Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

9. Laxantes e Catárticos 
9.1 Introdução: a constipação como problema de saúde 
A constipação intestinal é uma das queixas gastrointestinais mais comuns na 
prática clínica. Estima-se que até 20% da população mundial sofra com esse 
sintoma em algum momento da vida, sendo particularmente prevalente em 
mulheres e idosos. Para além do desconforto, a constipação crônica pode afetar a 
qualidade de vida, provocar complicações (hemorroidas, fissuras anais, fecaloma) 
e, em casos graves, exigir intervenção hospitalar. 
A fisiologia da defecação depende de uma série de fatores: motilidade colônica 
eficiente, consistência adequada das fezes, coordenação entre músculos do 
assoalho pélvico e esfíncteres e estímulos nervosos apropriados. Alterações em 
qualquer desses mecanismos podem levar à constipação. 
Os laxantes e catárticos constituem o principal recurso farmacológico para o 
manejo da constipação. Embora frequentemente utilizados de forma 
indiscriminada, são fármacos com perfis diversos e mecanismos bem distintos, o 
que exige uma abordagem racional para garantir eficácia sem riscos. 
9.2 Definições e diferenças conceituais 
• Laxantes: são agentes que promovem a evacuação de fezes mais suaves e 
facilitam a defecação, geralmente de forma gradual e menos intensa. 
• Catárticos: promovem evacuação rápida e intensa, muitas vezes 
acompanhada de cólica abdominal, sendo usados em situações pontuais 
(ex.: preparo de exames). 
Na prática clínica, os termos frequentemente se sobrepõem, mas o entendimento 
da intensidade do efeito é importante para diferenciar o uso terapêutico do uso 
preparatório. 
9.3 Classificação e mecanismos de ação 
Os laxantes podem ser classificados em cinco grandes grupos: 
9.3.1 Formadores de massa (laxantes de volume) 
• Exemplos: psyllium, metilcelulose, farelo de trigo. 
• Mecanismo: são fibras vegetais ou derivados sintéticos não digeríveis, que 
absorvem água e aumentam o volume fecal, estimulando o peristaltismo 
por distensão mecânica. 
• Efeitos: promovem evacuação em 1 a 3 dias. 
• Indicação: constipação crônica leve, manutenção a longo prazo. 
• Observação: requerem ingestão adequada de líquidos; caso contrário, 
podem piorar a constipação ou causar obstrução. 
9.3.2 Laxantes osmóticos 
• Exemplos: lactulose, manitol, sorbitol, macrogol (polietilenoglicol – PEG), 
sais de magnésio. 
• Mecanismo: substâncias não absorvíveis que aumentam a osmolaridade 
intestinal, atraindo água para o lúmen e amolecendo as fezes. 
• Lactulose: além do efeito osmótico, modula a microbiota intestinal e reduz 
a amônia em pacientes com encefalopatia hepática. 
• PEG: muito utilizado em preparo de colonoscopia. 
• Tempo de ação: 1 a 6 horas (sais de magnésio) ou 1 a 3 dias (lactulose). 
9.3.3 Laxantes emolientes e lubrificantes 
• Exemplos: docusato de sódio (emoliente), óleo mineral (lubrificante). 
• Mecanismo: aumentam a penetração de água e lipídios nas fezes, tornando-
as mais macias; o óleo mineral reveste as fezes, facilitando sua eliminação. 
• Indicações: situações em que esforço evacuatório deve ser evitado, como 
pós-operatório, pós-infarto ou pós-parto. 
• Limitações: uso prolongado de óleo mineral pode interferir na absorção de 
vitaminas lipossolúveis e causar pneumonia aspirativa em idosos. 
9.3.4 Laxantes estimulantes (irritantes) 
• Exemplos: bisacodil, picosulfato de sódio, senna, cascara. 
• Mecanismo: estimulam diretamente o plexo mioentérico, aumentando a 
motilidade colônica, e promovem secreção de água e eletrólitos no lúmen. 
• Tempo de ação: 6 a 12 horas por via oral; 15 a 60 minutos por via retal. 
• Uso: constipação refratária, preparo intestinal. 
• Risco: uso crônico pode levar a dependência e dano da musculatura 
colônica (“cólon catártico”). 
9.3.5 Laxantes salinos (catárticos potentes) 
• Exemplos: citrato de magnésio, fosfato de sódio. 
• Mecanismo: efeito osmótico intenso, promovendo evacuação rápida. 
• Indicações: preparo para exames radiológicos e colonoscopia. 
• Limitações: risco de desequilíbrios hidroeletrolíticos, devendo ser evitados 
em pacientes renais e cardíacos. 
9.4 Uso clínico: quando prescrever? 
Os laxantes devem ser utilizados de forma individualizada, de acordo com a causa 
e a gravidade da constipação: 
• Constipação funcional leve: fibras (formadores de massa) e mudanças no 
estilo de vida. 
• Constipação crônica moderada: associação de osmóticos (lactulose, 
PEG). 
• Constipação refratária: estimulantes em uso intermitente. 
• Pacientes acamados ou pós-cirúrgicos: emolientes e lubrificantes. 
• Preparo intestinal: PEG em grandes volumes ou soluções salinas. 
No idoso, é fundamental evitar a prescrição indiscriminada de laxantes 
estimulantes, pois podem causar desidratação e desequilíbrio eletrolítico. 
9.5 Efeitos adversos e riscos do uso abusivo 
Embora muitos considerem os laxantes medicamentos “inofensivos”, seu uso 
abusivo pode trazer consequências sérias: 
• Distúrbios hidroeletrolíticos: hipocalemia, hiponatremia, acidose 
metabólica. 
• Cólon catártico: perda da tonicidade colônica após uso crônico de 
estimulantes. 
• Dependência psicológica: muitos pacientes acreditam que precisam 
evacuar diariamente, tornando-se dependentes de laxantes sem 
necessidade real. 
• Complicações raras: casos de insuficiência renal aguda associados a 
fosfato de sódio em pacientes vulneráveis. 
9.6 Situação atual e perspectivas 
Os laxantes continuam sendo largamente prescritos, mas as diretrizes modernas 
enfatizam que o tratamento da constipação deve começar com medidas não 
farmacológicas: dieta rica em fibras, hidratação adequada e atividade física regular. 
O uso de medicamentos deve ser progressivo, respeitando a segurança e a 
individualidade do paciente. 
Novos agentes vêm sendo desenvolvidos: 
• Agonistas de canais de cloro (linaclotida, plecanatida): aumentam 
secreção intestinal. 
• Ativadores da guanilato ciclase-C: promovem secreção de cloreto e água. 
• Agentes secretagogos (lubiprostona): derivados de prostaglandinas que 
aumentam secreção intestinal. 
• Prucaloprida: pró-cinético moderno já mencionado, com bons resultados 
em constipação crônica. 
Essas drogas representam uma mudança de paradigma, oferecendo alternativas 
específicas para pacientes com constipação crônica grave ou refratária, além de 
apresentar menor risco de efeitos adversos a longo prazo. 
9.7 Considerações finais 
O uso racional dos laxantes requer conhecimento detalhado de suas classes e 
mecanismos. Embora sejam recursos valiosos para o tratamento da constipação e 
preparo intestinal, não devem substituir medidas de estilo de vida nem ser 
utilizados de forma indiscriminada. 
O futuro da farmacoterapia da constipação está na individualização do tratamento 
e na integração entre terapias clássicas (fibras e osmóticos) e agentes modernos, 
que atuam em receptores e canais específicos, oferecendo maior eficácia e 
segurança.

Mais conteúdos dessa disciplina