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Febre Reumática OBJETIVOS Estudar a etiofisiopatogênese e resposta imunológica na febre reumática. Entender as manifestações clínicas e complicações na febre reumática. Compreender as valvopatias. ETIOFISIOPATOGÊNESE É uma doença inflamatória aguda, multissistêmica, mediada pelo sistema imunológico, que ocorre após infecção por estreptococos b-hemolíticos do grupo A (geralmente após uma faringite). A FR está associada a inflamações de todas as partes do coração, mas a inflamação e a cicatrização das valvas produzem as características clínicas mais importantes. Após essa inflamação acontecem problemas valvares crônicos, que acarretam disfunção cardíaca irreversível e, em alguns casos, causam insuficiência cardíaca fatal depois de alguns anos. PATOGENIA A febre reumática aguda é uma reação de hipersensibilidade classicamente atribuída a anticorpos contra moléculas dos estreptococos do grupo A que também reagem de modo cruzado com antígenos do hospedeiro. O atraso característico de 2-3 semanas até o início dos sintomas após a infecção é explicado como sendo o tempo necessário para a produção da resposta imune: não há estreptococos nas lesões. Apenas a pequena minoria de pacientes infectados desenvolve febre reumática (aprox. 3%), é provável que haja suscetibilidade genética que influencia o desenvolvimento das respostas imunes cruzadas. MORFOLOGIA A febre reumática aguda é caracterizada por focos inflamatórios isolados em diferentes tecidos. Nódulos de Aschoff: o São lesões inflamatórias encontradas no miocárdio e são consideradas o patognomônicos (sinal ou sintoma específico de uma doença) da febre reumática. o Consistem em acúmulos de linfócitos, plasmócitos dispersos e macrófagos volumosos ativados (células de Anitschkow). Durante a febre reumática aguda, os nódulos de Aschoff podem ser encontrados em qualquer uma das três camadas do coração: pericárdio, miocárdio ou endocárdio (inclusive nas valvas). - Aspecto microscópico de um nódulo de Aschoff; há necrose central associada a uma coleção circunscrita de células inflamatórias mononucleares, que incluem alguns macrófagos ativados com nucléolos proeminentes e cromatina central ondulada (cromatina em lagarta) (setas). RESPOSTA IMUNOLÓGICA A infecção por S. pyogenes causa a ativação do sistema imune na tentativa de eliminar o patógeno agressor. Nessa ativação, são recrutados linfócitos B (imunidade adquirida humoral), que se transformam em plasmócitos e produzem, então, anticorpos contra o microorganismo em questão. Os anticorpos produzidos (anticorpos antiestreptocócicos) atacam a bactéria para o qual foram especificamente criados, mas também atacam algumas células do próprio organismo, denominada reação cruzada. o Porque isso acontece? Os antígenos são semelhantes e os anticorpos se ligam em ambos. Já que a bactéria S. pyogenes faz mimetismo molecular com células do organismo que estão tecido cardíaco (valvas potencialmente), articulações, SNC, tecido celular subcutâneo. Os anticorpos antiestreptocócicos, então, reagem cruzadamente com autoantígenos e desencadeiam respostas inflamatórias pela ativação do sistema complemento e mediadas por citocinas (interferona- gama e fator de necrose tumoral-alfa). IMPORTANTE: a bactéria que é atacada pelo organismo continua no local da infecção, mas os anticorpos ao passarem por outras regiões do corpo onde existem células próprias com características semelhantes, também atacam esses locais (ex. coração, que possui miosina cardíaca, que faz o mimetismo com a proteína M da bactéria). - Porque isso ocorre? Os anticorpos dirigidos contra a proteína M de algumas cepas dos estreptococos têm reatividade cruzada com os antígenos glicoproteicos do coração, das articulações e de outros tecidos, produzindo uma reação autoimune por um fenômeno conhecido como mimetismo molecular. - Os anticorpos são proteínas e, portanto, não conseguem diferenciar antígenos próprios de antígenos estranhos. COMPLICAÇÕES - PANCARDITE (inflamação generalizada do pericárdio, miocárdio e válvulas cardíacas). O pericárdio exibe um exsudato fibrinoso, que geralmente desaparece sem deixar sequelas. O envolvimento do miocárdio — miocardite — manifesta- se na forma de nódulos de Aschoff dispersos no interior do tecido conjuntivo intersticial. O envolvimento valvar resulta em necrose fibrinoide e deposição de fibrina ao longo das linhas de fechamento que formam vegetações de 1-2 mm — verrugas — que perturbam pouco o funcionamento do coração. - Vegetações pequenas (verrugas) são visíveis ao longo da linha de fechamento das válvulas da valva atrioventricular esquerda (setas). Episódios prévios de valvite reumática causaram espessamento fibroso e fusão das cordas tendíneas. - CARDIOPATIA REUMÁTICA CRÔNICA Caracterizada pela organização da inflamação aguda e pela subsequente cicatrização. Os nódulos de Aschoff são substituídos por cicatrizes fibrosas, de modo que essas lesões raramente são vistas na cardiopatia reumática crônica. As válvulas das valvas tornam-se espessadas e retraídas de modo permanente. - Estenose mitral com espessamento fibroso difuso e deformação das válvulas da valva, fusão das comissuras (setas) e espessamento e encurtamento das cordas tendíneas. - Presença neovascularização inflamatória. - ESTENOSE E A REGURGITAÇÃO VALVAR São as complicações mais importantes da DCR. VALVAS A valva atrioventricular esquerda (mitral) sozinha está afetada em 70% dos casos. A valva atrioventricular esquerda e a valva da aorta estão comprometidas em 25% dos casos. A valva atrioventricular direita (tricúspide) é afetada com menor frequência (e com menor gravidade). A valva do tronco pulmonar quase sempre escapa da lesão. ESTENOSE MITRAL Na estenose mitral intensa, o átrio esquerdo dilata-se progressivamente por causa da sobrecarga de pressão, o que precipita a fibrilação atrial. A combinação de dilatação e fibrilação é um substrato fértil para a trombose, e a formação de trombos murais grandes é comum. A congestão venosa passiva de longa duração provoca alterações no parênquima e nos vasos pulmonares que são típicas da insuficiência cardíaca esquerda. Com o tempo, essas alterações levam à hipertrofia e à falência do ventrículo direito. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS - FASE AGUDA: inclui história de uma infecção estreptocócica desencadeante e acometimento subsequente dos componentes do tecido conjuntivo do coração, dos vasos sanguíneos, das articulações e das estruturas subcutâneas. - FASE CRONICA: caracteriza-se por deformidade irreversível das valvas cardíacas e é uma causa comum de estenose da valva mitral. A CR crônica geralmente não se desenvolve antes de no mínimo 10 anos. Sintomas constitucionais: representado principalmente pela febre, mas também anorexia e mal-estar (não são específicos para FR). Sinais e sintomas cardíacos: cardite é a apresentação mais incidente. É bem comum a existência de sopros, pericardite e insuficiência cardíaca, sendo essa última resultante da possível lesão valvar. Sinais na pele: Marcado principalmente pelo eritema marginade serpiginoso e de nódulos subcutâneos próximos as articulações. Sinais articulares: Principalmente pela poliartrite, podendo haver ou não artralgia. Sinal neurológico: Marcado pela coreia de Sydenham. ARTRITE Comum em 75% dos pacientes com FR, é um processo inflamatório das articulações, sendo acompanhada pelo inchaço, calor, eritema, limitação dos movimentos e outros. Na maioria dos casos, acomete as articulações maiores, especialmente joelhos e tornozelos, embora menos frequentemente possa afetarpunhos, cotovelos, ombros e quadris. A artrite quase sempre é migratória, ou seja, afeta uma articulação e depois outras (poliartrite). - Classicamente, a valva atrioventricular esquerda (mitral) exibe espessamento das válvulas, fusão e encurtamento das comissuras e espessamento e fusão das cordas tendíneas. O exame microscópico revela neovascularização e fibrose difusa que destrói a arquitetura normal das válvulas. CARDITE A FR causa um acometimento do endocárdio e das estruturas valvares. Durante o estágio inflamatório agudo da doença, as valvas as estruturas valvares tornam-se eritematosas e inflamadas e formam-se pequenas lesões vegetativas nas válvulas. Aos poucos, as alterações inflamatórias agudas levam à formação de tecidos cicatriciais fibróticos, que tendem a contrair e causar deformidades das válvulas e encurtamento da cordoalha tendíneas. NÓDULOS SUBCUTANEOS São duros, indolores e livremente móveis e, em geral, aparecem nas superfícies extensoras das articulações do punho, cotovelo, tornozelo e joelho, com dimensões variando entre 0,5 a 2 cm de diâmetro. A investigação desses nódulos no paciente é feito pela palpação principalmente, por conta da dificuldade em encontra-lo somente por meio da inspeção. ERITEMA MARGINADO São áreas maculosas com formato geográfico, localizadas mais comumente no tronco ou nas superfícies internas do braço e da coxa, mas nunca na face. Essas lesões aparecem nos estágios iniciais de um episódio de FR e tendem a ocorrer com os nódulos subcutâneos e também com cardite. O eritema marginado é transitório e desaparece ao longo da evolução da doença. COREIA DE SYDENHAM É a manifestação neurológica central da FR e ocorre mais comumente nas meninas, raramente depois da idade de 20 anos. Em geral, a criança é irritável, chora facilmente, começa a caminhar desajeitadamente e deixa os objetos caírem. Os movimentos coreiformes são movimentos espasmódicos espontâneos, rápidos e involuntários, que interferem com as atividades voluntárias. Caretas faciais são comuns e até mesmo a fala pode ser afetada. A fisiopatologia dessa manifestação consiste na ação autoimune de anticorpos na ação autoimune de anticorpos que se ligam a neurônios dos núcleos da base, interferindo no circuito motor do paciente, que apresenta esses movimentos involuntários. DIAGNÓSTICO DE FEBRE REUMÁTICA Anticorpo contra Estreptolisina O (toxina bacteriana). Nomes: ASLO, ASO, AEO ou da antiestreptolina O. - O anticorpo começa a se elevar após1 semana de infecção pelo Streptococcus e atinge o seu pico ao redor da 5° a 6° semana, época em que o paciente já desenvolveu sintomas de febre reumática. - Caso o resultado do teste seja positivo, não significa que existe FR, mas sim que pode surgir o desenvolvimento dessa patologia caso exista alguma predisposição genética, uma vez que é uma doença autoimune. - Um tratamento bem feito da infecção pelo Streptococcus, pode diminuir significativamente o risco de FR. VALVOPATIAS A disfunção das valvas cardíacas pode ser causada por fatores diversos, como anomalias congênitas, traumatismo, lesão isquêmica, distúrbios degenerativos e inflamação. Todas as quatro valvas cardíacas podem ser afetadas por alguma doença, porém as valvas mitral e aórtica são acometidas mais comumente. Os distúrbios das valvas pulmonar e tricúspide não são comuns, em razão da pressão baixa no lado direito do coração. Os efeitos da cardiopatia valvar na função cardíaca estão relacionados com as alterações do fluxo sanguíneo através da valva e o aumento resultante da demanda imposta ao coração. ESTENOSE VALVAR: quando ocorre estreitamento do orifício valvar, de modo que as válvulas não se abram adequadamente. Isso aumenta a resistência ao fluxo de sangue pela valva, transformando o fluxo laminar normalmente suave em fluxo turbulento menos eficiente INSUFICIÊNCIA VLAVAR: as válvulas não se fechem normalmente, a valva incompetente ou regurgitante viabiliza o fluxo retrógrado quando a valva deveria estar fechada. ESTENOSE DA VALVA MITRAL Consiste na abertura parcial dessa valva durante a diástole com distensão do átrio esquerdo e redução do enchimento do VE, sendo causada, na maioria dos casos, por FR. É um distúrbio progressivo e contínuo ao longo de toda a vida, caracterizada pela evolução lenta e estável nos primeiros anos e aceleração progressiva nos anos finais. Caracteriza-se por substituição dos tecidos valvares por elementos fibrosos com aumento da rigidez e fusão das válvulas. À medida que a resistência ao fluxo pela valva mitral aumenta, o átrio esquerdo dilata e a pressão atrial esquerda aumenta e é transmitida ao sistema venoso pulmonar e causa congestão pulmonar. - Se trata de uma valvulite reumática crônica, nessa imagem mostra válvulas rígidas, espessadas e fundidas com orifício estreito, produzindo o aspecto típico de “boca de peixe” associado à estenose mitral reumática. REGURGITAÇÃO DA VALVA MITRAL Caracteriza-se por fechamento parcial da valva mitral com divisão do volume ejetado pelo ventrículo esquerdo entre o fluxo sanguíneo anterógrado que avança para dentro da aorta e o fluxo sanguíneo retrógrado que volta para dentro do átrio esquerdo durante a sístole. As alterações hemodinâmicas associadas à regurgitação mitral crônica ocorrem mais lentamente, viabilizando a ativação dos mecanismos compensatórios. O aumento do volume associado à regurgitação mitral é relativamente bem tolerado e alguns pacientes com este distúrbio continuam assintomáticos por muitos anos. O grau de dilatação do ventrículo esquerdo reflete a gravidade da regurgitação. PROLAPSO DA VALVA MITRAL As alterações patológicas incluem degeneração mixedematosa (mucinosa) das válvulas mitrais, tornandoas maiores e flácidas, razão pela qual sofrem prolapso ou abaúlam para dentro do átrio esquerdo durante a sístole. - Prolapso da valva mitral. A visão da valva mitral na perspectiva do átrio esquerdo revela válvulas deformadas e redundantes, que abaúlam para dentro da cavidade atrial esquerda. ESTENOSE DA VALVA AÓRTICA Causa o aumento da resistência à ejeção do sangue do VE para dentro da aorta. As causas mais comuns são malformações valvares congênitas e calcificação adquirida da valva aórtica tricúspide normal. Como a estenose aórtica desenvolve-se gradativamente, o VE tem tempo de adaptar-se. Com a elevação da pressão sistólica em consequência da obstrução, a parede do ventrículo esquerdo torna-se mais, mas o volume normal da câmara ventricular é mantido. REGURGITAÇÃO DA VALVA AÓRTICA É resultado da incompetência valvar, que possibilita ao fluxo sanguíneo refluir para dentro do VE durante. Consequentemente, o VE precisa aumentar o volume ejetado para incluir o sangue que entra dos pulmões e também o que reflui pela valva regurgitante. A regurgitação aórtica pode ser causada por distúrbios que provocam fibrose das válvulas, ou ampliação do orifício valvar até que as válvulas não possam mais se encontrar. Existem várias causas de regurgitação aórtica, inclusive FR, dilatação idiopática da aorta, anomalias congênitas, EI e síndrome de Marfan.