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FILOSOFIA, CIÊNCIA 
E ÉTICA
1.
E !iste cert( confusão entre o objeto da Filosofia e o objeto das 
Ciências que estudam a Natureza. Parte dessa confusão está rela-
cionada com o caráter “subjetivo” da Filosofia e o caráter “objetivo” 
da Ciência. Por outro lado, à Filosofia se apresenta um problema epis-
temológico fundante de sua essência: ação e reflexão. Sobre todas as 
Ciências Humanas pode-se dizer que “reflexão sem ação é inócua e 
que ação sem reflexão é desastrosa”. Nas Ciências da Natureza, as 
físicas, experimentais, objetivas, a reflexão procura regras, enunciados 
e modelos paradigmáticos, verdades fixas. A Filosofia não está preo-
cupada com a fixidez, mas com a ruptura dos discursos dogmáticos. 
O homem tem um projeto existencial bipolar digital (1-0). 
Concatena trabalho – materialmente necessário à produção de sua 
sobrevivência e reflexão sobre esse labor – reflexão consciente sobre 
essa produção de sua sobrevivência. Junto, dialeticamente, por oposi-
ções e negações (a cada problema resolvido, novo problema a resolver; 
a cada novo problema resolvido, novo nível de consciência, vale dizer, 
uma nova discussão filosófica e ética do Ser com a realidade e consigo 
mesmo), ao produzir materialmente os bens necessários à manutenção 
de sua vida, pensa sobre as formas como o faz, sobre seu relacionamento 
ÉTICA JURÍDICA | José Manuel de Sacadura Rocha
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com o meio do qual se apropria para produzir – a natureza; provavel-
mente, pensa em seguida sobre as relações que estabelece com seus 
semelhantes nesse modo de produção, os outros homens; só depois, 
talvez, terá ânimo para pensar sobre si mesmo. Só faz sentido pensar 
sobre mim (o sentido da vida) quando já entendi de alguma forma o 
meu ambiente, sendo que nele existem os meus semelhantes. É neste 
sentido que se pode pensar na Filosofia como a ciência ora da “verdade” 
ora do “sentido”.
A primeira necessidade (ainda) é suprir a existência material, mas 
concomitantemente o Outro aparece ao Ser como condição de: (1) 
produzir essa necessidade material de sobrevivência pelo trabalho coo-
perativo; e (2) produzir a consciência de mim mesmo a partir desse 
“espelho” de mim, ao mesmo tempo esse “limite” de mim, o Outro. 
Passa pelo Outro a possibilidade dessa construção da sobrevivência 
material e da construção do próprio Ser reflexivo, a um só tempo: a 
produção da existência humana é o resultado imaginativo dessa sim-
biose que cria a mim e ao Outro, como seres únicos, porém, referen-
ciados na luta material pela sobrevivência, com valores e regras de 
convívio comunitário. Finalmente o homem se propõe a pensar sobre 
o Universo na tentativa de ultrapassar “cosmologicamente” os limites 
de sua existência terrena. Já de antemão, como produto desta relação 
com esta natureza terrena e este outro homem; daí todas as limitações 
do Ser entender além das condições concretas que o formam, isto é, de 
ter uma visão fenomenológica de si e cosmológica além de si.
No entanto, qualquer pretensa sequência só se dá quando inserida 
em um contexto filosófico, quer dizer, sobre a relação entre o pensa-
mento e a vida como ela é, ou em outras palavras, sobre a direção que 
o Ser pensante dá à relação entre seu pensar e sua existência concreta. 
Qualquer sequência se insere numa determinada direção que, efetiva-
mente, não pode ser cientificamente aceita como única, verdadeira, ou 
mesmo melhor; objetivamente, não há como “sublimar” a ideia de que 
o interesse em compreender, elaborar o saber (pensar) específico sobre 
mim, se apresente como preocupação posterior à compreensão (saber) 
sobre a natureza, mesmo que seja irrefutável a necessidade material de 
1. | Filosofia, Ciência e Ética
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compreender essa natureza para poder dominá-la (e explorá-la) como 
forma primeira de manter-se. 
À direção que parte da relação com o meio para a problematização 
do homem, dá-se o nome de Materialismo, porque tem origem nos 
homens, como eles fazem para produzir os bens necessários à sua 
existência. À direção contrária dá-se o nome de Idealismo: aqui se parte 
do homem pensante para se chegar ao homem produtivo e às formas 
como produz sua vida concretamente. Portanto, o Idealismo tem, no 
início e em essência, uma pretensão de apregoar um homem já preo-
cupado com sua existência cosmológica e universal. Se pensarmos estas 
duas atitudes como concomitantes, inexoráveis e ontológicas ao homem, 
temos uma terceira alternativa: a Dialética. De certa forma, toda a 
história da Filosofia e das ciências humanas em geral, transita entre 
estas três formas de pensar o saber: Materialismo, Idealismo e Dialética. 
Uma ética profícua deve ser metodologicamente dialética.
A Filosofia é a ciência do conhecimento que busca a verdade e o 
sentido das coisas, dos fenômenos, dos seres e dos homens. Seu objeto 
de estudo é o saber, o questionar, indagar e criticar o próprio conhe-
cimento, as verdades e os sentidos. Para a Filosofia interessa estudar 
as origens e a formação do pensamento humano, ou a forma determi-
nada histórica como os homens produzem o conhecimento sobre a 
natureza, sobre os outros homens, o Eu e o Universo, suas origens, 
formações e relações entre estas unidades. Seja qual for a direção e 
qual for o privilégio que se der a uma destas unidades, o fato filosófico 
e científico mais irrefutável é que o saber humano e o seu questiona-
mento permanente se dá pela mente reflexiva, matéria pouco ou nada 
concreta e objetiva porque sua própria essência é a derivação de pres-
supostos e o questionamento dos resultados, isto é, a permanente 
renovação do conhecimento a partir dele mesmo, e, neste sentido, 
subjetiva por sua natureza.1A Filosofia tem uma responsabilidade,
1. Filosoficamente, uma das dimensões do Ser é a absoluta capacidade de abstrair a 
realidade e criar e recriar ao nível da mente o que seja o fato extracorpóreo e o fato de 
si mesmo, ou em outras palavras, a imaginação imagina o real e a si mesmo como Ser, 
criando o Ser-Para-Si. (Por exemplo, Sartre em Verdade e Existência, 1990; Castoriadis 
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a de dialogar criticamente com os modelos discursivos e explicativos 
perenes e anteriores.
Já a Ciência procura o modelo e a explicação objetiva. Por isso 
estabelece paradigmas à custa da comprovação a mais empírica possí-
vel, dando-se à refutação a premissa de sua veracidade, mas preten-
dendo ser a verdade, pelo menos até que a experimentação e experiên-
cia posteriores não construam outra verdade. A ciência busca a verdade. 
E assim é objetiva. A Filosofia procura a verdade por detrás da verdade, 
ou seja, as origens mentais daquela verdade, como ela foi construída, 
quais seus limites e quais as possibilidades de modificar essa forma 
de dizer o que é a verdade, ou como ela poderia ser produzida a par-
tir de uma abordagem diferenciada do conhecimento para se chegar a 
outro conhecimento. Um caleidoscópio incessante e inexorável de pos-
sibilidades para produzir o saber a partir de abordagens diversas desse 
saber, em sua formação histórica e social, no grupo, pelo grupo e no 
devir. Por isto o pensar e o saber são subjetivos. 
No entanto, Ciência e Filosofia têm algo em comum: por mais que 
a Filosofia esteja comprometida inicialmente com uma gnosiologia 
iconoclasta, por mais que a Ciência esteja comprometida com o empi-
rismo, de forma subjetiva ou objetiva, o que a mente humana quer 
saber é a verdade e o sentido dessa verdade. Mais propriamente a 
procura incessante pelo conhecimento se dá na luta contra a “crença”; 
a reflexão é o ato criador no limite do paradigma.2
Ora, a verdade encontra barreiras nas cercanias de nossas limita-
ções como seres pensantes.3 De uma forma ou de outra e enquanto for 
em A Instituição Imaginária da Sociedade, 1982).
2. “Isso já sugere o que o nosso exame da rejeição de um paradigma revelará de uma 
maneira mais clara e completa: uma teoria científica, após ter atingido o status de 
paradigma, somenteé considerada inválida quando existe uma alternativa disponível 
para substituí-la”. Thomas Kuhn (1922-1996), A Estrutura das Revoluções Científicas, 
p. 108; ou “O conhecimento, (...) começa quando se engaja um processo de interrogação 
e de pesquisa que coloca em questão as crenças da tribo, criando uma brecha no nicho 
metafísico que a comunidade constitui para si. Esta brecha decerto se apoia, necessa-
riamente, na crença (...)”. Cornelius Castoriadis (1922-1997), Feito e a ser Feito – As 
Encruzilhadas do Labirinto V, 1999, p. 140.
3. Em oposição ao cogito de Descartes onde a ciência pode metodologicamente chegar 
1. | Filosofia, Ciência e Ética
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produzida a partir da mente humana, a grande indagação é se a com-
preensão humana será capaz e pode almejar um saber verdadeiro e 
derradeiro do universo de fenômenos que nos cerca, terrenos e extra-
terrenos. Para se ter alguma opinião sobre esta questão sempre nos 
deparamos com várias e difíceis outras questões, entre elas: o Universo 
foi feito para ser entendido pela mente humana, ou a mente humana é 
que faz e refaz o Universo? Eu sou realmente dono do meu destino ou 
sigo inconscientemente o caminho traçado, mesmo quando para mim 
as ações de meu viver se apresentam de forma planejada? Posso mudar 
os caminhos? Posso mudar os destinos? Escolher e mudar são a mesma 
coisa? A existência humana somos Nós ou existe realmente um Eu? 
Tudo é um sistema? A verdade universal é possível? Existe acaso? Existe 
a verdade? Ela está além do ser humano? Ela está além do Universo? 
O que é Deus? Afinal qual o sentido da existência?
Sem dúvida que, apesar de todas as limitações humanas e além 
delas, podemos e temos mesmo a obrigação de fazer estas perguntas 
– quanto mais não seja porque somos dotados de capacidade para 
fazê-las – e renegar indolentemente essas questões talvez seja a pior das 
faltas que poderíamos cometer, pois seja qual for a origem dessa capa-
cidade, não usá-la seria negar-se como Ser e... negar talvez até a nossa 
origem! Assim, o que a Filosofia faz, como sempre o fez e sempre o 
fará, é manter a chama viva que estabelece irremediável e grandiosa-
mente a epopeia da razão humana.
O saber não é uma opção dos homens, é a sua sina e seu êxtase. 
Êxtase, claro, desde que o agir seja determinado pelo bem, pelo bem-
comum. De tal forma, pode-se afirmar que a formação psíquica do 
conhecimento é fundamentada em um sistema de ética, ou se se quiser, 
a partir de valores tão primários que fornecem ao Ser um substrato 
primordial a partir do qual é possível estabelecer uma orientação de 
comportamentos e condutas com noção de certo e errado, bem e mal 
etc. A Moral é esse conjunto de valores. A ética são os comportamentos 
à verdade absoluta sobre as coisas, Kant afirmava que a verdade absoluta e universal 
era incognoscível, pois o conhecimento não é a realidade, mas a reflexão sobre ela.
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orientados pela Moral. Mas, esses comportamentos éticos também 
como que realimentam, reforçando ou enfraquecendo a Moral e suas 
máximas.
O conhecimento remete, pois, de um lado, ao estudo dessas máxi-
mas, desses “tabus” supravalorativos, que permanecem essencialmente 
orientadores do Ser e da convivência; mas, por outro lado, a reflexão 
abre a possibilidade de tais “tabus” serem rediscutidos nas brechas 
que se formam no espírito humano a partir de sua existência concreta. 
Este sistema de valores, com suas máximas, muda no espaço e no 
tempo e obriga o Ser a refletir sobre elas a cada fato social, todavia 
de forma que as condutas não ultrapassem os limites de certa noção 
de comportamento desejável e decente. Esses limites, muitas vezes 
inadmissíveis e questionáveis, derivam, contudo, do simples fato de 
que este pensar, este conhecimento, esta reflexão, esta filosofia é sem-
pre social, pressupõe sempre fundamentalmente o semelhante, o Outro, 
o espelho que é o Outro.
Infelizmente, a “tranquilidade” é ansiosamente esperada pelos 
homens. A mentalidade do homem contemporâneo, pós-industrial, se 
dirige para uma noção de vida e de regulação jurídica que tende a 
suprimir a condição humana. E, fantasmagoricamente, entre o mito e 
a alienação outorgada, esse homem acredita ser de “Direito” aquilo 
que lhe é de “direito”: prefere se submeter a ter que assumir as respon-
sabilidades que de direito lhe são ontológicas. Assumir essas respon-
sabilidades é transformar os direitos fundamentais em deveres ineren-
tes; e ao mesmo tempo, destarte o peso da responsabilidade, é a 
condição eidética de ser humano. Eis que ao fugir do “dever do Ser”, 
foge inconteste de si mesmo: o Ser se brutaliza. Os “insensíveis” assim 
o desejam e para isso lutam diuturnamente, sob as beneficies do Estado 
de controle. A condição da existência do poder é a capacidade de 
reinventar o sujeito, sujeitá-lo, deixá-lo sem autonomia e sem liberdade. 
E o sistema jurídico acompanha essa transmutação: mostra-se muito 
a serviço dessa sujeição do homem, impondo muitas vezes uma legali-
dade que não visa à liberdade e à educação para a escolha, o que 
invalida a opção pela ética.
1. | Filosofia, Ciência e Ética
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Deve-se perguntar: conheci-
mento e saber, tecnologia e ciência, 
feito por quem e para quem? A 
própria epistemologia tradicional 
das ciências, inclusive as ciências 
sociais, precisa urgentemente ser 
revista para que os próprios pro-
dutores do conhecimento pos-
sam reformular as estratégias de 
produção do saber e as formas 
como esse conhecimento é passado 
adiante de forma concreta. Produ-
zir conhecimento também é uma 
questão ética. Uma Hermenêutica 
pós-moderna4 na produção do 
saber tecnocientífico é tão vital 
hoje para a possibilidade de uma 
vida livre e verdadeiramente demo-
crática, quanto vital é a aplicação 
dessa hermenêutica do conheci-
mento quando aplicada às ativi-
dades cotidianas da administra-
ção e funcionamento das organi-
zações sociais públicas e privadas. 
Nesta hermenêutica o resgate de 
valores morais é vital para que em 
nome da eficiência e desenvolvi-
4. Como em Boaventura de Sousa Santos 
(1940), Introdução a uma Ciência Pós-
moderna, 1989. Hermenêutica é a ciência 
que se dedica à interpretação do sentido 
das coisas e das palavras.
PARADIGMA 1: Quando sentamos em 
uma cadeira não afundamos em seu 
assento. Você sabe por quê? Pode ser que 
você saiba, mas garanto que a maioria das 
pessoas não sabe responder. No entanto, 
todos nós sentamos na cadeira sem afun-
darmos nela e sem cair. Isto acontece 
porque os átomos de nosso corpo coin-
cidem – se chocam – em sua maioria com 
os átomos do assento da cadeira. O que 
concluímos? Duas coisas: 1. Não precisa-
mos saber sempre, a todo o momento, as 
respostas científicas para as leis que regu-
lam nossos atos e nossa vida; 2. Que 
somos capazes, por termos nosso cérebro 
trabalhando em silêncio por nós, de viver 
sem saber a verdade, sem consciência de 
todos os nossos atos e valores, sejam eles 
do tipo prático ou moral. Muitas vezes, o 
que chamamos de “senso-comum” é sufi-
ciente para vivermos.
PROBLEMA: Considere o seguinte experi-
mento: fechamos dentro de uma caixa 
ampla um gato com um prato de leite com 
veneno. Pergunta-se: depois de um certo 
tempo, digamos 30 minutos, qual a proba-
bilidade do gato estar vivo? Pense e res-
ponda em termos de %. Com este exercício 
espero que você perceba as limitações do 
pensamento científico para dar conta de 
todas as situações e fatos. A resposta a 
este exercício deve fazer você pensar sobre 
o papel e importância da Filosofia.
EXERCÍCIO: Imagine que a Terra parasse 
de girar por 30 segundos, consequente-
mente a gravidade que nos “prende” ao 
globo e que nos puxa para “baixo”, deixa-
ria de existir. Tudo, inclusive nós, humanos, 
flutuaríamos no espaço. Reflita especula-
tivamente, considerando as consequências 
desta situação para a Ciência, Filosofia e 
Moral, e coloque suas impressões em uma 
folha com trinta linhas sem parágrafo.
LER: A obra “O PequenoPríncipe” de 
Antoine de Saint-Exupéri.
VER: Filme “O Óleo de Lorenzo” (1992) do 
diretor George Miller
ÉTICA JURÍDICA | José Manuel de Sacadura Rocha
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mento econômico não se mascare a mentira e o oportunismo, a sujei-
tar a todos sobre a aparência ideológica do mais racionalmente desen-
volvido.
Também no Direito, essa hermenêutica deve ser capaz de resgatar 
a essência dos valores éticos como forma de cumprir seu papel de 
justiça. Máximas morais existem para orientar comportamentos huma-
nos enquanto coletividade. Circunstâncias e contextos levam os homens 
a comportamentos não desejáveis e antiéticos. Valores morais mudam 
de nação para nação, de povo para povo, estão embebidos por fatores 
culturais históricos, religiosos ou determinados pelas possibilidades 
naturais da reprodução da sobrevivência (geopolíticos, riquezas natu-
rais). Os valores mudam e os comportamentos se relativizam, mas a 
qualquer tempo, ainda existirá uma concepção do que seja o certo e o 
errado, o desejável e o indesejável para o conjunto de seres submetidos 
à vida coletiva. O Direito precisa interpretar esse dinamismo e ao 
mesmo tempo esse senso-comum mais abrangente.
Sócrates (469-399 a.C.) iniciava, há mais de 2500 anos, a luta que 
refutava nos Sofistas a capacidade de relativizar os valores morais e as 
leis, na medida em que, ainda que se aceite que cada lugar cria e recria 
permanentemente seus regulamentos, e o faz de acordo com suas expe-
riências históricas e ambientais mais abrangentes, ainda assim a lei 
deve perseguir ideais que precisam estar acima do relativismo genérico. 
Certos comportamentos, como o assassinato, o estupro, o roubo, a 
tortura, a violência contra progenitores, a ofensa, calúnia e difamação 
gratuitas, entre outros, sempre foram rejeitados pelas sociedades huma-
nas como atitudes amorais. 
Provavelmente os grupos humanos, quando optam pela convivên-
cia como estratégia de vida, não o fazem por altruísmo ou dever com 
o Outro, mas pelo simples fato de precisarem se solidarizar uns com 
os outros como estratégia de sobrevivência e melhoria de sua existência. 
Mas ainda que se considere o fato de que não o façam solidariamente, 
não muda a necessária construção de um conjunto de valores e máxi-
mas morais comuns a todos, nem tampouco as noções mais primordiais 
de justiça, equidistância, responsabilidade, limites aos direitos de uns 
1. | Filosofia, Ciência e Ética
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e outros. Máximas como “Não fazer ao outro o que não gostaria que 
fizessem comigo” ou “A liberdade de um termina quando começa a 
liberdade do outro”, não são orientações religiosas ou políticas, nem 
são mandamentos jurídicos, mas constatações morais provenientes da 
necessária convivência com o próximo. De todas as formas elas são 
úteis, e tomam de imediato a forma de valores.
A Modernidade valoriza a Ciência experimental, objetiva e instru-
mental. Tal valorização se afirma a partir da revolução científica, do 
desenvolvimento do conhecimento e da industrialização produtiva. 
Pelo menos desde o século XVII a vida está alicerçada e envolvida em 
conquistas materiais usando o conhecimento como instrumento, o que 
determinou para os homens uma perspectiva e compreensão da exis-
tência e de si mesmo quase que absolutamente tecnocientífica e tecno-
crata. De um lado as ciências aplicadas a partir da experimentação 
laboratorial, de outro a racionalização em grandes sistemas de gestão 
e produção. Neste contexto, no industrialismo e no consumismo, 
nenhum conhecimento ou ciência pode, a não ser por “enorme esforço”, 
reivindicar um dinamismo onde prevaleçam máximas morais, o com-
portamento ético, a valorização do bem-comum, a construção da 
cidadania pela responsabilidade da vida coletiva. 
O Direito, como exemplo, não foge à regra e nos últimos duzentos 
anos as premissas valorativas e essencialmente a dinâmica processual, 
se converteram em práticas de resultado. Essas medições de eficácia 
matemática estão condizentes com as características tecnocratas e 
administrativas das grandes corporações, mas perdem em eficiência 
quanto ao julgar com equidade e justiça, porquanto inibe a livre com-
posição do contraditório e a autonomia decisória.
Por seu turno, a Filosofia, destarte a voz dissonante de alguns, 
acabou também por se instrumentalizar de princípios que pouco 
ou nada remetem ao fundamental nela, o caráter crítico da existên-
cia humana. Durante séculos a Filosofia procurou a verdade: na 
Antiguidade, na Idade Média, no Renascimento, até que nos demos 
conta que possivelmente a verdade não é passível de ser alcançada pela 
razão humana. Então, em meados do século XVII mudou-se o foco,
ÉTICA JURÍDICA | José Manuel de Sacadura Rocha
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e a Filosofia, desde o Iluminismo, procura se exercitar sobre o sentido 
da existência, principalmente o sentido da vida para o homem. Esta 
mudança epistemológica tem consequências desastrosas para a moti-
vação crítica da Filosofia. 
Quando uma ciência procura a verdade ela, necessariamente, pre-
cisa ser crítica, pois a busca da certeza sobre as coisas e os fenômenos 
só é logicamente alcançável através da ruptura do paradigma anterior, 
pelo questionamento, pela refutação e proposição de nova verdade. 
Contudo, quando uma ciência se propõe, não a indagar sobre as “cau-
sas”, mas tão somente sobre o “destino”, a ansiedade criativa se esvai 
porquanto o objetivo deixa de ser a intervenção sobre a realidade para 
ser muito mais a busca da tranquilidade existencial. Neste caso a verve 
revolucionária tende a dar lugar à apatia conservadora.
A partir do século XVII a humanidade conquista finalmente a 
primazia do conhecimento sobre as leis da natureza e propõe-se a viver 
com base na manipulação técnica da ciência aplicada à produção. Seria 
de esperar que a produção do conhecimento permanecesse crítica, pois 
o mundo da ciência obriga o conhecimento à dimensão das causas e 
efeitos e à produção de novas formas de viver material e espiritual. 
Mas não foi o que aconteceu. A Filosofia passou a buscar o sentido e 
não a verdade, provocando um corte importante em sua postura e 
metodologia, a saber, que esta passou a perguntar qual o sentido das 
coisas, abandonando o diálogo mais crítico com as “verdades” dos 
conhecimentos ditos científicos. Então as ciências naturais, chamadas 
de exatas, podem ater-se ao seu mecanicismo sem obstáculos críticos 
e éticos por parte de outros conhecimentos. Aquele papel agnóstico e 
iconoclasta da Filosofia está fortemente anestesiado pela extrema difi-
culdade em explicar o sentido das coisas, dos fenômenos e da vida, 
abandonando o questionamento sobre as causas e determinações. 
Causas e determinações não existem apenas no mundo físico, mas a 
partir do Iluminismo, o industrialismo e consumismo conseguem sepa-
rar as responsabilidades sobre a produção do conhecimento humano, 
de forma que se possa, sem grandes enfrentamentos e contestações, 
produzir o mundo das coisas, dos materiais e das mercadorias.
1. | Filosofia, Ciência e Ética
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Ludwig Wittgenstein (1889-1951) opôs Relativismo a Racionalismo, 
aprofundando e antecipando as teses sobre os “processos comunicati-
vos” inerentes à realidade das sociedades da informação pós-industriais, 
as que se desenvolveram após a Segunda Grande Guerra. Ele via no 
Relativismo a necessidade de negociação ou acordo entre as partes. Em 
oposição, o Racionalismo caracteriza-se em termos de regras próprias 
e fixas na busca da verdade, o que, obviamente, faz parte do paradigma 
científico da Modernidade. Daí que os homens estão mais perto do 
conflito do que da paz, posto que o que impera entre nós, modernos e 
pós-modernos, é a frieza da verdade científica, regra fixa por princípio, 
em detrimento da capacidade de diálogo e acordo, o que pressupõe 
várias verdades tão incontestes e possíveis umas como as outras. Na 
verdade, em termos políticos e jurídicos o que sobressai aqui é a procura 
pela hegemonia do saber, da verdade, do domínio, através da primaziada racionalidade, sobre o outro, por parte de uma pessoa ou Estado. 
É isto que Wittgenstein estava analisando.
Sem dúvida que uma das grandes dificuldades encontradas pela 
Filosofia ocidental nos últimos trezentos anos, que tem ligação forte 
com a apatia com que ela se mostra interessada hoje, é o fato de ter 
sido oportunamente impregnada pelo extremo racionalismo. Mas é 
preciso fazer uma distinção: existe uma “razão instrumental” em detri-
mento da “razão especulativa”. Aquele racionalismo de que nos fala 
Wittgenstein não é um ente único, devendo ser dividido em Racionalismo 
Instrumental e Racionalismo Especulativo. O que o autor austríaco 
ressalta como típico da Modernidade é, claramente, o Instrumental. E 
esse está, certamente, na base dos males e da condição antiética e 
beligerante atuais. 
Mas a Filosofia pode, ao contrário da ciência instrumental, usar 
a razão do tipo especulativa, voltando às suas antigas origens e tradi-
ções. Pela razão especulativa chega-se possivelmente a várias verdades 
– Topoi, como Aristóteles (384-322 a.C.) as chamou – e, consequente-
mente, ao resultado de verdades relativas, o que inventa a predisposição 
de ouvir o Outro e obriga ao esforço de produzir a harmonia pela 
dialética – oposição de tese e antítese. E aqui se estaria diante então 
ÉTICA JURÍDICA | José Manuel de Sacadura Rocha
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do relativismo comunicativo e negociativo que Wittgenstein propunha 
no lugar das verdades absolutas.
A Filosofia usando a racionalidade especulativa pode e deve fazer 
a crítica às verdades únicas, ou mais propriamente, às verdades ins-
trumentais tecnocientíficas. Mas, em nome disso, não pode abandonar 
a razão especulativa com pena de sucumbir ao relativismo que se 
alimenta da complexidade do sentido das coisas. Nisto, então, ela se 
opõe à Ciência dogmática, não no fato de abandonar a procura da 
“verdade”, desde que não seja a “verdade única”. Provavelmente a 
próxima revolução filosófica está fadada a unir sentido e verdade, da 
mesma forma que há a necessidade de unir liberdade e legalidade (ou, 
poder-se-ia dizer, liberdade e igualdade). No mundo atual “a legalidade 
priva, muitas vezes, a liberdade” (Roudinesco).5 Entre outras razões, 
porque a legalidade está para a verdade da razão instrumental enquanto 
a liberdade, para o sentido das verdades especulativas. 
A ética baseia-se em valores morais que, se de um lado são relati-
vamente perenes, por outro se modificam conforme os costumes e as 
determinações históricas da vida de um povo. As máximas morais 
andam, contudo, mais lentamente que as nuances práticas da ética em 
cada situação concreta. De tal forma, a ética parece ser sempre mais 
relativa que a moral. E o é. Mas esse relativismo ainda precisa de um 
certo racionalismo, não o racionalismo instrumental, mas a razão capaz 
de criticar a moral não apenas do ponto de vista das necessidades 
econômicas e produtivas e avanços tecnológicos, mas do ponto de vista 
da decência, respeito e dignidade humanas. O Racionalismo não pode 
prescindir destes valores, e se o do tipo instrumental exige mais forte-
mente o Relativismo de tudo, não é por preocupações antidogmáticas, 
mas principalmente porque o capital é o motivador da vida.
O dilema do Direito é o dilema da Filosofia de hoje: até que ponto 
a ética pode ser relativa? O problema da ética que se coloca para o 
Direito é que a verdade é relativa, ou seja, que a verdade em um caso 
5. Elisabeth Roudinesco (1944), filósofa francesa contemporânea, autora de livros como 
A família em Desordem, A Parte Obscura de Nós Mesmos e Retorno à Questão Judaica.
1. | Filosofia, Ciência e Ética
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não é a verdade para outro, que o ético para um indivíduo pode ser o 
antiético para outro, e que a variabilidade é natural diante de situações 
e contextos diversos. Não podendo a Filosofia do Direito negar tais 
premissas, contudo, ao procurar o sentido dos fatos jurídicos em ver-
dades possíveis e contraditórias, a razão especulativa não pode relati-
vizar ad infinitum a lide e a razão de justiça e equidade. Nem tampouco 
ater-se ao dogmatismo autoritário das verdades únicas. Em outras 
palavras, a possibilidade de uma filosofia crítica do processo jurídico 
leva a verdades e sentidos éticos diversos, mas não pode cair na arma-
dilha de relativizar infinitamente a decisão justa, porque, em última 
instância, essa apologia da negociação e do acordo na lide tende a 
beneficiar o poder em detrimento do justo ético coletivo.

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