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INTERTEXTUALIDADE 1 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Intertextualidade A intertextualidade é a presença textual de elementos semânticos e/ou formais que se referem a outros textos produzidos anteriormente. Ela pode se manifestar de modo explícito, permitindo que o leitor identifique a presença de outros textos, ou de modo implícito, sendo identificada somente por quem já conhece a referência. Por meio dessa relação entre diferentes textos, a intertextualidade permite uma ampliação do sentido, na medida em que cria novas possibilidades e desloca sentidos. Desse modo, ela pode ser utilizada para melhorar uma explicação, apresentar uma crítica, propor uma nova perspectiva, produzir humor etc. A intertextualidade se refere à presença de elementos formais ou semânticos de textos, já produzidos, em uma nova produção textual. Em outras palavras, refere-se aos textos que apresentam, integral ou parcialmente, partes semelhantes ou idênticas de outros textos produzidos anteriormente. Essa intertextualidade pode ser indicada explicitamente no texto ou pode vir “disfarçada” pela lingua- gem do autor. Em todo caso, para que o sentido da relação estabelecida seja compreendido, o leitor precisa identificar as marcas intertextuais e, em alguns casos, conhecer e compreender o texto anterior. Em trabalhos científicos, como artigos e dissertações, é comum haver citação de ideias ou informações de outros textos. A citação pode ser direta, cópia integral do trecho necessário, ou indireta, quando se explica a informação desejada com suas próprias palavras. As duas formas compreendem a intertex- tualidade, pois aproveitam ideias já produzidas para contribuir com as novas informações. A intertextualidade também pode ocorrer no nível formal, quando o autor repete elementos da estrutura anterior, mas altera outros aspectos, construindo, com isso, um novo texto, com ligações explícitas com a produção anterior. É muito comum nos gêneros artísticos, como poesia e música, em textos publici- tários etc. Tipos De Intertextualidade Alusão – é o ato de indicar ou insinuar um texto anterior sem, no entanto, aprofundar-se nele. Esse método de intertextualidade apresenta de forma superficial e objetiva informações, ideias ou outros dados presentes em texto ou textos anteriores. Exemplo: Como diria o poeta, amanhã é outro dia. Paródia – é o tipo de intertextualidade em que se apresenta uma estrutura semelhante à de um texto anterior, mas com mudanças que interferem e/ou subvertem o sentido do texto, o qual passa a apre- sentar forte teor crítico, cômico e/ou sátiro. Desse modo, além de construir-se um novo texto, com semelhanças a um anterior, procura-se também evidenciar uma mudança de sentido. Exemplo: “Minha terra tem macieiras da Califórnia onde cantam gaturanos de Veneza. Os poetas da minha terra são pretos que vivem em torres de ametista, os sargentos do exército são monistas, cubistas, os filósofos são polacos vendendo a prestações. A gente não pode dormir com os oradores e os pernilongos. Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda Eu morro sufocado em terra estrangeira. Nossas flores são mais bonitas nossas frutas mais gostosas mas custam cem mil réis a dúzia. Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade e ouvir um sabiá com certidão de idade!” INTERTEXTUALIDADE 2 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Murilo Mendes Paródia da “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias Paráfrase – é o processo de intertextualidade no qual o sentido do texto original é reafirmado, porém com pouca ou nenhuma semelhança estrutural. Nesse tipo, o intuito é reescrever o assunto do texto original, aproveitando principalmente os elementos semânticos já existentes, para produzir uma nova linguagem com o mesmo tema. Exemplo: “Meus olhos brasileiros se fecham saudosos Minha boca procura a ‘Canção do Exílio’. Como era mesmo a ‘Canção do Exílio’? Eu tão esquecido de minha terra… Ai terra que tem palmeiras Onde canta o sabiá!” Carlos Drummond de Andrade Paráfrase da “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias Epígrafe – é a reprodução de um pequeno trecho do texto original no início de um novo texto. Ela, comumente, vem alocada no início da página, no canto direito e em itálico. Apesar de ser um trecho “solto”, a epígrafe sempre tem uma relação com o conteúdo do novo texto. “Apesar de você amanhã há de ser outro dia.” Chico Buarque Citação – é quando o autor referencia outro texto por ter pertinência e relevância com o conteúdo do novo texto. A citação pode ocorrer de forma direta, quando se copia o trecho na íntegra e o destaca entre aspas, ou pode ser indireta, quando se afirma o que o autor do texto original disse, mas expli- cando os conceitos com novas palavras, relacionando a abordagem com o novo conteúdo. Segundo Sócrates, “Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância”, logo, de nada adi- anta ter acúmulo de informações, quando não se aplica a autocrítica e a reflexão como ferramentas de reconhecimento das potências e limites do nosso conhecimento. Diferenças entre intertextualidade implícita e intertextualidade explícita A intertextualidade pode se expressar de dois modos: implícito ou explícito. O modo implícito enquadra as produções que, apesar de referenciarem informações, conceitos e dados já apresentados por textos anteriores, não o farão com cópias integrais nem com indicação explícita. Assim como a paráfrase de Drummond, a intertextualidade implícita cita sem evidenciar ou anunciar. Caso o leitor não conheça o texto anterior, pode encontrar dificuldades de perceber alguma relação estabelecida. Já a intertextualidade explícita é aquela que se expressa diretamente na superfície textual, ou seja, apresenta semelhanças ou cópia de trechos do texto original. Nesse processo, mesmo que o autor não conheça o primeiro texto, ele identificará, ao menos, que existe uma referência a outra produção. Exemplos de intertextualidade A intertextualidade é presente em diferentes gêneros textuais, mas tem um espaço privilegiado nos gêneros artísticos. Nesses contextos, ela é utilizada, também, como ferramenta de inspiração e criati- vidade, pois provoca uma ressignificação de textos já conhecidos, em novos contextos. Segue alguns exemplos de intertextualidade em gêneros textuais artísticos: INTERTEXTUALIDADE 3 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Na música: “De Jackson do Pandeiro, nem Cremilda De Michael Jackson, nem a Billie Jean De Jimi Hendrix, nem a doce Angel Nem Ângela nem Lígia, de Jobim Nem Lia, Lily Braun nem Beatriz Das doze deusas de Edu e Chico Até das trinta Leilas de Donato E de Layla, de Clapton, eu abdico Só você, Canto e toco só você Só você Que nem você ninguém mais pode haver” (Lenine) A música do cantor brasileiro Lenine apresenta uma declaração de amor do eu lírico à sua musa inspi- radora. Na letra, o poeta faz referência a diferentes musas, já reconhecidas socialmente, que são ins- pirações de outros, mas não dele, pois a sua única musa é sua amada, verdade confirmada em “só você”, contrapondo-se à enumeração de musas referenciadas. Na literatura: “Minha terra tem palmares onde gorjeia o mar Os passarinhos daqui Não cantam como os de lá Minha terra tem mais rosas E quase que mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra” (Oswald de Andrade) No segundo exemplo, poema de Oswald de Andrade, encontramos a intertextualidade com o poema “Canção do Exílio”, publicado anteriormente pelo poeta Gonçalves Dias. O segundo texto apresenta elementos que evidenciam essa relação, como a repetição de expressões como “Minha terra”, "pal- mares”, “gorjeia”, “daqui”, “lá”. Em textos visuais: INTERTEXTUALIDADE4 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR A Mona Lisa é um dos textos que mais apresenta releituras, exemplificando a relação de pontos de intertextualidade com a obra original. Nas duas imagens anteriores, é possível reconhecer a referência ao quadro de Leonardo da Vinci — a posição das mãos, a paleta de cores, o cabelo, a posição do corpo, entre outros detalhes. Percebe-se que, mesmo com tantas semelhanças, os dois textos apre- sentam novos sentidos para a imagem, cada um com sua assinatura específica. A intertextualidade é um recurso realizado entre textos, ou seja, é a influência e relação que um esta- belece sobre o outro. Assim, determina o fenômeno relacionado ao processo de produção de textos que faz referência (explícita ou implícita) aos elementos existentes em outro texto, seja a nível de con- teúdo, forma ou de ambos: forma e conteúdo. Grosso modo, a intertextualidade é o diálogo entre textos, de forma que essa relação pode ser estabe- lecida entre as produções textuais que apresentem diversas linguagens (visual, auditiva, escrita), sendo expressa nas artes (literatura, pintura, escultura, música, dança, cinema), propagandas publicitárias, programas televisivos, provérbios, charges, dentre outros. Tipos De Intertextualidade Há muitas maneiras de realizar a intertextualidade sendo que os tipos de intertextualidade mais comuns são: Paródia: perversão do texto anterior que aparece geralmente, em forma de crítica irônica de caráter humorístico. Do grego (parodès) a palavra “paródia” é formada pelos termos “para” (semelhante) e “odes” (canto), ou seja, “um canto (poesia) semelhante à outra”. Esse recurso é muito utilizado pelos programas humorísticos. Paráfrase: recriação de um texto já existente mantendo a mesma ideia contida no texto original, entre- tanto, com a utilização de outras palavras. O vocábulo “paráfrase”, do grego (paraphrasis), significa a “repetição de uma sentença”. Epígrafe: recurso bastante utilizado em obras, textos científicos, desde artigos, resenhas, monografias, uma vez que consiste no acréscimo de uma frase ou parágrafo que tenha alguma relação com o que será discutido no texto. Do grego, o termo “epígrafhe” é formado pelos vocábulos “epi” (posição supe- rior) e “graphé” (escrita). Como exemplo podemos citar um artigo sobre Patrimônio Cultural e a epígrafe do filósofo Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.): "A cultura é o melhor conforto para a velhice". Citação: Acréscimo de partes de outras obras numa produção textual, de forma que dialoga com ele; geralmente vem expressa entre aspas e itálico, já que se trata da enunciação de outro autor. Esse recurso é importante haja vista que sua apresentação sem relacionar a fonte utilizada é considerado “plágio”. Do Latim, o termo “citação” (citare) significa convocar. Alusão: Faz referência aos elementos presentes em outros textos. Do Latim, o vocábulo “alusão” (allu- dere) é formado por dois termos: “ad” (a, para) e “ludere” (brincar). Outras formas de intertextualidade são o pastiche, o sample, a tradução e a bricolagem. Exemplos Segue abaixo alguns exemplos de intertextualidade na literatura e na música: Intertextualidade Na Literatura Fenômeno recorrente nas produções literárias, segue alguns exemplos de intertextualidade. O poema de Casimiro de Abreu (1839-1860), “Meus oito anos”, escrito no século XIX, é um dos textos que gerou inúmeros exemplos de intertextualidade, como é o caso da paródia de Oswald de Andrade “Meus oito anos”, escrito no século XX: Texto Original “Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida INTERTEXTUALIDADE 5 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais!” (Casimiro de Abreu, “Meus oito anos”) Paródia “Oh que saudades que eu tenho Da aurora de minha vida Das horas De minha infância Que os anos não trazem mais Naquele quintal de terra! Da rua de Santo Antônio Debaixo da bananeira Sem nenhum laranjais” (Oswald de Andrade) Outro exemplo é o poema de Gonçalves Dias (1823-1864) intitulado Canção do Exílio o qual já rendeu inúmeras versões. Dessa forma, segue um dos exemplos de paródia, o poema de Oswald de Andrade (1890-1954), e de paráfrase com o poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): Texto Original “Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá, As aves que aqui gorjeiam Não gorjeiam como lá.” (Gonçalves Dias, “Canção do exílio”) Paródia “Minha terra tem palmares onde gorjeia o mar os passarinhos daqui não cantam como os de lá.” (Oswald de Andrade, “Canto de regresso à pátria”) Paráfrase “Meus olhos brasileiros se fecham saudosos Minha wboca procura a ‘Canção do Exílio’. Como era mesmo a ‘Canção do Exílio’? Eu tão esquecido de minha terra... Ai terra que tem palmeiras Onde canta o sabiá!” (Carlos Drummond de Andrade, “Europa, França e Bahia”) Intertextualidade Na Música Há muitos casos de intertextualidade nas produções musicais, veja alguns exemplos: A música “Monte Castelo” da banda legião urbana cita os versículos bíblicos 1 e 4, encontrados no livro de Coríntios, no capítulo 13: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine” e “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece”. INTERTEXTUALIDADE 6 WWW.DOMINACONCURSOS.COM.BR Além disso, nessa mesma canção, ele cita os versos do escritor português Luís Vaz de Camões (1524- 1580), encontradas na obra “Sonetos” (soneto 11): “Amor é um fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente; É nunca contentar-se e contente; É um cuidar que ganha em se perder; É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?” Igualmente, a música “GoBack” do grupo musical Titãs, cita o poema “Farewell” do escritor chileno Pablo Neruda (1904-1973): “Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos, ya no se endulzará junto a ti mi dolor. Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada y hacia donde camines llevarás mi dolor. Fui tuyo, fuiste mía. ¿Qué más? Juntos hicimos un recodo en la ruta donde el amor pasó. Fui tuyo, fuiste mía. Tú serás del que te ame, del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo. Yo me voy. Estoy triste: pero siempre estoy triste. Vengo desde tus brazos. No sé hacia dónde voy. ...Desde tu corazón me dice adiós un niño. Y yo le digo adiós.” _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________