocação em outro posto de trabalho. É recomendável que o psicólogo faça a reorientação profissional deste funcionário, levando em consideração suas possibilidades e limitações, de modo que ele se sinta realizado em seu trabalho. Mas, esta intervenção não pode ser unidirecional; o funcionário precisa estar engajado no processo e, para isso, o psicólogo pode usar várias técnicas. Um recurso importante é a entrevista de acompanhamento; nesta, o psicólogo deve questionar sobre o processo de readaptação, as dificuldades, os ajustes, e também sobre os interesses, os afetos, motivações e projetos, a fim de que se faça um diagnóstico sobre o processo. É preciso que não só o psicólogo, mas toda a equipe interdisciplinar acompanhe o funcionário durante todo o processo, pois poderão ocorrer ajustes nas condições de trabalho e/ou, até mesmo, uma realocação. Um dos meios de acompanhar o desempenho do funcionário é através da avaliação deste no cargo. Essa avaliação pode ser feita também no período de experiência dos funcionários, visando identificar possibilidades que contribuam para sua efetivação no cargo e, também, para orientação dos mesmos, quando os funcionários passam por processos de readequação ou realocação de cargo. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 121 A avaliação no período de experiência consiste em uma avaliação de desempenho do empregado, que se encontra sob contrato de trabalho, em regime de experiência, de no máximo 90 dias. Assim, a avaliação de desempenho do empregado em contrato de experiência refere-se à análise do exercício das atividades inerentes ao cargo, nos primeiros noventa dias de trabalho. O processo de avaliação de desempenho, nesse período de experiência, pode ser dividido em duas etapas, por exemplo: ao final dos primeiros 40 dias do início do contrato de experiência, e no 80º dia para melhor mensurar o desempenho do funcionário. O resultado dessa avaliação serve para a organização refletir sobre a contratação efetiva do funcionário, o seu desligamento, ou sua realocação de posto de trabalho etc. Como em qualquer avaliação de desempenho, ao emitir opinião sobre o avaliado, o avaliador deve procurar ser objetivo e imparcial. É recomendável que se evite predisposições ou sentimentos pessoais que possam influenciar a avaliação. Assim, analisa-se o desempenho do empregado e suas possibilidades de manter-se no desempenho da função. O caráter da avaliação de desempenho, nesse período, deve ser fundamentalmente orientativo, uma vez que: a) redireciona os desvios; b) aponta para as dificuldades; c) promove incentivos em relação aos pontos fortes. 5.9 Entrevista de Acompanhamento Segundo Medeiros (s.d.), a entrevista de acompanhamento, também chamada de entrevista de avaliação, é um componente importante no plano de desenvolvimento de pessoal de uma organização,pois, pode diminuir a distância entre o supervisor e os www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 122 subordinados, procurando promover um melhor entendimento entre os mesmos, quando elaborada e aplicada de forma correta. É por meio dessa entrevista que o supervisor informa ao funcionário sobre seu desempenho no trabalho, ressaltando e reforçando seus aspectos positivos e, também, quais os comportamentos ou atitudes relacionados ao trabalho, que necessitam de mudança. No caso desta última, o supervisor deve agir como guia, para auxiliar o subordinado em seu aperfeiçoamento (MEDEIROS, s.d.). “Este processo de avaliação não serve, em si, para modificar características das pessoas. A modificação só pode ocorrer quando autoiniciada. Ninguém pode mudar outra pessoa se esta não quiser. O avaliador, supostamente responsável pela modificação, poderá simplesmente fornecer condições e meios através dos quais aquela se realiza, caso haja interesse do indivíduo que isto aconteça” (MEDEIROS, s.d.). Segundo o mesmo autor, a entrevista de acompanhamento deve abordar tópicos como, por exemplo: os resultados obtidos pelo ocupante do cargo em determinado período; a possibilidade das tarefas do funcionário serem ampliadas; o progresso realizado; as atividades realizadas com êxito; os aspectos do trabalho a serem melhorados; o plano de ação seguinte, de modo que o funcionário concentre seus esforços sobre os objetivos importantes; os interesses e ideais do funcionário. “Se um funcionário se sente à vontade para analisar um trabalho, ele se sente imediatamente motivado a pensar construtivamente, em vez de destrutivamente. Despertar a curiosidade do empregado sobre o que ele faz é o primeiro passo para provocar mudanças e melhorar o seu trabalho” (MEDEIROS, s.d.). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 123 6. UNIDADE VI – PSICODIAGNÓSTICO E TEORIAS DA PERSONALIDADE 6.1 Psicologia Clínica e Relações humanas Na psicologia clínica, um dos pontos principais para ter bons resultados no tratamento consiste em estabelecer um bom rapport com o cliente e também realizar um diagnóstico criterioso para planejar o tratamento. Abaixo falaremos sobre o psicodiagnóstico, os instrumentos que podem ser utilizados e as principais teorias da personalidade. 6.2 Psicodiagnóstico e Diagnóstico Diferencial19 Formiga e Mello (2000) afirmam que, atualmente, “qualquer posição extremista em relação aos testes psicológicos mostrará a falta de informação do momento histórico, filosófico e social que influenciaram a psicologia”; uma vez que os testes psicológicos percorreram um grande caminho na caracterização da Psicologia enquanto ciência. Foram criados e usados inicialmente para analisar e determinar diferenças individuais, e, hoje, sua utilização é muito mais ampliada, indo do ponto de vista psicológico, educacional, sociológico até o cultural; trabalhando-se com estudos de grandes populações, passíveis de generalizações, mas também pequenos grupos menos típicos. Os testes psicológicos não consistem em 100% de neutralidade e eficácia em seus resultados, o que não significa que os mesmos devam ser dispensados, uma vez que, sendo atendidas as pré-condições de sua aplicação e o psicólogo examinador tenha conhecimento, domínio da aplicação e da avaliação, os testes auxiliam a eliminar boa parte da “contaminação” subjetiva da sua percepção e julgamento. É importante ressaltar a condição dos testes como mais um, e não o único recurso que auxilia o profissional na compreensão e no fechamento das considerações a respeito de um examinando, seja em processo seletivo, avaliação psicológica e/ou psicodiagnóstico (SILVA, 2008). Definição e Caracterização 19 Subitem extraído da Apostila Temática de Psicodiagnóstico e Testes, elaborada por Luciana Esgalha Carnier, Psicóloga formada pela Unesp – Bauru/SP. Possui aprimoramento em Psicologia Hospitalar em Pediatria. Mestranda em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem, Unesp – Bauru/SP – Linha de Pesquisa: Desenvolvimento: Comportamento e Saúde. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 124 De acordo com o Dicionário Aurélio (1999), avaliação refere-se a: “sf. 1. Ato ou efeito de avaliar (-se). 2. Apreciação, análise. 3. Valor determinado pelos avaliadores”. O termo avaliação é abrangente e nos remete a diferentes conceitos, desta forma, para o Conselho Federal de Psicologia, a avaliação psicológica é um processo técnico e científico realizado com pessoas ou grupos de pessoas que, de acordo com cada área do conhecimento, requer metodologias específicas. Suas estratégias aplicam-se a diversas abordagens e recursos disponíveis para o processo de avaliação (CUNHA, 2000). Ela é dinâmica e constitui-se em fonte de informações de caráter explicativo sobre os fenômenos psicológicos, com a finalidade de subsidiar os trabalhos nos diferentes campos de atuação do psicólogo. Trata-se de um estudo que requer um planejamento prévio e cuidadoso, de acordo com a demanda e os fins aos quais a avaliação destina-se (CRP-SP, s.d.). Avaliação psicológica, para Alchieri e Noronha (2004), é: “[...] um exame de caráter compreensivo efetuado para responder questões específicas quanto ao funcionamento psíquico adaptado ou não de uma pessoa durante um período específico de tempo ou para predizer o funcionamento psicológico da pessoa no futuro. A avaliação deve fornecer informações cientificamente fundamentadas tais que orientem, sugiram, sustentem o processo de tomada de decisão em algum contexto específico no qual a decisão precisa levar em consideração informações sobre o funcionamento psicológico.” (p. 44) Segundo Cunha (2000), o conceito de avaliação psicológica é muito amplo, englobando em si o psicodiagnóstico. Este seria uma avaliação psicológica de finalidade clínica, e não abarcaria todos os modelos possíveis de avaliação psicológica. Para a autora, o psicodiagnóstico é definido como “um processo científico, limitado no tempo, que utiliza técnicas e testes psicológicos, em nível individual ou não, seja para entender problemas à luz de pressupostos teóricos, identificar e avaliar aspectos específicos, seja para classificar o caso e prever seu curso possível, comunicando os resultados, na base dos quais são propostas soluções, se for o caso”. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 125 Visa, assim, identificar forças e fraquezas no funcionamento psicológico (CUNHA, 2000). A fim de caracterizar este processo, tem-se que o mesmo se dá em uma situação bipessoal, com papéis bastante definidos e com um contrato, havendo uma pessoa que pede ajuda (paciente) e uma que recebe o pedido e se compromete em solucioná-lo, na medida do possível, o psicólogo. Sua duração é limitada e seu objetivo é conseguir, através de técnicas, investigar, descrever e compreender, de forma mais completa possível, a personalidade total do paciente ou grupo familiar, abrangendo aspectos passados, presentes e futuros desta personalidade (OCAMPO; ARZENO, 2001). Mostra-se, assim,como um processo científico, uma vez que parte do levantamento prévio de hipóteses que serão confirmadas ou refutadas por meio de um plano de avaliação, com passos e técnicas predeterminadas e objetivos específicos (CUNHA, 2000). Com os dados obtidos, faz-se uma inter-relação destes com as informações obtidas a partir das hipóteses iniciais, e uma seleção e integração com os objetivos do psicodiagnóstico, assim, os resultados são comunicados, a quem de direito, determinando-se quais dados devem ser apresentados para que seja possível a oferta de subsídios para recomendações e/ou decisões (CUNHA, 2000). É importante ainda salientar a qual público o psicólogo que realiza psicodiagnóstico atende. Este, geralmente, é formado por profissionais médicos (psiquiatras, pediatras, neurologistas etc.), advogados, juízes e pela comunidade escolar, que encaminham seus clientes. Há também, mas com menor frequência, casos de procura espontânea do paciente ou familiar, principalmente quando recomendado por amigo ou outro membro da família (CUNHA, 2000). O profissional psicólogo deve, por fim, atentar-se para a finalidade da investigação, para que as necessidades da fonte de solicitação sejam atendidas e seu trabalho tenha o impacto e crédito merecidos. Para tanto, ao se observar a dificuldade que o solicitante do encaminhamento pode apresentar ao requerer uma avaliação psicológica, é de sua responsabilidade encontrar meios de manter contato e uma boa comunicação com os diferentes profissionais com quem trabalha, para conhecer melhor suas necessidades e, o mais importante, esclarecer e determinar, em conjunto, o que se espera dele (CUNHA, 2000). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 126 Breve Histórico A história da avaliação psicológica começou no fim do século XIX e início do século XX e está muito ligada ao surgimento da Psicologia Experimental no século XIX. A fundação do primeiro laboratório de Psicologia Experimental pelo psicólogo alemão Wundt, em 1879, marcou o início das experiências científicas, visando principalmente investigar as sensações auditivas e visuais, a psicofísica, tempos de reação e outros. Esta época marcou o início do uso de testes psicológicos e propiciou a imagem de “aplicador de testes” que muitos têm do profissional psicólogo. Segundo Cunha (2000), o psicodiagnóstico derivou da Psicologia Clínica, em 1896, introduzida por Lighter Witmer, sob a tradição da psicologia acadêmica e da tradição médica. Esta última teria efeitos marcantes na identidade profissional do psicólogo clínico. Ao final deste século e início do seguinte, a Psicologia sofreu influência da Biologia, com os trabalhos realizados por Galton, na década de 1880, que tentou aplicar os princípios do evolucionismo de Darwin à seleção, à adaptação e ao estudo do ser humano. Galton elaborou alguns testes a fim de identificar diferenças individuais e determinar o grau de semelhança entre parentes em um estudo sobre hereditariedade e genialidade (CUNHA, 2000; GEOCITES, 2008). Influenciado por Galton, Cattel (psicólogo americano) fez seus estudos dando ênfase às medidas sensoriais, afirmando que elas permitiam uma maior exatidão. Elaborou também uma tese sobre diferenças no tempo de reação, que consistia em registrar os minutos decorridos entre a apresentação de um estímulo ou ordem para começar a tarefa, e a primeira resposta emitida pelo examinando. E desenvolveu medidas das diferenças individuais, o que resultou na criação da terminologia Mental Test (teste mental) (PASQUALLI, 2001 apud SILVA, 2008). Stern, em 1900, estudava as diferenças raciais, culturais, sociais, profissionais etc., e incluiu nestes o conceito de “quociente intelectual” (Q.I.), sendo conhecido como seu idealizador (GEOCITES, 2008). O primeiro a fazer realmente testes de nível mental foi A. Binet, que fazia várias críticas aos testes utilizados até então, por acreditar que as medidas exclusivamente www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 127 sensoriais, apesar de permitirem maior precisão, não tinham relação importante com as funções intelectuais (SILVA, 2008). Binet tinha seus interesses voltados para a avaliação das aptidões mais nas áreas acadêmica e da saúde. Em 1905, ele e Simon desenvolveram o primeiro teste psicológico, com o objetivo de avaliar e detectar, através de medidas intelectuais como julgamento, compreensão e raciocínio, o nível de inteligência ou retardo mental de adultos e crianças das escolas de Paris. Estes testes de conteúdo cognitivo foram bem aceitos, principalmente nos EUA, a partir da sua tradução por Terman (1916), nascendo, assim, a era dos testes com base no Q.I. (CUNHA, 2000; SILVA, 2008). A tradição em psicometria passou a ser mais bem sedimentada, então, pelas escalas de Binet, as quais foram aperfeiçoadas por Terman e pela criação dos testes do exército americano (CUNHA, 2000; GEOCITES, 2008). Os primeiros testes de inteligência em forma coletiva surgiram por ocasião da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Eles foram elaborados para classificar intelectualmente soldados do exército norte-americano e receberam os nomes de “Army Alpha” e “Army Beta” (CUNHA, 2000; GEOCITES, 2008). Deste modo, tem-se que os testes psicológicos surgiram a partir de diferentes fatores, porém, alguns merecem destaque: a necessidade de identificação de deficientes mentais; os problemas de aprendizagem; a seleção rápida e eficiente de contingente para as forças armadas; seleção e classificação de empregados; e a adoção de crianças (GEOCITES, 2008). No Brasil, em 1924, na Bahia, foi realizada por Isaias Alvez a adaptação da escala Binet-Simon, sendo considerada um dos primeiros estudos de adaptação de instrumentos psicométricos no país (NORONHA; ALCHIERI, 2005 apud SILVA, 2008). Com a revolução e o aperfeiçoamento de técnicas, surgiram diversos tipos de testes, entre eles os de aptidão (criados para aconselhamento vocacional, seleção e classificação de pessoal), os psicológicos (medida objetiva e padronizada sobre uma amostra de comportamento) e os de Q.I. (com a finalidade de medir o quociente de inteligência entre pessoas de uma mesma faixa etária) (GEOCITES, 2008). Atualmente, o progresso na elaboração dos testes psicológicos tem sido constante, disponibilizando ao profissional psicólogo, cada vez mais, um número maior de possibilidades a serem usadas. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 128 É importante recordar que a contribuição da psicometria foi e é essencial para garantir a cientificidade dos instrumentos do psicólogo, mas também, que existem diferenças entre o psicometrista e o psicólogo clínico. O primeiro valoriza mais os aspectos técnicos da testagem, já no psicodiagnóstico, o psicólogo utiliza testes e outras estratégias para avaliar um sujeito de forma sistemática, científica e norteada para a resolução de um problema, relacionando-os com o contexto total da pessoa (CUNHA, 2000). Mesmo no período entre as duas grandes guerras, a classificação das doenças mentais ainda pressupunha uma hierarquia, herança de um modelo médico, que evidenciava alterações nas condições orgânicas, e quando isto ocorria, qualquer outro diagnóstico era subjugado (CUNHA, 2000; SILVA, 2008). Éneste cenário que as obras de Freud e Kraepelin aparecem e dão novo significado às antigas classificações, desvendando as diferenças entre estados neuróticos e psicóticos, dentre os transtornos classificados na época como funcionais (não- orgânicos) (CUNHA, 2000). Assim, segundo Cunha (2000), Freud representou o primeiro elo de uma corrente de conteúdo dinâmico, seguido pelo surgimento de Jung, com seu teste de associação de palavras em 1906, e fornecendo forças para o lançamento posterior das técnicas projetivas. Começa o período áureo dos testes de personalidade e técnicas projetivas. Em 1921, é lançado o Rorschach, com grande sucesso, em seguida o TAT, e desde então a multiplicação das técnicas projetivas. Cunha (2000), fazendo referência a Groth-Marnat (1999), aponta que isto ocorreu devido a dois fatores: o primeiro seria o de que os testes até então consagrados, como os utilizados na área militar e industrial, não mais atendiam às necessidades da população, na avaliação de problemas da vida, como neuroses etc.; e o segundo, seria pela grande valorização do entendimento dinâmico por parte da comunidade psiquiátrica. Porém, logo em seguida, as técnicas projetivas entraram em certo declínio, por estarem muito associadas a uma perspectiva teórica (a psicanálise), por apresentarem problemas metodológicos e por dar certa ênfase à interpretação intuitiva (CUNHA, 2000). Atualmente há uma busca por instrumentos mais objetivos e estruturados, por isso o maior rigor na aprovação e na validação dos testes, pela necessidade de manter www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 129 embasamento científico para oferecer respostas adequadas e compatíveis com outros ramos da ciência e em termos de questões diagnósticas. Porém, isto não significa que as técnicas projetivas não tenham seu valor e não sejam utilizadas até hoje, somente aponta para a necessidade de constantes reavaliações, para que haja um reconhecimento da qualidade do proposto por um psicodiagnóstico (CUNHA, 2000). Objetivos O principal objetivo do processo psicodiagnóstico é conseguir uma descrição e compreensão da personalidade do paciente, de forma a explicar a dinâmica do caso como aparece no material, integrando-o, posteriormente, num quadro global, sem esquecer-se de incluir tanto aspectos patológicos como adaptativos (OCAMPO; ARZENO, 2001). É de suma importância que o psicólogo tenha ciência sobre qual a finalidade, ou finalidades, do psicodiagnóstico a ser realizado, que depende do motivo do encaminhamento. Isto confere ao profissional maiores condições de fazer escolhas mais acertadas quanto às técnicas e materiais a serem utilizados (ARZENO, 1995; CUNHA, 2000). Dentre os motivos que levam a este tipo de consulta tem que se distinguir basicamente dois tipos: o motivo latente e o motivo manifesto. O primeiro, caracterizado por ser o mais oculto, inconsciente, que às vezes nem o cliente tem muita certeza, e, o último, o mais consciente, geralmente é o motivo que aparece num primeiro momento, quando o cliente é perguntado sobre o porquê da consulta (ARZENO, 1995). Cunha (2000) aponta que existem um ou vários objetivos em um processo psicodiagnóstico, e que os mais comuns seriam os seguintes: a) Classificação simples: quando há a comparação da amostra do comportamento do examinado com os resultados obtidos por outros sujeitos de uma população com condições semelhantes à dele (idade, escolaridade, sexo); os dados são fornecidos de modo quantitativo e são classificados de maneira resumida e simplificada, como, por exemplo, em uma avaliação intelectual. b) Descrição: vai além da anterior, uma vez que interpreta diferenças de escores, identifica potencialidades e fracassos, além de descrever o desempenho do paciente, por exemplo, avaliações de déficit neurológico. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 130 c) Classificação nosológica: as hipóteses iniciais são testadas tendo como referência critérios diagnósticos. Uma avaliação com este objetivo pode ser realizada em diferentes situações. Uma refere-se ao paciente não testável, sendo assim, o profissional deverá fazer um julgamento clínico acerca da presença ou não de sintomas significativos, para verificar através da comparação com outros pacientes da mesma categoria diagnóstica o que este tem em comum com ela. A outra situação é quando o paciente é passível de teste, assim, a possibilidade da realização de um psicodiagnóstico se faz possível, e as hipóteses iniciais podem ser testadas cientificamente, através da bateria de testes – nesta situação não caberia somente conferir quais critérios diagnósticos são preenchidos pelo paciente. A classificação nosológica auxilia na comunicação entre profissionais e contribui para o levantamento de dados epidemiológicos de uma comunidade. d) Diagnóstico diferencial: são investigadas irregularidades e inconsistências dos resultados dos testes e/ou do quadro sintomático para diferenciar categorias nosológicas, níveis de funcionamento, alternativas diagnósticas ou natureza da patologia. Para tanto, o psicólogo deve ter um vasto conhecimento em psicopatologia e sobre técnicas sofisticadas de diagnóstico. e) Avaliação compreensiva: considera o caso num sentido mais global. Tenta-se determinar o nível de funcionamento da personalidade, examinam-se funções do ego (insight) e condições do sistema de defesas para que a indicação terapêutica e/ou a previsão das possíveis respostas aos mesmos possam ser facilitadas. Não há uma necessidade explícita do uso de testes, porém, estes permitem evidências mais precisas e objetivas, que podem contribuir na avaliação dos resultados terapêuticos, por um reteste futuro. f) Entendimento dinâmico: similar à avaliação compreensiva, uma vez que enfoca a personalidade de modo global, mas a ultrapassa por pressupor um nível mais elevado de inferência clínica, utilizando uma dimensão mais aprofundada, na direção histórica do desenvolvimento, investigando conflitos, psicodinamismos e chegando a uma compreensão do caso com base num referencial teórico. Requer uma condução diferenciada das entrevistas e dos materiais de testagem. g) Prevenção: propõe identificar problemas precocemente, avaliar riscos, estimar forças e fraquezas do ego, de sua capacidade para enfrentar situações novas, conflitivas, www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 131 ansiogênicas ou difíceis. Geralmente utilizam-se recursos de triagem para atingir uma maior população em um menor número de tempo, mas também é de grande utilidade numa avaliação individual, mais aprofundada. h) Prognóstico: pode avaliar condições que possam influenciar, de algum modo, no curso de um caso. Ressalta-se que esta área ainda exige maior estudo para aprimorar tanto a adequação da testagem utilizada, como sua coleta de dados estatísticos. i) Perícia forense: contribui na resolução de questões relacionadas com “insanidade”, competência para o exercício de funções de cidadão, avaliação de incapacidade ou de comprometimentos psicopatológicos que possam se associar com infrações de leis etc.; geralmente o psicólogo deve responder a uma série de quesitos pra instruir em decisões importantíssimas do processo, portanto, isto deve ser feito de formaclara, precisa e objetiva. Etapas do Processo Os passos do psicodiagnóstico não apresentam muitas diferenças de autor para autor; aqui será utilizado um modelo baseado em Cunha (2000) e Arzeno (1995), sendo que a única diferença entre eles está no fato de que Arzeno considera uma etapa anterior às apresentadas a seguir, sendo esta referente ao momento em que o consultante faz a solicitação de avaliação até o encontro com o profissional. As etapas são as seguintes: 1º momento: realização da(s) primeira(s) entrevista(s) para levantamento e esclarecimento dos motivos (manifesto e latente) da consulta, as ansiedades, defesas, fantasias e a construção da história do indivíduo e da família em questão. Nesta etapa ocorre a definição das hipóteses iniciais e dos objetivos do exame. 2º momento: reflexão sobre material coletado na etapa anterior e sobre as hipóteses iniciais a fim de planejar e selecionar os instrumentos a serem utilizados na avaliação. Em alguns casos se mostram de suma importância as entrevistas, incluindo os membros mais implicados na patologia do paciente e/ou grupo familiar. 3º momento: realização da estratégia diagnóstica planejada. Ocorre o levantamento quantitativo e qualitativo dos dados. É relevante salientar que não www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 132 deve haver um modelo rígido de psicodiagnóstico, uma vez que cada caso é único, demonstrando necessidades únicas, sendo estas sanadas com instrumentos próprios para elas. 4º momento: estudo do material coletado. Nesta etapa faz-se a integração dos dados e informações, buscando recorrências e convergências dentro do material, encontrar o significado de pontos obscuros, correlacionar os instrumentos entre si e com as histórias obtidas no primeiro momento, formulando inferências por estas relações tendo como ponto de partida as hipóteses iniciais e os objetivos da avaliação. 5º momento: entrevista de devolução. Nela ocorre a comunicação dos resultados obtidos, as orientações a respeito do caso e o encerramento do processo. Ela pode ocorrer somente uma vez, ou diversas vezes, uma vez que, geralmente, faz- se uma devolutiva de forma separada para o paciente (em primeiro lugar) e outra para os pais e o restante da família. Quando o paciente é um grupo familiar, a devolutiva e as conclusões são transmitidas a todos. O psicólogo deve se lembrar de que o processo psicodiagnóstico não é agradável para o paciente, portanto, é importante ter bastante cuidado para não torná-lo persecutório. Isto é possível quando o profissional explica como se dá o processo já num primeiro encontro; evita que a(s) entrevista(s) inicial(is) se torne(m) um inquérito sem fim, causando muita ansiedade; explicita em linguagem acessível e compreensível o que é esperado do paciente em cada etapa do processo (principalmente quando são utilizados testes); procura evitar que a entrevista de devolução seja uma mera transmissão de conclusões, sem que haja a oportunidade do paciente ou familiares expressarem suas reações, e sim, que neste momento, ocorra um espaço para que uma conversa se instaure, para que possíveis dúvidas possam ser sanadas e encaminhamentos realizados com maior esclarecimento. Ao final do processo psicodiagnóstico20, dependendo da fonte solicitante, é necessário que o psicólogo forneça um documento contendo as observações e as conclusões a que chegou, o chamado laudo psicológico. Trata-se de um parecer técnico 20 Cada etapa do processo psicodiagnóstico está descrita de maneira mais detalhada no capítulo 11 de Cunha, 2000. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 133 que visa subsidiar o profissional a tomar decisões e é um dos principais recursos para comunicar resultados de uma avaliação psicológica. Seu objetivo é apresentar materialmente um resultado conclusivo de acordo com a finalidade proposta de consulta, estudo ou prova e deve restringir as informações fornecidas às estritamente necessárias à solicitação (objetivo da avaliação), com a intenção de preservar a privacidade do paciente (SILVA, 2008). 6.3 Testes Psicológicos21 Existem diferentes formas de se classificar os testes psicológicos, tipo de aplicação, finalidade etc. Nesta apostila optou-se por dividir os testes pelo método, sendo assim, em psicométricos ou projetivos. É importante ressaltar que esta unidade não esgota a totalidade de testes existentes, principalmente pelo fato de o Conselho Federal de Psicologia (CFP) sempre realizar avaliações a respeito da validação destes testes, o que torna esta lista sempre mutável e, devido a isso, tem-se a necessidade de consultas frequentes ao site do Conselho para averiguação dos testes aprovados por este. Muitas vezes ocorre de um teste passar por esta avaliação diversas vezes e, em cada uma delas, o resultado apresentado parecer ser semelhante ao anterior, porém, o que se observa é que algumas destas alterações aparentam-se sutis, mas são de extrema relevância, como é o caso da alteração da edição do teste ou este ser o modelo revisado. Tais alterações podem modificar, e muitas vezes modificam, a forma de aplicação do teste, correção e interpretação dos dados. Os testes que não constam na relação dos testes aprovados pelo CFP só podem ser utilizados para fins de pesquisa22. Categoria dos Testes 21 Subitem extraído da Apostila Temática Psicodiagnóstico e Testes, elaborada por Luciana Esgalha Carnier, Psicóloga formada pela Unesp – Bauru/SP. Possui aprimoramento em Psicologia Hospitalar em Pediatria. Mestranda em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem, Unesp – Bauru/SP – Linha de Pesquisa: Desenvolvimento: Comportamento e Saúde. 22 No site do Conselho Federal de Psicologia (www2.pol.org.br/satepsi) você poderá acessar a lista dos testes aprovados para utilização. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 134 Segundo Gonçalves da Silva (s.d.), os testes podem ser divididos e subdivididos nas seguintes categorias: a) Objetividade e padronização: testes psicométricos e impressionistas; b) Construto (processo psicológico) que medem: estes de capacidade intelectual (inteligência geral – Q.I.); teste de aptidões (inteligência diferencial: numérica, abstrata, verbal, espacial, mecânica etc.); testes de aptidões específicas (música, psicomotricidade etc.); testes de desempenho acadêmico (provas educacionais etc.); testes neuropsicológicos (testes de disfunções cerebrais, digestivos, neurológicos etc.); testes de preferência individual (personalidade; atitudes: valores; interesses; projetivos; situacionais: observação de comportamento, biografias); c) Forma de resposta: verbal; escrita: papel-e-lápis; motor; via computador: Vantagens: apresentam em melhores condições as questões do teste; corrige com rapidez; enquadra de imediato o perfil nas tabelas de interpretação; produz registros legíveis em grande número e os transmite à distância; motiva os testandos ao interagir com o computador; Desvantagens: a interpretação dos resultados do perfil psicológico é mais limitada do que a realizada pelo psicólogo. 6.3.1 Testes Psicométricos Os testespsicométricos têm um caráter científico, se baseiam na teoria da medida e, mais especificamente, na psicometria. Utilizam números para descrever os fenômenos psicológicos, assim, são considerados objetivos (SILVA, 2008; FORMIGA; MELLO, 2000). Tem-se denominado método psicométrico o procedimento estatístico sobre o qual se baseia a construção dos testes, assim como a elaboração dos dados da investigação. Entretanto, quando se trata da metodologia utilizada para a obtenção de dados, diz-se que um teste psicométrico é aquele cujas normas gerais utilizadas são quantitativas, o que quer dizer que o resultado é um número ou medida (ESTÁCIO, 2008). Os itens do teste são objetivos e podem ser computados de forma independente uns dos outros, seguindo uma tabela (exemplo: testes de inteligência). A técnica se caracteriza por ser de escolha forçada, escalas em que o sujeito deve simplesmente marcar suas respostas. Primam pela objetividade, que é traduzida em tarefas www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 135 padronizadas. A correção ou apuração é mecânica, portanto, sem ambiguidade por parte do avaliador (ESTÁCIO, 2008; SILVA, 2008). Para Alchieri e Cruz (2003, p. 59 apud SILVA, 2008), os instrumentos psicométricos estão basicamente fundamentados em valores estatísticos que indicam sua sensibilidade (ou adaptabilidade do teste ao grupo examinado), sua precisão (fidedignidade nos valores quanto à confiabilidade e estabilidade dos resultados) e validade (segurança de que o teste mede o que se deseja medir). A seguir serão apresentados alguns destes testes: Testes das Matrizes Progressivas de Raven Parecer do CFP MANUAL MATRIZES PROGRESSIVAS COLORIDAS DE RAVEN – ESCALA ESPECIAL 1999 CETEPP Favorável RAVEN (AVANÇADO) 2002 CEPA Desfavorável RAVEN (GERAL) 2001 CEPA Favorável RAVEN RTLO (TESTE RAVEN DE OPERAÇÕES LÓGICAS) 1995 CEPA Desfavorável Criada pelo psicólogo J. C. Raven, em 1938, a escala das Matrizes Progressivas, se constitui num teste que revela a capacidade que um indivíduo possui, no momento de fazer a prova, para apreender figuras sem significado/abstratas que se submetem à sua observação, descobrir as relações que existem entre elas, imaginar a natureza da figura que completaria o sistema de relações implícito e, ao fazê-lo, desenvolver um método sistemático de raciocínio (RAVEN, 1997; CUNHA, 2000). Atualmente existem três séries das Matrizes Progressivas, as quais são ordenadas por dificuldade crescente e podem ser aplicadas de forma individual ou coletiva. A Escala Geral compreende cinco séries – A, B, C, D e E –, a Escala Especial (Matrizes Progressivas Coloridas), três séries – A, Ab e B – e a Avançada, duas – I e II (incluída somente para os sujeitos que resolvem mais da metade da série I) (CUNHA, 2000). Todas as séries são apresentadas na forma de caderno, contendo desenhos impressos na parte superior de cada página, entre os quais falta um, que completa o conjunto. Na parte inferior, há de seis a oito figuras como alternativas para o sujeito www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 136 escolher para completar a figura superior. Existe ainda a versão tabuleiro do teste, na qual o sujeito deve encaixar a prancha que completa corretamente a figura (CUNHA, 2000). A escala consta de 60 problemas divididos em cinco séries com 12 problemas cada uma. Em cada série, o primeiro problema tem uma solução óbvia, enquanto possível. Os problemas seguintes aumentam gradualmente sua dificuldade. A ordem dos itens facilita um treinamento uniforme no método de trabalho. As cinco séries fornecem cinco oportunidades para compreender o método e cinco apreciações progressivas da capacidade de um indivíduo para a atividade intelectual (RAVEN, 1997). A escala propõe-se a abranger toda a gama do desenvolvimento intelectual a partir do momento em que uma criança é capaz de compreender a ideia de complementar uma figura ou peça que lhes falte; é também suficientemente longa para avaliar a capacidade máxima de uma pessoa para estabelecer comparações e raciocinar por analogia sem, todavia, ser indevidamente cansativa ou extremamente difícil (RAVEN, 1997). Considera-se a escala como um teste de observação e de clareza do pensamento. Na série geral, crianças mais jovens, deficientes mentais e pessoas muito idosas costumam resolver apenas os problemas das séries A e B, e os mais fáceis da série C e D, nos quais o raciocínio por analogia não é essencial (RAVEN, 1997). As Matrizes Progressivas Coloridas, Séries A, Ab e B, nos dão um valioso teste para crianças e pessoas idosas. Podem ser usados satisfatoriamente com os que, por algum motivo, não compreendem ou falam o idioma nacional, sofrem defeitos físicos, são intelectualmente subnormais ou estão em processo de deterioração mental. Desta forma, as Matrizes Progressivas são um instrumento válido para apurar a capacidade atual de uma pessoa para pensar claramente e realizar um trabalho intelectual preciso (RAVEN, 1997). Ao se pensar em desenvolvimento intelectual, esse parece ocorrer, entre as idades de 8 a 11 anos, ocorrendo uma transformação quase que completa nos processos de raciocínio da criança. Antes dessa transformação, uma criança é incapaz de compreender muito mais do que problemas do tipo que apresentam as séries A e B da Escala Geral das Matrizes Progressivas. Seu vocabulário tende a ser limitado e a sua educação depende amplamente do trabalho prático e de ajuda visuais. Posteriormente a criança é capaz não só de estabelecer comparações e de raciocinar por analogia, como adotar esse tipo de pensamento como método consistente de raciocínio. Progride sem www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 137 dificuldade desde os problemas das séries A e B até os problemas que aparecem nas séries C, D e E; sabe apreender os significados das palavras abstratas (RAVEN, 1997). Essa etapa, aparentemente decisiva, de amadurecimento intelectual diferencia as pessoas intelectualmente imaturas daquelas cuja inteligência é normal ou superior a média. Nesse sentido, as Matrizes Progressivas Coloridas, tanto na forma impressa como na de peças móveis, foram preparadas para o exame psicológico do desenvolvimento mental anterior à fase de amadurecimento intelectual. São também especialmente úteis para avaliar o desenvolvimento intelectual na ocorrência de defeitos físicos (RAVEN, 1997). Escalas Wechsler de Inteligência Desenvolvidas por David Wechsler, estas escalas têm sido incluídas entre os instrumentos mais conhecidos para avaliação da inteligência (QI), embora não sirva somente para isto, e vêm sendo constantemente revisadas para maior adaptação à população brasileira (CUNHA, 2000). São consideradas “padrão ouro” nas avaliações psicométricas, sendo utilizadas cada vez menos para determinação de um nível intelectual e cada vez mais para atender necessidades bastante específicas no diagnóstico de psicopatologistas e avaliações neuropsicológicas, tendo variações que permitem a avaliação desde crianças a idosos (CUNHA, 2000). A seguir será exposta a versão para adultos. WAIS – III Parecer do CFP WAIS ESCALA DE INTELIGÊNCIA WECHSLER PARA ADULTOS - WAIS III 2004 CASA DO PSICÓLOGO Favorável As EscalasWechsler de Inteligência para Adultos (WAIS) foram desenvolvidas a fim de auxiliar na avaliação do funcionamento intelectual de adolescentes e adultos. Mostrando-se como importantes recursos diagnósticos para identificar tanto diferentes www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 138 habilidades cognitivas, como à investigação do impacto de problemas emocionais, psiquiátricos e neurológicos no funcionamento cognitivo (NASCIMENTO, 2000). O objetivo de sua utilização incide sobre a avaliação de problemas de aprendizagem, predição de desempenho acadêmico futuro, diagnóstico de transtornos psiquiátricos e neurológicos (NASCIMENTO, 2000). O WAIS-III apresenta-se como uma versão mais recente do WAIS, publicada em 1997. É composto pela mesma estrutura do WAIS-R, sendo que houve um aumento de 32% de novos itens, e sua idade de aplicação atual vai de 16 a 89 anos (CUNHA, 2000). Pode ser indicado para medir a inteligência geral, identificar potencialidades e fraquezas do funcionamento cognitivo e avaliar o impacto de problemas psicopatológicos no funcionamento cognitivo (CUNHA, 2000; NASCIMENTO, 2000). Ele compreende 14 subtestes, sendo aplicados de forma alternada (subteste de execução em seguida o verbal), iniciando pelo subteste de execução Completar Figuras, mas, dependendo do objetivo da avaliação, a aplicação de todos não é necessária. Para o cálculo do QI total, por exemplo, são necessários 11 subtestes (CUNHA, 2000). A seguir serão apresentados os subtestes que compõe os conjuntos de aplicação (verbal e de execução – lembrando que os testes suplementares e opcionais não entram no cômpito do QI total): a) Subtestes Verbais: Vocabulário, Semelhanças, Aritmética, Dígitos, Informação, Compreensão e Sequência de Números e Letras (suplementar); b) Subtestes de Execução: Completar Figuras, Códigos, Cubos, Raciocínio Mental, Arranjo de Figuras, Procurar Símbolos (suplementar) e Armar Objetos (opcional); O WAIS-III segue os mesmos passos para interpretação das outras Escalas Wechsler de Inteligência, sendo assim, oferece a possibilidade de oferecer medidas referentes às escalas de QI (verbal, de execução e total) além dos Índices Fatoriais (NASCIMENTO, 2000). O que cada Índice Fatorial reflete e os subtestes referentes a cada um deles são: a) Compreensão Verbal: subtestes – Vocabulário, Informação e Semelhanças; evidencia o conhecimento verbal adquirido e o processo mental necessário para responder às questões, que seria a capacidade de compreensão (raciocínio verbal). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 139 b) Organização Perceptual: formado pelos subtestes Cubos, Completar Figuras e Raciocínio Matricial; mede o raciocínio não-verbal, raciocínio fluido, atenção para detalhes e integração viso-motora. c) Memória de Trabalho: obtido pelos subtestes Aritmética, Dígitos e Sequência de Números e Letras; está relacionado à capacidade de atentar-se para a informação, mantê-la brevemente e processá-la na memória para, em seguida, emitir uma resposta. d) Velocidade de Processamento: subtestes componentes – Códigos e Procurar Símbolos; refere-se à resistência à distrabilidade, mede os processos relacionados à atenção, memória e concentração para processar, rapidamente, a informação visual. Teste Bender Parecer do CFP BENDER INFANTIL – MANUAL DE DIAGNÓSTICO CLÍNICO ADAPTAÇÃO: AILEEN CLAWSON 1992 ARTMED Desfavorável BENDER TESTE GESTÁLTICO VISO-MOTOR DE BENDER - SISTEMA DE PONTUAÇÃO GRADUAL (B-SPG) 2005 VETOR Favorável O Teste Guestáltico Viso-motor de Bender é também conhecido como Teste de Bender, ou B-G (Bender Gestalt), ou BGVMT (Bender GestaltVisual Motor Test). No Brasil, seu nome mais utilizado pelos psicólogos é Teste Bender ou ainda, de forma mais reduzida, simplesmente o Bender (CUNHA, 2000). O instrumento é composto por nove cartões medindo 14,9 cm de comprimento por 10,1 cm de altura, cada um deles. Consiste de cartelas em cor branca, compostas por figuras diferenciadas que estão desenhadas em cor preta. São estímulos formados por linhas contínuas ou pontos, curvas sinuosas ou ângulos (BENDER, 1955). Inicialmente proposto por Lauretta Bender em 1946, o teste visava verificar a maturação perceptomotora da criança. Sua finalidade era entender que tipos de erros poderiam ocorrer na percepção de um estímulo dado (as figuras do teste) e se estes seriam decorrentes de distúrbios no nível cerebral ou de imaturidade para perceber e reproduzir corretamente (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). Bender não propôs qualquer forma de correção para as respostas, mas categorizou, em forma de quadro, as respostas mais frequentes para cada faixa etária. E www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 140 concluiu em seus estudos que o sujeito reage ao estímulo dado pelo ato motor conforme suas possibilidades maturativas (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). Existem várias edições, com variações quanto a detalhes formais de unidades e até quanto ao número de desenhos. Elas também podem diferenciar quanto à população a ser aplicada, pois podem ser aplicadas a partir dos 4 anos de idade, com crianças, adolescentes e adultos, dependendo da edição escolhida (CUNHA, 2000). Dentre estas edições, vários sistemas de escore são utilizados; dentre eles, os mais utilizados para adultos são: Pascal e Suttel (1951), Hain (1964) e Hutt (1985). Para crianças, os sistemas de Koppitz (1971), Clawson (1980) e Santucci e Percheux (1968) (CUNHA, 2000). Porém, atualmente, somente o Sistema de Pontuação Gradual (B-SPG) é aceito pelo Conselho Federal de Psicologia. Os demais sistemas foram restringidos por não atenderem aos requisitos da Comissão (2001, 2003). Sistema Clawson Segundo Clawson, além da administração pelo procedimento-padrão, podemos utilizar o Teste Bender como técnica projetiva, analisando possíveis dificuldades emocionais. Ela considera os aspectos do desenvolvimento normal da função viso-motora em todas as faixas etárias e apenas analisa as questões emocionais após descartar qualquer possibilidade de problemas orgânicos (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). A autora propõe uma alternativa à utilização do teste, tendo esta duas fases: de associação e de elaboração. Na associação, os cartões são apresentados à criança e é pedido para que ela diga com que se parecem. Na elaboração, por sua vez, convida a criança a desenhá-los da maneira como quiser: alternando, combinando ou elaborando à vontade (CUNHA, 2000). A aplicação deve ser feita de forma individual, com crianças de idade entre 7 e 12 anos, e a criança deve estar à vontade para realizar a tarefa. De acordo com Clawson, se a criança fizer rotações grosseiras, deverá desenhar novamente a figura após concluir o teste. O objetivo é avaliar o quão inflexíveis possam ser os seus aspectos perceptuais (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). Como a intenção do teste é compreender a organização da personalidade da criança, a autora enfatiza que todos os movimentos devem ser registrados, uma vez que www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 141 seu comportamento frente ao estímulo é um dado muito importantena integração dos resultados (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). A forma de correção proposta por Clawson é interpretativa e analisa os seguintes aspectos: aspectos gerais ou fatores organizacionais (como as figuras são distribuídas na folha); modificações da Gestalt (mudança na angulação, simplificação, rotação e fechamento das figuras etc.); e métodos de trabalho (ordem e direção, rasura, tempo, qualidade da linha etc.) (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). O Sistema de Escore de Santucci-Percheux Para aplicação do Bender como prova de organização grafo-perceptiva, é necessário ter em mãos o Manual, as máscaras e as cinco lâminas do teste na seguinte ordem: A, 2, 4, 3 e 7. Devem ser utilizadas as instruções específicas do manual (CUNHA, 2000). Este sistema teve dois objetivos principais: pesquisar um possível déficit da organização grafo-perceptiva entre as crianças com atraso escolar, além de pesquisar a relação entre deficiência mental e a organização percepto-motora (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). Para interpretação dos resultados, utilizam-se os seguintes elementos: forma, número de colunas ou círculos, conceito espacial, relação contiguidade-separação e junção ou separação das subpartes. O escore é atribuído conforme o nível de sucesso da reprodução, em cada figura-modelo. Os critérios utilizados na correção são bastante complexos e para auxiliar esta correção Cunha (2000, p. 303) elaborou uma folha de registros (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). É importante ressaltar que esta forma de correção é bastante utilizada na Europa, porém pouco no Brasil. Sistema Hutt de Correção A partir de 1960, Hutt elaborou o sistema de correção com o título Escala de Psicopatologia. Este sistema utiliza uma análise projetiva embasado em pressupostos psicanalíticos para avaliação de adultos (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). Seu foco é compreender o comportamento do indivíduo; suas necessidades, conflitos e defesas; a força do ego, personalidade e maturidade emocional. Para Hutt, a www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 142 percepção não apenas seria o ato de perceber o estímulo externo, mas também o ato de o sujeito colocar o seu modo interno de perceber este mesmo estímulo (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). Como objetivo tem-se a compreensão do funcionamento global do indivíduo; procurando descrevê-lo e até mesmo predizer alguns aspectos significativos do seu comportamento em situações definidas (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). Para administração do teste existem três fases: 1ª) cópia: reprodução dos desenhos; 2ª) elaboração: é solicitado que o sujeito mude o desenho, fazendo este da forma que mais o agradar; 3ª) associação: mostra-se ao sujeito cada desenho da 1ª e 2ª fase, perguntando o que lhe recorda cada uma delas (NUNES; FERREIRA; LOPES,2007). Sistema Pascal e Suttel O trabalho da Pascal e Suttel apareceu em 1951 como uma abordagem psicométrica para adultos. É um sistema de avaliação planejado para pacientes psiquiátricos com idades entre 15 e 50 anos, com inteligência normal, capacidade para reproduzir os desenhos sem erros e sem dificuldades cognitivas (CUNHA, 2000). Seu objetivo é investigar a capacidade de ajustamento emocional; ou seja, a capacidade integradora ou força do Ego, conforme nomeiam os autores. O desempenho do adulto no teste seria um espelho de suas atitudes diante da realidade; sendo bastante utilizado para obter diagnóstico diferencial (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). A forma de aplicação inclui os nove desenhos elaborados por Bender. Comparando protocolos de indivíduos normais com protocolos de pacientes psiquiátricos, os autores elaboraram uma lista de 150 desvios, sendo um sistema bastante complexo de avaliação; a qual se refere à contagem dos erros na reprodução dos desenhos. Considera-se que, quanto maior o escore, maior a probabilidade de a pessoa ter algum distúrbio psiquiátrico (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). Sistema Koppitz Método criado por Koppitz (1961/1989) que teve como objetivo principal fazer uma escala de maturação viso-motora infantil, mas também foi utilizado como forma de www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 143 avaliação do desempenho escolar, construto emocional e possibilitou a realização do diagnóstico de lesão cerebral para crianças de 5 a 10 anos (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). Seu sistema de pontuação e análise de possíveis comprometimentos neurológicos é o mais aceito e utilizado pelos psicólogos brasileiros, em casos de avaliação infantil (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). Porém, o Conselho Federal de Psicologia não o tem na relação dos testes aceitos. Sua forma de aplicação é individual. Sendo entregue duas folhas de papel, um lápis e uma borracha (esta não deve ser estimulada e nem impedida de ser usada). Os nove cartões são mostrados à criança, um de cada vez, e é pedido que ela os copie, um a um, fazendo o mais parecido que conseguir com o desenho do cartão. Não há tempo limite para a realização da tarefa. Caso a criança faça alguma pergunta, as respostas devem ser neutras e seu comportamento deve ser observado e anotado (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). O sistema de pontuação de Koppitz classifica a presença ou a ausência de indicadores orgânicos, além de apontar a partir de qual idade estes erros são significativos ou altamente significativos para lesão cerebral. Os demais erros são considerados indicativos de imaturidade, comparados à idade cronológica da criança (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). Sistema de Pontuação Gradual (B-SPG) No Brasil, o sistema desenvolvido por Koppitz era frequentemente empregado até a promulgação das Resoluções do Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2001, 2003), que estabeleceu princípios sobre a elaboração, o uso e a comercialização de testes psicológicos. Assim, o Bender não podia mais ser usado para fins diagnósticos, por não possuir estudos de validade, precisão e normatização com amostras brasileiras, reafirmando a necessidade de novas pesquisas. Possivelmente isso justificou o desenvolvimento do teste Gestáltico Viso-motor de Bender – Sistema de Pontuação Gradual, publicado (B-SPG) por Sisto, Noronha e Santos (2006), tendo como embasamento os pressupostos teóricos de Bender (1955) (NORONHA; SANTOS; SISTO, 2007). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 144 Este sistema se destina a crianças com idade entre 6 e 10 anos. Sua aplicação utiliza as mesmas nove figuras propostas por Bender e pode ser coletiva (máximo 30 crianças e utilizando-se transparências) ou individual, e esta nunca deve ser interrompida e não existe tempo mínimo ou máximo para a realização da tarefa (NORONHA; SANTOS; SISTO, 2007; NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). O rapport segue o modelo de Koppitz: os sujeitos devem copiar os desenhos, um a um, da forma mais parecida à do original. A diferença é que não é permitido uso de borracha (NUNES, FERREIRA, LOPES, 2007). O objetivo do Sistema de Pontuação Gradual é avaliar a maturidade percepto- motora, seguindo os pressupostos de Bender (1955), buscando estabelecer o nível de maturação da função gestáltica viso-motora através da reprodução dos desenhos (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). O faz a partir da avaliação da distorçãode forma, compreendida como o desrespeito aos aspectos estruturais do desenho, de modo tal que pontos, linhas, retas, curvas e ângulos são desenhados sem precisão (NORONHA; SANTOS; SISTO, 2007). Os critérios de correção são bastante diferentes dos sistemas anteriores, pois avalia somente o critério distorção da forma e pretende analisar a reprodução dos sujeitos com maior refinamento e de forma quantitativa (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). O sistema de correção atribui escores de zero a três, sendo zero o de melhor reprodução e três pontos o de pior. Cada figura pode ser pontuada apenas uma vez. Foi produzida uma ficha dividindo colunas para soma, figuras, pontuação e idades, a fim de facilitar a interpretação dos resultados. As pontuações possíveis para cada figura estão separadas por cores: azul – erros mais frequentes; laranja – média de erros; e verde – menor frequência de erros. Na coluna idade aparece a porcentagem de erros do item por idade, possibilitando uma comparação do desempenho da criança avaliada com outras da mesma idade. Assim é possível observar as defasagens e os adiantamentos do traçado da criança, constatando o seu ritmo de desenvolvimento representacional (NUNES; FERREIRA; LOPES, 2007). www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 145 Desvios no Bender relacionados com transtornos no desenvolvimento neuropsicológico e disfunções cerebrais Como se trata de um teste que envolve percepção e coordenação neuromuscular, pressupõe-se que “dependa de certas áreas intactas de integração cortical, para sua execução satisfatória” (CLAWSON, 1980), contudo, não há uma entidade única de lesão cerebral. Há vários graus e tipos de comprometimento, além de existirem outros fatores individuais que concorrem para dificultar um diagnóstico referencial, a partir de um teste psicológico (CUNHA, 2000). Ao se avaliar um Bender, para triagem de disfunção cerebral, julga-se o grau de precisão na reprodução dos desenhos, bem como na reprodução global da figura. Portanto, levam-se hipóteses que têm relação com o funcionamento viso-perceptivo e construcional. Consequentemente, a hipótese de disfunção cerebral encontra apoio numa primeira hipótese de que existe um déficit numa função cognitiva. Todavia, dificuldades na realização da tarefa podem ocorrer não só por problemas no Sistema Nervoso Central, no desenvolvimento neuropsicológico, como por fatores emocionais (CUNHA, 2000). 6.3.2 Testes Projetivos Segundo Silva (2008), os testes projetivos requerem respostas livres; sua apuração é ambígua, sujeita aos vieses de interpretação do avaliador. O psicólogo trabalha com tarefas pouco ou nada estruturadas, a apuração das respostas deixa margem para interpretações subjetivas do próprio avaliador, e os resultados são totalmente dependentes da sua percepção, dos seus critérios de entendimento e bom senso. Os testes cuja metodologia é projetiva são aqueles cujas normas são qualitativas, ou seja, são testes menos objetivos. O resultado se expressa por meio de uma tipologia. Por terem uma avaliação qualitativa, seus elementos (itens de teste) não podem ser medidos em separado. A constância de determinadas características avaliadas no teste, como um todo, que dará a relativa certeza de um diagnóstico (exemplo: testes de personalidade em geral) (ESTÁCIO, 2008). Os testes de personalidade, como integrantes dos projetivos, medem as características de personalidade propriamente ditas, que não se referem aos aspectos cognitivos da conduta. Exemplo: estabilidade emocional, atitude, interesse, sociabilidade www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 146 etc. Porém, sabe-se que a personalidade de um indivíduo muda constantemente, portanto, o que realmente é medido são as características mais ou menos constantes da personalidade, mas, mesmo assim, em determinado momento (ESTÁCIO, 2008). Abaixo alguns testes projetivos: Teste de Apercepção Temática (TAT) Parecer do CFP TAT TAT (TESTE DE APERCEPÇÃO TEMÁTICA) 1995 CASA DO PSICÓLOGO Favorável O TAT foi idealizado por Murray e Morgan em 1935, porém, só foi lançado em 1943. Contou com várias formas de interpretação, entre elas a de Bellak, porém, hoje só é considerada a forma de correção proposta por Murray (CUNHA, 2000). O teste pretende revelar impulsos, emoções e sentimentos conflituosos de sujeitos de ambos os sexos com idade variante entre 14 e 40 anos. Seu valor está presente principalmente no fato de tornar visíveis tendências subjacentes inibidas que o sujeito não deseja aceitar ou que não tem condições de admitir por serem inconscientes (CASA DO PSICÓLOGO, 2009). Tais relatos se fazem a partir de pranchas que são apresentadas aos sujeitos. Utiliza-se um total de 30 pranchas com gravuras e uma em branco. Destas, 11 são aplicadas ambos os sexos e todas as idades. Além destas, recomenda-se aplicar as seguintes pranchas para cada sexo e faixa etária (FREITAS, 2000): - Homens adultos as pranchas 3RH, 6RH, 7RH, 8RH, 9RH, 12H, 13H, 17RH e 18 RH. - Homens jovens: 3RH, 6RH, 7RH, 8RH, 9RH, 12RM, 13R, 17RH e 18RH. - Mulheres adultas: 3MF, 6MF, 7MF, 8MF, 9MF, 12F, 13HF, 17MF, e 18MF. - Mulheres jovens: 3MF, 6MF, 7MF, 8MF, 9MF, 12RM, 13M, 17MF, 18MF. Sendo assim, geralmente são aplicadas em cada sujeito uma média de 20 pranchas (11 universais e 9 selecionadas conforme sexo e faixa etária), podendo ser utilizadas duas sessões para aplicação. No início da aplicação, é dada uma instrução sobre como proceder com o relato. Murray (1977 apud FREITAS, 2000) propõe as seguintes instruções básicas: “Este é um teste que consiste em contar histórias. Aqui tenho algumas lâminas que vou lhe mostrar. Quero que você me conte uma história sobre www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 147 cada uma. Você me dirá o que aconteceu antes e o que está acontecendo agora. Explique o que sentem e pensam os personagens, e como terminará. Pode inventar a história que quiser”. Cada uma das pranchas tem um significado específico e explora questões específicas, podendo explorar a estrutura da personalidade subjacente, levando o sujeito a comunicar imagens, sentimentos, ideias e lembranças vividas diante de cada um desses enfrentamentos (FREITAS, 2000). Para analisar o TAT, é preciso fazer uma análise do discurso, tanto em seu aspecto formal como de seu conteúdo. É importante também que o psicólogo faça um exame das histórias do sujeito e de sua conduta durante a aplicação do teste (FREITAS, 2000). Para análise do conteúdo da história, é preciso que esta seja desmembrada nos conteúdos expressos no tema central, para isto, segundo Freitas (2000), é preciso que se faça: - Identificação do herói da história: que seria com quem o sujeito se identifica. As relações que se estabelecem entre o herói e outros personagens podem refletir atitudes conscientes ou inconscientes do sujeito frente a estes, ou revelar o papel que estes desempenham na vida do sujeito (frustração, estimulação etc.). É importante que se identifique os traços e as tendências dos heróis (superioridade, inferioridade, extroversão, introversão), bem como atitudes frente à autoridade (submissão, medo, agressão, dependência, gratidão etc.). - Reconhecimento de seus motivos, tendênciase necessidades: são identificados na conduta do herói, como ações de iniciativa em relação a pessoas, objetos, situações; ou reação do herói às ações de outras pessoas. Exemplos: realização, aquisição, aventura, curiosidade, construção, passividade, agressão, autonomia etc. - Exploração dos estados interiores do herói: procura-se avaliar os afetos que se manifestam e em que direção e forma são conduzidos. Também se deve analisar como surgem, como se resolvem e qual a intensidade dos conflitos. - Exame das pressões ambientais: identificar e avaliar as pressões que o herói percebe como vindas do ambiente e os efeitos destas. As pressões podem facilitar ou impedir a satisfação da necessidade, representando, assim, a forma como o sujeito vê ou interpreta seu meio. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 148 - Desfecho da história: indica como o herói resolve suas dificuldades, conflitos e como trabalha suas necessidades internas e enfrenta as pressões do ambiente. A partir do desfecho pode-se identificar o êxito ou fracasso na resolução das dificuldades, observando a proporção entre os finais felizes e infelizes, otimistas e pessimistas, mágicos e realistas ou os convencionais. Examina-se também se o herói demonstra insights das suas dificuldades, se consegue chegar a conclusões sobre estas. Além disso, permite avaliar a adequação ou não à realidade, fornecendo alguns dados para a formulação terapêutica. Pirâmides Coloridas de Pfister23 Parecer do CFP PFISTER AS PIRÂMIDES COLORIDAS DE PFISTER 2005 CETEPP Favorável O Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister (TPC) foi desenvolvido por Marx Pfister em 1946, e publicado em 1951 por Robert Heiss e Hilldergard Hiltmann, psicólogos da Universidade de Freiburg. Esse teste pode ser utilizado para a realização de psicodiagnóstico diferencial. Suas aplicações devem ser individual e demora em torno de 15 minutos. É um teste projetivo, com o objetivo de identificar informações acerca da dinâmica emocional dos indivíduos, e aspectos do funcionamento cognitivo. Utiliza-se de técnica não verbal, de fácil execução e aplicação tanto às crianças quanto para adultos. Tem sido utilizada, freqüentemente, em seleção de pessoas e perícia, mas seu uso no contexto clínico costuma ser também muito valorizado. O teste consiste, basicamente, de um jogo de quadrículos coloridos contendo 10 cores subdivididas em 24 tonalidades, um jogo de três cartões na cor parda contendo o esquema de uma pirâmide, folha de registro e mostruário de cores. Por se tratar de um teste de fácil aplicação, que permite que o examinando sinta- se mais seguro (pois consegue cumprir as instruções com sucesso), orienta-se que o mesmo seja utilizado como teste introdutório dentro de uma bateria de testes. 23 (Fonte: http://www.canalpsi.psc.br/canalpsi_revista/artigo05.htm) www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 149 6.3.3 Alguns Testes Psicológicos Teste de Zulliger24 Parecer do CFP O TESTE DE ZULLIGER NO SISTEMA COMPREENSIVO ZSC – FORMA INDIVIDUAL 2007 LAPSAM E LABAPE Favorável TESTE DE ZULLIGER – FREITAS 1996 CASA DO PSICÓLOGO Desfavorável ZULLIGER TESTE DE ZULLIGER – VAZ 1998 CASA DO PSICÓLOGO Favorável O suíço Hans Zulliger (1895–1965) em 1942 formula esse teste pois, precisava selecionar rapidamente um alto contingente de soldados para o exército suíço. Zulliger foi influenciado diretamente pelas idéias de Freud, Pfister e de Rorschach, de quem se tornou discípulo. Porém, “O TESTE DE ZULLIGER NÃO É UM TESTE DE RORSCHACH ABREVIADO”. Apesar de possuírem a mesma natureza, cada técnica é completa por si só. A aplicação desse teste pode ser individual ou coletiva, e ele é utilizado para psicodiagnósticos, avaliações de personalidade, seleção de pessoal, avaliação de desempenho, etc. O Teste de Zulliger constitui-se de três pranchas: Prancha I - Aspectos primitivos da personalidade Prancha II - Afetividade / Emoções Prancha III - Relacionamento É a interpretação integrada das pranchas que possibilita o entendimento aprofundado da personalidade humana, em seus aspectos afetivo-emocionais e intelectuais, de relacionamento interpessoal, etc. 24 (Fonte: http://www.estacio.br/site/psiconsult/cursos/2003_1/visaogeral_testepsicologicos.pdf) www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 150 Psicodiagnóstico Miocinético (PMK)25 Parecer do CFP PMK – PSICODIAGNÓSTICO MIOCINÉTICO NOVOS ESTUDOS 2009 2009 VETOR Em avaliação PMK PMK (PSICODIAGNÓSTICO MIOCINÉTICO) 2001 VETOR Favorável O PMK foi criado por Emílio Mira y López (Cubano nascido em 1896) e foi a partir de 1849 que ele passou a ser mais divulgado. Trata-se de um teste utilizado para avaliar a personalidade e também é considerado um instrumento importante no diagnóstico de problemas toxicológicos e neuro-vegetativos. É usualmente utilizado na avaliação de candidatos a motorista. Esse teste verifica aspectos como: - Tônus vital (elação e depressão); - Agressividade (hetero e auto); - Reação vivencial (extra e intratensão); - Emotividade; - Dimensão tensional (excitabilidade e inibição); - Predomínio tensional (impulsividade e rigidez/controle). O teste, originalmente, é constituído de 8 folhas. No Brasil, a forma resumida é mais utilizada (folhas 1, 2, 5 e 6), porém, para uma avaliação mais profunda é recomendado o uso do teste em sua forma completa: 1- Lineogramas (vertical, horizontal e sagital); 2 - Zigue-zague (sagital); 3 - Escadas e Círculos (verticais); 4 - Cadeias (verticais e sagitais); 5 - Paralelas (egocífugas sagitais) e Us (verticais); 6 - Paralelas (egocípetas sagitais) e Us (sagitais). 25 (Fonte: http://www.estacio.br/site/psiconsult/cursos/2003_1/visaogeral_testepsicologicos.pdf) www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 151 É muito importante que a avaliação do teste seja realizada com cuidado, e não no “olhômetro”, e por profissional bem preparado. A Editora Vetor fornece, gratuitamente, para psicólogos, um software que facilita esta avaliação. Teste Palográfico26 Parecer do CFP O TESTE PALOGRÁFICO NA AVALIAÇÃO DA PERSONALIDADE 2004 VETOR Favorável PALOGRÁFICO TESTE PALOGRÁFICO 2002 VETOR Desfavorável O teste PLG apresenta algumas semelhanças com os testes “PMK” (descrito anteriormente), “Tapping Test” e “Teste Grafoescritural”. Trata-se de uma técnica projetiva para avaliação da personalidade através da expressão gráfica (traçados). O Prof. Salvador Escala Milá (Espanha) foi quem elaborou o teste. No Brasil, foi o Prof. Agostinho Minicucci que realizou estudos a respeito da validação técnica desse teste, e foi na década de 1970 que esse teste passou a ser mais difundido. Através dos traços, projetamos no papel, de uma forma simbólica, características de nossa personalidade. Todos os movimentos, todos os gestos humanos estãocarregados de significado e concorrem à expressão da personalidade como um todo. É avaliando os traçados de uma forma cuidadosa, e com a devida preparação do avaliador, que obtém-se a classificação dessas características (da personalidade)27. Teste COMREY (CPS)28 26 (Fonte: http://www.estacio.br/site/psiconsult/cursos/2003_1/visaogeral_testepsicologicos.pdf) 27 Para saber mais sobre este teste indica-se os livros do Augustinho Minicucci, todos encontrados na Editora Vetor, que também fornece gratuitamente um software para psicólogos que permite uma “pré-avaliação” do teste. 28 (Fonte: http://www.vetoreditora.com.br) www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 152 Parecer do CFP CPS CPS (ESCALAS DE PERSONALIDADE DE COMREY) 2003 VETOR Favorável Criado por Comrey, Andrew L., adaptado por Aroldo Rodrigues e revisado por Flavio Rodrigues Costa, esse teste tem o objetivo de medir e explicar as principais características de personalidade. Avalia 8 dimensões da personalidade. Dentre elas: - Confiança e Atitude defensiva; - Ordem e Falta de compulsão; - Conformidade social e Rebeldia; - Atividade e Passividade; - Estabilidade e Instabilidade emocional; - Extroversão e Introversão; - Masculinidade e Feminilidade; - Empatia e Egocentrismo. Desde seu aparecimento em português o teste tem sido bastante utilizado em orientação vocacional, psicodiagnóstico, pesquisa e agora a nova versão destina-se com maior precisão para processos seletivos grandes e pequenos, tais como: concursos públicos e vestibulares. A área de recursos humanos, porém, é o setor em que o emprego do CPS tem apresentado os melhores índices de aproveitamento e compatibilidade. Sua capacidade de avaliação rápida e objetiva de diversos fatores da personalidade ajuda os psicólogos a selecionarem candidatos e a recolocarem, com maior eficiência e ajustamento, funcionários eventualmente incompatíveis, sob aspectos de personalidade, com suas atuais funções. O uso do CPS, embora não exclusivamente, é recomendado para pessoas de qualquer idade com nível de escolaridade acima do 1º grau completo. Existe atualmente uma versão informatizada, onde depois da aplicação você obtém uma correção automática do teste. A aplicação deste teste pode ser individual ou coletiva, e a duração do mesmo é em média de 30 a 40 minutos, porém, não há limite de tempo para a aplicação. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 153 Inventário de Habilidades Sociais (IHS)29 Parecer do CFP IHS IHS (INVENTÁRIO DE HABILIDADES SOCIAIS) 2001 CASA DO PSICÓLOGO Favorável O Inventário de Habilidades Sociais (IHS) foi elaborado por Del-Prette e é usado para identificar o desempenho social da pessoa em diferentes contextos: trabalho, escola, família, etc. É utilizado na clínica, em escolas, no processo de seleção de pessoas e para treino profissional. O seu tempo de aplicação é de, em média, 30 minutos. Esse teste pode ser aplicado individual ou coletivamente, em indivíduos de 15 a 25 anos. De acordo com o site http://www.psicologia.com.pt/instrumentos/testes, entre as principais características desse teste, destacam-se: a) diversidade de situações apresentadas nos itens, coerentemente com o conceito de habilidades sociais, que se agrupam em classes gerais de desempenho, indispensáveis para relações satisfatórias e bem sucedidas; b) características psicométricas bastante favoráveis. Questionário de Avaliação Tipológica (QUATI)30 Parecer do CFP QUATI QUATI (QUESTIONÁRIO DE AVALIAÇÃO TIPOLÓGICA - VERSÃO II) 2000 VETOR Favorável O QUATI é um questionário de avaliação da personalidade baseado na teoria dos tipos psicológicos de Jung. Surgiu da necessidade de ter um instrumento de avaliação tipológica adequada à realidade brasileira. 29 (Fonte: http://www.psicologia.com.pt/instrumentos/testes) 30 (Fonte: www.dipsi.com.br e http://www.vetoreditora.com.br) www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 154 Pode ser utilizado em processos de seleção de pessoal, avaliação de potencial, psicodiagnóstico, entre outros. O tempo de aplicação do teste gira em torno de 45 minutos. Ele pode ser aplicado individual ou coletivamente. O teste apresenta três categorias, utilizadas na elaboração de 16 tipos psicológicos: - Atitudes: Extroversão e Introversão; - Funções Perceptivas: Intuição e Sensação; e - Funções Avaliativas: Pensamento e Sentimento. Existe atualmente uma versão informatizada, na qual, depois da aplicação, você pode obter a correção automática do teste. Rorschach31 Parecer do CFP GUIA PARA O USO DA FOLHA DE APURAÇÃO DO PROTOCOLO DE RORSCHACH 1978 CEPA Desfavorável O RORSCHACH: TEORIA E DESEMPENHO (SISTEMA KLOPFER); O RORCSCHACH: TEORIA E DESEMPENHO II (SISTEMA KLOPFER) 1997/2006 1. EDITORA MANOLE; 2. CASA DO PSICÓLOGO Favorável RORSCHACH - SISTEMA DA ESCOLA FRANCESA (1. O PSICODIAGNÓSTICO DE RORSCHACH EM ADULTOS: ATLAS, NORMAS E REFLEXÕES. 2. A PRÁTICA DO RORSCHACH) 1998 1. CASA DO PSICÓLOGO 2. VETOR Favorável RORSCHACH RORSCHACH CLÍNICO 2002 SOCIEDADE DE Favorável 31 (Fonte: http://www.rorschachonline.com/rorschach/pt/history.aspx) www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 155 RORSCHACH DE SÃO PAULO RORSCHACH SISTEMA COMPREENSIVO (MANUAL DE CLASSIFICAÇÃO E MANUAL DE INTERPRETAÇÃO) 1999 CASA DO PSICÓLOGO Favorável O Teste de Rorschach foi elaborado por Hermann Rorschach, em 1921. Esse teste é usualmente utilizado para avaliar a dinâmica da peronalidade. Pode ser utilizado na clínica, em processo de seleção de pessoas, em pesquisas, na área jurídica, no âmbito educacional, etc. O teste consiste na utilização de 10 lâminas com borrões de tinta que devem ser associadas a imagens mentais. As lâminas são apresentadas uma a uma, e então é solicitado ao sujeito que faça associações. As respostas emitidas pelo sujeito trazem dados que representam a realidade do mesmo, e que devem ser interpretados pelo psicólogo, levando em conta aspectos de atenção, percepção, julgamento crítico, entre outros. Esse teste não é aplicado coletivamente, somente individualmente, mas pode ser aplicado a qualquer pessoa (desde que tenha condições de se expressar verbalmente e que tenha suficiente acuidade visual), de qualquer faixa etária. O instrumento permite avaliar uma gama ampla e profunda quer das características pessoais, quer da economia emocional do examinando. Inventário Fatorial de Personalidade (IFP)32 Parecer do CFP IFP IFP (INVENTÁRIO FATORIAL DE PERSONALIDADE) 1997 CASA DO PSICÓLOGO Favorável 32 (Fonte: http://www.sceltarh.com.br/csv_ifp.html)www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 156 INVENTÁRIO FATORIAL DE PERSONALIDADE REVISADO – IFP – R (VERSÃO REDUZIDA) 2001 LABPAM Favorável O IFP foi lançado em 1997. Esse teste é usualmente utilizado para medir aa variáveis da personalidade “normal”. É utilizado em processo de seleção de pessoal, pesquisas, ensino e aconselhamento, e pode ser aplicado individual ou coletivamente. De acordo com o site http://www.sceltarh.com.br/csv_ifp.html “O IFP foi uma avaliação profundamente estudada e examinada por meio de vários instrumentos, dentre os quais o Teste de Apercepção Temática, o que garante ao inventário uma base com larga investigação científica” (p.1). 6.4 Técnicas de entrevista psicológica33 Tipos de Entrevista A entrevista psicológica, segundo Cunha (2000), é um processo bidirecional de interação entre duas ou mais pessoas com o propósito previamente fixado no qual uma delas, o entrevistador, procura saber o que acontece com a outra, o entrevistado, procurando agir conforme esse conhecimento. Para Bleger (1980), a entrevista psicológica é “um campo de trabalho no qual se investiga a conduta e a personalidade de seres humanos” (p. 21). “Enquanto técnica, a entrevista tem seus próprios procedimentos empíricos através dos quais não somente se amplia e se verifica, mas, também, simultaneamente, absorve os conhecimentos científicos disponíveis” (SILVA, s.d). 33 Texto extraído da Apostila Temática de Psicodiagnóstico e Testes, elaborada Luciana Esgalha Carnier, Psicóloga formada pela Unesp – Bauru/SP. Possui aprimoramento em Psicologia Hospitalar em Pediatria. Mestranda em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem, Unesp – Bauru/SP – Linha de Pesquisa: Desenvolvimento: Comportamento e Saúde. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 157 De acordo com Tavares (2000), as entrevistas podem ser classificadas em relação ao aspecto formal em: estruturada, semiestruturada e livre de estruturação. Entrevistas estruturadas: Têm pouca utilidade na área clinica. Ela é mais utilizada em pesquisas que se destinam basicamente ao levantamento de informações. É utilizada, praticamente, como um questionário. Entrevistas semiestruturadas: Têm um roteiro com tópicos pré-estabelecidos. São assim denominadas porque o entrevistador tem clareza de seus objetivos, de que tipo de informação é necessária para atingí-los, de como essa informação deve ser obtida, quando ou em que sequência, em que condições devem ser investigadas e como devem ser considerada. São de grande utilidade em settings, em que é necessária ou desejável a padronização de procedimentos e registro de dados, como nas clínicas sociais, na saúde pública, na psicologia hospitalar. Entrevistas livres de estruturação: Não têm o roteiro pré-estabelecido, no entanto têm determinada estruturação, pois têm suas metas, o papel de quem a conduz e os procedimentos pelos quais é possível atingir seus objetivos. Segundo Tavares (2000), todas as entrevistas requerem uma etapa de apresentação da demanda, de reconhecimento da natureza do problema e da formulação de alternativas de solução e de encaminhamento. Elas podem ser classificadas em relação aos seus objetivos, conforme veremos a seguir. Entrevista de Triagem O objetivo principal é avaliar a demanda do sujeito e fazer encaminhamento. É fundamental para avaliar a gravidade da crise, pois, nesses casos, torna-se necessário ou imprescindível o encaminhamento para um apoio medicamentoso. Considerada um processo de triagem, no qual se procura obter informações suficientes para se fazer o encaminhamento do entrevistado para profissional e/ou tratamento adequado. Anamnese É um tipo de entrevista que tem a intenção de ser um ponto inicial para a obtenção de um diagnóstico. Em outras palavras, é uma entrevista que busca relembrar www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 158 todos os fatos relevantes da vida do paciente e que se relacionam direta ou indiretamente à queixa do mesmo. O objetivo principal é o levantamento detalhado da história de desenvolvimento da pessoa, principalmente sua infância. Uma anamnese, como qualquer outro tipo de entrevista, possui formas ou técnicas corretas de serem aplicadas. Ao seguir as técnicas, pode-se aproveitar ao máximo o tempo disponível para o atendimento. Abaixo, apresentaremos um roteiro com as etapas da anamnese apresentado por Jobim Lopes (s.d., texto adaptado): - IDENTIFICAÇÃO: Nome do paciente; idade em anos redondos (ex. “35 anos”); sexo; cor; nacionalidade; grau de instrução; profissão; estado civil – não necessariamente a situação legal, mas se o paciente se considera ou não casado, por exemplo, numa situação de coabitação; religião; número do prontuário. - QUEIXA PRINCIPAL (QP): Explicita-se o motivo pelo qual o paciente recorre ao Serviço em busca de atendimento. Caso o paciente traga várias queixas, registra-se aquela que mais o incomoda e, preferencialmente, em não mais de duas linhas. - HISTÓRIA DA DOENÇA ATUAL (HDA): Aqui se trata apenas da doença psíquica do paciente. Registram-se os sintomas mais significativos, a época em que começou o distúrbio; como vem se apresentando, sob que condições melhora ou piora. Indaga-se se houve instalação súbita ou progressiva, se algum fato desencadeou a doença ou episódios semelhantes que pudessem ser correlacionados aos sintomas atuais. Averigua-se se já esteve em tratamento, como foi realizado e quais os resultados obtidos, se houve internações e suas causas, bem como o que sente atualmente. Pede- se ao paciente que explique, o mais claro e detalhado possível, o que sente. Aqui também são anotados, se houver, os medicamentos tomados pelo paciente (suas doses, duração e uso). Caso não tome remédios, registra-se: “Não faz uso de medicamentos”. -HISTÓRIA PESSOAL (HP): Coloca-se, de forma sucinta, separando-se cada tópico em parágrafos, dados sobre a infância, educação, escolaridade, relacionamento com os pais, relacionamento social, aprendizado sobre sexo etc. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 159 Apreciam-se as condições: - De nascimento e desenvolvimento: gestação (quadros infecciosos, traumatismos emocionais ou físicos, prematuridade ou nascimento a termo), parto (normal, uso de fórceps, cesariana), condições ao nascer. Se o paciente foi uma criança precoce ou lenta, dentição, deambulação (ato de andar ou caminhar), como foi o desenvolvimento da linguagem e a excreta (urina e fezes). - Sintomas neuróticos da infância: medos, terror noturno, sonambulismo, sonilóquio (falar dormindo), tartamudez (gagueira), enurese noturna, condutas impulsivas (agressão ou fuga), chupar o dedo ou chupeta (até que idade), ser uma criança modelo, crises de nervosismo, tiques, roer unhas. - Escolaridade: anotar começo e evolução, rendimento escolar, especiais aptidões e dificuldades de aprendizagem, relações com professores e colegas, jogos mais comuns ou preferidos, divertimentos, formação de grupos, amizades, popularidade, interesse por esportes, escolha da profissão. - Lembrança significativa: perguntar ao paciente qual sua lembrança antiga mais significativaque consegue recordar. O objetivo é observar a capacidade de estabelecer vínculos, além do auxílio à compreensão da ligação passado-presente. - Puberdade: época de aparição dos primeiros sinais; nas mulheres, a história menstrual (menarca: regularidade, duração e quantidade dos catamênios; cólicas e cefaleias; alterações psíquicas, como nervosismo, emotividade, irritabilidade, depressão; menopausa, última menstruação). - História sexual: aqui se registram as primeiras informações que o paciente obteve e de quem; as primeiras experiências masturbatórias; início da atividade sexual; jogos sexuais; atitude ante o sexo oposto; intimidades, namoros; experiências sexuais extraconjugais; homossexualismo; separações e recasamentos; desvios sexuais. - Trabalho: registrar quando o paciente começou a trabalhar, diferentes empregos e funções desempenhadas (sempre em ordem cronológica), regularidade nos empregos e motivos que levaram o paciente a sair de algum deles, satisfação no trabalho, ambições e circunstâncias econômicas atuais, aposentadoria. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 160 - Hábitos: uso do álcool, fumo ou quaisquer outras drogas. Caso não faça uso, assinalar: “Não faz uso de álcool, fumo ou quaisquer outras drogas”. - HISTÓRIA FAMILIAR (HF): O item deve abrigar as relações familiares: - Pais: idade; saúde; se mortos, causa e data do falecimento; ocupação; personalidade; recasamentos, se houver, de cada um deles. Verificar se há caso de doença mental em um deles ou ambos. - Irmãos: idade; condições maritais; ocupação; personalidade. Indagar se há caso de doença mental. - Cônjuge: idade, ocupação e personalidade; compatibilidade; vida sexual; frigidez ou impotência; medidas anticoncepcionais. - Filhos: número; idades; saúde; personalidade. - Lar: neste quesito, descrevem-se, em poucas palavras, a atmosfera familiar, os acontecimentos mais importantes durante os primeiros anos e aqueles que, no momento, estão mobilizando toda a família; as relações dos parentes entre si e destes com o paciente. - HISTÓRIA PATOLÓGICA PREGRESSA (HPP): Nesta etapa, investigam-se os antecedentes mórbidos do paciente. Devem constar somente as doenças físicas. Viroses comuns da infância, desmaios, convulsões e sua frequência, doenças, operações, acidentes, traumatismos (sintomas, datas, duração), internações e tratamentos. - EXAME PSÍQUICO (EP): Neste ponto da anamnese, cessa o relato do paciente e passa-se a ter o registro da observação do entrevistador ou terapeuta, no momento da(s) entrevista(s). No exame psíquico, não se usam termos técnicos; o que se espera que seja registrado aqui são aspectos objetivos que justifiquem os termos técnicos que serão empregados posteriormente na súmula. Os diversos aspectos que integram o exame psíquico são: - Apresentação: Refere-se à impressão geral que o paciente causa no entrevistador. Compreende aspectos como aparência; atividades psicomotoras e comportamento; atitude para com o entrevistador e atividade verbal. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 161 - Consciência: a capacidade do indivíduo de dar conta do que está ocorrendo dentro e fora de si mesmo. Consciência, aqui, será a indicação do processo psíquico complexo, que é capaz de integrar acontecimentos de um determinado momento numa atividade de coordenação e síntese. Na prática, a consciência se revela na sustentação, coerência e pertinência das respostas dadas ao entrevistador. Cabe ao entrevistador avaliar o grau de alteração da consciência, observando se o paciente faz esforço para manter o diálogo e levar a entrevista a termo, se a confusão mental interfere na exatidão das respostas, que se fazem com lentidão, ou se o paciente chega mesmo a cochilar, adormecer no curso da entrevista. - Orientação: A orientação pode ser inferida da avaliação do estado de consciência e encontra-se intimamente ligada às noções de tempo e de espaço. Em geral, o primeiro sentido de orientação que se perde é o do tempo, depois o do espaço, que envolve deslocamento e localização e, num estado mais grave, a desorientação do próprio eu (identidade e corpo). - Atenção: Destaca-se a vigilância (consciência sem foco, difusa, com atenção em tudo ao redor) e a tenacidade (capacidade de se concentrar num foco). O paciente não pode ter essas duas funções concomitantemente exaltadas (o paciente maníaco, por exemplo, é hipervigil e hipotenaz), porém, pode tê-las rebaixadas, como no caso do sujeito autista, esclerosado ou esquizofrênico catatônico. - Memória: A função mnésica pode ser avaliada pela rapidez, precisão e cronologia das informações que o próprio paciente dá, assim como a observação da capacidade de fixação. O exame da memória passada (retrógrada) faz-se com perguntas sobre o passado do paciente, datas de acontecimentos importantes. Contradições nas informações podem indicar dificuldades. Com relação à memória recente (anterógrada), podem ser feitas perguntas rápidas e objetivas, como “O que você fez hoje?” ou dizer um número de 4 ou 5 algarismos ou uma série de objetos e pedir para que o paciente repita após alguns minutos, se houver necessidade. Para o exame da memória de retenção pode-se pedir ao paciente que repita algarismos na ordem direta e depois inversa. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 162 - Inteligência: É mais para se constatar se o paciente está dentro do chamado “padrão de normalidade”. Interessa a autonomia que o paciente tenha, a sua capacidade laborativa. - Sensopercepção: É o atributo psíquico no qual o indivíduo reflete subjetivamente a realidade objetiva. Fundamenta-se na capacidade de perceber e sentir. - Pensamento: Este item da anamnese é destinado à investigação do curso, forma e conteúdo do pensamento. Aqui se faz uma análise do discurso do paciente. - Linguagem: Neste tópico, o que irá nos interessar é o exame da linguagem falada e escrita. Sua normalidade e alterações estão intimamente relacionadas ao estudo do pensamento, pois é pela linguagem que ele passa ao exterior. - Consciência do Eu: O terapeuta orientará sua entrevista no sentido de saber se o paciente acha que seus pensamentos ou atos são controlados por alguém ou forças exteriores, se se sente hipnotizado ou enfeitiçado, se alguém lhe rouba os pensamentos, se existe eletricidade ou outra força que o influencie, se pode transformar-se em pedra ou algo estático, se sente que não existe ou se é capaz de adivinhar e influenciar os pensamentos dos outros. - Afetividade: Pesquisa-se estados de euforia, tristeza, irritabilidade, angústia, ambivalência e labilidade afetivas, incontinência emocional etc. Observa-se, ainda, de maneira geral, o comportamento do paciente. - Humor: O humor é mais superficial e variável do que a afetividade. É o que se pode observar com mais facilidade numa entrevista; é uma emoção difusa e prolongada que matiza a percepção que a pessoa tem do mundo. É como o paciente diz sentir-se: deprimido, angustiado, irritável, ansioso, apavorado, zangado, expansivo, eufórico, culpado, atônito, fútil, autodepreciativo. - Psicomotricidade: A psicomotricidade é observada no decorrer da entrevista e se evidencia geralmente de forma espontânea. Averigua-se se está normal, diminuída, inibida, agitada ou exaltada, se opaciente apresenta maneirismos, estereotipias posturais, automatismos, flexibilidade cérea, ecopraxia ou qualquer outra alteração. www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 163 - Vontade: O indivíduo pode se apresentar normobúlico (vontade normal) ter a vontade rebaixada (hipobúlico), uma exaltação patológica (hiperbúlico), pode responder a solicitações repetidas e exageradas (obediência automática), pode concordar com tudo o que é dito, mesmo que sejam juízos contraditórios (sugestionabilidade patológica), realizar atos contra a sua vontade (compulsão), duvidar exageradamente do que quer (dúvida patológica), opor-se de forma passiva ou ativa, às solicitações (negativismo) etc. - Pragmatismo: Aqui, analisa-se se o paciente exerce atividades práticas, como comer, cuidar de sua aparência, dormir, ter autopreservação, trabalhar, conseguir realizar o que se propõe e adequar-se à vida. - Consciência da doença atual: Verifica-se o grau de consciência e compreensão que o paciente tem de estar enfermo, assim como a sua percepção de que precisa ou não de um tratamento. - SÚMULA PSICOPATOLÓGICA: Uma vez realizado e redigido o exame psíquico, deverão constar na súmula os termos técnicos que expressam a normalidade ou as patologias observadas no paciente. Trata-se de um resumo técnico de tudo o que foi observado na entrevista. - HIPÓTESE DIAGNÓSTICA: De acordo com o que pode ser observado durante a entrevista, propõe-se uma hipótese de diagnóstico, que poderá ser esclarecida, reforçada ou contestada por outro profissional ou exames complementares, se houver necessidade. -HIPÓTESE PSICODINÂMICA: A hipótese psicodinâmica e a atuação terapêutica deverão constar em folha à parte. Um entendimento psicodinâmico do paciente auxilia o terapeuta em seu esforço para evitar erros técnicos. Há que se ter uma escuta que vá além do que possa parecer à primeira vista. A compreensão da vida intrapsíquica do paciente é de fundamental importância no recolhimento de dados sobre ele. Uma avaliação psicodinâmica não prescinde da avaliação realizada na anamnese. Pode ser considerada, inclusive, como uma extensão valiosa e significativa dela. Entrevista Diagnóstica www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 164 É parte, na maioria das vezes, de um processo amplo de avaliação que inclui testagem psicológica. Visa estabelecer o diagnóstico e o prognóstico do paciente, bem como as indicações terapêuticas adequadas. Podem ser sindrômicas ou dinâmicas. De certo modo, toda entrevista clínica comporta elementos diagnósticos. Em outro sentido, empregamos o termo diagnóstico de modo mais específico, definindo-o como o exame e a análise explícitos ou cuidadosos de uma condição na tentativa de compreendê-la, explicá-la e, possivelmente, modificá-la. Implica descrever, avaliar, relaciona e inferir, tendo em vista a modificação daquela condição. A entrevista diagnóstica pode priorizar aspectos sindrômicos ou psicodinâmicos. O primeiro visa à descrição de sinais (como, por exemplo: baixa autoestima, sentimentos de culpa) e sintomas (humor deprimido, ideação suicida) para a classificação de um quadro ou síndrome (Transtorno Depressivo Maior). O diagnóstico psicodinâmico visa à descrição e à compreensão da experiência ou do modo particular de funcionamento do sujeito, tendo em vista uma abordagem teórica. Entrevista Clínica De acordo com Tavares (2000), “A entrevista clínica é um conjunto de processos de técnicas de investigação, de tempo delimitado, dirigido por um entrevistador treinado, que utiliza conhecimentos psicológicos, em uma relação profissional, com o objetivo de descrever e avaliar aspectos pessoais, relacionais ou sistêmicos (indivíduo, casal, família, rede social), em um processo que visa a fazer recomendações, encaminhamentos ou propor algum tipo de intervenção em benefício das pessoas entrevistadas”. A entrevista clínica é dirigida, ou seja, tem objetivos definidos e é por meio dela que o entrevistador estrutura sua intervenção. Todos os tipos de entrevista têm alguma forma de estruturação, na medida em que a atividade do entrevistador direciona a entrevista no sentido de alcançar seus objetivos (TAVARES, 2000). Papel do Entrevistador É necessário habilidades do entrevistador para que ele esteja preparado para lidar com o direcionamento que o sujeito parece querer dar à entrevista, de forma a otimizar o www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 165 encontro entre a demanda do sujeito e os objetivos da tarefa. Quando o entrevistador confronta uma defesa, ele empaticamente reconhece ou pede esclarecimentos, está facilitando ou dificultando o processo. Portanto, é necessário que o entrevistador domine as especificações da técnica. Segundo Tavares (2000), para realizar uma entrevista de modo adequado o entrevistador deve ser capaz de: 1. Estar presente, no sentido de estar inteiramente disponível para o outro naquele momento sem a interferência de outras pessoas; 2. Auxiliar o paciente para que ele se sinta à vontade e construa a possibilidade de uma aliança terapêutica; 3. Facilitar a expressão dos motivos que levaram a pessoa até a consulta; 4. Buscar esclarecimentos para colocações vagas ou incompletas; 5. Confrontar esquivas e contradições de maneira gentil; 6. Tolerar a ansiedade relacionada aos temas evocados na entrevista; 7. Reconhecer defesas e modos de estruturação do paciente; 8. Identificar e compreender seus processos transferenciais; 9. Assumir a iniciativa em momentos de impasse; 10. Dominar as técnicas que utiliza no seu trabalho; Outro ponto importante significa reconhecer a desigualdade intrínseca na relação, que dá uma posição privilegiada ao entrevistador. Essa posição lhe confere poder e, portanto, a responsabilidade de zelar pelo interesse e bem-estar do outro. Também é do entrevistador a responsabilidade de reconhecer a necessidade de treinamento especializado e atualizações constantes ou periódicas. Papel do Entrevistado www.educapsico.com.br Karina O. Lima Psicóloga CRP 84326/06 Organização e Coordenação 166 O papel principal da pessoa entrevistada é o de prestar informações. Nos casos em que parece haver dificuldades de levantar a informação, é bem provável que o entrevistador tenha que centrar sua atenção na relação com a pessoa entrevistada para compreender os motivos de sua atitude. Distorções relacionadas às pessoas ou instituições interessadas na avaliação, a ideias preconcebidas em relação à psicologia ou à saúde mental e a fantasias inconscientes vinculadas às ansiedades pessoais acerca do processo. O resultado de uma entrevista depende largamente da experiência e da habilidade do entrevistador, além do domínio da técnica. Criar um clima que facilite a interação nesse contexto e a abertura para o exame de questões íntimas e pessoais talvez seja o desafio maior da entrevista clínica. Nas entrevistas clínicas deseja-se conhecer em profundidade o sujeito, com o objetivo de entender qual a situação que o levou à entrevista. Nessa situação o entrevistado é porta-voz de uma demanda e espera um retorno que o auxilie. Nesses casos é preciso que se crie um espaço