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INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA – IPEA
REINTEGRAÇÃO SOCIAL: UMA ANÁLISE
QUALITATIVA COMPARATIVA ENTRE CASOS DO
PROGRAMA RESSOCIALIZA DF
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
CARLOS EDUARDO OLIVEIRA
BRASÍLIA-DF
2025
CARLOS EDUARDO OLIVEIRA
REINTEGRAÇÃO SOCIAL: UMA ANÁLISE
QUALITATIVA COMPARATIVA ENTRE CASOS DO
PROGRAMA RESSOCIALIZA DF
Dissertação apresentada ao Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (IPEA), como parte das
exigências do Programa de Pós-Graduação em
Políticas Públicas e Desenvolvimento, área de
concentração em Economia, para a obtenção do
título de Mestre.
Prof. Dr. Almir de Oliveira Júnior
BRASÍLIA-DF
2025
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____________________________________________________________________
O48
Oliveira, Carlos Eduardo.
Reintegração social : uma análise qualitativa comparativa entre casos do
Programa Ressocializa DF / Carlos Eduardo Oliveira – Brasília : Ipea, 2025.
149 f.
Dissertação (mestrado) – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada,
Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Desenvolvimento, área
de concentração em Economia, 2025.
Orientação: Dr. Almir de Oliveira Junior
Inclui Bibliografia.
1. Reintegração Social. 2. Análise Qualitativa Comparativa. 3.
Criminologia Crítica. 4. Desistência Criminal. 5. Ressocialização. I. Oliveira
Junior, Almir de. II. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. III. Título.
CDD 363.28
____________________________________________________________________
Ficha catalográfica elaborada por Andréa de M. Sampaio CRB-1/1650
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CARLOS EDUARDO OLIVEIRA
REINTEGRAÇÃO SOCIAL: UMA ANÁLISE
QUALITATIVA COMPARATIVA ENTRE CASOS DO
PROGRAMA RESSOCIALIZA DF
Dissertação apresentada ao Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (IPEA), como parte das
exigências do Programa de Pós-Graduação em
Políticas Públicas e Desenvolvimento, área de
concentração em Economia, para a obtenção do
título de Mestre.
Defendida em 18 de dezembro de 2025
COMISSÃO JULGADORA
_____________________________________________________________________
Profa. Dra. Tatiana Daré Araújo – UnB
_____________________________________________________________________
Prof. Dr. Daniel Pitangueira de Avelino – IPEA
_____________________________________________________________________
Prof. Dr. Almir de Oliveira Júnior
BRASÍLIA-DF
2025
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Aos meus professores do IPEA,
pela generosidade intelectual,
e ao meu filho, Cainan Oliveira,
como símbolo de continuidade e
busca permanente pelo conhecimento.
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AGRADECIMENTOS
Agradeço, primeiramente, aos meus pais, por terem acreditado desde sempre no valor
dos estudos e de uma educação de qualidade. Agradeço à Keila, pela parceria, companhia e
compreensão, sobretudo nos momentos de ausência, estresse e fadiga, que não foram raros ao
longo de todo o processo.
Agradeço ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) pela oportunidade de
aprendizado proporcionada por meio do Programa de Mestrado Profissional em Políticas
Públicas e Desenvolvimento. Agradeço solenemente a todos os professores do mestrado, com
os quais tive a grata oportunidade de aprender, em especial ao professor Dr. Almir de Oliveira
Júnior, meu orientador, e ao professor Dr. Daniel Pitangueira de Avelino, pelos insights
primorosos e pelo encorajamento ao longo dos trabalhos. Estendo meus agradecimentos aos
demais participantes das bancas de qualificação e de defesa, com menção adicional à
professora Dra. Tatiana Daré Araújo.
Agradeço, com especial carinho, aos colegas de turma, pela convivência, ao longo de
toda a jornada, construída com reciprocidade, atenção e respeito mútuos.
Agradeço, de modo especial, à Fundação Nacional de Amparo ao Trabalhador Preso
(FUNAP), em particular à sua diretora executiva, Deuselita Pereira Martins, pela viabilização
dos acessos necessários à condução desta pesquisa, bem como aos demais servidores e
colaboradores da Fundação, pela assessoria e pela prontidão fundamentais ao seu
desenvolvimento.
Por fim, agradeço aos egressos do sistema prisional do Distrito Federal que
participaram da pesquisa, pela honestidade e pela confiança na proposta deste estudo.
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"A técnica penitenciária e o homem delinquente são, de algum modo, irmãos gêmeos."
Michel Foucault, Surveiller et Punir (1975)
"A justiça criminal é implacável.
Tiram sua liberdade, família e moral.
Mesmo longe do sistema carcerário,
te chamarão pra sempre de ex-presidiário."
Mano Brown, Racionais MC’s – O Homem na Estrada (1993)
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Lista de Símbolos e Abreviaturas
BCCRIM – Boletim do Centro de Criminologia
CAAP – Centro de Apoio ao Apenado
CDP – Centro de Detenção Provisória
CIR – Centro de Internamento e Reeducação
CNJ – Conselho Nacional de Justiça
CPP – Centro de Progressão Penitenciária
CRAS – Centro de Referência de Assistência Social
CREAS – Centro de Referência Especializado de Assistência Social
DEPEN – Departamento Penitenciário Nacional
DF – Distrito Federal
DIRPP – Diretoria de Políticas Penitenciárias
DPOE – Departamento de Políticas Operacionais e Especializadas
FBSP – Fórum Brasileiro de Segurança Pública
fsQCA – Fuzzy-set Qualitative Comparative Analysis
FUNAP – Fundação de Amparo ao Preso
GAPPE – Grupo de Análise e Pesquisas Econômicas
GDF – Governo do Distrito Federal
IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
LEP – Lei de Execução Penal
MJSP – Ministério da Justiça e Segurança Pública
ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
OEA – Organização dos Estados Americanos
ONU – Organização das Nações Unidas
ONASP – Oficina Nacional de Segurança Pública
PNAT – Procuradoria Nacional de Atendimento ao Trabalhador
QCA – Qualitative Comparative Analysis
RELIPEN – Rede de Informações Penitenciárias
SAP – Secretaria de Administração Penitenciária
SEAPE – Secretaria de Estado de Administração Penitenciária
SEJUS – Secretaria de Justiça e Segurança Pública
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SENAC – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial
STJ – Superior Tribunal de Justiça
TCLE – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
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Lista de Figuras
Figura 1 – Distribuição temporal da reincidência ....................................................................34
Figura 2 – Proporção de egressos com alta reintegração (RE_EFETIVA ≥ 0.90) ....................75
Figura 3 – Média de Pertencimento ao Conjunto RE_EFETIVA por Tempo no Programa .....76
Figura 4 – Nível Médio de Pertencimento entre as Dimensões Causais ..................................77
Figura 5 – Distribuição dos entrevistados por faixa etária .......................................................87
Figura 6 – Distribuição dos entrevistados por gênero ..............................................................87
Figura 7 – Concentração da baixa escolaridade entre os entrevistados ....................................88
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Lista de Quadros
Quadro 1 – Comparativo entre os Decretos 24.193/2003 e 43.824/2022 .................................31
Quadro 2 – Composição das variáveis causais da análise QCA ...............................................42
Quadro 3 – Variáveis componentes do fator RE_ESTRUTURAL ...........................................44
Quadro 4 – Variáveis componentes do fator RE_SOCIAL ......................................................46
Quadro 5 – Variáveis componentes do fator RE_PESSOAL ...................................................47
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Lista de Tabelas
Tabela 1 – Indicadores do Sistema Penitenciário Brasileiro e do Distrito Federal ..................25
Tabela 2 – Crimes mais frequentes após o primeiro delito .......................................................33
Tabela 3 – Taxas de reincidência no DF ...................................................................................35
Tabela 4 – Reincidência DF - Unidades Penais ........................................................................36
Tabela 5 – Classificação da Reintegraçãode Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, em especial o ODS 4,
meta 4.5, para 2030, sobre educação de qualidade, comprometem o Estado brasileiro com a
oferta de ensino para grupos em situação de vulnerabilidade, incluindo pessoas em privação
de liberdade.
O ordenamento jurídico brasileiro também evoluiu em termos de políticas públicas
específicas direcionadas ao trabalho e à educação no sistema prisional. No âmbito federal,
destaca-se o Decreto nº 9.450, de 24 de julho de 2018, que instituiu a Política Nacional de
Trabalho no Âmbito do Sistema Prisional (PNAT). No campo educacional, o Decreto nº
7.626, de 24 de novembro de 2011, instituiu o Plano Estratégico de Educação no Sistema
Prisional, com a finalidade de ampliar e qualificar a oferta de educação nos estabelecimentos
penais.
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O sistema de justiça e os órgãos de controle têm desempenhado papel relevante na
institucionalização da política de reintegração. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ)
instituiu iniciativas estruturantes, como o Programa Começar de Novo (2009), e editou a
Resolução CNJ nº 391/2021, que estabelece critérios para a remição pela leitura, além da
Resolução CNJ nº 307/2019 que instituiu a Política de Atenção às Pessoas Egressas do
Sistema Prisional.
Esse conjunto de marcos legais e institucionais, que se estende da Constituição às leis
infraconstitucionais, dos tratados internacionais às recomendações e resoluções dos órgãos do
sistema de justiça, evidencia a consolidação de um quadro normativo robusto e multifacetado,
que fundamenta juridicamente as políticas públicas de reintegração social no país. Contudo,
essa !polity” da reintegração contrasta com a realidade pouco estruturada dos presídios
brasileiros, conforme veremos a seguir.
3.1 Estrutura do Sistema Prisional Brasileiro
O sistema prisional brasileiro caracteriza-se por desafios crônicos e persistentes, que
se manifestam em um cenário de superlotação penitenciária (BRASIL, 2025; FBSP, 2024),
precarização das condições materiais de custódia (SOUSA; OLIVEIRA FILHO, 2016;
FIDALGO; FIDALGO, 2017) e insuficiência de oferta educacional e oportunidades de
trabalho (JULIÃO, 2009; BRAGA, 2012; CARNEIRO, 2022). Somam-se a esse quadro o
desprovimento sistemático de políticas de atenção à pessoa privada de liberdade (ANDRADE
et al., 2015; CORRÊA, 2022), o déficit crônico de pessoal da administração penitenciária
(IPEA, 2015; CNJ, 2025) e a influência e o controle de facções criminosas no interior dos
presídios (ADORNO; SALLA, 2007). Este conjunto de mazelas opera sobre uma população
majoritariamente pobre, jovem e marginalizada, evidenciando a seletividade penal do sistema
(ZAFFARONI, 2001; 2007), e tem como resultado mais visível a alta taxa de reincidência
criminal, principal indicador de seu fracasso (CARRILLO et al., 2022; LIMA et al., 2025).
A conformação contemporânea do sistema prisional brasileiro é fruto de um longo
processo histórico que consolidou a prisão como instrumento disciplinar e mecanismo de
controle social. Conforme retrata Fidalgo (2017), desde o período colonial o encarceramento
foi utilizado de forma seletiva, inicialmente voltado à repressão de populações escravizadas e
posteriormente direcionado a grupos marginalizados, evidenciando a lógica estrutural de
exclusão que marca a formação social brasileira. No século XIX, com a implantação das casas
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de correção e a adoção dos modelos europeus de higienização social, fortaleceu-se a
racionalidade punitiva baseada no confinamento disciplinar, no silêncio e na moralização
religiosa do comportamento, elementos que perduram no imaginário institucional até a
atualidade.
As promulgações da Lei de Execução Penal (1984) e da Constituição Federal de 1988
buscaram redirecionar essa trajetória, incorporando princípios de dignidade humana,
responsabilização social e reintegração social do apenado enquanto sujeito de direitos. Nesse
sentido, a LEP estabelece, de forma explícita, que a pena deve propiciar condições de retorno
ao convívio social, garantindo ao custodiado acesso a trabalho, educação, assistência técnica,
jurídica, médica, social e religiosa.
Todavia, segundo informações do Relatório de Informações Penais – RELIPEN
(2024), há persistência de um cenário crítico no sistema prisional brasileiro, caracterizado por
índices alarmantes de superlotação e infraestrutura inadequada. No segundo semestre de
2024, o país registrou uma população prisional de 670.265 pessoas apenas em celas físicas,
diante de uma capacidade instalada de 494.379 vagas, produzindo um déficit estrutural de
175.886 vagas. Além disso, apenas 25,4% da população encarcerada dos Estados está
vinculada a alguma atividade laboral (RELIPEN, 2024), o que evidencia a escassez na
implementação da política de trabalho prisional como instrumento de reintegração social.
A centralidade do discurso de encarceramento como resposta de segurança pública aos
problemas advindos da criminalidade urbana, geralmente metropolitana, intensificou-se nas
últimas décadas, período em que a população carcerária cresceu de forma acelerada e
contínua (FBSP, 2024; RELIPEN, 2025). Tal projeto reflete a consolidação de um modelo de
política criminal baseado na expansão do aprisionamento (ZAFFARONI, 2007; ADORNO,
2007) e influenciado por demandas punitivas da opinião pública e por agendas de segurança
pública centradas na repressão — o chamado "populismo penal" (ZAFFARONI, 2007;
PEREIRA, 2025). Esse fenômeno, associado à fragilidade de políticas preventivas e de
inclusão social (MOURA; RIBEIRO, 2006), contribui para a constituição de trajetória
carcerária que muitas vezes se inicia com entrada precoce no sistema (JULIÃO, 2016) e se
converte em ciclos repetitivos de retorno, traduzindo-se em elevados índices de reincidência
criminal (CARRILLO et al., 2022).
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Conforme apontado pelo Observatório Nacional do Sistema Prisional – ONASP
(2024), elementos como a presença de facções criminosas dentro das unidades, restrições
severas ao acesso à educação e ao trabalho, falhas profundas na oferta de saúde e assistência
social e denúncias recorrentes de violações de direitos humanos são fatores que impactam
diretamente a efetividade de políticas de reintegração social.
Nesse contexto, torna-se evidente que qualquer análise sobre políticas de reintegração
social deve considerar a prisão não apenas como instituição jurídica, mas como um sistema
sociopolítico complexo e historicamente marcado pela reprodução de desigualdades. Para
esses fins, o encarceramento opera como mecanismo estrutural de gestão da marginalidade e
da exclusão, jamais como instrumento de reconstrução de trajetórias e de inclusão daqueles
que, em sua maioria, foram historicamente excluídos, revelando-se, portanto, incompatível
com o ideal normativo que o integra.
3.1.1 Estrutura do Sistema Prisional do Distrito Federal
A configuração atual do sistema prisional do Distrito Federal – DF, por sua vez, deve
ser compreendida a partir de seu enraizamento no modelo penal historicamente consolidado
no país, estruturalmente marcado por racionalidade disciplinar e punitivismo. Assim como no
cenário nacional, a arquitetura carcerária do DF reproduz elementos do legado colonial e
escravista que, conforme demonstra Fidalgo (2017), orientaram a prisão desde seu surgimento
como instrumento de controle social seletivo, inicialmente voltado à repressão de populações
escravizadas e, posteriormente, à contenção de grupos vulnerabilizados socialmente. Tendo
essa matriz de poder disciplinar se estruturado no século XIX com a implantação das
chamadas casas de correção.
Nesse sentido, dados do 17º Ciclo do Relatório de Informações Penais – RELIPEN
(2024) revelam um quadro crítico que caracteriza o sistema prisional local como igualmente
comprometido por superlotação, baixo acesso ao trabalho carcerário e escassez de
oportunidadeseducacionais. No DF, a população carcerária registrada no segundo semestre de
2024 alcançou 16.128 pessoas privadas de liberdade, distribuídas entre regimes fechado e
semiaberto, enquanto a capacidade instalada é de 10.612 vagas, produzindo um déficit
estrutural de 5.516 vagas.
Paradoxalmente, do total de presos no DF, no ano de 2024, apenas cerca de 3.707
estavam inseridas em atividades laborais, o que representa aproximadamente 23% da
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população custodiada, índice inferior à média nacional de 25,4% (RELIPEN, 2024). Essa
discrepância revela insuficiência de políticas estruturadas de trabalho prisional. A proporção
de presos provisórios no DF alcança 44%, segundo dados do Painel de Execução Penal do
CNJ (2023), taxa substancialmente maior do que a média nacional de 31,4%. Tal prevalência
intensifica a crise do encarceramento, uma vez que pessoas ainda não condenadas
compartilham o mesmo ambiente institucional de condenados, contribuindo para a expansão
de dinâmicas de recrutamento criminal e agravamento do contexto penal do DF. Esses dados
são sintetizados na tabela a seguir:
Tabela 1 – Indicadores do Sistema Penitenciário Brasileiro e do Distrito Federal
Fonte: RELIPEN (2024) e CNJ (2023)
Tais indicadores, além de revelarem a profundidade dos desafios enfrentados pelo
sistema prisional do DF, demonstram que a promessa ressocializadora prevista em lei
permanece em grande medida inviabilizada pelas conjunturas estrutural e institucional da
prisão. Conforme reiteram os relatórios do Observatório Nacional do Sistema Prisional –
ONASP (2024), a superpopulação carcerária compromete a oferta de atividades laborais e
educacionais, enquanto a presença de facções e práticas reiteradas de violação de direitos
humanos tensionam permanentemente a governança penitenciária.
Indicador Brasil DF
População carcerária total (regimes
fechado, semiaberto e aberto)
670.265 pessoas 16.128 pessoas
Capacidade instalada do sistema
prisional
494.379 vagas 10.612 vagas
Déficit de vagas 175.886 vagas 5.516 vagas
Presos em atividade laboral 170.415 (25,4% do total) 3.707 pessoas
Proporção de presos provisórios 31,4% do total 44% do total
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Por isso, é imperativo compreender que as políticas de reintegração social não podem
ser avaliadas de forma isolada, mas sim à luz das condições institucionais nas quais se
materializam. Na seção dedicada à triangulação dos resultados, este princípio será explorado
em profundidade. Demonstraremos, empiricamente, como a precariedade estrutural do
sistema prisional, a violência endêmica intramuros — perpetrada tanto por agentes
penitenciários quanto entre os próprios presos —, e os históricos de exclusão social atuam de
forma sinérgica, criando um contexto que sistematicamente opera na contramão das políticas
de reintegração.
3.1.2 Perfil e Distribuição das Unidades Prisionais do Distrito Federal
O sistema penitenciário do Distrito Federal estrutura-se a partir de um conjunto de
unidades organizadas conforme o regime de pena, perfil dos custodiados e dinâmica
processual, sob gestão da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAPE),
vinculada à Secretaria de Justiça e Cidadania (SEJUS). Caracteriza-se como uma das redes
mais complexas do país, não apenas pela diversidade de estabelecimentos, mas também pela
centralidade que assume no cenário federativo.
Seu eixo principal concentra-se no Complexo Penitenciário da Papuda, na cidade do
Jardim Botânico, que abriga a população masculina, e no Complexo Penitenciário Feminino,
localizado na cidade do Gama. As unidades masculinas são formalmente estruturadas para
atender a diferentes fases processuais e penais, que vão da custódia provisória ao regime
semiaberto.
Entre as unidades destacam-se:
• Centro de Detenção Provisória (CDP): Destinado a presos não sentenciados, é
marcado por alta rotatividade e instabilidade. Embora apresente taxa de reincidência
menor que a de outras unidades, conforme indicado na seção 3.5, constitui ambiente
propício à formação de redes criminosas e à reprodução de vulnerabilidades
(ANDRADE et al, 2015).
• Centro de Internamento e Reeducação (CIR): Voltado ao regime semiaberto,
registra o maior índice de reincidência do sistema – 78,4% em cinco anos, segundo
Carrillo et al. (2022). A precária oferta de formação educacional e laboral nesta
unidade reforça ciclos de exclusão e retorno ao crime (CARRILLO et al., 2022).
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• Centro de Progressão Penitenciária (CPP): Atende internos em semiaberto com
acesso a trabalho externo e saídas temporárias. A reincidência de 42,5% evidencia
fragilidades na transição para o meio aberto, agravadas pela desarticulação entre
órgãos de assistência e empregadores (CARRILLO et al., 2022).
• Presídio do Distrito Federal I e II (PDF I e II): Unidades de regime fechado,
com alta densidade populacional e função predominantemente custodial. Oferecem
atividades reintegrativas limitadas, representando o cerne do modelo punitivista e sua
função retributiva.
• Complexo Penitenciário Feminino: Atende mulheres em diferentes situações
processuais, em contexto de crescente feminização do encarceramento (RELIPEN,
2024). Sua dinâmica é marcada por especificidades como a maternidade e violências
de gênero.
3.2 Revisão de Programas de Reintegração no Distrito Federal
Além das iniciativas estruturadas pelo Programa Ressocializa DF, tratado em
profundidade neste trabalho de pesquisa, o Distrito Federal – DF conta com outros programas
e projetos de reintegração social que atuam com diferentes ênfases e arranjos institucionais.
No conjunto, essas iniciativas contribuem para um ecossistema de programas e projetos
formado por ações dispersas entre o sistema de justiça, órgãos, entidades e terceiro setor.
No Distrito Federal, o Projeto Mãos Dadas constitui uma iniciativa específica
direcionada aos sentenciados em cumprimento de pena no regime semiaberto no Centro de
Progressão Penitenciária (CPP), que possuem autorização judicial para trabalho externo
concedida pela Vara de Execuções Penais, mas que não conseguem efetivar o benefício
devido à falta de vagas da FUNAP ou por ausência de proposta formal de emprego. O projeto
tem por finalidade oferecer alternativa institucional de ressocialização, com participação
voluntária e não remunerada, porém com remição da pena, mediante a realização de serviços
relevantes voltados à manutenção, recuperação e revitalização de áreas, equipamentos e bens
públicos.
Outro programa de destaque é o Começar de Novo, iniciativa nacional coordenada
pelo Conselho Nacional de Justiça e implementada no DF por meio da rede de execução penal
e instituições parceiras. O programa busca promover a reinserção social de pessoas privadas
de liberdade e egressas por intermédio da articulação de vagas de trabalho, estímulo à
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contratação por empresas e órgãos públicos, oferta de cursos de formação inicial e continuada
e intermediação com programas sociais de apoio a famílias.
Também merece registro o Escritório Social, iniciativa desenvolvida no âmbito do
Conselho Nacional de Justiça em cooperação com estados e municípios, que se encontra em
fase de implementação no Distrito Federal. O Escritório Social é concebido como um espaço
público de atendimento integrado, com equipes multiprofissionais, voltado exclusivamente a
egressos e familiares, destinado a oferecer acesso articulado a serviços públicos, orientações
jurídicas e administrativas, regularização documental, atendimento psicossocial e
encaminhamento para qualificação profissional e oportunidades laborais.
No âmbito das práticas vinculadas ao sistema penal, o Cerape - Centro de
Recuperação e Assistência ao Preso e Egresso, que é uma organização de sociedade civil de
interesse público, criada em 1996, constitui outra instância de referência em apoio a pessoas
em cumprimento de pena no regime aberto ou em livramentocondicional desenvolvendo
ações de caráter religioso e social. Historicamente, opera na mediação de acesso a direitos, no
acompanhamento psicossocial, na supervisão judicial de obrigações vinculadas a penas
alternativas e no encaminhamento para atividades de capacitação e trabalho. Sua atuação
concentra-se no apoio à transição entre o sistema fechado e a vida comunitária, mantendo
articulação com juízo da execução penal, Ministério Público, Defensoria Pública e rede de
proteção social.
Outra iniciativa é o Programa Janela de Oportunidades que constitui uma iniciativa
voltada à capacitação profissional de pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema
prisional, por meio de formação especializada. Implementado em parceria com a Secretaria de
Administração Penitenciária e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC), o
programa oferta cursos profissionalizantes em oficinas produtivas permanentes vinculadas ao
Projeto de Implantação de Oficinas Produtivas Permanentes, abrangendo formações como
pizzaiolo, modelista, costureiro, oratória e abertura negócios como microempreendedor
individual. Em 2025, o programa foi ampliado mediante acordo de cooperação técnica entre o
SENAC e a Associação das Mulheres Esquecidas, com foco específico no atendimento a
mulheres egressas, oferecendo cursos com duração de três meses.
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Alguns outros projetos locais complementam essas iniciativas por meio de parcerias
com entidades privadas, organizações religiosas e associações comunitárias, geralmente
promovendo atividades voltadas ao trabalho e à formação profissional.
3.3 O Papel da FUNAP – DF
No âmbito do Distrito Federal, as políticas de reintegração social apresentam trajetória
histórica relevante, marcada pela institucionalização progressiva da reintegração pelo trabalho
e pela formação profissional como diretrizes centrais de governança penitenciária. O principal
marco legal fundante é a criação da Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso – FUNAP,
instituída pela Lei nº 7.533, de 2 de setembro de 1986, que autorizou o Governo do Distrito
Federal a constituir uma fundação sem fins lucrativos com a finalidade de amparar o
trabalhador preso. De acordo com o Art. 1º da referida lei, a FUNAP-DF foi concebida para
apoiar e estruturar atividades laborais destinadas às pessoas privadas de liberdade do Distrito
Federal.
A lei estabelece características institucionais fundamentais à Fundação. O Art. 2º
determina que a FUNAP, pessoa jurídica de direito privado, seria vinculada à Secretaria de
Segurança Pública do Distrito Federal, com autonomia técnica, administrativa, financeira e
operacional, e sede em Brasília. A legislação define ainda a composição de seu patrimônio
(Art. 5º) e a estrutura de suas receitas (Art. 6º), provenientes de dotações orçamentárias,
doações públicas e privadas, rendimentos de serviços executados por presos e recursos de
convênios externos. O Art. 13º prevê a dispensa de licitação para compras governamentais
relacionadas à aquisição de produtos decorrentes do trabalho prisional, mecanismo que
favorece sustentabilidade econômica e autonomia operacional. Posteriormente, o Decreto nº
10.144, de 19 de fevereiro de 1987, aprovou o Estatuto da FUNAP, e o Decreto nº 27.990, de
29 de maio de 2007, promoveu alterações institucionais, transferindo sua vinculação para a
Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania — estrutura que permanece
vigente.
Esses marcos normativos evidenciam que a política de reintegração no Distrito Federal
desenvolve-se sobre uma base institucional relativamente consolidada, diferenciando-se, por
exemplo, de outras unidades da federação onde iniciativas do tipo ainda carecem de
institucionalidade formal. Desse modo, a FUNAP-DF constitui um instrumento estratégico de
governança pública e de mediação entre o sistema prisional, órgãos governamentais e a
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sociedade civil, coordenando, prioritariamente, a execução de programas orientados ao
trabalho e à qualificação profissional de pessoas em situação prisional.
3.4 O Programa Ressocializa DF
O Programa Ressocializa-DF, instituído pelo Decreto nº 43.824, de 7 de outubro de
2022, representa uma das mais relevantes iniciativas contemporâneas de política pública
voltadas à reintegração social de pessoas privadas de liberdade no âmbito do Distrito Federal.
Destinado aos sentenciados do Sistema Penitenciário local, o programa objetiva propiciar
oportunidades estruturadas de aprendizado e capacitação profissional, associadas à inserção
em atividades laborais remuneradas. Tais ações visam ampliar as condições reais de
empregabilidade e contribuir para a redução da reincidência criminal, alinhando-se
diretamente aos princípios estabelecidos pela Lei de Execução Penal.
Do ponto de vista jurídico-institucional, o Programa Ressocializa DF (2022)
representou um avanço em relação ao Programa Reintegra Cidadão criado em 2003. O atual
Programa materializa uma concepção voltada, prioritariamente, ao trabalho prisional. A
inserção profissional, nesse contexto, teria o objetivo de ser um instrumento de
ressignificação identitária e de restituição gradual da autonomia e da capacidade de escolha
do egresso.
3.4.1 Comparativo institucional: Reintegra Cidadão (2003) e Ressocializa-DF (2022)
A comparação crítica entre os Decretos nº 24.193/2003, que criou o Programa
Reintegra Cidadão, e o Decreto nº 43.824/2022, que instituiu o Programa Ressocializa-DF,
revela transformações estruturantes no modelo de política pública de reintegração social pelo
trabalho. Embora ambos compartilhem a mesma finalidade formal — promover reinserção
social por meio da qualificação profissional e do trabalho remunerado — distinguem-se de
maneira significativa quanto à orientação conceitual e ao desenho institucional que sustentam
sua implementação.
O decreto de 2003 apresenta modelo restritivo, baseado em um rol taxativo de treze
atividades permitidas, com a predominância de tarefas administrativas e serviços gerais,
enquanto o decreto de 2022 adota uma lógica ampliada, substituindo o rol fechado por lista
negativa de impedimentos, o que permitiu expandir significativamente o espectro de possíveis
ocupações. Adicionalmente, enquanto o decreto de 2003 restringia parcerias à Administração
Direta e Indireta do GDF, o decreto de 2022 inclui União, Poder Judiciário, Poder Legislativo
30
e setor privado, ampliando redes de cooperação institucional essenciais para empregabilidade
real.
Contudo, observa-se no modelo de 2022 menor detalhamento de mecanismos de
execução financeira e administrativa, dificultando na padronização de procedimentos e
potencializando assimetrias operacionais, lacuna que demanda regulamentações
complementares para garantir efetividade no alcance de suas atividades finalísticas,
monitoramento e avaliação de resultados. O quadro a seguir estrutura um comparativo entre
esses dois instrumentos.
Quadro 1 – Comparativo entre os Decretos 24.193/2003 e 43.824/2022
Eixo de
comparação
Decreto 24.193/2003 –
Programa Reintegra Cidadão
Decreto 43.824/2022 – Programa
Ressocializa-DF
Finalidade
Ressocialização com aprendizado
profissional e trabalho remunerado Mesmo objetivo formal
Definição das
atividades Lista taxativa de 13 serviços específicos Lista negativa de impedimentos
Parceiros
institucionais
Apenas Administração Direta e Indireta do
GDF
+ União, Judiciário, Legislativo e
setor privado
Execução
financeira Regras detalhadas de repasse e custeio
Não detalha financiamento, exige
normatização complementar
Vinculação
institucional Secretaria de Segurança Pública Secretaria de Justiça e Cidadania
Modelo de
governança Operacional restrito
Interinstitucional e orientado à
empregabilidade
31
3.4.2 Aspectos Normativos Complementares: Remuneração e Direitos Sociais
A implementação do Ressocializa articula-se à Resolução nº 01, de 13 desetembro de
2021, que dispõe sobre os benefícios devidos aos reeducandos que prestam serviços intra e
extramuros por meio da FUNAP – DF. A resolução incorpora as Regras Mínimas das Nações
Unidas para o Tratamento de Reclusos (Regras de Nelson Mandela), especialmente a Regra
103, assegurando remuneração equitativa pelo trabalho prisional e garantindo ao reeducando:
(1) parte dos valores para uso pessoal e apoio familiar;
(2) parte reservada como poupança compulsória a ser entregue no momento da libertação.
Além disso, a resolução estabelece a bolsa ressocialização em níveis diferenciados —
I, II e III — proporcionais ao grau de especialização e risco da atividade, variando entre ¾ do
salário mínimo (75%) e 108% do salário mínimo, a depender da complexidade laboral. O
decreto de 2022 define ainda o rol de atividades proibidas, vedando a atuação em funções
estratégicas, decisórias e relacionadas ao poder de polícia, regulação e aplicação de sanção,
preservando segurança institucional e integridade administrativa.
3.5 Dados de Reincidência
O estudo da dinâmica da reincidência criminal configura-se como elemento
fundamental para a formulação, o monitoramento e a avaliação de políticas públicas de
reintegração social. A análise desse fenômeno permite identificar padrões, vulnerabilidades
específicas de grupos populacionais e contextos institucionais críticos que demandam
intervenções mais direcionadas. Neste trabalho, adotam-se como referencial empírico os
dados do Relatório de Reincidência Criminal no Brasil (2022), realizado pela Diretoria de
Políticas Penitenciárias (DIRPP) do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) em
parceria com o Grupo de Análise e Pesquisas Econômicas (GAPPE) da Universidade Federal
de Pernambuco (UFPE). A escolha justifica-se pelo avanço metodológico que essa base
representa: ela oferece estimativas robustas, fundamentadas em cinco distintas definições
operacionais de reincidência e respaldadas por um rigoroso aparato de revisão metodológica
(CARRILLO et al., 2022).
O trabalho conduzido por Carrillo et al. (2022) examinou cinco definições distintas de
reincidência criminal, variando de critérios mais estritos, que consideram apenas retorno para
cumprimento de nova condenação, até conceitos mais amplos, que incluem qualquer forma de
reentrada no sistema prisional. Observou-se que quatro das cinco definições apresentaram
32
resultados convergentes, revelando robustez metodológica suficiente e permitindo, para fins
desta pesquisa, a construção de um panorama consistente sem necessidade de detalhamento
de potenciais vieses do uso isolado de cada categoria analítica.
O relatório demonstra que, independentemente da definição utilizada, a reincidência
permanece elevada e representa desafio contínuo para as políticas penais brasileiras. A
consistência dos resultados também fortalece a compreensão de que a reincidência está
vinculada a fatores estruturais e não apenas comportamentais (CARRILLO et al., 2022).
A tabela abaixo sintetiza os crimes mais frequentes cometidos em contexto de
reincidência.
Tabela 2 – Crimes mais frequentes após o primeiro delito
Em resumo, os resultados demonstram que a reincidência não segue um padrão
aleatório; ao contrário, tende a reproduzir trajetórias consolidadas e já exprimidas na conduta
primária. É razoável inferir, portanto, que políticas de reintegração social podem ser mais
adequadamente direcionadas à interrupção dos ciclos de reincidência mediante intervenções
baseadas em evidências.
3.5.1 Dinâmica Temporal da Reincidência
A distribuição temporal da reincidência apresenta concentração expressiva nos
primeiros meses após a saída do sistema prisional, demonstrando vulnerabilidade acentuada
Primeiro crime Crimes posteriores mais comuns
Drogas Drogas (24%), Roubo (7%), Furto (5%), Armas (3%), Homicídio (3%)
Roubo Roubo (27%), Furto (8%), Drogas (6%), Receptação (3%), Armas (3%)
Furto Furto (35%), Roubo (9%), Drogas (5%), Ameaça (4%), Receptação (3%)
Ameaça Ameaça (21%), Lesão (10%), Furto (7%), Roubo (5%), Drogas (4%)
Lesão Lesão (18%), Ameaça (16%), Furto (6%), Roubo (6%), Drogas (4%)
33
no início do período pós-egresso. A Figura 1, correspondente à Definição 1 de reincidência
utilizada por Carrillo et al. (2022), ilustra que aproximadamente 29,6% dos reincidentes
voltam a cometer delito já no primeiro mês após a liberação.
Figura 1 – Distribuição temporal da reincidência
Fonte: CARRILLO et al., 2022
Esse comportamento apresenta declínio gradual ao longo dos meses subsequentes,
reduzindo-se progressivamente até alcançar patamar inferior à 4% ao final de doze meses.
Esse padrão revela três implicações centrais para formulação de políticas públicas:
1. O período pós-egresso constitui fase crítica, especialmente os primeiros 30
dias;
2. Políticas de reintegração devem ser intensivas e imediatas, com entrada rápida
em programas de apoio psicossocial, qualificação e estruturação de vínculos;
3. A reincidência precoce está mais associada à ausência de oportunidades do que
a planejamento criminal continuado, reforçando a urgência do apoio institucional.
Como sintetizam Carrillo et al. (2022, p. 21): "A maior parte das reincidências ocorre
nos primeiros meses, especialmente no primeiro. Ou seja, dos que reincidem, quase 30% o
fazem no primeiro mês.”
34
Esse estudo também analisou as taxas de reincidência no Distrito Federal, calculadas
segundo cinco definições distintas levantadas pelo grupo de trabalho. Os resultados
demonstram variação relativamente pequena entre os critérios, reforçando consistência
metodológica do levantamento. A reincidência em até cinco anos varia entre 43,7% (definição
mais restritiva) e 41,8% (definição mais ampla). A reincidência nacional, considerando os
mesmos índices, giram em torno de 33,5% dos egressos reincidem segundo critério mais
rigoroso e 37,3% segundo a definição mais ampla.
Tabela 3 – Taxas de reincidência no DF
Fonte: CARRILLO et al., 2022
Conforme destacam os autores, a definição mais ampla tende a superestimar a
reincidência ao considerar reentradas administrativas como novos delitos, gerando possível
viés de interpretação da política penal.
As taxas de reincidência também apresentam variações significativas quando
analisadas por tipo de unidade prisional. Segundo a Tabela acima, no Centro de Detenção
Provisória (CDP) a reincidência em até cinco anos é de 27,6%, enquanto no Centro de
Progressão Penitenciária (CPP) aumenta para 42,5%, atingindo 78,4% no Centro de
Internamento e Reeducação (CIR).
35
Tabela 4 – Reincidência DF - Unidades Penais
Fonte: CARRILLO et al., 2022
Esse comportamento sugere que a reincidência não depende apenas de características
individuais, mas também da natureza institucional das unidades, do tempo de cumprimento de
pena e do grau de estruturação de políticas de acompanhamento. É possível que o paradoxo
do CIR, local reservado aos presos do regime fechado, se justifique sob a lógica de "escola do
crime”, consoante entendimento de pesquisadores, gestores do sistema prisional, bem como
dos próprios detentos (BARATTA, 1990; ANDRADE et al., 2015; BRAGA, 2022).
3.6 Diagnóstico preliminar
O conjunto de marcos legais, dados empíricos e análises apresentados nas seções
anteriores permite delinear um diagnóstico preliminar sobre o cenário institucional das
políticas de reintegração social no Brasil e no Distrito Federal. Observa-se que, embora exista
arcabouço normativo robusto e progressivo, que vai da Constituição Federal de 1988 e da Lei
de Execução Penal (Lei nº 7.210/1984) às diretrizes internacionais como as Regras de Nelson
Mandela (ONU, 2015) e instrumentos regulatórios como o Decreto nº 9.450/2018 e a
Resolução CNJ nº 391/2021, há um descompasso entre as previsões normativas e a realidade
suportada pelos sentenciados a penas restritivas de liberdade.
Como discutido na seção3.1.1, indicadores oficiais recentes apontam para um quadro
estrutural crítico marcado por superlotação, déficit de pessoal, baixa oferta de trabalho e
educação e presença de facções no interior das unidades penitenciárias (RELIPEN, 2024;
FBSP, 2024; CNJ, 2023). Esses elementos são reiterados por estudos nacionais que analisam a
36
seletividade penal e a precariedade estrutural do sistema prisional brasileiro (ADORNO;
SALLA, 2007; JULIÃO, 2009; ZAFFARONI, 2007; ANDRADE et al., 2015). No contexto
do Distrito Federal, tais limitações aparecem de forma semelhante: apenas 23% da população
prisional está inserida em atividades laborais, e 44% encontra-se em condição provisória, o
que afeta a continuidade e o alcance das políticas de reintegração (RELIPEN, 2024; CNJ,
2023).
No plano institucional, a análise documental comparativa entre os Decretos nº
24.193/2003 e nº 43.824/2022 (seção 3.4.1, Quadro 1) evidencia reconfiguração recente da
governança pública no Distrito Federal, destacando ampliação da articulação intersetorial e
flexibilização de oportunidades laborais com o Programa Ressocializa DF. No entanto,
também se observam desafios relacionados à padronização operacional e ao detalhamento de
mecanismos de execução e monitoramento, apontando a necessidade de regulamentações
complementares.
A análise empírica sobre reincidência apresentada no item 3.5 (CARRILLO et al.,
2022) contribui para compreender a complexidade do processo de reintegração ao demonstrar
que a reincidência apresenta forte associação com fatores estruturais, incluindo
vulnerabilidade socioeconômica e fragilidades institucionais no período pós-egresso. A
concentração dos retornos ao crime nos primeiros meses após a saída do sistema penal sugere
que a fase inicial de liberdade constitui momento particularmente sensível (CARRILLO et al.,
2022).
Assim, o diagnóstico preliminar delineado nesta seção indica que as políticas de
reintegração social no Distrito Federal se desenvolvem em ambiente institucional marcado
simultaneamente por avanços normativos e por limitações estruturais persistentes que incidem
diretamente sobre sua implementação. A compreensão dessa ambiência é fundamental para
análise aprofundada do modelo reintegrativo desenvolvido pelo Programa Ressocializa DF,
tema a ser explorado nos capítulos subsequentes.
37
CAPÍTULO 4 – METODOLOGIA
A presente pesquisa adotou uma abordagem metodológica do tipo fuzzy-set,
combinando técnicas qualitativas articuladas de forma complementar. O objetivo central
consiste em analisar os fatores associados à reintegração social de egressos do sistema
prisional participantes do Programa Ressocializa DF, identificando condições causais
configuracionais que contribuam para trajetórias de reinserção efetiva. Para tanto, empregou-
se a Análise Comparativa Qualitativa (Qualitative Comparative Analysis – QCA) em sua
abordagem fuzzy-set (fsQCA), aplicada ao conjunto de casos estudados e complementada por
análise qualitativa baseada em Estudo de Caso por meio entrevistas semiestruturadas
realizadas com beneficiários do programa.
A lógica metodológica fundamenta-se na compreensão de que fenômenos sociais
complexos — como desistência criminal, reconstrução de vínculos sociais e reintegração pós-
penal — não podem ser adequadamente explicados por modelos lineares tradicionais. A opção
pela fsQCA decorre de sua capacidade de identificar combinações configuracionais de
condições necessárias ou suficientes para a ocorrência de um resultado específico,
reconhecendo a multiplicidade e heterogeneidade de trajetórias possíveis (RAGIN, 2009).
Como afirma o autor, !conjuntos fuzzy são conjuntos calibrados, e a calibração consiste em
atribuir escores de pertencimento aos casos conforme o grau em que pertencem a um
conjunto” (RAGIN, 2009, p. 87). Tal abordagem permite representar nuances e gradações da
realidade social, superando a rigidez dos conjuntos binários.
O procedimento de calibração fuzzy adotado nesta dissertação baseou-se na definição
das três âncoras qualitativas fundamentais: pertencimento pleno (1,0), não pertencimento
(0,0) e ponto de cruzamento (0,5), este entendido como zona de ambiguidade conceitual e
metodológica, pois não indica presença nem ausência substancial da condição. (RAGIN,
2009, p. 89). Conforme reforça o autor, !pesquisadores devem justificar a escolha dos limiares
de calibração com base em conhecimento teórico e substantivo” (RAGIN, 2009, p. 90), razão
pela qual os pontos de corte utilizados foram embasados em literatura especializada e
evidências empíricas provenientes do curso da pesquisa, em especial das entrevistas.
Após a calibração, procedeu-se à construção da tabela de verdade, instrumento central
da fsQCA que !lista todas as combinações logicamente possíveis entre as condições causais e
os casos empíricos correspondentes a cada configuração” (RAGIN, 2009, p. 95). Em seguida,
38
aplicou-se a minimização booleana, por meio da qual !combinações redundantes são
eliminadas, simplificando a estrutura causal” (RAGIN, 2009, p. 96). Para esta pesquisa,
utilizou-se a solução intermédia, considerada mais adequada por equilibrar parcimônia lógica
e plausibilidade substantiva.
A avaliação da qualidade analítica baseou-se nas métricas de consistência e cobertura,
definidas pela Analise Qualitativa Comparativa como medidas essenciais para a interpretação
configuracional: !a consistência avalia o grau em que a combinação causal constitui
subconjunto do resultado, enquanto a cobertura avalia sua relevância empírica” (RAGIN,
2009, p. 99).
Considerando que a fsQCA é sensível a pequenas variações nos limiares de calibração,
foram realizados testes de robustez e sensibilidade, em consonância com a orientação
metodológica de que !análises de sensibilidade são especialmente importantes em conjuntos
fuzzy, pois pequenas mudanças na calibração podem gerar grandes efeitos sobre a tabela de
verdade e as soluções resultantes” (RAGIN, 2009, p. 109). Complementarmente, Schneider e
Wagemann (2012) recomendam a variação sistemática dos limiares de consistência e
frequência, bem como a comparação entre soluções complexas, intermédias e parcimoniosas,
com o objetivo de testar a estabilidade dos padrões causais identificados.
Por fim, a análise qualitativa das entrevistas semiestruturadas, realizada de forma
subsequente às modelagens configuracionais, permitiu aprofundar a interpretação dos
mecanismos e contextos associados aos caminhos causais identificados pelo modelo
configuracional, fortalecendo a triangulação metodológica e ampliando a validade
interpretativados achados. A integração entre resultados configuracionais e o conteúdo
narrativo dos participantes possibilitou examinar não apenas a presença das condições
causais, mas também o modo como elas operam concretamente na experiência social dos
egressos, de modo a reforçar a coerência interna da análise.
4.1 Desenho da Pesquisa
O desenho metodológico caracteriza-se como um estudo de casos múltiplos, de
natureza descritivo-analítica, organizado em duas etapas complementares:
1. Etapa fuzzy-set, com aplicação de questionário estruturado a egressos
selecionados do Programa Ressocializa DF. Os dados foram posteriormente
39
convertidos em métricas contínuas, calibrados em valores entre 0 e 1 e analisados por
meio da técnica fsQCA.
2. Etapa qualitativa, com realização de entrevistas semiestruturadas para
aprofundar aspectos subjetivos, institucionais e contextuais da reintegração social. As
entrevistas foram gravadas com consentimento e analisadas com base em técnica de
análise de conteúdo temática.
O fluxo metodológico seguiu as etapas: identificação de participantes → convite e
consentimento → aplicação de questionário → entrevistas → preparação e calibração dos
dados → análise fsQCA → análise de subgrupos → triangulação dos resultados.
4.2 Universo,Amostra e Critérios de Inclusão/ Exclusão
O universo da pesquisa é composto pelos indivíduos que trabalharam pelo Programa
Ressocializa DF coordenado pela Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (FUNAP – DF).
Para fins de contatá-los, a FUNAP disponibilizou uma planilha Excel contendo dados
administrativos dos egressos, incluindo nome completo, datas de contratação e desligamento e
data de término da pena. A partir dessa base, foram identificados os potenciais participantes
que exerceram vínculo laboral pela FUNAP a partir de outubro de 2022, período
correspondente à criação e implementação do Programa Ressocializa.
Foram adotados os seguintes critérios gerais:
• Critério de inclusão: ter trabalhado na FUNAP dentro do período de vigência
do Programa.
• Critério temporal: ter alcançado o benefício do regime aberto ou domiciliar, ou
ainda o total cumprimento da pena até julho de 2025.
• Critério de voluntariedade: concordância com o Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido (TCLE).
• Exclusão: casos sem contato possível após múltiplas tentativas ou que
recusaram participação.
O contato inicial com os egressos foi realizado por telefone registrado na planilha
institucional e, diante da ausência de retorno, via WhatsApp. Após explicação dos objetivos
da pesquisa e da garantia de confidencialidade, os participantes foram convidados a responder
o questionário estruturado e, em seguida, participar da entrevista de aprofundamento.
40
4.3 Instrumentos de Coleta de Dados
A coleta de dados empíricos ocorreu em duas etapas sequenciais. Primeiramente, foi
aplicado um questionário estruturado, contendo perguntas organizadas em blocos temáticos
relacionados às dimensões da reintegração social (estrutura socioeconômica, relações sociais
e apoio, e desenvolvimento pessoal). Em seguida, realizou-se uma entrevista semiestruturada
com os mesmos participantes.
As entrevistas foram realizadas por telefone, gravadas com consentimento prévio e
transcritas integralmente. O roteiro de entrevista explorou percepções sobre:
• experiências dentro do sistema prisional;
• condições de trabalho e apoio da FUNAP;
• vivências no regime fechado e na fase pós-pena;
• mecanismos de suporte e políticas públicas percebidas;
• barreiras e oportunidades para reintegração plena;
• elementos subjetivos associados à construção de novos projetos de vida.
Os relatos visaram identificar padrões e singularidades nas trajetórias de reintegração,
permitindo a triangulação qualitativa com os resultados obtidos por meio da análise
configuracional.
A seleção das componentes que integram o instrumento de coleta foi guiada por uma
revisão sistemática da literatura sobre reintegração social, programas de trabalho prisional e
ressocialização. Assim, a validade de conteúdo foi assegurada a partir da aderência conceitual
entre os indicadores e os construtos teóricos previamente consolidados em estudos correlatos.
4.4 Operacionalização das Variáveis
A operacionalização das variáveis foi estruturada a partir dos fundamentos teóricos
sobre reintegração social e desistência criminal (desistance), de modo a traduzir dimensões
conceituais em construtos mensuráveis com base nas respostas fornecidas pelos participantes.
Para a análise fsQCA, foram adotadas três condições causais — RE_ESTRUTURAL,
RE_SOCIAL e RE_PESSOAL — articuladas ao outcome RE_EFETIVA e à variável de
controle TEMPO_PROGRAMA, considerada apenas para fins exploratórios e análise de
subgrupos.
As variáveis derivam do questionário estruturado e foram inicialmente coletadas em
formato textual ordinal. Posteriormente, foram convertidas em valores numéricos e calibradas
41
em escala fuzzy entre 0 e 1, permitindo o cálculo do grau de pertencimento dos casos a cada
conjunto. As três dimensões da reintegração social foram construídas como índices agregados
compostos, sendo que cada dimensão foi resultante da ponderação das variáveis observáveis
correspondentes:
Quadro 2 – Composição das variáveis causais da análise QCA
Foram considerados 21 casos válidos, sem ocorrência de valores ausentes (NA = 0),
assegurando integridade do conjunto para aplicação da técnica de Análise Qualitativa
Comparativa.
Dimensão / Conjunto Variáveis constituintes Descrição resumo
RE_ESTRUTURAL
meses_emprego, renda_pc_sm,
satisfacao_trabalho, moradia_tipo,
condicoes_moradia, seguranca_vizinhanca,
acesso_saude
Dimensão de condições
materiais de vida básica e
estrutura socioeconômica
RE_SOCIAL
nucleo_familiar, freq_interacao_rede,
relacoes_nao_criminais,
comunicacao_familiar, freq_atividades,
prop_amigos_sem_crime
Dimensão de suporte
social, vínculos e
integração comunitária
RE_PESSOAL
lidar_estigma, planos_vida_autonomia,
cursos_capacitacao, estabilidade_emocional,
dependencia_substancias, sentir_valorizado,
participacao_democratica
Dimensão subjetiva e
motivacional
Outcome RE_EFETIVA
cumprimento_condicoes (peso 0.4) +
sentido_proposito (peso 0.6)
Índice de reintegração
efetiva
TEMPO_PROGRAMA Variável categórica de controle
Tempo de participação no
Programa Ressocializa DF
42
4.4.1 Construção do Índice RE_ESTRUTURAL
O construto RE_ESTRUTURAL representa o conjunto de condições objetivas e
materiais que sustentam o processo de reintegração social — emprego, renda, moradia e
acesso a serviços públicos. O componente estrutural é amplamente reconhecido como
determinante para a desistência criminal, pois a estabilidade socioeconômica reduz riscos e
aumenta oportunidades legítimas (UGGEN; MANZA; THOMPSON, 2006; MARUNA, 2001;
McNEILL, 2014).
Foram incluídas neste construto as seguintes variáveis observáveis, extraídas de
perguntas dos Blocos 2, 3 e 7 do questionário:
43
Q u a d r o 3 – Va r i á v e i s c o m p o n e n t e s d o f a t o r R E _ E S T R U T U R A L
Variável observada Pergunta do questionário Justificativa teórica Papel no índice
meses_emprego
Nos últimos 12 meses, por
quantos meses você esteve
empregado(a) (formal ou
informalmente) de forma
contínua?
Estabilidade ocupacional como
base objetiva da reinserção
Indicador de
estabilidade
econômica
renda_pc_sm
Qual a sua renda mensal
média per capita (por pessoa
da casa) em relação ao
salário mínimo atual (R$
1.518,00)?
Estabilidade financeira mínima
e autonomia
Indicador de
viabilidade material
satisfacao_trabalho
Em geral, o quanto você está
satisfeito(a) com seu
trabalho atual e suas
perspectivas de carreira?
Percepção de oportunidade e
satisfação profissional
Indicador
motivacional
estrutural
moradia_tipo
Qual a sua situação de
moradia atual e há quanto
tempo você reside nela?
Condição básica de
estabilidade residencial
Indicador de
segurança espacial
condicoes_moradia
Como você avalia as
condições gerais da sua
moradia (saneamento,
higiene, espaço)?
Adequação de infraestrutura
Indicador de
qualidade de vida
seguranca_vizinhanca
O quanto você se sente
seguro(a) no entorno da sua
moradia (vizinhança)?
Condição de exposição à
violência
Indicador de
segurança social
acesso_saude
Como você avalia seu
acesso a serviços de saúde
(física e mental) e sua
adesão a tratamentos,
quando necessário?
Acesso a políticas públicas
essenciais
Indicador de suporte
institucional
44
Cálculo do índice RE_ESTRUTURAL:
Após padronização para fuzzy-set [0,1].
4.4.2 Construção do Índice RE_SOCIAL
O construto RE_SOCIAL reflete a dimensão relacional da reinserção, enfatizando
vínculos familiares, redes de apoio e participação social. A literatura de desistance destaca
que o apoio social positivo é um dos mecanismos mais robustos para o abandono do crime
(MARUNA, 2001; LAUB; SAMPSON, 2003; FARRALL, 2004).
Variáveis incluídas, derivadas dos Blocos 4 e 5 do questionário:
RE_ESTRUTUR AL =
∑7
i=1 vari
7
45
Quadro 4 – Variáveis componentes do fator RE_SOCIAL
Cálculo do índice RE_SOCIAL:
Após padronização para fuzzy-set[0,1].
Variável observada Pergunta do questionário Papel no índice
nucleo_familiar
Você possui um núcleo familiar estável
(casamento, união estável, coabitação
com filhos)?
Indicador de proteção
emocional e suporte
freq_interacao_rede
Com que frequência você interage com
amigos, membros da comunidade ou
grupos de apoio que considera fontes de
suporte confiáveis?
Indicador de capital social
relacoes_nao_criminais
Você conseguiu restabelecer e manter
relações positivas com pessoas do seu
passado que não estão ligadas a
atividades criminais?
Indicador de redes
criminógenas
comunicacao_familiar
Como você avalia a qualidade da
comunicação dentro do seu núcleo
familiar (se aplicável)?
Indicador de estabilidade do
núcleo familiar
freq_atividades
Nos últimos 6 meses, com que
frequência você participou de atividades
comunitárias, religiosas, culturais ou
esportivas?
Indicador de integração
comunitária
prop_amigos_sem_crime
Qual a proporção de seus amigos/
conhecidos que você considera que não
possuem histórico criminal e exercem
influência positiva em sua vida?
Indicador de influência pró-
social
RE_SOCIAL =
∑6
i=1 vari
6
46
4.4.3 Construção do Índice RE_PESSOAL
O construto RE_PESSOAL representa os fatores subjetivos e identitários associados
ao processo de transformação individual, incluindo estabilidade emocional, superação do
estigma e reconstrução do propósito de vida. A literatura sobre transformação identitária
(identity desistance) sustenta que mudança narrativa e autovalorização desempenham papel
central na reintegração (MARUNA, 2001; GIORDANO et al., 2002; McNEILL, 2014).
Variáveis observáveis utilizadas, derivadas dos Blocos 5, 6 e 7:
Quadro 5 – Variáveis componentes do fator RE_PESSOAL
Variável observada Pergunta do questionário Papel no índice
lidar_estigma
Como você lida com o estigma social
(preconceito)?
Indicador de capacidade de
enfrentar rótulos
planos_vida_autonomia
Você possui planos de vida claros e
realistas para o futuro (educação, carreira,
família) e toma decisões de forma
autônoma (sem influência de grupos
criminais)?
Indicador de projeção de futuro
e agência
estabilidade_emocional
Como você avalia sua estabilidade
emocional e mental (capacidade de
gerenciar estresse, ansiedade, etc.)?
Indicador de regulação
emocional
dependencia_substancias
Qual a sua situação em relação à
dependência de substâncias psicoativas?
Indicador de redução de risco
comportamental
sentir_valorizado
O quanto você se sente parte integrante e
valorizado(a) em sua comunidade?
Indicador de pertencimento e
identidade
participacao_democratica
Com que frequência você participa de
processos democráticos (voto), busca
conhecer seus direitos/deveres e se
interessa por questões sociais?
Indicador de participação
cidadã
47
Cálculo do índice RE_PESSOAL:
Após padronização para fuzzy-set [0,1].
4.4.4 Validação Interna e Verificação Empírica de Consistência do Modelo
Após a definição conceitual dos itens pertencentes aos três construtos causais,
procedeu-se à análise de consistência interna e de coerência teórico-empírica, com o objetivo
de verificar se cada variável observada apresentava comportamento agregativo compatível
com o construto ao qual deveria pertencer. Essa etapa foi conduzida por meio de análises
exploratórias de correlação, testes de consistência interna e inspeção de contribuições médias
utilizando o ambiente estatístico do software R.
Para verificar o grau de pertencimento preliminar de cada variável observável ao
construto correspondente, foram calculados coeficientes de correlação de Pearson entre:
• Cada item individual do questionário; e
• Os escores provisórios dos construtos RE_ESTRUTURAL, RE_SOCIAL e
RE_PESSOAL calculados inicialmente.
Essa matriz de correlações permitiu identificar a força da associação de cada variável
com os construtos teóricos, contribuindo para decisões sobre inclusão, exclusão ou realocação
de itens entre dimensões.
A regra geral utilizada para decisão metodológica foi:
A regra de decisão utilizada foi baseada nos critérios de carga fatorial estabelecidos na
literatura de psicometria e Análise Fatorial (HAIR et al., 2014; TABACHNICK; FIDELL,
RE_PESSOAL =
∑6
i=1 vari
6
Interpretação Critério empírico utilizado
Pertencimento forte correlação > 0.60
Pertencimento moderado 0.40 – 0.60
Pertencimento frágildada sua natureza híbrida:
• Perspectiva social (participação coletiva, cidadania, pertencimento); e
• Perspectiva pessoal (agência, autonomia, responsabilidade individual).
Durante as testagens exploratórias, porém, observou-se correlação mais baixa com o
conjunto RE_SOCIAL, indicando menor alinhamento com os padrões agregados do índice; e
correlação significativamente mais alta com RE_PESSOAL, sugerindo comportamento
convergente com padrões agregados do índice, refletindo os fatores de identidade, autonomia
e agência da componente no modelo. Além da análise de correlação, o efeito sobre a
minimização do modelo também orientou a decisão. Versões do modelo que incluíam a
variável em RE_SOCIAL apresentavam aumento de ruído analítico e redução da consistência
dos caminhos lógicos na fsQCA, enquanto a inclusão em RE_PESSOAL reforçou a
estabilidade do modelo e ampliou a convergência substantiva.
Portanto, a decisão final, para fins das agregações dos índices, foi baseada na
convergência de três critérios: Em primeiro lugar, a fundamentação teórica indicou
compatibilidade substantiva com os princípios de autonomia, agência e autodeterminação,
elementos constitutivos do construto pessoal na literatura sobre reintegração (MARUNA,
2001; McNEILL, 2014; CORRÊA, 2022; BRAGA, 2022). Em segundo lugar, testes
empíricos de correlação realizados no software R demonstraram maior aderência estatística ao
conjunto de variáveis que compõem cada construto, evidenciando comportamento relacional
mais ou menos sólido, conforme as testagens. Por último, a estabilidade configuracional
50
aferida mediante fsQCA sempre que apontou maior consistência e menor ruído causal a
variável específica foi integrada ao construto de pertencimento, preservando estabilidade nas
soluções minimizadas e evitando possíveis distorções interpretativas.
Em resumo, a definição final da composição dos construtos causais
RE_ESTRUTURAL, RE_SOCIAL e RE_PESSOAL foi conduzida a partir de um processo
metodológico que buscou articular fundamentação teórica e confirmação empírica. A lógica
adotada seguiu o princípio de convergência entre teoria e evidência, de modo que a seleção
dos itens constituintes de cada construto não se limitasse a uma decisão arbitrária ou
meramente especulativa, mas que refletisse as boas práticas de uma análise fsQCA conduzida
simultaneamente por meio de um procedimento analítico transparente e uma modelagem
teoricamente sustentável.
Dessa forma, a construção dos índices fuzzy seguiu um encadeamento metodológico
estruturado em quatro etapas sucessivas:
I - Definição teórica das dimensões relevantes para a reintegração social, baseada na literatura
especializada sobre desistência criminal e reintegração social;
II - Identificação das variáveis observáveis correspondentes no instrumento de coleta de dados
aplicado aos participantes (questionário de pesquisa);
III - Realização de testagens empíricas para verificar a aderência estatística das variáveis às
dimensões teóricas propostas (cálculo dos coeficientes de correlação de Pearson); e
IV - Confirmação ou realocação dos componentes com base em evidências empíricas e
coerência substantiva (teste do Alpha de Cronbach).
Essa sequência pode ser sintetizada da seguinte forma:
Teoria → Variável observável → Teste empírico → Confirmação, realocação ou
exclusão
Finalmente, sempre que necessário, foram realizados debates substantivos
fundamentados na literatura especializada, confrontando resultados empíricos com evidências
teóricas no intuito de garantir coerência interpretativa, transparência da modelagem,
rastreabilidade metodológica e robustez científica na construção dos índices fuzzy utilizados
na análise comparativa qualitativa.
51
4.4.5 Construção do Outcome RE_EFETIVA
O fator de resultado RE_EFETIVA foi construído como medida de reintegração
efetiva, associando:
• cumprimento_condicoes (Bloco 6)
• sentido_proposito (Bloco 7)
As componentes foram consideradas com pesos ponderados, conforme a seguir:
No que tange à fundamentação teórica e substantiva na escolha das variáveis de
resultado, adotou-se a conceituação de reincidência criminal conforme os pesquisadores
espanhóis Capdevila e Puig (2009). Para os autores, a reincidência pode ser conceituada em
seis tipologias distintas, entre as quais se destaca a reincidência por autoculpa, definida como
nova prática delitiva declarada pelo próprio agente. Essa classificação informa a estrutura
conceitual do presente estudo ao considerar que a reintegração social — e por consequência o
outcome RE_EFETIVA — levou em conta não apenas a ausência de uma nova condenação,
mas uma mudança identitária que impeça a delinquência por meio de mecanismos de auto-
vigilância e auto-responsabilização. A inclusão do critério cumprimento_condicoes no índice
RE_EFETIVA, que investigou de por meio de autodeclaração se os egressos cumprem ou não
as condições de sua liberdade e evitam qualquer tipo de infração, essa lógica alinha-se aos
princípios de controle e conformidade normativa implicados em diferentes tipos de
reincidência (CAPDEVILA; PUIG, 2009; JULIÃO, 2009).
Quanto ao peso atribuído à variável cumprimento_condicoes — calibrada em 0.4 —
refere-se à evidência empírica de relativa leniência dos egressos em relação ao estrito
cumprimento das condições, conforme constatado por meio das entrevistas semiestruturadas.
Apenas uma das cinco alternativas presentes no questionário aplicado declarava o
cumprimento integral e total evitação de novas infrações; as demais alternativas expressavam
algum nível de descumprimento, variando de falhas irrisórias até a autodeclaração de
descumprimento grave ou cometimento de múltiplas infrações.
O grau de pertencimento da variável sentido_proposito, como uma componente do
índice composto RE_EFETIVA, foi confirmado por meio de revisão de literatura e
corroborado empiricamente por testes de robustez estatística, que evidenciaram a elevada
convergência dessa dimensão subjetiva com o fator de resultado. A análise configuracional
RE_EFETIVA = 0.4(cumprimento_condicoes) + 0.6(sent ido_ proposito)
52
indicou que a presença de um sentido estruturado de propósito diferencia de modo consistente
casos de reintegração efetiva daqueles de reintegração apenas formal, confirmando seu papel
como expressão final do processo de reconstrução identitária.
No plano teórico, a literatura nacional e internacional sobre reintegração social destaca
que a mudança efetiva não se produz exclusivamente pela inclusão laboral ou pela ausência
de reincidência penal, mas pela transformação subjetiva que se desenvolve nas interações
sociais e institucionais e se materializa em uma reorganização interna capaz de gerar sentido
na trajetória e orientação de futuro (MARUNA, 2001; FARRALL, 2022; BRAGA, 2012).
Nessa direção, Corrêa (2022, p. 356) adverte que !tomar a ressocialização como ação que visa
unicamente a formação educacional e/ou a entrada no mercado de trabalho formal […] não é
suficiente para pensá-la além daquilo que quer ser”, uma vez que essa compreensão
reducionista desconsidera os processos morais e subjetivos mais complexos que estruturam a
reintegração.
Braga (2022, p. 31) contribui ao enfatizar que a reintegração deve ser compreendida
como processo relacional, de !mão dupla”, envolvendo não apenas a adequação do egresso às
normas sociais, mas a reconstrução recíproca de vínculos e sentidos sociais. Dessa
perspectiva, o propósito não é um requisito prévio imposto externamente, mas a manifestação
realizada da autotransformação subjetiva, produto das relações e experiências vividas ao
longo do percurso prisional e pós-prisional.
Nesse sentido, o propósito de vida emerge como resultado do processo reintegrativo,
sendo simultaneamente indicador e expressão da alta qualidade da reintegração: trata-se da
materialização interna da mudançaidentitária, mediante a qual o indivíduo passa a se perceber
como agente capaz de projetar seu futuro e ocupar legitimamente o espaço social. Como
destaca Maruna (2001), a construção de uma narrativa de redenção permite ao ex-delinquente
reorganizar sua identidade moral e atribuir sentido às próprias experiências, possibilitando
continuidade biográfica e a sustentação de trajetórias não criminais.
É por essa razão que, na construção do outcome RE_EFETIVA, a componente
sentido_proposito recebeu peso superior (0,6) em relação à componente normativa
cumprimento_condicoes (0,4): a presença do sentimento de propósito e de projeto de futuro
representa, para o modelo, o resultado qualitativo mais robusto da reintegração, no sentido de
evidenciar a passagem do controle externo para a autodeterminação do indivíduo — condição
53
esta que precede e ultrapassa a noção limitada de reintegração como mero resultado da não-
reincidência.
Quanto à calibragem da componente cumprimento_condicoes, este procedimento foi
orientado por critérios conceituais e substantivos, em conformidade com os princípios
metodológicos da Análise Qualitativa Comparativa, segundo os quais a definição dos pontos
de âncora — pertencimento pleno (1), não pertencimento (0) e máxima ambiguidade (0,50)
— deve fundamentar-se, prioritariamente, em pressupostos teóricos e substantivos, e não
exclusivamente na distribuição empírica dos dados. Conforme afirma Ragin (2008, p. 72), !a
calibração deve ser guiada prioritariamente por conhecimento teórico e substantivo, e não
pela distribuição empírica dos casos”. O autor ainda destaca que o ponto de cruzamento (0,50)
deve representar situações nas quais não é possível afirmar se o caso pertence ou não ao
conjunto analisado com clareza (RAGIN, 2008, p. 85).
Nesse mesmo sentido, Rihoux e Ragin (2009) reforçam que, no âmbito da lógica
configuracional, é imprescindível que o pesquisador estabeleça âncoras conceituais claras, de
modo a assegurar coerência ontológica entre o fenômeno empírico e sua representação
analítica, evitando classificações artificiais ou reduções dicotômicas simplificadoras. No
presente estudo, essa orientação fundamentou a decisão de posicionar o item !Sim, cumpro
integralmente e evito a maioria das infrações” no ponto de máxima ambiguidade (0,50). Pois,
embora formule a declaração de cumprimento integral, a expressão simultânea de
descumprimento residual (!evito a maioria”) constitui uma contradição interna da sentença,
tornando impossível uma classificação conclusiva como pertencimento ou não pertencimento
ao conjunto cumprimento integral das condições da liberdade. Assim, sua localização na zona
de incerteza (0,50) preserva a lógica substantiva da variável e evita distorções analíticas na
etapa de minimização booleana.
4.5 Preparação e Calibração dos Dados (Script 1)
O processo de preparação dos dados foi realizado em R por meio do script
denominado preparacao_dados_fuzzy.r, executado após a importação da base de dados obtida
por meio da aplicação dos questionários e convertida em um arquivo .csv. Após a verificação
e limpeza da matriz de dados, procedeu-se à conversão das variáveis textuais para valores
numéricos ordinais, etapa seguida pela calibração fuzzy segundo limites qualitativos
fundamentados teoricamente.
54
A calibração fuzzy adotou uma escala para valores entre 0 (não pertencimento) e 1
(pertencimento completo), utilizando pontos de ancoragem (full non-membership, crossover,
full membership) definidos empiricamente. A variável TEMPO_PROGRAMA recebeu
calibração específica baseada em graus reais de participação:
Ao final, a execução do script gerou o arquivo final dados_qca_final.csv, contendo a
matriz fuzzy consolidada. A distribuição dos valores resultantes indica consistência estatística
adequada e normalidade relativa dos escores calibrados, sem valores extremos artificiais ou
distorções distributivas.
4.6 Análise QCA (Script 2)
A análise fsQCA foi realizada com base no script análise_fsQCA.r, utilizando o pacote
QCA (DUSA, 2019). Foram definidos como parâmetros analíticos:
• Consistência mínima (incl.cut): 0.90
• Frequência mínima (frequency cut): 1
• Condições analisadas: RE_ESTRUTURAL, RE_SOCIAL e RE_PESSOAL
• Outcome: RE_EFETIVA
• Total de casos: 21
A análise identificou três caminhos configuracionais distintos suficientes para alta
reintegração efetiva:
1. RE_ESTRUTURAL * RE_SOCIAL * RE_PESSOAL
2. RE_ESTRUTURAL * RE_SOCIAL * ~RE_PESSOAL
3. RE_ESTRUTURAL * ~RE_SOCIAL * RE_PESSOAL
Categoria Valor Fuzzy
Não trabalhou 0.05
Até 3 meses 0.25
4–6 meses 0.50
7–12 meses 0.75
Mais de 1 ano 0.95
55
O resultado sintetizado da solução principal indica que RE_ESTRUTURAL se
apresenta como condição central, constituindo o componente indispensável das três
configurações — funcionando como rota dominante para a efetividade reintegrativa
(consistência = 0,989; cobertura = 0,812).
A análise empírica revelou que 66,7% da amostra apresentou alta reintegração
(RE_EFETIVA > 0.7), ao passo que 28,6% demonstrou nível moderado e apenas 4,8%
apresentou baixa reintegração.
Não foram identificados casos paradoxais, reforçando a estabilidade interna e a
coerência configuracional do modelo.
Tais resultados apontam para o caráter equifinal e configuracional da reintegração
social, indicando que não existe um único caminho causal, mas sim múltiplas trajetórias
possíveis para alcançar a efetividade reintegrativa, dependendo da interação entre fatores
estruturais, sociais e pessoais.
4.7 Análise de Subgrupos (Script 3)
Com o objetivo de aprofundar a análise configuracional e avaliar possíveis efeitos
condicionais do tempo de permanência no Programa Ressocializa DF, procedeu-se à
segmentação da amostra a partir da variável de controle TEMPO_PROGRAMA. Inicialmente
essa variável foi calibrada em escala fuzzy a fim de expressar graus diferenciados de
pertencimento ao conjunto de participantes com maior duração de vínculo com o programa.
No avanço metodológico desta pesquisa, optou-se por realizar uma subdivisão mais
exigente dos subgrupos, deslocando o ponto de corte originalmente situado em 0.50 para 0.75
na escala fuzzy. Assim, valores superiores a 0.75 foram classificados como Alto Tempo de
Programa, enquanto valores iguais ou inferiores a 0.75 foram classificados como Baixo
Tempo de Programa. Essa decisão permitiu uma separação analiticamente mais substantiva
entre participantes com trajetória consolidada no programa e aqueles com tempo de
permanência mais reduzido, aproximando a distinção empírica da referência substantiva entre
mais de um ano e até um ano de participação, critério relevante no contexto institucional
analisado.
56
A aplicação desse ponto de corte resultou na seguinte segmentação da amostra:
Para fins estritamente exploratórios, no contexto da análise de subgrupos, realizou-se
um ajuste técnico pontual no tratamento da ambiguidade fuzzy associada à variável de
controle TEMPO_PROGRAMA. Esse procedimento refere-se exclusivamente ao manejo de
valores iguais a 0.5, que, na lógica fuzzy, correspondem ao ponto de máxima indeterminação
analítica, não indicando pertencimento nem não pertencimento substantivo ao conjunto
analisado (RAGIN, 2008).
Considerando que valores exatamente iguais ao ponto de cruzamento podem gerar
instabilidades operacionais na construção da tabela-verdade e na minimização lógica, optou-
se por um deslocamento marginal e conservador desses casos, exclusivamente para a variável
de controle, sem qualquer impacto substantivo sobre a definição dos subgrupos ou sobre os
resultados configuracionais principais. Assim, valores iguais a 0.5 para esta variável de
controle foram ajustados para 0.499.
Ressalta-se que esse ajuste teve caráter estritamente técnico e exploratório, sendo
anterior à aplicação do ponto de corte substantivo em 0,75, e não alteroua lógica analítica
central da segmentação por tempo de permanência no programa. No que se refere à definição
do ponto de corte final, adotou-se deliberadamente uma lógica de classificação dicotômica,
funcionalmente equivalente à abordagem crisp-set, por meio da qual os casos foram
explicitamente alocados em dois subgrupos analíticos distintos: participantes com baixo
tempo e com alto tempo de permanência no programa.
4.8 Limitações Éticas e Metodológicas
A pesquisa apresenta limitações éticas e metodológicas que, embora não
comprometam a validade interna dos achados, delimitam o alcance interpretativo dos
resultados e devem ser explicitamente consideradas.
Do ponto de vista metodológico, o tamanho reduzido da amostra (N = 21), ainda que
compatível com o caráter qualitativo e configuracional do estudo, restringe a variabilidade
Subgrupo Critério Casos
Alto tempo > 0.75 14
Baixo tempo ≤ 0.75 7
57
empírica disponível e a possibilidade de explorar todas as combinações causais logicamente
possíveis. A construção dos conjuntos fuzzy e a calibração das condições — incluindo
definição de limiares, agregação de componentes e estruturação dos construtos — envolveram
decisões analíticas sensíveis. Apesar dos testes de robustez realizados, reconhece-se que
alternativas plausíveis de calibração poderiam produzir diferenças marginais nas soluções
configuracionais.
Também se identifica potencial viés de seleção. Os critérios de ter participado do
Ressocializa DF e possuir meios de contato disponíveis, podem ter privilegiado egressos em
situação relativamente mais estável, sub-representando indivíduos com vínculos familiares
mais frágeis, em situação de rua ou reincidentes. Ademais, a participação voluntária tende a
atrair sujeitos mais receptivos ou confiantes em instituições, o que pode influenciar o perfil da
amostra.
No âmbito ético, destaca-se a assimetria inerente à relação pesquisador-participante,
especialmente em populações historicamente submetidas a mecanismos de vigilância estatal.
Mesmo com esclarecimentos reiterados sobre anonimato e confidencialidade, é possível que
alguns participantes tenham moderado suas respostas por cautela ou percepção de risco,
sobretudo aqueles ainda sujeitos a supervisão penal. A natureza sensível dos temas abordados
(estigma, trajetória prisional, vínculos criminais, uso de substâncias) também impõe limites à
espontaneidade das narrativas, apesar dos procedimentos de rapport e do direito de recusa
assegurado a todos os entrevistados.
4.8.1 Estratégias de Mitigação
Reconhecendo essas limitações, foram adotadas estratégias específicas para mitigar
seus potenciais efeitos:
• Para limitações de amostra e viés de seleção, foram realizadas análises de
sensibilidade nos limiares de calibração fuzzy e a triangulação metodológica com
dados qualitativos aprofundados.
• Para a dependência da autodeclaração, foram implementados procedimentos de
construção de rapport durante as entrevistas, com garantias reiteradas de
confidencialidade. A triangulação de fontes (questionário estruturado e entrevista
semiestruturada) buscou capturar as consistências e nuances das narrativas, atenuando
vieses de resposta isolados.
58
• Para a natureza transversal do desenho, a coleta incluiu informações
retrospectivas sobre a trajetória dos participantes, permitindo uma reconstrução parcial
de trajetórias passadas.
• Para a sensibilidade temática e a assimetria ética, foi assegurado o direito
irrestrito de recusa em responder qualquer questão e de interrupção da entrevista sem
consequências. Para essa finalidade, o consentimento informado foi conduzido em
linguagem clara e acessível, com reafirmação da voluntariedade e dos direitos dos
participantes.
4.8.2 Implicações para Interpretação dos Resultados
As limitações apresentadas nesta seção não invalidam os achados da pesquisa, mas
demandam interpretação cautelosa e contextualizada. Os padrões configuracionais
identificados devem ser compreendidos como exploratórios, oferecendo hipóteses plausíveis
sobre como fatores estruturais, sociais e pessoais se combinam para produzir reintegração
efetiva no contexto específico do Programa Ressocializa DF. Estes achados são valiosos para
orientar futuras pesquisas e para subsidiar discussões sobre políticas públicas, mas não devem
ser generalizados automaticamente para outras populações ou contextos sem validação
adicional.
A pesquisa oferece sua maior contribuição não em termos de generalização estatística,
mas em termos de compreensão profunda dos mecanismos causais que operam nas trajetórias
de reintegração, oferecendo evidência qualitativa rica que complementa e aprofunda os
padrões quantitativos identificados pelo fsQCA.
59
CAPÍTULO 5 – RESULTADOS DA ANÁLISE fsQCA
5.1 Descrição Inicial da Amostra
A análise fsQCA envolveu uma amostra composta por 21 casos, correspondentes a
indivíduos egressos do sistema prisional do Distrito Federal beneficiários do Programa
Ressocializa DF. Após procedimentos de limpeza dos dados, transformação e calibração fuzzy,
o conjunto final incluiu quatro componentes principais: as condições causais
RE_ESTRUTURAL, RE_SOCIAL, RE_PESSOAL, a variável de resultado RE_EFETIVA, e
a variável de controle TEMPO_PROGRAMA, que foi empregada exclusivamente para fins
exploratórios na análise de subgrupos.
A distribuição dos níveis de reintegração efetiva, considerando os limiares calibrados,
foi a seguinte:
Tabela 5 – Classificação da Reintegração Efetiva
A mediana da Reintegração Efetiva foi de 0.83, sugerindo que, no conjunto dos casos,
há uma concentração de valores em níveis superiores de pertencimento ao fator de resultado,
com distribuição mais próxima da alta reintegração do que de níveis moderados ou baixos.
Para examinar se esse padrão acompanha as condições que compõem o modelo
configuracional, apresentam-se a seguir as estatísticas descritivas das condições causais,
permitindo observar sua variação central e dispersão.
60
Tabela 6 – Classificação de Correlação da Reintegração Efetiva
A correlação linear entre RE_EFETIVA e as condições causais, considerando a
totalidade de casos da amostra, confirma a convergência e reforça a relevância empírica das
dimensões analisadas:
• RE_SOCIAL (r = 0.775);
• RE_PESSOAL (r = 0.774);
• RE_ESTRUTURAL (r = 0.643);
Esses resultados indicam que, embora todas as dimensões contribuam para a
reintegração, os fatores relacionados à dimensão social e pessoal apresentam maior associação
com a efetividade reintegrativa, em linha com a literatura especializada que enfatiza a
centralidade dos vínculos sociais e da agência pessoal no processo de desistência e
reconstrução identitária (MARUNA, 2001; MCNEILL, 2014; SAMPSON; LAUB, 2003;
UGGEN; MANZA; THOMPSON, 2006; JULIÃO, 2016; BRAGA, 2012; CORRÊA, 2022).
5.2 Condições Necessárias
A análise de condições necessárias considerou as três condições causais —
RE_ESTRUTURAL, RE_SOCIAL e RE_PESSOAL — tanto em suas formas afirmativas
quanto negadas. Os resultados indicaram que nenhuma das condições isoladas atingiu o valor
de consistência ≥ 0.90 para a presença de RE_EFETIVA, valor este geralmente recomendado
como limiar mínimo para interpretação substantiva de condição de necessidade (RAGIN,
2008; SCHNEIDER; WAGEMANN, 2012). Assim, a combinação RE_ESTRUTURAL *
61
RE_PESSOAL apresentou o valor mais elevado (consistência = 0.906; cobertura = 0.889),
aproximando-se do critério, mas sem ultrapassá-lo. Esse resultado sugere que, embora a
presença simultânea de condições estruturais e relacionais seja altamente recorrente nos casos
de reintegração efetiva, nenhuma condição individual pode ser considerada necessária de
forma independente para o resultado.
A ausência de condições necessárias isoladas confirma que a reintegração efetiva não
depende, invariavelmente, de um único fator, mas de constelaçõesEfetiva ....................................................................60
Tabela 6 – Classificação de Correlação da Reintegração Efetiva .............................................61
Tabela 7 – Condições necessárias para RE_EFETIVA .............................................................63
Tabela 8 – Caminhos causais para presença de RE_EFETIVA ................................................64
Tabela 9 – Soluções Complexa, Intermediária e Parcimoniosa ................................................67
Tabela 10 – Condições isoladas associadas à ausência de reintegração efetiva .......................69
Tabela 11 – Equifinalidade e assimetria configuracional na reintegração efetiva ....................71
Tabela 12 – Quantidades de casos por subgrupos ....................................................................71
Tabela 13 – Tabela-Verdade (Presença do resultado — Subgrupo Alto Tempo) ......................72
Tabela 14 – Presença do resultado — Subgrupo Baixo Tempo) ..............................................73
Tabela 15 – Relação entre estigma/reconhecimento e efeitos observados ..............................98
12
RESUMO
Esta pesquisa investiga o processo de reintegração social de egressos do sistema
prisional do Distrito Federal, tomando como estudo empírico o Programa Ressocializa DF.
Com base em uma abordagem qualitativa, articulando a Qualitative Comparative Analysis
(fsQCA) e entrevistas em profundidade, buscou-se compreender como diferentes condições
estruturais, sociais e pessoais se combinam para sustentar trajetórias reintegrativas. Os
resultados indicam que a reintegração não é um evento pontual, mas um processo dinâmico
que depende da convergência entre estabilidade material, apoio social e capacidade de agência
individual.
De modo complementar, a análise qualitativa revelou que o eixo estigma–
reconhecimento opera como dimensão crítica não capturada plenamente por modelos
tradicionais de reintegração. Além disso, a triangulação dos resultados confirmou a
equifinalidade (mais de um caminho leva ao resultado) e a assimetria causal (a ausência do
resultado não é o inverso da presença), evidenciando que a fragilização da agência pessoal
tende a interromper ou dificultar os processos de reintegração, especialmente quando
desacompanhada de suporte estrutural e social. As recomendações sugerem o fortalecimento
de mecanismos contínuos de monitoramento e avaliação, acompanhamento longitudinal pós-
egressão e reconhecimento dos limites estruturais e institucionais das políticas de
reintegração.
No conjunto, a pesquisa oferece contribuição metodológica ao demonstrar a
aplicabilidade do método fsQCA em contextos de causalidade complexa e small-N;
contribuição teórica ao articular a perspectiva da criminologia crítica com a análise empírica
configuracional; e contribuição prática ao fornecer evidências para orientação de políticas
públicas de reintegração social no país.
Palavras-Chave: reintegração social; análise qualitativa comparativa; desistência
criminal; criminologia crítica
13
ABSTRACT
This research examines the social reintegration process of formerly incarcerated
individuals in the Federal District of Brazil, using the Ressocializa DF Program as an
empirical case. Based on a qualitative approach that combines fuzzy-set Qualitative
Comparative Analysis (fsQCA) with in-depth interviews, the study explores how structural,
social, and personal conditions interact to sustain reintegration trajectories. Findings indicate
that reintegration is not a single event, but a dynamic process that depends on the convergence
of material stability, social support, and individual agency capacity.
Complementarily, the qualitative analysis revealed that the stigma–recognition axis
operates as a critical dimension not fully captured by traditional reintegration models.
Additionally, triangulation results confirmed equifinality (more than one causal path can lead
to reintegration) and causal asymmetry (the configuration associated with the absence of the
outcome is not the mirror opposite of the presence), showing that weakened personal agency
tends to interrupt or hinder reintegration processes, especially when not accompanied by
structural and social support. Policy recommendations highlight the need for continuous
monitoring and evaluation mechanisms, longitudinal post-release follow-up, and recognition
of the institutional and structural limits of reintegration policies.
Overall, the research provides a methodological contribution by demonstrating the
applicability of fsQCA in contexts of complex causality and small-N designs; a theoretical
contribution by articulating critical criminology perspectives with configurational empirical
analysis; and a practical contribution by offering evidence to inform public policies for social
reintegration in Brazil.
Keywords: social reintegration; qualitative comparative analysis; criminal desistance;
critical criminology.
14
SUMÁRIO
Lista de Símbolos e Abreviaturas ...............................................................................................8
Lista de Figuras ........................................................................................................................10
Lista de Quadros .......................................................................................................................11
Lista de Tabelas ........................................................................................................................12
RESUMO ..................................................................................................................................13
ABSTRACT .............................................................................................................................14
SUMÁRIO ................................................................................................................................15
CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO ...............................................................................................1
1.1 Contextualização do Problema Público ................................................................................1
1.2 Formulação do Problema de Pesquisa ..................................................................................2
1.3 Objetivo Geral ......................................................................................................................3
1.4 Objetivos Específicos ...........................................................................................................3
1.5 Justificativa ...........................................................................................................................4
1.6 Questões de Pesquisa ............................................................................................................5
1.7 Contribuições Esperadas .......................................................................................................6
1.8 Estrutura da Dissertação .......................................................................................................6
CAPÍTULO 2 – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ...................................................................8
2.1 Michel Foucault e a Crítica ao Sistema Punitivo .................................................................8
2.2 A contribuição da Criminologia Crítica ..............................................................................10
2.3 Desistência Criminal (Desistance) ......................................................................................14
2.3.1 Os Fundamentos Teóricos da Desistência .......................................................................14
2.3.2 Dimensões Subjetivas da Reintegração: Experiencias Empíricas ...................................16
2.3.3 Dimensões da Reintegração Efetiva ................................................................................18específicas de elementos
combinados (configurações multicausais), tal como demonstram os estudos para fenômenos
sociais complexos (RAGIN, 2008; RIHOUX; RAGIN, 2009; SCHNEIDER; WAGEMANN,
2006). Esse entendimento também está em consonância com a literatura sobre desistência
criminal e reconstrução identitária, que concebe a mudança como um processo
multidimensional sustentado por interações entre vínculos sociais, desenvolvimento pessoal e
perspectiva de futuro (MARUNA, 2001; MCNEILL, 2014; SAMPSON; LAUB, 2003;
UGGEN; MANZA; THOMPSON, 2006; GRAHAM; MCNEILL, 2017).
A análise foi então estendida à investigação de condições necessárias para a ausência
de reintegração efetiva (~RE_EFETIVA), especialmente nos subconjuntos de casos com
menores níveis do outcome. Nessa perspectiva, os resultados indicam a emergência de um
padrão distinto. A ausência da dimensão pessoal (~RE_PESSOAL) apresentou consistência de
0.75 como condição necessária para a ausência de reintegração efetiva, estando presente na
maioria dos casos analisados com menor desempenho reintegrativo. Embora esse valor não
atinja o limiar clássico de 0.90, ele se destaca comparativamente às demais condições, que
apresentaram consistências inferiores ou relevância empírica residual quando analisadas
isoladamente.
Esse padrão torna-se ainda mais evidente quando considerados os ajustes exploratórios
realizados na análise dos casos críticos, como a exclusão do Caso 12, identificado como
outlier estrutural. Nesse cenário, a ausência da dimensão pessoal mantém consistência isolada
máxima nos casos remanescentes de ausência de reintegração efetiva, enquanto as ausências
das dimensões estrutural e social deixam de apresentar qualquer consistência observável
como condições necessárias. Adicionalmente, a forte associação negativa entre
RE_PESSOAL e RE_EFETIVA (correlação de Pearson = -0.933) reforça empiricamente a
62
interpretação de que níveis reduzidos de reintegração pessoal constituem um elemento
recorrente nos contextos em que o resultado não se realiza.
Contudo, esses achados não autorizam a interpretação da ausência de reintegração
pessoal como condição necessária universal para a ausência de reintegração efetiva, mas
indicam sua relevância substantiva como condição limitante recorrente, sobretudo nos
estágios iniciais do processo reintegrativo e nos casos de menor desempenho. Assim,
enquanto a presença de reintegração efetiva depende de combinações multifatoriais, a sua
ausência parece estar mais frequentemente associada à não ocorrência da dimensão pessoal,
reforçando a assimetria causal característica da abordagem configuracional.
Tabela 7 – Condições necessárias para RE_EFETIVA
Os resultados permitem afirmar que não foi identificada nenhuma condição causal
individual necessária para a presença da reintegração efetiva (RE_EFETIVA), uma vez que
nenhuma das condições isoladas apresentaram valores de consistência superiores ao limiar
recomendado de 0.90 para classificação substantiva de necessidade (SCHNEIDER;
WAGEMANN, 2012; RAGIN, 2008).
Entretanto, algumas combinações causais envolvendo a dimensão social
(RE_SOCIAL) apresentaram maior robustez como condições quase-necessárias, destacando-
se especialmente:
• RE_SOCIAL * RE_PESSOAL (inclN = 0.898; RoN = 0.935; covN = 0.971)
• RE_ESTRUTURAL * RE_SOCIAL (inclN = 0.900; RoN = 0.955; covN = 0.955)
Essas configurações exibem valores elevados de cobertura, indicando que descrevem a
maior parte dos casos com reintegração efetiva e fornecem forte suporte empírico para a
interpretação de que a interação entre fatores sociais e pessoais ou, ainda, fatores estruturais e
63
relacionais combinados constituem alicerces recorrentes para trajetórias de alto nível de
reintegração.
Do ponto de vista conceitual, a ausência de uma condição necessária isolada e a
importância empírica de constelações multifatoriais somente reforçam a lógica
configuracional e o princípio da equifinalidade, convergindo com a literatura contemporânea
de desistência criminal, segundo a qual a mudança criminológica e a reintegração social
decorrem da associação de conjunturas causais integradas, de processos complexos,
interativos e dinâmicos (MARUNA, 2001; SAMPSON; LAUB, 2003; McNEILL, 2006;
FARRALL, 2002; ANDRADE et al., 2015).
5.3 Soluções para a Presença da Reintegração Efetiva
A análise de suficiência foi conduzida com parâmetros de corte de consistência
incl.cut = 0.90 e frequência mínima de 1 caso, seguindo recomendações metodológicas para
modelos configuracionais com amostras pequenas e médias (RAGIN, 2008; SCHNEIDER;
WAGEMANN, 2012). Os resultados indicaram que a presença da reintegração efetiva
(RE_EFETIVA) pode ser explicada por três configurações causais distintas, todas
apresentando altos níveis de consistência (≥ 0.987), o que evidencia robustez empírica dos
caminhos configuracionais identificados.
Conforme o princípio da equifinalidade, diferentes combinações de condições podem
produzir o mesmo resultado, indicando que não existe um único caminho determinístico para
a reintegração social bem-sucedida. Entretanto, todas as soluções incluem a condição
RE_ESTRUTURAL, sugerindo que condições estruturais favoráveis — como renda, emprego
estável, qualificação profissional e condições adequadas de moradia — constituem elementos
fundamentais (quase-necessários) no processo de reintegração efetiva.
Tabela 8 – Caminhos causais para presença de RE_EFETIVA
64
As três soluções identificadas ilustram o princípio da equifinalidade configuracional. 1
Além disso, todas incluem a dimensão estrutural (RE_ESTRUTURAL), indicando sua
recorrência como componente estruturante da reintegração.
a) Caminho 1 — Reintegração baseada em agência individual
A configuração RE_ESTRUTURAL * ~RE_SOCIAL * RE_PESSOAL indica que,
mesmo em contextos de ausência ou baixo suporte social, a presença de condições estruturais
adequadas conjugadas com elevada força pessoal — autonomia, sentimento de valorização,
estabilidade emocional — é consistente para sustentar trajetórias de reintegração social
efetiva.
b) Caminho 2 — Reintegração via suporte comunitário
A configuração RE_ESTRUTURAL * RE_SOCIAL * ~RE_PESSOAL demonstra
que, mesmo na presença de vulnerabilidades no âmbito pessoal, a disponibilidade simultânea
de oportunidades materiais e suporte social pode compensar fragilidades pessoais.
c) Caminho 3 — Modelo integrado (solução dominante)
A solução dominante RE_ESTRUTURAL * RE_SOCIAL * RE_PESSOAL
corresponde ao padrão configuracional mais recorrente na amostra, que, além de apresentar
elevada consistência (0.988), representa a convergência entre condições estruturais,
relacionais e pessoais, apresentando-se como o caminho mais robusto para a reintegração
efetiva.
Tais achados estão em consonância com a literatura sobre desistência criminal, que
reconhece a interação entre oportunidades estruturais, vínculos sociais e agência pessoal como
elementos decisivos na construção de trajetórias de abandono de carreiras criminais
(MARUNA, 2001; SAMPSON; LAUB, 2003; McNEILL, 2006; FARRALL, 2022). No
contexto brasileiro, diversas pesquisas convergem da mesma maneira para a compreensão de
que a reinserção social depende, simultaneamente, de suporte institucional, redes sociais
positivas e fortalecimento identitário, rejeitando explicações lineares ou deterministas
(ADORNO; SALLA, 2007; CORRÊA, 2022; BRAGA, 2012).
Consistência representa a proporção de casos empíricos em que a configuração está associada ao resultado; 1
frequência refere-se ao número de casos concretos que exibem a configuração.
65
5.3.1 Comparação entre Soluções Booleanas: Complexa, Intermediária e
Parcimoniosa
A comparação entre as três soluções booleanas geradas pelo processo de minimização
— solução complexa, solução intermediária e solução parcimoniosa — permite aprofundar a
compreensão configuracionaldos caminhos que conduzem à presença da reintegração efetiva
(RE_EFETIVA). Esse aprofundamento ocorre porque as soluções expressam diferentes níveis
de simplificação lógica e, quando interpretadas conjuntamente, revelam elementos
estruturantes para a consolidação da reintegração social.
No caso da solução complexa ela é baseada exclusivamente nos dados observados
empiricamente e não incorpora suposições contrafactuais, resultando na seguinte fórmula
sintética:
RE_ESTRUTURAL*RE_SOCIAL + RE_ESTRUTURAL*RE_PESSOAL → RE_EFETIVA 2
A solução intermediária, ao admitir apenas contrafactuais teoricamente plausíveis,
convergiu para a mesma estrutura combinatória, o que reforça a estabilidade e consistência
causal do modelo. Essa convergência indica que os resultados não são produto de fragilidade
do algoritmo ou de sobreajuste (overfitting), mas de um achado empírica teoricamente
fundamentado.
A solução parcimoniosa, por sua vez, que representa o nível máximo de simplificação
lógica por meio da inclusão de todos os contrafactuais possíveis, reduziu o modelo à seguinte
expressão mínima: RE_ESTRUTURAL → RE_EFETIVA.
Essa solução apresenta consistência de 0.953 e cobertura de 0.828, evidenciando que
RE_ESTRUTURAL constitui uma condição causal central (core condition) recorrente em
todos os caminhos configuracionais que levam ao resultado. A identificação de
RE_ESTRUTURAL como elemento central e insubstituível evidencia sua relevância
substantiva e indica que a reintegração efetiva é difícil de ocorrer na ausência de condições
materiais básicas favoráveis — como inserção produtiva, estabilidade econômica, moradia
adequada e acesso a serviços públicos essenciais.
Na álgebra booleana, o símbolo * indica a conjunção lógica (E), representando a ocorrência simultânea das 2
condições envolvidas; o símbolo + indica a disjunção lógica (OU) e o símbolo → expressa relação de
suficiência, indicando que a configuração apresentada à esquerda é suficiente para produzir o resultado à direita,
segundo o conjunto de casos analisados.
66
A tabela a seguir sintetiza os resultados e facilita a visualização comparativa:
Tabela 9 – Soluções Complexa, Intermediária e Parcimoniosa
A convergência entre as soluções complexa e intermediária reforça a robustez
configuracional e demonstra que a efetividade reintegrativa emerge da interação entre
condições estruturais e mecanismos de suporte social e fortalecimento subjetivo. Já a solução
parcimoniosa confirma que a condição estrutural constitui o núcleo causal mais estável,
embora não seja substantivamente suficiente quando interpretada de forma isolada. Isso
porque, apesar de ser matematicamente suficiente no nível lógico booleano, a análise
substantiva e qualitativa revela que trajetórias reintegrativas bem-sucedidas dependem de
processos interativos, e não exclusivamente de fatores materiais.
Assim, os achados empíricos confirmam princípios fundamentais da lógica
configuracional e da literatura sobre desistência criminal, segundo os quais trajetórias de
mudança são resultado de combinações complexas de oportunidades estruturais, vínculos
relacionais e agência pessoal, operando de forma não linear e multicausal (MARUNA, 2001;
SAMPSON; LAUB, 2003; McNEILL, 2014; FARRALL, 2022; RAGIN, 2008;
SCHNEIDER; WAGEMANN, 2012).
5.4 Soluções para a Ausência da Reintegração
A análise configuracional voltada à explicação da ausência da reintegração efetiva
reforça a natureza assimétrica da lógica fsQCA, segunda a qual os caminhos que levam à
reintegração efetiva não são o simples inverso das configurações que levam a ausência de
reintegração efetiva (SCHNEIDER; WAGEMANN, 2012; RAGIN, 2008). Isso confirma que,
67
da mesma forma que ocorre na presença resultado desejado, diferentes mecanismos operam
quando da ausência de reintegração efetiva, ou seja, quando ela é tida como não consolidada.
Em uma etapa inicial da análise, foi identificada, no subgrupo de participantes
classificados como Baixo Tempo de Programa, uma configuração associada à ausência do
outcome, expressa pela relação ~RE_PESSOAL → ~RE_EFETIVA, com consistência de
0.861 e cobertura de 0.909. Esse resultado sugeria que baixos níveis de reintegração pessoal
estariam associados à ausência de reintegração efetiva entre participantes com menor tempo
de permanência no programa.
Contudo, análises subsequentes, realizadas com a ampliação da amostra e com o
refinamento dos procedimentos configuracionais, demonstraram que essa relação não se
sustenta como um padrão robusto de suficiência causal. O resultado mostrou-se sensível à
composição do conjunto empírico e à presença de casos específicos, não se reproduzindo de
forma estável quando o número de casos foi expandido. Assim, a configuração
~RE_PESSOAL → ~RE_EFETIVA deve ser interpretada com cautela, não como uma solução
determinística, mas como um indício exploratório da relevância da dimensão pessoal nos
contextos em que a reintegração efetiva não se consolida.
Diante dessas limitações, a estratégia analítica foi reorientada para a investigação das
condições de necessidade associadas à ausência do outcome, o que permitiu identificar
padrões empíricos mais consistentes. A análise concentrou-se nos casos de baixo desempenho
em reintegração efetiva (RE_EFETIVA ≤ 0.55), abandonando-se a inclusão de casos de
desempenho intermediário (até 0.9), uma vez que estes se situavam acima do ponto de maior
ambiguidade fuzzy (0.5), não contribuindo de forma decisiva para a identificação de padrões
configuracionais claros.
Nesse subconjunto restrito, a dimensão pessoal (RE_PESSOAL) emergiu de forma
reiterada como o fator mais sensível e transversalmente associado à ausência de reintegração
efetiva, ainda que não configure uma condição necessária em sentido lógico estrito.
Comparativamente às dimensões estrutural e social, ~RE_PESSOAL apresentou a maior
consistência empírica como condição necessária para ~RE_EFETIVA, no grupo de baixao
desempenho reintegrativo, ainda que sem atingir o limiar clássico de 0.90. Em ambos os
cenários, a consistência observada (0.75) destacou-se em relação às demais condições, que
apresentaram relevância empírica residual ou dependente de casos isolados.
68
Um aspecto metodologicamente relevante identificado nessa etapa foi a presença de
um caso dominante na dimensão estrutural, responsável por praticamente toda a cobertura
observada para ~RE_ESTRUTURAL. A exclusão exploratória desse caso permitiu evidenciar
com maior nitidez o papel da dimensão pessoal: uma vez retirado o efeito concentrador da
dimensão estrutural, ~RE_PESSOAL permaneceu como a única condição com consistência
plena (-0.933) para a ausência do outcome, ao passo que as demais dimensões deixaram de
apresentar relevância analítica. Esse procedimento reforça que a criticidade da dimensão
pessoal não decorre de um artefato estrutural, mas de um padrão empírico recorrente nos
casos de ausência de reintegração efetiva.
Adicionalmente, a análise de necessidade realizada por meio do procedimento
superSubset indicou que a ausência de reintegração efetiva pode ocorrer por diferentes
combinações mínimas de condições, sendo identificada uma solução disjuntiva
(~RE_SOCIAL + RE_ESTRUTURAL) como necessária para ~RE_EFETIVA. Tal resultado
evidencia que a ausência do resultado tende a ocorrer quando combinada à fragilidade social
ou, alternativamente, à presença estrutural isolada, evidenciando assimetria causal e
heterogeneidade nos mecanismos de falha reintegrativa.
Cabe destacar que nenhuma solução configuracional foi identificada para a ausência
de reintegração efetiva no subgrupo de participantes com alto tempo de programa
(TEMPO_PROGRAMA > 12 meses). Esse achado sugere que a permanência prolongada no
programa exerce um efeito protetivo, reduzindo a formação de padrões causais consistentes
de ausência, mesmo diante de fragilidadespessoais. Tal resultado reforça o papel do tempo de
vinculação institucional como um amortecedor das vulnerabilidades subjetivas dos egressos.
Tabela 10 – Condições isoladas associadas à ausência de reintegração efetiva 3
O Caso 12 foi retirado da análise por se configurar como outlier, conforme indicado pela análise exploratória 3
dos dados. A exclusão desse caso resultou em um aumento substancial da associação entre ausência de
reintegração pessoal e ausência de reintegração efetiva, com a correlação de Pearson passando de -0.758 para
-0.933, reforçando a relevância da dimensão pessoal como fator crítico explicativo.
69
Em síntese, a análise indica que a ausência de sustentação pessoal emerge como o
principal fator crítico associado à falha da reintegração efetiva. A dimensão pessoal — que
envolve autonomia, estabilidade emocional, autoestima, capacidade de autogoverno e
superação de estigmas — revela-se decisiva para explicar por que, mesmo na presença de
condições estruturais e sociais relativamente favoráveis, o processo de reintegração pode não
se consolidar.
Esse resultado dialoga também com referenciais da criminologia crítica, ao indicar que
a subjetividade é atravessada pela violência institucional do encarceramento e pelos efeitos
persistentes do estigma social (labeling approach), elementos que dificultam a reconstrução
identitária e produzem vulnerabilidades que podem inviabilizar a reintegração social
(FOUCAULT, 1975; MARUNA, 2001; FARRALL, 2005; BARATTA, 2011).
5.4.1 Comparação entre Presença e Ausência do Resultado
A comparação entre os modelos configuracionais que explicam a presença e a
ausência da reintegração efetiva evidencia a lógica de assimetria causal, princípio
fundamental da fsQCA segundo o qual os caminhos que levam ao sucesso não são o oposto
lógico dos caminhos que levam ao fracasso (RAGIN, 2008; SCHNEIDER; WAGEMANN,
2012). Enquanto a presença da reintegração efetiva mostrou-se multicausal e dependente da
combinação de fatores estruturais, sociais e pessoais, a ausência do resultado emergiu como
fenômeno menos complexo e mais concentrado, explicado isoladamente pela fragilidade
subjetiva.
Essa diferença estruturante confirma que a ausência de reintegração social efetiva não
resulta necessariamente da ausência de oportunidades materiais ou de suporte social, mas
pode ocorrer mesmo na presença desses recursos quando falha o componente pessoal, como
autonomia, autoestima, estabilidade emocional e capacidade de projetar futuro. Portanto, a
comparação sintetiza que a presença requer acúmulo e convergência de condições favoráveis,
enquanto a ausência pode emergir de uma única ruptura crítica, reforçando a centralidade da
dimensão pessoal como fator de sustentação identitária e emocional para trajetórias de
desistência do crime e reconstrução de vida.
70
Tabela 11 – Equifinalidade e assimetria configuracional na reintegração efetiva
Deste modo, embora a condição estrutural (RE_ESTRUTURAL) configure núcleo
causal central para a presença de reintegração efetiva, sua ausência não emergiu como
caminho causal para explicar o fracasso, evidenciando a assimetria lógica típica do fsQCA. O
resultado sugere que a reintegração pode ser sustentada, ainda que de modo frágil ou
transitório, por meio de mecanismos compensatórios relacionados a vínculos sociais positivos
e agência subjetiva, como indicam MARUNA (2001), SAMPSON e LAUB (2003) e
McNEILL (2014). Por outro lado, a ausência de sustentação pessoal (~RE_PESSOAL)
mostrou-se condição suficiente para a não efetivação da reintegração, indicando que
fragilidades identitárias e emocionais têm maior poder desestabilizador do que limitações
materiais isoladas, esse achado é coerente com a perspectiva da criminologia crítica.
5.5 Subanálises por Tempo de Programa
A análise de subgrupos baseada na variável de controle TEMPO_PROGRAMA,
inicialmente calibrada em escala fuzzy de 0.05 a 0.95 para fins exploratórios e posteriormente
recodificada em dois conjuntos analíticos dicotômicos — baixo tempo (≤ 12 meses) e alto
tempo (> 12 meses) — permitiu investigar se o tempo de exposição ao Programa Ressocializa
DF altera os padrões configuracionais associados à reintegração.
A distribuição dos casos demonstra predominância de participantes com maior tempo
de permanência, conforme os dados a seguir:
Tabela 12 – Quantidades de casos por subgrupos
71
Essa segmentação possibilitou investigar em que medida a duração da intervenção
influencia a complexidade causal e a estabilidade do processo de reintegração, explorando se
o tempo atua sobre os mecanismos que sustentam a reintegração efetiva e como variam
conforme o tempo de permanência no programa.
Os resultados dessa etapa são apresentados e discutidos nas seções subsequentes.
5.5.1 Resultados do Subgrupo Alto Tempo
A análise configuracional conduzida no subgrupo de alto tempo de participação, com
TEMPO_PROGRAMA > 12 meses, revelou um padrão causal evidente e parcimonioso para a
obtenção de reintegração efetiva.
A Tabela-Verdade, sintetizada abaixo, demonstra que das cinco configurações
empiricamente presentes, quatro associam-se consistentemente à presença do resultado
(out=1), enquanto uma configuração, caracterizada pela ausência simultânea das três
condições (~RE_ESTRUTURAL*~RE_SOCIAL*~RE_PESSOAL), associa-se à ausência do
resultado (out=0).
Tabela 13 – Tabela-Verdade (Presença do resultado — Subgrupo Alto Tempo)
A minimização booleana dessas configurações, produziu uma solução suficientemente
parcimoniosa de um único termo:
RE_ESTRUTURAL → RE_EFETIVA
Consistência) = 0,951 | Cobertura = 0,803
Essa solução indica que, no subgrupo de maior tempo de permanência, a condição
estrutural (RE_ESTRUTURAL) é, por si só, suficiente para gerar reintegração efetiva,
alcançando elevada consistência (0,951) e abrangendo 80,3% dos casos positivos. A análise
da ausência do resultado não gerou soluções consistentes, indicando assimetria causal.
72
Do ponto de vista substancial, tal resultado sugere que o tempo de permanência no
programa opera como mecanismo protetivo acumulativo, capaz de amortecer fragilidades
prévias e ajudar na consolidação de trajetórias de desistência criminal. Nesse sentido, o efeito
temporal aparece como variável institucional chave para a estabilidade reintegrativa,
compatível com o entendimento de que a desistência não é um evento, mas um processo
contínuo.
Esse achado converge com evidências da literatura sobre continuidade e duração da
intervenção que destacam a importância do suporte prolongado como mecanismo de
sustentação de trajetórias de reintegração social. Tais evidências emergiram de estudos que
concluíram que a duração do vínculo institucional e a rotinização do comportamento social
aparecem como elementos mais determinantes do que a composição específicas das
intervenções aplicadas aos egressos. (UGGEN, 2000; SAMPSON; LAUB, 2003; MCNEILL,
2006).
Em síntese, os resultados apresentados para o subgrupo alto tempo apontam que quanto maior
o tempo de exposição ao Programa Ressocializa DF, menor a probabilidade de surgimento de
padrões configuracionais negativos. Deste modo, é viável a conclusão de que o tempo
funciona como variável que estabiliza e reforça as redes sociais, a identidade, assim como as
oportunidades estruturais, solidificando as trajetórias de reintegração social efetiva.
5.5.2 Resultados do Subgrupo Baixo Tempo
No subgrupo composto pelos casos com TEMPO_PROGRAMA ≤ 12 meses, os
resultados diferiram substancialmente do padrão observado entre os participantes com maior
tempo de permanência no programa. A análise configuracional revelou alta heterogeneidade
interna e ausência de soluções estáveis tanto para explicar a presença quanto a ausência da
reintegração efetiva.
Tabela 14 – Presença do resultado — Subgrupo Baixo Tempo)
73
Apesar da tabela-verdade terapresentado algumas combinações com elevados índices
de consistência para a presença do resultado (incl ≥ 0,971), o algoritmo de minimização não
identificou soluções suficientes, resultando na seguinte mensagem no console do R:
!AVISO: Não foi possível gerar solução para presença (Baixo Tempo)”
Esse padrão indica que, nos estágios iniciais de participação, não existe regularidade
causal suficiente para estabelecer mecanismos explicativos recorrentes do desfecho
reintegrativo. A ausência de solução fuzzy estável reflete que, em curto período, os efeitos
estruturais, sociais ou pessoais ainda não se consolidaram o bastante para produzir padrões
consistentes de reintegração efetiva.
Do ponto de vista substantivo, isso implica que as trajetórias reintegrativas
permanecem altamente instáveis e vulneráveis nos primeiros meses de intervenção, e que o
tempo de exposição ao programa desempenha importante papel moderador no fortalecimento
das condições necessárias à consolidação da efetiva reintegração.
5.5.3 Comparação Visual entre Subgrupos
A comparação visual entre os subgrupos de tempo de participação permite observar
padrões contrastantes na trajetória de reintegração. Os resultados indicam que a permanência
contínua no programa tende a produzir níveis mais elevados de reintegração, ainda que seus
efeitos nas dimensões causais não se apresentem de forma linear. Esta etapa não tem o
objetivo estatístico, mas de visualizar tendências estruturais, fortalecendo o diálogo entre
evidência empírica, interpretação configuracional e teoria da desistência.
A Figura 2, a seguir, revela que o pertencimento ao conjunto Alta Reintegração é
consideravelmente mais forte entre aqueles que permaneceram por mais de 12 meses no
programa, em contraste com participantes com tempo de participação inferior. Tal diferença
sugere que a continuidade na experiência laboral e socioeducativa tende a favorecer trajetórias
com maior alinhamento aos atributos característicos de reintegração efetiva. A Figura 3 4
complementa essa evidência ao mostrar que a média fuzzy de RE_EFETIVA também se eleva
de forma consistente com o aumento do tempo de participação.
Interpretar percentuais como indicadores de pertencimento ao conjunto e não como estimativas populacionais; 4
o objetivo da visualização é destacar padrões comparativos da amostra.
74
Figura 2 – Proporção de egressos com alta reintegração (RE_EFETIVA ≥ 0.90)
Essa evidência converge com a literatura de turning points e desistência criminal,
segundo a qual mudanças duráveis dependem da repetição e manutenção de contextos pró-
sociais ao longo do tempo (SAMPSON; LAUB, 2003; MARUNA, 2001; MCNEILL, 2006).
A visualização a seguir aprofunda esse achado mostrando a média de pertencimento
fuzzy ao conjunto RE_EFETIVA. Observa-se evolução de 0,706 (≤ 12 meses) para 0,798 (>
12 meses), indicando maior intensificação do resultado no grupo de maior permanência, com
tendência clara de aproximação do limiar de alta reintegração.
75
Figura 3 – Média de Pertencimento ao Conjunto RE_EFETIVA por Tempo no
Programa
Intrigante, contudo, é que ao observar as dimensões causais isoladamente, nota-se que
a permanência ampliada está associada a ligeiro incremento médio nas dimensões Estrutural e
Pessoal, mas não na dimensão Social, que apresenta redução discreta entre aqueles que
permanecem mais de um ano. Isso é um achado relevante, pois derruba a interpretação
intuitiva de que perfis mais socialmente integrados seriam, necessariamente, os que
permanecem mais tempo, em razão de sofrerem menos desligamentos, por exemplo. O que
não foi exatamente observado na amostra. Neste caso, os dados sugerem o inverso: o tempo
não seria efeito da sociabilidade inicial, mas condição que, quando sustentada, aumentaria a
chance de reintegração mesmo quando o capital social não está consolidado. Esse ponto
também é teoricamente coerente, porque vínculos comunitários e reconhecimento social
tendem a se fortalecer mais lentamente que estabilidade material e disciplina ocupacional,
sendo também mais sensíveis ao estigma e às barreiras externas.
76
Figura 4 – Nível Médio de Pertencimento entre as Dimensões Causais
Portanto, o conjunto das visualizações indica que o tempo não atua como uma
condição determinística, mas como uma variável de contexto, no qual a permanência mais
prolongada tende a elevar o grau de pertencimento ao conjunto de reintegração social efetiva.
Não se trata de um efeito linear ou imediato, mas de acúmulo progressivo de experiências,
vínculos e rotinas produtivas, que se refletem em maior adesão ao resultado ao longo do
tempo. Esses achados sugerem que estratégias institucionais que favoreçam a permanência e
reduzam interrupções e desligamentos prolongados podem contribuir para trajetórias
reintegrativas mais estáveis, tema que será aprofundado nas Recomendações de Políticas
Públicas (Capítulo 7).
5.6 Discussão Integrativa dos Achados
A análise configuracional realizada por meio da técnica fsQCA demonstrou que a
reintegração efetiva não depende de fatores isolados, mas emerge da combinação de múltiplas
dimensões — estrutural, social e pessoal — refletindo a natureza complexa e interdependente
dos processos de reconstrução pessoal pós-pena e desistência criminal. Embora nenhuma
77
condição individual tenha se mostrado necessária isoladamente, os resultados revelaram que a
dimensão estrutural da reintegração ocupa posição central no modelo, desempenhando função
de núcleo causal (core condition) na solução parcimoniosa e compondo todos os caminhos
configuracionais que levam à presença da reintegração efetiva.
A solução parcimoniosa identificou RE_ESTRUTURAL → RE_EFETIVA com
consistência elevada (inclS = 0,953) e cobertura substancial (covS = 0,828), indicando que
acesso a renda, emprego formal, estabilidade de moradia e condições materiais mínimas
constituem os fatores indispensáveis sobre os quais as trajetórias de reintegração podem se
consolidar. Esse achado converge com a literatura especializada que reconhece o papel central
das oportunidades estruturais como âncoras de estabilidade social e interrupção de trajetórias
criminais (SAMPSON; LAUB, 2003; UGGEN; MANZA, 2004; McNEILL, 2014; JULIÃO,
2009; ANDRADE et al., 2015; CARNEIRO, 2022).
A convergência entre a solução intermediária e a solução complexa reforça a robustez
desse núcleo causal, uma vez que ambas apontam para dois caminhos empíricos principais —
a via Sócio-Estrutural (RE_ESTRUTURAL * RE_SOCIAL) e a via Psico-Estrutural
(RE_ESTRUTURAL * RE_PESSOAL) — demonstrando que, embora a dimensão estrutural
seja decisiva, ela raramente opera isoladamente. Na prática, os casos bem-sucedidos mostram
que o suporte institucional e econômico é amplificado quando acompanhado pela construção
de vínculos sociais ou pelo fortalecimento subjetivo do sentido de futuro, autonomia e
capacidade de autocontrole. Assim, o achado central não simplifica a reintegração a uma
variável determinística, mas evidencia equifinalidade causal, permitindo diferentes modos de
sucesso reintegrativo (RAGIN, 2008; SCHNEIDER; WAGEMANN, 2012).
Por outro lado, a análise voltada à ausência de reintegração efetiva (~RE_EFETIVA)
evidenciou a assimetria do fenômeno, uma vez que os fatores que explicam a presença do
resultado não correspondem simplesmente ao inverso daqueles que explicam sua ausência. A
análise exploratória, considerando o subgrupo de baixo tempo de participação e excluindo o
caso outlier, indicou que a ausência de sustentação pessoal (~RE_PESSOAL) se apresenta
como condição crítica para a ausência de reintegração efetiva, com consistência de 0,924,
relevância de 0,878 e cobertura de 0,753. A correlação negativa com RE_EFETIVA atingiu
-0,933, reforçando que quanto menor a reintegração pessoal, maior a ausência do resultado.
Esses achados sugerem que fragilidades subjetivasrelacionadas à autoestima, estabilidade
78
emocional, controle sobre escolhas e elaboração identitária constituem fatores centrais para
explicar a ausência de reintegração, mesmo diante de suporte estrutural ou social parcial, em
consonância com perspectivas teóricas que concebem a mudança como processo narrativo e
identitário dependente de agência subjetiva e sentido de futuro (MARUNA, 2001;
FARRALL, 2002; McNEILL, 2006; CORRÊA, 2022; BRAGA, 2012; OLIVEIRA;
RIBEIRO, 2019).
A análise de subgrupos por tempo no programa reforça essa interpretação. Para o
subgrupo alto tempo (> 12 meses), observou-se forte homogeneidade positiva, com
consistências elevadas em todas as combinações configuracionais apresentadas e ausência de
soluções estáveis para a ausência do resultado. Isso sugere efeito protetivo da permanência
prolongada no programa, que estabiliza trajetórias e reduz vulnerabilidades iniciais. No
subgrupo baixo tempo (≤ 12 meses), ao contrário, verificou-se instabilidade causal e forte
dependência da dimensão pessoal na explicação da ausência de reintegração. Esse padrão
empírico dialoga diretamente com as teorias de turning points (SAMPSON; LAUB, 2003),
que afirmam que a mudança sustentada depende da acumulação temporal de vínculos
positivos e experiências de rotina socializada, especialmente no período inicial pós-prisão
(JULIÃO, 2016; MOURA; RIBEIRO, 2006; CARNEIRO, 2022).
Finalmente, a articulação entre as evidências configuracionais e os achados do estudo
de caso, por meio das entrevistas, aprofundarão a compreensão dos mecanismos identificados.
Nesse sentido, os relatos dos participantes reforçarão os resultados até aqui expostos,
revelando como que o acesso ao trabalho e à renda opera como eixo estruturante da
reconstrução de vidas após a prisão, e em que medida os vínculos sociais e afetivos
funcionam como âncoras de sustentação emocional e identitária diante do estigma penal, e
como meio de amortecimento da violência institucional e retraumatizações recorrentes.
Aprofundaremos ainda mais no sentido de que a análise qualitativa resultante do Estudo de
Caso evidencia que narrativas de ruptura familiar, depressão, recaída química e solidão
extrema se associam a baixos níveis de reintegração pessoal, enquanto relatos de estabilidade
financeira, pertencimento social e reconhecimento simbólico ilustram trajetórias em que a
reintegração se apresenta mais consolidada.
79
5.7 Implicações para o Programa Ressocializa DF e para as Políticas Públicas de
Reintegração Social
Os achados configuracionais produzidos pela análise fsQCA permitem derivar
implicações diretas e aplicadas para o aprimoramento do Programa Ressocializa DF e para o
desenvolvimento de políticas públicas de reintegração social no país. A evidência empírica de
que a dimensão estrutural da reintegração constitui condição causal central para a ocorrência
da reitegração social efetiva indica que ações voltadas à ampliação das oportunidades
materiais de inserção social — especialmente emprego, renda, moradia e qualificação
profissional — devem assumir papel prioritário na agenda pública. Isto decore do fato de que
a dimensão estrutural esteve presente em todas as configurações causais suficientes
identificadas e operou como núcleo sobre o qual as demais dimensões se articulam, o que
sugere que a efetividade das políticas depende, antes de tudo, da garantia de bases materiais
mínimas para reconstrução de trajetórias de vida.
Ao mesmo tempo, os resultados demonstram que o êxito reintegrativo não ocorre
apenas pela oferta de mecanismos estruturais isolados, mas por meio de combinações
configuracionais que integram suporte social e fortalecimento pessoal. As configurações
empíricas reveladas — via socioestrutural e via psicoestrutural — indicam que as redes de
apoio comunitário e os processos de desenvolvimento subjetivo funcionam como elementos
de sustentação que potencializam os efeitos da estrutura institucional. Dessa forma, políticas
que articulem múltiplos eixos de ação tendem a produzir maior estabilidade reintegrativa do
que políticas fragmentadas e setorializadas.
Outra implicação relevante decorre da análise da ausência da reintegração efetiva, ou
seja, dos casos em que a reintegração desejada não ocorre, que evidenciou a fragilidade
subjetiva como condição suficiente para o fracasso reintegrativo, sobretudo nos casos com
menor tempo de participação no programa. Essa constatação reforça que a fase inicial de
ingresso no Ressocializa DF representa momento crítico de vulnerabilidade, demandando
suporte psicossocial atento e sistemático, capaz de prevenir rupturas precoces e ampliar a
permanência contínua no programa. A identificação empírica do tempo como fator protetivo
sugere ainda que a manutenção prolongada do vínculo institucional influencia positivamente a
consolidação de trajetórias de reinserção social e, portanto, modelos que assegurem vínculos
mais contínuos tendem a produzir resultados mais consistentes e duradouros.
80
Assim, os achados configuracionais orientam a formulação de políticas públicas
sustentadas em quatro pilares complementares:
(i) fortalecimento prioritário das condições estruturais de sobrevivência e
inclusão;
(ii) articulação com redes de suporte social e comunitário;
(iii)investimento em acompanhamento psicossocial contínuo e personalizado; e
(iv)coordenação intersetorial entre políticas públicas para evitar fragmentação das
ações.
Tais elementos não apenas oferecem caminhos concretos para o aprimoramento do
Programa Ressocializa DF, mas também apontam direções para formulação de programas
semelhantes em outras unidades federativas, contribuindo para a construção de diretrizes
baseadas em evidências e alinhadas às necessidades da sociedade .
Os resultados obtidos demonstram, portanto, que políticas de reintegração social
efetivas exigem intervenções integradas, sustentadas ao longo do tempo e ancoradas em bases
materiais. O reconhecimento dessa natureza configuracional e multidimensional constitui
elemento estratégico para orientar decisões de política pública, desenvolvimento institucional
e planejamento estatal no campo da justiça criminal e da reinserção social.
81
CAPÍTULO 6 – ESTUDO DE CASO COM ENTREVISTAS E ANÁLISE DE
CONTEÚDO
Este capítulo apresenta o componente empírico baseado em entrevistas
semiestruturadas realizadas com participantes do Programa Ressocializa DF, desenvolvido de
forma integrada à análise configuracional fsQCA exposta no capítulo anterior. Trata-se de um
estudo de caso, nos termos definidos por Robert K. Yin em Estudo de Caso: Planejamento e
Métodos (YIN, 2015), concebido para aprofundar a compreensão dos mecanismos subjetivos,
relacionais e contextuais que sustentam os padrões causais associados à reintegração efetiva
identificados pela técnica configuracional. A articulação entre estudo de caso e Análise de
Conteúdo, conforme sistematizada por Laurence Bardin (2011), permitiu avançar na
interpretação dos resultados, ampliando a densidade explicativa das trajetórias empíricas
observadas.
O estudo foi delineado conforme a perspectiva de Yin (2015) para investigações sobre
fenômenos complexos em contextos reais, nos quais as fronteiras entre objeto e ambiente são
interdependentes. As entrevistas constituíram uma fonte estratégica de evidências empíricas,
recomendada pelo autor para construção de inferência analítica robusta em estudos de caso,
garantindo a triangulação necessária entre diferentes fontes de informação, conforme consta
da seção 6.11 deste capítulo.
6.1 Planejamento e Preparação do Estudo de Caso
O roteiro de entrevista teve caráter semiestruturado, garantindo cobertura dos eixos
analíticos centrais — estrutura material, redes sociais, agência pessoal e desfecho
reintegrativo — sem restringir a emergência de dimensões imprevistas. O roteiro foi
organizadonos seguintes blocos temáticos:
• Apresentação do pesquisador e leitura do Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (TCLE);
• Trajetória prisional e transição pós-egresso;
• Experiência de trabalho e vínculo institucional mediado pela FUNAP;
• Suporte familiar, redes sociais e percepção de estigma;
• Dimensões subjetivas e projeto de futuro; e
• Avaliação do Programa Ressocializa DF e sugestões para aprimoramento.
82
Os participantes foram selecionados por amostragem intencional, correspondente ao
critério de unidades de análise estrategicamente escolhidas para maximizar o potencial
informacional (YIN, 2015). Todos os entrevistados foram beneficiários do Programa
Ressocializa DF e haviam previamente respondido ao questionário da etapa fsQCA. As
entrevistas foram realizadas por ligação telefônica, gravadas mediante autorização expressa, e
tiveram duração média entre 30 e 45 minutos.
As entrevistas foram utilizadas como instrumento de aprofundamento interpretativo e
de triangulação metodológica, permitindo explorar os significados atribuídos pelos
participantes às condições empíricas identificadas na modelagem configuracional. Essa
estratégia metodológica encontra respaldo direto nas recomendações de Charles Ragin,
criador da QCA, que enfatiza a importância da articulação entre análise comparativa
configuracional e estudos de caso como forma de aprofundar a compreensão dos mecanismos
causais subjacentes aos padrões empíricos observados (RAGIN, 2008; RAGIN; RIHOUX,
2009). Do mesmo modo, a orientação de Bardin (2011) para integração de técnicas analíticas
na produção de inferência interpretativa reforça o papel das entrevistas como recurso
fundamental para explicitar significados e reconstruir processos narrativos que
complementam, refinam e contextualizam a interpretação configuracional.
6.2 Execução e Registro das Entrevistas
A fase de execução do estudo empírico foi realizada conforme princípios
metodológicos de investigação de campo descritos por Yin (2015) para estudos de caso,
particularmente no que se refere à flexibilidade investigativa, ao uso de múltiplas fontes de
evidência e à atenção às narrativas situadas no contexto. A etapa de contato com os
participantes teve início a partir dos dados telefônicos disponibilizados pelos próprios
egressos no momento de preenchimento da ficha cadastral de trabalho da FUNAP, utilizada
como lista-base de localização. Diante das dificuldades recorrentes de contato direto com
alguns participantes — associadas à troca frequente de números telefônicos por pessoas em
situação de vulnerabilidade social — foram também utilizados, de modo secundário, os
números cadastrados de familiares e visitantes previamente registrados no sistema da unidade
prisional. Nesses casos, os familiares atuaram apenas como intermediários de comunicação,
sem participação nas entrevistas.
83
O primeiro contato com os potenciais participantes foi realizado por mensagem via
WhatsApp, estratégia que se demonstrou mais eficaz e menos invasiva, conforme
recomendação de abordagens investigativas que privilegiam acessibilidade e respeito ao ritmo
dos participantes. Após confirmação de interesse em colaborar com o estudo, os egressos
eram convidados a responder o formulário estruturado elaborado no Google Forms, etapa
inicial que permitia mapear perfil sociodemográfico, situação social e indicadores prévios de
reintegração. Em seguida, era agendado um horário individualizado para realização da
entrevista.
As entrevistas foram conduzidas por chamadas de voz, mediante agendamento prévio,
com duração média entre 30 e 45 minutos. No início de cada conversa, era realizada a leitura
integral do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), garantindo ciência sobre
objetivos da pesquisa, condições de confidencialidade, autonomia para recusa ou interrupção
e autorização formal para gravação. Os participantes foram reiteradamente informados de que
poderiam omitir quaisquer respostas ou encerrar a entrevista a qualquer momento, sem
qualquer forma de prejuízo ou constrangimento, conforme princípios éticos de pesquisa com
seres humanos.
A condução das entrevistas seguiu um roteiro semiestruturado, mas com abertura à
dinâmica narrativa espontânea, em sintonia com o caráter exploratório do estudo de caso e
com a perspectiva fenomenológica adotada. Conforme orienta Yin (2015), esse formato
permite que o pesquisador acompanhe os significados construídos pelos participantes e
identifique relações causais percebidas pelos próprios atores. Assim, ainda que as perguntas
orientadoras fossem organizadas em blocos temáticos relacionados às dimensões analíticas do
estudo configuracional — estrutura, vínculos sociais, dimensão pessoal e reintegração — não
houve rigidez procedimental, permitindo que os entrevistados produzissem narrativas amplas
e abordassem temas não previstos originalmente, quando relevantes para suas experiências de
vida.
Durante a entrevista, quando apropriado, referências diretas às respostas do
questionário inicial eram utilizadas para clarificação de ambiguidades e aprofundamento
interpretativo, permitindo investigar como declarações abstratas se materializavam na prática
cotidiana. Essa estratégia metodológica alinha-se à proposta de triangulação e à valorização
da fala situada como fonte de dados interpretativos.
84
Todas as entrevistas foram gravadas em áudio — mediante autorização explícita — e
posteriormente transcritas literalmente, constituindo o corpus analisado. As transcrições
preservaram elementos discursivos relevantes, como pausas, hesitações e variações de
entonação, sempre que expressivamente significativos, conforme orientação sistematizada por
Bardin (2011) para análise de conteúdo.
A sistematização e transcrição das entrevistas constituíram a base documental que
permitiu o início do processo de análise propriamente dito. A partir desse ponto, o objetivo
desloca-se da coleta e registro das narrativas para sua organização interpretativa, orientada
pela identificação de padrões de sentido, recorrências e diferenças significativas entre as
experiências relatadas pelos participantes. Este movimento corresponde à etapa em que o
corpus textual é submetido aos procedimentos analíticos da Análise de Conteúdo, conforme
delineados por Bardin (2011), e articulados ao princípio de triangulação recomendado por Yin
(2015) para estudos de caso. Dessa forma, na seção seguinte, apresentam-se as estratégias
empregadas para o tratamento sistemático do material de pesquisa e o processo de construção
das categorias temáticas que sustentam a interpretação dos mecanismos explicativos
associados às diferentes trajetórias de reintegração.
6.3 Procedimentos de Análise de Conteúdo
A análise seguiu rigorosamente as três etapas metodológicas propostas por Bardin
(2011): pré-análise, exploração do material e tratamento interpretativo dos resultados.
Na pré-análise, procedeu-se à leitura flutuante inicial, organização das transcrições por
identificação numérica (Caso 1 ao Caso 21) e definição das regras de inclusão e exclusão de
trechos. Essa etapa permitiu o primeiro contato sistemático com o corpus de pesquisa e
possibilitou a identificação preliminar de unidades de sentido vinculadas às dimensões
empíricas da reintegração.
Na exploração do material, foi realizada codificação manual das unidades de registro,
com categorização orientada tanto pelas dimensões analíticas previamente definidas
(estrutura, social, pessoal e resultado), quanto pela emergência indutiva de novas categorias
no interior do discurso. A análise buscou padrões de convergência e divergência entre casos,
conforme recomendação de Yin (2015) para síntese cruzada (cross-case synthesis).
Na etapa de tratamento e interpretação, os resultados foram integrados de forma
interpretativa, articulando narrativas individuais, categoriasemergentes e achados
85
configuracionais da fsQCA. O processo de triangulação possibilitou explicitar os mecanismos
causais, dinâmicas subjetivas e trajetórias diferenciadas que sustentam ou fragilizam a
reintegração social de egressos.
A análise de conteúdo permitiu, assim, a construção de mapas analíticos capazes de
revelar estruturas de significado e mecanismos explicativos profundos, ultrapassando
descrições fragmentadas e iluminando as interações complexas entre condições estruturais,
redes sociais, subjetividades e os resultados reintegrativos.
6.4 Perfil Geral dos Entrevistados
A amostra deste estudo é composta por 21 participantes que passaram pelo Programa
Ressocializa DF, selecionados com base em suas experiências no processo de reintegração
mediado pela FUNAP. Os entrevistados apresentam perfis distintos quanto à idade, gênero,
escolaridade, situação penal e tempo de permanência no programa, refletindo a diversidade de
trajetórias que caracterizam o universo dos egressos do sistema prisional do Distrito Federal.
A distribuição etária concentra-se principalmente nas faixas de 25 a 34 anos e de 35 a
44 anos, que juntas representam a maior parte dos casos analisados. Também há presença
significativa de entrevistados entre 45 e 54 anos, além de um participante com 55 anos ou
mais e apenas um caso no intervalo de 18 a 24 anos. Em termos de gênero, a amostra é
predominantemente masculina, composta por 16 homens e 5 mulheres.
86
Figura 5 – Distribuição dos entrevistados por faixa etária
Figura 6 – Distribuição dos entrevistados por gênero
No que se refere à escolaridade, observa-se predominância de baixa escolarização
formal. A maior parte dos entrevistados declarou possuir apenas o Ensino Fundamental
incompleto, seguida por um número reduzido de pessoas com Ensino Médio incompleto e
alguns casos com Ensino Médio completo ou Ensino Superior incompleto. Esse conjunto
87
revela experiências educacionais muito distintas entre os participantes, que repercutem
diretamente nas possibilidades de inserção no mercado de trabalho e nas trajetórias de vida
narradas ao longo das entrevistas. Quanto ao estado civil, prevalece a condição de solteiro(a),
acompanhada de um grupo menor que declarou união estável ou casamento, e um caso de
viuvez, indicando histórias afetivas marcadas por rupturas e rearranjos familiares.
Figura 7 – Concentração da baixa escolaridade entre os entrevistados
Considerando o tempo de participação no Programa Ressocializa DF, a maior parte
dos entrevistados declarou ter trabalhado por mais de um ano, enquanto um segundo grupo
atuou entre quatro e seis meses e uma parcela menor permaneceu até três meses. Essa
diferença de permanência será analisada qualitativamente nas seções seguintes, sobretudo no
que se refere às interrupções abruptas e desligamentos sem justificativa relatados por alguns
participantes. Sobre a situação penal, parte dos entrevistados ainda se encontra em
cumprimento de pena em regime aberto ou semiaberto, enquanto outros concluíram
integralmente o período de privação de liberdade em intervalos que variam entre poucos
meses e mais de um ano.
Esses elementos descritivos permitem observar que a amostra reúne participantes em
diferentes momentos do processo de reintegração, com trajetórias marcadas tanto por
88
tentativas de reconstrução quanto por experiências de ruptura, evidenciando condições
materiais, afetivas e subjetivas muito distintas entre si. A partir desse panorama, torna-se
possível compreender com maior clareza como se configuram os desafios estruturais e as
oportunidades efetivas de reintegração, aspectos analisados na seção seguinte.
6.5 Dimensão Estrutural nos Relatos
A dimensão estrutural emergiu como eixo transversal nos relatos dos participantes,
constituindo-se como o primeiro fundamento material e simbólico necessário à reconstrução
da vida em liberdade. As narrativas apontam de forma recorrente que o acesso ao trabalho
remunerado, à renda mínima e às condições básicas de sobrevivência — como moradia,
alimentação, transporte e documentação civil — funciona como ponto de partida para a
reorganização cotidiana após a saída do sistema prisional.
O trabalho oferecido por meio do Ressocializa DF foi descrito como mecanismo
essencial não apenas para sustento financeiro, mas também para a estruturação de uma rotina
e para a reconstrução da dignidade pessoal. Vários entrevistados destacaram que a
possibilidade de trabalhar representou um marco de transição identitária, deslocando o lugar
social de “preso” para “trabalhador” e permitindo o recomeço:
O vínculo laboral aparece também associado à capacidade de assumir
responsabilidades financeiras e reconstruir relações familiares:
Entretanto, as narrativas evidenciam que, embora o trabalho mediado pela FUNAP
seja percebido como oportunidade concreta de reorganização da vida e de construção de
autonomia, a forma como esse vínculo é estruturado é frequentemente relatada pelos
participantes como frágil e insegura. Muitos entrevistados relataram que a relação contratual
89
“As portas se abriram porque, saindo para trabalhar, tem um salário.”
“O trabalho foi o que organizou minha vida.”
“Quando eu saí e tive a chance de trabalhar, eu me senti de novo alguém.”
“Com o salário eu consegui pagar aluguel, ajudar meus filhos e começar do zero.”
“Trabalhar me deu uma direção. Eu passei a ter compromisso.”
estabelecida apresenta pouca proteção institucional, ausência de transparência nos critérios de
desligamento e impossibilidade de recurso ou contestação.
Nesse contexto, a permanência no emprego é descrita como instável, sujeita a
interrupções abruptas e sem explicações formais, o que gera forte sensação de
vulnerabilidade:
Tais desligamentos quase inesperados foram narrados como eventos críticos, vividos
como rompimento abrupto do percurso de reconstrução material e subjetiva iniciado:
Esses relatos refletem a percepção de que a fragilidade institucional do vínculo com a
FUNAP pode anular avanços conquistados e produzir sensação constante de instabilidade e
risco, especialmente diante da ausência de alternativas imediatas de inserção laboral após o
desligamento.
Então, compreendida a estrutura material como eixo basal da reintegração, torna-se
possível avançar para a análise da segunda dimensão central identificada nos relatos: o papel
das redes sociais familiares, comunitárias e institucionais, que podem atuar como suporte
protetivo ou como elemento de ruptura e isolamento.
6.6 Dimensão social nos relatos
A dimensão social revelou-se como um eixo determinante para compreender os
diferentes percursos de reintegração narrativa apresentados pelos participantes, confirmando o
papel central das redes de apoio — especialmente família, vínculos comunitários, ambientes
laborais significativos e relações institucionais — como elementos estruturantes da
reconstrução identitária no contexto pós-prisional. Os relatos demonstram de forma
consistente que a presença ou ausência dessas redes produz efeitos diretos sobre a capacidade
90
“Ser mandado embora sem motivo, sem ter direito a nada, dói demais.”
“A gente se esforça, tem família, e quando é desligado volta tudo para trás de uma
hora para outra.”
“Se adoecer, é desligado automaticamente e volta para o final da fila.”
“Quando eu saí da FUNAP, eu quebrei minhas pernas.”
“É como cair num buraco de novo.”
de reorganizar a vida em liberdade, atuar sobre oportunidades e resistir às pressões estruturais
e simbólicas associadas ao estigma criminal.
Entre os participantes que narraram experiências de maior estabilidade reintegrativa,
destacou-se a família como elemento chave na sustentação emocional e prática do processo de
retorno ao convívio social. Para esses entrevistados, permanecer próximo dos vínculos
afetivos funcionou como âncora subjetiva e moral, oferecendosuporte instrumental —
moradia, alimentação, segurança — e acolhimento afetivo fundamental no período crítico
após a saída da prisão:
Esses relatos reforçam a percepção de que o pertencimento e o reconhecimento social
funcionam como recursos protetivos frente à recaída, contribuindo para a reconstrução do
sentido de valor próprio, da autoestima e da motivação para manter escolhas pró-sociais. A
convivência familiar aparece como força estruturante de reintegração cotidiana, sustentando a
continuidade de projetos de futuro e reduzindo a exposição aos contextos criminógenos.
Em contraste, trajetórias marcadas por baixa reintegração apresentam padrão quase
oposto: ruptura total de vínculos familiares, isolamento social extremo e ausência de redes
comunitárias protetivas. Em alguns relatos, a falta de apoio aparece com intensidade
dramática:
A ausência de suporte social intensifica a carga psicológica do retorno ao meio livre,
amplifica a pressão material para sobreviver e reduz substancialmente a capacidade de
resistência diante do sofrimento, funcionando como desencadeador de desespero e risco
elevado de reincidência. Esse isolamento é frequentemente atravessado por estigmatização e
práticas explícitas de exclusão simbólica e material:
91
!A maior dificuldade foi ficar longe dos filhos e da esposa… A família não se
afastou em nenhum momento.”
!Prefiro ficar em casa com minha família.”
!Eu sou isolado. Nunca. Nunca. Nunca… Não tenho ninguém.”
!Eu me sinto excluído e marginalizado.”
!Todo dia eu tenho oportunidade de voltar para o errado.”
O estigma, aqui, funciona como mecanismo de fechamento de portas, restringindo
redes, retirando perspectivas e tensionando a identidade reconstruída, produzindo retraimento
e silêncio autoimpostos como forma de autoproteção:
Além dos laços familiares, emergem também vínculos institucionais como fator
relevante de proteção, especialmente aqueles construídos a partir da experiência no trabalho
mediada pela FUNAP ou de espaços religiosos e comunitários. Em vários relatos, o suporte
recebido nesses ambientes aparece como elemento crucial para manutenção da disciplina,
organização da rotina e fortalecimento emocional:
Entretanto, quando essas redes secundárias são rompidas abruptamente os efeitos
subjetivos são descritos como devastadores, gerando sentimento profundo de abandono
institucional e descontinuidade existencial:
O conjunto dos relatos evidencia que a presença de suporte social está
consistentemente associada à construção de propósito e a estabilidade emocional e, enquanto
a ausência de vínculos sociais está associada ao sentimento de insegurança e abandono. As
92
!Pra gente que já veio de lá, é mais difícil arrumar serviço… quando descobrem, já
olham diferente.'(
!Entreguei muitos currículos, mas não aceitam pelo histórico.”
!A gente se afasta para não ouvir certas coisas.”
!A FUNAP ajudou muito no financeiro e no psicológico, autoestima.')
*Se houvesse suporte imediato, seria essencial para superar a reincidência.”
!Fui desligado e perguntei o motivo… falaram que não tinha motivo.')
!Isso desmotiva muito.”
“É como se fosse cair num buraco de novo.”
redes institucionais podem desempenhar papel complementar ou substitutivo à família, mas
sua fragilidade estrutural e instabilidade reduz a capacidade de sustentação do egresso.
A seguir, aprofundaremos a dimensão pessoal e subjetiva dos egressos, enfocando
como perspectiva de futuro, autoestima e agência influenciam as trajetórias de reintegração na
relação entre estrutura e rede social.
6.7 Dimensão Pessoal nos Relatos
A dimensão pessoal emergiu nos relatos como espaço subjetivo no qual se articulam
percepções de si, expectativas de futuro, autoestima, sofrimento emocional e estratégias
individuais de enfrentamento. Essa dimensão aparece profundamente entrelaçada às
experiências estruturais e sociais analisadas nas seções anteriores, mas possui peso próprio na
interpretação da reintegração, revelando como cada egresso constrói sentidos sobre sua
história e projeta possibilidades de futuro no período pós-prisional.
Os depoimentos mostram que a transição identitária de !preso” para !pessoa em
reconstrução” não é automática nem linear, mas um processo marcado por ambivalências,
rupturas e movimentos contínuos de reorganização subjetiva. Muitos relataram que o
encarceramento produz marcas indeléveis na vida do egresso, e que o retorno à sociedade
exige muita força de vontade, disciplina e ressignificação do passado. Reintegração efetiva,
portanto, não se resume à conquista de trabalho ou ao acesso a redes de apoio, mas implica
reconstrução simbólica da própria identidade.
Entre os participantes que relataram trajetórias mais positivas, destaca-se a presença
de propósito, planejamento e autodeterminação como vetores de reorganização interna. A
mudança aparece narrada como trabalho persistente, acompanhado de conquistas e
reconhecimento social:
Essas falas revelam a percepção de protagonismo pessoal e a crença de que a
transformação depende tanto do esforço interno quanto da capacidade de aproveitar as
93
*O sentimento de propósito vem da mudança de vida e de ter bons planos.”
!Se você tiver uma oportunidade, abraça ela.”
!Quando a gente quer mudança, primeiramente a gente tem que mudar.”
!Se a gente quer mudar realmente de vida, a gente tem que persistir.”
oportunidades. A persistência aparece, nesses casos, como mecanismo de autodefesa contra
recaídas e como estratégia mental para reorganização do futuro, sustentando escolhas pró-
sociais mesmo diante das adversidades.
Contudo, esse movimento de reconstrução não é uniforme. Vários entrevistados
descreveram experiências profundas de instabilidade emocional, crises de autoestima, solidão
e conflitos internos persistentes entre o desejo de mudança e a pressão para o retorno ao
crime. Em algumas narrativas, emergem sentimentos de exaustão psicológica, desesperança e
luta diária contra a tentação do retorno à criminalidade:
Essas experiências revelam a coexistência simultânea de esperança e desconfiança,
ilustrando a precariedade emocional que atravessa o processo de reconstrução identitária. Em
muitos relatos, a vontade pessoal é relatada como o fator mais importante no processo de
reintegração, em outros, como processo de autoconhecimento, no qual a educação e o estudo
assumiriam o papel central na reconstrução identitária:
Essas narrativas desafiam concepções reducionistas que associam reintegração
exclusivamente ao trabalho, revelando que a aprendizagem simbólica e a elaboração de
conteúdos do passado desempenham papel fundamental na trajetória de reintegração social.
Entretanto, fragilidade emocional e sofrimento psíquico aparecem como elementos
recorrentes e persistentes da experiência pós-prisão. A dependência química também surge
como obstáculo significativo, frequentemente associada à tentativa de anestesiar dores
internas decorrentes de processos de exclusão:
94
!Desesperança e baixa autoestima. Muito instável, muito instável.”
!Todo dia me dá vontade de voltar… mas eu sou forte.”
!Vida e autoconhecimento têm mais poder ressocializador do que o trabalho.”
!O estudo foi o primeiro passo da minha ressocialização. Eu comecei a enxergar o
que era liberdade.”
!Uso contínuo com recaídas frequentes.”
A completa ausência de suporte psicológico é elemento comum nos relatos, reforçando
vulnerabilidades já presentes:
Além disso, muitos entrevistados revelam sentimentos de vergonha, retração e
autoisolamento como efeito do estigma internalizado, produzindo silêncio emocional como
mecanismo de proteção:
A análise qualitativa dessa dimensão indica que a agência individual é necessária, mas
insuficiente quando isolada. A força pessoal tende a se esgotar diante da precariedade
estrutural e da ausência de suporte de redes de sociabilidade:
Com base nessa compreensãoda experiência subjetiva dos egressos, a seção seguinte
aprofunda o papel do estigma penal e das dinâmicas de reconhecimento social como
elementos estruturantes do processo de reintegração.
6.8 O Paradoxo Estigma e Reconhecimento
A questão do estigma emergiu de forma recorrente nos relatos dos participantes,
constituindo-se como uma das características mais marcantes da experiência pós-prisional. Os
entrevistados descrevem que, mesmo após o cumprimento da pena e o retorno à liberdade, a
marca do aprisionamento permanece como um rótulo social persistente, capaz de definir sua
posição nas relações sociais e limitar o acesso a oportunidades de trabalho, convivência
comunitária e reconhecimento pessoal. Nos relatos, o estigma aparece como uma espécie de
sombra permanente, que acompanha o egresso em todos os espaços em que tenta reconstruir
sua vida.
Os depoimentos indicam que o estigma atua como mecanismo silencioso e contínuo
de exclusão social, manifestando-se especialmente no momento de busca por emprego.
95
“Às vezes no meio das pessoas fico constrangido.”
!Já ouvi pessoas dizerem que ex-presidiário não merece uma segunda chance.”
!Nunca tive suporte, ninguém nunca me procurou.”
!Sair do crime não é difícil. Difícil é viver aqui fora.”
Muitos relataram que, ao apresentarem um currículo, ao mencionarem suas experiências ou
simplesmente ao terem seu histórico pesquisado, oportunidades são negadas de forma
recorrente:
Esses relatos evidenciam a percepção de que, para muitos egressos, o passado criminal
permanece como barreira intransponível, mesmo quando existe esforço real para mudança e
reconstrução. O impacto emocional associado a essa experiência aparece de forma clara nos
depoimentos, frequentemente relacionado a sentimentos de frustração, impotência, revolta e
esgotamento psicológico.
Além do estigma social cotidiano, os participantes descreveram também experiências
de estigma institucional, que se manifestam por meio de práticas de desumanização,
violência, ameaças e tratamento degradante nas unidades prisionais. Relatos sobre violência e
humilhação, no âmbito do regime fechado, foram recorrentes:
96
!Tem muita violência policial. Torções, enforcamentos, três ou quatro em cima de
um. Gás nas celas é muito comum. Tortura.”
“Quando tem treinamento da DPOE, eles chegam apavorando com bomba de efeito
moral,.. tem agressão física, te chamam de demônio, tem bala de borracha…, não pode
olhar”
!Antes da visitação do Ministério Público, eles passam ameaçando todo mundo.
Perguntando: o que que vocês vão falar?”
!Pra gente que já veio de lá, é um pouco mais difícil arrumar algum serviço. Quando o
pessoal vê que a gente já passou por lá, já começam a olhar diferente.”
!Entreguei muitos currículos, mas não aceitam pelo histórico.”
!A quarta empresa fez isso comigo… consultam meu nome e não me contratam.”
!Me sinto excluído e marginalizado.”
Os efeitos dessas experiências continuam mesmo após o retorno à liberdade,
influenciando negativamente a confiança nas instituições e a capacidade de construir vínculos
sociais saudáveis, como expressou um dos entrevistados:
Além do estigma, apareceu, de forma recorrente, a sensação de vergonha,
constrangimento e autoisolamento que surge quando o egresso teme ser identificado ou
julgado pelos outros. Essa dimensão subjetiva do estigma repercute diretamente na autoestima
e na capacidade de sustentar projetos de futuro:
Apesar da força dessas experiências negativas, emergiram também narrativas sobre
momentos de reconhecimento e aceitação, percebidos como fundamentais na reconstrução
subjetiva e na continuidade do processo de reintegração. Esses momentos muitas vezes
apareceram associados à família, a gestores que apostaram no potencial da pessoa, ou a
experiências significativas de valorização:
Nesses casos, o reconhecimento aparece como força restauradora capaz de reconstituir
autoestima, reforçar a confiança pessoal e criar horizontes de futuro. Os relatos indicam que
pequenas experiências de aceitação podem funcionar como pontos de virada no percurso pós-
prisional.
O conjunto dos depoimentos revela a existência de uma dinâmica dual:
• quando prevalece o estigma, surgem isolamento, retração, sofrimento
psicológico e risco elevado de retorno ao crime;
97
!O estigma social era muito mais forte do que eu. Eu era um desconhecido dentro da
minha própria casa.”
“Às vezes no meio das pessoas fico constrangido.')
!Já ouvi pessoas dizerem que ex-presidiário não merece uma segunda chance.”
!O sentimento de propósito vem da mudança de vida e de ter bons planos.')
*Se você tiver uma oportunidade, abraça ela. A oportunidade muda as coisas.”
• quando há reconhecimento, surgem dignidade, motivação e expectativa de
superação.
Assim, a relação entre estigma e reconhecimento mostra-se decisiva para os caminhos
possíveis após o encarceramento. A reintegração, nesses termos, não depende apenas de
acesso a trabalho ou renda, mas também da possibilidade simbólica de ser visto como alguém
que pode recomeçar. Onde há reconhecimento, há futuro; onde o estigma domina, formam-se
bloqueios que paralisam o processo de reconstrução.
Tabela 15 – Relação entre estigma/reconhecimento e efeitos observados
Essa equação analítica reforça os achados configuracionais da QCA, nos quais o
arranjo RE_SOCIAL*RE_PESSOAL aparece como caminho robusto para RE_EFETIVA,
indicando que não há reintegração possível sem reconhecimento social e subjetivo. Assim, o
estigma não é apenas obstáculo moral, mas elemento configuracional crítico que articula e
amplifica fragilidades estruturais e pessoais — enquanto o reconhecimento atua como
condição simbólica de recomposição identitária e estabilização emocional.
Em síntese, a dimensão estigma–reconhecimento constitui um dos eixos mais centrais
da experiência de reintegração dos participantes, revelando que a superação do passado penal
não depende apenas de oportunidades objetivas, mas também da validade simbólica dos
sujeitos enquanto cidadãos.
Compreendido o impacto decisivo do estigma e do reconhecimento nas trajetórias narradas, a
seção seguinte analisa como os entrevistados percebem o Programa Ressocializa-DF,
explorando seus efeitos concretos, expectativas, contribuições e limites estruturais.
98
A seção seguinte aprofunda como os entrevistados percebem o Programa Ressocializa-
DF e quais elementos consideram fundamentais para que políticas de reintegração possam
contribuir de maneira contínua e sustentável.
6.9 Percepções sobre o Programa Ressocializa DF
A análise das entrevistas revelou percepções amplamente convergentes sobre o
Ressocializa DF, caracterizadas por uma combinação de reconhecimento significativo de seu
impacto positivo imediato e críticas consistentes relacionadas à fragilidade contratual e à
ausência de acompanhamento após o desligamento. Os entrevistados descrevem o programa
como porta de entrada fundamental para o trabalho formal e como elemento estruturante da
rotina e da autoestima no período de transição entre o regime prisional e a vida em liberdade.
Em diversos relatos, o Ressocializa DF é definido como uma oportunidade concreta de
reconstrução da vida, permitindo acesso à renda, a novos vínculos sociais e ao sentimento de
pertencimento. O trabalho mediado pela FUNAP aparece como marco de reorganização e
como ponto de virada subjetiva:
Esse efeito positivo também está associado à reconstrução simbólica da identidade e à
percepção de que o trabalho representa possibilidade real de mudança:
Em vários depoimentos, o programa é compreendido como suporte transitório
importante até o fortalecimento da autonomia pessoal:
99
!As portas se abriram porque saindo para trabalhar tem um salário.”
!A experiência no Programa Ressocializa me ajudou a sair do CPP e me relacionar
com pessoas trabalhando.”
!Se você tiver uma oportunidade, abraçaela. A oportunidade muda as coisas.”
!O programa Ressocializa foi um tempo de oportunidade e apoio até que eu
conseguisse mais autonomia.”
!A FUNAP ajudou muito no financeiro e no psicológico, autoestima.”
Entretanto, com a mesma intensidade, emergem críticas relacionadas à precariedade da
relação contratual e à instabilidade do vínculo laboral. Uma das queixas mais recorrentes
refere-se aos desligamentos injustificados:
Esses episódios são narrados como rupturas abruptas que desfazem avanços materiais
e emocionais e produzem forte sensação de abandono institucional e desvalorização:
Outro tema central é a ausência de suporte pós-egresso. A transição após o
desligamento é descrita como período de vulnerabilidade extrema, especialmente quando não
há rede familiar de apoio:
100
!Fui desligado do trabalho da FUNAP sem motivo aparente.”
!A gente se esforça, precisa, tem filho, e ser mandado embora e não ter direito a
nada.”
!Se adoecer, é desligado automaticamente e volta para o final da fila.”
!Quando eu saí da FUNAP, eu quebrei minhas pernas.”
!Após a saída da FUNAP, não houve nenhum suporte institucional. Todo mundo tem
que arcar com os custos iniciais.”
!Pessoa sem suporte familiar sofre demais nos primeiros 15 dias. Vi pessoas
cometendo pequenos furtos para sobreviver.”
!Se tivesse mecanismos que induzissem contratação depois que termina a pena…
isso era maravilhoso.”
"Há uma carência muito grande de políticas públicas e programas de trabalho
voltados para pessoas que já cumpriram a pena. Depois que o cara cumpri a pena não
pode mais ficar na FUNAP, seria bom se tivesse como continuar…”
Apesar das críticas, os entrevistados expressam confiança no potencial transformador
do programa e propõem melhorias concretas, demonstrando engajamento e sentimento de
pertencimento:
Os relatos evidenciam que o Ressocializa DF opera como política essencial no período
inicial de reintegração, mas ainda limitado enquanto estratégia contínua de suporte à vida pós-
prisional. Seu impacto é forte enquanto ativo, mas falho quando não oferece suporte posterior
à pena ou quando não há articulação com políticas complementares.
Compreendido esse quadro, torna-se viável avançar para a análise detalhada de casos
exemplares que ilustram, de maneira contrastante, diferentes percursos de reintegração social.
A seção seguinte apresenta trajetórias individuais que evidenciam, com maior densidade
empírica, como diferentes combinações de condições estruturais, sociais e pessoais produzem
resultados distintos no processo de reinserção pós-prisional.
6.10 Casos Exemplares: Trajetórias Contrastantes de Reintegração
A análise qualitativa permitiu identificar um conjunto de casos que se destacam na
amostra pela intensidade e singularidade de suas experiências, constituindo referências
importantes para a compreensão dos mecanismos que sustentam ou fragilizam o processo de
reintegração social. Esses casos foram selecionados com base na combinação entre os
resultados obtidos na análise configuracional (fsQCA), a densidade das narrativas produzidas
nas entrevistas e a coerência interna dos relatos quanto às percepções e vivências associadas à
transição para a vida em liberdade.
Os casos exemplares representam trajetórias situadas em polos distintos do processo
de reintegração: de um lado, percursos marcados por estabilidade material, apoio social
101
!O que dá para melhorar é procurar saber o que está faltando para aquela pessoa
melhorar e voltar a ser um cidadão de bem.”
!Se houvesse o estabelecimento de um piso, como salário mínimo, seria bem
melhor.”
!Quando a pessoa for desligada sem motivo, poderia ter um jeito para ela não ir
para o final da fila.”
robusto e reconstrução subjetiva consistente; de outro, experiências atravessadas por rupturas
estruturais, ausência de suporte, sofrimento emocional e risco elevado de retorno ao ciclo
penal. Entre esses extremos, emergem ainda casos intermediários, que evidenciam
combinações complexas de avanços e fragilidades, ilustrando a natureza não linear e instável
do processo de reintegração.
A escolha e análise desses casos não se orienta por critérios normativos ou
classificatórios, mas pelo potencial interpretativo que oferecem. Sua utilidade reside na
capacidade de tornar visíveis, de forma ampliada, os mecanismos configuracionais envolvidos
na reintegração, permitindo compreender como variações nas dimensões estrutural, social e
pessoal podem produzir trajetórias significativamente diferentes.
Os relatos selecionados exemplificam, portanto, a diversidade das experiências pós-
prisionais e permitem observar, com maior clareza, como políticas públicas, redes de apoio e
estratégias individuais interagem e se sobrepõem ao longo do processo de reconstrução da
vida. A partir desta perspectiva, esses casos funcionam como pontos de entrada para uma
leitura aprofundada das dimensões que permeiam o processo de reintegração.
Nas subseções seguintes, cada um dos casos será apresentado e analisado de forma
individualizada e descritiva, destacando os elementos que compõem suas trajetórias e os
fatores que influenciaram seus percursos após o encarceramento.
6.10.1 Caso 12 — Colapso Estrutural, Isolamento Social e Agência Pessoal Fragilizada
O Caso 12 constitui o exemplo mais crítico de ausência de reintegração efetiva entre
os participantes da pesquisa, apresentando um arranjo configuracional marcado pela
combinação entre fragilidade estrutural, ruptura das redes sociais de apoio, sofrimento
psíquico e exposição contínua a pressões contextuais associadas de retorno ao crime. Trata-se
de um caso emblemático que tensiona o modelo analítico ao demonstrar que a participação
prolongada e bem-sucedida no Programa Ressocializa DF durante o período de cumprimento
da pena não se traduz automaticamente em reintegração efetiva quando inexiste continuidade
institucional e suporte social mínimo na pós-egressão.
Do ponto de vista da dimensão estrutural (RE_ESTRUTURAL), o entrevistado relata
experiência positiva durante o período em que esteve vinculado à FUNAP, descrevendo
desempenho reconhecido e aprendizado técnico relevante. Para ele, a vivência laboral
102
representou um marco de reconstrução simbólica e de reordenação da narrativa pessoal, como
expressa ao afirmar:
No entanto, a dimensão estrutural colapsa de forma abrupta no momento de saída do
sistema penal e consequente saída do programa, esse momento é quando o egresso enfrenta a
ausência total de suporte institucional, perda repentina da renda e dificuldade de reingresso no
mercado de trabalho. Essa situação é descrita de modo dramático:
A expressão sintetiza o impacto subjetivo de uma transição institucional não assistida,
enfatizada novamente ao relatar: !Não tive oportunidade nenhuma.” A narrativa evidencia
ainda barreiras estruturais provocadas pelo estigma criminal no mercado de trabalho: !A
quarta empresa que fez isso comigo… consultou meu nome e não quis mais me contratar.”
Esse cenário reforça o argumento de que o programa produz efeitos positivos enquanto ativo,
mas que a ausência de política de continuidade pós-egresso dificulta a sustentação do
processo reintegrativo.
Na dimensão social (RE_SOCIAL), observa-se ausência profunda de redes primárias
de apoio, resultando em isolamento extremo e impossibilidade de construção de vínculos
protetivos. O entrevistado descreve ruptura total com a família e inexistência de laços sociais
positivos:
103
!Foi a melhor experiência que eu passei na minha vida toda. Eu aprendi ser gente
lá… aprendi a fazer tudo, fazer um monte de coisa.”
"Mas depois que saí da FUNAP, acabou tudo.”
!Todas as oportunidades fecham a porta pra mim.”
“É a quarta empresa que faz isso comigo.”
!Na última empresa, eu fiz os exames. Quando consultaram meu nome, me colocaram
na lista de espera.”
Esse isolamento converte-seCAPÍTULO 3 – PANORAMA DA POLÍTICA (POLITY) DE REINTEGRAÇÃO SOCIAL 20
3.1 Estrutura do Sistema Prisional Brasileiro ...........................................................................22
15
3.1.1 Estrutura do Sistema Prisional do Distrito Federal .........................................................24
3.1.2 Perfil e Distribuição das Unidades Prisionais do Distrito Federal ..................................26
3.2 Revisão de Programas de Reintegração no Distrito Federal ..............................................27
3.3 O Papel da FUNAP – DF ....................................................................................................29
3.4 O Programa Ressocializa DF ..............................................................................................30
3.4.1 Comparativo institucional: Reintegra Cidadão (2003) e Ressocializa-DF (2022) ..........30
3.4.2 Aspectos Normativos Complementares: Remuneração e Direitos Sociais ......................32
3.5 Dados de Reincidência .......................................................................................................32
3.5.1 Dinâmica Temporal da Reincidência ...............................................................................33
3.6 Diagnóstico preliminar .......................................................................................................36
CAPÍTULO 4 – METODOLOGIA ..........................................................................................38
4.1 Desenho da Pesquisa ..........................................................................................................39
4.2 Universo, Amostra e Critérios de Inclusão/ Exclusão ........................................................40
4.3 Instrumentos de Coleta de Dados .......................................................................................41
4.4 Operacionalização das Variáveis ........................................................................................41
4.4.1 Construção do Índice RE_ESTRUTURAL .....................................................................43
4.4.2 Construção do Índice RE_SOCIAL .................................................................................45
4.4.3 Construção do Índice RE_PESSOAL ..............................................................................47
4.4.4 Validação Interna e Verificação Empírica de Consistência do Modelo ...........................48
4.4.5 Construção do Outcome RE_EFETIVA ..........................................................................52
4.5 Preparação e Calibração dos Dados (Script 1) ...................................................................54
4.6 Análise QCA (Script 2) .......................................................................................................55
4.7 Análise de Subgrupos (Script 3) .........................................................................................56
16
4.8 Limitações Éticas e Metodológicas ....................................................................................57
4.8.1 Estratégias de Mitigação ..................................................................................................58
4.8.2 Implicações para Interpretação dos Resultados ...............................................................59
CAPÍTULO 5 – RESULTADOS DA ANÁLISE fsQCA ..........................................................60
5.1 Descrição Inicial da Amostra ..............................................................................................60
5.2 Condições Necessárias .......................................................................................................61
5.3 Soluções para a Presença da Reintegração Efetiva .............................................................64
5.4 Soluções para a Ausência da Reintegração .........................................................................67
5.4.1 Comparação entre Presença e Ausência do Resultado ....................................................70
5.5 Subanálises por Tempo de Programa ..................................................................................71
5.5.1 Resultados do Subgrupo Alto Tempo ..............................................................................72
5.5.2 Resultados do Subgrupo Baixo Tempo ............................................................................73
5.5.3 Comparação Visual entre Subgrupos ...............................................................................74
5.6 Discussão Integrativa dos Achados ....................................................................................77
5.7 Implicações para o Programa Ressocializa DF e para as Políticas Públicas de Reintegração
Social ........................................................................................................................................80
CAPÍTULO 6 – ESTUDO DE CASO COM ENTREVISTAS E ANÁLISE DE CONTEÚDO .
82
6.1 Planejamento e Preparação do Estudo de Caso ..................................................................82
6.2 Execução e Registro das Entrevistas ..................................................................................83
6.3 Procedimentos de Análise de Conteúdo .............................................................................85
6.4 Perfil Geral dos Entrevistados ............................................................................................86
6.5 Dimensão Estrutural nos Relatos ........................................................................................89
6.6 Dimensão social nos relatos ...............................................................................................90
17
6.7 Dimensão Pessoal nos Relatos ...........................................................................................93
6.8 O Paradoxo Estigma e Reconhecimento ............................................................................95
6.9 Percepções sobre o Programa Ressocializa DF ..................................................................99
6.10 Casos Exemplares: Trajetórias Contrastantes de Reintegração ......................................101
6.10.1 Caso 12 — Colapso Estrutural, Isolamento Social e Agência Pessoal Fragilizada .....102
6.10.2 Caso 7 — Agência Pessoal Forte diante do Colapso Institucional e do Estigma ........105
6.10.3 Caso 11 — Trajetória Positiva e Reintegração Consolidada .......................................108
6.11 Triangulação dos resultados: discussão da fsQCA e do Estudo de Caso ........................111
6.11.1 A Dimensão Estrutural Revisitada: Da Presença à Continuidade ................................111
6.11.2 A Dimensão Social e o Eixo Crítico Estigma-Reconhecimento ..................................112
6.11.3 A Dinâmica da Dimensão Pessoal: Agência, Esgotamento e Resiliência ....................113
6.12 Equifinalidade e Assimetria à Luz dos Casos .................................................................114
CAPÍTULO 7 – CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES DE POLÍTICA PÚBLICA ........116
7.1 Síntese Geral dos Achados ................................................................................................116
7.2 Recomendações de Política Pública .................................................................................117
7.2.1 Recomendações para as Dimensões Estrutural e Social ................................................117
7.2.3 Recomendações para a Dimensão Pessoal .....................................................................119
7.2.4 Recomendações de Natureza Intersetorial .....................................................................120
7.3 Contribuições Acadêmicas ...............................................................................................122
7.4 Limitações da Pesquisa .....................................................................................................122em sentimento agudo de exclusão. A ausência de suporte
social funciona, portanto, como elemento crítico para o risco de recaída e condição central da
vulnerabilidade evidenciada no caso.
A dimensão pessoal (RE_PESSOAL) revela coexistência de agência pessoal e
fragilidade emocional severa. O entrevistado apresenta intenção explícita de mudança e
esforço interno para evitar recaídas, como afirma:
O desfecho configuracional desse conjunto de fatores resulta na ausência absoluta de
reintegração efetiva (RE_EFETIVA), com percepção clara da fragilidade reintegrativa e do
risco concreto de reincidência criminal. Essa percepção é sintetizada em falas de grande
potência analítica:
Em outro trecho, o entrevistado formula uma das sínteses mais expressivas dos relatos:
104
!Meu pai é um cara estúpido… não ajuda em nada… eu sou isolado. Nunca. Nunca.
Nunca… Não tenho ninguém.”
!Eu me sinto excluído e marginalizado.”
!Sinto a discriminação e já me isolo.”
!Tenho plano realista de futuro.”
“É um leão por dia que você tem que se matar.”
!Todo dia me dá vontade de voltar… mas eu sou forte.”
!A única oportunidade que eu tenho é vender droga ou roubar.”
!Se eu não tivesse meu pai, eu tava na rua.”
!Todo dia eu tenho oportunidade de voltar pro errado.”
!Sair do crime não é difícil. Difícil é viver aqui fora.”
A análise configuracional fsQCA desse caso pode ser esquematizada da seguinte
forma:
~RE_ESTRUTURAL * ~RE_SOCIAL * RE_PESSOAL ± + ~RE_EFETIVA
Essa configuração materializa empiricamente o princípio central identificado pela
fsQCA segundo o qual nenhuma dimensão isolada garante reintegração efetiva e que a
agência individual, quando desprovida de suporte social e estabilidade estrutural, pode se
exaurir. O Caso 12 demonstra que a reintegração não é consequência automática da
participação em programas laborais durante a pena, mas depende de ecossistemas de
continuidade institucional e redes de suporte integradas. Sem essas condições, o esforço
individual pode ser insuficiente para sustentar a reintegração em contexto de vulnerabilidade
extrema.
Por sua intensidade interpretativa, o Caso 12 funciona como caso crítico (YIN, 2015)
dentro do estudo, operando como lente para revelação de desafios estruturais da política
pública, ao mesmo tempo em que ilumina a complexa interdependência entre estrutura,
suporte social e subjetividade na reintegração pós-prisional.
6.10.2 Caso 7 — Agência Pessoal Forte diante do Colapso Institucional e do Estigma
O Caso 7 apresenta uma configuração analítica distinta em relação ao Caso 12,
revelando uma narrativa marcada por forte capacidade de agência pessoal e persistência, mas
simultaneamente atravessada por fragilidades estruturais significativas e ausência de suporte
social e institucional. Apesar de demonstrar disposição ativa para a mudança e investimento
consistente na reconstrução de sua trajetória, o entrevistado relatou deparar-se com barreiras
sistemáticas relacionadas ao estigma criminal, precarização laboral e inexistência de políticas
de acompanhamento pós-pena, fatores que tensionam e limitam a sustentabilidade de seu
esforço individual.
O entrevistado relata ter participado do Programa Ressocializa DF por período
superior a um ano, atuando em diferentes unidades e tendo conquistado progressão interna.
DIMENSÃO
ESTRUTURAL
DIMENSÃO
SOCIAL
DIMENSÃO
PESSOAL
REINTEGRAÇÃO
EFETIVA
Ausência de continuidade
e ruptura pós-programa
Isolamento extremo e
ausência de redes
protetivas
Agência pessoal
fragilizada e sofrimento
psíquico intenso
Ausência de reintegração
efetiva (alto risco de
reincidência)
105
Sua narrativa reconhece o impacto inicial positivo do programa, em particular no que se
refere à formação profissional e ao desenvolvimento de novas habilidades, conforme relata:
A declaração indica iniciativa autônoma e percepção de construção de perspectiva de
trabalho, corroborada pela afirmação motivacional:
A emergência desse discurso demonstra construção de um eixo interno de
determinação e resiliência, característica recorrente em casos de busca efetiva por desistência
criminal. Entretanto, esse avanço encontra ruptura significativa quando ocorre seu
desligamento do programa laboral, experiência descrita como abrupta, injustificada e
traumática. O relato expõe sentimento profundo de injustiça e desassistência institucional,
agravado pela expectativa frustrada de progressão:
Essa frustração subjetiva reflete impacto emocional da ausência de garantias mínimas
de estabilidade dentro do programa, convertendo um marco de ascensão em experiência de
humilhação e abandono.
Do ponto de vista estrutural, o desligamento expôs o entrevistado à ausência absoluta
de suporte reintegrativo e evidencia falhas críticas no desenho institucional do programa. A
sugestão apresentada pelo participante reflete consciência das limitações estruturais e
demanda por políticas protetivas:
A fala aponta para necessidade de instrumentos de continuidade, tais como reserva
financeira obrigatória, indenização mínima ou retorno qualificado, alinhando-se às discussões
sobre políticas públicas restaurativas e transicionais.
106
!Se a gente quer mudar realmente de vida, a gente tem que persistir.”
!Uma coisa que eu acho ruim é ser mandado embora sem nenhuma justificativa… A
gente se esforça, precisa, tem filho, e ser mandado embora e não ter direito a nada.”
!Eu fiquei mais com raiva porque eu já ia pro nível 3, que é quando você ganha
mais”
!Quando a pessoa for desligada sem motivo, poderia ter um mecanismo para ela
não ir pro final da fila.”
A dimensão social é marcada pela precariedade extrema de apoio e pela ausência
completa de acompanhamento institucional:
O entrevistado reforça sentir-se constantemente submetido ao estigma social e às
barreiras impostas pelo mercado de trabalho:
A discriminação recorrente e internalizada acentua sensação de isolamento e reforça
um ciclo de exclusão semelhante ao observado no Caso 12, embora com diferença
fundamental: aqui, a agência pessoal continua operando como principal força de sustentação
do processo reintegrativo, ainda que sem garantias materiais mínimas.
Apesar da adversidade, o Caso 7 demonstra protagonismo ativo na tentativa de
reorganização existencial e no enfrentamento das barreiras institucionais e sociais,
evidenciando que a presença de agência pessoal, embora essencial, não se mostra suficiente
para garantir reintegração efetiva quando isolada de suporte estrutural e social. A ausência de
assistência pós-prisão, somada à desligamentos arbitrários e ao estigma no mercado de
trabalho, coloca em risco a continuidade da mudança e reforça sensação de instabilidade
permanente.
Nesse sentido, o Caso 7 representa uma configuração fsQCA em que:
RE_ESTRUTURAL ± * RE_SOCIAL ± * RE_PESSOAL + + RE_EFETIVA ±
Essa configuração revela a importância da continuidade institucional como elemento
crítico da política pública de reintegração: a agência individual aparece como condição
necessária, mas não suficiente, incapaz de sustentar a reintegração em ausência de
DIMENSÃO
ESTRUTURAL
DIMENSÃO
SOCIAL
DIMENSÃO
PESSOAL
REINTEGRAÇÃO
EFETIVA
Oportunidade de
trabalho presente, porém
instável
Suporte institucional
limitado e vínculos
frágeis
Persistência individual e
esforço próprio
Reintegração parcial e
instável
107
!Nunca tive suporte, ninguém nunca me procurou.”
!Pra gente que já veio de lá, é um pouco mais difícil arrumar algum serviço.
Quando o pessoal vê que a gente já passou por lá, já começa a te olhar de um jeito
diferente.”
ecossistema de suporte. O caso evidencia transição crítica mal gerida pelo Estado, mostrando
que políticas bem avaliadas no curto prazo podem falhar se desprovidas de mecanismos de
manutenção ao término do ciclo de participação.
Em síntese, o Caso 7 ilustra a contradição fundamental entre discursoinstitucional de
reintegração e práticas administrativas que precarizam vínculos, reafirmando fragilidade
estrutural crônica do modelo atual. Sua narrativa funciona como evidência empírica de que,
sem continuidade e suporte social integrado, a política pública corre o risco de reproduzir
ciclos de exclusão e alimentar trajetórias de reincidência, mesmo entre indivíduos altamente
motivados para mudança.
Compreendida a fragilidade estrutural e a tensão entre agência individual e abandono
institucional no Caso 7, o próximo passo consiste em analisar um exemplo de trajetória
positiva — Caso 11 — como contraponto configuracional, permitindo aprofundar a
comparação entre caminhos configuracionais divergentes dentro do mesmo contexto.
6.10.3 Caso 11 — Trajetória Positiva e Reintegração Consolidada
O Caso 11 constitui um exemplo paradigmático de reintegração efetiva consolidada,
demonstrando um arranjo configuracional complexo no qual convergem suporte social
estruturado, estabilidade material progressiva e forte agência pessoal. Sua trajetória contrasta
profundamente com a do Caso 12, revelando o papel decisivo da combinação articulada entre
condições estruturais, relações sociais protetivas e reconstrução subjetiva.
Logo no início da narrativa, o entrevistado descreve os efeitos destrutivos do
encarceramento e o impacto severo da ruptura familiar e identitária, evidenciando que o
retorno ao convívio social não se dá automaticamente, mas exige tempo e reconstrução
afetiva:
108
!A maior dificuldade da pessoa quando ele sai é por ele se achar dentro da sua
própria casa. Porque você se torna um estranho na sua própria casa, na sua própria
cama.”
Eu me senti perdido dentro de casa. Demorou tempo, seis a oito meses para eu
conseguir estar se ,mirando-)as coisas dentro da minha casa.”
Essa experiência reforça a literatura sobre desistência do crime, segundo a qual a
reintegração depende da reconstrução gradual dos vínculos sociais e do restabelecimento da
identidade pessoal (MARUNA, 2001; FARRALL, 2002; MCNEILL, 2006). Nesse sentido,
destaca-se a centralidade da família como eixo emocional e moral determinante:
No plano educacional e subjetivo, o Caso 11 apresenta uma das dimensões mais ricas
observadas nas entrevistas. O entrevistado atribui ao processo educativo e ao
autoconhecimento o papel estruturante de sua transformação:
Esse trecho confirma que a agência pessoal e o desenvolvimento cognitivo ocupam
papel central na transição identitária do !preso” para o !cidadão”, ampliando a interpretação
da reintegração como fenômeno psicológico, cultural e ético, e não meramente econômico.
O entrevistado também formula reflexões críticas sobre a falsa ressocialização baseada
na exploração laboral e na precariedade dos vínculos de trabalho, apontando limitações
estruturais que afetam grande parte dos egressos:
109
!Primeiro: afastar dos velhos amigos… e se aproximar da família.”
!Um divisor de águas na minha vida foi quando eu comecei a ler, quando eu fui
alfabetizado.
“Isso foi um diferencial, um fator de proteção.”
O trabalho é bom. Mas o melhor é na caixola. É o estudo.”
"O estudo foi o primeiro passo da minha ressocialização. Eu comecei a enxergar
que eu tinha uma família, eu comecei a enxergar o que era liberdade.”
!A FUNAP é muito boa, mas é um trabalho sem estabilidade nenhuma, sem direito a
nada.”
"O preso entra lá dentro já sonhando com o trabalho… Tem aula, tem colégio, mas
querem usar o preso sem estudar.”
Além disso, o Caso 11 apresenta crítica contundente ao caráter punitivo, violento e
embrutecedor do sistema penal, convergindo com autores como Foucault (1977), Wacquant
(2001) e Goffman (1961):
No plano subjetivo e social, o entrevistado demonstra uma das mais fortes expressões
de superação de estigma, assumindo postura ativa de enfrentamento e reposicionamento em
sociedade, transformando o estigma em reconhecimento:
Finalmente, o Caso 11 sintetiza, de modo exemplar, a equação causal que sustenta a
reintegração efetiva, conforme evidenciado pela fsQCA:
RE_ESTRUTURAL * RE_SOCIAL * RE_PESSOAL + RE_EFETIVA
Essa configuração confirma empiricamente que nenhuma dimensão isolada sustenta a
reintegração. É a articulação entre condições estruturais, suporte social robusto e agência
subjetiva que produz estabilidade e reduz risco de retorno ao crime.
Como síntese, a trajetória do Caso 11 ilustra a tese central deste estudo: a reintegração
efetiva não é evento, mas processo longitudinal ancorado na continuidade das relações, na
legitimidade do reconhecimento e no resultados que a vontade própria e a resiliência são
capazes de operar:
DIMENSÃO
ESTRUTURAL
DIMENSÃO
SOCIAL
DIMENSÃO
PESSOAL
REINTEGRAÇÃO
EFETIVA
Estabilidade e
continuidade
Suporte afetivo
consistente
Propósito claro e
identidade reconstruída
Alta reintegração efetiva
110
“É um sistema de embrutecimento, de agressão.”
"O sistema só funciona para punir, não para ressocializar.”
!Eu usei isso para mostrar para a sociedade que estou saindo de cabeça erguida.
Sem dever nada a ninguém.')
!Quem quer ser meu amigo vai ser meu amigo.”
!Quando a gente quer mudança, primeiramente a gente tem que mudar.”
!Se a gente quer mudar realmente de vida, a gente tem que persistir.”
6.11 Triangulação dos resultados: discussão da fsQCA e do Estudo de Caso
A presente seção dedica-se à triangulação dos resultados obtidos por meio da Análise
Qualitativa Comparativa (fsQCA) e da análise de conteúdo das entrevistas semiestruturadas.
O objetivo aqui é integrar os padrões causais identificados na modelagem configuracional
com a densidade interpretativa das narrativas dos egressos, buscando uma compreensão mais
profunda dos mecanismos que sustentam ou fragilizam o processo de reintegração social. Em
conformidade com as melhores práticas da metodologia QCA, que preconizam o diálogo
contínuo entre a análise comparativa e o conhecimento aprofundado dos estudos de casos
(RAGIN, 2008; SCHNEIDER; WAGEMANN, 2012).
A estrutura desta seção organiza-se em torno das três dimensões centrais da análise —
estrutural, social e pessoal —, explorando as convergências, complementaridades e
divergências que emergem do diálogo entre os dois métodos. Ao final, os princípios de
equifinalidade e assimetria são revisitados à luz dos casos exemplares, consolidando uma
interpretação integrada que fundamenta as conclusões e recomendações de política pública
apresentadas no capítulo de conclusão subsequente.
6.11.1 A Dimensão Estrutural Revisitada: Da Presença à Continuidade
A análise fsQCA revelou a condição RE_ESTRUTURAL como um componente
central (core condition) para a reintegração efetiva, presente em todas as três configurações
causais que levam ao resultado e figurando como a solução parcimoniosa do modelo. Este
achado quantitativo, que aponta para a quase-necessidade de condições materiais mínimas,
encontra forte validação nas narrativas dos participantes. De forma recorrente, o acesso ao
trabalho e à renda foi descrito como o eixo organizador da vida pós-cárcere, um mecanismo
essencial não apenas para o sustento financeiro, mas para a reconstrução da dignidade e da
identidade, como sintetiza um dos entrevistados:
Contudo, a análise qualitativa aprofunda e complexifica essa conclusão. Ela demonstra
que, para além da mera presença de um vínculo laboral, o que se revela crucial é a
continuidade e a estabilidade desse vínculo. A triangulação expõe a diferença entre a
suficiência lógica, identificada na solução parcimoniosa (RE_ESTRUTURAL →
RE_EFETIVA), e a insuficiência substantiva de uma condição estrutural precária. O Caso 12
111
!O trabalho foi o que organizou minha vida.”
ilustra essa tensão de forma dramática: apesar de uma experiência de trabalho bem-sucedida
durante a pena, a ausência de uma política de transição leva ao colapso estrutural imediato
após o desligamentodo programa, como expressa o participante de forma contundente:
Da mesma forma, o Caso 7 demonstra que mesmo uma forte agência pessoal é
insuficiente para garantir uma reintegração consolidada quando a dimensão estrutural é
marcada pela instabilidade e pela precariedade do vínculo, resultando em uma trajetória de
reintegração apenas parcial. As narrativas sobre desligamentos abruptos e injustificados (!ser
mandado embora sem nenhuma justificativa”) revelam uma fragilidade institucional que o
modelo fsQCA, focado na presença ou ausência da condição, não captura plenamente.
Portanto, a triangulação permitiu refinar esta compreensão da dimensão estrutural, indicando
que seu componente mais crítico não é apenas o acesso inicial ao trabalho, mas a garantia de
continuidade e a existência de um ecossistema de suporte na transição da prisão para a vida
em sociedade.
6.11.2 A Dimensão Social e o Eixo Crítico Estigma-Reconhecimento
O fsQCA identificou a condição RE_SOCIAL como uma dimensão chave, presente
em duas das três configurações associadas à presença de reintegração efetiva e com a mais
forte correlação com o resultado (r = 0.775), considerando toda a amostra. Este padrão é
amplamente validado pelas entrevistas, que confirmam o papel determinante das redes de
apoio. As narrativas posicionam a família como uma !âncora emocional e moral”, fornecendo
suporte instrumental e afetivo que se mostra fundamental no período crítico pós-saída da
prisão. Os casos exemplars: Caso 11 (forte suporte familiar) e Caso 12 (isolamento social
extremo) funcionam como polos opostos que ilustram vividamente a centralidade dos
vínculos sociais no processo de reintegração social.
O principal aprofundamento oferecido pela análise qualitativa, no entanto, é a
revelação de uma dimensão oculta no modelo configuracional: o eixo estigma-
reconhecimento. As entrevistas demonstram que o estigma não é meramente a ausência de
suporte social, mas uma força ativa de exclusão que opera de forma persistente, especialmente
no mercado de trabalho, como evidencia a fala recorrente: !consultam meu nome e não me
112
!Mas depois que saí da FUNAP, acabou tudo.”
contratam.” Este mecanismo de fechamento de portas restringe redes, limita oportunidades e
tensiona a identidade em reconstrução, atribuindo um caráter perpétuo à pena.
Em contrapartida, o reconhecimento emerge como o contraponto transformador, uma
força restauradora capaz de validar a nova identidade do sujeito e criar perspectivas de futuro.
A trajetória do Caso 11, que consegue ressignificar sua história e transformar o estigma em
um ato de afirmação (!saindo de cabeça erguida”), ilustra o poder do reconhecimento. A
triangulação, portanto, revela que a dimensão social é mais bem compreendida não como uma
escala linear de suporte, mas como uma dinâmica entre as forças do estigma e do
reconhecimento, que estrutura a forma como as oportunidades e os vínculos são vivenciados
pelo egresso.
6.11.3 A Dinâmica da Dimensão Pessoal: Agência, Esgotamento e Resiliência
A análise fsQCA produziu dois achados centrais sobre a dimensão RE_PESSOAL: sua
presença em duas das três configurações de presença de reintegração efetiva e, de forma ainda
mais contundente, o fato de que sua ausência (~RE_PESSOAL) constitui uma via quase certa
para a falha da reintegração. Ambos os pontos são validados e aprofundados pela análise
qualitativa. A forte agência pessoal, a persistência e o desejo de mudança são evidentes nas
narrativas dos Casos 7 e 11 (!Se a gente quer mudar realmente de vida, a gente tem que
persistir”), enquanto a trajetória do Caso 12 ilustra como as fragilidades subjetivas, mesmo
com alguma intenção de mudança, contribuem para o colapso do processo.
Neste caso, a principal complementariedade da análise qualitativa reside na revelação
da dinâmica interna da agência pessoal, que não se mostra como um atributo estático. As
narrativas introduzem o conceito de esgotamento da agência, sintetizado de forma
paradigmática pela fala do Caso 12: !Sair do crime não é difícil. Difícil é viver aqui fora.”
Esta citação encapsula a ideia de que a força de vontade e a resiliência se exaurem diante da
exposição contínua à precariedade estrutural e à exclusão social. A triangulação demonstra
que o fracasso na reintegração não se deve a uma simples !falta de vontade”, mas ao
esgotamento dessa vontade na ausência de um ecossistema de suporte.
Adicionalmente, as entrevistas revelam a importância de fatores não explicitados no
modelo fsQCA, como o papel da educação não formal e do autoconhecimento, que no Caso
11 aparece como um multiplicador da agência, mais potente que o próprio trabalho para a
113
reconstrução identitária (!O estudo foi o primeiro passo da minha ressocialização”). A análise
qualitativa também destaca a saúde mental (dependência química, depressão), como um
obstáculo crítico capaz de minar a dimensão pessoal, frequentemente negligenciada pelas
políticas públicas de reintegração.
6.12 Equifinalidade e Assimetria à Luz dos Casos
Os princípios de equifinalidade e assimetria, centrais à lógica da Análise Qualitativa
Comparativa, são validados e enriquecidos pela análise dos casos. A equifinalidade — a
existência de múltiplos caminhos para o mesmo resultado — é claramente ilustrada pelas
trajetórias distintas dos Casos 7 e 11. O Caso 11 representa a via mais robusta para a
reintegração (RE_ESTRUTURAL * RE_SOCIAL * RE_PESSOAL), onde a convergência de
todas as dimensões produz um resultado consolidado. Já o Caso 7 pode ser visto como uma
versão mais frágil do processo (RE_ESTRUTURAL * RE_PESSOAL), onde a instabilidade
estrutural e a ausência de reconhecimento social levam a uma reintegração de baixa
efetividade. A triangulação, portanto, permite não apenas identificar a equifinalidade, mas
também qualificar os diferentes tipos de resultado que cada caminho configuracional produz.
Quanto à assimetria configuracional — o princípio de que as causas da presença
resultado não são, necessariamente, o espelho das causas da ausência — é igualmente
confirmada. Exemplo disso é que a trajetória de colapso do Caso 12 não é o simples inverso
do sucesso do Caso 11. A ausência de reintegração efetiva ocorre devido ao colapso
simultâneo das dimensões estrutural e social, uma combinação de adversidades que a agência
pessoal, sozinha, não consegue superar. Isso aprofunda o achado da fsQCA de que ausência
de restruturação pessoal (~RE_PESSOAL) é suficiente para levar à falha da reintegração em
si, mostrando que, na prática, essa fragilidade pessoal é ativada e amplificada pela deficiência
crítica das outras dimensões de suporte.
Em síntese, a triangulação permitiu não apenas validar os padrões causais
identificados pela fsQCA, mas, fundamentalmente, aprofundar a compreensão dos
mecanismos subjacentes, revelando dimensões críticas não passíveis de serem capturadas pelo
modelo, como o eixo estigma-reconhecimento, a ênfase na necessidade de continuidade
institucional e a importância da saúde mental, além de qualificar a natureza dos resultados
observados.
114
A complementariedade entre os métodos reforça a robustez das conclusões desta
dissertação no sentido em que, enquanto o fsQCA oferece uma visão panorâmica das
configurações de fatores associadas à reintegração efetiva, a análise qualitativa ilumina o
!como” e o !porquê” essas configurações operam na vida real dos egressos. As
recomendações de política pública que se seguem, portanto, estão fundamentadas em
evidências duplamente validadas, que apontam para a necessidade de intervenções integradas,
contínuas e focadas tanto nas condições materiais quanto no suporte psicossocial e simbólico
para uma reintegração social efetiva e sustentável.
115
CAPÍTULO 7 – CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES DE POLÍTICA PÚBLICA
Este capítulo final tem como objetivo sintetizar os principais achadosda pesquisa,
apresentar suas implicações e delinear caminhos para futuras investigações e intervenções no
campo da reintegração social de egressos do sistema prisional. Partindo da complexa teia de
evidências construída a partir da Análise Qualitativa Comparativa (fsQCA) e do
aprofundamento das narrativas dos participantes, as conclusões aqui apresentadas buscam
oferecer uma visão integrada e multifacetada do fenômeno.
As recomendações de política pública, por sua vez, não são meras abstrações, mas
propostas concretas, fundamentadas na robustez de evidências duplamente validadas. A
estrutura deste capítulo segue uma progressão lógica: inicia-se com a síntese geral dos
achados, avança para as recomendações de políticas, discute as contribuições acadêmicas e as
limitações do estudo e, por fim, propõe uma agenda de pesquisa futura para expandir as
fronteiras do conhecimento nesta área da criminologia.
7.1 Síntese Geral dos Achados
A investigação sobre os caminhos que conduzem à reintegração social efetiva de
egressos do sistema prisional no Distrito Federal revelou um panorama complexo, no qual
nenhuma condição isolada é capaz de garantir o sucesso reintegrativo. A combinação de
métodos qualitativos permitiu não apenas identificar os padrões configuracionais associados
ao resultado, mas também compreender os mecanismos causais que operam por trás dessas
configurações. A síntese dos achados demonstra que a reintegração é um processo
multidimensional, dinâmico e profundamente influenciado pela interação entre condições
estruturais, suporte social e agência pessoal.
Os padrões identificados pela fsQCA apontaram para a existência de três
configurações causais distintas que levam à reintegração efetiva, confirmando o princípio da
equifinalidade. Em todas elas, a presença de condições materiais mínimas se mostrou um
componente fundamental, sublinhando a necessidade de um patamar mínimo de estabilidade
para que qualquer trajetória de mudança seja possível. A análise também demonstrou a
assimetria do fenômeno: enquanto as trajetórias que conduzem à reintegração efetiva podem
emergir por múltiplas combinações causais, os processos que tendem à não consolidação da
reintegração estão fortemente associados à ausência de repertório e capacidades na dimensão
pessoal.
116
O aprofundamento qualitativo, consolidado na seção de triangulação, validou esses
padrões e os enriqueceu com densidade explicativa. As narrativas dos egressos revelaram que
a dimensão estrutural transcende a mera presença de um emprego, sendo que a continuidade e
a estabilidade dos fatores se demonstraram decisivos. Na dimensão social, a análise expôs o
eixo estigma-reconhecimento como uma força ativa e estruturante, que modula o acesso a
oportunidades e a reconstrução da identidade. Por fim, a dimensão pessoal foi revelada não
como um atributo estático, mas como um processo dinâmico de esgotamento e resiliência,
profundamente dependente de suporte psicossocial e de ferramentas como a educação para a
sua sustentação.
De forma integrada, os achados desta pesquisa convergem para uma conclusão central:
a reintegração social efetiva não é um evento, mas um processo longitudinal que demanda a
convergência sinérgica de múltiplas condições. Políticas públicas isoladas ou de curta duração
mostram-se insuficientes. O alcance de objetivos mais coesos, depende da construção de um
ecossistema de suporte integrado, duradouro e intersetorial, capaz de oferecer não apenas
oportunidades materiais, mas também reconhecimento simbólico e apoio para a reconstrução
da identidade e da saúde mental do egresso.
7.2 Recomendações de Política Pública
As recomendações a seguir são diretamente derivadas da análise integrada entre a
modelagem configuracional (fsQCA) e a interpretação qualitativa das narrativas dos
participantes, evitando-se qualquer pretensão de generalização estatística. Não se trata de
propor transformações utópicas que transcendam as limitações estruturais das políticas
públicas ou que ignorem as realidades operacionais de programas que trabalham com
populações estigmatizadas. Trata-se, antes, de identificar pontos de alavancagem concretos e
viáveis, onde pequenas mudanças podem gerar impactos significativos, especialmente, na
redução da marginalização e da reincidência criminal. As propostas são organizadas em torno
das três dimensões centrais da pesquisa e culminam em sugestões de natureza intersetorial.
7.2.1 Recomendações para as Dimensões Estrutural e Social
A análise qualitativa revelou que o trabalho funciona como um eixo organizador
fundamental da vida pós-prisão, oferecendo não apenas renda, mas rotina, dignidade e uma
identidade alternativa à do "preso". Contudo, a pesquisa também expôs a fragilidade extrema
dos vínculos trabalhistas para egressos: desligamentos abruptos, sem justificativas formais,
117
sem direito a recurso, frequentemente precipitam colapsos emocionais e retorno ao crime. O
desafio, portanto, não é o de oferecer empregos ideais — sabemos que isso é irrealista — mas
de criar mecanismos que otimizem a empregabilidade e minimizem perdas desnecessárias de
egressos com bom desempenho.
Primeira recomendação: Fortalecer redes de apoio social através de parcerias
comunitárias estruturadas. Nem todos os egressos possuem uma rede familiar de suporte. A
pesquisa mostrou que a ausência de vínculos sociais é um fator crítico de sucesso.
Recomenda-se o estabelecimento de parcerias formais com organizações comunitárias,
igrejas, associações de bairro e outras instituições que possam oferecer acolhimento,
pertencimento e acesso a redes. Isso pode incluir:
(a) Grupos de apoio entre pares, onde egressos compartilham experiências e se apoiam
mutuamente;
(b) Programas de mentoria, onde profissionais ou voluntários oferecem orientação e
suporte;
(c) Atividades comunitárias que permitam ao egresso se sentir parte de algo maior.
Essas iniciativas não exigem grandes investimentos, mas requerem coordenação e
intencionalidade.
Segunda recomendação: Articular os programas de reintegração com serviços de
assistência social para garantir acesso a direitos básicos, como a documentação de egressos. A
precariedade estrutural amplifica vulnerabilidades psicossociais. Egressos que vivem em
situação de insegurança alimentar, sem moradia estável ou sem acesso a serviços básicos têm
menor capacidade de manter agência pessoal. Recomenda-se integração formal com CRAS,
CREAS e serviços de assistência social, de modo que cada egresso tenha acesso a:
(a) Benefícios sociais quando aplicáveis;
(b) Orientação para habitação;
(c) Acesso a serviços de saúde básicos;
(d) Segurança alimentar.
Novamente, essas ações não exigem a criação de novos programas, mas articulação e
priorização de egressos nos programas existentes.
Terceira recomendação: Implementar ações de sensibilização dirigidas a
empregadores e à sociedade, com foco em redução do estigma. Reconhecendo que o estigma
118
é estrutural e que uma política pública isolada não o eliminará, o que se propõe são ações
pontuais e pragmáticas de sensibilização. Isso pode incluir:
(a) Campanhas modestas que destaquem histórias de sucesso de egressos,
demonstrando que a mudança é possível;
(b) Diálogo direto com empregadores que já contratam egressos, compartilhando
dados sobre desempenho e confiabilidade;
(c) Criação de um "selo" ou reconhecimento para empresas que contratam egressos,
oferecendo visibilidade e diferenciação;
(d) Educação nas escolas sobre desistência criminal e reintegração, buscando mudar
narrativas de longo prazo.
Essas ações não "resolverão" o estigma, mas podem criar pequenos acessos por onde o
reconhecimento possa emergir.
Em síntese, as recomendações para a dimensão social reconhecem que o estigma é
uma realidade estrutural com a qual egressos precisam aprender a viver.O foco não é eliminá-
lo, mas criar espaços de reconhecimento, fortalecer redes de suporte e garantir acesso a
direitos básicos que permitam ao egresso manter dignidade e esperança.
7.2.3 Recomendações para a Dimensão Pessoal
A pesquisa revelou que a agência pessoal é necessária para a reintegração, mas que
essa faculdade se esgota rapidamente na ausência de suporte estrutural e social. As
recomendações para a dimensão pessoal, portanto, buscam proporcionar suporte psicossocial
que permita ao egresso sustentar sua força interna, autonomia e perspectiva de futuro.
Primeira recomendação: Integrar acesso a serviços de saúde mental como
componente obrigatório dos programas de reintegração. A pesquisa identificou que
dependência química, depressão e ansiedade são obstáculos frequentemente não abordados.
Recomenda-se que todo egresso tenha acesso a:
(a) Avaliação inicial de saúde mental;
(b) Acompanhamento psicológico regular, mesmo que de baixa intensidade;
(c) Acesso a psiquiatria quando necessário intervenção por uso de medicação;
(d) Grupos de apoio para dependentes químicos.
119
Igualmente, essas ações não exigem, necessariamente, a criação de novos programas,
mas garantir que egressos sejam priorizados e tenham acesso facilitado aos serviços de saúde
mental já existentes na rede pública.
Segunda recomendação: Implementar sistema de acompanhamento individualizado
que reconheça a singularidade de cada trajetória. A pesquisa mostrou que cada egresso tem
necessidades e capacidades distintas. Recomenda-se que os programas designem profissionais
de referência para oferecer orientação a cada egresso, responsáveis por:
(a) Compreender sua história, suas capacidades e suas vulnerabilidades;
(b) Orientar a construção de um plano de reintegração individualizado para situações
específicas;
(c) Oferecer suporte contínuo e flexível;
(d) Articular os diferentes serviços necessários e disponíveis.
Este acompanhamento não precisa ser intensivo, mas deve ser consistente e orientado
para a pessoa, não apenas para a "categoria" de egresso.
Terceira recomendação: Oferecer educação e oportunidades de autoconhecimento
como ferramentas de reconstrução identitária. A pesquisa revelou que educação pode ser tão
potente quanto o trabalho para fins de transformação subjetiva. Portanto recomenda-se
programas que ofereça:
(a) Alfabetização de jovens e adultos;
(b) Conclusão de ensino fundamental e médio;
(c) Cursos profissionalizantes;
(d) Oficinas de autoconhecimento, desenvolvimento pessoal e reflexão sobre trajetória.
Na dimensão subjetiva, a educação não é um "extra", mas um pilar que oferece ao
egresso ferramentas cognitivas para compreender sua história, projetar futuros alternativos e
superar o estigma. Além disso, o foco é oferecer acompanhamento psicossocial que permita
ao egresso lidar com os desafios da vida pós-cárcere, mantendo a esperança e a capacidade de
ação, mesmo diante das precariedades.
7.2.4 Recomendações de Natureza Intersetorial
As recomendações desse eixo visam a ampliação da capacidade administrativa dos
órgãos estatais, da articulação e coordenação das políticas públicas de reintegração, e do
relacionamento inter-institucionais. Reconhece-se que a reintegração social é uma
120
responsabilidade de secretárias de governo, órgãos do judiciário e entidades. Contudo, a
pesquisa revelou que uma lacuna operacional do Programa Ressocializa DF é a ausência de
instrumentos estruturados de coleta de dados, monitoramento e avaliação, bem como a falta
de protocolos formais de articulação intersetorial. As recomendações que seguem buscam
estabelecer um ciclo sistemático de políticas públicas — diagnóstico, planejamento,
implementação, monitoramento, avaliação e ajuste — que permita a entidade e os demais
órgãos envolvidos aprender continuamente, adaptar-se às evidências e melhorar suas práticas.
Primeira recomendação: Criar protocolo de articulação intersetorial e sistema de
informação compartilhado, vez que as ações de reintegração são responsabilidade de
múltiplas secretarias, órgãos e entidades. Recomenda-se que seja estabelecido um protocolo
formal que defina:
(a) Quem é responsável por quê;
(b) Como a informação sobre cada egresso é compartilhada entre órgãos;
(c) Como se dão os fluxos de referência e contrarreferência;
(d) Indicadores a serem compartilhados.
Um sistema de informação compartilhado (mesmo que simples) permitiria que
diferentes órgãos tivessem uma visão mais integrada da trajetória de cada egresso, evitando
contraposição de esforços e lacunas de suporte.
Segunda recomendação: Estabelecer indicadores de impacto e realizar
monitoramento sistemático. Neste ponto, recomenda-se que os órgãos públicos especializados
definam indicadores criteriosamente modelados de reintegração (como emprego, renda,
estabilidade funcional, reincidência, etc) para o monitoramento e avaliação dos programas.
Isso pode permitir:
(a) Identificar rapidamente egressos em risco;
(b) Avaliar a efetividade de diferentes componentes da política;
(c) Fazer ajustes quando necessário;
(d) Demonstrar valor do programa para gestores públicos, agentes privados e
sociedade;
(e) Formular ações multi-informadas.
Em síntese, as recomendações de políticas públicas reconhecem as limitações reais de
capacidade de governo direcionadas às populações estigmatizadas e buscam identificar pontos
121
de alavancagem viáveis onde pequenas mudanças podem gerar impactos significativos na
redução de reincidência e melhoria de trajetórias de egressos.
7.3 Contribuições Acadêmicas
Esta pesquisa oferece contribuições significativas para o campo dos estudos sobre
políticas públicas de reintegração social, que podem ser agrupadas em três áreas principais.
A primeira é de natureza metodológica: a aplicação da Análise Qualitativa
Comparativa (fsQCA) para investigar um fenômeno social tão complexo como a reintegração
social se demonstrou um instrumento analítico de grande potência. A capacidade do método
de identificar padrões configuracionais e, ao mesmo tempo, manter um diálogo profundo com
os casos, abre uma nova e promissora fronteira para pesquisadores no campo da criminologia.
Em segundo lugar, a dissertação apresenta contribuições teóricas ao integrar, de forma
original, o referencial da criminologia crítica e de Foucault com as teorias da desistência
criminal. Ao fazê-lo, propõe uma conceituação da reintegração não como um processo de
ressocialização disciplinar, mas como um percurso complexo de reconstrução da identidade,
mediado por relações de poder. A revelação do eixo estigma-reconhecimento como uma
dimensão central, não capturada por muitos modelos teóricos, representa um avanço na
compreensão dos mecanismos psicossociais que modulam as trajetórias dos egressos.
Por fim, a pesquisa oferece contribuições práticas diretas, ao gerar um conjunto de
recomendações de políticas públicas robustas e fundamentadas. A aplicabilidade das
sugestões ao contexto específico do Distrito Federal, bem como seu potencial de transferência
para outras realidades, confere ao estudo uma relevância que transcende o debate acadêmico,
oferecendo subsídios concretos para a tomada de decisão de gestores públicos.
7.4 Limitações da Pesquisa
A honestidade intelectual exige o reconhecimento das limitações inerentes a qualquer
investigação científica. No presente estudo, a principal limitação diz respeito ao tamanho
reduzido da amostra (N = 21). Embora adequado ao emprego de métodos configuracionais e
compatível com o caráter exploratório do fsQCA, tal número impõe cautela quanto à
amplitude das inferências e à generalização dos padrões identificados.
O desenho transversal da pesquisa — baseado em dados coletados em um único
momento — também restringe a possibilidade de observar a evolução das trajetórias ao longo
do tempo, elementoparticularmente relevante em estudos sobre reintegração social.
122
Adicionalmente, a ausência de um grupo de controle formal e a dependência da
autodeclaração pelos participantes constituem limitações metodológicas que devem ser
consideradas na interpretação dos achados.
Há ainda limitações relacionadas ao próprio escopo da investigação. O estudo
concentrou-se no Distrito Federal e não examinou de maneira sistemática o papel de
marcadores sociais como raça, gênero e classe, dimensões amplamente reconhecidas pela
literatura criminológica como estruturantes das experiências de encarceramento, exclusão e
reintegração.
Essas lacunas, embora delimitem o alcance das conclusões atuais, são precisamente o
que abre caminho para uma agenda de pesquisa futura, como se discute a seguir.
7.5 Proposta de Agenda Futura
As conclusões e limitações desta dissertação apontam para uma rica e urgente agenda
de pesquisa. A primeira e mais evidente necessidade é a ampliação do N da amostra. Uma
pesquisa com desenho semelhante, mas com uma amostra maior, permitiria uma aplicação
mais robusta do fsQCA, aumentando a confiança nos padrões identificados e possibilitando a
análise de subgrupos diversos.
Em segundo lugar, é interessante que futuras investigações incorporem recortes
analíticos mais refinados. Um estudo que compare as configurações causais entre gêneros,
raças ou faixa etária poderia revelar dinâmicas de estigma e exclusão completamente distintas
e, consequentemente, orientar políticas públicas mais específicas.
Uma terceira via promissora é a expansão do escopo metodológico. A realização de
estudos longitudinais, que acompanhem os egressos por vários anos, permitiria validar as
trajetórias aqui delineadas e compreender os efeitos de longo prazo das políticas. A
triangulação também poderia ser expandida para incluir a perspectiva de outros atores, como
gestores, técnicos dos programas e familiares dos egressos, como recurso exploratório.
Por fim, esta pesquisa demonstrou o vasto potencial do método fuzzy set QCA para o
campo da criminologia. Há portanto um convite aberto para que outros pesquisadores se
apropriem deste método para investigar outros fenômenos complexos relacionados, como os
fatores que levam à desistência do crime, as diferentes configurações de reincidência ou a
efetividade comparada de diferentes modelos de política penal. A consolidação de uma
agenda de pesquisa que utilize métodos configuracionais pode representar um salto
123
qualitativo na capacidade de produzir conhecimento útil e multi-informado para enfrentar os
complexos desafios da segurança pública e da justiça criminal no país.
124
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https://api.pageplace.de/preview/DT0400.9781292034546_A24616694/preview-9781292034546_A24616694.pdf
https://api.pageplace.de/preview/DT0400.9781292034546_A24616694/preview-9781292034546_A24616694.pdf
https://www.ijme.net/archive/2/cronbachs-alpha/
APÊNDICES
130
APÊNDICE A – QUESTIONÁRIO SITUACIONAL APLICADO AOS EGRESSOS
Questionário de Reintegração Social - Avaliação do Programa Ressocializa DF da FUNAP
Este questionário tem como objetivo coletar informações sobre o processo de reintegração social de
pessoas egressas do sistema prisional do Distrito Federal que participaram do Programa Ressocializa
DF coordenado pela Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso (FUNAP). Suas respostas são muito
importantes para a pesquisa e serão tratadas com total confidencialidade.
Informações Preliminares
1. Nome Completo
____________________________________________________________________________
2. CPF
_______________________________________________
3. Por quanto tempo você trabalhou pela FUNAP?
• ( ) Não cheguei a trabalhar pela FUNAP
• ( ) Trabalhei por pouco tempo — até 3 meses
• ( ) Trabalhei de 4 a 6 meses
• ( ) Trabalhei de 7 a 12 meses
• ( ) Trabalhei por mais de 1 ano
4. Há quanto tempo você terminou de cumprir sua pena?
• ( ) Ainda estou cumprindo pena
• ( ) Terminei hápouco tempo — até 2 meses
• ( ) Terminei há algum tempo — entre 3 e 6 meses
• ( ) Terminei há bastante tempo — entre 7 meses e 1 ano
• ( ) Terminei faz mais de 1 ano
Bloco 1: Dados Sociodemográficos
5. Qual a sua idade atual?
• ( ) 18-24 anos
• ( ) 25-34 anos
• ( ) 35-44 anos
• ( ) 45-54 anos
• ( ) 55 anos ou mais
6. Com qual gênero você se identifica?
• ( ) Masculino
• ( ) Feminino
• ( ) Outro
• ( ) Prefiro não dizer
7. Qual o seu nível de escolaridade mais alto concluído?
• ( ) Ensino Fundamental Incompleto
• ( ) Ensino Fundamental Completo
• ( ) Ensino Médio Incompleto
131
• ( ) Ensino Médio Completo
• ( ) Ensino Superior Incompleto
• ( ) Ensino Superior Completo
• ( ) Pós-graduação
8. Qual o seu estado civil atual?
• ( ) Solteiro(a)
• ( ) Casado(a) / União Estável
• ( ) Divorciado(a) / Separado(a)
• ( ) Viúvo(a)
Bloco 2: Estabilidade Econômica e Ocupacional
9. Nos últimos 12 meses, por quantos meses você esteve empregado(a) (formal ou informalmente)
de forma contínua?
• ( ) 0 meses
• ( ) 1-3 meses
• ( ) 4-6 meses
• ( ) 7-9 meses
• ( ) 10-12 meses
10. Qual a sua renda mensal média per capita (por pessoa da casa) em relação ao salário mínimo
atual (R$ 1.518,00)?
• ( ) Menos de R$ 759,00
• ( ) Entre R$ 759,00 e R$ 1.122,99
• ( ) Entre R$ 1.138,50 e R$ 2.265,82
• ( ) Entre R$ 2.277,00 e R$ 3.036,00
• ( ) Mais de R$ 3.036,00
11. Nos últimos 12 meses, você participou de algum curso de capacitação profissional ou educação
formal?
• ( ) Não participei de nenhum
• ( ) Sim, 1 curso de curta duração (até 80h) ou ensino fundamental/médio
• ( ) Sim, 2 ou mais cursos de curta duração (até 80h)
• ( ) Sim, 1 curso de média/longa duração (acima de 80h) ou ensino superior/técnico
• ( ) Sim, 2 ou mais cursos de média/longa duração (acima de 80h) ou ensino superior/técnico
12. Em geral, o quanto você está satisfeito(a) com seu trabalho atual e suas perspectivas de carreira?
• ( ) Muito insatisfeito(a)
• ( ) Insatisfeito(a)
• ( ) Indiferente
• ( ) Satisfeito(a)
• ( ) Muito satisfeito(a)
Bloco 3: Habitação e Condições de Vida
13. Qual a sua situação de moradia atual e há quanto tempo você reside nela?
• ( ) Situação de rua ou abrigo temporário (menos de 3 meses)
• ( ) Moradia instável (múltiplas mudanças em menos de 3 meses)
• ( ) Moradia cedida/aluguel informal, permanência entre 3 e 12 meses
• ( ) Moradia cedida/aluguel informal, permanência superior a 12 meses
132
• ( ) Moradia própria ou alugada com contrato formal, previsão de permanência superior a 12
meses
14. Como você avalia as condições gerais da sua moradia (saneamento, higiene, espaço)?
• ( ) Precárias (sem serviços básicos, insalubre, superlotada)
• ( ) Ruins (acesso parcial a serviços, problemas de ventilação/iluminação)
• ( ) Razoáveis (algumas deficiências, mas habitável)
• ( ) Boas (todos os serviços, boa ventilação, espaço adequado)
• ( ) Excelentes (todos os serviços, ótima ventilação, espaço amplo)
15. O quanto você se sente seguro(a) no entorno da sua moradia (vizinhança)?
• ( ) Muito inseguro(a), alta presença de criminalidade
• ( ) Inseguro(a), com ocorrências frequentes de criminalidade
• ( ) Razoavelmente seguro(a), com ocorrências pontuais
• ( ) Seguro(a), sem grandes preocupações
• ( ) Muito seguro(a), sem presença de criminalidade
Bloco 4: Vínculos Familiares e Rede de Apoio
16. Você possui um núcleo familiar estável (casamento, união estável, coabitação com filhos)?
• ( ) Não, estou isolado(a) ou minhas relações são muito conflituosas
• ( ) Tenho contato com familiares/filhos, mas com conflitos pontuais ou sem coabitação
• ( ) Tenho contato regular com familiares/filhos, com apoio moderado
• ( ) Sim, tenho um núcleo familiar estável e de apoio mútuo
• ( ) Sim, tenho um núcleo familiar muito foCae123
• rte, harmonioso e de grande apoio
17. Com que frequência você interage com amigos, membros da comunidade ou grupos de apoio
que considera fontes de suporte confiáveis?
• ( ) Nunca ou quase nunca
• ( ) Raramente (menos de uma vez por mês)
• ( ) Ocasionalmente (uma vez por mês)
• ( ) Frequentemente (semanalmente)
• ( ) Muito frequentemente (várias vezes por semana)
18. Você conseguiu restabelecer e manter relações positivas com pessoas do seu passado que não
estão ligadas a atividades criminais?
• ( ) Não, ou mantenho apenas vínculos criminais
• ( ) Sim, 1 ou 2 vínculos, mas ainda em reconstrução
• ( ) Sim, 1 ou 2 vínculos positivos e saudáveis
• ( ) Sim, 3 ou mais vínculos positivos e saudáveis
• ( ) Sim, múltiplos vínculos positivos e saudáveis, com grande apoio
19. Como você avalia a qualidade da comunicação dentro do seu núcleo familiar (se aplicável)?
• ( ) Muito deficiente, muitos conflitos não resolvidos
• ( ) Deficiente, com bloqueios ou mal-entendidos frequentes
• ( ) Razoável, consigo me comunicar, mas com algumas dificuldades
• ( ) Boa, a comunicação é aberta e eficaz na maioria das vezes
• ( ) Excelente, a comunicação é sempre aberta, honesta e eficaz
133
Bloco 5: Integração Comunitária e Social
20. Nos últimos 6 meses, com que frequência você participou de atividades comunitárias, religiosas,
culturais ou esportivas?
• ( ) Nenhuma participação
• ( ) Ocasionalmente (1 vez por mês) em 1 tipo de atividade
• ( ) Regularmente (semanalmente) em 1 tipo de atividade
• ( ) Regularmente (semanalmente) em 2 ou mais tipos de atividades
• ( ) Muito regularmente (várias vezes por semana) em 2 ou mais tipos de atividades
21. Qual a proporção de seus amigos/conhecidos que você considera que não possuem histórico
criminal e exercem influência positiva em sua vida?
• ( ) Quase nenhum ou nenhum
• ( ) A minoria
• ( ) Mais ou menos a metade
• ( ) A maioria
• ( ) Quase todos ou todos
22. Como você lida com o estigma social (preconceito)?
• ( ) Sinto-me constantemente discriminado(a) e me isolo
• ( ) Sinto o estigma, e tenho poucas estratégias eficazes para lidar
• ( ) Sinto o estigma, mas minhas estratégias de enfrentamento estão em desenvolvimento
• ( ) Lido bem com o estigma, tenho estratégias eficazes para enfrentá-lo
• ( ) Não me sinto afetado(a) pelo estigma, superei-o completamente
23. O quanto você se sente parte integrante e valorizado(a) em sua comunidade?
• ( ) Sinto-me excluído(a) ou marginalizado(a)
• ( ) Sinto-me pouco aceito(a), com alguma reserva
• ( ) Sinto-me parcialmente aceito(a), com indiferença
• ( ) Sinto-me aceito(a) e valorizado(a) na maioria das vezes
• ( ) Sinto-me plenamente aceito(a) e valorizado(a)
Bloco 6: Comportamento e Autonomia
24. Você cumpre integralmente as condições de sua liberdade e evita qualquer tipo de infração
(administrativa, civil, penal)?
• ( ) Não, descumpro gravemente as condições ou cometo múltiplas infrações
• ( ) Parcialmente, cometo algumas infrações menores ou descumpro pontualmente
• ( ) Na maioria das vezes, mas com algumas falhas pontuais
• ( ) Sim, cumpro integralmente e evito a maioria das infrações
• ( ) Sim, cumpro integralmente e evito todas as infrações
25. Você possui planos de vida claros e realistas para o futuro (educação, carreira, família) e toma
decisões de forma autônoma (sem influência de grupos criminais)?
• ( ) Não possuo planos ou meus planos envolvem atividades ilícitas, e/ou sou influenciado(a) por
grupos criminais
• ( ) Tenho planos genéricos ou de curto prazo, e/ou demonstro hesitação/influência externa (não
criminal)
• ( ) Tenho planos, mas ainda em desenvolvimento, e/ou minha autonomia é moderada
134
• ( ) Sim, tenho planos claros e realistas, e tomo decisões de forma autônoma
• ( ) Sim, tenho planos muito claros e realistas, e sou totalmente autônomo(a) em minhas decisões
26. Com que frequência você participa de processos democráticos (voto), busca conhecer seus
direitos/deveres e se interessa por questões sociais?
• ( ) Nunca ou quase nunca (não voto, desconheço direitos/deveres, apático(a))
• ( ) Raramente (voto ocasionalmente, conhecimento básico, poucointeresse)
• ( ) Ocasionalmente (voto, busco conhecer, algum interesse)
• ( ) Frequentemente (voto regularmente, conheço direitos/deveres, participo de debates)
• ( ) Muito frequentemente (voto sempre, engajado(a) em questões cívicas)
Bloco 7: Aspectos Psicológicos e de Saúde
27. Como você avalia sua estabilidade emocional e mental (capacidade de gerenciar estresse,
ansiedade, etc.)?
• ( ) Muito instável (sintomas graves, crises frequentes, recusa tratamento)
• ( ) Instável (estresse intenso, ansiedade frequente, tratamento irregular)
• ( ) Razoável (estresse moderado, ansiedade ocasional, tratamento inicial)
• ( ) Estável (bom bem-estar, sem sintomas graves, tratamento eficaz)
• ( ) Muito estável (excelente bem-estar, sem sintomas, tratamento contínuo)
28. Você possui um sentimento de propósito na vida e um projeto de futuro?
• ( ) Não, sinto desesperança e não tenho projeto de futuro
• ( ) Tenho pouco propósito e meu projeto de futuro é frágil e incerto
• ( ) Meu propósito está em construção e meu projeto de futuro está em desenvolvimento
• ( ) Sim, tenho propósito e um projeto de futuro estruturado
• ( ) Sim, tenho um propósito muito claro e um projeto de futuro bem definido
29. Qual a sua situação em relação à dependência de substâncias psicoativas?
• ( ) Uso contínuo de substâncias ou recusas a tratamento
• ( ) Recaídas frequentes ou adesão intermitente a tratamento
• ( ) Abstinência entre 3 e 12 meses ou uso ocasional sem recaída grave
• ( ) Abstinência total por mais de 12 meses ou adesão plena a tratamento
• ( ) Abstinência total por mais de 24 meses e vida livre de substâncias
30. Como você avalia seu acesso a serviços de saúde (física e mental) e sua adesão a tratamentos,
quando necessário?
• ( ) Dificuldade de acesso ou recusa a serviços/tratamentos
• ( ) Acesso difícil e adesão irregular a tratamentos
• ( ) Acesso moderado e adesão parcial a tratamentos
• ( ) Acesso fácil e adesão regular a tratamentos
• ( ) Acesso muito fácil e adesão plena e contínua a tratamentos
Obrigado por sua participação!
135
APÊNDICE B – Roteiro de Entrevista Semiestruturada Aplicada aos Egressos do
Sistema Prisional do DF
Pesquisa: Trajetórias de Reintegração Social de Egressos do Sistema Prisional do DF
Pesquisador responsável: Carlos Eduardo Oliveira
Instituição: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA
Tipo: Entrevista semiestruturada, dialógica e exploratória
Data da entrevista: ____/____/______
Forma de realização: Entrevista telefônica gravada, mediante consentimento verbal
Termo de consentimento apresentado oralmente no início:
O participante foi informado de que:
• a entrevista integra pesquisa sobre reintegração social de egressos do sistema prisional;
• sua participação é voluntária, podendo interromper a qualquer momento;
• a entrevista foi gravada somente para registro fiel do conteúdo;
• não haverá identificação de nomes ou dados pessoais;
• os dados serão utilizados exclusivamente para fins acadêmicos, conforme Resolução CNS nº 510/16.
Após leitura, foi registrada verbalmente a decisão do participante:
( ) Sim – concorda e autoriza gravação.
( ) Não – entrevista encerrada.
Observações metodológicas:
O roteiro funcionou como guia flexível, pois as entrevistas foram dialógicas e centradas na narrativa
do participante.
O entrevistado foi incentivado a falar livremente, com interrupções mínimas e pontuais, utilizadas
apenas para eventuais perguntas complementares.
Pergunta motivadora utilizada também no convite:
"A partir da sua experiência, onde você acredita que o Estado mais tem falhado no processo de
reintegração social de pessoas egressas?"
1) Abertura – trajetória inicial e pós-prisão
• Para começarmos, conte um pouco sobre sua vida após sair do sistema prisional. Como foi esse
início?
• Quais foram seus primeiros desafios e conquistas?
2) Experiência no Programa Ressocializa DF
• Como foi para você participar do Programa Ressocializa DF?
• O que essa participação significou para você?
• Pode citar alguma experiência marcante?
3) Dimensão Estrutural: trabalho, renda e moradia
• Como tem sido sua experiência com trabalho e renda após a saída?
• O que ajudou ou dificultou sua estabilidade financeira?
• Como conseguiu sua moradia atual e o que ela representa para sua segurança?
4) Dimensão Social: família, apoio e vínculos
• Quem esteve ao seu lado nesse processo?
• Como foram os vínculos familiares e sociais?
• Você sente aceitação ou estigma?
5) Dimensão Pessoal e Subjetiva
• Você sente que mudou como pessoa após a saída?
• Quais são seus planos de futuro?
• Você sente propósito e autonomia?
136
6) Saúde mental e bem-estar emocional
• Como cuida da sua saúde mental?
• O que te fortalece em momentos difíceis?
7) Pergunta reflexiva principal
"A partir da sua experiência, onde o Estado mais tem falhado no processo de reintegração social?"
8) Encerramento
• Que conselho daria a alguém recém-egresso?
• O que mudaria no Ressocializa DF?
• Algo mais que deseja acrescentar?
Agradecimento final:
“Muito obrigado(a) por compartilhar sua história. Sua contribuição é essencial para compreendermos a
reintegração e aperfeiçoar políticas públicas.”
137
APÊNDICE C – SCRIPT DE PREPARAÇÃO E LIMPEZA DOS DADOS
# SCRIPT R PARA PREPARAÇÃO DE DADOS QCA
# Definir diretório de trabalho
setwd("~/Documents/Pesquisa_Reintegracao")
# Carregar dados brutos do arquivo CSV
arquivo_dadosventilação,
espaço amplo)"),
seguranca_vizinhanca = c("Muito inseguro(a), alta presença de
criminalidade",
"Inseguro(a), com ocorrências frequentes de
criminalidade",
"Razoavelmente seguro(a), com ocorrências
pontuais",
"Seguro(a), sem grandes preocupações",
"Muito seguro(a), sem presença de
criminalidade"),
nucleo_familiar = c("Não, estou isolado(a) ou minhas relações são muito
conflituosas",
"Tenho contato com familiares/filhos, mas com
conflitos pontuais ou sem coabitação",
"Tenho contato regular com familiares/filhos, com
apoio moderado",
"Sim, tenho um núcleo familiar estável e de apoio
mútuo",
"Sim, tenho um núcleo familiar muito forte,
harmonioso e de grande apoio"),
freq_interacao_rede = c("Nunca ou quase nunca",
"Raramente (menos de uma vez por mês)",
"Ocasionalmente (uma vez por mês)",
"Frequentemente (semanalmente)",
"Muito frequentemente (várias vezes por
semana)"),
relacoes_nao_criminais = c("Não, ou mantenho apenas vínculos criminais",
"Sim, 1 ou 2 vínculos, mas ainda em
reconstrução",
"Sim, 1 ou 2 vínculos positivos e saudáveis",
"Sim, 3 ou mais vínculos positivos e
saudáveis",
"Sim, múltiplos vínculos positivos e
saudáveis, com grande apoio"),
comunicacao_familiar = c("Muito deficiente, muitos conflitos não
resolvidos",
"Deficiente, com bloqueios ou mal-entendidos
frequentes",
"Razoável, consigo me comunicar, mas com algumas
dificuldades",
"Boa, a comunicação é aberta e eficaz na maioria
das vezes",
"Excelente, a comunicação é sempre aberta,
honesta e eficaz"),
freq_atividades = c("Nenhuma participação",
"Ocasionalmente (1 vez por mês) em 1 tipo de
atividade",
"Regularmente (semanalmente) em 1 tipo de atividade",
"Regularmente (semanalmente) em 2 ou mais tipos de
atividades",
"Muito regularmente (várias vezes por semana) em 2 ou
mais tipos de atividades"),
prop_amigos_sem_crime = c("Quase nenhum ou nenhum",
"A minoria",
"Mais ou menos a metade",
"A maioria",
"Quase todos ou todos"),
sentir_valorizado = c("Sinto-me excluído(a) ou marginalizado(a)",
"Sinto-me pouco aceito(a), com alguma reserva",
"Sinto-me parcialmente aceito(a), com indiferença",
139
"Sinto-me aceito(a) e valorizado(a) na maioria das
vezes",
"Sinto-me plenamente aceito(a) e valorizado(a)"),
lidar_estigma = c("Sinto-me constantemente discriminado(a) e me isolo",
"Sinto o estigma, e tenho poucas estratégias eficazes
para lidar",
"Sinto o estigma, mas minhas estratégias de
enfrentamento estão em desenvolvimento",
"Lido bem com o estigma, tenho estratégias eficazes
para enfrentá-lo",
"Não me sinto afetado(a) pelo estigma, superei-o
completamente"),
planos_vida_autonomia = c("Não possuo planos ou meus planos envolvem
atividades ilícitas, e/ou sou influenciado(a) por grupos criminais",
"Tenho planos genéricos ou de curto prazo, e/ou
demonstro hesitação/influência externa (não criminal)",
"Tenho planos, mas ainda em desenvolvimento, e/
ou minha autonomia é moderada",
"Sim, tenho planos claros e realistas, e tomo
decisões de forma autônoma",
"Sim, tenho planos muito claros e realistas, e
sou totalmente autônomo(a) em minhas decisões"),
participacao_democratica = c("Nunca ou quase nunca (não voto, desconheço
direitos/deveres, apático(a))",
"Raramente (voto ocasionalmente,
conhecimento básico, pouco interesse)",
"Ocasionalmente (voto, busco conhecer, algum
interesse)",
"Frequentemente (voto regularmente, conheço
direitos/deveres, participo de debates)",
"Muito frequentemente (voto sempre,
engajado(a) em questões cívicas)"),
estabilidade_emocional = c("Muito instável (sintomas graves, crises
frequentes, recusa tratamento)",
"Instável (estresse intenso, ansiedade
frequente, tratamento irregular)",
"Razoável (estresse moderado, ansiedade
ocasional, tratamento inicial)",
"Estável (bom bem-estar, sem sintomas graves,
tratamento eficaz)",
"Muito estável (excelente bem-estar, sem
sintomas, tratamento contínuo)"),
dependencia_substancias = c("Uso contínuo de substâncias ou recusas a
tratamento",
"Recaídas frequentes ou adesão intermitente a
tratamento",
"Abstinência entre 3 e 12 meses ou uso
ocasional sem recaída grave",
"Abstinência total por mais de 12 meses ou
adesão plena a tratamento",
"Abstinência total por mais de 24 meses e
vida livre de substâncias"),
acesso_saude = c("Dificuldade de acesso ou recusa a serviços/
tratamentos",
"Acesso difícil e adesão irregular a tratamentos",
"Acesso moderado e adesão parcial a tratamentos",
"Acesso fácil e adesão regular a tratamentos",
"Acesso muito fácil e adesão plena e contínua a
tratamentos"),
cumprimento_condicoes = c("Não, descumpro gravemente as condições ou
cometo múltiplas infrações",
"Parcialmente, cometo algumas infrações menores
ou descumpro pontualmente",
140
"Na maioria das vezes, mas com algumas falhas
pontuais",
"Sim, cumpro integralmente e evito a maioria
das infrações",
"Sim, cumpro integralmente e evito todas as
infrações"),
sentido_proposito = c("Não, sinto desesperança e não tenho projeto de
futuro",
"Tenho pouco propósito e meu projeto de futuro é
frágil e incerto",
"Meu propósito está em construção e meu projeto de
futuro está em desenvolvimento",
"Sim, tenho propósito e um projeto de futuro
estruturado",
"Sim, tenho um propósito muito claro e um projeto
de futuro bem definido")
)
# Converter respostas textuais para escala numérica ordinal
dados_numericos7.5 Proposta de Agenda Futura ...............................................................................................123
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................................125
APÊNDICES ..........................................................................................................................130
APÊNDICE A – QUESTIONÁRIO SITUACIONAL APLICADO AOS EGRESSOS ........131
18
APÊNDICE B – Roteiro de Entrevista Semiestruturada Aplicada aos Egressos do Sistema
Prisional do DF .......................................................................................................................136
APÊNDICE C – SCRIPT DE PREPARAÇÃO E LIMPEZA DOS DADOS .........................138
APÊNDICE D – SCRIPT DE ANÁLISE CONFIGURACIONAL (fsQCA) .........................145
APÊNDICE E – SCRIPT DE ANÁLISE DE SUBGRUPOS ................................................149
19
CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO
1.1 Contextualização do Problema Público
O Brasil vive, nas últimas décadas, um processo de encarceramento em massa que
resultou em uma das maiores populações prisionais do mundo (FÓRUM BRASILEIRO DE
SEGURANÇA PÚBLICA, 2024). Este fenômeno, impulsionado por políticas de "guerra às
drogas" e por uma cultura de populismo penal que favorece respostas punitivas em detrimento
de políticas preventivas (ZAFFARONI, 2007; PEREIRA, 2025), gerou um sistema carcerário
superlotado, violento e incapaz de cumprir as funções ressocializadoras que a lei lhe atribui
(BITENCOURT, 2007). Nesse contexto, a transição da prisão para a liberdade torna-se um
momento de extrema vulnerabilidade, marcado por altas taxas de reincidência criminal que
evidenciam o fracasso do sistema em promover a reintegração social (CARRILLO et al.,
2022).
O problema público central que esta dissertação aborda é a fragilidade estrutural das
políticas de reintegração social no Brasil. A ausência de um acompanhamento sistemático e
intersetorial no período pós-egresso deixa os indivíduos à própria sorte, enfrentando um
mercado de trabalho que os estigmatiza, redes sociais e familiares frequentemente rompidas
pela experiência do cárcere e uma identidade profundamente marcada pela experiência
prisional (JULIÃO, 2016; ADORNO; SALLA, 2007). Nessa esteira, a distância entre o
discurso oficial da "ressocialização" e a prática de desresponsabilização estatal produz um
ciclo vicioso de exclusão e retorno ao crime, com custos sociais, humanos e econômicos
elevados para toda a sociedade.
A proposta da pesquisa é que as dificuldades enfrentadas pelos egressos podem ser
compreendidas a partir de três dimensões interconectadas. Na dimensão estrutural, o acesso a
trabalho digno, moradia e educação é severamente limitado pelo estigma do histórico criminal
e pela falta de oportunidades. Na dimensão social, o rompimento de vínculos familiares e
comunitários e a internalização do estigma geram isolamento e dificultam a reconstrução de
uma identidade social positiva. Na dimensão pessoal, a experiência do cárcere frequentemente
deteriora a saúde mental, a autonomia e a capacidade de agência dos indivíduos, tornando o
desafio de "viver aqui fora" uma tarefa sobre-humana (FARRALL, 2002; 2022).
Sob uma perspectiva teórica crítica, inspirada em autores como Michel Foucault e na
Criminologia Crítica italiana e latino-americana, o sistema penal não é visto como um aparato
1
neutro que falha em seu objetivo de ressocializar, mas como uma tecnologia de poder que
opera de forma seletiva para gerenciar populações consideradas "indesejáveis" (FOUCAULT,
1998; 2022). Nessa ótica, o suposto "fracasso" da prisão em promover reintegração é, na
verdade, um resultado esperado de um sistema cuja função histórica tem sido mais a de
controle e neutralização do que a de inclusão (BARATTA, 2004; ZAFFARONI, 2001). É a
partir desse diagnóstico crítico, mas também da identificação de fissuras e possibilidades de
transformação, que esta pesquisa se insere, buscando compreender o que funciona, para quem
e em que condições, no complexo processo de reintegração social.
1.2 Formulação do Problema de Pesquisa
A reintegração social de egressos do sistema prisional vem sendo reconhecida na
literatura especializada como um fenômeno complexo e multidimensional, resultante da
interação entre múltiplas condições, conforme trabalharemos ao longo da dissertação.
Contudo, duas lacunas fundamentais persistem na investigação deste tema no contexto
brasileiro, e particularmente no Distrito Federal.
A primeira é uma lacuna empírica: inexistem estudos sistemáticos sobre o Programa
Ressocializa DF, uma importante política pública de reintegração social do país. Não há
conhecimento consolidado sobre seus resultados, sobre o perfil dos participantes ou,
principalmente, sobre os mecanismos que efetivamente facilitam ou dificultam as trajetórias
de reintegração dos egressos.
A segunda é uma lacuna metodológica: não foram identificadas pesquisas que utilizem
abordagens configuracionais, como a Análise Qualitativa Comparativa (QCA), para
investigação de processos de reintegração social no Brasil. Embora recomendada para o
estudo de fenômenos multicausais e equifinais, a QCA ainda não foi aplicada para
compreender como diferentes combinações de fatores produzem trajetórias de reintegração
social no país, representando uma oportunidade para inovação metodológica no campo da
criminologia brasileira.
Diante dessas lacunas, formula-se o seguinte problema de pesquisa: De que modo
diferentes combinações de fatores estruturais, sociais e pessoais contribuem para a
reintegração social efetiva de egressos do sistema prisional beneficiários do Programa
Ressocializa DF?
2
Esta formulação parte do pressuposto de que a reintegração não resulta de uma única
causa, mas de configurações específicas de condições, e que diferentes combinações podem
levar ao mesmo resultado (equifinalidade). A pesquisa busca, portanto, identificar
empiricamente quais arranjos de fatores são necessários ou suficientes para explicar a
reintegração social no contexto do programa, oferecendo uma contribuição inédita tanto para
a avaliação do Ressocializa DF quanto para o campo das políticas públicas de reintegração
social no Brasil.
1.3 Objetivo Geral
Para responder ao problema de pesquisa formulado, o objetivo geral desta dissertação
é identificar os padrões configuracionais de condições estruturais, sociais e pessoais
associados à reintegração social efetiva de egressos do sistema prisional, utilizando a técnica
fuzzy-set de Análise Qualitativa Comparativa (fsQCA) e aprofundando a compreensão desses
padrões por meio de um estudo de caso qualitativo.
Em outras palavras, a pesquisa não busca o "efeito líquido" de cada variável, mas sim
mapear os "caminhos" que levam à efetividade (ou à falha) do processo de reintegração
social. Para tanto, o uso da fsQCA é particularmente adequado para este fim, pois é um
método desenhado para analisar causalidade complexa em amostras de tamanho pequeno a
médio, identificando quais combinações de condições são necessárias ou suficientes para um
determinado resultado. A triangulação com o estudo de caso qualitativo, por sua vez, permitirá
ir além dos padrões estatísticos, explorando as narrativas, os significados e os mecanismos
causais que operam por trás das configurações identificadas.
1.4 Objetivos Específicos
Para alcançar o objetivo geral, a pesquisa foi decomposta nos seguintes objetivos
específicos:
1. Mapear as dimensões teóricas e empíricas relevantes para a reintegração social,
a partir de uma revisão aprofundada da literatura sobre desistência criminal,
criminologia crítica e políticas penais, de modo a construir um modelo analítico
robusto para a investigação.
2. Desenvolver um instrumento de coleta de dados e calibrar as variáveis em
formato fuzzy, traduzindocross_val, max_val) {
resultado = max_val) {
resultado[i] 0) {
cat("ERRO: Existem valores NA em TEMPO_PROGRAMA.\n")
print(which(is.na(dados_fuzzy$TEMPO_PROGRAMA)))
stop("Corrija a base bruta antes de continuar.")
}
# Criar dataset final para análise QCA
# Estrutura: CASO (identificador) + TEMPO_PROGRAMA (controle) + 3 condições
+ 1 outcome
dados_qca= TRUE)) install.packages("QCA")
library(QCA)
# Carregar dados preparados pela etapa anterior
dados_qca = 0.90 e frequência >= 1
tt_corrigida 0.9, ]
cat("=== CASOS PARA ANÁLISE QUALITATIVA ===\n")
cat("Casos de ALTA REINTEGRAÇÃO (RE_EFETIVA > 0.9):",
nrow(casos_alta_reintegração), "\n")
cat("IDs:", paste(casos_alta_reintegração$CASO, collapse = ", "), "\n\n")
# Casos com configurações favoráveis mas baixa presença do resultado
# Indicam possíveis fatores não capturados ou interações complexas
dados_qca$media_condicoes 0.7 & dados_qca$RE_EFETIVA 0.7 & RE_EFETIVA 0) {
cat("IDs:", paste(casos_config_favoravel_baixo_resultado$CASO, collapse =
", "), "\n")
print(casos_config_favoravel_baixo_resultado[, c("CASO",
"media_condicoes", "RE_EFETIVA")])
} else {
cat("Nenhum caso identificado\n")
}
# Calcular matriz de correlações entre variáveis
# Complementa a análise QCA com perspectiva correlacional
cat("\n=== CORRELAÇÕES ENTRE VARIÁVEIS ===\n")
cor_matrix>= 0.9)
moderada 0.55 & dados_qca$RE_EFETIVA = 0.9):", alta, "casos (", round(alta/
nrow(dados_qca)*100, 1), "%)\n")
cat("Moderada (>0.55 0.75 equivale a aproximadamente 12 meses ou mais
ponto_corte ponto_corte, ]
dados_baixo_tempo 0.75):", nrow(dados_alto_tempo), "casos\n")
cat("Subgrupo BAIXO TEMPO ( 0.75)\n")
cat("===============================================================\n\n")
# Tabela da verdade para PRESENÇA de RE_EFETIVA
cat("--- PRESENÇA DE RE_EFETIVA ---\n")
tabela_alto_pres 0.75):\n")
cat("- Casos:", nrow(dados_alto_tempo), "\n")
cat("- Soluções para presença encontradas:", !is.null(sol_alt_pres),
"\n\n")
cat("SUBGRUPO BAIXO TEMPO (do Problema de Pesquisa
1.3 Objetivo Geral
1.4 Objetivos Específicos
1.5 Justificativa
1.6 Questões de Pesquisa
1.7 Contribuições Esperadas
1.8 Estrutura da Dissertação
CAPÍTULO 2 – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Michel Foucault e a Crítica ao Sistema Punitivo
2.2 A contribuição da Criminologia Crítica
2.3 Desistência Criminal (Desistance)
2.3.1 Os Fundamentos Teóricos da Desistência
2.3.2 Dimensões Subjetivas da Reintegração: Experiencias Empíricas
2.3.3 Dimensões da Reintegração Efetiva
CAPÍTULO 3 – PANORAMA DA POLÍTICA (POLITY) DE REINTEGRAÇÃO SOCIAL
3.1 Estrutura do Sistema Prisional Brasileiro
3.1.1 Estrutura do Sistema Prisional do Distrito Federal
Tabela 1 – Indicadores do Sistema Penitenciário Brasileiro e do Distrito Federal
3.1.2 Perfil e Distribuição das Unidades Prisionais do Distrito Federal
3.2 Revisão de Programas de Reintegração no Distrito Federal
3.3 O Papel da FUNAP – DF
3.4 O Programa Ressocializa DF
3.4.1 Comparativo institucional: Reintegra Cidadão (2003) e Ressocializa-DF (2022)
Quadro 1 – Comparativo entre os Decretos 24.193/2003 e 43.824/2022
3.4.2 Aspectos Normativos Complementares: Remuneração e Direitos Sociais
3.5 Dados de Reincidência
Tabela 2 – Crimes mais frequentes após o primeiro delito
3.5.1 Dinâmica Temporal da Reincidência
Figura 1 – Distribuição temporal da reincidência
Tabela 3 – Taxas de reincidência no DF
Tabela 4 – Reincidência DF - Unidades Penais
3.6 Diagnóstico preliminar
CAPÍTULO 4 – METODOLOGIA
4.1 Desenho da Pesquisa
4.2 Universo, Amostra e Critérios de Inclusão/ Exclusão
4.3 Instrumentos de Coleta de Dados
4.4 Operacionalização das Variáveis
Quadro 2 – Composição das variáveis causais da análise QCA
4.4.1 Construção do Índice RE_ESTRUTURAL
Quadro 3 – Variáveis componentes do fator RE_ESTRUTURAL
4.4.2 Construção do Índice RE_SOCIAL
Quadro 4 – Variáveis componentes do fator RE_SOCIAL
4.4.3 Construção do Índice RE_PESSOAL
Quadro 5 – Variáveis componentes do fator RE_PESSOAL
4.4.4 Validação Interna e Verificação Empírica de Consistência do Modelo
4.4.5 Construção do Outcome RE_EFETIVA
4.5 Preparação e Calibração dos Dados (Script 1)
4.6 Análise QCA (Script 2)
4.7 Análise de Subgrupos (Script 3)
4.8 Limitações Éticas e Metodológicas
4.8.1 Estratégias de Mitigação
4.8.2 Implicações para Interpretação dos Resultados
CAPÍTULO 5 – RESULTADOS DA ANÁLISE fsQCA
5.1 Descrição Inicial da Amostra
Tabela 5 – Classificação da Reintegração Efetiva
Tabela 6 – Classificação de Correlação da Reintegração Efetiva
5.2 Condições Necessárias
Tabela 7 – Condições necessárias para RE_EFETIVA
5.3 Soluções para a Presença da Reintegração Efetiva
Tabela 8 – Caminhos causais para presença de RE_EFETIVA
Tabela 9 – Soluções Complexa, Intermediária e Parcimoniosa
5.4 Soluções para a Ausência da Reintegração
Tabela 10 – Condições isoladas associadas à ausência de reintegração efetiva
5.4.1 Comparação entre Presença e Ausência do Resultado
Tabela 11 – Equifinalidade e assimetria configuracional na reintegração efetiva
5.5 Subanálises por Tempo de Programa
Tabela 12 – Quantidades de casos por subgrupos
5.5.1 Resultados do Subgrupo Alto Tempo
Tabela 13 – Tabela-Verdade (Presença do resultado — Subgrupo Alto Tempo)
5.5.2 Resultados do Subgrupo Baixo Tempo
Tabela 14 – Presença do resultado — Subgrupo Baixo Tempo)
5.5.3 Comparação Visual entre Subgrupos
Figura 2 – Proporção de egressos com alta reintegração (RE_EFETIVA ≥ 0.90)
Figura 3 – Média de Pertencimento ao Conjunto RE_EFETIVA por Tempo no Programa
Figura 4 – Nível Médio de Pertencimento entre as Dimensões Causais
5.6 Discussão Integrativa dos Achados
5.7 Implicações para o Programa Ressocializa DF e para as Políticas Públicas de Reintegração Social
CAPÍTULO 6 – ESTUDO DE CASO COM ENTREVISTAS E ANÁLISE DE CONTEÚDO
6.1 Planejamento e Preparação do Estudo de Caso
6.2 Execução e Registro das Entrevistas
6.3 Procedimentos de Análise de Conteúdo
6.4 Perfil Geral dos Entrevistados
Figura 5 – Distribuição dos entrevistados por faixa etária
Figura 6 – Distribuição dos entrevistados por gênero
Figura 7 – Concentração da baixa escolaridade entre os entrevistados
6.5 Dimensão Estrutural nos Relatos
6.6 Dimensão social nos relatos
6.7 Dimensão Pessoal nos Relatos
6.8 O Paradoxo Estigma e Reconhecimento
Tabela 15 – Relação entre estigma/reconhecimento e efeitos observados
6.9 Percepções sobre o Programa Ressocializa DF
6.10 Casos Exemplares: Trajetórias Contrastantes de Reintegração
6.10.1 Caso 12 — Colapso Estrutural, Isolamento Social e Agência Pessoal Fragilizada
6.10.2 Caso 7 — Agência Pessoal Forte diante do Colapso Institucional e do Estigma
6.10.3 Caso 11 — Trajetória Positiva e Reintegração Consolidada
6.11 Triangulação dos resultados: discussão da fsQCA e do Estudo de Caso
6.11.1 A Dimensão Estrutural Revisitada: Da Presença à Continuidade
6.11.2 A Dimensão Social e o Eixo Crítico Estigma-Reconhecimento
6.11.3 A Dinâmica da Dimensão Pessoal: Agência, Esgotamento e Resiliência
6.12 Equifinalidade e Assimetria à Luz dos Casos
CAPÍTULO 7 – CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES DE POLÍTICA PÚBLICA
7.1 Síntese Geral dos Achados
7.2 Recomendações de Política Pública
7.2.1 Recomendações para as Dimensões Estrutural e Social
7.2.3 Recomendações para a Dimensão Pessoal
7.2.4 Recomendações de Natureza Intersetorial
7.3 Contribuições Acadêmicas
7.4 Limitações da Pesquisa
7.5 Proposta de Agenda Futura
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
APÊNDICES
APÊNDICE A – QUESTIONÁRIO SITUACIONAL APLICADO AOS EGRESSOS
APÊNDICE B – Roteiro de Entrevista Semiestruturada Aplicada aos Egressos do Sistema Prisional do DF
APÊNDICE C – SCRIPT DE PREPARAÇÃO E LIMPEZA DOS DADOS
APÊNDICE D – SCRIPT DE ANÁLISE CONFIGURACIONAL (fsQCA)
APÊNDICE E – SCRIPT DE ANÁLISE DE SUBGRUPOSos conceitos teóricos em medidas empíricas que permitam a
aplicação do método fsQCA. Este passo envolve a criação de critérios claros e
3
fundamentados para atribuir os graus de pertencimento de cada caso às condições
analisadas.
3. Aplicar a Análise Qualitativa Comparativa (fsQCA) para identificar as
configurações de condições que são necessárias e/ou suficientes para a presença (e
ausência) da reintegração social efetiva, revelando os diferentes caminhos que levam
ao resultado de interesse.
4. Analisar a existência de diferenças nos padrões configuracionais entre
subgrupos de egressos, com foco especial no tempo de participação no Programa
Ressocializa DF, explorando como a duração do suporte institucional pode influenciar
as trajetórias de reintegração.
5. Realizar uma triangulação dos resultados do fsQCA com uma análise
qualitativa aprofundada de entrevistas semiestruturadas, com o objetivo de validar,
aprofundar e explicar os padrões quantitativos encontrados, conferindo densidade e
significado às configurações causais.
1.5 Justificativa
A relevância desta pesquisa se manifesta em três dimensões complementares:
científica, social e aplicada.
Do ponto de vista científico, a dissertação oferece uma contribuição metodológica
significativa ao aplicar, de forma inovadora, a Análise Qualitativa Comparativa (fsQCA) para
o estudo da reintegração social no país. Este método, ainda pouco explorado na criminologia
brasileira, é particularmente potente para desvendar a complexidade causal de fenômenos
sociais, superando as limitações de abordagens puramente quantitativas. Além disso, a
pesquisa avança teoricamente ao integrar a perspectiva crítica de Foucault e da Criminologia
Crítica com o referencial da desistência criminal, propondo um modelo analítico que é, ao
mesmo tempo, estruturalmente informado e empiricamente testável.
Na dimensão social, a justificativa é urgente. Em um país com mais de 900 mil
pessoas presas e com taxas de reincidência que superam os 40% (DEPEN, 2024; RELIPEN,
2025), compreender o que funciona (e o que não funciona) nas políticas de reintegração é uma
necessidade premente. Esta pesquisa dá voz a uma população extremamente vulnerabilizada e
estigmatizada, cujas trajetórias são frequentemente invisibilizadas nas estatísticas. Ao
investigar os caminhos que levam à reconstrução de uma vida fora do crime, o estudo busca
4
produzir um conhecimento que possa subsidiar um debate público mais qualificado sobre o
sistema de justiça criminal.
Por fim, a justificativa aplicada reside no potencial da pesquisa de gerar
recomendações embasadas para o aprimoramento de políticas públicas. Os resultados se
destinam a oferecer subsídios para programas de reintegração social, e em particular para o
Programa Ressocializa DF, identificando pontos de estrangulamento e aspectos que têm se
mostrado mais promissores, de modo a orientar a tomada de decisão dos gestores. Dada a
semelhança dos desafios enfrentados em todo o país, espera-se que as conclusões e
recomendações tenham potencial de transferência para outros programas de reintegração,
contribuindo para o desenvolvimento de políticas mais eficazes, efetivas e baseadas em
evidências.
1.6 Questões de Pesquisa
Para guiar a investigação, a pesquisa parte de uma questão central, que se desdobra em
questões secundárias:
Questão Central:
• Quais são as combinações de condições estruturais, sociais e pessoais que se
mostram suficientes para a reintegração social efetiva de egressos do sistema
prisional?
Questões Secundárias:
• Existem condições que se mostram necessárias, ou seja, sem que estejam
presentes o resultado não ocorre?
• Em que medida os fatores que estruturam o processo de reintegração se
relacionam e se compensam entre si?
• Como a análise qualitativa das trajetórias de vida dos egressos pode ajudar a
explicar os mecanismos causais por trás das configurações identificadas pelo método
fsQCA?
• De que maneira o tempo de permanência em um programa de apoio
institucional, como o Ressocializa DF, interage com as diferentes configurações de
reintegração?
5
1.7 Contribuições Esperadas
Espera-se que esta dissertação contribua para o conhecimento e a prática em três áreas
principais.
No campo metodológico, a principal contribuição esperada é a demonstração da
aplicabilidade e da potência do fsQCA como ferramenta para a análise de causalidade
complexa em estudos sobre criminalidade e justiça penal no Brasil. Ao realizar uma
triangulação entre os achados quantitativos do fsQCA e a análise qualitativa de entrevistas, a
pesquisa busca oferecer um exemplo de como a integração de métodos pode gerar um
conhecimento mais robusto e nuançado.
No âmbito teórico, espera-se contribuir para o campo da criminologia e dos estudos
sobre desistência criminal ao propor um modelo analítico que integra a crítica estrutural ao
sistema penal com a análise empírica das condições que possibilitam a reintegração. A
pesquisa busca avançar na conceituação da reintegração como um processo multidimensional
e configuracional, destacando a importância de dimensões frequentemente negligenciadas,
como o eixo estigma-reconhecimento.
Finalmente, no plano prático e aplicado, a contribuição mais importante será a
produção de um conjunto de recomendações de política pública fundamentadas em uma dupla
camada de evidências. Espera-se que essas recomendações possam orientar o aprimoramento
de programas de reintegração, em especial do Ressocializa DF, além de inspirar o desenho de
políticas de reintegração mais eficazes e humanas em outros contextos, contribuindo, em
última instância, para a redução da reincidência criminal e para a construção de uma
sociedade mais segura e justa.
1.8 Estrutura da Dissertação
Esta dissertação está organizada em sete capítulos:
O Capítulo 1, esta introdução, apresenta o problema público e de pesquisa, os
objetivos, a justificativa e a estrutura geral do trabalho.
O Capítulo 2 desenvolve a fundamentação teórica, dialogando com a crítica de
Foucault ao sistema punitivo, com a Criminologia Crítica e com as teorias da desistência
criminal para construir o referencial analítico da pesquisa.
6
O Capítulo 3 detalha a metodologia, explicando o desenho de pesquisa, os
fundamentos da Análise Qualitativa Comparativa (fsQCA), o processo de coleta de dados e os
procedimentos de calibração das variáveis.
O Capítulo 4 contextualiza o campo empírico, apresentando o Programa Ressocializa
DF e o cenário institucional no qual ele se insere.
O Capítulo 5 apresenta e analisa os resultados da análise configuracional realizada
com o fsQCA, identificando as condições necessárias e as combinações de condições
suficientes para a reintegração social efetiva.
O Capítulo 6 aprofunda a análise por meio do estudo de caso qualitativo, culminando
na seção de triangulação dos resultados, que integra os achados quantitativos e qualitativos.
Por fim, o Capítulo 7 apresenta as conclusões gerais da pesquisa, as recomendações de
política pública, as contribuições do estudo, suas limitações e uma agenda para futuras
pesquisas.
7
CAPÍTULO 2 – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Michel Foucault e a Crítica ao Sistema Punitivo
A contribuição de Michel Foucault para a compreensão histórica e política do sistema
punitivo moderno constitui o referencial teórico central adotado neste trabalho de pesquisa,
constituindo ponto de partida para uma análise crítica da prisão, da punição e, em especial
para fins deste trabalho, das políticas contemporâneas de reintegração social. Em Vigiar e
Punir, originalmente publicado em 1975, Foucault demonstra que a transformação do modelo
punitivo — da violência física e do suplício público para a pena de privação de liberdade —
não representou um avanço humanitário linear e contínuo, como frequentemente narrado pela
história jurídicatradicional, mas correspondeu a uma reorganização estratégica das técnicas
de poder e dos mecanismos de controle social. Quanto às atuais “alternativas" ao
aprisionamento, na prática apenas significam que o controle desviou-se do corpo para
alcançar também a alma do apenado (FOUCAULT, 1998).
Historicamente, a prisão consolidou-se como instrumento privilegiado de punição
dentro de sociedades industriais, sustentada por uma lógica quantitativa que atrela a duração
da pena à gravidade do crime (FOUCAULT, 1998). Entretanto, essa mudança não eliminou a
violência penal, apenas deslocou seu campo de atuação. Para o autor, a passagem do suplício
para o encarceramento inaugurou um regime disciplinar que, ao invés de agir sobre o corpo
mediante dor pública e espetáculo, atua sobre a subjetividade, buscando produzir indivíduos
obedientes e úteis.
Nesse processo desenvolve-se aquilo que podemos denominar de uma nova
"tecnologia do poder", sustentada por dispositivos institucionais capazes de vigiar, examinar,
classificar e corrigir comportamentos dentro de uma lógica de eficiência e racionalidade
(FOUCAULT, 1998). Assim, a prisão não emerge como resposta técnica ao crime, mas como
peça central de um sistema de controle político das populações, ajustado às demandas
econômicas e sociais da modernidade capitalista. Conforme afirma Foucault, os sistemas
punitivos devem ser compreendidos em uma abordagem de !economia política do corpo”
(FOUCAULT, 1998).
Para Foucault, a prisão não fracassa em seus objetivos: ela cumpre precisamente a
função para a qual foi historicamente concebida. Desde o século XIX, denúncias já revelavam
que a expansão do encarceramento não reduz a criminalidade, podendo até ampliá-la, o que
8
demonstra que o suposto fracasso da instituição é, na verdade, um elemento constitutivo de
seu próprio modo de funcionamento (FOUCAULT, 1998, p. 292; FOUCAULT, 2022, p. 16).
Nesse sentido, Foucault argumenta que o sistema penal produz a delinquência, não apenas ao
estigmatizar o indivíduo condenado e submetê-lo a processos de desinserção social, mas ao
constituir um tipo específico e politicamente administrável de ilegalidade, funcional às
estratégias de controle social e manutenção da ordem (FOUCAULT, 1998, p. 304). Em termos
mais recentes, o autor reforça que a prisão deve ser compreendida como !um ninho
permanente de intensos ilegalismos”, destacando sua capacidade de gerar e multiplicar
práticas ilegais necessárias ao seu próprio funcionamento, desde a formação de redes internas
de criminalidade até a produção de trajetórias marcadas pela reincidência e exclusão
(FOUCAULT, 2022, p. 32). Assim, a prisão não apenas falha em ressocializar: ela reproduz,
consolida e torna útil a figura do delinquente, perpetuando uma identidade criminal que tende
a acompanhar o sujeito ao longo da vida e a reforçar os ciclos estruturais de marginalização e
punição.
Por meio de suas engrenagens, a prisão opera como elemento articulador de um amplo
sistema carcerário, composto por discursos jurídicos, saberes científicos, mecanismos de
vigilância e dispositivos disciplinares, um arranjo complexo no qual o suposto fracasso
constitui parte fundamental do funcionamento (FOUCAULT, 1998, p. 298). A persistência
histórica da prisão explica-se mais pela utilidade política e econômica de seus efeitos sociais
do que por sua eficácia penal (FOUCAULT, 1998, p. 308).
A crítica foucaultiana demonstra que a prisão está inserida em processos ampliados de
normalização e vigilância, operando como dispositivo estratégico de controle social que
sustenta a produção e o gerenciamento da delinquência (FOUCAULT, 1998, p. 332),
consolidando o indivíduo disciplinar como objeto e instrumento de relações de poder
(FOUCAULT, 1998, p. 334). Ao revelar esse caráter produtivo da punição moderna, Foucault
questiona radicalmente o discurso de regeneração moral e ressocialização, expondo sua
incompatibilidade estrutural com os objetivos declarados do encarceramento.
Nesse sentido, o referencial foucaultiano é fundamental para a presente pesquisa, pois
permite compreender historicamente o contexto político-institucional no qual emergem
programas de reintegração social, como o Programa Ressocializa-DF, analisado neste estudo.
Ao articular essa perspectiva com o campo da Criminologia Crítica — a ser desenvolvida na
9
seção seguinte (2.2) — torna-se possível avançar no debate sobre os limites e as
possibilidades das políticas públicas de reintegração e sobre as condições necessárias para
processos efetivos de reintegração social, rompendo com a racionalidade disciplinar que
estrutura o encarceramento vigente.
2.2 A contribuição da Criminologia Crítica
A Criminologia Crítica surge, a partir da segunda metade do século XX, como reação
ao modelo criminológico tradicional de matriz positivista, que buscava explicar o crime
prioritariamente a partir de características individuais do infrator – biológicas, psicológicas ou
morais – e legitimar a intervenção penal como instrumento neutro de defesa social. Em
oposição a essa perspectiva, a criminologia crítica desloca o foco analítico do !autor do fato”
para o sistema penal e para as estruturas sociais que o sustentam, enfatizando a seletividade da
punição, a criminalização da pobreza e o papel político do encarceramento na reprodução de
desigualdades. Nesse movimento teórico e político, a contribuição seminal de Alessandro
Baratta assume centralidade ao demonstrar que o sistema penal não atua como mecanismo de
proteção coletiva, mas como tecnologia de controle social que recai de forma desproporcional
sobre grupos vulnerabilizados, operando como instrumento de manutenção da ordem social e
de reprodução das hierarquias econômicas e raciais (BARATTA, 2004, p. 3–4). Para Baratta,
a função ressocializadora da pena constitui um mito legitimador, destinado a conferir
aparência de racionalidade e justiça a um sistema estruturalmente seletivo e desigual, já que !a
prisão não pode produzir resultados úteis para a ressocialização do sentenciado e, ao
contrário, impõe condições negativas a esse objetivo” (BARATTA, 2004, p. 6–7), sustentando
uma estrutura alienada que opera simbolicamente como justificativa institucional
(BARATTA, 2004, p. 7).
Autores como Alessandro Baratta, Eugenio Raúl Zaffaroni e Elionaldo Julião
desempenham papel fundamental na consolidação e desenvolvimento da Criminologia
Crítica. Em perspectiva convergente, esses autores sustentam que o crime não constitui uma
realidade natural ou ontologicamente dada, mas um construto jurídico-político, produzido por
processos historicamente situados de criminalização primária, referentes à definição
normativa das condutas proibidas, e criminalização secundária, associada à seletividade
operada pelo sistema penal na identificação de quem será efetivamente punido (BARATTA,
2004). Dessa perspectiva, o sistema penal deixa de ser compreendido como aparato técnico-
10
neutro de proteção social e passa a ser analisado como mecanismo de poder, estruturado e
condicionado por relações de classe, raça e território, cuja função central consiste na
administração desigual da marginalidade (ZAFFARONI, 2001). No contexto brasileiro, essa
leitura crítica encontra ressonância empírica nas pesquisas de Julião (2009; 2020), que
demonstram como as políticas prisionais e de !ressocialização” reproduzem mecanismos de
exclusão social e seletividade punitiva, evidenciando a distância entre o discurso e a prática
institucionais.
Nesse sentido, Baratta enfatiza que o direito penal desempenha função política
fundamental como mecanismo de regulação social dos grupos vulnerabilizados, tornando-se
instrumento de controle social formalizado. Para o autor, !a prisão não protege bens jurídicos
nem produz igualdade, mas administra conflitos sociais segundo linhas de poder”
(BARATTA, 2004, p. 3–4). O sistemapenal, portanto, não falha: funciona exatamente como
foi historicamente desenhado, isto é, para controlar e neutralizar populações consideradas
excedentes. O autor acrescenta que a seletividade penal opera como eixo estrutural e não
como disfunção administrativa; por isso, não se trata de corrigir imperfeições, mas de
reconhecer o papel central do encarceramento como técnica de gestão política da pobreza
(BARATTA, 2004, p. 5–6). O encarceramento em massa torna-se compreensível quando se
observa o seu alinhamento às políticas de segregação social e à administração de
desigualdades estruturais.
Na América Latina, Zaffaroni aprofunda essa reflexão ao analisar o exercício do poder
punitivo em sociedades marcadas por autoritarismo, desigualdades extremas e fragilidade
institucional. Em sua perspectiva, o sistema penal atua como !gestor de resíduos humanos”,
operando por meio de uma técnica de seleção violenta que naturaliza a exclusão e confere
aparência de legalidade a práticas discriminatórias (ZAFFARONI, 2001). Tal compreensão
revela que a prisão e as políticas penais não constituem instrumentos neutros de defesa social,
mas dispositivos estruturados de administração de populações consideradas excedentes, cuja
existência é tratada como problema de ordem pública (ZAFFARONI, 2007).
Essa leitura estrutural do sistema penal é decisiva para compreender a posição da
criminologia crítica frente ao discurso da ressocialização. Em oposição à narrativa oficial que
atribui à pena a função de recuperar e reintegrar o condenado, autores dessa vertente
argumentam que essa função opera, em grande medida, como mito legitimador. No caso
11
brasileiro, Bitencourt (2007) formula de modo contundente a tese do !mito da função
ressocializadora da pena”, apontando que a promessa de ressocialização cumpre
principalmente o papel de justificar a manutenção da prisão, apesar de seu comprovado
fracasso histórico em promover mudanças positivas na trajetória dos condenados.
Essa crítica atinge diretamente o cerne de políticas penais que se apresentam sob o
rótulo de !ressocialização”. Como destaca Bitencourt (2007), pesquisas empíricas
reiteradamente evidenciam que a prisão, em vez de gerar condições favoráveis à reintegração,
rompe vínculos comunitários, reforça estigmas, deteriora capacidades laborais e agrava
vulnerabilidades já existentes. Nessa perspectiva, a prisão é menos um espaço de reconstrução
de projetos de vida e mais um ambiente de produção de delinquência, em linha com a leitura
foucaultiana discutida na seção 2.1.
Autores como Baratta (2004) propõem substituir o termo !ressocialização” –
carregado de conotações disciplinadoras e de pressupostos positivistas – pelo conceito de
reintegração social, que remete à participação ativa do indivíduo. A reintegração, nessa
perspectiva, não é algo que o sistema penal promove no indivíduo, mas um processo que
depende também da transformação das condições sociais que antecedem e sucedem o
encarceramento: acesso a trabalho digno, educação, moradia, saúde, suporte familiar e
comunitário, reconhecimento e participação cidadã.
No contexto brasileiro, essa discussão ganha relevância particular diante da
precariedade estrutural do sistema penitenciário. Trabalhos como os de Adorno e Salla (2007)
também apontam que, embora o discurso da ressocialização seja reiterado nos documentos
oficiais e no vocabulário institucional, as práticas efetivas são marcadas por superlotação,
violação de direitos, ausência de políticas sistemáticas de escolarização e trabalho e
praticamente inexistente acompanhamento pós-egresso. A reinserção social, quando ocorre,
tende a depender muito mais dos recursos individuais do egresso e de redes informais de
apoio do que de políticas estatais estruturadas.
Nessa mesma linha, as pesquisas de Julião (2009; 2020) sobre estudo e trabalho
prisional revelam um quadro ambivalente: por um lado, surgem iniciativas pontuais com
potencial de ampliação de horizontes e construção de novas sociabilidades; por outro, tais
iniciativas são frequentemente fragmentadas, descontinuadas e descoladas de uma política
mais ampla de reintegração, esbarrando em entraves institucionais, burocráticos e financeiros.
12
A criminologia crítica contribui, nesse ponto, ao mostrar que a fragilidade dessas ações não é
acidental, mas está diretamente relacionada à lógica estrutural do sistema penal e às
prioridades políticas que o sustentam.
A discussão sobre reincidência também é objeto de releitura crítica nesse campo. A
partir de Julião (2009; 2020), pode-se distinguir entre diferentes conceitos – reincidência
genérica, legal, penitenciária e criminal – o que evidencia que até mesmo os indicadores
usualmente adotados para avaliar a !eficácia” do sistema penal são construções
convencionadas, dependentes de critérios jurídicos e institucionais passíveis de
instrumentalização. Para a criminologia crítica, a reincidência é menos um !fracasso
individual” e mais a expressão de um fracasso institucional e social em garantir condições
mínimas de vida digna após o cumprimento da pena.
Por outro lado, a literatura sobre intervenções penais baseadas em evidências, como a
sistematizada por Cullen e Gendreau (2000), indica que é possível avaliar empiricamente
programas e políticas, desde que se evite uma leitura tecnocrática que ignore o contexto
estrutural. Isso significa dizer que a criminologia crítica não se opõe à avaliação de resultados,
mas insiste que tais avaliações precisam ser interpretadas à luz da seletividade penal, das
desigualdades sociais e das contradições do sistema punitivo. Em outras palavras, não basta
saber se um programa de reintegração, por exemplo, "#$%& a reincidência ou não; antes
porém, é preciso perguntar para quem, em que condições, e a que custo social.
Nesse quadro, o referencial da criminologia crítica oferece à presente pesquisa um
marco analítico fundamental. Ele permite problematizar o lugar do Programa Ressocializa DF
no interior de um sistema penal historicamente seletivo e pouco comprometido com a garantia
de direitos, evitando leituras ingênuas ou meramente normativas sobre a sua capacidade de
promover reintegração social. Ao mesmo tempo, esse referencial permite abrir espaço para
identificar potenciais lacunas institucionais e possibilidades transformadoras, especialmente
quando programas de trabalho e qualificação profissional se articulam com políticas mais
amplas de inclusão social.
Por fim, a criminologia crítica fornece ainda a base para a articulação com o campo da
desistência criminal (desistance), que será tratado no item seguinte. Ao enfatizar os
condicionantes estruturais da exclusão e da punição, esse paradigma convida a integrar, em
uma mesma análise, tanto os processos subjetivos de abandono da carreira criminal quanto as
13
condições objetivas de reintegração efetiva, compreendendo a saída do crime não como mera
decisão individual, mas como processo relacional e complexo que envolve oportunidades,
reconhecimento e o enfraquecimento das barreiras impostas pelo sistema penal e pela
sociedade.
2.3 Desistência Criminal (Desistance)
O conceito de desistência criminal (desistance) ocupa posição importante nos estudos
contemporâneos sobre reintegração social de pessoas egressas do sistema prisional.
Diferentemente das abordagens tradicionais que analisam a criminalidade a partir de modelos
etiológicos centrados em fatores individuais de risco ou na eficácia punitiva do
encarceramento, a literatura da desistance oferece uma perspectiva processual e longitudinal
destinada a compreender como e por que indivíduos abandonam trajetórias delitivas ao longo
do tempo. Tal enfoque, como veremos a seguir, desloca a atenção da punição estatal para as
dinâmicas relacionais, biográficas e estruturais que influenciam a transição para uma vida
socialmente integrada, aproximando-se,portanto, das preocupações normativas e empíricas da
criminologia crítica.
2.3.1 Os Fundamentos Teóricos da Desistência
Um dos autores mais influentes na consolidação do campo da desistência criminal é
Shadd Maruna. Em sua obra seminal Making Good: How Ex-Convicts Reform and Rebuild
Their Lives (2001), o autor distingue dois níveis fundamentais de abandono da criminalidade:
a desistência primária, vinculada à interrupção comportamental da prática delitiva, e a
desistência secundária, relacionada à reconfiguração identitária e simbólica, mediante a qual o
indivíduo passa a se perceber e a ser reconhecido socialmente como ator produtivo, confiável
e moralmente responsável (MARUNA, 2001, p. 65-70; p. 125-127). Para Maruna, a mudança
não se limita à cessação objetiva dos delitos, mas depende de uma reconstrução narrativa da
trajetória de vida e da projeção de um futuro possível. Assim, narrativas biográficas coerentes
e projetos de vida com sentido social desempenham papel essencial na sustentação do
processo de reintegração, evidenciando que a desistência é simultaneamente uma
transformação subjetiva e relacional, e não apenas um fenômeno comportamental isolado.
Essa compreensão articula-se diretamente aos estudos longitudinais conduzidos por
Robert Sampson e John Laub, que acompanharam trajetórias criminais de jovens delinquentes
ao longo de mais de quatro décadas, até os 70 anos de idade. No estudo Life-Course
14
Desisters? Trajectories of Crime Among Delinquent Boys Followed to Age 70 (2003), os
autores demonstram empiricamente que a desistência criminal constitui um fenômeno
esperado ao longo do curso de vida, ocorrendo inclusive entre indivíduos com histórico
persistente de envolvimento infracional. Segundo afirmam, o crime declina com a idade
mesmo entre ofensores ativos (SAMPSON; LAUB, 2003, p. 319). Essa constatação reforça de
maneira contundente que a mudança é possível e estatisticamente frequente, contrariando
concepções deterministas que classificam determinados sujeitos como irrecuperáveis ou
estruturalmente incapazes de transformação.
Outra contribuição central de Sampson e Laub diz respeito ao papel limitado dos
fatores de risco da infância como mecanismo de previsão determinista das trajetórias
criminais posteriores. Os autores evidenciam que, embora indicadores adversos iniciais
possam predizer níveis médios de envolvimento criminal, eles não permitem identificar de
forma prospectiva grupos distintos e estáveis de ofensores persistentes. Como afirmam, os
prognósticos formulados na infância não produzem agrupamentos distintos válidos
prospectivamente (SAMPSON; LAUB, 2003, p. 321). Essa evidência possui implicações
diretas para as políticas públicas e para a crítica criminológica: ao rejeitar abordagens
exclusivamente baseadas na etiquetagem (teoria dos rótulos), orienta-se para a necessidade de
políticas permanentes de reintegração social e acompanhamento pós-prisional.
Os autores também demonstram que a desistência não ocorre como evento súbito,
definitivo ou linear, mas constitui processo gradual, reversível e dependente da qualidade dos
vínculos sociais. (SAMPSON; LAUB, 2003, p. 325). Essa perspectiva converge com Maruna
(2001) ao atribuir centralidade a elementos relacionais — trabalho estável, vínculos
familiares, participação comunitária, rotinas estruturadas e redes de apoio — como condições
materiais e simbólicas indispensáveis.
Além disso, Sampson e Laub alertam para os riscos analíticos e políticos de
transformar tipologias explicativas em classificações essencialistas, como nas categorias de
!infrator persistente ao longo da vida” ou !superpredador”. Os autores enfatizam que há um
perigo real em confundir a metáfora com o fenômeno, advertindo que a cristalização desses
rótulos pode transformar modelos teóricos em instrumentos de estigmatização e exclusão
social (SAMPSON; LAUB, 2003, p. 327). Tal crítica possui relevância imediata para a
formulação de políticas de reintegração social, pois evidencia que tratar egressos como !casos
15
perdidos” resulta em deslegitimação institucional, reforço da exclusão social e aumento da
reincidência secundária.
Finalmente, Sampson e Laub destacam que os processos de desistência dependem
fortemente da existência de oportunidades institucionais, tais como emprego, qualificação
profissional, suporte psicossocial e reconhecimento — elementos essenciais para a
reconstrução identitária e para a construção de um projeto de cidadania (SAMPSON; LAUB,
2003, p. 330-332). Nesse sentido, observa-se convergência direta com o conceito de
reintegração efetiva adotado nesta dissertação, cuja mensuração envolve dimensões subjetivas
(identidade e reconhecimento), relacionais (vínculos), estruturais (trabalho e renda) e
institucionais (continuidade e ampliação de políticas).
2.3.2 Dimensões Subjetivas da Reintegração: Experiencias Empíricas
Complementando a abordagem processual da desistência criminal, Farrall (2022)
desenvolve uma argumentação aprofundada sobre a necessidade de compreender o abandono
da atividade criminosa como resultado da interação complexa entre fatores estruturais, sociais
e individuais. Segundo o autor, a desistência deve ser analisada como processo gradual,
condicionado simultaneamente por transformações internas, relativas à motivação pessoal
(agency) e à capacidade de redefinir expectativas e projetos de futuro, e por transformações
externas, vinculadas ao contexto social habilitador (structure), em suma, às oportunidades
materiais e simbólicas que possibilitam a reconstrução da trajetória individual (FARRALL,
2022, p. 16–17).
Ao problematizar a insuficiência das abordagens tradicionais baseadas exclusivamente
em registros administrativos e índices de reincidência, Farrall (2022) enfatiza que grande
parte da pesquisa criminológica negligencia variáveis subjetivas e relacionais, apesar do !forte
vínculo entre determinadas formas de envolvimento criminal e circunstâncias sociais e
pessoais específicas”, amplamente documentado pela literatura (JOHNSON, 1979;
TARLING, 1993; ADAMS, 1997; FARRINGTON, 1997, apud FARRALL, 2022, p. 16–18).
Para Farrall, entender a desistência exige investigar não apenas comportamentos criminais,
mas os contextos sociais e biográficos que estruturam oportunidades e constrangimentos,
como relações familiares, inserção no mercado de trabalho, redes de apoio, moradia e saúde
mental.
16
Nesse sentido, o autor defende que os processos de desistência exigem
reconhecimento social, acolhimento comunitário e superação do estigma penal, pois tais
dimensões são frequentemente anuladas pela lógica punitiva e moralizante que permeia o
sistema penal e suas práticas institucionais (FARRALL, 2022, p. 18–19). Para ele, a
estigmatização produzida pelo encarceramento e pela rotulação institucional (!offender
identity”) compromete a possibilidade de reconstrução identitária e restringe o acesso a
posições sociais legítimas, reforçando ciclos de exclusão e retornando o indivíduo ao sistema
de justiça criminal.
Em seu balanço metodológico, Farrall (2022, p. 27) reforça que o estudo de processos
de desistência exige metodologias qualitativas e longitudinais, pois apenas elas permitem
compreender a complexidade dinâmica das interações entre supervisão penal e trajetória
pessoal. Ele critica estudos baseados apenas em fontes oficiais e dados quantitativos,
observando que tais abordagens reduzem experiências humanas a !eventos estatísticos”,
ignorando nuances decisivas para explicar persistência ou mudança criminal. Assim, defende
que pesquisas sobre desistência devem ser capazes de registrar deslocamentos subjetivos
percebidos pelos próprios indivíduos, e não apenas por meio de resultados institucionais.
Na mesma direção, McNeill (2006; 2014) desenvolve uma abordagem normativa e
dialógica segundo a qual a reintegração só pode serconsiderada efetiva quando possibilita ao
egresso o exercício pleno da cidadania substantiva, incluindo pertencimento social,
participação comunitária e acesso a direitos civis, sociais e políticos. Nesse sentido, a
desistência não se resume à ausência de reincidência, mas envolve processos de reconstrução
identitária, autonomia moral e recomposição de vínculos comunitários, constituindo transição
profunda de papéis sociais e expectativas normativas. McNeill propõe que práticas
institucionais de reintegração devem substituir a lógica corretiva e disciplinar pela lógica do
cuidado, do reconhecimento e da reconstrução dialógica da subjetividade, deslocando o foco
da punição para a responsabilidade compartilhada entre indivíduo, instituições e sociedade.
Estudos internacionais, como os de Uggen et al. (2006), demonstram empiricamente
que o acesso ao trabalho formal atua como fator decisivo para redução da reincidência,
sobretudo entre adultos. O emprego reforçaria vínculos pró-sociais, além de construir a
sensação de utilidade, competência e pertencimento, que são condições indispensáveis para a
continuidade da desistência. Nesse sentido, políticas públicas de reintegração que incorporam
17
qualificação profissional, acompanhamento psicossocial e suporte pós-egresso se mostrariam
mais eficazes do que intervenções centradas exclusivamente na disciplina carcerária.
No contexto brasileiro, pesquisas como as de Adorno e Salla (2007) e Julião (2009;
2020) evidenciam que a fragilidade dos programas institucionais de reinserção, marcados por
descontinuidade de políticas, ausência de acompanhamento pós-prisional e estigma social,
constitui obstáculo significativo à desistência, tornando visível a articulação entre exclusão
estrutural e retorno ao encarceramento. Tais estudos mostram que o retorno ao
encarceramento é frequentemente resultado de exclusão estrutural e falhas institucionais, e
não de uma suposta predisposição individual diante da criminalidade. Essa abordagem
também corrobora a perspectiva de que a reincidência deva ser compreendida menos como
fracasso moral do sujeito e mais como expressão da incapacidade do Estado e da sociedade de
garantirem oportunidades efetivas de reconstrução de vida.
2.3.3 Dimensões da Reintegração Efetiva
Considerando toda a base teórica anteriormente exposta como também os achados
empíricos de campo, este trabalho adota o conceito de reintegração social efetiva, entendido
aqui como fenômeno multidimensional que combina:
1. Dimensão estrutural — acesso a trabalho digno, moradia, educação e políticas
públicas;
2. Dimensão social — reconstrução de laços familiares e comunitários, e apoio
em redes sociais;
3. Dimensão pessoal — reconstrução identitária e superação do estigma social.
Esse modelo conceitual orienta o desenho metodológico da presente pesquisa,
constituindo a referência para construção das variáveis utilizadas na análise fsQCA e para a
interpretação dos resultados qualitativos.
Ao integrar a literatura da desistência criminal ao marco da criminologia crítica, esta
pesquisa busca compreender a reintegração social como processo complexo e politicamente
situado, que abrange não apenas mudanças individuais, mas transformações institucionais,
sociais e políticas.
Esse referencial teórico sustenta a análise comparativa qualitativa (fsQCA) que
compõe o núcleo metodológico dessa dissertação, permitindo interpretar os resultados não
18
como indicadores isolados, mas como evidência empírica do caráter configuracional do
processo de reintegração social.
19
CAPÍTULO 3 – PANORAMA DA POLÍTICA (POLITY) DE REINTEGRAÇÃO
SOCIAL
A trajetória das políticas de reintegração social no Brasil é marcada por um processo
histórico e normativo gradual de expansão de direitos no âmbito da execução penal, refletindo
transformações institucionais que reposicionaram a função da pena e do encarceramento na
agenda pública. Do ponto de vista jurídico-político, foi com o advento da Lei de Execução
Penal que a reintegração social deixa de ser concebida como concessão discricionária do
Estado Brasileiro e passa a ser reconhecida como direito subjetivo do apenado e dever estatal
objetivo, fundamentado no princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. Assim, o
panorama nacional de reintegração social inscreve-se no marco de uma política pública
(politics) que articula garantias legais, diretrizes internacionais e programas governamentais
(policies), estruturando um campo normativo complexo e em constante disputa.
A Constituição Federal de 1988 representa o primeiro grande marco estruturante ao
reafirmar, no art. 1º, III, a dignidade da pessoa humana como fundamento da República, e ao
assegurar, no art. 5º, XLIX, o respeito à integridade física e moral das pessoas privadas de
liberdade. Complementarmente, a Constituição estabelece a educação como direito social e
dever do Estado (art. 6º), instrumento de promoção da cidadania (art. 205) e vinculado às
diretrizes da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) e às metas
do Plano Nacional de Educação (Lei nº 13.005/2014), que prevê, em sua Meta 9, Estratégia
9.8, a "oferta de educação de jovens e adultos, nas etapas de ensino fundamental e médio, às
pessoas privadas de liberdade em todos os estabelecimentos penais".
No plano infraconstitucional, o principal dispositivo regulatório da política penal
brasileira é a Lei de Execução Penal – LEP (Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984), que,
embora anterior à Carta Magna de 1988, consolidou normativamente a função
ressocializadora da pena e definiu que a execução penal deve assegurar meios de retorno ao
convívio social (art. 1º). A LEP estabelece um conjunto de garantias e instrumentos
estruturantes da política de reintegração, entre eles: o direito ao trabalho prisional (arts. 28 a
31), a assistência educacional e o acesso à biblioteca (arts. 17 a 21), a assistência social (art.
22), a assistência jurídica (art. 15) e a assistência à saúde (art. 14). A lei de execução também
disciplina o instituto da remição da pena pelo trabalho e estudo (art. 126), instrumento
estratégico de incentivo à participação em atividades laborais e educativas, cujo escopo
20
ressocializador foi posteriormente expandido para incluir a remição pela leitura — o Superior
Tribunal de Justiça (STJ) por ordem do Recurso Especial nº 2121878, julgado em definitivo
apenas em 13/08/2025, para registrar a recenticidade do feito. Vale destacar que há diversos
projetos de lei (PLs), apensados uns aos outros, protocolados na Câmara dos Deputados entre
2014 e 2024, que propõem a alteração do art. 126 da LEP para incluir expressamente a leitura
como atividade de remição de pena, todavia, a paralisia legislativa revela o desinteresse do
Parlamento brasileiro pela temática.
No campo internacional, o Brasil é signatário de relevantes tratados e diretrizes que
orientam a execução penal em perspectiva humanitária. Destacam-se o Pacto Internacional de
Direitos Civis e Políticos (art. 10, ONU, 1966) e a Convenção Americana de Direitos
Humanos – Pacto de San José da Costa Rica (art. 5º, § 2º, OEA, 1969), ambos determinando
que o objetivo essencial da pena é a reforma moral e social do condenado. No mesmo sentido,
as Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Pessoas Presas – Regras de
Nelson Mandela (ONU, 2015), que detalham o direito à educação e a atividades culturais
(Regras 4.2, 104, 105), e as Regras de Bangkok (ONU, 2010), que enfatizam as
especificidades do encarceramento feminino e o princípio da não discriminação, dispõem
sobre diretrizes internacionais para condições carcerárias e políticas de reintegração. Ademais,
instrumentos como os Princípios de Yogyakarta (2007) reforçam a aplicação dos direitos
humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero no contexto prisional, e os
Objetivos