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7. 0 livro de Baldassari Castiglione (1478-1529), 0 cortesão (1528), é o mais famoso guia das boas maneiras de todo este período. 8. contraponto foi combatido também pelos reformadores religiosos protestantes e católicos (representando o espírito do Concílio de Trento). Em todos estes casos, contraponto era condenado por ser imprestável IDENTIDADE E ESQUECIMENTO: ao serviço religioso. Na verdade, que não se admitia era a autonomia da ASPECTOS DA VIDA CIVILIZADA música e da estética em relação ao serviço religioso e à teologia. Calvino ([1543] 1965), por exemplo, após reconhecer a eficácia da música na condução dos sentimentos humanos, conclui que "...desta maneira, devemos ser cuidadosos em dirigir (ou regrar) a música de forma a que nos seja útil e de forma alguma perniciosa". 9. controle da imaginação artística através da imitação dos antigos e da imitação da natureza racionalizada, que aqui estamos apreciando no campo A atualidade de Cervantes da música, foi enfocada com muita riqueza de detalhes por Costa Lima (1984 e 1988) nos campos da literatura e das artes plásticas renascentistas, A adesão a modelos é, conforme se sabe, um ingrediente universal nos quais geraram uma espécie de 'veto ao dos processos de constituição de identidade. Há casos, contudo, em 10. Os Exercícios espirituais, enquanto texto, mereceram uma excelente análise que esta adesão se converte em imitação preciosística, em cópia de Roland Barthes (1990), a que leitor interessado é remetido para estilizada, 'excessiva' e empolada de um modelo sumamente idealizado. completar as observações que se seguem. Há, também, um livro de Roberto Neste caso, é lícito falar em amaneiramento como uma das possíveis Gambini (1988), em que este texto e as cartas dos que no século estratégias de auto-identificação. Não me deterei aqui em recordar as XVI catequizavam os índios brasileiros foram submetidas a uma análise condições existenciais em que a estratégia de amaneiramento pode baseada no referencial da psicologia analítica de C. G. Jung. Este livro dominar um projeto identificatório nem no seu significado trata especificamente das relações do europeu com os americanos, no que antropológico.¹ se aproxima, apesar das diferenças teóricas e metodológicas, do livro Meu interesse se dirige à análise dos procedimentos acionados exemplar de Tzvetan Todorov (1983). no amaneiramento, vale dizer, dos procedimentos de construção e 11. Os dados biográficos sobre Santa Teresa foram obtidos em duas biografias manutenção de uma identidade que se constitui e se esgota na e pela recentes, uma publicada em 1982, a de Stephen Clissold, e uma publicada coincidência com uma imagem. originalmente em 1983 e editada no Brasil em 1988, a de Rosa Rossi. Esta, A literatura de transição do século XVI para XVII nos propor- particularmente, é muito elucidativa e deve ser consultada. É indispensável, cionou o mais cabal exemplo desta estratégia na figura de dom Quixo- naturalmente, que se leia também o próprio Livro da vida de Santa Teresa te de La Mancha. Desde o primeiro capítulo do romance ([1605/1947] ([1562] 1983). 1981),² Cervantes nos põe em contato com a pessoa pacata, tímida e 12. Santa Teresa morreu a 4 de outubro de 1582. No entanto, neste ano a retraída de um fidalgo ocioso e sonhador que se encanta e deixa cati- mudança do calendário determinada pelo papa Gregório XIII fez com que var pela onda da literatura cavaleiresca. Após anos de leitura, quando o dia 4 passasse a ser 15 e é dia 15 de outubro que veio a ser dia de dom Quijada ou Quesada ou Quijana verdadeiro nome é incerto, Santa Teresa. como que a testemunhar 0 quanto há de problemático em sua identi- dade 'oficial' saiu furtivamente pela porta dos fundos de sua casa 80 81para assombrar mundo com suas façanhas e proezas, levava consi- atividades prediletas de dom Quixote. Diante daqueles que se go uma imagem absolutamente nítida e completa de quem era e de como acostumaram a chamar estes mesmos seres pelos outros nomes os devia se portar; em todos os momentos suas reflexões, decisões e ações habituais -, esta atividade será uma das principais evidências da estarão pautadas por esta imagem. Diante de qualquer dilema ou sur- loucura do herói. presa, ele recorrerá à famosa questão: 0 que faria um cavaleiro andan- Além dos nomes próprio, do cavalo e 0 da amada a te em-circunstância semelhante? Para responder a esta questão, ele pas- apresentação de dom Quixote exige a fixação e estrita observância dos sa em revista as vidas de seus heróis: nada ele se permite que não seus modos. Através deles, do modo de vestir, do modo de gesticular, esteja autorizado por algum modelo exemplar; por outro lado, tudo que do modo de pensar e de falar etc., 0 cavaleiro dá-se a conhecer. Dom estes modelos exibem de mais significativo, ele trata de imitar, incluin- Quixote, mesmo em situações extremas, escangalhado de pauladas ou do aí os dissabores, as desgraças, os furores e desesperos etc. confinado numa jaulinha, por exemplo, mantém a pose. A pose é o Esta adesão estrita e irrestrita é sem dúvida a principal tática de congelamento da Falas, gestos e movimentos, enquanto pose, dom Quixote para construir e manter a sua identidade em meio a ainda que pareçam em certas circunstâncias fluentes e até percalços e colisões. excessivamente elaborados, estão a serviço da fixação de uma imagem, No entanto, a imitação não lhe serve de muito, enquanto não for são ingredientes de uma representação e, nesta medida, são formas reconhecida e confirmada. Nesta medida, ele deve ser capaz de tornar congeladas e congelantes de relação com o mundo e consigo mesmo. a sua imitação a mais evidente possível, deve exibi-la de forma Como os comportamentos e as falas de dom Quixote visam exagerada e assim obter do mundo o reconhecimento que lhe faz falta. exclusivamente à construção e à manutenção de sua identidade, sob a É em busca de uma imitação que supere seus modelos, por exemplo, dominância das imagens idealizadas e sob controle dos espelhos que ele decide "enlouquecer de saudades e ciúmes", embora não humanos em que busca a confirmação, perdem todo o contato com a houvesse motivos para tanto. Contudo, segundo a lógica do dimensão experimental e funcional de existência. amaneiramento, imitar modelo na ausência da ocasião adequada é Vale a pena investigar, agora mais de perto, como operam e de ainda melhor do que fazê-lo quando há boas razões para um dado que natureza são as defesas e garantias da identidade imaginária do comportamento. Esta 'imitação no como que purifica a exibição fidalgo manchego. e obriga a um reconhecimento ainda mais indiscutível. Só assim, pensa A primeira garantia é uma defesa contra a contingência, ou seja, ele, é possível conquistar fama e deixar um nome na história; só assim contra a aparente arbitrariedade e fragilidade de toda a construção. Esta a imagem se completa e conserva. defesa consiste na crença em uma necessidade real de cavaleiros Imitação e procura de reconhecimento já estão presentes no andantes no mundo confuso e degradado no qual vive. Esta momento em que, dispondo-se a cair no mundo das aventuras para necessidade 'objetiva', posto que imaginária, não resolve tudo; afinal, nele se elevar pela força do braço e do caráter, o fidalgo Quijana, ou por que logo ele seria a resposta às demandas de ordem, caráter, que outro nome tivesse, dedica vários dias às operações de batismo. nobreza e coragem? Neste momento intervêm as idéias de inclinação Ao cabo de intrincadas cogitações, sempre conformadas pelos modelos para o manejo das armas (já 'demonstrada' no gosto pela caça) e de ilustres, toma nome de Quixote e, seguindo a praxe, acrescenta o 'de predestinação. Dom Quixote se apresenta como um messias, e esta la problema tão sério quanto esse é nome a dar a seu cavalo, vocação messiânica é 0 que parece fundamentar sua crença na própria finalmente escolhido: Rocinante; outro tanto ele investe na invenção identidade: sou que é preciso que seja'. do nome e da personagem Dulcinéia del Toboso. Dar nomes aos A segunda garantia é um conjunto de defesas contra a homens e mulheres e às mais diversas coisas do mundo será uma das experiência. Todos os cavaleiros andantes, sabe dom Quixote, possuem 82 83alguns privilégios: alguns não podem ser facilmente feridos, outros não Assim, limpa as suas armas, feita do morrião celada, posto 0 nome do podem ser encantados. Dom Quixote reconhece que não está livre de rocim e confirmando-se a si próprio, julgou-se inteirado que nada mais ferimentos e encantamentos, embora em última instância possa lhe faltava senão buscar uma dama de quem se enamorar; que andante sobreviver a eles. Na verdade, o privilégio de dom Quixote é também cavaleiro sem amores era árvore sem folhas e frutos e corpo sem alma. uma forma de imunidade. Ele é imune às experiências. Em muitas (p. 31) ocasiões parece evitar deliberadamente os testes funcionais que E mais adiante, no contexto de um diálogo: poderiam destruir as imagens. Uma segunda maneira de evitar a eventualidade da irrupção da experiência no campo do imaginário Digo que não pode cavaleiro andante sem dama, porque tão próprio constitui-se na permanente, incansável e irresistível elaboração de e natural assenta nos que o são serem enamorados como no céu ter estrelas; e onde, com efeito se viu nunca história de cavaleiro andante imagens. Dom Quixote não dá folgas à imaginação; ela trabalha sem amores. Se os não tivesse, não fora tido por legítimo cavaleiro, senão metodicamente e vai longe, principalmente quando se alia a uma por bastardo... (p. 75) atividade de auto-exibição e convencimento. Os melhores momentos do romance, como se sabe, são os diálogos ou os monólogos diante Já bem adiantado nas aventuras, no segundo livro, em conversa de uma platéia. Em particular, nos diálogos com Sancho Pança, a com os duques que o acolhem em estilo de farsa, dom Quixote é ainda imaginação sistemática ganha uma amplitude e detalhamento mais preciso na argumentação: extraordinários, antecipando provas de consideração, antevendo tirar a um cavaleiro andante a sua dama é tirar os olhos com que vê e conquistas, prêmios, honrarias, ternos sentimentos compartilhados com o sol com que se alumia e o alimento que 0 sustenta. Muitas vezes damas da mais alta linhagem etc. tenho dito e agora o torno a dizer, que um cavaleiro andante sem dama Além de evitar os resultados adversos e imaginar resultados é como árvore sem folhas, o edifício sem cimento e a sombra sem 0 favoráveis, a mais eficaz das defesas contra a experiência é a corpo que a produza. (p. 443 grifo meu) desqualificação de resultados experimentais mediante interpretações Parece-me que a idéia de Dulcinéia ocorre a dom Quixote um racionalizantes. Nestas interpretações, a figura do encantador ocupa pouco como, alguns anos depois, a idéia de Deus viria a ocorrer a uma posição estratégica: são os encantadores que, supostamente, Descartes. A idéia de um amor puro e perfeito impõe-se a dom Quixote, estariam por detrás de todas as decepções; são eles que, segundo o modelo cavaleiresco, como uma evidência Esta deliberadamente, contrariam as expectativas de dom Quixote. Nesta idéia não se completaria (e a completude é um atributo da perfeição) medida confirmam-se as crenças deste, já que as práticas de magia sem um objeto adequado. Dulcinéia existe porque não poderia ser de dirigidas contra ele reforçam sua identidade de um justiceiro digno outra forma e isso independe de qualquer prova experimental. É uma destes poderosos inimigos. A crença na ação dos encantadores não idéia que se impõe porque já está inscrita na mente e na sina de um apenas torna a experiência compatível com a identidade imaginária, mas cavaleiro andante, e acreditar nela é inevitável desde que se confie na faz da experiência negativa uma instância positiva e ultraconfirmatória: própria cogitação. Dom Quixote acredita em Dulcinéia porque não pode que me dá errado, prova que estou certo'. duvidar sem duvidar da própria existência. De todas as garantias, porém, nenhuma se compara em eficácia No entanto, à medida que as aventuras se acumulam e vão, engenho àquela que produz e determina a existência de Dulcinéia del segundo dom Quixote, confirmando sua identidade, Dulcinéia Toboso. A existência de Dulcinéia, contestada, discutida e qualificada reaparece. Só que agora é como o corpo que eu pressuponho em muitos momentos do romance, é objeto de alguns argumentos cuja necessariamente quando vejo a sombra. Na conversa com a duquesa, lógica convém averiguar. Já no momento de compor sua personagem já transparece a concepção de Dulcinéia como uma realidade que dom Quixote se coloca a questão de Dulcinéia: sustenta mundo das sombras em que existe dom Quixote. Numa outra 84 85passagem, argumentando com Sancho que volta e meia expressa suas põem as têm na realidade. Pensa tu que as Amarilis, as Fílis, as Sílvias, dúvidas, dom Quixote é mais claro quando afirma: as Dianas, as Galatéias, e outras quejandas de que andam cheios os livros, os romances, as lojas de barbeiros, os teatros de comédias, foram Não sabeis vós, mariola, faquim, biltre, que se não fosse pelo valor que realmente damas de carne e osso, e pertencem àqueles que as celebram ela infunde no meu braço eu por mim nem matava uma pulga? Dizei-me e celebraram? Decerto que não. As mais belas inventaram-nas eles para socarrão de língua viperina, quem julgais que foi o conquistador deste assunto dos seus versos, e para que os tenham por enamorados, e reino, e o que decepou a cabeça deste gigante, e vos fez a vós marquês homens de valia por serem. Segundo isso, basta-me também a mim (que tudo isso dou eu já como feito e processo findo), se não é o pensare crer que a boa da Aldonça Lourenço é formosa e honesta. Lá a valor de Dulcinéia fazendo de meu braço instrumento de suas façanhas? sua linhagem importa pouco; não hão de ir tirar-lhe as inquirições para Ela peleja em mim; eu vivo e respiro nela, nela tenho vida e ser. (p. dar-lhe algum hábito; para mim faço de conta que é a mais alta princesa 179) do mundo. Porque hás de saber, Sancho, se não sabes, que há duas Dulcinéia é aqui apresentada, antecipando em duzentos anos a coisas só que mais que todas as outras incitam a amar: são a formosura defesa que Kant faz da 'coisa em como condição de possibilidade e a boa fama; e ambas estas coisas são em Dulcinéia extremadas, porque da experiência; e não apenas das experiências já sucedidas, mas em lindeza nenhuma a iguala, e em boa nomeada poucas lhe chegam; e daquelas que necessária e indiscutivelmente poderão suceder, como a para acabar com isto, imagino eu que tudo que te digo é assim, sem um til de mais nem menos; pinto-a na fantasia como a desejo assim nas conquista do reino e do título de marquês para Sancho. graças como no respeito... (p. 145) Como condição de possibilidade da experiência cavaleiresca de mundo em sua universal necessidade, Dulcinéia nunca fará, ela mesma, E quando a duquesa argumenta que no primeiro livro ficava claro parte da experiência de dom Quixote. Dela, ele pode formar uma idéia, que dom Quixote nunca havia visto Dulcinéia, que ela era dama mas não a poderá ver, cheirar ou amar concretamente. Pode, contudo, fantástica, gerada no entendimento dele e pintada com as perfeições por ela morrer de saudade, a ela pode dedicar suas vitórias etc. Para que ele nela desejava, ele retruca: conservá-la nesta posição transcendental é preciso guardar uma certa Deus sabe se há ou não Dulcinéia no mundo, ou se é fantástica ou não; distância e prudentemente evitar certos testes. Quando o argumento nem são coisas em cuja averiguação se leve até o fim. Nem eu gerei a transcendental começa a perder a força diante de algumas experiências minha dama, ainda que a considere como dama que em si contém todos suspeitas, a lucidez retorna e dom Quixote adoece e morre. os predicados que a podem distinguir entre as outras, a saber: formosa Contudo, mesmo antes da desilusão final abater-se sobre sem senão, grave sem soberba, amorosa com honestidade, agradecida, fidalgo Quijana, há algo no personagem e na escrita de Cervantes que cortês e bem criada e finalmente de alta linhagem. (p. 443) faz do romance muito mais que a história engraçada de um louco Ora, a revelação destes procedimentos constitutivos de Dulcinéia simpático. e a elucidação do seu status de 'idéia reguladora' são, em outras Dom Quixote não é apenas cuidadoso e metódico na construção palavras, a exposição hilariante da raiz demasiadamente humana deste e na manutenção de sua identidade. Ele é capaz de revelar uma extrema universo sublime de representações de si e do mundo em que dom lucidez, trazendo à luz os processos envolvidos. Quixote vive. Nesta medida, a novela de Cervantes vai muito além da Tomemos como exemplo algumas palavras acerca de ridicularização da literatura cavaleiresca e de seus leitores ingênuos o primeiro trecho pertence a um diálogo com Sancho: ou amalucados. Cervantes faz a crítica antecipada de todas as Assim, Sancho, para o que eu quero a Dulcinéia del Toboso, tanto vale sublimidades da vida civilizada e das suas representações e já denuncia ela como a mais alta princesa do mundo. Olha que nem todos os poetas a origem e a dinâmica 'psicológicas' de todas as supostas que louvam damas debaixo de um nome que eles arbitrariamente lhes transcendências mobilizadas para garantir e defender 0 reino das 86 87representações. De fato, como veremos, os modelos cavaleirescos 0 que deveria ser excluído é sujeito enquanto fonte de variação, foram deixados de lado, mas os procedimentos constitutivos de fonte de opiniões, tendências, viéses, desejos, movimentos passionais identidades imaginárias em grande medida perduram. 0 que vamos e instintivos etc. Toda a confiança moderna nas crenças científicas, à assistir, porém, é radical esquecimento daquilo que gera e conserva falta de um vínculo com as tradições e de uma obediência às as representações na sua aparente autonomia. autoridades, viria, desde então, repousar na autonomia deste sujeito Já não há mais razões hoje em dia para continuarmos rindo de epistêmico e na eficácia dos procedimentos constitutivos. À medida, Amadis de Gaula, de seus leitores e imitadores. A graça do Quixote, porém, que estes procedimentos se estabilizam e tece-se com eles uma contudo, permanece, porque ainda há muito que rir dos homens da rotina metodológica, eles tendem a perder a dimensão instrumental e corte de Luís XIV, dos heróis de Racine, de Descartes e de Kant, e de fica ressaltada a sua natureza ritualística e sacrifical: esquecidas suas toda uma maneira de pensar e fazer psicologia que se desenvolveu a condições e seus limites, método tende ao formalismo e, muitas vezes, partir desta tradição. vai importar menos conhecimento supostamente objetivo que propicia do que o sacrifício imposto à subjetividade particular, privada e variável. Imagens da civilização Nestes momentos, em que método é convertido em fetiche, fica Dois personagens fictícios e de grande impacto na história mais clara a dupla face da exclusão que promove: ao mesmo tempo ocidental vieram à luz no século XVII: os sujeitos purificados do que constitui reino de uma identidade ficcional - sujeito do conhecimento e da paixão. Tanto o sujeito epistêmico como o sujeito conhecimento purificado -, consagra o reino das experiências ético-passional foram gerados através de operações de cisão e expurgo; subjetivas, idiossincráticas, variáveis e ilusórias. Este reino, todavia, é ambos constituíram-se em processos de ascese. tanto consagrado como desqualificado: não só não é confiável como sujeito epistêmico é uma criação do 'método tanto suporte de uma atividade cognitiva já que não pode ser o espelho na sua versão baconiana como na cartesiana. Em que pesem as plano e homogêneo da natureza⁴ -, como também não presta como profundas diferenças entre empirismo de Francis Bacon (1561-1626) objeto do conhecimento, pois carece de ordem e da regularidade e o racionalismo de René Descartes (1596-1650), em ambos os projetos pressuposta pelas ciências exatas e naturais. Mais vale esquecer este epistemológicos a meta é uma 'cura da mente', o que implica a cisão reino, deixá-lo aos poetas, artistas e músicos. Mas será que eles o da subjetividade: de um lado, a subjetividade confiável, regular, porque querem? sempre idêntica a si mesma, e comunicativa, porque sempre a mesma Se lançarmos os olhos para o que produzem e para o que teorizam em todos os homens; de outro, a subjetividade suspeita, volúvel, poetas e músicos da época, veremos que não.⁵ É claro que a eles cabe inconstante, imprevisível, diferente e, em última análise, isolada e a imitação (representação) e a excitação (controlada) das paixões. No privatizada. entanto, as paixões representadas, por exemplo, pelos heróis de Racine método, seja o da observação pura, precedida pela denúncia e (1639-1699) são tudo, menos inconstantes, variáveis e arbitrárias. 0 superação dos "ídolos do seja o da intuição das idéias sujeito ético-passional da tragédia francesa é, ele também, uma claras e distintas, preparada e conduzida pela dúvida metódica, é que ele representa a paixão purificada, desligada, refinada, sublimada, deveria garantir a cisão; mais que isso, deveria garantir a autonomia e operando poderosa e incontestavelmente. São paixões idênticas a si dominância do idêntico sobre diferente, do genérico sobre 0 particular, mesmas e universais. 0 sujeito trágico goza de completa imunidade do comunicável sobre o privado. Só assim teríamos plenamente contra tudo o que, vindo do corpo ou das fraquezas da alma, possa constituído 0 sujeito epistêmico como condição das representações amesquinhar ou desviar a marcha da ação passional. A arte poética da verdadeiras do mundo. tragédia francesa, definindo as regras do estilo elevado e superando 88 89na imitação seus próprios modelos antigos, opera uma cisão e um geometricamente desenhado, seria, nesta ótica, uma manifestação da expurgo semelhante ao que vimos método científico operando na natureza mais 'natural' do que uma floresta virgem. constituição da identidade do conhecedor. Não por acaso, a sensibilidade literária, artística e filosófica da A estética musical, igualmente, avança nessa época nos passos época repudiava as obras de Cervantes, Rabelais ou Shakespeare, da razão Dando continuidade a um movimento vendo nelas apenas mau gosto e indecência. São obras que têm purificador e intelectualista iniciado no século XVI que teve em inconveniente de nos fazer lembrar o que deve ser esquecido, o que Vincenzo Galilei um dos seus maiores expoentes (cf. cap. 1) e resultou se, por acaso, aparece por debaixo das máscaras merece apenas a na consolidação do 'estilo representativo' -, a 'música cartesiana' vai condenação moralizante e uma acusação de hipocrisia, como nas se caracterizar pela ordenação matemática do universo sonoro, pela comédias de Molière, sem que jamais a natureza fictícia de todas as ordenação matemática dos movimentos passionais e, ainda, o que é o identidades, inclusive a dos acusadores, pudesse ser revelada. decisivo, pela procura ou postulação de correspondências entre as Auerbach (1971; p. 335) aproxima a poesia trágica francesa do duas séries. A 'teoria dos afetos', que dominou a produção musical ambiente laboratorial. Diz ele: no século XVII e parte do século XVIII, pretendeu ser, efetivamente, Dentro desta sublimidade segregadora e isolante, os príncipes e princesas uma ciência experimental e racional da música, e resultou, inclusive, trágicos entregam-se às suas paixões. Somente as considerações mais numa tarefa tecnológica: a da construção de instrumentos musicais importantes, livradas da confusão do cotidiano, purificadas do cheiro e matematicamente concebidos e perfeitos e da codificação das técnicas do gosto do cotidiano penetram em suas almas que, desta forma, estão da execução vocal e instrumental. livres para as maiores e mais fortes emoções. o poderoso efeito das Ora, as paixões que se prestam a este gênero de conhecimento e paixões nas obras de Racine, e já de Corneille, baseia-se, em boa parte, a este nível de imitação e de evocação já não se parecem em nada às no isolamento atmosférico do acontecimento, tal como acabamos de paixões que perturbam e obstruem a marcha da razão ou que descrevê-lo; é comparável à preparação isolante das condições propícias, tal como é usual na realização das modernas experiências. comprometem os sistemas representacionais. São paixões expurgadas de seu potencial mais ameaçador, são paixões essencialmente Parece claro que a teoria do conhecimento científico, a poesia representáveis. trágica do classicismo francês e a teoria matemática da música ajudam Na verdade, os procedimentos de exclusão, seja nos campos da a construir e habitam os espaços do laboratório com suas análises e ciência como no das artes, constituem as identidades imaginárias do combinações sob medida, aplicadas a objetos puros em condições conhecedor ou do homem ético-apaixonado, na exata medida em que ideais. forçam o esquecimento de tudo que possa denunciar a natureza A vida, porém, tende a misturar o que os laboratórios separam: artificial destas subjetividades; em última análise ficava de fora, mistura a razão às paixões e ambas aos poderes do corpo'e às fraquezas irrepresentável, o corpo humano nos seus usos e funções, nos seus do espírito. Isto é que ocorre a menos que fortes, penetrantes e automatismos e na sua impulsividade e, ainda, a alma e seus caprichos, abrangentes dispositivos socioculturais ordenem a vida segundo os suas ambigüidades, suas caraminholas e invencionices. Ficava de fora, mesmos modelos já identificados no pensamento epistemológico e enfim, 'natural' pré-civilizado, ao mesmo tempo que se passava a estético. Exemplos de dispositivos desta natureza foram as artes acreditar que a 'verdadeira natureza humana' só podia se realizar e dar práticas da etiqueta cortês e da oratória religiosa. a conhecer no campo da vida civilizada e sob a forma de representações Norbert Elias (1985) descreveu o processo histórico que levou à claras e distintas. Aliás, não só a natureza humana, mas toda a natureza formação das grandes cortes européias ao mesmo tempo em que ficava assim submetida ao representacional, e jardim francês, limitava a autonomia das casas senhoriais e cortes de província.⁷ Foi 91 90este movimento fundador dos Estados Nacionais, que pôs cobro ao escondam ao máximo as funções e as atividades profissionais. Caso excesso de conflitos políticos e religiosos que marcaram 0 século XVI contrário, cortesão e o burguês honesto permitiriam a invasão e parte do XVII e deu início à unidade cultural e administrativa dos (humilhante) do seu espaço representacional pelo reino da privacidade, países. Os nobres de tradição foram sendo trazidos para a tutela do rei da particularidade, da espontaneidade e da necessidade. Era como e uma nova nobreza ia sendo criada sob a orientação e a serviço da perder domínio dos recursos expressivos civilizados, na sua pretensa casa real. 0 exemplo paradigmático era Versailles nos tempos de Luís universalidade francês era, aliás, a língua da civilização em todas XIV (1643-1715; assumiu trono em 1661). as cortes européias, e a sua pureza era resguardada pela Academia, Nessa vida cortês, a dependência quase absoluta da nobreza em recentemente fundada com este propósito -, passando a exibir a face relação à vontade do rei, que manejava habilmente na formação e na sem polimento dos brutos, dos bárbaros ou das crianças. administração dos conflitos, engendrou uma hierarquia sutilíssima e 'esquecimento' eficaz do que se dava para além ou para aquém da altamente diferenciada. Nela, a posição de cada um não dependia representação era a primeira obrigação social do indivíduo bem- apenas do nascimento e da tradição, mas de fatores conjunturais. sucedido, cuja principal virtude era a capacidade de sentir vergonha. Elias descreve como se deu a ritualização laicizada de todas as Talvez porque este esquecimento não possa ser completo, salvo relações corteses, resultando no império da etiqueta, a que o próprio nas condições quase laboratoriais de uma corte e mesmo aí é rei devia se curvar. A etiqueta era, conforme a apreciação de Elias, um duvidoso que seja era necessário reforçá-lo pelo escárnio aos que sistema de auto-apresentação da corte, um dispositivo representacional se deixavam apanhar na condição de hipócritas. Nisso reside a função mediante o qual se construíam as identidades através de trocas conservadora da comédia de Molière: tornavam a vergonha de alguns altamente codificadas de gestos, falas e olhares, modos de se um incentivo à representação bem-sucedida de todos. Convinha, ainda, apresentar e interagir. O domínio das regras de convivência, a habilidade uma ajuda na ordenação da vida pública e privada; nessa direção em transmitir e decifrar mensagens tornaram-se essenciais para garantir militavam os grandes oradores sacros, que em alguns casos se tornaram e manter o sucesso na corte para toda a nobreza ociosa e parasitária. as estrelas da época. Assistiam-se aos sermões como se assistem aos A vida cortês transformou-se aos poucos num grande espetáculo no grandes eventos e espetáculos culturais, artísticos e políticos. que se exibiam e defrontavam identidades claras e distintas. A figura do pregador não é uma novidade ou um privilégio do O que Elias explora em profundidade são as conseqüências século XVII. No entanto, o prestígio dos pregadores nesse período da sociopsicológicas do regime em termos de incremento na capacidade vida européia tinha algo de especial. Entre eles haviam alguns de contenção dos impulsos, modelação de condutas, autodomínio, portugueses, e a análise que se segue focaliza a obra de um deles: 0 auto-observação e observação dos outros. nobre, com rei em padre jesuíta Antônio Vieira (1608-1677). primeiro lugar, deve ser um exímio manipulador de aparências e um Seria bom principiar opondo a pregação à confissão como duas arguto 'psicólogo' para transpor as dissimulações alheias. A vida na modalidades de produção da subjetividade. Na confissão, fala o crente corte ensina um certo jeito de 'fazer a observação atenta no espaço privado do confessionário acerca do que não pode ser falado dos indivíduos atuando nos jogos da etiqueta propicia o conhecimento em público, do que não pode nem deve ser incorporado às suas sistemático, científico-moralizante dos homens. Disso nos dão representações sociais. Na confissão, sussurra-se, articula-se mal, testemunho as caracterologias elaboradas, por exemplo, por La Bruyère duvida-se, pede-se socorro e perdão. 0 confessor ouve, orienta e, (1645-1696) e por La Fontaine (1621-1695). principalmente, absolve da culpa. No sermão, fala o pregador no espaço Segundo a lógica da etiqueta, os maiores pecados sociais seriam público acerca do que pode e precisa ser falado em público para que a perda do autocontrole e a revelação da 'carne' por debaixo da cada fiel, em tese, sinta nessa fala alusões oblíquas à sua intimidade. máscara. Auerbach, por exemplo, mostra que a dignidade exige que sermão deve dirigir o olhar de cada um para dentro a partir do mundo 92 93das representações. Nas palavras do padre Vieira, proferidas no Como hão de ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito merecidamente célebre Sermão da sexagésima ([1655] 1987), a que distintas e muito claras. Assim há de ser estilo da pregação, muito voltarei várias vezes, define-se a conversão como objetivo da oratória distinto e muito claro. (p. 107) sacra: "Que cousa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem Há de tomar o pregador uma só matéria: há de defini-la: para que se dentro de si, e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, conheça; há de dividi-la: para que se distinga; há de prová-la com a é necessária luz, e é necessário espelho. pregador concorre com Escritura; há de declará-la com a razão; há de confirmá-la com o exemplo; espelho..." (p. 98 grifo meu). há de amplificá-la com a causa, com os efeitos, com as circunstâncias, O objetivo deste espelhamento é fazer com que os homens caiam com as conveniências que se hão de seguir; com os inconvenientes que em si a partir do reflexo que encontram nos outros, no caso, nas se deve evitar: há de responder às dúvidas, há de satisfazer as palavras do pregador. Numa outra passagem, admoestando os dificuldades; há de impugnar e refutar com toda a força da eloqüência pregadores que se tornam excessivamente visíveis, perdendo a função os argumentos contrários; e depois disto há que colher, há de apertar, espelhante que lhes cabe, diz Vieira: há de concluir, há de persuadir, há de acabar. (p. 110) Semeadores do Evangelho eis aqui 0 que devemos pretender de nossos No que tange à emoção, é preciso despertá-la de forma intensa e sermões, não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam controlada, e esta é tarefa para imagens e não para simples palavras. muito descontentes de si: não que lhes pareçam muito bem os nossos As obras que devem acompanhar as palavras são mais fortes que estas conceitos; mas que lhes pareçam mal os seus costumes; as suas vidas, porque são visíveis; as palavras para emocionar devem deixar de ser os seus pecados. (p. 123) apenas audíveis e fazer ver: "...a relação do pregador entrava pelos Trata-se de arrependimento, mas, aparentemente, não se trata de ouvidos: a representação daquela figura entra pelos olhos. Sabem culpa, mas de vergonha.⁸ 0 pregador ensina a cada um envergonhar- Padres Pregadores por que fazem pouco abalo nossos sermões? Porque se de si para consigo para que não se vá depois envergonhar diante não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos" (p. 104). dos outros. A pregação, muito mais que a confissão, parece a forma Finalmente, 0 pregador deve saber se apresentar, saber ler e adequada de auxiliar na produção de identidades que se constituem e interpretar, deve ter estilo. procuram se esgotar na coincidência com uma imagem. Ora, os recursos representacionais ameaçam a todo momento A questão da representação não está presente apenas na função ganhar uma grande autonomia diante da finalidade, que seria, como se de espelho atribuída ao pregador e na incorporação da vergonha íntima viu, a de conduzir a audiência ao arrependimento pela vergonha. entre as habilidades do fiel. 0 manejo das representações é o recurso padre Vieira escreveu em parte o Sermão da sexagésima exatamente básico do bom pregador. É na exploração deste aspecto da arte retórica para condenar a excessiva teatralização da pregação que, ao que parece que Sermão da sexagésima mais nos pode valer. Trata-se de um e é bastante compreensível, era uma forte tendência na oratória sacra sermão acerca de como se pode e deve escrever e 'interpretar' (no da época. Não sei quanto padre Vieira foi bem-sucedido na sentido musical ou teatral da palavra) um bom sermão: é um distinção que propunha entre sermão verdadeiramente religioso e o metassermão. sermão teatral e, segundo ele, quase farsesco. o fato, porém, é que os pregador talentoso tem como tarefa ensinar, emocionar e próprios sermões de Vieira podem ser ainda hoje lidos e apreciados fascinar sua platéia de forma a conduzi-la ao arrependimento pela como exemplos magistrais da arte da representação sem que nos vergonha. sintamos movidos na direção de qualquer arrependimento. É mais do ensinar implica uso adequado de palavras claras e distintas na análise e subdivisão racional dos assuntos, na argumentação que provável que fosse 0 caráter espetacular dos sermões deste cerrada e nas conclusões lógicas e convincentes: período que levasse multidões às igrejas, gerando disputas e filas para 94 95a ocupação dos melhores lugares e não qualquer tendência masoquista exercida; é ela que justifica e dá caráter de necessidade ao mundo das de uma audiência supostamente ávida de conselhos e admoestações. identidades fictícias do soberano e dos súditos. No entanto, sem os impulsos, sem os apetites, sem as aversões, sem a esperança e sem os Subterrâneos da civilização medos os homens seriam ingovernáveis. As ferramentas de controle social dependem disso para serem 0 caráter fictício, artificial, e ao mesmo tempo necessário da vida A rigor, na ausência da natureza impulsiva do homem não haveria civilizada esteve no foco da filosofia política de Thomas Hobbes (1588- nada a governar, não haveria ação, não haveria pensamento, não 1679). Porém, ao defender o mundo das representações e das haveria discurso. São os apetites e aversões que introduzem movimento identidades ficcionais, Hobbes aponta para que existe por detrás da e ordem; são eles que põem para funcionar e organizam as faculdades civilização: uma natureza tão intolerável quanto indispensável e cognitivas do homem. Na ausência de apetites e aversões, as idéias preciosa. não se articulariam na formação do pensamento, as palavras não se Como se sabe, Hobbes no Leviatã (1651) faz uma defesa da organizariam na formação de discursos, a vida mental não se elevaria civilidade em que, na rigorosa explicitação de argumentos convincentes, às formas da prudência e do cálculo racional. ele se torna antipático e indiscreto. Indiscreto porque expõe sem Nesta medida, não seria possível nem seria desejável expulsar o disfarces a selvageria natural do homem, seu egoísmo, sua reino natural de impulsos e desejos ou separar de forma radical a destrutividade, a vontade de poder e seus excessos. Antipático, natureza da civilização, ou, em outras palavras, o domínio das forças naturalmente, porque esta não é uma imagem lisonjeira para ninguém. do das representações. É preciso, contudo, regular, coibir os excessos Não espanta que Hobbes pudesse incomodar seus contemporâneos. e confinar a vida pulsional. Estas não são maneiras ascéticas de lidar É a selvageria que impõe a todos, por uma questão de com os poderes como víramos ocorrer na sobrevivência, o estabelecimento de um contrato básico pelo qual cada tragédia e na epistemologia racionalista. Regulando, coibindo e um renuncia a determinados impulsos e poderes e transfere confinando está se conservando algo. A civilidade, efetivamente, existe determinados direitos aos representantes dos interesses de todos: tanto como instrumento repressivo quanto como defesa do homem soberano." 0 soberano, na qualidade de representante, legisla, executa natural. As identidades fictícias dos súditos e do soberano, que e se defende de qualquer contestação à sua soberania como forma de ocupam e se movimentam nos espaços públicos, garantem a defender e garantir a coesão social, a paz entre os homens e as sobrevivência e dão perspectivas de desenvolvimento aos seres condições mínimas e básicas para que cada um sobreviva e persiga naturais, que se recolhem ao campo da privacidade, dos interesses e seus interesses particulares. negócios particulares, das opiniões pessoais, das associações ou De fato, mesmo depois de os homens terem, mediante o 'contrato sistemas privados, desde que legítimos.¹⁰ se constituído como súditos, instituindo um só como soberano, Hobbes incomoda mais pela sua indiscrição do que pelo, muitas superando assim 0 estado de guerra que reina na natureza, permanece vezes mal compreendido, autoritarismo. 0 incômodo não se deve, o núcleo selvagem e impulsivo gerando uma duplicidade íntima: principalmente, ao fato de ele ter sido, supostamente, um defensor do soberano e seus súditos enquanto tais agem estritamente no campo Estado absolutista. Na verdade, ao separar tão nitidamente a pessoa da civilização e segundo a lógica da representação, mas continuam artificial da pessoa natural do soberano e exigir obediência absoluta abrigando em si suas pessoas naturais, prontas para agir enquanto apenas à primeira, mas não à segunda, Hobbes coloca-se a uma forças da natureza. considerável distância da filosofia social do Estado absolutista que, É claro que esta natureza comporta ingredientes disruptivos e ao contrário, identificava estas duas dimensões do personagem real. dissolventes e é contra ela, exatamente, que a civilidade deve ser No entanto, mesmo compreendendo mal a defesa hobbesiana da 96 97'soberania representativa absoluta', não seria isto a fonte do mal-estar. dos pregadores, em especial à dos pregadores jesuítas, como o já citado Hobbes incomoda porque ele faz lembrar ao homem pretensamente padre Antônio Vieira. Trata-se do jansenismo. civilizado o monstro que carrega consigo, a sua divisão interna, a sua Cornélio Jansen (1585-1638), teólogo flamengo, desenvolveu, em natureza intolerável e querida, motor e justificativa do mundo das oposição à interpretação oficial do catolicismo (oriunda do Concílio representações, mas que também é para este mundo uma constante de Trento), idéias freqüentemente condenadas como heréticas e ameaça e, secretamente, seu maior valor. Se homem natural é lobo 'protestantes'. A principal querela dizia respeito ao peso da vontade do homem', a civilização não transforma em cordeiro nem em lobo humana versus o da fé e da graça divina na salvação das almas. Jansen realmente domado: continuamos feras, prudentes apenas o bastante tinha do homem uma visão muito sombria e pessimista e, contrariando para escolher viver sob a tutela de um domador, no abrigo de nossas principalmente os jesuítas, reduzia ao mínimo o peso da vontade e de jaulas. seus rebentos: o discurso racional, a retórica, o método. Acentuava, Se Hobbes expõe sem dissimulações homem-lobo atocaiado ao contrário, a fragilidade e a dependência, a submissão e a entrega nos espaços da privacidade, algo deste mesmo homem vai se absoluta diante de Deus, a esperança na graça. manifestar sublimada e disfarçadamente na leitura proto-romântica que Quando o jansenismo chegou à França, conduzido por um circula nos ambientes corteses. Foi Norbert Elias (1985) que, no agostiniano designado como Saint-Cyran, conquistou a abadia de Port- contexto do seu estudo sobre a vida na corte francesa, modelo das Royal, em torno da qual se constituiu uma pequena comunidade de cortes européias, analisou a estilização da vida pastoril que encantava nobres que praticamente ao lado da corte condenavam a vida cortês boa parte da nobreza no século XVII. No sexto capítulo, 'Curialização e se dedicavam à oração, à meditação, ao estudo, à vida simples e pura e romantismo aristocrático, Elias mostra como as capacidades que a do autêntico cristianismo. Se os pregadores apelavam para a experiência corte desenvolve nos homens podem se voltar contra ela na forma de da vergonha e ensinavam a vergonha de si, os jansenistas enfatizam a uma nostalgia de índole crítica ao mundo civilizado. Nestas fantasias, culpa; culpa que, de tão grave e sem remissão humanamente possível, opõe-se o autêntico, sincero, humano e simples da natureza ao dependia exclusivamente da graça divina para obter o perdão. Os jansenistas, neste século em que a vida civilizada se impunha em todos rebuscamento, fingimento e dissimulação do regime das representações os terrenos, subsistiram como o 'recalcado da corte' e foram finalmente civilizadas. Observa-se, em decorrência, a valorização da vida campestre condenados e dissolvidos. Antes disso, contudo, juntou-se a eles uma e a voga da literatura pastoril, em que as velhas e idealizadas virtudes das mais notáveis personalidades do tempo: o físico e matemático Blaise fidalgas independência, rude sinceridade etc. que já não se podem Pascal. encarnar no cortesão submisso ao rei e cativo das regras da etiqueta, Pascal (1623-1662) é um homem dividido. Nisto ele não se expressam-se pelas bocas estilizadas de pastores e pastoras diferencia de nenhum outro. No entanto, ele se torna um caso mais apaixonados. Nada mais distante desta visão bucólica da natureza do interessante e surpreendente quando faz da divisão um dos seus que o estado de guerra retratado por Hobbes. Este proto-romantismo principais temas de reflexão. Este tema é retomado e explorado de sentimentalóide não tem nada, também, da virulência revolucionária do diversos ângulos: 0 da guerra entre espírito e corpo, ou entre instinto romantismo dos séculos XVIII e XIX. Não obstante, também nele experiência, ou, ainda, entre razão e paixões; o da duplicidade das transparece algo daquilo que a vida civilizada ambiguamente defende vias do conhecimento: espírito geométrico versus o espírito de finesse; e condena ao esquecimento. da variedade das tendências e qualidades de cada homem, o da sua Podemos, ainda, surpreender homem pré ou anti- inconstância etc. representacional numa forma de religiosidade que obteve um razoável resultado é uma idéia de homem como quimera, como monstro, sucesso na corte e que operava em rigorosa oposição à religiosidade como feixe de contradições. Daí resulta, do mesmo modo, a 98 99impossibilidade de representar 0 homem em uma imagem única que o ocupado pelos diversos projetos de psicologia, como área específica identifique. de conhecimento e de práticas sui generis. Ainda assim, já é possível É preciso, inclusive, suspeitar de todas as identidades que o vislumbrar a dupla filiação das psicologias contemporâneas. homem toma para si e mostra aos outros. Por detrás dessas imagens, Na tradição civilizada e civilizatória, vamos encontrar as Pascal encontra, apenas, 'amor-próprio', interesses e uma profunda psicologias que se levam a sério como conhecimento objetivo dos aversão à verdade.¹ É que ele afirma, de maneira lapidar: caracteres, ou seja, das identidades substantivadas nos diversos 'tipos psicológicos'; teremos, também, as psicologias que se voltam para 0 0 homem não é, portanto, senão disfarce, mentira e hipocrisia consigo estudo analítico-funcional dos processos cognitivos (na esteira da mesmo e para com os outros. Não quer que lhe digam a verdade. Evita dizê-la aos outros. E todas estas atitudes, tão afastadas da justiça, têm moderna epistemologia) ou das paixões e demais 'estados subjetivos'. uma raiz natural no seu coração. ([1670] 1978; 56) Em contraposição, as tradições de Erasmo, Montaigne (cf. cap. 1), Rabelais, Shakespeare, Cervantes, e ainda de Hobbes e Pascal, entre E, ainda, sob o título: outros, resultarão em projetos de psicologia concebidos como eu é odioso: desvelamento de ilusões, como genealogias de identidades civilizadas, (...) Numa palavra, eu tem duas qualidades: é injusto, pois se faz o como desconstrução das identidades fictícias. centro de tudo; e é incômodo aos outros, porque os quer subjugar. Porque Ao contrário das primeiras, que reificam seus objetos, estas cada eu é inimigo e quer ser o tirano de todos os outros. (p. 186) psicologias promovem uma certa dissolução do psicológico e nos remetem às dimensões biológica, política, religiosa e ética da Esta violência contra o 'eu' e a desmistificação de toda identidade experiência. não excluem a exaltação do que o homem pode ter de sublime, de São formas de fazer e pensar a psicologia que, mesmo quando racional, de elevado; apenas contribuem para a insistência pascaliana assumem a gravidade das máximas de La Rochefoucauld (1613-1680), nas incongruências e contradições do homem consigo mesmo. A nos convidam a rir. Elas incomodam quando fazem lembrar. Nisto reside própria valorização do coração "que tem razões que a razão e deveria talvez se esgotar toda a sua pretensão à 'verdade'. desconhece" (p. 121) -, como via única de conhecimento de Deus, não implica a renúncia ou a desvalorização da razão. Trata-se sempre de acentuar a divisão dos campos, os limites de cada um, as oposições entre eles, muito particularmente a impossibilidade de uma representação clara e distinta de uma suposta identidade individual. As meditações de Pascal, ao contrário de suas obras científicas e matemáticas, permaneceram no estado de fragmento. Creio que o fragmento, esta escrita imprevisível, surpreendente e guerrilheira, era a melhor via para que o 'recalcado da corte' pudesse atravessar e emergir dos sistemas representacionais dominantes. A dupla filiação da psicologia Ainda está longe do século XVII 0 momento em que, já razoavelmente constituído, espaço psicológico começará a ser 100 101Notas 10. R. Kosellek (1972) é quem mais se detém na questão da articulação do público com o privado na filosofia de Hobbes. Voltarei a ele em próximo ensaio. 1. Remeto leitor interessado à obra de Binswanger (1977) que me serviu 11. A denúncia do amor-próprio, da vaidade, do orgulho, dos interesses como de referencial teórico na organização deste item. verdadeiros 'obstáculos epistemológicos' para conhecimento de si e dos 2. As três datas referem-se, respectivamente, à da publicação original, à da outros e como fatores de dissimulação esteve também na alça da mira do edição em espanhol na qual li o texto, e à da edição brasileira de que me duque de La Rochefoucauld. servi para as citações. Além da leitura de Cervantes, vali-me livremente das interpretações que Salvador de Madariaga (1961), E. Auerbach (1971) e A. Schutz (1983) propõem para a análise de aspectos notáveis da estrutura, do estilo e da representação/constituição da realidade no Quixote. 3. Acerca da 'pose' enquanto categoria da análise existencial de pacientes psicóticos, ver de Waelhens (1990) e, principalmente, Maldiney (1973 e 1991). 4. A expressão 'espelho da natureza' e análises similares acerca da constituição do 'mental' na filosofia moderna foram encontradas em Rorty (1979). 5. Para a redação deste parágrafo e para o desenvolvimento de algumas idéias centrais deste item, de muito me valeu o capítulo de Auerbach (1971) sobre os autores do classicismo francês e as análises de N. Elias (1985) sobre a arte na corte de Luís XIV... 6. 0 próprio Descartes na juventude redigiu um texto sobre música (1618) e o racionalismo cartesiano foi referência obrigatória da teoria musical nesta época. 7. Além do livro de Elias, recomendo a leitura do texto de E. Auerbach 'La cour et la ville', em que 0 autor analisa especificamente as conseqüências do regime absolutista na composição, nos hábitos e no gosto do público teatral. Em acréscimo, podemos encontrar em Auerbach uma descrição do processo de elaboração dos modos civilizados franceses, desde antes da corte de Luís XIV, no salão de madame Rambouillet. 8. A distinção entre civilizações de culpa e civilizações de vergonha foi introduzida por antropólogos americanos, como R. Benedict, e retomada por E.R. Dodds (1988) em seu estudo sobre as diversas fases da cultura grega. 9. Antes de Hobbes, os jesuítas do século XVI já haviam chegado à mesma conclusão, com argumentos semelhantes, e dado à Companhia de Jesus sua estrutura monárquica (cf. cap. 1). 102 103

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