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TEMPLATE PADRÃO ÚNICO DO DESAFIO PROFISSIONAL ORIENTAÇÕES IMPORTANTES ANTES DE COMEÇAR: Este é o template padrão único para a realização do seu Desafio Profissional. Para todas as disciplinas, o template será o mesmo. O que muda é a proposta do seu desafio. Portanto, para que você conheça o desafio proposto para a sua disciplina, é preciso: 1) Acessar o seu AVA; 2) Clicar na disciplina que será avaliada; 3) Entrar em “Notas e Avaliações”; 4) Clicar em “Responder Avaliação III”. Além disto, é fundamental que você faça a leitura atenta da questão na íntegra antes de iniciar o preenchimento deste template. Agora, vamos às etapas de realização do seu desafio profissional. ETAPA 1: Apresentação do Desafio Profissional Seu papel ativo nesta etapa é apenas ler tudo com atenção e entender qual solução (ou soluções) você apresentará ao final da atividade. Então, leia todas as orientações da Etapa 1 do seu Desafio Profissional. ETAPA 2: Materiais de referência (ambientação) do seu Desafio Profissional Nesta etapa, você deve analisar os materiais de referência e inteirar-se do conteúdo que o(a) professor(a) indicou para que você tenha mais segurança e conhecimento na hora de analisar o caso. Depois que você tiver feito a leitura e já estiver munido de mais informações, você deve eleger três aspectos do desafio proposto que sejam os mais relevantes, do seu ponto de vista, para a solução do desafio. Por exemplo: que estratégia inovadora foi usada? Que decisão polêmica ou uma atitude inesperada você localizou? Qual foi o erro do profissional que aplicou a fórmula? O que o profissional esqueceu de observar? Seu papel ativo nesta etapa é apontar esses três aspectos e justificar suas escolhas. Estudante, escreva aqui os três aspectos e justifique suas escolhas. Anote assim neste template: o que chamou atenção + por quê. Título do Parecer Será que a gente sabe mesmo ou só tá achando? Um papo sobre opinião e conhecimento nas políticas públicas Consultor(a) Responsável ERIVALDO FERREIRA Objeto da Análise Avaliar como as decisões em programas sociais e educacionais do estado estão sendo tomadas – se com base em fatos ou em "ouvi falar" – e o que fazer pra melhorar isso. Referência Teórica Bazzanella (2012); Platão (República, Mênon, Teeteto); Chauí; Abbagnano; Popper; Kuhn; Berger & Luckmann; vídeos indicados. ETAPA 3: Levantamento de conceitos teóricos Aqui, você deve aproximar a teoria da prática. Seu papel ativo nesta etapa é pesquisar conceitos, autores, teorias etc., que possibilitem a compreensão da solução do desafio. Você pode usar o seu livro da disciplina ou ainda o material apresentado na etapa 2. Para isto, faça uma lista comentada de conceitos-chave, cada um explicado em duas ou três linhas. Por exemplo: Nome do conceito → definição curta → como ajuda a entender o caso. Lembre-se de que é como montar uma “maleta de ferramentas teóricas” para usar na próxima etapa. 1. Doxa: É a opinião. Não aquela opinião formada depois de estudar, mas aquela que a gente repete porque ouviu em algum lugar, porque "todo mundo fala", porque parece fazer sentido. É instável – hoje você acha uma coisa, amanhã outra. Platão colocava ela no nível da sombra, da aparência. 2. Episteme: É o conhecimento de verdade. Não é qualquer crença que dá certo – é crença justificada. Você não só acerta, mas sabe por que acertou. É sistemático, foi testado, pode ser ensinado. Dá trabalho chegar nela. 3. Crença verdadeira justificada: Essa é a definição clássica que aparece no Teeteto do Platão. Pra você saber alguma coisa, precisa de três coisas: acreditar nela, ela ser verdade, e você ter uma boa razão pra acreditar. A doxa pode até acertar, mas falta a justificativa. É tipo acertar o número da loteria – você não sabia, chutou. 4. Senso comum: É o conhecimento do dia a dia. Ele é útil pra viver – ninguém precisa de ciência pra saber que fogo queima. Mas ele também é cheio de preconceito, generalização grosseira, repetição sem crítica. A Chauí explica bem isso. 5. Falseabilidade: Ideia do Popper. Uma afirmação só é científica se ela puder ser testada e, se for o caso, provada errada. "Todo cisne é branco" é falseável – basta um cisne preto. "Deus existe" não é falseável – como você provaria que não existe? A doxa adora afirmações que não podem ser testadas. ETAPA 4: Aplicação dos conceitos teóricos ao Desafio Profissional Neste momento, você deve começar a construção da sua análise. É aqui que você vai usar sua “maleta de ferramentas” para solucionar o desafio. Seu papel ativo nesta etapa é aplicar cada conceito que julgue importante e conectá-lo com algo que acontece na situação analisada. Você fará isso por meio de uma lista de tópicos, respondendo: Como o conceito X explica o que aconteceu na situação Y? O que a teoria X nos ajuda a entender sobre o problema central? Que soluções possíveis a teoria aponta (e por que elas fazem sentido)? A diferença entre doxa e episteme na prática: Olha, vou dar um exemplo bem besta pra ficar claro. Imagina que você tá num churrasco e alguém solta: "político não presta mesmo, todos são iguais". Isso é doxa. É uma opinião geral, meio preguiçosa, que a pessoa nem tentou verificar. Agora imagina um cientista político que analisou 500 casos de corrupção, cruzou dados de dez anos, identificou padrões partidários e regionais, e conclui que "72% dos casos de desvio de verba pública no período X estão concentrados em três partidos". Isso é episteme. Não porque seja "verdade absoluta", mas porque tem método, tem dado, pode ser contestado e melhorado. O problema das Ciências Sociais é que todo mundo acha que entende de comportamento humano. Você não vê ninguém falando "eu acho que a vacina contra covid funciona" sem ter lido os estudos. Mas sobre pobreza, educação, violência, juventude – aí qualquer um tem opinião, e a opinião vale tanto quanto uma tese de doutorado. Não vale. E é isso que a gente precisa mostrar pros gestores. Como a doxa atrapalha as políticas públicas: Vou listar uns exemplos que a gente já viu acontecer, sem citar nomes pra não criar confusão. Exemplo 1: Um gestor ouve que "os jovens da periferia não se interessam por cultura". Ele acredita. Corta verba do teatro itinerante, da biblioteca volante, do projeto de grafite nas escolas. O que acontece? Uma pesquisa séria depois mostra que os jovens consumiam mais cultura do que a média da cidade – só que era cultura digital, funk, sarau de periferia, coisas que o gestor não considerava "cultura de verdade". A decisão foi baseada em doxa e deu errado. Exemplo 2: Alguém decide que "família pobre não participa de reunião escolar porque não se importa". Aí o governo abandona a política de incentivo à participação. Mas uma pesquisa de campo descobre que as mães não iam porque a reunião era num horário que elas estavam trabalhando, porque não tinha transporte, porque a escola ficava numa área perigosa à noite, porque a diretora tratava elas mal. O problema não era "falta de interesse" – era falta de estrutura. A doxa escondeu o problema real. Exemplo 3: "A violência aumentou porque os valores morais pioraram". Essa é clássica. O gestor resolve investir em campanha de "bons costumes", palestra em escola sobre família tradicional, fiscalização de funk e baile. Enquanto isso, o que os dados mostravam? Que o aumento da violência tava concentrado em bairros com disputa de facção, com falta de patrulhamento, com jovens sem acesso a trabalho e lazer. A doxa moralista não resolveu nada – só gastou dinheiro. O problema central é que a doxa se finge de conhecimento. Ela usa palavras como "todo mundo sabe", "é óbvio que", "a experiência mostra". Só que a experiência pessoal de um gestor de escritório com ar-condicionado não é parâmetro pra nada. Ele precisa dedado, precisa de pesquisa, precisa de episteme. Duas ações práticas que o Observatório pode adotar: Ação 1 – O tal do formulário de justificativa A ideia é simples: antes de qualquer decisão importante (cortar verba, criar um programa, mudar uma diretriz), o gestor tem que preencher um formulário curto, de uma página. As perguntas são: Que afirmação sobre a realidade está sendo usada pra justificar essa decisão? De onde veio essa afirmação? (Dado oficial? Pesquisa acadêmica? Relato de um conhecido? Sensação pessoal? "Todo mundo fala"?) Se veio de pesquisa: qual metodologia? Quantas pessoas foram ouvidas? A amostra é representativa? Se veio de opinião ou relato: existe alguma pesquisa que confirme ou refute essa percepção? O Observatório não vai barrar a decisão se o formulário estiver incompleto. Mas vai classificar cada proposta com uma etiqueta: "Baseado em evidência forte", "Baseado em evidência fraca" ou "Baseado apenas em opinião". Isso vai virar público. Ninguém gosta de ver sua decisão marcada como "achismo". O constrangimento vai fazer os gestores pensarem duas vezes. Ação 2 – Boletim "Desconfie" A gente cria um boletim bimestral, curto, de no máximo quatro páginas. Cada edição pega uma doxa comum – dessas que aparecem toda hora nos discursos dos gestores – e confronta com dados. Exemplo: "Jovem não quer estudar". O boletim traria dados de pesquisas sérias sobre evasão escolar, mostrando que os principais motivos são trabalho precoce, gravidez na adolescência, falta de transporte, bullying, e não "falta de vontade". Traria também exemplos de políticas que funcionaram em outros lugares. O boletim não é só texto. Tem que ter gráfico, tem que ter uma tabela simples, tem que ter uma caixinha de "mito vs. fato". E tem que ser distribuído em papel também, porque gestor mais velho às vezes não lê e-mail. A gente faz um seminário presencial a cada dois meses pra apresentar o boletim e discutir. Com café. Café é importante. A ETAPA 5 É A MAIS IMPORTANTE DE TODO O PROCESSO, POIS É A ETAPA QUE SERÁ AVALIADA! ENTÃO, PRESTE MUITA ATENÇÃO! ETAPA 5 – AVALIATIVA: Redação do produto - Memorial Analítico. Chegou a hora de transformar todo o seu percurso investigativo em um texto claro, bem estruturado e objetivo. Seu papel ativo nesta etapa é desenvolver um Memorial Analítico. Este será o produto final do Desafio Profissional, que será avaliado com nota de zero a dez e terá peso três na média final desta disciplina. Vamos reforçar o que é um memorial analítico? É basicamente você mostrando o caminho que percorreu: o que leu, como interpretou, que teorias usou, que conclusões tirou e o que aprendeu com tudo isso. Para ajudar você, segue o passo a passo do que não pode faltar no Memorial Analítico (ordem recomendada, pois cada item fará parte da composição da sua nota): Resumo do que você descobriu (1 parágrafo) – vale 1 ponto Contextualização do desafio (1 parágrafo): Quem? Onde? Qual a situação? – vale 0,5 ponto Análise (1 parágrafo): use de 2 a 3 conceitos da disciplina, mostrando como eles explicam a situação. Dê exemplos diretos e contextualizados – vale 2 pontos Propostas de solução (até 2 parágrafos): o que você recomenda? Por quê? Qual teoria apoia sua ideia? – vale 3 pontos Conclusão reflexiva (até 2 parágrafos): O que você aprendeu com essa experiência? – vale 2 pontos Referências (somente o que você realmente usou, incluindo o livro) – vale 0,5 ponto Autoavaliação (1 parágrafo): o que você percebeu sobre seu próprio processo de estudo? – vale 1 ponto Checklist rápido antes de entregar: Meu texto não passou de 6000 caracteres. Meus conceitos fazem sentido, e não estão só “porque sim”. Conectei teoria + situação. Apresentei soluções plausíveis. Incluí referências. Mostrei que aprendi algo. Tenho orgulho do que escrevi. Lembre-se de que este trecho deve ser copiado e colado no campo de resposta da questão, dentro de Notas e Avaliações. Lembre-se também de salvar este documento em PDF e colocá-lo como anexo à sua resposta. Título: Será que a gente sabe mesmo ou só tá achando? Um papo sobre opinião e conhecimento nas políticas públicas 1. Vamos começar pelo começo A Secretaria de Planejamento nos procurou com uma dor que não é nova, mas ninguém tinha nomeado direito. Eles perceberam que as decisões em programas sociais e educacionais estavam sendo tomadas com base em frases do tipo "os jovens não se interessam por cultura", "família pobre não participa de reunião escolar", "a violência aumentou porque os valores morais pioraram". Frases que ninguém consegue dizer de onde vieram. Frases que ninguém testou. Frases que, quando você vai olhar os dados, muitas vezes são mentira. O Observatório deu um nome pra isso: doxa. É um termo grego antigo, do Platão. Mas não precisa ter medo da palavra. Doxa é simplesmente "opinião não justificada". É o que a gente chama de "achismo" no dia a dia. O oposto disso é episteme – conhecimento de verdade, com método, com fonte, com justificativa. Esse parecer vai tentar explicar essa diferença de um jeito que qualquer gestor entenda. E vai propor umas ações práticas. Porque não adianta só reclamar que os outros são preguiçosos intelectualmente. A gente precisa criar mecanismos que dificultem o achismo e facilitem o uso de evidência. 2. O que Platão tem a ver com orçamento público? Parece estranho puxar um filósofo grego pra falar de política pública, mas faz sentido. Platão, na República, conta aquela história da caverna. As pessoas estão acorrentadas, vendo sombras na parede, achando que aquilo é a realidade. Uma delas se solta, sai da caverna, vê o sol, as cores, os objetos reais. Quando volta pra contar, ninguém acredita – preferem as sombras. A doxa é a sombra. É confortável, não exige esforço, todo mundo concorda. A episteme é a luz lá fora. Dói os olhos no começo, dá trabalho, às vezes você descobre que estava errado. Mas é melhor. No Mênon e no Teeteto, Platão afina a definição. Ele diz que conhecimento não é qualquer crença verdadeira. Uma pessoa pode adivinhar o caminho certo e chegar lá – isso é crença verdadeira, mas não é conhecimento, porque ela não sabe por que aquele é o caminho. Ela chutou. Política pública não pode ser chute. A gente precisa de justificativa. A Marilena Chauí, no Convite à Filosofia, atualiza essa discussão. Ela mostra que o senso comum é útil pra vida cotidiana, mas vira um problema quando a gente usa ele pra decidir coisas complexas. O senso comum é cheio de preconceitos, de generalizações apressadas, de repetições sem crítica. E o pior: o senso comum se disfarça de "experiência". "Na minha experiência, jovem não gosta de ler." Só que a sua experiência não é dados. A sua experiência é um caso, talvez dois. Política pública precisa de centenas, milhares de casos. 3. Três ideias dos materiais que a gente achou mais importantes Vou listar três pontos que a gente tirou das leituras e que achamos essenciais pra resolver o problema. Primeiro: o senso comum não é "natural" – ele é construído (Berger & Luckmann) Esse é um ponto que a gente acha que muita gente esquece. O livro A Construção Social da Realidade, do Berger e do Luckmann, mostra que aquilo que a gente considera "óbvio" ou "natural" é na verdade produto de processos sociais, históricos, de repetição. "Família pobre não se importa com educação" não é uma verdade eterna – é uma frase que foi sendo repetida até virar "fato" na cabeça das pessoas. Por que isso importa? Porque se a doxa é construída, ela pode ser desconstruída. Não é uma lei da natureza. A gente pode mostrar pro gestor que aquela "verdade" que ele carrega há anos é só um preconceito que ele aprendeu em algum lugar. Isso abre espaço pra introduzir a episteme. Segundo: uma afirmação só é científicase ela puder ser testada (Popper) O Popper, em Conjecturas e Refutações, propõe um critério muito útil. Pra ele, uma afirmação merece o nome de conhecimento científico (ou seja, é episteme) se ela for falseável – se existir a possibilidade de um teste que prove que ela está errada. "Todos os corpos caem em direção à Terra" é falseável: se um dia um corpo cair pra cima, a afirmação cai. Agora pega uma doxa típica: "jovem não se interessa por cultura". Como você testaria isso? É fácil. Você faz uma pesquisa: pergunta pra uma amostra representativa de jovens quantas horas por semana eles dedicam a atividades culturais (YouTube, cinema, música, teatro, leitura, games narrativos, etc.). Se a média der mais do que zero, a afirmação já tá enfraquecida. O problema é que a doxa nunca quer ser testada. Ela sempre dá um jeito de se proteger. "Ah, mas os jovens que disseram que consomem cultura estão mentindo" – viu? Sempre tem uma desculpa. A episteme popperiana é mais humilde: ela se oferece pro teste, e se o teste der errado, ela se corrige. Terceiro: a ciência também tem seus problemas, mas ainda é melhor que opinião (Kuhn) O Thomas Kuhn, em A Estrutura das Revoluções Científicas, complica um pouco a história. Ele mostra que a própria episteme muda ao longo do tempo. O que era ciência pra Newton (espaço e tempo absolutos) deixou de ser ciência pra Einstein. E mais: a ciência funciona dentro de "paradigmas", que são acordos de comunidade, não verdades escritas em pedra. Alguém poderia usar Kuhn pra dizer: "então tanto faz, doxa e episteme são a mesma coisa". Mas não é. Porque dentro de um paradigma, existe método, existe controle, existe crítica. Os cientistas discutem, refutam, melhoram. A doxa não tem nada disso. A doxa é o reino do "cala a boca, eu sei o que tô falando". Então a gente não vai vender a episteme como "a verdade absoluta que nunca erra". A gente vai vender ela como "o melhor que a gente tem até agora – com método, com transparência, com disposição pra se corrigir". Isso é mais honesto. 4. O que a gente propõe na prática Não adianta só teorizar. A gente precisa de ações concretas. Primeira ação: o formulário da justificativa Vai ser um documento obrigatório. O gestor não pode propor um corte de verba, um novo programa, uma mudança de diretriz sem preencher. O formulário pergunta: Qual é a afirmação sobre a realidade que justifica essa decisão? De onde ela veio? (Dado oficial, pesquisa, relato, opinião pessoal, senso comum?) Essa afirmação já foi testada? Existe algum estudo sobre isso? Se existe, qual é a conclusão do estudo? Se não existe, por que a gente está agindo sem saber? O Observatório não vai vetar a decisão. Mas vai classificar e publicar a classificação. "Decisão baseada em evidência forte", "baseada em evidência fraca", "baseada apenas em opinião". A transparência vai criar um constrangimento saudável. Ninguém quer ver o nome associado a uma decisão que depois se prova errada. Segunda ação: o boletim bimestral "Desconfie" A ideia é pegar as doxas mais comuns – aquelas que aparecem toda hora em reunião, em relatório, em entrevista de gestor – e confrontar com dados. Cada edição foca numa. Exemplo: "Jovem não quer estudar". A gente vai atrás das pesquisas sérias sobre evasão escolar. Vai mostrar que os motivos principais são: trabalho precoce, gravidez, falta de transporte, bullying, necessidade de ajudar em casa, não "preguiça". Vai mostrar políticas que funcionaram em outros lugares (Bolsa Família condicionada à frequência, transporte escolar gratuito, horários flexíveis). Vai colocar tudo num gráfico simples. O boletim tem que ser curto (quatro páginas, no máximo), com linguagem direta, sem jargão acadêmico. E a gente faz um seminário presencial a cada dois meses pra apresentar e discutir. Com café. E com a presença obrigatória dos gestores de nível médio e superior. 5. Por que essas duas ações? E por que os três aspectos teóricos importam? A primeira ação (formulário) ataca o problema da doxa pela raiz. Ela força o gestor a parar e pensar: "será que eu realmente sei isso ou só acho?". É inspirada no critério de falseabilidade do Popper – a gente está pedindo que a afirmação seja testável e testada. Também conversa com a definição platônica de conhecimento como "crença verdadeira justificada". O formulário pede a justificativa. A segunda ação (boletim) ataca a doxa como construção social (Berger & Luckmann). A gente não vai só mostrar dados frios. A gente vai contar uma história. Vai mostrar como aquela opinião surgiu, por que ela se espalhou, e por que ela está errada. E o seminário presencial cria um espaço de discussão – é a doxa sendo confrontada publicamente. E o ponto do Kuhn (a ciência como prática social) é importante pra gente não ser arrogante. Quando a gente apresentar o boletim, não vai falar "a ciência diz a verdade absoluta". Vai falar "a pesquisa atual aponta pra isso, com tais métodos, com tais limitações". Isso é mais honesto e mais difícil de contestar. 6. Fechando a conta Olha, a gente sabe que não vai resolver o problema do achismo da noite pro dia. É uma mudança de cultura. E mudança de cultura é lenta, é chata, às vezes parece que não anda. Mas a gente tem que começar. O formulário e o boletim são o começo. Eles não são perfeitos. Eles vão encontrar resistência. Vai ter gestor que vai reclamar que "isso é muita burocracia", que "a gente não tem tempo pra ficar preenchendo papel". A resposta é: você não tem tempo de pensar antes de decidir? Você prefere gastar dinheiro público com política que não funciona porque foi baseada em "eu acho"? O Observatório tá aqui pra ser esse incômodo. Não pra atrapalhar, mas pra ajudar. Porque decisão baseada em doxa é decisão que vai dar errado. E quando der errado, quem paga o pato é o cidadão. O jovem que perdeu o teatro itinerante. A mãe que não foi ouvida. A comunidade que tomou uma campanha moralista em vez de policiamento. A gente merece políticas públicas melhores. E políticas públicas melhores começam com uma pergunta simples: "como é que a gente sabe disso?"