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PSICOLOGIA SOCIAL E ORGANIZACIONAL Me. Denise Marques Alexandre GUIA DA DISCIPLINA 1 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 1. A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA INDEPENDENTE. Afinal, o que estuda a Psicologia? A Psicologia tem suas raízes na Filosofia, e nesse período a natureza humana era estudada mediante a especulação, a intuição e a generalização. Para ocupar o status de ciência precisou romper com suas raízes e utilizar métodos bem sucedidos nas ciências físicas e biológicas. A psicologia é uma ciência e vai sendo construída à medida que os homens vão construindo a si e a seu mundo. A preocupação do homem com as chamadas atividades subjetivas é tão antiga quanto as primeiras formas do pensamento racional, ou seja, quando o homem pensa acerca do mundo, dos outros homens e de si mesmo, elabora ideias psicológicas, ideias que se referem a processos individuais e subjetivos, como, por exemplo, as percepções e as emoções. A psicologia se "desliga" da filosofia e se configura enquanto ciência independente quando deixa de buscar a essência humana e passa a adotar métodos para não só conhecer, mas também intervir nesse ser humano. Deixando mais claro: A filosofia através da observação das atividades humanas com base nas reflexões sobre estas atividades busca determinar a natureza humana e suas relações com o mundo. Busca a essência desta natureza (Misiak, 1964, p 15). Enquanto: A psicologia através de métodos científicos estuda o comportamento humano, tanto o comportamento manifesto como as atividades concomitantes como o sentir, perceber, pensar. Seja na descrição ou mensuração deste comportamento a Psicologia se vincula a outras ciências como as ciências sociais e as ciências biológicas (idem, p.15). Fato histórico que marcou o nascimento da Psicologia Científica, foram os experimentos propostos por Wundt, no laboratório de Psicologia Experimental, na Universidade de Leipzig. Depois outros pesquisadores surgiram e avançaram na construção da Psicologia Científica. 2 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Vamos conhecer as escolas de pensamento que constituíram o movimento da Psicologia Científica. Fonte da imagem: https://www.g44brasil.com Para iniciarmos a nossa jornada de conhecimento sobre as escolas de pensamento é necessário compreender o que elas significam para a ciência psicológica. Vamos lá! As escolas de pensamento eram compostas por pensadores e pesquisadores que se associavam ideológica e, às vezes, geograficamente ao líder de um movimento. Os membros de uma escola de pensamento trabalhavam em problemas comuns e compartilhavam de uma orientação teórica. Uma das características mais marcantes da História da Psicologia foi o surgimento das escolas de pensamento diferentes que, por vezes, surgiam simultâneas e subsequentemente vinham ao declínio e eram substituídas por outras. As escolas do pensamento são: Você sabe o que significa escola de pensamento? 3 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Fonte da imagem: Desenvolvido pela autora (2021) Vamos começar conhecendo três importantes escolas do final do século XIX que impulsionaram a construção da Psicologia como ciência. Leia o quadro abaixo e observe as diferenças de cada uma delas: ESCOLAS DE PENSAMENTO – Final Século XIX ESTRUTURALISMO FUNCIONALISMO ASSOCIALISMO TEÓRICO Edward Titchner (1867- 1927): Seguidor de Wundt propôs o estruturalismo, o qual pretende analisar a consciência nas suas partes constituintes para assim determinar a sua estrutura. William James (1820-1903): Investigou a utilidade/função dos processos mentais para o organismo nas suas permanentes tentativas de se adaptar ao meio ambiente. Edward Thorndike (1874- 1949): Elaborou uma teoria objetiva e mecanicista da aprendizagem que se concentra no comportamento manifesto. Importante pesquisador no desenvolvimento da Psicologia Animal. OBJETO DE ESTUDO Estrutura da consciência Consciência Comportamento Aprendido Estruturalismo Funcionalismo Associalismo Behaviorismo Gestalt Psicanálise 4 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância MÉTODO Introspecção qualitativa, consistia que observadores descrevessem o seu estado consciente após sujeitos a um dado estímulo. Observação Introspectiva e técnicas de obtenção de dados, como a pesquisa fisiológica, testes mentais, questionários e descrições objetivas do comportamento Experimental que consistia em estabelecer conexões/associações entre situações e respostas Tabela desenvolvida pela autora (2021) Agora iremos conhecer as novas escolas de pensamento que surgiram e indicaram as tendências teóricas da Psicologia no século XX. O criador do Behaviorismo é John B, Watson (1870-1959) doutorado pela Universidade de Chicago. Descontente com a situação que se encontrava a Psicologia, e inspirado pelo grande desenvolvimento das ciências naturais na época, Watson propôs um novo objeto de estudo para a Psicologia: o comportamento. Agora iremos compreender o que as escolas de pensamento do final do século XIX trouxeram de transformação para a ciência psicológica. ESCOLAS DE PENSAMENTO – Século XX BEHAVIORISMO GESTALT PSICANÁLISE TEÓRICO John Watson (1878- 1959): Rompe com a Psicologia introspectiva e reafirma status de ciência ao propor o comportamento como objeto mensurável, observável e passível de reprodução. Os principais representantes Max Wertheimer, Wolfagag Kohler, Kurt Lewin (1890- 1947): Movimento de origem alemã, o lema da Gestalt era “o todo é mais do que a soma das partes”. Psicologia da Forma. Sigmund Freud (1956- 1939): Importante médico vienense. Revolucionou o modo de pensar a vida psíquica. OBJETO DE ESTUDO Comportamento observável. Percepção e pensamento como totalidade Inconsciente 5 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância MÉTODO Experimental, descartou os estudos dos fenômenos mentais, sensações, funções mentais e, também, a introspecção como método. Introspecção e experimental. Analítico através da associação livre Tabela desenvolvida pela autora (2021). Apesar das contribuições da Gestalt e da Psicanálise, até a Segunda Guerra Mundial o Behaviorismo dominava a psicologia, principalmente nos EUA. Depois da guerra aumentou o interesse pela psicologia. Devido a necessidade de fornecer tratamentos aos veteranos de guerra, a Psicologia Aplicada se expande (Psicologia Clínica, Avaliação Psicológica e Psicologia Educacional). Diante desse movimento houve o surgimento de novas abordagens teóricas trazendo avanços na ciência psicológica. No Behaviorismo surgiram abordagens do Behaviorismo Radical (Burrhus Skinner), Neobehaviorismo (Albert Bandura), na Gestalt a Fenomenologia (Heiddeger, Pearls) e a partir da Psicanálise Psicologia Analítica (Jung), Psicologia Kleiniana (Melanie Klein), Lacaniana (J. Lacan). O Humanismo é um movimento mais recente em Psicologia, que enfatiza a necessidade de estudar o homem, indivíduos normais psicologicamente, sem exclusivamente tratar as questões patológicas. Tem o intuito de estudar processos mentais tipicamente humanos, como: o pensar e o sentir. São representantes do Humanismo: Abraham Maslow, Rollo May e Carl Rogers. Bleger (1979) assinala que a Psicologia não é a ciência apenas das manifestações observáveis e nem apenas de fenômenos mentais, mas abarca o estudo de todas as manifestações. A distinção que se costuma fazer entre ciência “pura” e ciência “aplicada é dizer: 6 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educaçãoautores, portanto, as identidades sociais consistem em categorias socialmente construídas que se mostram mais ou menos salientes, em função das características da situação social. 37 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A teoria da identidade social, em suas múltiplas vertentes, pode ser vista, portanto, como uma abordagem que, nos últimos 30 anos, vem procurando elucidar o papel desempenhado pelo autoconceito nos processos e relações intergrupais, mediante a articulação de fenômenos de natureza sociocognitiva, motivacional e macrossocial que permeiam a vida coletiva. Inicialmente surgida na Europa, ela tem sido adotada cada vez mais como referencial por pesquisadores de diversas partes do mundo, incluindo-se aí muitos psicólogos norte-americanos, podendo ser considerada atualmente uma das mais significativas teorias para a análise das relações entre o indivíduo e o grupo (Hogg, 2006). Nesse sentido, ela vem sendo utilizada mais recentemente não apenas no estudo das relações intergrupais, mas também na investigação da auto categorização e de vários processos grupais, como a coesão, a liderança, a influência social etc. No entanto, ela continua sem resolver um de seus principais desafios, qual seja promover a maior compreensão dos aspectos afetivos que se encontram subjacentes às formas mais hostis e destrutivas de comportamento intergrupal (Brown, 2000). Tema de estudo: Representações sociais Segundo Moscovici (1981), as representações sociais englobam um conjunto de conceitos, imagens e explicações que se originam do senso comum, no contexto das interações e comunicações interpessoais. Nesse sentido, elas vão se modificando à medida que novos significados vão sendo acrescentados à realidade. Ainda de acordo com o autor (Moscovici, 1984), a função das representações sociais é dar sentido ao desconhecido, transformando o não familiar em algo familiar. Para tanto, apoia-se nos processos de ancoragem e objetivação. O primeiro se ocupa de inserir o fenômeno não familiar em uma rede de categorias e imagens familiares, de modo a que ele possa ser interpretado, enquanto o segundo tem por objetivo transformar o que é abstrato em algo concreto e que pode ser tocado. A teoria das representações sociais foi amplamente difundida nas décadas seguintes à sua introdução na literatura sociopsicológica, especialmente entre os psicólogos europeus e latino-americanos, com os pesquisadores de tal corrente procurando aplicar seus princípios teóricos a inúmeros eventos aos quais podem ser atribuídos significados que emergem do senso comum. Nesse sentido, a análise das teorias mantidas pelo homem comum tem contribuído para a compreensão de fenômenos tão diversificados quanto a 38 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância saúde/doença, a doença mental, a violência, a justiça, o desemprego, a amizade, os sistemas tecnológicos, os sistemas econômicos etc. Teoria: Núcleo central. A Teoria do Núcleo Central é uma extensão do trabalho de Moscovici que foi proposta por Abric (1994) e defende que toda representação social se organiza em torno de um núcleo central e de elementos periféricos. O núcleo central consiste no elemento essencial da representação, em função de organizá-la e lhe dar sentido. Ele é mais rígido e ancora-se na memória coletiva do grupo, em suas condições históricas e sociais. Já os elementos periféricos são mais móveis e flexíveis. Sua função é proteger a estabilidade do núcleo central e permitir a adaptação de grupos e indivíduos a situações específicas. O núcleo central é, portanto, normativo, enquanto os elementos periféricos são funcionais, por possibilitarem a ancoragem da representação na realidade do momento (Sá, 1996). A unidade sete mostrou o importante papel da Psicologia Social na Europa, especialmente a Teoria das Representações Sociais, ressaltando que as representações sociais participam da construção da realidade, a qual só existe nas interações dos indivíduos e grupos com os objetos sociais. 39 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 8. GRUPOS, AÇÕES COLETIVAS E MOVIMENTOS SOCIAIS. Como vimos na unidade um os homens vão construindo a si e a seu mundo, e nesta unidade teremos a oportunidade de abordar brevemente sobre três microteorias que explicam como ocorrem os contatos entre grupos, bem como, de que forma os movimentos sociais mobilizam as ações coletivas. Em psicologia Social, um grupo caracteriza-se principalmente pela ocorrência de interações que se mantem ao longo do tempo e pela percepção que seus componentes têm deles como algo real e de si mesmos como membros. Durante o processo de formação do grupo, normas internas são criadas e fazem com que determinados comportamentos sejam aprovados (ser gentil com o vizinho) e outros sejam vetados (ofender um amigo). Nos grupos também surgem posições que passam a representar papéis sociais dos membros, como aqueles representados por professor e aluno ou pelos líderes de grupo. Por fim os grupos são caracterizados pelas relações afetivas que estabelecem (Fraser, 1978): é pouco provável que os membros de um grupo sejam emocionalmente neutros ou indiferentes entre si. Para que os indivíduos se percebam pertencentes a um grupo, é preciso que aconteçam processos de categorização social, por exemplo ser torcedor do Brasil faz com que os torcedores brasileiros sejam considerados endogrupo e os não pertencentes a outra torcida tornam-se o exogrupo (como o grupo de torcedores de outro país). Portanto, a característica definidora do comportamento intergrupal é a distinção entre endogrupo e exogrupo. O processo cognitivo de categorização social é condição imprescindível para a existência das teorias e da pesquisa em relações intergrupais é ativada em determinada situação diferencia o endogrupo de um exogrupo. De acordo com o paradigma do grupo mínimo (Tajfel, 1970), qualquer distinção situacionalmente significativa entre endogrupo e Fonte da imagem: https://www.g44brasil.com 40 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância exogrupo é suficiente para ativar respostas diferenciadas em relação a outros com base na pertença deles ao endogrupo ou ao exogrupo. Por exemplo, um contato interpessoal entre estudantes pode tornar-se um episódio de contato intergrupal se eles começarem a discutir a política de cotas para negros nas universidades e suas opiniões divergirem. A discussão passa a ser guiada pelas atitudes (positivas ou negativas) em relação a grupos étnicos, e não mais pela identidade pessoal de cada estudante envolvido na discussão. Quando as atitudes em relação ao outro grupo são negativas, chamamos de preconceito. O preconceito pode acontecer em relação a qualquer exogrupo. (Neiva e Torres, 2011). Quando as respostas dos indivíduos advêm de uma orientação intergrupal, pode ocorrer conflito, competição ou comparação, de acordo com as redes de relações intergrupais. A natureza dessas relações tem efeitos independentes sobre os processos de discriminação e preconceito – a favor do endogrupo e em detrimento do exogrupo. Duas teorias desenvolvidas conforme essa orientação são a teoria de conflito realístico e a teoria da privação relativa, descritas mais adiante. A teoria do conflito realístico foi assim denominada por Campbell (1965) ao estudar teorias na sociologia, antropologia e psicologia social cuja premissa fosse a de que o comportamento intergrupal poderia ser explicado pela natureza e compatibilidade das metas grupais. A teoria baseia-se em três pressupostos: 1. as pessoas são egoístas e tentam maximizar suas recompensas (este também é um dos pressupostos da teoria da equidade); 2. o conflito é resultado de interesses incom patíveisentre grupos e 3. aspectos sociopsicológicos do comporta mento intergrupal são consequência (e não determinantes) da compatibilidade ou da incompatibilidade desses interesses (Taylor e Moghaddam, 1994) Adaptado pela autora: Psicologia Social -temas e vertentes (Neiva, 2010, p. 247) 41 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Uma grande vantagem dessa teoria é explicar mudanças em níveis de preconceito ao longo do tempo e em diferentes contextos sociais, as quais podem ser atribuídas a mudanças nas relações políticas e econômicas entre os grupos envolvidos (Brenner e Brown, 1998). Já a teoria da privação relativa baseia-se na ideia de que o grau de satisfação do indivíduo com aspectos específicos de sua vida é determinado por sua própria percepção, e não pela situação objetiva (real) na qual se encontra (Taylor e Moghaddam, 1994). É uma teoria que explica quando ocorrem protestos e ações coletivas no grupo (motins) e delimita quem está mais motivado a participar de protestos e ações coletivas. O ponto chave para compreender a teoria da privação relativa é a teoria de comparação social (Festinger, 1954; Tajfel, 1970), ou seja, as comparações que os indivíduos fazem entre si, que os indivíduos fazem com os grupos e que os grupos fazem entre si. A teoria da equidade fala que as noções de equidade se baseiam em formulações que remontam à época de Aristóteles. Contemporaneamente, incluem os trabalhos de Homans (1961), Blau (1964), e Adams (1965). A teoria da equidade é também chamada de teoria de troca por alguns autores e, sob a influência das pesquisas citadas, foi derivada do conceito de justiça distributiva desenvolvido por Homans (1961), sendo também associada por Adams (1963) a conceitos relacionados à teoria de dissonância cognitiva de Festinger (1957). Os modelos de justiça distributiva representam um grande avanço no campo de justiça social, considerando que os modelos anteriores não conseguiam explicar como ocorre o julgamento das pessoas quanto ao seu merecimento em relação a algo ou alguém (Tyler e Smith, 1998). A teoria da equidade lida essencial mente com duas questões (Walster, Walster e Berscheid, 1978): 42 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância De acordo com Tyler e Smith (1998), equidade pressupõe que satisfação e comportamento dependem da percepção do indivíduo sobre os resultados obtidos em comparação aos resultados que ele julga que sejam justos. Uma questão importante é que a teoria da equidade tem como aspecto fundamental o conceito de que preferimos ser tratados de forma justa e dar o mesmo tratamento às outras pessoas. Pode-se dizer que se trata da chamada regra de ouro (“Faça aos outros o queres que te façam”) (Kimble et al., 2002), ou seja, ocorrem contribuições dinâ micas, como uma via de mão dupla, que são intercambiadas entre os indivíduos ou grupos. Qualquer coisa que recebemos pode ser avaliada pela equidade (dinheiro, elogios). A relação de equidade pode ser avaliada em diversos níveis: entre indivíduo‐indivíduo; entre grupo‐grupo; entre indivíduo‐grupo. No decorrer do capítulo oito tivemos a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre grupos e o contato intergrupal, agora ampliaremos nossa concepção em relação aos movimentos grupais, assunto de extrema importância para o Serviço Social. Vimos nas aulas anteriores que nossas concepções de mundo foram sendo construídas ao longo do tempo e das sociedades, a expansão na noção de mundo se modifica na medida que as necessidades sociais aparecem. Pensando nos novos movimentos sociais, Melucci (1989a) identifica as dimensões subjetivas, afetivas e culturais como indissociáveis do contexto sócio-histórico, isso os distingue dos antigos movimentos sociais, no entendimento de Touraine (1992), que se concentravam no controle do poder e na organização do trabalho. 1.1. O que as pessos pensam ser justo e equitativo? 1.2. Como elas respondem quando recebem mais ou menos que o justo ou merecido em suas relações com os outros? Como reagem quando seus companheiros re cebem benefícios que não merecem ou quando recebem sofrimento prolongado que também não merecem? Adaptado pela autora: Psicologia Social -temas e vertentes (Neiva, 2010, p. 258) 43 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Os movimentos articulam as questões da esfera privada — como as discriminações que sofrem, os estigmas que lhes são atribuídos, e até mesmo a recepção interpessoal negativa (repulsa) a atributos físicos ou de personalidade relacionados a determinados grupos sociais (Jesus, 2011a) — com as reivindicações da esfera pública, para construir espaços de intimidade e sociabilidade. Um movimento social pode ser caracterizado como uma forma de ação coletiva na qual as dimensões da solidariedade, do conflito e da ruptura com a lógica do sistema social se inter-relacionam (Melucci, 1999). Os movimentos sociais são definidos por Scherer- Warren (1989) como sendo: (...) uma ação grupal para transformação (a práxis) voltada para a realização dos mesmos objetivos (o projeto), sob a orientação mais ou menos consciente de princípios valorativos comuns (a ideologia) e sob uma organização diretiva mais ou menos definida (a organização e sua direção) (p. 20). Os movimentos sociais têm sido entendidos, sob o enfoque clássico da Psicologia Social, como resultantes dos esforços de determinadas pessoas em resolver coletivamente problemas que elas têm em comum (Toch, 1965), em reação a um estado mental de insatisfação. Podemos dizer que os movimentos sociais participam de um projeto macro de construção de uma sociedade efetivamente democrática: “o processo de democratização ocorreu e ocorre pelo desempenho dos movimentos sociais, posto que a própria redefinição da democracia emergiu de tal luta” (Gohn, 2003, p. 18). Tais movimentos, geram mobilizações da sociedade civil organizada, como as marchas, paradas, ocupações, e podem ser definidas como ritos, ao romperem temporariamente com a rotina e realizarem performances de identidades e papéis sociais não-hegemônicos (Jesus, 2010). Em uma perspectiva psicossocial, considera-se que as pessoas se organizam em grupos e protestam em nome de uma causa comum, muitas vezes sacrificando seu conforto pessoal, por várias razões, que podem estar fundamentadas em diferentes fatores, entre eles: sentimento de injustiça, eficácia de grupo, identidade social e afetividade. 44 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O capítulo oito teve como objetivo abordar definições, pressupostos, origens, aplicações e limitações de três importantes microteorias de contato intergrupal: o conflito realístico, a privação relativa e a equidade. Também tivermos a oportunidade de falar sobre os movimentos sócias e as ações coletivas. É interessante destacar a influência das percepções dos indivíduos sobre seu modo de julgar e de se comportar no mundo, especialmente para os estudantes de Serviço Social. Sentimento de Justiça - De acordo com o princípio do sentimento de injustiça, as pessoas sentem que estão contribuindo mais para a sociedade do que têm de retorno, em um contexto de superação do desamparo aprendido, quando as pessoas deixam de acreditar, ou acreditam menos, que não têm controle sobre a situação Eficácia do Grupo - De acordo com essa linha de pensamento, as pessoas se mobilizam socialmente porque têm a expectativa de que problemas relacionados a características grupais podem ser resolvidos com maior eficácia por meio da ação coletiva (Bandura, 1994) Identidade Social - A participação é explicada pela formação de uma identidade coletiva, que estimula as pessoas a protestar em nome dos grupos sociais com os quaisse identificam (Melucci, 1989b; Simon et al., 1998) Afetividade - a importância das emoções e sentimentos nas relações interpessoais e intergrupais, considerando que um mesmo evento pode ter respostas afetivas diversas para diferentes sujeitos (Goodwin, Jasper & Polletta, 2001; Jesus, 2011a) Desenvolvido pela autora (2021). 45 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 9. PRÁTICAS DE PESQUISA E INTERVENÇÃO NA PSICOLOGIA SOCIAL A última unidade do Guia tem como foco/temática as práticas de pesquisa e intervenção, percorremos ao longo das unidades que que a Psicologia Social estuda a relação recíproca entre o indivíduo e seu meio social: deu um lado trata do impacto que as pessoas exercem em seus amigos, familiares, colegas e até desconhecidos. Por outro lado, estuda a maneira como cada um de nós é influenciado pelos outros no que diz respeito a nossos sentimentos, experiências e comportamentos. Notamos que essa relação recíproca entre o indivíduo e um dado meio social sempre diz respeito a um objeto, espaço, ideia, pessoa (a si próprio, ao meio social ou a terceiros) sobre os quais se tem atitudes, experiências ou disposições comportamentais. Como o conteúdo desse Guia da disciplina sugere: a psicologia social estuda um grande número de assuntos e envolve um número diversificado de abordagens metodológicas. Porém, podemos especificar os três principais caminhos para se estudar e compreender o comportamento humano no contexto da psicologia social empírica: Por conta da ampliação de temas relacionados aos dilemas e desafios éticos presentes nos conhecimentos e nos projetos e programas de intervenção socio comunitária, a discussão sobre ética tem recebido destaque em vários campos disciplinares e de conhecimento. 1. observar o comportamento que ocorre naturalmente no ambito da vida real; 2. criar situações artificiais e registar o comportamento diante das tarefas definidas para estas situações; 3. perguntar às pessoas sobre o que fazem, pensam ou experienciam a cerca de algo no passado, no presente e no futuro. Adaptado pela autora: Psicologia Social -temas e vertentes (Gunther, 2010, p. 59) 46 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância As discussões são ligadas aos temas relativos aos impactos gerados a partir das diferentes relações estabelecidas entre os profissionais e as comunidades às quais seus trabalhos se dirigem, seja no campo da educação, saúde, ciências humanas e sociais, urbanismo e planejamento urbano ou rural, políticas sociais e públicas. Também ligadas às fragilidades e melindres relativos às fronteiras, pouco claras e consensuais, entre as autorias da produção de conhecimento e de tecnologias sociais, assim como sobre as implicações dos usos inapropriados das ideias ou "origens intelectuais" que os pesquisadores e autores demoraram anos para alcançar. E relacionado à formação que se faz necessária para atuar em instituições e comunidades, utilizando programas de ação para diferentes setores e grupos da realidade social. Coloca-se, aqui, a discussão sobre "verdades" e "adequações" a respeito de cada tipo de formação e os paradigmas predominantes nesse processo formativo. Vários autores, desde o final do século passado, trouxeram para o debate análises a respeito dos limites da ação e organização sociais e dos impactos pessoais e sociais produzidos - positivos ou negativos -, seja na perspectiva das redes e movimentos sociais e comunitários (Novo, Souza & Andrade, 2001; Ploner, Michels, Schlindwein & Guareschi, 2003; Gohn, 2010), ou seja na dimensão de como isso poderia contribuir para processos de socialização a favor (ou contra) os princípios de civilidade (Altvater, 1999; Appiah, 1999; Heller, 1999; Hobsbawm, 2000; Codato, 2006; Sen & Kliksberg, 2010). Nesse âmbito, pode-se aqui recorrer a Hobsbawm (1998), quando se refere aos desafios que a sociedade atual enfrenta quando se depara com a mudança de valores básicos de convivência e de sociabilidade. Esse autor chama a nossa atenção para "a atual adaptação das pessoas à existência, em uma sociedade desprovida das regras de civilização" (Hobsbawm, 1998, p. 268). A sutileza de alguns processos psicossociais de naturalização da vida cotidiana pode ser identificada em exemplos atuais de exploração, sofrimento, humilhação ou mesmo admissão de formas de desvalorização, individuais ou coletivas. Essas naturalizações acontecem, por exemplo, em situações nas quais há algum grau de aceitação dos episódios ou acontecimentos cruéis que aviltam de algum modo a condição humana, ou mesmo atribuem "causas" psicológicas para situações que são derivadas das condições de 47 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância desigualdades sociais, econômicas, culturais e/ou políticas. Para além da compreensão dessa naturalização, parece ser também importante chamar a atenção para o fato de isso não gerar um sentimento de indignação, que deveria ser forte o suficiente para impedir que tais situações voltassem a acontecer. [...] todos nos adaptamos à vida em uma sociedade que, pelos padrões de nossos avós ou pais - e até pelos padrões de nossa juventude, para os que têm a minha idade -, é incivilizada. Acostumamo-nos com ela. Não quero dizer que não conseguimos mais ficar chocados com esse ou aquele de seus exemplos. Ao contrário, ficar chocado periodicamente por algo invulgarmente terrível é parte da experiência. Ajuda a ocultar o quanto nos habituamos à normalidade daquilo que nossos pais - os meus com certeza - teriam considerado vida em condições desumanas. (Hobsbawm, 1998, p. 268). Essa certa "habituação" diante do que não deveria ser admissível e, muito menos, tolerável tem afrontado e desrespeitado a vida e a dignidade humanas. "O pior é que passamos a nos habituar ao desumano. Aprendemos a tolerar o intolerável" (Hobsbawm, 1998, p. 279). Isso suscita um debate necessário no campo da ética das ações e das práticas humanas que acontecem nos contextos mais variados. Essa habituação gera, ao mesmo tempo, um conformismo que coloca em xeque os valores e os princípios norteadores do que é chamado de humanamente digno. Na mesma perspectiva de refletir sobre a vida cotidiana e suas dimensões éticas, outros autores apontam o caráter das rápidas mudanças presentes na vida moderna e seus impactos para a dinâmica das relações humanas, no sentido disso fragilizar os princípios norteadores do agir e interagir coletivos, em diferentes situações. As seguranças a respeito, por exemplo, das diferenças entre bem e mal, certo e errado, parecem esvair-se diante da volatilidade e esvaziamento de sentidos dos valores e atitudes na vida cotidiana. Parece criar-se, na sociedade moderna, uma espécie de zona de conflito e tensão, em que se torna cada vez mais preocupante. [...] a transformação da experiência da vida cotidiana, com a introdução, nos lares e mesmo na vida íntima, de uma tecnologia sempre em mudança. Tem-se que mudar hábitos, ideias, credos - e reaprender praticamente tudo três vezes na vida. Quanto tempo se consegue resistir? Quantas vezes podem as pessoas mudar de atitude na vida? Quantas 48 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância vezes podem as pessoas mudar de profissão? Quantas vezes podem assumir novas orientações? Homens e mulheres sentem que estão perdendo terreno. (Heller, 1999, p. 19) Buscando analisar as relações entre o processo de investigação e o da práxis no campo da intervenção psicossocial em comunidade, propõe-se tomar como ponto de partida, para uma primeira reflexão, alguns questionamentos que foram sistematizados por Ignácio Martín-Baró (1987) ao pretender analisar criticamente a práxis do(a) psicólogo(a) em comunidade. A partir da perspectiva da psicologiasocial comunitária e da libertação (Dussel, 2002; Guzzo, 2010; Freitas, 2010; Flores Osorio, 2011; Gaborit, 2011a e 2011b), Martín-Baró (1998) tece críticas a respeito do lugar e compromisso assumidos por esse profissional ao atuar e inserir-se nas dinâmicas comunitárias, cuja prática, em sua opinião, deveria contribuir para a transformação social e libertação das formas de opressão e exploração na vida cotidiana. Três são as perguntas centrais que devem, então, ser feitas, dentro dessa perspectiva, quais sejam: a) Como sabemos que o conhecimento da nossa área, ou seja, o conhecimento psicológico, possui verdades dirigidas à realidade concreta das comunidades? b) Quais são as nossas especificidades históricas e que aspectos são cruciais para orientar a nossa prática? c) Que "fazer psicossocial" tem tido a Psicologia em relação aos problemas concretos vividos por nossa população? Essas questões referem-se a eixos colocados por Martin-Baró (1987; 1998) que contribuem para que se pense nas dimensões que são importantes para os trabalhos de intervenção, assim como para a pesquisa no campo da psicologia social comunitária. Falar a respeito das relações entre investigação e intervenção dentro das práticas comunitárias significa, também, refletir sobre os cuidados éticos que devem estar presentes quando da realização desses trabalhos. Considerando-se o contexto das relações comunitárias, pode-se dizer que emergem duas preocupações básicas: 49 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Que a prática deve conduzir a conhecimentos, todos nós concordamos. O que se coloca, aqui, é indagar se podem (e devem) ser conhecimentos que levem à mudança. Equivale a ter a mesma preocupação colocada no primeiro item, somente ao revés: Em outras palavras, podendo levar à transformação, deve-se então perguntar: para quem? A favor do quê? E por quê? Em continuação, e tendo a preocupação de compreender a relação pesquisa-intervenção, deveríamos refletir sobre: a) O grau de coerência que há entre a maneira "como se vê a realidade concreta" (que pressupostos ontológicos nos guiam) e a maneira "como se age diante dela" (recursos epistemológicos adotados). Isso pode ser traduzido em termos de se há coerência (ou incoerência) entre a cosmovisão que nos guia ao olharmos e selecionarmos a realidade com a maneira como atuamos nessa realidade e problemas selecionados. b) As estratégias que poderiam ser utilizadas para fortalecer redes mínimas de solidariedade e união dentro das relações comunitárias. Com a proposta de discutir o significado e os conteúdos da intervenção e da investigação dentro dos trabalhos comunitários, pretende-se uma reflexão sobre as relações entre pesquisa/intervenção e os diferentes tipos de conhecimento produzidos, assim como entre o tipo de compromisso assumido e a prática realizada dentro dos projetos comunitários. Partiremos, assim, dos desafios e dilemas colocados à prática dos trabalhos em comunidade expressados na pergunta: Quais são as exigências metodológicas e de produção de conhecimento colocadas a profissionais, sejam pesquisadores(as) e/ou trabalhadores(as) comunitários? 1. uma, se a investigação deveria e poderia conduzir a práticas comprometidas com a construção de uma vida mais digna para as pessoas; 2. outra, se a intervenção deveria e poderia contribuir para a produção de conhecimentos que estivessem implicados com a mudança das condições responsáveis pela situação desumana em que as pessoas vivem. Desenvolvido pela autora (2021). 50 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Independentemente de quais sejam os objetivos e propostas específicas de cada trabalho comunitário, os profissionais envolvidos enfrentam desafios em função das características dos programas/projetos comunitários que eles desenvolvem, relacionadas às complexas problemáticas com as quais trabalham e ao grau de envolvimento que lhes é exigido. Enfrentam, assim, diferentes dilemas: a) os mais práticos e operacionais: como fazer o trabalho, como envolver e agregar mais pessoas, como tornar o trabalho de fato eficaz e eficiente nas atividades, entre tantos outros; b) os mais "existenciais" e epistemológicos, materializados em indagações como: estão sendo respeitadas as necessidades e interesses da população? Os encaminhamentos/alternativas escolhidos são os melhores para a coletividade/comunidade? Estamos no caminho certo? Essas são dimensões psicossociais que atravessam as práticas em comunidade e que acompanham os vários trabalhadores comunitários, constituindo-se em fatores que podem representar entraves e pontos de inflexão para a realização das práticas psicossociais em comunidade. São aspectos que interferem, seja para a (des)continuidade do trabalho, seja para a explicitação (ou "abrandamento") das perspectivas assumidas, seja para a (des)construção dos projetos político-sociais presentes em tais práticas. Nesse momento, cabe indagar: A condição e situação em que essas pessoas vivem, que significado psicossocial tem para elas? Como o pesquisador-profissional apreende esses "novos" sentidos de vida para essas pessoas e como os expressa nas diferentes etapas do trabalho comunitário, de tal maneira que seja fiel àquilo que elas vivem e sentem em seu dia a dia? Considerações éticas no fazer psicossocial Essas são questões que remetem à ética dentro da investigação e das práticas comunitárias. Considerar as determinações estruturais e conjunturais evita que se cometa o erro de assumir explicações baseadas, precipuamente, nos aspectos individuais e internos das pessoas como responsáveis pelos mais diferentes problemas. Intervenção e investigação: relações e conhecimentos Ao se falar de conhecimentos e de práticas, tomando como referência as preocupações éticas no fazer psicossocial em comunidade, deve-se considerar duas dimensões interligadas: 1. uma relativa às relações que se travam nessa dinâmica 51 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância intervenção-investigação; e 2. outra ligada à compreensão que temos da nossa prática e produção de conhecimento no campo das práticas psicossociais comunitárias. Que relações há ou são possíveis entre a produção do conhecimento e a intervenção psicossocial? O que essas relações significam e o que podem gerar como resultados? Podemos considerar três possibilidades derivadas do tipo de relação estabelecida entre o alvo das ações em comunidade e o profissional/investigador. Se entre o profissional/investigador e a comunidade se estabelece uma relação de fato dialética. Se na relação é o pesquisador/profissional quem decide e delimita os conteúdos e as fronteiras do que deve ser feito e investigado na comunidade. Se na relação é a comunidade que determina o foco das atividades, a produção de conhecimento caracteriza-se por ser dependente das peculiaridades de cada grupo ou comunidade em questão. O segundo aspecto refere-se à compreensão que temos a respeito da comunidade e das problemáticas com as quais trabalhamos, seja na perspectiva da pesquisa ou da intervenção. Como concebemos essas problemáticas, grupos e comunidades? Em que enquadre teórico e ontológico os situamos? E, como entendemos o processo de constituição psicossocial desses personagens? Dessas indagações depreendem-se algumas considerações éticas, relacionadas ao fazer psicossocial (prática psicossocial em comunidade) e ao investigar (produção de conhecimentos) em comunidade. Devido à própria história de construção dos trabalhos comunitários, assim como à trajetória de luta e consolidação dessas práticas no cenário político-social latino-americano, considera-se importante explicitar uma condição básica dessas práticas: os trabalhos comunitários, na América Latina, são trabalhose práticas, por excelência, políticos. Essa condição, em nosso continente, vincula-se estreitamente à possibilidade de transformação social e de superação das condições estruturais e conjunturais responsáveis pela pobreza, sofrimento, desemprego, doenças e formas injustas e indignas de vida social. 52 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A unidade nove teve como proposta ampliar o olhar do estudante frente as diversas práticas de atuação do profissional de Serviço Social. A principal contribuição da pesquisa para o serviço social seria propiciar a construção de tipologias, de diagnósticos e tratamento mediante a conversão do conhecimento das ciências sociais em princípios para o exercício da prática profissional. Lembrando que a pesquisa deve proporcionar um aprofundamento do conhecimento na área a fim de resultar em melhores decisões e intervenções positivas no contexto social que a pesquisa está inserida. DICA - OPÇÕES DE PESQUISA SOCIAL (vide tabela abaixo) OPÇÕES DE PESQUISA SOCIAL PROBLEMA ABORDAGEM TÉCNICA DE PESQUISA Obter informação confiável sob condições controladas Estudar pessoas no laboratório. Experimento laboratorial, simulação Descobrir como as pessoas se comportam em público Observá-las Observação sistemática Descobrir como as pessoas se comportam em sua vida privada Solicitar que mantenham um diário Documentos pessoais Descobrir o que as pessoas pensam Perguntar às pessoas Entrevistas, questionários, escala de atitudes Identificar traços de personalidade ou habilidades mentais Administra um teste estandartizado Testes Psicológicos Identificar padrões em material escrito ou visual Tabulação sistemática Análise de conteúdo Compreender um evento não usual Investigação detalhada e demorada Estudo de caso Descobrir o que as pessoas fizeram no passado Avaliar documentos públicos Pesquisa de arquivos Referência: Somoer e Sommer (2002, p.6) 53 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Antunes, M. A. M. (1989). Psicologia e história: uma relação possível? Ou psicologia e história: uma relação necessária! Psicologia e Sociedade, 4 (7), 30-36 Brecht, B. 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INTRODUÇÃO A PSICOLOGIA SOCIAL. 2.1 Objeto de estudo da psicologia social 3. PSICOLOGIA SOCIAL: MÉTODOS E OBJETO DE ESTUDO. 4. PSICOLOGIA SOCIAL NO BRASIL 5. PSICOLOGIA SOCIAL NA AMÉRICA LATINA. 5.1 A proposta de Martín-Baró e sua abordagem 6. PSICOLOGIA SOCIAL NA AMÉRICA DO NORTE 7. PSICOLOGIA SOCIAL NA EUROPA 8. GRUPOS, AÇÕES COLETIVAS E MOVIMENTOS SOCIAIS. 9. PRÁTICAS DE PESQUISA E INTERVENÇÃO NA PSICOLOGIA SOCIALa Distância Os cientistas “aplicados” e “puros” fizeram grandes contribuições para o conhecimento básico, bem como, descobriram fatos e teorias que foram quase imediatamente aplicados a problemas práticos. Sendo assim, diante de tantas transformações da Psicologia como ciência, torna-se importante conhecermos os subcampos da Psicologia dedicados à investigação científica: Psicologia Geral, Psicologia Fisiológica, Psicologia do Desenvolvimento, Psicologia Animal ou Comparada, Psicologia Diferencial, Psicopatologia, Psicologia da personalidade, Psicologia Educacional, Psicologia aplicada ao trabalho, Psicologia aplicada à medicina, Psicologia Jurídica e Psicologia Social. No decorrer da disciplina iremos desvendar, especialmente a Psicologia Social, que investiga todas as situações, e suas variáveis em que a conduta humana é influenciada e influencia a de outras pessoas e grupos. Vimos nessa unidade que a Psicologia é uma ciência de um campo de aplicação muito amplo, o que justifica plenamente sua importância e a denominação que tem recebido de “a ciência do nosso século”. Porém, talvez você como estudante de Serviço Social deva estar se perguntando de que forma a Psicologia Social poderá contribuir com a sua jornada como Assistente Social, e posso afirmar que como objeto de estudo da psicologia social é a natureza social do fenômeno psíquico, isto é, a construção do mundo interno a partir das relações sociais vividas pelo homem, surge a necessidade de se aproximar de outras áreas do conhecimento. Dessa forma, ao considerar o objeto de estudo do Serviço Social – a questão social em suas múltiplas expressões – é possível pensar que o conhecimento produzido por essa área do saber pode contribuir para ampliar a leitura e a compreensão em torno das relações que se estabelecem entre sujeito e sociedade. CIÊNCIA PURA: busca o conhecimento desinteressado, sem vistas à sua aplicação. CIÊNCIA APLICADA: Investiga os temas com o objetivo antecipado de usá-lo em alguma área de atividade humana. 7 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância DICA DE FILME Para compreender a interface da Psicologia Social e Serviço Social e como as áreas intervém diretamente com os sujeitos sociais nas mais diversas situações do cotidiano Fonte da imagem: https://www.g44brasil.com ANJOS DO SOL (2006) Um filme de Rudi Lagemann, Anjos do Sol trata da história de Maria, uma menina de menos de 12 anos que é vendida para uma família no Maranhão, com a crença de que teria uma vida melhor. Chegando lá, ela é vendida em um leilão de meninas virgens e vai para um prostíbulo, onde é explorada sexualmente na infância. 8 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 2. INTRODUÇÃO A PSICOLOGIA SOCIAL. Sabemos que a Psicologia Social deve estudar o comportamento Social, porém surge uma questão polêmica: quando o comportamento se torna social? Nessa unidade teremos a oportunidade de compreender mais sobre Psicologia Social e os estudos de comportamento dos indivíduos e sua influência social. Daqui em diante, teremos a clareza que as influências acontecem desde que nascemos, ou mesmo antes do nascimento, afinal a gravidez também é um contexto que influência histórica- socialmente a existência individual. A Psicologia Social pode ser definida como o estudo científico da psicologia dos seres humanos nas suas relações com outros indivíduos, quer sejam influenciados, quer ajam sobre eles; pensamos e sentimos de determinada maneira porque somos seres sociais; o mundo em que vivemos é, em parte, produto da maneira como pensamos (RODRIGUES, 2000). Conforme a citação acima, a Psicologia Social estuda o que acontece com o indivíduo quando ele está interagindo com outras pessoas ou na expectativa desta interação. Podemos considerar que e a integração social, a interdependência entre os indivíduos e o encontro social são os objetos investigados por essa área da Psicologia. Dentro desse pensamento, os principais conceitos são: Fonte da imagem: https://www.g44brasil.com 9 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Desenvolvido pela autora (2021). De acordo com Rodrigues (2000), alguns autores dizem que a Psicologia Social tomou dois caminhos distintos: um tenta atender às necessidades da Psicologia; o outro, atende à política das classes dominantes (tal como a Sociologia burguesa). Assim sendo, torna-se difícil afirmar que a Psicologia Social está mais próxima da Psicologia ou da Sociologia (RODRIGUES, 2000). Assim podemos perceber que é muito difícil encontrarmos comportamentos humanos que não envolvam componentes sociais, e são, justamente, estes aspectos que se tornam o enfoque da Psicologia Social. Para outros autores, como Mansurov (2014), a Psicologia Social surgiu graças as conquistas das várias Ciências Sociais. Porém só esse motivo não foi o bastante; o que influenciou mesmo foram os interesses ideológicos e políticos da burguesia. Sendo assim, é potencializada a ideia dos que notam a Psicologia Social como um ramo da Sociologia burguesa, pronta para defender a classe dominante do crescente movimento revolucionário da classe operária. Como cita Sousa (2011), trata-se de uma ponte entre a Psicologia e a Sociologia, agregando valores dessas duas áreas científicas. Posto isto, este ramo considera o indivíduo como influenciado pelo meio que o forma e também o sujeito como elemento que altera o ambiente em que vive. A PERCEPÇÃO SOCIAL COMUNICAÇÃO ATITUDES PROCESSOS DE SOCIALIZAÇÃO GRUPOS SOCIAIS PAPÉIS SOCIAIS Desenvolvido pela autora (2021). 10 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância importância do comportamento nesse ramo está no fato de que as relações sociais influenciam a conduta e os estados mentais dos indivíduos. Agregando valores dessas duas áreas científicas. Assim sendo, considera o indivíduo como influenciado pelo meio que o forma e também o sujeito como elemento que altera o ambiente em que vive. Por outro lado, a consciência coletiva de uma sociedade é um campo fértil para estudos, como assinala Regader (2015). Portanto, Cherry (2016) ressalta que a Psicologia Social não observa apenas as influências do meio, mas também estuda as percepções desse meio, tratando-o como uma entidade, visando compreender o comportamento social; e analisa as interações que compreendem a sociedade. Como vimos o ser humano ao nascer necessita de outras pessoas para sua sobrevivência e toda a sua vida será permeada por participações em grupos. Em cada grupo social encontramos normas que regem as relações entre os indivíduos. Estas normas são o que, basicamente se caracterizam os papéis sociais, e que determinam as relações sociais. Por exemplo, a professora só será professora, se houverem alunos e ambos precisam exercer seus respectivos papéis para que essa relação ocorra - essa análise poderia ser feita em todas as relações existentes e qualquer sociedade. Em termos de papéis sociais, nós desempenhamos papéis, regidos por uma determinação social. Outro ponto importante que precisamos abordar é relacionado os conceitos que envolvem a sabedoria popular. Segundo Cherry (2016) é comum o fato de que a Psicologia Social seja confundida com a sabedoria popular, Psicologia da personalidade e a Sociologia. Veja as diferenças entre elas: Sabedoria Popular (senso comum) - Observações e interpretações subjetivas. Psicologia Social - estudos empíricos sobre fenômenos sociais. interessada sobre o impacto dos ambientes sociais e interações sobre atitudes e comportamentos Psicologia da Personalidade - estuda os traços individuais, características e pensamentos. Sociologia- se interessa pelo impacto de instituições e cultura sobre o comportamento dos indivíduos. Desenvolvido pela autora (2021). 11 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Os pesquisadores não apenas fazem suposições sobre como as pessoas se comportam, eles planejam e fazem experimentos que permitem destacar a relação entre diferentes variáveis. Ao contrário da Psicologia da personalidade, que estuda os traços individuais, características e pensamentos, a Psicologia Social estuda situações cotidianas, estando interessada sobre o impacto dos ambientes sociais e interações sobre atitudes e comportamentos. Em relação à Sociologia, que se interessa pelo impacto de instituições e cultura sobre o comportamento dos indivíduos, a Psicologia Social considera variáveis situacionais que afetam o comportamento social. Portanto, percebe-se que estas duas áreas têm tópicos similares, mas analisam essas questões a partir de perspectivas diferentes. A psicologia social é uma ciência que estuda as influências de nossas situações, com atenção especial para a maneira como encaramos e afetamos uns aos outros. “Nossas vidas estão ligadas por mil fios invisíveis”, disse o romancista Herman Melville. A psicologia social tem como objetivo iluminar esses fios. Faz isso formulando questões que tem intrigado a todos nós (MEYERS, 2000, p. 02). Sendo assim é possível dizer que qualquer psicologia que se preocupe com a influência social sobre indivíduos e grupos é também psicologia social. Do mesmo modo, perceber que o social, muitas vezes colocado como um conceito quase abstrato, é constituído por pessoas que podem modificá-lo a partir dos seus interesses. 2.1 Objeto de estudo da psicologia social O objeto de estudo da psicologia social está voltado aos processos sociais e psicológicos da interação das pessoas, dos grupos sociais e da vida cotidiana, compreendendo e explicando o modo do pensamento, sentimento e comportamento do indivíduo e suas atividades e o papel que desempenha em virtude da sua posição na estrutura social e grupo social que pertence e o modo como as pessoas influenciam e se relacionam umas com as outras. Lane (2004) escreve que o início da Psicologia Social remonta ao século XIX, sendo o filósofo francês Augusto Conte considerado o pai desta ciência. Para Conte, a Psicologia Social seria subproduto da Sociologia e da Moral, sendo encarregada em dizer como o 12 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância indivíduo poderia ser, ao mesmo tempo, causa e consequência da sociedade. No entanto, só após a Primeira Guerra Mundial, por volta de 1920, é que esse ramo se desenvolveria como estudo científico e sistemático. Num mundo abalado por crises e conflitos, os pesquisadores encontraram um campo a ser amplamente estudado, visando descobrir uma maneira de preservar os valores de liberdade e os direitos humanos numa sociedade tensa e arregimentada. Para Lane e Codó (2010, p. 31) “o psicólogo social enxerga o homem como um ser que vivem em grupos, sociedades, culturas e organiza sua vida em relação a outros seres humanos, influencia e é influenciado pela história, pelas instituições e pelos comportamentos”. Através do trabalho do psicólogo social que auxilia a entender a necessidade que sentimos um do outro e a importância da comunicação frente ao comportamento alheio. Os psicólogos sociais se interessam em saber como as pessoas influenciam umas as outras no contexto da sociedade, entender as atitudes, como o preconceito se forma, a conformidade e saber se as pessoas se comportam diferente quando estão em grupo ou sozinhas. Outra abordagem que tem sido foco do psicólogo social, o qual atua paralelamente ao assistente social, é a atuação frente as políticas públicas, colaborando para que as pessoas possam desenvolver e compreender suas habilidades e utilizá-las para romper com a vulnerabilidade. Ou seja, instrumentalizar as pessoas para que rompam com a situação de manipulação e opressão. Diante de tudo que foi citado é possível afirmar que a Psicologia Social na atualidade tem seu foco no meio e na busca da compreensão do comportamento social. Ela possui inter-relação com a Sociologia, pois ambas buscam estudar situações voltadas para o cotidiano. Lane (1984, p. 19) apud Jacques et al (2013, p.16) escreve: Toda a psicologia é social. Esta afirmação não significa reduzir as áreas específicas da Psicologia à Psicologia Social, mas sim cada uma assumir dentro de sua especificidade a natureza histórico-social do ser humano. Desde o desenvolvimento infantil até as patologias e as técnicas de intervenção, características do psicólogo, devem ser analisadas criticamente à luz dessa concepção do ser humano – é a clareza de que não se pode conhecer qualquer comportamento humano, isolando-o ou fragmentando-o, como existisse em si e por si. 13 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Também com essa afirmativa não negamos a especificidade da Psicologia Social – ela continua tendo por objetivo conhecer o indivíduo no conjunto de suas relações sociais, tanto naquilo que lhe é específico como naquilo em que ele é manifestação grupal e social. Porém, agora a Psicologia Social poderá responder à questão de como o homem é sujeito da história e transformador de sua própria vida e da sua sociedade, assim como qualquer outra área da Psicologia. 14 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3. PSICOLOGIA SOCIAL: MÉTODOS E OBJETO DE ESTUDO. A produção de novas abordagens teóricas, metodológicas e política na Psicologia Social, veio da crise, chamada “crise da psicologia social” (LANE, 1981) que devido a resultados de pesquisa contraditórios e com a crise mundial e teve repercussão direta sobre a maneira como os psicólogos lidaram com sua formação, produção acadêmica e intervenção na realidade. Na psicologia social passou a privilegiar métodos qualitativos em detrimentos dos quantitativos, cujas bases se encontravam sedimentadas na Psicologia Social criticada. Esse mesmo movimento de contestação à ciência realizada por métodos quantitativos também teve sua repercussão, a partir dos anos 1960, em outras ciências humanas e sociais, como descrito por Minayo (2000), num momento em que passam a ganhar credibilidade as pesquisas qualitativas, como formas legítimas de produção do conhecimento. Atualmente, continuam discussões a respeito dos métodos qualitativos e quantitativos, dentro das ciências humanas e sociais. Dentro desse movimento, já se fala em triangulação de métodos, como elaborado por Minayo, Assis e Souza (2006), em que se cruzam técnicas vindas de ambas as perspectivas para poder estudar um objeto de vários ângulos e, assim, ter uma visão mais diversificada e completa a respeito de um determinado fenômeno. Do mesmo modo, Álvaro & Garrido (2006) apontam que um dos desafios da Psicologia Social contemporânea é superar tais barreiras e desenvolver pesquisas e intervenções que se utilizem dessa combinação, pois a adequação de cada uma das técnicas de pesquisa empregadas depende da forma com que elas são ajustadas à natureza do objeto de estudo. No Brasil, assim como em outros países latino-americanos, a Psicologia Social foi abraçada pelos psicólogos por uma série de fatores, a Psicologia Social no Brasil foi estabelecida dentro dos centros, faculdades, departamentos e institutos de Psicologia. Dito de outro modo, existem fatores não devidamente esclarecidos que contribuíram fortemente para que a Psicologia Social fosse firmada junto à Psicologia. 15 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Em decorrência dessa história ainda não-contada da introdução das distintas abordagens em Psicologia Social no Brasil emseus respectivos centros, atualmente os cursos de graduação em Psicologia possuem cadeiras de Psicologia Social, sendo considerada por muitos como um ramo da Psicologia. Segundo o ponto de vista, apesar de possuírem nomes semelhantes, muitos pontos de intersecção e serem ministradas dentro dos mesmos centros. Foi feita uma esquemática apresentação das principais abordagens em Psicologia Social, sendo necessário aprofundamento em cada uma delas para desvendar os campos e objetos de estudo, métodos, teorias, conceitos, pressupostos epistemológicos e ontológicos. As cadeiras de Psicologia Social deveriam ser ministradas de maneira a esclarecer os alunos a respeito de sua múltipla origem no contexto da diferenciação das ciências sociais e naturais. Clarear, também, as influências recebidas no contexto da Psicologia e da Sociologia, o que gerou uma pluralidade de abordagens teóricas e metodológicas (Álvaro & Garrido, 2006). Localizar o avanço científico de metodologias quantitativas e qualitativas, acompanhado também pela evolução das abordagens na disciplina. Isso viria a facilitar a compreensão dos desafios atuais em Psicologia Social, tanto no que se refere à ampliação teórica decorrente de seu desenvolvimento acadêmico, quanto de um campo de atuação profissional que exige psicólogos capazes de perceber e transformar, para melhor, a realidade social brasileira. Como cada cadeira depende do grupo de professores que a ministra, o que muitas vezes implica privilegiar apenas um ponto de vista teórico, é importante mostrar quais as raízes epistemológicas da abordagem ensinada e as possíveis interfaces intra e interdisciplinares. Igualmente, as pesquisas norteadas por abordagens da Psicologia Social deveriam ser guiadas de modo a esclarecer aos estudantes como elas podem contribuir para futuras práticas profissionais. Conectar ensino, pesquisa e extensão na formação que engloba a Psicologia Social é fundamental para a absorção dos ricos conteúdos oferecidos por essa disciplina. Na esfera das sociedades científicas e instituições representativas da categoria de psicólogos no Brasil, há grupos que vêm questionando a formação de psicólogos sociais por meio de cursos de Psicologia, por entender que deve haver a devida separação entre ambas, no que se refere a: campos de estudo, métodos, conceitos, formação e nichos de atuação. Obviamente, essas disputas ocorrem mais no âmbito político do que acadêmico, 16 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância o que gera intrigas e discórdias entre grupos dominantes e emergentes no cenário nacional das políticas da Psicologia. Segundo expõe Stralen (2005), a Psicologia Social se constitui como disciplina científica e como campo profissional, apesar de não haver regulamentação no Brasil à atuação do psicólogo social, restando-lhe “se manter incluído na categoria profissional relativamente mais forte: a psicologia” (p. 95). A nosso entender, esse debate deveria ocorrer inicialmente no âmbito acadêmico, ao invés de se restringir ao jogo de forças entre grupos políticos, representados por sociedades científicas e pelos Conselhos. Álvaro e Garrido (2006) colocam a Psicologia Social dentro de um contexto mais amplo da diferenciação das ciências sociais. E relembram dois aspectos importantes, que destacamos no trecho abaixo: Desde seu surgimento, no pensamento social europeu do século XIX, a Psicologia Social se definia como uma disciplina plural. A pluralidade, tanto de enfoques teóricos como de objetos de estudo, continuou caracterizando a Psicologia Social à medida que ocorria sua diferenciação e sua consolidação definitiva como disciplina científica independente, o que aconteceu simultaneamente na Psicologia e na Sociologia (Álvaro & Garrido, 2006, p. 40). O primeiro destaque refere-se ao fato de que a diversidade nas formas de entender os fenômenos psicossociais foi fundante de cada uma dessas três disciplinas, marcando campos de estudo, métodos, profissão e nicho de atuação. Portanto, a delimitação disciplinar ocorreu tanto como tentativa de demarcação dos domínios para cada tipo de cientista, quanto pela necessária fragmentação, à mentalidade da época, para desenvolvimento de campos do saber. Em nosso ponto de vista, o que marcou as distinções disciplinares estava mais ligado aos cientistas do que à ciência em si, pois as barreiras entre Psicologia, Sociologia e Psicologia Social eram tênues e havia muitas intersecções entre elas. Para Farr (1998), as raízes da Psicologia Social moderna são encontradas nas obras de alguns autores, na interface com a Psicologia e a Sociologia – o que resultou em enfoques de Psicologia Social psicológica e de Psicologia Social sociológica. Colocado por outro ângulo, a pluralidade da Psicologia Social esteve estreitamente ligada à utilização de métodos de investigação. Do lado da Psicologia Social psicológica, predominou a 17 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância experimentação em laboratório e a compreensão de ciência segundo objetivismo e universalidade, inerentes à visão positivista. Do lado da Psicologia Social sociológica, a busca por novas metodologias resultou no desenvolvimento de pesquisas aplicadas e métodos qualitativos, não obstante estes tenham coexistido com estudos de caráter quantitativo. Isso significa que o desenvolvimento das vertentes em Psicologia Social também ocorreu sob o crivo das discussões a respeito da objetividade/subjetividade, pesquisa quantitativa/qualitativa, experimentalismo/pesquisa aplicada, inerentes aos debates que permeavam o destacamento das ciências sociais, das naturais. As respostas a essas questões vieram marcar as diferenças nos fundamentos epistemológicos e estatuto ontológico de cada uma das linhas teóricas da disciplina – e ainda causa inquietação e dissenso entre profissionais, docentes e estudantes nos trabalhos de investigação e intervenção. Para Corga (1998, p.75-183), existem quatro principais “tradições” em Psicologia Social, que se sobressaíram não apenas nas origens da disciplina, mas que até hoje têm fortes influências tanto no ensino quanto nas pesquisas. São elas: Desenvolvido pela autora (2021). A) a tradição sociológica americana do interacionismo simbólico, iniciada por George Herbert Mead (1934/1962) nos EUA. B) a tradição do experimentalismo psicológico (Psicologia Social experimental), ocorrida nos C) a tradição dos “estudos de grupos sociais”. D) a tradição sociológica européia das representações sociais. 18 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A tradição sociológica europeia das representações sociais, iniciada por Serge Moscovici (1978), a partir dos anos 1960 na França, com a publicação do livro “A representação social da psicanálise”. Moscovici se inspira na obra de Émile Durkheim (com seus conceitos de representação individual e coletiva), que critica duramente a Psicologia, mas que acrescenta: não temos nenhuma objeção a que se caracterize a Sociologia como um tipo de Psicologia, desde que tenhamos o cuidado de acrescentar que a Psicologia Social tem suas próprias leis, que não são as mesmas da Psicologia individual (Durkheim, 1898 citado por Farr, 1998, p. 152-3). Como se nota, há “tradições” em Psicologia Social no contexto da Sociologia e aquelas no contexto da Psicologia, como preferem descrever Álvaro & Garrido (2006), com teóricos que se influenciam mutuamente e que são, prioritariamente, de origens europeia e norte-americana. As “tradições” no contexto da Sociologia seguiram mais inovações metodológicas das abordagens qualitativas, enquanto aquelas no contexto da Psicologia desenvolveram-se mais segundo metodologias quantitativas. A importância dos norte-americanos para a Psicologia Social vai além do desenvolvimentoteórico-metodológico de teorias que tentassem explicar os “crise da psicologia social” (LANE, 1981). Todo e qualquer pesquisador assume um conjunto de compromissos, que embora poucas vezes sejam explicitamente apresentados, produzem repercussões decisivas na maneira pela qual a atividade científica é concebida e desenvolvida. A utilização de uma das três grandes modalidades de obtenção de dados na psicologia (Coolican, 2004), a experimentação, a observação e o auto relato, impõe a adesão a compromissos distintos implícita ou explicitamente assumidos por parte do pesquisador (Kish, 1987). Ao adotar o método de auto relato como o caminho preferencial para a obtenção de dados empíricos, o pesquisador adere ao entendimento de que mediante a instauração de um dispositivo dialógico é possível adentrar no universo conceitual do interlocutor e, Fonte da imagem: https://www.g44brasil.com 19 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância consequentemente, circunscrever o sentido das ações humanas através de uma relação usualmente denominada intersubjetiva. Uma modalidade usual de auto relato é a pesquisa de survey e o compromisso adotado pelo pesquisador que adere a esta modalidade de método é com o princípio da representatividade das amostras, sendo perfeitamente natural afirmar que a principal preocupação metodológica deste tipo de pesquisa se volta para a identificação das condições nas quais os achados obtidos com amostras de dimensões reduzidas possam ser generalizados para a população da qual as amostras foram extraídas. Se a pesquisa de auto relato é regida pelo compromisso com a representatividade amostral, o pesquisador que adere à pesquisa observacional estabelece um compromisso com o princípio do realismo das variáveis. Ao delinear o seu estudo mediante a adoção de métodos observacionais, o pesquisador se obriga a aceitar a tese de que determinados objetos estão presentes no mundo natural, a concordar que estes podem ser ostensivamente identificados e reconhecidos e, ademais, assume que é possível esclarecer as relações porventura existentes entre estes objetos. O compromisso assumido pelo pesquisador que adota a experimentação não é prioritariamente nem com o realismo das variáveis, característico da pesquisa observacional, nem com a representatividade das amostras, característico da investigação conduzida mediante o uso de surveys. Uma vez que a experimentação envolve a manipulação de determinados aspectos do mundo real com o intuito de identificar as relações. A pesquisa experimental não é adotada pelos psicólogos brasileiros na mesma proporção em que é utilizada nas pesquisas conduzidas em outros contextos geográficos. Com base nesta premissa, procura-se identificar as razões e as justificativas deste relativo desinteresse pela metodologia experimental em determinados contextos. Discutem-se as diferenças entre a pesquisa experimental e a não experimental, levando-se em consideração os compromissos adotados pelos pesquisadores que acolhem a estas diferentes modalidades de investigação. Posteriormente são apresentados os principais argumentos relativistas contra a adoção da pesquisa experimental e as respostas apresentadas pelos experimentalistas. Conclui-se que é injustificado defender a tese de que a psicologia pode prescindir de um método adotado com sucesso em várias outras disciplinas científicas. 20 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4. PSICOLOGIA SOCIAL NO BRASIL Iniciamos a unidade quatro refletindo sobre estudos e abordagens que caracterizam a psicologia social brasileira, mostrando seus enfoques muitas vezes divergentes e complementares, que foram construídos a partir de conteúdos que possam gerar conhecimentos aplicáveis a realidade nacional. Como vimos na unidade um, a Psicologia Social se beneficia de teorizações oriundas dos grandes sistemas psicológicos (Behaviorismo, Gestalt, Psicanálise), porém também conta com toda a produção científica realizada ao longo dos anos. Com isso, vários fenômenos psicossociais foram identificados e analisados, enfatizando os principais fatores que os influenciaram. Observando a linha do tempo e o desenvolvimento dos conhecimentos advindos da Psicologia Social é possível identificar a forte presença da psicologia social-cognitiva avaliando estudos que analisavam fenômenos sociais sob a perspectiva individual. Para compreender o percurso da psicologia Social no Brasil, faz-se necessário conhecer sua trajetória histórica no Brasil. De acordo com diversas(os) autoras(es) (Bernardes, 2001; Bock & Furtado, 2007; Cordeiro, 2013; Ferreira, 2011; Mancebo, Jacó- Vilela & Rocha, 2003; Tittoni & Jacques, 2001) dividem a história da Psicologia Social brasileira em dois grandes momentos: um anterior e o outro posterior à chamada crise de referência, que assolou essa área do conhecimento na década de 1970. Sustentam que, antes de tal crise, a Psicologia Social brasileira era marcada pela hegemonia do modelo norte-americano, tinha uma base positivista e defendia a neutralidade da ciência, passando, após a crise, a fazer uma severa crítica ao modelo biologicista e, principalmente, a defender uma ciência comprometida com a transformação social. Como vimos na unidade três ter consciência dos métodos de investigação e objeto de estudo são pontos primordiais para profissionais que atuam com o ser humano, compreender sobre a crise de referência trará a clareza cronológica dos fatos na realidade brasileira. Mas é importante pontuarmos que essa crise de referência não aconteceu somente no Brasil e nem foi um fenômeno restrito à Psicologia Social. Pelo contrário, este movimento de questionamento – ou, como diria Lallement (2008), de "pulverização 21 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância metodológica" e "abalo teórico" – afetou também outras áreas do conhecimento, tal como a Sociologia. As décadas de 1960 e 1970 foram marcadas por uma Sociologia que traduzia, antes de mais nada, o declínio do impulso modernizante do pós-guerra. O enfraquecimento da fé na igualdade de oportunidades, bem como, o esgotamento das garantias de coesão social pelo simples crescimento econômico, fizeram com que instituições – como a escola, a prisão e a fábrica – fossem questionadas. Foi também nesse período que, no Brasil, começaram a ganhar força as críticas ao conceito de doença mental e ao modelo hegemônico de intervenção psiquiátrica. O foco é deslocado da patologia para a saúde e se enfatiza a importância de ações preventivas junto a populações pobres e desatendidas pelo Estado. Ganhou força, também, a preocupação com a educação popular. Fundamentada nas ideias de Paulo Freire, a alfabetização de adultos passa a ser vista como uma ferramenta de conscientização e resistência contra a opressão do regime militar (Lane, 1996). Observando o decorrer dos movimentos que se estabeleceram nesse período é possível compreender que a importância da chamada "crise de referência", pois ela veio trazendo à tona a necessidade de refletir sobre o papel da Psicologia em um contexto marcado pela violência de Estado, pela miséria e pela desigualdade social. De acordo com Bernardes (2001), esse movimento de questionamento da Psicologia Social hegemônica começou a se fortalecer no Brasil e em outros países da América Latina durante os Congressos da Sociedade Interamericana de Psicologia (SIP) realizados em Miami, EUA (1976) e em Lima, Peru (1979). Quem somos? O que buscamos? Qual nossa contribuição social? Fonte da imagem: https://www.g44brasil.com Desenvolvido pela autora (2021). 22 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância No caso Brasil especificamente, essas insatisfações levaramao desenvolvimento e/ou à adoção de diferentes teorias e metodologias: um grupo de pesquisadores, liderado por Georges Lapassade, Osvaldo Saidon e Gregorio Baremblitt, desenvolveu a Análise Institucional; já Silvia Lane coordenou o grupo que estabeleceu os fundamentos do que mais tarde viria a ser conhecido como a Escola Sócio-Histórica; outro grupo, liderado por Ângela Arruda e Celso Sá, começou a realizar trabalhos a partir de teorias europeias, especialmente a das Representações Sociais (Jacó-Vilela, 2007). De acordo com Spink e Spink (2007), a Psicologia Social Crítica é muito mais "uma frente de luta ampla do que um movimento articulado; uma aliança de argumentos e práticas em vez de uma escola." (p. 576). A despeito de suas divergências, no geral, essas abordagens expressam seu caráter crítico de quatro maneiras: Com o fortalecimento das abordagens críticas, começou a se pensar na necessidade de criar uma associação brasileira que representasse as "novas" Psicologias Sociais. No congresso da SIP, em Lima, foi discutida a necessidade e importância de "fortalecer a organização dos psicólogos ligados à área da Psicologia Social, criando espaços para o diálogo e o avanço desse campo. 1) se contrapondo às bases epistemológicas do conhecimento, "recolocando a ciência como prática social sujeita às vicissitudes dos fazeres humanos" 2) considerando a centralidade da linguagem na produção dos conhecimentos (tanto dos científicos quanto dos do senso comum) 3) radicalizando o potencial transformador da ciência 4) rompendo com o paradigma positivista de ciência. Desenvolvido pela autora (2021). 23 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância No ano seguinte ao congresso, durante a reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o estatuto elaborado anteriormente foi votado e aprovado, instituindo oficialmente a Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO). De acordo com as autoras: A construção de uma psicologia social crítica, voltada para os problemas nacionais, acatando diferentes correntes epistemológicas, desde que filiadas ao compromisso social de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa. A ABRAPSO nasceu da insatisfação com a psicologia europeia e americana. Os problemas de nossa sociedade, marcada pela desigualdade social e pela miséria, não encontravam soluções na psicologia social importada como um saber universal dos países do Primeiro Mundo. (p. 149). Atualmente, a ABRAPSO é responsável, entre outras coisas, por organizar encontros locais, regionais e nacionais, bem como por editar livros e publicar a revista Psicologia & Sociedade. Além dessa associação, foram criados programas de pós-graduação específicos da área. Vimos até aqui avanços importantes para Psicologia Social no Brasil, nas próximas unidades desvendaremos a Psicologia Social Na América Latina, na América do Norte e na Europa. Seguimos em direção a novas descobertas! 24 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 5. PSICOLOGIA SOCIAL NA AMÉRICA LATINA. Na unidade cinco teremos a oportunidade de percorrer um pouco mais a trajetória da Psicologia Social e ampliar o olhar interdisciplinar com o Serviço Social. Iniciamos nossa jornada destacando a psicologia da libertação que surgiu na América Latina na década de 1980. É uma psicologia crítica que tem foco na ação, tomando partido das populações oprimidas do continente. O propositor desta abordagem, Ignacio Martín- Baró, exerceu a psicologia no contexto da guerra civil de El Salvador, sendo ele mesmo uma vítima da opressão do Estado. Desde então, as consequências do conflito social tem sido temas importantes da psicologia da libertação. Outras áreas de foco tem sido a psicologia social comunitária, com ênfase no papel dos movimentos sociais, e nos comentários e críticas sociais e políticas. A psicologia crítica surgiu em grande parte do que foi chamado de crise da psicologia social, que data do final dos anos 1960 até os anos 1970. Dominante, de língua inglesa (e especialmente norte-americana), amplamente experimental, a psicologia social foi criticada como sendo amplamente irrelevante para as necessidades e contextos humanos reais, e porque erroneamente assumiu que seus métodos permitiam a descoberta de princípios fundamentais, processos e até mesmo leis de comportamento humano, que pode ser generalizado para todas as situações. A essa crítica, em grande parte da psicologia social, foram acrescentadas preocupações relacionadas, por exemplo, sobre os abusos da psicologia e da medicalização da angústia no sistema de saúde mental (Anonymous, 1970s sd.). Fonte da imagem: https://www.g44brasil.com A psicologia crítica tenta corrigir os erros da psicologia dominante, mas as maneiras como as diferentes psicologias críticas compreenderam e tentaram essa tarefa diferiram muito entre diferentes trabalhadores e diferentes lugares. Desenvolvido pela autora (2021). 25 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância No entanto, tais inovações foram poucas e a psicologia crítica europeia passou a ser caracterizada por um hiperdesenvolvimento de teoria infundada, tipicamente impenetrável para quem está de fora, com pouca aplicabilidade aparente à dura realidade social fora da academia, chamada de tendência de acadêmica no sentido de torre de marfim da palavra: o problema não é o desenvolvimento da teoria, mas a alienação da teoria das causas, experiências e lutas sociais. Na América Latina, outro caminho estava sendo trilhado - não exclusivamente porque o vírus pós-moderno era contagioso (Lacerda, 2010) - mas por gente suficiente para demonstrar que outra psicologia crítica era possível. O Teatro do Oprimido e a Pedagogia Popular, bem como em alguns movimentos sociais da região, proporcionaram um modelo alternativo e mais socialmente engajado. Nas duas áreas originalmente separadas, mas agora ligadas, da psicologia social comunitária e da psicologia da libertação, foi tomada a opção preferencial pelas maiorias oprimidas, construindo psicologias críticas que tratavam da realidade social, como realidade e não como uma aparência linguística. Essa realidade teve que ser esclarecida e nas palavras de Ignacio Martín-Baró desideologizou-se para que pudesse ser vista como era, e para que pudesse ser mudada (Martín-Baró, 1996a). A América Latina teve sua parcela de psicologia crítica pós-moderna e hiper-teórica e, de fato, talvez isso não seja mais do que outra manifestação de um complexo de inferioridade que leva à imitação do trabalho dos países centrais (de la Torre, 1995). No entanto, outros desdobramentos podem ser identificados (Gonzalez Rey, no prelo), apontando para uma psicologia socialmente comprometida caracterizada pela reconstrução da psicologia em relação dinâmica com as questões sociais, a ação social e os movimentos sociais. Essa foi exatamente a abordagem adotada por Martín-Baró em seus artigos programáticos e seus textos de psicologia social (Burton, 2004a; 2004b; Burton & Kagan, 2005; Martín-Baró, 1983; 1986; 1989a; 1996b; 1998). Também caracteriza o melhor da psicologia comunitária latino-americana (Góis, 2005; Montero, 1996; Montero & Serrano García, 2011; Ximenes, Amaral, & Rebouças, 2008) e trabalhos relacionados no âmbito da psicologia da libertação (Barrero & Salas, 2010; Dobles & Baltodano, 2010; Dobles, Baltodano, & Leandro, 2007; Guzzo & Lacerda, 2011). 26 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 5.1 A proposta de Martín-Baró e sua abordagem Então, qual é a psicologia da libertação? Deve-se notar que tem várias raízes, além da crítica da psicologia anglo-americana, que se baseia de forma bastanteeclética na tradição crítica latino-americana mais ampla, a teologia e a filosofia da libertação (Martín-Baró fazia parte de um grupo de radicais romanos Padres católicos da Universidade da América Central, 5 dos quais foram assassinados com ele) e a experiência das Comunidades Cristãs de Base do Brasil, o marxismo e o trabalho de psicólogos críticos anteriores do Sul e sua diáspora (Fanon em particular), e posteriormente trabalhadores também fizeram uso de correntes radicais na psicanálise, psicologia histórico-cultural soviética e cubana e abordagens fenomenológicas na psicologia. Vale a pena citar de seu criador, Martín-Baró (Martín-Baró, 1996): Conscientização Na América Latina, uma noção de desenvolvimento humano libertador surgiu com diversas raízes, em uma série de disciplinas e movimentos sociais. Uma ideia-chave é que a libertação não é algo que pode ser dado, nem é um evento discreto, mas sim um movimento e uma série de processos. Frequentemente, tem origem na interação de dois tipos de agentes ou ativistas: agentes externos "catalíticos" (que podem incluir psicólogos) e os próprios grupos oprimidos. A psicologia latino-americana deve mudar o foco de si mesma, deixar de se preocupar com seu status científico e social e se autodefinir como um serviço eficaz às necessidades da numerosa maioria ... que deve constituir o objeto principal de seu trabalho ... (p.26). Então qual é a Psicologia da Libertação? 27 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância O conceito de conscientização de Freire (Freire, 1972) é uma formulação muito citada disso. Martín-Baró (1986, 1996c) considerou a conscientização como um conceito- chave, explicando-a como uma pessoa ou pessoas se transformando pela mudança de sua realidade, por meio de um processo ativo de diálogo em que há uma gradual decodificação de seu mundo, como os mecanismos de opressão e desumanização são apreendidos. Isso, por sua vez, abre novas possibilidades de ação. O novo conhecimento da realidade circundante leva a uma nova auto compreensão sobre as raízes do que as pessoas são e do que podem se tornar. Qualquer pessoa que tenha trabalhado de forma facilitadora com grupos oprimidos em qualquer momento estará familiarizada com esses processos de energização que muitas vezes podem parecer um despertar. Desideologização A realidade social pode ser difícil de ver pelo que é, não apenas para as pessoas, mas para a própria teoria e prática da psicologia. É necessário, portanto, desideologizar a realidade, descascar as camadas de ideologia que individualizam e naturalizam os fenômenos sociais. Martín-Baró o fez em relação ao problema do fatalismo conformista nas sociedades latino-americanas e ao mito do 'latino preguiçoso' (Martín-Baró, 1987; 1996d). Ele também utilizou pesquisas de opinião para contrariar a propaganda do governo salvadorenho sobre as opiniões da população (Martín-Baró, 1989b; 1996a), que ele tanto informou (Soto, 2010) quanto disponibilizou para um público internacional, uma importante contribuição para minar o apoio dado pelos Estados Unidos aos militares e um motivo de seu assassinato pelas forças do Estado (Bernabeu & Blum, 2012). Memória histórica Outra ferramenta na desideologização da realidade social, especialmente importante na América Latina, é a recuperação da memória histórica. Martín-Baró destacou que é difícil atender às necessidades básicas do cotidiano quando a maioria vive no presente psicológico, em um aqui e agora que ignora o passado e o futuro. A ideologia dominante estrutura uma realidade aparentemente natural e histórica, levando à sua aceitação sem maiores questionamentos. Isso torna difícil tirar lições da experiência e, o que Martín-Baró considerou mais importante, descobrir as raízes de sua própria identidade, tanto para interpretar seu significado atual quanto para trazer à tona concepções alternativas do que ela pode vir a ser - novamente combatendo o fatalismo e tornando-se atores sociais. 28 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Assim, Martín-Baró (1986; 1996c) recomendou a recuperação seletiva e coletiva de elementos do passado que foram eficazes na defesa dos interesses das classes exploradas e que poderiam, por sua vez, ser úteis para uma luta consciente por um mundo melhor, recuperando o orgulho de pertencer a um povo e ganhar um sentido de identidade com uma tradição e uma cultura. A psicologia da libertação como movimento Desde a morte de Martín-Baró, e principalmente a partir do final da década de 1990, desenvolveu-se um movimento pela psicologia da libertação na América Latina. Houve congressos internacionais em vários países; há coletivos de psicologia da libertação estabelecidos na Colômbia e na Costa Rica e um em desenvolvimento em El Salvador, bem como outros grupos menos formais em outros lugares Uma quantidade considerável de trabalho foi conduzida sob a égide dessas redes e movimentos, embora a psicologia da libertação permaneça um campo minoritário. Os psicólogos com orientação libertadora trabalham em diversos campos, principalmente na psicologia social comunitária, em relação ao trauma social resultante do conflito e da opressão e na crítica psicológica social da política e da ideologia. Na melhor das hipóteses, a psicologia da libertação traz novos insights e perspectivas para os movimentos sociais, embora às vezes as redes pareçam agir como pouco mais do que canais de comunicação de notícias sobre vários locais de repressão política e luta. A luta contra a impunidade A libertação não é algo que os psicólogos possam alcançar sozinhos, é essencial trabalhar em aliança, como parte de movimentos sociais progressistas mais amplos. A psicologia da libertação segue o apelo de Martín-Baró a um olhar para o exterior, focalizando não os problemas da disciplina, mas os problemas da sociedade. 29 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 6. PSICOLOGIA SOCIAL NA AMÉRICA DO NORTE Iniciaremos a unidade seis desvendando as contribuições trazidas da América do Norte aos estudos da Psicologia Social, será possível perceber a evolução do pensamento psicológico e sociológico durante esse período. No decorrer de sua breve história, a Psicologia Social tem se caracterizado pela pluralidade e multiplicidade de abordagens teóricas adotadas como referenciais legítimos à produção de conhecimentos sociopsicológicos. Tal contexto tem dificultado sobremodo a delimitação do objeto de estudo ou mesmo dos vários objetos de estudo dessa disciplina. Contudo, o binômio indivíduo-sociedade, isto é, o estudo das relações que os indivíduos mantêm entre si e com a sua sociedade ou cultura, sempre esteve no centro das preocupações dos psicólogos sociais, com o pêndulo oscilando ora para um lado, ora para um lado, ora para o outro. A evolução da Psicologia Social, nas diferentes partes de mundo, vem ocorrendo, de certa forma, associada às várias modalidades ou vertentes da disciplina. Assim é que, na América do Norte, e mais especialmente nos Estados Unidos da América, a Psicologia Social Psicológica foi e continua sendo a tendência predominante. Já na Europa, é possível se notar uma preocupação maior com os processos grupais e socioculturais, que sempre estiveram na base das preocupações da Psicologia Social Sociológica. Por outro lado, na América Latina, verifica-se a adoção da Psicologia Social Crítica como abordagem preferencial à análise dos graves problemas sociais que costumam assolar a região. Duas obras, publicadas no ano de 1908, irão marcar o embasamento oficial da Psicologia Social moderna na América do Norte: O livro Uma introdução à psicologia social, de autoria de William McDougall, e o livro Psicologia social: uma resenha e um livro texto, de autoriade Edward Ross (Pepitone, 1981). Contudo, Ross era sociólogo e McDougall, psicólogo, o que fez com que uma das obras se situasse no âmbito da Sociologia e outra, no escopo da Psicologia, anunciando, já naquela época, a separação ocorrida muito mais tarde entre a Psicologia Social Psicológica e a Psicologia Social Sociológica. 30 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância De tal modo que, durante algum tempo, na América do Norte, a Psicologia Social desenvolveu-se paralelamente no contexto de ambas as disciplinas. Logo, porém, ainda nas primeiras décadas do século XX, a Psicologia Social Psicológica estabelece-se como a tendência predominante no cenário norte-americano, em especial nos Estados Unidos da América (EUA), sob forte influência do behaviorismo. Allport define os contornos da Psicologia Social Psicológica como uma disciplina objetiva, de base experimental e focada no indivíduo ao defender que a psicologia social deveria concentrar -se no estudo experimental do indivíduo, na medida em que o grupo se constituía tão somente em mais um estímulo do ambiente social a que esse indivíduo era submetido (Franzoi, 2007). Os anos de 1920 e 1930 foram dominados pelo estudo das atitudes, da influência social interpessoal e da dinâmica de grupos. No que tange às atitudes, a investigação concentrou -se no desenvolvimento de diferentes técnicas destinadas a mensurar tal constructo tomado como um fenômeno mental (McGarty & Haslam, 1997). No que se refere à influência social e dinâmica de grupos, merecem destaque os experimentos realizados por Muzar Sheriff e Kurt Lewin, psicólogos europeus que imigraram para os EUA e receberam fortes influências do gestaltismo. Já Sheriff (1936) estava interessado no processo de formação de normas sociais, tendo chegado à conclusão de que os grupos desenvolvem normas que governam os julgamentos dos indivíduos que dele fazem parte, bem como dos novos membros que a elas também se adaptam, em função das normas grupais existirem à revelia de seus membros individuais Principais temas Dois principais temas marcaram as duas décadas subsequentes, que assinalam o período da Segunda Grande Guerra e do pós-guerra: atitudes e percepção de pessoa. A investigação das atitudes, iniciada nos anos 20, prosseguiu nas décadas seguintes com os experimentos de Carl Hovland e sua equipe sobre comunicação e persuasão (Hovland, Janis & Kelley, 1953), que levaram a importantes conclusões acerca dos diferentes fatores que interferiam na mudança de atitudes (Goethals, 2003). Tais estudos, bem como os que lhes sucederam, conferiram às atitudes um papel fundamental no campo da Psicologia Social Psicológica, tendo levado alguns autores (e.g., McGuire, 1968) a afirmar que tal fenômeno constituía-se em conceito central à Psicologia Social. 31 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A investigação sobre percepção de pessoas, que até hoje consiste em uma das áreas centrais de estudo da Psicologia Social Psicológica, inicia-se com os trabalhos de Fritz Heider (1944, 1946, 1958), que também imigrou da Alemanha para os EUA durante a Segunda Grande Guerra, e recebeu forte influência do gestaltismo. Na publicação de 1944, o autor realiza o primeiro tratamento sistemático dos processos atribuicionais (Goethals, 2003), ao lançar o argumento de que os indivíduos associam as ações das pessoas a motivos e disposições internas, em função de perceberem uma justaposição ou gestalt entre o modo pelo qual as pessoas se comportam e a natureza de suas qualidades pessoais. Tal argumento sobre como as pessoas realizam atribuições causais será aprofundado no livro de 1958, traduzido para o português com o nome de “Psicologia das Relações Interpessoais”. No artigo de 1946, Heider desenvolve a teoria do equilíbrio, segundo a qual as pessoas tendem a manter sentimentos e cognições coerentes sobre um mesmo objeto ou pessoa, de modo a obter uma situação de equilíbrio. Quando esse equilíbrio se desfaz, elas vivenciam uma situação de tensão e procuram restabelecê-lo, mediante a mudança de algum dos elementos da situação. Tal princípio encontra-se na base das teorias da consistência cognitiva que irão proliferar nos anos seguintes. Evolução teórica e temática Festinger (1954), sob a influência das investigações realizadas por Lewin, propõe a teoria dos processos de comparação social, na qual defende que as pessoas necessitam avaliar suas habilidades e opiniões a partir de comparações realizadas com outros indivíduos que lhes são similares. A referida teoria suscitou uma série de experimentos, reemergiu algumas vezes ao longo dos anos 70 e encontra-se solidamente estabelecida no momento atual, sendo usada, de forma recorrente, como mecanismo explanatório dos processos de formação da identidade pessoal e social (Goethals, 2003). Posteriormente, Festinger (1957) introduz a teoria da dissonância cognitiva, na qual estabelece que as pessoas são motivadas a procurar o equilíbrio entre suas atitudes e ações. Nesse sentido, quando instadas a mudar seu comportamento, mostram-se propensas a modificar também suas atitudes, de modo a restabelecerem o equilíbrio entre ações e atitudes. Apesar de ter sido alvo de críticas, a referida teoria foi uma das principais responsáveis pelo desenvolvimento da Psicologia Social Psicológica nas décadas 32 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância seguintes (Rodrigues, Assmar & Jablonski, 2000), tendo propiciado um grande número de pesquisas experimentais rigorosas, conduzidas com a finalidade de testar seus vários pressupostos. As teorias da atribuição irão dominar o cenário sociopsicológico norte-americano a partir do final dos anos de 1960 e durante os anos de 1970 e 1980, numa evidência da ascensão progressiva do cognitivismo no campo da Psicologia Social Psicológica. Apoiando-se nos pressupostos sobre as relações interpessoais antecipados por Heider (1944, 1958), as referidas teorias e seus desdobramentos (Jones & Davis, 1965; Kelley, 1967; Ross, 1977; Weiner, 1986) vão se debruçar. A partir dos anos 1980, o cognitivismo se consolida de vez como a perspectiva dominante na Psicologia Social Psicológica e no cenário norte-americano. Em consequência, o principal tema de investigação passa a ser a cognição social, que tem como objetivo básico compreender os processos cognitivos que se encontram subjacentes ao pensamento social (Fiske & Taylor, 1984). Adotando tal perspectiva, os psicólogos sociais cognitivistas se dedicam então a fazer uma reanálise de temas que já vinham sendo estudados há algum tempo, procurando agora, porém, desvelar os mecanismos cognitivos subjacentes a tais fenômenos, tendência que se mantém até os dias atuais, conforme será visto mais à frente. A breve descrição da evolução teórica e temática da Psicologia Social norte- americana evidencia que, com o passar do tempo, o modelo de pesquisa-ação orientado para a comunidade e para o estudo dos grupos, introduzido por Lewin ainda nos anos de 1930, foi sendo paulatinamente abandonado e substituído pela investigação de fenômenos e processos eminentemente intraindividuais, de natureza cognitiva. Tendo como meta última a investigação das leis universais capazes de explicar o comportamento social, a Psicologia Social Psicológica estrutura-se progressivamente como uma ciência natural e empírica, que desconsidera o papel que as estruturas sociais e os sistemas culturais exercem sobre os indivíduos (Pepitone, 1981). A Psicologia Social na América do Norte: Tendências Atuais Na atualidade, os psicólogos sociais da América do Norte continuam se debruçando sobre temas tradicionais, que já tinham sido objeto de interesse dos que construíram a história da disciplina naquele país, mas também vêm se dedicandoa novas temáticas que 33 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância contribuíram para expandir e diversificar o espectro de fenômenos sociais investigados no contexto norte-americano. De acordo com Ross, Lepper e Ward (2010), em capítulo publicado na quinta e mais recente edição do Handbook of Social Psychology, três tópicos podem ser considerados centrais à psicologia social, em função do continuado interesse que vêm despertando, razão pela qual que se encontram presentes na maioria dos livros textos e palestras sobre o assunto. São eles a cognição social, as atitudes e os processos grupais Segundo Carlston (2010), a cognição social pode ser vista atualmente como uma subárea da Psicologia, responsável por integrar uma série de microteorias que, ao longo do tempo, foram se desenvolvendo no contexto da Psicologia Social para explicar os modos pelos quais as pessoas pensam sobre si mesmas e sobre as coisas, formam impressões acerca de outras pessoas ou grupos sociais e explicam comportamentos e eventos. Apoiada no modelo de processamento de informação (que considera a atenção e percepção, a memória e o julgamento como diferentes etapas do processamento cognitivo), a cognição social dedica-se, assim, a estudar o conteúdo das representações mentais e os mecanismos que se encontram subjacentes ao processamento da informação social. Atitudes As atitudes constituem-se em um dos construtos mais antigos no contexto sociopsicológico, embora suas definições nem sempre sejam consensuais. Contudo, alguns temas são recorrentes nas várias definições oferecidas pelos autores, como o fato de elas se encontrarem associadas a diversas manifestações, incluindo-se as crenças, os valores e as opiniões, e de elas envolverem avaliações de objetos sociais (Saucier, 2000). De acordo com Fabrigar e Wegener (2010), as atitudes podem ser conceituadas como avaliações gerais e duradouras, que variam de um extremo positivo a um extremo negativo, dos objetos presentes no mundo social, o que abrange pessoas, grupos, comportamentos etc. Nesse sentido, elas integram as cognições e afetos sobre tais objetos (Crano & Prislin, 2006). Processos grupais O estudo dos fenômenos grupais tem uma longa história na área da Psicologia Social, tendo se constituído no objeto de preocupações de vários pioneiros da Psicologia norte americana, como Lewin, Sheriff e Asch. Com o passar do tempo, porém, as investigações nessa área tenderam a se concentrar em níveis cada vez mais micros de 34 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância análise, que se focalizavam sobremaneira nas qualidades, características e ações dos membros individuais, quando na presença de um grupo. Neurociência social A área de Neurociência Social, assim colocada pela primeira vez por Cacioppo e Berntson (1992), surge movida principalmente pelo interesse de investigar as possíveis associações existentes entre a cognição social e as funções cerebrais, com o intuito de compreender o papel desempenhado pelas estruturas neurais no processamento da informação social (Adolphs, 2009). O pressuposto básico é, portanto, o que determinam os mecanismos neurocerebrais que são responsáveis pelo raciocínio social, isto é, que existem determinadas estruturas cerebrais especializadas nas atividades de auto percepção e percepção dos demais indivíduos e grupos sociais, bem como nas ações que permitem a vida em sociedade (Heatherton & Wheatley, 2010). Em resumo, a Neurociência Social dedica-se à análise das bases neurobiológicas da cognição social. Neste capítulo foram descritos alguns dos principais conceitos e teorias que permearam a trajetória da Psicologia Social na América do Norte. Aprendemos uma maneira peculiar de compreender a cognição social. 35 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 7. PSICOLOGIA SOCIAL NA EUROPA A proposta dessa unidade é visualizar as contribuições da Psicologia Social na Europa, teremos a oportunidade de compreender a trajetória da conquista da sua própria identidade e da sua preocupação com a estrutura social. Bons estudos! A Psicologia Social na Europa: Evolução e Tendências Atuais Apesar de inicialmente a Psicologia Social europeia ter caminhado lado a lado com a Psicologia Social Psicológica, ela começou, a partir dos anos 1970 e motivada pela crise da Psicologia Social na América do Norte, e adquiriu sua própria identidade, demonstrando maior preocupação com a estrutura social. Desde então, ela vem crescendo progressivamente em tamanho e influência. Entre os temas de estudo mais frequentes no contexto europeu encontram-se a identidade social, que se insere principalmente no contexto das relações intergrupais, e as representações sociais, que remetem a uma psicologia dos grupos e coletividades. Tema de estudo: teoria de Identidade social A teoria da identidade social surge na literatura sociopsicológica com Henri Tajfel, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, e seus colaboradores que procuraram enfatizar a dimensão social do comportamento individual e grupal, ao interceder que o indivíduo é moldado pela sociedade e pela cultura. Nesse sentido, defendem que as relações intergrupais estão intimamente relacionadas a processos de identificação grupal e de comparação social. A teoria da identidade social apoia-se em três postulados básicos: Desenvolvido pela autora (2021). (1) o autoconceito é derivado da identificação e pertença grupal; (2) as pessoas são motivadas a manter uma autoestima positiva; (3) as pessoas estabelecem uma identidade social positiva mediante a comparação favorável de seu próprio grupo (in-group) com outros grupos sociais (out-groups) 36 Psicologia Social Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Nesse sentido, quando tal comparação não se mostra favorável ao próprio grupo, elas irão adotar diferentes estratégias para recuperar o favoritismo de seu próprio grupo, como forma de assegurar uma autoestima positiva As primeiras demonstrações sobre a identificação social e o favoritismo do próprio grupo foram realizadas por Tajfel (1981), mediante o uso de experimentos adotando a técnica do paradigma dos grupos mínimos, em que as pessoas eram arbitrariamente assinaladas a grupos com os quais não possuíam nenhuma identificação anterior e, mesmo assim, tendiam a manter a vantagem do próprio grupo. Desde então, a identificação social tem sido objeto de inúmeras verificações empíricas, dentro e fora do laboratório. Tais estudos têm consistentemente apontado que a força da identificação com o próprio grupo e a necessidade de manter uma autoestima positiva encontram-se na base das relações intergrupais, ao provocarem o favoritismo do próprio grupo e as atitudes discriminatórias daí decorrentes (Brown, 2000). Assim, por exemplo, a revisão de 34 estudos conduzida por Aberson, Healy e Romero (2000) observou que as pessoas de autoestima elevada exibiam maior favoritismo ao próprio grupo do que as de autoestima mais baixa. Outros estudos têm verificado que as pessoas que vivenciam uma diminuição de sua autoestima tendem a expressar maior preconceito (Fein & Spencer, 1997). Tema de estudo: teoria de autocategorização Uma extensão da teoria da identidade social é a teoria da autocategorização de Turner, Hogg, Oakes, Reicher e Wetherell (1987). Seu foco são os fatores que levam os indivíduos a realizarem determinadas categorizações, bem como suas consequências para o comportamento coletivo. Admite- se, assim, que se depender da força da pressão social presente em determinadas situações, as pessoas deixarão de lado suas características idiossincráticas (autopercepção) e ativarão suas identidades sociais, o que as levará ao engajamento em ações coletivas. De acordo com esses