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Percepção e tomada de decisão individual Decidir é fácil. O difícil é acertar 1 Roberto Pina, diretor-executivo da Visa Vale. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Depois de ler este capítulo, você será capaz de: 1 Definir percepção e explicar os fatores que a influenciam. 2 Explicar a teoria da atribuição e listar os três determinantes de atribuição. 3 Identificar as simplificações que os indivíduos utilizam para fazer julgamentos sobre os outros. 4 Explicar a relação entre percepção e tomada de decisão. 5 Aplicar o modelo racional de tomada de decisão e compará-lo com a racionalidade limitada e intuição. 6 Identificar e explicar os vieses ou erros comuns de decisão. 7 Explicar como as diferenças individuais e restrições organizacionais afetam a tomada de decisões. 8 Comparar os três critérios éticos para a tomada de decisões. 9 Definir criatividade e discutir o modelo de três componentes de criatividade. 6 BRASIl: PARAíSO DOS IMIGRANTES? Nosso país sempre foi visto como um país hospitaleiro, que recebe os turistas e imigrantes de ‘braços aber- tos’. Após nossa independência, no início do século XIX, passamos a receber muitos fluxos migratórios de diversos países europeus, como Alemanha e Itália. As guerras de unificação e, posteriormente, as duas Grandes Guerras Mundiais incentivaram a saída de muitos europeus para o Brasil, que buscavam um lugar pacífico para continua- rem suas vidas. No entanto, essas ondas de imigrantes não trouxeram só europeus. Desde o início do século, também milhares de agricultores japoneses começaram a chegar ao Brasil, como é ilustrado na foto, formando uma das maiores colônias japonesas fora do Japão (hoje estimada em 1,5 mi- lhão de habitantes). Em função da receptividade de nosso povo e de nossa cultura aberta, consolidou-se o estereótipo do brasileiro como um indiví- A ce rv o U H /F ol ha p re ss 06 rob0610_cap06 BR.indd 158 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 159 O caso de abertura deste capítulo aborda os estereótipos dos brasileiros com relação aos imigrantes. Ao longo do capítulo, vamos examinar os estereótipos como parte de nossa discussão sobre percepções e explicar como eles influenciam os julgamentos que fazemos dos outros. Depois, vamos examinar a relação entre percepção e tomada de decisão, des crever como as decisões deveriam ser tomadas e como elas são efetivamente realizadas no cotidiano das organizações. O que é percepção? A percepção pode ser definida como o processo pelo qual os indivíduos orga nizam e interpretam suas impressões sensoriais com a finalidade de dar sentido ao seu ambiente. Entretanto, o que uma pessoa percebe pode ser substancialmente dife rente da realidade objetiva. Por exemplo, é possível que alguns funcionários de uma empresa a vejam como um excelente local para trabalhar — condições favoráveis de trabalho, tarefas e atividades interessantes, boa remuneração, excelentes benefícios, administração responsável e compreensiva —, ao passo que outros não apreciem tanto a mesma realidade. Por que a percepção é importante para o estudo do comportamento organizacional? Simplesmente porque o comportamento das pessoas baseiase em sua percepção da reali dade, não na realidade em si. O mundo que importa para o comportamento é o mundo na forma em que é percebido. Fatores que influenciam a percepção Como podemos explicar o fato de as pessoas olharem para uma mesma coisa e cada uma a perceber de uma maneira diferente? Uma série de fatores atua moldando e, por vezes, distorcendo a nossa percepção sobre uma realidade. Esses fatores podem estar no perceptor, no objeto ou alvo da percepção ou no contexto da situação em que esta se dá (ver Figura 6.1). Percepção Processo pelo qual os indivíduos organizam e interpretam suas impressões sensoriais com a finalidade de dar sentido ao seu meio. duo afetuoso e amistoso, que recebe bem a todos que aqui desembarcam. Muito provavelmente em função disso, o fato de autoridades espanholas terem barrado a entrada de brasileiros naquele país causou grande revolta entre a população do Brasil em 2008 e 2009. Se os brasileiros são um povo tão hospitaleiro, aberto aos imigrantes e dispostos a integrar dife- rentes culturas, por que estariam sendo impedidos de visitar um país com o qual mantém relações diplomáticas cordiais? De acordo com um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), entretanto, as coisas não são tão simples assim. Apesar de serem vistos em todo o mundo (e de se verem também!) como um povo ‘amigo do imigrante’, a pesquisa do órgão da ONU verificou que 43 por cento da população brasileira é a favor de limitar ou proibir a imigração para o país. Além disso, outros 45 por cento são favoráveis à imigração apenas na con- dição de existirem empregos disponíveis. Segundo o mesmo levantamento, apenas 9 por cento dos brasileiros são favoráveis à entrada irrestrita de imigrantes no país. Os valores encontrados mostram um grande aumento da preocupação dos brasileiros com relação ao fluxo mi- gratório, principalmente em virtude dos problemas do mercado de trabalho local. Os níveis de aversão à imigração igualaram-se aos de países europeus reconhecidamente mais fechados, como a Itália (42 por cento) e a própria Es- panha (43 por cento). A pesquisa do PNUD é bastante útil para desconstruir dois estereótipos bastante enraizados no mundo atual e para, simultaneamente, promover uma profunda reflexão. O primeiro viés perceptivo identificado é o de que o bra- sileiro é um povo aberto aos imigrantes e com reduzido grau de xenofobia. O segundo é o de que os imigrantes são grupos que ‘roubam empregos dos habitantes locais’ e que se sustentam com os serviços prestados pelo governo. De acordo com o relatório, “quando as competências (dos imigrantes) complementam as das populações locais, ambos os grupos saem beneficiados”. Com isso, os imigrantes tornam-se não um fardo, como o estereótipo o apre- senta, mas sim um dinamizador da economia local.2 06 rob0610_cap06 BR.indd 159 12/21/10 3:56 PM 160 Comportamento organizacional Quando você observa um alvo e tenta interpretar o que está percebendo, essa in terpretação é fortemente influenciada pelas características pessoais. As características que afetam a percepção incluem atitudes, personalidade, motivações, interesses, experiências passadas e expectativas. Por exemplo, se você espera que policiais exerçam sua autoridade, que jovens sejam preguiçosos ou que funcionários públicos sejam inescrupulosos, você vai percebêlos dessa forma, independentemente de eles possuírem ou não esses traços. As características do alvo que está sendo observado também podem afetar a percep ção. As pessoas que falam alto costumam chamar mais a atenção do que as quietas. Isso também pode ser dito a respeito de pessoas muito ou pouco atraentes. Como os alvos não são observados isoladamente, sua relação com o cenário influencia a percepção, as sim como nossa tendência de agrupar coisas próximas ou parecidas. Por exemplo, com frequência percebemos mulheres, homens, brancos, negros, asiáticos ou membros de quais quer outros grupos que possuam características nitidamente distintas como semelhantes também em aspectos sem conexão alguma. As percepções que os gestores têm da realidade podem ser muito diferentes entre si e, inclusive, diferir radicalmente de como as coisas de fato são. Para aprimorar a percepção que os administradores da organização têm sobre o comportamento dos consumidores e o processo de atendimento e venda, a área de recursos humanos da empresa de telefonia móvel Vivo lançou um programa interessante. Todos os seus gestores, dos mais variados níveis hierárquicos, devem trabalhar alguns dias em setores operacionais — no atendimento ao cliente, em lojas próprias e nas vendas corporativas. Dessa forma, a companhia pretende aprimorar a percepção deles sobre os processos da linha de frente, de modoparecem ser mais suscetíveis ao viés da compreensão tardia, talvez por terem uma grande necessidade de justificar a adequabilidade de suas ações.65 Infelizmente, não há evidências de que as pessoas dedi cadas sejam imunes a esse viés. Viés da compreensão tardia Tendência a achar que sabíamos antecipadamente o resultado de um evento depois de ele ter ocorrido. 06 rob0610_cap06 BR.indd 175 12/21/10 3:56 PM 176 Comportamento organizacional Por último, aqueles que possuem elevada autoestima são bastante motivados a mantê la, então usam o viés da autoconveniência para preservála. Eles culpam os outros por suas falhas enquanto recebem os créditos pelos sucessos.67 Gênero Pesquisas sobre ruminação oferecem algumas ideias sobre as diferenças entre os gêneros no processo de tomada de decisões.68 A ruminação é um termo que se refere à reflexão minuciosa sobre um assunto. Dentro do processo de tomada de decisões, significa pensar demais nos problemas. Vinte anos de estudos indicam que as mulheres gastam muito mais tempo analisando o passado, o presente e o futuro. Elas tendem a exagerar na análise dos problemas antes de tomar uma decisão e, uma vez tomada, voltam a examinála. Isso pode levar a uma consideração mais cuidadosa dos problemas e das escolhas. Contudo, também pode dificultar a resolução dos problemas e levar ao arrependimento pelas escolhas feitas e à depressão. As mulheres têm o dobro da tendência dos homens para desenvolver depressão.69 Ainda não está claro por que as mulheres ruminam mais que os homens. Uma das teo rias seria a de que os pais encorajam e reforçam as expressões de tristeza e ansiedade mais nas meninas do que nos meninos. Outra argumenta que as mulheres, mais que os homens, baseiam sua autoestima e bemestar na opinião que os outros têm sobre elas. Uma terceira possibilidade é que as mulheres têm mais sentimento de empatia e, assim, são mais afetadas pelo que acontece às outras pessoas. Por isso, elas têm mais coisas sobre as quais ruminar. Em torno dos 11 anos de idade as meninas já ruminam mais que os meninos. Com o passar do tempo, essa diferença tende a diminuir. As diferenças são maiores durante o começo da vida adulta e menores depois dos 65 anos, quando ambos os gêneros ruminam menos.70 O modo como Elisabete Waller, vice-presidente de aplicativos da Oracle do Brasil, conduziu uma das decisões mais difíceis de sua carreira serve de exemplo para as influências do gênero feminino na tomada de decisões. Tendo de cortar 15 por cento dos seus 250 funcionários, a executiva formou um comitê com dez membros de sua equipe, ao qual recorria sempre que considerava necessário. Além disso, utilizou diversas informações do passado, como o histórico de avaliações semestrais de anos anteriores de todos os ‘candidatos à saída’. Isso exemplifica o trabalho em equipe e o processo de ruminação, que caracterizam o processo decisório das pessoas do sexo feminino.71 Im ag e So ur ce /F ot og ra fie K la us T i Im ag e So ur ce /J os e Pe la ez Marcos Tanaka exemplifica bem como os traços de personalidade afetam a tomada de decisão individual. Ao receber um convite para ser sócio-diretor da Boo-Box, uma empresa iniciante de marketing on-line de São Paulo, ele abandonou seu emprego em uma grande consultoria, onde recebia aumentos salariais anuais e tinha grandes chances de ascensão. Sua nova função “é muito diferente daquela carreira trilhada de multinacional”, conta ele. Extrovertido e aberto a novas experiências, o executivo diz que “queria ser pioneiro, empreender e criar mais”, mostrando o poderoso papel de nossa personalidade nas decisões que tomamos.66 06 rob0610_cap06 BR.indd 176 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 177 Habilidade mental Sabemos que quem possui um nível mais alto de habilidade mental consegue processar informações mais rapidamente, resolver problemas com mais precisão e aprender mais depressa. Portanto, seria de se esperar que essas pessoas fossem menos susce tíveis a erros comuns de decisão. No entanto, a habilidade mental parece ajudálas a evitar apenas alguns deles.72 As pessoas inteligentes são igualmente propensas a ser vítimas da an coragem, do excesso de confiança e da escalada do comprometimento, provavelmente por serem confiantes demais ou emocionalmente defensivas. Isso não significa que a inteligência nunca importa. Uma vez avisadas sobre os erros de tomada de decisão, aqueles mais inteli gentes aprendem com rapidez a evitálos. Eles também são mais capazes de evitar erros de lógica, como falsos silogismos ou interpretações incorretas de dados. Restrições organizacionais A própria organização apresenta limites para as decisões, criando desvios do modelo racional. Os gestores, por exemplo, tomam suas decisões levando em conta os sistemas de avaliação de desempenho e de recompensas da empresa para atender às normas formais e para se adequar às restrições de tempo impostas pela organização. As decisões tomadas anteriormente também podem limitar as novas escolhas. Avaliação de desempenho O modo como os administradores tomam decisões é forte mente influenciado pelos critérios por meio dos quais eles são avaliados. Se o dirigente de uma divisão acredita que as unidades de produção sob sua responsabilidade operam me lhor quando ele não tem nenhuma notícia negativa, não é de surpreender que os gerentes a ele subordinados gastem boa parte de seu tempo assegurando que nenhuma informação negativa chegue aos ouvidos do chefe. Sistemas de recompensa O sistema de recompensa da organização influencia os to madores de decisões ao lhes sugerir quais escolhas são preferíveis em matéria de resultados pessoais. Se a empresa recompensa a aversão ao risco, os administradores tendem a tomar decisões mais conservadoras. Entre a década de 1930 e meados dos anos 1980, a fabricante de automóveis General Motors deu promoções e bônus aos administradores do tipo discre to, que evitavam controvérsias. Eles, então, tornaramse hábeis em se esquivar de assuntos espinhosos e em passar as decisões controversas para comitês. Regulamentações formais O trabalho dos funcionários de lanchonetes fast food exem plifica os possíveis limites às decisões impostos pelas regras organizacionais. Praticamente todas as ações dos atendentes e cozinheiros devem seguir as ordens explícitas nos grandes manuais desses restaurantes. A situação desses trabalhadores não é única. Todas as organizações, exceto as muito pequenas, criam regras e políticas para programar as decisões e padronizar o comporta mento de seus membros. Evidentemente, ao fazer isso, elas também restringem as escolhas dos tomadores de decisões. Nos restaurantes do McDonald’s em todo o mundo, os regulamentos formais moldam as decisões dos empregados. O McDonald’s padroniza o comportamento dos membros de sua equipe. A rede exige que os empregados sigam regras para a preparação de refeições e atendimento aos clientes que atendam aos padrões de qualidade alimentar e segurança, assim como serviços cordiais e confiáveis aos clientes. Por exemplo, o McDonald’s exige que sejam obedecidos 72 protocolos de segurança todos os dias em cada restaurante, como parte da rotina de monitoramento feita por seus gerentes. C ie te S ilv ér io / F ol ha p re ss 06 rob0610_cap06 BR.indd 177 12/21/10 3:56 PM 178 Comportamento organizacional limites de tempo Quase todas as decisões importantes possuem um prazo explícito. Um relatório sobre o desenvolvimento de um novo produto às vezes tem de estar pronto para a reunião da diretoria no primeiro dia do mês. Essas condições muitas vezes tornam difícil, quando não impossível, para os gerentes levantar todas as informações necessárias antes de fazer uma escolha definitiva. Precedentes históricos As decisões não são tomadas no vazio. Elas se inserem em um contexto. Na verdade, as decisões individuais sãocomo trechos de um fluxo de decisões. Aquelas tomadas no passado são como fantasmas que assombram e limitam as esco lhas atuais. Todo mundo sabe que o principal fator determinante do volume do orçamento de um ano qualquer é o orçamento do ano anterior.73 As escolhas que fazemos hoje, por tanto, são em grande parte resultado das escolhas que fizemos há anos. A ética no processo decisório As considerações éticas devem ser um critério importante na orientação do processo decisório de todas as organizações. Nesta seção, vamos apresentar três maneiras diferentes para orientar processos de tomada de decisão éticos.74 Três critérios éticos para o processo decisório O primeiro padrão de medida ético é o utilitarista, no qual as decisões são tomadas ape nas em função de seus resultados ou consequências. A meta do utilitarismo é idealmente proporcionar o melhor resultado para o maior número de pessoas. Essa meta tende a ser a visão dominante no mundo dos negócios. Ela é coerente com objetivos como eficiência, produtividade e lucratividade. Outro critério consiste em tomar decisões coerentes com os direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos, de acordo com o que prescrevem docu mentos como a constituição de um país. Uma ênfase no critério dos direitos significa tomar decisões que respeitem esses direitos fundamentais, como o direito à privacidade, à liber dade de expressão e processos justos. Ele protegeria, com base no direito à liberdade de expressão, os ‘dedos-duros’ que denunciassem à imprensa ou aos órgãos governamentais as práticas ilegais ou antiéticas cometidas por suas organizações. O terceiro critério consiste em estabelecer e fazer cumprir regras justas e impar ciais para assegurar que exista justiça, ou uma distribuição equitativa de custos e benefícios. Os sindicalistas geralmente abraçam esse critério. Ele defende o mesmo salário para uma mes ma função, independentemente do desempenho do trabalhador, e determina o tempo no emprego como regra primária para as decisões sobre dispensas ou promoções. Cada um desses três critérios tem suas vantagens e obrigações. O enfoque no utilita rismo pode promover a eficiência e a produtividade, mas pode resultar também no desres peito aos direitos de alguns indivíduos, especialmente os pertencentes a minorias, dentro das organizações. O uso dos direitos protege os indivíduos de atos ilegais e é coerente com a liberdade e a privacidade, mas pode acarretar uma sobrecarga de questões legais, sob risco de prejudicar a eficiência e a produtividade. O enfoque na justiça protege os interesses dos mais fracos e subrepresentados, mas pode estimular um espírito de acomodação que reduz a propensão aos riscos, à inovação e à produtividade. Os tomadores de decisões, especialmente em organizações privadas, sentemse confor táveis e seguros com relação ao utilitarismo. Várias ações questionáveis, como demissões em massa, podem ser justificadas quando são definidas como de interesse ‘da organização’, de seus trabalhadores e acionistas. Mas muitos críticos sentem que essa perspectiva precisa mu dar.75 A crescente preocupação da sociedade com os direitos humanos e a justiça social su gerem que os gestores devem desenvolver padrões éticos baseados em critérios não utilitaris tas. Essa situação coloca um grande desafio para os executivos, pois respeitar a justiça social e os direitos humanos traz uma carga muito maior de ambiguidade do que o uso de referências utilitárias, como as consequências sobre a eficácia e a produtividade. Isso ajuda a explicar por Utilitarismo Corrente filosófica que sustenta que as decisões corretas são aquelas tomadas no sentido de proporcionar maior utilidade para o maior número de pessoas. Dedos-duros Indivíduos que reportam práticas antiéticas de seus empregadores para pessoas de fora da organização. 06 rob0610_cap06 BR.indd 178 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 179 que os executivos têm sido cada vez mais alvo de críticas por sua atuação. Aumento de preços, venda de produtos que põem a saúde dos consumidores em risco, fechamento de fábricas, demissões em massa, mudança dos centros de produção para outros países com a finalidade de reduzir custos e outras decisões do gênero podem ser justificáveis sob a ótica utilitarista. Mas não pode mais ser o único critério para julgar as boas decisões. A criatividade na tomada de decisões Apesar de o modelo racional de tomada de decisão frequentemente melhorar o re sultado das decisões, aquele que o segue também precisa ter criatividade, ou seja, a habilidade de criar ideias novas e úteis.76 Estas devem ser diferentes daquilo que já foi feito e apropriadas para o problema ou oportunidade apresentada. Por que a criatividade é importante no processo de tomada de decisões? Porque per mite que quem as toma avalie e compreenda melhor o problema, inclusive percebendo aspectos que outros não conseguem ver. A L’Oréal oferece exercícios criativos a seus ges tores, tais como cozinhar e compor música. A escola de administração da Universidade de Chicago acrescentou a exigência a seus alunos de MBA de produzir filmes curtos sobre suas experiências. A Masa, fabricante de componentes plásticos da Zona Franca de Manaus, tem uma cultura que privilegia a comunicação e aceita os erros relacionados à experimen tação. Além disso, ela tem um programa de melhorias para estimular a participação de seus funcionários no desenvolvimento de novas ideias.77 Potencial criativo A maioria das pessoas possui um potencial criativo que pode ser usado. Mas, para que esse potencial se desencadeie, elas precisam sair das rotas psicológicas prétraça das que geralmente as prendem e aprender a pensar sobre o problema de maneiras diferentes. A criatividade excepcional é escassa. Albert Einstein, na ciência, Pablo Picasso, na arte, e Steve Jobs, nos negócios, são conhecidos por sua excepcional criatividade. Mas, e o indivíduo comum? As pessoas inteligentes e as que têm uma pontuação alta em abertura a novas experiências (ver Capítulo 4), por exemplo, são mais propensas do que as outras a ser criativas.78 Outros traços das pessoas criativas incluem independência, autoconfiança, propensão para correr riscos, locus de controle interno, tolerância à ambiguidade, pouca necessidade de estrutura e perseverança.79 A exposição a várias culturas também pode melhorar a criatividade.80 Quem passa longos períodos em outras culturas cria soluções mais inovadoras aos problemas. Pode ser que uma missão internacional, ou mesmo um período de férias em outro país, impulsione seu processo criativo. Um estudo sobre a duração da criatividade realizado com 461 homens e mulheres demonstrou que menos de 1 por cento deles era excepcionalmente criativo.81 Mas 10 por cento eram altamente criativos e cerca de 60 por cento possuíam alguma criatividade. Isso reforça a ideia de que a grande maioria de nós tem potencial criativo e precisa despertálo. Criatividade Habilidade de criar ideias novas e úteis. O ambiente de trabalho do diretor brasileiro de filmes 3D, Carlos Saldanha (na foto), demonstra bem como as organizações podem incentivar os funcionários a liberar seus potenciais criativos. O diretor dos grandes sucessos de bilheteria A Era do Gelo, A Era do Gelo 2 e A Era do Gelo 3 criou personagens como o esquilo Scrat em um escritório da Blue Sky Studios, em que a liberdade é uma das ferramentas básicas. Sua equipe é composta de por jovens que se vestem como querem e que podem customizar o espaço de trabalho como preferirem. Na área de trabalho de um deles, por exemplo, há pôsteres de coqueiros e uma rede, uma espécie de ‘cantinho praiano’ do escritório82. Re na to S to ck le r / Fo lh ap re ss 06 rob0610_cap06 BR.indd 179 12/21/10 3:56 PM 180 Comportamento organizacional Modelo de criatividade de três componentes O que os indivíduos e as organiza ções podem fazer para estimular a criatividadedos funcionários? A melhor resposta está no modelo de criatividade de três componentes,83 o qual propõe que a criatividade individual requer, essencialmente, perícia, pensamento criativo e motivação intrínseca para a tarefa (ver Figura 6.3). Os estudos confirmam que, quanto mais alto o nível de qualquer um deles, mais alto o nível de criatividade. A perícia é a base de todo trabalho criativo. O escritor, produtor e diretor de filmes Quentin Tarantino passou a juventude trabalhando em uma locadora de vídeos, onde montou uma enciclopédia de conhecimento sobre filmes. Outro exemplo é Alberto Sa raiva, fundador do Habib’s, que, antes de abrir a cadeia de restaurantes, tinha uma padaria onde iniciou a produção e o comércio de salgados árabes a preços populares.84 O potencial de criatividade é maximizado quando a pessoa tem as habilidades, os conhecimentos e o domínio dos assuntos relativos a sua área de atuação. Por exemplo, você não espera que alguém com um conhecimento mínimo em programação seja muito criativo como enge nheiro de software. O segundo componente é o pensamento criativo. Ele engloba características de perso nalidade associadas à criatividade e à habilidade de usar analogias, bem como ao talento de ver o que é familiar sob uma nova perspectiva. Uma metaanálise de 102 estudos descobriu que somos mais criativos quando estamos de bom humor, mas isso depende do tipo de sentimento que experimentamos no momen to.85 Sentimentos como a felicidade, que incentiva a interação com o mundo, conduzem mais à criatividade do que os sentimentos passivos, como a calma. Isso significa que o con selho comum para relaxar e limpar a mente para desenvolver ideias criativas não funciona tão bem como se espera. Os sentimentos negativos, igualmente, não têm todos o mesmo efeito sobre a criatividade. Os sentimentos negativos e passivos, como a tristeza, parecem não afetála tanto, mas os estados de escape, como medo e ansiedade, diminuem a cria tividade. Sentirse ameaçado também reduz o desejo de experimentar atividades novas e a aversão ao risco aumenta quando você tem medo. Sentimentos negativos e ativos, como a raiva, porém, parecem de fato intensificar a criatividade, especialmente se você leva sua tarefa a sério. Estar cercado por outras pessoas que são criativas pode fazer que fiquemos mais inspi rados, em especial se estivermos criativamente ‘travados’.86 Um estudo descobriu que ‘laços fracos’ com pessoas criativas — conhecêlas, mas não ser íntimo — facilita a criatividade, pois as pessoas estão lá como um recurso se precisarmos delas, mas não tão perto a ponto de impedir nosso raciocínio independente.87 Modelo de criatividade de três componentes Modelo que propõe que a criatividade individual requer, essencialmente, perícia, pensamento criativo e motivação intrínseca pela tarefa. Criatividade Motivação pela tarefa Pensamento criativoPerícia Figura 6.3 Os três componentes da criatividade Fonte: Copyright 1997, The Regents da Universidade da Califórnia. Reproduzido da The California Management Review, v. 40, n. 1. Com permissão de The Regents. 06 rob0610_cap06 BR.indd 180 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 181 Uma pessoa que se enquadra bem nessa descrição é o empresário carioca Alexandre Accioly, que possui diversos negócios no campo de entretenimento e lazer no Rio de Janei ro. Muito entusiasmado e extrovertido, Accioly gosta de se unir a outras pessoas com perfis empreendedores, como Luciano Huck e Ricardo Amaral, com quem abriu negócios e or ganiza eventos.88 As analogias também permitem que os tomadores de decisões apliquem a ideia de um contexto em outro. Um dos exemplos mais famosos em que seu uso resultou em uma ideia criativa foi a observação de Alexander Graham Bell de que seria possível tomar os conceitos do funcionamento da orelha humana e aplicálos a uma ‘caixa de falar’. Ele percebeu que os ossos dentro da orelha são operados por uma fina e delicada membrana. Perguntouse, portanto, se uma membrana mais resistente não seria capaz de mover uma peça de aço. Com base nessa analogia, nasceu o telefone. Pensar em analogias consiste em uma habilidade intelectual complexa, o que ajuda a explicar por que a habilidade cognitiva está ligada à criatividade. Como demonstração desse efeito, uma pesquisa descobriu que as crianças que obtiveram pontuação alta em testes de habilidade cognitiva aos 13 anos de idade seriam significativamente mais propensas a realizar conquistas criativas em sua vida profissional 25 anos mais tarde.89 Algumas pessoas desenvolvem a capacidade de ver os problemas sob novas perspecti vas. Elas conseguem tornar o estranho familiar e o familiar, estranho.90 Por exemplo, muitos de nós pensamos nas galinhas botando ovos. Mas quantos de nós somos capazes de consi derar que uma galinha é apenas uma maneira de um ovo gerar outro ovo? As pessoas criativas muitas vezes amam o que fazem a ponto de isso se parecer uma obsessão. O componente final em nosso modelo é a motivação intrínseca pela tarefa. Isso se traduz no desejo de trabalhar em alguma coisa por ela ser interessante, envolvente, emocio nante, gratificante ou pessoalmente desafiadora. É o que faz que a criatividade potencial se transforme em ideias criativas concretas. O ambiente de trabalho que estimula a criatividade inclui uma cultura que encoraja o fluxo de ideias; um sistema de avaliação de ideias justo e construtivo, capaz de reconhecer e recompensar o trabalho criativo; informações e recursos materiais e financeiros suficientes; liberdade para decidir o que e como fazer; uma super visão que saiba se comunicar, que expresse confiança nos outros e que apoie o trabalho em grupo; e membros da equipe que se apoiam entre si e confiam uns nos outros.91 I mplicações globais Levando em consideração que há diferenças globais nos conceitos que discutimos neste capítulo, vamos analisar as três áreas que atraíram a maioria das pesquisas: (1) atri buições, (2) tomada de decisões e (3) ética. Muitos gestores brasileiros percebem nosso estilo de administrar como inadequado para lidar com muitas situações do mundo empresarial, como as que exigem impessoalidade e um processo decisório participativo. Em função disso, corriqueiramente os gestores brasileiros são preteridos por estrangeiros em processos de seleção para empresas de nosso país. Essa imagem, entretanto, não é compartilhada por outros povos do mundo. Por exemplo, o carioca Felipe Carvalho (na foto) foi para Pequim dirigir a Midship logo após concluir seus estudos no Canadá. De acordo com Peter Waite, diretor da empresa de recrutamento de executivos InterSearch Worldwide, executivos asiáticos, principalmente chineses e indianos, nutrem grande apreço pelo estilo brasileiro de administrar. Segundo ele, a percepção que se tem sobre os gestores ‘tupiniquins’ é de indivíduos altamente flexíveis e capazes de se adaptar a mudanças. Além disso, nossas habilidades comunicativas também são muito apreciadas pelos administradores asiáticos.92 Ja ne k Zd za rs ki /F ol ha p re s 06 rob0610_cap06 BR.indd 181 12/21/10 3:56 PM 182 Comportamento organizacional Atribuições As evidências sobre as diferenças culturais em percepção são contraditórias, mas a maioria delas sugere que tais diferenças existem nas atribuições que as pessoas exer cem.93 Por exemplo, pesquisas indicam que os asiáticos (japoneses) são menos suscetíveis ao erro fundamental de atribuição. Outro estudo concluiu que os gestores coreanos são menos propensos a utilizar o viés da autoconveniência; pelo contrário, eles tendem a aceitar a responsabilidade pelo fracasso do grupo “porque eu não fui um líder capaz”, em vez de atribuílo aos membros do grupo.94 Por sua vez, os gerentes asiáticos são mais propensos a colocar a culpa nas instituições e organizações como um todo, ao passo que os ocidentais tendem a acreditar que os executivos, individualmente,devem ser o foco tanto da culpa quanto dos elogios.95 Essa tendência de fazer atribuições baseadas nos grupos também ex plica por que os indivíduos de culturas asiáticas são mais inclinados a formar estereótipos baseados em grupos. A teoria da atribuição foi amplamente desenvolvida com bases em experimentos com trabalhadores norteamericanos e europeus. Mas esses estudos sugerem que se use cautela para fazer previsões da teoria da atribuição em sociedades não ociden tais, em especial em países com fortes tradições coletivistas. No Brasil, a teoria da atribuição tem se mostrado bastante válida, o que pode ser facil mente percebido no mundo da administração. Basta ler algumas reportagens de revistas e jornais de negócios para constatar que os sucessos empresariais são, costumeiramente, creditados aos presidentes das empresas, como se eles fossem os únicos a trabalhar e tomar decisões nas organizações e não dependessem de outras variáveis ambientais. Comprovando essa visão, foi realizada uma pesquisa com estudantes, empreendedores e gerentes brasileiros. Após lerem uma história organizacional, os participantes deveriam explicar as razões para o sucesso ou fracasso da empresa analisada. Os resultados mostra ram que os brasileiros privilegiam qualidades internas dos administradores ao explicar situa ções de sucesso nas organizações, enquanto culpam a conjuntura externa para justifi car os fracassos ocorridos.96 Essas diferenças nas tendências de atribuições, contudo, não significam que os concei tos básicos de atribuição e culpa diferem totalmente de uma cultura para outra. Pesquisas recentes sugerem que os gerentes chineses avaliam a culpa pelos erros usando as mesmas pistas de diferenciação, consenso e consistência utilizadas por gerentes ocidentais. Os ge rentes chineses também têm raiva e punem os considerados responsáveis pelo fracasso, um comportamento típico de gerentes ocidentais. Isso significa que o processo básico de atribuição se aplica em diferentes culturas, mas que os gerentes asiáticos precisam de mais evidências para concluir que outra pessoa deva levar a culpa. Tomada de decisões O modelo racional não reconhece as diferenças culturais, nem a grande quantidade de literatura de pesquisa em comportamento organizacional o faz com relação à tomada de decisões. Uma análise realizada em 2007 sobre a pesquisa de dife renças multiculturais no comportamento organizacional cobriu 25 áreas, mas a influência cultural na tomada de decisões não estava entre elas. Outra análise realizada em 2007 iden tificou 15 tópicos, mas o resultado foi o mesmo: nenhuma pesquisa sobre cultura e tomada de decisão.97 Parece que a maioria das pesquisas em comportamento organizacional supõe que a cultura não tem importância para a tomada de decisões. Mas os indonésios, por exemplo, não tomam decisões da mesma maneira que os aus tralianos. Por isso, temos de reconhecer que o histórico cultural de um tomador de decisões pode ter uma influência significativa na seleção dos problemas, na profundidade da análise, na importância colocada na lógica e na racionalidade e no fato de as decisões organizacio nais serem tomadas autocraticamente por um líder ou de maneira coletiva98. As culturas diferem na orientação do tempo, na importância que colocam na racio nalidade, em sua crença na habilidade das pessoas de resolver os problemas e em suas preferências pela tomada de decisões coletivas. As diferenças na orientação do tempo nos ajudam a compreender por que os executivos no Egito e no Brasil tomam decisões em um ritmo muito mais lento e mais ponderado do que seus colegas norteamericanos. Enquanto a racionalidade é valorizada na América do Norte, isso não acontece em outros lugares do mundo. Um executivo norteamericano pode tomar uma decisão importante de maneira 06 rob0610_cap06 BR.indd 182 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 183 intuitiva, mas sabe que é essencial parecer estar procedendo em um estilo racional porque a racionalidade é altamente valorizada no Ocidente. Em países como o Irã, por exemplo, onde a racionalidade não está acima de outros fatores, os esforços para parecer racional não são necessários. Algumas culturas enfatizam a resolução dos problemas, ao passo que outras concen tramse em aceitar as situações do jeito que são. Os Estados Unidos caem na primeira cate goria; a Tailândia e a Indonésia são exemplos da segunda. Pelo fato de os administradores que resolvem problemas acreditarem que podem e devem mudar as situações para benefí cio próprio, os gestores norteamericanos podem identificar um problema muito antes de seus colegas da Tailândia e da Indonésia. A tomada de decisões realizada pelos japoneses é mais voltada para o grupo do que nos Estados Unidos ou na Inglaterra. Os japoneses valo rizam a conformidade e a cooperação. Portanto, antes de um CEO japonês tomar uma decisão importante, ele coleta uma grande quantidade de informações que utiliza para discutir com o grupo, buscando alcançar o consenso. No Brasil, por sua vez, os gestores também costumam aceitar passivamente a conjuntura externa, tomando, entretanto, me didas defensivas para mitigar os problemas. A flexibilidade brasileira impelenos a agir de maneira adaptativa com relação aos problemas que surgem. Um exemplo interessante foram as reações das empresas à superinflação, à abertura econômica e aos diversos planos econômicos das décadas de 1980 e 1990. Nesses contex tos, os gestores optaram pela sobrevivência, aceitando as modificações macroeconômicas e buscando adaptar as realidades organizacionais às novas pressões ambientais, mesmo que de maneira pouco inovadora. Outra característica brasileira diz respeito ao horizonte das decisões. Em função de nosso imediatismo e da dificuldade em aprender com erros do passado, acabamos por relegar a história a segundo plano. Da mesma forma, por nossa postura de espectador, creditamos ao acaso grande parte dos atos futuros. Em decorrência disso, as decisões dos gestores brasileiros enfatizam o presente e a realidade atualmente enfrentada, objetivando adaptarse e sobreviver às pressões do dia a dia sofridas nas organizações. Com relação à responsabilidade pela decisão, no Brasil a concentração do poder típica do estilo brasileiro de administrar influencia significativamente esse elemento do processo decisório. Dessa forma, as decisões são tomadas nas instâncias hierárquicas superiores, com pouca ou nenhuma participação dos subordinados. Essa constatação já havia sido realizada na pesquisa de Hofstede, apresentada no Capítulo 5, quando ele identificou o grau de dis tanciamento do poder dos brasileiros. De acordo com o trabalho de Barros e Prates,99 o paternalismo e a postura de especta dor também colaboram para a centralização das decisões, visto que os subordinados optam por recorrer aos superiores para resolver todo e qualquer problema, envaidecendoos e lhes dando a impressão de que não desejam assumir responsabilidades. Outro fator que estimula a baixa participação nas decisões é a maneira de lidar com o erro. No Brasil, a única escolha aceitável é a que traz resultados positivos. Em virtude disso, tentase evitar as decisões erradas por meio de punições, o que acaba por desestimular a participação dos funcionários. No entanto, muitos dos traços tipicamente brasileiros na tomada de decisão têm perdido força nas organizações nos últimos 15 anos. A participação no processo decisório e a proatividade vêm sendo estimuladas pelas empresas, o que pode ser claramente per cebido pelos discursos organizacionais que privilegiam a delegação de poderes e respon sabilidades. Apesar disso, para que uma mudança radical realmente ocorra, um longo caminho terá de ser percorrido, já que todo o arcabouço cultural brasileiro precisará adaptarse a essa nova realidade. Resumindo, temos razões para acreditar que há diferenças culturais importantes na tomada de decisões. Infelizmente,não há ainda muitas pesquisas para identificálas. Ética Não há padrões éticos globais,100 como ilustram os contrastes entre o Oriente e o Ocidente.101 Como a propina é comum em países como a China, um canadense traba lhando naquele país pode enfrentar um dilema: devo pagar uma propina para assegurar o negócio se for aceitável para aquela cultura? Uma executiva de uma grande empresa 06 rob0610_cap06 BR.indd 183 12/21/10 3:56 PM 184 Comportamento organizacional norteamericana que opera na China flagrou um funcionário furtando. Seguindo a política da empresa, ela o demitiu e o entregou para as autoridades locais. Mais tarde, a executiva ficou horrorizada em saber que o funcionário fora sumariamente executado.102 Embora os padrões éticos possam parecer ambíguos no Ocidente, os critérios que de finem o que é certo ou errado são, na verdade, muito mais claros do que no Oriente, onde poucas questões são ‘preto no branco’ e a maioria é ‘cinzenta’. As organizações globais devem estabelecer princípios éticos para os tomadores de decisões em países como a Índia e a China e modificálos de modo a refletir as normas culturais se quiserem manter altos padrões e práticas coerentes. No Brasil, como país de cultura ocidental, a fronteira entre o certo e o errado é mais bem definida do que nos países asiáticos. Entretanto, algumas características culturais brasileiras dificultam que todas as decisões sejam baseadas em critérios estritamente éticos. O personalismo existente entre as pessoas faz que os sentimentos experimentados influen ciem diretamente as escolhas. Dessa forma, a racionalidade pode ser deixada em segundo plano e se torna ‘um pouco mais aceitável’ que uma contratação ou demissão seja baseada em critérios unicamente pessoais. Com isso, o famoso ‘QI’ (‘Quem Indica’) tornase uma importante ferramenta de entrada e ascensão dentro das organizações. Além do personalismo, a flexibilidade e a impunidade, características do estilo admi nistrativo brasileiro,103 também dificultam a compreensão do que é certo e errado. As pes soas podem usar o ‘jeitinho brasileiro’ para burlar algumas regras sem que ‘ninguém seja prejudicado’. Entretanto, seria essa uma atitude ética? Além disso, a aceitação da trans gressão de algumas regras, algo comum em muitas organizações brasileiras e diretamente relacionado com o poder dos laços pessoais em nosso país, também torna mais difícil dife renciar o ético do antiético. Se uma ação é inaceitável, mas não gera qualquer punição, não seria essa mesma ação também aceitável? Resumo e implicações para os gestores Percepção As pessoas se comportam desta ou daquela maneira com base não em como o ambiente externo realmente é, mas no modo como o veem ou acreditam que ele seja. O fato de um gestor conseguir ou não planejar e organizar seu trabalho e o de seus su bordinados, ajudandoos a estruturar suas funções com maior eficiência e eficácia, é muito menos importante do que a percepção que os funcionários têm sobre o esforço dele. As sim, questões como a justa remuneração, a validade das avaliações de desempenho e as condições de trabalho são avaliadas pelos funcionários de acordo com sua percepção. Além disso, não há como assegurar que os indivíduos vão considerar suas condições de trabalho sob uma perspectiva favorável. Para influenciar a produtividade, é preciso antes descobrir como os funcionários percebem o próprio trabalho. O absenteísmo, a rotatividade e a satisfação no trabalho são também reações basea das nas percepções individuais. A insatisfação com as condições de trabalho e a convicção de que há poucas oportunidades de promoção na empresa são julgamentos baseados em uma tentativa de dar um sentido ao próprio trabalho. A conclusão de que um emprego é bom ou ruim é uma interpretação do funcionário. Os gestores devem se preocupar em compreender como cada funcionário interpreta a realidade e, onde houver uma diferença significativa entre a percepção e a realidade, tentar eliminar essa distorção. Tomada de decisões individual As pessoas pensam e raciocinam antes de agir. É por esse motivo que o entendimento de como tomam suas decisões pode ajudar a explicar e a prever seus comportamentos. Em determinadas situações, as pessoas seguem o modelo racional de tomada de de cisões. Poucas são as decisões suficientemente simples e sem ambiguidades para as quais podemos aplicar o modelo racional. Por isso, as pessoas buscam soluções satisfatórias, e não ótimas; incorporam vieses em seu julgamento e confiam em sua intuição. 06 rob0610_cap06 BR.indd 184 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 185 O que os gestores podem fazer para melhorar esse processo? Oferecemos quatro sugestões. Primeiro, analise a situação. Ajuste seu estilo decisório à cultura nacional em que você está operando e aos critérios que sua empresa valoriza e recompensa. Se você tra balha em um ambiente cultural que não dá valor à racionalidade, não se sinta compe lido a usar o modelo racional de tomada de decisões nem tente fazer que suas escolhas pareçam racionais. Da mesma forma, as organizações diferem quanto à importância que dão a aspectos como os riscos que podem ser assumidos ou o trabalho em equipe, entre outros. Ajuste seu estilo decisório para compatibilizálo com a cultura de sua organização. Segundo, esteja consciente dos vieses. Depois, tente minimizar seu impacto. Terceiro, combine análise racional com intuição. Essas abordagens não são con flitantes para a tomada de decisões. Usando ambas, você poderá, de fato, melhorar a eficácia de sua tomada de decisões. À medida que ganhar experiência gerencial, você deverá se sentir cada vez mais seguro ao aplicar seu processo intuitivo à análise racional. Por fim, tente melhorar sua criatividade. Procure por novas soluções para os pro blemas, tente vêlos de maneira diferente e use analogias. Tente remover as barreiras de trabalho, bem como as organizacionais, que bloqueiam sua criatividade. 06 rob0610_cap06 BR.indd 185 12/21/10 3:56 PM 186 Comportamento organizacional Ponto contraponto A vida é cheia de escolhas e decisões. A verdadeira pergunta não é ‘ser ou não ser’, mas ‘fazer ou não fazer’. Por exemplo, devo confrontar o pro- fessor sobre minha nota da primeira prova? Devo com- prar um carro novo? Devo aceitar um novo trabalho? Devo escolher este curso? Muito frequentemente, não temos certeza sobre nossas decisões. Nesses casos, é quase sempre melhor escolher a ação em vez da inércia. Na vida, as pessoas se arrependem mais da inércia do que da ação. Veja o exemplo a seguir: Ação Estado Chuva Sol Carregar guarda-chuva Seco (exceto seus pés) Inconveniência Não carregar guarda-chuva Totalmente ensopado Alegria ilimitada Vamos dizer que você está carregando um guarda- -chuva e não chove, ou você não está carregando um guarda-chuva e chove. Qual é a pior situação? Você pre- feriria experimentar a pequena inconveniência do peso extra de um guarda-chuva ou ficar ensopado? Há mais chances de que você se arrependa mais da inércia do que da ação. Embora muitas vezes nos arrependamos também das ações em suas consequências imediatas, com o tempo esses arrependimentos decaem acentua- damente, ao passo que os arrependimentos com relação às oportunidades perdidas aumentam. Suponhamos que você finalmente decidiu viajar para a Europa. Você se di- verte muito, mas poucas semanas depois de voltar, sua conta do cartão de crédito chega — e não é nada boa. Infelizmente, você terá de trabalhar muito e perder al- guns jantares com seus amigos para poder pagar as con- tas. Alguns meses se passam e você decide relembrar, olhando as fotos da viagem, e não consegue imaginar não ter ido. Portanto, na dúvida, simplesmente faça! É simplesmente ridículo pensar que, na dúvida, você deve sempre agir. As pessoas, com certeza, cometerão erros se seguirem esse simples conse- lho. Por exemplo, você está sem trabalho,mas, ainda assim, decide comprar o carro de seus sonhos — um Audi. Não é a ideia mais inteligente. Então, por que o lema ‘just do it’ (Simplesmente faça, em inglês) é peri- goso? Porque há dois tipos de arrependimento: o ‘ar- rependimento imediato’, no qual o indivíduo fica des- contente consigo mesmo por ter causado algo ruim, e o arrependimento melancólico, no qual ele fantasia sobre como as coisas seriam. O perigo é que as ações tendem mais a levar à angústia ou ao arrependimento imediato, e a inércia, ao arrependimento melancólico. Com isso, as pessoas que preferem agir quando estão na dúvida sobre o que fazer experimentarão um sentimento muito ruim caso o resultado esperado não seja alcançado, ao passo que aquelas que optam por não fazer sentirão ar- rependimento e melancolia, sentimentos mais fracos e menos intensos do que a raiva e angústia. Em resumo, não podemos aplicar regras simples como ‘just do it’ nas decisões importantes, independentemente do que os comerciais e a TV digam para nós.104 Na dúvida, faça! 06 rob0610_cap06 BR.indd 186 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 187 Dilema ético 6. Quais são alguns dos vieses e erros mais comuns que as pessoas cometem na tomada de decisão? 7. Quais são as influências das diferenças individuais, das res trições organizacionais e da cultura na tomada de decisão? 8. As decisões antiéticas são fruto da postura individual do tomador de decisões ou se devem ao ambiente em que elas se inserem? Explique. 9. O que é criatividade e quais são os três componentes do modelo de criatividade? Questões para revisão 1. O que é percepção e quais fatores a influenciam? 2. O que é a teoria da atribuição? Quais são as três deter minantes de atribuição? Quais são suas implicações para explicar o comportamento organizacional? 3. Quais atalhos e simplificações as pessoas geralmente usam ao fazer julgamentos sobre as outras? 4. Qual é a ligação entre a percepção e a tomada de de cisões? Como uma afeta a outra? 5. O que é o modelo racional de tomada de decisões? De que forma ele é diferente da racionalidade limitada e da intuição? Exercício em grupo Vieses no processo decisório Passo 1 Responda a cada uma das seguintes perguntas: 1. Seguem dez corporações, entre empresas genuinamente brasileiras e filiais brasileiras de grandes multinacionais, que foram incluídas pela revista Exame na lista das 50 maiores empresas privadas brasileiras, de acordo com as vendas realizadas em 2008: Grupo A: Nestlé, Brastemp, Renault, TAM, Sadia Grupo B: Cosipa, Bunge Fertilizantes, AES Eletropaulo, Cargill, Braskem Qual desses dois grupos (A ou B) teve o maior volume total de vendas? 2. Qual quantidade é maior: O número de estados brasileiros que começam pela letra ‘R’ ou o número de estados que têm ‘R’ como a terceira letra? 3. Eduardo é uma pessoa calma e organizada. Muito en vergonhado, ele prefere passar mais tempo com seus livros do que com outras pessoas. O que você considera ser mais provável: Eduardo ser um pesquisador astrô nomo ou ser um advogado? Fonte: Esses problemas se baseiam em exemplos fornecidos em M. H. Bazerman, Judgment in Managerial Decision Making, 3. ed. Nova York: Wiley, 1994. 4. Você acha que a Bélgica tem mais ou menos de 40 mi lhões de habitantes? Qual é sua estimativa para a popu lação desse país? 5. Você acha que a Tunísia tem mais ou menos de 5 mi lhões de habitantes? Qual é sua estimativa para a popu lação desse país? 6. O que você escolheria? Um ganho seguro de 240 reais Uma chance de 25 por cento de ganhar mil reais contra uma chance de 75 por cento de não ganhar nada 7. O que você escolheria? Uma perda certa de 750 reais Uma chance de 75 por cento de perder mil reais contra uma chance de 25 por cento de não perder nada Passo 2 Dividamse em grupos de três a cinco alunos. Comparem suas respostas. Explique por que escolheu suas opções. Passo 3 Seu professor lhe dará a resposta certa para cada ques tão. Discuta agora a precisão de suas decisões, os vieses evidenciados nelas e como você pode trabalhar para me lhorar seu processo decisório. Cinco decisões éticas: o que você faria? Como você reagiria a cada uma das situações a seguir? Você é um gerente de nível médio em uma empresa com cerca de mil funcionários e está negociando um contrato com um cliente potencial de grande porte, cujo represen tante insinuou que o negócio certamente será fechado caso sua empresa financie um cruzeiro pelo Caribe para ele e a 06 rob0610_cap06 BR.indd 187 12/21/10 3:56 PM 188 Comportamento organizacional Estudo de caso 1 Um dos produtos que mais vendem na empresa é um su plemento herbário chamado Rosalife. A empresa divulga que o Rosalife “promove a reposição de hormônio estró geno sem nenhum efeito colateral”. Um dia, um assistente de pesquisa vai até seu escritório com algumas informações preocupantes. Ele diz que, enquanto estava pesquisando outro produto, deparouse com um estudo recente que su gere que o Rosalife não oferece os benefícios divulgados pela empresa. Você mostra esse estudo para seu supervisor, que diz: “Não somos responsáveis por validar os produtos não controlados pela Anvisa e, de qualquer maneira, nin guém foi prejudicado”. Na verdade, você sabe que esse não é o caso. Qual é sua responsabilidade ética? Você é gerente de uma empresa de jogos e responsável por contratar um grupo para terceirizar a produção de um novo jogo tecnologicamente inovador. Pelo fato de sua empresa ser uma gigante desse setor, inúmeras empresas estão tentando conseguir o contrato com você. Uma delas lhe oferece suborno se você der o contrato a ela, mas, no final das contas, são seus superiores quem tomam as de cisões na empresa. Você não menciona o incentivo, mas força a alta administração a ceder à proposta da empresa que lhe ofereceu o suborno. Ocultar a verdade é tão ruim quanto mentir? Por que sim ou por que não? mulher. Você sabe que os empregadores do representante não aprovariam essa conduta, mas tem autorização para atender ao pedido dele. O que você faria? Você tem um CD autografado por Roberto Carlos, o qual colocou à venda no MercadoLivre. Até agora, a maior oferta é de 74 reais. Um amigo lhe oferece 100 reais pelo CD e comenta que poderia obter 150 reais por ele no Mer cadoLivre em um ano. Você sabe que isso é bem improvável. Você venderia o CD a seu amigo pelo valor que ofereceu (100 reais)? Você tem a obrigação de dizer a seu amigo que anunciou o CD no MercadoLivre? A política de sua empresa sobre reembolso de despesas com alimentação em viagens de negócios é de cobrir os gas tos, desde que eles não excedam 80 reais/dia, sem necessi dade de comprovação. A empresa confia em sua palavra. Quando você viaja, costuma comer em lanchonetes e efe tuar despesas com comida que raramente ultrapassam 20 reais/dia. Boa parte de seus colegas pede reembolsos entre 55 e 60 reais/dia, independentemente de quanto gastam de verdade. Quanto você pediria de reembolso por suas despe sas com alimentação? Você trabalha para uma empresa que fabrica, negocia e distribui vários produtos, incluindo suplementos nutricio nais para lojas de produtos naturais e comidas saudáveis. Imaginação fértil A Mueller Eletrodomésticos é uma empresa brasileira sediada no Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Fundada em 1949, ela foi a primeira fabricante de lavadoras de roupas no Brasil e, até hoje, é a única empresa plenamente brasileira a produzir máquinas de lavar automáticas e semiautomáticas. Atuando em um mercado muito competitivo, dominado por grandes grupos multinacionais, a Mueller precisa oferecer sempre soluções inovadoras e criativas a seus clientes. Caso contrário, corre o risco de perder sua participação de vendas e ser ‘engolida’ por alguma gigante do setor. Até 2005, sua divisão de lavadoras semiautomáticas ti nha como carrochefe a PopTank, comercializada por cerca de280 reais. Havia alguns anos, entretanto, que o produto não demonstrava o mesmo fôlego de vendas da época de seu lançamento. Com o fortalecimento econômico dos segmentos da base da pirâmide, principalmente das classes C e D, mui tas empresas lançaram máquinas mais baratas, aumentando a concorrência. Um novo conceito surgiu — o dos ‘tanqui nhos’, produtos mais simples, voltados para as classes sociais menos abastadas e com preços variando entre 180 reais e 240 reais. A PopTank não podia, nem devia, confrontálos, visto que pertencia a outra linha de produtos. Nesse contexto, era vital que a Mueller lançasse uma nova mercadoria para con correr diretamente com os ‘tanquinhos’. As decisões precisavam ser rápidas, pois as concor rentes já haviam dominado grande parte desse merca do. Além disso, a nova lavadora precisava ser inovadora, com o objetivo de tentar surpreender os consumidores e recuperar o tempo e a fatia de mercado perdidos. A meta era revolucionar o segmento dos ‘tanquinhos’, ofe recendo um preço competitivo, uma qualidade superior e itens diferentes dos já existentes nos modelos das ou tras marcas. Diante desses desafios, as equipes integra das de engenharia, pesquisa e marketing focaram seus esforços no projeto da lavadora, tendo dado especial atenção ao design, eficiência energética, economia de água e sabão e métodos de transporte e armazenagem. Eles precisavam atender aos anseios das donas de casa que comprariam os produtos, mas também dos varejis tas e distribuidores intermediários, com quem a Mueller comercializa diretamente. Em maio de 2005, a empresa realizou pesquisas qua litativas com potenciais consumidoras finais e vendedores de lavadoras de roupas. Foram criados grupos de foco, formados por mulheres das classes C e D. O objetivo era apresentar um protótipo do produto e embasar o projeto de desenvolvimento da lavadora. Nessa etapa, uma série de informações sobre o processo de compra, o peso da mar ca, o preço justo e as lojas de preferência foram definidas. Além disso, pontos de rejeição no protótipo foram desco bertos, como a tampa e os pés, incentivando alterações no projeto final que se mostraram muito importantes para o sucesso das vendas. 06 rob0610_cap06 BR.indd 188 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 189 Estudo de caso 2 Ao longo de 2005 e início de 2006, as equipes de marketing e engenharia da empresa trabalharam no de senvolvimento do produto. Nessa fase, a criatividade foi fundamental, pois era necessário conciliar design, quali dade e preço competitivo. A escolha adequada dos mate riais garantiria a resistência do novo modelo. Foi contra tado um escritório de design para ajudar os funcionários da Mueller a desenhar a SuperPop, nome do novo pro duto. Nessa etapa final, dois novos problemas surgiram: a questão de transporte e armazenagem da mercadoria e a integração entre duas peças (cuba e gabinete) que sempre foram tratadas separadamente na produção de lavadoras. O design inovador da SuperPop possibilitou a inte gração das peças e ainda gerou grande economia, muito importante para que seu preço final ficasse em torno de 240 reais. No entanto, a resolução do primeiro proble ma mostrouse mais complexa. Os custos logísticos ainda eram um empecilho para a prática do preço final determi nado. Nessa etapa, a criatividade e o espírito inovador dos funcionários foram vitais para a superação desse obstá culo. As equipes eram experientes e traziam na bagagem o vasto conhecimento sobre a produção de lavadoras da Mueller. Além disso, mostravam grande motivação pelo desafio imposto e pela complexidade da tarefa. Eles sa biam da importância que aquele projeto tinha para toda a organização e os trabalhadores de chão de fábrica. Por essa razão, estavam inteiramente dedicados à resolução do problema logístico. O grande diferencial, no entanto, ocorreu por uma analogia entre o novo produto e os brinquedos de mon tagem Lego. As equipes de engenharia e marketing tive ram a ideia de fabricar uma lavadora que fosse vendida desmembrada em uma pequena caixa e pudesse ser facil mente montada nas residências dos consumidores finais. Essa inovação tecnológica foi o grande impulsionador das vendas da SuperPop, reduzindo em 40 por cento os custos logísticos de transporte e armazenagem e atendendo aos anseios dos varejistas e distribuidores. Após essa última no vidade, o projeto estava finalizado e a SuperPop foi final mente lançada no terceiro trimestre de 2006, alcançando a surpreendente marca de 750 mil unidades vendidas até o final de 2007 e se tornando o principal modelo da Mueller Eletrodomésticos. Em apenas dois anos, a Mueller conseguiu desenvol ver uma lavadora repleta de inovações tecnológicas. Nesse processo, a criatividade de suas equipes de pesquisa, marke ting e engenharia foi fundamental para que os problemas que surgiram fossem resolvidos de maneira criativa e rápi da. Reunindo perícia, motivação e, fundamentalmente, um pensamento criativo bastante desenvolvido, os funcionários buscaram soluções novas e atingiram os objetivos organiza cionais no prazo determinado, e ainda sobrou tempo para montar algumas naves espaciais e castelos medievais nos in tervalos de descanso. Questões 1. A Mueller Eletrodomésticos estava em uma situação deli cada no início de 2005. Qual era o problema enfrentado pela empresa? Identifique alguns fatores que serviram como critérios para o desenvolvimento do novo produto. 2. Podese dizer que o processo de desenvolvimento da la vadora SuperPop está diretamente relacionado com o conceito de racionalidade limitada? Por quê? 3. A coleta de informações cumpre uma função muito importante no processo de tomada de decisão, visto que auxilia na criação e avaliação de alternativas. De que ma neiras a Mueller obteve as informações necessárias para desenvolver o novo produto? 4. Relacione o caso apresentado ao modelo de três compo nentes da criatividade. Como as analogias e o pensamen to criativo auxiliaram a equipe de desenvolvimento da Mueller a fazer o novo produto? Fonte: Márcio Gonçalves, “Um novo produto revoluciona o mercado”, Case Studies, ano XI, n. 63, jul./ago. 2007, p. 2332. Um novo lugar para uma nova fábrica A Marcopolo é a terceira maior fabricante de ônibus do planeta. Fundada em 1949 e sediada no município de Ca xias do Sul, no Rio Grande do Sul, a empresa está presente em mais de cem países, seja por meio de representantes lo cais, seja por meio de fábricas próprias. Por essas caracterís ticas, a organização entrou para o grupo das “100 empresas de paí ses emergentes que mais incomodam as líderes mun diais”, de acordo com levantamento realizado em 2007 pela Boston Consulting Group (BCG). A história internacional iniciouse em 1991, quando a Marcopolo abriu uma fábri ca em Portugal para servir de posto avançado no continen te europeu. Posteriormente, a companhia inaugurou uma planta na Argentina. No entanto, foi apenas a partir do ano 2000 que sua internacionalização acelerouse. Desde então, a empresa abriu fábricas no México, na África do Sul, na Colômbia, na Rússia e, em 2008, na Índia. Sua trajetória internacional evoluiu gradativamente. No início, a empresa enviava do Brasil kits com as partes dos ônibus para que eles fossem montados nas fábricas no exterior. A segunda fase representou uma importante mu dança estratégica da empresa: a produção completa de veí 06 rob0610_cap06 BR.indd 189 12/21/10 3:56 PM 190 Comportamento organizacional 1. Você S/A, abr. 2008. 2. “Pesquisa das Nações Unidas mostra que 43% dos brasileiros querem proibir imigração”, O Globo, 10 out. 2009. 3. “Executivos viram atendentes”, Você S/A, abr. 2008. culos no estrangeiro, com peças produzidas por empresas parceiras locais. Segundo José Rubens De La Rosa, diretor geral da organização, “enviar kits ao exterior é complica do”; “transladar a engenharia”, porém, “é imensamentemais difícil”. Para tornar esse modelo de entrada em novos mercados viável, a Marcopolo resolveu associarse a empresas locais. Esse novo estilo de negócios permitiu que os riscos fossem reduzidos, visto que as parceiras já eram conhecedoras das características locais. A Marcopolo apresenta ainda outra vantagem em relação a seus concorrentes no mercado inter nacional: a customização completa de seus produtos. Com isso, a montadora pode oferecer todo e qualquer modelo de ônibus (dos micro aos de dois andares) com as características internas e externas que o comprador desejar. Uma das últimas investidas nesse processo de interna cionalização foi a inauguração, em 2008, de uma fábrica na Índia. Essa decisão atendeu ao desejo da empresa de entrar em um dos principais e mais populosos mercados emergentes do mundo. Como a companhia já possuía uma fábrica na Rússia, as alternativas resumiamse à Índia e à China, sendo esta última a opção favorita dos adminis tradores da Marcopolo. A avaliação criteriosa desses dois locais, no entanto, resultou na escolha do primeiro país. Entre os fatores que foram levados em conta, estavam o tamanho do mercado, seu potencial de crescimento, a ex pansão econômica, a infraestrutura local e, principalmente, a existência de fornecedores aptos a produzir peças para os veículos a serem produzidos e de um parceiro nativo, que conhecesse as preferências dos consumidores e dividisse os riscos do negócio. Critérios utilizados no processo de decisão 1 Tamanho do mercado 2 Níveis de expansão do mercado 3 Crescimento econômico 4 Infraestrutura local 5 Fornecedores aptos 6 Parceiro disposto e capacitado Nos quatro primeiros quesitos avaliados, a China levava ligeira vantagem. Quanto aos fornecedores, a Índia apresenta va opções para que todas as peças necessárias fossem fabrica das no local. O último critério, entretanto, foi o que decretou a escolha de Dharwad, no sul da Índia, como o novo local de fabricação dos ônibus Marcopolo. Nesse país, a Tata Motors, líder do setor, apresentouse como possível parceiro, enquanto na China não foi encontrado um parceiro local adequado que garantisse os direitos de propriedade intelectual da Marcopo lo. Estava decretada a melhor alternativa. Assim, em 2008, a Marcopolo e a Tata Motors inauguraram a maior fábrica de ônibus do mundo, com capacidade para produzir cerca de 25 mil veículos por ano, com 100 por cento das peças e compo nentes sendo fabricados por fornecedores locais. A Marcopolo, com essa nova planta, mantém sua posição de destaque nesse setor. Além disso, confirma sua estratégia de empresa global e entra definitivamente no segundo maior mer cado mundial. Os planos, no entanto, não param por aí. Já es tão adiantadas as negociações com uma empresa estatal chinesa para que uma parceria seja firmada no futuro. A meta de estar fortemente presente em todos os BRICs está mantida e deve ser atingida em breve. A posição de maior fábrica do mundo, con quistada pela planta indiana da Marcopolo, pode, portanto, es tar ameaçada. Felizmente, é a própria empresa quem a ameaça. Questões 1. A fabricante de ônibus adotou uma estratégia de forte presença nos BRICs. Seria possível explicar essa estraté gia adotada com base na percepção seletiva e no viés da disponibilidade? Você entende que essa seja uma decisão acertada da companhia? 2. Os administradores da Marcopolo tinham uma clara preferência pela China como local de instalação da fá brica, entretanto a Índia foi o país escolhido. Como você acha que a empresa conseguiu escapar do viés da evidên cia confirmadora? 3. Agora que a escolha foi feita e que o investimento foi reali zado, como a Marcopolo e sua parceira, a Tata Motors, po dem protegerse contra a escalada do comprometimento? 4. A escolha do local de instalação da nova fábrica da Mar copolo parece ter seguido o modelo de decisão racional. Identifique as etapas do modelo que foram apresentadas no caso narrado. 5. Dizer que o processo de tomada de decisão estudado se guiu o modelo de decisão racional pode ser um exagero, visto que, evidentemente, houve limitações ao longo do processo. Levante algumas dessas possíveis barreiras à ra cionalidade plena no caso apresentado. Notas Fonte: Suzana Naiditch, “A Embraer do ônibus”, Revista Exame, ed. 909, ano 41, n. 25, 31 dez. 2007, p. 7072. 4. H. H. Kelley, “Attribution in Social Interaction”, em E. Jones et al. (Orgs.), Attribution: Perceiving the Causes of Behavior. Morristown, NJ: General Learning Press, 1972. 06 rob0610_cap06 BR.indd 190 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 191 Stereotypes, Moderators, and Future Research Directions”, Journal of Management, 35, n. 5, 2006, p. 383386. 14. J. L. Eberhardt, P. G. Davies, V. J. PurdicVaughns e S. L. Johnson, “Looking Deathworthy: Perceived Stereotypicality of Black Defendants Predicts CapitalSentencing Outcomes”, Psychological Science 17, n. 5, 2006, p. 383386. 15. “Pesquisa Dimensões da Cidade: Favela e Asfalto” Ibase e FGVOpinião. 16. H. G. Heneman III e T. A. Judge, Staffing Organizations. Middleton, WI: Mendota House, 2006. 17. J. Willis e A. Todorov, “First Impressions: Making Up Your Mind After a 100ms Exposure to a Face”, Psychological Science, jul. 2006, p. 592598. 18. Veja, por exemplo, E. C. Webster, Decision Making in the Employment Interview. Montreal: McGill University, Industrial Relations Center, 1964. 19. Veja, por exemplo, D. B. McNatt, “Ancient Pygmalion Joins Contemporary Management: A MetaAnalysis of the Result”, Journal of Applied Psychology, abr. 2000, p. 314322; O. B. Davidson e D. Eden, “Remedial SelfFulfilling Prophecy: Two Field Experiments to Prevent Golem Effects Among Disadvantaged Women”, Journal of Applied Psychology, jun. 2000, p. 386398; D. Eden, “SelfFulfilling Prophecies in Organizations”, em J. Greenberg (Org.), Organizational Behavior: The State of the Science. 2. ed. Mahwah, NJ: Lawrence Erlbaum, 2003, p. 91122; e G. Natanovich e D. Eden, “Pygmalion Effects Among Outreach Supervisors and Tutors: Extending Sex Generalizability”, Journal of Applied Psychology, 93, n. 6, 2008, p. 13821389. 20. D. Eden e A. B. Shani, “Pygmalion Goes to Boot Camp: Expectancy, Leadership, and Trainee Performance”, Journal of Applied Psychology, abr. 1982, p. 194199; e D. B. McNatt e T. A. 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Algumas das conclusões nesse estudo clássico foram recentemente contestadas em J. Walsh. “Selectivity and Selective Perception: An Investigation of Managers’ Belief Structures and Information Processing”, Academy of Management Journal, dez. 1988, p. 873896; M. J. Waller, G. Huber e W. H. Click, “Functional Background as a Determinant of Executives’ Selective Perception”, Academy of Management Journal, ago. 1995, p. 943974; e J. M. Beyer, P. Chattopadhyay, E. George, W. H. Click, D. T. Ogilvie e D. Pugliese, “The Selective Perception of Managers Revisited”, Academy of Management Journal, jun. 1997, p. 716737. 8. J. Healy e M. M. Grynbaum, “Why Analysts Keep Telling Investors to Buy”, New York Times, 9 fev. 2009, p. B1, B7. 9. Veja K. R. Murphy, R. A. Jako e R. L. Anhalt, “Nature and Consequences of Halo Error: A Critical Analysis”, Journal of Applied Psychology, abr. 1993, p. 218225; P. Rosenzweig, The Halo Effect. Nova York: The Free Press, 2007; I. 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Abramson, “The ABCs of Depression: Integrating Affective, Biological, and Cognitive Models to Explain the Emergence of the Gender Difference in Depression”,que eles proponham mudanças que melhorem diretamente os resultados corporativos.3 A na L ui za G ui m ar ãe s PERCEPÇÃO • Atitudes • Personalidade • Motivações • Interesses • Experiência • Expectativas Fatores no perceptor Fatores no alvo • Novidade • Movimento • Sons • Tamanho • Cenário • Proximidade • Semelhança Fatores na situação • Momento • Ambiente de trabalho • Ambiente social Figura 6.1 Fatores que influenciam a percepção 06 rob0610_cap06 BR.indd 160 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 161 O contexto também é importante. O momento em que um objeto ou evento é obser vado pode influenciar a atenção, bem como outros fatores situacionais. Posso não reparar em uma jovem de 25 anos maquiada e em traje de gala em um casamento em uma noite de sábado. Mas, se essa mesma jovem se apresentasse vestida assim na manhã de segunda feira para assistir a uma aula na faculdade, certamente eu (bem como o resto dos alunos) repararia nela. Nem o observador nem o alvo mudaram da noite de sábado para a manhã de segundafeira, mas a situação é diferente. Percepção de pessoas: fazendo julgamentos sobre os outros Agora, trataremos da aplicação dos conceitos sobre percepção mais relevantes para o estudo do comportamento organizacional: a percepção de pessoas, ou percepções que as pes soas formam a respeito umas das outras. Teoria da atribuição Os objetos inanimados — como mesas, máquinas ou edifícios — estão sujeitos às leis da natureza, mas não têm crenças, motivações ou intenções. As pessoas têm. Conse quentemente, quando observamos as pessoas, tentamos explicar os motivos de seus com portamentos. Nossa percepção e julgamento das ações de um indivíduo, portanto, serão significativamente influenciados pelas suposições que fazemos sobre seu estado de espírito. A teoria da atribuição foi proposta para explicar por que julgamos as pessoas de modo distinto, dependendo do significado que atribuímos a um dado comportamento.4 Basicamente, a teoria sugere que, quando observamos o comportamento de alguém, tentamos determinar se a causa deste é interna ou externa. Essa determinação, contudo, depende muito de três fatores: (1) diferenciação, (2) consenso e (3) consistência. Primeiro, esclareceremos as diferenças entre causas internas e causas externas e, depois, discutiremos cada um dos três fatores determinantes. Teoria da atribuição Tentativa de determinar se o comportamento de um indivíduo tem causa interna ou externa. 100 80 60 40 20 0 Relacionamento interpessoal Senso de humor Desempenho 78% 96% 84% Porcentagem de indivíduos que se consideram acima da média em cada atributo Autopercepções infladas ENquETE cOMPORTAMENTAl Fonte: Baseado em C. Merkle e M. Weber, True Overconfidence — The Inability of Rational Information Processing to Account for Apparent Overconfidence (Março 2009). Disponível em: . 06 rob0610_cap06 BR.indd 161 12/21/10 3:56 PM 162 Comportamento organizacional Os comportamentos motivados por causas internas são aqueles vistos como sob o con trole do indivíduo. O comportamento por causas externas é aquele que imaginamos ter sido provocado por uma situação enfrentada pelo indivíduo. Se seu funcionário chega atrasado ao trabalho, você pode imaginar que ele ficou na farra até tarde e perdeu a hora de levan tar. Essa seria uma atribuição interna. Mas você também pode imaginar que o atraso se deve a um enorme engarrafamento de trânsito causado por um acidente. Essa seria uma atribuição externa. Agora, vamos discutir cada um dos três fatores determinantes. A diferenciação se refere à questão de o indivíduo mostrar, ou não, comportamentos diferentes em situações diversas. O funcionário que chegou tarde hoje é o mesmo que tem sido alvo de reclamações dos cole gas por ser um ‘folgado’? O que queremos apurar é se esse comportamento é ou não usual. Se não for, o perceptor provavelmente lhe dará uma atribuição externa. Caso contrário, certamente será julgado como de causa interna. Se todas as pessoas que enfrentam determinada situação respondem de maneira semelhante, podemos dizer que esse comportamento apresenta consenso. No exemplo do funcionário atrasado, esse seria o caso se todos os colegas que fazem o mesmo caminho também tivessem se atrasado. Do ponto de vista da atribuição, se o consenso é alto, espera se uma causa externa; mas se os outros funcionários que fazem o mesmo caminho chega ram no horário, você deve concluir que a causa do atraso é interna. Finalmente, o perceptor busca a consistência nas ações de uma pessoa. Esta reage sem pre da mesma forma? Chegar dez minutos atrasado não é um comportamento visto da mesma maneira para um funcionário que não se atrasa há meses como é para aquele que chega tarde duas ou três vezes por semana. Quanto mais consistente o comportamento, mais inclinado fica o perceptor a atribuílo a causas internas. A Figura 6.2 resume os elementos básicos da teoria da atribuição. Ela pode nos mostrar, por exemplo, que se uma funcionária — vamos chamála Joana Gomes — cos tuma ter o mesmo nível de desempenho em diferentes tarefas (baixa diferenciação), se ou tros funcionários geralmente têm desempenho diferente, melhor ou pior do que o de Joana em determinada tarefa (baixo consenso), e se seu desempenho nessa tarefa é consistente ao longo do tempo (alta consistência), a pessoa que julgar seu trabalho atribuirá a Joana a responsabilidade total pelo próprio desempenho (atribuição interna). Uma das descobertas mais interessantes na pesquisa da teoria da atribuição é que exis tem erros e vieses que podem distorcer as atribuições. Quando julgamos o comportamento dos outros, tendemos a subestimar a influência dos fatores externos e superestimar a influên Comportamento do indivíduo Externa Interna Externa Interna Interna Externa Diferenciação Observação Atribuição de causa Alta Baixa Alto Baixo Alta Baixa Interpretação Consistência Consenso Figura 6.2 Teoria da atribuição 06 rob0610_cap06 BR.indd 162 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 163 cia daqueles internos ou pessoais.5 Isso é chamado erro fundamental de atribuição e pode explicar por que um gerente de vendas está pronto a atribuir o fraco desempenho de seus vendedores à preguiça deles, e não ao lançamento de um produto concorrente inovador. Há também a tendência de os indivíduos atribuírem o próprio sucesso a fatores internos, como capacidade e esforço, e de colocar a culpa dos fracassos em fatores externos, como falta de sorte. Isso é chamado viés de autoconveniência.6 Um exemplo típico do viés de autoconveniência ocorreu (e continua ocorrendo) no mercado de capitais em todo o mundo. De 2002 a meados de 2008, as bolsas de todo o planeta experimentaram forte crescimento. Nesse contexto, gestores de fundos vangloriavamse de suas habilidades e conhecimentos. Com o estouro da crise financeira mundial na segunda metade de 2008, muitos grupos experimentaram grandes prejuízos. Nesse novo cenário de perdas maciças, os mesmos ges tores colocaram a culpa na ‘imprevisível’ situação do mercado imobiliário norteamericano, tentando salvar sua reputação de hábeis administradores financeiros. Simplificações no julgamento das outras pessoas Costumamos utilizar diversas simplificações quando julgamos outras pessoas. Essas técnicas costumam ser valiosas. Elas nos permitem chegar rapidamente a percepções pre cisas e oferecem dados válidos para previsões. Entretanto, não estão livres de erros. Tam bém podem nos criar problemas, e frequentemente o fazem. A compreensão desses atalhos mentais que usamos para simplificar o processo de julgamento dos outros pode ser útil para reconhecermos quando podem resultar em distorções significativas. Percepção seletiva Todas as características que fazem que uma pessoa, um objeto ou um evento sobressaia aumentam a probabilidade de que elePsychological Review, 115, n. 2, 2008, p. 291313; e S. NolenHoeksema, Women Who Think Too Much. Nova York: Henry Holt, 2003. 69. H. Connery e K. M. Davidson, “A Survey of Attitudes to Depression in the General Public: A Comparison of Age and Gender Differences”, Journal of Mental Health, 15, n. 2, abr. 2006, p. 179189. 70. M. Elias, “Thinking It Over, and Over, and Over”, USA Today, 6 fev. 2003, p. 10D. 71. Fernanda Bottoni, “Como eles decidem”, Você S/A, abr. 2008. 72. K. E. Stanovich e R. F. West, “On the Relative Independence of Thinking Biases and Cognitive Ability”, Journal of Personality and Social Psychology, 94, n. 4, 2008, p. 672695. 73. A. Wildavsky, The Politics of the Budgetary Process. Boston: Little, Brown, 1964. 74. G. F. Cavanagh, D. J. Moberg e M. Valasquez, “The Ethics of Organizational Politics”, Academy of Management Journal, jun. 1981, p. 363374. 75. Veja, por exemplo, T. Machan (Org.). Commerce and Morality. Totowa, NJ: Rowman and Littlefield, 1988. 06 rob0610_cap06 BR.indd 193 12/21/10 3:56 PM 194 Comportamento organizacional “Interactive Effects of Growth Need Strength, Work Context, and Job Complexity on SelfReported Creative Performance”, Academy of Management Journal, 52, n. 3, 2009, p. 489505. 92 “A Ásia quer brasileiros”, Você S/A, abr. 2008. 93. Veja, por exemplo, D. S. Krull, M. H.M. Loy, J. Lin, C.F. Wang, S. Chen e X. Zhao, “The Fundamental Attribution Error: Correspondence Bias in Individualistic and Collectivist Cultures”, Personality & Social Psychology Bulletin, out. 1999, p. 12081219; e F. F. T. Chiang e T. A. Birtch, “Examining the Perceived Causes of Successful Employee Performance: An EastWest Comparison”, International Journal of Human Resource Management 18, n. 2, 2007, p. 232248. 94. S. Nam, “Cultural and Managerial Attributions for Group Performance”, tese de mestrado não publicada; University of Oregon. Citado em R. M. Steers, S. J. Bischoff e L. H. Higgins, “CrossCultural Management Research”, Journal of Management Inquiry, dez. 1992, p. 325326. 95. T. Menon, M. W. Morris, C. Y. Chiu e Y. Y. Hong, “Culture and the Construal of Agency: Attribution to Individual versus Group Dispositions”, Journal of Personality and Social Psychology, 76, 1999, p. 701 717; e R. Friedman, W. Liu, C. C. Chen e S. S. Chi, “Causal Attribution for Interfirm Contract Violation: A Comparative Study of Chinese and American Commercial Arbitrators”, Journal of Applied Psychology, 92, n. 3, 2007, p. 856864. 96. Stela M. S. Sanábio. Atribuição de causalidade ao sucesso ou fracasso dos negócios por empreendedores e não empreendedores: um estudo exploratório. Dissertação (mestrado), Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro. 97. M. J. Gelfand, M. Erez e Z. Aycan, “CrossCultural Organizational Behavior”, Annual Review of Psychology, jan. 2007, p. 479514; e A. S. Tsui, S. S. Nifadkar e A. Y. Ou, “CrossNational, CrossCultural Organizational Behavior Research: Advances, Gaps, and Recommendations”, Journal of Management, jun. 2007, p. 426478. 98. N. J. Adler. International Dimensions of Organizational Behavior. 4. ed. Cincinnati, OH: Southwestern Publishing, 2002, p. 182189. 99. Barros e Prates. O estilo brasileiro de administrar. São Paulo: Atlas, 1996. 100. T. Jackson, “Cultural Values and Management Ethics: A 10Nation Study”, Human Relations, out. 2001, p. 12671302; veja também J. B. Cullen, K. P. Parboteeah e M. Hoegl, “CrossNational Differences in Managers’ Willingness to Justify Ethically Suspect Behaviors: A Test of Institutional Anomie Theory”, Academy of Management Journal, jun. 2004, p. 411421. 101. W. Chow Hou, “To Bribe or Not to Bribe?”, Asia, Inc., out. 1996, p. 104. 102. P. Digh, “Shades of Gray in the Global Marketplace”, HRMagazine, abr. 1997, p. 91. 103. Barros e Prates. O estilo brasileiro de administrar. São Paulo: Atlas, 1996. 104. Baseado em T. Gilovich, V. H. Medvec e D. Kahneman, “Varieties of Regret: A Debate and Partial Resolution”, Psychological Review, 105, 1998, p. 602605; veja também M. Tsiros e V. Mittal, “Regret: A Model of Its Antecedents and Consequences in Consumer Decision Making”, Journal of Consumer Research, mar. 2000, p. 401417. 06 rob0610_cap06 BR.indd 194 12/21/10 3:56 PM Parte 2 - O indivíduo 6. Percepção e tomada de decisão individual O que é percepção? Percepção de pessoas: fazendo julgamentos sobre os outros A ligação entre a percepção e a tomada de decisões individual Tomando decisões nas organizações Influências na tomada de decisões: diferenças individuais e restrições organizacionais A ética no processo decisório Implicações globais Resumo e implicações para os gestoresseja percebido. Por quê? Porque é impossível assimilar tudo o que vemos — apenas alguns estímulos podem ser assimilados. Essa tendência explica por que, como mencionamos antes, prestamos mais atenção em carros iguais ao nosso ou por que um superior chama a atenção de alguns funcionários e não de outros quando fazem a mesma coisa. Como não podemos observar tudo o que se passa a nossa volta, exercemos uma percepção seletiva. Um exemplo clássico mostra como nossos interesses podem influenciar significativamente quais serão as questões que perceberemos. Pesquisadores pediram a 23 executivos (seis de vendas, cinco de produção, quatro de contabilidade e oito em funções diversas) que lessem um caso abrangente descrevendo a organização e as atividades de uma siderúrgica.7 Cada executivo escreveu qual, em sua opinião, era o principal problema encontrado no caso. Oitenta e três por cento dos execu tivos de vendas disseram ser as vendas a mais importante, contra 29 por cento dos demais. Esse fato, junto com outros resultados do estudo, levou os pesquisadores à conclusão de que os participantes percebiam aspectos da situação especificamente relacionados com as atividades e metas das unidades às quais eles estavam ligados. A percepção de um grupo com relação às atividades organizacionais é alterada seletivamente para focar os interesses do grupo que representa. Como não podemos assimilar tudo o que observamos, nós percebemos um pouco de cada vez. Mas esse pouco não é escolhido aleatoriamente; na verdade, é escolhido de maneira seletiva, de acordo com nossos interesses, experiências passadas e atitudes. A per cepção seletiva nos permite uma ‘sacada rápida’ a respeito dos outros, mas com o risco de obtermos uma figura imprecisa. Ao vermos aquilo que queremos, podemos tirar conclusões erradas de uma situação ambígua. Encontramos outro exemplo de percepção seletiva nos mercados financeiros. Depois da grave crise financeira mundial de 2008, as bolsas de valores em quase todo o mundo desceram significativamente (muitas para menos de metade do valor précrise). Ainda as sim, na mesma época, as recomendações de venda (em geral, os analistas classificam as ações de uma empresa de acordo com três recomendações: compra, venda ou manutenção) por parte dos analistas na verdade diminuíram apenas ligeiramente. Embora existam várias razões pelas quais os analistas relutem em dar recomendações de venda nas ações, uma delas é a percepção seletiva. Quando os preços caem, os analistas muitas vezes se prendem ao passado (dizendo que o preço da ação é uma barganha em comparação com o preço Erro fundamental de atribuição Tendência de subestimar a influência dos fatores externos e superestimar a influência dos fatores internos ao julgar o comportamento dos outros. Viés de autoconveniência Tendência de os indivíduos atribuírem o próprio sucesso a fatores internos e colocarem a culpa dos fracassos em fatores externos. Percepção seletiva Tendência que as pessoas têm de interpretar seletivamente o que veem, com base nos próprios interesses, experiências e atitudes. 06 rob0610_cap06 BR.indd 163 12/21/10 3:56 PM 164 Comportamento organizacional anterior) em vez de olhar para o futuro (a tendência de queda pode muito bem continuar). Como notou um gerente financeiro: “Cada vez que o mercado caía era uma nova oportuni dade para comprar a ação mais barata ainda”.8 Isso não deixa de ser verdade, é claro, mas mostra o perigo da percepção seletiva: ao considerar apenas o preço antigo, os analistas confiaram em um ponto de referência falso e não puderam reconhecer que o que havia caído poderia cair ainda mais. O efeito de halo Quando formamos uma impressão geral de alguém com base em uma única característica — como sua inteligência, sociabilidade ou aparência —, dáse o efeito de halo.9 Veja o caso do exdiretor financeiro da Sadia, Adriano Lima Ferreira. No final de 2008, após a empresa reportar um prejuízo de 2,5 bilhões de reais, ele foi sumariamente demitido e, em abril do ano seguinte, foi processado pelos acionistas da companhia, que o acusaram de ter realizado operações no mercado de derivativos sem avisálos. Segundo ele, porém, essas mesmas operações teriam sido responsáveis por grande parcela dos lucros an teriores da companhia, razão que explicaria sua ascensão e fortalecimento na organização. Dessa forma, enquanto a estratégia produzia bons resultados, o gestor era elogiado e pro movido, ao passo que, quando ela começou a dar errado, ele se tornou o único culpado10. Esses são os dois lados do efeito de halo (ou você é bom ou é ruim, poderseia dizer). A existência real do efeito de halo foi confirmada por um estudo clássico em que era pe dido aos participantes que avaliassem uma pessoa a quem um conjunto de traços se aplicava. Esses traços eram inteligência, habilidade, senso prático, zelo, determinação e simpatia.11 Quando se evocavam esses traços, a pessoa era julgada como esperta, engraçada, popular e imaginativa. Quando essa lista era modificada — com frieza substituindo simpatia —, surgia uma avaliação completamente diferente. Ficou claro que os participantes permitiam que um único traço influenciasse sua impressão geral da pessoa que era avaliada. Efeito de contraste Existe uma antiga máxima entre os atores de espetáculos de va riedades: “Nunca faça seu número depois de uma apresentação com crianças ou animais”. Sabe por quê? O senso comum diz que as pessoas amam tanto as crianças e os bichinhos que você vai parecer ruim depois deles. Esse exemplo ilustra como o efeito de contraste pode distorcer a percepção. Não avaliamos as pessoas de maneira isolada. Nossa reação a alguém é sempre influenciada pelas outras pessoas que encontramos recentemente. Em uma situação em que ocorra uma série de entrevistas, por exemplo, a avaliação de qualquer candidato pode sofrer distorções por causa de sua posição na ordem de chamada. Ele poderá ser beneficiado se os candidatos anteriores forem medíocres, ou prejudicado se os antecessores forem brilhantes. Estereotipagem Quando julgamos alguém com base em nossa percepção do grupo do qual essa pessoa faz parte, estamos usando uma forma de simplificação chamada estereo- tipagem.12 No início deste capítulo, já mencionamos os problemas que a estereotipagem pode causar: os brasileiros não são tão receptivos com relação aos imigrantes como se imaginava! Nós nos baseamos em generalizações todos os dias, pois elas nos ajudam a tomar decisões rapidamente. É um meio de simplificar um mundo complexo. É mais fácil lidar com um número não administrável de estímulos se utilizarmos heurísticas ou estereótipos. Por exemplo, de fato faz sentido presumir que Celso, o novo funcionário da Contabili dade, sabe alguma coisa sobre orçamentos, ou que Cauã, de Finanças, poderá ajudálo a resolver um problema de previsão. A dificuldade, é claro, surge quando generalizamos de forma imprecisa ou exagerada. Nas organizações, costumamos ouvir comentários que representam estereótipos baseados em gênero, idade, raça, religião, etnia ou até no peso das pessoas (ver Capítulo 2):13 “As mulheres não aceitam mudar de cidade por causa de uma promoção”, “Os homens não têm jeito para cuidar de crianças”, “Trabalhadores mais ve lhos não conseguem aprender novas habilidades”, “Imigrantes asiáticos são trabalhadores e conscienciosos”, “Pessoas com excesso de peso são indisciplinadas”. Os estereótipos podem estar tão profundamente arraigados e ser tão poderosos que chegam a influenciar decisões de vida ou morte. Um estudo nos Estados Unidos, que analisou uma multiplicidade de fatores (tais como circunstâncias agravantes ou atenuantes) em julgamentos criminais por assassinato, mostrou que o grau em que os réus negros se pareciam com o ‘estereótipo Efeito de halo Tendência de formar uma impressão geral de alguém com base em uma única característica. Efeito de contraste Tendência de comparar as características de umindivíduo com as de outras pessoas. Estereotipagem Julgamento de uma pessoa com base na percepção sobre o grupo ao qual ela pertence. 06 rob0610_cap06 BR.indd 164 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 165 típico dos afroamericanos’ dobrava suas chances de receber pena de morte caso fossem considerados culpados.14 Em uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), 24 por cento dos 400 moradores de uma favela carioca que foram entrevistados disseram já ter perdido alguma oportunidade de emprego por terem dito onde moravam. De acordo com a mesma pes quisa, 78 por cento dos moradores da favela de Manguinhos e 74 por cento dos habitantes do ‘asfalto’ (moradores de bairros ‘regulares’) disseram perceber a existência de forte pre conceito contra os favelados.15 Pelo fato de, normalmente, os traficantes de drogas e outros criminosos se esconderem nas favelas, os moradores dessas áreas acabam sendo rotulados como cúmplices dos bandi dos. Com isso, apenas o fato de viver em uma favela é suficiente para que o indivíduo seja visto como potencial criminoso, fazendo que as entrevistas de seleção sejam muito mais rigorosas para ele ou que ele nem mesmo seja chamado para elas. Dessa maneira, apesar de a grande maioria das pessoas que moram nas favelas ser honesta e trabalhadora, que optou por esse tipo de moradia para estar próxima ao local de trabalho, elas têm de passar por diversos tipos de constrangimento quando participam de processos seletivos. Esse debate é importante, pois implica a necessidade de equilíbrio en tre os direitos individuais e o bemestar da sociedade como um todo. As organizações precisam esclarecer seus funcionários quanto aos danos que a generalização de perfil étnico pode causar. Um dos problemas dos estereótipos é que eles são muito difundidos e tratase de genera lizações úteis, apesar do fato de não terem qualquer traço de verdade ao serem uti lizados com relação a uma pessoa ou situação em particular. Assim, constantemente temos de nos policiar para nos certificar de que não estamos usando estereótipos em nossas avaliações e decisões injusta ou incorretamente. Os estereótipos são um exemplo do que diz o aviso: “Quanto mais útil, mais chances há de ser mal utilizado”. Japão e China poderiam parecer parceiros econô- micos naturais, visto que estão muito próximos geograficamente. No entanto, hoje, as empresas japonesas ficam atrás tanto dos Estados Unidos quanto da Europa no comércio com a China. Apesar de a indús- tria automobilística japonesa ter tido um enorme suces- so em outros países, inclusive nos Estados Unidos, as marcas de carro mais vendidas na China são produzidas pela GM (empresa norte-americana) e pela Volkswagen (empresa alemã). Além disso, a indústria japonesa de eletrônicos atualmente possui somente 5 por cento do mercado chinês. Mas quem seria o culpado pelo triste relacionamen- to entre Japão e China? As percepções do público, nos dois países, podem ser a resposta. Por exemplo, muitos chineses ainda estão irritados com um relato de que os empregados de uma construtora japonesa contrataram prostitutas chinesas para uma festa da empresa. E mui- tos japoneses acreditam que os imigrantes chineses são culpados pelos muitos crimes violentos que acontecem no Japão. Além desses eventos recentes, as relações entre esses dois países, historicamente, têm sido tensas. Pequim ainda está contrariada com a invasão militar da China nos anos 1930 e 1940, invasão essa que não rece- beu reparação por parte do Japão. Essas percepções negativas dificilmente podem ser revertidas se os erros de percepção, tais como o erro fundamental de atribuição e efeito de halo, estiverem operando. Isto é, ambas as nações se culpam mutua- mente por seus comportamentos (atribuição interna) e ambas tendem a ver a outra de forma negativa (efei- to de halo negativo). Por causa desses erros, compor- tamentos futuros, mesmo que ambíguos, poderão ser percebidos negativamente pelo outro país. As percepções negativas podem prejudicar as relações comerciais internacionais? cOMPORTAMENTO ORGANIZAcIONAl INTERNAcIONAl Fontes: Baseado em C. Chandler, “Business Is Hot, Relations Are Not”, Fortune (Europe), 19 abr. 2004, p. 20-21; e “China Urges Japan to Do More to Improve Ties”, The Associated Press, 14 mar. 2005. 06 rob0610_cap06 BR.indd 165 12/21/10 3:56 PM 166 Comportamento organizacional Essa sentença é falsa. Na maioria das vezes, os es- tereótipos são bastante úteis, ajudando-nos sobre- maneira a tomar decisões correta e rapidamente. Esse ‘vício perceptivo’ serve como um atalho mental e, como todo atalho, traz riscos, mas pode nos levar ao des- tino desejado de maneira muito mais rápida. Os estereó- tipos são frutos de experiências vividas por nós e por outros, servindo como uma espécie de instinto humano. Dessa forma, apesar de algumas vezes eles nos levarem a cometer erros de julgamento e a tomar decisões erradas, não se pode ignorar a validade desse instrumento psico- lógico como um meio de análise de uma situação. Veja algumas situações em que eles nos podem ser muito úteis. Imagine que você seja um gerente de recur- sos humanos e esteja selecionando um funcionário para um cargo que requer muitos conhecimentos técnicos em computação. Diz-se que os alunos que cursam determi- nada faculdade têm grande domínio das ferramentas de informática que serão utilizadas pelo novo funcionário. Caso haja um candidato que tenha estudado nessa ins- tituição, por que não selecioná-lo? Obviamente, caso esse seja o único parâmetro da escolha, pode-se come- ter um erro. Entretanto, selecioná-lo é, provavelmente, a opção que maximiza a probabilidade de acerto. Outro exemplo bastante corriqueiro envolve a própria segurança. Imagine que você esteja andando de noite em uma rua deserta em sua cidade. O que lhe geraria mais te- mor: um sujeito forte, sem camisa, descalço e com aparên- cia suja ou uma menina segurando uma bola de encher? A resposta é bastante óbvia para a maioria das pessoas (ex- ceto para os homens de preto e outros agentes secretos do governo!). Nossa experiência e as informações que re- cebemos de diferentes meios servem como um importante instinto que consegue diferenciar rápida e intuitivamen- te situações de perigo. Nesse caso específico, é o possível estereótipo de criminoso que nos levará a atravessar a rua ou a entrar em uma farmácia para nos sentirmos seguros. Esses exemplos podem ser extremados, mas servem para mostrar como os estereótipos e outros atalhos men- tais ajudam-nos a tomar decisões acertadas em intervalos muito curtos. Logicamente, não podemos confiar plena- mente em nossos sentidos e instintos. Muitas vezes, ba- sear nossas escolhas unicamente em estereótipos pode nos levar a cometer injustiças e, em geral, ser preconcei- tuosos e intolerantes (afinal de contas, o que uma menina com um balão faz em uma rua deserta e escura?). En- tretanto, quando os prazos são curtos e as situações nos pressionam a tomar decisões, talvez seja melhor confiar- mos nas experiências ‘vividas e ouvidas’ do que arriscar passar por situações complicadas. Nesse sentido, melhor basear a escolha no estereótipo e entrar na farmácia a ter de andar cinco quadras até sua casa sem sapatos. Os estereótipos são sempre prejudiciais MITO Ou cIÊNcIA? Aplicações nas organizações As pessoas nas organizações estão sempre julgando umas às outras. Os executivos pre cisam avaliar o desempenho de seus subordinados. Julgamos quanto nossos colegas se dedi cam a seu trabalho. Quando um novo membro entra para uma equipe, ele é imediatamente olhado ‘de cima a baixo’ pelos demais. Muitas vezes, esses julgamentos têm consequências importantes para a organização. Vamos examinar sucintamente algumas aplicações mais óbvias. Entrevista de seleção Podemos dizer que poucas pessoas são contratadas sempas sar por uma entrevista. Mas os entrevistadores fazem julgamentos de percepção frequen temente errôneos16 e formam impressões precipitadas que logo se tornam resistentes. As pesquisas mostram que formamos impressões dos outros em um décimo de segundo, com base na primeira vez que olhamos para eles.17 Se essas primeiras impressões são negativas, elas tendem a ter um peso cada vez maior durante a entrevista do que se a mesma infor mação surgisse posteriormente.18 A maior parte das decisões dos entrevistadores pouco muda depois dos primeiros quatro ou cinco minutos da entrevista. Em consequência, as informações colhidas no começo têm um peso muito maior do que aquelas obtidas depois, e um ‘bom candidato’ é, provavelmente, caracterizado mais pela ausência de características desfavoráveis do que pela presença das favoráveis. Expectativas sobre o desempenho As pessoas sempre tentam validar suas percepções da realidade, mesmo quando estas estão erradas.19 Os termos profecia autorrealizável Profecia autorrealizável Situação em que uma percepção distorcida de uma pessoa faz que o comportamento de outra seja coerente com essa percepção. 06 rob0610_cap06 BR.indd 166 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 167 e efeito Pigmaleão descrevem como o comportamento das pessoas é determinado pelas expec tativas dos outros. Se um gestor espera grandes feitos de seus subordinados, provavelmente eles não o decepcionarão. Contudo, se ele espera que sua equipe faça o mínimo, ela se com portará de acordo com essa baixa expectativa. A expectativa se torna realidade. A profecia autorrealizável tem provado ser um fator que afeta o desempenho dos estudantes nas escolas, dos soldados em combate e até dos contadores.20 Avaliação do desempenho Veremos com mais detalhes o impacto das avaliações de desempenho sobre o comportamento no Capítulo 17, mas vamos apenas lembrar aqui que toda avaliação de funcionário depende muito do processo de percepção.21 O futuro de um funcionário está fortemente ligado a sua avaliação — promoções, aumentos de salário e a permanência no emprego são algumas das consequências mais evidentes. Embora a ava liação possa ser objetiva (por exemplo, um vendedor pode ter seu desempenho avaliado em relação ao faturamento que consegue gerar), a maioria das funções e cargos organizacio nais é avaliada de maneira subjetiva. Avaliações subjetivas, apesar de frequentemente ne cessárias, são problemáticas, pois são afetadas por todos os erros que discutimos até agora: percepção seletiva, efeitos de contraste, efeito de halo e outros. Ironicamente, algumas vezes as classificações de desempenho dizem tanto a respeito do avaliador quanto do avaliado! A ligação entre a percepção e a tomada de decisões individual Nas organizações, o indivíduo toma decisão, faz escolhas entre duas ou mais alternativas. Os altos executivos, por exemplo, determinam as metas da organização, quais produtos ou serviços oferecer, como financiar suas operações ou onde estabelecer uma nova unidade da empresa. Os gerentes dos níveis médio e inferior determinam o cronograma de produção, selecionam os novos funcionários e decidem como distribuir os aumentos sala riais. Os demais funcionários decidem quanto esforço despender nas atividades e cumprir ou não o que foi determinado pelo chefe imediato. Nos últimos anos, um número crescente de organizações está dando maior autonomia a seus funcionários, para tomar decisões an tigamente reservadas apenas aos administradores. A tomada de decisão individual é, por tanto, uma parte importante do comportamento organizacional. Mas a forma como as pes soas tomam decisões e a qualidade de suas escolhas dependem muito de suas percepções. A tomada de decisão ocorre em reação a um problema.22 Um problema existe quando se verifica uma discrepância entre o estado atual das coisas e seu estado desejável, o que exige uma avaliação dos cursos de ação alternativos para atingir esse estado desejável. Se seu carro quebrar e você depender dele para chegar ao trabalho, você terá um problema que requer uma tomada de decisão. Infelizmente, a maioria dos problemas não se apresenta de forma tão clara, com um rótulo dizendo ‘problema’ para facilitar sua identificação. O que é um problema para uma pessoa pode ser um estado satisfatório para outra. Um administrador pode ver a queda de 2 por cento nas vendas do trimestre de sua divisão como um problema sério, que exige ação imediata. Em contraste, outro administrador da mesma empresa, em outra divisão que também apresentou queda de 2 por cento nas vendas, pode considerar esse número per feitamente aceitável no atual contexto de mercado. Dessa forma, admitir a existência de um problema e a necessidade de se tomar ou não uma decisão depende da percepção da pessoa. Por sua vez, todas as decisões exigem interpretação e avaliação de informações. Os dados costumam vir de diversas fontes e precisam ser selecionados, processados e inter pretados. Quais deles são relevantes para determinada decisão e quais não são? A resposta fica por conta da percepção de quem toma a decisão. Devem ser elaboradas alternativas, com análise dos pontos fortes e fracos de cada uma delas. Mais uma vez, o processo de percepção para a tomada de decisão individual afetará a solução final encontrada. Por fim, em todo o processo decisório, muitas vezes surgem distorções perceptivas que podem afetar as análises e conclusões. Problema Uma discrepância entre o estado atual das coisas e o estado desejável. Decisão Escolha que se faz entre duas ou mais alternativas. 06 rob0610_cap06 BR.indd 167 12/21/10 3:56 PM 168 Comportamento organizacional Tomando decisões nas organizações As escolas de administração geralmente treinam os alunos para utilizar os modelos ra cionais nas tomadas de decisão. Embora esses modelos tenham muitos méritos, não neces sariamente descrevem como as pessoas tomam as decisões na realidade. É aqui que entra em ação o papel do comportamento organizacional: para melhorar a maneira de tomar decisões nas organizações, teremos de entender os erros que as pessoas cometem ao fazê lo (além dos erros de percepção que acabamos de discutir). A seguir, descreveremos esses erros, começando com uma breve visão geral do modelo racional de tomada de decisão. O modelo racional, a racionalidade limitada e a intuição Modelo racional de tomada de decisão Normalmente pensamos que aquele que melhor toma decisões é uma pessoa racional, que faz escolhas coerentes e de valor maxi mizado, dentro de certos limites e restrições.24 Essas escolhas são feitas seguindose um modelo racional de tomada de decisão.25 Os seis passos desse modelo estão especifi cados no Quadro 6.1. O modelo racional se baseia em várias premissas, incluindo a de que o tomador de decisões tenha todas as informações, seja capaz de identificar todas as opções relevantes de forma imparcial e opte pela alternativa que maximiza sua utilidade.26 Como você pode imaginar, boa parte das decisões tomadas no mundo real não segue o modelo racional. As pessoas geralmente se contentam em encontrar uma solução aceitável ou razoável para o problema em vez de buscar a alternativa ótima. Como observou recentemente um espe cialista em tomada de decisões, “a maioria das decisões significativas é tomada mais por meio de julgamentos subjetivos do que por um modelo prescritivo”.27 Além do mais, o que é muito interessante, as pessoas não percebem que tomam decisões inadequadas.28 Modelo racional de tomada de decisão Um modelo que descreve como os indivíduos devem se comportar para maximizar determinados resultados. Racional Refere-se à pessoa que faz escolhas consistentes para maximizar o valor dentro de limitações especificadas. 1. Definir o problema. 2. Identificar os critérios para a decisão. 3. Atribuir pesos específicos a cada um desses critérios. 4. Desenvolver alternativas. 5. Avaliar as alternativas.6. Escolher a melhor alternativa. Quadro 6.1 Passos do modelo racional de tomada de decisão No início de 2008, o comando da Serasa, maior empresa de informações de crédito da América Latina, mudou de mãos. Após 17 anos, Elcio de Lucca foi substituído na presidência por Francisco Valim. Para o novo ocupante do cargo, essa mudança é fundamental para a continuidade do crescimento da empresa. Segundo ele, “quem está ali todo dia pode não perceber oportunidades que uma pessoa diferente acaba vendo”. Ainda segundo ele, “a rotatividade é fundamental”, mostrando como as percepções das pessoas sobre uma mesma realidade podem ser muito diferentes.23 C ar ol C ar q ue je iro 06 rob0610_cap06 BR.indd 168 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 169 Racionalidade limitada Nossa capacidade limitada de processamento de informações torna impossível assimilar e compreender todos os dados necessários para a otimização de uma decisão.30 Então, a maioria das pessoas reage a um problema complexo redu zindoo a um nível em que se possa entendêlo prontamente. Da mesma forma, muitos problemas tendem a não apresentar uma solução ótima por serem complicados demais para ser subdivididos de acordo com os parâmetros do modelo de tomada de decisão racional. É aí que as pessoas se satisfazem, isto é, buscam soluções que sejam suficientes e satisfatórias, e não ótimas. Quando você escolheu qual universidade cursar, analisou todas as alternativas viáveis? Você identificou todos os critérios importantes para sua decisão? Avaliou cada uma das al ternativas com relação a seus critérios para encontrar a universidade ideal? Provavelmente as respostas para essas perguntas são negativas. Não se aborreça. Poucas pessoas escolhem uma faculdade dessa maneira. Em vez de otimizar, você provavelmente apenas se satisfez. Como a capacidade da mente humana não consegue formular e solucionar pro blemas complexos com racionalidade plena, as pessoas operam dentro de uma racionalidade limitada. Construímos modelos simplificados que extraem os aspectos essenciais dos problemas, sem capturar toda a sua complexidade.31 Podemos, então, agir racionalmente dentro dos limites desse modelo simplificado. Como a racionalidade limitada funciona para a maioria? Uma vez identificado um problema, começamos a buscar critérios e alternativas de solução. Mas a lista de critérios costuma ser enorme. O tomador de decisões vai identificar, então, uma lista com as esco lhas mais relevantes, que são as mais fáceis de encontrar e tendem a ter bastante visibi lidade, as quais normalmente representam critérios familiares e soluções já testadas. Em seguida, começa a revisão das escolhas, mas essa revisão não será abrangente. Em vez disso, é preciso focar alternativas que diferem apenas um pouco da escolha que está sendo feita. Seguindo um caminho familiar e bem conhecido, quando encontrar uma alternativa ‘suficientemente boa’ — que atenda a um nível aceitável de desempenho —, a busca estará terminada. Dessa forma, a solução final representará uma escolha satisfatória — a primeira mais aceitável encontrada —, não a ideal. Esse processo de se satisfazer não é sempre uma má ideia: usar um processo simples pode muitas vezes ser mais sensato do que o modelo clássico de tomada de decisão racio nal.32 Para usar o modelo racional no mundo real, você precisa reunir muitas informações sobre todas as opções, computar os pesos aplicáveis e depois calcular os valores de uma infinidade de critérios. Todos esses processos podem lhe custar tempo, energia e dinheiro. E, se houver um grande número de variáveis desconhecidas no momento de aplicar pesos e preferências, o modelo totalmente racional pode não ser mais preciso do que um simples palpite. Às vezes um modelo rápido e simples de resolver um problema pode ser a melhor opção. Voltando à escolha de sua universidade, seria realmente mais inteligente atravessar o país de avião para visitar dezenas de faculdades em potencial e pagar pela inscrição no Racionalidade limitada Processo de tomar decisões construindo modelos simplificados que extraem os aspectos essenciais dos problemas sem capturar toda a sua complexidade. D iv ul g aç ão /N at ur a Segundo Marcelo Cardoso, vice-presidente de Desenvolvimento Organizacional da Natura, tomar decisões racionais tornou-se ainda mais difícil ao longo do tempo. Isso, entretanto, não se deve ao fato de os executivos terem menos dados e ferramentas. “No passado, era difícil tomar decisões porque havia pouco acesso à informação. Hoje, por termos informações demais, o processo tornou-se ainda mais complexo.” Isso evidencia as limitações do modelo racional de tomada de decisão e, de acordo com o executivo, “é um paradoxo” que precisa ser aceito e compreendido.29 06 rob0610_cap06 BR.indd 169 12/21/10 3:56 PM 170 Comportamento organizacional vestibular de todas essas universidades? É realmente possível saber qual é ‘a melhor’ univer sidade para você assim que sai do ensino médio ou há muitas informações desconhecidas sobre quais interesses você desenvolverá ao longo do tempo? Quem sabe você nem se forme no curso que escolheu ao entrar. Pode ser muito melhor achar algumas universidades que estejam de acordo com a maior parte de suas preferências e focar sua atenção em fazer uma diferenciação entre elas. Intuição Talvez a maneira menos racional de tomar decisões seja confiar na intui ção. A tomada de decisão intuitiva é um processo cognitivo inconsciente apoiado nas experiências vividas.34 Suas principais características são: ela ocorre fora do pensamento consciente; apoiase em associações holísticas ou conexões difusas entre informações diver gentes; é rápida e tem um grande componente afetivo, o que significa que geralmente envolve emoções.35 Apesar de a intuição não ser racional, isso não significa que seja errada, nem que fun cione necessariamente como uma alternativa ao método racional. Na verdade, eles podem ser complementares. Mas intuição não é superstição, nem produto de um sexto sentido mágico ou paranormal. Como foi notado em uma recente revisão da literatura, “a intui ção é uma forma altamente complexa e desenvolvida de raciocínio, baseada em anos de experiência e aprendizado”.36 E a intuição pode ser uma força poderosa no processo de tomada de decisões. Pesqui sas com jogadores de xadrez, por exemplo, oferecem excelentes exemplos do modo como funciona a intuição. Um tabuleiro real, porém um pouco diferente do comum, com mais ou menos 25 peças, foi mostrado a jogadores novatos e a mestres de xadrez. Depois de cinco ou dez segundos, as peças foram retiradas e foi pedido aos jogadores que as colocassem na posição em que estavam antes. Em média, os mestres foram capazes de recolocar de 23 a 24 peças corretamente, ao passo que os novatos conseguiram recolocar apenas seis delas. O exercício foi mudado depois. Dessa vez, as peças foram dispostas de maneira aleatória no tabuleiro. Novamente, os novatos não conseguiram recolocar mais de seis peças, mas agora isso também aconteceu com os mestres! Esse segundo exercício demonstrou que os mestres não possuíam memória mais eficiente que a dos novatos. Eles tinham a capacidade — baseada na experiência de ter jogado milhares de partidas de xadrez — de reconhecer padrões e aglomerados de peças que costumam ocorrer durante um jogo. Estudos também mostra ram que os profissionais de xadrez são capazes de jogar 50 ou mais partidas simultanea mente, quando as decisões têm de ser tomadas em poucos segundos, com um nível técnico apenas pouco abaixo daquele revelado em jogos de campeonato, quando cada decisão pode demorar até mais de meia hora. A experiência do mestre lhe permite reco nhecer o padrão de cada situação e usar informações, já aprendidas, associadas àquele padrão, para escolher rapidamente a decisão sobre a jogada. O resultado é que o tomador de decisões intuitivo écapaz de decidir rapidamente com base no que parece ser um volume de infor mações muito limitado. Tomada de decisão intuitiva Processo cognitivo inconsciente gerado pelas experiências vividas. Os truques feitos por um mágico são um bom exemplo de como a racionalidade limitada afeta nossa decisão. Números clássicos como aqueles em que os ilusionistas são presos por correntes ou camisas de força, trancados em caixas ou amarrados dentro de aquários servem de analogia para as decisões que precisam ser tomadas em rápidos intervalos e com elevada dose de tensão. Em função disso, a filial brasileira do laboratório GlaxoSmithKline (GSK), localizada no Rio de Janeiro, promoveu uma apresentação do ilusionista Issao Imamura para 40 de seus executivos. O objetivo era mostrar como a racionalidade das decisões é muitas vezes limitada por pressões temporais e pelo estresse da situação. Dessa maneira, por vezes, seria preferível encontrar uma solução satisfatória a uma ótima. Afinal de contas, é melhor se libertar com o cabelo bagunçado do que permanecer penteado dentro de uma caixa em chamas.33 Lu zi a Fe rr ei ra /F ol ha p re ss 06 rob0610_cap06 BR.indd 170 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 171 Durante a maior parte do século XX, acreditouse que o uso da intuição pelos toma dores de decisões era irracional e ineficaz. Isso não acontece mais.38 Hoje reconhecemos que o modelo racional tem sido superenfatizado e que, em certas situações, confiar na intui ção pode resultar em decisões melhores.39 Mas não podemos confiar muito nela. Por não ser quantificável, é difícil saber quando nossos palpites estão certos ou errados. O segredo é não abandonar a intuição e nem confiar exclusivamente nela, mas complementála com evidências e bomsenso. Erros e vieses mais comuns na tomada de decisão Além da racionalidade limitada, um grande número de pesquisas indica que os toma dores de decisões também permitem que erros e vieses sistemáticos atrapalhem seus julgamen tos.40 Para minimizar o esforço e evitar dilemas, as pessoas tendem a se valer excessivamente da própria experiência, de seus impulsos, instintos e regras de ‘senso comum’ convenientes no momento. Em muitas situações, esses atalhos podem ser válidos. Contudo, eles também podem conduzir a sérias distorções da realidade. Analisaremos a seguir as distorções mais comuns. Excesso de confiança Uma máxima conhecida afirma que “nenhum problema de jul gamento e tomada de decisão é mais comum e potencialmente catastrófico do que o ex cesso de confiança”.41 Quando nos fazem perguntas sobre assuntos concretos e pedem que avaliemos a probabilidade de acerto de nossas respostas, costumamos ser excessivamente otimistas. Quando as pessoas dizem estar de 65 por cento a 70 por cento certas quanto à correção de suas respostas, na verdade seu índice de acerto é de apenas 50 por cento.42 Quando têm 100 por cento de certeza, seu índice de acerto é, na verdade, de 70 por cento a 85 por cento.43 Veja outros exemplos interessantes. Um experimento conduzido com pro fissionais do mercado financeiro brasileiro exemplifica o viés estudado. Foilhes pedido que determinassem um intervalo, com 80 por cento de precisão, para o valor do índice Ibovespa em um horizonte de uma semana. Apesar de poderem escolher os valores que quisessem (por exemplo, entre 0 e 100 mil pontos), o grau de acerto foi de cerca de 62 por cento, o que indica um ‘excesso de confiança médio’ de 18 por cento.44 Em uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, 90 por cento dos norteamericanos adul tos disseram que esperavam ir para o céu. Em outra pesquisa, somente 86 por cento pensavam que Madre Teresa estava no céu. Isso é que é excesso de confiança! Os indivíduos que possuem habilidades intelectuais e interpessoais mais fracas apresentam maiores probabilidades de superestimar sua capacidade e desempenho.45 Assim, quanto mais um administrador ou subordinado aprende a respeito de alguma coisa, menor será a proba bilidade de ele demonstrar excesso de confiança.46 Também há uma relação negativa entre o otimismo dos empreendedores e o desempenho de suas novas empresas: quanto mais otimis tas, menos sucesso.47 A tendência apresentada por alguns empreende dores de ser confiantes demais em suas ideias pode impedir o planejamento para evitar problemas eventuais. Afirmar que as decisões mais importantes e certeiras de suas carreiras foram frutos de intuição é tarefa quase impossível para os gestores. Isso ocorre porque a racionalidade é extremamente valorizada pela maioria dos administradores e é tida como ‘o jeito certo de tomar decisões’. É por essa razão que a honestidade de João Zangrandi Neto, diretor-presidente da Saeco do Brasil, subsidiária da fabricante italiana de máquinas de café, causa espanto. Quando perguntado se a razão do sucesso de suas decisões foi sorte ou intuição, ele responde prontamente: ‘as duas’. Em sua trajetória empreendedora, ele já importou máquinas de limpeza a vapor, foi dono de uma fabricante de facas para colheita mecanizada de cana, fundou a fábrica de massas premium Granzani e, em 2008, representava a marca de máquinas de café expresso Saeco no Brasil. Em todas essas decisões, a experiência teve um peso importante e a intuição de que obteria sucesso foi o fator decisivo em suas escolhas.37 Ju lia M or ae s / Fo lh ap re ss 06 rob0610_cap06 BR.indd 171 12/21/10 3:56 PM 172 Comportamento organizacional Apesar de o excesso de confiança tender a surgir quando os membros de uma organização trabalham fora de sua área de especialidade, isso não significa que os chamados ‘especialistas’ sejam imunes a ele. Um especialista de investimento da revista Fortune declarou, em abril de 2008, que “o ano vai terminar na coluna positiva” e acrescentou que as perdas do mercado “confir mam que minha aposta... foi sábia”. Bem, nem o ano terminou assim nem sua aposta foi sábia. Fisher, então, recomendou vivamente que se comprassem ações de quatro empresas: Toyota (que passou de 107 dólares para 77 dólares um ano depois), BP (que foi de 62 dólares para 40 dólares em um ano), JPMorgan Chase (de 46 dólares para 33 dólares) e Abbott Labs (de 55 dólares para 43 dólares). Pelo menos temos de admirar a vitória da confiança sobre o mérito nesse caso! Ancoragem O viés de ancoragem é a tendência de nos fixarmos em uma informação como ponto de partida e a dificuldade de nos ajustarmos diante de informações posterio res.48 Isso ocorre porque nossa mente tende a dar uma ênfase desproporcional à primeira informação que recebe.49 As âncoras são muito utilizadas por profissionais como publici tários, administradores, políticos, corretores de imóveis e advogados — áreas em que as habilidades de persuasão e negociação são importantes. Toda vez que uma negociação ocorre, também acontece ancoragem. Na medida em que alguém estabelece um número, sua capacidade de ignorálo objetivamente fica compro metida. Por exemplo, quando a Vale negocia o preço do minério de ferro com as siderúrgicas chinesas e japonesas, os valores acertados por essas empresas servem de base (âncora) para suas futuras negociações com outras mineradoras. Quando um potencial empregador per gunta a você qual era seu salário anterior, sua resposta servirá como âncora da oferta que ele lhe fará (lembrese disso da próxima vez que negociar seu salário, fixando a âncora no máximo que puder, mas de forma realista). Finalmente, quanto mais precisa for sua âncora, menor será o ajuste feito. Algumas pesquisas sugerem que certas pessoas consideram ajuste o arredondamento do número fixado na ancoragem. Se você propõe um salárioalvo inicial de 5.500 reais, seu chefe considerará os valores entre 5 mil reais e 6 mil reais, uma boa mar gem de negociação. Porém, se mencionar 5.560 reais, seu chefe ficará propenso a considerar como valor de negociação algo entre 5.500 reais e 5.600 reais. Evidênciaconfirmadora O processo de tomada de decisões racionais pressupõe que levan temos informações de maneira objetiva. Mas isso não acontece. Levantamos as informações seletivamente. O viés da evidência confirmadora representa um tipo específico de percep ção seletiva: buscamos informações que corroborem nossas escolhas anteriores e despreza mos aquelas que as contestam.50 Também tendemos a aceitar prontamente as informações que confirmam nossos pontos de vista preconcebidos e somos críticos ou céticos com relação àquelas que os contrariam. Portanto, as informações que levantamos possuem um viés de con firmação das opiniões que já tínhamos. Tendemos até mesmo a procurar fontes onde sabemos que encontraremos o que queremos ouvir. Isso também nos leva a dar muito mais importância às informações que corroboram nossa opinião e a desprezarmos as que a contrariam. Viés de disponibilidade Muito mais gente tem medo de voar de avião do que de dirigir um carro. Mas, se voar em um avião comercial fosse tão perigoso quanto dirigir um carro, para igualar o risco de se morrer em um acidente automobilístico seriam necessários dois acidentes sem sobreviventes a cada semana com aeronaves do tipo 747 lotadas. No entanto, a mídia dá muito mais atenção aos acidentes aéreos e acabamos por superestimar o risco de viajar de avião e subestimar o de dirigir um automóvel. O viés de disponibilidade é a tendência de as pessoas julgarem as coisas com base nas informações mais disponíveis.51 Os eventos que despertam nossas emoções, que são particularmente vívidos ou que ocorreram há pouco tempo tendem a estar mais disponíveis em nossa memória, levandonos a superestimar eventos improváveis como os acidentes de avião. O viés de disponibilidade também pode explicar por que os executivos, quando fazem suas avaliações anuais, dão mais peso aos comportamentos mais recentes de seus funcionários do que àqueles de seis ou nove meses atrás ou por que as agências de crédito, como a Moody’s e a Standard & Poor’s, atribuem classificações de risco excessivamente positivas quando se apoiam em informações apresentadas por instituições de crédito, que têm um incentivo para fornecer dados em seu favor. Ancoragem Tendência de ancorar o julgamento em uma informação inicial, o que dificulta o ajuste diante de informações posteriores. Evidência confirmadora Tendência a buscar informações que corroborem escolhas anteriores e descartar as que contestem julgamentos prévios. Viés de disponibilidade Tendência de julgar as coisas com base nas informações mais facilmente disponíveis. 06 rob0610_cap06 BR.indd 172 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 173 Escalada do comprometimento Outro viés que ameaça as decisões é a tendência de aumentar o comprometimento.52 A escalada do comprometimento pode ser definida como o apego a uma decisão anterior, mesmo quando fica claro que ela foi um erro. Ima gine um amigo que esteja namorando uma moça há quatro anos. Embora admita que as coisas não vão muito bem entre os dois, ele diz que vai se casar com ela. Sua justificativa: “Investi muito nesse relacionamento!”. As pessoas aumentam seu comprometimento com ações malsucedidas quando se veem como responsáveis pelo fracasso.53 Elas desperdiçam muita energia para recuperar o prejuízo na tentativa de demonstrar que sua decisão inicial não estava errada e não ter de admitir que cometeram um erro.54 O caso do fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, Previ, e o complexo baiano de resorts Costa do Sauípe é emblemático. Desde sua construção, em 1997, até 2003, a Previ teve de realizar seguidos investimentos para solu cionar problemas com suas parceiras e garantir a manutenção do negócio, mesmo sabendo que os resultados estavam muito aquém do esperado.55 Na verdade, aqueles que coletam e ponderam as informações cuidadosamente, seguindo o modelo da tomada de decisões racional, apresentam uma tendência maior de se envolver em escalada de comprometimento do que os que gastam menos tempo pensando em suas opções.56 Talvez isso ocorra porque eles investiram tanto tempo e energia em suas decisões que acabam se convencendo de que estão no caminho certo e não atualizam seu conhecimento diante das novas informações. Muitas organizações já sofreram porque um executivo resolveu provar que sua decisão original estava certa e continuou colocando recursos em uma causa perdida. Erro de aleatoriedade Os seres humanos têm dificuldade para lidar com o acaso. A maioria de nós prefere acreditar que tem algum controle sobre o mundo e sobre o próprio destino. Nossa tendência em acreditar que podemos prever o resultado de eventos alea tórios chamase erro de aleatoriedade. O processo de tomada de decisões fica prejudicado quando tentamos criar um sentido para eventos aleatórios, principalmente quando transformamos padrões imaginários em superstições.57 Estas podem ser totalmente inventadas (“Eu nunca tomo decisões impor tantes em sextasfeiras 13”) ou decorrentes de algum padrão de comportamento reforçado previamente (“Felipe Massa veste sempre a mesma cueca nos treinos de classificação, aos sábados, e nas corridas, aos domingos, para ‘dar sorte”).58 Os comportamentos supersticio sos podem ser nocivos quando atrapalham nosso julgamento cotidiano ou distorcem uma decisão importante. Aversão ao risco Se pensássemos matematicamente, um jogo de cara ou coroa para ganhar cem reais teria o mesmo valor que 50 reais garantidos. Afinal de contas, o valor esperado da aposta dividido pelo número de possibilidades de vencer é de 50 reais. Con tudo, a maioria das pessoas não considera essas duas opções igualmente válidas. Pelo contrário, quase todo mundo, com exceção de apostadores ‘viciados’, preferiria o resul tado certo a uma possibilidade arriscada. Para muitos, os 50 por cento de possibilidade de ganhar uma aposta de cara ou coroa, mesmo por 200 reais, pode não valer tanto quanto a garantia de ganhar 50 reais, mesmo quando a aposta corresponde matematicamente ao dobro do valor garantido! Essa tendência de preferir o que é certo ao resultado arriscado é a aversão ao risco. A aversão ao risco tem implicações importantes. Para contrabalançar os riscos ine rentes de um pagamento por comissão, as empresas pagam aos funcionários comissionados consideravelmente mais do que aos que ganham um salário fixo. Os trabalhadores avessos ao risco mantêm sua maneira estabelecida de fazer o trabalho em vez de arriscar o uso de métodos inovadores ou criativos. Continuar com uma estratégia que funcionou no passado de fato minimiza o risco, mas, no longo prazo, leva à estagnação. As pessoas ambiciosas que estão suscetíveis a perder seu poder (a maioria dos gestores) parecem ter especial aversão ao risco, talvez por não quererem perder, em uma aposta, tudo o que lutaram tanto para conseguir.59 Os CEOs que correm o risco de ser demitidos também são excepcionalmente avessos ao risco, mesmo quando uma estratégia de investimento mais arriscada é mais in teressante para sua empresa.60 Escalada do comprometimento Apego a uma decisão anterior, a despeito de informações negativas. Erro de aleatoriedade Tendência individual de acreditar que se pode prever o resultado de eventos aleatórios. Aversão ao risco Tendência a preferir um ganho certo de uma quantidade moderada a um resultado mais arriscado, mesmo que este tenha uma compensação mais alta. 06 rob0610_cap06 BR.indd 173 12/21/10 3:56 PM 174 Comportamento organizacional Como as pessoas são menos propensas a escalar o comprometimento quando o grau de incerteza é grande, as implicações da aversão ao risco não são de todo ruins. Quando um in vestimento de risco não se paga, a maioria das pessoas prefere agir com cautela e cortar suas perdas, mas, quando pensam que o resultado é certo, elas continuam no caminho da escalada. As preferências pelo risco às vezes acontecem ao contrário: as pessoas preferem arriscar a sorte quando tentam evitar um resultado negativo.61 Preferem fazer uma aposta de 50 por cento de chance de perder 100 reais a aceitar a perda certa de 50 reais. Portanto, preferem arriscar perder muito dinheiro em uma jogada a minimizar os prejuízos. Tentar encobrir um crime em vez de admitir um erro, apesar do risco de enfrentar uma cobertura A maldição do vencedor é outro viés que normal- mente induz ao erro os tomadores de decisão. Isso acontece quando os participantes de um lei- lão, na ânsia de conseguir vencer, sobreestimam o valor do bem a ser leiloado. Uma forma pela qual a maldição do vencedor é exemplificada é por meio do esquema de fixação de tarifas de pedágio nos leilões de rodovias fe- derais. Desde o início do processo de desestatização no Brasil, em meados da década de 1990, muitas rodovias públicas passaram por processos de leilão. Com isso, a administração de muitos trechos de estradas foi trans- ferida para empresas privadas, que se comprometiam a realizar investimentos e, em contrapartida, poderiam cobrar tarifas de pedágio pelo serviço prestado. A disputa pela concessão das rodovias ocorria por meio de licitações em que cada empresa interessada deveria apresentar o valor da tarifa que seria cobrada nos pedágios. Como todas se comprometiam a realizar obras de melhorias semelhantes, como a duplicação de pistas e o aprimoramento da sinalização, ganharia a em- presa que oferecesse o menor preço pelo serviço. Foi aqui que teve início a maldição para as empre- sas vencedoras das sete licitações de rodovias federais realizadas em outubro de 2007. As tarifas oferecidas por elas foram muito baixas, apresentando desvalori- zação de até 65 por cento em relação ao teto apre- sentado pelo governo. Isso gerou uma euforia muito grande na população e nos órgãos públicos, que co- memoraram o fato de as tarifas variarem de 0,997 real a 3,865 reais. Contudo, muitos especialistas criticaram a agressividade das vencedoras. Em setembro de 2009, entretanto, as empresas ven- cedoras apresentaram um plano de reequilíbrio econô- mico-financeiro, solicitando o aumento do valor da tarifa ou o prolongamento do prazo de realização dos investi- mentos, avaliados em 20 bilhões de reais, até 2032. De acordo com as concessionárias vencedoras dos leilões, isso seria necessário em virtude da lentidão da burocra- cia estatal, que teria dificultado a instalação das praças de pedágio. Por essa razão, o pedágio começou a ser cobrado com alguns meses de atraso, o que prejudicou a situação financeira das empresas. De acordo com sindicatos de empresas de trans- porte e logística, porém, as exigências administrativas estatais, como licenças e outros documentos, já eram conhecidas pelas empresas vencedoras quando estas ofereceram seus lances no leilão. Logo, não seria justo aceitar as solicitações das concessionárias. Em setembro de 2009, Bernardo Figueiredo, dire- tor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), disse que “os atrasos no início de operação das praças de pedágio decorrentes de problemas que ex- trapolam o risco da concessionária” seriam avaliados. “Aqueles que estariam previstos no contrato, não.” Não há uma maneira infalível de evitar a maldição do vencedor sem saber o valor futuro de um bem ou todos os riscos envolvidos; logo, é praticamente impossível impedir que ela ocorra. Mas, os proponentes podem reduzir a probabilidade de sua ocorrência fazendo sua ‘lição de casa’ para que possam prever o valor futuro da forma mais exata possível. Com isso, eles podem ofe- recer lances um pouco mais baixos do que o valor que consideram justo ou, como no caso analisado, tarifas um pouco mais altas. Isso pode fazer que o proponente seja menos propenso a vencer o leilão, mas irá protegê-lo de pagar mais quando ganhar. Proponentes experientes sabem que não querem ganhar se isso significar que pa- garão mais do que o preço justo. A maldição do vencedor nos leilões de rodovias federais cOMPORTAMENTO ORGANIZAcIONAl NA MíDIA Fonte: “Justiça libera leilão de rodovias no Paraná”, G1 — Economia e Negócios, 9 out. 2007; e Renée Pereira, “Rodovias federais pedem mais pedágio” e “Governo vai estudar caso a caso”. O Estado de S. Paulo, 24 set. 2009. 06 rob0610_cap06 BR.indd 174 12/21/10 3:56 PM Capítulo 6 Percepção e tomada de decisão individual 175 de imprensa realmente catastrófica ou até mesmo ser preso, é outro exemplo disso (veja o caso do goleiro Bruno!). As situações estressantes podem tornar essa preferência pelo risco ainda mais forte. Quando estão sob o efeito de estresse, as pessoas tendem a se comportar de maneira arriscada se isso envolver resultados negativos e de maneira avessa ao risco se os resultados forem positivos. compreensão tardia Esse viés é nossa tendência de, depois da ocorrência de um even to, ter a falsa impressão de que sabíamos qual seria seu resultado.62 Quando temos uma informação precisa de um resultado, parecenos muito claro que este era óbvio. Um exemplo muito claro ocorre no campo das finanças comportamentais e é demons trado pelas ações e afirmações dos investidores. Sempre que uma ação sobe muito, ou cai muito, é comum ouvir frases do tipo: “sabia que isso ocorreria” e “deveria ter comprado esse papel, era evidente que ele se valorizaria”. Os executivos de Wall Street também le varam a culpa por supostamente não ter enxergado o que agora nos parece óbvio: que os preços do mercado imobiliário estavam inflados, que muitos empréstimos arriscados tin ham sido feitos e que o valor de muitas ‘garantias’ foi baseado em suposições frágeis. Apesar de poder haver algum mérito nas críticas, com frequência as coisas parecem claras demais quando analisadas depois que já aconteceram. Como escreveu Malcom Gladwell, autor de Blink e de The Tipping Point: “O que parece claro quando visto de uma perspectiva tardia é raramente claro antes do fato acontecido”.63 O viés da compreensão tardia reduz nossa capacidade de aprender com o passado. Ele permite que acreditemos que somos melhores do que na verdade somos em fazer pre visões e nos torna falsamente confiantes. Se o verdadeiro índice de acertos de nossas previsões é de 40 por cento, mas acreditamos que ele seja de 90 por cento, provavelmente desconfiare mos pouco de nossa real capacidade de fazer previsões. I nfluências na tomada de decisões: diferenças individuais e restrições organizacionais Aqui, concentraremonos em uma discussão sobre os fatores que influenciam o modo como as pessoas tomam decisões e o grau em que elas são suscetíveis a erros e vieses. Discu tiremos como as diferenças individuais e as restrições organizacionais contribuem para isso. Diferenças individuais Na prática, a tomada de decisões caracterizase pela racionalidade limitada, pelos er ros e vieses comuns ao processo decisório e pelo uso da intuição. Além disso, há diferenças individuais que resultam em desvios do modelo racional. Nesta seção, examinaremos três variáveis de diferenças individuais: personalidade, gênero e habilidade mental. Personalidade A pouca pesquisa feita até hoje sobre personalidade e tomada de decisões sugere que a primeira de fato influencia a segunda. Examinaremos aqui a cons cienciosidade e a autoestima. Facetas específicas da conscienciosidade — e não o traço considerado como um todo — podem influenciar na escalada do comprometimento.64 Duas facetas de con scienciosidade, em particular — esforço na realização e dedicação — apresentaram efeitos contrários nesse quesito. As pessoas que se esforçavam na rea lização tendiam a inten sificar seus compromissos, ao passo que as dedicadas eram menos propensas a isso. Por quê? Geralmente as pessoas voltadas à realização odeiam falhar, por isso intensificam seus compromissos na esperança de evitar o fracasso. As pessoas dedicadas, no entanto, são mais inclinadas a fazer o que acham ser melhor para a organização. Em segundo lugar, os indivíduos que se esforçam na realização