Logo Passei Direto
Buscar
Material

Prévia do material em texto

UNIDADE Estado em Convulsão Introdução Podemos dizer que a data de 1822 com a célebre frase da independência marca início do Império no Brasil, mas dificilmente se desvenda processo a partir dessa data e mesmo significado da frase dita por Dom Pedro às margens do Ipiranga. Veja: PIMENTA, J. de M. A Independência do Brasil à luz dos documentos. São Paulo: Instituto de Cultura e Ensino Padre Manoel da Nobrega, 1972. Para entendimento mais completo desse evento, teremos de retroceder a 1808 ou mesmo um pouco antes, nos eventos que antecedem a vinda da Família Real para Brasil. Veja: SLEMIAN, PIMENTA, J. G. A Corte e 0 Mundo: Uma História do Ano em que Família Real Portuguesa Chegou ao Brasil. São Paulo: Alameda Editorial, 2008. No marco implantado pela historiografia como passagem da Idade Moderna para a Idade Contemporânea, Portugal e Espanha já não eram protagonistas mundiais. Esses países foram primeiros da Era Moderna a colonizar a América e erigir impérios territoriais em diversas partes do mundo, entretanto, ficaram cada vez mais dependentes das relações comerciais entre suas colônias. A riqueza alcançada na exploração colonial era transferida para outros países como pagamento das importações que ocorriam para atender às suas necessidades e ao estilo de vida das elites. O capital acumulado acabou por se esvair em pouco tempo, perdendo, assim, poder econômico. Como consequência, acabaram pendendo a supremacia e a força e deixando de ser centro de decisões e influência. Entre a primeira e a segunda metade do século XVIII, a produção em larga escala se transformou graças à mecanização industrial que ocorreu na Inglaterra. Revolução Industrial: 0 Debate Histórico e a Teoria Clássica da Acumulação Disponível em: https://bityl.co/8py7 Esta acabou se elevando como principal motor do que se convencionou chamar de Revolução Industrial e transformou capitalismo, até então incipiente nos pro- cessos comerciais. Como em uma espiral, OS lucros motivaram desenvolvimento técnico e de produção e, com aumento dos lucros, ampliou-se investimento em novas tecnologias. 8Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Por conta disso e da decadência dos feudos, houve um rápido processo de desapareci- mento das relações e práticas feudais ainda existentes e predomínio da prática capitalista. Dessa forma, historiadores entendem que início do processo industrial na Inglaterra está imbricado, em parte, ao acúmulo de capital durante séculos XVII e XVIII. O poder naval da Inglaterra lhe garantiu dominar uma rede comercial em nível mun- dial a partir da vitória contra a armada espanhola em 1588. Em 1651, Oliver Cromwell decretou Atos de Navegação, um conjunto de leis que garantiam a proteção dos negociantes em relação aos seus rivais no comércio, incluindo os negociantes dos Países Baixos, seus grandes rivais. Quer saber mais? Atos de Navegação de Oliver Cromwell. Disponível em: https://bityl.co/8py9 Em 1703, ingleses assinaram Tratado de Methuen com Portugal, que garantiu aos ingleses acesso aos mercados portugueses e suas colônias para a aquisição dos manufaturados ingleses. Conheça "Os Tratados de Methuen de 1703": guerra, portos, panos e vinhos. Disponível em: https://bit.ly/39npb9Y Outro ponto favorável à expansão comercial inglesa e ao sustento da Revolução Indus- trial foi a existência de grandes jazidas de carvão mineral e minério de ferro na Inglaterra. O declínio dos feudos, a mudança legislativa (cercamento) e crescimento populacional gerou uma massa de desempregados que ampliou em muito a oferta de mão de obra nas cidades e a consequente queda nos níveis salariais, tornando cidades como Londres a mais populosa da Europa entre 1700 e 1800. A grande oferta de mão de obra atendia ao interesse dos industriais, que deslocavam grandes somas de capital na instalação de parques industriais. Dessa forma, a política internacional inglesa alcançou a supremacia mundial e se destacou como a maior potência econômica da Europa ainda no início do século XX. A política governamental, alinhada aos interesses da burguesia, financiava e incenti- vava crescimento do comércio e a Revolução Industrial. O sistema inglês, sem os entraves sociais de outros países como a França, criou as condições ideias para enriquecimento de uma elite industrial e comercial, com a constituição de um estreito relacionamento comercial com Portugal, desfrutando dos privilégios da comercialização. Os historiadores apontam também a Revolução Francesa como grande fenômeno ligado à crise econômica e financeira da França no fim do século XVIII. 9UNIDADE Estado em Convulsão Assim, a deficiência da estrutura social e estatal francesa ajudaram de forma incidental próprio crescimento da Inglaterra. Aprofunde seus conhecimentos sobre este evento com: FURET, F. Dicionário crítico da Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. FURET, F. Pensando Revolução Francesa. São Paulo: Paz e Terra, 1989. G. 1789-1799: A Revolução Francesa. São Paulo: Perspectiva, 2007. Além disso, a radicalização política na França a partir de 1792, com a ascensão da Convenção Nacional, aprofundou radicalismo e caos social. Em 1793, Luís XVI, rei da França, e sua esposa Maria Antonieta foram executados, levando à formação de uma coalizão de países (Áustria, Prússia, Holanda, Espanha e Inglaterra) contra a França. Por sua vez, a Inglaterra agia com financiamentos aos exércitos continentais para conter a França. Todas essas ações e próprio clima entre diversos grupos no interior da Estado francês possibilitaram um golpe contra governo jacobino, conhecido como golpe do 9 Termidor. Esse evento foi a queda da pequena burguesia jacobina e a volta da burguesia ao poder, decretando a decadência do movimento popular e a criação da República do Diretório (1795-1799). Veja: FURET, F. Dicionário crítico da Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. A historiografia considera esse evento como uma fase conservadora, com prestígio do Exército alcançado pelas vitórias obtidas nas diversas campanhas contra as forças da Espanha, Holanda, Prússia e reinos da Itália. Esse cenário foi propício para que houvesse as condições de um golpe militar, que ocorreu por parte do oficial chamado Napoleão Bonaparte, que contou com beneplá- cito da grade burguesia francesa. Em 1799, Bonaparte instaurou seu governo, dando início ao que ficou conhecida como a Era Napoleônica. O plano de Napoleão era a instalação de um Império internacional, que atendia aos anseios da burguesia. Seu sucesso passou a ameaçar a Inglaterra. Em 1804, Napoleão declara-se imperador e entra em rota de colisão com Inglaterra, Áustria, Nápoles, Rússia e Suécia. Suas sucessivas vitórias frente a seus inimigos isolou a Inglaterra, e, para fazer frente à armada inglesa, Napoleão decretou em 1806 Bloqueio Continental, que consistia na proibição de comércio da Europa com ingleses para forçar uma capitulação. 10Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância A importância do Bloqueio Continental para futuro de Portugal e do Brasil. Disponível em: https://bit.ly/3Cx0Rx5 Em 1806, Napoleão, percebendo uma procrastinação de Portugal às suas determi- nações, negociou secretamente com espanhóis Tratado de Fontainebleau para dar condições e apoio para a invasão de Portugal. Em 1807, Napoleão ordenou a invasão de Portugal. Napoleão, 0 Atlântico e Contra-Revolução em Portugal. Disponível em: https://bit.ly/3CAevkN A Família Real se antecipou aos planos de Napoleão, e, em 1807, Dom João VI de Portugal e Jorge III da Inglaterra assinaram um acordo que transferia a sede monárquica de Portugal para Brasil. Ainda nesse ano, temendo uma ação de evasão, Napoleão manda invadir Portugal, que faz com que sua Corte e a Família Real concretizem seus planos de fuga. A esquadra inglesa embarca milhares de funcionários públicos, tesouro e a biblioteca, além dos membros da Família Real, partindo para Brasil. Por sua vez, acordos firmados com a Inglaterra garantiam a ela monopólio do comércio, a exclusividade no transporte e comercialização das mercadorias e diversos benefícios alfandegários com Império português. O Brasil necessitava de uma infraestrutura que ia desde estradas a escolas, tribunais, bancos e hospitais, e os empresários ingleses assumiram boa parte dos contratos para suprir essa demanda. Na época, Brasil contava com dezessete capitanias e uma população que variava entre três e quatro milhões de habitantes, sem contar as diversas tribos indígenas. Um pouco menos da metade da população era composta de escravos, negros e pardos, e mais da metade era constituída de pessoas livres, brancas em sua maioria. A sociedade era agrária, com uma pequena indústria e um comércio precário. As maiores cidades eram Salvador, com pouco mais de sessenta mil habitantes, Recife, com cerca de trinta mil, e São Paulo, com aproximadamente dois mil habitantes. A chegada da Corte trouxe enormes mudanças, pois sua instalação na cidade do Rio de Janeiro provocou um adensamento demográfico e um crescimento repentino, ultra- passando cem mil habitantes. A estrutura das cidades era precária e sem condições de um crescimento dessa monta em tão pouco tempo, havia falta de instalações, abastecimento de água e redes de esgoto. 11UNIDADE Estado em Convulsão As ações administrativas de Dom João VI foram fundamentais, com a criação de escolas, instituições de saúde, instalação de manufaturas e indústrias de vidro, pólvora e moagem de trigo na Bahia. Em 1808, Dom João assina a abertura dos portos às nações amigas, criando, assim, condições para que diversos outros países, pessoas e empresas fizessem negócios no Brasil, dando preferência aos ingleses. Essa ação também determinou fim da preferência e exclusividade do comércio com a metrópole portuguesa. Dessa forma, Brasil inicia um longo processo rumo ao liberalismo econômico que irá beneficiar sua autonomia e, mais tarde, a própria independência do Brasil. A estrutu- ra administrativa que Dom João adota organiza Brasil para essa nova etapa. Rei Banco do Brasil Casa da Moeda Junta Geral do Comércio Casa da Suplicação Ministério da Guerra Ministério da Fazenda Ministério da Marinha Ministério da Marinha e Estrangeiros e Interior Figura 1 0 Estado sob Dom João VI Fonte: Adaptada de HEIZER; VIDEIRA, 2001; HOLANDA, 1976; COSTA, 2010; SOUZA, 1978; DORIGO; VICENTINO, 1997 As ações da Família Real, e não apenas as de Dom João VI, alavancaram Brasil no cenário mundial. A princesa Carlota Joaquina, primogênita dos Reis Carlos IV e Maria Luisa, buscou reconhecimento de seu direito ao trono do Império espanhol e gerou uma grande disputa e um incentivo para a libertação das colônias, atingindo Bogotá, Buenos Aires, Caracas, Chuquisaca, Guatemala, Havana, Lima, Manila, México, Montevidéu, Quito e Santiago em uma retaliação diplomática de grande envergadura em resposta ao apoio espanhol à Napoleão. A mudança de status diplomático e geopolítico do Brasil, alçado a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, trouxe ao Brasil um incremento de aporte de negócios com a expansão dos interesses mercantis, financeiros, burocráticos e escravistas. Veja: NEVES, L. B.P. das. (org.). Dicionário do Brasil Joanino: 1808-1821. Rio de janeiro: Objetiva, 2008. Em 1815, Napoleão foi definitivamente derrotado, e países que se uniram contra tirano acabaram por estabelecer um grande encontro diplomático para a reconstituição da Europa, que ficou conhecido como Congresso de Viena. 12Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância "A Valsa Dos Pobres" Congresso de Viena. Disponível em: https://bit.ly/3kt0tes A Experiência Republicana Nessa reunião, passaram a buscar a recomposição das monarquias dos diversos países afetados pelo imperialismo francês. Em Portugal, após a expulsão dos invasores franceses e espanhóis em uma ação coor- denada por Portugal e Inglaterra, Portugal ficou sob controle de autoridades britânicas, sob a frente do lorde inglês Beresford. Quer conhecer sobre biografia deste personagem? Disponível em: https://bit.ly/3m3vLbJ Houve uma crescente insatisfação de uma parcela da Corte portuguesa que, junto à população da metrópole, exigia a volta do monarca português. Dom João e a maioria da nobreza não queriam Brasil por diversos motivos, porém, influenciados por muitos movimentos intelectuais e ideias que eram propagados na Europa e difundidos por lojas maçônicas, portugueses não aceitavam a permanência da Corte no Rio de Janeiro. Em 1817, um desses líderes maçônicos, Gomes Freire de Andrade, liderou uma revolta para derrubar lorde Beresford e implantar regime republicano em Portugal. Biografia de Gomes Freire de Andrade Bobadela. Disponível em: https://bit.ly/3Elqazl Em 1818, Manuel Fernandes Tomás fundou uma associação na Cidade do Porto para exigir mudanças políticas e administrativas em Portugal. Entre as várias reivindicações, líderes queriam estabelecimento de uma Consti- tuição liberal, a saída dos ingleses, notadamente, lorde Beresford, retorno do rei e de toda a Família Real a Portugal e retorno do Brasil à condição de colônia. Em 1818, Dom João VI proibiu as sociedades secretas no Brasil e em Portugal, de- sencadeando uma grande perseguição aos maçons. Em 1820, Manuel Fernandes Tomás promoveu uma revolta que ficou conhecida como a Revolução do Porto. Essa ação se espalhou por outras cidades, chegando até Lisboa. Biografia de Manuel Fernandes Tomás. Disponível em: Houve ampla adesão dos vários setores da sociedade, como os comerciantes, clero, a nobreza e exército. Assim, a junta governativa dirigida por lorde Beresford foi substituída por uma junta provisória. Esta convocou as Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa e passou a elaborar uma Constituição para país. 13UNIDADE Estado em Convulsão Os revolucionários do Porto exigiam retorno da Corte com uma série de mudanças, como estabelecimento de uma monarquia constitucional e a restauração da exclusivi- dade de comércio com Brasil. Essas exigências trouxeram uma grande agitação entre brasileiros, intensificando a divergência entre diversos grupos no Brasil. No Grão-Pará, na Bahia e no Maranhão, as tropas portuguesas se rebelaram em apoio a Portugal, ameaçando a desobediência civil. Diversos setores do comércio brasileiro, principalmente Centro-Sul do Norte e Nordeste, por conta da carga tributária, também tinham restrições à monarquia no Brasil. A grande crítica era investimentos no Rio de Janeiro, chamada de "nova Lisboa", pois acabou sobrecarregando essas regiões para a manutenção da Corte. Todas essas ações demonstram a onda liberal do Congresso de Viena, uma forma de controle das ideias da Revolução Francesa. O primeiro-ministro da França, Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, propôs princípio da legitimidade, segundo a qual todas as antigas dinastias europeias que haviam sido depostas após a Revolução Francesa deveriam ser restauradas a seus tronos. Biografia de Charles Maurice De Talleyrand. Disponível em: https://bit.ly/3IPdH4G Dessa forma, para evitar futuras guerras na Europa, essa ação atingiria Portugal, que deveria restaurar a Dinastia de Bragança, com Dom João VI no trono. Nas discussões sobre um acordo entre Dom João VI e a Corte de Portugal, o Conde de Palmela foi a elevação do Brasil a Reino Unido a Portugal e Algarves. Essa decisão desagradou a Portugal, mas foi bem recebida no Brasil. A decisão igua- lava Brasil, garantia a permanência da Corte no Brasil e ainda criava as condições de progresso da ex-colônia. Porém, a reação cada vez mais extremada em Lisboa e clima de golpe que se avi- zinhava como uma reação de retaliação fizeram com que Dom João VI temesse a perda do trono. Em 1821, decidiu retornar a Portugal, deixando seu filho, Dom Pedro I, no controle do Brasil. Havia diversos grupos políticos com intenções separatistas e outros tantos que dese- javam a restauração em um palco de disputas, envolvendo vários interesses econômicos e de poder. Dom Pedro I foi orientado por seu pai a emancipar Brasil de Portugal caso sentisse que haveria uma ameaça concreta por parte de Portugal. As diversas correntes historiográficas, ao analisar esse período e eventos em torno da independência, apresentam evento como algo relativamente pacífico, porém, isso não representa um evento totalmente sem reações. O fato é que as diversas ameaças não se concretizaram ou se mostraram meramente retóricas. As poucas tropas portuguesas no país que eram fiéis à Corte portuguesa reagiram à ação do príncipe regente e provocaram conflitos e tumultos, fazendo com que as tropas 14Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância fiéis à Coroa e ao Príncipe, junto com comandantes estrangeiros, notadamente ingleses, fizessem ações e, graças às suas habilidades de comando e estratégia, rapidamente desmo- bilizassem as reações contrárias à independência do Brasil. Um dos comandantes destacados pela historiografia é de Lorde Cochrane, um aristocrata inglês que participou das independências do Brasil, Chile e Peru. Biografia de Lorde Cochrane. Disponível em: https://bit.ly/3ueC3Zr Casos de maior resistência e gravidade ocorreram no Grão-Pará, Maranhão, Piauí, Bahia e Cisplatina. Na Bahia, general Madeira de Melo levou à cabo a rebelião em nome de Portugal, e a reação foi capitaneada pela elite baiana com apoio de lorde Cochrane. O grupo de resistência à revolução alcançou êxito em 2 de julho de 1823. Posterior- mente, esta veio a ser a data de comemoração pela independência da Bahia. A resistência na província Cisplatina (Uruguai) durou até novembro de 1823. Dom João VI havia incorporado ao Brasil essa região, que, após a derrota dos portugueses, aproveita para se insurgir contra brasileiros, buscando sua autonomia. Dois fatos relevantes devemos destacar dessa situação: a fragmentação da América Espanhola em diversas nações frente à união territorial alcançada pelos brasileiros e a adoção do regime republicano por essas nações, seguindo modelo norte-americano. O regime no Brasil permaneceu monárquico por diversos motivos, um deles foi apoio das várias elites brasileiras da antiga colônia. Porém, diversos movimentos de interesse político articularam a independência do Brasil em um processo de amadureci- mento, tendo se concentrado em Dom João VI e, mais tarde, em Dom Pedro I. Nesse movimento bem articulado, destaca-se a figura de José Bonifácio de Andrada que, como conselheiro de Dom Pedro, conseguiu persuadi-lo contra as pressões de Portugal para seu retorno a Lisboa. O liberalismo defendido por Dom Pedro levou a promulgar decretos sobre direitos individuais, redução de impostos e a apregoar ideias abolicionistas. Isso revoltou as cortes portuguesas, que buscaram retaliar Brasil, como a dissolução do governo central no Rio de Janeiro e a promulgação da ordem para retorno imedia- to de Pedro de Bourbon e Bragança a Portugal. Diante dessa ordem, Dom Pedro recusou-se e decidiu, em 9 de janeiro de 1822, permanecer no Brasil em uma declaração pública. Essa declaração, que ficou conhecida como Dia do Fico, levou Portugal a criar em cada província brasileira uma junta su- bordinada a Lisboa. Em Portugal, a corte defendia uma monarquia constitucional, aos moldes liberais, e rebaixamento do Brasil à condição de Colônia. Essas ações despertaram ainda mais desejo por independência, e em 3 de junho de 1822, Dom Pedro convocou eleições provinciais para compor uma Assembleia Constituinte, dando mostras que enfrentaria as ordens vindas de Portugal. 15UNIDADE Estado em Convulsão Em 1° de agosto de 1822, Dom Pedro promulgou um decreto que considerava como inimigas todas as tropas enviadas de Lisboa sem seu consentimento. Essa ação mar- cou rompimento definitivo com Portugal. Em 7 de setembro de 1822, Dom Pedro proclamou a independência do Brasil. Porém, esse foi um passo de muitos para a consolidação de um Brasil livre e inde- pendente. As províncias rebeldes precisavam ser pacificadas, e país necessitava de um reconhecimento internacional e de uma nova legislação que estabelecesse uma nova ordem institucional e desse conta da manutenção da lei e da ordem internas. Tudo isso deveria acontecer em um processo contínuo e diante de muitas desconfianças em relação ao caminho escolhido para a manutenção da monarquia em uma região que estava sob a influência do parlamentarismo e da democracia liberal. Por isso, foi necessário um grande esforço diplomático em que tanto os EUA quanto a Inglaterra foram fundamentais para que Brasil alcançasse um acordo que foi fechado em 1825, mediante a aceitação de uma indenização e um compromisso de que Brasil não iria incentivar a independência das colônias portuguesas na África. Assim, o Brasil se tornou único país independente da América sob um regime monárquico. Por que Brasil continuou um só enquanto América espanhola se dividiu em vários países? Disponível em: https://bbc.in/3EEnsLE O Grupo Liberal Conservador, que advogava pela monarquia constitucional, com a integridade territorial e regime centralizado, foi vitorioso, como nos cita a professora Emília Viotti da Costa (2010, 28): Na Europa, liberalismo era uma ideia burguesa voltada contra as Ins- tituições do Antigo Regime, excessos do poder real, privilégios da nobreza, os entraves do feudalismo ao desenvolvimento da economia. No Brasil, as ideias liberais teriam um significado mais restrito, não se apoia- riam nas mesmas bases sociais, nem teriam exatamente a mesma função. Os princípios liberais não se forjaram, no Brasil, na luta da burguesia contra privilégios da aristocracia e da realeza. Foram importados da Europa. Não existia no Brasil da época uma burguesia dinâmica e ativa que pudesse servir de suporte a essas ideias. Os adeptos das ideias libe- rais pertenciam às categorias rurais e sua clientela. As camadas senho- riais empenhadas em conquistar e garantir a liberdade de comércio e a autonomia administrativa e judiciária não estavam, no entanto, dispostas a renunciar ao latifúndio ou à propriedade escrava. Com a monarquia, as elites agrárias do país mantiveram seus privilégios, e a estru- tura econômica e social permaneceu a mesma, com baixa atuação política e acesso da população. O apoio ao Brasil garantiu a manutenção dos privilégios comerciais dos ingleses e subordinou país aos interesses britânicos. 16Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância A Primazia da Ordem Civil A coroação de Dom Pedro se deu em dezembro de 1822, e as rebeliões foram paci- ficadas em dois de julho de 1823 com a expulsão das tropas portuguesas leais à metró- pole. Em novembro do mesmo ano, foram pacificadas as províncias do Piauí, Maranhão, Grão-Pará e Cisplatina. Dessa forma, a unidade territorial do Brasil independente, sob comando de D. Pedro I, foi garantida, e as mudanças legais e estruturais prepararam Brasil para uma nova fase. Ainda em 1822, foi convocada as eleições para a formação de uma nova Assembleia Constituinte, que se instalou em 3 de maio de 1823, tendo como presidente dos traba- lhos bispo D. José Caetano da Silva Coutinho, capelão-mor do Império. Biobibliografia de D. José Caetano. Disponível em: Na cerimônia de instalação, Dom Pedro compareceu e discursou aos presentes di- zendo que com sua espada defenderia a pátria, a nação e a Constituição, desde que fosse digna do Brasil e da Coroa. Porém, seu discurso causou mal-estar a alguns setores políticos que desejavam maior liberdade. Assim, os políticos, capitaneados por Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, procura- ram aproveitar as diversas constituições e cartas já aprovadas em outros países, como a Constituição francesa de 1791 e 1814, a Constituição portuguesa de 1822 e a Cons- tituição norueguesa de 1814, para estruturar uma Constituição que desse maior auto- nomia e independência à Câmara e ao Senado para conduzir país, restringindo poderes da monarquia. Biografia de Antônio Carlos Ribeiro. Disponível em: https://bit.ly/3Cu1Z6i Isso levou a um confronto entre Dom Pedro e a Assembleia Constituinte, que enten- diam que não caberia ao imperador sancionar as leis ordinárias que fossem elaboradas. Já imperador não renunciava ao seu direito de veto. A formação da política brasileira levou à criação de alas de disputa ideológica que se dividiam em três grupos. O primeiro deles se denominava "bonifácios", liderados por José Bonifácio, e defendia a ideia de uma monarquia forte, constitucional e centra- lizada, principalmente ante risco de uma fragmentação nacional. Defendia também a abolição do tráfico de escravos e da escravidão e apregoava uma reforma agrária para desenvolver economicamente país. Quer saber mais sobre estes personagens? Disponível em: 17UNIDADE Estado em Convulsão Em um outro espectro tínhamos "portugueses absolutistas", dos quais participavam brasileiros e lusitanos que defendiam a monarquia absolutista e centralizada e a manutenção da estrutura escravista, além dos privilégios econômicos e sociais das elites produtoras. O terceiro grupo era denominado de "liberais federalistas", que também era composto por portugueses e brasileiros. Esse grupo desejava a monarquia nos moldes liberais, figu- rativa e descentralizada. Além disso, era a favor da manutenção da escravidão. Para uma visão sintética, apresentamos: Quadro 1 A Composição Político-Partidária no Império, partido e suas ideias e ideologias Eram liderados por José Bonifácio e defendiam a existência de uma Bonifácios monarquia forte, constitucional e centralizada, para evitar a frag- mentação do país e abolir 0 tráfico de escravos e a escravidão, re- alizar uma reforma agrária e desenvolver economicamente 0 país. Compreendiam não apenas lusitanos, mas também brasileiros, e Absolutistas defendiam uma monarquia absoluta e centralizada, além da ma- nutenção de seus privilégios econômicos e sociais. Contavam em seus quadros com portugueses e brasileiros e pre- Liberais federalistas gavam uma monarquia figurativa e descentralizada, federal, com a manutenção da escravidão. Fonte: Adaptado de HEIZER; VIDEIRA, 2001; HOLANDA, 1976; COSTA, 2010; SOUZA, 1978; DORIGO; VICENTINO, 1997 No centro de influência em torno do imperador havia Joaquim Gonçalves Ledo e José Bonifácio de Andrada e Silva. Eles tinham apoiado a Independência, mas eram ad- versários políticos e tinham projetos diferentes de como Brasil deveria ser governado. Biografia de Joaquim Gonçalves Ledo. Disponível em: https://bit.ly/2XDHZ1P O grupo que apoiava Joaquim Gonçalves Ledo defendia que deputados tivessem maiores poderes e chegava a ser acusado de republicano pelos partidários de José Bonifácio de Andrada e Silva e seus irmãos. A disputa política levou a uma violenta perseguição, com troca de acusações aos seus adversários políticos e prisões, que levou Joaquim Gonçalves Ledo a fugir para Buenos Aires. Somente depois, em disputa judicial, demonstrou-se a inocência dos réus, que foram absolvidos pelos tribunais. Dessa forma, Dom Pedro I concedeu anistia a todos os presos políticos. Isso desagradou aos Andradas (José Bonifácio, Martim Francisco e Antônio Carlos), que acabaram por deixar governo. Em 3 de maio de 1823, Andradas passaram a combater violentamente os atos de D. Pedro I nas reuniões da Assembleia Constituinte. Isso acirrou ainda mais ânimos, pois os liberais federalistas desejavam a queda de José Bonifácio como retaliação às perseguições que sofreram. 18Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Eles se uniram aos portugueses absolutistas, pois estes também desejavam a queda de José Bonifácio pelas suas ações contra interesses dos lusitanos. Ideologicamente, Dom Pedro era mais próximo dos Andradas em relação aos projetos sociais, políticos e econômicos, como bem demonstrou a professora Miriam Dolhnikoff, quando afirmou que: As elites regionais tiveram papel decisivo na construção do Estado, im- pondo suas demandas e constituindo-se como elite política que, ao mes- mo tempo em que assumia compromisso com a condução e preser- vação do Estado, mantinha seus laços com sua região de origem, o que conferiu um determinado perfil e uma determinada agenda para o Estado brasileiro. A autonomia era condição para viabilizar a unidade nacional, desejada tanto por liberais como pelos conservadores. Desde início a unidade nacional esteve entre as prioridades de ambos grupos, e está só poderia ser alcançada se preservada a autonomia de modo a cooptar grupos dominantes regionais para interior do Estado. Liberais e conservadores empenharam-se em definir as competências dos governos regionais bem como do governo central, de modo a combinar autonomia com unidade, no interior de um pacto de feições claramente federalistas. (DOLHNIKOFF, 2003, 118) A disputa entre diversos projetos pode ser resumida entre que desejavam a centralização e que queriam a descentralização do poder. O grupo defensor da des- centralização saiu vitorioso, conseguindo aprovar um projeto de Constituição que ficaria conhecido como Constituição da Mandioca. Porém, esse não era projeto de Dom Pedro, que reagiu e impôs pela força sua opinião, ordenando fechamento da Assembleia Constituinte, no que passou para a história como Noite da Agonia. A História das Constituições Brasileiras. Disponível em: https://bit.ly/3ILsJZi O imperador dissolveu a Assembleia e nomeou uma comissão para elaborar uma ou- tra Carta Constitucional. Isso levou ao afastamento do imperador das oligarquias rurais, de feições liberais, e uma aproximação com grupo dos portugueses e conservadores que endossavam suas tendências absolutistas. O Texto Constitucional de 25 de março de 1824 era um avanço rumo ao liberalismo, mas com a manutenção do poder absolutista, incorporando elementos do projeto origi- nal da Constituinte e reforçando poder do imperador. A inovação da Constituição foi a inclusão de um quarto poder, denominado de Poder Moderador, que reservava ao monarca direito de empregar a força armada de mar e terra quando achasse conveniente à segurança do Império, a formação do Conselho de Estado, a nomeação de juízes e ministros, a sanção e veto dos atos do poder legislativo e a escolha dos senadores a partir de uma lista tríplice. 19UNIDADE Estado em Convulsão Quer saber mais sobre 0 poder moderador? Disponível em: Para uma visão sintética da estrutura de Estado no governo imperial de Dom Pedro I, apresentamos: Rei Poder Moderador Conselho Poder Legislativo Poder Executivo Poder Judiciário do Estado STJ Câmara dos deputados Senado Conselhos Presidente das Províncias Conselho do Estado Provinciais Figura 2 Estrutura Administrativa do Império Fonte: Adaptado de HEIZER; VIDEIRA, 2001; HOLANDA, 1976; COSTA, 2010; SOUZA, 1978; DORIGO; VICENTINO, 1997 Estabelecia, ainda, um sistema de eleições indiretas, em dois graus, para qualificação de eleitores, o voto censitário e excluía dos direitos políticos criados, mulheres, as classes trabalhadoras e pessoas que não alcançavam uma renda líquida anual de cem mil réis. Estipulava que só poderiam ser eleitos deputados e senadores entre os cidadãos que alcançassem renda líquida anual igual ou superior a quatrocentos e oitocentos mil réis, respectivamente, e professassem a Religião Católica. Previa a manutenção do Regalismo português, dando ao imperador direito da in- dicação de nomes para preenchimento dos cargos eclesiásticos, dependendo apenas da confirmação papal. Essa carta desagradou parte das elites regionais: imperador tinha apoio do Sul- -Sudeste, mas Norte-Nordeste não aprovava esse poder concentrado. As províncias de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba organizaram manifestações de repúdio, e essas províncias iniciaram um movimento separatista chamado Confederação do Equador, que tinha como objetivo a criação de um novo país que seria organizado como uma república, no lugar de uma monarquia. Para uma síntese sobre a Confedera- ção do Equador, apresentamos: Quer saber mais sobre isto? Disponível em: https://bit.ly/2XEaGvT Tabela 1 A Confederação do Equador Causas Principais Objetivos da Revolta Forte descontentamento com centralização Convocação de uma nova Assembleia política imposta por D. Pedro I, presente na Constituinte para elaboração de uma Constituição de 1824 nova Constituição de caráter liberal 20Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Causas Principais Objetivos da Revolta Descontentamento com a influência Diminuir a influência do governo portuguesa na vida política do Brasil, federal nos assuntos políticos regionais mesmo após a independência A elite de Pernambuco havia escolhido um governador para a província: Manuel Carvalho Pais de Andrade. Porém, em 1824, Dom Pedro Formação de um governo I indicou um governador de sua confiança independente na região para a província: Francisco Paes Barreto. Este conflito político foi 0 estopim da revolta Fonte: Adaptado de HEIZER; VIDEIRA, 2001; HOLANDA, 1976; COSTA, 2010; SOUZA, 1978; DORIGO; VICENTINO, 1997 O imperador reprimiu com violência essa tentativa com a contratação de mercenários estrangeiros, soldados e oficiais. Os líderes do movimento foram presos, e um frade, Frei Caneca, que apoiou movimento, foi executado. O imperador tinha muitos críticos, entre eles, mais incisivos eram jornalistas. Durante seu reinado, o jornalista e médico Líbero Badaró foi assassinado, gerando desconfianças. Biografia Líbero Badaró. Disponível em: As ações do imperador a favor dos assuntos de Portugal também suscitavam críticas, e seus opositores colocavam em dúvida o seu compromisso junto aos interesses da nação. O seu ministério era composto por diversos portugueses, e isso era entendido como uma forma de desapreço pelos brasileiros. Tudo isso criou um clima tenso e aumentou a rejeição aos portugueses que moravam e trabalhavam no Brasil. Em 1831, Dom Pedro abdica do trono em favor de seu filho, Pedro de Alcântara, em grande parte pela pressão política das elites e de populares brasileiros. Golpe da Maioridade e as Disputas Políticas dos Grupos que Compunham Poder: Fases e Acordos Com a abdicação, Dom Pedro I retorna a Portugal para assumir trono naquele país, deixando seu filho sob cuidados de preceptores para que assumisse comando do país quando atingisse a maioridade, conforme a Constituição. Em 1835, Padre Diogo Antônio Feijó, após modificação da Constituição, é eleito regente único, e deu-se início ao período conhecido como governo dos regentes: José da Costa Carvalho, Francisco Lima e Silva e João Bráulio Muniz. Os conservadores assumem controle do governo, e Ministério da Justiça ficou com Padre Diogo Antônio Feijó. 21UNIDADE Estado em Convulsão Biografia de Diogo Antônio Feijó. Disponível em: https://bit.ly/3zp7ilG Entre 1831 e 1840, temos diversas agitações e revoltas no Rio de Janeiro e nas provín- cias, promovidas pelo desejo de liberdade e até mesmo de separação de regiões inteiras. Foi um período do surgimento de vários veículos de comunicação (pasquins), que buscavam desgastar governo provisório e incitar revoltas e desordens com objetivo de implantar no Brasil regime republicano. Também foi um período da formação de diversos partidos e de uma efervescência política, na qual muitos políticos acabaram se destacando na vida do país. Partido dos Exaltados defendia ideias liberais e lutava por uma república federalista, a descentralização do poder e a autonomia das Províncias. Era oposição ao governo, inclusive promovendo desordens. Partido Restaurador desejava retorno da monarquia com a volta de Dom Pedro I ao poder. Tinha entre seus membros irmãos Andrada e José da Silva Lisboa, Visconde de Cairu. Biografia de José da Silva Lisboa. Disponível em: https://bit.ly/3tXCU0y Ainda nesse período, surgiram diversos partidos políticos, como Partido dos Mode- rados (ximangos). Apoiadores do governo, nesse partido estavam Padre Feijó, Evaristo da Veiga, redator do jornal Aurora Fluminense, e Bernardo Pereira de Vasconcelos. Para uma visão sintética, apresentamos: Quer conhecer mais sobre estes personagens? Biografia Evaristo da Veiga. Disponível em: https://bit.ly/3u04Vo9 Biografia Bernardo Pereira de Vasconcelos. Disponível em: https://bit.ly/3nUirc0 Durante a regência Trina Permanente surgiram os partidos políticos: Moderados Restaurador Exaltados (ximangos) (farroupilhas ou jurujubas) Partido do governo Pretendia volta de Fazia oposição ao governo e contava com Feijó, D. Pedro ao trono. e agitava a opnião pública, Evaristo da Veiga, Participávam no partido provocando desordens. redator do jornal os irmão Andradas e Aurora Fluminense, José da Silva Lisboa e Bernardo Pereira (Visconde de Cairu). de Vasconcelos Figura 3 Os Partidos no Império Fonte: Adaptado de HEIZER; VIDEIRA, 2001; HOLANDA, 1976; COSTA, 2010; SOUZA, 1978; DORIGO; VICENTINO, 1997 22Cruzeiro do Sul Virtual Educação a distância Para poder gerir país na minoridade de Dom Pedro II, foi instituída a Regência Trina provisória em 1831. Essa regência era formada pelo Brigadeiro Francisco de Lima e Silva, Nicolau de Campos Vergueiro e José Joaquim Carneiro de Campos. No início do mandato, a Regência Trina restabeleceu Ministério e buscou a pacifi- cação social, anistiando rebelados e que haviam cometido crimes políticos. Também fizeram, entre outras ações, a readmissão do Ministério dos Brasileiros, a suspensão parcial do poder moderador, a anistia aos presos políticos e a convocação da assembleia geral para eleição da Regência Trina permanente. Em agosto de 1834, foi promulgado Ato Adicional, que permitiu a modificação da Constituição do Império em alguns artigos e se estabeleceu governo de um só regente. Nesse ato também a Província do Rio de Janeiro foi declarada município neutro e foi concedida maior autonomia às províncias. Foi criada a Guarda Municipal, inspirada no modelo francês, que teria a função de au- xiliar as forças policiais e Exército a manter a ordem no país. A Guarda Nacional foi fun- damental na articulação do poder central e local no posterior à abdicação de Dom Pedro I. No embate político, conservadores e liberais disputavam para alcançar um equilíbrio entre os poderes régios e a autonomia das províncias. Para tentar chegar a um ponto de foi promulgado Ato Adicional, que seria uma maneira de se firmar um compromisso político acima das disputas de cada grupo. Essa reforma autorizou que cada uma das províncias pudesse criar sua Assembleia Legislativa, e representantes políticos locais poderiam instituir a criação de impostos, controle das finanças e a determinação do número de servidores públicos. Em contrapartida, as assembleias provinciais ficaram subordinadas ao governador da província, escolhido pelo Governo Central. O Ato Adicional também estipulou a extinção da Regência Trina e a escolha de um re- presentante para ocupar cargo regencial no que ficou conhecido como Regência Una, organizada por meio de eleições diretas e voto censitário para a escolha do regente. Essa eleição foi marcada por fraudes em várias regiões do território nacional. A Regência Trina Provisória durou quase três meses, e, em 17 de junho de 1831, a Assembleia Geral elegeu a Regência Trina Permanente. A Regência Trina Permanente nomeou Padre Feijó para cargo de Ministro da Justiça, que teve como função precípua a garantia da ordem pública e fim das agitações populares e revoltas militares que ameaçavam governo. As ações de repressão do Ministro da Justiça Padre Feijó foram contundentes: ex- tinguiu a Guarda Municipal e criou a Guarda Nacional, diretamente subordinada ao Ministério; combateu as agitações no Rio de Janeiro; Exército foi reduzido a dez mil homens espalhados pelo país em pequenas guarnições, com a Guarda Nacional como a principal força armada do país. Apesar de suas ações, explodiram rebeliões como a Cabanagem e a Farroupilha, que desgastou seu governo e sua saúde, levando-o a renunciar quando faltavam dois anos para terminar seu mandato. 23UNIDADE Estado em Convulsão Seu sucessor foi Pedro de Araújo Lima, que tinha ocupado cargo interinamente e foi eleito no ano seguinte. As ações dos regressistas demonstraram a política de endure- cimento contra os movimentos populares e menos liberdade aos governos provinciais. Biografia de Pedro de Araújo Lima. Disponível em: https://bit.ly/2XAz4P1 Outra consequência foi a destituição de José Bonifácio do cargo de tutor e a nomeação do Marquês de Itanhaém para a tutoria do Príncipe Infante. Em 1835, começa um movimento de antecipação da maioridade do Príncipe Infante na tentativa de apaziguar as diversas forças em disputa no Brasil. Da parte das oligar- quias que dependiam do sistema escravocrata, havia a desconfiança das ações adminis- trativas liberais e, ao mesmo tempo, as agitações sociais nas diversas províncias exigiam medidas mais enérgicas para a garantia da ordem e da paz. Assim, formava-se um consenso político de que restabelecimento da autoridade monárquica seria caminho para conter essas dissensões e controlar partidos libe- rais, que fomentavam uma reforma do sistema. O Príncipe herdeiro estava cercado de grupos "palacianos", conhecidos como Clube da Joana. Eles exerciam grande influência sobre Dom Pedro de Alcântara. Quer saber mais sobre este clube? Disponível em: https://bit.ly/3nV5L4P Dessa forma, foi criado em 1840 a Sociedade Promotora da Maioridade, que depois passou a se denominar Clube da Maioridade. A campanha ganhou a Câmara e Senado, e foram realizadas diversas manifesta- ções populares em prol da maioridade. Para antecipar Governo de Dom Pedro II, Partido Progressista (Liberal) apresentou um projeto de declaração da maioridade. Em 23 de julho de 1840, prestou juramento à Assembleia Geral. O intento foi alcançado e a coroação acabou por estabilizar país, fazendo com que as revoltas regenciais que ainda subsistiam terminassem em 1845. 24

Mais conteúdos dessa disciplina