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Dr. Gustavo Amarante | Clínica Médica & Medicina Interna | Hospital São Camilo – Unidade Santana | Guia Prático de Internato Pág. 1 INTERNATO E RESIDÊNCIA DE CLÍNICA MÉDICA Guia Prático Hospitalar LAXANTES EM AMBIENTE HOSPITALAR Classificação, mecanismos, posologia e situações clínicas especiais Dr. Gustavo Amarante | Clínica Médica & Medicina Interna | Hospital São Camilo – Unidade Santana Este guia é destinado a internos e residentes de Clínica Médica. O objetivo é facilitar a escolha racional do laxante no ambiente hospitalar, com base no mecanismo de ação, perfil do paciente e situações clínicas especiais. Os laxantes são divididos em cinco grupos: osmóticos, irritativos/estimulantes, emolientes, via retal e formadores de bolo fecal. Visão Geral: Grupos e Representantes Principais Grupo Exemplos Início de Ação Osmóticos PEG 3350 (Muvinlax), PEG 4000, Lactulose (Lactulona), Hidróxido de Mg 1–72 h (varia) Irritativos/Estimulantes Bisacodil (Dulcolax), Sene (Tamarine), Picossulfato de Sódio (Guttalax) 6–12 h Emolientes Óleo mineral — uso restrito (Nujol) 6–8 h Via Retal Glicerina (supositório/enema), Minilax (sorbitol + laurilsulfato de sódio), Phosfoenema (enema de fosfato) 5–40 min Formadores de Bolo Psyllium (Metamucil) 12–72 h 1. LAXANTES OSMÓTICOS Os laxantes osmóticos atuam retendo água no lúmen intestinal por mecanismo osmótico, aumentando o volume e amolecendo o conteúdo fecal. São em geral mal absorvidos e não irritam a mucosa, o que os torna seguros para uso mais prolongado. O início de ação varia conforme o agente utilizado. Dr. Gustavo Amarante | Clínica Médica & Medicina Interna | Hospital São Camilo – Unidade Santana | Guia Prático de Internato Pág. 2 Polietilenoglicol (PEG) 3350 / 4000 Nomes comerciais: Muvinlax (macrogol 3350), Peg-Lax, Nulytely, formulações manipuladas (PEG 4000 sachê) Mecanismo: Polímero hidrofílico de alto peso molecular. Retém água no intestino por osmose sem ser absorvido ou degradado pela microbiota intestinal. Não altera o equilíbrio eletrolítico em doses habituais. Dose habitual: Adultos: 17–34 g/dia (1–2 sachês de 17 g) diluídos em 200 ml de água. Dose única ou dividida. Em crianças, 0,5–1 g/kg/dia. Início de ação: 24–72 h para efeito pleno; pode haver amolecimento das fezes antes disso. ✔ Primeira linha para constipação crônica — maior evidência de eficácia e segurança. ✔ Insípido e inodoro: melhor aceitação em crianças e idosos. ✔ Seguro para uso prolongado, sem indução de dependência funcional. ✔ Preferir em pacientes com insuficiência renal avançada (TFG 10 anos: 10–20 gotas (5–10 mg) ao dia. Crianças de 4–10 anos: 5–10 gotas (2,5–5 mg) ao dia. Criançasintestinal, doenças inflamatórias intestinais agudas, abdome agudo febril e desidratação grave. ■ Insuficiência hepática aguda: contraindicado. ■ Associação com antibióticos pode reduzir eficácia — depende da microbiota colônica para ativação do pró-fármaco. 3. LAXANTES EMOLIENTES / LUBRIFICANTES Os emolientes lubrificam o bolo fecal e a mucosa intestinal, facilitando a progressão e a saída das fezes. No Brasil, o principal representante disponível é o óleo mineral (parafina líquida), cujo uso no ambiente hospitalar deve ser bastante criterioso. Óleo Mineral (Parafina Líquida) Nomes comerciais: Nujol, Laxol, formulações manipuladas Mecanismo: Hidrocarboneto não absorvível que lubrifica a superfície das fezes e do cólon, impedindo a absorção de água pelas fezes e facilitando a progressão intestinal. Dose habitual: Adultos: 15–30 ml/dia, preferencialmente à noite ou longe das refeições. Início de ação: 6–8 h. ■ CONTRAINDICAÇÕES E POPULAÇÕES DE RISCO — Óleo Mineral O óleo mineral NÃO deve ser usado em pacientes com risco de aspiração. A aspiração causa pneumonia lipoídica, de curso grave e difícil tratamento. Evitar em: • Idosos (especialmente acamados e com disfagia) • Crianças pequenas • Gestantes (pode comprometer absorção de vitaminas lipossolúveis: A, D, E, K) • Pacientes com refluxo gastroesofágico moderado-grave • Pacientes com doença neurológica ou rebaixamento do nível de consciência • Pacientes com aumento da pressão intra-abdominal • Pacientes em posição de decúbito prolongado A aspiração de óleo mineral causa pneumonia lipoídica exógena — acúmulo de macrófagos carregados de lipídios nos alvéolos, com padrão radiológico em vidro fosco e evolução insidiosa. Nota clínica: no ambiente hospitalar, preferir osmóticos (PEG ou lactulose) e laxantes por via retal à parafina líquida, dado o perfil de segurança superior e a frequência de fatores de risco para aspiração nos pacientes internados. 4. LAXANTES POR VIA RETAL Os laxantes de uso retal são os de ação mais rápida disponíveis — onset em minutos. São especialmente indicados quando é necessária uma evacuação rápida (pré-procedimento, constipação com fecaloma, pós-operatório imediato) ou quando a via oral está temporariamente indisponível. No hospital, são amplamente utilizados. Dr. Gustavo Amarante | Clínica Médica & Medicina Interna | Hospital São Camilo – Unidade Santana | Guia Prático de Internato Pág. 5 Glicerina — Supositório Supositório de glicerina adulto (2,2 g) e infantil (1,1 g) Mecanismo: Agente osmótico e lubrificante local. Retém água no reto, amolece as fezes e estimula reflexo de defecação por distensão retal. Dose habitual: Adultos: 1 supositório de 2,2 g inserido no reto. Crianças: supositório infantil (1,1 g). Manter no mínimo 15–30 minutos. Início de ação: 15–60 min. ✔ Seguro, bem tolerado, disponível em ampla faixa etária. ✔ Opção de primeira linha para constipação aguda hospitalar via retal. ✔ Pode causar leve ardência ou desconforto local — geralmente transitório. Glicerina — Enema Solução de glicerina a 12% para uso retal (enema de glicerina) Mecanismo: Mesmo mecanismo do supositório de glicerina, com maior volume e ação sobre sigmoide e reto. Dose habitual: Volume variável conforme protocolo hospitalar (habitualmente 120–500 ml de solução glicerinada). Administrar via retal com sonda ou cânula. Início de ação: 5–30 min. ✔ Indicado quando é necessário maior volume de esvaziamento (ex.: preparo de cólon parcial, fecaloma alto). ✔ Disponível na maioria dos hospitais. Sorbitol + Laurilsulfato de Sódio — Microenema Osmótico Nome comercial: Minilax (bisnaga 6,5 g — uso retal) Mecanismo: Laxante osmótico de uso retal. O sorbitol retém água no lúmen intestinal por ação osmótica, amolecendo e fluidificando o material fecal. O laurilsulfato de sódio é agente detergente que potencializa a peptização (liquefação) das fezes. A distensão retal resultante estimula o reflexo de defecação. Dose habitual: 1 bisnaga (6,5 g) por via retal, 1x/dia. Cortar a ponta da cânula, inserir suavemente e comprimir até esvaziar. Início de ação: 5–40 min. ✔ Microenema osmótico de pequeno volume — prático, indicado em pós-operatório, pós-parto e preparo para procedimentos retossigmóideos. ✔ Uso em adultos e pediátrico (acima de 2 dias de vida). ■ Contraindicado em hemorragia gastrointestinal ativa e enterocolite hemorrágica. ■ Pode causar ardência retal transitória. Dr. Gustavo Amarante | Clínica Médica & Medicina Interna | Hospital São Camilo – Unidade Santana | Guia Prático de Internato Pág. 6 Enema de Fosfato — Fosfato Monossódico + Dissódico Nome comercial: Phosfoenema (solução retal 130 ml — frasco descartável) Mecanismo: Os fosfatos aumentam o volume de água no lúmen intestinal por ação osmótica local, estimulando o esvaziamento retal e do sigmoide. Dose habitual: Adultos e maiores de 12 anos: 100 ml por via retal. Dose máxima: 100 ml em 24 h. Início de ação: 2–5 min. ✔ Onset rápido — útil em situações de urgência para esvaziamento retal imediato. ■ Contraindicado em insuficiência renal, ICC descompensada, desidratação grave e menores de 12 anos. ■ Risco de hiperfosfatemia, hipocalcemia e distúrbios eletrolíticos com uso incorreto ou múltiplos enemas em 24 h. ■ Superdose ou retenção >10 min: risco de desequilíbrio eletrolítico — avaliar eletrólitos e intervenção médica imediata se necessário. 5. FORMADORES DE BOLO FECAL (LAXANTES DE VOLUME) Os formadores de bolo fecal são fibras solúveis ou insolúveis que absorvem água no intestino, aumentam o volume das fezes e estimulam o peristaltismo de forma fisiológica. São os de menor impacto adverso e os mais indicados para uso crônico e preventivo, especialmente na atenção primária. No ambiente hospitalar, têm uso mais restrito pela necessidade de ingesta hídrica adequada. Psyllium (Plantago ovata) Nome comercial: Metamucil (pó para preparo oral, sachês ou frascos) Mecanismo: Fibra solúvel viscosa derivada da casca da semente de Plantago ovata. Absorve água e forma gel no intestino, aumentando o volume e amolecendo as fezes. Também reduz a absorção de colesterol e atenua picos glicêmicos pós-prandiais. Dose habitual: Adultos: 3,4–10 g/dia (1–3 doses) diluídos em 200–250 ml de água ou suco. Ingerir imediatamente após o preparo. Início de ação: 12–72 h para efeito pleno. ✔ Laxante mais fisiológico disponível — indicado como primeira linha para constipação crônica funcional. ✔ Benefícios adicionais: redução discreta do LDL-C (fibra solúvel) e melhora do controle glicêmico. ✔ Seguro em gestantes, diabéticos e idosos. ■ Exige boa hidratação — sem ingestão adequada de água, pode agravar a constipação e causar obstrução intestinal. ■ Tomar separado de outros medicamentos (intervalo de 1–2 h) — pode reduzir absorção de fármacos. ■ Contraindicado em obstrução intestinal suspeita ou confirmada. No ambiente hospitalar, o uso de formadores de bolo fecal é menos frequente pela dificuldade de garantir ingesta hídrica adequada nos pacientes internados. Em pacientes com dieta oral liberada e boa hidratação, o psyllium pode ser mantido como parte do manejo da constipação crônica. SITUAÇÕES CLÍNICAS ESPECIAIS Cirrose hepática / Encefalopatia hepática Lactulose é o laxante de escolha. Meta: 3–5 evacuações pastosas por dia. A acidificação colônica converte NH 3 em NH 4 +, reduzindo a absorção intestinal de amônia. Em pacientes com encefalopatia e incapacidade de uso oral: enema de retenção com lactulose (200–300 ml de lactulose + 700 ml de água, retido por 30–60 min). Evitar Dr. Gustavo Amarante | Clínica Médica & Medicina Interna | Hospital São Camilo – Unidade Santana | Guia Prático de Internato Pág. 7 enemas de fosfato (risco eletrolítico elevado na cirrose). Constipação induzida por opioides Bisacodil (5–10 mg oral ou 10 mg supositório) ou sene são as primeiras opções estimulantes. PEG pode ser associado. Metilnaltrexona (antagonista periférico de receptores mu) é opção quando os laxantes convencionais falham — uso restrito, custoelevado. Pós-operatório / Pós-parto Preferir laxantes por via retal (glicerina supositório, Minilax) para esvaziamento rápido e seguro. PEG oral como manutenção. Bisacodil supositório é alternativa eficaz. Insuficiência renal Evitar hidróxido de magnésio (hipermagnesemia) e enema de fosfato (hiperfosfatemia). PEG (sem eletrólitos) é a opção mais segura em TFG