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RESISTÊNCIA DO CORPO À INFECÇÃO: II. IMUNIDADE E ALERGIA A imunidade é a capacidade do corpo humano de resistir a micro-organismos e/ou toxinas que tendem a lesar os tecidos e órgãos. A maior parte dessa imunidade, é a imunidade adquirida, que se desenvolve semanas a meses após o organismo ser atacado por algum agente externo. Além disso, a capacidade e “ferramentas” inerentes do próprio organismo para combater tais ameaças externas gerais, é chamada imunidade inata, e inclui os seguintes mecanismos: 1. Capacidade de fazer fagocitose por meio dos leucócitos e pelas células do sistema dos macrófagos teciduais; 2. Capacidade de destruir micro-organismos deglutidos, por meio de secreções ácidas do estômago e enzimas digestivas; 3. Resistência da pele à invasão por micro-organismos; 4. Presença de compostos químicos e células sanguíneas, que se prendem a micro- organismos ou toxinas destruindo-os. Imunidade adquirida (adaptativa) O organismo é capaz de desenvolver imunidade específica extremamente potente contra agentes invasores individuais (bactérias, vírus, toxinas e até tecidos estranhos de outros animais), capacidade denomina imunidade adquirida ou adaptativa. A imunidade adquirida é causada por sistema imune especial formador de anticorpos e/ou linfócitos ativados que atacam/destroem agentes invasores específicos, garantindo proteção específica extrema. Tipos básicos de imunidade adquirida — humoral e mediada por células A imunidade adquirida é composta por dois fatores. 1. O corpo desenvolve anticorpos circulantes (moléculas de globulina plasmáticas), capazes de atacar o agente invasor. Esse tipo de imunidade é chamado imunidade humoral ou imunidade das células B (porque os linfócitos B produzem os anticorpos); 2. Formação de linfócitos T ativados, produzidos nos linfonodos para destruir o agente estranho. Essa, é a imunidade chamado imunidade mediada por células ou imunidade das células T (porque os linfócitos ativados são linfócitos T). Ambos os tipos de imunidade adquirida são iniciados por antígenos Cada toxina ou tipo de micro-organismo contém um ou mais compostos químicos específicos. Em geral, esses compostos são proteínas ou grandes polissacarídeos e são eles que desencadeiam a imunidade adquirida. Essas substâncias são chamadas antígenos. Para que a substância seja antigênica, ela deve ter alto peso molecular (8.000 ou mais), conter grupos moleculares que aparecem com regularidade na superfície do agente invasor, chamados epítopos. Esse fator explica, também, porque proteínas e grandes polissacarídeos são quase sempre antigênicos, já que essas substâncias apresentam tais características estereoquímicas. Os linfócitos são responsáveis pela imunidade adquirida Em pessoas com ausência genética de linfócitos ou cujos linfócitos tenham sido destruídos, nenhuma imunidade adquirida pode desenvolver-se. Poucos dias após nascer, tal pessoa morre por infecção bacteriana fulminante, a menos que seja tratada. Os linfócitos ficam situados nos linfonodos, tecidos linfoides como no baço, nas áreas submucosas do trato gastrointestinal, no timo e na medula óssea. Na maioria dos casos, o agente invasor penetra nos líquidos teciduais e depois é transportado para linfonodos/outros tecidos linfoides pelos vasos linfáticos. Os linfócitos T e B promovem a imunidade “mediada por células” ou a imunidade “humoral” Os linfócitos T são responsáveis pela formação de linfócitos ativados que proporcionam a imunidade “mediada por células”, enquanto os linfócitos B são responsáveis pela formação de anticorpos que promovem a imunidade “humoral”. Os dois tipos de linfócitos são derivados de células-tronco hematopoéticas pluripotentes que formam células progenitoras. Na sequência, as células progenitoras que formarão os linfócitos T migram para o timo, onde são pré-processadas para formar os linfócitos T ativados, (responsáveis pela imunidade celular). Os linfócitos B destinados a formar anticorpos, são pré-processadas no fígado, durante a parte média da gestação, e na medula óssea, no final da vida fetal e logo após o nascimento. Pré-processamento dos linfócitos T e B A glândula do timo processa os linfócitos T Os linfócitos T, após sua origem na medula óssea, migram para o timo onde se dividem e desenvolvem diversidade extrema para reagir a diferentes antígenos específicos. Esse processo continua até que existam milhares de tipos diferentes de linfócitos T com reatividades específicas contra muitos milhares de antígenos diferentes. Esses linfócitos T pré-processados deixam o timo e se disseminam pelo sangue, alojando-se nos tecidos linfoides localizados em todo o corpo. O timo assegura que os linfócitos T que deixam o timo não reagirão contra proteínas ou outros antígenos do próprio organismo, caso contrário, os linfócitos T seriam letais para o organismo em questão de dias. Para isso, o timo seleciona quais linfócitos T serão liberados, misturando-os inicialmente com quase todos os “autoantígenos” específicos dos tecidos corporais do indivíduo. Se um linfócito T reagir, ele é destruído e fagocitado, em vez de ser liberado, o que acontece com até 90% das células. Portanto, as células liberadas só reagem contra antígenos externos, como os de bactéria, de toxina ou mesmo com tecido transplantado de outra pessoa. A maior parte do pré-processamento dos linfócitos T no timo ocorre pouco antes do nascimento da criança e durante alguns meses após seu nascimento. Depois desse período, a remoção do timo diminui (mas não elimina) o sistema imune linfocítico T. O fígado e a medula óssea pré-processam os linfócitos B Os linfócitos B são diferentes dos linfócitos T por dois motivos: 1. Em vez de todas as células desenvolverem reatividade contra o antígeno, como ocorre nos linfócitos T, os linfócitos B secretam ativamente anticorpos que são os agentes reativos, capazes de se combinar e destruir a substância antigênica; 2. Os linfócitos B apresentam diversidade ainda maior do que a dos linfócitos T, formando muitos milhões de tipos de anticorpos com diferentes reatividades específicas. Depois do processamento, os linfócitos B migram para o tecido linfoide de todo o corpo se alojando com certo distanciamento dos linfócitos T. Linfócitos T e anticorpos dos linfócitos B reagem de modo altamente específico contra antígenos específicos — o papel dos clones de linfócitos Quando antígenos específicos entram em contato com linfócitos T e B no tecido linfoide, certos linfócitos T são ativados para formar células T ativadas, e certos linfócitos B são ativados para formar anticorpos. As células T ativadas e os anticorpos, por sua vez, reagem de forma muito específica contra os tipos particulares de antígenos que desencadearam seu desenvolvimento. Veremos o mecanismo dessa especificidade a seguir. Milhões de tipos específicos de linfócitos são armazenados no tecido linfoide Tanto linfócitos T quanto B são armazenados no tecido linfático. Esses linfócitos pré- formados são capazes de formar somente um tipo de anticorpo ou um tipo de célula T, com tipo único de especificidade, e apenas o tipo específico de antígeno pode ativá-lo. Assim que o linfócito específico é ativado por seu antígeno ele se reproduz de forma muito ampla, formando números imensos de linfócitos duplicadores. No caso de um linfócito B um tipo específico de anticorpo será secretado, enquanto no caso de um linfócito T, células T especificamente sensibilizadas se formarão. Todos os diferentes linfócitos capazes de formar anticorpo ou célula T específicos são referidos como um clone de linfócitos. Ou seja, os linfócitos em cada clone são idênticos e derivados de um/alguns linfócitos iniciais de seu tipo específico. Origem dos diversos clones de linfócitosPara a formação de cada tipo de célula T ou B, o gene completo que codifica a especificidade do linfócito nunca está nas células-tronco originais, de onde as células imunes funcionais se diferenciam. Ao contrário, só são identificados centenas de “segmentos do gene”, mas não o gene completo. Durante o pré-processamento das células de linfócitos T e B, esses segmentos do gene se misturam em combinações aleatórias, formando os genes completos. Como existem várias centenas de segmentos de genes e milhões de diferentes combinações, podem-se compreender os milhões de células com tipos celulares diversos que podem ocorrer. Para cada linfócito T ou B funcional formado, a estrutura gênica só codifica a especificidade antigênica. Essas células, quando maduras, se tornam células T e B extremamente específicas, que se disseminam e povoam o tecido linfoide. Mecanismo para ativar um clone de linfócitos Cada clone de linfócitos é responsável por um tipo de antígeno (ou por vários antígenos semelhantes) pois, no caso dos linfócitos B, 100.000 moléculas de anticorpos em sua superfície devem reagir, de forma específica, com apenas um antígeno. Nos linfócitos T, moléculas similares aos anticorpos, chamadas proteínas receptoras de superfície (marcadores de células T) na superfície da membrana, são muito específicas para um antígeno ativador especificado. Papel dos macrófagos no processo de ativação Macrófagos revestem os sinusoides dos linfonodos, do baço e dos outros tecidos linfoides, ficando em aposição a muitos linfócitos dos linfonodos. A maioria dos agentes invasores é fagocitada e parcialmente digerida pelos macrófagos, e os produtos antigênicos são liberados no citosol do macrófago. Os macrófagos, a seguir, passam esses antígenos pelo contato direto célula a célula para os linfócitos, causando ativação dos clones linfocíticos especificados. Os macrófagos também secretam substância ativadora que promove crescimento ainda maior e a reprodução de leucócitos específicos (interleucina 1). Participação das células T na ativação dos linfócitos B A maioria dos antígenos ativa, ao mesmo tempo, os linfócitos T e os linfócitos B. Algumas das células T que são formadas, chamadas células T auxiliares, secretam substâncias específicas (linfocinas) que ativam os linfócitos B específicos. Na verdade, sem o auxílio dessas células T auxiliares, a quantidade de anticorpos formada pelos linfócitos B seria usualmente pequena. Atributos específicos do sistema dos linfócitos B — a imunidade humoral e os anticorpos Formação dos anticorpos pelos plasmócitos Com a chegada de antígeno, os macrófagos no tecido linfoide fagocitam o mesmo e o apresentam para os linfócitos B adjacentes e às células T, sendo formadas células T auxiliares ativadas (contribuirão para a extrema ativação dos linfócitos B). Os linfócitos B específicos para o antígeno se dilatam, tomando a aparência de linfoblastos, que se diferenciam ainda mais para formar plasmablastos, que são precursores dos plasmócitos. Nos plasmablastos, o citoplasma se expande e o retículo endoplasmático rugoso prolifera. Então, os plasmablastos se duplicam a cada 10 horas ao longo de 9 divisões, gerando aproximadamente 500 células para cada plasmablasto original. Cada plasmócito maduro passa a produzir anticorpos de gamaglobulina, em velocidade extremamente rápida (2.000 por segundo), que são secretados para a linfa e levados para o sangue circulante. A formação das células de “memória” exacerba as respostas dos anticorpos a uma exposição subsequente aos antígenos Alguns dos linfócitos formados pela ativação de clone de linfócitos B não se diferenciam em plasmócitos, mas formam novos linfócitos B semelhantes ao clone original. Eles circulam por todo o corpo, para ocupar todo o tecido linfoide, embora permaneçam inativados até que sejam novamente acionados por nova exposição ao mesmo antígeno. Esses linfócitos são chamados células de memória pios, a exposição subsequente ao mesmo antígeno provocará resposta mais rápida e intensa de anticorpos, já que existem muito mais células de memória do que os linfócitos B originais do clone específico. Observe o retardo de uma semana para o aparecimento da primeira resposta, sua baixa potência e sua curta duração, enquanto a resposta secundária começa rapidamente após a exposição ao antígeno (após horas), com maior potência e duração. Natureza dos anticorpos Os anticorpos são gamaglobulinas, chamadas imunoglobulinas (Ig), e constituem ~20% das proteínas do plasma. Essas moléculas são compostas por cadeias de peptídeos leves e pesadas, em que cada cadeia pesada está intercalada com uma cadeia leve em uma de suas extremidades, de modo que existem 2 a 10 desses pares em cada molécula de imunoglobulina. A porção variável é diferente de acordo com a especificidade do anticorpo (porção que se liga ao antígeno específico). A porção constante determina a mobilidade do anticorpo pelos tecidos, a aderência às estruturas específicas nos tecidos, a fixação ao complexo do complemento, a facilidade com a qual os anticorpos passam através das membranas, etc. A combinação de ligações não covalentes e covalentes (pontes de dissulfeto) mantém unidas as cadeias leves e pesadas. Especificidade dos anticorpos A alta especificidade do anticorpo se deve a sua organização estrutural dos aminoácidos nas porções variáveis das cadeias leve e pesada. Quando o anticorpo é muito específico, existem tantos locais de ligação que a conjugação antígeno-anticorpo é extremamente forte. Cinco classes gerais de anticorpos Existem cinco classes gerais de anticorpos designadas IgM, IgG, IgA, IgD e IgE. Nesse sentido, “Ig” é a abreviação de imunoglobulina e as cinco letras designam as classes respectivas. Duas dessas classes de anticorpos têm importância particular: a IgG, anticorpo bivalente, (~75% dos anticorpos do organismo normal), e IgE (pequena porcentagem dos anticorpos, mas que está especificamente envolvida nas alergias). A classe IgM também é interessante, pois grande parte dos anticorpos formados durante a resposta primária é desse tipo. Mecanismos de ação dos anticorpos Os anticorpos atuam na proteção do corpo contra agentes invasores pelo ataque direto ao invasor e, pela ativação do “sistema do complemento”, dotado de diversos meios para destruir o invasor. Ação direta dos anticorpos sobre os agentes invasores Devido à natureza bivalente dos anticorpos do nosso exemplo e, aos múltiplos locais antigênicos presentes na maioria dos agentes invasores, os anticorpos podem ativar o agente invasor de várias formas: 1. Aglutinação: múltiplas partículas grandes, com antígenos em suas superfícies, como as bactérias ou hemácias, são unidas formando grumos; 2. Precipitação: o complexo molecular do antígeno solúvel (como a toxina do tétano) e os anticorpos ficam tão grandes que se tornam insolúveis e precipitam; 3. Neutralização: os anticorpos cobrem os locais tóxicos do agente antigênico; 4. Lise: anticorpos potentes ocasionalmente, são capazes de atacar, de modo direto, as membranas dos agentes celulares, causando sua ruptura. Essas ações diretas dos anticorpos, não são suficientemente fortes para ter papel primordial na proteção do corpo contra o invasor. A maior parte dessa proteção decorre dos efeitos amplificadores do sistema do complemento. Sistema de complemento para a ação de anticorpos “Complemento” é o nome coletivo que descreve o sistema de cerca de 20 proteínas, muitas das quais precursoras de enzimas. Todas essas proteínas estão normalmente no plasma e nos espaços teciduais. As precursoras de enzimas nas condições normais estão inativas, mas podem ser ativadas pela chamada via clássica. Via clássica A via clássica é desencadeada por uma reação antígeno-anticorpo.Quando o anticorpo se liga a seu antígeno, um local reativo específico na porção “constante” do anticorpo fica descoberto/ativado, se ligando à molécula C1 do sistema do complemento, iniciando uma “cascata” de reações sequenciais. As enzimas C1 formadas ativam quantidades sucessivamente maiores de enzimas nos estágios finais do sistema, de modo que, a partir do pequeno início, ocorre a reação extremamente grande e “amplificada”. Vários produtos finais são formados, causando efeitos importantes que ajudam a impedir lesões dos tecidos corporais causadas por micro-organismo ou toxina invasora. Efeitos da ativação da via clássica do sistema de complemento 1. Opsonização e fagocitose: o produto C3b ativa a fagocitose, tanto pelos neutrófilos quanto pelos macrófagos, engolfando bactérias presas a complexos antígeno-anticorpos (processo chamado opsonização, que aumenta substancialmente o número de bactérias que podem ser destruídas). 2. Lise: um dos produtos mais importantes da cascata do complemento é o complexo lítico (C5b6789), que é a combinação de múltiplos fatores do complemento e exerce efeito direto de ruptura das membranas celulares das bactérias ou de outros micro-organismos invasores. 3. Aglutinação: os produtos do complemento alteram as superfícies dos micro- organismos invasores, fazendo com que fiquem aderidos uns aos outros, promovendo assim sua aglutinação. 4. Neutralização dos vírus: as enzimas do complemento e outros produtos do complemento podem atacar as estruturas de alguns vírus, consequentemente, tornando-os não virulentos. 5. Quimiotaxia: o fragmento C5a inicia a quimiotaxia dos neutrófilos e macrófagos, fazendo com que grande número desses fagócitos migre para a área tecidual adjacente ao agente antigênico. 6. Ativação dos mastócitos e basófilos: os fragmentos C3a, C4a e C5a ativam mastócitos e basófilos, fazendo com que liberem histamina, heparina e outras substâncias capazes de aumentar o fluxo sanguíneo local, o vazamento de líquido e proteínas plasmáticas para o tecido e outras reações que ajudam a inativar/imobilizar o agente antigênico. 7. Efeitos inflamatórios: além dos efeitos inflamatórios causados pela ativação dos mastócitos e dos basófilos, outros produtos contribuem para a inflamação local. Esses produtos fazem com que: i) o fluxo sanguíneo já elevado aumente ainda mais; ii) o vazamento capilar de proteínas aumente ainda mais e; iii) as proteínas do líquido intersticial coagulem nos espaços teciduais, impedindo o deslocamento do micro-organismo invasor pelos tecidos. Atributos especiais do sistema dos linfócitos T — células T ativadas e imunidade mediada por células Liberação de células T ativadas pelo tecido linfoide e formação de células de memória A exposição ao antígeno feita pelos macrófagos induz os linfócitos T do clone de linfócitos específicos a proliferam e liberam células T ativadas de reação específica. As células T ativadas e liberadas na linfa passam a circular pelo corpo por meses ou até anos. Além disso, quando um clone de linfócitos T é ativado por antígeno, muitos dos linfócitos recém-formados são preservados para se transformarem em linfócitos T adicionais (essas células de memória se espalham pelo tecido linfoide de todo o corpo). Portanto, na exposição subsequente ao mesmo antígeno em qualquer local do corpo, a liberação de células T ativadas ocorre de modo muito mais rápido e potente do que durante a primeira exposição. Células apresentadoras de antígeno, proteínas MHC e receptores de antígenos nos linfócitos T As respostas imunes adquiridas, necessitam das células T para iniciar o processo, e as células T têm alta especificidade aos antígenos, desempenhando papel importante na eliminação dos patógenos invasores. Os linfócitos T só respondem aos antígenos quando eles se ligam às moléculas específicas, chamadas proteínas MHC, na superfície das células apresentadoras de antígenos, nos tecidos linfoides. As proteínas MHC ligam fragmentos peptídicos dos antígenos, degradados dentro das células apresentadoras de antígenos e depois transportados para a superfície celular. As proteínas MHC I apresentam antígenos para células T citotóxicas, enquanto as proteínas MHC II apresentam antígenos para células T auxiliares (veremos a diante). Os três principais tipos de células que apresentam antígenos são os macrófagos, linfócitos B e células dendríticas, de modo que as células dendríticas, são as mais potentes e tem essa única função. A interação das proteínas de aderência celular é crítica para permitir a ligação das células T às células apresentadoras de antígenos durante tempo suficiente para que elas se tornem ativadas. Os antígenos na superfície das células apresentadoras se ligam às moléculas receptoras na superfície das células T, compostas por uma unidade variável semelhante à porção variável dos anticorpos. Vários tipos de células T e suas diferentes funções Existem vários tipos de células T, que são classificadas em três grandes grupos: 1. Células T auxiliares; 2. Células T citotóxicas e; 3. Células T supressoras. Células T auxiliares são as células T mais numerosas Elas atuam como as principais reguladoras de todas as funções imunes por meio da formação de mediadores proteicos, chamados linfocinas, que atuam sobre outras células do sistema imune, bem como sobre as células da medula óssea. As linfocinas mais importantes são: Interleucina 2 Interleucina 3 Interleucina 4 Interleucina 5 Interleucina 6 Fator estimulante de colônias de monócitos-granulócitos Interferon-g Funções reguladoras específicas das linfocinas Na ausência de linfocinas, o restante do sistema imune fica quase paralisado, como ocorre em infecções por vírus da imunodeficiência humana (HIV). Estimulação do crescimento e proliferação das células T citotóxicas e supressoras Na ausência de células T auxiliares, os clones para a produção de células T citotóxicas e supressoras são pouco ativados pelos antígenos pois, a interleucina 2 estimula intensamente o crescimento e proliferação das células T citotóxicas e supressoras. Estimulação do crescimento das células B e diferenciação para formar plasmócitos e anticorpos As ações diretas do antígeno para causar o crescimento de células B, a proliferação, a formação de plasmócitos e a secreção de anticorpos também são pouco intensas sem o “auxílio” das células T auxiliares. Quase todas as interleucinas participam da resposta das células B, mas especialmente as interleucinas 4, 5 e 6 (fatores estimulantes das células B). Ativação do sistema de macrófagos Os linfócitos retardam ou interrompem a migração dos macrófagos depois de serem atraídos por quimiotaxia para a área de tecido inflamada, causando grande acúmulo de macrófagos. Além disso, eles ativam os macrófagos para produzir fagocitose mais eficiente, permitindo que eles ataquem e destruam número cada vez maior de bactérias invasoras ou de outros agentes destruidores de tecidos. Efeito de feedback estimulante sobre as células T auxiliares Algumas linfocinas, especialmente a interleucina 2, exercem efeito de feedback positivo direto de estimular a ativação das células T auxiliares. Esse feedback atua como amplificador, aumentando ainda mais a resposta das células auxiliares, bem como toda a resposta imune contra o antígeno invasor. As células T citotóxicas são células killer A célula T citotóxica é célula de ataque direto, capaz de matar microorganismos e algumas vezes até mesmo as células do próprio corpo. As células T citotóxicas se ligam via receptores, aos organismos/células que contenham o antígeno e em seguida, secretam proteínas produtoras de orifícios (perforinas), que perfuram a membrana da célula atacada, gerando influxo de liquido intersticial. Além disso,as células T citotóxicas liberam substâncias citotóxicas diretamente nas células atacadas, que em pouco tempo incham e se dissolvem. As células killer citotóxicas podem se soltar das células vitimadas depois de perfurarem os orifícios e liberarem as substâncias citotóxicas, e seguir em frente, para destruir mais células. Algumas das células T citotóxicas são especialmente letais para as células invadidas por vírus, pois várias partículas virais ficam retidas nas membranas das células teciduais, atraindo as células T. Essas células também participam da destruição de células cancerígenas, células cardíacas transplantadas e de outros tipos de células estranhas ao corpo da própria pessoa. Células T supressoras São capazes de suprimir as funções tanto das células T citotóxicas quanto das células T auxiliares, evitando que as células citotóxicas causem reações imunológicas excessivas que possam ser prejudiciais aos tecidos do corpo. Por esse motivo as células supressoras são classificadas, juntamente com as células T auxiliares, como células T reguladoras. É provável que o sistema das células T supressoras tenha papel importante na limitação da capacidade do sistema imune de atacar os tecidos da própria pessoa, a chamada tolerância imune. Tolerância do sistema de imunidade adquirida aos tecidos da própria pessoa — o papel do pré-processamento no timo e na medula óssea A imunidade adquirida poderia destruir as próprias células do organismo se a pessoa ficar imune aos seus próprios tecidos. O mecanismo imune normalmente “reconhece” os tecidos da própria pessoa como sendo diferentes de bactérias e vírus, e o sistema imune dessa pessoa forma poucos anticorpos ou células T ativadas contra seus próprios antígenos. Grande parte da tolerância resulta da seleção de clones durante o pré-processamento Acredita-se que grande parte da tolerância se desenvolva durante o pré-processamento dos linfócitos T no timo, e dos linfócitos B na medula óssea. Também se acredita que durante o pré-processamento dos linfócitos, todos ou a maioria dos clones de linfócitos específicos para atacar as células da própria pessoa se autodestruam, devido à sua exposição continuada aos antígenos do corpo. Falha do mecanismo de tolerância causa doenças autoimunes Algumas pessoas perdem a tolerância imune aos próprios tecidos, em geral, após a destruição de parte dos tecidos do organismo, liberando grandes quantias de “autoantígenos” gerando imunidade adquirida pelas células T ativadas ou de anticorpos. Várias doenças específicas resultantes de autoimunidade incluem: 1. Febre reumática: o corpo fica imunizado contra tecidos nas articulações e válvulas cardíacas, após exposição à toxina estreptocócica com epítopo semelhante à estrutura de alguns dos autoantígenos do próprio organismo; 2. Glomerulonefrite: a pessoa fica imunizada contra as membranas basais dos glomérulos; 3. Miastenia grave: se desenvolve imunidade contra as proteínas receptoras de acetilcolina da junção neuromuscular, provocando paralisia e; 4. Lúpus eritematoso sistêmico (LES): imunidade contra vários tecidos corporais diferentes ao mesmo tempo, causando dano extenso e morte se o LES for grave. Imunização pela injeção de antígenos A pessoa pode ser imunizada pela injeção de micro-organismos mortos incapazes de causar doença, mas que apresentam parte de seus antígenos químicos. Esse tipo de imunização é utilizado para a proteção contra a febre tifoide, coqueluche, difteria e muitos outros tipos de doenças bacterianas. A imunidade pode ser obtida contra toxinas tratadas com substâncias anular sua toxicidade, muito embora seus antígenos permaneçam intactos. Esse procedimento é utilizado na imunização contra tétano, botulismo e outras doenças tóxicas semelhantes. A pessoa pode ser imunizada depois de ter sido infectada com micro-organismos vivos que tenham sido “atenuados” (cultivados em meio de culturas ou animais). Esse procedimento é utilizado para a proteção contra poliomielite, febre amarela, sarampo, catapora e muitas outras doenças virais. Imunidade passiva Até agora discutimos a imunidade ativa, isto é, o próprio corpo desenvolve anticorpos ou células T ativadas em resposta à invasão de seu corpo por um antígeno estranho. Entretanto, pode ser produzida imunidade temporária em uma pessoa sem a injeção de qualquer antígeno. Essa imunidade temporária é feita pela infusão de anticorpos, células T ativadas ou ambos, obtidos do sangue de outra pessoa ou de outro animal que tenha sido ativamente imunizado contra o antígeno. Os anticorpos perduram no corpo do receptor por 2 a 3 semanas enquanto as células T duram algumas semanas. Alergia e hipersensibilidade Importante efeito colateral indesejável da imunidade é o desenvolvimento sob algumas condições de alergia ou de outros tipos de hipersensibilidade imune. Existem vários tipos de alergias e de outras hipersensibilidades, algumas das quais ocorrem somente em pessoas com tendência alérgica específica. Alergia ocasionada por células T ativadas: alergia de ação retardada A alergia de reação retardada é causada por células T ativadas. No caso da urtiga (Toxi codendron), a toxina desse arbusto por si mesma não causa muito dano aos tecidos. Entretanto, com nova exposição causa a formação de células T auxiliares e citotóxicas ativadas, causando uma resposta imune robusta no local de contato com o antígeno. Alergias “atópicas” associadas ao excesso de anticorpos Algumas pessoas apresentam tendência “alérgica” chamadas alergias atópicas, pois são causadas por resposta incomum do sistema imune. A tendência alérgica é passada, geneticamente, dos pais para os filhos, e se caracteriza pela presença de grande quantidade de anticorpos IgE (reaginas) no sangue. Quando um alérgeno (definido como um antígeno que reage a um tipo específico de anticorpo reagina IgE) entra no corpo, ocorre reação alérgeno-reagina, levando à subsequente reação alérgica. • Anafilaxia: reação alérgica aguda potencialmente fatal mediada por IgE que ocorre em pessoas previamente sensibilizadas quando são expostas novamente ao antígeno sensibilizador. Os sintomas incluem irritação na pele, náuseas, vômitos e dificuldade respiratória. • Urticária: resulta de antígeno que penetra em áreas específicas, causando vasodilatação, que inclui vermelhidão imediata e, aumento da permeabilidade local dos capilares, levando a áreas circunscritas de edema da pele em alguns minutos. A administração de anti-histamínicos à pessoa antes da exposição impede a urticária. • Febre do feno: é um tipo de rinite alérgica (reação alérgeno-reagina ocorre no nariz), trata-se de uma alergia ao pólen de certas plantas, especialmente as gramíneas (componentes do feno) e árvores (como bétula e aveleira). • Asma: a reação alérgeno-reagina ocorre nos bronquíolos dos pulmões decorrente da substância de reação lenta da anafilaxia liberada pelos mastócitos (causa espasmo da musculatura lisa do bronquíolo). A pessoa tem dificuldade de respirar até que os produtos reativos da reação alérgica tenham sido removidos. Exercícios 1. O que é imunidade inata? 2. Quais os tipos de imunidade adquirida e quais as principais diferenças entre elas? 3. Como a imunidade adquirida é iniciada? 4. Que tipo de célula é responsável pela imunidade adquirida? 5. Como ocorre o processamento dos linfócitos T e B? 6. Como funciona e qual a importância dos clones de linfócitos? 7. Como são formados os clones de linfócitos? 8. Qual o papel dos macrófagos no processo de ativação dos linfócitos? 9. Como as células T ativam os linfócitos B? 10. Como ocorre a formação dos anticorpos pelos plasmócitos? 11. Explique as estruturas dos anticorpos. 12. Quais as principais classes de anticorpos e suasparticularidades? 13. Quais as possíveis ações diretas dos anticorpos sobre antígenos? 14. Explique a importância e funcionamento da via clássica do sistema de suplemento. 15. Quais os efeitos da ativação da via clássica do sistema de complemento? 16. Como as células apresentadoras de antígenos funcionam? 17. Quais as principais funções das células T auxiliares? 18. Quais as principais funções e por quais mecanismos atuam as células T citotóxicas? 19. Qual a importância e como funcionam as células T supressoras? 20. Qual o principal mecanismo responsável pela tolerância do sistema imune ao próprio organismo? 21. O que é imunidade passiva? 22. O que são alergias atópicas e como ocorrem? 23. Qual a fisiopatologia da anafilaxia? 24. Qual a fisiopatologia da urticária? 25. Qual a fisiopatologia da febre do feno? 26. Qual a fisiopatologia da asma?