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2 Sumário Introdução ....................................................................... 4 APRENDA A SER SOZINHO ......................................... 7 I PARTE ........................................................................... 8 COMO ESQUECER OUTRA PESSOA? ....................... 10 SOBRE A FELICIDADE ............................................... 14 SOBRE AS MODINHAS E FUTILIDADES ................. 19 DONO DO PRÓPRIO DESTINO .................................. 22 II PARTE ........................................................................ 27 IV PARTE ...................................................................... 53 V PARTE........................................................................ 58 3 4 Introdução Esta obra foi iniciada com o objetivo de ser um ensaio filosófico sobre as paixões, mas conforme escrevia, senti a necessidade de incluir o principal benefício sobre a suposta morte das paixões, isto é, o ganho considerável de autonomia e percepção da realidade, que é a clareza, a consciência do externo sem as lentes mentirosas das influências socialmente adquiridas e até mesmo das nossas inclinações naturalmente estabelecidas. Você aprende a ser mais sozinho na mesma medida em que morre para as ilusões, renascemos e evoluímos com a ascensão do nosso corpo, mente e espírito. A exposição da paixão em várias vertentes tratadas nessa obra, tem como efeito evidenciar as mentiras criadas por nós mesmos e pela sociedade em relação a realidade, não tome o sentido das palavras de forma leviana, leia esse livro com paciência, reflita, e faça sua própria ponderação acerca de tudo. Um ensaio não é uma conjectura, é 5 um pensamento próprio acerca de um determinado pensamento, esse é o verdadeiro espírito dessa obra, um pensamento livre que traz à tona importantes pontos ignorados pela suma maioria. Aprender a ser sozinho é diferente de ser sozinho, um nadador aprende a nadar para que um dia eventualmente possa exercer sua habilidade, isso não significa que ele passará a vida inteira nadando, boas doses de treino e dedicação será o suficiente. Antes de tudo, você deve fazer as seguintes perguntas: o que me leva a ter as atitudes que tenho? O que me faz permanecer em um relacionamento conturbado? O que me leva a postar o que posto nas redes sociais? O que me leva a defender os ideais que defendo? Bom, é necessário responder com sinceridade! Será que você tem sido extremamente influenciado a ponto de não questionar suas condutas? O grau de consciência sobre isso pode determinar o nível da sua liberdade, optar por trilhar seu próprio caminho é tomar consciência acerca daquilo que te afasta da sua 6 verdadeira essência, é entender que não vale a pena estar em uma relação por pura carência, não vale a pena estar rodeado de falsos amigos apenas para se sentir incluído; não vale a pena defender uma ideologia por medo de ser excluído de um determinado grupinho da faculdade. Rejeitar esses desejos significa estar sozinho, sei que isso assusta muitos, mas até quando será governado pelo medo? Somos naturalmente condicionados à ilusão, estourar essa bolha pode parecer doloroso, mas também é libertador, até aqui ainda há tempo de fechar esse livro e viver sua vidinha confortável, mas se decidir continuar então prepare-se para o desconforto, eu não garanto que isso te levará à felicidade, tampouco à uma vida plena, a minha missão aqui é quebrar seu castelinho de ilusões que há anos vem construindo, prometo quebrar cada tijolo, até que todos estejam no chão! E sobre ele iniciaremos uma nova estrutura, ela será a sua nova percepção da realidade, mais lúcida, autêntica e equilibrada. Boa sorte! 7 APRENDA A SER SOZINHO 8 I PARTE Todas as vezes que nos inclinamos a falar sobre a secularidade, que seja a vida amorosa, relacionamento, desilusão ou qualquer tipo de dificuldade nesse âmbito, somos quase que naturalmente condicionados a encontrar as respostas voltando nossa atenção para nós mesmos, nesse sentido parece simples desenvolver o autoconhecimento, mas nada disso é possível se antes não aprendermos a ser sozinhos, então se instala um problema: como aprender a ser sozinho se passamos quase que a vida inteira sendo ensinados que estar acompanhado é sinônimo de saúde emocional? A primeira pergunta que nos fazem em um encontro de família é se estamos namorando, e se não estamos com alguém, há sempre um semblante triste que nos consola como se houvesse algo muito errado em ficar um tempo sozinho, neste ponto é importante dizer que, quando digo: Aprenda a ser sozinho. Não significa que iremos morrer sozinhos, não é uma 9 sentença! A necessidade de aprender a ser sozinho, neste e-book é abordado como meio de manutenção psíquica e fator primordial para o desenvolvimento pessoal. Mas primeiramente quero iniciar pelas pautas mais comuns, isto é, os relacionamentos amorosos. 10 COMO ESQUECER OUTRA PESSOA? O desejo faz parte da estrutura básica do amor, quando se perde o desejo, perde-se a atração, o que comumente chamamos de “magia”, isso acontece porque a imaturidade de ambas as partes o fizeram agir como animais impulsivos, desejo não é amor, desejo não é um fim em si mesmo, não há como basear um relacionamento apenas em desejo, pois não é substancial, aliás, são poucas as coisas que resistem a convivência, quando conhecemos uma pessoa ela parece perfeita, e para essa conclusão incorreta chamo de paixão (paixão e ilusão são as mesmíssimas coisas), então no decorrer do tempo as máscaras caem, você passa a ter intimidade e a intimidade evidencia toda a mentira daquela relação, o problema é que isso pode durar meses ou até anos, existe sempre uma parte que atribui demasiado significado ao outro, existe sempre um lado que não quer muito terminar a relação, esse lado é o mais fraco, se apegou em demasia e acreditou em todas as mentiras que ele 11 mesmo contou e reforçou dia após dia para si mesmo, todo esse tempo de intimidade e experiências fez com que incluísse a figura dessa pessoa em toda a sua rotina, um dos maiores problemas de um término é justamente o medo de não conseguir viver sem a outra pessoa, como se não houvesse outras milhares na terra, como se aquele indivíduo tivesse supremacia dentre as outras opções, todo esse demasiado valor atribuído ao outro não passa de um suposto “medo” de perdê-lo, o que é uma ingenuidade infantil pois, não pertencemos a ninguém, esse é apenas um mito secular reforçado no dia a dia, com termos: “minha namorada”, “minha esposa”, “meu amor”... sei que são formas comuns, ditas quase inconscientemente, mas é um reforçador da ideia de que temos posse da outra pessoa, a dura verdade é que nenhum indivíduo é propriedade nossa, seu medo não é necessariamente de perder o outro, mas sim aquela representação em si mesmo, e mesmo depois da separação, ali estão as lembranças; quando se perde uma figura tão presente, 12 mais potência ela ganha em nossas mentes, e aqui chegamos no cerne da questão: Como esquecer essa representação psíquica? Quanto maior o tempo e a intensidade da relação, mais difícil é desligar as emoções dessa representação, mas ela só é possível de fato por via de novas experiências e, principalmente, evitando a antiga rotina, ou seja, é necessário evitar qualquer coisa que esteja associado àquela pessoa, quanto mais rigorosa for essa atitude, menos tempo levará para esquecer. A lógica é bem simples, em um relacionamento a presença reforça os sentimentos atribuídos àquela pessoa, para esquecer, a distância reforça a desassociação atribuída a ela. Tudoisso seria facilmente evitado se as pessoas não se entregassem tanto às outras, é necessário investir em si mesmo antes de incluir alguém em nossas vidas, e mesmo estando em um relacionamento, jamais colocar o outro em um pedestal, sejamos sempre a nossa maior prioridade, a base forte é sempre 13 construída com boas doses de solidão, quem não é feliz sozinho, dificilmente será feliz com outras pessoas, por mais extrovertido que ela seja, todo ser humano necessita de tempos de introspecção para a manutenção psíquica e emocional. 14 SOBRE A FELICIDADE Existe uma falsa crença de que a felicidade está em pessoas ou coisas, quando você é adolescente acha que a felicidade virá quando conseguir o primeiro emprego e através da grana conseguir comprar o primeiro carro, você se esforça, trabalha feito um jumento e consegue comprar o carro, mas não encontra a felicidade; então decide arranjar uma namorada, e pensa: se eu tiver uma linda mulher ao meu lado serei feliz, você encontra uma mulher perfeita aos seus olhos, você faz de tudo para agradá- la e surge os primeiros conflitos, mas novamente você pensa: certo, acho que só serei feliz quando tiver filhos, pois é isso que todos falam! Vocês então decidem ter filhos e com os filhos surgem inúmeras necessidades, você trabalha em dobro para pagar médico, supri-los para crescerem saudáveis, e a correria do dia a dia o faz andar na direção contrária da felicidade, então pensa: serei feliz quando ver meus filhos bem e futuramente ter meus netos junto a 15 mim. Assim a vida passa, e você que tanto buscou a felicidade em planos futuros, depois de mais velho descobre que ela sempre esteve no presente, e só aí você começa a aproveitar a vida vivendo cada dia como se fosse o último. O mundo é grande e maravilhoso, a maioria de nós vivemos e morremos no mesmo canto em que nascemos, você pode continuar fazendo parte dessa maioria, que vive centralizando sua felicidade em coisas tão ínfimas, atribuindo demasiado valor a indivíduos que vivem errando com você, ou pode passar a dar mais valor à sua vida, com os pés no chão, mas se abrindo para novas experiências. No total oposto temos os niilistas, são crianças ressentidas que não acreditam na felicidade porque um dia alguém fora cruel com seu pobre coração, Nietzsche compara o ressentido a uma espécie de galinha, a qual, se o dono desenha um círculo na areia, não consegue sair dele. Bastaria dar um passo para fora, mas é incapaz porque o seu norte cognitivo é 16 limitado ao que fora traçado. Assim o homem ressentido é incapaz de seguir em frente e acaba corrompido moralmente, pois a alma humana deseja agir, mas como não consegue, precisa criar justificativas para suportar a si mesmo, é nesse sentido que nasce o niilismo, como justificativa de que a vida não tem sentido, transferindo experiências existenciais ruins para reflexões cósmicas sem nenhum tipo de metodologia, ou perversões com justificativas imorais para insultar o alvo do seu ressentimento, são tão ressentidos que não conseguem lidar com a dor e o fracasso. Não passa de ingenuidade, uma visão romântica do mundo, onde deveria ser um paraíso, e agora, como descobri essa grande farsa, vou me rebelar contra tudo, inclusive Deus. É um bebê querendo atenção! Não entende que a vida não é um lugar para lhe servir, e que só terá paz quando entender que a saúde psicológica não está em receber, mas em dar. Feliz não é quem espera que o pai viverá para sempre e fica choramingando num 17 canto quando ele vai embora. Mas sim quem aceita a realidade da morte e ajuda a planejar o velório. Na medida em que você aprende a se manter firme, a agir em vez de chorar, você também começa a ser essa pessoa onde os mais fracos possam se apoiar. Em vez de se lamentar que os outros não se importam com você e que não há felicidade na vida, você simplesmente transcende o seu sofrimento e se importa com eles. Segundo Bertrand Russell em seu livro “A conquista da felicidade”, existem dois tipos de felicidade, a primeira é a normal, a segunda é a fantasiosa, basicamente falando, sobre a normal, Russell afirma que a persistência nos propósitos é um dos ingredientes mais importantes para alcançar a felicidade a longo prazo, é uma percepção sobre a vida que infelizmente a maioria das pessoas só reconhecem quando estão mais velhas. Já o jovem é quase sempre levado a achar que a felicidade está em objetos ou pessoas, é a forma fantasiosa de enxergar 18 a vida, essa conduta se repete em praticamente todos os jovens, se observarmos essa fase, há sempre uma predileção que tende aos “amigos” em vez dos pais, é engraçado isso, pois os pais geraram aquele indivíduo, alimentaram, cuidaram, instruíram, amaram de forma genuína, e no fim das contas ele prefere o amigo que está cagando para ele e oferece um baseado no final da aula. A incapacidade de encontrar a felicidade em lugares óbvios é sem dúvidas a doença da juventude, como a felicidade não estaria em um ambiente onde todos se importam com você? Em que momento essas pessoas se tornaram os vilões da história? É exatamente aqui que reconstruímos a imagem do niilista, deturpa a realidade para expressar sua angustia fantasiosa, é óbvio que não conhece a dor, para seu próprio bem, os idiotas precisam quebrar a cara para que as lentes da mentira se rompam e enxerguem a realidade. 19 SOBRE AS MODINHAS E FUTILIDADES Há sempre uma grande maioria que busca entender onde está o problema dessa geração, “o que você acha de tal comportamento feminino?”; ou “o que você acha de um homem que tem tal tipo de conduta?”, enquanto você busca encontrar mil respostas para mil defeitos nos outros, perde a oportunidade de focar no seu próprio desenvolvimento pessoal, é necessário deixar que aqueles que não se dedicam a crescer, aprendam com suas próprias consequências, pare de endereçar sua percepção para o lado errado, dedique seu tempo em coisas úteis. Existem inúmeras “filosofias”, e na internet você acaba encontrando de tudo, sempre haverá um coach tentando reinventar a roda, tenho certeza que você já ouviu termos como: red pill, blue pill, alpha, beta, cafajeste, sigma, etc... são apenas formas de chamar sua atenção para vender um curso caro com pouco embasamento cientifico depois, mais patético ainda se disserem que é uma 20 filosofia — Aristóteles se contorce no tumulo toda vez que um coach diz isso. Logo mais você se aprofundará no tema personalidade, é impossível amadurecer se as suas únicas influências se baseiam naquilo que te motiva, o mundo não é um mar de rosas e a dor gera sempre as melhores experiências, pare de buscar respostas em vídeos motivacionais, nesse livro eu também vou te ensinar a ser mais crítico, e por mais que a linguagem comece a ficar difícil, não desista, leia novamente, pesquise os termos e familiarize-se com eles. Bukowski diz: "Onde quer que a multidão vá, corra na outra direção. Eles estão sempre errados. Por séculos estiveram errados e sempre estarão errados." Você nunca verá a maioria optando pelo caminho mais difícil, os espertalhões produzem conteúdos fáceis para ganhar a atenção das massas, isso está completamente ligado ao grau de ingenuidade do 21 indivíduo, quanto mais “simples”, mais ele acredita em soluções imediatas, nesse sentido o ceticismo é uma dádiva. Teóricos como: Charcot e Emile Coué; discorrem sobre a hipnose, e o cerne do seu método é a sugestão, isto é — um comando gentil ou positivo funde-se à mente em alto grau de concentração do indivíduo, o que induz a um estado de transe hipnótico e neste estado o indivíduo está mais suscetível ao poder da sugestão — essa teoria foi inicialmente chamada de “sonolúcido” pelo Abade Faria. Um dos motivos da hipnose não ser considerada uma ciência, é pelo simples fato dela não ser aplicável em todas as pessoas, como disse, quanto mais crítico for o indivíduo, menos manipulável ele será — é justamente sobre essa minoria que a hipnose não se aplica. 22 DONO DO PRÓPRIO DESTINO Quanto mais fraca for a personalidade, mais o indivíduo se sentirá na obrigação de pertencer a um grupo, e para que isso aconteça, antes é feita uma espécie de sabatina, isto é, sacrifique seus valores, suas qualidades, seu estilo, sua vocação e aceite as regras daquele grupo, caso contrário será tratado com inferioridade, desprezo e não terá amigos — uma personalidade forte mandaria todos à merda. É necessário entender que a influência coletiva sempre terá supremacia se você não souber quem realmente é. Veja, não estou falando apenas sobre grupinhos de faculdade, estou me referindo principalmente àqueles mais comuns, que te reduzem ao estereótipo do homem comum, que só quer saber de mulheres e cerveja; o mesmo anda acontecendo com muitas mulheres, o estereótipo da mulher dona de si que só quer curtir a vida, viajar e fazer compras... a conquista da subjetividade é a busca por força de personalidade, 23 ideias próprias, sentimentos sólidos e objetivos potentes. Sei que tudo isso à primeira vista parece confuso, mas quero que entenda uma coisa, para sair dessa bolha você precisa criar o seu próprio mundo, não é você que deseja ser parte deles, são eles que se intrigam e intrometem no seu mundo, esse mundo não pode ser de ilusões, você precisa criar elementos e ferramentas para tornar seus objetivos reais, é nisso que consiste o eu subjetivo, é o indivíduo que pensa, planeja e faz, que dita suas próprias regras, essa mesma conduta é a que te faz ser tão atraente para as outras pessoas, pois te torna diferente, você não caminha na mesma direção que eles, você traça seu próprio destino e tem resultados expressivos através de renúncias diárias. O caminho para alcançar grandes objetivos é a constância, enquanto a maioria desiste mediante ao primeiro obstáculo, persista. Enquanto eles alimentam seus prazeres imediatos, você alimenta seus sonhos a longo prazo com trabalho duro todos os 24 dias, não tenha pena de si mesmo, tenha pena deles por não ter a sua mentalidade, seja absolutamente implacável quanto aos seus objetivos. A genialidade é sempre solitária, criar esse ecossistema requer autonomia, você seria capaz de ter a sua própria fonte de renda sem depender de um trabalho convencional? Você seria capaz de criar um repertório de estudos sem se basear na receitinha de bolo que ensinam nas escolas? Seria capaz de testar os limites do seu corpo praticando musculação todos os dias? Essas três coisas requerem disciplina, organização e clareza. Romper a camada do senso comum exige foco absoluto, exige criar um universo interior onde você dita as regras, e principalmente, você se sente bem nesse território. Seja autodidata, faça isso sozinho; adquira habilidades que te possibilite ter a máxima liberdade possível, ter uma rotina de estudos fará com que você crie seu próprio repertório intelectual, além do mais, te colocará à frente daqueles que nunca tocaram em 25 um livro, aqueles que são apenas papagaios puxa sacos de professores, não conseguem sequer formular um pensamento próprio, são assim e morrerão assim, sendo pessoas comuns, confortáveis com os ideais do grupo, repetindo o que os outros fazem sem ao menos questionarem a veracidade dos fatos, ou se aquilo é moralmente certo. Aprender a ser sozinho na prática é criar seu próprio destino, quanto mais você se conhecer, mais fácil será esse trabalho, é nesse sentido que se encontra a solução para a maioria dos problemas comuns que te assolam, se hoje você tem problemas de âmbito amoroso, é focando nos seus objetivos que irá superar isso; ninguém se interessa por um coitado, o princípio da atração é a admiração, se o indivíduo age assim, naturalmente será visto como alguém digno de pena, é por isso que esses marmanjos vivem reclamando que estão na friendzone, são uns coitados, querem agradar a todos, ficam como cordeirinhos cabisbaixo pedindo para entrar na vida de alguém, suplicando por 26 atenção... enquanto não entenderem essa simples lógica do protagonismo, de serem donos do próprio destino, continuarão nesse ciclo patético. Bom, até aqui eu espero de verdade que você já tenha encontrado as respostas para os problemas mais comuns, a partir do próximo capítulo nos aprofundaremos mais no tema central do livro, você irá notar que na mediada em que progredir nessa leitura, a linguagem também alcançará certo nível de dificuldade, lembre-se dos conselhos no início do livro, caso não entenda uma frase ou um trecho, leia novamente com mais calma até extrair o sentido claro dele. Se possível, anote as referências literárias para ler depois, uma obra leva à outra, é assim que se forma o pensamento claro e autentico. 27 II PARTE Somos extremamente reativos, e quem mais “entendeu” isso foram os aplicativos, até que ponto temos controle dos nossos atos nas redes sociais? Aquilo me parece mais uma prisão, likes possuem valores emocionais, uma reação nos stories por exemplo causam inúmeros efeitos, é como adestrar um cãozinho, quando você entende que publicar uma foto no feed ou no story significa: receber estímulos externos, você fica cada vez mais adestrado, o que antes você fazia uma vez por semana, passa a fazer todos os dias, depois todas as horas, até se tornar um vício; como todos sabemos o vício possui dois lados, isto é, o prazer e a recaída. “A caixa de Skinner”, basicamente falando, é um experimento feito com ratos em laboratórios de psicologia experimental, onde colocam ratos em caixas, e através de estímulos positivos modulam a conduta daquele animal, serve para simular o “modus operandi” do ser humano, se refletirmos, é exatamente isso que as redes sociais 28 fazem com todos nós, somos ratinhos reforçados a reproduzir todos os dias determinadas condutas através de likes, reações, comentários, visualizações... É uma espécie de reforço positivo para continuar fazendo aquelas idiotices. Comece a controlar seus impulsos colocando sua consciência nos pequenos atos, é isso que nos difere dos ratinhos de Skinner, temos autoconsciência! Se possível, exclua algumas redes sociais, em vez de perder horas da sua vida em TikTok, Twitter e Instagram, faça algo por você, algo que realmente lhe trará ganhos. Boa parte dos teóricos de psicologia social sempre enfatizam o fato de que o ser humano é um animal sociável, isto é certo, mas se observarmos, praticamente todas as patologias psicológicas da atualidade são consequência da sociedade, isso implica em uma certeza óbvia: O fato de sermos animais sociáveis, não significa que a sociedade nos faça tão bem assim, significa que a sociedade é um meio de garantirmos a nossa sobrevivência e 29 adquirirmos algumas habilidades sociais. A psicologia contemporânea se baseia em um modelo de aprendizagem do século XX, em teóricos como: Vygotsky e Piaget. É através de processos psicológicos elementares que se adquire os processos psicológicos superiores (capacidade simbólica, consciência, controle da atividade psíquica), e nesta parte é importante ressaltar que a construção dos signos, ou melhor dizendo, a estrutura da realidade, é feita através de experiência no mundo real, que posteriormente se transformam em representações mentais (ideias, conceitos e imagens), ou seja, a sociedade nos ajuda a desenvolver aspectos importantes em nós mesmos, sem ela seriamos apenas bichos enclausurados como Chuck e sua bola Wilson em uma ilha, alienadodo mundo, e neste ponto é que falaremos do perigo oculto, que é a outra forma de alienação, aquela que é adquirida pela sociedade. A alienação social é bem descrita por Le Bon em psicologia das massas: 30 A ação inconsciente das massas que substitui a atividade consciente dos indivíduos é uma das principais características da era atual. (LE BON, 1895, p. 3) As decisões de interesse geral, tomadas por uma assembleia de pessoas distintas, mas de especialidades diferentes, não são sensivelmente superiores às decisões que tomaria uma reunião de imbecis. Eles só podem colocar em comum as qualidades medíocres que todo mundo possui. Nas massas, é a imbecilidade e não a genialidade que se acumula. (LE BON, 1895, p. 14) O que isto significa, amigos? Significa que em meio a sociedade você age completamente diferente de como seria sozinho ou com uma quantidade inferior de pessoas, o indivíduo coloca uma máscara social onde sua personalidade consciente desaparece, e os sentimentos e ideais são orientados na mesma direção do bando; agimos como bichos, é mais fácil se tornar idiota quando permanecemos infiltrados nas massas. 31 Segundo Le Bon, pelo único fato numérico, o indivíduo adquire um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, jamais teria coragem. Observem as torcidas organizadas, manifestações políticas, grupos de estudantes ou até mesmo as redes sociais... isso se explica porque em meio ao bando é mais fácil fugir das responsabilidades, existe um apanhado de regras gerais que responsabiliza por todos. Numa massa, todo sentimento, todo ato é contagioso e contagioso a ponto do indivíduo sacrificar muito facilmente seu interesse pessoal pelo interesse coletivo. Esta é uma aptidão muito contrária à sua natureza e que o ser humano só é capaz quando ele faz parte de uma massa. (LE BON, 1895, p. 14) Todo ato reproduzido nas massas é extremamente contagioso, mesmo que seja irracional ou imoral; entende como pertencer a uma massa pode ser uma 32 forma de doutrinação? Este é o lado negativo da sociedade, o lado em que não tomamos consciência e somos levados a reproduzir atitudes autômatas, o que traz grandes prejuízos para o indivíduo e ao meu ver, é o principal fator para o desenvolvimento de ansiedades dentre outras patologias. Aprender a ser sozinho, nesse sentido é uma forma de libertação, como disse anteriormente, jamais excluindo a sociabilidade, mas tomando maior consciência da sua manifestação e se desenvolvendo independente dela. Lembre-se! A influência coletiva sempre será mais forte se você não souber quem realmente é. Desenvolva o senso crítico enquanto estiver rodeado de pessoas, as massas confundem facilmente o subjetivo com o objetivo, sendo assim, muitos vislumbrados e iludidos. Não aja conforme as regras, questionar é também um esforço de consciência acerca do todo, quanto menos manipulável, mais independente você se torna. 33 Neste mesmo sentido das relações interpessoais temos, em menor quantidade, os grupos de amigos; até que ponto vale a pena estar em um lugar rodeado de pessoas que reproduzem atitudes tão medíocres? Muitas vezes barganhamos nossos valores por medo da solidão, é assim com amigos e também em relacionamentos amorosos, mas sobre isso estaremos falando logo mais. Veja, amizades são feitas mediante aos graus de afinidade, interesse e admiração, é importante considerarmos o fato de cada indivíduo estar em constante mudança, isso significa que o seu amigo de 5 anos atrás pode não ter mais os mesmos fatores que fizeram você ter determinada consideração por ele, mas mesmo assim você insiste em continuar aquela amizade devido ao tempo, e com isso acaba copiando manias e condutas antes abominadas por você, assim se inicia a barganha de valores, começa com uma piadinha imoral e aos poucos vai se tornando parte dessa imoralidade. Há também as amizades feitas por pressão, a típica 34 amizade de faculdade, ou você coaduna com determinadas ideias, ou será alvo dos piores tipos de olhares, cochichos e risadas, eu sei que nesse sentido a solidão parece algo triste, mas quero te ajudar a ressignificar esse termo, primeiro! Solidão não é uma sentença, a solidão é sempre temporária, resistir a esse tempo significa: ter controle sobre o que te influencia; aqueles que controlam suas influências ganham a gloriosa habilidade de escolher que tipo de pessoa quer se tornar. Nosso comportamento é resultado de inúmeros fatores, mas o principal é o ambiente, uma vez que consegue controlá-lo, também controlará suas influências, é claro que não será possível fazer isso com tudo, estou falando apenas daquilo em que nossas escolhas podem alcançar, como dizia Sartre: Sofremos as consequências da liberdade dos outros. Se a solidão for necessária, encare-a! Com o tempo, naturalmente encontrará amizades compatíveis, mas lembre-se, estar em meio a amizades erradas, sempre te afastará das corretas, 35 não há como tomar dois caminhos. Solidão sempre será uma dádiva se a outra opção for se tornar igual a eles. Qualquer um que tenha objetivos potentes deve abraçar a solidão e fazer dela um bom abrigo. O “problema” iminente da solidão, é que conforme você aumenta a qualidade do seu tempo, você se torna mais exigente com suas companhias, conversas seculares ficam enfadonhas quando você está habituado a “dialogar” com poetas mortos, é difícil trocar um diálogo profundo com Bruno Tolentino ou até mesmo Shakespeare por uma conversa de bar, é nesta mesma medida que você se afasta do senso comum. A percepção acerca da solidão determina sua qualidade, para uns traz pavor, para outros, paz! Por que isso? Tem a ver com o ambiente e as crenças limitantes que aquela pessoa teve durante a vida, se você cresce escutando que leite com manga mata, certamente terá medo disso. Entender a necessidade de um equilíbrio faz parte da maturidade. 36 Vemos que a compatibilidade com a solidão varia de pessoa para pessoa, pessoas extrovertidas terão menor facilidade para se adaptar a solidão, já pessoas introvertidas possuem naturalmente essa tendência para uma vida mais reclusa, se observamos a teoria da libido e as personalidades introvertidas e extrovertidas de Jung, vemos que a energia do extrovertido flui de maneira natural para o mundo externo de objetos, fatos e pessoas. São indivíduos que realizam ações antes de pensar, podemos mencionar aqui dois temperamentos proeminentes a este traço de personalidade, são eles o sanguíneo e o colérico; para o extrovertido, a energia flui de dentro para fora, ficando mais fácil a adaptação às condições externas, pois o extrovertido é mais confiante em relação ao objeto. Na introversão, o indivíduo direciona a atenção para o seu mundo interno de impressões, emoções e pensamentos. No introvertido encontramos ações voltadas para o interior, o pensar antes de agir, postura reservada, retraimento social, 37 retenção das emoções, discrição e facilidade de expressão escrita. O foco do introvertido se baseia por fatores subjetivos. Para Jung, nenhum ser humano é exclusivamente um nem outro, assim como os temperamentos, há um primário e outro secundário, temos ambos em graus diferentes. “[...] ambas as atitudes existem dentro dele, mas só uma delas foi desenvolvida como função de adaptação; logo podemos supor que a extroversão cochicha no fundo do introvertido, como uma lava, e vice-versa”. (Carl Gustav Jung) Por isso que não existe ser introvertido, existe estar introvertido ou extrovertido! Ninguém é inteiramente um nem outro, até mesmo a pessoa mais sociável precisa de um tempo sozinha, até mesmo a pessoa mais antissocial precisa conviver com outras pessoas, o perigo iminente está nos exageros,e um dos mais recorrentes é aquela em que pela incapacidade de 38 exercer a mínima introspecção possível, deixa o indivíduo completamente refém de um parceiro, amigos ou grupos maiores. Aprender a ser sozinho é ascender habilidades de introspecção, talvez o silêncio seja a maior e a mais desafiadora delas. Quando nos tornamos silenciosos, absorvemos melhor o significado do mundo exterior, isso automaticamente nos traz determinada ordem interna; no silêncio encontramos a paz necessária para fazer brotar a criatividade, é no silêncio que as maiores obras e as maiores revoluções internas acontecem, o silêncio é geralmente o maior indicativo de que algo realmente mudou em uma pessoa; não há mais necessidade de discussão pois estou de bem comigo mesmo, não é necessário conversas e companhias fúteis, pois percebi que essa harmonia interna faz com que eu enxergue tudo como realmente é. Lembro-me que uma das principais manifestações do silêncio em minha vida foi poder enxergar determinados ciclos se repetindo, nessa situação, se 39 não houvesse o silêncio, com certeza cairia no mesmo erro várias vezes. Se não formos capazes de suportar o silêncio, buscaremos pelas respostas erradas nas massas barulhentas, ficaremos como palha ao vento para lá e para cá, de festa em festa, de relacionamento em relacionamento, de aventuras em aventuras, nos distanciando cada vez mais de nós mesmos e colaborando para o caos psicológico. O ditado popular diz que temos uma boca e dois ouvidos para falar menos e escutar mais; há um fundo de verdade nisso, mas não há somente dois ouvidos, também temos dois olhos, devemos usar nossa capacidade sensorial para identificar erros que já cometemos anteriormente, devemos aprender a usar menos a fala quando estivermos na presença de pessoas desiquilibradas, quantos problemas não teríamos evitado se apenas calássemos a boca? É necessário abrir mão do orgulho para crescer, nesse sentido, perder uma discussão não é sinônimo de fraqueza, mas sim de domínio próprio. Manter-se em silêncio 40 em situações caóticas é um fator determinante para o seu desenvolvimento pessoal. Sempre tive problemas em me conectar com adolescentes, havia sempre uma exagerada necessidade de autoafirmação, histeria e um tipo de rebeldia idiota, um fator determinante para transcender a natureza da própria geração é conviver com uma geração mais antiga, ao contrário das “crianças”, pessoas mais velhas, por mais simples que elas sejam, sempre possuem uma boa experiência para passar, há sabedoria nas palavras e respeito ao silêncio. Nas poucas vezes que participei de festas, me senti completamente deslocado, pensava: Certo! O objetivo daquele grupinho é beijar o máximo de bocas possíveis, daquele outro é ver quem chama mais atenção, e do outro é ter uma experiência sobrenatural com drogas psicodélicas, ok! Resumindo... os objetivos aqui variam de instinto de reprodução a autodestruição. Que coisa mais idiota, na manhã seguinte estarão todos do mesmo jeito, 41 checando suas redes sociais para não terem que encarar a dura realidade que a vida passa e ainda estão morando com os pais, fazendo um curso qualquer só porque todos fazem, e chegarão na vida adulta com inúmeros traumas consequência de suas escolhas medíocres no passado, mas no fim é isso, precisamos aprender a assumir responsabilidades, não adianta culpar seus pais, o capitalismo, o governo, o patriarcado, as guerras, a religião ou qualquer que seja o seu ressentimento, crescer dói, o quanto antes você encarar essa dor, melhor. 42 III PARTE Somos naturalmente condicionados às certezas, Carl Gustav Jung diz que faz parte do processo de expansão de consciência abandonar as certezas para resolver um problema, isso significa que, se tornar mais lucido é difícil porque vai contra a natureza humana, olhar para o espelho e enxergar uma pessoa que precisa evoluir, é doloroso, mas a força de personalidade parte de um princípio de autoconsciência, quanto mais sabemos quem somos e pra onde queremos ir, mais claro as coisas ficam, até então existem vários métodos de psicoterapia para isso, são inúmeras abordagens, cada teórico traçará um caminho diferente, lembra que falamos de um mediador para conduzir a evolução humana? Neste caso aqui seria o psicólogo. Mas o que farei aqui é atípico, sugiro que este livro faça o papel de agente mediador, o que talvez possa te levar para a compreensão de si mesmo, aliás, se o que buscamos é aprender a ser sozinhos, temos principalmente que 43 aprender a resolver nossos problemas da mesma forma, não por orgulho, mas porque ninguém nunca conseguirá acessar nossos sentimentos tão profundamente quanto nós mesmos. Se observarmos a conduta de um bebê após o seu nascimento, ele é apenas o efeito do mundo sobre ele, não há consciência de si, após alguns dias ele observa os objetos, a figura dos pais, e ali se delineia as primeiras impressões da realidade, veja que o princípio é: a percepção do ambiente vem antes da percepção do indivíduo sobre ele mesmo, só depois ele começa a notar seus membros, o timbre da voz, seus gostos, etc. Na passagem da infância para a adolescência acontece uma transição, na medida em que o indivíduo se forma subjetivamente adquirindo domínio sobre a linguagem, e posteriormente processos psicológicos superiores, seu mundo interno — enganosamente — passa a “determinar” o mundo externo, se você se sente triste, então tudo lhe parece meio cinza, se uma pessoa te rejeita, tudo perde a 44 graça, se você fica apaixonado então tudo parece mais colorido, é neste ponto do desenvolvimento do mundo subjetivo que nos perdemos da verdadeira percepção da realidade; o mundo passa a ter a ínfima medida dos nossos sentimentos e a desconstrução é sempre mais dolorosa, mas também é a que determina o grau de maturidade de um indivíduo: experiência gera dor e dor gera aprendizados, é mais fácil lembrar do que sentimos na pele do que adquirimos por via da razão, isso significa que o fato de ler este livro te fará potencialmente lúcido, mas a efetivação se dará no mundo real através do esforço diário de perceber a realidade. Suponhamos que você é demitido de um emprego, seu impulso o leva naturalmente à raiva, depois à pena de si mesmo, um indivíduo apaixonado por aquele trabalho faria de tudo para tê-lo novamente, caso não fosse possível, este indivíduo canalizaria sua dor para alguma forma de depravação, como: bebidas, jogos, compras desnecessárias, sexo e relações como válvula de escape... como se aquele 45 emprego fosse tudo, mas não, era apenas o mundinho dele, onde as coisas faziam sentido, era uma peça da engrenagem onde o todo jamais funcionaria sem; de fato, um trabalho é importante, mas uma visão apaixonada sobre aquilo faz com que em vez de agir rápido e conseguir outro emprego, faça com que afunde em seus próprios sentimentos, negando um mar de possibilidades. Viktor Frankl foi um grande psiquiatra do século XX, reconhecido por suas obras e principalmente por sua experiência em quatro campos de concentração nazistas; naquele cenário notou dois tipos de indivíduos: aqueles que se desmoronavam mediante aquela realidade, e os que permaneciam firmes como uma rocha, esses só permaneciam firmes porque tinham um objetivo maior que a própria existência, sua vida era regida por um bem maior, em contrapartida, a perda de sentido ou desse supremo bem estaria na base de todas as neuroses e psicoses. Fiz essa menção apenas para continuarmos o 46 raciocínio anterior, é necessário ter objetivos maiores do que aquilo que nos rodeia, caso contrário seremos apenas animais reativos, previsíveis e patéticos. Sertillanges dizia que aquele que se aprofunda emuma só direção percebe todo o resto com um olhar diferente, é necessário fugir da coletividade, é necessário aprimorar-se em determinada direção para enxergar a mínima verdade nas coisas. É difícil enxergar com clareza quando se está confuso, há necessidade de fazer mil coisas e vontade de fazer nenhuma, o desanimo vem justamente da ansiedade de ter que fazer todas ao mesmo tempo, que tal focar apenas em uma ou duas coisas? A confusão psicológica nasce primeiro da falta de organização, defina prioridades, e quando decidir vá até o final, todos os caminhos serão atraentes, mas basta um momento de negligência para se perder da direção certa. É uma forma de humildade reconhecer as próprias limitações, aquilo que não alcançares, abandone a Deus. Muitas crianças são ensinadas por 47 seus pais que podem ser o que quiserem, “basta lutar para conquistar seus sonhos”, dizem isso e mal sabem o monstro que estão criando, viram adultos mimados e prepotentes, como no conto “a infância de um chefe” de Sartre... não há mal pior do que aquele que possui suas crenças limitantes enraizadas na infância, o choque de realidade é sempre mais doloroso... seja capaz de contar sua própria história, seja réu e juiz de si mesmo! Para aqueles que leram meu primeiro livro “Conheça a ti mesmo” sabem que falo sobre tudo isso de forma mais incisiva, é necessário rasgar o véu que ofusca a percepção de nós mesmos, um versículo bíblico diz: “se os olhos forem bons, todo o resto estará cheio de luz”, evidentemente existe uma grande diferença entre organizar e perceber o que é bom, mas posso dizer seguramente que nada do que a paixão retém é necessariamente bom, mas quando alcançamos um supremo bem, temos a certeza de que aquilo faz parte do amor, pois é substancial, passou pelo teste do tempo, continua sendo o que é, apesar 48 das circunstancias. As escolhas mais assertivas sucumbem a barreira do primeiro momento, o que é bom quase nunca é sinal de conforto e facilidade, a paixão é muito mais sanguínea nesse sentido, uma escolha apaixonada sempre levará ao precipício, escolhas apaixonadas na maioria das vezes são feitas por influência social. Teorias behavioristas defendem que a personalidade humana está quase que inteiramente sendo formada pelo ambiente e uma parcela é fruto da genética, apesar de excluírem o fator alma por falta de recursos humanamente impossíveis de mensurar , é certo que isso seja parcialmente verdade, o risco está em definirmos o ser humano como um ser passivo ao ambiente, acredito que na medida em que ganhamos consciência sobre o que nos rodeia, também alcançamos determinado controle sobre o que absorvemos, quanto mais consciente, mais autônomo é o indivíduo — autonomia significa liberdade! 49 Se investigarmos o grau de consciência que temos sobre as coisas, notaremos que não sabemos praticamente nada sobre quase tudo, você seria capaz de me dizer quais são as peças que compõem o aparelho celular que você usa? Mesmo que você seja um técnico, saberia me dizer quais são as matérias que as peças são constituídas? Seria capaz de olhar uma xicara de café e me dizer quais foram as etapas que ela sofreu até a sua produção como um todo? A logística, os departamentos da empresa, o conjunto de matérias primas que fazem uma xicara ser uma xicara? Se mal sabemos responder perguntas sobre elementos que compõem um objeto tão comum, imagine um sentimento. Sabemos falar basicamente o que é uma cadeira, mas não sabemos falar o que é a dor, não sabemos falar o que é o frio. Por que é tão difícil explicar aquilo que sentimos? Não existe uma estrutura básica ou material para nos nortear. Durante muito tempo eu tentei mesurar essas coisas, encontrei em Aristóteles um exemplo a ser seguido, foi o 50 homem mais lúcido que conheci, por mais difícil que seja angariar consciência acerca dos objetos e dos sentimentos, esse esforço de entendimento nos aproxima da realidade, tudo fica mais confuso quando está apenas em nossa mente, mas quando olhamos para o externo, conseguimos de certa forma encontrar a ordem para nos guiarmos internamente, pois atribuímos significado aquele sentimento. Acerca das emoções, encontrei nos clássicos praticamente todas as respostas, é necessário inteligência e humildade para aprender com os melhores, sim! Os poetas são sempre os melhores nisso, um bom escritor sabe como transformar sentimentos em palavras, não estou falando de romances adolescentes, estou falando de Shakespeare, Alexandre Dumas, Fiódor Dostoiévski, Machado de Assis, Liev Tolstói, Victor Hugo, Júlio Verne, Anton Tchekhov, Balzac, etc. Conforme sua envergadura intelectual aumenta lendo bons livros, você também adquire novos valores simbólicos para aquilo que antes era indescritível, antagônico a esta 51 direção temos os livros de autoajuda, não há como adquirir profundidade consumindo o que todos consomem, duvide de tudo que for fácil demais, crescer dói, evoluir dói, bons resultados são adquiridos a longo prazo e com disciplina, não existe formula mágica para a vida. Aprender a ser sozinho também é aprender a evoluir sozinho, é necessário adquirir um olhar crítico acerca das coisas, como disse, o esforço de enxergar o que nos rodeia com profundidade é um excelente exercício para conquistar a definição intrínseca daquilo, você está treinando “seus olhos” para enxergar a verdade, não de forma romantizada, mas com o máximo realismo possível, não se trata de enxergar o que você quer, mas o que realmente é, não se conforme apenas com a percepção sensorial, se esforce para ir além da imagem presente. Ao olhar um ser humano, somos tentados a rotulá-lo pela sua fisionomia e pelo que ele diz ou defende, claro que isso diz muito sobre ele, mas é mais do que isso, a 52 subjetividade de cada indivíduo se equipara a subjetividade do universo, algumas pessoas reproduzem apenas o que lhes foi imbuída durante toda a sua vida, por seus pais, professores, amigos, artistas e etc. Quando aprendemos a observar o indivíduo com um pouco mais de atenção isso também determina a nossa conduta, você automaticamente para de agir de forma tola e reativa, como se fosse um animal selvagem, em algumas situações lhe cabe o silêncio, por mais certo que você esteja, aprenda a observar, reter o real significado daquilo que se apresenta e agir de forma racional naquele cenário. 53 IV PARTE Para a falta de sentido basta a própria limitação de nossas mentes, assim como o veneno de uma cobra, existem dois lados: a morte e a cura. O jovem olha para a realidade e a falta de experiência o faz demasiado niilista, uma pessoa madura olha para a realidade e passa a valorizar mais sua própria vida, mas um apaixonado é sempre um jovem patético (independentemente da idade) que desconhece o amor, nega a realidade e consequentemente quebra a cara, quando isto acontece ele busca por ajuda ou se tranca em um quarto escuro, neste ponto devemos admirar a conduta das mulheres, elas sempre têm uma amiga para conversar sobre seus sentimentos — algumas pessoas possuem a sorte de terem amigos mais inteligentes que eles mesmos. Se você olha para o céu ao fim de tarde, enxerga determinada beleza, mas aquilo parece estático então logo se entedia, mas se você reconhece os detalhes, então enxerga que tudo se mexe e quem é o estático nesse mundo é você, que 54 enquanto tudo se move e se transforma lá fora, está lá a formiguinha ansiosa, és como uma borboleta que tem apenas quinze dias para mostrar sua beleza e depois tem com a terra o limite de seu organismo, com isto quero dizer que a percepção da realidade nos faz seletivos quanto à medida do nosso sofrimento, você não sofre por coisas idiotas da mesma forma que não se apaixonapor qualquer coisa, me parece que nos apaixonamos e isto define o grau da angustia em várias escalas, pois a paixão não possui tanta substância quanto o amor, apesar de aflorar sentimentos mais fortes e curtos, portanto, o amor é a estabilidade emocional, a certeza, a razão e a nobreza. Pela paixão os idiotas se matam em troco de nada, mas aqueles que sacrificam a vida por amor, está em paz, pois conseguiu medir o peso da sua vida para com aquilo que foi digno de sacrifício. Em “Sonho de uma noite de verão”, a paixão seria a exata imagem dos jovens cortesãos apaixonados por Hérmia, meninos enfeitiçados e confusos, na verdade, em toda 55 a obra vemos a verdadeira essência da paixão: rebelde, tola, confusa, dolorosa e em suma: mentirosa. Se aprender a ser sozinho é conceber o valor real das coisas, o contrário seria viver na ilusão, alienado, essas duas últimas definições significam estar apaixonado. Uma pessoa apaixonada pela vida é sempre um alienado, aquele que a ama, suporta a solidão, pois conhece as duas faces da moeda, não apenas aquilo que lhe é conveniente. O conceito de amor antes mesmo do período helenístico, revela sua face no grande Banquete em que Sócrates participa e ganha a admiração daqueles que se achavam conhecedores do amor. Segundo Platão no diálogo de Sócrates com Diotima, o amor seria, portanto, o intermediador entre os deuses e os homens comuns. Aquele que ama, deseja o que é bom aos seus próprios olhos, e se esta bondade não for equivalente à realidade? Então seria uma ilusão, pois parece bom, mas não é, não passa de uma paixão. O 56 amor é o desejo de ter parte de si ao eterno, ou melhor, o desejo de imortalidade. De fato, todos nós somos parte do desejo de alguém em se tornar imortal, neste sentido vemos que a força motriz do amor possui mais profundidade do que qualquer paixão, observe a conduta de uma mãe para com a sua prole, seria capaz de enfrentar o que fosse para defende-la, agora compare este mesmo impulso com a de um jovem que levou um pé na bunda da namorada, seu impulso não visa nada além de possuir o que se perdeu, de certa forma, egoísta, pois não a ama, apenas não sabe lidar com a rejeição, sob esta lente é que todos os efeitos da paixão se estabelecem, que é a própria negação da realidade. Eros representava o deus do amor na Grécia, é engraçado pensar que o homem precisou criar um deus imortal para representar o seu desejo de imortalidade, sendo assim, nunca se distanciando da sua essência, e de fato talvez esta seja uma essência divina, nos foge o domínio à mensuração do abstrato, pois o amor, assim como todos os outros sentimentos 57 possuem naturezas subjetivas, talvez a mesma de um criador absoluto. Se o amor possui a natureza divina, talvez a paixão seja a que mais represente a natureza humana, o amor seria sinônimo de imortalidade, enquanto a paixão o oposto. Eis a medida da alma humana, mesmo sendo pequenos quanto uma formiga, participamos do divino e do ínfimo, nesse sentido somos livres para elevar nosso espírito ou rebaixa-los para o nível mais comum; nunca será um trabalho muito fácil, ver é diferente de enxergar, o ambiente influencia, nossas crenças, nossos amigos, trabalho, faculdade, família, etc. 58 V PARTE Certa vez estava no segundo andar de um shopping, era feriado e o local estava cheio, aquela vista dava direto para a praça de alimentação no térreo, enquanto olhava aquele formigueiro de gente, pensava: Há 100 anos ninguém aqui estava vivo, 100 anos depois todos estarão debaixo da terra sendo devorados por vermes, e naquela terra serão deixados todo o substrato, ou resquício daquilo que tanto se envaideceu, como no juramento de Hipócrates, naquela terra úmida terá um corpo que amou, odiou, entristeceu e fez planos, fez planos como se fosse eterno, angustiou-se como se não houvesse presente, martirizou-se na ilusão de que o passado fosse real... os estoicos diziam que o presente é tudo o que temos, de certa forma estavam certos, mas algo lá no fundo me faz pensar que eram todos como os coaches de hoje, insuportáveis, havia um certo glamour naquilo, uma ilusão sofista, uma consequência histórica, sempre que há demasiado peso social, surge também uma geração de 59 apaziguadores que abandonam o estudo sistemático para motivar os indivíduos... enfim, sob essa perspectiva parece que nada faz sentido, a complexidade universal está para o ser humano, como um gato está para a mecânica quântica, é impossível desconsiderar nossa limitação. Meu ceticismo leva-me a aceitar que a falta de sentido humano se dá pela existência de um Deus, a falta de sentido humano é o olhar de uma formiga para um prédio, se lhes fosse imbuído certa porcentagem de raciocínio com base na medida humana, certamente olharia para o prédio e a interpretaria como um grande formigueiro, mas não saberia explicar a engenharia, a arquitetura, o sistema elétrico, ou até mesmo como a própria eletricidade se faz luz naquele imenso edifício. Mas mesmo assim, a pobre formiga seria tomada por tamanha vaidade a ponto de se achar melhor do que aquela que cumpre o seu papel natural na colônia: nascer, acumular folhas, garantir a sobrevivência do grupo e morrer. 60 Quando falo sobre as paixões vulgares, refiro-me as ilusões seculares, refiro-me ao cerne da angustia majoritária, sim! Estou falando justamente do indivíduo que foi traído por uma pessoa e agora sai por aí reproduzindo o mal que lhe fizeram, um pobre coitado que não sabe lidar com as emoções e se afunda em bebidas. Se por um segundo soubesse que em todo esse tempo tem sido apenas o resultado do ambiente que o cerca, colocaria as mãos sobre a cabeça e enxergaria de fora a própria imagem patética de um indivíduo que passou a vida inteira preso sob o domínio dos outros. A verdadeira liberdade se confirma pela capacidade que uma pessoa tem de permanecer a sós consigo mesmo, a qualidade das suas emoções, mesmo sozinho, revela a sua verdadeira potência. Até que a solidão se torne boa, e para essa outra face chamamos de solitude, devemos antes aprender a conviver com a dor. É um tanto quanto infantil ver o indivíduo se afundando em desgosto por esperar 61 demais da vida, ele murmura para todos os cantos, e por último questiona o próprio Deus acerca da sua onipotência, na sua imaginação, se Deus é bom e sublime, deveria conceder à humanidade um oásis ou um lugar onde não existisse dor e sofrimento, mas se todos esses desejos fossem atendidos, como se preencheria a vida humana, em que se empregaria o tempo? Schopenhauer diz: “Coloque-se essa raça em um país de fadas, onde tudo cresceria espontaneamente, onde as calhandras voariam já assadas ao alcance de todas as bocas, onde todos encontrariam sem dificuldade a sua amada e a obteriam o mais facilmente possível – ver-se-ia então os homens morrerem de tédio ou enforcarem-se, outros disputarem- se e causarem-se mutuamente mais sofrimentos do que a natureza agora lhes impões. Assim, para semelhante raça, nenhum outro teatro, nenhuma outra existência conviriam. (Schopenhauer, as dores do mundo p.26) 62 A vida é essa completa subjetividade onde, se optamos em enxergá-la como um apaixonado, acabamos em desilusão, se olhamos com demasiado pessimismo, torna-se amargo como fel. Nesse sentido, me atenho a definição de amor que o próprio Cristo ensinou, na bíblia em nenhum momento amor é algo confortável, para Cristo amor é uma escolha, amor é sinônimo de dor, amor é a verdade. A paixão faz com que alguém ande com você, conviva, abrace, beije e depois traia por trinta moedas de prata, esse breve livreto é a insistente tentativa de lhe convencer a matar as paixões em sua vida, não é pelo que a pessoa diz, mas sim peloque ela faz, não é pela beleza, mas sim pelo que fica depois que ela se vai. Viver significa sofrer, o útero é o lugar mais seguro e confortável que alguém já morou, a partir do momento em que é dado o primeiro folego de vida, é a dor que adentra juntamente com o ar nos virgens pulmões daquele bebê, o choro da criança é o sofrimento de sentir os efeitos da vida naquele frágil 63 ser, a grande tarefa de cada indivíduo é se tornar forte conforme cresce, eu sei, não é fácil, crescer dói, mas um fator determinante para nos adaptarmos a ela é, uma vez por todas, parar de culpar os outros, mesmo que haja de fato um culpado, assuma responsabilidades, você não vai conseguir superar momentos caóticos se vitimizando, pare de esperar que os outros te ajudem, comece a resolver seus problemas sozinho. É fundamental entendermos que, a solidão só será positiva se soubermos administrar nossas emoções, fazer isso sozinho implica em assumir a irresponsabilidade dos outros também, você não é culpado pelo que fizeram com você, mas o que irá fazer com esse sentimento é de sua total responsabilidade. Passe a esperar menos das pessoas, eu costumo sempre me lembrar do termo: trust no one. Pois no fim não há quem não o decepcione nessa vida, quando escolher amar alguém, ame também a sua possibilidade de errar, antes de amar a vida, 64 aprenda a ser o seu próprio porto seguro. Espero ter sido útil. Adeus!