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ARTIGO DE REVISÃO Received: Sep/03/2024. Approved: Feb/19/2025. 1 Universidade Federal de São Paulo, Santos, SP, Brasil. Address for correspondence: Luís Otávio Santos Camargo. Rua Arnaldo de Luiz Oliveira, 93 – 18408-550 – Itapeva, SP, Brazil. E-mail: luisotaviosantoscamargo@gmail.com A microbiota intestinal e o eixo intestino- cérebro no transtorno do espectro autista (TEA): uma revisão integrativa The intestinal microbiota and gut-brain axis in autism spectrum disorder (ASD): an integrative review J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 https://doi.org/10.1590/0047-2085-2024-0044 RESUMO Introdução: A prevalência de TEA cresceu exponencialmente após a primeira definição de autismo da DSM. Sua causalidade envolve uma relação complexa entre fatores genéticos e ambientais, sendo o microbioma um dos fatores ambientais que desempenham papel importante. O parto cesáreo e fatores maternos durante o pré-natal, como infecções e estresse, podem afetar a composição da microbiota do bebê. Ela desenvolve-se durante os primeiros anos de vida e também é influenciada pelo ambiente, alimentação e antibióticos. Bacteroidetes e Firmicutes são os filos predominantes na microbiota intestinal saudável de um adulto. Métodos: Com base no protocolo PRISMA 2020, foram selecionados 17 artigos publicados de 2012 a 2022 no Pubmed que abordavam o TEA, eixo intestino- cérebro e microbiota intestinal. Resultados: Bacteroidetes e Firmicutes estão alterados em crianças com TEA quando comparado aos neurotípicos – microbiota intestinal menos diversificada. Sintomas gastrointestinais, como diarreia e constipação, são comuns em crianças com TEA, e a gravidade desses sintomas está relacionada ao grau das características do espectro e a permeabilidade intestinal. A Intervenção probiótica reduziu os sintomas gastrointestinais e comportamento característico do TEA a curto prazo, enquanto que o Transplante de Microbiota Fecal apresentou melhoras a curto e a longo prazo. Conclusão: As intervenções mostraram-se potenciais provavelmente pela correção da disbiose, permeabilidade intestinal e consequente diminuição da passagem de fatores neurotóxicos via barreia hematoencefálica afetando o eixo intestino-cérebro, no entanto, a seletividade alimentar pode ser um fator impeditivo na manutenção desse estado ao longo do tempo. PALAVRAS-CHAVE Microbiota intestinal, eixo intestino-cérebro, transtorno do espectro autista, autismo e transplante de microbiota fecal. ABSTRACT Introduction: The prevalence of ASD has grown exponentially since the first definition of autism in the DSM. Its causality involves a complex relationship between genetic and environmental factors, with the microbiome being one of the key environmental factors playing an important role. Cesarean delivery and maternal factors during the prenatal period, such as infections and stress, can affect the baby’s microbiota composition. It develops during the first years of life and is also influenced by the environment, diet, and antibiotics. Bacteroidetes and Firmicutes are the predominant phyla in the healthy gut microbiota of an adult. Methods: Based on the PRISMA 2020 protocol, 17 articles published from 2012 to 2022 in PubMed were selected, addressing ASD, the gut-brain axis, and gut microbiota. Results: Bacteroidetes and Firmicutes are altered in children with ASD compared to neurotypical children – with a less diverse gut microbiota. Gastrointestinal symptoms, such as diarrhea and constipation, are common in children with ASD, and the severity of these symptoms is related to the degree of spectrum characteristics and intestinal permeability. Probiotic intervention reduced gastrointestinal symptoms and characteristic ASD behavior in the short term, while Fecal Microbiota Transplantation showed improvements in both the short and long term. Conclusion: The interventions proved to be potentially effective, likely due to the correction of dysbiosis, intestinal permeability, and the consequent reduction in the passage of neurotoxic factors through the blood-brain barrier, affecting the gut-brain axis. However, food selectivity may be a limiting factor in maintaining this state over time. KEYWORDS Intestinal microbiota, gut-brain axis, autism spectrum disorder, autism and fecal microbiota transplantation. Luís Otávio Santos Camargo1 https://orcid.org/0009-0005-3229-5362 Camargo LOS2 J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 – 1-15 INTRODUÇÃO As primeiras identificações de crianças com características do transtorno do neurodesenvolvimento foram notadas, em 1943, pelo psiquitatra infantil Leo Kanner, e posteriormente em 1944, pelo pediatra Hans Asperger. A partir desses diagnósticos houve a intitulação de síndrome de Kanner e síndrome de Asperger1. A primeira definição de autismo surgiu em 1980, publicada pela Associação de Psiquiatria Americana (APA) na terceira versão do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-3), que é um documento com critérios padronizados para o diagnóstico de transtornos de saúde mental, tendo sido primeiramente desenvolvido em 1952. A primeira definição abrangia um “desenvolvimento social e comunicativo prejudicado, além de insistência na mesmice com início antes dos 30 meses de idade”, e não se enquadrava em um quadro de espectro1. No entanto, o conhecimento sobre o autismo evoluiu rapidamente com crescimento em pesquisas desde meados dos anos 19901. Atualmente, após o último lançamento do DSM 5-TR em 2022, o transtorno do espectro autista (TEA) é considerado um transtorno do neurodesenvolvimento identificado nos primeiros anos de vida2. É caracterizado por comprometimentos na comunicação e interação social, associado a padrões repetitivos e restritivos de comportamento e interesses3. Enquadra-se, portanto, no quadro de espectro, pois se refere a um grupo heterogêneo de desordens do neurodesenvolvimento multicausais, no qual cada caso apresenta-se em diferentes níveis de suporte4. De acordo com o Autism and Developmental Disabilities Monitoring (ADDM), cerca de 1 em cada 6 (17%) crianças com idades entre os 3 e 17 anos foi diagnosticada com deficiência de desenvolvimento (a partir do relato dos pais), durante o período de estudo de 2009-2017. Os diagnósticos incluíam autismo, transtorno do déficit de atenção/ hiperatividade, cegueira e paralisia cerebral, entre outros. Ao analisar apenas os dados relacionados ao TEA, no ano de 2000, 1 em cada 150 crianças foi identificada com TEA; em 2010, os dados do estudo de prevalência de autismo mostram aumento de 1 em cada 68 crianças; e em 2020, os dados demonstraram aumento ainda maior com 1 em cada 36 crianças, demostrando expressivo aumento dos diagnósticos com o passar dos anos. O relatório também apresenta informações que o TEA ocorre em todos os grupos raciais, étnicos e socioeconômicos, e é quase 4 vezes mais comum entre meninos do que entre meninas5. Uma revisão que analisou 71 estudos ao redor de 34 países nos anos de 2012 a 2021, observou uma prevalência do TEA de 119 casos a cada 10.000 pessoas (equivalente a 1,19%) nas populações estudadas. A maior parte da população era caracterizada como crianças, mas haviam alguns estudos com maiores de 18 anos e adultos, tendo em vista que a prevalência era maior no sexo masculino6. Não foi especificado a prevalência no Brasil, mas apenas nas américas como um todo, totalizando uma prevalência de 82,3 a cada 10.000 pessoas (equivalente a 0,82%)1. Com relação à genética, estudos com gêmeos sugerem uma herdabilidade maior do que 80%7, sendo aplicada em um contexto de riscos ambientais e relação gene-ambiente, pois a concordância monozigótica, “probabilidade” de gêmeos que dividem o mesmo material genético possuírem o mesmo transtorno e características nunca é de 100%1. Além de que, existe uma maior prevalência de autismo no sexo masculino – média de 4.2:1 para a razão Homem: Mulher -, isto é, a cada 4.2 autistas do sexo masculino diagnosticados, existeFederal do Ceará, Faculdade de Medicina, Programa de Pós-Graduação em Farmacologia; 2007. 60. Sandler RH, Finegold SM, Bolte ER, et al. Short-term benefit from oral vancomycin treatment of regressive-onset autism. J Child Neurol 2000;15(7):429-435. 61. White JF. Intestinal pathophysiology in autism. Exp Biol Med (Maywood) 2003;228(6):639-649. 62. De Angelis M, Francavilla R, Piccolo M, De Giacomo A, Gobbetti M. Autism spectrum disorders and intestinal microbiota. Gut Microbes 2015;6(3):207-213. 63. Siniscalco D, Brigida AL, Antonucci N, Siniscalco D, Brigida AL, Antonucci N. Autism and neuro-immune-gut link. AIMSMOLES 2018;5(2):166-172. 64. Marí-Bauset S, Zazpe I, Mari-Sanchis A, Llopis-González A, Morales-Suárez-Varela M. Food selectivity in autism spectrum disorders: a systematic review. J Child Neurol 2014;29(11):1554-1561. 65. Page MJ, McKenzie JE, Bossuyt PM, Boutron I, Hoffmann TC, Mulrow CD, et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ 2021;372:n71. doi: 10.1136/bmj.n71. 66. Sterne JAC, Hernán MA, Reeves BC, Savović J, Berkman ND, Viswanathan M, et al. ROBINS-I: a tool for assessing risk of bias in non-randomised studies of interventions. BMJ. 2016;355:i4919. doi:10.1136/bmj.i4919. 67. Yu Y, Ozonoff S, Miller M. Assessment of Autism Spectrum Disorder. Assessment. 2024 Jan;31(1):24-41. doi: 10.1177/10731911231173089.um diagnóstico no sexo feminino8. Com relação a causalidade do Transtorno do Espectro Autista, essa parece envolver uma relação complexa incluindo a genética e fatores ambientais, dentre os quais o microbioma é um dos fatores ambientais sendo herdado da mãe9, ainda não se sabendo ao certo quais os motivos pelos quais os sintomas característicos do TEA são mais implícitos no sexo feminino – podem estar relacionados com a habilidade de mascarar as características do espectro - conhecido por “masking” – a fim de reduzir o estereótipo social10. Outro dado interessante é a associação do parto cesáreo com um maior risco de desenvolvimento de TEA na prole. Em uma revisão sistemática e meta-análise, avaliaram 61 estudos (coorte e caso-controle) de 19 países desde as primeiras publicações até 2019, sendo que 27 estudos objetificavam associar o diagnóstico de TEA (59.795 casos) ao parto cesáreo quando comparado ao vaginal. Com foco apenas no TEA, foram incluídos um número de mais de 5 milhões de partos, tanto cesáreos quanto vaginais, dos estudos analisados. Os resultados revelaram que o parto cesáreo foi significativamente associado ao aumento de chances de a prole ser diagnosticada com TEA (OR, 1.33; 95% CI, 1.25-1.41) em comparação ao parto vaginal, sendo equivalente a um risco de 33%. No entanto, a heterogeneidade foi média (I2 = 69,5%), o que sugere um potencial viés de publicação, tendo em vista que as associações entre parto cesáreo e TEA foram menores em estudos de coorte quando comparado aos estudos de caso-controle11. A microbiota é caracterizada por conter o conjunto de diferentes linhagens de microrganismos em um determinado ambiente/ecossistema. Existem microbiotas em diferentes partes do corpo humano, como por exemplo, na pele, vias aéreas, trato urogenital, intestino e boca12. O microbioma pode ser definido por toda a vasta coleção de genes do genoma desses microorganismos residentes em um determinado ambiente, dessa forma ambos os termos microbiota e microbioma se relacionam13. A microbiota intestinal de um adulto é formada principalmente pelos filos bacterianos Bacteroidetes e Firmicutes14, com aproximadamente 100 Microbiota intestinal e o eixo intestino-cérebro no TEA: uma revisão integrativa 3 J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 – 1-15 trilhões de microrganismos15. Isso equivale, aproximadamente, a uma biomassa superior a 1 kg16. O feto nasce livre de germes, e, portanto, o intestino ao nascimento é estéril. Com o passar dos anos, percebeu-se que ela se desenvolve durante os primeiros 1000 dias de vida (contando com o pré-natal), e esse período é crucial para o estabelecimento de um microbioma saudável17. A microbiota atinge aproximadamente a riqueza em diversidade próxima ao perfil da microbiota de um adulto no primeiro ano de vida18. Estudos indicam que após o nascimento, o microbioma começa a se desenvolver rapidamente, sendo influenciado pelo ambiente, alimentação, antibióticos e método utilizado durante parto19. Alguns fatores maternais do pré-natal, tais como, infecções, estresse psicossocial, obesidade e síndrome metabólica, podem resultar em uma disbiose na mãe, desregulando sua ativação imune, e consequentemente, colocando em risco o neurodesenvolvimento de seu filho20. Em estudo que avaliou o impacto do modelo de parto (cesáreo ou vaginal) na microbiota geral do recém-nascido, notou-se que os bebês nascidos através do parto vaginal possuíam microbiota mais semelhante a microbiota vaginal da mãe, enquanto que os nascidos através do parto cesáreo apresentaram microbiota mais semelhante à da pele da mãe – evidenciando o impacto do contato com a vagina ou pele9. Ademais, percebeu-se que a microbiota em todas as regiões analisadas era semelhante no recém-nascido, isto é, estava homogeneamente distribuída ao redor de todos as microbiotas ao longo do corpo em seu estágio inicial de desenvolvimento9. Por outro lado, outros pesquisadores perceberam, que aos 4 dias de vida, a diversidade bacteriana no grupo de parto vaginal foi superior a do grupo de parto cesáreo (p=0.039) independentemente do tipo de alimentação - aleitamento exclusivo ou aleitamento e fórmula21. No entanto, no primeiro mês de vida, notou-se que as diferenças entre os tipos de parto se ajustaram independentemente do tipo de alimentação, indicando que o leite materno, mesmo que em pequena quantidade, pode ser crucial na população da microbiota intestinal, e consequentemente, no combate de uma possível disbiose durante o primeiro mês de vida oriunda do tipo de parto utilizado, uso de antibióticos ou outros fatores21. Mesmo ainda não existindo uma compreensão mais apurada da causalidade do Transtorno do Espectro Autista, o crescimento dos diagnósticos pode se explicar devido a evolução no conhecimento não só das características comuns da doença, mas também de sintomas e comportamentos característicos. Uma maior prevalência com o passar dos anos, não significa uma maior incidência de casos, mas talvez, um olhar mais atento a partir do momento em que uma determinada característica, antes despercebida, recebe mais atenção, assim a probabilidade de que mais pessoas identifiquem é maior. Além disso, após a alteração da definição de autismo para um espectro, passaram a ser englobados casos que antes não se enquadravam, o que também pode ter aumentado a prevalência. A maioria das alterações percebidas nesse público foram notadas em observações clínicas, relatos de familiares e após a realização de estudos em modelos animais, principalmente relacionadas ao eixo intestino-cérebro e microbiota intestinal4. Dessa forma, o presente estudo objetifica encontrar uma relação entre possíveis alterações na microbiota intestinal de crianças com TEA, seus sintomas gastrointestinais e comportamentos característicos do espectro com o eixo intestino-cérebro. MÉTODOS Para que fosse possível entender a terminologia utilizada no tema da pesquisa e encontrar publicações relevantes, foram lidos dois estudos22,23 que serviram de base para criação dos termos de busca. Com relação a busca de artigos, foi seguido o protocolo PRISMA 2020 para revisões sistemáticas, sendo que apenas 1 autor realizou todas as tarefas manualmente, mesmo que o trabalho seja considerado uma revisão integrativa. A busca de artigos científicos foi feita apenas através da base de dados PubMed a partir da busca avançada a fim de encontrar os termos em todos os campos dos artigos e não apenas no título ou resumo. A busca resultante está descrita a frente: ((Autism Spectrum Disorder) AND (Gastrointestinal Microbiome)) AND (Brain-Gut Axis). O intuito foi encontrar os termos no máximo de artigos possíveis e com organização das palavras de formas distintas, pois notou-se que os artigos poderiam fazer referência aos termos de formas variadas (“Brain-gut axis” ou “Gut-brain axis”), e portanto, poderiam ser perdidos estudos relevantes. Dessa forma, o uso de parênteses ao invés de aspas auxiliou nesse processo. A busca iniciou-se no dia 03 de novembro de 2022 e utilizou-se o filtro de artigos no idioma inglês publicados nos últimos 10 anos, sendo eles estudos clínicos, meta-análises, revisões e revisões sistemáticas. Totalizou-se 123 artigos científicos publicados entre 2012-2022. Para avaliar a elegibilidade dos estudos, analisou-se primeiramente o título. Dos 123 artigos encontrados, apenas 70 abordavam o Transtorno do Espectro Autista (TEA), e portanto, foram eliminados 53 artigos. Destes selecionados, a partir da leitura do resumo, apenas 23 contemplavam o assunto eixo intestino-cérebro e microbioma ou microbiota intestinal, resultando na eliminação de 47 artigos. Dos 23 selecionados, eliminou-se 6 artigos que focavam apenas no eixo intestino- cérebro ou que o enfoque não era exclusivamente no público autista de acordo com seu resumo. Por fim, resultou-se um número total de 17 artigos de revisão. Além disso, foram acessados artigos promissoresincluídos nas referências dos artigos selecionados e publicações que pudessem enriquecer Camargo LOS4 J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 – 1-15 a presente revisão através da contextualização dos assuntos, como por exemplo, estudos sobre a prevalência do TEA, seletividade alimentar e outros, totalizando 45 estudos adicionais. Por fim, com a adição dos 2 artigos utilizados previamente a busca final, totalizou-se um número de 64 artigos incluídos. O fluxograma da próxima página resume todas as informações citadas. Para avaliação do risco de viés foi utilizada a ferramenta ROBINS-I (Risk Of Bias In Non-randomized Studies - of Interventions) da Cochrane66, a qual é uma ferramenta adequada para avaliar o risco de viés de estudos não randomizados de intervenções. Vale ressaltar que optou-se por avaliar o risco de viés apenas dos estudos que envolviam a intervenção de Transplante de Microbiota Fecal (TMF), pois foi o maior foco de discussão nos resultados devido a apresentarem desfechos promissores. A ferramenta é dividida em 7 domínios de risco de viés: devido a confusão, na seleção dos participantes do estudo, na classificação das intervenções, devido a desvios das intervenções pretendidas, devido a dados perdidos, na medição dos desfechos e na seleção dos resultados reportados. Cada domínio é avaliado em nenhuma informação, baixo, moderado, sério ou crítico risco de viés, tendo em vista que ao final da avaliação de todos os domínios é feita uma classificação geral do risco de viés do estudo através das mesmas classificações. Foi feita a avaliação do risco de viés de dois desfechos presentes nos estudos – sintomas gastrointestinais/ consistência e/ou frequência das fezes e comportamento relacionado ao TEA -, os quais foram medidos através de escalas de avaliação e fazem parte da experiência do autor da revisão em questão, e portanto, podem ser avaliados de forma mais assertiva. Os dados encontram-se na coloração para auxiliar a visualização de daltônicos e separados após o término da apresentação dos resultados. Id en tifi ca çã o Identificação de novos estudos via base de dados e registrosEstudos anteriores Estudos incluídos na versão anterior da revisão (n = 2) Registros identificados de: Base de dados PubMed (n = 123) Registros triados (n = 123) Publicações recuperadas (n = 70) Publicações avaliadas para elegibilidade (n = 23) Estudos incluídos (n = 17) Novos estudos incluídos através das referências e outros estudos para complementar a revisão (n = 45) Total de estudos (n = 62) Total de estudos incluídos na revisão (n = 64) Registros removidos antes da triagem: Registros duplicados removidos (n = 0) Registros removidos por outros motivos (n = 0) Registros excluídos Não abordavam TEA no título (n = 53) Registros excluídos: Não abordavam microbiota intestinal ou microbioma no resumo (n = 47) Publicações excluídas: Foco apenas no eixo intestino-cérebro ou sem enfoque exclusivo no TEA (n = 6) Sc re en in g In cl uí do s *Diagrama de fluxo PRISMA 2020. **Fonte: Page MJ, et al. BMJ 2021;372:n71. doi: 10.1136/bmj.n71. Microbiota intestinal e o eixo intestino-cérebro no TEA: uma revisão integrativa 5 J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 – 1-15 RESULTADOS Sintomas gastrointestinais no TEA Em uma revisão foi possível notar que metade das crianças com TEA sofrem de pelo menos 1 problema do TGI, sendo diarreia e constipação os mais comuns24,25. Uma análise multicausal de 15.000 pacientes com TEA revelou que 12% apresentaram comorbidades relacionadas a desordens do intestino26. Os sintomas eram geralmente crônicos, tais como, alterações no hábito intestinal, dor abdominal, desconforto e intolerância alimentar27. Um estudo feito com 95 familiares que relataram os sintomas gastrointestinais de indivíduos com TEA, demonstrou que 61% das crianças possuíam problemas gastrointestinais incluindo dor abdominal (41%), ausência de fome (40%) e inchaço (10%)28. Assim como em outro estudo foi relatado dor abdominal, constipação e diarreia acometendo 46-84% dos indivíduos com TEA29. Meta-análise que analisou 15 artigos publicados de 1980 até 2012 envolvendo a observação dos sintomas gastrointestinais de 2215 crianças com TEA comparados aos neurotípicos, percebeu-se que a diarreia era o sintoma mais comum relatado por cuidadores. Foram analisadas 4 variáveis (preocupações gastrointestinais gerais, diarreia, constipação e dor abdominal), sendo que todas indicaram maiores níveis de problemas gastrointestinais nos autistas, sugerindo uma probabilidade 4 vezes maior de prevalência desses sintomas em crianças com TEA do que as sem (pde espécies de Bifidobacteria e Blautia, pertencentes aos filos Actinobacteria e Firmicutes, respectivamente23,40. Isso se relaciona com comparação entre amostras fecais de crianças com TEA e neurotípicas, exibindo redução significativa do gênero Bifidobacterium, a qual pertence também a filo Actinobacteria41. Clostridium spp. e Enterococci foram isolados de amostras fecais de crianças com TEA, além de grande diferença quantitativa entre Staphylococci, Candida spp. e Camargo LOS6 J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 – 1-15 Clostridium perfringens. Os autores identificaram aumento do crescimento microbiano nos autistas de várias espécies bacterianas e do fungo Candida, o qual está relacionado com algumas infecções42. Outro estudo verificou níveis elevados de IgA no público autista quando comparado aos neurotípicos43. Eixo intestino-cérebro Eixo intestino-cérebro está relacionado com a comunicação entre o Sistema Nervoso Central (SNC) e o Sistema Nervoso Entérico (SNE). Tendo em vista que a troca de informações ocorre de maneira bidirecional e a microbiota interfere nessa comunicação, hoje é reconhecido por eixo intestino- cérebro-microbiota. O cérebro interage com o intestino através de componentes neurais, sistema endócrino (Eixo hipotálamo-pituitária-adrenal), componentes imunes (citocinas e metabólitos) e componentes gastrointestinais (microbiota, barreira intestinal e resposta imune intestinal)18. Além de a barreira intestinal estar prejudicada, nota- se que nos autistas a barreira cerebral (hematoencefálica) também estava alterada, com níveis elevados da proteína Claudina no cérebro, a qual é uma proteína das junções oclusivas intestinais que controla o fluxo intercelular32. O nervo vago eferente transmite informações dos órgãos viscerais para regiões do cérebro, tais como, hipotálamo, amígdala e córtex insular44, além dos núcleos do tronco cerebral, os quais são importantes na comunicação bidirecional entre cérebro e intestino45. O microbioma pode modular o comportamento social, processos sensoriais e inclusive a dor abdominal, diretamente através de moléculas inflamatórias e neuro ativas sinalizadoras ou indiretamente via nervo vago23. Através da liberação de compostos neuroativos no lúmen do intestino agindo nos receptores de certos microrganismos intestinais, o cérebro pode modular diretamente a composição e função dos mesmos23; ou através da regulação da motilidade intestinal e atividades de secreção, afetando indiretamente a composição e função do microbioma intestinal. Alguns subprodutos moleculares são capazes de atravessar a barreira intestinal e hematoencefálica, possibilitando uma transmissão de sinais no sistema Cérebro-Intestino-Microbiota46. Intervenção probiótica na modulação da microbiota intestinal no TEA Estudos utilizando roedores, sob uso de um modelo de ativação imune materna com comportamento característico do TEA, identificaram que além das anormalidades comportamentais, os roedores apresentaram aumento da permeabilidade intestinal, alterações no microbioma e no metaboloma (conjunto completo de metabólitos), como consequência da inflamação30. Nesse estudo, a administração oral de Bacteroides fragilis corrigiu a alta permeabilidade intestinal, melhorou a microbiota intestinal, os perfis metabólicos do sangue, além dos comportamentos associados ao TEA47. Outros estudos encontraram redução de déficits sociais após introdução de Lactobacillus reuteri em roedores, enquanto que crianças tailandesas com TEA tratadas com uma variedade de Lactobacillus (L. plantarum PS128) apresentaram redução de déficits de comportamentos e melhora de disfunções da comunicação social48. Crianças que receberam probióticos (cepas de Lactocillus acidophilus, Lactobacillus casei, Lactobacillus delbruecki, Bifidobacteria longum, Bifidobacteria bifidum, 2 bilhões de UFC de cada) durante um período de 6 meses apresentaram melhora no comportamento relacionado ao TEA, consistência das fezes e diarreia49. Transplante de microbiota fecal O transplante de microbiota fecal (TMF) se caracteriza pela transferência de bactérias fecais contidas na microbiota intestinal de um doador saudável para um receptor com o objetivo de restaurar o estado saudável da microbiota (homeostase intestinal) através da repopulação do intestino50. Esse transplante é geralmente feito por meio de endoscopias, enemas ou alimentação oral de material liofilizado50,51. Revisão sistemática50 reuniu estudos de intervenção TMF em autistas e 5 foram analisados: 2 prospectivos52,53, 2 retrospectivos54,55 e um relato de caso de um adulto de 18 anos com Síndrome de Asperger56. É importante ressaltar que a população dos estudos foi majoritariamente composta por crianças e visando a duração da intervenção aplicada nos estudos, houve tratamento de TMF com diferentes tempos de acompanhamento e ciclos no tratamento variando em meses. Todos os estudos demonstraram melhora significativa nas ferramentas de avaliação diagnóstica para o autismo após o TMF com melhora nos sintomas centrais do TEA (comportamento relacionado ao autismo, flutuações emocionais e comunicação social) indicando efeito benéfico a curto prazo50,52,53-56. Também houve diminuição significativa nos sintomas gastrointestinais (diarreia, constipação, dor abdominal) e melhora na consistência das fezes das crianças com TEA50. Além disso, KANG et al., 2019 em estudo com os mesmos participantes após 2 anos de sua Microbiota intestinal e o eixo intestino-cérebro no TEA: uma revisão integrativa 7 J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 – 1-15 intervenção, notaram melhoras promissoras não só nos sintomas centrais do TEA, como também nos sintomas gastrointestinais a longo prazo57. Ao analisar a população de bactérias intestinais, aumentaram significativamente a diversidade de bactérias e abundância relativa de Bifidobacterium e Prevotella após o TMF52,54. Também houve aumento significativo da abundância relativa de Desulfovibrio52. Com relação ao gênero bacteriano após o TMF na Síndrome de Asperger56, aumentaram as abundâncias relativas de Roseburia, Bifidobacterium, Ruminococcus, Flavobacteriales, Prevotella e Faecalibacterium, e com diminuição de Coprococcus, Dorea, Veillonella, Clostridium, Haemophilus, Streptococcus e Romboutsia56. A Tabela 1 a seguir resume todos os dados dos estudos sobre TMF citados anteriormente para uma melhor visualização. Tabela 1. Estudos de intervenção de Transplante de Microbiota Fecal em indivíduos com TEA* visando melhoria de comportamento característico e sintomas gastrointestinais Estudo População Situação socioeconômica**, raça*** e gênero (M/F) Idade Intervenção Duração Localização Desfecho Li et al. 2021 56 (40 com TEA e 16 neurotípicas controles) 16 (15/1) e 40 (37/3) 3-17 anos (média TEA = 8.03+-3.73) Transplante de Microbiota Fecal Tratamento de 4 semanas aliado ao acompanhamento de 8 semanas consecutivas Sudoeste da China Alteração na composição da microbiota intestinal, melhora de sintomas gastrointestinais, consistência das fezes e comportamento relacionado ao TEA Pan et al. 2022 42 crianças com TEA 42 (34/8) Mediana = 6 anos (intervalo interquartil 3.75-8.25) Transplante de Microbiota Fecal 5 ciclos de tratamento durante análise de 6 meses Guangdong, China Melhora de sintomas gastrointestinais, consistência das fezes e comportamento relacionado ao TEA Zhang et al 2022 49 (24 com TEA e constipação e 25 com TEA sem constipação) 24 (19/5) e 25 (22/3) 3-14 anos (média constipação = 5.67+-3.08; média sem constipação = 6.72+-3.94) Transplante de Microbiota Fecal 2 ciclos de tratamento durante análise de 4 semanas Guangdong, China Melhora nos sintomas gastrointestinais, consistência das fezes e comportamento relacionado ao TEA Huang et al 2022 1 Adulto com Asperger* 1 (1/0) 18 anos Transplante de Microbiota Fecal 3 ciclos de tratamento com avaliaçãoapós 1 semana, 1 mês e 3 meses Dongguan, China Alteração na composição da microbiota intestinal, melhora dos sintomas gastrointestinais, consistência das fezes e sintomas relacionados a síndrome de Asperger Kang et al. 2017 38 (18 com TEA e 20 neurotípicas controles similiares com relação a gênero e IMC) 18 (16/2) e 20 (18/2) 7-16 idade (média = 11) Terapia de Transferência de Microbiota (de antibiótico anteriormente ao início do TMF) 18 semanas, sendo 10 semanas de tratamento e 8 semanas de acompanhamento Phoenix, Arizona, EUA Alteração na composição da microbiota intestinal e maior diversidade, melhora nos sintomas gastrointestinais, consistência das fezes, além do comportamento relacionado ao TEA Kang et al. 2019 Apenas as 18 crianças com TEA 18 (16/2) Não informado Após 2 anos do estudo Kang et al. 2017, os participantes foram novamente avaliados Phoenix, Arizona, EUA Alteração na composição da microbiota intestinal e maior diversidade, melhora dos sintomas gastrointestinais, consistência das fezes, além do comportamento relacionado ao TEA * Síndrome de Asperger está englobada no Transtorno do Espectro Autista ** Informações não disponibilizados pelos artigos *** Informações não disponibilizados pelos artigos Risco de viés: desfecho sintomas gastrointestinais e consistência das fezes A Tabela 2 evidencia os dados resumidos. Tendo em vista o primeiro domínio sobre fatores que podem gerar confusão nos desfechos (D1), notou-se que todos estudos apresentavam sério risco de viés52,53-56, pois apenas 1 deles mensurou a dieta dos participantes antes do início do estudo52, mas não após o final da intervenção, enquanto os outros não a mensuraram e o estudo após 2 anos da intervenção57 não notou alterações na dieta dos indivíduos. A dieta pode ser um fator de confusão devido a possibilidade de impacto na consistência das fezes e também nos sintomas gastrointestinais, como exemplo constipação, de acordo com as características da dieta em todos os estudos. Além disso, apenas 1 estudo54 avaliou presença de terapias comportamentais, de comunicação ou educacional, mas não separou os 29 indivíduos de 42 totais da análise do desfecho final, enquanto os outros estudos52,53,55-57 não avaliaram presença de terapias intensivas, o que pode impactar diretamente nos sintomas gastrointestinais e/ou consistência das fezes via eixo intestino-cérebro. Camargo LOS8 J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 – 1-15 O terceiro domínio relacionado a classificação de intervenções (D3) demonstrou que um estudo obteve sério risco de viés54, pois não especificou antes do início quantos cursos de FMT cada indivíduo iria receber e durante o estudo os participantes receberam diferentes doses: dos 42 participantes, 30 completaram 2 ciclos, 23 completaram 3, 14 completaram 4 e 6 completaram 5 ciclos. Isso pode gerar um sério risco de viés, pois podem ter efetuado mais ciclos de FMT em indivíduos menos responsivos para melhorar o desfecho final. Também existe a possibilidade de alguns pacientes não terem se adequado a intervenção, mas a grande questão é que em nenhum momento o artigo explicou os diferentes ciclos. Por outro lado, os outros estudos apresentaram baixo risco de viés52,53,55-57. O domínio de risco de viés devido a desvios nas intervenções pretendidas (D4) apresentou sério risco de viés em 5 estudos52-54,56,57 e um estudo apresentou crítico risco de viés55 devido a co-intervenções que podem ter afetado o desfecho final. O único julgamento de crítico risco de viés55 ocorreu devido ao estudo não mensurar o uso de medicamentos e probióticos, além de que todos os participantes fizeram uso antes e durante o estudo, o que podem ter influenciado em melhora da microbiota, e consequente, sintomas gastrointestinais (constipação). Todos os outros estudos foram julgados com sério risco de viés, pois: excluíram apenas participantes que faziam uso de medicamentos para doenças gastrointestinais e que tenham feito uso de probióticos e/ou antibióticos 7 dias antes do screening, mas não mensuraram medicamentos controlados e uso de probióticos/ antibióticos durante o estudo que podem afetar os sintomas gastrointestinais53; 29 dos 42 participantes podem ter feito uso de medicamentos durante a intervenção54; não foi especificado ou mensurado uso de medicamentos e probióticos56; excluíram indivíduos que fizeram uso de antibióticos nos últimos 6 meses e uso de probióticos nos últimos 3 meses, mas não checaram ao final e durante o estudo, além de no histórico médico de 2 anos coletado não constar uso de medicamentos52; após 2 anos do estudo de Kang et al., 2017, os pesquisadores citam que mudanças nas medicações foram baixas, mas não mensuraram uso de probióticos e antibióticos nesse período57. Dessa forma, todas co-intervenções não controladas podem ter afetado o desfecho final, e esse, não pode ser atribuído apenas ao TMF. No domínio sobre viés na medição dos desfechos (D6), dois estudos apresentaram sério risco de viés, pois os pais das crianças preencheram as escalas de avaliação do comportamento, sintomas gastrointestinais e avaliaram consistência das fezes53, e a ocorrência de constipação foi autorrelatada, mas não especificou se os pesquisadores aplicaram a consistência das fezes54. Todos os outros estudos foram avaliados com risco moderado de viés: os pais fizeram autorrelato da consistência das fezes, as quais influenciaram na classificação de constipação mesmo recebendo fotos de referência de características morfológicas para avaliação e podem ter sido influenciadas pela expectativa de melhora55; o paciente com síndrome de Asperger pode ter avaliado positivamente suas fezes devido a consciência dos efeitos benéficos da intervenção, pois o estudo não especificou quem a fez56; consistência das fezes e sintomas gastrointestinais foram avaliados pelos pais através de formulário52; após dois anos do estudo anterior52, a expectativa de melhora da intervenção pode ter influenciado em uma classificação mais branda dos sintomas gastrointestinais e melhora da consistência das fezes, porque um sintoma antes visto como grave, pode ter sido classificado como moderado57. Nos domínios sobre seleção dos participantes (D2), dados perdidos (D5) e seleção dos resultados (D7), todos os estudos52-57 apresentaram baixo risco de viés, o que indica que a probabilidade de a seleção dos participantes ter sido proposital, que dados tenham sido perdidos ou que resultados tenham sido selecionados dentre inúmeros desfechos é baixo. Por fim, o total do risco do viés dos estudos ficou classificado como sério ou crítico e o Gráfico 1 apresenta uma melhor visualização da distribuição dos riscos em cada domínio. Risco de viés: desfecho comportamento relacionado ao TEA A Tabela 3 evidencia os dados resumidos. Os domínios sobre seleção dos participantes (D2), dados perdidos (D5) e seleção dos resultados (D7), todos os estudos52-57 apresentaram baixo risco de viés, o que indica que a probabilidade de a seleção dos participantes ter sido proposital, que dados tenham sido perdidos ou que resultados tenham sido selecionados dentre inúmeros desfechos é baixo. Tendo em vista o primeiro domínio sobre fatores que podem gerar confusão nos desfechos (D1), notou-se que quase todos estudos apresentavam sério risco de viés52,53,55-57, pois nenhum deles mensurou terapias intensivas, enquanto que apenas 1 estudo54 foi avaliado como crítico risco de viés, pois 29 dos 42 participantes receberam terapias comportamentais, de comunicação, educacional ou uso de medicamentos, os quais impactam diretamente no comportamento e podem ter influenciado em melhores avaliações nas escalas utilizadas. Com relação ao terceiro domínio (D3), quase todos os estudos apresentaram baixo risco de viés52,53,55-57, mas apenas 1 foi avaliado como sério54 devido a classificação de sua intervenção citada no último tópico. Microbiota intestinale o eixo intestino-cérebro no TEA: uma revisão integrativa 9 J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 – 1-15 No quarto domínio (D4), quase todos os estudos52,53,55-57 apresentaram sério risco de viés, pois não excluíram participantes que fizeram uso de medicamentos para ajustes comportamentais53, não mensuraram uso de medicamentos52,55,56 ou apenas citaram que mudanças na medicação foram baixas57, e portanto, podem ter influenciado em mudanças comportamentais positivas dos indivíduos no desfecho final. Além disso, o único estudo que recebeu julgamento crítico54 declarou que boa parte dos participantes fazia uso de medicamentos. O sexto domínio (D6) demonstrou que quase todos os estudos foram avaliados com baixo risco de viés52,54-57, enquanto que apenas 1 estudo foi classificado com sério risco53, porque o formulário de avaliação do comportamento das crianças foi preenchido pelos pais e a consciência da possibilidade de efeitos positivos pode ter impactado em melhores escores, enquanto que nos outros estudos isso foi preenchido ou validado por um profissional capacitado. Por fim, o total do risco do viés dos estudos ficou classificado como sério ou crítico e o Gráfico 2 apresenta uma melhor visualização da distribuição dos riscos em cada domínio. Tabela 2. Risco de viés do desfecho sintomas gastrointestinais e consistência das fezes Domínios de risco de viés D1 D2 D3 D4 D5 D6 D7 Total Es tu do s Li et al., 2021 x + + x + x + x Pan et al., 2022 x + x x + x + x Zhang et al., 2022 x + + ! + – + ! Huang et al., 2022 x + + x + – + x Kang et al., 2017 x + + x + – + x Kang et al., 2019 x + + x + – + x Domínios: D1: Viés devido a confusão D2: Viés devido a seleção dos participantes D3: Viés na classificação das intervenções D4: Viés devido a desvios das intervenções pretendidas D5: Viés devido a dados perdidos D6: Viés na medição dos desfechos D7: Viés na seleção dos resultados reportados Jugamento ! Crítico x Sério – Moderado + Baixo Gráfico 1. Resumo do risco de viés do desfecho sintomas gastrointestinais e consistência das fezes 0% 25% 50% 75% 100% Viés devido a confusão Viés devido a confusão Viés devido a confusão Viés devido a confusão Viés devido a confusão Viés devido a confusão Viés devido a confusão Total risco de viés Baixo risco Moderado risco Sério risco Crítico risco Camargo LOS10 J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 – 1-15 DISCUSSÃO Sintomas gastrointestinais no TEA Com relação aos sintomas gastrointestinais mais comuns (diarreia e constipação)24,25, a gravidade dos sintomas estava correlacionada positivamente com o grau das características do espectro39, e também é correlacionada com uma microbiota intestinal menos diversa38. Dessa forma, quanto maiores os índices em escalas de avaliação do comportamento do Transtorno do espectro autista, maior era a gravidade dos sintomas e menos diversa era a microbiota intestinal. Além disso, um trânsito intestinal prejudicado poderia ser correlacionado com a seletividade alimentar. A seletividade alimentar é uma ingestão restrita de alimentos, a qual resultaria em menor ingestão de fibras e consequente trânsito intestinal prejudicado, além de que problemas de comportamento resultantes muitas vezes de mudanças mínimas nas rotinas que podem influenciar negativamente o hábito intestinal saudável. Enquanto que, por outro lado, a diarreia poderia estar relacionada a alguma disbiose da microbiota intestinal2. Vale ressaltar que a maioria dos estudos com TEA envolvendo implicações gastrointestinais são quantificados através do relato dos pais e/ou cuidadores (as), devido ao público (geralmente crianças) possuir déficits de comunicação. Também é válido destacar que, segundo a DSM-V, o desenvolvimento atípico da linguagem é classificado como uma co-ocorrência do TEA, e, portanto, existem casos em que isso pode não existir1. Tabela 3. Risco de viés do desfecho comportamento relacionado ao TEA Domínios de risco de viés D1 D2 D3 D4 D5 D6 D7 Total Es tu do s Li et al., 2021 x + + x + x + x Pan et al., 2022 ! + x ! + + + ! Zhang et al., 2022 x + + x + + + x Huang et al., 2022 x + + x + + + x Kang et al., 2017 x + + x + + + x Kang et al., 2019 x + + x + + + x Domínios: D1: Viés devido a confusão D2: Viés devido a seleção dos participantes D3: Viés na classificação das intervenções D4: Viés devido a desvios das intervenções pretendidas D5: Viés devido a dados perdidos D6: Viés na medição dos desfechos D7: Viés na seleção dos resultados reportados Jugamento ! Crítico x Sério + Baixo Gráfico 2. Resumo do risco de viés do desfecho comportamento relacionado ao TEA 0% 25% 50% 75% 100% Viés devido a confusão Viés devido a confusão Viés devido a confusão Viés devido a confusão Viés devido a confusão Viés devido a confusão Viés devido a confusão Total risco de viés Baixo risco Sério risco Crítico risco Microbiota intestinal e o eixo intestino-cérebro no TEA: uma revisão integrativa 11 J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 – 1-15 Alteração da permeabilidade intestinal no TEA Os quadros de diarreia relacionados a uma maior permeabilidade intestinal30 ocorrem devido a defeitos nas junções de oclusão das células epiteliais que resultam também em menor absorção de nutrientes4, pois as junções permitem a passagem de substâncias que em situações de um intestino saudável não acontecem. Com relação ao teste de duplos açúcares31, um alto valor da razão manitol/lactulose significa maior permeabilidade intestinal, pois a perda da integridade intestinal eleva a absorção de lactulose, enquanto que a perda de áreas absortivas diminui a absorção de manitol58,59. Além disso, altos níveis de zonulina sérica, possivelmente, indicam uma maior abertura das zônulas de oclusão e consequente aumento da permeabilidade intestinal32. Dessa forma, uma alta permeabilidade significa uma passagem não só de moléculas maiores através do epitélio, mas também de substâncias tóxicas e até metabólitos de bactérias, os quais podem ter grandes consequências no hospedeiro22. Microbiota intestinal no TEA Como citado, notou-se redução significativa do gênero Prevotella, Coprococcus e Veillonellaceae, as quais são bactérias responsáveis pela degradação de carboidratos e fermentação38. Nesse sentido, menores níveis de AGCC podem, talvez, ser consequência de uma população reduzida de bactérias fermentativas e degradadoras de carboidratos. Isso se explica, devido ao fato de as bactérias da microbiota intestinal produzirem enzimas que degradam as fibras alimentares em açúcares. Em seguida, esses açúcares são utilizados pelas bactérias como substratos fermentativos para produção dos AGCC, como butirato, propionato e acetato12. Os Bacteroides ssp. são um gênero do filo Bacteroidetes e são conhecidos como os mais capazes de degradar polissacarídeos da dieta34. Assim sendo, se as pessoas com TEA possuem menor abundância do filo Bacteroidetes haverá menor produção de AGCC. Tendo em vista que notou-se aumento do crescimento microbiano de várias espécies bacterianas e do fungo Candida nos autistas42, a infecção consequente está relacionada com níveis elevados de IgA no público autista quando comparado aos neurotípicos, o que influencia diretamente na proliferação de bactérias, dificultando o crescimento microbiano e consequentemente influenciando em uma possível disbiose43. A composição exata da microbiota intestinal do TEA ainda não está bem definida, provavelmente por conta dos diferentes métodos utilizados em cada estudo, análise estatística e principalmente uma padronização da população (sexo, idade, dieta)23. No entanto, a partir os dados trazidos é plausível dizer que existe uma disbiose persistente no público TEA, e essa consequentemente, pode produzir metabólitos bacterianos e fatores neurotóxicos, os quais teriam um impacto em toda a fisiopatologia do TEA, principalmente no cérebro através da passagem pela barreira hematoencefálica33,que possui relação com o eixo intestino-cérebro52,60. Eixo intestino-cérebro O aumento da permeabilidade intestinal, permite que metabolitos de bactérias, potencialmente neuroativos (agem no sistema nervoso central), cruzem facilmente a barreira intestinal22, o que não ocorre em situações saudáveis de permeabilidade intestinal adequada. A ideia de uma mucosa intestinal mais permeável, é que essa permite que produtos da digestão de alimentos passem para o sangue e induzam uma resposta antigênica, a qual afeta o Sistema Nervoso Central (SNC)61. Além disso, a maior permeabilidade intestinal afeta o funcionamento cerebral através de fatores neuroimunológicos e neuroendócrinos contribuindo, potencialmente, para a patogênese do TEA62,63. Dessa forma, uma barreira intestinal mais permeável permite que os produtos da digestão dos alimentos ou metabólitos de bactérias sejam enviados diretamente ao SNC através da barreira hematoencefálica que está com níveis elevados da proteína claudina32. A proteína claudina está relacionada com a abertura das junções de oclusão32, e portanto, a barreira hematoencefálica torna- se mais permeável, permitindo que esses produtos ou metabólitos tenham impacto diretamente no cérebro. Intervenção probiótica na modulação da microbiota intestinal no TEA Segundo a Resolução da Diretoria Colegiada - RDC Nº 241, de 26 de julho de 2018 publicada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), probiótico é definido como um “microrganismo vivo que, quando administrado em quantidades adequadas, confere um benefício à saúde do indivíduo”. Como visto, o papel do probiótico no equilíbrio da microbiota intestinal controlando a disbiose traz efeitos positivos no intestino, ao aliviar sintomas como diarreia, constipação e outras30. Foi possível notar um efeito positivo a curto prazo nos sintomas característicos do TEA e gastrointestinais, no entanto, pelos dados terem sido relatados pelos cuidadores pode existir um grande viés, principalmente na falta de padronização da consistência das fezes49, pois a Camargo LOS12 J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 – 1-15 inexistência de profissionais treinados e de um ambiente controlado podem gerar uma imprecisão dos dados. Transplante de microbiota fecal É importante ressaltar que a população dos estudos foi majoritariamente composta por crianças53-55, sendo apenas o relato de caso composto por 1 homem de 18 anos56 diagnosticado com síndrome de Asperger (um subtipo do TEA). A quantificação da população presente nos estudos foram de 40 crianças com TEA (3-17 anos) e 16 neurotípicas controle do sudoeste da China53, 49 pacientes autistas (24 com constipação e 25 sem constipação de 3-14 anos) de Guangdong na China55 e 42 crianças autistas (mediana de 6 anos) do mesmo local54, 38 crianças entre 7 e 16 anos, com idade média de 11 anos sendo 18 crianças com TEA e 20 neurotípicas similares com relação a gênero e IMC da região de Phoenix, Arizona52, além do homem de 18 anos de Dongguan na China56. Tudo isso resulta em uma média de idade estimada de 9 anos e um total de 149 crianças mais um adulto que participaram da intervenção, tendo em vista que desse total, apenas 14% (n=21) são do sexo feminino, enquanto que 86% (n=129) são do sexo masculino. Visando a duração da intervenção aplicada nos estudos, houve tratamento de TMF durante 4 semanas aliado ao acompanhamento de 8 semanas consecutivas53, dois ciclos de tratamento durante analise de 4 semanas55, cinco ciclos de tratamento durante analise de 6 meses54 e 3 ciclos de tratamento com avaliação após 1 semana, 1 mês e 3 meses56. Por fim, o último estudo teve duração de 18 semanas, sendo 10 semanas de tratamento e 8 semanas de acompanhamento52 e após 2 anos foi observado novamente os sintomas gastrointestinais e comportamento característico do TEA através das escalas de avaliação do comportamento57. Além disso, é importante destacar que o uso de probióticos pode interferir nos resultados do TMF, mas nem todos os estudos utilizaram isso como critério de exclusão: não descreveu o uso ou utilizou como critério de exclusão52,56, participantes que fizeram uso em até 1 mês anterior a intervenção foram excluídos54, pacientes que faziam o uso ou fizeram uso em até 7 dias antes da intervenção foram excluídos53 e todos os pacientes participantes do estudo já faziam o uso antes ou durante a intervenção55. Dessa forma, a manipulação da microbiota intestinal no autismo se mostrou eficiente a curto e a longo prazo em diminuir os sintomas gastrointestinais e comportamento característico do TEA. No entanto, ao interpretar esses dados, não se deve deixar de lado o pequeno número de pessoas envolvidas nos estudos que impossibilitam uma aplicabilidade dos resultados em uma população mais diversa, a localização geográfica dos estudos que englobou majoritariamente participantes chineses, ausência de dados sobre situação socioeconômica, raça, e portanto, não se aplica a população em geral. O público que foi majoritariamente composto por indivíduos do sexo masculino e menores do que 18 anos, e assim, os resultados não podem ser extrapolados para adultos e para ambos os gêneros. As características retrospectivas de alguns estudos é um ponto que também deve ser levado em consideração, ademais fatores não mensurados, tais como, a dieta dos participantes, a qual também irá impactar na microbiota intestinal54,55. E por fim, é importante destacar que nenhum dos estudos de intervenção TMF são estudos controle randomizados com grupo placebo, o que traz uma fidedignidade menor para os achados. CONCLUSÃO A partir dos dados apresentados é possível notar que existe maior prevalência de distúrbios gastrointestinais, sobretudo a constipação e diarreia, em crianças portadoras do Transtorno do Espectro Autista, e isto pode ser associado à disbiose na microbiota intestinal. A modulação da microbiota intestinal por meio da intervenção nutricional com probióticos e o procedimento de Transplante de Microbiota Fecal mostraram-se promissoras no controle dos sintomas gastrointestinais e na redução a curto prazo dos sintomas característicos do espectro, enquanto apenas 1 estudo envolvendo o transplante apresentou melhoras a longo prazo. A modulação da microbiota intestinal pode auxiliar positivamente na redução dos comportamentos característicos do espectro e sintomas gastrointestinais, possivelmente pela correção da disbiose e permeabilidade intestinal, redução da produção de fatores neuro tóxicos, e consequente, diminuição da passagem desses fatores através da barreira hematoenceálica. Por outro lado, para que exista a manutenção desse estado de controle ao longo do tempo, é importante a adequação da nutrição, no entanto, existe uma grande barreira persistente no público autista que é a seletividade alimentar. Tendo em vista que a seletividade alimentar está presente, em média, em mais de 70% das crianças portadoras do TEA64, é possível que essa seletividade seja um fator limitante para a manutenção de uma microbiota intestinal balanceada e saudável, e talvez, também possa ter uma relação de influência na causalidade da disbiose encontrada nesta população, pois nessas situações a alimentação do indivíduo está restrita a uma pequena variedade de alimentos. Tendo em vista que as alterações sensoriais no TEA são evidentes, outro ponto importante a ser pensado é que experiências que gerem ansiedade podem ter desfechos Microbiota intestinal e o eixo intestino-cérebro no TEA: uma revisão integrativa 13 J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 – 1-15 negativos no trato gastrointestinal, o que pode também ser um fator que impacte diretamente nesses sintomas, a partir da relação entre o eixo intestino-cérebro. Adicionalmente, quando se pensa na rigidez comportamental do TEA, a qual impacta diretamente na permanência em ambientes seguros e conhecidos, um ambiente laboratorial e observacional pelo fato de sernovo, pode se tornar muito estressor e também influenciar em desfechos negativos no trato gastrointestinal. Além disso, os estudos com humanos foram baseados em relatos dos cuidadores e pais, ou melhor, relatos indiretos, devido à dificuldade de comunicação do público portador do espectro. A dificuldade de comunicação e a interocepção – consciência interna do corpo – poderiam ser fatores limitantes para um relato direto e mais preciso dos sintomas no TEA. Algo importante a se destacar é que a maioria dos estudos apresentou risco de viés sério ou crítico no total dos domínios da ferramenta ROBINS-I, principalmente por conta de possíveis fatores que podem ter influenciado nos desfechos finais, e assim, devem ser interpretados com cautela. Dessa forma, a modulação da microbiota intestinal se apresenta com uma nova estratégia de ampliar o cuidado no Transtorno do Espectro Autista. Porém, a variabilidade de resultados evidencia a característica diversa do Espectro ou falta de padronização devido aos estudos na área estarem em ascensão, e portanto, ainda são necessários uma padronização de trabalhos, controle de variáveis que possam influenciar no desfecho final e homogeneização das amostras para que a análise seja mais eficaz e o resultado, consequentemente, mais próximo da realidade, além de estudos que busquem trabalhos integrados interprofissionais para contribuir com a melhora na qualidade de vida dessa população. LIMITAÇÕES Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. Em primeiro lugar, a alta prevalência de seletividade alimentar pode limitar a eficácia da modulação da microbiota intestinal via Transplante de Microbiota Fecal (TMF), pois é necessária uma alimentação balanceada para manutenção de uma microbiota saudável, e portanto, apenas o transplante não é suficiente. Dessa forma, a não avaliação da dieta dos participantes nos estudos de TMF é uma grande limitação que pode ter influenciado nos resultados. Além disso, as alterações sensoriais e a ansiedade características do TEA podem impactar negativamente o trato gastrointestinal, influenciando os resultados e tornando a replicação mais desafiadora em ambientes laboratoriais estressantes. Outro ponto importante é a dificuldade de comunicação e interocepção presente no TEA, o que pode comprometer a precisão dos relatos de sintomas gastrointestinais, pois as informações dependem em grande parte de observações indiretas de cuidadores e pais, como exemplo, desconfortos gastrointestinais podem ser dificilmente mensurados. Por fim, a variabilidade observada nos resultados reflete a diversidade intrínseca do transtorno do espectro autista e a falta de padronização nos estudos atuais, destacando a necessidade de novas pesquisas adotando critérios homogêneos e uma abordagem interprofissional para melhorar a qualidade de vida dessa população. Com relação as características dos participantes dos estudos, além do número ser pequeno, os resultados carecem de informações sobre situação socioeconômica, raça e a maior parte deles é do sexo masculino, e portanto, não podem ser generalizados. A avaliação do risco de viés demonstrou que todos os estudos envolvendo o Transplante de Microbiota Fecal apresentaram no total dos domínios um risco de viés de sério ou crítico, o que significa que os resultados obtidos podem ter sido influenciados por outros fatores e não diretamente pela intervenção, evidenciando a baixa qualidade dos estudos provavelmente devido aos estudos estarem em ascenção, e dessa forma, isso pode auxiliar próximos pesquisadores no desenho de seus estudos. Adicionalmente, devido ao estudo em questão não ter sido feito em outras bases de dados além do PubMed, como por exemplo, Scielo, podem ter sido perdidos alguns estudos relevantes. Além de que, estudos que o enfoque não era apenas no TEA, mas sim em transtornos neuropsiquiátricos e que avaliaram a microbiota intestinal, também podem ter sido perdidos pela estratégia de seleção dos estudos. A eliminação dos estudo pelo título também pode ter sido uma limitação. Por fim, é importante citar que a avaliação do risco de viés foi feita apenas pelo autor do trabalho e avaliou-se apenas os desfechos de sintomas gastrointestinais e comportamento característico do TEA, pois são da área de experiência do autor, e portanto, optou-se em não avaliar o desfecho composição da microbiota intestinal. CONTRIBUIÇÕES INDIVIDUAIS Luís Otávio Santos Camargo foi o único autor envolvido no processo de elaboração do manuscrito. CONFLITO DE INTERESSE Não houve conflito de interesse. Camargo LOS14 J Bras Psiquiatr. 2025;74:e20240044 – 1-15 AGRADECIMENTOS Um agradecimento especial a UNIFESP que me proporcionou a oportunidade de preparar um trabalho de conclusão de curso que foi a matéria-prima para elaboração do manuscrito e também aos meus pais que não me permitiram desistir e acreditaram em meu potencial desde o começo da faculdade de nutrição. Sem vocês tudo isso não seria possível. REFERÊNCIAS 1. Lai M-C, Lombardo MV, Baron-Cohen S. Autism. 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