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1. Evolução Histórica e Fundamentos do Processo Penal 
Inicialmente, a resolução de conflitos era marcada pela vingança privada 
(autotutela), um modelo desproporcional que gerava mais violência. Com a 
evolução social, surgiram formas de mediação por líderes e, finalmente, a 
criação do Estado, a quem os cidadãos transferiram o poder de punir. O Estado 
impõe normas de comportamento com força coercitiva. 
O Processo Penal é o meio pelo qual o Estado aplica as sanções previstas no 
Direito Penal àqueles que violam as normas. Ele não visa condenar ou 
absolver, mas sim garantir um processo justo e legal. O Direito Penal define o 
crime e a pena, enquanto o Processo Penal é o instrumento para aplicar essa 
pena. 
2. Sistemas Processuais Penais 
Existem três modelos principais para a organização do processo penal: 
• Sistema Inquisitivo: As funções de acusar, defender e julgar concentram-se 
em uma única figura, geralmente o juiz. Isso gera um grande problema de falta 
de imparcialidade, e o réu é tratado como objeto do processo. No Brasil, a 
fase de investigação (inquérito policial) é considerada inquisitorial, pois não há 
partes nem garantias como a ampla defesa. 
• Sistema Acusatório: Há uma clara separação das funções: uma parte acusa 
(Ministério Público), outra defende (advogado/defensor) e um juiz imparcial 
julga. Este é o sistema adotado no Brasil, conforme o art. 3º-A do Código de 
Processo Penal (CPP) e o art. 129 da Constituição, que atribui a titularidade da 
ação penal pública ao Ministério Público. 
• Sistema Misto: Combina características dos dois sistemas, geralmente com 
uma fase inicial inquisitiva e uma fase de julgamento acusatória. Foi usado na 
França napoleônica. 
3. Aplicação da Lei Processual Penal 
• No Espaço: Vigora o Princípio da Territorialidade (Locus Regit Actum), ou 
seja, aplica-se a lei processual brasileira aos atos praticados no Brasil. Existem 
exceções, como tratados internacionais, imunidades diplomáticas e consulares. 
• No Tempo: Aplica-se o Princípio Tempus Regit Actum, que determina a 
aplicação imediata da nova lei processual aos atos futuros, mesmo em 
processos já em andamento. A lei processual não retroage para prejudicar o 
réu, especialmente as leis de natureza mista (penal e processual), chamadas 
de heterotópicas. 
4. Investigação Criminal: O Inquérito Policial (IP) 
A investigação é a fase pré-processual que coleta elementos de convicção 
(provas de autoria e materialidade) para fundamentar uma futura ação penal. 
• Natureza e Características: É um procedimento administrativo, inquisitorial, 
escrito, sigiloso (com exceções, como o acesso do advogado – Súmula 
Vinculante 14 do STF), dispensável (o MP pode denunciar com base em outras 
provas) e oficial. Seus vícios, em regra, não contaminam a ação penal. 
• Instauração: 
 ◦ Ação Pública Incondicionada: De ofício pela autoridade policial, por 
requisição do juiz ou do MP, ou a requerimento do ofendido. 
 ◦ Ação Pública Condicionada: Exige representação da vítima. 
 ◦ Ação Privada: Exige requerimento de quem tem qualidade para propor a 
queixa-crime. 
• Arquivamento: O arquivamento do IP, a pedido do MP, impede o início da 
ação penal, a menos que surjam novas provas (Súmula 524 do STF). A vítima 
pode recorrer da decisão de arquivamento no prazo de 30 dias. 
5. Sujeitos Processuais 
São os atores que participam do processo penal. Os principais são: 
• Juiz: Comanda o processo e deve ser imparcial. Possui garantias como 
vitaliciedade e inamovibilidade. 
 ◦ Impedimento: Motivos objetivos e internos ao processo (ex: parentesco) 
que o proíbem de atuar. O ato praticado é inexistente. 
 ◦ Suspeição: Motivos subjetivos e externos (ex: amizade íntima ou 
inimizade). O ato é nulo. 
 ◦ Juiz das Garantias: Atua apenas na fase de investigação para controlar a 
legalidade e proteger os direitos fundamentais, garantindo a imparcialidade do 
juiz que julgará o caso. Não se aplica em casos de violência doméstica, 
Tribunal do Júri e JECrim. 
• Ministério Público (MP): Órgão autônomo, titular da ação penal pública. 
Rege-se pelos princípios da indivisibilidade e independência funcional. 
• Acusado: Pessoa maior de 18 anos contra quem se move a ação. Possui 
direitos fundamentais, como o direito ao silêncio (Aviso de Miranda) e a não 
produzir prova contra si mesmo. 
• Defensor: A defesa técnica por advogado é obrigatória e indispensável. A 
falta de defesa gera nulidade absoluta (Súmula 523 do STF). 
• Ofendido (Vítima): Sujeito passivo do crime. Pode atuar como assistente de 
acusação na ação pública ou como autor (querelante) na ação privada. 
6. Ação Penal 
É o direito de pedir ao Estado a aplicação de uma sanção penal. Para que seja 
válida, precisa preencher condições da ação: possibilidade jurídica do pedido, 
legitimidade para agir, interesse de agir e justa causa (provas mínimas de 
autoria e materialidade). 
Classificação e Princípios: 
• Ação Penal Pública: 
 ◦ Princípios: Obrigatoriedade (MP deve agir se houver provas), 
Indisponibilidade (MP não pode desistir da ação) e Oficialidade. 
 ◦ Tipos: 
 1. Incondicionada: Regra geral. O MP age independentemente da 
vontade da vítima. 
 2. Condicionada: Depende de representação do ofendido ou de 
requisição do Ministro da Justiça. A representação pode ser retratada até o 
oferecimento da denúncia. 
• Ação Penal Privada: 
 ◦ Princípios: Oportunidade (a vítima escolhe se processa ou não) e 
Disponibilidade (pode desistir da ação). 
 ◦ Institutos Próprios: 
 ▪ Renúncia: Ato unilateral, antes da ação, pelo qual a vítima abre mão do 
direito de queixa. 
 ▪ Perdão: Ato bilateral (requer aceitação do réu), durante a ação, que 
extingue a punibilidade. 
 ▪ Perempção: "Abandono" do processo pelo querelante (autor), que 
demonstra desinteresse em prosseguir. 
7. Jurisdição e Competência 
• Jurisdição: É o poder-dever do Estado de dizer o direito, exercido pelo Poder 
Judiciário. É una e abstrata. 
• Competência: É a delimitação da jurisdição. Define qual juiz ou tribunal 
específico irá julgar um determinado caso, com base em critérios como o local 
da infração, a natureza do crime e o foro por prerrogativa de função. 
 ◦ Foro por Prerrogativa de Função: Certas autoridades (ex: Presidente, 
Ministros, Deputados) são julgadas por tribunais superiores (STF, STJ) em 
razão do cargo que ocupam, mas apenas por crimes cometidos durante o 
exercício do cargo e relacionados à função.

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