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13 FILOSOFIA, CIÊNCIA E ÉTICA 1. E !iste cert( confusão entre o objeto da Filosofia e o objeto das Ciências que estudam a Natureza. Parte dessa confusão está rela- cionada com o caráter “subjetivo” da Filosofia e o caráter “objetivo” da Ciência. Por outro lado, à Filosofia se apresenta um problema epis- temológico fundante de sua essência: ação e reflexão. Sobre todas as Ciências Humanas pode-se dizer que “reflexão sem ação é inócua e que ação sem reflexão é desastrosa”. Nas Ciências da Natureza, as físicas, experimentais, objetivas, a reflexão procura regras, enunciados e modelos paradigmáticos, verdades fixas. A Filosofia não está preo- cupada com a fixidez, mas com a ruptura dos discursos dogmáticos. O homem tem um projeto existencial bipolar digital (1-0). Concatena trabalho – materialmente necessário à produção de sua sobrevivência e reflexão sobre esse labor – reflexão consciente sobre essa produção de sua sobrevivência. Junto, dialeticamente, por oposi- ções e negações (a cada problema resolvido, novo problema a resolver; a cada novo problema resolvido, novo nível de consciência, vale dizer, uma nova discussão filosófica e ética do Ser com a realidade e consigo mesmo), ao produzir materialmente os bens necessários à manutenção de sua vida, pensa sobre as formas como o faz, sobre seu relacionamento ÉTICA JURÍDICA | José Manuel de Sacadura Rocha 14 ELSEVIER com o meio do qual se apropria para produzir – a natureza; provavel- mente, pensa em seguida sobre as relações que estabelece com seus semelhantes nesse modo de produção, os outros homens; só depois, talvez, terá ânimo para pensar sobre si mesmo. Só faz sentido pensar sobre mim (o sentido da vida) quando já entendi de alguma forma o meu ambiente, sendo que nele existem os meus semelhantes. É neste sentido que se pode pensar na Filosofia como a ciência ora da “verdade” ora do “sentido”. A primeira necessidade (ainda) é suprir a existência material, mas concomitantemente o Outro aparece ao Ser como condição de: (1) produzir essa necessidade material de sobrevivência pelo trabalho coo- perativo; e (2) produzir a consciência de mim mesmo a partir desse “espelho” de mim, ao mesmo tempo esse “limite” de mim, o Outro. Passa pelo Outro a possibilidade dessa construção da sobrevivência material e da construção do próprio Ser reflexivo, a um só tempo: a produção da existência humana é o resultado imaginativo dessa sim- biose que cria a mim e ao Outro, como seres únicos, porém, referen- ciados na luta material pela sobrevivência, com valores e regras de convívio comunitário. Finalmente o homem se propõe a pensar sobre o Universo na tentativa de ultrapassar “cosmologicamente” os limites de sua existência terrena. Já de antemão, como produto desta relação com esta natureza terrena e este outro homem; daí todas as limitações do Ser entender além das condições concretas que o formam, isto é, de ter uma visão fenomenológica de si e cosmológica além de si. No entanto, qualquer pretensa sequência só se dá quando inserida em um contexto filosófico, quer dizer, sobre a relação entre o pensa- mento e a vida como ela é, ou em outras palavras, sobre a direção que o Ser pensante dá à relação entre seu pensar e sua existência concreta. Qualquer sequência se insere numa determinada direção que, efetiva- mente, não pode ser cientificamente aceita como única, verdadeira, ou mesmo melhor; objetivamente, não há como “sublimar” a ideia de que o interesse em compreender, elaborar o saber (pensar) específico sobre mim, se apresente como preocupação posterior à compreensão (saber) sobre a natureza, mesmo que seja irrefutável a necessidade material de 1. | Filosofia, Ciência e Ética 15 compreender essa natureza para poder dominá-la (e explorá-la) como forma primeira de manter-se. À direção que parte da relação com o meio para a problematização do homem, dá-se o nome de Materialismo, porque tem origem nos homens, como eles fazem para produzir os bens necessários à sua existência. À direção contrária dá-se o nome de Idealismo: aqui se parte do homem pensante para se chegar ao homem produtivo e às formas como produz sua vida concretamente. Portanto, o Idealismo tem, no início e em essência, uma pretensão de apregoar um homem já preo- cupado com sua existência cosmológica e universal. Se pensarmos estas duas atitudes como concomitantes, inexoráveis e ontológicas ao homem, temos uma terceira alternativa: a Dialética. De certa forma, toda a história da Filosofia e das ciências humanas em geral, transita entre estas três formas de pensar o saber: Materialismo, Idealismo e Dialética. Uma ética profícua deve ser metodologicamente dialética. A Filosofia é a ciência do conhecimento que busca a verdade e o sentido das coisas, dos fenômenos, dos seres e dos homens. Seu objeto de estudo é o saber, o questionar, indagar e criticar o próprio conhe- cimento, as verdades e os sentidos. Para a Filosofia interessa estudar as origens e a formação do pensamento humano, ou a forma determi- nada histórica como os homens produzem o conhecimento sobre a natureza, sobre os outros homens, o Eu e o Universo, suas origens, formações e relações entre estas unidades. Seja qual for a direção e qual for o privilégio que se der a uma destas unidades, o fato filosófico e científico mais irrefutável é que o saber humano e o seu questiona- mento permanente se dá pela mente reflexiva, matéria pouco ou nada concreta e objetiva porque sua própria essência é a derivação de pres- supostos e o questionamento dos resultados, isto é, a permanente renovação do conhecimento a partir dele mesmo, e, neste sentido, subjetiva por sua natureza.1A Filosofia tem uma responsabilidade, 1. Filosoficamente, uma das dimensões do Ser é a absoluta capacidade de abstrair a realidade e criar e recriar ao nível da mente o que seja o fato extracorpóreo e o fato de si mesmo, ou em outras palavras, a imaginação imagina o real e a si mesmo como Ser, criando o Ser-Para-Si. (Por exemplo, Sartre em Verdade e Existência, 1990; Castoriadis ÉTICA JURÍDICA | José Manuel de Sacadura Rocha 16 ELSEVIER a de dialogar criticamente com os modelos discursivos e explicativos perenes e anteriores. Já a Ciência procura o modelo e a explicação objetiva. Por isso estabelece paradigmas à custa da comprovação a mais empírica possí- vel, dando-se à refutação a premissa de sua veracidade, mas preten- dendo ser a verdade, pelo menos até que a experimentação e experiên- cia posteriores não construam outra verdade. A ciência busca a verdade. E assim é objetiva. A Filosofia procura a verdade por detrás da verdade, ou seja, as origens mentais daquela verdade, como ela foi construída, quais seus limites e quais as possibilidades de modificar essa forma de dizer o que é a verdade, ou como ela poderia ser produzida a par- tir de uma abordagem diferenciada do conhecimento para se chegar a outro conhecimento. Um caleidoscópio incessante e inexorável de pos- sibilidades para produzir o saber a partir de abordagens diversas desse saber, em sua formação histórica e social, no grupo, pelo grupo e no devir. Por isto o pensar e o saber são subjetivos. No entanto, Ciência e Filosofia têm algo em comum: por mais que a Filosofia esteja comprometida inicialmente com uma gnosiologia iconoclasta, por mais que a Ciência esteja comprometida com o empi- rismo, de forma subjetiva ou objetiva, o que a mente humana quer saber é a verdade e o sentido dessa verdade. Mais propriamente a procura incessante pelo conhecimento se dá na luta contra a “crença”; a reflexão é o ato criador no limite do paradigma.2 Ora, a verdade encontra barreiras nas cercanias de nossas limita- ções como seres pensantes.3 De uma forma ou de outra e enquanto for em A Instituição Imaginária da Sociedade, 1982). 2. “Isso já sugere o que o nosso exame da rejeição de um paradigma revelará de uma maneira mais clara e completa: uma teoria científica, após ter atingido o status de paradigma, somenteé considerada inválida quando existe uma alternativa disponível para substituí-la”. Thomas Kuhn (1922-1996), A Estrutura das Revoluções Científicas, p. 108; ou “O conhecimento, (...) começa quando se engaja um processo de interrogação e de pesquisa que coloca em questão as crenças da tribo, criando uma brecha no nicho metafísico que a comunidade constitui para si. Esta brecha decerto se apoia, necessa- riamente, na crença (...)”. Cornelius Castoriadis (1922-1997), Feito e a ser Feito – As Encruzilhadas do Labirinto V, 1999, p. 140. 3. Em oposição ao cogito de Descartes onde a ciência pode metodologicamente chegar 1. | Filosofia, Ciência e Ética 17 produzida a partir da mente humana, a grande indagação é se a com- preensão humana será capaz e pode almejar um saber verdadeiro e derradeiro do universo de fenômenos que nos cerca, terrenos e extra- terrenos. Para se ter alguma opinião sobre esta questão sempre nos deparamos com várias e difíceis outras questões, entre elas: o Universo foi feito para ser entendido pela mente humana, ou a mente humana é que faz e refaz o Universo? Eu sou realmente dono do meu destino ou sigo inconscientemente o caminho traçado, mesmo quando para mim as ações de meu viver se apresentam de forma planejada? Posso mudar os caminhos? Posso mudar os destinos? Escolher e mudar são a mesma coisa? A existência humana somos Nós ou existe realmente um Eu? Tudo é um sistema? A verdade universal é possível? Existe acaso? Existe a verdade? Ela está além do ser humano? Ela está além do Universo? O que é Deus? Afinal qual o sentido da existência? Sem dúvida que, apesar de todas as limitações humanas e além delas, podemos e temos mesmo a obrigação de fazer estas perguntas – quanto mais não seja porque somos dotados de capacidade para fazê-las – e renegar indolentemente essas questões talvez seja a pior das faltas que poderíamos cometer, pois seja qual for a origem dessa capa- cidade, não usá-la seria negar-se como Ser e... negar talvez até a nossa origem! Assim, o que a Filosofia faz, como sempre o fez e sempre o fará, é manter a chama viva que estabelece irremediável e grandiosa- mente a epopeia da razão humana. O saber não é uma opção dos homens, é a sua sina e seu êxtase. Êxtase, claro, desde que o agir seja determinado pelo bem, pelo bem- comum. De tal forma, pode-se afirmar que a formação psíquica do conhecimento é fundamentada em um sistema de ética, ou se se quiser, a partir de valores tão primários que fornecem ao Ser um substrato primordial a partir do qual é possível estabelecer uma orientação de comportamentos e condutas com noção de certo e errado, bem e mal etc. A Moral é esse conjunto de valores. A ética são os comportamentos à verdade absoluta sobre as coisas, Kant afirmava que a verdade absoluta e universal era incognoscível, pois o conhecimento não é a realidade, mas a reflexão sobre ela. ÉTICA JURÍDICA | José Manuel de Sacadura Rocha 18 ELSEVIER orientados pela Moral. Mas, esses comportamentos éticos também como que realimentam, reforçando ou enfraquecendo a Moral e suas máximas. O conhecimento remete, pois, de um lado, ao estudo dessas máxi- mas, desses “tabus” supravalorativos, que permanecem essencialmente orientadores do Ser e da convivência; mas, por outro lado, a reflexão abre a possibilidade de tais “tabus” serem rediscutidos nas brechas que se formam no espírito humano a partir de sua existência concreta. Este sistema de valores, com suas máximas, muda no espaço e no tempo e obriga o Ser a refletir sobre elas a cada fato social, todavia de forma que as condutas não ultrapassem os limites de certa noção de comportamento desejável e decente. Esses limites, muitas vezes inadmissíveis e questionáveis, derivam, contudo, do simples fato de que este pensar, este conhecimento, esta reflexão, esta filosofia é sem- pre social, pressupõe sempre fundamentalmente o semelhante, o Outro, o espelho que é o Outro. Infelizmente, a “tranquilidade” é ansiosamente esperada pelos homens. A mentalidade do homem contemporâneo, pós-industrial, se dirige para uma noção de vida e de regulação jurídica que tende a suprimir a condição humana. E, fantasmagoricamente, entre o mito e a alienação outorgada, esse homem acredita ser de “Direito” aquilo que lhe é de “direito”: prefere se submeter a ter que assumir as respon- sabilidades que de direito lhe são ontológicas. Assumir essas respon- sabilidades é transformar os direitos fundamentais em deveres ineren- tes; e ao mesmo tempo, destarte o peso da responsabilidade, é a condição eidética de ser humano. Eis que ao fugir do “dever do Ser”, foge inconteste de si mesmo: o Ser se brutaliza. Os “insensíveis” assim o desejam e para isso lutam diuturnamente, sob as beneficies do Estado de controle. A condição da existência do poder é a capacidade de reinventar o sujeito, sujeitá-lo, deixá-lo sem autonomia e sem liberdade. E o sistema jurídico acompanha essa transmutação: mostra-se muito a serviço dessa sujeição do homem, impondo muitas vezes uma legali- dade que não visa à liberdade e à educação para a escolha, o que invalida a opção pela ética. 1. | Filosofia, Ciência e Ética 19 Deve-se perguntar: conheci- mento e saber, tecnologia e ciência, feito por quem e para quem? A própria epistemologia tradicional das ciências, inclusive as ciências sociais, precisa urgentemente ser revista para que os próprios pro- dutores do conhecimento pos- sam reformular as estratégias de produção do saber e as formas como esse conhecimento é passado adiante de forma concreta. Produ- zir conhecimento também é uma questão ética. Uma Hermenêutica pós-moderna4 na produção do saber tecnocientífico é tão vital hoje para a possibilidade de uma vida livre e verdadeiramente demo- crática, quanto vital é a aplicação dessa hermenêutica do conheci- mento quando aplicada às ativi- dades cotidianas da administra- ção e funcionamento das organi- zações sociais públicas e privadas. Nesta hermenêutica o resgate de valores morais é vital para que em nome da eficiência e desenvolvi- 4. Como em Boaventura de Sousa Santos (1940), Introdução a uma Ciência Pós- moderna, 1989. Hermenêutica é a ciência que se dedica à interpretação do sentido das coisas e das palavras. PARADIGMA 1: Quando sentamos em uma cadeira não afundamos em seu assento. Você sabe por quê? Pode ser que você saiba, mas garanto que a maioria das pessoas não sabe responder. No entanto, todos nós sentamos na cadeira sem afun- darmos nela e sem cair. Isto acontece porque os átomos de nosso corpo coin- cidem – se chocam – em sua maioria com os átomos do assento da cadeira. O que concluímos? Duas coisas: 1. Não precisa- mos saber sempre, a todo o momento, as respostas científicas para as leis que regu- lam nossos atos e nossa vida; 2. Que somos capazes, por termos nosso cérebro trabalhando em silêncio por nós, de viver sem saber a verdade, sem consciência de todos os nossos atos e valores, sejam eles do tipo prático ou moral. Muitas vezes, o que chamamos de “senso-comum” é sufi- ciente para vivermos. PROBLEMA: Considere o seguinte experi- mento: fechamos dentro de uma caixa ampla um gato com um prato de leite com veneno. Pergunta-se: depois de um certo tempo, digamos 30 minutos, qual a proba- bilidade do gato estar vivo? Pense e res- ponda em termos de %. Com este exercício espero que você perceba as limitações do pensamento científico para dar conta de todas as situações e fatos. A resposta a este exercício deve fazer você pensar sobre o papel e importância da Filosofia. EXERCÍCIO: Imagine que a Terra parasse de girar por 30 segundos, consequente- mente a gravidade que nos “prende” ao globo e que nos puxa para “baixo”, deixa- ria de existir. Tudo, inclusive nós, humanos, flutuaríamos no espaço. Reflita especula- tivamente, considerando as consequências desta situação para a Ciência, Filosofia e Moral, e coloque suas impressões em uma folha com trinta linhas sem parágrafo. LER: A obra “O PequenoPríncipe” de Antoine de Saint-Exupéri. VER: Filme “O Óleo de Lorenzo” (1992) do diretor George Miller ÉTICA JURÍDICA | José Manuel de Sacadura Rocha 20 ELSEVIER mento econômico não se mascare a mentira e o oportunismo, a sujei- tar a todos sobre a aparência ideológica do mais racionalmente desen- volvido. Também no Direito, essa hermenêutica deve ser capaz de resgatar a essência dos valores éticos como forma de cumprir seu papel de justiça. Máximas morais existem para orientar comportamentos huma- nos enquanto coletividade. Circunstâncias e contextos levam os homens a comportamentos não desejáveis e antiéticos. Valores morais mudam de nação para nação, de povo para povo, estão embebidos por fatores culturais históricos, religiosos ou determinados pelas possibilidades naturais da reprodução da sobrevivência (geopolíticos, riquezas natu- rais). Os valores mudam e os comportamentos se relativizam, mas a qualquer tempo, ainda existirá uma concepção do que seja o certo e o errado, o desejável e o indesejável para o conjunto de seres submetidos à vida coletiva. O Direito precisa interpretar esse dinamismo e ao mesmo tempo esse senso-comum mais abrangente. Sócrates (469-399 a.C.) iniciava, há mais de 2500 anos, a luta que refutava nos Sofistas a capacidade de relativizar os valores morais e as leis, na medida em que, ainda que se aceite que cada lugar cria e recria permanentemente seus regulamentos, e o faz de acordo com suas expe- riências históricas e ambientais mais abrangentes, ainda assim a lei deve perseguir ideais que precisam estar acima do relativismo genérico. Certos comportamentos, como o assassinato, o estupro, o roubo, a tortura, a violência contra progenitores, a ofensa, calúnia e difamação gratuitas, entre outros, sempre foram rejeitados pelas sociedades huma- nas como atitudes amorais. Provavelmente os grupos humanos, quando optam pela convivên- cia como estratégia de vida, não o fazem por altruísmo ou dever com o Outro, mas pelo simples fato de precisarem se solidarizar uns com os outros como estratégia de sobrevivência e melhoria de sua existência. Mas ainda que se considere o fato de que não o façam solidariamente, não muda a necessária construção de um conjunto de valores e máxi- mas morais comuns a todos, nem tampouco as noções mais primordiais de justiça, equidistância, responsabilidade, limites aos direitos de uns 1. | Filosofia, Ciência e Ética 21 e outros. Máximas como “Não fazer ao outro o que não gostaria que fizessem comigo” ou “A liberdade de um termina quando começa a liberdade do outro”, não são orientações religiosas ou políticas, nem são mandamentos jurídicos, mas constatações morais provenientes da necessária convivência com o próximo. De todas as formas elas são úteis, e tomam de imediato a forma de valores. A Modernidade valoriza a Ciência experimental, objetiva e instru- mental. Tal valorização se afirma a partir da revolução científica, do desenvolvimento do conhecimento e da industrialização produtiva. Pelo menos desde o século XVII a vida está alicerçada e envolvida em conquistas materiais usando o conhecimento como instrumento, o que determinou para os homens uma perspectiva e compreensão da exis- tência e de si mesmo quase que absolutamente tecnocientífica e tecno- crata. De um lado as ciências aplicadas a partir da experimentação laboratorial, de outro a racionalização em grandes sistemas de gestão e produção. Neste contexto, no industrialismo e no consumismo, nenhum conhecimento ou ciência pode, a não ser por “enorme esforço”, reivindicar um dinamismo onde prevaleçam máximas morais, o com- portamento ético, a valorização do bem-comum, a construção da cidadania pela responsabilidade da vida coletiva. O Direito, como exemplo, não foge à regra e nos últimos duzentos anos as premissas valorativas e essencialmente a dinâmica processual, se converteram em práticas de resultado. Essas medições de eficácia matemática estão condizentes com as características tecnocratas e administrativas das grandes corporações, mas perdem em eficiência quanto ao julgar com equidade e justiça, porquanto inibe a livre com- posição do contraditório e a autonomia decisória. Por seu turno, a Filosofia, destarte a voz dissonante de alguns, acabou também por se instrumentalizar de princípios que pouco ou nada remetem ao fundamental nela, o caráter crítico da existên- cia humana. Durante séculos a Filosofia procurou a verdade: na Antiguidade, na Idade Média, no Renascimento, até que nos demos conta que possivelmente a verdade não é passível de ser alcançada pela razão humana. Então, em meados do século XVII mudou-se o foco, ÉTICA JURÍDICA | José Manuel de Sacadura Rocha 22 ELSEVIER e a Filosofia, desde o Iluminismo, procura se exercitar sobre o sentido da existência, principalmente o sentido da vida para o homem. Esta mudança epistemológica tem consequências desastrosas para a moti- vação crítica da Filosofia. Quando uma ciência procura a verdade ela, necessariamente, pre- cisa ser crítica, pois a busca da certeza sobre as coisas e os fenômenos só é logicamente alcançável através da ruptura do paradigma anterior, pelo questionamento, pela refutação e proposição de nova verdade. Contudo, quando uma ciência se propõe, não a indagar sobre as “cau- sas”, mas tão somente sobre o “destino”, a ansiedade criativa se esvai porquanto o objetivo deixa de ser a intervenção sobre a realidade para ser muito mais a busca da tranquilidade existencial. Neste caso a verve revolucionária tende a dar lugar à apatia conservadora. A partir do século XVII a humanidade conquista finalmente a primazia do conhecimento sobre as leis da natureza e propõe-se a viver com base na manipulação técnica da ciência aplicada à produção. Seria de esperar que a produção do conhecimento permanecesse crítica, pois o mundo da ciência obriga o conhecimento à dimensão das causas e efeitos e à produção de novas formas de viver material e espiritual. Mas não foi o que aconteceu. A Filosofia passou a buscar o sentido e não a verdade, provocando um corte importante em sua postura e metodologia, a saber, que esta passou a perguntar qual o sentido das coisas, abandonando o diálogo mais crítico com as “verdades” dos conhecimentos ditos científicos. Então as ciências naturais, chamadas de exatas, podem ater-se ao seu mecanicismo sem obstáculos críticos e éticos por parte de outros conhecimentos. Aquele papel agnóstico e iconoclasta da Filosofia está fortemente anestesiado pela extrema difi- culdade em explicar o sentido das coisas, dos fenômenos e da vida, abandonando o questionamento sobre as causas e determinações. Causas e determinações não existem apenas no mundo físico, mas a partir do Iluminismo, o industrialismo e consumismo conseguem sepa- rar as responsabilidades sobre a produção do conhecimento humano, de forma que se possa, sem grandes enfrentamentos e contestações, produzir o mundo das coisas, dos materiais e das mercadorias. 1. | Filosofia, Ciência e Ética 23 Ludwig Wittgenstein (1889-1951) opôs Relativismo a Racionalismo, aprofundando e antecipando as teses sobre os “processos comunicati- vos” inerentes à realidade das sociedades da informação pós-industriais, as que se desenvolveram após a Segunda Grande Guerra. Ele via no Relativismo a necessidade de negociação ou acordo entre as partes. Em oposição, o Racionalismo caracteriza-se em termos de regras próprias e fixas na busca da verdade, o que, obviamente, faz parte do paradigma científico da Modernidade. Daí que os homens estão mais perto do conflito do que da paz, posto que o que impera entre nós, modernos e pós-modernos, é a frieza da verdade científica, regra fixa por princípio, em detrimento da capacidade de diálogo e acordo, o que pressupõe várias verdades tão incontestes e possíveis umas como as outras. Na verdade, em termos políticos e jurídicos o que sobressai aqui é a procura pela hegemonia do saber, da verdade, do domínio, através da primaziada racionalidade, sobre o outro, por parte de uma pessoa ou Estado. É isto que Wittgenstein estava analisando. Sem dúvida que uma das grandes dificuldades encontradas pela Filosofia ocidental nos últimos trezentos anos, que tem ligação forte com a apatia com que ela se mostra interessada hoje, é o fato de ter sido oportunamente impregnada pelo extremo racionalismo. Mas é preciso fazer uma distinção: existe uma “razão instrumental” em detri- mento da “razão especulativa”. Aquele racionalismo de que nos fala Wittgenstein não é um ente único, devendo ser dividido em Racionalismo Instrumental e Racionalismo Especulativo. O que o autor austríaco ressalta como típico da Modernidade é, claramente, o Instrumental. E esse está, certamente, na base dos males e da condição antiética e beligerante atuais. Mas a Filosofia pode, ao contrário da ciência instrumental, usar a razão do tipo especulativa, voltando às suas antigas origens e tradi- ções. Pela razão especulativa chega-se possivelmente a várias verdades – Topoi, como Aristóteles (384-322 a.C.) as chamou – e, consequente- mente, ao resultado de verdades relativas, o que inventa a predisposição de ouvir o Outro e obriga ao esforço de produzir a harmonia pela dialética – oposição de tese e antítese. E aqui se estaria diante então ÉTICA JURÍDICA | José Manuel de Sacadura Rocha 24 ELSEVIER do relativismo comunicativo e negociativo que Wittgenstein propunha no lugar das verdades absolutas. A Filosofia usando a racionalidade especulativa pode e deve fazer a crítica às verdades únicas, ou mais propriamente, às verdades ins- trumentais tecnocientíficas. Mas, em nome disso, não pode abandonar a razão especulativa com pena de sucumbir ao relativismo que se alimenta da complexidade do sentido das coisas. Nisto, então, ela se opõe à Ciência dogmática, não no fato de abandonar a procura da “verdade”, desde que não seja a “verdade única”. Provavelmente a próxima revolução filosófica está fadada a unir sentido e verdade, da mesma forma que há a necessidade de unir liberdade e legalidade (ou, poder-se-ia dizer, liberdade e igualdade). No mundo atual “a legalidade priva, muitas vezes, a liberdade” (Roudinesco).5 Entre outras razões, porque a legalidade está para a verdade da razão instrumental enquanto a liberdade, para o sentido das verdades especulativas. A ética baseia-se em valores morais que, se de um lado são relati- vamente perenes, por outro se modificam conforme os costumes e as determinações históricas da vida de um povo. As máximas morais andam, contudo, mais lentamente que as nuances práticas da ética em cada situação concreta. De tal forma, a ética parece ser sempre mais relativa que a moral. E o é. Mas esse relativismo ainda precisa de um certo racionalismo, não o racionalismo instrumental, mas a razão capaz de criticar a moral não apenas do ponto de vista das necessidades econômicas e produtivas e avanços tecnológicos, mas do ponto de vista da decência, respeito e dignidade humanas. O Racionalismo não pode prescindir destes valores, e se o do tipo instrumental exige mais forte- mente o Relativismo de tudo, não é por preocupações antidogmáticas, mas principalmente porque o capital é o motivador da vida. O dilema do Direito é o dilema da Filosofia de hoje: até que ponto a ética pode ser relativa? O problema da ética que se coloca para o Direito é que a verdade é relativa, ou seja, que a verdade em um caso 5. Elisabeth Roudinesco (1944), filósofa francesa contemporânea, autora de livros como A família em Desordem, A Parte Obscura de Nós Mesmos e Retorno à Questão Judaica. 1. | Filosofia, Ciência e Ética 25 não é a verdade para outro, que o ético para um indivíduo pode ser o antiético para outro, e que a variabilidade é natural diante de situações e contextos diversos. Não podendo a Filosofia do Direito negar tais premissas, contudo, ao procurar o sentido dos fatos jurídicos em ver- dades possíveis e contraditórias, a razão especulativa não pode relati- vizar ad infinitum a lide e a razão de justiça e equidade. Nem tampouco ater-se ao dogmatismo autoritário das verdades únicas. Em outras palavras, a possibilidade de uma filosofia crítica do processo jurídico leva a verdades e sentidos éticos diversos, mas não pode cair na arma- dilha de relativizar infinitamente a decisão justa, porque, em última instância, essa apologia da negociação e do acordo na lide tende a beneficiar o poder em detrimento do justo ético coletivo.