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Conteudista Prof.ª Dra. Márcia Pereira Cabral Revisão Textual Aline de Fátima Camargo da Silva História da Educação Infantil 2 Sumário Objetivos da Unidade ............................................................................................................3 Introdução .............................................................................................................................. 4 Criação/Objetivos ................................................................................................................. 6 A Educação dos Pequenos no Brasil Republicano: Proteger e Assistir ................... 10 Mudanças no Trabalho Feminino ......................................................................................12 Os Movimentos Operários..................................................................................................12 A Reação dos Empresários .................................................................................................14 Uma Política Pública Assistencialista ..............................................................................15 As Décadas de 1920 e 1930: O Foco na Saúde e a Renovação Educacional ...........16 As Décadas de 1940 e 1950 ...............................................................................................17 A Década de 1960: A Educação das Crianças em Idade Pré-Escolar no Sistema de Ensino ................................................................................................................19 A Década de 1970: Educação Compensatória, Aumento de Demanda e Redemocratização ............................................................................................................21 A Década de 1980: Discurso Pedagógico e a Expansão do Atendimento ..............24 Redemocratização e Crescimento .................................................................................. 25 Em Síntese .......................................................................................................... 28 Atividades de Fixação ........................................................................................ 29 Material Complementar ................................................................................... 30 Referências ......................................................................................................... 31 Gabarito .............................................................................................................. 33 3 Atenção, estudante! Aqui, reforçamos o acesso ao conteúdo on-line para que você assista à videoaula. Será muito importante para o entendimento do conteúdo. Este arquivo PDF contém o mesmo conteúdo visto on-line. Sua disponibili- zação é para consulta off-line e possibilidade de impressão. No entanto, re- comendamos que acesse o conteúdo on-line para melhor aproveitamento. • Explorar o conceito de infância, analisando as diferentes perspectivas e abor- dagens que influenciam a compreensão contemporânea desse estágio de desenvolvimento; • Investigar a trajetória histórica da educação infantil ao longo do tempo, com- preendendo as transformações sociais e pedagógicas que moldaram sua evolução; • Refletir sobre a inter-relação entre o conceito de infância e a evolução da edu- cação infantil, destacando como as mudanças na percepção da infância im- pactaram a abordagem educacional desse grupo etário. Objetivos da Unidade 4 Introdução Ao iniciarmos nossas reflexões sobre o currículo na Educação Infantil, é importante que você primeiramente reflita sobre a educação de um modo geral, pensando na construção política, econômica e social do processo educacional desse nível de en- sino e na influência dessa construção no trabalho realizado nas escolas, atualmente. É interessante fazer uma reflexão sobre esse período do desenvolvimento humano, de seus desdobramentos na educação escolar e na etapa educacional que abrange esse momento. VOCÊ SABE RESPONDER? O que é infância? Glossário Infância: período da vida, no ser humano, que vai desde o nasci- mento até a adolescência; meninice (Michaelis, 2023, n.p.). Com base nessa definição, podemos delimitar o período da infância entre o nasci- mento (zero ano) até aproximadamente 10 ou 12 anos. Fazendo referência à educa- ção, percebemos que trabalhamos com a infância na Educação Infantil (0 a 5 anos) e nas séries iniciais da Educação Básica (6 a 14 anos). Pinto e Sarmento (1997, p. 67) apontam que a infância “está longe de corresponder a uma categoria universal, natural, homogênea e de significado óbvio.”, isto é, há uma determinação absoluta da infância, mas seu conceito não se limita a isso. É necessário levar em conta que ela não é apenas a etapa numérica da idade; Kuhlmann Junior (1998) destaca que “é preciso considerar a infância como uma condição de ser criança” (1998, p. 15). O que isso quer dizer? Que a criança carrega consigo elementos próprios de sua idade, os quais devem ser considerados em sua formação e utilizados de maneira positiva para o desenvolvimento de sua educação. 5 Hoje, a Educação Infantil constitui a primeira etapa da educação básica e destina-se ao atendimento de crianças de 0 a 5 anos. A Lei n.º 9.394, de 20 de dezembro de 1996, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBN), garantiu o direito à Educação Infantil gratuita para as crianças de 0 a 6 anos em creches e pré-esco- la. Vale destacar que essa medida inseriu definitivamente a educação infantil no sistema educacional, como primeira etapa da educação básica, seguida do ensino fundamental e médio. Leia, a seguir, o que diz a LDB, na seção II, acerca da inclusão da Educação Infantil na Educação Básica: Art. 29. A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, comple- mentando a ação da família e da comunidade. Art. 30. A educação infantil será oferecida em: I – creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade; II – pré-escolas, para as crianças de quatro a seis anos de idade. Art. 31. Na educação infantil a avaliação far-se-á mediante acompanha- mento e registro do seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino fundamental. Fonte: Brasil, 1996, n.p. Vídeo A infância é subdividida em etapas. O perío- do entre 0 e 6 anos, no qual se desenvolve a educação infantil, recebe o nome de primeira infância. Para entender melhor esse conceito, assista ao vídeo O que é Primeira Infância?, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. https://youtu.be/ttJtRokJJIk https://youtu.be/ttJtRokJJIk 6 O artigo 29 da LDB destaca o atendimento da criança até 6 anos, a partir de 06 de fevereiro de 2006. No entanto, cabe ressaltar que a Lei 11.274, de 06 de fevereiro de 2006, regulamentou o Ensino Fundamental de 9 anos, com o ingresso das crianças com 6 anos no 1º ano do Ensino Fundamental, o que nos deixa na educação infantil com crianças até 5 anos. Essa preocupação com a formação integral da criança, com o atendimento e desenvolvimento físico, psicológico, intelectual e social, tal como com a par- ticipação da família e da comunidade, é muito recente. Nem sempre foi assim. Atualmente, para entender os fundamentos metodológicos que nos orientam no trabalho nesse nível de ensino, é preciso saber como tudo começou, assim como as mudanças que ocorreram nas políticas educacionais e nas práticas pedagógi- cas da educação infantil. Podemos estabelecer uma linha do tempo desde as primeiras experiências de atendimento às crianças até a criação das escolas municipais de educação infantil. Embarque no trem da história e vamos viajar um pouquinho no tempo para você compreender como foi construída a história da Educação Infantil! Criação/Objetivos Assim como muitos elementos da educação formal no contexto brasileiro, a História da Educação Infantil emnosso país, apresenta muitos traços comuns com a da Europa Ocidental, apesar de exibir características próprias, decorrentes de nossas condições sociais, culturais, econômicas e políticas. O atendimento de crianças pequenas longe da mãe em instituições como creches ou parques infantis, até meados do século XIX, basicamente não existia no Brasil. As condições de vida do país eram determinantes, sendo que, no meio rural, no qual residia a maior parte da população do país na época, as mães de alguma forma con- ciliavam trabalho e cuidado dos filhos. Ressalte-se ainda que até mesmo o acolhimento de crianças sem tutores formais era feito de maneira pessoal e sem uma estruturação oficializada. As crianças órfãs ou abandonadas, frutos em geral da exploração sexual da mulher negra e da indígena pelo senhor branco, eram acolhidas pelas famílias de fazendeiros. Já na zona urbana, bebês abandonados por suas mães, em geral filhos ilegítimos, por vezes, filhos de moças de famílias de certo prestígio social, eram recolhidos nas “rodas de expostos” existentes em algumas cidades, as quais eram basicamente ambientes para deixar crianças não desejadas. Ali, pessoas interessadas em criar os bebês poderiam recolhê-los. 7 Figura 1 – Crianças Fonte: Freepik No período que antecedeu a Proclamação da República, algumas iniciativas isoladas de proteção à infância promoveram a criação de entidades de amparo, voltadas ao combate da alta mortalidade infantil da época. Contudo, tais ações representavam apenas uma solução paliativa e não efetivamente uma preocupação com o atendi- mento das crianças. Nessa época, não se diferenciavam os objetivos de atendimento de creches, asilos e internatos, porque a finalidade dessas instituições era cuidar somente das crianças pobres. Ou seja, não havia uma preocupação com a formação educacional, mas so- mente com o cuidado em seus termos mais primários de atenção. O desejo de construir uma nação moderna, reflexo da ideologia liberal do final do século XIX, favoreceu a assimilação, pelas elites políticas, de novos conceitos educacionais elaborados na Europa, como a ideia de jardim da infância. Esses conceitos foram recebidos com entusiasmo por alguns se- tores sociais e combatidos com veemência por outros. Muitos políticos confundiam os jardins da infância com as salas de asilo francesas, as quais eram instituições de mera guarda de crianças, vistas, algumas vezes, como promotoras de uma precoce escolarização. Não se pensava à época em oferecer educação às crianças, sendo os jardins de infância, inclusive, considerados prejudi- ciais à unidade familiar por tirar desde cedo a criança de seu ambiente doméstico, sendo admitidos apenas no caso de proteção aos filhos de mães trabalhadoras. 8 Nem todas as pessoas eram contra as possíveis modificações em relação à educa- ção infantil. Alguns políticos defendiam o jardim de infância por trazer vantagens para o desenvolvimento infantil. Um deles foi o escritor e jurista Rui Barbosa, que elaborou, em 1882, um projeto de reforma da instrução no país, no qual considerava o jardim da infância como a primeira etapa do ensino primário, mostrando que ele era diferente das salas de asilo e escolas infantis. Saiba Mais Quem foi Rui Barbosa? Qual foi sua visão sobre a educação infantil? Se, na sociedade atual, vários pesquisadores e educadores de- fendem os centros de educação infantil como um importan- te espaço para o desenvolvimento das diferentes linguagens da criança; enfatizamos que há mais de um século atrás, Rui Barbosa (1883) já percebia a enorme contribuição dessas ins- tituições para o universo infantil. Para esse autor, a criação dos jardins de infância era necessário e tão importante na socie- dade quanto os outros níveis de ensino. Assim, entendia ser fundamental uma reforma no sistema do ensino brasileiro que alcançasse desde o ensino primário até o ensino superior. Isso porque não havia, no Brasil, um projeto nacional que atendesse os pequenos, mas leis isoladas que buscavam proteger a infân- cia como forma de evitar a desordem social. Descontente com a situação do ensino, Rui Barbosa verificou que o Brasil estava muito distante de outros países que, já naquela época, organi- zava seus sistemas nacionais de ensino, priorizando a obriga- toriedade e a gratuidade dos mesmos. Assim, ao propor uma reforma nas escolas brasileiras, defendia a laicidade, a gratui- dade e a obrigatoriedade, priorizando uma mudança radical no ensino que privilegiava a memorização e o ensino livresco até então presentes nas escolas. Defensor convicto da importância dos jardins de infância, propôs à Câmara dos Deputados Gerais, a necessidade da criação dos jardins de infância ou de criança, como era conhecido na época, no município neutro, no Rio de Janeiro, com o objetivo de que essas instituições servissem de modelo às demais províncias. Para Rui Barbosa, essas institui- ções “deveriam abrigar as crianças antes de sua entrada na es- cola regular, possibilitando-lhes o seu desenvolvimento pleno”. Fonte: Paschoal; Machado, s.d., p. 4 9 O debate legislativo questionava que, se os jardins de infância tinham objetivos de caridade e destinavam-se aos mais pobres, não deveriam ser mantidos pelo poder público, mas, sim, ficar sob a caridade das famílias afortunadas. Essas ideias eram também definidas pelo Movimento de Proteção à Infância, apoiado em uma visão assistencialista e preconceituosa em relação à pobreza, e a qual defendia um aten- dimento caracterizado como uma dádiva aos menos favorecidos. Nesse contexto, foram criados em 1875, no Rio de Janeiro, e, em 1877, em São Paulo, os primeiros jardins de infância, sem participação do governo, pois estavam sob os cuidados de entidades privadas. Somente alguns anos depois, em torno de 1896, foram criados os primeiros jardins de infância públicos, como o que ficava anexo à Escola Caetano de Campos em São Paulo. Figura 2 – Saída dos alunos do Jardim da infância da Escola Caetano de Campos Fonte: crmariocovas.sp.gov.br #ParaTodosVerem: a imagem exibe em preto e branco, a cena da “Saída dos alunos do Jardim da Infância da Escola Caetano de Campos”. Um grupo de crianças, alinhadas em filas ordenadas, aguarda na entrada da escola. As crianças estão vestidas de maneira uniforme, representando a organização e a disciplina caracte- rística desse ambiente escolar. O registro capta um momento de transição, em que elas saem da escola após o período de atividades no jardim de infância, possivelmente acompanhadas por educadores ou responsáveis. Fim da descrição. 10 O que se notava, porém, era uma mudança de foco no atendimento, pois tanto os jardins de infância criados pela iniciativa privada como os criados pela iniciativa do governo dirigiam seu atendimento para as crianças das camadas sociais mais afor- tunadas e não mais os desfavorecidos. Esse atendimento seguia o desenvolvimento de uma programação pedagógica inspirada em Froebel, pedagogo alemão que teve grande influência no desenvolvimento da educação infantil. Saiba Mais O alemão Friedrich Froebel (1782-1852) foi um dos primeiros educadores a considerar o início da infância como uma fase de importância decisiva na formação das pessoas – ideia hoje con- sagrada pela Psicologia, ciência da qual foi precursor. Froebel viveu em uma época de mudança de concepções sobre as crianças e esteve à frente desse processo na área pedagógica, como fundador dos jardins-de-infância, destinado aos menores de 8 anos. O nome reflete um princípio que Froebel comparti- lhava com outros pensadores de seu tempo: o de que a criança é como uma planta em sua fase de formação, exigindo cuidados periódicos para que cresça de maneira saudável. Enquanto isso, prevaleciam na educação pré-escolar posições que se arrastam até hoje: a de realizar assistencialismo e a de promover uma educação compensatória aos mais desafortunados socialmente. Pensar um ambiente promotor da educaçãodas crianças dos diferentes grupos sociais era meta colocada com dificuldade. A Educação dos Pequenos no Brasil Republicano: Proteger e Assistir A Proclamação da República no país pelo Marechal Deodoro da Fonseca, apoiado por grupos sociais em um cenário de renovação ideológica, em 1889, criou novas condições para o entendimento de questões sociais, embora estas, mais uma vez, continuassem a ser tratadas conforme a camada social da população atendida. Nesse sentido, enquanto em 1899, era criado no Rio de Janeiro, o Instituto de Proteção e Assistência à Infância para cuidar de crianças pobres, uma série de es- colas infantis e jardins de infância era criada pela iniciativa privada a fim de atender crianças socialmente privilegiadas, por exemplo, em Belo Horizonte, em 1908, e no Rio de Janeiro, em 1909. 11 Em 1919, o governo instituiu o Departamento da Criança, cujo defendia a ideia de se fazer uma assistência científica à infância. Começava a predominar um discurso médico de assistência às crianças, que atribuía à família a culpa por eventuais doen- ças de seus filhos. O grande investimento da área de Educação na época, entre- tanto, estava voltado para o ensino primário, mas que atendia apenas uma parte da população em idade escolar. Vídeo Quer saber mais sobre Froebel e entender a maneira como ele concebeu o jardim de infância e seus desdobramentos educacio- nais? Assista ao vídeo Friedrich Froebel – A educação infantil – o Brinquedo e o Lúdico, do professor Felipo Bellini. Figura 3 – Instituto de Proteção e Assistência à Infância (IPAI) Fonte: Freire; Leony, 2011 #ParaTodosVerem: a imagem exibe em preto e branco, uma cena no “Instituto de Proteção e Assistência à Infância (IPAI)”. A figura retrata um ambiente no qual vários bebês estão acomodados em uma estrutura seme- lhante a uma mesa adaptada. Há também alguns adultos, possivelmente cuidadores ou profissionais de saúde. Fim da descrição. O Instituto de Proteção e Assistência à Infância (IPAI), que gerou as bases para o Departamento da Infância, organizava um concurso de robustez infantil. A foto an- terior representa uma dessas avaliações. https://youtu.be/aF4Bt3qKj0w https://youtu.be/aF4Bt3qKj0w 12 Mudanças no Trabalho Feminino A estrutura familiar tradicional e as concepções e formas de cuidado das crianças pequenas, sofreram, nesse ínterim, profundas modificações devido à intensifica- ção da urbanização e da industrialização em várias regiões do país no início do século XX. Essa situação ocorreu no mundo todo, com características peculiares em cada cenário. Nesse período, um grande número de mulheres foi incorporado ao trabalho fabril. Todavia, o problema do cuidado de seus filhos enquanto elas trabalhavam foi des- considerado pelas fábricas. Isso impossibilitava que as trabalhadoras conciliassem, no mesmo espaço, o trabalho remunerado e o cuidado com seus filhos, como o faziam quando executavam trabalho na roça ou no lar. Com isso, as próprias mães trataram de criar soluções emergenciais, ou buscando apoio em seus núcleos familiares, ou contando com a ajuda de outras mulheres, as quais se propunham a cuidar dos filhos das operárias em troca de dinheiro. Os Movimentos Operários No início do século XX, a absorção pelas fábricas da mão de obra de imigrantes europeus que chegavam ao Brasil, em geral, jovens e do sexo masculino, trabalha- dores mais politizados pelo contato com movimentos que aconteciam em diversos países, provocou uma diminuição da participação da mulher no setor operário. A situação de exploração do trabalho começava a entrar em pauta e trazia consigo reflexões sobre vários aspectos da sociedade. 13 Figura 4 – Manifestação do movimento sindical argentino “FORA” em 1915 Fonte: Wikimedia Commons #ParaTodosVerem: a imagem exibe em preto e branco, uma cena da manifestação do movimento sindical ar- gentino “FORA” que ocorreu em 1915. A fotografia captura um momento de agitação e expressão coletiva, no qual um grupo de manifestantes se reuniu para protestar. As pessoas presentes na imagem carregam faixas e cartazes, representando sua unidade e desejo de expressar uma mensagem clara. Fim da descrição. Apesar disso, o problema da mulher operária em relação a seus filhos pequenos co- meçou a ser visto de forma nova, em consequência do movimento operário surgido na década de 1920 e início dos anos 1930. Os imigrantes europeus, procuravam nos sindicatos, organizar os demais operários para lutarem por seus direitos e protesta- rem contra as condições precárias de trabalho e de vida a que se achavam subme- tidos: baixos salários, longas jornadas de trabalho, ambiente insalubre e emprego de mão de obra infantil. 14 Nesse clima, muitas mulheres operárias também começam a se politizar e a exigir seus direitos, o que incluía não só melhores condições de trabalho, mas, igualmente, de vida. Isso as levou a pleitear a criação de locais para guarda e atendimento das crianças durante seu trabalho. A Reação dos Empresários Nesse mesmo período, ocorreu um fato marcante na relação patrão-empregados. Na tentativa de atrair e reter a força de trabalho, os empresários mudaram sua po- lítica de repressão direta aos sindicatos, criando vilas operárias, clubes esportivos e também algumas creches e escolas maternais para os filhos de operários, em ci- dades como Rio de Janeiro, São Paulo e várias outras do interior de Minas Gerais, iniciativas que foram timidamente seguidas por outros empresários. Importante As creches e as demais instituições sociais criadas junto às fábri- cas, sendo de propriedade das empresas, eram usadas por estas no ajuste das relações de trabalho. Alguns empresários passa- ram a reconhecer que o fato de o filho da operária ser atendido em instituições mantidas pelas fábricas trazia vantagens para a produção da mãe. Apesar dos avanços conseguidos, tanto o discurso dos patrões como o próprio movimento operário, valorizavam um ideal de mulher voltada para o lar, contribuin- do para que as poucas creches criadas, continuassem a ser medidas paliativas para a questão da Educação Infantil. Assim, a inserção da mulher no mercado de trabalho era contraditória, característica própria do capitalismo, que exigia a mão de obra feminina, mas não lhe dava suporte. 15 Figura 5 – Prédio da Creche Condessa Marina Crespi, dos anos 1930, do Cotonifício Rodolfo Crespi, na Mooca, em São Paulo Fonte: Correia, 2008 #ParaTodosVerem: a imagem mostra em preto e branco, o registro do “Prédio da Creche Condessa Marina Crespi”, construído nos anos 1930, pertencente ao Cotonifício Rodolfo Crespi, localizado na região da Mooca, em São Paulo. A fotografia exibe a arquitetura característica da época, com detalhes que refletem a influência do período art déco ou elementos arquitetônicos tradicionais da década de 1930. O prédio da creche é apresentado como um marco histórico, sendo parte do patrimônio industrial e social da região. Fim da descrição. Uma Política Pública Assistencialista As reivindicações operárias, dirigidas inicialmente aos donos de indústrias, foram com o tempo canalizadas para o Estado e serviram como pressão para a criação de creches, escolas maternais e parques infantis pelos órgãos governamentais. Contudo, tais instituições não eram reconhecidas como um dever social, mas, sim, como um favor prestado ou um ato de caridade de certas pessoas ou grupos. Um longo caminho ainda estava por ser percorrido. 16 As Décadas de 1920 e 1930: O Foco na Saúde e a Renovação Educacional No Brasil, nas décadas de 1920 e 1930, alguns centros urbanos que se industrializa- vam não dispunham de infraestrutura como saneamento básico, moradias etc. Esse fato aumentava o perigo de constantes epidemias, exigindo soluções para esse e outros problemas. A creche seria um dos paliativos defendidos por médicos preo- cupados com as condições de vida da população operária, a qual, em geral, morava em ambientes insalubres. Dessa forma, algumas propostas sanitáriasforam apresentadas, como a discussão, no Primeiro Congresso Brasileiro de Proteção à Infância, ocorrido em 1922, no Rio de Janeiro, de temas como a educação moral e higiênica e o aprimoramento da raça, com ênfase no papel da mulher como cuidadora. Paralelamente a esse movimento, em 1923, foi aprovada a primeira regulamenta- ção sobre o trabalho da mulher, a qual previa que estabelecimentos comerciais e industriais facilitassem a amamentação durante a jornada de trabalho das em- pregadas e que fossem instaladas creches e salas de amamentação próximas do ambiente de trabalho. Ao lado da preocupação sanitarista em relação às creches, ocorriam no país muitos debates para a transformação radical das escolas. E com eles era trazida a questão educacional para o centro das discussões políticas nacio- nais, tal como ocorria com o Movimento da Escola Nova, em 1932. Nesse período de renovação do pensamento educacional, entre outros pontos, discutia-se a Educação pré-escolar, apresentada como a base do sistema escolar. Alguns educadores brasileiros de vanguarda, como Mário de Andrade, em São Paulo, propunham a disseminação de praças de jogos nas cidades, à semelhança dos jar- dins de infância de Froebel, assim como ocorria em vários locais da América Latina, como Havana, Buenos Aires, Montevidéu e Santiago. Tais praças deram origem aos parques infantis criados em várias cidades brasileiras. 17 Nota-se o dualismo, a divisão de princípios com que a questão educacional era tra- tada no país: o debate sobre a renovação pedagógica se dirigiu mais aos jardins de infância – nos quais estudavam preferencialmente as crianças socialmente privile- giadas – do que aos parques infantis – em que as crianças de classes populares eram submetidas a propostas de trabalho educacional que pouco tinham em comum com as ideias dos adeptos do escolanovismo. As Décadas de 1940 e 1950 Em nosso país, a década de 1940, foi marcada por iniciativas governamentais nas áreas de saúde, previdência e assistência. Figura 6 – Jardim de infância Fonte: Freepik O governo Vargas (1930-1945), ao mesmo tempo em que resguardava os interes- ses dos patrões, reconhecia alguns direitos políticos dos trabalhadores por meio de legislações específicas, como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), de 1943. Nela, foram apresentadas algumas propostas sobre o atendimento dos filhos das trabalhadoras, porém apenas com o objetivo de facilitar a amamentação durante a jornada de trabalho. 18 As creches eram vistas como um “mal necessário” e planejadas por entidades filan- trópicas, como instituição de saúde com rotinas de triagem, lactário, pessoal auxiliar de enfermagem, cuja preocupação centrava em apresentar um ambiente físico hi- giênico, a fim de promover o aleitamento materno e combater a mortalidade infan- til. Em sua maioria, essas entidades passaram a receber ajuda governamental para desenvolver seu trabalho, além de donativos das famílias mais ricas. Assim, o trabalho com as crianças nas creches tinha caráter assistencial-custodial, voltado para alimentar, cuidar da higiene e da segurança física delas. A Educação e o desenvolvimento intelectual das crianças eram pouco valorizados. Importante A cultura da época mostrava um pensamento geral de que a mãe continuava sendo a dona do lar e deveria estar limitada ao am- biente doméstico. O atendimento fora da família aos filhos que ainda não frequentassem o ensino primário era vinculado a pre- ocupações médicas, e não a metas de desenvolvimento pessoal. Leitura O período conhecido como Estado Novo teve características muito particulares so- bre a educação. Para entender melhor esse cenário, leia o artigo A criança no Estado Novo: uma leitura na longa duração, de André Ricardo Pereira. http://google.com.br https://bit.ly/3gMqe5I 19 A Década de 1960: A Educação das Crianças em Idade Pré-Escolar no Sistema de Ensino Durante a segunda metade do século XX, o desenvolvimento da industrialização e da urbanização no país, levou a um novo aumento do ingresso da mulher no merca- do de trabalho. Com isso, não só operárias e empregadas domésticas, mas, igual- mente, trabalhadoras do comércio e funcionárias públicas cada vez mais passaram a procurar creches e parques infantis que atendessem crianças em período integral. Porém, a grande maioria dessas instituições não aprofundava a questão de como garantir a organização de um ambiente estimulante para o desenvolvimento das crianças então atendidas. O dinamismo do contexto sociopolítico-econômico do início da década de 1960, trouxe uma mudança importante para a área: a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n.º 4.024, de 20 de dezembro de 1961) incluiu as escolas maternais e os jardins de infância no sistema de ensino. Art. 23. A Educação pré-primária destina-se aos menores até 7 anos, e será ministrada em escolas maternais ou jardins de infância. Art. 24. As empresas que tenham a seu serviço mães de menores de sete anos serão estimuladas a organizar e manter, por iniciativa própria ou em cooperação com os poderes públicos, instituições de Educação pré-primária. Fonte: Brasil, 1961, n.p. Imperavam, todavia, soluções paliativas. No período dos governos militares, que se instalaram no país a partir de 1964 até o início de 1985, as políticas adotadas em nível federal – por meio de órgãos como a Legião Brasileira de Assistência e a Funabem – continuaram a acentuar a ideia de creche, e mesmo de pré-escola, como equipa- mentos sociais de assistência à criança carente. A política de ajuda governamental às entidades filantrópicas ou assistenciais conti- nuou a prevalecer. Foram estimuladas iniciativas comunitárias mediante a organiza- ção de programas emergenciais de massa, de baixo custo. Eles eram desenvolvidos por pessoal leigo, voluntário e por mães que cuidavam de turmas de mais de 100 crianças em idade pré-escolar. 20 Muitas entidades de atendimento à criança passaram a esboçar uma orientação mais técnica para seu trabalho, dando ênfase a um trabalho de cunho “educativo sistematizado” ou escolar nos parques infantis e nas escolas maternais. A ideia de compensar carências orgânicas se ampliou para a de suprir faltas culturais como garantia de diminuição do fracasso escolar no ensino primário. Figura 7 – Crianças desenhando Fonte: Freepik Por outro lado, as mudanças na Consolidação das Leis de Trabalho (CLT), ocorridas em 1967, determinaram que as empresas deveriam organizar berçários para o aten- dimento aos filhos das trabalhadoras. Isso abriu espaço para que outras entidades, que não a própria organização empregadora da mãe, realizassem a tarefa por inter- médio de convênios. Contudo, o poder público não cumpriu o papel de fiscal da oferta de berçários. Assim, as empresas não instituíram creches e berçários suficientes, prejudicando o ingres- so de mulheres, em especial, as de baixa renda, no mercado produtivo, ou mantendo alternativas improvisadas de atendimento aos filhos das mães trabalhadoras. 21 A Década de 1970: Educação Compensatória, Aumento de Demanda e Redemocratização Nesse período, muitos fatores contribuíram para que a creche e a pré-escola fossem novamente defendidas por diversos segmentos sociais. Entre eles, a redução de es- paços urbanos lúdicos, como os quintais e as ruas, a preocupação com a segurança e, fundamentalmente, o crescimento do operariado, os movimentos dos trabalha- dores do campo por melhores condições de trabalho, bem como a crescente incor- poração de mulheres da classe média pelo mercado de trabalho. A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, formulada em 1971, Lei n.° 5.692, de 11 de agosto de 1971, trouxe novos elementos para a área do ensino ao declarar: “Os sistemas velarão para que as crianças de idade infe- rior a 7 anos recebam Educação em escolas maternais, jardins de infância ou instituições equivalentes” (Brasil, 1971, artigo 19, §2º, n.p.). Alguns estudos realizados nos EstadosUnidos e na Europa trouxeram novas con- cepções pedagógicas as quais sustentavam que as crianças das camadas sociais pobres sofriam de “privação cultural” e, assim, justificavam seu fracasso escolar. A partir disso, no Brasil, passaram a ser realizados debates vigorosos em defesa do atendimento pré-escolar público, o qual, em virtude de receber uma clientela pobre, poderia remediar as carências dessas crianças. Uma vez que fossem atendidas em creches, parques infantis e pré-escolas, conseguiriam superar as condições des- privilegiadas em que viviam, ainda que não fossem alteradas as estruturas e razões sociais as quais geravam esses problemas. Leitura A Lei de Diretrizes e Bases é um dos mais im- portantes textos legais sobre a educação no contexto do país. Para entender melhor esse tema, leia a legislação completa, aprovada em 20 de dezembro de 1961. http://google.com.br https://bit.ly/3eLgMxB 22 Sob o nome de educação compensatória, foram elaboradas propostas de trabalho para a população de baixa renda em creches e pré-escolas, que inseriram estimulação pre- coce e preparo para a alfabetização. No entanto, mantinham-se as práticas educativas criadas por uma visão assistencialista da educação em geral, e do ensino em particular. Por outro lado, cada vez mais, um número maior de mulheres das camadas médias da população entravam no mercado de trabalho, levando a um crescimento sig- nificativo de creches e pré-escolas, principalmente as de redes particulares. Essas instituições respondiam ao desejo dessas mães, visto que que ofereciam aprimora- mento intelectual a seus filhos e as liberavam para o mercado de trabalho. Nelas, era mantido um padrão educativo voltado para os aspectos cognitivos, emocionais e sociais da criança pequena, com destaque à criatividade e à sociabilidade. Você pode observar que tais fatores trouxeram alterações na forma como a Educação pré-escolar e o atendimento em creches eram efetivados. A consequência foi um au- mento de creches, de classes pré-primárias e de jardins de infância no país, bem como foram sendo modificadas certas representações sobre Educação Infantil. Também foi valorizado o atendimento fora da família a crianças de idade cada vez menor. Figura 8 – Crianças felizes na escola primária Fonte: Freepik Leitura Você sabe o que é educação compensató- ria? Entenda melhor no texto disponível no Brasil Escola. http://google.com.br https://bit.ly/36Yu3Ar 23 Em parques que atendiam filhos de operários e em creches que cuidavam das crian- ças de famílias de baixa renda, permaneciam discursos compensatórios ou assisten- cialistas. Já nos jardins de infância, nos quais eram educadas as crianças de classe média, eram adotadas propostas de desenvolvimento afetivo e cognitivo. A supera- ção dessa desigualdade de acesso aos benefícios da educação da criança pequena continuava uma tarefa difícil. Na segunda metade da década de 1970, a luta de movimentos operários e fe- ministas pela redemocratização do país e pelo combate às desigualdades so- ciais levou o regime militar a adotar medidas para ampliar o acesso da população pobre à escola (pré, 1º e 2º graus) e sua permanência nela, a fim de garantir os aprendizados básicos. Enquanto isso, nos grandes centros urbanos, a reivindi- cação por creches e pré-escolas por parte de amplas parcelas da população de mães, que precisavam trabalhar fora do lar pela subsistência da família, intensifi- cou-se e adquiriu novos sentidos. Tais movimentos substituíram a histórica postura de aceitação do paternalismo es- tatal ou empresarial por uma visão da creche e da pré-escola como um direito do trabalhador e um dever do Estado. Isso criou novas formas de pressão sobre o poder público, que, naqueles centros, ampliou o número de creches por ele diretamente mantidas e geridas e o número de convênios de atendimento feitos com entidades sem fins lucrativos. Figura 9 – Movimento feminista da década de 1970 Fonte: Wikimedia Commons #ParaTodosVerem: a imagem mostra em preto e branco, uma cena do “Movimento Feminista da Década de 1970”. A fotografia retrata uma manifestação, na qual um grupo de mulheres está reunido, carregando faixas, cartazes e bandeiras. Os cartazes exibem mensagens que podem abordar questões, como direitos das mulhe- res, igualdade salarial, autonomia e liberdade. A imagem captura um momento histórico de mobilização feminis- ta durante os anos 1970, quando o movimento ganhou força e visibilidade em todo o mundo. Fim da descrição. 24 Apesar da resistência dos setores envolvidos em efetivar novas práticas educativas, em socializar as vantagens observadas em certas formas de trabalho pedagógico – já que essas mudanças acarretavam investimentos financeiros e, principalmente, de formação de pessoal – cresceu o número de crianças pequenas atendidas em creches e pré-escolas. A Década de 1980: Discurso Pedagógico e a Expansão do Atendimento Na década de 1980, o aumento da procura por pré-escola por parte da população continuou a se intensificar, pressionando os órgãos governamentais. Com o término do período dos governos militares em 1985, novas políticas de Educação passaram a admitir a ideia de que as creches não diziam respeito apenas à mulher ou à família, mas também ao Estado e às empresas. Diversos discursos políticos apresentavam a Educação pré-escolar como instru- mento de preparo para a escolarização obrigatória, por influência de concepções expressas pelas camadas médias da população. E cada vez mais, as camadas de baixa renda apoiavam essa ideia. Esses fatores sociais, aliados a discussões de pesquisadores em Psicologia e Educação sobre a importância dos primeiros anos de vida no desenvolvimento da criança, pro- vocaram algumas mudanças no trabalho então proposto pelos discursos oficiais. Com isso, eram valorizadas atividades pedagógicas mais sistematizadas, embora a preocupação com medidas de combate à desnutrição continuasse a existir. O mesmo aconteceu no segmento científico e docente de modo geral. Os educadores se envolveram em discussões e questionamentos políticos so- bre o atendimento às crianças, pois acreditavam que o trabalho realizado em creches e pré-escolas poderia efetivamente contribuir para promover a luta contra desigualdades sociais. As negociações ocorridas no período que antecedeu a elaboração da Constituição de 1988, intensificaram a discussão do atendimento ao filho do trabalhador. Isso resultou em aumento das creches mantidas por empresas industriais, comerciais e 25 A partir de iniciativas da própria população, houve também aumento de creches co- munitárias, que recebiam verbas públicas para atendimento de crianças de famílias de baixa renda. Às vezes, eram instituições desvinculadas do apoio governamental e geridas pelos próprios usuários, em geral população de classe média. Algumas dessas experiências conseguiram concretizar um trabalho pedagógico consistente e direcionado ao resgate da cultura popular das comunidades. Redemocratização e Crescimento Nesse mesmo período, na década de 1980, os parques infantis e outras modalida- des de instituições educativas públicas foram abandonando a educação informal das crianças em idade de escolarização regular básica. Abriam suas vagas apenas para o atendimento daquelas em idade pré-escolar. Expandiram-se as escolas mu- nicipais de Educação Infantil, que abrangiam o trabalho anteriormente feito em par- ques infantis e jardins de infância, e também as classes pré-primárias em escolas de Ensino Fundamental. No início da década de 1980, muitos questionamentos eram feitos pelos técnicos e docentes em relação aos programas de cunho compensatório e à abordagem por órgãos públicos para os filhos de seus funcionários. Além disso, algumas organi- zações começaram a conceder ajuda de custo às funcionárias com filhos pequenos, a fim de pagarem creches particulares de sua livre escolha. Ainda assim, havia insuficiência de vagas em creches. Ante isso, o poder públicoestimulou outras iniciativas de atendimento à criança pequena. Foram implemen- tados programas assistenciais de baixo custo, estruturados com auxílio de recursos comunitários, tal como ocorria em muitos países do chamado Terceiro Mundo. Eles eram feitos por “mães-crecheiras” ou “lares vicinais”, “creches domiciliares” ou “cre- ches lares”. Essas formas de atendimento, às quais já eram muito utilizadas pela comunidade carente, constituíam alternativas emergenciais e inadequadas, devido à precariedade com que geralmente eram realizadas. Vídeo Aprovado projeto que regulamenta as “mães crecheiras” em Brasília. http://http://google.com.br https://youtu.be/7chN3wTS518 26 da privação cultural nas pré-escolas. Tais programas definiam as crianças por suas carências ou dificuldades em relação ao padrão das camadas médias exigi- do nas escolas. Elas eram consideradas por terem vocabulário diferente, dificuldade de comunica- ção, relacionamento, controle, orientação espacial, discriminação visual e auditiva, má condição física, autoimagem negativa, desatenção, apatia e irritabilidade. Figura 10 – Sala de aula Fonte: Freepik Para superar os problemas apontados, as propostas compensatórias defendiam uma detalhada programação de atividades. Contudo, acumulavam-se evidências de que as crianças das classes populares não estavam sendo efetivamente beneficiadas por esses programas. As pré-escolas continuaram limitadas a práticas recreativas e assistenciais em virtude da falta de oportunidades reais para seus professores ab- sorverem as programações propostas. A discussão das funções da creche e da pré-escola foi retomada e novas programações pedagógicas foram elaboradas. Eram as que buscavam romper com concepções de creche e de pré-escola como instituições meramente assistencialistas e/ou compensatórias, propondo uma função pedagógi- ca na qual enfatizava o desenvolvimento linguístico e cognitivo das crianças. Instituições meramente assistencialistas e/ ou compensatórias. 27 No período de redemocratização do país, após o período militar, pressões de mo- vimentos feministas e de movimentos sociais de lutas por creches possibilitaram a conquista, na Constituição de 1988, do reconhecimento da Educação em creches e pré-escolas como um direito da criança e um dever do Estado a ser cumprido nos sistemas de ensino. Art. 208. O dever do Estado com a Educação será efetivado mediante a garantia de: IV – atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade. [...] Fonte: Brasil, 1988, n.p. Também a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990, con- cretizou conquistas em relação aos direitos das crianças declarados na Constituição. Art. 53. A criança e o adolescente têm o direito à Educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cida- dania e qualificação para o trabalho. Art. 54. É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente: [...] IV – atendimento em creche e pré-escola às crianças de O (zero) a 6 (seis) anos de idade. [...] Fonte: Brasil, 1990, n.p. Na área de Educação Infantil, houve expansão do número de pré-escolas e, em me- nor escala, de creches, e alguma melhoria no nível de formação de seus docentes, muitas vezes, já incluídos em quadros de magistério. O debate em torno de uma lei que desse nova orientação à Educação Nacional na Câmara de Deputados e no Senado Federal impulsionou diversos setores educa- cionais na defesa de um novo modelo de Educação Infantil. Foram particularmente estimuladas Universidades e instituições de pesquisa, sindicatos de educadores e organizações não governamentais. Esse contexto, portanto, preparou um ambiente para a aprovação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n.° 9.394, de 20 de dezembro de 1996), a qual designou a Educação Infantil como etapa inicial da Educação Básica. 28 Pela leitura realizada, você conseguiu perceber e analisar como era oferecida a edu- cação aos pequenos no Brasil, cujo objetivo inicial era proteger e assistir. Ainda, conheceu o movimento de inserção das mulheres no mercado de trabalho, o qual solicitava locais para deixarem seus filhos, e que foram muito combatidas pelos em- presários. Passamos a partir da década de 1920, por políticas assistencialistas, que focalizavam na saúde das crianças, sua inserção no sistema de ensino com uma educação compensatória, chegando à democratização do país, com um aumento da procura de vagas para as crianças das mulheres trabalhadoras. O discurso pe- dagógico para essa faixa etária é intensificado, porém a expansão de atendimento ainda é insuficiente para a procura. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei n.º 9.394/96) foi muito importante para a educação infantil, fazendo com que os profissionais envolvidos com esse nível de ensino reivindicassem mais verbas e programas de formação pro- fissional para os professores da Educação Infantil. Mesmo com todo envolvimento e comprometimento, ainda há muito a se realizar na superação de políticas assistencialistas e em uma transformação de práticas didáti- cas em creches e pré-escolas. É necessário trilhar coletivamente uma nova trajetória a fim de aperfeiçoá-las por meio da formação continuada. Com essas reflexões, você chegou aos nossos dias, ao trabalho realizado hoje na educação infantil, enxergando nossa realidade com conhecimento dos caminhos tri- lhados para chegarmos até aqui. Assim, você poderá entender um pouco mais sobre os fundamentos metodológicos da educação infantil. Em Síntese 29 1 – Qual foi um dos principais marcos na trajetória histórica da educação infantil ao longo do tempo? a. A educação infantil sempre foi uma prioridade em todos os períodos da história. b. A criação das creches e pré-escolas no século XIX, como resposta às necessida- des das mães trabalhadoras. c. A ausência de qualquer forma de educação infantil antes do século XX. d. A inexistência de políticas públicas voltadas para a educação infantil em qualquer período da história. e. A exclusão das crianças pequenas da educação formal em todas as épocas. 2 – Durante o governo Vargas (1930-1945), foi promulgada a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT, 1943), por meio do Decreto-Lei n.º 5452, de 1º de maio de 1943, com garantias relativas ao trabalho feminino e ao atendimento aos filhos de operárias. Dentre as alternativas apresentadas a seguir, qual apresenta a afirmati- va VERDADEIRA com relação a esses direitos: a. Ampliação da licença maternidade de dois para seis meses. b. Equiparar o salário de homens e mulheres que exercessem a mesma função. c. Fornecimento de material didático gratuito a todas as mães operárias com filhos matriculados em escolas primárias. d. Tempo de amamentação para mães em período de lactação e creches para os filhos das operárias. e. Carga horária de trabalho reduzida para operárias mães de crianças até 6 anos de idade. Atividades de Fixação Atenção, estudante! Veja o gabarito desta atividade de fixação no fim deste conteúdo. 30 O Desaparecimento da Infância POSTMAN, N. O Desaparecimento da Infância. Tradução: Suzana Menescal de A. Carvalho e José Laurenio de Melo. Rio de Janeiro: Grafhia Editorial, 1999. Livro A Invenção da Infância, documentário de 2000 https://bit.ly/3dA1vQ4 Vídeo O Conceito de Infância no Decorrer da História https://bit.ly/36Wj3U5 Leitura Material Complementar 31 Referências BASSEDAS, E. Aprender e Ensinar na Educação Infantil. Porto Alegre: Artmed, 1999. BRASIL. Senado Federal. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: nº 4024/61. Brasília: 1961. BRASIL. Lei n.º 5.692, de 11 de agosto de 1971. Fixa Diretrizes e Bases para o ensino de 1º e 2º graus, e dá outras providências. MEC. Ensino de 1º e 2º grau, e dá outras providências. Disponível em: . Acesso em: 05/10/2023. BRASIL. Lein.º 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em: . Acesso em: 05/10/2023. BRASIL. Lei nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961. Fixa as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: . Acesso em: 05/10/2023. BRASIL. Lei n.º 11.274, DE 6 DE FEVEREIRO DE 2006. Altera a redação dos arts. 29, 30, 32 e 87 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, dispondo sobre a duração de 9 (nove) anos para o ensino fundamental, com matrícula obrigatória a partir dos 6 (seis) anos de idade. Disponível em: . Acesso em: 05/10/2023. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 2000. (Coleção Saraiva de Legislação). BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente: promulgado em 13 de julho de 1990. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 1999. (Coleção Saraiva de Legislação). CORREIA, T. Art déco e indústria: Brasil, décadas de 1930 e 1940. Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 16(2), 47-104. 2008. FREIRE, M. 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Justificativa: o pensamento vigente nessa época era de que a mulher ainda deveria, primariamente, ser dona do lar e limitada a sua função maternal, ou seja, qualquer função ou atividade exercida por ela seria apenas um derivativo de sua função ma- ternal e do lar. Dessa forma, a legislação trabalhista apenas abrangeu esse caráter, o de abrandar os desdobramentos negativos sobre esse “sacrifício” inerente ao fe- minino, de sair do lar e da maternidade para o trabalho. Portanto, ficando restrito somente à amamentação e criação de seus filhos durante seu período de trabalho. Gabarito Introdução Criação/Objetivos A Educação dos Pequenos no Brasil Republicano: Proteger e Assistir Mudanças no Trabalho Feminino Os Movimentos Operários A Reação dos Empresários Uma Política Pública Assistencialista As Décadas de 1920 e 1930: O Foco na Saúde e a Renovação Educacional As Décadas de 1940 e 1950 A Década de 1960: A Educação das Crianças em Idade Pré-Escolar no Sistema de Ensino A Década de 1970: Educação Compensatória, Aumento de Demanda e Redemocratização A Década de 1980: Discurso Pedagógico e a Expansão do Atendimento Redemocratização e Crescimento