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1237980 20 23 SUPERIOR TRABALHO 09/05/2023 BIBLIOTECA MANUAL DE DIREITO NA ERA DIGITAL Coordenadora Anna Carolina Pinho Anna Carolina Pinho TRABALHO Doutoranda em Direito Internacio- AUTORES nal Econômico e Estudos Europeus e Cláudio Teixeira Damilano Mestre em Direito Internacional pela Eugênio Facchini Neto João Theotonio Mendes de Almeida Junior Faculdade de Direito da Universida- Marcos Dias de Castro de de Lisboa, Portugal Pós-gradu- Murilo Siqueira Comério Ricardo Peake Braga ada em Direito Administrativo e Tri- Tainá Aguiar Junquilho butário pela Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense Bacharel pela Faculdade de Direito da Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro, Brasil Advogada no Brasil e em Portugal. E-mail: annapinholaw@gmail.com EDITORA FOCOMANUAL DE DIREITO NA ERA DIGITAL Coordenadora Anna Carolina Pinho TRABALHO AUTORES Cláudio Teixeira Damilano Eugênio Facchini Neto João Theotonio Mendes de Almeida Junior Marcos Dias de Castro Murilo Siqueira Comério Ricardo Peake Braga Tainá Aguiar Junquilho Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD M294 Manual de Direito na Era Digital: Trabalho / Cláudio Teixeira Damilano... [et al.] coordenado por Anna Pinho. Indaiatuba, SP Editora Foco, 2023. 136 p. 16cm X 23cm. (Coletânea de Manuais de Direito Digital) Inclui bibliografia e ISBN: 978-65-5515-635-5 1. Direito. 2. Direito digital. 3. Tecnologia. Damilano, Cláudio Teixeira. Facchini Neto, Eugênio. III. Almeida Junior, João Theotonio Mendes de. IV. Castro, Marcos Dias de. V. Comério, Murilo Siqueira. VI. Braga, Ricardo Peake. VII. Junquilho, Tainá Aguiar. VIII. Pinho, Anna. IX. X. Série. 2022-3135 CDD 340.0285 CDU 34:004 Elaborado por Odilio Hilario Moreira Junior CRB-8/9949 Índices para Catálogo Sistemático: 1. Direito digital 340.0285 2. Direito digital 34:004PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL: ENTRE AS NOVAS TECNOLOGIAS EA NECESSIDADE DE EFETIVAÇÃO DOS DIREITOS SOCIAIS Theotonio Mendes de Almeida Junior* Marcos Dias de Castro** Sumário: Introdução 1. Futuro do direito processual do trabalho: retorno ao direito processual civil? 2. Audiências telepresenciais; 2.1 Conceito e evolução histórica; 2.2 Vantagens e dilemas processuais das audiências telepresenciais 3. Balcão virtual 4. Provas digitais; 4.1 Conceito e natureza jurídica; 4.2 Limites e admissibilidade no direito processual do trabalho 5. Juízo 100% digital e o futuro dos tribunais trabalhistas 6. Competência territorial e justiça digital: ainda faz sentido art. 651 da CLT?; A regra geral da competência territorial trabalhista; 6.2 A competência territorial para demandas de agentes ou viajantes comerciais; 6.3 A competên- cia territorial para demandas de trabalhadores que prestaram serviços no exterior; do artigo 651 da CLT e os degraus de flexibilização da competência territorial trabalhista; 6.5 Justiça digital e competência territorial: por um novo paradigma 7. Conclusão Referências. INTRODUÇÃO A necessidade de repensar Poder Judiciário na seara trabalhista pode ser explicada a partir de várias circunstâncias fáticas que impactaram diretamente o direito material e o direito processual do trabalho. Em primeiro lugar, as últimas décadas revelaram uma verdadeira explosão de litigiosidade, que tem suas razões fincadas tanto na edição da Constituição de 1988, que ampliou o rol de direitos sociais, mas também com a expansão do acesso à justiça¹ em todos os seus níveis. Doutor em Ciência Política pelo IUPERJ. Bacharel e Mestre em Direito pela UCAM/RJ. Advogado. Membro do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) onde além de Procurador, é Membro da Co- missão de Direito e Liberdade Religiosa, Membro da Comissão de Direito do Trabalho, Membro da Comissão de Defesa das Pessoas com Deficiência e Membro Permanente da Comissão Admissão de Sócios. Membro da União dos Juristas Católicos do Rio de Mestrando em Direito do Trabalho e Previdenciário pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Juiz do Trabalho titular da Vara do Trabalho do TRT da Região. 1. CAPPELETTI, Mauro e GARTH, Bryant, Acesso à Trad. Ellen Gracie Northfleet. Porto Alegre. 1991, já mencionavam a dificuldade sistêmica a nível mundial que a explosão de litigiosidade, amparada pela ampliação do acesso à justiça. traria ao Poder Judiciário.64 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 65 Por outro lado, os tribunais trabalhistas revelaram extrema dificuldade na Registre-se também que a pandemia de SARS-COVID reintroduziu a prestação jurisdicional diante da avalanche de processos que complexificaram a questão da aplicabilidade do Código de Processo Civil na seara trabalhista. Em atuação dos juízes em dois níveis: a) em nível de gestão processual produtiva, vale especial Ato 11 de 2020, exarado pela Corregedoria Geral da Justiça do Trabalho, dizer, na necessidade de produzir decisões do ponto de vista quantitativo que não permitiu o uso emergencial na fase postulatória trabalhista, das normas proces- transformasse acesso à justiça em mera promessa constitucional sem concretude; suais civis, com citação e manifestação em cartório, sem a prática da audiência b) em nível de gestão processual cognitiva, eis que em todas as searas os processos obrigatória a que aludem os artigos 825, 845 e 852-H da CLT. Ao mesmo tempo, se revelaram cada vez mais complexos, exigindo a contemplação de variadas e muitas regras previstas na execução civil, começam a ser utilizadas no âmbito imbricadas questões jurídicas que em muitas hipóteses, não alcançaram esmero trabalhista com a chancela jurisprudencial, mesmo diante de expressa previsão em necessário que se espera do Judiciário, sobretudo nos tribunais superiores. sentido contrário na CLT. Cite-se, à guisa de exemplo, a possibilidade pagamento Um segundo aspecto que acelerou a discussão sobre a necessidade de novas parcelado do lance em arrematação, previsto no artigo 895 do CPC.³ Será que uma regras processuais foi a pandemia de SARS-COVID 19. De uma hora para outra, tendência do futuro para a Justiça do Trabalho incluirá uma maior aproximação também o Judiciário se encontrou diante do desafio de manter ininterrupta a das regras que regem o direito processual civil? jurisdição, para preservar o direito à vida e do acesso à justiça. De se notar que a presente ensaio tem o objetivo de analisar as questões que se impõem para Justiça do Trabalho, em especial, deve zelar pela duração razoável do processo futuro das regras de direito processual do trabalho, seus limites, possibilidades (artigo 5°, inciso LXXVIII da Constituição), porém, ao mesmo tempo, deve atuar e oportunidades para que este importante órgão do Poder Judiciário cumpra sua de forma que o valor social do trabalho alcance, de fato, o patamar de fundamento missão constitucional. Levará em conta, por igual, as principais inovações no da República. mundo digital e suas repercussões na seara processual laboral. Iniciemos, contudo, o Direito, enquanto norma ética, destinada a reger a vida em sociedade, deve com uma questão ainda imperativa e fundamental: deve o direito processual do sempre acompanhar marchar das novas tecnologias. Há consenso que vivemos trabalho retornar ao seio do direito processual civil, abandonando sua autonomia em meio ao que se denomina Quarta Revolução Industrial, caracterizada pela científica conquistada ao longo dos últimos 80 anos? integração entre os "mundos" físico, biológico e digital,² que passam a ganhar certa fluidez entre si, como afirma Klaus Schwab. Neste contexto, as novas gerações já 1. FUTURO DO DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO: RETORNO não veem muito sentido na distinção entre físico e digital, já que todas as esferas DIREITO PROCESSUAL CIVIL? da vida interagem entre si e se afetam mutuamente, exigindo também de todos Desde a sua origem, o direito processual do trabalho sempre se notabilizou os que atuam no mundo jurídico uma nova mentalidade, um novo "mindset", pela busca de uma duração razoável dos processos, cônscio de que a lide trabalhista, pensar digital. por envolver invariavelmente verbas de natureza alimentar, não poderia ter sua Neste contexto, o Judiciário experimenta uma nova onda de acesso à justiça. solução comprometida por questões que lhe fossem externas. Esta foi a razão do Iniciativas como o processo eletrônico (implementado pela Lei 11.419/2006), as disposto no artigo 31 do Decreto 1.237 de 1939, que organizou e estruturou a Jus- audiências telepresenciais (trazidas à lume pelo CPC de 2015 e regulamentadas tiça do Trabalho no Brasil, conferir aos magistrados trabalhistas ampla liberdade pela Resolução 314 do CNJ), Balcão Virtual (Resolução 372 de 2021 do CNJ), na direção do processo para velar "pelo andamento rápido" das maior Justiça 100% Digital (Resolução 345 de 2020 do CNJ) e uso da inteligência artificial poder instrutório conferido ao Juiz ia ao encontro da necessidade de regras mais (Resolução 332 de 2020 do CNJ e Portaria 217 de 2020 do CNJ), levarão a Justiça eficientes e eficazes para o recém-nascido ramo do Direito Processual, mormente no Brasil a uma nova formatação, que exigirá dos magistrados, dos servidores e diante da constatação que Código de Processo Civil de 1939 era, em muitos dos advogados novas habilidades e formação não muito familiares a estes seg- sentidos, uma repetição da formalidade excessiva do Regulamento 737 de 1850, mentos profissionais. expressamente indesejada para a resolução de conflitos trabalhistas. 2. Podemos citar como exemplos, uma smart TV (física) com acesso à internet Ou relógio inte- 3. A prática contraria disposto no artigo 888 e parágrafos da CLT, onde há procedimento específico e ligente (físico), com acesso à internet e que permita geolocalização de seu proprietário, monitorando contrário àquele previsto na legislação processual civil. exercícios físicos e a qualidade do seu sono etc. 4. A redação do ainda vigente artigo 765 da CLT repete, quase integralmente, a norma mencionada.66 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR E MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 67 Como premissa, direito processual do trabalho nasceu autônomo, com cessual da CLT, procedeu à uma atualização sistemática destas mesmas normas. uma regra de contenção: as regras de direito processual comum seriam apenas Quando se analisa, por exemplo, leis como a Lei 5.584/70 (então conhecida como fontes subsidiárias, e ainda assim, desde que não conflitassem com os princípios lei de modernização da Justiça do Trabalho), Lei 9.957/2000 (criação do rito e regras processuais Tal regra se manteve com a edição da CLT, em sumaríssimo), Lei 13.015 de 2014 (alteração nos recursos trabalhistas) ou a Lei 1946, no seu conhecido artigo 769, ainda que a aplicação subsidiária das normas 13.467 de 2017 ("Reforma Trabalhista"), nota-se que o legislador sempre alterou processuais alienígenas tenha sido mantida. De toda sorte, a intenção do legisla- a CLT de forma circunstancial, inserindo ou modificando institutos de forma dor sempre foi blindar a atuação da Justiça do Trabalho de uma colonização em tópica, sem que isso redundasse numa alteração estrutural, que desse coerência relação às regras de Processo Civil, dadas as circunstâncias históricas de que tais lógica aos institutos trabalhistas. regras se revelavam excessivamente formais e ineficientes. Alguns institutos processuais dialogam com o CPC de 1939, como, por Em verdade, a doutrina e a prática jurisprudencial sempre vislumbraram exemplo, os artigos 799 e 801 da Outros institutos ainda dialogam com o duas formas de aplicação das regras processuais civis: a) a aplicação subsidiária, CPC de 1973. Por fim, a Lei 13.467 de 2017 inseriu institutos que remetem ao quando à falta de previsão normativa trabalhista, se toma emprestado às inteiras CPC de 2015, como incidente de desconsideração da personalidade jurídica normas do Direito Processual Civil, como no caso da reconvenção, onde a única (artigo 855-A da CLT) ou a responsabilidade por dano processual (prevista no menção expressa na CLT encontra-se no 5° do artigo 791-A da CLT, e ainda artigo 793-A da CLT e seguintes). assim, apenas para dizer do cabimento de honorários advocatícios sucumbenciais; A questão que se coloca é a seguinte: deve o direito processual do trabalho b) a aplicação supletiva ou complementar, onde a regulamentação processual retornar ao seio do direito processual civil? Pensamos que não. A lógica que trabalhista é apenas parcial, utilizando-se as regras processuais civis como com- norteia as demandas trabalhistas é própria, e mesmo países que não possuem plementação, como é o caso dos embargos de declaração, onde artigo 897-A da um segmento judicial especializado para a solução das demandas que envolvem CLT não afasta a aplicação complementar de vários dispositivos do CPC ou da capital e trabalho, possuem regras processuais específicas. A celeridade própria ação rescisória, que fixa o depósito para ajuizamento da ação em 20% (vinte por que merecem os processos que envolvem os direitos dos trabalhadores exigem cento), mas de resto determina a aplicação do CPC. um formalismo mais enxuto das normas processuais e ao mesmo tempo um po- Com o passar dos anos, pôde-se perceber outras formas de aplicação das sicionamento do magistrado mais consentâneo com acesso à justiça. normas processuais comuns ao Direito Processual do Trabalho, quais sejam: a) Pensamos que as novas tecnologias e o direito digital em muito impactarão aplicação repetitiva, como é o caso da nova redação do artigo 818 da CLT, que direito processual do trabalho, sem a necessidade de que haja um retorno às simplesmente repetiu o disposto no artigo 373 do CPC, com ligeiras alterações; regras do direito processual civil. Afinal, a autonomia do direito processual do b) a aplicação remissiva, onde a legislação processual trabalhista limitou-se à trabalho é reconhecida desde o seu nascedouro, em razão de possuir: a) um cam- remeter ao CPC, sem regular a matéria, como é caso do incidente de descon- po temático específico; b) teorias e princípios próprios e consolidados; c) uma sideração da personalidade jurídica, nos termos do artigo 855-A da CLT; c) por metodologia específica. fim, a aplicação supressiva, que representa situações em que regras processuais trabalhistas defasadas ou anacrônicas, passaram a ser substituídas pela aplicação De fato, apenas direito processual do trabalho lida com os conflitos indivi- de normas mais maleáveis ou flexivas do CPC, como no caso da remessa necessária duais e coletivos do trabalho, inclusive aqueles pertinentes às lides sindicais. Estes em casos de condenação da Fazenda Pública, em que a regra trabalhista prevista tipos de demanda expressam realidades metajurídicas específicas, que merecem no artigo 1° do Decreto 779/69 que em nada excepcionava instituto, cedeu às tratamento distintivo das normas processuais, mormente em razão da conhecida regras do Processo Civil, conforme se vê na evolução da Súmula 303 do Tribunal hipossuficiência dos trabalhadores, expressa nas dificuldades probatórias e no de- Superior do Trabalho. sequilíbrio na paridade de armas entre as partes que participam da lide trabalhista. Há, por certo, certo desleixo legislativo com as regras processuais trabalhistas. A constatação é peremptória: nenhuma das normas que alteraram a parte pro- 6. São dispositivos que não fazem a distinção entre impedimento suspeição do Juiz, algo que será viria à lume com o CPC de Em especial, artigo 799 da CLT faz remissão à exceção de incompetência de forma genérica, sem distinguir os casos de incompetência absoluta, já que o CPC de 1939 admitia 5. Artigo 39 do Decreto-Lei 1.237/39: "o direito processual comum será fonte subsidiária do direito a exceção como modalidade de resposta do réu para suscitar qualquer incompetência, absoluta ou processual do trabalho, salvo naquilo em que for incompativel com as normas deste relativa.68 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA E MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 69 Por igual, princípios como o da normatização coletiva,⁷ do jus postulandi 2. AUDIÊNCIAS TELEPRESENCIAIS da parte⁸ e mesmo a técnica da oralidade levada a nível mais acentuado, que se expressa, por exemplo, na irrecorribilidade imediata das decisões 2.1 Conceito e evolução histórica atestam uma ontologia própria do direito processual do trabalho, que se acen- A audiência trabalhista é o ato solene, formal, público, no qual o magistrado tua ainda de forma mais incisiva, diante da existência de uma estrutura orgânica ouve as partes, propõe a conciliação, recebe a contestação, realiza saneamento própria, a Justiça do Trabalho, com órgãos e agentes responsáveis pela aplicação do processo, e, em regra, especifica e produz as provas requeridas pelas partes ou das regras e princípios típicos deste ramo do direito processual. determinadas de ofício, proferindo decisão. Na Consolidação das Leis do Traba- Portanto, a aproximação que forçosamente ocorrerá entre os ramos que lho pode-se constatar este verdadeiro iter processual concentrado da audiência compõem a família do direito processual em razão das novas tecnologias e ins- trabalhista entre os artigos 846 e 852. trumentos digitais que serão colocados à disposição de todo o Poder Judiciário, Consagrou-se, ainda, que o processo do trabalho é um processo de audiên- não nos parece ter o condão de determinar uma reunificação do direito proces- cia,¹¹ vale dizer, é na audiência que os agentes comparecem e praticam os principais sual do trabalho e do direito processual civil, dada as características, princípios e atos que determinarão sua sorte na lide. Esta concentração de atos processuais em peculiaridades díspares entre estes ramos do direito. único ato específico é nota marcante do direito processual do trabalho, trazendo Resta-nos, neste momento, uma palavra final, eis que independência inequívocos benefícios que podemos enumerar, com fundamento em não significa falta de interação. De fato, parece-nos ser possível pensar numa torna processo mais democrático e humanizado, que é fundamental conside- autonomia relativa, pois como já sublinhado acima, o direito processual do rando que grande parte dos jurisdicionados na Justiça do Trabalho possuem baixo trabalho compartilha de alguns institutos e princípios comuns ao direito pro- grau de instrução; b) propicia economia processual, eliminando-se formalidades cessual civil. Muito oportuna a lição de Batalha, com a qual concordamos desnecessárias como "despacho saneador", "réplica", "tréplica", além de dilações no sentido de que: de prazo que impactariam a duração célere da demanda; c) facilita a obtenção de conciliação, diante do contato físico das partes com o magistrado, que deixa Direito Processual do Trabalho tem características próprias que lhe asseguram autonomia de estar "longe" das partes e do conflito, para ter uma atuação mais próxima e relativa. Basta uma referência ao artigo 769 da nossa CLT para tornar fora de dúvida a relati- vidade da autonomia do Direito Processual do Trabalho. Autonomia, como obtempera De interativa; d) amplia o contraditório, propiciando participação mais ativa dos ad- Litala, de uma disciplina jurídica não significa independência absoluta em relação às outras vogados e até das partes; e) difunde a publicidade do procedimento, propiciando disciplinas. Assim, não obstante dotado de autonomia, direito processual do trabalho está um maior controle da atuação dos juízes, pois deixam eventuais arbitrariedades em situação de com as ciências processuais particulares, notadamente bem discriminadas e visíveis. com o direito processual civil, com o qual tem muitíssimos pontos de contato. Registre-se aqui a importância do contato das partes com o magistrado, pois Feitas todas estas premissas, passamos à análise dos principais aspectos é em muitas das vezes a única vez na vida que o jurisdicionado terá tão presente a do direito digital que impactarão as regras processuais trabalhistas e que, ou- mão do Estado, como ressaltado pelo Juiz Fabiano Fernandes Luzes, no Podcast samos dizer, já contribuem para uma nova perspectiva do direito processual "Papo Trabalhista" de número E01 Mudanças no Teletrabalho (publicado no dia do trabalho. 05.05.2022). Para muitos será a única vez na vida que isso ocorrerá. magistrado mencionado ainda destacou que, diante da importância do ato, faz questão de "tocar" na parte a fim de que este contato efetivamente possa ser registrado, em que pese ter sofrido uma única repreenda da parte contrária, que arguia suspeição 7. Previsto no artigo 114, da Constituição e que fundamenta o tão debatido Poder Normativo da do mesmo por conta de tal gesto. Justiça do Trabalho. 8. Previsto no artigo 791 da CLT, que assegura de forma inédita que a parte prossiga em seu processo até Contudo, pode-se dizer que até o ano de 2020, antes da pandemia SARS- final, sem a assistência de um -COVID19, a prática trabalhista era apenas de audiências presenciais. Aliás, até 9. Expresso no do artigo 893 da CLT e que posterga para momento recursal pós prolação da sentença (terminativa ou definitiva) questionamento do acerto de decisões interlocutórias proferidas no curso da fase de conhecimento, esvaziando uso do agravo de instrumento na seara trabalhista, relegando-o, 11. Por todos citamos SCHIAVI, op. cit., p. 606. exclusivamente, à hipótese do artigo 897, "b" da CLT. 12. SCHIAVI, op. cit., 606. 10. Op. cit., 13. Disponivel em: Acesso em: 18 jul. 2022.70 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR E MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 71 presente momento, a CLT não dispõe de qualquer dispositivo acerca de audiências terminou a retomada gradual das atividades presenciais, mas introduziu a possi- não presenciais. Do ponto de vista do direito processual em geral, tanto ponto de bilidade das audiências híbridas; d) a Resolução 337 de 2020, que determinou aos vista legislativo quanto regulamentar, todavia, podemos identificar seis fases da Tribunais a adoção de uma Plataforma única para as audiências; e) a Resolução implementação das audiências virtuais no Brasil. 341 de 2020, que determinou a obrigatoriedade do fornecimento de salas para Após uma primeira fase de anomia, vale dizer, de total ausência de normas oitiva de partes/testemunhas pelos Tribunais para aqueles sem disponibilidade autorizadoras da prática de atos telepresenciais, no ano de 2006, tivemos o surgi- técnica ou aptidão prática para participar das audiências virtuais. No âmbito da mento da Lei 11.280/2006, que inseriu quatro dispositivos no CPC (artigos 154, Justiça do Trabalho, esta quinta fase gerou a expedição do Ato Conjunto 6/2020 parágrafo único, 169, 2°, 417, 2° e 457, 4°) bem como a Lei 11.419 de 2006, (Conselho Superior da Justiça do Trabalho/Tribunal Superior do Trabalho/Cor- que criou processo judicial eletrônico. Tais diplomas normativos abriram a regedoria Geral da Justiça do Trabalho) e Ato 11 de 2020 (Corregedoria Geral possibilidade de registro audiovisual das audiências, inclusive para as audiências da Justiça do Trabalho) que regulamentaram a realização das audiências e sessões trabalhistas, que contava à época com o artigo 2°, da Lei 5584 de 1970,¹⁴ que telepresenciais no âmbito laboral. apenas permitia ao magistrado não transcrever o inteiro teor dos depoimentos Todo este marco legal e regulamentar fizeram surgir, nos tempos de hoje, das partes e testemunhas, bastando registrar sua conclusão pessoal acerca dos quatro modalidades de audiências trabalhistas: a) as audiências presenciais ou depoimentos. tradicionais, em que partes, advogados, testemunhas e juízes encontram-se Houve uma terceira fase capitaneada pelas Leis 11.690/2008 e fisicamente presentes no fórum ou na sede da vara; b) as audiências presenciais que alterou o disposto nos artigos 185, 217 e 222 do Código de Processo Penal, com registro audiovisual (que são audiências presenciais "gravadas", sem registro instituindo a possibilidade de oitiva de réus presos apenas para situações excepcio- documental, apenas com registro do som e imagem dos participantes); c) audiên- nais (para evitar constrangimento/humilhação para a vítima, para evitar risco de cias telepresenciais ou por videoconferência, que podem ser síncronas (quando fuga ou em caso de doença ou gravíssima situação de ordem pública). A Resolução realizadas em dois ou mais lugares diferentes, mas concomitantemente) ou assín- 105/2010 do Conselho Nacional de Justiça instituiu também a dispensabilidade cronas (quando realizadas em momento diferentes, como por exemplo, quando de transcrição de depoimentos. se ouve uma testemunha isoladamente, porém sem fazê-lo simultaneamente com a audiências de instrução); d) audiências mistas ou híbridas (nas quais parte dos A quarta fase foi inaugurada pelo Código de Processo Civil de 2015, que den- participantes do ato processual comparecem presencialmente em juízo e a outra tre outras regras, instituiu: a) a ampla liberdade do magistrado na determinação parte dos participantes acessa o ato de forma telepresencial, de outros lugares). da audiência telepresencial (artigo 236, b) a possibilidade de depoimento das partes (artigo 385, das testemunhas (artigo 453, 1°) e de acareação Neste cenário, ingressamos numa sexta fase, em que, passada a pandemia (artigo 461, de forma telepresencial; c) a possibilidade de realização de ses- há grande discussão quanto à continuidade/necessidade das audiências telepre- sões telepresenciais no âmbito do 2° grau e dos Tribunais Superiores. Note-se que senciais. Em nosso sentir, não há retorno à situação pré-SARS COVID19, pois as em 2020, a Lei 9.099/95 sofreu alteração para permitir a realização de audiências audiências virtuais e híbridas vieram para ficar. telepresenciais de conciliação (artigo 22, 2.2 Vantagens e dilemas processuais das audiências telepresenciais Contudo, apenas no cenário pós-pandemia, tivemos a fase de verdadeira e efetiva implementação das audiências virtuais. A partir da previsão legal no Em geral, alguns empecilhos têm sido colocados para a não realização de CPC de 2015, várias resoluções foram criadas pelo Conselho Nacional de Justiça, audiências telepresenciais: a) em primeiro lugar, o fato do Brasil se constituir em ampliando e regulamentando a prática de atos telepresenciais, valendo citar: a) a um país desigual (de desigualdades cumulativas, de natureza econômica, social Resolução 313 de 2019, que permitiu as sessões virtuais nos Tribunais (artigo e cultural), de acesso ainda precário à internet;¹⁵ b) em segundo lugar, o fato de b) a Resolução 314 de 2020, que autorizou o uso das audiências telepresenciais que audiências telepresenciais são inseguras, não havendo qualquer garantia à mesmo fora do recinto do Poder Judiciário; c) a Resolução 322 de 2020, que de- 14. "Quando o valor fixado para a causa, na forma artigo, não exceder de 2 (duas) vêzes o 15. Segundos dados da OCDE, um em cada quatro brasileiros tinha acessado a internet no ano de nimo vigente na sede do Juízo, será dispensável resumo dos depoimentos, devendo constar da Ata a 2018. Dados retirados dehttps://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2020-10/governo-apresen- conclusão da Junta quanto à matéria de ta-relatorio-sobre-era-digital-e-telecomunicacoes. Acesso em: 18 jul. 2022.72 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR E MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 73 incomunicabilidade das testemunhas, mormente quando ouvidas no escritório no mesmo dia, audiências em várias Varas do Trabalho de diferentes regionais, dos advogados das partes ou mesmo na sede da empresa. independentemente de sua localização física, e ainda, acompanhar sessões do Quanto ao primeiro empecilho, me parece facilmente contornável. Não se Tribunal Superior do Trabalho e eventualmente, também realizar sustentação oral; pode, de fato, negar acesso à justiça aos trabalhadores e empregadores (mor- c) a economia de tempo para advogados e partes, que não precisam se deslocar mente pessoas físicas), que não tem acesso à internet (incapacidade técnica) ou para a sede das Varas e podem acompanhar em tempo real atraso das audiências, que possuem dificuldade no manejo de novas tecnologias (incapacidade práti- enquanto se ocupam de outros afazeres domésticos, pessoais ou profissionais; d) ca). Para estes casos, contudo, podem-se reservar as audiências presenciais ou o fim da necessidade de Cartas Precatórias e Rogatórias Inquiritórias, já que a mesmo híbridas, possibilitando àqueles que não possuem condições de acesso mesma possibilidade de oitiva de uma testemunha em qualquer cidade no Brasil, telepresencial a plena participação nas audiências, só que de forma presencial. também permite a oitiva de testemunhas que residam no exterior. Isto sem contar No que diz respeito à quebra da incomunicabilidade das testemunhas, nos os ganhos sociais (no uso do transporte público, por exemplo), ambientais (com parece exagero a presunção de que tal fato necessariamente ocorrerá em audiências menor fluxo de veículos e pessoas) e econômicos. telepresenciais. Aqui basta que o Juiz do Trabalho exerça adequadamente seu Importante registrar posicionamento de muitos advogados trabalhistas poder de polícia processual, fazendo as indagações de praxe, requisitando que a no sentido de que caberá magistrado, de forma fundamentada, deferir ou não parte ou testemunha realize um giro com a câmera para que se visualize o recinto o requerimento de audiência telepresencial ou híbrida, já que a regra legal é a onde se encontra (com sua devida autorização, a fim de que não haja violação audiência presencial. Precisamos lembrar que o magistrado vela pela realização à privacidade do interrogado), determinando que o depoimento seja realizado da audiência de forma a serem preservados os princípios que regem processo com olhar fixo e voltado exclusivamente para câmera que capta as imagens, ou e, às vezes, por mais que as partes e advogados queiram, há razões para indeferir ainda, exigindo que os áudios dos advogados e das testemunhas fiquem "abertos" tais modalidades. Todos nós já vivenciamos situações que não recomendaram para captação do som ambiente e de eventuais "instruções" indevidas. Pensamos uso da audiência online. Logo, não cabe apenas à advocacia querer eleger 0 ainda que o Juiz deve atestar que a conexão de internet, câmera e som de todos modelo, cabe também ao magistrado velar pelo interesse público que rege a os participantes estejam em boas condições, para evitar que haja indesejáveis relação processual. Até o dia da audiência poderia ser escolhido pelas partes, interrupções na audiência e possíveis prejuízos à regra da incomunicabilidade. desde que o Juiz entenda que os instrumentos e procedimentos adotados para Outra providência salutar é exigir que celulares estejam desligados e/ou à vista realização do ato solene intrínseco na audiência trabalhista. Por exemplo: do magistrado para evitar comunicações por aplicativos durante a oitiva de todos testemunhas dirigindo automóvel, pessoas deitadas na cama, testemunhas no aqueles que participarão do ato processual. mesmo local das partes etc. De toda sorte, não se pode presumir que as partes estejam de má-fé. Existe Importante ressaltar que audiência telepresencial não significa perda das um mau vezo em presumir que advogados se utilizem de chicanas, que, eviden- formalidades necessárias para realização da audiência, sob pena de macularmos temente não é a regra e não pode ser admitido como presumido. devido processo legal. ideal seria o Poder Judiciário investir em salas para Cumpre-nos mencionar que as audiências telepresenciais e híbridas trarão realização de audiências online, com servidores da Justiça recebendo as partes e incontáveis vantagens para as lides trabalhistas e até para a sociedade que aciona testemunhas que não possuam condições próprias para realização do ato. Seria a Justiça do Trabalho. Em exercício breve, podemos apontar: a) a possibilidade de um enorme passo para acesso à Justiça, salas espalhadas por todos os bairros trânsito judicial amplo, tanto de advogados quanto de magistrados, sendo possível do Estado. a um advogado em Roraima, realizar uma audiência no interior de São Paulo, ou Para tanto, haveria que ser estudado um orçamento e realocação dos servi- ainda, a um juiz substituto do Piauí, auxiliar uma Vara do Trabalho no Rio Grande dores para esses lugares. Sem sombra de dúvida uma economia seria feita, pois do Sul; b) a efetivação de uma fluidez territorial (muito importante em um país se reduziria a estrutura atual, uma vez que os prédios atuais tendem a ficarem de dimensões continentais com o Brasil), já que se permite ao advogado realizar vazios com a preferência pela audiência telepresencial, que como estamos todos constatando, bate aproximadamente 95% dos casos. Investimento em acesso à 16. Veja-se o artigo 816 da CLT que concede ao magistrado poder de manter a ordem e decoro nas audi- internet nesses espaços seria fundamental. Até convênio com a OAB, que está ências, com possibilidade de zelar pela sua realização forma tranquila e ordeira. espalhada em subseções, poderia mitigar os custos de espaços para esses serviços.74 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR E MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 75 Partindo para um caso mais extremo, determinados escritórios de advocacia eletrônico. Em outras palavras, não se pode utilizar o Balcão Virtual como pro- também poderiam prestar esse auxílio, desde que o Tribunal do Trabalho pudesse tocolo de petições, que devem ser protocolizadas na forma prevista em lei. conceder uma espécie de selo de qualidade, atestando que aquele local está apto Trata-se, pois, de ferramenta revolucionária. ganho é substancial em todos para realização de audiências de forma regular. Seria neste caso, nada mais nada os sentidos, pois se evita a aglomeração de pessoas nos fóruns, o deslocamento menos que uma forma de parceria pública e privada, que beneficiaria proprie- desnecessário e custoso até a sede do juízo, além de se garantir maior celeridade tário, atrairia consumidores e faria um bem a coletividade. nos atendimentos. Em um país de dimensões continentais como um nosso, com Como nem tudo é perfeito, existem magistrados que são contrários a este Tribunais Regionais do Trabalho que cobrem grande extensão territorial (como pensamento e indeferem pedido de audiência presencial com despachos nada TRT da Região ou TRT da Região), o "Balcão Virtual" socorre advogados agradáveis, como por exemplo dizendo que as partes e advogados já tiveram e partes que se encontram a grandes distâncias da sede do juízo. tempo suficiente para terem se "acostumado" com a audiência telepresencial. De o "Balcão Virtual" corresponde, em nosso sentir, à consecução da ideia de fato, ao se passar apenas para audiência telepresencial, perderemos aquela "mão Justiça como serviço ("justice as a service"), fazendo com que as amarras buro- do Estado" no jurisdicionado, bem como perderemos bastante o aspecto huma- cráticas do Poder Público sejam suavizadas e legitimando a própria atuação do no do depoimento, inclusive a comunicação não verbal, que não raro diz muito. Poder Judiciário. Nesse sentido, a audiência fria (telepresencial) poderá escamotear o sentimento, sinceridade e de quem está prestando depoimento. Questões estas Note-se ainda que o Balcão Virtual, de fato, prestigia o pleno acesso à ordem que muitas vezes não passam desapercebidas pelos advogados e magistrados nas jurídica, pois dá maior possibilidade de comunicação do Judiciário com a Socie- audiências presencias, geralmente naquelas instruções complexas, com muitas dade. Contudo, aqui é necessário observar que o pleno acesso à justiça depende partes, muitas testemunhas. de maior acessibilidade aos meios virtuais às partes menos favorecidas, para que não represente apenas um facilitador do trabalho dos advogados. Por fim, uma questão ambiental, não há como deixar de concordar que a utilização da audiência telepresencial poupa além de tempo com deslocamentos, Pensamos que Judiciário deve tomar o protagonismo neste particular, combustível, favorece ao comércio local com a manutenção daquele indivíduo efetivando direito humano à comunicação, permitindo, inclusive, o direito de próximo de sua localidade base. acesso à internet. Porque não implementar vários locais de acesso à rede mundial de computadores em conjunto com Prefeituras, entidades da Sociedade Civil e 3. VIRTUAL outros órgãos públicos, para permitir ao cidadão comum a prática de uma série de atos digitais? Um trabalhador poderia ser dirigir a um centro como este, pró- Outra iniciativa importante foi o Balcão Virtual, criado pela Resolução 372 de ximo de sua residência, e acessar o balcão virtual para ter informações sobre 2021 do Conselho Nacional de Justiça. A finalidade é possibilitar que advogados, seu processo, sem depender da conexão de seu advogado. partes e demais interessados tenham acessibilidade plena ao setor de atendimento A ideia do Virtual" é promissora, mas para que permita um pleno da Vara, para obtenção rápida e em tempo real de informações sobre processos. Ao acesso à justiça precisa ser concebida à luz do cenário excludente da sociedade invés de ter que se dirigir à Vara para o atendimento, o jurisdicionado ao acionar brasileira, que atinge a classe trabalhadora em geral. o Balcão Virtual tem célere acesso à um servidor designado para o atendimento, que com maior qualidade, presta a informação com maior exatidão pois se fixará 4. PROVAS DIGITAIS no atendimento daquele jurisdicionado específico. Balcão Digital ou Virtual nada mais é do que uma ferramenta de video- 4.1 Conceito e natureza jurídica conferência que permite imediato contato da Vara do Trabalho (na realidade do que era denominado "balcão", setor de atendimento da unidade judiciária) com direito constitucional à produção da prova é crucial, imperativo, para uma qualquer pessoa que queira informação sobre determinado processo, durante justa resolução dos conflitos. Desde a Constituição de 1988, passou-se a conceber horário de atendimento ao público. É importante frisar que nos termos do artigo o direito à prova como de índole constitucional, sendo que a perspectiva de acesso 2° da Resolução 372 do CNJ, a plataforma utilizada deve ser adequada para o à justiça apenas formal é insuficiente. De fato, de que adianta dotar litigante de atendimento virtual, mas não substitui sistema de peticionamento do processo acesso à justiça, sem o acesso a uma tutela jurisdicional justa, retirando-se da76 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR E MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 77 parte direito fundamental à plena produção de provas, que emana do próprio Não nos filiamos a tal visão doutrinária. Certo é que, embora de forma princípio do contraditório e da ampla defesa (art. 5°, LV da Constituição Federal)? incipiente, a prova digital encontra previsão no Código de Processo e, de Este aspecto é ainda mais significativo no campo processual trabalhista. A certa maneira, não difere de forma substancial da prova tradicional. Seu escopo CLT, por exemplo, mesmo antes da Constituição de 1988, já preconizava uma primeiro também é o de convencer/persuadir o juiz acerca das alegações que dizem série de institutos relacionados ao acesso formal à justiça: a) com um sistema de respeito a determinado fato. Ora, estamos diante de uma premissa teleológica acesso gratuito à justiça menos rigoroso que CPC, nos termos do do artigo que se aplica tanto à prova física quanto à prova digital. A distinção entre ambas 790 da CLT; b) com a possibilidade de uso do jus postulandi da parte, inscrito se dá tão somente no "suporte", já que a prova digital se expressa em unidades no artigo 791 da CLT; c) com a autorização para a formulação de reclamações de informação ou em "bits", enquanto a prova física se materializa em objetos trabalhistas "verbais", conforme o previsto no artigo 786 da CLT. Contudo, to- corpóreos, como o papel. das estas circunstâncias de nada valem se não for permitido à parte o direito de Destarte, a prova digital é prova típica, conceituando-se como toda infor- influenciar o julgador com a possibilidade do manejo de todos os meios lícitos mação sobre determinado fato, que se encontre armazenada em meio eletrônico de provas disponíveis. Neste sentido, a própria CLT, no artigo 765, também dota ou que seja transmitida por este mesmo meio. Esta informação deve ser dotada o magistrado trabalhista de certa inquisitoriedade na produção de provas, dan- de valor probatório e está vinculada às mesmas regras e princípios aplicáveis às do-lhe a possibilidade de determinar a realização de todas as provas necessárias provas em geral, tendo vista a inexistência de um marco legal exauriente e explícito. ao pleno esclarecimento do litígio. Aqui, cumpre-nos citar Thamay e Tamer, no Em última análise se constituem em informações que podem ser obtidas de redes sentido de que: sociais, redes de comunicações, dispositivos eletrônicos, aplicativos de dispositivos móveis, dentre outros, desde que sua origem seja o meio digital. há verdadeiro direito constitucional à prova, devendo a atividade probatória ser instrumen- talizada de acordo com as configurações com o que fato a ser provado se apresenta. A ideia, A compreensão da prova digital, como salientam Thamay e por justamente, é a de que: se há um fato e há a possibilidade de interesse jurídico respectivo, outro lado, deve englobar dois aspectos dispares. Por um lado, se constitui em deve sistema jurídico estar apto a viabilizar sua prova em processo ou procedimento em prova digital toda demonstração de fatos que ocorrem em meios digitais, como que tal interesse seja discutido. Os principais fundamentos constitucionais dessa ideia estão mensagens de redes sociais (como "WhatsApp", "telegram", "instagram") ou mesmo circunscritos nos princípios da inafastabilidade da jurisdição e do mensagens contidas em "e-mails". Por outro lado, também se constitui em prova Neste contexto, o Judiciário, inclusive o trabalhista, não pode mais ignorar digital a tentativa de demonstrar fato ocorrido no meio físico, mas que pode ser o fenômeno das provas digitais, fato que também se estendem a todos os agentes constatado por meios digitais, como fotografias retiradas de redes sociais (que do direito. Como conceituar, contudo, prova digital? Na visão de Thamay e Tamer evidenciariam a real situação econômica de uma das partes, ao contrário de suas a prova digital é: alegações de hipossuficiência econômica) ou monitoramento da geolocalização de um prestador de serviços, em demandas nas quais se discutam a existências instrumento jurídico vocacionado a demonstrar a ocorrência ou não de determinado fato de horas extraordinárias. e suas circunstâncias, tendo ele ocorrido total ou parcialmente em meios digitais ou, se fora deles, esses sirvam como instrumento para sua demonstração. A prova digital é meio de Portanto, é fundamental distinguir a prova nato digital ou simplesmente demonstrar a ocorrência de um fato ocorrido em meio digital, o que tem no meio digital um digital da prova digitalizada. Existem informações que são originadas no meio instrumento de demonstração de determinado fato de seu conteúdo.¹⁸ físico, mas que depois migram para o meio eletrônico. Pensemos num depoimento testemunha que é "gravado" e depois transportado para o meio eletrônico. Neste Estamos diante de uma prova típica ou atípica? Existe na doutrina posição caso, a prova é digitalizada. Note-se que tanto a prova nato-digital quanto a prova que considera a prova digital uma prova atípica, que deve se submeter ao filtro da licitude e das garantias constitucionais ou infraconstitucionais, à míngua de digitalizada são lícitas e válidas no direito processual brasileiro, porém o termo expressa previsão na legislação processual nacional de forma explícita. "prova digital", em princípio, é destinada ao conjunto de informações que surgem em meio eletrônico, mesmo que possa ter sido destinada a representar um fato ocorrido em meio físico. É neste sentido que artigo 3°, inciso V da Resolução 17. AMAY, Renan e TAMER, Maurício. Op. cit., 111. 19. Veja-se artigo 441 do CPC que expressamente admite os documentos como meio de prova. 18. Renan e TAMER, Maurício. Op. cit., p. 33. 20. THAMAY e TAMER, op. cit., p. 32.78 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 79 184 de 2013 do Conselho Nacional de Justiça, definiu como documentos digitais, protegidos em lei. Não sendo a prova ilícita, contudo, é direito da parte valer-se de "aqueles originalmente produzidos em meio digital". qualquer meio de prova capaz de formar convencimento do magistrado. Neste No que diz respeito à natureza jurídica da prova digital, parece-nos que a sentido, Thamay e Tamer, para quem: prova digital, em ambos os aspectos acima mencionados, possui natureza de prova a única barreira igualmente constitucional à faculdade probatória em todas as possibilidades documental. Embora a CLT seja silente neste particular, o Código de Processo éa vedação à prova ilícita (art. LVI, CF). Aliás, do ponto de vista racional, é vedação que posta Civil ao tratar de documentos eletrônicos, os inseriu na seção própria da prova no próprio Texto Constitucional, mas também confirma a própria natureza constitucional do documental em geral. De fato, pode-se conceituar documento como toda coisa direito à prova.²¹ capaz de representar um fato, ou, mais resumidamente, o registro de um fato. A Os Tribunais Trabalhistas há muito vêm admitindo a validade de provas prova digital, por certo, tem justamente esta singularidade, de representar fatos, obtidas em meio digital tanto por empregadores quanto por empregados, valendo e, neste sentido, não se trata de prova autônoma, mas uma espécie de prova do- destacar: a) a admissibilidade e licitude de acesso à comunicação em "e-mails" cumental. que diferencia a prova documental, em verdade, é apenas o suporte corporativos, sem autorização judicial, quando ciente o empregado dos limites de em que se manifesta para cognição dos fatos corridos em meio digital ou físico. uso de tal b) a plena licitude de gravação ambiental realizada pelo Tudo considerado, podemos elencar como meios que configuram a prova empregador, desde que mediante conhecimento dos digital: a) a coleta de dados em fontes abertas (que independem de autorização Contudo, o ingresso da sociedade atual em uma etapa sem precedentes na judicial), como redes sociais; b) a interceptação telemática de dados em trans- história da humanidade, recrudescerá ainda mais o debate sobre o uso das provas missão; c) a coleta de informações por acesso forçado, devidamente autorizado digitais, já que todos os relacionamentos humanos estão permeados pelo uso das judicialmente, em redes de dados e sistemas de informática; d) a coleta de dados novas tecnologias. A exposição de trabalhadores e empregadores em meio digital, em repouso, acessados à distância. Deve-se registrar que a doutrina tem consi- de certa forma, quebra o paradigma clássico do direito à privacidade, tal que os derado que a "mineração" de dados é consentânea com a busca da verdade real, conhecimentos nos idos do Século XIX, no contexto das liberdades individuais e nos termos do artigo 765 da CLT, pode ser determinada "de ofício" pelo Juiz trazidas à lume pelas revoluções liberais burguesas. Até que ponto pode um tra- do Trabalho. Impende notar ainda que esta busca de dados engloba tanto dados balhador que em rede social aberta posta suas aventuras no mundo físico, estando em transmissão (aqueles trafegam em redes em consonância com protocolos ainda em gozo de benefício previdenciário e afastado do trabalho justamente por específicos e determinados), dados em repouso (aqueles armazenados tanto uma incapacidade Se uso das redes sociais é realizado de forma em sistemas de informática quanto em dispositivos eletrônicos) ou metadados ampla, com detalhamento da vida íntima e pessoal do trabalhador, nada impede (aqueles armazenados em meio eletrônico e que seja capaz de identificar origem, o uso destas informações no processo judicial. datas e horários cruciais para a evidência digital a ser produzida). Não se questiona a importância do direito à privacidade, mesmo a im- Quais os limites, contudo, que devem ser impostos às provas digitais? É o portância de se assegurar a observância da Lei Geral de Proteção de Dados (Lei que passamos a discutir. 13.709/2018), mas nada impede a utilização de dados sensíveis, desde que exista autorização judicial ou colheita de forma lícita (como em redes sociais abertas, 4.2 Limites e admissibilidade no direito processual do trabalho por exemplo). norte na atuação do magistrado trabalhista deve ser a busca da Quando pensamos nos princípios mais importantes relacionados ao direito 21. THAMAY E TAMER, op. cit., 26. fundamental à prova, de jaez constitucional, podemos pensar no princípio da 22. TST, RR 1536100-23.2003.5.11.0007, Turma, Relator Antônio José de Barros Levenhagen, DEJT 12.11.2004. vedação da prova ilícita, no princípio da persuasão racional e no princípio da 23. TST, Ag no AIRR Turma, Relator Ministra Delaide Miranda Arantes, liberdade probatória. Para o direito processual do trabalho, são estes princípios DEJT 21.08.2019. que devem nortear, em conjunto, a admissibilidade ou não da prova digital nos 24. caso julgado pelo TRT da Região (MG) em que uma representante de atendimento teve sua justa causa mantida porque "postou" em sua conta no "Facebook", uma série de fotos de ventos em que casos concretos. participou em São Paulo, apesar de afastada por atestado médico por depressão. Fonte: https://portal. Primeira premissa importante é que a produção da prova digital deve conter a chancela do magistrado, para evitar acesso clandestino a dados sigilosos ou em: 18 maio 2022.80 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR E MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 81 verdade real e a formação de seu convencimento, sopesando, contudo, tais desi- concernente a negócios da própria vida da família; deratos com a preservação da segurança dos dados coletados, imprimindo toda a sua apresentação puder violar dever de honra; proteção possível aos dados sensíveis das partes, como por exemplo, impondo-lhes III sua publicidade redundar em desonra à parte ou ao terceiro, bem como a seus parentes sigilo processual, caso necessário. consanguineos ou afins até terceiro grau, ou lhes representar perigo de ação penal; De se notar que as demandas trabalhistas, de certa forma, sempre expu- IV sua exibição acarretar a divulgação de fatos a cujo respeito, por estado ou profissão, seram informações pessoais das partes, muito presentes inclusive na própria devam guardar segredo; V subsistirem outros motivos graves que, segundo o prudente arbitrio do juiz, justifiquem instrução processual. A questão primeira é que juiz deve estar atento ao cotejo a recusa da exibição; dos princípios da publicidade e da necessidade da prova com o dever de proteger VI houver disposição legal que justifique a recusa da exibição. a privacidade dos litigantes. Nada impediria, por exemplo, a quebra do sigilo bancário do trabalhador para demonstrar o recebimento de salários em conta De tudo quanto exposto, conclui-se pela plena possibilidade de conciliação corrente, mas tal exposição da vida financeira da parte deve ser protegida com do direito à privacidade com o direito à liberdade de produção da prova, inclusive atribuição de sigilo, relativizando a publicidade que rege os atos processuais de acesso às provas digitais. No exame do caso concreto, é possível preservar-se em geral. tanto o direito individual (direito à privacidade) como o direito à tutela jurisdi- Há, pois, plena admissibilidade da prova digital nas demandas trabalhistas. cional justa, que como já frisado anteriormente, diz respeito também ao acesso Mas existem limites, por outro lado. Em recente caso que ganhou notoriedade no amplo a todos os meios lícitos e moralmente legítimos de provas. Brasil, o Tribunal Superior do Trabalho impediu a realização de perícia no algorit- Forçoso reconhecer que tanto as partes quanto o Poder Judiciário trabalhis- mo utilizado pela plataforma UBER, com o fundamento de que tal ingerência do ta devem ter acesso às provas digitais, sempre se cercando das cautelas devidas, Poder Judiciário implicaria na quebra do segredo industrial e na violação à livre com prestígios aos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade. Situações concorrência e à liberdade de Em outra decisão, o Tribunal Regional do desnecessárias ou desconectadas com os fatos controvertidos no processo devem Trabalho da Região deu provimento a um Mandado de Segurança entendendo evitar o uso da prova digital, tanto no caso de dados sensíveis quanto dados pes- que a prova técnica atentaria contra o direito à propriedade intelectual relacio- soais, já que aviltam o princípio da necessidade prova. nada ao próprio código fonte de aplicativo, além de entender se tratar de prova Ressalte-se que nas lides trabalhistas muito se questiona a fragilidade atual da desnecessária à existência de vários outros meios probatórios menos evasivos.²⁶ prova oral. A ideia de depoimentos de testemunhas "instruídas", de Quanto à recusa pelas partes da produção da prova digital, é necessário situações em que as informações colhidas são imprecisas em razão do transcurso cautela no seu exame. Nos termos do artigo 765 da CLT, juiz do trabalho tem do tempo ou mesmo da má-fé, já motivaram desde a Lei 13.467 de 2017, a inserção 0 poder-dever de determinar a realização de qualquer prova que entender im- de dispositivo específico para atribuição de multas também às prescindível ao deslinde da controvérsia e, em nosso sentir, a recusa injustificada Diante deste cenário, a prova digital surge como uma possibilidade concreta gera presunção de veracidade do que pretendida comprovar, nos termos do artigo de verificar de forma mais objetiva a verdade dos fatos, como um meio de prova 400 do CPC. Em outras palavras é possível direito de resistência da parte, desde mais eficiente para extrair a verdade dos fatos. Pensemos numa hipótese de com- que razoável e devidamente fundamentada, sob pena de gerar prejuízo proces- provação de vínculo empregatício de empregadas domésticas em que se discuta o sual evidente, caso magistrado repute injustificada a resistência. Em apertada requisito "continuidade" na relação jurídica entre as partes. Instaurada controvér- síntese, socorre as partes (bem como terceiros destinatários da provocação do sia quanto à quantidade de dias a requisição das câmeras de vídeo de juiz na produção da prova), o disposto nos incisos do artigo 404 do CPC, sendo entrada do condomínio ou mesmo a requisição da geolocalização da trabalhadora justificativas plausíveis a não apresentação de prova digital: a partir de dados de seu celular, podem trazer uma compreensão mais segura de quantos dias de labor a empregada realizava na residência, permitindo melhor 25. TutCautAnt Ministro Douglas Alencar, disponível em https://www.tst. 27. Aplica-se a multa prevista no art. 793-C dessa Consolidação à testemunha que intencionalmente alterar goritmo-da-uber. Acesso em: 18 jul. 2022. a verdade dos fatos ou omitir fatos essenciais ao julgamento da causa. 26. MSCiv Seção de Dissidios Individuais, Desembargadora Relatora 28. A Lei Complementar 150 de 2015 encerrou controvérsia antiga no direito brasileiro, para instituir que Jaqueline Monteiro de Lima, Julgado em 28.10.2021. vínculo empregatício doméstico no labor a partir de três vezes por semana (artigo82 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR E MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 83 convencimento quanto ao requisito continuidade. Tal providência dispensaria a facultativa (artigo e pode ser objeto de retratação pelo acionante, apenas uma necessidade de produção de prova oral, caso o pedido se restringisse ao vínculo única vez 2° do artigo até a prolação da sentença. empregatício e verbas decorrentes. Ressalte-se que o demandado pode se opor à escolha do demandante até sua Por igual, na fase de execução trabalhista, a prova digital pode ser ferramenta primeira manifestação no processo, sendo que na Justiça do Trabalho essa oposi- essencial para o rastreamento patrimonial, dando assim efetividade à decisão ção deve ser deduzida em até 05 dias úteis contados do recebimento da primeira judicial. Tanto nos casos de ocultação de patrimônio, como nos casos de blinda- notificação. De se notar, que no caso do direito processual do trabalho, a regra gem patrimonial, o uso das provas digitais pode conduzir com maior acuidade à precisou se ajustar ao disposto no artigo 841 da CLT, que prevê um interstício constatação de fraudes à execução ou mesmo de fraude contra credores. mínimo de 05 dias entre o recebimento da notificação e a realização da audiência Concluindo, a prova digital deve merecer dos operadores do direito uma inaugural. Ainda que durante a pandemia, como já dito alhures, tenha sido auto- atenção mais incisiva. Os profissionais do direito que não pensarem "digitalmente" rizada a adoção emergencial do rito processual previsto no CPC, nos termos do e não dominarem as provas digitais ficarão claramente para trás numa sociedade Ato 11 da Corregedoria Geral da Justiça do Trabalho (com citação e apresentação de defesa em cartório, conforme artigo 335 do CPC), com o retorno do trabalho cada vez mais digitalizada, que exige respostas cada vez mais ágeis e eficientes do Judiciário. Neste contexto, dominar as provas digitais em todos os seus meandros presencial, a tendência é que rito especial previsto na CLT, que preconiza a é fato indispensável em nossos tempos. audiência obrigatória, com entrega de defesa durante este ato processual (vide artigo 846 usque 852 da CLT), retorne de forma imperativa. Daí a necessidade de 5. JUÍZO 100% DIGITAL E FUTURO DOS TRIBUNAIS TRABALHISTAS previsão expressa no do artigo 3° da Resolução 345 de 2020 do CNJ para que o reclamado apresente sua oposição em 05 dias úteis contados da notificação inicial. As transformações digitais que experimentamos nos tempos pós-modernos Questão polêmica, em relação ao processo do trabalho, diz respeito à possi- implicam em mudanças severas nas relações e processos de trabalho também no bilidade de aceitação tácita. Em verdade, o silêncio da reclamada no quinquídio Poder Judiciário. Dentro do contexto do que tem sido chamado de Justiça 4.0, com- acima mencionado, implica sim, em aceitação tácita do "Juízo 100% Digital", nos posta por sistemas como PJe JT (Processo Judiciário Eletrônico), balcão virtual, termos do do artigo da Resolução 245/2020 do CNJ, porém, tal circuns- pelas audiências telepresenciais, o Conselho Nacional de Justiça implementou tância não afasta a possibilidade de retratação expressamente prevista no do denominado Juízo 100% Digital, com a edição da Resolução 345 de 2020, alterada artigo da mesma Resolução, que, como já frisado, pode ocorrer até a prolação pela Resolução 378 de 2021 do CNJ. da sentença. Trata-se de uma espécie de procedimento em que todos os atos processuais Torna-se importante registrar que magistrado pode instar as partes a ma- (peticionamentos, despachos, audiências, sentenças, intimações, citações, aten- nifestarem o interesse na adoção do "Juízo 100% Digital" para os processos em dimentos) são praticados de forma eletrônica e remota, por meio da rede mundial curso, que ainda não estejam submetidos ao procedimento, sendo que silêncio de computadores, de forma exclusiva. Assim, um advogado em seu escritório das partes, após duas intimações também implicam em aceitação tácita 4° do no Amazonas, poderá acompanhar uma reclamação trabalhista de sua cidade, artigo da Resolução 245/2020 do CNJ). Note-se, ainda, que mesmo havendo desde o protocolo da petição inicial até o recebimento do alvará judicial, sem que recusa expressa ao procedimento, o magistrado pode propor a prática de atos iso- tenha se deslocado presencialmente até a sede da Vara do Trabalho situada, por lados de forma digital, como, por exemplo, as audiências, mantendo-se a prática exemplo, no Rio de Janeiro. Se pensarmos em termos de acesso à justiça, pro- dos demais autos de forma cedimento do Juízo 100% Digital prestigiará, em grande monta, uma mobilidade Questão que trouxe algum questionamento, até a edição da Resolução 378 de sem precedentes na história do Brasil no que diz respeito às demandas trabalhistas 2021 do CNJ, dizia respeito à possibilidade de adoção do rito pela via do negócio em geral, superando obstáculos físicos, muitas vezes intransponíveis, tanto para jurídico processual, previsto no artigo 190 do CPC. Com a redação conferida ao empregados quanto para empregadores. artigo 3°-A da Resolução 345/2020 da CNJ, a celeuma foi pacificada no âmbito Quanto às regras formais, encontram-se disciplinadas na Resolução 345 de do direito processual civil. Porém, nos limites da Justiça do Trabalho, é de notória 2020 do CNJ. Do ponto de vista da iniciativa, incumbe à parte autora e seu advo- sabença que a Instrução Normativa 39 de 2016 do TST entendeu pela inaplicabi- gado, no ajuizamento do feito, indicar a escolha pelo "Juízo 100% Digital" que é lidade do artigo 190 do CPC ao processo do trabalho, por entender que as regras84 IOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR E MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 85 processuais trabalhistas são dotadas de certa imperatividade, de um caráter mais 6. COMPETÊNCIA TERRITORIAL E JUSTIÇA DIGITAL: AINDA FAZ robusto de ordem pública, infenso à possibilidade de flexibilização pelas partes, SENTIDO ART. 651 DA CLT? ainda que pela via da negociação processual chancelada pelo magistrado. Pensamos, neste particular, que já é hora do TST rever tal 6.1 A regra geral da competência territorial trabalhista Mesmo o direito processual do trabalho deve valer-se dos auspícios democrá- ticos trazidos à lume pelo novo CPC, editado em 2015, que se constituiu no Quando falamos de competência territorial, pensamos no limite territorial primeiro Código de Processo Civil elaborado e publicado em pleno ambiente de da competência de cada órgão do Poder Judiciário. Nas palavras de RODRIGUES democracia constitucional em nosso país.²⁹ A possibilidade de negociação pro- PINTO³⁰ "essa manifestação da competência liga-se aos limites geográficos do cessual não prescinde do controle do magistrado e retira a concepção triangular exercício da de um processo centrado na figura do Juiz, dando às partes maior autonomia, Deixando ao largo as questões mais conceituais relacionadas à competência participação e possibilidade de cooperação nas lides forenses. Deste modo, não em razão do território, fato é que a legislação processual trabalhista, escolheu vemos qualquer incompatibilidade do artigo 3°-A da Resolução 345 de 2020 do alguns critérios para determinar a competência das Varas do Trabalho em todo CNJ com as regras processuais trabalhistas, sendo uma possibilidade concreta o país. Passamos a examiná-los de mais perto. que as partes, a qualquer tempo, celebrem negócio processual com a eleição do Certo é que artigo 651, caput da preconiza a regra geral de que 100% Digital", independentemente de recusas ou retratações anteriores, a competência da Vara do Trabalho seja determinada pela localidade onde o por quaisquer das partes. empregado prestar serviços ao empregador, independentemente do local da Outro ponto importante no "Juízo 100% Digital" é que as audiências, nos contratação. Esta regra geral fixou-se por razões protetivas, segundo a melhor termos do artigo 5° da Resolução 345 de 2020 do CNJ e os atendimentos por ma- doutrina: a) para viabilizar o acesso mais fácil aos meios de prova, já que Juiz gistrados e servidores, ocorrerão exclusivamente por videoconferência. Note-se territorial da prestação de serviços, em regra, possui maior conhecimento das que a Resolução não faz qualquer ressalva ou exceção, sendo ponto que nos parece demandas que lhe são submetidas sendo mais fácil, por exemplo, a realização preocupante. Imaginemos que uma das partes não têm condições de acesso por de vistorias ou inspeções judiciais in loco; b) para facilitar comparecimento videoconferência ou que existam dificuldades temporárias na rede mundial de do empregado e de suas testemunhas em juízo, sem maiores gastos de loco- computadores ou mesmo nos sistemas de atendimento por videoconferência, moção (embora existam exceções casuísticas, em geral, o trabalhador reside tais circunstâncias não poderiam gerar uma possibilidade de flexibilização na próximo de onde prestar serviços assim como as testemunhas, facilitando prática de um dos atos processuais? Pode o servidor se recusar a atender advogado acesso à justiça). ou parte que se dirige ao balcão físico da Vara, sob a alegação de que processo Uma questão polêmica reside no fato do trabalhador prestar serviços em tramita pelo "Juízo 100% Digital", sob a alegação que o atendimento deve ser várias localidades diferentes, por períodos delimitados no tempo, durante seu solicitado e realizado apenas por videoconferência? Pensamos que aqui caberia contrato de trabalho. Imaginemos a hipótese do trabalhador que laborou de 2017 uma ressalva, permitindo que, dependendo do caso concreto, a prática de atos a 2019 na cidade do Rio de Janeiro (RJ), no ano de 2021 na cidade de São Paulo físicos pudesse ser uma alternativa excepcional e casual, sempre na perspectiva (SP) e em 2022, até sua demissão, na cidade de Belo Horizonte (MG). Onde este do acesso ao Judiciário. empregado deveria ajuizar sua reclamação trabalhista? No último local da pres- Por fim, é importante sublinhar que a previsão regimental prestigia e reforça tação de serviços ou em qualquer das localidades onde laborou? princípio do juiz natural. Não poderia ser diferente, considerando que estamos diante de um princípio de natureza constitucional, que veda a adoção de juízos de exceção. Assim, disposto no do artigo da Resolução 345 de 2020 do CNJ se RODRIGUES PINTO, José. Op. cit. 159. coaduna com a Constituição e traz regra salutar na adoção do "Juízo 100% Digital". 30. 31. assim texto legal: "A competência das Juntas de Conciliação e Julgamento é determinada pela localidade onde empregado, reclamante ou reclamado, prestar serviços ao empregador, ainda que tenha sido contratado noutro local ou no estrangeiro". De se notar que texto de lei ainda menciona as 29. Lembre-se ao leitor que Regulamento 737 de 1850 é da época imperial; o CPC de 1939 foi editado "Juntas de Conciliação e Julgamento", malgrado a extinção do cargo de "juiz classista" desde a Emenda do em plena ditadura Vargas, assim como as regras processuais da CLT (Decreto 1.237/39), assim como Constitucional 24 de 1999, sem que dispositivo tenha sido adaptado à nova estrutura da Justiça CPC de 1973 foi publicado em plena ditadura militar. Trabalho no Brasil.86 THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR E MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 87 Malgrado a corrente majoritária se posicionar pela fixação da competência Pensamos que, embora esta seja a conclusão natural de uma interpretação no último lugar da prestação de serviços,³² não pensamos desta forma. É que a literal/gramatical do 1° do artigo 651 da CLT, também neste caso poderíamos norma deve ser interpretada sempre à luz do acesso à justiça. No exemplo prático pensar numa competência alternativa, de modo a permitir ao empregado a esco- acima, pensemos numa demanda onde único pleito fosse uma indenização por lha entre um dos foros acima discriminados, desde que facilitasse o acesso deste assédio moral sofrido na cidade de São Paulo, faria sentido o trabalhador ter que trabalhador à Justiça do Trabalho. Uma interpretação teleológica do instituto propor sua demanda em Belo Horizonte? Não nos parece razoável. nos parece mais adequada e mais consentânea com os objetivos da jurisdição Como já dito, a regra geral deve ter intepretação teleológica consentânea trabalhista e a efetivação dos direitos sociais no país. com o princípio da proteção do trabalhador e com o acesso à justiça da parte mais fraca na relação jurídica de direito material subjacente ao processo. A me- 6.3 A competência territorial para demandas de trabalhadores que lhor intepretação, portanto, deve ser a que prestigia estes dois princípios dando prestaram serviços no exterior ao trabalhador a possibilidade de escolher qualquer dos foros competentes, de Outro dispositivo interessante e que excepciona a regra geral acima mencio- acordo com o melhor acesso à justiça, ao invés de se exigir uma regra arbitrária nada, encontra-se no do artigo 651 da CLT. É o caso do trabalhador brasileiro de ajuizamento no derradeiro local da prestação de serviços. que presta serviços em "agência" ou "filial" da empresa no exterior. dispositivo A regra geral, contudo, comporta exceções na própria lei e também na evo- em comento se apressa em atestar a competência da Justiça do Trabalho brasi- lução da jurisprudência trabalhista, que passamos a examinar. leira, se trabalhador for brasileiro e não houver convenção coletiva em sentido contrário. Em verdade, trata-se de um dispositivo que se preocupou muito mais 6.2 A competência territorial para demandas de agentes ou viajantes em fixar a competência da Justiça do Trabalho brasileira, mas que de certa forma comerciais quedou-se silente quanto ao critério para fixar a competência territorial. No caso dos empregados agentes ou viajantes comerciais, a regra para fixa- Ora, a leitura do dispositivo não indica de forma clara qual seria a Vara ção da competência territorial passou a ser regida pelo do artigo 651 da CLT. do Trabalho competente no Brasil. Se o empregado brasileiro acaba prestando É que este tipo de trabalhador não presta serviços em uma única cidade, mas serviços na França, inexistindo convenção com este país em sentido contrário, em "praças", "zonas" ou "áreas" de atuação, que englobam todo um conjunto de a demanda deverá ser ajuizada no Brasil, mas em que foro? No da celebração do cidades ou regiões específicas de determinado Estado. Imaginemos um represen- contrato de trabalho? No local da sede do empregador no Brasil? No lugar onde tante comercial empregado, regido pela CLT, que desempenhe seu trabalho em o trabalhador fixar domicílio após seu retorno ao país? Com todo respeito ao toda Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro ou na "Zona da Mata" mineira. legislador obreiro, esta questão no do artigo 651 da CLT não restou clara. Sua prestação de serviços vai englobar uma série de cidades ao mesmo tempo, Uma primeira corrente, a mais prestigiada na doutrina e jurisprudência, realizado atividades em várias localidades de forma alternada, sem se fixar em parte de uma interpretação lógica do dispositivo em destaque. Ora, se o texto da apenas uma delas. lei fala que trabalhador vai prestar serviços em "agência" ou "filial" no exterior, A solução do legislador foi fixar uma competência territorial concorrente, é porque a sede do empregador está no Brasil (ou ao menos, uma "agência" ou porém sucessiva. Assim, teremos: a) em primeiro lugar, será competente a Vara "filial"). Em outras palavras, se a empresa não estiver presente em solo nacio- da localidade onde empregador tenha "agência" ou "filial" (dentre as cidades nal, não será possível ajuizamento de demanda perante a Justiça do Trabalho compreendidas na prestação de serviço do empregado) e a ela esteja o empregado brasileira. Esta nos parece a interpretação mais razoável e mais correlata ao subordinado; b) em segundo lugar, inexistindo "agência" ou "filial" nas localidades, texto de lei. De se notar que a regra em estudo excepciona a regra geral comen- será competente a Vara do domicílio do empregado, ou a Vara da localidade mais tada alhures e merece uma intepretação restritiva, sob pena de comprometer, próxima (regra do forum domicilii). inclusive, a duração razoável do processo, além de resultar em grande dilema para execução do julgado em relação a ente não presente em território nacional. Neste sentido, 32. Por todos citamos CARRION, Valentin, op. cit., página 505 e BEZERRA LEITE, Carlos Henrique, op. cit., p. 267. 33. Mauro. Op. cit., 335.88 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR E MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 89 (...) pensamos que a competência da Justiça do Trabalho brasileira, salvo convenção interna- forma mais ampliativa, quando mais favorável ao acesso à justiça do trabalhador. cional em sentido contrário, somente se aplicará se a empresa reclamada tiver agência ou filial Encontramos aqui o primeiro "degrau" na flexibilização da competência territorial no Brasil, caso contrário não haverá possibilidade de imposição da jurisdição trabalhista em trabalhista, já que o mencionado parágrafo passou a fundamentar decisões que território sujeito a outra soberania (princípio da territorialidade da jurisdição). Pensamos que a admitiam a opção pelo lugar da contratação do trabalhador, mesmo que fora das expressão empresa que tenha agência ou filial no estrangeiro, deve ser lida no sentido de que a empresa também tenha sede no Brasil. Sob enfoque, como referido dispositivo configura situações excepcionais às quais se destinava 0 dispositivo mencionado. Assim, um exceção à competência do local da prestação de serviços, a interpretação deve ser restritiva. trabalhador contratado em Belém do Pará, mesmo que prestasse serviços durante todo o seu contrato de trabalho em São Paulo (SP), poderia, ao ajuizar sua recla- Outra visão defende que não há que se interpretar restritivamente dispo- mação trabalhista, optar por quaisquer dos foros, sendo providencial a escolha da sitivo, como já dito, que deve estar em consonância com acesso à justiça. Não capital do Pará, principalmente se o ex-empregador voltasse a residir em sua cidade há na lei qualquer determinação expressa para que a empresa esteja sediada ou de origem. Corroborando tal interpretação, citamos a OJ 149 da SDI-2 do TST.³⁴ possua agência/filial em território nacional, bastando que empregado tenha Esta foi, de fato, a primeira flexibilização realizada pelos tribunais em relação sido contratado no Brasil, por analogia ao disposto no do artigo 651 da CLT. Eventual citação por carta rogatória supriria dificuldades técnicas do Judiciário à regra geral. Num país de dimensões continentais, com grande contingente de tra- balhadores rurais, um segundo degrau de flexibilização não tardaria a ser desvelado. e permitiriam ao trabalhador brasileiro acesso à justiça de seu país. Contudo Trata-se da hipótese de recrutamento ou de arregimentação de trabalhadores em mesmo tal posição é firme no sentido de que a contratação do trabalhador tem locais distintos da contratação e/ou da prestação de serviços. A prática de recrutar que ocorrer no Brasil. trabalhadores em determinada região do país e transportá-la para outra região, onde Por fim, há uma terceira posição ainda mais radical. Admite o ajuizamento da é formalizado o contrato e ocorre a prestação de serviços, tem a clara intenção de demanda trabalhista no Brasil no foro do domicílio em que se fixar o trabalhador dificultar o acesso à justiça. Afinal de contas, após o término da prestação de serviços, após a prestação de serviços no exterior, por analogia ao do artigo 651 da CLT. o trabalhador é transportado para o seu local de origem, onde foi arregimentado, dificultando o acesso à justiça, ainda que se utilizasse a regra do do artigo 651 da 6.4 § 3° do artigo 651 da CLT e os degraus de flexibilização da CLT. Os casos são inúmeros no Brasil, mas, por todos, citamos o caso de conhecida competência territorial trabalhista construtora condenada a pagar R$ 1,5 milhão de indenização por danos morais coletivos em razão de recrutar trabalhadores na região Nordeste (principal alvo Uma última exceção à regra geral encontra-se no do artigo 651 da CLT. deste tipo de prática), para canteiro de obras em Porto Velho (RO).³⁵ Trata-se do dispositivo que faculta ao empregado apresentar sua reclamação no foro da celebração do contrato ou no da prestação dos respectivos serviços, "em segundo degrau de flexibilização da competência territorial, portanto, se tratando de empregador que promova realização de atividades fora do lugar possibilita ao trabalhador ajuizar a demanda no local onde foi recrutado ou arregi- do contrato de trabalho". mentado, bem como no lugar da contratação ou da prestação de serviços. Note-se que nada de antijurídico se evidencia neste posicionamento, já que o próprio Uma primeira leitura do texto do dispositivo legal acima mencionado artigo 435 do Código Civil expressamente estabelece como lugar da celebração poderia sugerir uma contradição com o caput do artigo 651 da CLT. Contudo, o do contrato a localidade em que foi "proposto". Citamos o enunciado 07 firmado dispositivo em sua interpretação original se referia a casos de trabalhadores que na Jornada de Direito Material e Processual do Trabalho,³⁶ cujo teor acabou se prestavam serviços em locais incertos, transitórios ou eventuais. Pensemos, por difundindo em vários entendimentos do Tribunal Superior do Trabalho: exemplo, em um trabalhador que presta serviços para uma empresa construtora de pontes ou de estradas. Em cada período de seu contrato estará laborando em 34. Eis o teor: "Não cabe declaração de ofício de incompetência territorial no caso do uso, pelo trabalhador, localidades diferentes, em períodos inconstantes e transitórios. Ou então, pense- da faculdade prevista no art. 651, da CLT. Nessa hipótese, resolve-se conflito pelo reconhecimento mos no trabalhador de um circo, que segue em turnê por várias cidades do Brasil da competência do juízo do local onde a ação foi proposta". por tempo indefinido. Originariamente, era para tais casos específicos a previsão 35. Vide matéria Acesso em: 17 jul. 2022. do do artigo 651 da CLT. 36. Jornada realizada pela ANAMATRA (Associação Nacional de Magistrados do Trabalho) ea ENAMAT (Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados do Trabalho) nos dias 22 e 23 de Contudo, ao longo do tempo, principalmente após a Constituição de 1988, novembro de 2007, na sede do Tribunal. Superior do Trabalho (TST), com a participação de juízes do os tribunais trabalhistas passaram a interpretar o do artigo 651 da CLT de trabalho de todo o país, que resultou na produção de vários não vinculativos.90 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR E MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 91 Acesso à justiça. CLT, art. 651, § Interpretação Conforme a Constituição. Art. 5°, inc. XXXV, Em nosso sentir, a digitalização dos serviços judiciais, com instrumentos da Constituição da República. Em se tratando de empregador que arregimente empregado como o balcão virtual, as audiências telepresenciais, os despachos por videoconfe- domiciliado em outro município ou outro Estado da federação, poderá o trabalhador optar por ingressar com a reclamatória na Vara do Trabalho de seu domicílio, na do local da contratação rência, inexoravelmente levarão à superação das regras de competência territorial ou na do local da prestação dos serviços. tal qual delineadas no artigo 651 da CLT. "Juízo 100% Digital", embora ainda sem previsão neste sentido na Resolução 245 de 2020 do CNJ que o regulamentou, princípio do acesso à justiça, contudo, levou a um terceiro grau de flexibi- representará forte impacto nas diretrizes clássicas de competência territorial. lização. Fato é que muitas empresas demandadas na Justiça do Trabalho possuem atuação regional ou nacional, com várias filiais em muitas cidades e regiões do país. Se todos os atos processuais serão realizados de forma virtual, se as audiências Vários precedentes firmados pelo TST, seja em Turmas, seja nas Seções Especiali- para oitiva de partes e testemunhas serão realizadas por videoconferência (com zadas (SDI-1 e passaram a firmar o entendimento de que o empregado acesso de qualquer lugar do país e até do exterior), se os despachos com o Juiz e poderia optar pelo foro de seu domicílio, desde que a empresa reclamada prestasse atendimento por servidores também se dará de forma remota, não há razão jurídica, serviços regularmente em diversas localidades do território nacional, já que, técnica ou prática, para que se flexibilize, de uma forma mais incisiva, a obrigato- neste caso, a reclamada teria assegurado seu amplo direito de defesa. Pensemos riedade do trabalhador ajuizar sua demanda na localidade onde prestou serviços. em uma trabalhadora que prestasse serviços em agência bancária no interior de Um dos coautores da presente obra, no exercício da magistratura do trabalho como Pernambuco, mas que após ser demitida venha a residir com a família na cidade titular da Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, já ouviu testemunhas residentes de São Paulo (SP). Em sendo o Banco empresa de atuação nacional, com agências em Coimbra, Portugal e em Quebec, no Canadá. Depoimentos que transcorreram em todas as cidades de médio e grande porte do país, considerando seu vasto âm- de forma ordeira e eficaz, o que exigiu do magistrado apenas uma preocupação de bito de atuação, a possibilidade de opção pelo foro do domicílio da trabalhadora adequação dos fusos horários em relação à Europa e América do Norte. se nos afigura consentânea aos princípios da proteção bem como ao objetivo de Nem mesmo eventual necessidade de perícia no ambiente de trabalho ou de facilitação de acesso do hipossuficiente à justiça, que, como já dito anteriormente, inspeção judicial, podem afastar a conclusão de que novas regras de competên- são a razão de ser das regras de competência territorial trabalhista. cia territorial precisam ser elaboradas, de lege ferenda. A Resolução 317 de 2020 Pode-se então concluir, por ora, que a regra geral da competência territorial tra- do CNJ já regulamentou as perícias telepresenciais e nada impede que o Juiz do balhista, além das exceções previstas nos e do artigo 651 da CLT, experimen- Trabalho, com autorização da empresa, realize inspeção judicial instantânea, tou três degraus de flexibilização, hoje perfeitamente assentados na jurisprudência durante uma audiência de instrução, nas localidades da empresa, para evidenciar trabalhista: a) uma interpretação ampliativa do do artigo 651 da CLT, permitindo certos fatos que sejam objetos de controvérsias em processo judicial. Tudo isso aos trabalhadores, em qualquer situação, optar pelo foro da celebração do contrato, com custo bem menor de deslocamento e com grande ganho de celeridade para independentemente da prestação de serviços em outra localidade ser transitória, o trâmite das demandas. eventual, fixa ou permanente; b) a possibilidade de ajuizamento da reclamação na Pensamos que a escolha do foro territorial competente para apreciação das localidade de "recrutamento" ou "arregimentação" do trabalhador, mesmo que demandas trabalhistas no "Juízo 100% Digital" e no novo Judiciário que está diferente da localidade da contratação "formal" ou da prestação de serviços; c) por surgindo em nosso país, deve ser do trabalhador. As dificuldades de acesso à fim, a possibilidade de ajuizamento no foro do domicílio do trabalhador, sempre justiça que se apresentavam na década de 40, quando a CLT foi promulgada são que favorecer o acesso à justiça e nos casos da empresa reclamada possuir atuação de outra jaez nos tempos em que vivemos. Superadas as dificuldades de conexão nacional ou regional que viabilize seu amplo direito de defesa. e de acesso à internet, será natural caminhar para fixação de regras mais fluidas de competência territorial, de modo a permitir um amplo acesso ao Poder Judi- 6.5 Justiça digital e competência territorial: por um novo paradigma ciário trabalhista. Todas estas questões atinentes à competência territorial acima expostas, nos Uma palavra final ainda nos cabe. Há objeção a um repensar de regras de levam à seguinte indagação: o que a Justiça Digital impactará em todas estas regras? competência territorial com argumento de que juiz territorial possui maior conhecimento das peculiaridades dos casos da região onde atua. Tal circunstância motivaria a manutenção da regra geral de fixação da competência pelo local da 37. TST-E-RR-420-37.2012.5.04.0102 Relator Ministro Renato de Lacerda Paiva, SBDI-1, DEJT prestação de serviços.92 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR E MARCOS DIAS DE CASTRO PROCESSO DO TRABALHO E DIREITO DIGITAL 93 Não concordamos com tal visão. A realidade dos trabalhadores no mundo do demanda no local da prestação de serviços perde sentido diante de uma Justiça trabalho, nos tempos atuais, se aproximou de uma maneira muito rápida. As novas que pode ser acessada de todos os lugares e provocada em qualquer tempo (diante tecnologias, a Indústria 4.0, as novas ferramentas de trabalho diminuíram o fosso da realidade do Processo Judicial Eletrônico). A ruptura com o artigo 651 da CLT que separava trabalhadores de grandes centros daqueles de pequenas cidades de e sua imperatividade, em nosso sentir, será apenas questão de tempo. interior. Os dilemas, preocupações, lesões a direitos trabalhistas se assemelham Deste modo, com este trabalho esperamos contribuir para que a Justiça Digi- de forma cada vez mais intensa, sendo até ingênua a ideia de que apenas juiz tal prossiga na nobre função de distribuir Justiça no país, ainda mais em se tratando territorial terá uma exata compreensão de conflitos trabalhistas locais. Permitir dos direitos do trabalho, de fortíssima conotação social. É imperioso que todos que o trabalhador possa escolher o foro que melhor lhe garanta o acesso à justiça estes novos institutos sejam objeto de reflexão, aprofundamento e sopesamento parece-nos uma solução mais eficiente e até mesmo urgente, com a restrição das de seus aspectos positivos e negativos, sempre pensando no aprimoramento da regras do artigo 651 da CLT apenas aos processos físicos, cada vez mais raro na principal função do Poder Judiciário que é a ministração e administração da realidade forense trabalhista. Justiça. A Justiça 4.0 ou "Juízo 100% Digital" devem ser objeto permanente de melhorias, críticas e reflexões, para que não reproduzam critérios de injustiça. 7. CONCLUSÃO Pensar diferente seria olvidar as palavras de Martin Luther King Jr., para quem "injustice anywhere is threat to justice Este trabalho teve o objetivo de analisar os principais impactos que o Di- reito Digital propiciara às regras processuais trabalhistas, dentro da perspectiva REFERÊNCIAS que também a Justiça do Trabalho não ficou imune às alterações alvissareiras na prestação da jurisdição. ALMEIDA, Cleber Lúcio de. Direito Processual do Trabalho. 7. ed. Salvador: JusPodivm, 2019. Se por um lado, reafirmamos a autonomia do direito processual do trabalho Mauro e GARTH, Bryant. Acesso à Justiça. Trad. Ellen Gracie Northfleet. Porto em relação às regras processuais civis, por outro lado, é inegável que as alterações Alegre. 1991. no campo da tecnologia em muito modificarão a atuação da Justiça do Trabalho BATALHA, Wilson Campos. Tratado de Direito Judiciário do Trabalho. São Paulo: LTr, 1995. v.I. e as regras processuais trabalhistas. Neste ponto, as alterações que vieram à lume BERBERI, Marco Antonio Lima; HANTHORNE, Bruna de Oliveira Cordeiro. Aspectos controver- pela atuação do CNJ em várias Resoluções regulamentadoras de institutos novos tidos no uso da prova digital no ordenamento jurídico brasileiro. International Journal of Digital Law, ano 2,n.2,p. 137-165, Belo Horizonte, maio/ago. 2021. DOI: n.2. como "Balcão Virtual", "Justiça 100% Digital", "Audiências Telepresenciais" não diferenciam os ramos do direito processual que, em maior ou menor extensão BEZERRA LEITE, Carlos Henrique. Curso de Direito Processual do Trabalho. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 2021. e com peculiaridades próprias de cada um, igualmente sofrerão modificações profundas e estruturais. BRASIL. Decreto-Lei 5.452, de de maio de 1943. Aprova a Consolidação das Leis do Trabalho. Disponível em: As provas digitais, em sua concepção moderna, também impactarão de forma BRASIL. Lei 5.869, de 11 de janeiro de 1973. Institui Código de Processo Disponível em: acentuada as instruções na Justiça do Trabalho e por que não dizer, o acesso à jus- http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L5869.htm. tiça. Como dito no presente trabalho, o direito processual trabalhista que sempre BRASIL. Lei 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Disponível em: http://www. priorizou a prova oral por conta do princípio da primazia da realidade, passará a analisar a realidade de material probatório produzido no mundo digital, que, BRASIL. Lei 13467, de 13 de julho de 2017. Altera a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), apro- de certa forma, trará mais segurança aos julgados, aproximando o magistrado vada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1° de maio de 1943, e as Leis nos 6.019, de 3 de janeiro de dos fatos tal qual se reproduziram. As oportunidades na execução trabalhista, 1974, de 11 de maio de 1990, 8.212, de 24 de julho de 1991, a fim de adequar a legislação às novas relações de trabalho. Disponível em: por igual, são incontáveis. Situações de "blindagem patrimonial", "ocultação de patrimônio", "sociedades de fachada" serão cada vez menos difíceis de combater CAIRO JR., José. Curso de Direito Processual do Trabalho. 14. ed. Salvador: Jus podium, 2019. em prol da efetiva consecução do crédito trabalhista. Por fim, a questão da competência territorial, por igual, que já vinha em pro- cesso de flexibilização quanto às suas regras essenciais, sofrerá grande impacto no 38. Tradução livre: "a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em toda a parte". Letter from the novo Judiciário que já surge no país. A obrigação de que trabalhador ajuíze sua Birmingham Jail (Carta de uma prisão em Birmingham, 16 de abril de 1963).94 JOÃO THEOTONIO MENDES DE ALMEIDA JUNIOR E MARCOS DIAS DE CASTRO CARRION, Valentin. Comentários à Consolidação das Leis do Trabalho. 30. ed. São Paulo. São Paulo: DIREITO DO TRABALHO NA ERA DIGITAL Saraiva, 2005. CNJ. Resolução 372, de 12/02/2021. Regulamenta a criação de plataforma de videoconferência denomi- TELETRABALHO, NÔMADES DIGITAIS E nada Virtual". Disponível dc26a38d2 Acesso em: 18 de julho de 2022. PROTEÇÃO DE DADOS DINAMARCO, Rangel. LOPES, Bruno Vasconcelos Carrilho. Teoria geral do novo processo 2. ed. São Paulo: 2017. Theotonio Mendes de Almeida ECONOMIDES, Kim. Lendo as ondas do "Movimento de Acesso à Justiça": epistemologia versus metodologia? In: PANDOLFI, Dulce et al Cidadania, justiça e Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getúlio Vargas, Ricardo Peake FONTENELELEMOS, D., HOMSI L., & GONÇALVES MOTA, R. (2021). A prova digital no direito processual civil brasileiro. Revista Escola Superior Do Ministério Público Do Ceará, 13(1), FUX, Luiz. Processo civil Rio de Janeiro: Forense, 2019. Sumário: Introdução 1.0 mundo do trabalho na terceira década do século XXI. Breve situada nos últimos acontecimentos 2. Exemplo do mundo digital nas relações de trabalho fase GARCIA, Gustavo Filipe Barbosa. Direito Processual do Trabalho. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2020. pré-contratual, busca do primeiro estágio 3. A disciplina legal do teletrabalho no Brasil; NUNES, MARQUES, Ana Luiz Pinto Coelho. Inteligência Artificial e Direito Processual: 3.1 Conceito e diferenças entre trabalho externo e o "velho" trabalho em 0 que Vieses Algorítmicos e os Riscos de Atribuição de Função Decisória às Máquinas. Revista dos caracteriza teletrabalho? (o uso da tecnologia); 3.20 custeio dos equipamentos e despesas; Tribunais Processo, 285v., 4372018. medidas de saúde e segurança no trabalho; 3.3 A questão da jornada de trabalho: afinal de contas, teletrabalhador tem ou não direito a horas extras? 4. Nômades digitais; 4.1 Con- RODRIGUES PINTO, JOSÉ Processo trabalhista de conhecimento. 7. ed. São Paulo: ceito; 4.2 Problemas de aplicação da lei no espaço: qual a legislação trabalhista aplicável?; 4.3 LTr. 2005. Aspectos fiscais, previdenciários, migratórios 5. Proteção de dados e direito do trabalho; 5.1 A proteção de dados como direito fundamental; 5.2 A proteção dos dados pessoais e sensi- SARLET, Ingo Wolfgang. BARBOSA, Jeferson Ferreira. LEAL, Augusto Antônio Fontanive. SI- veis no contexto das relações de trabalho: limites e possibilidades; 5.3 Fim da Privacidade? QUEIRA, Andressa de Bittencourt (Org.), Direitos Fundamentais: os desafios da igualdade e Panoptismo corporativo. Data Protection Officer e o Chief Compliance Officer: instrumentos da tecnologia num mundo em transformação. Porto Alegre, RS: Editora Fundação Fênix, 2020. de proteção ou de controle? - 6.0 teletrabalho dos operadores do direito: o processo digital SCHWAB, Klaus, A quarta revolução industrial. Trad. Daniel Moreira Miranda. São Paulo: Edipro, 7. Conclusão Referências. 2016 SCHIAVI, Mauro. Manual de Direito Processual do Trabalho. 17. ed. Salvador: JusPodium, 2021. TEIXEIRA FILHO, Manoel Antônio. Curso de Direito Processual do São Paulo: LTr, 2009. INTRODUÇÃO THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual 50 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2017. III. Muito honrados com o convite da Professora Anna Carolina Pinho, colega de mestrado na Universidade Candido Mendes, tivemos a oportunidade de dividir THAMAY, Rennan; TAMER, Maurício. Provas no Direito Digital Conceito da prova digital, pro- cedimentos, provas digitais em espécie. São Paulo: RT, 2020. a pesquisa e elaboração deste artigo com meu dileto amigo Ricardo Peake Braga, ZANON, João Direito à Proteção dos Dados São Paulo: Ed. RT, 2013. que aceitou o encargo de escrever a quatro mãos o artigo que se segue. Bacharel e Mestre em Direito pela Universidade Candido Mendes. Doutor em Ciência Política pelo Membro do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) onde além de Procurador, é Membro da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa, Membro da Comissão de Direito do Trabalho, Membro da Comissão de Defesa das Pessoas com Deficiência e Membro Permanente da Comissão Admissão de Sócios. Membro da União dos Juristas Católicos do Rio de Janeiro. ** Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo USP, Executive LLM em Direito Empresarial pela C.E.U. Law School, Conselheiro do Instituto dos Advogados de São Paulo, Conselheiro do Conselho Superior de Relações do Trabalho (Cort Fiesp), Ex-presidente do TED VI (Sexta Turma do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/SP. Jurídico adjunto da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e