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circunstâncias, muitos foram martirizados; outros tantos sofreram A religiosidade inaciana é viril, determinada, militar. Seus métodos perseguições por parte da própria hierarquia católica e/ou por parte de recrutamento e treinamento são exigentes e rigorosos. Não de grupos rivais dentro do catolicismo; alguns estiveram presos e surpreende que a Companhia, que no início funcionava com base nas passaram longos períodos marginalizados; quase todos sofreram uma deliberações coletivas, tenha, ao se constituir como ordem, adotado o ou mais experiências de conversão. princípio monárquico. Esta decisão foi tomada em conjunto pelos Embora as conversões fossem experiências individuais e privadas companheiros e foi preparada por uma série de instruções a conversão religiosa é, efetivamente, acompanhada de um profundo coletivamente estabelecidas (Ravier, 1982). A conclusão a que se e nítido reconhecimento do caráter privativo e singular da vocação chegou e consta da ata das reuniões prefigura o contrato hobbesiano o converso ou 're-converso' rapidamente buscava o apoio de uma destinado a assegurar a manutenção de cada um pela manutenção da coletividade. Na verdade, uma tendência bastante generalizada entre paz social. Este contrato marcaria a renúncia individual a determinados reformadores católicos foi a de investir na criação de novas formas de direitos e a transferência destes direitos uma alienação definitiva deles vida coletiva. As novas ordens e 'obras' do século XVI tiveram um a uma autoridade suprema. No mesmo espírito, diz a ata dos jesuítas: crescimento extraordinário, o que revela uma intensa demanda de é mais conveniente para nós, mais necessário, prometer obediência congraçamento. Tudo se passa como se 'manter-se unido' fosse a um dos nossos". Este 'um', eleito por todos, reinaria vitaliciamente e indispensável como forma de conservar e limitar o isolamento e o sem contestação possível. Todos devem obedecer a ele e ao papa, que desenraizamento do mundo produzidos pela conversão. decidem como, onde e quando cada qual há de servir à causa do As novas ordens diferiam bastante entre si, seja nos objetivos cristianismo. A companhia que assim se cria é um comando de guerra específicos, seja nas normas, seja nas atividades privilegiadas, teoricamente coeso e pragmaticamente orientado: nenhuma cerimônia processos de recrutamento etc. É difícil falar de maneira generalizante de regra, nem coro, nem órgão, nem canto; "em tudo isso, encontramos sobre elas, salvo quando representavam alternativas à corrupção e graves lê-se no documento que constituiu a mundanização da alta hierarquia da Igreja romana. No entanto, tendo Companhia. Fiquem as cigarras com a música; as formigas e os jesuítas que escolher uma delas para exemplo, não há dúvidas que a escolhida trabalham, e trabalham com espírito pragmático e administrativo. deve ser a Companhia de Jesus, aprovada como Ordem Regular Clerical Determinação, obediência e método são características marcantes em 1540. dos jesuítas nas suas atividades apostólicas e, em especial, no campo Santo Inácio de Loyola (1491-1556), nobre biscainho, cortesão e da educação. Os jesuítas fundaram escolas de todos os níveis e em militar, passou pela primeira conversão quando estava preso, aos trinta todo o mundo. mais notável na pedagogia jesuíta era a capacidade anos de idade. Nos anos subseqüentes, de penitência, peregrinação e de oferecer ao formando um elevado grau de independência ao mesmo orações, reafirmou e deu novos passos na direção de uma conversão tempo em que lhe incutia uma estrita adesão à ortodoxia É mais total e definitiva. Os excessos a que se entregou na época isso, talvez, 0 que há de mais típico da subjetividade jesuíta: a lealdade tornaram alvo das suspeitas da Inquisição, que o confundiu com os inquebrantável à causa que é a causa de Cristo em geral e a causa místicos 'alumbrados', que proliferaram na Espanha à margem da da própria Companhia em particular e a autonomia e auto-suficiência hierarquia católica. Inácio de Loyola partiu, então, para Paris, para do indivíduo. São elas que podem sustentar física e moralmente estes estudar e livrar-se da investida inquisitorial. indivíduos em missões prolongadas, em países remotos, em condições Durante os muitos anos de estudo, Inácio se dedicou a adversas, no meio do isolamento cultural, lingüístico etc. Esta arregimentar companheiros altamente selecionados, segundo sua duplicidade está presente em toda parte do pensamento e da prática compreensão do que seria sua missão: a missão 'guerreira' e pedagógica de Inácio de Loyola como, por exemplo, nas Regras para sentir de um cruzado de novo tipo. como se deve na militante, escrito em 1534 61 60([1534] 1990), do qual selecionei alguns trechos. Apenas o título do contradição interna; ambas atam e libertam indivíduo ao mesmo trabalho pode dar matéria para um ensaio inteiro: regras para sentir, tempo; ambas, finalmente, contribuirão para a constituição da Igreja militante! subjetividade moderna enquanto subjetividade cindida. É hora de dizer algumas palavras sobre texto composto por regra. Renunciando a todo juízo próprio, devemos estar dispostos e prontos a obedecer em tudo à verdadeira esposa de Cristo Nosso Santo Inácio para orientar converso no caminho do seu Senhor, isto é, à santa Igreja hierárquica, nossa mãe. (p. 188) aperfeiçoamento espiritual e, principalmente, para preparar com método e segurança um novo episódio de conversão. Transcreverei, a seguir, regra. Para em tudo acertar, devemos estar sempre dispostos a crer uma série de passagens do texto, acompanhando-as de alguns que que nos parece branco é negro, se assim 0 determina a Igreja comentários. Em alguns casos, limitar-me-ei a grifar: hierárquica (p. 191) Por esta expressão, Exercícios Espirituais, entende-se qualquer modo Isto quanto à obediência, mas vejamos o que Loyola nos diz sobre de examinar a consciência, meditar, contemplar, orar vocal ou o mentalmente, e outras atividades espirituais (...) Porque, assim como regra. Habitualmente não devemos falar muito de predestinação... passear, caminhar e correr são exercícios corporais, também se chamam (p. 192) exercícios espirituais os diferentes modos de a pessoa se preparar e dispor para tirar de si todas as afeições desordenadas, e, tendo-as regra. Da mesma forma, é de advertir que, por falar muito em fé e afastado, procurar e encontrar a vontade de Deus... (pp. 11-12) com muita insistência (...) não se dê ocasião ao povo de vir a ser negligente e preguiçoso do obrar... (p. 192) Para este fim, isto é, para que o Criador e Senhor atue mais certamente regra. Igualmente não devemos insistir tanto na graça a ponto de na sua criatura, se a pessoa estiver afeiçoada ou inclinada a uma coisa produzir o veneno que nega a liberdade. Pode-se com certeza falar da fé desordenadamente, convém muito mover-se, empregando todas as suas da graça (...) mas não de tal forma nem de tais modos, mormente em forças em chegar ao contrário daquilo a que se vê afeiçoada. (p. 21) nossos tempos tão perigosos, que as obras e livre-arbítrio sejam prejudicados ou mesmo negados. (p. 193) Exercícios Espirituais Para o homem se Vencer a Si mesmo e que vemos aí muito claramente é a submissão incondicional Ordenar a Própria Vida, aliada à valorização do trabalho, do esforço, das obras, da liberdade Sem se Determinar por Nenhuma Afeição individual e da responsabilidade de cada um em detrimento da Desordenada. (p. 27) predestinação, da fé e da graça na constituição de militante. Santo Os dois primeiros trechos pertencem à apresentação do trabalho. Inácio está, sem dúvida, se seguirmos a distinção entre os tipos de terceiro é o título completo dos Exercícios espirituais. Creio que reforma propostas no item anterior, do lado dos codificadores. Já eles falam por si. Os próximos trechos constam das instruções para o havíamos visto antes como reformadores que reivindicavam a liberdade exame de consciência cotidiano: estabeleciam também um limite preciso para ela. Vimos mesmo como Lutero defendia a liberdade do homem interior em relação à hierarquia Pela manhã, logo ao levantar, deve-se propor evitar com diligência aquele para logo em seguida submeter a vontade humana à vontade divina, pecado particular ou defeito que se quer corrigir e emendar. Depois da refeição do meio-dia, pedir a Deus nosso Senhor 0 que se negando livre-arbítrio. Santo Inácio é contrário absoluto de quer, a saber, graça para se recordar quantas vezes se caiu naquele Martinho Lutero: propõe e exige a submissão total do indivíduo à Igreja pecado particular ou defeito e para se emendar para futuro. Em seguida, hierárquica para que, no contexto desta obediência, ele possa exercer faça-se o primeiro exame, pedindo conta a si mesmo daquele ponto a liberdade e esforço de vontade. Ambas as propostas contêm uma particular previsto de que se quer corrigir e emendar. Percorrerá cada 62 63uma das horas da manhã, ou cada espaço de tempo, começando desde preâmbulo consiste em pedir a Deus nosso Senhor que quero e momento de levantar até a hora e instante do exame atual. E, marque desejo (...) Na meditação presente pedirei vergonha e confusão de mim na primeira linha da letra g = tantos pontos quantas forem as vezes mesmo... (p. 44) que incorreu naquele pecado particular ou defeito. (pp. 31-32) A primeira tarefa será sempre, assim, imaginar, através de Os preceitos básicos estão todos aí: programação minuciosa do recordação ou imagem mental, uma idéia. Em seguida, pede-se ou evoca- dia, das metas, das atividades espirituais; recordação igualmente se a emoção adequada. 0 esquema vai se repetindo e as imagens vão minuciosa do obtido; comparação do programado com o realizado. Um se sucedendo cada vez mais evocativas e graduadas num crescendo: dos aspectos mais interessantes deste extraordinário protocolo de auto- a composição do lugar consiste em ver com os olhos da imaginação observação, que não poderia ser mais eficiente se tivesse sido comprimento, a largura e a profundidade do inferno (...); verei com olhos elaborado por um psicólogo behaviorista, é 0 recurso, de resto tão do da imaginação os grandes fogos e as almas como que em corpos agrado da psicologia comportamentalista, a um gráfico no qual se incandescentes (...) Escutarei com os ouvidos, prantos, alaridos, gritos, devem representar os pecados cometidos entre o momento da promessa blasfêmias contra Cristo e contra todos os seus santos (...) Sentirei com e o momento do exame. Trata-se de um dispositivo a que santo Inácio olfato o cheiro do fumo, enxofre, imundície e podridão (...) Procurarei dedica várias linhas com a certeza de que a representação dos pecados com o gosto saborear coisas amargas, assim como lágrimas, tristezas e e, principalmente, a linha descendente dos pecados ao longo dos dias remorsos da consciência (...) Tocarei com sentido do tato estas chamas, e das horas ajudarão e tornarão mais rápido o processo. sentindo como elas envolvem e abrasam as almas. (p. 54) Os exercícios estão programados para ocupar quatro semanas de Acompanhando os exames e as meditações, vêm as penitências, dedicação exclusiva, em que todas as outras atividades do exercitante tanto as interiores como as exteriores. Estas implicam flagelar o corpo estarão interrompidas. Há trabalho dia e noite. Dorme-se planejando o de diversas formas. Seus objetivos são três: dia seguinte. Acorda-se recordando prometido. Cada semana é dedicada a um tema ou a uma experiência. Na primeira, por exemplo, o primeiro, para satisfazer pelos pecados passados. segundo, para tema são os pecados. Há que recordá-los todos: os pecados dos anjos, vencer-se a si mesmo, isto é, para obrigar a sensualidade a obedecer a os dos nossos primeiros pais e os nossos próprios. Há que se encher razão (...) terceiro, para solicitar e obter de Deus alguma graça ou de confusão e vergonha por eles. Estas lembranças e reações dom que a pessoa quer e deseja. emocionais de confusão e vergonha são preparadas metodicamente No conjunto, o objetivo das duas primeiras semanas é 0 de através de um controle preciso de imaginação. Todos os exercícios preparar o exercitante para a A 'eleição' é uma experiência nesta e nas demais semanas começam com o primeiro preâmbulo: metodicamente controlada e programada de conversão. Santo Inácio, nesta medida, acrescenta às formas já conhecidas de conversão a é a composição do lugar. É de notar aqui que, se o assunto da conversão sofrida como 'dissolução de identidade' e a conversão contemplação ou da meditação for uma coisa visível (...) esta vivida como a 'reconquista de uma terceira modalidade de "composição" consistirá em representar, com o auxílio da imaginação conversão. Na verdade, as duas primeiras formas eram casuais, (...) onde se encontra 0 objeto que quero contemplar (...) Se o assunto da meditação for coisa invisível, como são nesta os pecados, a acidentais, imprevisíveis; não se prestavam a uma pedagogia. A composição do lugar consistirá em ver com os olhos da imaginação, e conversão prevista e desejada por Inácio de Loyola ao propor os em considerar a minha alma encarcerada neste corpo corruptível, e a Exercícios espirituais perdeu totalmente o caráter aleatório. Trata-se mim mesmo, isto é, meu corpo e minha alma, neste vale (de lágrimas) agora de uma construção de identidade pragmaticamente cronometrada: como desterrado entre brutos animais. (pp. 43-44) ao final da segunda semana, exercitante se coloca na posição de quem 64 65elege o que vai ser dali por diante. de uma escolha, mas desta ensinamentos recebidos. No entanto, seria difícil entender a escolha foi retirada toda a contingência: a eleição se confunde com a independência de espírito, método e a própria exigência de rigor e escuta de um chamado; a eleição é, segundo Santo Inácio, autodomínio de Descartes sem considerar o ethos dos Exercícios atendimento a uma vocação. esforço que exige do optante é o de espirituais de Santo Inácio de Loyola, tal como é mais difícil entender não se deixar levar pela paixão e pelas afeições desordenadas, e Galileu sem a reforma musical proposta pelo seu pai. permanecer num estado de perfeita indiferença: nesta condição de equilíbrio, ele opta, ou é 'optado', pelo que sente, "... ser para maior Uma santa católica na idade da glória e louvor de Deus nosso Senhor e salvação da [sua] alma". Logo em seguida à escolha, deve o exercitante oferecê-la a Deus, para que Na escolha de Teresa Sánchez y Ahumada, aliás, Teresa de sua divina Majestade se digne aceitá-la e confirmá-la, se ela for Cepeda y Ahumada, aliás, madre Teresa de Jesus, aliás, Santa Teresa para seu maior serviço e louvor". Eis aí uma nova identidade construída (1515-1582) como pivô deste ensaio sobre o século XVI, há com determinação, método, cautela e segurança. uma certa presunção de que ela possa ocupar uma posição exemplar e Na terceira semana, além dos exercícios, Santo Inácio propõe representativa. É uma presunção arrojada. século XVI e esta é uma algumas regras para se ordenar a alimentação: o que convém comer e das idéias básicas deste trabalho não tem um centro; é, ao contrário, do que jejuar; como comer, no que pensar enquanto come, que um período que se debate com as glórias e perigos do policentrismo e imaginar durante a refeição etc. "Importa, sobretudo, que o espírito não da descentração. se ocupe totalmente no que comemos e que se evite a sofreguidão do Não obstante, no contexto das lutas internas do cristianismo, no apetite, mas seja senhor de si, tanto na maneira de comer como na contexto da expansão da cristandade para as terras do Novo Mundo e quantidade que se toma." no contexto da política e do comércio mundiais as Espanhas ocupavam Na quarta semana, além das meditações e exames, Santo Inácio uma posição destacada. Em particular, a renovação do catolicismo muito esclarece a prática da oração, propondo três modos de orar. deveu à espiritualidade espanhola: a Espanha foi, não por acaso, uma Em anexo aos Exercícios espirituais, costumam ser publicadas das maiores fontes de santos da época. Dentro das Espanhas cabia, as Regras: para pensar; para examinar e discernir estados subjetivos como se sabe, ao reino de Castela a hegemonia política e cultural. No ("... sentir e conhecer as várias moções que se produzem na alma: as centro geográfico do reino está a cidade de Toledo, origem da família boas para aceitar e as más para rejeitar"); regras para dar esmolas; regras paterna de Teresa. para entender as ações do diabo e bem lidar com elas; regras para sentir No entanto, ao mesmo tempo que era um centro político e adequadamente. Nada fica de fora do previsto e do programado. A econômico da Espanha, com uma população de cerca de noventa mil própria graça divina é evocada com determinação, como vimos na habitantes, Toledo também era uma cidade de fronteira. Ex-capital experiência da 'eleição', em que Deus é convocado sem apelação para visigoda, Toledo cresceu abrigando cristãos, judeus e mouros, e seus dar a palavra final de uma escolha meticulosamente organizada. antigos governantes se intitulavam Reis de Três Religiões. A partir das Os jesuítas, sem dúvida nenhuma, elaboraram primeiro sistema dificuldades de convivência e das perseguições que começaram a completo de construção e administração do psiquismo nos tempos ocorrer no final do século XIV, boa parte dos mouros e judeus se modernos. Este sistema produziu algumas das mentes mais fortes e converteu ao cristianismo, tornando a cidade ainda mais claramente independentes da modernidade. No século XVII, René Descartes um espaço fronteiriço. orgulhava-se de ter estudado num dos melhores colégios da Europa, Na segunda metade do século XV, um dos judeus convertidos o colégio jesuíta La Flèche. Descartes relata não ter ficado satisfeito era dom Juan Sánchez, casado com dona Inez, da família nobre Cepeda. em sua necessidade de convencimento e segurança com os No final desse século, uma caça aos judeus conversos foi deflagrada 66 67pelos reis católicos Fernando e Isabel. Em Toledo, uma entre suas gênero, e ela e os filhos liam escondidos do pai, que condenava esta vítimas foi dom Juan Sánchez. Submetido, junto com seus filhos, entre leitura por considerá-la um tanto imoral. Não obstante, é fácil reconhecer os quais Alonso, a humilhações públicas, dom Juan conseguiu livrar- a afinidade espiritual entre o marido, que imita um fidalgo, e a esposa, se do pior, mas passou a assinar Juan Sánchez de Cepeda, e os filhos que se emociona com as peripécias de Amadis de Gaula. Teresa relata tenderam desde então a excluir sobrenome paterno. que um dia, inspirada nos feitos militares e galantes dos cavaleiros e Juan Sánchez de Cepeda conseguiu reconstruir sua vida e sua nas vidas de santos, igualmente estilizadas, empreendeu com o irmão fortuna era comerciante e financista ajudado, inclusive, pelo vazio Rodrigo uma fuga de casa rumo à Terra Santa. Um tio os trouxe de deixado pela expulsão dos judeus da Espanha. Para facilitar o volta. Consta também que, com o mesmo irmão, chegou a escrever um esquecimento, transferiu-se para a cidade próxima de Ávila. No início romance de cavalaria, lido pelos parentes. do século XVI, Juan de Cepeda comprou um certificado de nobreza, Este modelo de nobreza e coragem, associado à progressiva ruína que atestava suas boas origens e lhe dava uma genealogia tão ilustre da família, está provavelmente na origem dos destinos de muitos dos quanto falsa. irmãos de Teresa que, na condição de fidalgos, embarcaram para o Peru, Os filhos de dom Juan assumiram com total determinação a nova internacionalizando, por assim dizer, alcance das experiências identidade. Isto não impediu que em 1519 (Teresa tinha quatro anos) familiares. os Cepeda tenham sido denunciados como falsos nobres. caso foi Não é meu objetivo apresentar uma resenha dos dados ao tribunal e os Cepeda obtiveram um veredicto favorável, isto é, foram biográficos de Teresa e de seus parentes. Estou apenas tentando reconhecidas como verdadeiras suas falsas origens. justificar a escolha, mostrando que muitos dos aspectos da vida Trata-se, como se vê, de uma família marcada pelas histórias de quinhentista discutidos nas páginas precedentes o medo das conversão: a conversão original ao catolicismo, a confirmação da margens e dos seres fronteiriços, as conversões, destruições e conversão no episódio de Toledo, a conversão de Toledo a Ávila, a reconstruções de identidades, uso identificatório das memórias, o conversão de Sánchez a Cepeda e de plebeu a fidalgo. amaneiramento como estratégia de consolidação de uma identidade Desta sucessão de conversões resultou, finalmente, uma identi- frágil, os contatos com as regiões do Novo Mundo estão presentes dade imaginária, uma memória inventada, mas registrada e reconheci- no ambiente que cercou a formação e a vida de Teresa Sánchez de da, e um estilo amaneirado de vida. Dom Alonso de Cepeda pautou Cepeda y Ahumada. sua existência pelo modelo do cavalheiro: sério, consciencioso, circuns- Se nos aproximarmos um pouco mais dela reencontraremos estes pecto, digno e suscetível, sumamente preocupado com as aparências, e outros temas quinhentistas. com adornos, jóias e roupas finas, muito generoso e gastador, e inca- Teresa passou por várias conversões: defrontou-se pessoalmente paz de trabalhar e ganhar dinheiro atividades certamente muito terre- com a dispersão do catolicismo na figura de confessores e mentores nas para este modelo de cavalheiresca e afetada elevação. díspares e mutuamente contraditórios; esteve sob a suspeita da Após enviuvar de um primeiro casamento (na peste de 1507 Inquisição, foi denunciada, marginalizada; escreveu uma autobiografia morrem-lhe pai e a esposa), dom Alonso casou-se com Beatriz de (1562) e, como se fica sabendo por esta obra extraordinária, foi uma Ahumada, que tinha apenas 14 anos e com quem teve Hernando, das mais interessantes doentes neste século de hipocondríacos. Rodrigo e, a 28 de março de 1515, Teresa (foram ao todo dez partos em As descrições de Teresa das suas doenças são de um 18 anos de casamento dona Beatriz morreu com 33 anos). detalhamento e vivacidade assombrosos, principalmente se Foi através dessa jovem mãe que Teresa entrou em contato com considerarmos que as mais completas descrições se referem ao período o sonho em forma literária: as vidas de santos e, principalmente, os da juventude e a autobiografia foi escrita aos 47 anos de idade. Diz romances de cavalaria. Dona Beatriz era grande aficcionada deste ela, por exemplo: 68 69As dores no coração, das quais me tinha ido curar, cresceram tanto, que relato autobiográfico, escritor consegue produzir um forte impacto me parecia às vezes tê-lo rasgado por dentes agudos. Temeram que fosse emocional no leitor: fica claro que 0 sujeito viveu aquilo que está raiva. As forças me faltavam, nada comia, apenas bebia um pouco, tudo contando. Colson é hábil no manejo dos dois procedimentos. me causava náuseas e a febre era contínua, o organismo estava gasto em Uma característica da autobiografia de Santa Teresa é o uso conseqüência de purgativos diários durante quase um mês. Estava tão ressequida que meus nervos começaram a se encolher com dores predominante e quase exclusivo da forma qualitativa de retórica. Ela insuportáveis (...) Neste sofrimento mais agudo estive cerca de três insiste nos contrastes: de um lado, os pecados (mais imaginários que meses. Parecia impossível alguém suportar tantos males juntos. ([1562] reais), imerecimento, as dores e aflições, as misérias, a ignorância e a 1983; 35) própria inferioridade da condição feminina; de outro, as bênçãos e Relata, ainda, que certa ocasião esteve como morta e que só graças, as alegrias e felicidades infinitas, a certeza e a segurança, as maravilhas da união mística. Esta é, sem dúvida, a retórica mais recuperou os sentidos quando já preparavam o enterro. Esteve entrevada um certo tempo: apropriada para o relato de uma existência convulsionada. A garantia de unidade não é procurada naquilo que possa depender diretamente Após alguns dias de espasmo fiquei encolhida, como que enovelada. de Santa Teresa, nem nos dispositivos reasseguradores do Parecia morta, incapaz de mover braços, pés, mãos e cabeça, se outros amaneiramento (Santa Teresa não imita), nem nos da administração não me moviam. Ao que me lembro só movia um dedo da mão direita. racional do psiquismo. É verdade que Santa Teresa chegou a descrever Não sabiam como tocar em mim. Sentia tantas dores que não podia suportar (...) Sentia-me aliviada somente quando não se aproximavam e tipificar suas experiências místicas (os graus da oração) e a usá-las de mim. As dores então muitas vezes cessavam. Receava que me viesse como recurso pedagógico; ela, porém, não se propõe a programar a faltar a paciência. (Ibid.; 38) aperfeiçoamento espiritual de ninguém; quer só mostrar que suas experiências são autênticas e aceitáveis pela A procura da Aliviada das dores, ficou então paralítica durante três anos. garantia para a unidade existencial se desloca, então, do modelo e da Louvou a Deus quando começou a engatinhar. razão pragmaticamente aplicada para reivindicação de uma radical Estas doenças nunca a abandonaram de todo, mas com a sua veracidade de sua experiência pessoal. Se estas experiências místicas conversão definitiva e com seu engajamento na luta para dar à nova forem verdadeiras, tudo faz sentido, tudo valeu a pena. vida mística um instrumento organizacional adequado o convento Santa Teresa foi monja longos anos antes de se converter reformado foram cedendo. Ela se tornou então capaz dos maiores prodígios, não apenas espirituais, como a levitação, mas também definitivamente, e, durante certo tempo, viveu os sobressaltos da políticos e administrativos. conversão sem se transformar numa reformadora. No que consistiu Griffin (1990), analisando a autobiografia contemporânea de Ch. esta conversão? Colson um dos homens do presidente Nixon -, identificou dois A conversão ocorreu associada e como resultado de episódios procedimentos retóricos que garantiam a unidade da vida e a místicos em que Teresa se sentia em comunicação direta com Jesus. credibilidade do relato. Colson, depois de uma vida de corrupção, Havia diferentes níveis de comunicação e foi aos poucos que a converteu-se. Como confiar nele? Baseado na teoria retórica de K. comunicação se tornou mais completa e perfeita. A conversão lhe Burke, Griffin usa os conceitos de 'forma silogística' e 'forma trouxe muita alegria e muita aflição. No que concerne à alegria, qualitativa' em sua análise. A forma silogística mostra a vida, inclusive selecionei como exemplo famoso episódio com anjo. a conversão, como algo necessário, lógico e, portanto, mais uno e mais Aprouve ao Senhor favorecer-me algumas vezes com esta visão. Via crível. A forma qualitativa, ao contrário, enfatiza contraste e, nesta um anjo perto de mim, do lado esquerdo, sob forma corporal (...) Não medida, a autenticidade dos modos de vida. Através da alternância no era grande, senão pequeno, formosíssimo, rosto tão incendido que 70 71deveria ser dos anjos que servem muito perto de Deus, que parecem Em acréscimo, as experiências místicas deixavam Teresa confusa: abrasar-se todos... ela não era tola nem ingênua e sabia que na Espanha havia muitas Via-lhe nas mãos um comprido dardo de ouro. Na ponta de ferro julguei mulheres se dizendo e se acreditando místicas, quando eram haver um pouco de fogo. Parecia algumas vezes metê-lo pelo meu coração endemoniadas. Teresa buscou conselhos entre homens, pois não adentro, de modo que chegava às entranhas. Ao tirá-la eu tinha a impressão que as levava consigo, deixando-me toda abrasada em grande duvidava da suposta inferioridade intelectual e moral das mulheres. Só amor de Deus. Era tão intensa a dor, que me fazia dar os gemidos de que conselheiros eram contraditórios entre si e, com todas as suas que falei. Essa dor imensa produz tão excessiva suavidade que não se doutas erudições, pareciam saber menos do que ela acerca do que se deseja o seu fim, nem a alma se contenta com menos do que com Deus. dava na experiência mística. Tentou seguir vários conselheiros, Não é dor corporal senão espiritual, ainda que o corpo não deixe de ter mentores e confessores. Somente alguns, notadamente os jesuítas que sua parte, e até bem grande. Nos dias em que recebia esta graça, andava estavam abrindo um colégio em Ávila, pareciam entender um pouco como fora de mim (abobada). 236) destas experiências. Por outro lado, a intensidade das emoções evocadas pelas visões Enfim, os episódios místicos, que nunca cessaram mas se e pelas locuções, ou pela simples presença pressentida de Jesus, tornaram mais raros no final da vida, colocaram para Santa Teresa deixava Santa Teresa perplexa e atemorizada. Estas experiências foram algumas questões que exigiram dela uma micropolítica, uma psicologia tornando intoleráveis para ela a vida mundana tal como existia no e uma espécie de epistemologia. interior dos conventos carmelitas da regra mitigada. Desde o século A micropolítica de Santa Teresa se concretiza na tarefa de XV, os conventos carmelitas originalmente votados a um severo fundação de conventos de acordo com a regra primitiva: pobreza, sem ascetismo tinham se transformado, pela introdução da regra mitigada, mortificação desnecessária, e absoluta clausura. Qual o sentido deste quase que em pensionatos em que vocações religiosas se confundiam fechamento e deste desapego? 0 de assegurar privacidade e com solteirice, viuvice e orfandade. Cada monja vivia conforme suas liberdade. A verdadeira experiência espiritual não pode se converter posses o que incluía até diferenças no tamanho das celas (Santa num espetáculo milagroso ou ritualizado. Deve ser preservada dos Teresa dispunha de duas amplas celas, em que chegou a abrigar uma olhares indiscretos do mundo; os êxtases e arrebatamentos, as irmã mais moça durante certo tempo); as monjas saíam com bastante liberdade para visitar seus parentes e recebiam visitas (Teresa foi, levitações e transes podem muito facilmente virar objeto de falação e durante certo tempo, visitada por um admirador da sua notável beleza de escândalo. A clausura garante a privacidade de uma experiência que é da ordem da intimidade inviolável. Por outro lado, é necessário romper física). Nos anos de mocidade, Teresa, apesar das doenças que a atormentavam, estava acostumada a este modo de vida, embora relate com as obrigações e, em particular, com as obrigações com familiares: que não era feliz. As comunicações com Deus tornaram insuportável a "Fico pasmada de ver o prejuízo que resulta do trato com os parentes" regra mitigada, e não tanto por um moralismo excessivo, mas porque convento da regra mitigada propiciava a dispersão, seja pela sua Compreende-se o que Teresa quer dizer levando-se em conta a porosidade (pessoas e notícias entrando e saindo), seja pela diversidade escravidão a que a mulher ficava reduzida na família, na condição de entre as freiras, que refletia a diversidade do mundo lá fora. As filha ou esposa. Para ela e Teresa o explicita várias vezes -, romper experiências místicas são extremamente perturbadoras, conforme nos com as obrigações com os parentes é uma via necessária para a conta Teresa, e têm um efeito muito desenraizador em relação ao mundo liberdade feminina. Também em relação aos confessores, a clausura e em relação à identidade convencional do místico. Era preciso abrigar pode oferecer uma certa proteção, à medida que o confessor puder ser estas experiências em algum invólucro protetor. 0 convento da regra bem escolhido e só a ele as monjas prestarem conta. Mas a principal mitigada não era capaz de lhe prestar este serviço. proteção contra confessores ineptos reside na própria profundidade 73 72da experiência pessoal de cada monja e esta só é beneficiada pela maior Castelo interior é a alma, e na concepção de Santa Teresa ela privacidade e pela maior liberdade que 0 convento fechado oferece. se assemelha a um palmito cuja medula saborosa é a morada de Deus. A clausura é a proteção da vida, é o território privilegiado da Os aposentos deste castelo, contudo, não devem ser percorridos alegria, das núpcias; é o espaço da poesia, que Teresa compôs para aleatoriamente e, nos adverte ela, "... é muito bom, é sumamente bom suas freiras, da música e das danças a que elas se entregavam nas entrar primeiro no aposento do conhecimento próprio, antes de voar horas de recreio coletivo. aos outros" ([1577] 1982; p. 31); embora autoconhecimento só se Santa Teresa não defendeu a clausura por ser austera, complete com conhecimento de Deus. aprisionante, nem pelo seu aspecto disciplinar; ela sempre condenou 0 que há de mais valioso no campo do psicológico não é nem a tristeza e considerou a melancolia uma doença, condenou os flagelos intelecto nem a memória nem a imaginação: é a vontade, quando esta e as provações excessivas, condenou a regulação intelectual e é a vontade da união perfeita, de absoluta paz, de alegria ilimitada, que racionalista da vida interior. só se satisfaz no amor de Deus. Esta valorização do claustro como continente privativo da vida e Santa Teresa não oferece nenhuma receita para regular espírito; da liberdade não implicava uma desqualificação do mundo lá fora e procura apenas as condições que permitam atender a esta demanda daqueles cuja missão era atuar neste mundo. Aos pregadores e imperiosa da vontade de união, que é como uma ânsia dolorosa, teólogos católicos compete a tarefa de enfrentar no mundo as forças motivada pela ausência de Deus e descrita em termos que lembram os do demônio, isto é, os hereges protestantes. Devem viver no mundo, usados para descrever as doenças: [Nestes ímpetos] "O corpo fica conformar-se, em parte, com os modos do mundo, com os ambientes despedaçado, incapaz de mover os pés e os braços (...) Nem o peito palacianos etc. Às freiras enclausuradas cabe, por sua vez, a tarefa de pode respirar à vontade" ([1562] 1983; p. 235). E ela pergunta: conservarem, no espaço livre do convento, a autenticidade da Quando, Deus meu, chegarei enfim a ver a minha alma unida e entregue experiência cristã na sua radical intimidade com Cristo. As carmelitas aos vossos louvores, de modo que todas as faculdades se regozijem em descalças devem dar retaguarda ao exército de Cristo. São Vós? Não permitais, Senhor, que ela seja assim despedaçada; parece- complemento feminino da subjetividade jesuíta. me ver os seus pedaços dispersos por todos os lados. ([1562] 1983; Teresa sabe, porém, que a clausura não é tudo: 246) Desprendidas do mundo e dos parentes, enclausuradas aqui nas condições É possível, muitas vezes, deixar as demais faculdades da alma acima referidas, parece que está tudo feito e não há contra quem lutar. livres para 0 exercício cotidiano de seus afazeres, conservando a minhas irmãs, não vos deis por seguras, nem vos deiteis a dormir. vontade também livre para a união desejada. Será como quem deita bem sossegado, trancando muito bem as portas Produz-se, neste caso, uma certa cisão: por medo dos ladrões e os deixa dentro de casa. Ficamos nós mesmas e bem sabeis que não há pior ladrão. ([1562] 1983) Assim está simultaneamente exercitando a vida ativa e contemplativa: ocupa-se de obras de caridade, trata de negócios concernentes ao seu Os muros do convento podem abafar a confusão das vozes do estado e pode ler, ainda que não esteja de todo senhora de si. Bem mundo, mas ficam outras vozes que é preciso conhecer e discriminar. percebe que a melhor parte de si mesma está em outro lugar. É como se Isto exige algumas idéias acerca de algo que poderíamos designar como estivéssemos falando com uma pessoa, e outra nos falasse de outro lado: 'psicológico'. Em diversas ocasiões, Santa Teresa enfatiza a nem bem estaríamos com uma, nem bem com a outra. ([1562] 1983; p. necessidade de autoconhecimento como, por exemplo, quando diz: "Não 130) é pequena lástima e confusão não nos entendermos a nós mesmos, Somente nos grandes momentos todas as faculdades sucumbem por nossa culpa, nem sabermos quem somos". ([1577] 1982; p. 20) e a vontade reina sozinha: 74 75Estando assim a alma a buscar a Deus, sente-se quase desfalecer presença pura e simples. Esta é a base da 'epistemologia' teresiana: a completamente, numa espécie de desmaio com grande e suave ternura. abolição do intervalo entre ela e Deus que seria preenchido pela Vê que lhe vão faltando as forças corporais, que nem pode menear as imagem. mãos a não ser com muito custo. Os olhos fecham-se involuntariamente, No entanto, sobre esta forma de presença pesa uma permanente ou, se conservados abertos, a pessoa nada enxerga. Se lê, não acerta suspeita e é necessário distinguir entre o verdadeiro e o falso, o com as letras, nem atina em reconhecê-las; vê os caracteres, mas como confiável e ilusório. Para Santa Teresa há duas fontes de ilusão e o intelecto não ajuda, não consegue ler ainda que queira. Ouve, porém uma só de verdade. As fontes de ilusão são o demônio e o nosso não entende que ouve, de modo que os sentidos de nada servem. Antes, próprio intelecto (a imaginação). A fonte de verdade é Deus. 0 que procuram estorvar esta felicidade. É impossível falar: não atina com uma diferencia as visões e locuções puramente imaginadas das outras é, palavra e ainda que atinasse não teria alento para pronunciá-la. Toda exatamente, que elas não passam de representações e, assim sendo, força exterior se perde e se concentra nas da alma. ([1562] 1983; 139) não produzem efeitos. que vem do diabo produz efeitos nocivos e efêmeros e a efemeridade é a prova de que são ilusórios. Quando Apostar tudo na vontade de união e nas experiências da unidade, provém de Deus, os efeitos são bons e permanentes: eles transformam imobilizando ou neutralizando 0 intelecto, a memória e a imaginação, quem os sofre e, nesta medida, são sinais indiscutíveis de presença. traz consigo um intenso temor: como saber que não se está sendo Não poder duvidar é único critério e se confunde com a própria noção enganado? de verdade. indubitável não pode ser forçado ou induzido pela Este temor é alimentado por muitas das vozes do mundo que autoridade de quem quer que seja: é uma propriedade exclusiva da Parecem estar convencidas de que tais experiências são forjadas pela experiência pessoal. A verdade não é a verdade por correspondência imaginação desenfreada ou produzidas pelo diabo. A vontade de união de uma representação, mas a de uma presença que age, reúne, solda e não tem nenhuma das garantias externas que podem ser oferecidas por dá vida numa união que dissolve e funde irresistivelmente. Desta um modelo consagrado, por um ritual ou por um dogma. experiência de verdade, ela diz: "... é um glorioso desatino, uma celestial É aqui que emerge 0 empirismo radical de Santa Teresa. Em loucura, onde se aprende a verdadeira sabedoria" ([1562] 1983; 123). diversas passagens ela nos esclarece de onde fala: ela fala É neste sentido que as palavras de Deus "não são palavras, são exclusivamente da experiência, a partir dela, sobre ela. É com base na obras": elas não contam a verdade para Santa Teresa, elas tornam experiência que ela enfrenta os confessores, que ela se apresenta verdadeira a vida de Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada e fazem à hierarquia católica e à Inquisição; é esta experiência que ela observa dela madre Teresa de Jesus, a Reformadora. Com uma atenção quase clínica, lançando-se a algumas teorizações a Porque aqui se dá a grande surpresa é-se tentado a dizer: o Seu respeito. Trata-se de uma experiência não programada e dificilmente milagre. Tendo vivido estas experiências, tendo-as elaborado na sua relatável e, de início, até indesejada. Mas absolutamente convincente. história de vida (escrita no mesmo ano em que funda 0 primeiro Não há para Santa Teresa nada nos livros eruditos da teologia, nas convento com a regra primitiva), madre Teresa de Jesus já pode belas palavras dos pregadores, nos métodos e rituais que possa ter dispensar a clausura. A saúde melhora e ela reconhece: "Depois que mais força que a sua própria experiência. deixei de ser tão cuidadosa e mimada, sou muito mais sadia" ([1562] A experiência com tal poder de convencimento não é uma 1983; p. 95). experiência com imagens e representações. Não são as representações Desde então, durante vinte anos, ela transitou por toda a Espanha, de Jesus ou dos anjos que lhe chegam nas visões e locuções, são eles correspondeu-se com religiosos, fidalgos, reis, freqüentou palácios, Por isso, mais convincentes que todas são as aparições em meteu-se em intrincados negócios imobiliários, administrou bens e que nada aparece, em que a presença é vivida como de finanças, engajou-se em articulações diplomáticas, aliciou, convenceu 76 77e deixou plantados conventos femininos e masculinos. Durante todos Notas esses anos ela enfrentou sérias oposições, esteve marginalizada, foi perseguida pela Inquisição. No entanto, sua experiência pessoal não lhe faltava. A ela continuou dedicando suas observações e todos os livros que escreveu partem daí. 1. A proliferação das línguas e, mais que tudo, o encontro e confronto das vozes umas com as outras criaram também as condições sociológicas 0 século que sucedeu ao de Santa Teresa foi muito pouco indispensáveis para o desenvolvimento do gênero literário essencialmente teresiano. Esta busca de uma verdade para além da representação polifônico e 'orquestral' que é o romance moderno, cujos momentos esteve às margens das correntes dominantes da cultura ocidental para inaugurais foram as obras de autores quinhentistas como Rabelais e só vir emergir, sob uma forma não-religiosa, quando a confiança nas Cervantes, de quem voltaremos a falar mais à frente. Uma análise regras, nas convenções e nas representações parece entrar em colapso, extraordinariamente aguda das relações entre as novas condições abrindo o amplo espaço do 'psicológico' em que estamos ainda hoje socioculturais e o plurilingüismo romanesco foi realizada por Bakhtin imersos. (1990) a quem remeto o leitor interessado. Neste final do século XX, tenho às vezes a impressão de estarmos mais próximos daquele século XVI do que de alguns que vieram depois. 2. A idéia de que a memória possa assumir diferentes funções sociais e Sem dúvida, foi isso que me levou a começar por ele esta 'história do psicológicas em diferentes contextos sociais não é nova. Jean Pierre Vernant (1990), por exemplo, realizou uma rica análise dos usos da memória entre Mas é pura coincidência terminar este ensaio em um 15 de outubro.¹² os gregos e seria interessante confrontar estes usos estudados por Vernant com o uso que está sendo identificado no presente texto. 3. Uma extraordinária análise da vida e da obra de Calvino e, simultaneamente, uma compreensão ampla da problemática cultural e existencial do século XVI podem ser encontradas em Bowsma (1988). Esta é uma leitura muito recomendável para aprofundamento nestas questões, inclusive pela coincidência dos referenciais e concepções de Bowsma com os do presente trabalho. 4. A tese aqui desenvolvida se aproxima das apresentadas por Gusdorf (1980) acerca das autobiografias e por Weintraub (1975) acerca das conversões. A articulação destas teses já foi efetuada por Griffin (1990) na análise de uma autobiografia contemporânea, a de um ex-assessor do presidente Nixon. 5. Para uma compreensão mais rica das relações entre o estilo maneirista e o amaneiramento enquanto fenômeno psicopatológico, o leitor deve consultar a obra de L. Binswanger (1977) que, a partir de um referencial fenomenológico-existencial me parece mais elucidativa que a de Hauser. 6. Dispomos de duas ótimas traduções do soneto 144, a de Ivo Barroso, a escolhida, e a de Jorge Wanderley. Prefiro a de Ivo Barroso (cf. Shakespeare [1606] 1991), tanto por razões estéticas como pelo resgate que faz da problemática do contágio por doenças venéreas (em inglês, fire out, num contexto repleto de insinuações sexuais). 78 79